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RiMa Editora

Proibida a reprodução total ou parcial.

Marques, Adilson

M357a A apometria e a TVI segundo a animagogia – um estudo sobre


práticas complementares de saúde e espiritualidade / Adilson
Marques. São Carlos: RiMa Editora, 2019

244 p.
ISBN 978-65-80035-19-9

1. Apometria. 2. TVI. 3. Animagogia. 4. Espiritualidade.


I. Autor. II. Título.

Editora

Rua Virgílio Pozzi, 213 – Jd Santa Paula


13564-040 – São Carlos, SP
Fone: (16) 98806-4652
SUMÁRIO

Apresentação ........................................................................................... 7

PARTE I
Tratamentos Complementares de Saúde e Espiritualidade

Capítulo 1 – A Necessidade das Ciências do Espírito ou do


Homo Spiritualis ............................................................................ 27
Capítulo 2 – O Ego É um Ótimo Servidor, mas um Péssimo Patrão ..... 34
Capítulo 3 – Animagogia e Espiritismo: Um Estudo Comparativo
No Âmbito das Ciências do Espírito .............................................. 48
Capítulo 4 – A Necessidade do Pedido de Auxílio e a
Apometria como Técnica Possível para a Animagogia
do Ser Humanizado Desencarnado ............................................... 93
Capítulo 5 – A TVI e Suas Técnicas Animagógicas .............................. 103

PARTE II
Estudos de Caso

Capítulo 6 – A Apometria como Heurística para o Estudo do


Suicídio e da Eutanásia ............................................................... 135
Capítulo 7 – Quando Começa e Termina uma Encarnação? ............... 144
Capítulo 8 – Sofrimento ou Felicidade: Qual o Caminho para o
Despertar do Homo Spiritualis .................................................... 149
Capítulo 9 – Dialongando com Suicidas e com
Vítimas da Eutanásia ................................................................... 158
Capítulo 10 – Descobrindo a Morte do Corpo Físico, a
Comunicação Mediúnica e o Valor da Prece .............................. 169
Capítulo 11 – Dialogando com os “Falsos Profetas” ......................... 175
Capítulo 12 – Alguns Desafios e a Busca por Autodomínio:
A Função Espelho na Prática ....................................................... 179
6 Adilson Marques

Considerações Finais .......................................................................... 185


Anexo 1 – Você Está Preparado para Morrrer? .................................. 198
Anexo 2 – Artigos Diversos .................................................................. 210
Anexo 3 – O Que É Animagogia? ......................................................... 228
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 7

APRESENTAÇÃO

Este livro sintetiza 20 anos de experiência iniciada em 1999 no


campo das práticas complementares de saúde e que resultaram
na sistematização da Animagogia, uma proposta de educação
espiritualista transreligiosa e universalista, da Terapia Vibracional
Integrativa (TVI), praticada e ensinada gratuitamente desde 2003,
e uma diferente maneira de atuar com a Apometria, técnica de
tratamento psíquico e espiritual criada pelo dr. José Lacerda, no
estado do Rio Grande do Sul, em meados da década de 1950.
A Animagogia possui uma abordagem metafísica ou uma cos-
movisão reencarnacionista, e parte do pressuposto que somos
Espíritos eternos vivenciando uma existência humanizada. E,
assim, ela se soma ao Espiritismo, ao Hinduísmo, ao Ocultismo,
entre outros enfoques que procuram demonstrar que a reencar-
nação é um fato e que faz parte das Leis numinosas (divinas) ou
naturais que regem a vida na Terra.
Nesse sentido, ela se afasta das abordagens materialistas que,
por convicção, não podem conceber a existência de um princípio
não material no ser humano, e também das correntes religiosas
ou espiritualistas que não aceitam a lei da reencarnação e a
comunicação com os seres desencarnados, utilizando passagens
bíblicas para legitimar suas convicções, entre elas, que os Espí-
ritos (mortos) não podem fazer nada de útil (como ajudar encar-
nados) ou prejudicá-los, recorrendo ao Salmo 145:4. Ou para afir-
mar que a alma morre junto com o corpo físico buscando argu-
mento em Ezequiel (18:4).
Por sua vez, no caso da comunicação com os desencarnados,
prática realizada por médiuns espiritistas ou de outras correntes
medianímicas, assim como por xamãs, oráculos e também por
animagogos, buscam em Isaías (8:19) argumentos para mostrar que
se trata do “demônio” se passando pelo “Espírito de um morto”,
apesar de, em casos excepcionais, aceitarem que Deus permitiria
o contato de um “vivo” com um “morto”, como supostamente
aconteceu com Samuel, segundo a Bíblia, quando este conversou
8 Adilson Marques

com o Espírito do rei Saul através de uma pitonisa, fato narrado no


livro Samuel 1, capítulo 28.
E a primeira tentativa de sistematização da Animagogia acon-
teceu em 2003, quando encaminhei para a Faculdade de Educação
da USP um projeto de pós-doutorado para estudar as práticas
sociais de educação espiritual com seres humanizados desen-
carnados, e praticadas em centros espíritas, de umbanda e/ou
universalistas. Tais práticas sociais eu identifiquei, na época, com
o nome de Animagogia. Porém, a resposta que recebi foi que o
tema não tinha relação nenhuma com educação e que, portanto,
a pesquisa não seria aprovada.
A partir dessa negativa, resolvi fazer a pesquisa de forma inde-
pendente. Não com a intenção de comprovar a existência da vida
após a morte ou a naturalidade com que se reveste a comunicação
com os seres humanizados desencarnados. Mas tentando com-
preender como ocorre esta prática social espiritualista, comum em
centros espíritas, em terreiros de umbanda e em outros espaços
espiritualistas, dentro do campo das “narrativas visionárias”, ex-
pressão cunhada por E. Kant, e de fundamental importância para
a compreensão das imagens e do imaginário do invisível.
Até aquele momento, o conceito de Animagogia que eu utili-
zava era bem restrito. Com esse neologismo, eu queria identificar
todos os processos de “educação após a morte”, sem nenhuma
preocupação em fazer proselitismo ou doutrinação, pois não se
tratava de uma pesquisa teológica ou religiosa ou que visava
legitimar uma doutrina. O objetivo era utilizar os recursos da
Observação Participante e da Pesquisa-ação para realizar um
estudo fenomenológico das práticas educativas que ocorrem em
espaços espiritualistas com o objetivo de “esclarecer” ou, como
dizem alguns, de “libertar do ego” os seres humanizados desen-
carnados que se manifestam, em tese, através de médiuns e em
busca de auxílio espiritual.
E naquele mesmo ano, em 2003, comecei a ensinar e a praticar
a Terapia Vibracional Integrativa (TVI) na ONG Círculo de São
Francisco, criada, inclusive, para essa finalidade. Esta terapia com-
plementar foi sistematizada entre os anos de 2001 e 2003, sema-
nalmente, através de reuniões mediúnicas que ocorriam no Centro
de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz, que depois se
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 9

transformou na ONG citada acima. A TVI é composta por várias


técnicas, como Chi Kung (que na época eu chamava de danças
numinosas), meditações guiadas com enfoque espiritualista, cha-
madas de “meditações integrativas” e diferentes técnicas de
imposição de mãos, sem a necessidade de símbolos esotéricos,
medalhões no peito ou outros recursos além da força mental, da
imaginação, da vontade e do amor.
Esse trabalho com a TVI resultou, em 2018, através de uma
parceria entre o Ministério da Saúde e o Projeto VEPOPSUS, da UFPB,
na publicação de minha pesquisa de pós-doutorado realizada na
UFSCar, na qual faço um estudo apresentando a história da ONG e
da meditação integrativa como uma prática social educativa. O livro
foi denominado: “A prática da meditação integrativa na terceira
idade - um estudo de educação popular em saúde e espiritualidade”.
No caso particular da Apometria, eu comecei a estudá-la em
2004. A ONG Círculo de São Francisco, por sua vez, inseriu em 2007
essa técnica de tratamento espiritual, criada pelo médico espiritista
José Lacerda, em seu trabalho terapêutico.
Voltando à Animagogia, foi por volta de 2009 que seu conceito
foi ampliado. Ela deixou de ser um nome para identificar os tra-
balhos de auxilio espiritual para os desencarnados e se trans-
formou em uma concepção teórica, filosófica e metafísica que
passou a orientar todos os trabalhos realizados na ONG Círculo de
São Francisco, inclusive os de Apometria.
De forma resumida, a Animagogia pressupõe que somos Seres
multidimensionais. Em outras palavras, Espíritos eternos viven-
ciando uma nova experiência humanizada. E essa essência espi-
ritual vibra em uma dimensão que foi chamada de Logosfera. Para
a Animagogia, o Espírito não é humano, mas se humaniza. E não
temos condições de saber detalhes sobre o Espírito, apenas que
ele foi criado à imagem e semelhança de Deus e que possui alguns
atributos: o amor universal, a felicidade incondicional, a paz in-
terior, a vontade etc.
E a humanização do Espírito ocorre em uma dimensão inserida
na primeira, chamada de Noosfera. Seria a esfera da alma. Para esse
processo acontecer, haveria uma redução na vibração do Espírito e
sua consciência passaria a ficar velada ou com elementos incons-
cientes.
10 Adilson Marques

A alma, nesse contexto, seria humana. E seria na alma que nós


encontraríamos os chamados arquétipos, os padrões universais
que estão além do tempo e do espaço, ou seja, que são universais.
É nela também que residem as estruturas do imaginário, no sentido
estudado por Gilbert Durand.
A alma, portanto, caracteriza-se, segundo a Animagogia, por ser
universal, ou seja, ela não é masculina ou feminina, nem é preta, branca,
amarela ou de outra cor. Ela não tem raça ou etnia. Aliás, a alma, apesar
de ser humana, não é nem da Terra, uma vez que as encarnações podem
acontecer aqui ou em outros planetas. Dependerá sempre das pro-
vações escolhidas voluntariamente por ela.
Podemos também identificar a alma com a Individualidade que
reencarna na fase humanizada do Espírito ou como um “ser incor-
póreo”, pois não possui o chamado corpo astral ou perispírito, que
abordaremos em seguida. A alma vibra em uma dimensão que a
Animagogia identifica, como já salientamos, como Noosfera, que
é onde vibrariam as estruturas do imaginário, por serem universais
e atemporais.
A alma pode ser considerada também como um ator que pla-
neja seus futuros papéis, que se prepara para representar uma
personagem. E, por isso, este ser incorpóreo, a cada encarnação,
vai criar um novo ego. Uma imagem, para melhor compreender
esse processo, é a dos jogos de videogame na qual o jogador pre-
cisa criar um avatar. De alguma forma, antes de encarnar, a alma
não se confunde com o avatar criado. Porém, a situação muda após
a encarnação, onde as vicissitudes vivenciadas pela personagem
podem acabar com sua paz interior ou equanimidade, da mesma
forma como acreditamos estar em outro ambiente ao usar um
óculos de realidade virtual.
No caso dos videogames, quando vamos disputar um jogo,
sabemos que o avatar nos representa, mas que não somos ele.
Porém, com suas habilidades ou suas deficiências previamente
criadas, sofremos ou ficamos eufóricos com suas peripécias du-
rante o jogo. E se o mesmo “morre”, ficamos tristes ou revoltados,
mas começamos novamente o jogo até dominarmos todas as suas
fases e desafios. É exatamente o que acontece entre a alma e sua
personagem ao longo das encarnações durante a fase humanizada
do Espírito. Mas é importante dizer que, por sermos seres multidi-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 11

mensionais, o ego é parte da Alma que, por sua vez, é parte do


Espírito. Como diz o pensamento hologramático, a parte contém o
Todo.
E o ego ou a personagem vai vibrar em outra dimensão inserida
nas anteriores que a Animagogia vai identificar como Psicosfera.
É nela que vibram os pensamentos e as emoções e é nela que “habi-
tam” os seres humanizados desencarnados (os Espíritos segundo
o Espiritismo). É na Psicosfera que estão as colônias espirituais e
os umbrais relatados nos romances espíritas. E se na dimensão
anteriormente estudada os seres são incorpóreos, na Psicosfera
os seres já são corpóreos. Não se trata de um corpo físico, mas é
aquele que os esotéricos chamam de corpo astral e os espiritistas
de perispírito. E é esse corpo que será o molde para o corpo físico
existir na dimensão abaixo que é a Biosfera.
E o ego, apesar de vibrar na Psicosfera, é mais restrito quando
estamos no chamado estado de vigília. O que chamamos de cons-
ciência, ou seja, aquilo que nos caracteriza durante o estado de
vigília, é um fragmento da consciência total do Espírito puro. E
mesmo no que se refere ao ego, é a parte secundária, uma vez
que sua parte principal vibra de forma “subconsciente”.
A distinção entre a alma e o ego é bem realizada por várias linhas
espiritualistas. Elas costumam ser identificadas, respectivamente,
como “eu superior” e “eu inferior”, Self e ego, Individualidade e
personalidade etc. Porém, na Animagogia, acima delas está o
Espírito. Ou sejal, o “eu superior”, a Individualidade ou o Self não
se confunde com o Espírito que, como salientamos, não é humano,
mas se humaniza. O Espírito, para a Animagogia, estaria mais
próximo da concepção de Atma das filosofias hinduístas ou da
Mônada, na concepção da Teosofia.
O ego representa a mente que vibra na Psicosfera e está pre-
sente no ser humanizado desencarnado e também no encarnado.
Para a Animagogia, é na Psicosfera que vibram as diversas men-
talidades, que derivam das três estruturas do imaginário, mas que
já são culturais e não mais universais. Ao fazer a escolha de uma
determinada provação, a Individualidade vai se vincular a uma
cultura (árabe, judaica, cristã etc.). Os países, com suas caracte-
rísticas, são os palcos para as provas, como são as quadras para as
diferentes atividades esportivas. De acordo com a prova escolhida,
12 Adilson Marques

a Individualidade vai encarnar em um país árabe ou cristão, budista


ou hinduísta, da Europa ou da África etc., sempre de acordo com as
condições que ele possui para melhor construir a prova escolhida
voluntariamente pela Individualidade antes da encarnação.
A partir dessas considerações, podemos considerar que o ego
não tem consciência de seu “grau de evolução” e não tem con-
dições de escolher novas experiências ou gêneros de existência,
uma vez que ele já é o fruto de uma escolha feita pela Indivi-
dualidade. Isso significa que só estamos em condições de escolher
novas provas após nos libertar completamente do ego, o que só
acontece após a desencarnação. Porém, esta libertação não acon-
tece automaticamente ou de forma imediata com o desencarne.
A personagem continua vivendo na Psicosfera com as mesmas
características, crenças e gostos que tinha quando encarnado. A
única diferença para nós é que não terá mais o corpo físico. É por
isso que a Psicosfera ou mundo astral é uma projeção da vida
material, fato que fica evidente nos romances espíritas, entre
eles, o popular “Violetas na janela”.
Enquanto encarnados, o máximo que podemos fazer é não
acreditar nas verdades criadas pelo ego, mas na situação de desen-
carnado, o processo é mais fácil e é para ele acontecer que existem
as práticas de educação após a morte ou, como preferimos chamar,
de Animagogia, entendendo que esta engloba todos os diferentes
trabalhos de “desobsessão”, “evangelização” ou “esclarecimento”
de seres humanizados desencarnados, não importando se estes
acontecem em centros espiritistas, em terreiros de umbanda e em
centros universalistas.
E essa educação após a morte se torna necessária porque, após
a encarnação, todo esse processo de “descida” vivido pelo Espírito
fica adormecido e este se confunde com o ego. Assim, é necessário
um processo de expansão gradual da consciência, trazendo do
inconsciente para o consciente as informações necessárias para o
seu despertar.
Assim, são os seres desencarnados, mas ainda ligados ao ego,
à consciência da personagem que vivenciaram na Terra, que são
trazidos para participar do trabalho animagógico.
Esses seres humanizados desencarnados, iludidos no “plano
astral” ou na “quarta dimensão”, podem se tornar obsessores,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 13

sofrer por apego material ou sentimental, entre outros fatos narra-


dos nas práticas sociais citadas acima. Em seus relatos, obtidos em
reuniões mediúnicas, estes seres humanizados e desencarnados
afirmam sofrer com a dor, o frio ou o calor; um sofrimento que,
segundo as narrativas, parece insuportável.
E como isso seria possível? Na visão da Animagogia, apesar de
estar desencarnado, este ser humanizado permanece ligado ao
ego ou a personagem que viveu na Terra. Mesmo não se encon-
trando mais encarnado (preso ao corpo físico,) onde ele repre-
sentou um papel escolhido voluntariamente, ele não recupera sua
consciência real de uma hora para outra e nem vai se lembrar de
suas vidas passadas. Seu foco são ainda as experiências vivenciadas
enquanto encarnado, mesmo quando sabe que está “morto”, ou
seja, desencarnado.
E como ele tem um corpo que lembra o que tinha na Terra (o
corpo astral) e está ligado ao mesmo “conjunto de verdades”
(mentalidade), passará um período ou em uma “colônia espiritual”
que é um reflexo da cultura que viveu na Terra ou no “umbral”,
onde sofre com os apegos, erros morais cometidos, situações em
que acredita ter sido vítima etc. Mas ele não queimará eterna-
mente no “fogo do inferno”. Esse estágio serve para se livrar das
“energias negativas” acumuladas em seu corpo astral ou perispírito.
Ele necessita passar uma temporada em algum lugar na Psicosfera,
criado dentro de sua própria mente, como acontece conosco du-
rante um sonho.
Este processo é interpretado na Animagogia como sendo uma
forma de “expiação” para o Ser humanizado incorpóreo libertar-
se do ego, uma vez que, para encarnar, o Espírito passou por um
processo de humanização e de construção de uma personagem
antes de se ligar a um corpo físico. O personagem é o molde
necessário para a criação do corpo físico que vibra na dimensão
que identificamos como Biosfera.
Porém, após o desencarne, a consciência vai se expandindo
gradativamente, podendo levar meses, anos ou décadas. As infor-
mações que estavam inconscientes durante a encarnação vão
gradativamente voltando a fazer parte da consciência deste ser.
Como salientamos, na ótica da Animagogia, o Espírito, que não
é humano, mas que se humaniza, teria sua consciência real velada
14 Adilson Marques

para viver uma nova existência e, algumas “verdades ilusórias”


motivariam sua vida encarnada. Por exemplo, acreditar que é
homem ou mulher, brasileiro ou estrangeiro, branco ou preto,
árabe ou judeu etc. Estas “verdades” vão formar o ego, uma cons-
ciência provisória necessária para mais uma aventura reencar-
natória, porém ilusória ou fictícia do ponto de vista do ser incor-
póreo ou da Individualidade.
Vamos tomar um exemplo de como o ego pode iludir o Espírito
e esse deixar de irradiar amor de forma universal. Vamos imaginar
um Espírito humanizado no Brasil e que sofreu com a derrota de
sua seleção em 2014 para a da Alemanha. Enquanto encarnado e
mesmo desencarnado pode sofrer com os 7 X 1. Mas se daqui a
alguns séculos a individualidade escolher encarnar na Alemanha
e ter acesso através dos meios de comunicação que sua seleção
venceu a brasileira por 7 X 1, ele ficará feliz. Ou seja, a mesma
situação pode deixar a personagem eufórica ou sofrer, depen-
dendo do ponto de vista que aquela experiência foi vivenciada. O
Espírito iludido pode deixar a felicidade, que já é um de seus
principais atributos, adormecida ou represada, não “descendo” até
a sua vivencia humanizada.
Ele, se conseguir manter a equanimidade diante das duas
experiências, venceu o ego. Conseguiu vivenciar sua vida huma-
nizada com habilidade espiritual. Mas se for seduzido pelas ver-
dades ilusórias, significa que foi derrotado pelo ego, pela mate-
rialidade do mundo. A alegria ou o prazer vivenciado em um caso
ou no outro é do ego e não do Espírito. A prova seria vencida com
o desapego, com a vivência da felicidade plena em qualquer uma
das circunstâncias vivenciadas pelo ego.
Para quebrar esse condicionamento mental é importante sem-
pre afirmar que se está homem, branco, judeu, brasileiro, corin-
tiano etc. Tudo isso são características da personagem criada e não
da Individualidade, que nem da Terra é.
Por não ser Real, enquanto acreditar nelas, o Espírito humanizado
deixa de amar ou de ser feliz, deixa de viver sua experiência humani-
zada a partir dos atributos que lhe são inerentes, ou seja, que já fazem
parte de sua essência. Após a encarnação, o Espírito pode vivenciar
sua personagem com tanto apego que sofre com as alternâncias,
com os altos e baixos da vida. Fica eufórico e desesperado, res-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 15

pectivamente, com as conquistas e com as perdas que a personagem


teve, ou seja, com as vicissitudes da vida humanizada.
Porém, mesmo após o seu desencarne, o ser incorpóreo perma-
nece algum tempo preso ao ego. E, em caso de sofrimento ou se
estiver sendo um obsessor e sua vítima tiver merecimento para
se libertar, são estes que costumam ser levados até os atendi-
mentos espirituais nos quais podem recuperar a consciência en-
quanto uma Individualidade que escolheu um gênero de provas
antes de encarnar e entender que a lei de Causa e Efeito não falha.
Despertando do ego, da personagem que criou para mais uma
encarnação, o sofrimento termina como em um passe de mágica,
uma vez que a Individualidade não tem como adoecer. Ela apenas
adquire experiência. Se não foi capaz de passar na prova que
escolheu, vai apenas ter que se preparar melhor na próxima vez.
Assim, o que a experiência animagógica demonstra é que, ao
recuperar sua consciência mais ampla, todo o sofrimento, ódio,
desejo de vingança e outros sentimentos desaparecem, como
costuma acontecer ao despertamos de um sonho. A Animagogia,
nesse processo, e não importa qual a técnica adotada, visa ajudar
no processo de mudança de sensibilidade e de resgate da cons-
ciência da Individualidade reencarnante, mas que ainda não é a
consciência espiritual plena, o que é importante sempre ressaltar.
Esta só é possível quando a fase humanizada do Espírito se encerra
e ele vai se preparar para a seguinte, a fase angelical. Mas isso é
assunto para outro livro.
Apesar de partir de uma base metafísica diferente, as orien-
tações presentes nos livros de Allan Kardec, os fragmentos da vida
no plano astral relatados no livro “Nosso Lar”, publicado em 1944 e
escrito por André Luiz através do médium mineiro Chico Xavier, entre
outros, apresentam a vida após a morte como algo ativo, ou seja, o
ser humanizado desencarnado trabalhando em alguma colônia
espiritual ao invés de ficar eternamente esperando pelo “Juízo Final”
ou, como já salientamos, necessitando passar um tempo no chamado
“umbral”, depurando as energias acumuladas em seu corpo astral
(a túnica a qual Jesus faz referência em várias metáforas bíblicas e
que deve estar limpa) antes de serem “resgatados”.
Sabemos que é necessário um exercício mental hercúleo para
conceber e aceitar estas narrativas visionárias nas quais o ser
16 Adilson Marques

humanizado desencarnado existe sem a necessidade do corpo


físico, apesar de manter as mesmas características de sua persona-
lidade terrena. E ainda é mais difícil conceber que a “segunda
morte” acontece quando o ser incorpóreo se liberta do ego, ou
seja, da personagem que criou para mais uma aventura encar-
natória.
Para melhor ilustrar, imaginemos que o corpo físico seria a roupa
especial que o astronauta necessita para sua aventura/missão fora
da Terra. Este, antes de viajar para o espaço, prepara-se muito bem,
planejando vários detalhes da missão. No espaço, necessita de uma
roupa projetada para as condições ambientais que vai enfrentar.
Porém, tal roupa será abandonada assim que voltar para a Terra,
onde ela será desnecessária. Mas entre a roupa especial para se
locomover no espaço e o corpo físico do astronauta há outra. Esta
intermediária é como o ego. A gente se confunde e a aceita-a com
mais naturalidade, mas também é necessário se despir dela. Ela
só serve para a personagem que será vivenciada durante a encar-
nação. Para se escolher outras provas, é necessário se libertar
completamente dela para vestir a próxima “roupa”.
Resumidamente, para a Animagogia, o Espírito na fase huma-
nizada, ou seja, nós, enquanto uma Individualidade vai planejar
com seus amigos e mentores o seu “gênero de provas”, e decide
com quem se relacionará e quais seres humanizados virão para
serem cuidados como seus filhos, por exemplo. A vida da perso-
nagem não é planejada nos mínimos detalhes, mas as principais
cenas onde as provas acontecerão, sim. Mas alguém precisa pre-
parar todo o cenário. São os contrarregras. Estes são os mentores
espirituais. Eles não estão ao nosso lado para nos proteger, mas
para fazer acontecer o que está registrado no nosso “livro da vida”.
Ou seja, garantir que nossas provas, escolhidas voluntariamente,
aconteçam.
Ou seja, toda encarnação é bem planejada para a Individua-
lidade adquirir mais experiência e vencer a fase humanizada do
Espírito. A encarnação é um “jogo cooperativo” no qual a regra
suprema é amar e ser feliz diante de qualquer vicissitude, positiva
ou negativa, vencendo a energia de egoísmo que nutre os cha-
mados mundos de “provas e expiações”, onde acontece a fase
humanizada. Nesse sentido, o Espírito em si e também a Indivi-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 17

dualidade (ser incorpóreo) não são egoístas, mas, iludidos pelo


processo de humanização e encarnação, podem deixar de emanar
amor em todos os seus atos e com isso não “evoluir”. Neste caso,
não venceram a prova. Não foram mais fortes que o ego ou a
materialidade da vida humanizada.
Enquanto não for capaz de vencer o ego, sempre pedirá novas
experiências nos mundos de “provas e expiações” para se capa-
citar para novas experiências além da fase humanizada do Espírito.
A vontade é um dos principais atributos do Espírito. É o mesmo
processo que ocorre com a pessoa que gosta de videogame. En-
quanto não for capaz de passar por todas as fases, sempre que for
derrotado, inicia novamente o jogo.
Cada fase na vida do Espírito o capacita ou o torna apto para
mudar de “nível”, vivenciando uma nova fase “evolutiva”. No nosso
caso, após a fase humanizada virá a fase angelical. Mas é impor-
tante compreender, no momento, que o processo de encarnação/
reencarnação possui regras e, entre elas, está o adormecimento
da “consciência espiritual” e também a lembrança dos “erros” e
“acertos” do passado. Também não nos lembramos do “gênero de
provas” escolhido para vivenciar na Terra e, sem saber o que vai
acontecer durante nossa encarnação, teríamos a oportunidade de
viver essa experiência com amor, felicidade e paz interior ou, ao
contrário, alternando momentos de euforia e desespero, de acordo
com as vicissitudes experimentadas. Quanto mais experiência,
adquirida em vidas passadas, mas fácil superar as vicissitudes que
aparecem ao longo da existência.
Porém, mesmo adormecida, a consciência continuará presente
naquilo que chamamos de “inconsciente” e pode sempre se mani-
festar de forma simbólica, através de intuições ou outras formas
não racionais. O Espírito possui a consciência plena. Ao se hu-
manizar, projetando-se através da Alma, essa consciência se reduz,
ficando parte dela inconsciente. Apenas as experiências huma-
nizadas ficam conscientes nesta dimensão. Porém, ao criar a perso-
nagem, a consciência se reduz ainda mais, aumentando a parte
inconsciente. A consciência da personagem é o que chamamos de
ego. É a mente. Tudo que não se refere à personagem se tornará
inconsciente. E o ego reduz ainda mais a consciência no chamado
estado de vigília do ser humanizado encarnado.
18 Adilson Marques

Uma imagem que gosto de usar para representar essa redução


da consciência e aumento da área inconsciente é a de uma pizza,
com seus tradicionais oito pedaços. A pizza inteira representa a
consciência espiritual, do Espírito puro ou Atman. Ao se humanizar,
criando a Alma, a consciência se reduz, por exemplo, para quatro
pedaços. Esta, ao criar a personagem, reduziria ainda mais, so-
brando apenas dois pedaços. Mas, no estado de vigília, passa a
existir apenas um. Poderíamos até chamar, do nosso ponto de vista
humanizado e encarnado, e durante o estado de vigília, a parte
inconsciente do ego de “inconsciente psíquico”, a parte incons-
ciente da Alma de “inconsciente anímico” e a parte inconsciente
que vibra na Logosfera de “inconsciente espiritual”. Ter essa cla-
ssificação em mente é importante para se compreender as dife-
renças entre o que identificamos como “captação psíquica” e
“captação noética”. Essa diferença é fundamental na Animagogia.
Tanto na Apometria, como na TVI ou em outra prática tera-
pêutica, uma pessoa sensitiva pode acessar os pensamentos ou
as emoções de um consulente. Nesse caso, com sua sensibilidade,
ela acessou informações presentes na Psicosfera. Por isso, esta-
ríamos diante de uma “captação psíquica”. Em outros casos, a pes-
soa sensitiva consegue acessar uma dimensão mais profunda,
presente na Noosfera, trazendo informações sobre vidas passadas
de um determinado consulente. Neste caso, identificamos com o
nome de “captação noética”. No primeiro caso, são informações
presentes na mente e, no segundo, na Alma. E existiria uma capta-
ção espiritual ou “logosófica”? Sim, mas neste caso, raramente se
consegue imagens, apenas uma agradável sensação de paz interior,
de plenitude, de total ausência de polaridades e um sentimento
de integração com tudo o que existe. Com frequência, junto com
a sensação de plenitude, a mente fica colorida, predominando a
luz violeta ou lilás.
É importante compreender que para a Animagogia, a cons-
ciência no estado de vigília é apenas uma fagulha perto de toda a
consciência do Espírito. E é este que possui livre-arbítrio e não a
personagem. Assim, não seríamos o fruto de um acaso ou de um
destino cego, pois, apesar de existir certa fatalidade nos atos
materiais, durante a encarnação e mesmo enquanto desencarnado
na Psicosfera, teríamos sempre o livre-arbítrio no âmbito dos
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 19

sentimentos, ou seja, das atitudes (ações interiores). Em outras


palavras, a ação material seria o fruto da “Lei de causa e efeito”,
também chamada de “carma” pelos orientais, que nada mais é do
que o fruto do gênero de provas escolhido antes de encarnar. Mas
ainda teríamos o livre-arbítrio para amar ou se revoltar, ser feliz
ou infeliz diante das vicissitudes da vida humanizada, inclusive per-
doando nossos algozes ou inimigos do passado ou do presente.
Esta relativização do livre-arbítrio nos atos nos leva a outra tese:
a de que Deus julgaria a intenção e não o fato em si. Essa ideia é
constante na Psicosofia (sabedoria espiritual) de Lao-Tsé (Tao Te
Ching) e de Krishna (Baghavad Gita) e também, de forma espo-
rádica, no Antigo Testamento e até em O livro dos Espíritos, de Allan
Kardec. E os estudos de caso que serão apresentados ao longo do
livro evidenciam a famosa afirmação atribuída a Paulo de Tarso,
na Bíblia: “Pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”
(Gálatas, 6:7).
Para a Animagogia, este semear ocorre no plano do sentimento,
na atitude, e não necessariamente nos atos materiais. Como já
salientamos acima, estes teriam que ser de acordo com a necessi-
dade e o merecimento de cada Espírito humanizado, respeitando
o gênero de provas escolhido. Mas seria a consciência da indi-
vidualidade, desperta do ego, o próprio algoz, sem que Deus, Jesus
ou qualquer outro “ser superior” necessite julgar ou punir.
A ideia de existir um Deus castigador e cruel, como aparece em
passagens do Antigo Testamento, não foi confirmada nos trabalhos
de Animagogia. Ao contrário, os seres desencarnados que se mani-
festam costumam demonstrar que é a própria consciência do
Espírito humanizado que age como “algoz”, reconhecendo o “erro”
cometido e solicitando a “reparação”. A Individualidade, ao se
libertar do ego, ou seja, passar pela “segunda morte”, terá as
condições necessárias de avaliar se teve fracassada sua encarnação
ou não, e vai desejar vivenciar uma nova, com as mesmas provas
ou outras. Mas a sensação de que sofre eternamente não é da
Individualidade, mas do ser humanizado desencarnado ainda
preso ao ego, e que é uma espécie de intermediário entre nós
(encarnados) e os seres incorpóreos.
Estes últimos habitam esferas superiores sem a necessidade
de ter o corpo astral. Normalmente, estes seres são vistos pelos
20 Adilson Marques

videntes apenas como luzes coloridas que piscam no ambiente.


