Numa mão a pena noutra a espada
Canto V
Estância 96
Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas, numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
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Estâncias 95 e 96
. Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e
Augusto, mas…
. Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est.
95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a
quem falta cultura e dons artísticos.
. Exemplos de heróis cultos:
1. Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia
belos versos, tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um
poema, depois de Marco António a ter abandonado por Glafira.
2. César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo
erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em
simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as
armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a
ciência; / Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.
3. A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à
escrita de comédias.
4. Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero
que o considerava seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à
cabeceira”.
. Ideal de herói
O ideal de herói sugerido por Camões nestas estâncias é aquele que
alia as armas às letras, a fim de vencer ou igualar as façanhas dos seus
antepassados.
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Os Lusíadas”, de Luís de Camões Canto V Narração da viagem, desde Lisboa
a Melinde. Episódio do gigante Adamastor e conclusão da narração da viagem
até Melinde. O poeta põe em destaque a importância das letras e lamenta o
facto de os portugueses nem sempre lhes darem valor: “Porque quem não
sabe arte não na estima.”, aliando a força e a coragem ao saber e à
eloquência. (V, 92-100)
Camões faz referência à sua passagem pela guerra e argumenta que,já canta,
há muito tempo os feitos dos portugueses.
Sempre esteve sujeito a trabalho e sofrimentos: ingratidões, perigos no mar e
na guerra, errância pelo Mundo, pobreza no oriente, esperança, desilusões…
A pena significa escreita e a espada significa guerra.
A presença do perigo é constante • no mar • na guerra • pobreza • naufrágios
«Nũa mão sempre a espada e noutra a pena» (v. 8) Poeta como exemplo do
seu próprio modelo de heroísmo Poeta como vítima da Fortuna Perigos de
variada natureza Estâncias 79 e 80 Repetição do advérbio «Agora»
Enumeração das contrariedades, dos obstáculos e dos perigos por que tem
passado
Os Lusíadas”, de Luís de Camões Canto VII Chegada à Índia. Visita de Vasco
da Gama ao Samorim. Visita do Catual às naus. O poeta lamenta-se pelo
desprezo dos portugueses que, em vez de lhe darem a recompensa, dão-lhe
trabalhos. Refere-se com amargura à ingratidão de que foi alvo. Considera,
ainda, ser este um mau exemplo para os escritores vindouros. (VII, 78-87)
Diz-se que, nos remotos anos salazaristas, não se podia dizer em Coimbra que
Camões era um poeta maneirista, porque isso daria a entender que ele era
amaneirado, o que por sua vez corria o risco de resvalar também para «outra
coisa». Quando Vítor Manuel Aguiar e Silva apresentou aqui a sua tese sobre
Maneirismo literário na literatura portuguesa (isto antes do 25 de Abril), o
catedrático de Literatura Portuguesa avisou-o de que, em relação a Camões,
não poderia contar com o seu apoio. Para o antigo catedrático do tempo do
salazarismo, Camões definitivamente não era maneirista. Era o cantor da gesta
portuguesa, da glória dos Descobrimentos. Ponto final.
No entanto, Camões está longe de ser aquilo que os Ministros da Educação de
Salazar quiseram ver nele. A poesia de Camões está cheia de situações que,
se virmos o que elas são por baixo da superfície, nos deixam de boca aberta
perante o facto de a Inquisição ter autorizado a publicação d' Os Lusíadas.
Hoje fala-se em tons acesos sobre se um homem se pode sentir uma mulher
ou se uma mulher se pode sentir um homem. Camões estava muito à frente de
tudo isso.
Todos conhecemos o famoso verso do Canto VII d' Os Lusíadas: «numa mão
sempre a espada e noutra a pena», com que Camões se descreve a si
próprio.
A maior parte da pessoas pensa: ah, pois! O grande herói da Índia, dos
Descobrimentos, do Império! A espada e a pena, as armas e as letras!
Só que não é nada disso. A espada de que fala Camões é outra espada. É a
espada dada por um pai à filha para ela se suicidar. Porquê? Porque ela
engravidou do próprio irmão.
Leiamos a citação toda: «Qual Cânace que à morte de condena, / Numa
mão sempre a espada e noutra a pena».
Tudo está em percebermos quem é esta Cânace, a quem Camões se compara.
Ora Cânace é uma figura das «Heróides» do poeta romano Ovídio, muito lido e
imitado por Camões em toda a sua obra. Os versos de Camões são uma
recriação dos seguintes versos de Ovídio: «na mão direita segura o cálamo; na
outra segura a espada impiedosa» (Heróides 11,3).
Com estas palavras, pois, Camões está a colocar-se na pele de:
1) uma mulher;
2) apanhada numa situação tão extrema da sua vida;
3) grávida do próprio irmão;
4) que acaba de receber do pai a espada para se suicidar.
Mas a questão complica-se ainda mais. Temos de ver agora que os versos do
Canto VII d' Os Lusíadas retomam, por sua vez, os seguintes versos do Canto
V: «numa mão a pena e noutra a lança».