São azuis, verdes, amarelos etc. Na umbanda, o preto-velho pai
Joaquim de Aruanda faz uma distinção entre o ser incorpóreo,
esclarecido e consciente de qual é o seu estado evolutivo na fase
humanizada do Espírito, e os desencarnados que são aqueles que
precisam de auxilio ou estão iludidos pelo ego. Os primeiros ele
chama de “Entidades” e, os segundos, de “Eguns”.
Portanto, são os seres humanizados desencarnados, ajudados
nas reuniões animagógicas, que relatam sentir dor ou sofrer tor-
turas, sobretudo morais. Assim, Deus (ou o nome que queiramos
dar para essa força muito sublime e pura) ofereceria àquele que não
soube aproveitar sua passagem pela Terra outras oportunidades de
aprendizagem e de aprimoramento e não de punição ou castigo.
Para a Animagogia o ato de reencarnar seria a expressão da
justiça e do amor de Deus para com aqueles que se “perderam no
caminho”, ou seja, que se arrependeram de não emanar amor em
seus atos materiais e que desejam saldar seus “débitos”, não com
Deus, mas com sua própria consciência. Deus não precisaria per-
doar por não se ofender. Acreditar que Deus se ofende é um pen-
samento muito restritivo.
E essa distinção entre as dimensões, no caso a Psicosfera e a
Noosfera, aparece de forma transversal no livro “Nosso Lar”, já
citado anteriormente. Nele, o mais famoso dos livros escritos por
Chico Xavier, encontramos a descrição, organização e a gerência
de uma “colônia espiritual” localizada acima do território do Estado
do Rio de Janeiro, no Brasil. Lá seria uma colônia para onde são
encaminhados os seres humanizados desencarnados que atin-
giram um mediano nível vibracional (ou evolutivo). Portanto, ainda
estão presos ao ego, à personalidade vivenciada na Terra, e que
ainda precisam despertar a consciência da individualidade.
Na colônia existem hospitais, educandários, áreas de lazer etc.
Lá eles vão, gradativamente, libertando-se do ego a fim de planejar
com seus mentores suas próximas encarnações. E mesmo estando
em uma colônia onde vivem os desencarnados que não cometeram
“erros graves” que lhes pesam na consciência, ainda não possuem
autorização para contemplar e vivenciar as “moradas superiores”.
Mesmo habitando uma colônia, estes seres humanizados que
ainda se mantêm unidos ao ego, não conseguem enxergar os
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 21

“Espíritos mais libertos ou esclarecidos”, cuja vibração seria mais


sutil. Nesse caso, estes precisam se “materializar” para eles. Ou
seja, precisam plasmar um corpo astral para se tornarem visíveis
para os desencarnados que vivem nas colônias.
E é importante compreender que tanto as colônias como os
Umbrais vibram na Psicosfera. Nos umbrais, segundo os livros espí-
ritas, estão os seres humanizados desencarnados que não possuem
as condições necessárias para ter acesso às colônias. Apesar dessa
mudança de grau, ambos estão vibrando na mesma dimensão.
Porém, são para estes que são criados e organizados diferentes
trabalhos de educação espiritual chamados de “desobsessão”,
“evangelização” ou “doutrinação de Espíritos”, conforme o enfoque
doutrinário adotado, mas que são formas diferentes de Animagogia
(Educação espiritualista).
São esses seres humanizados desencarnados que são auxi-
liados por diferentes grupos espiritualistas, seguidores de di-
ferentes doutrinas reencarnacionistas e que adotam as mais di-
versas técnicas mediúnicas. E esta ajuda necessita de pessoas que
possam servir de intermediários entre o plano invisível e o visível:
os médiuns. Estes são uma espécie de Hermes da pós-moder-
nidade, os novos psicopompos. Sem médiuns não se faz Ani-
magogia com seres humanizados desencarnados.
A Animagogia, portanto, consiste em um processo educativo
para a promoção da metanoia, ou seja, de uma mudança de sensi-
bilidade, para que o ser humanizado, desencarnado ou ainda
encarnado, como é o nosso caso, recupere sua consciência como
uma individualidade reencarnante. A metanoia é algo que pode
acontecer espontaneamente quando a pessoa vivencia expe-
riências singulares como a Experiência de Quase Morte (EQM), tem
lembranças de vidas passadas, sai conscientemente do corpo e vê
sua “realidade espiritual” etc.
Quase todas as pessoas que passam por estas experiências
afirmam que mudaram de atitude; passaram a encarar a vida
humanizada de outra maneira, muito mais compreensiva e amo-
rosa. Deixaram de se preocupar com muitas coisas e dão mais valor
à amizade, à família, ao cuidado com o meio ambiente etc. Mas o
que aconteceu? Apenas passaram a vivenciar sua vida humanizada
com mais habilidade espiritual, ou seja, permitindo que os atribu-
22 Adilson Marques

tos do Espírito passassem a inundar seu corpo e sua mente. O


Espírito nunca deixou de ser feliz, nunca deixou de ser amoroso,
nunca deixou de ser pacífico. Mas estes atributos que são viven-
ciados na Logosfera podem descer para as dimensões inferiores
se a personalidade permitir. Poderímos dizer que entre a Psicosfera
e a Noosfera existe um “muro de Berlim” ou uma “muralha da
China” que precisa ser rompida para que a energia represada nas
dimensões superiores possam se fazer presente nas inferiores.
A Animagogia, neste contexto, seria uma forma de conduzir o
processo metanoico através de uma anima-ação cultural. E ela
pode ser realizada tanto com seres humanizados desencarnados
ou com encarnados. Com os primeiros, ela pode acontecer de
várias maneiras. A mais comum é através do envio de energia,
utilizando preces e mentalizações, como acontece com a TVI, ou
através de reuniões mediúnicas para orientá-los, uma vez que
retornaram ao plano astral (Psicosfera), mas cujas mentes e cora-
ções estariam ainda presos ao mundo denso da matéria.
Nesse caso, o uso das técnicas apométricas é importante, uma
vez que elas permitem realizar regressões de memória para faci-
litar a lembrança de vidas passadas, entre outras situações que
ajudam a “redescobrir” que são Espíritos eternos vivenciando a
fase humanizada. A Animagogia pressupõe uma relação horizontal
entre o que ajuda e o que é ajudado. Ninguém é tratado como um
“ser do mal”, “inferior” ou “primitivo”. Como já foi salientado, para
encarnar é necessário se “humanizar”, ou seja, ligar-se a um ego,
uma consciência provisória que faz a Individualidade se confundir
com a personagem, acreditando que se é homem ou mulher,
branco ou preto etc. e não que está por alguns momentos, décadas
talvez, vivenciando um gênero, uma determinada raça ou etnia, e
assim por diante, definida na escolha do gênero de provas.
A Animagogia consiste em despertar dessa ilusão, o que pode
ser feito com mais facilidade, em tese, na condição de desen-
carnado. Presos aos laços da matéria, como é o nosso caso, o
processo é possível, mas muito mais difícil, pois continuaríamos
presos à dimensão tridimensional da existência. Porém, ter essa
compreensão facilita, após o desencarne, o despertar da Alma, que
se liberta do ego criado para mais uma aventura encarnatória. Como
já salientado, somente na condição de Alma é que conseguimos
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 23

ter condições de compreender onde deixamos de amar e planejar


uma nova volta à Terra, escolhendo o mesmo ou outro gênero de
provas, expiações e missões.
As técnicas da TVI visam romper o “muro” que separa a perso-
nagem da Individualidade. Por isso, ela é uma prática terapêutica
espiritualista. Ela visa a transcendência e a integração entre o ego
e o Self, entre a personagem e a Individualidade, entre o “eu
inferior” e o “eu superior”.
PARTE I

Tratamentos Complementares de
Saúde e Espiritualidade

inteligente é quem conhece os outros; sábio


é quem se conhece a si mesmo.
Lao Tsé
CAPÍTULO 1

A NECESSIDADE DAS CIÊNCIAS DO ESPÍRITO


OU DO HOMO SPIRITUALIS

Os tratamentos complementares de saúde são, essencial-


mente, tratamentos espirituais que apresentam uma cosmovisão
diferente daquela proposta pelo paradigma biomédico, que se
pauta no empirismo, e que é dominante na área da saúde. E,
assim sendo, é fundamental entender o que se está dizendo
quando se fala em espiritualidade.
Para tanto, neste primeiro capítulo se faz mister esclarecer o
que estou chamando de Ciências do Espírito para se estudar sem
finalidades doutrinárias ou proselitismo as possíveis relações
entre o mundo material e o suposto espiritual. As Ciências do
Espírito, como aqui estamos tratando, não se confunde com o
Espiritismo, que além de ser um movimento sócio-religioso é a
doutrina filosófica criada por Allan Kardec, no século XIX, e base
fundamental para a prática medianímica que ocorre nos chamados
centros espiritistas.
E as Ciências do Espírito podem contribuir também para desfa-
zer as confusões entre a Animagogia e o Espiritismo. Como a
Animagogia é muito nova, tendo seu início em 2003, no Brasil, e
também se fundamenta no trabalho mediúnico, há muitas con-
fusões. Até porque elas compartilham muitas interpretações em
comum, uma vez que o Espiritismo faz parte das Psicosofias que
fundamentam a Animagogia. Mas também há diferenças que de-
vem ser ressaltadas para se evitar mal entendidos.
A obra de Kardec deve ser estudada para se compreender
como se processam muitos trabalhos de Animagogia, princi-
palmente aqueles realizados com os seres humanizados de-
sencarnados, pois, basicamente, são os seus estudos que
fundamentam esta prática espiritualista no meio kardecista e,
em alguns casos, também no meio umbandístico e universalista.
28 Adilson Marques

Nestes, em simbiose com outros ensinamentos espirituais ou


Psicosofias.
Em suma, o Espiritismo é um dos objetos privilegiados das
Ciências do Espírito, que não se confunde também com as Ciências
das Religiões, mas que estuda todas as supostas manifestações
espirituais, mesmo aquelas consideradas hoje em dia como “ele-
mentos estranhos ao espiritismo”, como é o caso da Transcomu-
nicação Instrumental, da Apometria e outras técnicas e práticas
medianímicas. O Espiritismo se fundamenta, basicamente, nas
informações presentes em O Livro dos Espíritos, escrito em 1857,
por Allan Kardec, pseudônimo do pedagogo Hippolyte Léon
Denizard Rivail (1804- 1869) e tem uma história singular.
Em tese, o autor entrevistou o Espírito Verdade, através da
mediunidade de vários sensitivos. O livro apresenta cerca de 50
ensinamentos espiritualistas, aprofundados e discutidos ao longo
das mais de mil questões que Kardec formulou a este Espírito. Entre
os adeptos do Espiritismo, existem duas hipóteses sobre ele:
alguns afirmam que seria a manifestação de Jesus Cristo, enquanto
outros afirmam que se trata de uma coletividade de “Espíritos
superiores” que, sob a ordem de Jesus, respondeu as perguntas
formuladas por Kardec. Em relação ao chamado intercâmbio
mediúnico, não resta dúvida que, excluindo as fraudes e os
diversos tipos de charlatanismo, o médium, após entrar em um
estado ampliado de consciência, é capaz de manifestar infor-
mações que o próprio desconhece em seu estado de vigília.
Temos inúmeros dados coletados ao longo dos últimos 20 anos
(1999-2019) que nos dão evidências, apesar de não provar, que o
médium manifesta a opinião de consciências alheias, mas não
descartamos a hipótese de que o mesmo pode também manifestar
informações provenientes de seu próprio inconsciente ou de um
suposto “inconsciente coletivo”, argumento utilizado por pes-
quisadores que não aceitam, nem como hipótese, a possibilidade
da comunicação com os “mortos”, mas reconhecem que algumas
pessoas conseguem durante o chamado “transe mediúnico” reve-
lar informações sobre a vida particular dos consulentes, des-
conhecidas do médium em seu estado de vigília.
Voltando ao Espiritismo, encontramos na introdução de O Livro
dos Espíritos, Kardec esclarecendo que nem todos os espiritua-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 29

listas, ou seja, aqueles que acreditam na existência dos Espíritos,


aceitam que é possível estabelecer comunicações com o mundo
invisível. Assim, para designar aqueles que acreditam, Kardec
empregou o termo “espírita” ou “espiritista” e definiu o Espiritismo
como o estudo das relações entre o mundo material e o espiritual
e também do papel ativo dos Espíritos no mundo invisível. Nesse
sentido, Kardec reservou à palavra espiritualismo sua acepção
própria, ou seja, como antônima de materialismo.
Para Kardec, fica evidente que todo aquele que acredita haver
em si outra coisa que a matéria, é espiritualista. Porém, espiritistas,
seriam apenas os que acreditariam na possibilidade do Espírito se
manifestar e se relacionar com o mundo material. Porém, muitos
adeptos do Espiritismo afirmam, hoje em dia, que não basta acre-
ditar em Espíritos ou na comunicação com eles para ser espiritista.
Assim, aqueles que conversariam com “pretos-velhos”, “índios”,
“orientais” etc. não poderiam ser chamados de adeptos do Espiri-
tismo, uma vez que, para eles, tais supostos Espíritos não se pau-
tariam nos ensinamentos sistematizados por Kardec, mas em
outras doutrinas, como são as Psicosofias orientalistas ou afro-
brasileiras.
Dentro dessa perspectiva, e contrariando Kardec, não bastaria
acreditar na existência dos Espíritos ou conversar com eles para
ser “espiritista”, como ele demonstra em seu livro O que é Espi-
ritismo.
Para as Ciências do Espírito, mesmo que elas ainda não sejam
realizadas dentro das Universidades, a mediunidade é um objeto
de estudo também privilegiado e muito mais: ela também é fonte
para coleta de dados. E neste caso, uma das heurísticas principais
é o que chamamos de Espiritologia, ou seja, o uso da História Oral
para se entrevistar os Espíritos. Entre os anos de 2005 e 2008
entrevistamos o “preto-velho” pai Joaquim de Aruanda e através
de seus depoimentos publicamos, em 2009, o livro “História Oral,
Imaginário e Transcendentalismo: mitocrítica dos ensinamentos
do espírito pai Joaquim de Aruanda”.
Pesquisas empíricas também podem ser feitas, foi o caso do
estudo sobre a Apometria, realizada na ONG Círculo de São Fran-
cisco, entre os anos de 2004 e 2007. Através das entrevistas com
as entidades atuantes nesta técnica, coletamos informações sobre
30 Adilson Marques

a importância do uso da energia mental, seja utilizando a visua-


lização de cores ou irradiando pulsos energéticos. Estas são utili-
zadas para destruir as formas-pensamento negativas e desmanchar
trabalhos de “magia negra” ou “macumba”.
Fomos informados também que a Apometria (com outro nome)
já era praticada no passado remoto por “magos brancos” e que hoje
o trabalho no Astral é conduzido pelo mesmo Espírito que viveu a
personalidade Maria, a mãe de Jesus, e que é conhecido como a
“senhora da regeneração”, uma vez que o objetivo da Apometria
seria a limpeza do Umbral, libertando do ego os Espíritos humani-
zados que se encontram ainda presos a essas ilusões mentais
negativas, um processo necessário para que a Terra possa mudar
de vibração, tornando-se um “mundo de regeneração”.
Por fim, recebemos a informação de que muitos trabalhadores
da Apometria assumiram esse compromisso “antes de encarnar”
para expiar o envolvimento, no passado, com a prática da “magia
negra” etc. Apenas por curiosidade, no livro psicografado “Os
miosótis voltam a florir”, escrito por um Espírito que se identifica
como Luis Sérgio, é possível encontrar a descrição de alguns tra-
balhos socorristas realizados pelas “falanges” orientais. Em seu
capítulo VIII, por exemplo, o autor descreve um trabalho rea-
lizado com luzes e controle da mente, semelhante ao que se
pratica durante os atendimentos apométricos, projetando vi-
brações amorosas para transformar padrões estagnados de ener-
gia nos planos físico, astral e mental inferior (essas duas
dimensões nas quais vibra o ego a Animagogia identifica como
sendo a Psicosfera).
Nem todas as casas espiritistas aceitam que um “preto-velho”
possa se manifestar e muito menos que possa ser um Espírito
“superior”. Normalmente, tais entidades são rotuladas como
“inferiores” e proibidas de dar comunicação. Mas, para quem já
compreende que a forma é apenas uma postura adotada e que sua
“superioridade” deve estar presente no conteúdo moral de seus
ensinamentos e não na aparência como se manifesta em um tra-
balho mediúnico, apresento a resposta de um preto-velho, que
utiliza o nome pai Jeremias, à seguinte questão: por que o silêncio
dos Espíritos “superiores” em relação à Apometria nos trabalhos
kardecistas, conforme questionam vários espiritistas?
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 31

E a resposta foi a seguinte, com a qual concordamos: “Cada


trabalho acontece no lugar certo e onde Deus permite que acon-
teça. Em um local onde há mais dúvidas do que amor, muito apego
ao ego, ao orgulho do que vontade de servir, não há condições
vibratórias para um trabalho socorrista como o da Apometria. Tudo
tem seu tempo certo para acontecer. O trabalhador que estiver
preparado para entender a Apometria e que tem compromisso
assumido com essa linha de trabalho será levado para o lugar certo,
não importa se ele é kardecista, umbandista, universalista, eso-
térico etc. Deus dá a cada um aquilo que precisa e merece.”
Como afirmamos no início deste capítulo, as Ciências do Espírito
que estamos propondo não se confunde com o Espiritismo, logo,
não pode estigmatizar ou proibir “pretos-velhos”, “caboclios” e de
outras entidades de se manifestar em intercâmbios mediúnicos.
E muito menos rotulá-los de “inferiores”, “mistificadores” ou
“selvagens” que devem ser “doutrinados” ou simplesmente
“expulsos” das reuniões mediúnicas.
As Ciências do Espírito, no campo da mediunidade, deve se abrir
ao estudo de todas as manifestações, utilizem rituais ou não, com
“giras” onde se cantam pontos cantados e se usam roupas espe-
cíficas ou que ocorrem no silêncio, no recolhimento.
Ainda em 2008, no campo das Ciências do Espírito, e utilizando
como método a mitocrítica durandiana, fiz um estudo comparando
o Espiritismo, a Umbanda e o Universalismo procurando com-
preender um pouco mais as diferenças fundamentais ou arque-
típicas entre as três Psiconomias (organização do intercâmbio com
as entidades espirituais). Nelas foi possível perceber a presença
das estruturas do imaginário estudadas por Gilbert Durand.
O Espiritismo tende a se constituir em um campo imagético
particular, cujos mitemas são facilmente vinculados ao “regime
diurno” como sugerido por Gilbert Durand, com a presença cons-
tante de imagens ascensionais e de mitos apolíneos e prometeicos,
presente na defesa da chamada “pureza doutrinária”, na busca pela
“evolução do Espírito”, na luta contra o “irracionalismo”, na defesa
da “fé raciocinada” etc.; enquanto isso, a Umbanda e o Univer-
salismo apresentam imagens típicas do “regime noturno”, com a
primeira manifestando elementos do imaginário antifrásico e
dionisíaco, como podemos notar em sua aceitação do sincretismo
32 Adilson Marques

e do ecletismo, assim como em sua afirmação positiva do corpo,


da feminilidade e da natureza, de forma geral; e, o último, do
imaginário dramático ou disseminatório, ligando as duas pola-
ridades anteriores, não no sentido de criar uma síntese, mas de
transitar por estes dois polos arquetípicos. No universalismo é
possível notar imagens hermesianas, como na valorização do poder
da mente para a transformação da realidade material, por exemplo.
Com base no que foi exposto até aqui, já é possível salientar as
diferenças entre as Ciências do Espírito, uma disciplina com enfo-
que acadêmico para estudar todos os supostos “fatos espirituais”
e o Espiritismo. Esta doutrina filosófico-religiosa é um objeto
privilegiado de estudo das Ciências do Espírito. Mas esta disciplina
que estamos propondo estuda também outros fenômenos que o
movimento espiritista, de modo geral, considera como “elementos
estranhos ao espiritismo”: a dimensão espiritual nos tratamentos
holísticos, os intercâmbios medianímicos que acontecem na Um-
banda, a Apometria, a Transcomunicação Instrumental, a Terapia
de Vidas Passadas etc.
Em outras palavras, as Ciências do Espírito, conforme aqui
conceituamos, estuda imparcialmente estes fenômenos, sejam
eles considerados “espíritas” ou não pelo movimento espiritista
brasileiro, porém, dentro de um enfoque que podemos chamar
de transmoderno ou pós-positivista por abrir-se, sem pré-con-
ceitos, à possibilidade de existir uma realidade espiritual ou
transcendente. Assim, compreende o valor de todas as contri-
buições psicosóficas, mas não as trata como verdades absolutas
ou dogmáticas. Ela estuda a possibilidade da vida após a morte (o
sobrevivencialismo) e elabora teorias que possam compreender
as relações possíveis entre o mundo espiritual e o material, e tem
como principais heurísticas a História Oral, a Observação Parti-
cipante e a Pesquisa-Ação, utilizadas para a coleta de informações
em Centros espiritistas, de umbanda, universalistas, apométricos
e outros onde o intercâmbio medianímico com as entidades espiri-
tuais se faz presente de forma rotineira, através da “incorporação”,
da vidência, da psicografia etc. Em outras palavras, as Ciências do
Espírito não visa legitimar a doutrina espírita e não ignora os “fatos
espíritas” considerados como “elementos estranhos ao Espi-
ritismo”.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 33

No próximo capítulo faremos um estudo comparativo entre o


Espiritismo e a Animagogia com o objetivo de compreender suas
implicações nos tratamentos complementares de saúde, a partir
de uma perspectiva espiritualista, ou seja, diferente daquela que
afirma que tudo aquilo que pode ser rotulado de espiritual, trans-
cendente etc. seria apenas uma criação do cérebro. Essa visão
biologizante se encontra, por exemplo, na cosmovisão da prática
meditativa chamada de mindfullness, para quem tudo é apenas o
fruto da criação do cérebro. Na prática, podemos constatar que não
há muita diferença entre a mindfullness e a meditação integrativa,
inclusive em seus resultados. Mas a diferença acontece na expli-
cação. Enquanto a meditação integrativa se fundamenta na Anima-
gogia, que afirma que somos Espíritos eternos vivenciando uma
experiência humanizada, e que sobrevivemos à morte física, a
explicação da prática conhecida como mindfullness é eminen-
temente biologizante ou materialista.
Mas o foco dos capítulos seguintes será, primeiramente, escla-
recer o que entendemos por ego e, em seguida, comparar o
Espiritismo e a Animagogia, através de um estudo que podemos
identificar como sendo no campo das Ciências do Espírito.
34 Adilson Marques

CAPÍTULO 2

O EGO É UM ÓTIMO SERVIDOR,


MAS UM PÉSSIMO PATRÃO

Um conceito importante para se trabalhar com a Apometria, TVI


ou outra prática complementar dentro de um contexto anima-
gógico é o de ego, um conceito que não aparece de forma patente
no discurso kardequiano, mas que é de fundamental importância
no pensamento oriental. Dentro do enfoque proposto pela Anima-
gogia, o ego é um conceito chave.
É importante compreender que o ego não se confunde com o
Espírito, e encarnar, o processo de ligar o Espírito a um novo corpo,
não é o mais importante. O que realmente conta para a “encar-
nação” é a humanização do Espírito eterno e a escolha do gênero
de provas. Ou seja, a sua ligação a uma consciência provisória,
criada pelo Espírito humanizado enquanto gozava de sua cons-
ciência plena. Essa consciência provisória é que identificaremos
como sendo o ego e que nos faz esquecer que somos Homo spirit-
ualis, que já traz em sua essência tudo aquilo que almejamos:
felicidade, amor, paz interior, equanimidade etc.
E é o ego que se alimenta dos frutos doces e azedos da árvore
da vida, como nos ensina um famoso aforismo oriental, e essa
ilusão pode impedir que a paz interior do Espírito eterno se mani-
feste diante de qualquer vicissitude experimentada ao longo de
mais uma vivência humanizada.
A partir dos atendimentos apométricos realizados na ONG
Círculo de São Francisco, temos constatado que não basta desen-
carnar para a Individualidade se libertar do ego. Este tem uma
pequena expansão, aumentando o grau de consciência do desen-
carnado. Mas ele continua preso à personagem que vivenciou, não
se lembrando do gênero de provas, de suas antigas encarnações e
o que pode ser pior: sofrendo por apegos ou se tornando um
obsessor.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 35

Esse processo também pode ser verificado nos livros psico-


grafados que relatam a vida dos desencarnados que necessitam
plasmar um mundo semelhante ao que vivenciaram na Terra,
devido aos apegos que estão registrados em sua mente. Aliás, a
mente é o ego, com suas duas dimensões: a consciente que usa-
mos no estado de vigília e a subconsciente, que trás os elementos
da quarta dimensão, o chamado mundo astral que na Animagogia
se identifica como Psicosfera.
O Espiritismo possui ensinamentos importantes e é de fun-
damental importância para consolar o Espírito humanizado que
acredita que perdeu um ente querido ou bens materiais, mas não
nos ajuda a compreender o processo de humanização, E, na maioria
das vezes, confunde o Espírito com o ego, sobrevalorizando a
importância das colônias espirituais, uma forma que reproduz o
mundo material e não é ainda o verdadeiro plano espiritual.
Por confundir o Espírito e o ego, podemos entender porque o
Espiritismo acredite na necessidade de evolução do Espírito, não
considerando que ele já foi criado imagem e semelhança de Deus
e que já tem dentro de si todos os atributos que, em tese, deveria
conquistar com a “evolução”.
As colônias, umbrais, vale dos suicidas etc. são criações mentais,
daí elas vibrarem na dimensão que a Animagogia chama de Psicos-
fera (a esfera da mente) e não, necessariamente, no plano do
Espírito (Logosfera). A Psicosfera corresponde ao mundo astral e
ao mental inferior da Teosofia. Essa é a dimensão do ego, onde
vibram as emoções e as formações mentais vivenciadas pela per-
sonagem, esteja ela encarnada ou não. Ela é importante no pro-
cesso de “descida” do Espírito humanizado após escolher seus
gêneros de provas e criar seu avatar (a personagem que vai repre-
sentar em mais uma encarnação). Porém, na “subida”, após o
desencarne, pode ser um campo de ilusão até que a consciência
se expanda e a Individualidade desperte completamente.
Os atributos que formam o ego, de forma geral, são: per-
ceber o mundo de forma tridimensional através dos sentidos,
as sensações físicas, as emoções, as formações mentais rela-
cionadas à percepção, às sensações e às emoções e, por fim, a
memória que nos faz acreditar que somos a mesma pessoa
quando acordamos.
36 Adilson Marques

O Espírito que não é humano, mas se humaniza, apenas pulsa


AMOR e não é doente, egoísta, orgulhoso etc. O Espírito apenas
não tem experiência de vida e sabedoria, por isso, a encarnação
serve para ele vencer o ego. Mas tal vitória só acontece após muitas
partidas disputadas. Segundo algumas entidades comunicantes,
em média, a fase humanizada do Espírito, a que vivenciamos no
momento, leva de 7 a 10 mil anos. Nesse intervalo de tempo é
possível viver muitas aventuras encarnatórias.
Em suma, aquele que não tiver uma compreensão mais pro-
funda do que é o ego e sua relação com o Espírito eterno, não
entenderá o trabalho realizado, por exemplo, pela Apometria e
não compreenderá como “ódios seculares” podem ser resolvidos
em minutos. Em outras palavras, não é o Espírito que tem ódio,
mas, enquanto se encontra iludido pelo ego, pode acreditar no
ódio gerado por este e passar a perseguir um irmão espiritual,
encarnado ou desencarnado, enquanto Deus permitir que isso
aconteça, obviamente. Assim, ao invés de materializar o mundo
espiritual, a Apometria, praticada no contexto da Animagogia,
procura despertar o Espírito das ilusões presentes em sua mente,
ou seja, despertá-lo e desligá-lo do ego, recuperando sua real
consciência espiritual, no caso, da Individualidade, uma vez que
ainda estamos na fase humanizada do Espírito.
Não tendo essa compreensão, encontramos em livros ou na
internet espiritistas afirmando, por exemplo, que despertar o Espírito
através de uma regressão de memória como se faz através da Apo-
metria “colide com a razão”. O problema aqui é saber o que entendem
por razão e os limites da racionalidade adotada nesta intepretação.
Já presenciamos vários casos de obsessores que se libertaram
e perdoaram instantaneamente seu “algoz” após passarem por
uma regressão de memória. E por que isso acontece? Porque o
Espírito puro, aquele que o Espírito Verdade diz para Kardec que
tem o “brilho do rubi”, só pulsa AMOR. O obsessor é um Espírito
humanizado ainda preso ao ego, portanto, às formações mentais
que não o ajudam a se lembrar de que antes de encarnar, en-
quanto gozava de sua consciência humanizada plena, ele escolheu
um gênero de provas para vivenciar na Terra.
Portanto, iludido por essa formação mental, perde seu brilho
e fica como uma “sombra”. Mas esta não é sua condição real, ela é
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 37

apenas provisória. Assim, em função do gênero de provas que foi


importante para o ego ser criado, gerou-se também um avatar com
uma determinada forma física (homem ou mulher), e determi-
nadas percepções, sensações, formações mentais etc. adequadas
para o Espírito vivenciar na Terra a provação que escolheu. Porém,
como já salientamos, não basta desencarnar para a Individualidade
se libertar do ego. Assim, não podemos dizer que seja um erro da
Doutrina Espírita, pois ela é perfeita para o objetivo ou missão que
possui: consolar os Espíritos humanizados, mostrando que a vida
continua após a morte e que é ativa. Mas o fato de desconsiderar
a existência do ego impede que muitos espiritistas compreendam
como a Apometria ajuda a libertar tantos Espíritos humanizados
em tão pouco tempo.
Muitas vezes, o palavriado doutrinário das reuniões de de-
sobsessão podem apenas reforçar o ego, pois falam para a razão e
não tocam o “coração” do Espírito. Há doutrinadores que reco-
mendam, inclusive, que nunca se fale para o desencarnado que
ele está “morto”, pois isso pode fazê-lo sofrer ainda mais, como
se nossa condição natural não fosse como Espírito. Ou seja, ao invés
de valorizar a vida espiritual, a eternidade, a consciência plena,
nas práticas de doutrinação há, com frequência, o reforço do ego,
da consciência humanizada da personagem.
Assim, um desencarnado pode permanecer muito tempo vin-
culado à consciência provisória que vivenciou na Terra e ser contro-
lado por ela. Quando isso acontece, sente-se ofendido, acredita
que está sendo agredido e fica com raiva, rancor, mágoa etc. O
Espírito humanizado ligado ao ego não percebe que está ligado a
uma “ilusão”. Ele não se dá conta que todas as percepções, sen-
sações, memória e formações mentais que ainda vivencia foram
criadas por esta consciência provisória. Por isso, mesmo desen-
carnado, continua se comportando como se estivesse encarnado,
pois é o mundo que está em sua mente. Enquanto ele não tirar “os
óculos de realidade virtual” não despertará para a verdadeira vida.
Enquanto permanece iludido, o Espírito humanizado não se
lembra de que escolheu um gênero de provas e que vivenciou,
exatamente, aquilo que escolheu. Em suma, ele não se lembra de
que seu livre-arbítrio foi totalmente respeitado por Deus e pelos
Espíritos responsáveis em criar o seu “livro da vida”. Mas, ao
38 Adilson Marques

despertar, tomará consciência que ele recebeu exatamente aquilo


que necessitava e merecia, além de ser instrumento, mesmo in-
consciente, para as provações de outros Espíritos humanizados.
Quando essa consciência desperta, toda a ilusão se desfaz. O ego
sempre foi e será um ótimo serviçal. Mas nunca será um bom
patrão, seja para os encarnados ou para os desencarnados.
E como funciona um atendimento apométrico? Essencialmen-
te, os trabalhadores encarnados doam energia (ectoplasma) e esta
será utilizada pela espiritualidade socorrista para entrar no “tea-
trinho” mental do Espírito ainda iludido, despertando-o. Assim,
com essa energia, muitos desencarnados que ainda acreditam que
estão presos em buracos, cimentados em paredes, presos a um
automóvel, afogando-se no mar etc., são facilmente libertados
daquele mundo ilusório, que só existia em sua mente. E o mesmo
acontece com aquele que persegue o seu algoz. Em pouco tempo
compreende o que se passou e perdoa aquele outro irmão espi-
ritual. Em outras palavras, esta prática não colide com a razão, mas
colide com o ego, que é a própria razão humanizada e programada
para pensar o mundo ilusório da matéria por parâmetros egóicos:
“certo” e “errado”, “bem” e “mal”, “superior” e “inferior” etc.
Por isso, enquanto se encontrar preso ao ego, nenhum Espírito
humanizado será capaz de compreender (pois lhe falta um sentido)
que Deus, a causa primária de todas as coisas, controla todo esse
teatrinho que chamamos de “encarnação”. E a Apometria não
ignora a “reforma íntima” como alguns espiritistas afirmam. Se
entendermos que “reforma íntima” é trabalho interior e não exte-
rior, a única “reforma íntima” possível é consciencial e sentimental.
Ou seja, é o processo metanoico de despertar, libertando-se das
verdades criadas pelo ego, recuperando a consciência humanizada
plena, a da Individualidade que escolhe os gêneros de provas e
reencarna.
Nesse sentido, a Apometria, no contexto da Animagogia, não
ignora a “reforma íntima”, mas promove a única que é possível. Por
exemplo, enquanto eu acreditar que sou homem ou mulher, branco
ou preto, brasileiro ou argentino, homo ou heterossexual etc., ou
seja, nas verdades que minha consciência provisória possui, vou
continuar vivenciando exatamente isso quando desencarnar e não
serei um Espírito liberto, um bodhicitta, segundo a nomenclatura
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 39

budista. Vou plasmar um “mundo espiritual” que será uma cópia da


vida na Terra, ou seja, vou materializar o mundo espiritual.
É por isso que a única “reforma íntima” possível é se libertar do
ego, do agregado que envolve o Espírito humanizado e impede
que seus atributos sejam vivenciados plenamente durante mais
uma encarnação. Libertar-se de suas verdades é o caminho para
que possamos ressurgir como Espíritos eternos, recuperando nossa
consciência humanizada plena. Somente quando nos encontrar-
mos conscientes de que vivenciamos uma nova prova, uma nova
expiação ou uma nova missão na Terra é que poderemos escolher
outro gênero de provas.
E para o encarnado, ou seja, nós, a metanoia consiste em ressur-
gir na carne. Em outras palavras, enquanto encarnado, vivenciar a
vida humanizada com habilidade espiritual, despertando os atri-
butos do Espírito na vida cotidiana, uma vez que somos Homo
spiritualis. Obviamente que fazer essa “reforma íntima” é mais fácil
com o desencarnado. Com aqueles que já se libertaram do corpo
físico, a Apometria pode ajudar a libertar milhares de desencar-
nados presos às verdades ilusórias criadas pelo ego há décadas,
séculos e até milênios, em muitos casos.
E não só a libertação dessa consciência provisória acontece “com
um toque de mágica”, como ironizam alguns espiritistas, mas até
a desmaterialização completa de cidades no Umbral. Vou relatar
um trabalho apométrico que coordenei e que demonstra como
isso aconteceu. Durante o atendimento, estávamos diante de um
Espírito humanizado iludido com seu poder de controlar uma
determinada cidade astral, escravizando milhares de desencar-
nados, todos também iludidos pelo ego.
Manifestando-se através de uma médium de incorporação, o
mesmo se orgulhava do poder que possuía e falava, de peito
aberto, do controle que tinha sobre os outros. O grupo apométrico
se concentrou e enviou energia para desmanchar aquela cidade
para mostrar ao mago que seu poder era ilusório. Em poucos se-
gundos (obviamente que tudo aconteceu com a permissão de
Deus), uma médium vidente passou a descrever que aquela pai-
sagem se desmanchou e em vez da cidade feia e asfixiante, surgiu
uma paisagem campestre agradável e apaziguadora. E todos os que
estavam sob o domínio daquele foram resgatados pela espiri-
40 Adilson Marques

tualidade. Ele, diante do que acontecia, entrou em choque. Seu


orgulho foi ferido e ele ficou abismado com o nosso poder mental,
libertando seus escravos de uma forma tão rápida. Na verdade, o
que os libertou foi a energia amorosa enviada pelo grupo e a
manipulação dessa energia pelas entidades socorristas e, obvia-
mente, a permissão de Deus.
De uma forma ou outra, aqueles escravos já tinham o mere-
cimento para serem libertos. Ou seja, enquanto foi necessário, até
o “mago negro” foi instrumento para a expiação deles no mundo
astral. Com a energia enviada, aquela construção mental se desfez.
E o que estamos descrevendo vem ao encontro do ensina-
mento presente na questão 274 de O livro dos espíritos que en-
fatiza que os espíritos “superiores” exercem uma autoridade
irresistível sobre os “inferiores”. Ou seja, aquele desencarnado só
conseguiu escravizar os outros enquanto houve a permissão divina.
Talvez ele não tivesse essa consciência, mas seus sentimentos,
pensamentos e ações eram de conhecimento dos Espíritos escla-
recidos que conduziam o atendimento.
Desiludido, ou seja, liberto da ilusão, o “mago negro” aceitou
o auxilio e também foi conduzido pela espiritualidade socorrista.
Assim, em menos de meia hora de trabalho apométrico, uma
cidade inteira no Umbral foi desfeita através do uso controlado e
amoroso do poder mental daquela equipe mediúnica e vários
Espíritos humanizados foram libertados da ilusão em que se encon-
travam. E não foi só. Até o “mago negro” foi convertido para o
“Bem”, ou seja, também se libertou das ilusões do ego, pois este
também é um Espírito eterno passando por suas provações.
E não sabemos por quantos anos, séculos talvez, aqueles desen-
carnados vivenciaram tal ilusão. Mas o importante foi a limpeza
feita no umbral. Eis aí a verdadeira “reforma íntima” em ação, uma
verdadeira metanoia sendo processada. Em outras palavras, o
Espírito eterno não “cultiva ódio”. Desperto, ele pulsa AMOR, pois
foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quem cultiva ódio é o
ego, já que o Espírito continua puro e perfeito conforme foi criado.
Porém, o Espírito pode ficar adormecido e acreditar n essa emoção
criada pelo ego e se iludir por muito tempo. Mas, quando desperta
dessa ilusão, ou seja, quando redescobre que aquilo que motivou
o ódio não passou de um “teatrinho”, de uma realidade ilusória na
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 41

Terra ou no mundo astral, e que tudo o que foi vivenciado só existiu


dentro de sua mente, ele recupera sua consciência humanizada
plena, lembrando-se dos gêneros de prova que escolheu.
É por isso que o Espírito desperto não tem motivo nenhum para
sentir ódio, já que apenas pulsa AMOR. Aquele que, por alguma
razão, permanece ligado à consciência provisória de sua última
encarnação, sofre por causa dos apegos materiais, sentimentais e
culturais, as raízes do sofrimento como ensinou Buda. Enquanto
se encontra preso ao ego, ele vai continuar acreditando nas ver-
dades que este cria e Deus permitirá que isso aconteça se tal
experiência ainda fizer parte das expiações que necessita viven-
ciar, mesmo estando desencarnado.
Mas muitos espiritistas questionam: se é tão simples assim
libertar o Espírito da ilusão em que se encontra, porque a Apo-
metria não surgiu antes? Por que não foi objeto de estudo de
Kardec? A resposta também é simples: Ela teve que surgir aproxi-
madamente 100 anos após a codificação kardequiana, quando no
Ocidente práticas de mentalização e meditação já começavam a
se consolidar, visando, assim, unir o poder mental controlado a
uma prática mediúnica séria. E este processo não pode ser pensado
independentemente do processo de regeneração da Terra e por-
que, agora, se faz mister a limpeza energética do Umbral e do seu
desmanche o mais rapidamente possível. Ou seja, a Apometria
não é mais “eficiente” que a doutrinação clássica espiritista, mas
possui uma missão diferente: ajudar na limpeza da energia dele-
téria que criou os chamados umbrais, facilitando o resgate dos
Espíritos que continuarão encarnando na Terra em regeneração ou
que passarão pelo exílio, reencarnando em outros mundos de
provas e expiações e não mais na Terra.
Para se trabalhar com a Apometria é necessário que o grupo
mediúnico seja formado por pessoas que tenham experiência
meditativa, que cultivem a concentração mental, o equilíbrio e o
controle dos pensamentos e das emoções. Apesar de ser uma
técnica que surgiu no Ocidente, particularmente no Brasil, os
grupos apométricos sérios trabalham com Espíritos humanizados
já familiarizados com as técnicas meditativas, em encarnações
vividas no Oriente. São Espíritos que não se iludem com as criações
do ego e conseguem “enxergar” o que se oculta nas formas mate-
42 Adilson Marques

riais, compreendendo que as energias se tornam “positivas” ou


“negativas” dependendo da intenção com que são emanadas. Os
grupos de Apometria que se servem de médiuns inexperientes
ou com graves problemas emocionais, rapidamente se tornam
alvos de mistificação e fascinação. Ao invés da Individualidade se
libertar do ego, inflam-no ainda mais, e começam a se ver como
salvadores do mundo, numa luta heróica contra o mal, repre-
sentado por todos que pensam de forma diferente.
Porém, tirando essas exceções, a Apometria tem um papel
importante nos dias de hoje. Ela pode ser um útil instrumento para
que uma ação mais enérgica e amorosa seja utilizada para libertar
os desencarnados iludidos. E tudo está acontecendo como tem que
acontecer. Ou seja, a doutrinação clássica não é “errada” e cumpriu
a missão que Deus definiu para ela, assim como os exorcismos
praticados por católicos e evangélicos. Podemos dizer, por exem-
plo, que o exorcismo é a técnica medieval, necessária para “expul-
sar” os demônios; enquanto a doutrinação é a técnica moderna
para consolar Espíritos humanizados iludidos e a Apometria é a
técnica pós-moderna para os “libertar” dessa consciência ilusória.
E todas são certas, acontecendo na hora e no lugar estabelecido por
Deus. Aliás, nada está errado no mundo material. O chamado mundo
de provas e expiações é muito mais um mundo de intencionalidade
do que de ação. E isso está explicito na doutrina espírita.
Somente quem acredita nas verdades do ego não consegue
perceber que a justiça divina, através da Lei de causa e efeito,
controla todos os acontecimentos e atos materiais vivenciados na
Terra. E se existe hoje a Apometria é porque Deus permitiu e ela
também é um instrumento de prova para aqueles que servem a
Deus através dela e para os que a criticam. Para encerrar este
capítulo, vamos apresentar um estudo de caso que demonstra
como a Apometria não vai de encontro à Doutrina Espírita, ou seja,
aos ensinamentos do Espírito Verdade contidos em O livro dos
Espíritos. Como já salientamos, um dos ensinamentos básicos da
doutrina espírita afirma que não importa o perigo, ninguém morre
antes da hora. Porém, há uma infinidade de livros e artigos ditos
“doutrinários” que insistem em dizer que morreram inocentes com
a queda do WTC ou que este ou aquela personalidade humana
morreu antes da hora prevista etc.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 43

Todas essas informações vão de encontro com o ensinamento


que consta em O livro dos Espíritos. Mas isso é compreensível, pois,
como já salientamos, somos Espíritos eternos vivenciando uma
experiência humanizada e encarnada, portanto, presos a um ego.
Assim, com a nossa consciência espiritual velada, nossa tendência
é a de acreditar nas verdades criadas por ele.
O ego tenta, de todas as maneiras, nos fazer acreditar que temos
condições de agir independentemente da chamada Lei de “causa
e efeito” ou de “ação e reação”. É ele que nos faz acreditar que
podemos abandonar o gênero de provas que escolhemos antes
de mais uma encarnação ou morrer antes da hora. Muitos espiri-
tistas acreditam que Airton Senna morreu antes da hora. Porém,
quando compreenderem que o Espírito não é o ego, saberão que
não existe um Espírito chamado Airton Senna, mas que esse nome
se refere à personalidade provisória que um determinado Espírito
vivenciou na Terra. E, se após a desencarnação, o Espírito ainda
acreditar que é o Airton Senna, isso significa que ainda está preso
ao ego e, portanto, não readquiriu sua consciência humanizada
plena. Assim, mesmo que ele se manifeste em um centro espírita
e diga que morreu antes da hora, uma informação que contradiz
os ensinamentos do Espírito Verdade, ela não deveria ser aceita,
pois seria uma informação “não-doutrinária”.
E, através da Apometria, já presenciamos vários casos de Espí-
ritos iludidos pelo ego que acreditavam nesta história e muitos
foram esclarecidos através de uma simples regressão de memória
para o momento em que escolheram seus gêneros de provas. Em
questão de minutos, quando tomaram essa consciência, con-
firmaram que estavam enganados. É importante ressaltar que
estamos apresentando essa informação enquanto uma teoria, pois
estamos nos baseando nos relatos dos médiuns incorporados ou
videntes que atuaram durante as experimentações.
O caso a seguir aborda o atendimento de um desencarnado que
havia vivenciado o ego de um policial militar assassinado por um
bandido. Ao ser evocado, rapidamente se manifestou no trabalho
com muita ansiedade, através de uma médium de psicofonia. Ele
havia “morrido antes da hora”, segundo seu ponto de vista, e estava
desesperado porque seus filhos eram pequenos e ele precisa
cuidar deles. Conversamos com ele, tentando acalmá-lo e per-
44 Adilson Marques

guntamos se ele tinha Fé em Deus. Ele respondeu que sim. Em


seguida, perguntamos se ele achava que Deus abandonava qual-
quer um de seus filhos. Mais calmo, ele nos disse que não. Aí
dissemos para ele: então você acha que Deus abandonará os Espí-
ritos que encarnaram para viver como seus filhos?
Ele ficou pensativo e como nada dizia, aproveitamos o mo-
mento para lhe perguntar se aceitava fazer uma regressão de
memória para se lembrar do gênero de provas que havia solicitado
antes de encarnar.
Com a sua concordância, demos um comando para que se
lembrasse do momento em que escolheu o gênero de provas para
ser vivenciado na Terra e quando aceitou vivenciar o papel de pai
daqueles que encarnariam como seus filhos. Alguns segundos se
passaram e ele começou a chorar e pediu perdão a Deus pela falta
de Fé e falou que os Espíritos que vieram como filhos dele sabiam
que precisariam ficar órfãos ainda na infância. Essa experiência
fazia parte dos resgates que aceitaram vivenciar na Terra. Ou seja,
após esse esclarecimento, aceitou a ajuda e compreendeu que a
Lei de causa e efeito não pode ser derrogada pelos nossos atos e
nem por um bandido. Portanto, ninguém morre antes da hora, seja
por “bala perdida”, seja por assassinato e até mesmo por suicídio.
Ele compreendeu que vivenciou o papel de policial e que cada
Espírito humanizado recebe o que realmente necessita e merece
em cada segundo de sua vivência na Terra, em função do gênero
de provas e expiações que o mesmo solicitou. Esse caso demonstra
como a Apometria não vai de encontro aos ensinamentos contidos
na Doutrina Espírita, como afirmam alguns espiritistas.
Por mais difícil que seja esse momento de transição da Terra
de “mundo de provas e expiações” para de “regeneração”, com
resgates e expiações difíceis de serem compreendidos por nosso
ego, a Lei de causa e efeito não foi abalada e continua regendo
nosso cotidiano, onde temos o livre arbítrio, após a encarnação,
de vivenciar nossas provas com amor incondicional (Bem) ou com
egoísmo e orgulho (mal), mas não a de alterar os atos materiais já
previstos em nosso “livro da vida”.
Com base no que escrevemos acima, podemos concluir este
capítulo afirmando que o Espírito não evolui, liberta-se! Ou seja,
se o Espírito foi criado imagem e semelhança de Deus, ele nunca
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 45

poderia ter sido criado impuro, ignorante, selvagem etc. Nesse


sentido, também não existem Espíritos “superiores” ou “infe-
riores”, pois todos são iguais.
O preto-velho pai Joaquim de Aruanda costuma utilizar uma
metáfora. Os Espíritos puros seriam como lâmpadas de cem watts.
Porém, humanizados, uns pareceriam brilhar mais que os outros.
Essa diferença seria motivada pela sujeira que os envolve, em
suma, seu vínculo ao ego.
Porém, o leitor pode estar se perguntando: se o Espírito é
perfeito e puro por que nos deparamos com tanto orgulho e egoís-
mo? Para responder a essa questão vamos imaginar, primeira-
mente, um escultor diante de uma coluna de mármore. Dentro
daquela coluna está uma bela estátua de Apolo. E como o escultor
vai “libertar” esta imagem? Esculpindo e lapidando a pedra até
que a estátua fique pronta. Ou seja, ele não colocou a imagem
dentro do mármore, mas foi, gradativamente, tirando o excesso
de massa que nos impedia de contemplá-la. É isso o que acontece
com o Espírito humanizado que vive nos chamados mundos de
“provas e expiações”, os mundos nutridos pelo egoísmo, como é o
caso atual da Terra. O Espírito puro e perfeito foi envolvido por um
campo energético exterior a ele que chamamos aqui de ego. Ao
longo das encarnações, o Espírito eterno e puro vai aprendendo a
se libertar desse agregado sempre que usa a única ferramenta
capaz de libertá-lo: o AMOR universal ou incondicional.
Em outras palavras, ele não precisa evoluir, mas libertar-se do
agregado que impede a manifestação de sua Luz divina, já que ele
é a imagem e a semelhança de Deus. Viver com habilidade espiritual
é deixar os atributos do Espírito presentes em sua vida cotidiana.
Por isso, como enfatizamos, para a Animagogia não importa o
ato exterior praticado pelo Espírito preso ao ego. Se nesse ato não
houver uma intenção amorosa, não se usou a ferramenta necessá-
ria para arrancar mais um pedacinho desse agregado que o prende
nos mundos de provas e expiações. Em suma, apenas o amor
liberta o Espírito, não importando a forma como o mesmo vai se
manifestar no mundo fenomênico. Por isso Jesus é considerado o
caminho para a libertação do ego, pois vivenciou o amor universal
em todos os seus atos, inclusive quando foi necessário expulsar
os vendilhões do Templo.
46 Adilson Marques

Nesse sentido, podemos nos perguntar: a Apometria é um


tratamento para curar o Espírito? Se o Espírito foi criado puro e
perfeito é sinal que não existe Espírito doente ou enfermidades
nele. Em suma, o Espírito não necessita nem da Apometria e nem
de outras técnicas como as essências florais, o reiki, a meditação
etc. Mas só vamos compreender isso quando distinguirmos o
Espírito eterno do ego, nossa consciência provisória criada para
cada encarnação. Há um aforismo oriental, nas Upanishads, que
nos ajuda a compreender essa distinção:
Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho, o ego
e o Eu, intrinsecamente ligados, coabitam; o primeiro ingere os
frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê em
seu distanciamento.
Em outras palavras, podemos dizer que durante a nossa vida
humanizada só tomamos conhecimento das verdades criadas pelo
ego. Os pensamentos, as emoções, as percepções e sensações que
vivenciamos na Terra são criações do ego e não do Eu (o Espírito
humanizado). Este apenas assiste a interpretação que o ego está
encenando na Terra e pode, em função de seu livre-arbítrio, ema-
nar AMOR ou não para o universo e demais Espíritos humanizados
(também presos ao ego e vivenciando outros gêneros de prova).
Mas quem está passando pelas vicissitudes negativas ou positivas
da vida humanizada, ou seja, está se alimentando dos frutos doces
e azedos da árvore da vida é sua consciência provisória que se
chama Paulo, José, Maria, Pedro etc.
A Apometria, neste contexto, não vai curar o Espírito ou a
Individualidade que reencarna durante a fase humanizada, já que
neles não há condições de surgir desequilíbrio ou qualquer tipo
de desarmonia. O Eu superior ou a Individualidade, que chamamos
de ser incorpóreo, vibra na Noosfera, acima da Psicosfera, e seria
formado pelas dimensões energéticas ou vibratórias que a Teo-
sofia identifica entre os “corpos superiores”: o búdico e mental
superior.
Enquanto vivenciamos a fase humanizada do Espírito estamos
sempre predispostos a acreditar nas ilusões criadas pelo ego.
Quando isso acontece é como se uma represa se formasse impe-
dindo a descida da energia dos planos superiores. Assim, podemos
deixar de amar universalmente, perdendo, também, nossa paz
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 47

interior. Por acreditar nas sensações e percepções criadas a partir


do mundo ilusório, nossa consciência provisória pode criar apegos
ou aversões aos fatos materiais, sentimentais ou culturais da vida
humanizada, e nos impedir de amar incondicionalmente. Este
processo desarmoniza os corpos “inferiores”: o físico, o duplo
etérico, o astral e o mental inferior, utilizando aqui a nomenclatura
da Teosofia. Daí a Apometria ser um útil instrumento para ajudar o
Espírito desencarnado a se desligar dessa ilusão e a resgatar sua
paz interior e felicidade, já presentes em sua essência, além de
sua consciência humanizada plena, necessária para que possa
escolher outro gênero de provas.
48 Adilson Marques

CAPÍTULO 3

ANIMAGOGIA E ESPIRITISMO:
UM ESTUDO COMPARATIVO
NO ÂMBITO DAS CIÊNCIAS DO ESPÍRITO

A Animagogia, como já salientado, é hoje considerada uma


cosmovisão que apresenta uma interpretação sobre o Homo spiri-
tualis, em outras palavras, que compreende que somos Seres
espirituais passando por experiências humanizadas. E neste capí-
tulo vamos abordar alguns ensinamentos básicos da doutrina
espírita e compreender como os mesmos são tratados na ótica da
Animagogia, pois ainda há pessoas que confundem as duas pers-
pectivas. O enfoque da Animagogia, proposto originalmente em
2003, ainda é muito recente e pode ser classificado no campo do
Universalismo espiritualista, que engloba também o Espiritismo,
sem negar outras abordagens psicosóficas.
Em alguns momentos, os ensinamentos do Espiritismo e da
Animagogia são os mesmos ou complementares. E vamos começar
este estudo comparativo pela pergunta que abre O livro dos Espí-
ritos: o que é Deus? A resposta transmitida pelo Espírito Verdade
parece simples, mas dá margem para muitas interpretações: “é a
inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”. En-
contramos diferentes interpretações para esta resposta em livros
espiritistas. Em alguns casos, os interpretes consideram a ex-
pressão “inteligência suprema” como onisciência e “causa primária
de todas as coisas” como sinônima de onipotência. Alguns in-
terpretam que Deus criou o Universo e suas leis e se retirou do
mundo deixando o Espírito “evoluir” através de seu livre-arbítrio.
Porém, apesar das discussões calorosas para se compreender Deus,
o próprio Espírito Verdade afirma na questão 10 de O Livro dos
Espíritos que os encarnados não possuem o sentido necessário
para compreender Deus e, na questão 14, que o mais importante
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 49

seria aceitar que Deus existe, mas deixar de lado qualquer sistema;
e que o ideal seria nos preocuparmos com as nossas imperfeições,
ao invés de querer penetrar no que é impenetrável.
Na Animagogia, Deus também é pensado enquanto “inteli-
gência suprema e causa primária de todas as coisas”. E, neste caso,
tanto das coisas que nos agradam como também daquelas que nos
desagradam. E as coisas que nos desagradam seriam criadas por
Deus não para nos punir ou como castigo, mas apenas para que
aprendamos a purificar o coração, amando incondicionalmente.
O mesmo ensinamento se encontra no Tao Te Ching, no qual Lao
Tsé afirma que ser benevolente com os amigos é fácil. O importante
é ser benevolente com todos.
Ou seja, na Animagogia, ao se compreender que Deus é a “causa
primária de todas as coisas”, procura-se parar de julgar ou de culpar
outro ser humanizado (seja este encarnado ou desencarnado) pelo
que nos acontece. Da mesma forma, o orgulho e a vaidade também
devem ser deixados de lado quando se compreende que tudo
aquilo que conquistamos na vida (casa, emprego etc.) também foi
o fruto da “causa primária”. Da mesma forma, ter essa compreen-
são seria importante para deixarmos de lamentar ou de nos fazer
de vítimas quando algo que não está de acordo com a nossa von-
tade acontece.
A Animagogia enfatiza que ao invés de acusar o governo, a religião
rival, os pais, o bandido etc. de não terem feito a coisa “certa”, já
que Deus seria a “causa primária de todas as coisas”, enfatiza o valor
do perdão, de não se ofender e compreender que a pessoa que nos
fez algum “mal”, não deixou de ser um instrumento nas mãos de
Deus, mesmo que inconscientemente. Este ensinamento da Anima-
gogia vem ao encontro do que também ensinava Mahatma Gandhi.
Este, por exemplo, costumava dizer que Deus estava em todas as
coisas, tanto na arma de um bandido, como no bisturi de um médico,
mas quem mataria ou salvaria uma vida seria Deus e não o bandido
ou o médico. Esses seriam instrumentos da qual Deus se utilizaria
para fazer com que cada um apenas receba o que necessita e merece,
respeitando o livre-arbítrio exercido na escolha do gênero de provas
pelo ser incorpóreo.
Nesse sentido, ninguém morreria antes da hora, o que também
é ensinado pela Doutrina Espírita na questão 853 de O livro dos
50 Adilson Marques

Espíritos. Mas é comum encontrar espiritistas afirmando o con-


trário, ou seja, que alguém poderia tirar a vida encarnada de outro
ser humanizado antes da hora, interpretando a frase “somente
Deus teria permissão para tirar a vida de alguém” não de forma
absoluta como faz a Animagogia. Ou seja, para a Animagogia,
quando o Espírito Verdade diz para Kardec essa frase, significa que
ninguém consegue cometer essa ação se não houver a permissão
divina e não que a pessoa que faça isso esteja cometendo um
“erro”, pois estaria entrando em contradição com a Lei maior.
A Animagogia, assim como as principais correntes hinduístas,
compreende que há uma fatalidade nos atos materiais. Como no
exemplo acima, a arma de um bandido, em tese, só vai “matar”
alguém se estiver na hora daquela pessoa morrer e o médico vai
“salvar” aquele paciente que ainda precisa permanecer encarnado,
pois sua hora de partir da Terra ainda não teria chegado. E, não
importando se um ato é “positivo” ou “negativo”, para que ele
aconteça se faz necessário um instrumento. Assim, a justiça divina,
segundo tais Psicosofias, aconteceria a cada segundo, onde cada
um receberia o que necessita e merece, de acordo com o “gênero
de provas” escolhido antes de encarnar ou em função do apren-
dizado que deseja vivenciar.
E com base em outras respostas fornecidas pelo Espírito Ver-
dade a Kardec, a Terra é um mundo de intencionalidade e não de
ação. Frequentemente, o Espírito Verdade responde para Kardec
que Deus julga a intenção e não os fatos (como acontece na
questão 747). Curiosamente, hoje em dia, com o esfacelamento
da crença positivista na materialidade do mundo, e com a ciência
holonômica aceitando que a realidade material seria uma forma
de matrix ou de projeção de um mundo implícito, sendo,
essencialmente, um campo de vibrações energéticas, alguns
pensadores já começam a aceitar que sobra como Real apenas a
intenção, ou seja, a atitude e os sentimentos com os quais esse
“mundo ilusório” ou maya, segundo os hinduístas, será vivenciado
por nós. Mas vamos aprofundar essa questão adiante ao abordar o
livre-arbítrio na ótica da Animagogia.
Dentro desta perspectiva, para a Animagogia, o Bem significa a
vivência do amor universal, enquanto o “mal” é o agir motivado
pelo egoísmo. Essa também é a perspectiva dos ensinamentos de
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 51

Krishna para Arjuna na Baghavad Gita e de Lao Tsé no Tao Te Ching.


E esta deveria ser a visão espiritista, uma vez que, o chamado
Espírito Verdade afirma que o maior dos males da humanidade é
o egoísmo, na questão número 913 de O livro dos Espíritos. Assim,
não deveria importar a forma material como o egoísmo se mani-
festa, mas cortar esse mal pela raiz. Porém, é importante salientar
que na Animagogia o Espírito não é egoísta e nem o ser incorpóreo
(alma humanizada). O egoísmo está na personagem criada para
mais uma aventura encarnatória. O ego seria um agregado ao
Espírito e a prova deste consiste em ser mais forte que aquele, não
se deixando levar ou se iludir pelas verdades relativas do ego.
Obviamente que o Espírito, em sua fase humanizada, enquanto
não possui muita experiência de vida, cede com mais facilidade
às tentações do ego e não passa na prova escolhida, solicitando
novas encarnações.
A Animagogia, assim, enfatiza que a intenção é o que importa
e não os fatos, centrando suas práticas espiritualistas contra o
egoísmo e não em seus “efeitos” (aborto, assassinato, vícios etc.),
deixando a causa livre para se manifestar por outros caminhos. Para
a Animagogia, uma lei humana pode até proibir o aborto, o uso de
armas etc., mas o egoísmo continuará a se manifestar enquanto
ele for o sentimento predominante na Terra. Em outras palavras,
os atos exteriores não são “bons” ou “maus” em si mesmos, pois
são criados pela “lei de causa e efeito”, mas para o ser humanizado
encarnado ou desencarnado o que conta sempre é a intenção como
eles foram vivenciados. Por exemplo, um prato de comida pode
ser dado para quem passa fome tanto com amor ou com egoísmo
(desejo de aparecer, de se mostrar caridoso etc.).
E como “causa primária de todas as coisas”, Deus (e aqui não
importa o que é Deus e como Ele age) já saberia, antecipadamente,
quem daria o prato de comida e quem receberia, mas nos deixaria
sempre livre para escolher a intencionalidade, o sentimento com
o qual vivenciaremos aquele ato: o amor ou o egoísmo.
Para a Animagogia o Bem e o “mal” não se encontram no mundo
exterior, pois este seria criado por Deus, a “causa primária de todas
as coisas”. Na questão número 04 de O Livro dos Espíritos, o Espírito
Verdade responde para Kardec que se procurarmos a causa de tudo
o que não seja obra do homem encontraremos Deus. E o que o
homem pode fazer como co-criador do Universo?
52 Adilson Marques

A resposta, na ótica da Animagogia, é a seguinte: Se Deus é a


causa primária de todas as coisas, isso é para não acontecer injus-
tiças. Se coubesse ao ser humanizado encarnado criar os atos
materiais, não haveria respeito ao livre-arbítrio exercido antes da
encarnação. Assim, ao ser humanizado encarnado cabe emanar a
essência energética de toda criação. Em suma, emanar senti-
mentalmente amor ou não-amor em seus atos. Aquele que emana
energia amorosa será o escolhido para ser o instrumento daquele
que merece receber amor e aquele que emana energia egoísta
será também o escolhido para levar essa energia para quem, por
“carma”, merece recebê-la.
Assim, estaríamos a cada momento, a cada segundo, recebendo
a energia que merecêssemos naquele exato momento para não
haver injustiças. Mas teríamos também o livre-arbítrio para plantar
aquilo que será colhido merecidamente no futuro. Ou seja, a cada
segundo da existência humanizada e encarnada estamos colhendo
e plantando simultaneamente. O mundo material é como a ponta
de um imenso iceberg ou, como ensina a Animagogia, o palco onde
acontece a encenação, sem que possamos ver ou interagir com o
que os contrarregras estão fazendo atrás do palco para que o
espetáculo aconteça perfeitamente.
Em outras palavras, se não podemos mudar o que acontece hoje
conosco, poderíamos mudar o que vai acontecer no futuro. Para
tanto seria necessário mudar o nosso padrão energético ou sen-
timental no presente, nos atos que acontecem nesse exato mo-
mento. Mudando a energia mantenedora de todos os atos e acon-
tecimentos, que constituem a parte oculta de um iceberg, altera-
se também a parte visível. Um exemplo para ilustrar esse ensi-
namento é o seguinte: uma pessoa que “atrai” sempre um tipo de
parceiro. Quando isso acontece, significa que um ensinamento
está presente. E não importa quem seja o ser humanizado com que
vai se relacionar, todos terão aquele mesmo padrão de comporta-
mento. Porém, quando a pessoa muda interiormente, aquele
padrão deixa de ser necessário. É como se tivesse passado de fase
em um videogame. A partir daquele momento começam outras
provas, provavelmente mais difíceis e outras pessoas passam a ser
“atraídas” para aquele novo cenário, com outro padrão de com-
portamento.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 53

Além dos ensinamentos do Espírito Verdade, que formam a


base da doutrina espírita, enfatizando que é a intenção que Deus
julgará e não os fatos, pensamento compartilhado pela Animago-
gia, encontramos um ensinamento similar na Bíblia, em Pro-
vérbios 16.9, onde se lê: “o coração do homem traça o seu ca-
minho, mas o Senhor lhe dirige os passos”. Ou seja, em função
do sentimento emanado pelo coração (ser humanizado encar-
nado), Deus criaria os atos materiais necessários. Assim, a pessoa
que emana amor, teria essa energia sentimental canalizada por
Deus para quem merecesse recebê-la; e aquele que emana ódio
também teria essa energia direcionada por Deus para quem
também a merecesse.
E para a Animagogia, nesse caso, em nenhum momento Deus
estaria castigando, mas apenas fazendo “justiça”, uma vez que, em
tese, tudo aquilo que emanamos para o Universo tem que voltar
necessariamente para nós. Ou como afirmou Paulo: a “plantação
é livre, mas a colheita obrigatória”. Assim, para a Animagogia, cada
um só recebe, a cada segundo, aquilo que “necessita e merece”, a
partir da energia (sentimento) que emanou de seu coração.
Essa seria a interpretação animagógica para os chamados “res-
gates cármicos”, pois só existiria uma única Vida, a do Espírito, mas
esta se processa ao longo de várias fases e, na fase humanizada,
através de várias encarnações, cada uma com uma personagem
criada voluntariamente visando um aprendizado ou provar, a si
mesmo, e a mais ninguém, que seria possível vencer a materia-
lidade do mundo, ou seja, o ego.
E, segundo a Animagogia, também uma energia não amorosa
emitida em outra existência poderia voltar para o mesmo Espírito
na atual. A colheita seria sempre obrigatória, não importando o
momento em que ela ocorre. Não existiria, assim, a ideia de acaso
em nossas existências na Terra, que ainda seria um “mundo de
provas e expiações”. E cada país, com suas características naturais
e culturais, é um palco para determinadas provas, semelhante a
uma quadra esportiva. Da mesma forma que não se joga basquete
em uma quadra de vôlei e vice-versa, necessitando, cada esporte,
de uma quadra adequada, o mesmo aconteceria para a provação
do ser incorpóreo. De acordo com a provação escolhida, um ou
outro país se torna o mais adequado para tal prova.
54 Adilson Marques

Por isso, colocar amor ou não em nossos atos é o papel que


caberia a nós na co-criação do “mundo ilusório” ou da Matrix na
qual estamos vibrando com nosso corpo físico e nosso ego, lem-
brando que o corpo físico é uma projeção do ego, da personalidade
criada para mais uma encarnação. E todo o resto seria o fruto do
trabalho de Deus, que não sabemos o que é e como age, mas que
não para um só segundo de criar, apesar de não assinar nenhuma
de suas obras, nos dando o livre-arbítrio para pensar que somos
um instrumento para a prova do outro ou se somos os responsáveis
por aquela ação, independente de qual seja, estimulando em nós
o orgulho ou a vitimização.
Em suma, compreender que Deus é a causa primária de todas
as coisas, seria, para a Animagogia, aceitar que nossos atos sempre
serão guiados por Deus para que cada um possa receber sempre,
a cada segundo, o que necessita e merece, positiva ou negati-
vamente. E seríamos sempre um dos instrumentos necessários
para Deus criar a “prova” ou a “expiação” de outro ser humanizado
encarnado. Mas, por existir o livre-arbítrio, teríamos sempre a
opção de escolher ser um “instrumento amoroso” ou não, de
acordo com a intenção que manifestarmos em nosso coração.
Aquele que tem a intenção de ajudar o próximo será levado até
aquele que precisa de ajuda. Da mesma forma, aquele que deseja
prejudicar o próximo, também será um instrumento para aquele
que necessita, por “razões cármicas”, ser prejudicado, naquele
momento. Por exemplo, um ladrão sai de casa com a intenção de
roubar. Mas a vítima, por alguma razão, precisava passar por aquela
experiência, seja para aprender sobre o desapego ou outro apren-
dizado qualquer. Neste exemplo, a vítima colheu o que plantou e
o ladrão, apesar de ter sido um instrumento para o carma negativo
de alguém, colherá no futuro os frutos dessa ação, não pelo ato
em si, mas pela intenção.
Para se libertar dos “carmas negativos” que estão sendo pro-
cessados e que nos aguardam no futuro, é necessário mudar no
presente o sentimento emanado. Para “enxugar o carma” haveria,
segundo a Animagogia, apenas dois caminhos: o suor do amor ou
as lágrimas da dor. Nesse sentido, não adiantaria nada lamentar o
ato que acontece agora, neste exato momento. Seja ele positivo
ou negativo, é o que tinha que ser. Não tinha como ser diferente.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 55