Quem é aqui o alter-ego de Camões? Júlio César. Basta ir ver a estância 96 do
Canto V. E não é difícil percebermos que Camões tem gosto em se identificar
com a figura de Júlio César, pois também César era um autor de quem se dizia
que salvara os seus escritos a nado.
No entanto, este mesmo Júlio César também era referido nas biografias
antigas romanas, conhecidas na época de Camões, como homem de todas as
mulheres e mulher de todos os homens.
Juntemos a isto o Canto III d' Os Lusíadas, em que Camões se compara a
Orfeu, por sua vez explicitamente referido no Canto X das «Metamorfoses» de
Ovídio como autor (em latim «auctor») de amores homossexuais.
Dizem que, nas sociedades repressivas como era o Portugal de Camões
dominado pela Inquisição, quanto mais inteligentes os textos menos os
censores os vão entender. Felizmente, o poema de Camões é tão inteligente
que, em 2017, ainda estamos a tentar entendê-lo.
Canto V (est. 92 – 100)
Acontecimento motivador das reflexões – final da narração de Vasco da Gama
(História de Portugal e a Viagem de Belém a Melinde) e elogio do Rei de
Melinde à bravura, à lealdade e à nobreza dos portugueses.
Reflexões do poeta
Ao longo destas estâncias, Camões apresenta uma invectiva contra os
portugueses seus contemporâneos que desprezavam a poesia. O poeta
começa por mostrar como o canto, o louvor, incita à realização dos feitos; dá
em seguida exemplos do apreço dos Antigos pelos seus poetas, bem como da
importância dada ao conhecimento e à cultura, que levava a que as armas não
fossem incompatíveis com o saber.
Não é, infelizmente, o que se passa com os portugueses: não se pode amar o
que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável
pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos. Apesar disso,
o poeta, movido pelo amor da pátria, reitera o seu propósito de continuar a
engrandecer, com os seus versos, as “grandes obras” realizadas. Manifesta,
desta forma, a vertente pedagógica da sua epopeia, na defesa da realização
plena do Homem, em todas as suas capacidades.
REFLEXÕES DO POETA
O poeta apresenta-se, nas suas reflexões, como guerreiro e poeta, um
verdadeiro homem do Renascimento, a quem não "falta na vida honesto
estudo; com longa experiência misturado" (C. X, 154). Um poeta que, ainda
que perseguido pela sorte e desprezado pelos seus contemporâneos, assume
o papel humanista de intervir, de forma pedagógica, na vida contemporânea.
Por isso:
critica a ignorância e o desprezo pela cultura revelados pelos homens de armas
portugueses (C. V);
Imperador romano Júlio César
Imperador Alexandre Magnum
Canto V (est. 92-100)
Crítica à falta de cultura e de apreço pelos poetas que os portugueses revelam.
Acontecimento motivador das reflexões– final da narração de Vasco da Gama
(História de Portugal e a Viagem de Belém a Melinde) e elogio do Rei de
Melinde à bravura, à lealdade e à nobreza dos portugueses. Elogia os feitos
dos portugueses dos quais sente orgulho e sobrevaloriza-os em relação a
feitos grandiosos de outros povos.
Censura, critica e lamenta o desprezo a que as artes e nomeadamente a
poesia são sujeitos.
O poeta começa por mostrar como o canto e o louvor incitam à realização dos
feitos heróicos; dá em seguida exemplos do apreço que os antigos heróis
gregos e romanos tinham pelos seus poetas e da importância que davam ao
conhecimento e à cultura, conciliando as armas com o saber. Não é,
infelizmente, o que se passa com os portugueses, que não dão valor aos seus
poetas, porque não têm cultura para os conhecer. Ora, não se pode amar o
que não se conhece, e a falta de cultura dos heróis nacionais é responsável
pela indiferença que manifestam pela divulgação dos seus feitos, e, se não
tiverem poetas que os cantem, serão esquecidos. Apesar disso, o poeta,
movido pelo amor da Pátria, reitera o seu propósito de continuar a
engrandecer, com os seus versos, as "grandes obras" realizadas.Manifesta,
desta forma, a vertente crítica e pedagógica da sua epopeia, na defesa da
realização plena do Homem, em todas as suas capacidades.
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Estrofe 96
'Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas , numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.'
César era um grande militar mas era igualmente um grande escritor
caracterizado por trazer sempre numa mão a espada e na outra mão a pena
com que escrevia também cipião ficou conhecido como grande militar e grande
orador (fazia discursos na praça pública). Acrescenta ainda que o Imperador
Alexandro tinha como livro de cabeceira a Odisseia de homero.
Síntese:
Ao apresentar os exemplos anteriormente referidos Camões compara-os
consigo próprio para mostrar que os soldados portugueses consideram que
lhes basta serem bons militares para serem considerados heróis sem
necessidade de serem homens cultos.
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