Mas, a partir da energia emanada nesse momento, uma ação ma-


terial (carma) estaria sendo processada para acontecer no futuro.
Em outras palavras, dentro desse ponto de vista, uma enfermidade
que atinge hoje o corpo físico devido a um tipo de pensamento ou
emoção pode desaparecer amanhã se aquele mesmo pensamento
ou emoção se extinguir ou for trocado por outro mais amoroso
diante da existência.
O preto-velho pai Joaquim de Aruanda, em uma de suas pales-
tras públicas, afirmou que Deus já sabe o que acontecerá conosco
nos próximos 5 mil anos. É como se um destino já estivesse sendo
traçado por nossas intenções, seja individual ou coletivamente, e
vai se refletir em nossas futuras encarnações humanizadas, até que
essa fase seja vencida.
Para ilustrar o ensinamento acima, vamos exemplificar com um
atendimento de Apometria para um senhor que é ortopedista e
cujo irmão faleceu com quase todos os ossos do corpo quebrados.
Este parecia ter os ossos de vidro de tão frágeis. Na sessão apareceu
a seguinte informação: ambos, em uma vida passada, trituravam
os ossos de seus inimigos. Não ficou claro se era em guerra ou outra
situação. Porém, entre os dois havia uma diferença. Enquanto um
já tinha um amadurecimento para “pagar” essa “dívida cármica”
com amor, consertando ossos, o outro ainda precisava pagar pela
dor, sentindo na pele, ou melhor, nos ossos, o que fez com outras
pessoas. É como se a lei mosaica e a lei cristã andassem juntas.
Aquele que precisa passar pelo “olho por olho, dente por dente”
para aprender uma lição, passará. E aquele que tem condições de
fazer o trabalho oposto para pagar seus débitos também. É o caso
do ortopedista atendido na Apometria.
Em outras palavras, para a Animagogia, por trás de toda ilusão
material, não existiria o “certo” ou o “errado”, mas apenas o fluxo
da justiça e da sabedoria providencial se manifestando tanto nas
menores como nas maiores coisas, numa ação contínua, mesmo
quando não conseguimos perceber ou conceber tal Realidade, pois
nos faltaria, como afirma também o Espírito Verdade, na questão
10 de O Livro dos Espíritos, um sentido para compreendermos a
natureza íntima de Deus e como Ele agiria nos bastidores da vida
humanizada encarnada e também desencarnada, na qual as prá-
ticas animagógicas também atuam, por exemplo, através das técni-
56 Adilson Marques

cas apométricas, uma de suas principais práticas complementares


de saúde.
Neste caso, sempre se procura enfatizar que mesmo não tendo
como se livrar de uma possível fatalidade, sempre temos o livre
arbítrio para passar por ela com amor ou com revolta; com bene-
volência e perdão ou com o desejo de vingança. A liberdade moral
está sempre presente em nossas vidas, afirma tanto a doutrina
Espírita como a Animagogia. E aqui reside o verdadeiro sentido do
livre-arbítrio. A fatalidade só existe nas provas materiais. Assim,
ninguém está fadado a uma existência apenas de infelicidades,
uma vez que a felicidade é um atributo do Espírito e este pode
escolher ser feliz, mesmo diante de uma vicissitude negativa.
Enfim, como afirmam vários pensadores: “experiência não é o que
acontece conosco; mas o que fazemos com aquilo que acontece
conosco”.
É por isso que nos atendimentos de Animagogia com os seres
humanizados, encarnados ou desencarnados, sempre se enfatiza
que são trazidos para os atendimentos aqueles que merecem o
socorro e a equipe que atende só faz aquilo que deve ser feito, ou
seja, são também instrumentos. Só é possível resgatar do Umbral,
por exemplo, um ser desencarnado que já tenha merecimento.
Daí a necessidade de sempre emanar amor e não se contaminar
com as ilusões egoístas de achar que está curando ou fazendo algo
grandioso, o que abriria brechas para a fascinação e o orgulho.
E essa confiança nos “desígnios de Deus” aumenta, segundo a
Animagogia, quando se compreende que só há dois elementos
gerais no Universo, o assunto do capítulo II de O Livro dos Espíritos,
principalmente, a partir da questão 27. Um deles é o princípio
material, o chamado “fluido cósmico universal”, hoje em dia cha-
mado também de “energia cósmica universal” ou “energia escalar”,
segundo Tesla. O outro elemento, em tese, é formado pelo prin-
cípio inteligente do universo, de onde se originariam os Espíritos.
E, acima de tudo, Deus, o criador de todas as coisas.
Este ensinamento espírita costuma ser interpretado como dua-
lista, pois haveria dois elementos: o que origina a matéria e o que
origina os Espíritos. Porém, Deus é o criador de ambos, logo, esse
dualismo é relativo, porém, importante. Esse dualismo faz com
que o Espiritismo se aproxime do racionalismo cartesiano e se
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 57

afaste das abordagens próprias do empirismo e do idealismo


filosófico que voltou à moda nas últimas décadas.
Para o empirismo, de forma geral, a matéria é real e a vida surgiu
por acaso. Todos nós nasceríamos como uma tabula rasa e através
das percepções captadas pelos sentidos, o cérebro seria impres-
sionado. As ideias ou o pensamento seriam frutos de tais per-
cepções impressas no cérebro. O empirismo é uma filosofia emi-
nentemente materialista, daí afirmar que a consciência é um
epifenômeno do cérebro e vai desaparecer com a morte. Por outro
lado, o idealismo é radicalmente oposto. Vai postular que a matéria
é uma projeção da consciência. Assim sendo, tudo o que pensamos
se transforma em realidade. Essa filosofia que foi praticamente
destroçada pelo positivismo, no século XIX, voltou com força nas
últimas décadas junto com uma interpretação equivocada da Física
Quântica. No campo espiritualista, o pensamento idealista se
manifesta nos livros do suposto Espírito Saint Germain. Este chega
a afirmar que é possível, pelo poder da mente, dormir em um corpo
de um homem negro africano e acordar no corpo de uma mulher
loira e alemã ou que seus adeptos não precisam frequentar aca-
demia para ficar “sarados”. Bastaria pensar para ter o corpo que
desejam. Os idealistas também afirmam que o ser humano só não
voa porque não acredita. Bastaria pensar para sair voando. Ou que
o veneno só mata quem acredita.
Como salientamos, o Espiritismo se aproxima do racionalismo
cartesiano, compreendendo que há uma separação entre o
Espírito e a matéria. Durante a encarnação é quase impossível
separar o que provém de um e de outro, afirma Descartes, mas
seria um fato a sobrevivência do Espírito após a morte física.
Através de seu método, Descartes vai concluir que Deus existe,
o Espírito existe e a matéria também existe. Dessa forma, ele
rompe com o empirismo para quem o Espírito seria uma ilusão
dos sentidos e também com o idealismo, para quem a matéria
não passaria de uma projeção mental.
Para a Animagogia, a matéria existe e tem uma finalidade pro-
videncial: ser o palco para as provações do Espírito. Mesmo que
ela não tenha substancialidade e nem seja permanente, como
afirma o Budismo, e de certa forma a Física Quântica, não basta
pensar para separar o hidrogênio do oxigênio em uma molécula
58 Adilson Marques

de água, por exemplo. Mas existe uma relação intima entre o


Espírito e a matéria, uma vez que diversas enfermidades podem
surgir e desaparecer com a força do pensamento e dos senti-
mentos. Nessa troca constante entre as forças do Espírito e a
matéria, surge o trabalho humano de transformação da natureza
e de construção de cidades, por exemplo. Mas tudo isso não acon-
tece de forma casual. Há um planejamento transcendental para a
“evolução” de cada Orbe, de acordo com o objetivo de cada um. A
Terra, por exemplo, ainda é considerada no meio espiritualista
como de “provas e expiações”, que são mundos onde a energia
que a nutre é o egoísmo. Daí a prova para o Espírito humanizado
que encarna nestes mundos ser vencer o ego, vencer o egoismo
predominante. Quem consegue vencer a prova se habilita para
viver nos mundos “superiores”.
Em resumo, se fosse possível nos desligar momentaneamente
dos órgãos de percepção que criam as formas materiais e as sen-
sações, por exemplo, deixaríamos de enxergar todos os objetos
que nos rodeiam e os ditos espaços vazios, para “enxergarmos”
apenas a energia cósmica ou escalar. Essa já é uma hipótese aceita
pela ciência materialista, após a famosa descoberta de Albert
Einstein: E=MC² (energia é igual a massa vezes a velocidade da Luz
ao quadrado), ou seja, que a matéria não passaria de “energia
coagulada”. Como salientamos, hoje em dia, a ciência acadêmica
já aceita que a energia é a base de toda matéria que existe, não
importando a forma como ela se manifesta. O Espiritismo, porém,
vai além dessa hipótese e afirma que imersos nesse campo ener-
gético se encontram os Espíritos, tanto os encarnados como os
desencarnados. E acima de tudo, Deus.
A única diferença neste ponto entre o Espiritismo e a Anima-
gogia é que está vai, dentro de uma perspectiva holonômica,
apresentar quatro dimensões. O chamado Espírito não encarna
e nem desencarna. Ele permaneceria vibrando em sua dimensão
real, chamada didaticamente de Logosfera. Quem encarna é a
Alma humanizada ou o Ser incorpóreo. Este vibraria em outra
dimensão chamada de Noosfera, que deriva da anterior. Por sua
vez, essa alma humanizada ou Individualidade, é que vai criar
uma personagem para vivenciar na Terra e encarnar. E tanto o
Espírito como a alma não adoecem. No máximo, ficam ador-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 59

mecidos durante a encarnação, sem que sua energia “desça” ou


inunde as dimensões inferiores, a mental (Psicosfera) e a física
(Biosfera).
Uma metáfora utilizada na Animagogia é uma recorrente no
Hinduísmo. Nela encontramos uma carruagem ligada a dois cava-
los. Segurando uma rédea, o cavaleiro conduz a carruagem. Esta
representa o corpo físico. Ela está ligada ao ego, representada pelos
dois cavalos: os pensamentos e as emoções. Se o cavaleiro que
representa o Espírito se ausentar, quem conduzirá a carruagem será
o ego. As rédeas representariam a alma humana que pode estar
mais forte ou fraca, de acordo com a energia que vem do Espírito,
o verdadeiro condutor.
Em suma, o corpo é alimentado pelo ego (pensamentos e emo-
ções). Mas o ego pode ser dominado pela alma (o ser humanizado),
que direciona o caminho a seguir. E a energia que abastece a alma
vem do Espírito, algo que é a imagem e a semelhança de Deus, e
que não é humana, mas se humaniza. Os atributos do Espírito são
o amor universal, a felicidade incondicional, a paz interior, a von-
tade etc. Esses atributos nunca deixam de existir, apenas podem
deixar de se manifestar, como se estivessem represados em algum
local, uma espécie de muralha da China ou de muro de Berlim entre
o ego e a Alma.
Para a Animagogia, a vontade, o pensamento, a imaginação,
a felicidade e a capacidade de amar são, como salientado acima,
atributos dos Espíritos. Assim, eles só precisam ser despertados
para inundar a vida cotidiana do ser humanizado e encarnado. A
Animagogia apresenta o conceito de “habilidade espiritual”, que
seria a capacidade de vivenciar a vida humanizada do Espírito,
seja enquanto desencarnado (na Psicosfera) ou de encarnado (na
Biosfera), através dos atributos do Espírito. Viver com habilidade
espiritual a vida humanizada é o caminho para vencer o ego.
De forma geral, tanto a Psicosfera como a Biosfera que nos
rodeia, incluindo as florestas, as construções e o nosso corpo físico
não passariam de “miragens” em um cenário uniforme de energia
cósmica. E isso se torna evidente, na questão 32, quando Kardec
pergunta: “diante disso, os sabores, os odores, as qualidades vene-
nosas ou salutares dos corpos não seriam mais que as modificações
de uma só e mesma substância primitiva?” E a resposta do Espírito
60 Adilson Marques

Verdade é: “sim, sem dúvida, e que não existem senão pela dis-
posição de órgãos destinados a percebê-los”.
Então podemos compreender que o Espírito Verdade transmitiu
para Kardec ensinamentos budistas, com outras palavras, obvia-
mente, e que também estão na estrutura metafísica da Anima-
gogia, lembrando que Buda, há mais de dois mil e quinhentos anos,
ensinava aos seus discípulos que o ego é composto por cinco
atributos responsáveis pela criação do mundo material ilusório. O
ego seria uma espécie de consciência provisória responsável em
fazer com que o Espírito encarnado tivesse percepções de algo que,
na essência, não existe: os sabores, os odores, as formas materiais,
as sensações, etc.
O problema disso tudo é que essa Matrix é a causa do nosso
sofrimento, pois nossa tendência é a de se apegar àquilo que
consideramos agradável, querendo que tal situação permaneça
eterna; ou ter aversão a tudo que acreditamos ser desagradável,
esquecendo que até as vicissitudes negativas da vida também não
são permanentes. E o Espírito Verdade ensina que “tudo está em
tudo” (questão 33), concluindo que o “Bem” e o “mal”, o “belo” e
o “feio” existem dentro de nós e não fora, onde tudo não passa de
ondas e vibrações energéticas. Para a Animagogia, apesar da maté-
ria existir e ter uma finalidade providencial, ou seja regras para o
seu funcionamento, ou seja, as lei naturais, ela existe na forma
como nosso ego foi programado para decodificar a manifestação
da energia cósmica universal. Por exemplo, pai Joaquim de Aruan-
da, um preto-velho que faz palestras em centros espiritualistas e
também na internet, costuma afirmar que existem as decodifi-
cações coletivas (caso contrário um enxergaria mesa onde o outro
enxergaria cadeira, apesar dessa ilusão ser facilmente estimulada
com a hipnose, como já tivemos condições de verificar em expe-
riências com essa técnica) e as decodificações individuais (fruto
do gênero de provas que cada um escolheu para passar), o que vai
fazer com que uns não tenham medo de sangue e outros des-
maiem ao ver o menor sinal desse líquido, por exemplo.
E o Espírito Verdade, na questão 22 de O Livro dos Espíritos,
afirma que existe matéria em estados que não percebemos. Ou
seja, existiria matéria que não produziria nenhuma impressão em
nossos sentidos. Enfim, essa seria a razão para não enxergamos a
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 61

vida em outros planetas do sistema solar, por exemplo, e também


os “corpos astrais” dos seres humanizados desencarnados que nos
rodeiam e interferem em nossa vida, quando há permissão. A
chamada quarta dimensão ou mundo astral, que aqui identifi-
camos como Psicosfera, onde vibram os corpos dos desencarnados,
engloba a terceira dimensão e praticamente é um mundo só,
devido à interação profunda entre elas.
Vou narrar um sonho para melhor esclarecer essa relação entre
a Biosfera e a Psicosfera. Eu sonhei que entrava em meu quarto e
via um baú dentro dele. Era um baú de madeira. Achei estranho
aquele objeto dentro do quarto e ele me chamou tanto a atenção
que, ao acordar, lembrei-me do sonho. Em uma reunião mediúnica,
contei o sonho para o pai Joaquim de Aruanda e ele me disse que
tinha um baú dentro do meu quarto. Curioso, perguntei o que ele
fazia lá. E a resposta foi a seguinte: nele estão guardadas as energias
de sua antiga companheira. Isso me intrigou ainda mais e perguntei
se não tinha como tirá-lo de lá. A resposta dele foi afirmativa.
Três dias depois, tive outro sonho. Eu estava em minha casa e
a campainha tocou. Minha mãe foi atender e gritou que o pai da
minha ex-companheira tinha vindo buscar as coisas dela. Nisso,
ele entra pela porta, passa por mim e se dirige para o quarto.
Depois volta com o baú nos ombros e vai embora. Detalhe: ele já
era falecido quando o sonho aconteceu.
A Animagogia, fundamentada em um ponto de vista holonô-
mico, ou seja, que o mundo explícito deriva de um mundo implí-
cito, considera ser ingênuo acreditar que a realidade consiste
somente naquilo que o nosso “olho” é capaz de enxergar. Nessa
perspectiva, o olho apenas recebe luz, pois quem cria as imagens
que vemos é o cérebro a partir de determinadas condições. O
cérebro é um redutor de realidade, pois deixa de considerar outras
informações sonoras, visuais ou olfativas que estão no espaço.
Alguns videntes que enxergam o mundo astral ou a chamada
“quarta dimensão” descrevem essas realidades que são capazes
de nos influenciar, sem que percebamos sua presença. Outros,
como no meu caso, dependem dos sonhos e da meditação para
interagir com ela.
Mas a diferença entre a terceira e a quarta dimensão, ou entre
a Biosfera e a Psicosfera, é apenas de grau. A Animagogia não
62 Adilson Marques

considera como Transcendente a Psicosfera. Transcendente seria


o mundo a partir da quinta dimensão, da Noosfera. Por não ser
uma realidade transcendente, seria possível interagir com mais
consciência com os seres desencarnados ao relaxar as ondas cere-
brais ou entrando em “estado alfa”. A quarta dimensão engloba a
terceira e é por isso que a mediunidade é possível. A mediunidade
é sempre entre os espíritos humanizados encarnados e os desen-
carnados. Para acontecer necessita do perispírito. O ser incorpóreo,
a Individualidade que vibra na Noosfera, não tem perispírito. Ele
pode se comunicar conosco por intuição, sonho ou outra forma não
racional, até porque uma parte nossa vibra também naquela di-
mensão, justamente a que escolhe os gêneros de prova.
Portanto, por mais maravilhoso que seja o cérebro humano,
esse pedaço de carne que não passa também de energia cósmica
em sua essência, teria sido programado por Deus, a causa primária
de todas as coisas, para decodificar algumas ondas visuais, olfativas
e sonoras que criam aspectos da realidade e não a Realidade. Em
suma, o cérebro seria um redutor de realidade; seria como um
transformador que faz com que a energia que sai de uma usina
hidrelétrica chegue até nossas casas com apenas 110 volts. Assim,
muitas ondas visuais, olfativas, sonoras etc. estão no universo, mas
não sensibilizam o cérebro e não se tornam reais para nós. Porém,
algumas pessoas, chamadas de sensitivas e também os médiuns,
seriam capazes de interagir com algumas dessas vibrações. Estes
enxergam e até ouvem o que os desencarnados que nos rodeiam
falam. Aqueles que não sabem lidar com essa situação paradoxal
são facilmente rotulados de esquizofrênicos.
Por isso, presos ao ego, nós acreditamos que a forma como a
vida é vivenciada na Terra é a única realidade possível no sistema
Solar e no Universo, esquecendo que essa “realidade” foi pro-
gramada para a experiência humanizada e encarnada que deve ser
aqui vivenciada. E como o nosso cérebro só consegue processar
determinadas ondas energéticas e não todas as que existem, se
nada enxergamos em outros planetas e nem mesmo os seres
humanizados desencarnados que nos rodeiam é porque nosso ego
não foi programado para criar tais percepções.
O Espiritismo afirma que os Espíritos, na questão 23 são impal-
páveis. Para nós, encarnados, eles não são nada. E na questão 88
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 63

encontramos a informação de que eles variam de cor, do escuro


ao brilho do rubi.
A Animagogia concorda com essa colocação, mas afirma que
essa cor se refere ao Espírito humanizado, ou seja, a alma, a Indivi-
dualidade que reencarna. O Espírito mesmo, que não é humano,
estaria em uma dimensão acima. Além disso, a Animagogia ensina
que existe um único mundo, e este é dividido em diferentes di-
mensões energéticas de forma holográfica, ou seja, o menor con-
tém o maior ou, como se diz mais popularmente, a parte contém
o Todo. Nesse sentido, tudo é espiritual. Não existiria um mundo
material de um lado e outro espiritual de outro. Tudo deriva do
mundo espiritual. Tudo provém do maior para o menor.
Partindo da nossa perspectiva como seres humanizados encar-
nados, não vemos os seres humanizados desencarnados, mas
estes nos rodeiam, enxergam o que fazemos, sabem o que pen-
samos etc. Eles vibram na quarta dimensão que foi chamada de
Psicosfera. Mas estes podem estar ainda iludidos pelo ego e por
isso não interagem de forma consciente com os seres incorpóreos,
ou seja, com o ator, com a Individualidade reencarnante que vibra
na Noosfera, a dimensão acima da quarta e que, conforme vai
adquirindo mais experiência e sabedoria, muda de cor, indo do
escuro ao brilho do rubi. Ao atingir a última fase desse videogame
chamado vida humanizada, vence essa fase e pode se preparar para
a fase seguinte do Espírito, que é chamada de Angelical.
Na questão 87 de O Livro dos Espíritos, fica evidente que os
desencarnados estão por toda a parte e há aqueles que estão ao
nosso lado nos observando e atuando sobre nós. Além disso, como
encontramos na questão 91, do mesmo livro, a matéria não
constituiria obstáculo a eles, que seriam capazes de penetrar em
tudo: o ar, a água e mesmo o fogo lhes são igualmente acessíveis,
informação também presente, por exemplo, no clássico Bhagavad
Gita.
Em suma, o mundo material seria o que os orientais chamam
de maya. Ou seja, uma espécie de ilusão ou uma miragem criada
por Deus para que nossas “provas e expiações” possam acontecer
enquanto permanecermos como seres humanizados encarnados,
pois, como afirma a questão 85, o “mundo espírita”, ou seja, o
mundo dos Espíritos, pré-existe e sobrevive ao mundo material.
64 Adilson Marques

Uma metáfora que costumo usar é a do “Big Brother”. Nós, os


seres humanizados encarnados, estaríamos confinados na “casa”,
enquanto os desencarnados acompanham tudo o que fazemos,
para o “Bem” ou para o “mal”. Ou seja, nada poderia ser feito do
“lado de cá” sem que ninguém ficasse sabendo. Enfim, nada passa-
ria de forma impune pelo olhar crítico ou compreensivo dos desen-
carnados. Mas estes também estão sendo observados por outros
que se encontram em uma dimensão acima, a Noosfera, muitas
vezes, sem essa noção. Daí acreditar que podem escravizar ou
interferir na vida de outros desencarnados ou de encarnados, sem
que houvesse a permissão para isso. Até os desencarnados são
instrumentos da ação divina, mesmo não tendo essa consciência. O
que só vai acontecer quando a Individualidade desperta.
E, o que é mais importante, mesmo em uma encarnação não
aproveitável, a individualidade apenas perde tempo. Jamais se
degenera. Ela pode estacionar, mas nunca retrogradar, afirma a
questão 118. Ou seja, mesmo que não dê nenhum passo em dire-
ção à cor do rubi, não tem como voltar à condição de sombra. E
Deus, a causa primária de todas as coisas, amaria a todos do mesmo
modo, inclusive os “extraviados” (questão 126).
Essa também é a Psicosofia de Krishna, presente no clássico
Baghavad Gita, e da Animagogia. De certa forma, essa concepção
faz com que alguns espiritualistas consigam ser benevolentes e
perdoam os “algozes”, uma vez que, pela lei de “causa e efeito”,
estes serão as “vítimas” de amanhã, assim como aquele que hoje
sofre “exclusão” ou tem seus “direitos” desrespeitados, deve ter
sido o “algoz” de alguém no passado. Enfim, quem acredita nesse
movimento da “justiça divina”, manifesto na Lei de causa e efeito,
tende a integrar e amar também o “inimigo”, processo defendido
por Jesus, mas que é muito mais fácil de ser praticado por quem
acredita em vidas sucessivas do que para aquele que acredita em
uma única existência.
Esse ensinamento de amar o inimigo, ou aquele que faz aquilo
que consideramos errado deve ser colocado em prática nos aten-
dimentos de Animagogia com os seres humanizados desencar-
nados, uma vez que são estes que são trazidos para serem socorri-
dos. Não é aquele que amou durante sua encarnação que é trazido,
mas aquele que agiu de forma egoísta, que desrespeitou o outro,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 65

mesmo que tenha sido, devido a esse sentimento, o instrumento


para a ação carmática negativa que o outro mereceu vivenciar.
Essa aceitação ativa das vicissitudes fica mais fácil de ser viven-
ciada quando compreendemos que não somos seres humanos
tendo experiências espirituais esporádicas, mas que somos Espíri-
tos eternos vivenciando uma experiência humanizada através da
encarnação. E por que necessitamos encarnar? Por que não fica-
mos no mundo dos Espíritos eternamente?
A resposta, segundo a Doutrina espírita, está na questão 115
de O Livro dos Espíritos: “para o nosso aperfeiçoamento espiritual”.
E se o objetivo é o aperfeiçoamento espiritual, o mundo feno-
mênico seria o palco desse aperfeiçoamento. Quanto mais o
Espírito “evolui”, na ótica espírita, mas feliz e amoroso se torna.
Porém, para a Animagogia, só é possível se tornar aquilo que já se
é. Ou seja, se seremos amorosos um dia é porque o amor já está
em nós, talvez adormecido. Se o único determinismo é sermos
felizes, isso significa que a felicidade já é um atributo do Espírito.
Apenas está adormecido.
Assim, na Animagogia, o Espírito adquire experiência e sabe-
doria de vida ao longo das encarnações, mas ele já é, essencial-
mente, feliz, amoroso, pacífico etc. Ele já foi criado com estes
atributos e, na fase humanizada, a que nos encontramos, o objetivo
é vencer o ego, a consciência provisória que nos afasta destes
atributos, estimulando o egoísmo. Quem é mais forte? O Espírito
ou o ego? Quando o Espírito perde uma partida para o ego, como
acontece em um jogo de videogame, ele quer jogar de novo. E,
assim, antes de encarnar, estuda um pouco mais, observa outros
que passaram por provações similares e pede uma nova expe-
riência encarnatória.
No plano espiritual, sobretudo, na Noosfera, encontram-se as
escolas. E a encarnação aqui na terceira dimensão, na Biosfera,
serviria para colocar em prática o que foi estudado naquela outra.
Em suma, a encarnação seria o momento das provas que são sem-
pre morais e não materiais. Por exemplo, o Espírito humanizado
não vai adquirir experiência estudando medicina, aprendendo
uma língua estrangeira ou passando a vida pintando quadros ou
escrevendo livros. Tudo isso não passaria de coisas materiais ne-
cessárias para a criação das provas. Assim, se tudo isso for feito
66 Adilson Marques

com amor e não por vaidade, aí sim o Espírito se desliga um pouco


mais do ego. Mais do que uma evolução, trata-se de um processo
de “iluminação” ou de despertar.
Nos exemplos acima, vai se dedicar à medicina quem se pre-
parou antes de encarnar para essa atividade. Assim como vai se
interessar por arte quem se preparou para ter uma personalidade
ou um ego artístico. Porém, o Espírito que encarna para viver o
papel de médico ou de artista só se aprimoraria espiritualmente
de acordo com o grau de amor colocado em suas atividades. Em
tese, o amor seria o termômetro que mediria o despertar do
Espírito.
Podemos fazer referência à parábola dos talentos, presente na
Bíblia, para esclarecer essa questão. É como se, a cada encarnação,
cada Espírito humanizado viesse com uma quantidade de talentos
(capacidade de amar em qualquer vicissitude, já adquirida em vidas
anteriores) e teria que aumentar estes talentos na vida atual,
vencendo o ego. Quanto mais talentos, mas sua cor se aproxima
do rubi.
Dentro dessa perspectiva, o médico salvaria quem mereceria
ser salvo e não conseguiria salvar aquele que estaria na hora de
desencarnar, pois Deus, como a causa primária de todas as coisas,
é quem definiria isso. Porém, o Espírito humanizado que viven-
ciaria o papel de médico teria sempre o livre-arbítrio para exercer
sua profissão com amor (servindo a Deus) ou visando apenas
dinheiro, vaidade etc. (servindo ao ego).
Essa perspectiva animagógica vem ao encontro do que também
ensina o Espírito Verdade ao dizer que passamos por provas que
Deus nos impõe. Mas, enquanto alguns aceitam essas provas com
equanimidade e amor, outros as suportam murmurando, perma-
necendo, assim, distanciados da perfeição. E, na questão 117 de O
Livro dos Espíritos, afirma que apressaríamos o nosso progresso
sendo submissos à vontade de Deus.
E o que seria, segundo a Animagogia, ser “submisso à vontade
de Deus”? Seria amarmos a situação vivida, não importando se a
mesma é prazerosa ou não, agradável ou desagradável, alegre ou
triste. Ou seja, seria agir com equanimidade diante de todas as
vicissitudes. Porém, Deus não cria situações desagradáveis por
sadismo, mas por respeitar o “gênero de provas” que nós mesmos
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 67

escolhemos antes de encarnar. Ou seja, a “vontade de Deus” é


realizar o nosso livre-arbítrio, fazer acontecer aquilo que pedimos
antes de encarnar. Em outras palavras, escolhemos um “gênero de
provas” e Deus cria as provas, usando sempre o sentimento ema-
nado por outros Espíritos humanizados para que todos recebam o
que necessitam e merecem, a cada momento de sua existência.
E esse processo vale para todos os acontecimentos, inclusive
nas práticas complementares de saúde. Manter a equanimidade
diante das vicissitudes positivas e negativas seria a atitude “per-
feita” e que permitiria viver a “felicidade prometida” desde já e
não em uma suposta vida futura. A felicidade dever ser vivida hoje,
no momento presente, pois é um atributo do Espírito. E para isso
basta se libertar das três raízes do sofrimento, que segundo o Buda
são: o apego e a aversão aos bens materiais, aos bens sentimentais
e aos bens culturais (que incluem as religiões).
Em nenhum momento a Animagogia faz apologia do sofri-
mento. Em nenhum momento afirma ser necessário “sofrer hoje
para ser feliz amanhã”. Uma coisa é ter que passar por uma vicissitu-
de negativa por “prova” ou “expiação”; outra seria sofrer por causa
disso.
A primeira pode ser considerada uma fatalidade, algo pro-
gramado para acontecer na vida humanizada do Espírito, mas a
segunda sempre será do âmbito do livre-arbítrio. Ou seja, após a
humanização e a encarnação, o Espírito pode optar em sofrer ou
em manter sua paz interior e felicidade mesmo diante de qualquer
experiência, por mais dolorosa que ela possa ser. Enfim, as vicissi-
tudes, positivas ou negativas, seriam criadas por Deus a partir do
“gênero de provas” escolhido pelo próprio Espírito humanizado
antes de encarnar. Mas, mesmo assim, podemos ser felizes não
importando o que acontece em nossa vida humanizada, desde que
aprendamos a ser “submissos” às vontades de Deus, lembrando
que a vontade dele seria realizar nosso livre-arbítrio, exercido
antes da encarnação.
Para a Animagogia, o mundo de “provas e expiações”, como
ainda é o caso da Terra, é um mundo de intencionalidade. Ou seja,
somos julgados por nossas intenções ou atitudes (ações interiores)
e não pelos atos exteriores praticados, pois estes seriam criados
por Deus, como já salientamos. E quem estaria preparado para fazer
68 Adilson Marques

este julgamento seria a nossa própria consciência, não a do ego,


mas aquela que escolhe, a que vibra na Noosfera.
E como já foi salientando, nesta perspectiva, aquele que pratica
o “mal”, ou seja, age motivado por egoísmo, terá que colher, mais
cedo ou mais tarde, nesta ou em outra encarnação, o fruto dessa
intencionalidade. Neste processo, teria a oportunidade de apren-
der a ser benevolente ou a não culpar o outro, aquele que foi
escolhido para ser o instrumento da “ação carmática” que ele
precisará viver ainda nesta existência ou em outra.
Esta seria a regra básica para se processar uma “encarnação”.
Por isso, a Animagogia considera ser equivocado acreditar que
vamos nos aprimorar espiritualmente adquirindo conhecimentos
do mundo material, que seria subordinado ao espiritual. Ou seja,
fazer uma faculdade, formando-se médico, engenheiro etc. servirá
para o nosso “aprimoramento espiritual” se nossa intenção for
“servir ao próximo”. Enquanto a intenção for egoística, todo esse
esforço que já estaria, em tese, escrito para acontecer, não teria
valor algum para o Espírito.
Aliás, vivenciei um fato curioso quando escrevi a primeira
edição do livro Educação após a morte, em 2003. Após o lança-
mento do livro, em uma reunião mediúnica na ONG Círculo de São
Francisco, perguntei para um Espírito que se identificava como Dr.
Felipe se ele tinha gostado do livro. Ele disse que o mesmo ajudaria
as pessoas que o lessem, mas para mim ele não teve nenhum valor.
Eu, sem entender, perguntei o porquê e ouvi como resposta: “você
o escreveu com orgulho”. Ou seja, poderíamos dizer que Deus já
sabia que eu seria o instrumento para escrever aquele livro, como
deve saber quantas edições o mesmo terá, pois Ele é a “causa
primária de todas as coisas”. Porém, eu teria sempre o livre-arbítrio
respeitado para escrevê-lo com amor ou com orgulho (egoísmo).
Naquela ocasião, como salientou corretamente o Dr. Felipe, eu
escolhi a segunda alternativa. Assim, eu deixei de praticar a
vivência do “não-saber” e da “não-ação”, duas das virtudes ensi-
nadas por Lao-Tsé no Tao Te Ching. O objetivo delas é trazer sim-
plicidade ao coração e nos capacitar para vivermos toda e qualquer
vicissitude com o mais nobre dos sentimentos: o amor. Quando
agimos com amor, purificamos o coração; quando agimos com
egoísmo, permanecemos estacionados. No exemplo acima, acre-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 69

ditei nas verdades criadas pelo ego e deixei o orgulho falar mais
alto, não percebendo que eu estava sendo apenas um instrumento
para escrever aquele livro. Krishna ensina o mesmo para Arjuna
na Baghavad Gita.
Talvez seja por isso que os verdadeiros mestres espirituais, de
todos os tempos, afirmaram que devemos sempre fazer o Bem
pelo “Bem”, ou seja, desinteressadamente. Porém, como ainda
costumamos fazer o Bem pelo “mal”, ou seja, motivados pelo
orgulho, pela vaidade etc., nos preocupamos com os frutos do
nosso trabalho e deixamos de nos aprimorar, sendo derrotados
pelo ego. Como salientamos acima, na Psicosofia de Krishna,
presente no clássico Baghavad Gita, encontramos a seguinte
afirmação: aquele que desconhece esse ensinamento, acredita que
ele é quem faz os atos materiais e, por isso, sente prazer ou sofre
por algo que não foi ele o real artífice.
Em suma, quando um ato que já estava escrito para acontecer
se realiza, e o vivenciamos interiormente com vaidade, com o
desejo de receber uma recompensa, seja na Terra ou no Céu etc.,
não o aproveitamos para o nosso aprimoramento espiritual. O
Espírito, ainda imaturo, foi derrotado pelo ego.
Enfim, sendo Deus a causa primária de todas as coisas, só vamos
nos aprimorar quando amamos o papel que Deus escolheu para
representarmos naquele momento. Enquanto estivermos iludidos
pelo ego, ao invés de amar a situação, ou seja, emanarmos amor
incondicionalmente, nós alteraremos prazer e desprazer com as
coisas que acontecem. Ou vamos nos orgulhar com aquilo que
acreditamos ter feito ou vamos nos lamentar e culpar alguém, ou
nos fazer de vítimas quando algo que não gostaríamos acontece.
É por isso que Krishna ensina que o “senhor da mente” é aquele
que pelo poder do Espírito alcançaria perfeito domínio sobre seus
atos externos, ficando internamente desapegado deles. Este com-
preenderia que a fonte dos atos é Deus e realiza os atos que precisa
realizar sem apego ou interesse. Porém, aqueles que trabalham
por lucro pessoal (motivados pelo ego) procedem “mal”, afirma
Krishna, e colherão o fruto dos seus “maus” atos.
Para Krishna, quem não tem essa consciência, não purifica seu
coração. Assim, iludido por maya, deixa de amar a Deus, a causa
primária de todas as coisas, para sentir prazer ou regozijo quando
70 Adilson Marques

acontece algo que lhe agrada, ou sente desprazer com algo que
seu ego considera desagradável. Assim, complementando este
ensinamento de Krishna, a Animagogia defende que podemos
optar em sermos “instrumentos amorosos” ou “instrumentos
nervosos” de acordo com a energia que escolhemos emanar. Mas
seremos sempre instrumentos para o ato que o outro merece e
necessita receber naquele momento.
Em outras palavras, se emanamos amor e o outro merece
receber amor em função do que plantou no passado, aumenta a
probabilidade de sermos os instrumentos escolhidos para que este
amor chegue até aquele outro Espírito humanizado. Mas, quando
emanamos egoísmo, o mesmo também vai acontecer. Porém, mais
cedo ou mais tarde, pela lei do carma, a energia que emanamos
para o Universo voltará para nós (amor ou egoísmo), não importa
a forma material ou visível com que esta energia vai se manifestar,
pois essa forma será sempre a colheita de algo anteriormente
plantado.
Assim, foi por essa razão que o Espírito que se identifica como
Dr. Felipe disse que escrever aquela primeira edição do livro não
teve nenhum valor para mim. Teria faltado amor no ato de escrevê-
lo e sobrado orgulho. Ou seja, existe uma relação oximorônica
entre a liberdade e a necessidade, ou seja, entre o livre-arbítrio e
a fatalidade. E a sabedoria esta em se entregar e confiar em Deus,
com pureza de intenção, sem se apegar aos frutos do trabalho,
aceitando que nada acontece sem a permissão divina, seja para o
Bem, seja para o “mal”.
Muitos questionam se os nossos sentimentos também não
estariam escritos, como acontece com os seguidores de Shiva, uma
vez que Deus seria o criador de todas as coisas. Nesse caso, a
questão anterior seria discutir se o sentimento é também uma
coisa. A Animagogia, nesta questão, se aproxima dos ensina-
mentos de Krishna e não necessariamente do shivaismo.
Mas, enfim, se a encarnação serve para nosso aperfeiçoamento
espiritual ou iluminação, como ela é executada?
Segundo a Doutrina Espírita, é através da “expiação”. E o que o
Espírito Verdade entende por expiação? Na questão 132 de O Livro
dos Espíritos encontramos que é “passar pelas vicissitudes da
existência corporal”. Muitos espiritistas interpretam a palavra
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 71

vicissitude como significando a vivência de fatos ou situações


desagradáveis ou sofrer. Assim, costumam interpretar que a ex-
pressão “passar por vicissitudes” significa passar por sofrimento.
Porém, se atentarmos à definição que os dicionários trazem para
a palavra vicissitude, nós compreenderemos que ela significa
apenas “alternância”. Ou seja, vicissitude seria a alternância entre
os “altos” e “baixos” da vida, entre os momentos “alegres” e
“tristes”, entre os momentos de “prazer” e de “desprazer”. As
enfermidades também são vicissitudes e saber como passar por
elas é importante.
Diante dessa definição, expiar não seria sofrer, mas passar pelos
“altos” e “baixos” da vida humanizada. E qual seria a melhor ma-
neira de passar pelas vicissitudes, sobretudo as enfermidades? A
resposta está em praticamente todos os mestres do Oriente: com
equanimidade, ou seja, com igualdade de ânimos. Mas há aqueles
que optam em passar pelas vicissitudes sofrendo, e isso seria fruto
do livre-arbítrio deste Espírito humanizado, seria uma escolha. É
assim que tanto Lao-Tsé, como Krishna e Buda ensinaram seus
discípulos. Aquele que consegue vivenciar com equanimidade as
vicissitudes da vida está muito mais preparado para ser feliz, uma
vez que consideram que a felicidade é um “estado de espírito” que
deve ser vivenciado sem condicionamento. Em suma, para ser
feliz, basta ser. Esse ensinamento muito comum nas psicosofias
orientalistas é fundamental também na Animagogia e revela como
devemos vivenciar as enfermidades e os tratamentos comple-
mentares ou biomédicos.
E como já ensinava Buda, a felicidade não se confunde com a
alegria ou com a euforia. Felicidade é o estado de paz interior, uma
sensação de plenitude ou de graça vivido interiormente. É justa-
mente o que Buda chamou também de Nirvana e este é para ser
vivido agora e não em uma suposta vida após a morte. Nesse
sentido, quem consegue passar pelas vicissitudes com equani-
midade, não tem motivos para sofrimento quando uma situação
for desagradável ou dolorosa, e nem motivos para ficar eufórico
quando o fato for agradável e alegre.
Em suma, dentro dessa perspectiva, não encarnamos para
transformar a Terra em um lugar “melhor” para se viver, uma vez
que ela já é perfeita para o objetivo para o qual foi criada: ser o
72 Adilson Marques

palco de “provas e expiações”, pelo menos por enquanto, até que


se transforme em “mundo de regeneração”.
A encarnação na Terra acontece, segundo a Animagogia, para
que possamos vencer o ego e seus atributos: a inveja, o ciúme, a
avareza, a vitimização etc., ou seja, os “tormentos” que nos fazem
sofrer quando passamos por vicissitudes negativas. E podemos
dizer também que o orgulho, a vaidade, a ambição etc. também
são “tormentos” egocêntricos que nos fazem esquecer que foi
graças a Deus, a causa primária de todas as coisas, que passamos
por vicissitudes positivas em nossa existência. Assim, vencer a
“imperfeição” é deixar de emanar egoísmo em nossos atos para
somente emanar amor. Ou como afirma Lao-Tsé, ser benevolente
em todas as situações.
Assim, aquele Espírito humanizado que encarna para vencer a
inveja, precisa, necessariamente, passar por experiências que
estimulem a inveja; e aquele que encarna para vencer o ciúme ou
o orgulho, idem. E o mesmo acontece com todas as demais “imper-
feições”. Ou seja, ninguém terá condições de vencer a inveja ou o
desejo de possuir o que o outro possui se tiver condições de com-
prar tudo etc. É nesse sentido que a Animagogia ensina que o
Espírito humanizado antes de encarnar escolhe um gênero de
provas, mas o criador das provas é Deus, a “causa primária de todas
as coisas”, usando para isso os sentimentos positivos ou negativos
dos demais Espíritos humanizados encarnados ou desencarnados.
Esse mesmo ensinamento está presente na questão 87 de O
Livro dos Espíritos, no qual o Espírito Verdade afirma que Deus, para
o cumprimento de seus desígnios, utiliza os Espíritos como ins-
trumentos. E cada contexto socioeconômico e cultural fornece
aquilo que o Espírito precisa para vivenciar sua expiação, prova ou
missão. E o importante sempre será o Espírito e não o palco criado
para sua encarnação. Por isso não interessaria transformar o “mun-
do exterior”, mas o “interior”. Podemos até ter a intenção de
transformar o “exterior” em algo melhor, o que é positivo, mas este
será transformado de acordo com as necessidades de cada Espírito
humanizado ou coletividade, de acordo com as suas provações ou
expiações.
Sobre este assunto, certa vez comentei com o preto-velho Pai
Joaquim de Aruanda sobre a preocupação em preservar a Ama-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 73

zônia e sobre a questão dos direitos humanos e ouvi como resposta


que devemos sim ter a intenção de preservar a Amazônia e de
tentar colocar em prática os direitos humanos, mas que, indepen-
dentemente da nossa vontade, quem precisa desencarnar com um
tiro vai desencarnar, mesmo que esse ato vá contra a lei dos direi-
tos humanos; e se um animal ou planta tiver que ser extinto para
começar outra etapa evolutiva de um Espírito em outro corpo
material, é o que vai acontecer.
Independentemente de nossa vontade, existe um plane-
jamento para a “evolução” do planeta e nosso livre-arbítrio não é
capaz de impedi-lo de acontecer. Felizmente, tal planejamento visa
melhorar a qualidade de vida de todos, com mais amor e menos
egoísmo, uma vez que herdarão a “Terra regenerada” quem o
merecer, apesar de tanto “ranger de dentes” neste período de
transição.
A Animagogia, assim como outras vertentes espiritualistas,
também ensina que os Espíritos que ainda se apegam ao egoísmo
serão, em tese, exilados daqui, ou seja, passarão, em breve, a
encarnar em outros orbes, supostamente, “inferiores”. Ou seja,
suas experiências humanizadas precisarão ser em Orbes diferentes
e não mais na Terra, cuja vibração está se transformando.
E além de passar por vicissitudes, outro objetivo da encarnação
também é discutido na questão 132: “colocar o Espírito em con-
dições de cumprir sua parte na obra da criação”. E como isso acon-
tece? O Espírito Verdade responde: “Tomando um aparelho em
harmonia com a matéria essencial desse mundo, cumprindo aí,
daquele ponto de vista, as ordens de Deus, de tal sorte que,
concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta”.
Como apresentamos acima, todos, em tese, são instrumentos
de Deus. Em suma, a partir do conjunto de verdades relativas que
está gravado em nosso ego, em nossa consciência provisória,
vamos apresentar uma forma singular de perceber, sentir e pensar
o mundo e, assim, estabelecer nossas relações com outros Espí-
ritos humanizados e encarnados. E, apesar de dirigidos pelos
nossos sentimentos e pensamentos, nossos atos terão que ser
guiados por Deus, pois somente assim poderíamos cumprir Suas
ordens, fazendo aquilo que precisaria ser feito. Como sempre,
seríamos instrumentos (conscientes ou não) da prova que o outro
74 Adilson Marques

precisa vivenciar. Ter essa compreensão nos ajuda a entender o


ensinamento presente na questão 159 de O Livro dos Espíritos que
afirma o seguinte: ao desencarnar o Espírito se sente envergonhado
se fez o mal com a intenção (desejo) de cometê-lo.
Na questão 244 encontramos outro ensinamento similar: se uma
coisa não deve ser feita ou uma palavra não deve ser dita, uma força
superior impede tanto os Espíritos (seres humanizados desen-
carnados) como nós, os encarnados, de fazermos ou falarmos. Se
isso é verdade, só teríamos como fazer ou falar o que Deus permite
em função do merecimento daqueles que vão sofrer o impacto,
positivo ou negativo, das nossas ações, para que a justiça sempre
prevaleça. Ou seja, é a vigência plena da Lei de ação e reação.
Talvez seja por isso que a reencarnação, segundo o Espírito
Verdade, na questão 178 de O Livro dos Espíritos, “é somente para
aqueles que falharam em suas missões ou provas”. E como seria
possível falhar na missão ou na prova? Segundo a Animagogia não
seria por este ou aquele fato, mas pela intenção com a qual viven-
ciamos nossas vicissitudes. Assim, a falha acontece quando o
Espírito deixa de amar o que lhe aconteceu ou quando tirou van-
tagens (egoísmo) de um ato em que foi um mero instrumento de
Deus. Ou seja, a falha acontece no âmbito do sentimento, no mundo
interior, na atitude e não nos atos exteriores. A falha estaria em não
vivenciar com equanimidade aquilo que Deus criou para acontecer.
É por isso que o ser humanizado não seria um autômato. Apesar de
não haver o livre-arbítrio no ato, ele sempre estará presente no
aspecto moral (mundo interior), pois somos sempre livres para
decidir amar ou agir com egoísmo diante de qualquer situação.
Kardec parece ter compreendido estes ensinamentos espiri-
tualistas tanto que pergunta ao Espírito Verdade, na questão 196,
o seguinte: “os Espíritos não podendo melhorar-se, senão supor-
tando as tribulações da vida corporal, seguir-se-ia que a vida mate-
rial seria uma espécie de cadinho ou depurador, pelo qual devem
passar os seres do mundo espírita para atingirem a perfeição?”.
E a resposta é a seguinte: “sim, é bem isso. Eles se melhoram
nessas provas, evitando o mal e praticando o bem”. Fica evidente
na pergunta de Kardec que as tribulações da vida corporal, outro
nome para as vicissitudes, acontecem independentemente da
nossa vontade. E o nosso papel seria o de passar por elas evitando
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 75

o “mal” e praticando o “Bem”. Ou seja, evitando o egoísmo (não


criticar, não julgar, não condenar o outro, não ver erro na ação do
outro) e exercendo plenamente o amor incondicional (amar tudo
que lhe acontece e todos que aparecem em seu caminho, não
importando o que este faça ou deixe de fazer). Este ensinamento
do Espírito Verdade também é semelhante ao que Lao-Tsé chamou
de “não-lutar”, uma das virtudes ensinadas por ele no Tao Te Ching.
“Não-lutar” é reagir a todas as ações do mundo exterior sempre
com atitude amorosa, com benevolência, sendo indulgente e
perdoando sempre. Em suma, nunca criticando ou vendo erro na
ação alheia. E o “não-lutar” deve ser colocado em prática não
apenas nos momentos positivos, mas, sobretudo, naqueles em
que nossa tendência é a de se passar por vítima ou como alguém
injustiçado. O que não significa que não iremos encaminhar para
a justiça quem agride idosos, violenta crianças etc., uma vez que a
justiça humana considera tais atos crimes, mas fazer isso com paz
no coração, entendendo que o “algoz” não deixa de ser um Espírito
humanizado em “provação” e que merece nosso perdão (sabendo
que a justiça divina nunca falha) e que, essencialmente, foi o
instrumento para a “prova” ou para a “expiação” de sua vítima.
Há muita semelhança entre o ensinamento de Lao-Tsé e o que
a Doutrina espírita prega na questão 886 de O livro dos Espíritos,
quando afirma que o caridoso é aquele que é benevolente para
com todos, indulgente para com as imperfeições alheias e que
perdoa as ofensas. E na questão 224, encontramos a informação
de que os Espíritos podem prolongar o período entre as encar-
nações para continuar seus estudos, o que só pode ser feito com
proveito no estado de Espírito, afirmou o Espírito Verdade. Em
outras palavras, somente quando estamos em pleno domínio de
nossa consciência espiritual é que podemos escolher o que estudar
e planejar nossas encarnações futuras. Em suma, é somente na
condição de um Ser incorpóreo já desligado do ego que podemos
fazer escolhas conscientes. Em suma, somente os que vibram na
Noosfera escolhem. O desencarnado que vibra na quarta dimen-
são, ainda iludido pelo ego, não tem condições de escolher, assim
como nós, encarnados, uma vez que somos o fruto de uma escolha.
Assim, aqui na Terra, estaríamos apenas para provar se apren-
demos a lição ou não, pois, como vamos aprofundar a seguir, o
76 Adilson Marques

nosso livre-arbítrio teria começado na espiritualidade, durante a


escolha do “gênero de provas”. E como afirma o Espírito Verdade
na questão 230: “é na existência corporal que colocaremos em
prática as novas ideias adquiridas na espiritualidade”. Ou seja, não
é aqui que aprenderíamos alguma coisa. As novas ideias são adqui-
ridas no estado de Espírito esclarecido. Aqui seria o palco para
exercitar ou colocar em prática o que foi aprendido.
Em suma, ninguém viria para a Terra para passear ou para
estudar. O estudo já teria sido feito, e aqui estaríamos para provar,
não para Deus ou para Jesus, mas para nós mesmos, se conse-
guiremos amar ou não dentro de determinadas situações impostas
pela vida humanizada. Em tese, aquele que estudou no mundo
espiritual que o ciúme é um sentimento negativo que nos distancia
do amor universal, pode pedir uma encarnação para colocar em
prática se consegue se libertar desse sentimento. E ele terá um
ego ciumento e vai conviver com pessoas que serão instrumentos
dessa provação, “criando” os atos que ele precisa vivenciar para
se libertar do ciúme.
Em outras palavras, o ciúme não estaria nos atos dos outros,
mas na mente do Espírito humanizado em prova. Assim, não é o
outro que precisaria mudar, mas aquele que encarnou para vencer
a tendência em sentir ciúme, fato que o leva a sofrer. Da mesma
forma, para aquele que deseja vencer a vaidade, Deus pode criar
um ego de artista. Assim, a prova deste Espírito humanizado não
seria vir à Terra para aprender a cantar afinado ou interpretar bem,
mas vencer a vaidade que esta profissão costuma estimular. E
mesmo que seja verdade a afirmação de certos cientistas de que
nosso comportamento já estaria pré-determinado geneticamente,
isso apenas demonstraria que a partir da escolha do gênero de
provas se definiria uma carga genética para aquela humanização.
Ou seja, a genética também seria um instrumento para as provas
escolhidas pelo Espírito.
Assim, se ele escolhe, em tese, vencer o vicio do álcool, sua
carga genética pode estar pré-programada para ser um alcoólatra.
A programação genética não seria causa, mas o efeito da escolha
que o Espírito humanizado escolheu para provar para ele mesmo
que pode ser mais forte que a matéria que o condiciona para o
vício. Se ele, durante a encarnação, vencer essa tendência, passará
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 77

na prova que escolheu; se não vencer, vai ter que se preparar


melhor antes de tentar novamente esta ou outra prova.
Dentro dessa perspectiva, os trabalhos de Animagogia com os
seres humanizados desencarnados procuram sempre ajudar no
despertar da consciência da Individualidade reencarnante, ador-
mecida durante a encarnação do Espírito humanizado.
Com base no que até aqui apresentamos, podemos concluir que
tanto no Espiritismo como na Animagogia o livre-arbítrio foi exer-
cido, fundamentalmente, antes da encarnação ao escolhermos
um gênero de provas. Após a encarnação, a escolha seria, sobre-
tudo, no âmbito moral. Ou seja, poderíamos escolher entre o Bem
(amor) e o “mal” (egoísmo). A questão que melhor traduz esse
ensinamento é a de número 258 de O Livro dos Espíritos, na qual o
Espírito Verdade responde para Kardec que o livre-arbítrio consiste
em escolher um gênero de provas para ser vivenciado na Terra. Pode-
mos compreender a partir desta informação que o livre-arbítrio seria
exercido pelo Espírito humanizado incorpóreo (a Individualidade)
enquanto goza de sua plena consciência. Após essa escolha tem
início a criação da personagem (ego) e a encarnação.
Dentro dessa perspectiva, não faz sentido acreditar que Deus
ouve o ser humanizado encarnado, ou seja, o ego (a personagem).
Este é uma criação, uma espécie de avatar do Espírito humanizado
incorpóreo, ou da Individualidade. Esta sim é que possui o livre-
arbítrio para fazer escolhas. O ego é, necessariamente, motivado
pelo egoísmo, o sentimento que nutre os planetas de “provas e
expiações”. Assim, ele tende a escolher vivenciar uma situação
diferente ou oposta àquela escolhida pela Individualidade.
Na questão 266, Kardec pergunta se não seria natural o Espírito
escolher provas não penosas e ouve como resposta: “para vós
(encarnados), sim; para o Espírito, não. Quando ele está liberto da
matéria, cessa a ilusão, e a sua maneira de pensar é diferente”.
Ou seja, é exatamente o que ensina a Animagogia. Sendo o ego
programado para pensar de forma diferente do Espírito, surgem,
inevitavelmente, vários conflitos mentais e emocionais ao longo
da encarnação. E tais conflitos podem gerar as enfermidades
psicossomáticas. Como já salientamos, o Espírito e a Alma (ser
humanizado incorpóreo) não adoecem. As doenças são mentais
(Psicosfera) e físicas (Biosfera). Elas começam na mente, quando
78 Adilson Marques

os pensamentos e as emoções estão descontradas e, caso não se


equilibrem, geram energias que, ao “descer” para o corpo físico
se transformam em doenças como artrite, câncer, úlceras etc.
Por exemplo, o Espírito humanizado pode passar por uma enfer-
midade dolorosa e aproveitar a experiência para adquirir um apren-
dizado. Porém, o ego pode se revoltar, não aceitando aquela doen-
ça que lhe tira a liberdade ou que o faz sofrer. Para que isso não
aconteça, a solução é vivenciar a vida humanizada com habilidade
espiritual. Essa seria uma forma do Espírito humanizado passar por
vicissitudes negativas sem sofrimento, compreendendo a necessi-
dade daquela “expiação” e buscando força interior para superá-la,
ao invés de se fazer de vítima, blasfemar contra Deus ou qualquer
outra atitude que não ajuda no seu processo animagógico.
E como já salientamos, o Espírito Verdade, em O Livro dos
Espíritos, também afirma que Deus julga a intenção e não os fatos
ou que o “mal” só é prejudicial ao Espírito quando praticado com o
desejo de cometê-lo. Este ensinamento só é compreensível quan-
do se considera, como foi discutido anteriormente, que cada um
de nós recebe somente aquilo que necessita e merece, a cada
segundo de sua existência.
Dessa forma, o livre-arbítrio após a encarnação não pode estar
na escolha dos atos materiais, mas na forma como os mesmos serão
vivenciados. Após a encarnação, o livre-arbítrio estará no senti-
mento, no mundo interior, nas atitudes morais. A partir destes, os
fatos vão ganhando forma ou se materializando no mundo feno-
mênico. Mas por trás de todos eles haverá sempre uma intenção
sentimental, uma energia o moldando, mas que sempre respei-
tará o livre-arbítrio exercido por todos os Espíritos humanizados
antes de mais uma encarnação.
Essa questão se torna mais evidente na questão 258, quando o
Espírito Verdade afirma: “se um perigo vos ameaça, não fostes vós
que criastes, mas Deus; contudo, pela própria vontade, a ele vos
expondes porque vedes um meio de adiantar-vos e Deus o per-
mitiu”. No ensinamento acima, temos a informação de que o perigo
é criado por Deus e que Ele permite aos Espíritos humanizados
participarem dele por livre escolha. E mesmo assim, Deus poderia
não permitir, por considerar, por exemplo, que não estamos ainda
em condições de suportar.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 79

Assim, para adquirir experiência de vida e sabedoria, a vontade


do Espírito de se expor aos perigos da vida humanizada é res-
peitada. E para isso acontecer, o mundo em que vivemos nossa
encarnação é, ao mesmo tempo, fatalista e livre. Temos a liber-
dade de escolher um gênero de provas, porém, para que tudo
aconteça de forma sincronizada e perfeita, os atos materiais,
perigosos ou não, necessitam ser criados por Deus, a inteligência
suprema e causa primária de todas as coisas. Assim, não existiria
acaso ou contingências e nenhum inocente seria vítima de “balas
perdidas”, queda de aviões, erros médicos etc., se estes fatos não
estiverem contemplados no gênero de provas que o próprio
Espírito humanizado solicitou.
E os “perigos” seriam as tentações morais: a vaidade para o
artista, o orgulho para o médico, o apego às verdades para o pro-
fessor etc. Assim, se após a encarnação o Espírito humanizado optar
pelo Bem (o amor incondicional) vai ganhar pontos ou talentos;
se optar pelo “mal” (o egoísmo), permanecerá estacionado e será
derrotado pelo ego.
Para melhor entendermos esse processo, ou seja, como os
“perigos” da vida humanizada são criações de Deus, em função do
gênero de provas escolhido pelo próprio Espírito humanizado,
vamos tomar o seguinte exemplo. Um Espírito quer passar pela
prova de vencer o vício. Assim, para que a prova dele aconteça,
Deus teria que criar um ego sedento por bebidas alcoólicas, drogas,
sexo ou qualquer outra coisa que vicie.
Em outras palavras, temos que compreender que o Espírito em
si não é viciado, mas o seu ego (a consciência provisória) seria
programado para a vivência dessa provação. Ao encarnar, este
Espírito humanizado passaria pelas condições necessárias para
provar a si mesmo e a mais ninguém que pode ser mais forte que
o ego, mais forte que a matéria, resistindo à tentação por bebidas,
drogas, sexo promíscuo etc.
Essa interpretação ajudaria também a entender o porquê de
muitos desencarnados permanecerem viciados, como se lê roti-
neiramente nos romances espíritas. Tratar-se-ia de desencarnados
ainda presos ao ego que vivenciaram na Terra. Ou seja, que ainda
não recuperaram a real consciência da Individualidade. Ainda estão
presos ao personagem que vivenciaram.
80 Adilson Marques

É por isso que o desencarne (o libertar-se da carne) não é


suficiente para libertar imediatamente o Espírito humanizado da
consciência provisória criada para ser vivenciada na Terra. Além
de desencarnar, é necessário se desligar da personagem e, mais
adiante, após vencer a fase humana, desumanizar-se para voltar a
ser apenas um Espírito e se preparar para a fase angelical.
E a escolha do gênero de provas, como está explicito na questão
259, seria sempre de ordem moral, e nunca material. Por exemplo,
o Espírito humanizado não teria porque escolher como prova ser
um bom cantor, mas ele pode ser um bom ou mau cantor se sua
prova consistir em vencer o orgulho, a vaidade etc. Vamos tomar
mais um exemplo polêmico. Considerando que o Espírito huma-
nizado não tem sexo e encarna em corpos masculinos ou femininos
de acordo com essa escolha, ele pode vir a ter um ego homos-
sexual caso tenha escolhido como gênero de provas vencer o
sentimento de ser rejeitado; se, por expiação, precisa ser vítima
de preconceito ou mesmo, como missão, lutando no palco da vida
humanizada pelos direitos das pessoas LGBT.
Em qualquer um destes casos a probabilidade de encarnar com
um ego homossexual aumenta, ainda mais se os Espíritos huma-
nizados que ele escolheu para serem os seus pais escolheram
como gênero de provas vencer o preconceito. Podemos notar que
o teatro está prontinho. Um Espírito humanizado precisando sofrer
preconceito por alguma expiação e o outro vencer a tendência a
ser preconceituoso. Deus uniria os dois e a prova está criada: nasce
naquela família um filho com ego homossexual. Em suma, um se
torna o instrumento para a provação do outro, pois Deus respeita
sempre o gênero de provas escolhido por cada um antes da encar-
nação e todos sabem que nascerão em famílias onde terão as
melhores condições de vivenciar suas próprias provações.
Cada um dos envolvidos terá uma encarnação inteira para apren-
der a ver o outro como um Espírito eterno passando por provas,
expiações ou missões. Quando isso acontecer, a probabilidade dos
conflitos serem resolvidos de forma pacífica aumenta; mas, en-
quanto pensarem como seres humanos, a tendência é vivenciar uma
vida de guerra e discórdia. Uma cultura de guerra e não de paz.
Mas é importante salientar que a guerra e a discórdia não são
“carmas”, mas a formação daquele agrupamento humano sim. Ou
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 81

seja, ninguém nasce para bater, matar ou oprimir o outro, mas para
aprender a amar. Porém, pode vir a ser o escolhido para realizar os
atos acima se ainda não domina o ego e se o outro, sua vítima, por
alguma razão, merecer passar por eles.
Em resumo, podemos dizer que somente após o Espírito huma-
nizado se libertar dos liames que o prendem ao ego da encarnação
anterior é que poderá planejar sua futura encarnação. Só o ator
escolhe e não a personagem que ele vivencia.
Assim, com seus mentores e instrutores planeja os grandes
acontecimentos de sua existência. E Deus, como causa primária,
será o responsável por criar os fatos materiais que irão gerar a prova
do Espírito humanizado. Tais fatos materiais serão vivenciados pelo
Espírito humanizado para colocar em prática o que aprendeu no
mundo espiritual. Em outras palavras, um Espírito humanizado que
deseja ser mais paciente ou tolerante será colocado diante de
situações que estimulem sua impaciência para que ele, diante
daquela situação, exercite a paciência e a tolerância.
Nos atendimentos complementares de saúde, sobretudo, com
os seres humanizados desencarnados que se fazem de vítimas,
sempre se busca mostrar a eles que o outro foi um instrumento
para sua provação e que o outro só faz aquilo que necessitamos e
merecemos. E, da mesma forma, também somos instrumentos,
mesmo que de forma inconsciente, para o carma positivo ou nega-
tivo do outro. Através da técnica apométrica, dentro do contexto
da Animagogia, a proposta é de ajudá-lo a se lembrar de suas vidas
passadas e vivenciar a lei de causa e efeito na prática.
Assim, se Deus é a causa primária de todas as coisas e o livre-
arbítrio foi exercido antes da encarnação, para que tudo possa
acontecer de acordo com a “vontade divina”, os Espíritos huma-
nizados desencarnados seriam também contrarregras desse pro-
cesso, atuando de diferentes formas para que o “teatrinho” acon-
teça sem improvisos. E, segundo a Animagogia, ninguém, esteja
encarnado ou desencarnado, conseguiria interferir na encarnação
de outro Espírito humanizado, sem que este mereça. Ou seja, se
“estiver escrito” que alguém precise passar por uma determinada
vicissitude negativa, alguém precisará ser o instrumento para
aquela ação, e alguém será escolhido para realizá-la. Em outras
palavras, seríamos sempre instrumentos, conscientes ou não, para
82 Adilson Marques

a provação dos demais Espíritos humanizados, mas não podería-


mos interferir na prova do outro e nem interromper uma encar-
nação se a hora ainda não chegou.
Ao dizer que não podemos, precisamos compreender que,
mesmo querendo ou tendo a vontade, não conseguiremos realizar
uma determinada ação se o outro não merecer passar por ela. E
isso valeria tanto para as “boas” ações como para as “más”. Porém,
em um caso ou em outro, seriamos os responsáveis por elas,
devido à intenção.
Assim, mesmo que uma pessoa mereça ter a perna quebrada
para vivenciar uma determinada prova, aquele que foi o instru-
mento poderá colher o fruto dessa ação se teve a intenção de
cometer aquele ato e ninguém, por mais boa vontade que venha
a ter, teria como evitar aquele fato. Outro exemplo pode ser o
seguinte. Se um Espírito humanizado foi escolhido para realizar
uma determinada missão que acontecerá quando ele completar
sessenta anos de idade, ele não terá seu corpo físico gerado por
uma mãe que Deus sabia antecipadamente que faria um aborto e
nem poderá “desencarnar antes da hora”. Ele não poderá ser vítima
de uma “bala perdida” ou subir em um avião que vai se acidentar
quando ele estiver com 40 anos.
Quando se diz que Deus é onisciente e sabe com antecedência
o que vai ou não ocorrer, não faz sentido achar que outro Espírito
humanizado tem o direito de interromper uma encarnação antes
da hora. Se fosse possível acontecer falhas nesta programação,
Deus não seria justo e não respeitaria o livre-arbítrio dos Espíritos
humanizados que, antes de encarnar, escolheram um gênero de
provas e sabem como e quando regressarão à pátria espiritual.
Na questão 336 de O Livro dos Espíritos, por exemplo, o Espírito
Verdade afirma que “uma criança, quando deve nascer para viver,
tem sempre uma alma predestinada.” Ou seja, só será abortado o
Espírito humanizado que precisa passar por essa experiência, como
prova ou expiação. Mas, se os pais tiverem a intenção de interrom-
per uma gravidez, eles serão “culpados” devido à atitude (ação
sentimental interior), mas não pelo fato, pois se era para a criança
viver, Deus utilizaria como instrumentos para gerar o corpo físico
daquele Espírito humanizado outros pais que não fariam um aborto
voluntário.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 83

Nesse sentido, até mesmo aqueles Espíritos humanizados de-


sencarnados que chamamos rotineiramente de “obsessores” se-
riam instrumentos (na maior parte das vezes inconscientes) para
a provação daquele que está sendo a “vítima”, ou seja, o obsediado.
Assim, a obsessão, a “magia negra” ou qualquer outra coisa que
possa “prejudicar” alguém só acontece se Deus permitir e se a
“vítima” merecer. Isso está evidente na questão 274 de O Livro dos
Espíritos quando o Espírito Verdade afirma que é irresistível a
autoridade dos Espíritos “superiores” sobre os “inferiores”. Ou
seja, se a Doutrina Espírita afirma que tal autoridade é irresistível,
só podemos concluir que qualquer ato dos Espíritos ditos “infe-
riores” só acontece com a permissão daqueles que o Espiritismo
considera como “superiores”.
Ou seja, se um Espírito humanizado desencarnado se torna
obsessor e faz “mal” a alguém é porque os Espíritos “superiores” a
ele estão permitindo que isso aconteça. Por alguma razão, naque-
le momento, eles não vão interferir no processo enquanto o Espí-
rito humanizado que estiver sendo a “vítima” precisar dessa pro-
vação, dessa expiação ou ter merecimento negativo para ser obse-
diado. Em suma, ninguém seria inocente ou coitadinho nessa
história. E até o Espírito “mau” é utilizado como instrumento,
mesmo que isso aconteça inconscientemente, para a provação de
outro.
E é justamente por isso que não faz sentido brigar por verdades,
dizendo que a desobsessão kardecista é melhor que a apometria,
o culto evangélico ou a gira de umbanda, ou vice–versa. Se tudo
não passa de criação de Deus, todas as práticas espiritualistas
foram permitidas por Ele para que os mais diferentes casos fossem
atendidos e, no fim das contas, é sempre Deus quem cura ou liberta
o espírito humanizado da “obsessão”. O nosso papel como tera-
peutas espirituais seria o de apenas “fazer com amor” e ter a
vontade de ajudar o próximo. Todo o resto seria o trabalho de Deus.
Teríamos que ter sempre boa vontade e colocar amor em tudo o
que fazemos para que possamos ser os escolhidos como instru-
mentos para o “carma positivo” dos outros Espíritos humanizados
e, assim, iluminar um pouco mais nossa alma eterna.
E como o Espírito humanizado se libertaria dessa obsessão? Na
questão 467 de O Livro dos Espíritos está a resposta: “mudando os
84 Adilson Marques

pensamentos. Eles (os obsessores) se ligam aos que os solicitam


por seus desejos ou os atraem por seus pensamentos”. Em tese,
quanto menos egoísmo manifestarmos, menor a influência desses
Espíritos humanizados desencarnados sobre nós. Em suma, o
Espírito “mau” ou imperfeito também é um instrumento da von-
tade de Deus. Assim se explicaria porque “nunca o Espírito recebe
a missão de fazer o mal” (questão 470 de O Livro dos Espíritos),
mas, por ser imperfeito, ele o faz por sua própria vontade (segue
aos impulsos do ego) e Deus permite que isso aconteça como prova
ou como expiação para a “vítima”.
E sobre a morte? Seria possível morrer antes da hora? Acreditar
que esse fato seria possível vai de encontro à resposta da questão
853, na qual o Espírito Verdade afirma que “qualquer que seja o
perigo, ninguém morre antes da hora” e que “Deus, sabe, anteci-
padamente, de qual gênero de morte” partiremos daqui. Ou seja,
para a doutrina espírita, assim como para a Animagogia, Deus seria
Onisciente e saberia se o Espírito humanizado desencarnaria por
aborto ou por suicídio, por exemplo. E se atentarmos para os livros
psicografados que narram os sofrimentos do Espírito humanizado
que desencarna pelo suicídio, nós poderemos notar que o motivo
foi sempre egoísta: desgosto amoroso, apego material, orgulho
etc. Em suma, não é o ato que faz o Espírito humanizado sofrer,
mas o seu egoísmo.
Por exemplo, qual seria a diferença entre um homem que ca-
minha perto de uma rodovia e é atropelado por um caminhão em
alta velocidade e morre na hora daquele que, voluntariamente,
se joga na frente do mesmo caminhão? Apenas a intenção. No
primeiro caso, houve um “acidente”, mas Deus já sabia que aquele
Espírito humanizado seria atropelado e morto. No segundo, Deus
também já sabia que, naquele momento, aquele Espírito huma-
nizado se jogaria na frente do caminhão. Logo, é somente a energia
sentimental que diferencia um ato do outro e gera débitos ou não.
Focar no ato material e não na intenção é agir como Simão
Pedro, cogitando apenas das coisas dos homens, sem entender
como se processam as coisas de Deus. E, independente do ato
praticado, estaríamos sempre sendo assistidos pelos Espíritos,
sejam os “superiores” ou os “inferiores”, cuja autoridade dos
primeiros sobre estes seria irresistível. Nesse sentido, na questão
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 85

525 de O Livro dos Espíritos, encontramos o Espírito Verdade afir-


mando que os Espíritos nos aconselham e até agem diretamente
para o cumprimento do que precisa acontecer, mas de uma forma
tão sutil que temos a impressão de estarmos agindo motivados
pelo nosso próprio “livre-arbítrio”.
E na questão 526 temos um exemplo interessante sobre como
a Doutrina espírita pensa essa problemática. Kardec pergunta o
seguinte: se alguém precisa desencarnar caindo de uma escada,
os Espíritos a quebrarão? E a resposta do Espírito Verdade é muito
elucidativa: os Espíritos não quebrariam a escada, mas intuiriam a
pessoa a subir em uma que esteja carcomida pelo tempo. Dessa
forma, ela se romperá com o peso da pessoa, gerando o desen-
carne. Em outras palavras, na visão do Espírito Verdade, é como se
os Espíritos humanizados desencarnados atuassem como “con-
trarregras” dessa “peça teatral” chamada encarnação. Enfim, é
como se estivessem com o “livro da vida” de cada um nas mãos e
dirigindo sua ação para que tudo aconteça conforme o que está
escrito, sem percalços que estraguem o “espetáculo”.
Na questão 527 temos outro exemplo paradigmático de como
se processa nossa vida humanizada encarnada. Kardec pergunta
se os Espíritos desencarnados poderiam dirigir um raio até a pessoa
que precisa desencarnar dessa maneira. E a resposta é similar a
anterior: sabendo que o raio cairá em uma árvore, os Espíritos
desencarnados podem intuir a pessoa a se proteger embaixo dela.
Assim, parecerá um acidente aquele desencarne que já estava
programado para acontecer. Em outras palavras os Espíritos desen-
carnados não teriam poder para dirigir o raio até a pessoa, mudan-
do as leis da natureza, mas poderiam intuir alguém para se pro-
teger embaixo da árvore que será explodida pelo raio se estiver
na hora do desencarne daquele Espírito humanizado.
Em suma, segundo os ensinamentos do Espírito Verdade, vive-
mos rodeados por uma multidão de Seres que conhecem nossos
pensamentos, mesmo os mais secretos, e os atos que vamos realizar.
Aliás, como ele afirma na questão 459, são os Espíritos desen-
carnados que, frequentemente, dirigem nossas ações, como ins-
trumentos da vontade divina. E na questão 584 de O Livro dos
Espíritos esta tese fica evidente, mostrando que é a intenção a
parte do Espírito humanizado na co-criação do Universo. Kardec
86 Adilson Marques

pergunta sobre o conquistador, a pessoa cuja vida está em satis-


fazer a sua ambição. E a resposta do Espírito Verdade é a seguinte:
“ele não é, na maioria das vezes, mais do que um instrumento de
que Deus se utiliza para o cumprimento de seus desígnios.” Em
suma, o conquistador vai conquistar quem precisa ser conquistado,
vai exterminar quem precisa ser exterminado e assim por diante.
Porém, vai colher o fruto desses atos, não pelo fato em si, mas pela
intenção egoísta de conquistar e pela ambição que alimenta.
Em outras palavras, está evidente que, tanto para a Doutrina
Espírita como para a Animagogia, faremos sempre aquilo que
precisa ser feito, mesmo quando agimos motivados pelo egoísmo
ou pela ambição. Assim, qualquer que seja a intenção, seríamos o
instrumento do qual Deus se servirá para o cumprimento de seus
desígnios.
Mesmo assim, há várias passagens em O Livro dos Espíritos que
parecem defender que temos livre-arbítrio nos atos materiais,
contradizendo a explanação acima. Mas, em uma leitura mais
acurada, podemos notar que o Espírito Verdade afirma que se
houve a intenção, há a responsabilidade sobre o ato. Por isso,
colheríamos os frutos dessa ação. É o caso da questão 746 de O Livro
dos Espíritos, que analisa o homicídio. O Espírito Verdade afirma
que este ato é um crime aos olhos de Deus. Mas como o Espírito
Verdade ressalta que a intenção é tudo, o desejo de tirar a vida de
outro ser que está por trás do homicídio é o que geraria o “débito”
espiritual ou o “crime aos olhos de Deus”.
Não haveria débito espiritual, por exemplo, se um policial está
em seu serviço limpando sua arma e ela dispara acertando outro
policial, levando-o ao desencarne. Neste caso, houve uma fatali-
dade (algo programado para acontecer), mas não houve inten-
cionalidade. Neste caso, apesar de ter sido um homicídio, o policial
que atirou seria apenas o instrumento para o desencarne do outro,
na hora certa e não antes da hora, sem que o seu ato fosse visto
como um “crime aos olhos de Deus”.
E esse ponto de vista da doutrina espírita fica mais evidente na
questão 851 e seguintes, todas abordando o tema da fatalidade. E
o próprio Kardec conclui que: “a fatalidade, entretanto, não é uma
palavra vã. Ela existe na posição que o homem ocupa sobre a Terra
e nas funções que ele aí cumpre por consequência do gênero de
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 87

existência que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou


missão. Ele sofre, fatalmente, todas as vicissitudes dessa exis-
tência, e todas as tendências boas ou más que a ela são inerentes.
(...) a fatalidade, pois, está nos acontecimentos que se apre-
sentam, visto que são a consequência da escolha da existência feita
pelo Espírito. Ela pode não estar no resultado desses aconte-
cimentos, posto que pode depender do homem modificar-lhes o
curso pela prudência. Ela não está jamais nos atos da vida moral.”
Em outras palavras, podemos mudar o resultado de um acon-
tecimento, ou seja, não ser o escolhido para ser o instrumento para
uma vicissitude que alguém necessita passar. Podemos, pela pru-
dência, não agir com motivos egoístas nos acontecimentos pelos
quais passaremos e, assim, a probabilidade de ser o instrumento
da ação carmática negativa de outro espírito humanizado é redu-
zida. Como diz acima o Espírito Verdade, a fatalidade não existe
nos atos da vida moral, ou seja, das intenções ou dos sentimentos.
Aliás, como está presente na questão 267 de O Livro dos Espíri-
tos, o Espírito humanizado até pode fazer escolhas enquanto
encarnado, mas tal escolha é realizada nos momentos em que se
liberta da matéria. Ou seja, quem tem sempre o livre arbítrio é a
Individualidade e não o ego, pois este, como foi abordado, costuma
desejar o contrário do que a Individualidade anseia. Talvez seja
por isso que o Espírito Verdade afirma, na questão 672, que “a
intenção é tudo e o fato nada”.
Para encerrar, podemos afirmar que a Animagogia não está
relacionada com nenhuma doutrina religiosa, mas pode beber em
todas as sabedorias espirituais (Psicosofia), do Ocidente e do
Oriente, reconhecendo o caráter universal dos ensinamentos
transmitidos pelos principais mestres da humanidade. Assim, a
Animagogia não se constitui em uma nova “doutrina”, mas em um
processo contínuo e permanente de autoconhecimento e trans-
formação interior. Podemos dizer que sua prática se fundamenta
em quatro pilares e estes são de fundamental importância para
compreendermos seu objetivo e abrangência:

1 – O desapego aos bens materiais, sentimentais e culturais


Na prática animagógica, é de fundamental importância com-
preender que o mundo material existe, mas não “é”. Em suma, ele
88 Adilson Marques

não tem substancialidade. Ele está em constante transformação e


só existe em função dos órgãos de percepção, pois, essencial-
mente, não passa de infinitos campos energéticos que se trans-
formam dentro do cérebro humano em sons, cores, imagens etc.
Em outras palavras, o mundo material é como uma “miragem”
capaz de enganar o Espírito humanizado e lhe tirar a paz interior, a
felicidade e a capacidade de amar sem esperar nada em troca. Para
não cair nesta ilusão, os milenares e ainda atuais ensinamentos
de Lao-Tsé formam o seu primeiro pilar. A Animagogia exalta as
quatro virtudes ensinadas por Lao-Tsé e presentes nos diferentes
poemas que formam o seu Tao Te Ching. Quem consegue colocá-
las em prática é capaz de vivenciar sua vida humanizada como
Espírito, mesmo que ainda preso aos laços da matéria densa: a não-
ação; o não-lutar, o não-desejo e o não-saber.
Enquanto tais virtudes não forem vivenciadas plenamente por
nós, vamos continuar presos às verdades criadas pelo ego e ne-
cessitando de consolo quando um parente desencarnar, quando
o desemprego bater à porta, quando o filho não passar no ves-
tibular ou se envolver com drogas, quando o carro for roubado ou
quando o marido arrumar outra mulher, por exemplo. Todo e
qualquer vicissitude, positiva ou negativa, passa a valer apenas
para colocar em prática tais virtudes, sem perder, assim, o equilíbrio
e a paz interior, ou seja, vivendo com equanimidade os altos e
baixos da vida humanizada, os momentos de prazer e desprazer,
de alegria e de tristeza com habilidade espiritual, ou seja, como
um Homo spiritualis.

2 – A Fé plena
Para a prática da Animagogia é impossível vivenciar tais desa-
pegos se não os pensarmos de forma recursiva e complementar
aos ensinamentos espirituais (Psicosofia) de Krishna, e que for-
mam o segundo pilar de nosso programa educativo. Podemos
resumi-los na Fé plena em Deus e em seus desígnios. Não se trata
aqui de fé cega e nem racionalizada. A primeira acredita que Deus
fará o que você deseja e não o que precisa; e a segunda é uma fé
que precisa da comprovação racional ou científica. A Fé plena é a
aceitação ativa de que nada acontece em nossa vida humanizada
que não esteja de acordo com o gênero de provas que escolhemos
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 89

antes de encarnar e que todas as experiências, por mais dolorosas


que sejam, são importantes para a Individualidade se libertar do
ego, para a nossa iluminação espiritual.
Em livros de teor universalista como a Baghavad Gita e outros,
encontramos nos ensinamentos de Krishna o valor da confiança e
da entrega absoluta aos desígnios de Deus. Assim, aquele que se
torna um “senhor da mente” não se move mais pelo egoísmo ou
pelo orgulho, mas deixa Deus criar e se contenta em ser fiel à luz
do momento, compreendendo que ela traz tudo o que necessita
e merece. O senhor da mente é aquele Espírito humanizado que
se libertou da pretensão ao “direito autoral” em seus atos, pois
aprendeu que não age por si mesmo e muito menos para si mesmo.
Ele é um instrumento da “justiça divina”. Em outras palavras,
liberto do fruto de seu trabalho, o senhor da mente é indiferente
às aprovações e também às críticas, por isso, não julga como justas
ou injustas as opiniões de outros Espíritos humanizados.
Quem vive em comunhão plena com Deus não precisa mais de
consolo ou da aprovação de outros seres humanizados, pois se
encontra liberto da multiplicidade das aparências. O que ele busca
apenas é a purificação de seu coração, através da vivência amorosa
de todas as vicissitudes da vida humanizada, tanto as agradáveis
como as desagradáveis. Em suma, a Fé plena nos ajuda a viver com
equanimidade todas as vicissitudes, sem euforia nas positivas ou
desespero nas negativas.

3 – A felicidade incondicional
Os dois pilares descritos anteriormente só sustentam esse
edifício animagógico se relacionados com o seu terceiro pilar: os
ensinamentos de Buda. De forma resumida, sua Psicosofia nos leva
a vivenciar a vida humanizada em um estado de plenitude, ou seja,
de felicidade incondicional. Em outras palavras, o Espírito huma-
nizado que se liberta dos desejos, das percepções e das sensações
criadas pelo ego, não se vincula mais às emoções presentes nas
formações mentais do “eu acho”, “eu penso”, “eu faço” etc. Assim,
não se prende mais a nada que gera sofrimento, portanto, é capaz
de vivenciar sua vida humanizada em estado de graça (nirvana),
ou seja, é feliz incondicionalmente, lembrando que felicidade para
o Buda não é euforia, mas paz de espírito.
90 Adilson Marques

Enquanto muitas religiões afirmam que é necessário sofrer


agora para ser feliz no futuro, a Psicosofia de Buda nos ensina a
viver sempre feliz, sem condicionar nossa felicidade aos prazeres
e às sensações que são momentâneas. A felicidade, enquanto um
estado de espírito, não depende de nada exterior. Ela brota de
dentro da própria alma e, assim, acolhemos de bom grado todos
os acontecimentos. Não por resignação (no sentido de aceitação
passiva), mas com amor, tendo a certeza que qualquer circuns-
tância que o ego julgue como alegre ou triste, prazerosa ou despra-
zerosa, sempre contém uma essência que pode ser o desapego
na prosperidade ou a paciência na adversidade.

4 – o amor universal
Por último, o quarto pilar da animagogia é composto pelos
ensinamentos espirituais do Cristo. Podemos, de forma resumida,
afirmar que eles se constituem na vivência plena do amor incon-
dicional. Assim, o Homo spiritualis é feliz e ama o inimigo, ama
aquele que o critica, ama aquele que o despreza, ama aque que
quer defender verdades, ama a vítima e o algoz, ama a si mesmo
da forma como existe neste mundo fenomênico.
Quando vivemos irradiando amor, deixamos também de julgar
ou criticar, pois conseguimos compreender que ninguém é capaz
de agir diferentemente de sua natureza. Na perspectiva da Anima-
gogia o amor e a felicidade já estão dentro de cada um, são atri-
butos do Espírito, mas podem estar adormecidos. E ninguém con-
segue despertá-los de uma hora para outra. A experiência ao longo
das encarnações ajuda a se libertar do apego cultural, um dos frutos
do orgulho e do egoísmo.
Estes são, portanto, os quatro pilares da Animagogia: o desa-
pego aos bens materiais, sentimentais e culturais; a Fé plena; a
Felicidade incondicional e o Amor universal. São, portanto, pilares
não-racionais, uma vez que a razão é um dos atributos do ego,
junto com as formas materiais, as percepções, as sensações e a
memória. Além desses quatro pilares, outras Psicosofias rea-
limentam e complementam a Animagogia. Podemos citar, entre
outras, os ensinamentos espirituais do Espírito Verdade, presentes
em O livro dos Espíritos, que estudamos no capítulo anterior, e que
nos esclarece sobre a vida ativa após a morte e também sobre a
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 91

escolha dos gêneros de provas, entre outros assuntos espiri-


tualistas de cunho universal.
E não poderíamos nos esquecer, também, da Psicosofia de
Mahatma Gandhi, sintetizada em sua definição de ahimsa: não
praticar a violência material com ninguém (não matar ou ferir
voluntariamente); não praticar a violência verbal, falando mal de
quem quer que seja; não praticar a violência mental, através do
envio de pensamentos negativos para alguém, e nem praticar a
violência emocional, o que acontece quando emanamos senti-
mentos de ódio ou desejando o mal para quem quer que seja.
A Animagogia, como educação espiritual, possui caráter univer-
salista e valoriza a sensibilidade e a consciência Crística, tendo
como objetivo vivenciar a vida humanizada com habilidade espi-
ritual, ou seja, despertando o Homo spiritualis com todos os seus
atributos. Assim, sua prática está associada ao servir sem qualquer
julgamento ou gratidão e, por ser trans-religiosa, busca ligar-se
apenas aos ensinamentos espirituais dos mestres, não manifes-
tando nenhuma preferência religiosa ou particularização dou-
trinária. Podemos dizer que verdadeiros animagogos, no sentido
aqui proposto, foram, entre outros, Lao-Tsé, Buda, Krishna, Zoroas-
tro, Hermes, Jesus, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi e Chico
Xavier.
É por isso que na Animagogia há a valorização do Amor latente
em todos os códigos espirituais, seja a “Bhagavad-Gita”, a “Bíblia”,
o “Livro dos Espíritos” ou outro qualquer. E, apesar de diferente,
procura vibrar, harmoniosamente, com todos os movimentos de
ascensão espiritual cuja meta seja o Amor Universal. Assim, a
Animagogia reconhece a dimensão sagrada do mediunismo (karde-
cista, de umbanda ou outro qualquer), como também das práticas
espiritualistas como o Yoga, a Meditação, o Reiki etc., pois valoriza
sempre a intenção com a qual um determinado ato exterior é
vivenciado e não o ato em si.
Portanto, enquanto educação espiritual para auxiliar no desa-
brochar da Individualidade, o que menos importa é o caminho
escolhido para se religar a Deus. Plenamente esclarecido, o Espírito
humanizado é capaz de participar amorosamente de uma missa
católica, de um grupo de meditação em um Templo Budista, de
uma sessão mediúnica em um Centro Espírita ou em um Terreiro
92 Adilson Marques

de Umbanda etc., pois, quando se vive em um nível vibracional de


Amor universal, deixa de ter importância o meio ou o grupo em
que se encontra naquele momento de sua vida humanizada. Em
outras palavras, ao participar de qualquer um dos atos acima, não
somos seres humanizados tendo uma experiência espiritual, mas
continuamos sendo um Espírito eterno vivenciando uma expe-
riência humanizada, ou seja, uma provação. Em suma, a Anima-
gogia como processo educativo para a promoção da metanoia não
entra em conflito com nenhum credo ou fórmula religiosa de
qualquer raça ou povo.
Nos capítulos seguintes vamos apresentar a Apometria, rea-
lizada dentro do contexto animagógico exposto acima, e também
a Terapia Vibracional Integrativa (TVI), criada a partir dos pressu-
postos da Animagogia na ONG Círculo de São Francisco.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 93

CAPÍTULO 4

A NECESSIDADE DO PEDIDO DE AUXÍLIO


E A APOMETRIA COMO TÉCNICA POSSÍVEL
PARA A ANIMAGOGIA DO SER
HUMANIZADO DESENCARNADO

Como salientamos, a Animagogia é um trabalho educativo para


libertar o Ser humanizado das ilusões criadas por seu ego. Em suma,
promover um processo metanoico ou de mudança de perspectiva,
despertando a consciência da Individualidade. Para que esse pro-
cesso ocorra, conta com uma série de procedimentos práticos.
Alguns são considerados “espíritas”, ou seja, são adotados nas
casas espiritualistas que dizem seguir a doutrina sistematizada por
Allan Kardec. E outras não são consideradas “espíritas”, como é o
caso da Apometria, considerada uma técnica “não-doutrinária” por
esse movimento sócio-religioso.
A Animagogia, como salientamos na primeira parte deste livro,
também se fundamenta nos ensinamentos do Espírito Verdade,
ou seja, naqueles que formam a base doutrinária do Espiritismo,
mas vai além, uma vez que o estudo e as formas de promover a
metanoia foram difundidas, principalmente, pela sabedoria orien-
tal, através da Psicosofia de Buda, Krishna, Lao-Tsé e tantos outros
que, de uma forma ou outra, também estão presentes naqueles
que compõem O livro dos Espíritos, apresentados na primeira parte
desta obra e de fundamental importância neste trabalho educativo
com seres humanizados desencarnados, seja ele praticado no
meio espiritista, na umbanda, no universalismo etc.
Após esta necessária introdução, podemos prosseguir com
nosso estudo apresentando a importância da prece, seja para atuar
com uma prática terapêutica espiritualista ou para ser ajudado. O
Espírito que, em tese, participará do programa animagógico, que
94 Adilson Marques

será “esclarecido”, nem sempre o faz por vontade própria. Em


muitos casos, estes Espíritos humanizados desencarnados são
trazidos até a reunião mediúnica graças às preces realizadas por
seus familiares e amigos desejando que encontre “auxílio” e “luz”
no plano espiritual. Nesse sentido, o pedido de apoio faz com que
o desencarnado seja conduzido para receber nos trabalhos mediú-
nicos a ajuda que precisa. Durante a sessão mediúnica, muitos
recebem ajuda sem a necessidade de se manifestarem através de
algum médium.
E também há aqueles que são socorridos porque alguém pediu
ajuda para um ser humanizado encarnado que sofria obsessão.
Porém, até o obsessor é ajudado, mesmo não tendo solicitado o
auxilio. E, por fim, também são trazidos aqueles que, por não
suportarem mais o sofrimento e a falta de compreensão do que
estão vivenciando no mundo astral, também por meio da prece
solicitaram auxílio. E quando o próprio desencarnado solicita a
ajuda, o socorro é mais fácil. E esse fato evidencia do ensino de
Jesus: “bata e a porta se abrirá; peça e obtereis”. E como a religião
também é uma criação do ego, não importa a religião do Espírito
humanizado. Ao pedir, por intermédio de uma prece sincera, um
auxílio, a ajuda chegará.
A prece feita com o coração, com sentimento amoroso e grati-
dão, é a fórmula mais adequada para pedir e obter auxílio espiri-
tual. A própria medicina já tem evidências que pessoas que oram
se recuperam com mais facilidade e rapidez de certas enfer-
midades. E o mesmo acontece com aqueles que não estão mais
ligados ao corpo físico, mas continuam presos ao ego.
Algumas religiões afirmam que a prece para um Espírito huma-
nizado desencarnado não é necessária, pois o seu destino já foi
selado: ou o “céu eterno” ou o “inferno eterno”. Mas estudos feitos
por terapeutas de vidas passadas, apômetras e informações trans-
mitidas pela psicografia mediúnica trazem evidências de que a
prece sincera pelos desencarnados é um importante “remédio”
para que consigam compreender o que está se passando e receber
a ajuda que necessitam.
O budismo também estimula a oração pelos antepassados, por
todos aqueles que já morreram. Podemos dizer que o pensamento
e as preces aproximam todos os seres, sejam estes encarnados ou
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 95

humanizados desencarnados. O fluido cósmico que os hindus


chamam de prâna e que vêm sendo estudado desde a Antiguidade
parece ser o condutor das energias emitidas pelas preces rea-
lizadas com sentimento amoroso.
E, independentemente da religião, a prece feita com o coração
sempre apresentará efeitos positivos. Assim, o católico devoto de
São Judas, o evangélico que só acredita no Espírito Santo, o umban-
dista que pede apoio a um “preto-velho” ou um “caboclo”, o espiri-
tista que pede auxílio a seu guia espiritual e o hindu e budista que
oram, respectivamente, por Krishna e por Buda, serão atendidos
pela “espiritualidade superior”.
E a prece, segundo a Animagogia, pode ser feita em silêncio,
em qualquer ambiente. O importante é a intenção e a vibração
amorosa que a nutre. É importante salientar que este trabalho de
auxílio aos desencarnados é realizado há muito tempo, antes
mesmo da mediunidade ser objeto de estudo científico por Allan
Kardec. E este esclarecimento também necessitava de encar-
nados, mas que agiam durante o sono, durante o chamado “des-
dobramento”, sem que se lembrassem disso ao voltarem ao es-
tado de vigília. Mas também pequenos grupos iniciáticos, quase
secretos, também faziam práticas similares para ajudar os supostos
seres humanizados desencarnados.
O trabalho animagógico que vamos aqui descrever é realizado
através de uma equipe de médiuns preparada para esse aten-
dimento espiritual e que seguem alguns procedimentos metodo-
lógicos. A primeira tentativa de auxílio consiste, em tese, em trazer
esses desencarnados para participar de uma sessão de estudos
espirituais. Normalmente, utilizam-se livros espiritualistas, que
enfatizam os ensinamentos (Psicosofia) de mestres como Buda,
Krishna, Jesus etc., segundo a especificidade de cada grupo. Nos
centros espiritistas utiliza-se, principalmente o livro escrito por
Kardec denominado O evangelho segundo o espiritismo. Os encar-
nados, após uma prece pedindo a proteção divina e o amparo dos
“Espíritos esclarecidos”, leem e discutem alguns dos ensinamentos
espiritualistas desses mestres, como, por exemplo, sobre o per-
dão, sobre o amor universal, sobre a não existência do mal, sobre
o fato de sermos Espíritos eternos vivenciando experiências hu-
manas e não o contrário etc.
96 Adilson Marques

Através da coleta de dados utilizando a observação participante,


temos notado que o tema escolhido para estudo sempre apre-
senta relação com o problema principal vivido pelo grupo de
desencarnados trazido para aquele dia de trabalho. Por exemplo,
se predomina entre eles os suicidas, a lição abordará direta ou
indiretamente esse tipo de problema, suas consequências e como
deverá libertar-se da culpa e ter Fé em Deus, pois seus sen-
timentos humanizados são os responsáveis pelo sofrimento e pela
dor moral que sente no mundo astral. Nas reuniões acompanha-
das para a realização desta pesquisa constatamos que, frequen-
temente, os desencarnados ajudados naquele dia vivenciavam
problemas similares.
Nesse sentido, enquanto em uma reunião predominavam sui-
cidas; em outra, eram seres desencarnados apegados ao dinheiro,
e assim por diante. E segundo alguns videntes, estes seres huma-
nizados desencarnados acompanham o estudo enquanto recebem
vários tipos de tratamentos invisíveis aos nossos olhos.
E constatamos que o número de desencarnados que consegue
recuperar a consciência, compreender que o sofrimento pelo qual
está passando é fruto de suas próprias escolhas e que precisam
retomar o caminho do amor é grande. Normalmente, já estão
quase se desligando do ego e recuperando sua consciência, o que
os faz aceitar com naturalidade o ensinamento universalista: “A
plantação é livre, mas a colheita é obrigatória”. Neste momento,
já conseguem abrir seus “corações” e receber o auxílio que necessi-
tam, sendo, dessa forma, levados após a sessão para hospitais ou
educandários no plano astral. Muitos retornam em outras sessões,
desta vez apenas para acompanhar as lições ou mesmo para trazer
outros desencarnados que passam por problemas similares, tor-
nando-se, assim, mais um dos “trabalhadores na seara de Cristo”,
ou os “trabalhadores da última hora”, como muitos deles gostam
de falar quando se manifestam mediunicamente.
Mas há também os que se manifestam no atendimento me-
diúnico inconformados com a dor e com o sofrimento que sentem,
julgando que estão sendo castigados por algum Deus punitivo.
Estes desencarnados ainda não compreendem que o egoísmo é o
responsável pelo sofrimento que estão vivenciando. Outros mani-
festam ódio por alguém, desejam se vingar de algum desafeto etc.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 97

Os animagogos universalistas tentarão convencê-lo que estes por


quem nutrem ódio foram instrumentos de Deus para suas pro-
vações.
Entre os trabalhos animagógicos se encontra a pintura mediú-
nica, uma forma de terapêutica ocupacional com alguns desencar-
nados que ainda necessitam de fluidos mais densos, mais ma-
teriais, para se recuperar. Normalmente não são revoltados, mas
que têm muita dificuldade de se libertar do plano material. Eles
são convidados a pintar quadros pelas mãos dos médiuns. Neste
tipo de trabalho, não é o valor estético do quadro, mas a possi-
bilidade de apaziguar a necessidade de fluidos densos. Assim, o
desencarnado se tornaria mais receptivo ao auxílio que ali lhe está
sendo oferecido. O mesmo pode se processar através de men-
sagens psicografadas ou mesmo através da psicofonia. Normal-
mente, nestes atendimentos, eles manifestam a dor que viveram
após sua morte, a alegria por estar sendo ajudado, ou mesmo sua
descrença por tudo ou ódio. Há também os que agradecem por
terem sido levados para o trabalho, enquanto outros reclamam
por terem sido levados contra a vontade.
O importante, porém, é atentarmos para o fato de que este
trabalho permite ao desencarnado extravasar seus sentimentos,
gerando nele a sensação de alívio e de paz interior necessária para
libertar-se do ego. É importante ressaltar que mesmo quando o
médium relata sentir algum incomodo durante esse atendimento
terapêutico, no encerramento do trabalho ele já se encontra liberto
de todos os sintomas ou sensações que lhe foram transmitidas
durante o atendimento animagógico.
Entre as técnicas animagógicas está a Apometria. Através dela
é possível fazer a projeção do passado do desencarnado que recebe
a ajuda e, de alguma forma, ajudá-lo a recuperar a consciência da
Individualidade, libertando-o do ego. Abordaremos a seguir a
Apometria no contexto da Animagogia.
Podemos dizer que, juntamente com o kardecismo (a mani-
festação mediúnica que acontece nos centros espiritistas), com a
umbanda e com tantas outras psiconomias criadas pelo ego hu-
mano, seja o de encarnados ou de desencarnados, a Apometria se
constitui em uma das ferramentas que utiliza a mediunidade com
consciência e benevolência. A Apometria é, modernamente, um
98 Adilson Marques

conjunto de técnicas e procedimentos psíquicos aprimorados


racionalmente e instrumentalizados operacionalmente pelo Dr.
José Lacerda de Azevedo (1919-1997). Ele formou-se em Medicina
pela Universidade do Rio Grande do Sul (URGS). A Apometria,
segundo o Dr. Lacerda, não é ciência, filosofia ou religião. Trata-
se, em sua opinião, de um poderoso instrumento psíquico baseado
em conhecimentos científicos advindos da matemática, do eletro-
magnetismo e da física quântica, e utilizado para auxiliar no trata-
mento de inúmeras patologias, cujo tratamento médico tradicional
quase sempre se mostra ineficaz.
Por se tratar de um conjunto de técnicas, a Apometria vem
sendo praticada e aprimorada em casas espiritistas, umbandistas
e universalistas, e por grupos independentes. Porém, segundo a
espiritualidade que assiste aos nossos trabalhos, trata-se de uma
técnica milenar, sem esse nome, obviamente. A sua forma atual,
“codificada” pelo Dr. Lacerda, teria sido estruturada no astral da
Terra em meados do século XIX, especialmente para auxiliar no
processo de regeneração deste Orbe, processo que, em tese, é
dirigido pelo Espírito que viveu a personalidade Maria, a mãe carnal
de Jesus, hoje também chamada de “a senhora da regeneração”
por muitos desencarnados.
Estes seres incorpóreos dizem que falar que Maria é a senhora
da regeneração não carrega nenhum sentimento de idolatria ou
de santidade, mas apenas de respeito ao importante papel que
teria assumido neste momento de evolução do planeta Terra,
sendo o responsável direto pela coordenação do processo de
regeneração deste Orbe que atualmente habitamos, coordenando
o processo de limpeza do “umbral”, e buscando evitar que um
número significativo seja “exilado da Terra”, ou seja, evitar que
estes continuem sua evolução espiritual em “Orbes inferiores”.
Segundo nos foi informado, nas reuniões mediúnicas que parti-
cipamos, o exílio da Terra teve início na década de 1930. Vários
desencarnados já não habitam mais o astral deste planeta e estão
no Umbral de outro Orbe esperando para começarem um novo
ciclo reencarnatório.
O planeta em que continuarão se aprimorando teria caracte-
rísticas materiais que lembrariam a Terra de algumas dezenas de
milhares de anos atrás. Em tese, foi neste contexto de regeneração
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 99

da Terra que a Apometria ressurgiu. Ou seja, como uma possi-


bilidade de pronto-socorro espiritual que facilita o resgate coletivo
de centenas de milhares de Espíritos presos ao ego e às ilusões do
mundo astral inferior, mesmo libertos do jugo da carne.
Esta informação, obtida por vias mediúnicas, não desmerece
de forma alguma o importante trabalho realizado pelo Dr. Lacerda
e sua equipe. Ela apenas contextualiza o porquê da Apometria ter
(re)aparecido na Terra justamente no momento em que parte dos
cientistas começa a se abrir para novas perspectivas de com-
preensão do mundo, concluindo, como as antigas filosofias do
Oriente, que o mundo material é uma miragem (maya) criada para
as nossas provas (escolhidas voluntariamente por cada um), e que
não existe o tempo, pelo menos não da forma como o nosso ego
foi programado para vivenciar (determinado em passado, pre-
sente e futuro).
A Apometria parte do fenômeno anímico conhecido como
“desdobramento espiritual”, induzido através da contagem pau-
sada e progressiva de pulsos bioenergéticos, acompanhados por
forte intenção mental. Este procedimento, diferentemente da
hipnose, foi proposta pelo farmacêutico-bioquímico Luis J. Ro-
drigues, nascido em Porto Rico e estudioso do psiquismo humano,
na segunda metade do século XX. A “projeção astral” obtida dessa
maneira não necessita das sugestões do hipnotismo, levando a
pessoa, sensitiva ou não, a realizar um desdobramento consciente,
sendo possível conduzi-la para qualquer lugar da Terra, como
também para o passado e para o futuro. A intenção do Sr. Rodrigues
era a de instrumentalizar os médicos e a medicina com técnicas
psíquicas, pois o bom médico, em sua opinião, deveria cuidar do
corpo e da alma (na ótica da Animagogia seria da mente, uma vez
que a Alma não adoece).
E como diz o Espírito Verdade (questão 529 de O livro dos
Espíritos): “O que Deus quer, deve ser; se há atraso ou obstáculo,
é por sua vontade”. Assim, a Apometria surgiu no momento em
que precisava surgir, nem antes e nem depois, por mais que o
nosso ego pense o contrário.
A medicina acadêmica precisaria compreender que existe um
complexo físico-biológico-psíquico-anímico-espiritual no ser hu-
manizado e, além disso, a influência das reencarnações na etio-
100 Adilson Marques

logia de muitas enfermidades. Provavelmente, este fato acon-


tecerá no futuro. Enquanto isso, a Apometria continuará sendo
enquadrada no campo das chamadas “terapias alternativas” ou
complementares. Porém, como acontece com outras “terapias
alternativas”, há grupos de atendimentos apométricos que cobram
pelas sessões e grupos que procuram servir com amor e por amor,
sem nenhum interesse pecuniário. E, a cada dia, aumenta o número
de pessoas que buscam tratamento apométrico para problemas
como obsessões, depressões e tantas outras enfermidades psi-
cossomáticas, entre elas, a tão temida goécia, mas conhecida como
“magia negra”, algo considerado como superstição por setores
kardecistas.
Na Apometria não se prescreve nenhum medicamento, seja
alopático, homeopático ou floral. Seus instrumentos são bioener-
géticos, ou seja, utiliza-se apenas a força mental dos participantes
para irradiar energia, criar campos de força magnéticos, fazer
regressões de memória etc. A Apometria vai além dos limites do
animismo e da mediunidade. Entendemos por animismo as prá-
ticas recorrentes no Oriente nas quais o discípulo transcende os
limites do corpo físico para estabelecer contato consciente com o
mundo astral, através da meditação, das viagens astrais etc. O
animismo é uma prática espiritual “ativa”, enquanto a mediu-
nidade é uma prática espiritual “passiva”, na qual os participantes
aguardam que o plano espiritual revele informações que poderiam
ser adquiridas com esforço espiritual próprio.
Mas o animismo e a mediunidade são lados de uma mesma
moeda, são experiências complementares. É a nossa tendência
dicotomizante que nos faz aceitar um lado e criticar o outro. Algu-
mas doutrinas defendem o animismo. É o caso do movimento Rosa
Cruz, da Teosofia e tantas outras. Tais doutrinas costumam afirmar
que a mediunidade é uma prática espiritual perigosa e que como
tal deve ser evitada. O ideal, para essas doutrinas, é o próprio
discípulo colher as informações espirituais diretamente no Astral,
sem depender dos Espíritos.
De outro lado, os espiritistas valorizam a mediunidade e desva-
lorizam as informações transcendentais adquiridas a partir do
animismo, classificando-as sempre como “mistificação”. A Apo-
metria, nesse contexto, é um conjunto de técnicas que ultrapassa
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 101

essa lógica dicotômica e que se caracteriza por ser uma forma de


servir-se do ego e não de se escravizar a ele, como já enfatizou
Krishna no clássico Baghavad Gita. Assim, o animismo e a mediu-
nidade são valorizados e convivem harmoniosamente na prática
apométrica, realizada dentro da perspectiva animagógica.
Mas não é nosso objetivo tecer aqui longas considerações
teóricas sobre a técnica apométrica. O livro do Dr. Lacerda, Espírito/
matéria: novos horizontes para a medicina, deve ser lido obriga-
toriamente por todos os interessados no tema. A Apometria é uma
original contribuição que renasceu em solo brasileiro e é ignorada
por muitos.
A ONG Círculo de São Francisco - Instituto de Animagogia –
começou a utilizar em caráter experimental a Apometria, em 2004.
Durante três anos não se atendia consulentes externos. O objetivo
foi adquirir experiência e confiança antes de começar a atender a
população com mais esse serviço animagógico.
Apesar da Animagogia ser considerada uma educação espiri-
tualista que visa auxiliar todos aqueles que desejam passar pelo
processo metanoico de despertar a Individualidade, libertando-a
do ego, em outras palavras, da consciência provisória que impede
o Espírito eterno de expressar sua Luz durante a encarnação, ela é
mais facilmente praticada com os desencarnados.
Com os encarnados, o máximo que podemos fazer é estimulá-
lo a passar por suas provações com amor e sem condicionar sua
felicidade a nada exterior, vivenciando a humanização que es-
colheu sem apegos ou aversões, e com mais habilidade espiritual.
Mas, o desligar definitivo do ego só é possível após o desencarne.
E neste contexto, a Apometria pode ser utilizada como um
terapia complementar, junto ou separada de outras técnicas psi-
cossociais, anímicas e mediúnicas, visando o processo de educação
espiritual, ou seja, a Animagogia do espírito humanizado. A Apo-
metria é um instrumento importante, mas ineficaz se não for parte
de um programa educativo maior de “reforma íntima” ou ani-
magógico. Ela é um fato, um fenômeno ou uma manifestação
espírita, mesmo que essa técnica seja proibida de ser praticada nos
centros espiritistas de orientação religiosa. Porém, aqueles que
entendem o Espiritismo como uma ciência de observação voltada
para o estudo das supostas relações entre o mundo material e o
102 Adilson Marques

espiritual, derivando em uma filosofia de cunho moral, não encon-


tram razão para não utilizar essa técnica medianímica, uma vez que,
por ser apenas uma técnica, não contraria os principais ensina-
mentos dessa doutrina, que são, entre outros: Deus é a inteligência
suprema e causa primária de todas as coisas. O espírito escolhe
antes de encarnar seu gênero de provas. Os espíritos praticamente
dirigem nossos pensamentos e atos. Ninguém morre antes da
hora, não importa o perigo que lhe ameace. A caridade consiste
em ser benevolente, indulgente e perdoar.
Podemos dizer que não há sincretismo algum quando um
centro espírita utiliza a Apometria, técnica proposta e aprimorada
pelo Dr. Lacerda, um médico espiritista brasileiro, para trabalhos
de esclarecimento de seres desencarnados e tratamento espiritual
de encarnados. Além disso, se estudarmos atentamente os ensina-
mentos do Espírito Verdade, notaremos que sua ênfase está, na
maioria das respostas que aparecem em O livro dos Espíritos, na
intenção com que um ato é vivenciado, ou seja, sua preocupação
é sempre com a mudança interior ou espiritual, e não com a pres-
crição de atos exteriores ou materiais. Por isso, ao falar que uma
determinada técnica é espiritista (o passe, por exemplo) e outra
não é (Apometria, Transcomunicação Instrumental, Cromoterapia
etc.), já se abandonou a “obra de Allan Kardec” que foi toda voltada
para a pesquisa da relação entre o mundo material e o espiritual.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 103

CAPÍTULO 5

A TVI E SUAS TÉCNICAS ANIMAGÓGICAS

A Terapia Vibracional Integrativa (TVI) foi uma das principais


contribuições da ONG Círculo de São Francisco. A TVI é uma terapia
e ao mesmo tempo uma atividade de anima-ação cultural impor-
tante para o desabrochar do Homo spiritualis, ou seja, para auxiliar
no despertar dos atributos do Espírito em nossa vida cotidiana, um
dos principais objetivos da Animagogia que, como foi salientado
ao longo do livro, visa auxiliar no processo metanoico do Espírito
humanizado, encarnado ou desencarnado.
E como também já foi salientado, para a Animagogia as enfer-
midades são, basicamente, psicossomáticas, originando-se a partir
de pensamentos e sentimentos desarmônicos que vibram na Psi-
cosfera. Caso não sejam transformados, “descerão” para o corpo
físico que, por sua vez, vibra na Biosfera.
A Terapia Vibracional Integrativa é, ao mesmo tempo, uma prática
meditativa, bionergética e transpessoal que possibilita uma diferente
forma de viver o mundo de provas e expiações, um mundo des-
almado que, além do iminente des-astre, nos transmite a sensação
des-agradável de estar num mundo de des-respeito e de solidão. O
ego foi programado para vencer na vida, adaptando-se facilmente a
essa energia que nutre os chamados mundos de provas e expiações,
mas o Espírito humanizado encarna para vencer a vida, irrigando com
os atributos do Espírito todos e tudo que o rodeia.
Por isso que a TVI não foi pensada para adaptar o participante
a esse mundo, mas como parte integrante de um novo meio socio-
cultural e educacional que valoriza o re-envolvimento do corpo e
da alma, da sociedade e da natureza, do animus e da anima, em
suma, que valoriza o desabrochar do Homo spiritualis, aquele que
sabe reconhecer o valor da energia mental para se ter equilíbrio e
utilizá-la em um tratamento bioenergético.
A TVI re-envolve aquilo que foi, ao longo dos séculos, sepa-
rados: o corpo, a mente, a alma e o Espírito. Mas também a
104 Adilson Marques

comunidade e a natureza. Re-valorizar e re-significar a vida huma-


nizada é um de seus objetivos.
Nos pressupostos da Animagogia cada pessoa faz vibrar uma
onda mental própria (chamaremos esta energia de qualitum) que
se torna o agente essencial para as realizações, seja no plano físico
(Biosfera) ou no extrafísico (Psicosfera). Por intermédio do pensa-
mento é possível fazer com que uma corrente mental reproduza
as suas próprias peculiaridades em outra corrente mental que se
lhe sintonize, enquanto perdure a sustentação do fluxo ener-
gético. Assim, na ótica da Animagogia, o ser humanizado, encar-
nado ou não, pode ser comparado, metaforicamente, a um dínamo
complexo. Ele é ao mesmo tempo, gerador, indutor, transformador
e coletor de energia. Dessa forma, pode assimilar correntes con-
tínuas de força e, simultaneamente, exteriorizá-las.
Essa força mental que vamos identificar como qualitum vibra
em uma dimensão que vamos chamar de Psicosfera. É nela tam-
bém que vibra os corpos astrais dos Espíritos humanizados ainda
presos ao ego. Estas correntes energéticas que se exteriorizam
pela Psicosfera, conservando-se na aura da personagem que repre-
sentamos na Terra, durante nossa encarnação. Por isso afirmamos
que o ego tem duas faces: uma subconsciente e outra consciente,
que é aquela que acessamos durante o estado de vigília. Essa é
apenas uma fagulha de luz, envolta na sombra que forma o in-
consciente.
E a Terapia Vibracional Integrativa consiste, basicamente, em
nossa capacidade de produzir e irradiar vibrações mentais salutares
ou “superiores”, procurando irradiar frequências cujo qualitum
esteja imerso nos atributos do Espírito. Por isso, os quatro únicos
“símbolos” utilizados na TVI são: a vontade, o pensamento elevado,
a imaginação criativa e o amor.
A vontade é um dos principais atributos do Espírito. É ele que
faz o Espírito querer “evoluir”, ou seja, vivenciar as várias fases
possíveis, adquirindo mais experiência de vida e sabedoria. Ao ser
derrotado pelo ego, em uma encarnação humanizada, é a vontade
que o faz querer se preparar melhor e retornar, por diversas vezes,
até vencer. Durante a encarnação do Espírito humanizado quando
falta vontade costumamos dizer que a pessoa está desanimada,
ou seja, sem alma. E quando a vontade de autorrealização é grande,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 105

dizemos que a pessoa está imbuída de muito entusiasmo, que


significa agir com Deus dentro de si.
O pensamento é o principal qualitum. Ele é um dos principais
atributos do Espírito. Durante a encarnação, sintonizamos com os
pensamentos que vagam pela Psicosfera, como se o nosso cérebro
fosse uma grande antena que capta de acordo com o nosso inte-
resse. É por isso que é possível, durante a encarnação, dar um
upgrade no ego. Ou seja, torna-lo mais espiritualizado. Quando
mudamos o foco de nossa vida humanizada, imediatamente nos
sintonizamos com outra faixa de energia mental e isso afetará
nossa existência e, consequentemente, nossa relação com as
pessoas com quem vamos conviver, trabalhos a serem realizados
e até mesmo lugares. As mudanças de relacionamentos, de tra-
balho ou de cidade ou país nunca acontecem por acaso. Elas são
sempre o resultado das mudanças psíquicas ou dos upgrades pelos
quais o ego passa.
A imaginação vibra na Noosfera. Ela é superior aos pensamentos
que vibram na Psicosfera. O que a Animagogia chama de Noosfera,
a Teosofia chama de Mental superior e seria essa dimensão cha-
mado “mundo das causas”. Ou seja, é aqui que se cria tudo o que
existe nas dimensões abaixo ela, a Psicosfera e a Noosfera. Por
exemplo, o corpo dos animais ou novas plantas não surgem por
acaso, mas são planejadas na Noosfera por Espírito humanizados
desligados do ego. E também o corpo físico que vamos vestir
durante a nossa encarnação. Através da imaginação do Espírito
humanizado, ele vai projetar o seu corpo astral (perispírito), que
vai vibrar na Psicosfera, articulando, ao seu redor, as radiações das
sinergias funcionais, ou seja, uma aura de forças mentais com
determinadas cargas de emoções e pensamento. Tudo isso vibra
na Psicosfera e aproxima, vibratoriamente, os “iguais”, os que
vibram na mesma frequência, os chamados “amigos de fé e irmãos
camaradas”, segundo pai Joaquim de Aruanda.
E como afirmava Jung, não temos como quantificar as energias
das emoções e dos pensamentos. Podemos, apenas, sentir a inten-
sidade de uma emoção e compreender a qualidade de um pen-
samento. E é através do pensamento que estabelecemos uma
afinidade vibracional que nos ajuda a compreender a frase “é
dando que se recebe”, da oração de Francisco de Assis ou a lição
106 Adilson Marques

de Paulo (6:7), de que “iremos ceifar aquilo que semearmos”. Em


suma, cada Espírito humanizado, esteja encarnado ou desen-
carnado, pelo poder vibratório emanado, imprime um qualitum
que estará manifesto em sua personalidade (ego) e será capaz de
fortalecer ou enfraquecer o sistema imunológico, facilitando ou
não a ação de bactérias, fungos, vírus e outros elementos pato-
gênicos tanto no corpo astral como no corpo físico, no caso dos
encarnados.
Assim, a TVI, através de suas 12 técnicas, atua de forma integral,
atuando no campo físico e mental (que compreende o emocional),
buscando desobstruir os “canais” energéticos, permitindo que a
energia pura e curativa do Espírito (que vibra na Logosfera) possa
chegar ao corpo físico, no caso dos encarnados, sem interrupção
da mente e das emoções, sobretudo as “negativas”.
Porém, mesmo reconhecendo que o Universo pode ser pen-
sando como um reino de oscilações, e que a matéria é suscetível
de converter-se em ondas de energia, inclusive o nosso corpo
físico, a matéria existe, como discutimos em um capítulo anterior.
Ou seja, ela não é um mero reflexo do pensamento, como o idea-
lismo costuma dizer. Esta filosofia que está presente no mo-
vimento que vem sendo intitulado como “misticismo quântico”
afirma que basta pensar para mudar a cor da pele, o sexo ou fazer
nascer um membro amputado. Em outras palavras, mesmo não
tendo substancialidade, um ensinamento milenar budista, e sen-
do, em sua essência, um tecido vasto de átomos em movimento,
arrastando turbilhões de ondas em frequências inumeráveis,
cruzando-se em todas as direções, a matéria não é uma mera
projeção da nossa mente e possui uma finalidade providencial.
Na Psicosfera o idealismo se aplica. Por exemplo, um Espírito
humanizado que desencarna sem a perna ou cego pode continuar
se vendo no astral com essas deficiências. Mas se ele mudar o foco
do pensamento, ele consegue voltar a enxergar e reconstruir sua
perna. Até voar o desencarnado é capaz com a força do pensamento.
Mas na Biosfera ele precisa trabalhar em conjunto com as leis
naturais que regem essa dimensão.
Como já salientamos, a Animagogia compreende a matéria
como um elemento fundamental para o Espírito, em sua fase
humanizada, adquirir sabedoria e experiência de vida ao longo das
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 107

inúmeras encarnações. E mesmo que ainda não tenhamos o co-


nhecimento suficiente para compreender o meio sutil em que os
sistemas atômicos oscilam, chamado de “campo” por Einstein
(1879-1955), de “Fluido Cósmico” pelos espiritistas e de “energia
escalar” por Nikola Tesla (1856-1943), cientista austríaco que se
destacou no campo dos estudos sobre os fenômenos eletro-
magnéticos, a Animagogia não se coloca nem ao lado dos mate-
rialistas, para quem a consciência é um epifenômeno da vida
orgânica, e nem ao lado dos idealistas (solipsistas), para quem a
matéria não existe, sendo apenas uma projeção mental.
A Animagogia reconhece a existência da matéria, mas, ao con-
trário, do cientificismo dominante (seja o mecanicismo ou o ener-
gismo), não compartilha da teoria que afirma ser a matéria fruto
do acaso ou do “indeterminismo quântico”. Em suma, pautando-
se pelo bom senso, não se coloca em nenhum dos extremos, nem
o materialista e nem o idealista, no qual se destaca a polêmica
informação do suposto ser incorpóreo Saint Germain, em um de
seus livros canalizados, que é possível alguém “dormir em um corpo
de homem negro africano e acordar no corpo de uma mulher loira
alemã” usando apenas o poder mental.
O pensamento é importante, sem dúvida, e junto com a oração
(lembrando que orar não é, necessariamente, repetir palavras ou
frases decoradas, mas emanar do coração nossos mais sinceros
agradecimentos e pedidos a Deus) podemos manipular o “fluido
cósmico”, ainda mais se o processo é vivenciado com o amor
universal, sem julgamentos ou condicionalidades. Como acre-
ditava Gandhi, o amor de um é capaz de neutralizar o ódio de
milhões. E sobre o valor do amor, escreveu o clarividente C . W .
Leadbeater no livro O lado oculto das coisas:
“Consta que em alguma parte do deserto, perto de Alexandria,
havia um mosteiro cujo abade possuía faculdades de clarividência.
Entre os monges, dois jovens gozavam da reputação de pureza e
santidade. (...) Observando o primeiro viu que ele se fizera rodear
de uma cintilante concha de cristal e quando os demônios da
tentação começavam a atormentá-lo, se chocavam contra essa
concha e retrocediam (...). Depois olhou para o segundo monge e
viu que ele não formava nenhuma concha, mas estava com o
coração repleto de amor, irradiando-se incessantemente em todas
108 Adilson Marques

as direções sob a forma de torrentes de amor ao próximo que,


quando os demônios tentadores investiam com intenções pérfi-
das, eram transformados por aquela efusão de força. (...) O abade
declarou que o segundo monge estava mais próximo do reino dos
céus que o primeiro. É possível que muitos de nós não tenhamos
alcançado o nível do segundo monge; mas, pelo menos, a história
exprime um ideal mais elevado que o simples desejo de autopro-
teção”.
Pelo exposto acima, podemos dizer que o “Orar e vigiar” é uma
forma de lidarmos com as forças espirituais (vamos chamar aqui
de divinum) e conseguir nos defender criando campos energéticos
de proteção, como o primeiro monge, mas buscando como ideal,
o exemplo do segundo, no qual não há necessidade de se de-
fender. O qualitum (energia mental que vibra na Psicosfera) pode
ser construtivo ou destrutivo, proporcionando alcançar resultados
tangíveis como a somatização de doenças, de um lado, ou a facili-
tação da cura, de outro, inclusive de desencarnados.
Podemos dizer que nosso “padrão vibratório” aumenta con-
forme a nossa capacidade de converter nossa vontade de prazer
em prazer em servir. E o cérebro se comportaria como um pode-
roso “processador” capaz de receber diferentes correntes vibra-
tórias e as transformar em imagens, vozes, cores, palavras, entre
outros sinais adequados às faixas de sintonia natural da Terra, o
ambiente em que vivemos atualmente a nossa existência. Porém,
na ótica da Animagogia, não seria o cérebro o responsável pelo
pensamento. Pensar é uma habilidade espiritual, ou seja, um
atributo da consciência do Ser. O pensamento é o modo de o Es-
pírito modelar o qualitum à sua vontade, dando-lhe formas, pro-
pósitos e objetivos. Mas ele não é passível de quantificação, apesar
de ser possível qualificá-lo, como já salientamos.
É por essa razão que podemos afirmar que todos nós somos
agentes de indução e que o nosso pensamento, ao ser exteriorizado
na forma de ondas, voltará para nós enriquecido com os daqueles
(encarnados ou não) que estão sintonizados com as mesmas cria-
ções mentais, ou seja, que estão na “mesma frequência”. Nossa
vida humanizada (encarnada ou não) é fruto das afinidades vibra-
cionais . Assim, torna-se fundamental o autopoliciamento de
nossa vida mental, sem paranoias, obviamente. Esse “vigiar” é
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 109

importante se pretendemos nos sintonizar com as esferas mais


sublimes como a Noosfera (onde vibra o Espírito humanizado
incorpóreo) e, também, com a Logosfera (a dimensão espiritual
onde vibra o Espírito, imagem e semelhança de Deus), onde nossa
consciência está liberta de toda e qualquer interferência hu-
manizada.
Esse pressuposto da Animagogia vem ao encontro do ensina-
mento de André Luiz presente no livro Mecanismos da mediu-
nidade:

“Estamos ligados em Espírito com todos os encarnados ou


desencarnados que pensam como pensamos, tão mais estrei-
tamente quão mais estreita a distância entre nós e eles, isto é,
quanto mais intimamente estejamos comungando a atmos-
fera mental uns dos outros, independentemente de fatores
espaciais. Uma conversação, essa ou aquela leitura, a con-
templação de um quadro, a ideia voltada para certo assunto,
um espetáculo artístico, uma visita efetuada ou recebida, um
conselho ou uma opinião representam agentes de indução,
que variam segundo a natureza que lhes é característica, com
resultados tanto mais amplos quanto maior se nos faça a
fixação mental ao redor deles.”

Sabemos que a perspectiva biomédica moderna ainda se preo-


cupa muito mais com a doença (o processo de o Espírito drenar
seu psiquismo doentio através do corpo físico) do que com o
doente em si. Essa drenagem receberá infinitas nomenclaturas:
lepra, tuberculose, câncer, AIDS etc. Isso talvez ocorra pelo fato
de a causa da moléstia ser, quase sempre, dinâmica e oculta aos
olhos físicos. O Espírito humanizado encarnado, em desarmonia,
despeja na carne os fluidos deletérios e só será pensado como
doente quando o processo de materialização física se tornar
evidente, alterando os tecidos, deformando órgãos, perturbando
os sistemas vitais.
Como já foi salientado, para a Animagogia é por intermédio da
mente que se pode modificar a ética dos sentimentos, agindo
sobre nosso temperamento e, também, sobre a organização celu-
lar do organismo físico. E nesse processo, o Espírito humanizado
110 Adilson Marques

se serve do cérebro para produzir ondas de forças que circulam


por todo o corpo físico e graduam-se conforme o campo ener-
gético. Ramatís, no clássico livro Fisiologia da Alma, faz a seguinte
correlação entre os pensamentos/sentimentos e seu efeito no
corpo físico:

“... O medo ataca a região umbilical, na altura do nervo vagos-


simpático, e pode alterar o funcionamento do intestino del-
gado; a alegria afrouxa o fígado e o desopila da bílis; enquanto
o sentimento de piedade reflui instantaneamente para a
região do coração. A oração coletiva e sincera, da família, ante
a mesa de refeições é bastante para acalmar muitos espasmos
duodenais e contrações opressivas da vesícula hepática,
assim como predispõe a criatura para a harmonia química dos
sucos gástricos. O corpo físico é o prolongamento vivo do
psiquismo; é a sua forma condensada na matéria, por cujo
motivo sofre com os mais graves prejuízos os diversos estados
mórbidos da mente. A inveja, por exemplo, comprime o
fígado, e o extravasamento da bílis chega a causar surtos de
icterícia, confirmando o velho refrão de que a ‘criatura quando
fica amarela é de inveja’. O medo produz suores frios e a
adrenalina defensiva pode fazer eriçar os cabelos, enquanto
a timidez faz afluir o sangue às faces, causando o rubor. Diante
do inimigo perigoso, o homem é tomado de terrível palidez
mortal; a cólera congestiona de sangue o rosto, mas paralisa
o afluxo de bílis e enfraquece o colérico; a repugnância esvazia
o conteúdo da vesícula hepática que, penetrando na circu-
lação, produz náuseas e as tonturas.”

Após essa pequena digressão, podemos afirmar que a pessoa


que pretenda utilizar a TVI como atividade psicossocial e educativa
não deve descuidar de sua Animagogia, ou seja, de seu processo
de despertar espiritual buscando integrar o ego (persona) ao Self
(alma). Quem cultiva pensamentos elevados e evita todos os ex-
cessos de natureza física ou psíquica aumenta sua vibração, permi-
tindo alcançar melhores resultados com a prática, tanto com os
encarnados como também com os desencarnados. Por seu lado, o
participante que busca o auxílio da TVI, seja com as meditações,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 111

com os tratamentos bioenergéticos ou com as práticas de Chi Kung,


necessita estar receptivo para recolher em sua constituição fisio-
psicossomática os glóbulos de vitalidade disponibilizados com as
práticas e, também, potencializar sua força de vontade e melhorar
a qualidade vibratória de seus pensamentos (qualitum), sem des-
cuidar de sua metanoia ou processo de individuação para que possa
despertar cada vez mais sua sensibilidade espiritual e permitir que
sua energia (divinum) se manifeste em sua vida humanizada, pois
todos nós somos Homo spiritualis.
Enfim, as enfermidades resultam da desarmonia do indivíduo
diante das leis numinosas que atuam sobre o plano físico (Bio-
sfera), emocional e mental (Psicosfera). Sobre esse assunto en-
contramos ainda no livro Fisiologia da Alma uma frase tão signi-
ficativa que merece reprodução:

“O volume de cólera, inveja, luxúria, cobiça, ciúme, ódio ou


hipocrisia que porventura o Espírito tenha imprudentemente
acumulado no presente ou nas existências físicas anteriores
forma um patrimônio ‘morbo-psíquico’, uma carga insidiosa
e tóxica que, em obediência à lei da harmonia espiritual,
deve ser expurgada da delicada intimidade do perispírito. O
mecanismo ajustador da vida atua drasticamente sobre o
Espírito faltoso; ao mesmo tempo que o fardo dos seus fluidos
nocivos e doentios vai-se difundindo depois pelo seu corpo
físico.”

Podemos inferir que a vida humanizada do Espírito não tem


nada de fatalidade. Existe uma relação dinâmica entre as forças
cósmicas e as da vontade individual de forma que, podemos não
ter o “merecimento” hoje para uma cura, mas, amanhã, depen-
dendo de nossas atitudes, mudando os pensamentos e senti-
mentos com os quais reagimos diante das vicissitudes da vida, nós
poderemos vir a ter. Mas, ao contrário do “misticismo quântico”
que acredita que tudo é uma projeção da mente e que podemos
ter tudo aquilo que nosso ego desejar, a Animagogia reconhece o
valor positivo da dor para o nosso amadurecimento espiritual,
questão também analisada sabiamente por Ramatís, no mesmo
livro:
112 Adilson Marques

“Embora a dor e o sofrimento sejam desagradáveis, a sua


função é a de transformar a vestimenta perispiritual oriunda
das energias telúricas do mundo animal na contextura deli-
cada da túnica Angélica. A encarnação do Espírito nos mundos
planetários é providência abençoada, que desenvolve a sua
consciência e proporciona-lhe a oportunidade de alcançar a
ventura pelo mérito do esforço pessoal. A sua demora no
contato com a matéria provém do desejo sempre insatisfeito
e do apelo demasiado à grande ilusão da vida física, como se
esta fora a verdadeira vida. Os entretenimentos ilusórios da
matéria e as paixões perigosas, quando muito cultuados,
enfraquecem a vontade e a hipnotizam de retorno à linha-
gem animal que constitui a base do perispírito. Mas é de lei
divina que todas as almas terminem saturando-se pela me-
diocridade dos sentidos físicos e modifiquem seus planos e
destinos, para buscarem em definitivo as compensações
elevadas dos mundos espirituais.”

Assim, a única fatalidade que parece existir é a de que, mais


cedo ou mais tarde, todos vão se libertar da necessidade de
reencarnar, vencendo a fase humanizada do Espírito. E esse pro-
cesso acontece com o desapego material, sentimental e cultural,
e com os atributos do Espírito se manifestando em nossa vida
humanizada. Esta mudança consciencial ou metanoica também
ajuda a pessoa a se tornar mais eletiva a um tratamento bioener-
gético e espiritualista, como é o caso da Terapia Vibracional Inte-
grativa. Em outras palavras, uma doença física decorrente da puri-
ficação do perispírito, comprometido em encarnações anteriores,
poderá ser curada ou aliviada se, na atual encarnação, o enfermo
se esforçar para melhorar seu padrão vibratório, mudando os
sentimentos e os pensamentos, pois assumir a responsabilidade
pela própria cura é um importante caminho para a aquisição de
“méritos”.
A mente é capaz de afetar todas as partes do ser humano, atuan-
do sobre o sistema nervoso, linfático, endócrino, circulatório etc.,
podendo alterar a composição e o funcionamento dos órgãos
físicos. Isso não quer dizer que pelo pensamento é possível mudar
a cor da pele ou dos olhos, ou mesmo de sexo, como se a matéria
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 113

fosse apenas uma projeção mental. A TVI apenas induz o parti-


cipante a se retificar psiquicamente, buscando uma purificação do
Ser de dentro para fora. Na vivência, os glóbulos de vitalidade
atraídos do sol e outras vibrações superiores interpenetram o
perispírito do participante, processando desde a esfera mental até
as extremidades do corpo físico e, como catalisadores, aceleram
reações no organismo combalido. O mesmo vale para o desen-
carnado, mesmo que este não tenha mais o corpo físico, apenas o
corpo astral.
A prática, neste sentido, intensifica e eleva a energia vital sem-
pre que o participante desperta sua natureza receptiva, predis-
pondo seu campo psíquico (mental e emocional) para a absorção
da energia dinamizadora. E no caso de se tratar de uma “enfer-
midade cármica”, ou seja, de uma doença adquirida, em tese, em
uma vida passada e que a encarnação atual seria o tratamento
balsâmico? Neste caso, mesmo que a cura plena não aconteça, a
pessoa pode aprender como estabelecer uma relação mais har-
moniosa com a enfermidade. Novamente encontramos em
Ramatís uma elucidativa análise espiritual desse problema:

“... Mesmo a criatura mais deserdada na vida física ainda pode


servir-se de sua vontade e atuar na origem ou na essência de
sua vida imortal, usando de força mental positiva para desatar
as algemas da infelicidade, ou sobrepujar em Espírito os
próprios efeitos cármicos do seu passado delituoso. Então é
a própria lei cármica que passa a ser dirigida pelo Espírito em
prova e que inteligentemente procura ajustar-se ao curso
exato e evolutivo da vida espiritual, integrando-se ao ritmo
natural de seu progresso; ele abstém-se de resistir ao impulso
sábio que lhe vem do mundo oculto do Espírito e harmoniza-
se paciente e confiante aos objetivos do Criador. (...) As cria-
turas confiantes no sentido educativo da vida humana não
só extraem as mais vigorosas energias da própria dor, como
ainda superam o seu sofrimento acerbo e produzem obras e
trabalhos notáveis”.

Assim, o paciente eletivo, que apresenta predisposição para o


tratamento vibracional, é aquele que dinamiza em si uma dispo-
114 Adilson Marques

sição animadora para as energias curativas. O excesso de con-


dições psíquicas negativas dificultará essa incorporação ener-
gética. Por isso se diz que a Fé, a Vontade e o Merecimento são
necessários para um melhor sucesso terapêutico. E como foi
possível constatar nas citações acima, cabe ao próprio Espírito
humanizado adquirir merecimento para se tornar eletivo a um
tratamento bioenergético. A crença nas forças magnéticas e a
convicção na sobrevivência da alma são fatores que ajudam a avivar
e a clarear o campo da aura, permitindo que a energia melhor
circule durante as práticas. Livre das energias inferiores ou do
bombardeio de petardos tóxicos da mente desordenada, o pa-
ciente terá mais sensibilidade espiritual e se sintonizará com mais
facilidade com as energias balsâmicas. Assim, quanto mais cons-
ciente e convicto da sobrevivência espiritual, mais receptivo estará
à ação terapêutica vibracional.
O filósofo alemão Schopenhauer, estudioso do budismo, es-
creveu: “Hoje em dia (século XIX), quem não acredita no magne-
tismo não é cético, é um ignorante”. O que poderia ser dito, então,
neste limiar de século XXI? Felizmente, o número de pessoas cujas
condições mentais e emotivas são ideais para um tratamento
terapêutico vibracional aumenta a cada dia. Mesmo assim, muitos
enfermos estão viciados em procurar uma doença, sem saber que
é seu psiquismo perturbado, nesta ou em outra encarnação, que
gerou seu problema mórbido. Para estes, infelizmente, resta
apenas submeter-se à medicação tóxica e à peregrinação por
consultórios médicos, nos quais todo o seu organismo é minucio-
samente esquadrinhado sem que um resultado satisfatório apa-
reça, pois, na maioria dos casos se está buscando apenas uma
diagnose externa.
A Terapia Vibracional Integrativa ajuda a aliviar a carga mórbida
do psiquismo, tanto do encarnado como do desencarnado, mas
não tem forças para violar o “livre-arbítrio” de ninguém, nem para
modificar o “caráter espiritual” de ninguém. Uma criatura descon-
trolada irá, com o tempo, comprometer novamente seu psiquismo
caso volte a perpetrar os mesmos desatinos espirituais. A TVI não
tem como impor os princípios morais superiores.
No meio espiritista conta-se, com frequência, a história de uma
pessoa que, no planejamento de seu resgate cármico, antes de
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 115

encarnar, foi informada que poderia vir a perder um braço em um


acidente. Porém, após encarnar, conseguiu graças a sua bene-
volência enxugar parte dessa toxidade astral com o amor; assim,
ao sofrer o inevitável acidente, perdeu apenas um dedo e não o
braço. Enfim, podemos considerar que só há dois caminhos para
nos livrar de um “carma”: o amor ou a dor. Porém, sempre rece-
bemos apenas o que necessitamos e merecemos. No exemplo
acima, este Espírito humanizado adquiriu merecimento positivo
durante a atual encarnação e quando o acidente programado para
acontecer em sua encarnação ocorreu, a colheita se tornou menos
dolorosa. Em outras palavras, podemos entender que havia uma
toxidade em seu corpo astral para ser drenada durante a encar-
nação. E ele tinha um tempo para drená-la através do amor. Por
ter aproveitado este tempo, a dor foi menor.
Se não tivesse aproveitado, precisaria drenar essa toxidade
perdendo todo o braço no inexorável acidente programado para
acontecer em sua encarnação. De uma forma ou outra, o “resgate”
aconteceria. Mas temos sempre a liberdade de optar em enxugar
o carma com o amor ou com a dor. Seja no meio espiritista, ocultista
ou esotérico, afirma-se que muitas vezes enfrentamos moléstias
que nós mesmos solicitamos antes de nossa reencarnação, com o
objetivo de purificarmos nosso corpo astral ou perispírito. Neste
caso, a dor adquire caráter educativo para o Espírito humanizado,
auxiliando-o para que não mais cometa os mesmos “erros”. Porém,
mais do que uma punição, trata-se de uma bênção divina para o
Espírito humanizado que busca superar a fase humanizada em sua
caminhada pela eternidade.
E a frustração ou o sofrimento quando se vivencia uma vicissi-
tude negativa pode ser atenuado ou nem existir, quando aceitamos
que a vida não é feita apenas por momentos positivos ou agra-
dáveis. Como salientado neste livro, em uma das perguntas que
Kardec faz ao Espírito Verdade em O livro dos Espíritos, ele ques-
tiona se alguém está fadado a viver uma encarnação infeliz. E a
resposta que ouve é que está confundindo o que está programado
para acontecer e o livre-arbítrio moral de cada um de nós. Viver
feliz ou infeliz é fruto do livre-arbítrio, é um estado de Espírito. É
por isso que o Budismo ensina aos seus discípulos a serem felizes
incondicionalmente, ou seja, não permitindo que as coisas que
116 Adilson Marques

acontecem no mundo exterior lhe tirem a paz interior. Aquele que


se condiciona a ser feliz somente quando acontece aquilo que
considera agradável, corre sim o risco de ter uma vida inteira de
infelicidade. Cabe ao Espírito humanizado ser feliz, independente-
mente das coisas que lhe acontecem durante a encarnação.
A TVI, portanto, é um método psicossocial e espiritual que visa
ajudar a acender a centelha do divino na vida cotidiana, cultivando
nos participantes o despertar do Homo spiritualis, ou seja, de
vivenciar com habilidade espiritual nossa vida humanizada. Sua
meta é permitir a integração da alma (Self, em sentido junguiano)
ao ego (a consciência humanizada da personagem criada para mais
uma encarnação).
Na TVI vamos proporcionar condições mais otimistas e estimu-
lantes para o autoconhecimento e para a cura. Porém, se não
houver a contrapartida do enfermo, nenhum êxito encontrará
nesse tipo de tratamento. A TVI procura proporcionar ao partici-
pante reconhecer o absoluto por trás do contingente, a eternidade
por trás do tempo, o qualitum por trás do quantum, transmutando
padrões estagnados de energia em seu corpo físico e também no
perispírito, ao mesmo tempo em que expande a consciência,
favorecendo o processo metanoico e, consequentemente, uma
maior abertura ao Outro, à natureza, tornando-se uma pessoa mais
cooperativa e solidária.
É por isso que a TVI, com as suas técnicas, é, simultaneamente,
um trabalho espiritual e psicossocial. É comum encontrar partici-
pantes narrando a visualização de cores, sentindo muito calor nas
mãos ou uma corrente de vibração agradável dirigindo-se para os
pés ou se espalhando por todo o corpo físico. Outros começam a
bocejar, a lacrimejar ou a salivar o que, segundo médicos taoístas,
seriam sintomas típicos de transmutação de energia estagnada .
Por meio do contato mediúnico com alguns mentores espirituais
soubemos que os movimentos do Chi Kung auxiliam na limpeza
energética do perispírito, o que ajuda também os desencarnados.
Assim, a sensação de plenitude e a troca energética são um fato,
mesmo que ainda não tenhamos tecnologias para medir ou quan-
tificar essa energia. Em todas as práticas (meditação, Chi Kung e
tratamento bioenergético) é frequente o participante visualizar
imagens nítidas e intensas durante a realização. Isso significa que
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 117

conseguiu transcender o ego e acessou aquela dimensão que


Henry Corbin chamou de imaginal e que denominamos, na Anima-
gogia, como Noosfera. Estas visões numinosas não são simples
fantasias de nossa mente consciente, tanto que, se tentamos
dominar mentalmente essas imagens, elas simplesmente desa-
parecem. O olho físico e a mente racionalizadora não são capazes
de retê-las. Com as meditações, a imposição das mãos ou o Chi
Kung busca-se atingir as dimensões mais sublimes e os estados
ampliados de consciência, despertando os atributos do Espírito,
adormecidos durante o processo de humanização e encarnação.
Vamos abordar agora as técnicas que formam a TVI, conforme
sua sistematização entre os anos de 2001 e 2003, através de reu-
niões mediúnicas que aconteceram no antigo Centro de Estudos
e Vivências Cooperativas e para a Paz Encantos da Lua, embrião da
ONG Círculo de São Francisco. Por motivos pessoais, o médium que
foi o responsável por este intercâmbio mediúnico não autoriza a
divulgação de seu nome. Mas, entre as entidades comunicantes,
as que foram mais presentes se identificaram com os seguintes
nomes: Dr. Felipe, Pena Branca, Folha Verde, Tupã, Flor de Lótus,
pai Tomé, Zézinho, entre outras.
A TVI é formada por práticas meditativas, por tratamentos
bioenergéticos através de imposição das mãos e práticas de Chi
Kung, ou seja, de movimentos corporais harmônicos que per-
mitem a criação de um estado de hipoatividade psíquica no par-
ticipante. Em 2001, sem saber ainda que era Chi Kung o que
estávamos aprendendo com a espiritualidade, eu chamei esses
movimentos de “danças numinosas”. Este é o nome que aparece
em meus primeiros livros, escritos em 2003 e 2004.
Todas as práticas acima induzem a uma lenta e progressiva
dessensibilização dos estímulos exteriores, ou seja, de desliga-
mento do ego, conduzindo o participante a um estado sereno e
pacífico, em alguns casos similares aos estados extáticos conhe-
cidos como zazen e samadhi, relatados pelas filosofias orientais.
Além de proporcionarem uma sensação de plenitude, as práticas
de Chi Kung, as induções animagógicas das meditações e a impo-
sição das mãos eliminam no participante quase todas as estruturas
cognitivas que formam o ego durante o estado de vigília e que,
para nós ocidentais, são as “normais”.
118 Adilson Marques

As categorias distintivas que compõem nosso mundo feno-


mênico também tendem a ser abolidas (objeto, sujeito, tempo,
espaço), favorecendo uma ampliação da consciência e possibi-
litando transcender as energias que formam o ego, alcançando
outras vibrações mais sutis, que identificamos como sendo as da
alma (Self) e do Espírito (Logos). Nas práticas de Chi Kung, a po-
tência simbólica da linguagem corporal, potencializada no rito
corporal, permite a comunicação/interação do corpo/mente com
a alma. Os movimentos harmônicos e ritmados, somados com a
respiração e a intenção, possibilitam amplificar a recepção do fluxo
energético proveniente da Noosfera e, às vezes, de esferas ainda
mais superiores.
A prática da TVI, em nosso ambiente cibernético-informacional
contemporâneo, favorece o desabrochar do Homo spiritualis,
tornando-nos conscientes de sermos um Espírito eterno viven-
ciando uma experiência humanizada e encarnada. E por ser uma
técnica de tratamento numinosa e neg-ativa (no sentido da não
ação, o wu wen taoísta) é capaz de nos levar a atingir um estado
hipermetabólico oposto ao estado de vigília ou, em outras palavras,
um estado ampliado de consciência. Nas primeiras experiências,
a pessoa pode vivenciar apenas uma sensação agradável de des-
contração e tranquilidade. Porém, com a prática, é possível chegar
ao êxtase (a capacidade de colocar o organismo e todo o Ser a
serviço de uma comunhão metacognitiva, despertando o Self e
permitindo a contemplação do numinoso em todo seu esplendor).
E por ser uma técnica que estimula o participante a se entregar
às atividades metacognitivas, é possível acessar imagens arque-
típicas curativas que se escondem no âmago do Ser, no Self. Nesse
sentido, não se trata de um estado alterado de consciência, mas
de um estado ampliado de consciência. Do ponto de vista tera-
pêutico, a TVI auxilia todos aqueles que buscam tratamento para
as contradições da existência por intermédio da unidade do Espí-
rito. O mundo moderno, caracterizado pela esquizofrenia, pode
se beneficiar com essa técnica. Professores e outros profissionais
que lidam com o público e sofrem um tipo agudo de estresse
classificado pelos profissionais da saúde como Burnout também
se sentem aliviados após cada sessão. Mas é importante ressaltar
sempre que o principal objetivo da técnica é auxiliar no desa-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 119

brochar do Homo spiritualis para que possamos viver nossa vida


humanizada com habilidade espiritual.
Como salientamos, a TVI é composta por Meditações Inte-
grativas, por técnicas bioenergéticas de imposição das mãos e por
práticas de Chi Kung. As Meditações Integrativas são meditações
guiadas que utilizam técnicas de relaxamento e também o uso de
visualizações de cores, de imagens curativas etc., com induções
animagógicas, ou seja, espiritualistas. Desde 2003 vem sendo
realizada, com resultados empíricos positivos, em diferentes
grupos sociais: portadores de necessidades especiais, soropo-
sitivos, pessoas que se tratam com quimioterapia, professores,
idosos, jovens que estão superando a crise de abstinência causada
pelo vício das drogas, policiais e profissionais da saúde estressados,
educadores vitimados pela síndrome de burnout, entre outros. E
o mais importante, tanto o ensinamento da técnica como sua
aplicação é sempre realizada de forma voluntária e gratuita. Neste
capítulo vamos apresentar as técnicas ensinadas nos cursos e que
podem ser reproduzidas facilmente, bastando ter vontade, pensa-
mento elevado, imaginação criativa e muito amor para doar.
As informações abaixo se baseiam nos depoimentos dos pró-
prios participantes, coletados desde 2003, sem a preocupação em
fazer um estudo científico e estatístico para se quantificar estes
dados . Acreditamos que o aspecto qualitativo e o bem-estar do
participante sejam mais importantes que qualquer busca por
dados objetivos. O que não significa que um pesquisador inte-
ressado não possa vir a fazer tal pesquisa.
A partir da experiência realizada ao longo destes anos, alguns
benefícios empíricos notados com a prática são os seguintes:
1. Facilita o (re)envolvimento humano, sobretudo consigo
mesmo e com os outros . A pessoa passa a dar mais atenção
às questões espirituais e, através dos relaxamentos, das
induções animagógicas e das imagens hipnagógicas tera-
pêuticas, cria-se uma ambiência bioenergética que permite
tratar diferentes enfermidades físicas, emocionais e men-
tais, além de propiciar um conforto espiritual.
2. Pode ser facilmente reproduzida por profissionais da área
da saúde, da educação e de outros setores, como anima-
dores culturais e líderes comunitários, sem dificuldades,
120 Adilson Marques

ainda mais após a edição do CD Meditações Integrativas, em


2014, que apresenta seis modelos de meditações guiadas.
3. Sua prática diminui a incidência de estresse, ansiedade, sín-
drome de burnout etc., prevenindo o surgimento de enfer-
midades físicas, mentais e emocionais, além da possibilidade
de despertar a emergência espiritual em várias pessoas
(sobre este tema, leia nosso texto emergência espiritual e
metanoia, que pode ser acessado gratuitamente na internet).
4. Amplia o controle da mente, por parte do participante e,
consequentemente, sua capacidade de resolver problemas
com criatividade, otimismo e alegria.
5. Amplia o controle emocional e aumenta o poder da intuição,
a criatividade e capacidade para enfrentar as crises e as
vicissitudes existenciais.

E como são realizadas as meditações integrativas?


1. Todas as meditações começam com um relaxamento indu-
zido. A pessoa pode fazer deitada em um colchonete ou
sentada. Não é aconselhado fazer a prática em pé. O parti-
cipante é convidado para fazer uma longa respiração e ima-
ginar uma luz azul clara e brilhante se formando no topo da
sua cabeça. Gradativamente, ela é convidada para imaginar
a luz se espalhando e envolvendo todo o seu corpo, da
cabeça aos pés. Em seguida, o participante é estimulado a
relaxar todo o seu corpo, imaginando, primeiramente, a luz
nos pés. Comandos para que sinta os pés ficando relaxados,
sem tensões e sem dores são dados, lentamente e com a
voz pausada e calma. Em seguida, o mesmo comando é dado
para as pernas, coluna, musculatura das costas, ombros,
pescoço, braços e cabeça. Comandos para relaxar o cérebro
e as ondas mentais também devem ser dados.
A cor azul é extremamente relaxante e anestésica. O único
risco é a pessoa dormir e não acompanhar o resto da indu-
ção. Porém, temos notado que o inconsciente acompanha
a indução e o tratamento é realizado mesmo com a pessoa
dormindo. O relaxamento é acompanhado, em seguida, de
uma meditação guiada, realizada com induções animagógi-
cas. As possibilidades são infinitas. Vamos descrever aqui
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 121

algumas que estão no CD Meditações Integrativas, lançado


em 2014.
2. Limpeza do ambiente doméstico e de trabalho com a menta-
lização das cores - Duração: entre 5 a 10 minutos.
Não há uma ordem ou sequência ideal para se fazer a indu-
ção. Tudo depende da necessidade do grupo participante.
No CD meditações integrativas, a faixa 2 do CD 1 (relaxa-
mento curativo), há um modelo de como a indução anima-
gógica pode ser feita. De forma geral, após o relaxamento,
a pessoa será induzida a imaginar energias coloridas, in-
cluindo a cor lilás, sempre em tonalidades claras e bri-
lhantes, saindo das mãos de Jesus, Maria (ou de outros seres
de Luz que o grupo venera e respeita). Em seguida, a pessoa
será induzida a se dirigir mentalmente até a residência ou
ao ambiente de trabalho, sempre na companhia desse ser
de Luz e fazer as limpezas energéticas necessárias. Men-
talmente, cada participante deverá passear por todos os
cômodos de sua casa, permitindo que este ser de Luz limpe
toda a energia negativa presente no ambiente.
Alguns lugares, como embaixo de escadas, quartos onde
dormem pessoas que consomem drogas e até mesmo ba-
nheiros costumam ser descritos como locais onde encon-
tram dificuldades para entrar. É preciso insistir. Uma variação
da técnica, que costuma ser muito interessante, é o grupo,
quando reúne pessoas conhecidas, ir à casa de apenas um
dos participantes. A vibração é muito mais intensa e ganha
em qualidade. É sempre importante na indução pedir a esse
ser de Luz que recolha eventuais desencarnados sofredores
ou obsessores que lá se encontrem, conduzindo-os para
hospitais ou colônias adequadas ao grau de compreensão e
merecimento que possuem.
3. Tratamento de mágoas, luto e ressentimentos – Duração:
de 15 a 20 minutos
Esta proposta de indução animagógica também se encontra
no CD meditações integrativas. Trata-se da faixa 4, do CD 1 .
Essa meditação trabalha com a vibração da cor rosa. Após
envolver todo o seu corpo, cada célula e, sobretudo, seu
chakra cardíaco, ela usará mentalmente essa vibração para
122 Adilson Marques

limpar toda energia negativa acumulada nela devido, sobre-


tudo, aos sentimentos de mágoa. A indução consiste em
mentalizar entre as mãos pessoas que fizeram ou falaram
algo que a ofendeu e, do fundo do coração, deverá perdoar
a(s) pessoa(s). Deverá fazer o mesmo com aqueles que ela
acredita que ofendeu e, em seguida, deve se perdoar, acei-
tando-se como é.
4. Varredura do passado – Duração: de 20 a 40 minutos
Esta técnica pode ser realizada de várias maneiras. Um exem-
plo se encontra na faixa 1, do CD 2 do projeto Meditações
Integrativas. Uma que tem sido bem recebida pelos partici-
pantes é induzi-lo a voltar ano a ano em sua existência,
mentalmente, e sempre que se lembrar de uma experiência
desagradável, imaginar toda a energia mental e sentimental
associada a ela na forma de um objeto que será jogado no
lixo. A pessoa pode imaginar um saco de lixo preto e ir colo-
cando todos esses “objetos”. No fim do processo, deverá
fechar o saco de lixo e o entregar nas mãos de Deus, livrando-
se daquele fardo. Em seguida, recebe de Deus uma chuva de
luz dourada para reenergizar todo o seu ser, potencializando
as energias físicas, mentais e emocionais. Muitas pessoas
sentem muita troca energética e se espantam. Enfim, como
diz a Bíblia, “Aí de quem cai nas mãos do Deus vivo”. A pessoa
acostumada apenas com o cumprimento das obrigações
formais de sua igreja ou dedicada apenas à vida profana,
costuma se assustar quando passa por um momento de
liberação e transformação de energias estagnadas, desper-
tando para novas dimensões de experiência e consciência.
Com essa técnica é possível acessar vidas passadas. E tam-
bém fazer regressões coletivas, levando o grupo a acessar
uma encarnação onde todos estiveram presentes.
5. Meditação dos 4 elementos – Duração: entre 15 a 20 minutos
A técnica consiste em utilizar a visualização dos quatro ele-
mentos - terra (montanha), água (cachoeira ou chuva), ar
(vento) e fogo (chama de uma vela), para a realização de um
exercício bioenergético que atua, respectivamente, no
corpo físico, sobre as emoções, na mente e, no fim, buscar
despertar os atributos do Espírito.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 123

Através da energia dos quatro elementos acessada através


da visualização e das induções animagógicas, o participante
costuma sentir resultados benéficos em si e na interação
com o grupo. Esta meditação não deixa de ser um exercício
xamânico sem o uso de elementos psicoativos. Apenas o
poder da imaginação criativa é usado para se atingir estados
ampliados de consciência e a transmutação energética capaz
de realizar inúmeras curas psicossomáticas. Essa técnica cos-
tuma ser utilizada nas vivências e cursos onde abordo o
poder curativo das imagens hipnagógicas. O trabalho come-
ça com a pessoa se imaginando em uma paisagem serena
subindo uma montanha. Ela procura sentir a relva e o aroma
do lugar. E, no topo da montanha, ela deve ser induzida a
sentir a energia da Terra entrando pelas plantas dos pés e
envolvendo todo o seu ser, renovando suas energias e o
fortalecendo fisicamente.
Em seguida, mentalizará um banho de cachoeira ou uma
chuva suave caindo sobre a sua cabeça. E a água que desce
do céu pura e cristalina entra por todos os seus poros e
envolve todas as células de seu corpo físico e astral, puri-
ficando-as de toda energia emocional negativa. Toda vi-
bração negativa é transmutada por essa água benfazeja. A
terceira etapa consiste em sentir o ar agradável de uma
brisa, soprando sobre o corpo. Esse ar desmancha todas as
formas-pensamento negativas, miasmas e sujeiras mentais
acumuladas no cotidiano. Por fim, a pessoa mentalizará
dentro de si, na altura do coração uma chama simbolizando
o seu Espírito puro e perfeito. Esta chama se expande infini-
tamente irradiando luz para todos os lados, permitindo uma
agradável sensação de paz e felicidade indelével, e um amor
indizível por toda a criação divina .
Um exemplo de como conduzir essa meditação se encontra
no CD 1, na sua faixa três, do projeto Meditações Integra-
tivas. Este CD apresenta outras induções, valorizando o
poder intuitivo do praticante e até para quem deseja fazer,
com segurança, vibrações para o planeta.
124 Adilson Marques

A seguir, vou apresentar duas outras técnicas que também são


ensinadas no curso de TVI.
1. O poder da prece – Esta técnica serve para o participante
comprovar o valor energético de uma prece e é propedêu-
tica para os exercícios de Chi Kung. A ideia é que o parti-
cipante aprenda, de forma prática, a sentir o poder trans-
formador da prece, observando os glóbulos de vitalidade
irradiados pelo sol e o magnetismo criado quando se faz uma
prece sincera.
Esta técnica pode ser feita em qualquer lugar, inclusive no
escuro, mas, para os iniciantes, é mais fácil a visualização
quando realizada ao ar livre, em um dia com mais umidade.
Em primeiro lugar, a pessoa deverá olhar para o céu, nunca
diretamente para o sol. Depois de alguns segundos, ela
começará a ver pequenos glóbulos prateados no ar. É impor-
tante que ela consiga distinguir esses glóbulos de outros,
mais escuros que são próprios da retina. Isso é fácil, pois os
de cor acinzentada se locomovem com o movimento do
olho. Os prateados se parecem com pequenos átomos
vibrando.
Enfim, quando a pessoa conseguir ver os glóbulos de vita-
lidade, com os olhos ainda abertos, deverá fazer uma prece
mentalmente e observar o resultado. Como salientei, com
o tempo, até no escuro é possível ver os fluidos. A pessoa
que consegue ver no escuro pode fazer outra experiência.
Imaginar estes glóbulos saindo da mão direita e atingindo a
esquerda ou outra parte do corpo. Alguns conseguem vê-
los saindo pelos dedos do pé, e brincar como se fossem
holofotes, bastando virar o pé para ver a luz mudando
de lugar.
Normalmente, à noite, os glóbulos assumem uma cor verde
fosforescente. Depois que a pessoa ver os glóbulos pela
primeira vez, será mais fácil fazer outras observações. Locais
de peregrinação e de oração costumam estar saturados
positivamente com tais glóbulos.
Os glóbulos de vitalidade são absorvidos também pelos
alimentos, pela água, pela respiração e pelo movimento
corporal.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 125

2. Criando “florais” com o poder da mente.


Esta técnica é muito simples de ser realizada. Quase todos
já tomaram água fluidificada, água benta ou qualquer outro
nome que se queria dar. Algumas pessoas acreditam que
apenas médiuns, padres, monges ou pastores são capazes
de energizar a água. Porém, qualquer pessoa que consiga
se concentrar por alguns minutos e faça a experiência com
Vontade e Amor é capaz de energizar a água. A técnica acima
consiste em criar a essência floral que a pessoa sente
necessidade de tomar. E pode ser utilizada para criar qual-
quer tipo de floral, não importando o sistema. A mente é
muito mais poderosa que uma flor.
Obviamente, que a planta possui sua vitalidade e essa ener-
gia pode ser usada para fazer remédios. Porém, a mente é
capaz de intensificar ou qualificar essa energia. Vou dar um
exemplo. Certa vez ministrando um curso de plantas medi-
cinais, comentei que a hortelã era uma planta com principio
ativo estimulante e para evitar o uso à noite porque a pessoa
poderia ter insônia. Uma das participantes do curso pediu a
palavra e disse que só dormia tomando uma xícara de chá
de hortelã e que dormia muito bem. Na semana seguinte,
porém, ela disse que, após eu falar que o chá de hortelã era
estimulante, ela não conseguiu mais dormir. Eu tive que
explicar que o poder da mente era muito mais forte que o
princípio ativo presente no chá de hortelã. Por isso,
enquanto ela acreditou que dormiria tomando o chá, ela
dormiu. A partir do momento que este esquema mental foi
substituído por outro, ela passou a ter insônia. É por isso que
há pessoas que dormem quando tomam café e outras que
não, apesar do café também ser estimulante.
Voltando à técnica, ela consiste em encher um copo com
água e, durante aproximadamente 10 minutos, envolvê-lo
com as mãos e imaginar a água se transformando no remé-
dio floral que a pessoa precisa. Para tanto, é preciso
conhecer as essências do floral de Bach ou de outro sistema
para escolher a essência desejada. Identificando a essência
que necessita, basta imaginar a energia da planta sendo
colocada na água. O mesmo pode ser feito para se obter um
126 Adilson Marques

remédio homeopático ou um calmante, por exemplo, irra-


diando cor azul para a água. Se o trabalho for feito em grupo,
o resultado pode ser ainda mais intenso. Essa técnica ficou
conhecida na TVI como Fitosofia.
Apesar de parecer misticismo, é possível explicar racional-
mente a técnica. Todo mundo já deve ter reparado que há
pessoas que secam pimenteira, arruda ou avenca. É só a
pessoa passar “carregada” perto destas plantas e em menos
de 20 minutos estão sequinhas. De forma inconsciente, a
pessoa absorve a energia vital da planta. A pessoa melhora
ou se sente com mais saúde e vitalidade, mas a planta seca.
Essa troca energética é um processo natural, feito na maioria
das vezes de forma totalmente inconsciente.
Porém, com nossa força mental é possível absorver de forma
consciente a energia das plantas e em uma quantidade que
não a esgotará. Da mesma forma que temos um corpo astral,
as plantas também tem um similar. E é deste corpo que
vamos absorver a energia. E o processo pode ser utilizado
para se fazer “remédios” florais ou fitoterápicos. Se a pessoa
leu em alguma publicação especializada que determinada
flor serve para controlar a ansiedade, basta ela impor as mãos
em seu copo de água e através de suas orações e men-
talizações pedir que a vibração daquela flor energize a água.
Depois é só tomar. E se ela quer aliviar a tosse, mas não tem
nenhuma planta para essa finalidade no seu quintal, basta
durante o processo, canalizar a energia do hortelã, do poejo,
do guaco ou de outra planta que ajude nesse sentido. Mas,
em algum lugar, possivelmente, uma planta vai secar.
Alguns anos atrás, eu não gostava de podar o meu quintal
se eu não tinha para quem dar mudas. Eu não me sentia bem
cortando plantas e as jogando fora, mesmo sabendo que
virariam adubo. Foi com o dr. Felipe que aprendi que po-
deria oferecer a energia das plantas para serem utilizadas
em hospitais ou outros locais. Assim, quando faço uma faxina
na horta, toda a energia contida na composteira eu ofereço
para os trabalhadores espirituais. Peço que levem até os
hospitais e outros locais onde aquelas energias possam ser
úteis.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 127

3. Chi Kung – Entre as práticas da TVI, destaca-se o Chi Kung.


Foi ela que deu início a todo esse trabalho. Este exercício
que vamos descrever chamávamos, em 2001, de mandala-
reiki. Ele é realizado através de movimentos corporais e
visualizações de cores. O objetivo é que o participante faça
uma limpeza e uma energização de todo o seu corpo, sen-
tindo o fluxo da energia percorrendo seu organismo. Três
cores são básicas: a lilás, no inicio do processo, a dourada
para energizar e, por fim, a azul, encerrando o trabalho.
Outras podem ser utilizadas antes do encerramento da
técnica, como a amarela para amenizar o estresse mental e
aumentar a capacidade de concentração; a verde para har-
monizar e equilibrar os chakras e o corpo físico; a rosa para
purificar as emoções e sentimentos e, por fim, a laranja para
ajudar na recuperação de quem passa por momentos de
convalescença.
Os movimentos corporais foram chamados de “danças nu-
minosas” e foram aprendidos também com entidades espi-
rituais. Posteriormente, aprendemos que o nome seria Chi
Kung, uma palavra chinesa que poderia até ser traduzida por
“passe”, uma vez que toda forma de manipulação bioener-
gética seria um Chi Kung. O mais praticado na TVI é feito em
grupo, com as pessoas formando um círculo. Cada partici-
pante vai concentrar o prâna em suas mãos e vai modular
através da mentalização de cores. O processo tem quatro
etapas: a limpeza, o tratamento, a energização e o fecha-
mento do trabalho. A duração pode ser de até 20 minutos,
conforme o grupo. A atividade pode ser feita em pé, mas
também com as pessoas sentadas, no caso de idosos ou
cadeirantes.
4. Imposição de mãos – Por sua vez, o trabalho bioenergético
através da imposição das mãos também vai trabalhar com a
visualização de cores. Não se faz sintonizações esotéricas
como no caso do Reiki e nem se usam símbolos. Todo o
processo de canalização é realizado utilizando apenas a
força mental do praticante.
O trabalho consiste em realizar primeiramente um diagnós-
tico que pode ser feito na coluna, com a pessoa em pé (tra-
128 Adilson Marques

tamento 1) ou com a pessoa deitada na maca (tratamento


2) Após o diagnóstico, o atendimento é realizado através
da imposição das mãos, com a intenção de desbloquear os
fluxos de energia estagnados (quentes) ou levar energia aos
pontos desvitalizados (frios). O importante, durante o pro-
cesso, é a vontade, o pensamento elevado, a imaginação
criativa e o amor universal. São esses os “símbolos” da TVI.
Também é possível o atendimento à distância ou um aten-
dimento grupal. Experiências utilizando uma câmera ter-
mográfica demonstraram que é real o aquecimento das
mãos dos praticantes, além de mudanças significativas no
corpo dos consulentes antes e depois da sessão. Em média,
uma sessão de TVI dura aproximadamente 20 minutos.

Abaixo, apresento algumas questões que foram formuladas às


entidades comunicantes que nos orientaram na sistematização da
TVI, entre os anos de 2001 e 2003.

Pergunta 1 - Qual a melhor forma de se preparar para uma sessão


bioenergética com a TVI?
Resposta - O ideal é sempre procurar ter um dia tranquilo, evitando
conflitos e intrigas. Fazer uma refeição leve, tomar bastante água
e evitar o consumo de álcool e cigarro. Além disso, chegar alguns
minutos antes do horário previsto para o atendimento e se pre-
parar fazendo um exercício básico de respiração e relaxamento ou
a prática de Chi Kung.
Se houver uma área verde no local onde será aplicada a técnica,
o exercício pode ser realizado lá. Respirar ar puro de forma correta
e com o pensamento elevado aumenta a absorção de glóbulos de
vitalidade e a qualidade do atendimento.

Pergunta 2 - Existe algum problema em aplicar a TVI em hospitais,


asilos, penitenciárias e locais similares a estes?
Resposta - O ideal é que estes locais tenham uma sala específica
para o trabalho. E mesmo assim, antes de iniciar, será necessário
fazer uma limpeza energética do lugar. Com a frequência de apli-
cações em um único local, facilita a organização da sala, não só no
plano material, mas em todos os demais, transformando a sala em
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 129

um “centro cirúrgico”. A ambiência (ambiente astral ou Psicosfera)


destes locais costuma ser carregados com vibrações de ódio, raiva,
desejo de vingança e muito sofrimento.
O ideal é isolar a sala onde o trabalho será realizado de toda
essa energia. E além da energia emocional e mental dos encar-
nados, existe a dos desencarnados que lá estão sem saber que já
desencarnaram ou que estão obsediando algum desafeto. A si-
tuação é muito complexa e por isso todo cuidado é necessário.
Mas, com boa vontade e organização, é possível e até necessário
um trabalho como o da TVI nestes locais. Outra possibilidade é
fazer um trabalho a distância, mas o ideal é que a pessoa que vai
receber esteja receptiva ao atendimento.

Pergunta 3 - Pode se aplicar a TVI junto com outras terapias com-


plementares?
Resposta - Sim, não há nenhum problema. É possível usar os Florais
de Bach ou de outro sistema, assim como a aromaterapia, a acupun-
tura e tantas outras técnicas. Mas é importante sempre salientar que
todos esses recursos são exteriores. Sem a mudança interior que
vocês chamam de Animagogia, nenhuma cura real se processa.

Pergunta 4 - Como podemos compreender o papel das enfermi-


dades para o Espírito humanizado? E por que algumas pessoas são
eletivas para o tratamento vibracional e outras não?
Resposta - Como afirmam todas as doutrinas espiritualistas, mes-
mo que através de palavras distintas, o Espírito humanizado encarna
para aprender a transformar os desejos do ego (a consciência huma-
nizada provisória) em amor universal, ou seja, superar o indivi-
dualismo transformando-o em universalismo. E isso se processa
através das vicissitudes (tanto as positivas como as negativas) nas
quais somos colocados em prova: a todo instante somos testados
se vamos viver em harmonia com os ditames do Self (nossa alma),
com equanimidade e felicidade incondicional ou se vamos ceder às
tentações do ego, perdendo nossa paz interior, manifestando
orgulho, vaidade, inveja ou outros sentimentos similares.
As enfermidades físicas, emocionais e mentais são sinais que
o ego está hipertrofiado. É necessário saber ler os sinais das enfer-
midades e compreender quais são as atitudes que devem ser
130 Adilson Marques

abandonadas e exercitar o perdão, a benevolência e o amor uni-


versal.
As enfermidades não são castigos, mas oportunidades para a
transformação real, que é interior, integrando, como vocês dizem,
o ego e o Self, despertando, assim, os atributos do Espírito eterno.
Quanto à segunda parte da pergunta, qual o papel dos Florais,
da TVI, da Homeopatia e outras técnicas vibracionais? Elas não
curam, mas são vivificantes. A vibração vai ajudar no processo de
recuperação do enfermo, retirando energias negativas presentes
em seu campo psíquico e físico. Porém, tudo isso é apenas uma
trégua para que o próprio enfermo mude o padrão de seus pensa-
mentos e sentimentos. Se isso não acontecer, em pouco tempo
estará da mesma forma.
É importante salientar que nenhum tratamento, inclusive os
vibracionais, está acima da lei do carma e do merecimento. Todos
são importantes, mas se o paciente não estiver comprometido
com sua própria cura, nada acontecerá. Do exterior sempre rece-
bemos apenas um auxilio para retomar o caminho da luz, mas a
mudança interior é um processo que cada um tem que percorrer
por conta própria. É por isso que se diz que cada um possui sua
Cruz, adequada em peso e tamanho para a trilha que necessita
percorrer.
Apresentamos, a seguir, algumas sugestões para se pensar em
induções animagógicas para a prática da Meditação Integrativa,
lembrando que por indução animagógica entendemos as suges-
tões que são realizadas durante a focalização. Elas devem ter
sempre um cunho espiritualista, preferencialmente, transreligioso
e universal. Durante as práticas, não importa quais serão realizadas,
o focalizador utiliza as induções para ajudar no fortalecimento ou
mudança de um padrão de atitudes. Alguns temas que podem ser
utilizados durante as induções animagógicas realizadas com o
grupo são os seguintes:
1. Estimular a persistência, a coragem e a responsabilidade
pelo seu próprio bem estar, valorizando sempre o bem-estar
físico, emocional, mental e espiritual.
2. Valorizar a felicidade incondicional e a necessidade de uma
educação espiritual (animagogia) renovando as esperanças,
o fortalecimento da fé, a solidificação do amor, a incessante
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 131

busca do perdão, o cultivo de sentimentos positivos e o


aperfeiçoamento do ser.
3. Reforçar a diferença entre Vida e Existência, levando o parti-
cipante a tomar consciência que a Vida transcende a matéria
e os cinco sentidos. Ajudar a compreender que o único
responsável pelo sofrimento e pelas angústias existenciais
é o próprio Espírito humanizado, que tece o seu destino a
partir dos sentimentos e pensamentos que nutre no dia-a-
dia e das escolhas que fez antes de encarnar, escolhendo
seu gênero de provas.
4. Reforçar que ninguém ofende ninguém. Somos nós que
permitimos nos sentir ofendidos pelas ações alheias.
5. Estimular o participante a conhecer e aprender a lidar com
suas próprias energias e a dos ambientes que frequenta
cotidianamente, desbloqueando energias estagnadas e res-
tabelecendo um fluxo energético saudável e harmonioso.
6. Levar o participante a pensar sempre de forma integral e holo-
nômica, compreendendo a integração entre os aspectos físi-
cos, psicológicos, energéticos, emocionais e espirituais em
seu ser, sendo que, essencialmente, ele é um Espírito viven-
ciando uma experiência humanizada e não um ser humano
que, eventualmente, vivencia experiências espirituais.
7. Estimular o (re)envolvimento do participante com o seu
corpo, com sua alma, com sua comunidade e com a natureza.

Todas essas induções visam ajudar o participante a lidar melhor


com as vicissitudes da existência humanizada, integrando o ego e
o Self e o ajudando a viver com habilidade espiritual sua vida
humanizada, pois, essencialmente, é um Homo spiritualis.
Na segunda parte do livro, apresentaremos alguns estudos de
caso de atendimentos animagógicos com desencarnados. Para
melhor compreender a TVI com encarnados, sugiro a leitura do livro
“A prática da meditação integrativa na terceira idade: um estudo
sobre educação popular em saúde e espiritualidade”, publicado pelo
Ministério da Saúde em parceria com o projeto vepopsus, da UFPB,
em 2018. O livro pode ser acessado gratuitamente pela internet.
PARTE II

Estudos de Caso

As noções mais simples são também as mais difíceis de


compreender. O que há de mais simples que a luz do Espírito?
Ela está em nós assim como em tudo, vivemos por sua causa e
nada seríamos sem ela, que nos envolve e penetra por todas as
partes; contundo, permanecemos cegos a ela.
Lao Tsé
CAPÍTULO 6

A APOMETRIA COMO HEURÍSTICA PARA O


ESTUDO DO SUICÍDIO E DA EUTANÁSIA

Neste capítulo, vamos abordar o estudo de dois temas polê-


micos que sempre suscitam calorosas reflexões nos meios reli-
giosos, inclusive no movimento espiritista, apesar da doutrina
espírita esclarecer que “ninguém morre antes da hora, não importa
o perigo”. É comum encontrar livros ou artigos espiritistas dizendo
que as únicas exceções são os suicídios e as eutanásias. Através da
técnica apométrica, resolvemos fazer uma pesquisa, evocando e
tratando Espíritos que, supostamente, desencarnaram vítimas do
suicídio ou da eutanásia. E, analisando o motivo de seus sofri-
mentos no mundo astral, encontramos fortes indícios para afirmar
que o sofrimento que narram é fruto do egoísmo com o qual
vivenciaram suas vidas humanizadas e também pela intenção de
cometer o ato, no caso de suicidas.
Porém, tudo leva a crer que o desencarne aconteceu na hora
prevista, confirmando o ensinamento da doutrina espírita que diz
que Deus sabe o gênero de morte de cada um e o Espírito, fre-
quentemente, também. A problematização que levantamos foi a
seguinte: como podemos ter livre-arbítrio nos atos se uma deter-
minada ação está prevista para acontecer? Além disso, será que
escolhemos, de fato, um gênero de provas antes de encarnar, como
ensina o Espírito Verdade para Kardec, na questão 258? Para tentar
resolver o problema, usamos a Apometria, técnica psíquica criada
pelo médico espiritista José Lacerda em meados do século passa-
do, através do recurso de levar o ser humanizado desencarnado e
incorporado em um médium ao passado para que o mesmo pu-
desse se lembrar do “gênero de provas” que supostamente esco-
lheu e, no caso de suicidas ou vítimas da eutanásia, dizer se o
desencarne aconteceu antes do tempo previsto para aquela en-
carnação.
136 Adilson Marques

Para esta pesquisa realizamos a observação em aproximada-


mente 70 atendimentos a desencarnados que, em tese, desliga-
ram-se do corpo físico em função do suicídio ou por eutanásia.
Todos foram informados que segundo O Livro dos Espíritos (ques-
tão 258) o livre-arbítrio foi exercido antes da encarnação durante
a escolha do gênero de provas e, após a encarnação, o livre-arbítrio
é moral. E que (questão 851) se há fatalidade, ela se encontra nas
provas físicas e nunca na esfera moral, tanto que Kardec ao ques-
tionar o Espírito Verdade se alguém estava fadado à infelicidade,
recebe como resposta que ele está confundindo os aconteci-
mentos materiais da vida com os atos da vida moral, ou seja, se
alguém é infeliz por passar por vicissitudes negativas, isso é fruto
do seu livre-arbítrio, já que está livre para passar pelas mesmas
situações materiais com paz interior e felicidade ou sofrendo,
sendo infeliz.
Em outras palavras, o nosso objetivo foi mostrar para aqueles
supostos desencarnados que ali se manifestavam que ser ou não feliz
é escolha de cada um; que a felicidade se encontra na esfera do livre-
arbítrio. Assim, qualquer um de nós pode ter uma vida humanizada
cheia de vicissitudes negativas, caso isto contemple o gênero de provas
solicitado, e mesmo assim optar em ser feliz, aprendendo com tais
tribulações ao invés de apenas se indignar e passar o tempo sofrendo,
acreditando que está fadado à infelicidade.
E para os suicidas? Para estes também passamos o ensinamento
(questão 944) que afirma o seguinte: o suicídio voluntário é um
crime diante de Deus. E, nem todos os suicídios são voluntários.
Ou seja, apenas quando há a intenção de cometer o ato, o mesmo
se torna um “crime”. Porém, nem sempre a pessoa comete o sui-
cídio voluntariamente. E no atendimento daqueles que supos-
tamente desencarnaram vítimas de eutanásia, encontramos três
situações bem delimitadas: os que se mostraram mais espiritua-
lizados e se desligaram com facilidade da vida terrena, e dois que
necessitavam de ajuda mais enfática: os que ficavam vagando pela
Terra, sem compreender o que estava acontecendo e os que se
transformavam em obsessores de quem praticou ou solicitou que
a eutanásia ativa ou passiva fosse praticada.
Neste último grupo estava o maior número dos que acredi-
tavam ter desencarnado “antes da hora”, o que motivou o desejo
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 137

de vingança contra aquele que, supostamente, seria o algoz e o


responsável pelo “sofrimento” que diziam sofrer. Quando estes
desencarnados já manifestavam uma serenidade que possibilitava
o estabelecimento de um diálogo mais fraterno, passamos a uti-
lizar uma das leis da chamada técnica apométrica, conforme ilus-
trada pelo dr. Lacerda em seus livros: a que consiste em levar o
desencarnado incorporado no médium ao passado para que possa
se lembrar de fatos vividos por ele na “erraticidade” ou em vidas
passadas. Primeiramente, perguntávamos se ele conseguia se
lembrar de quando escolheu um gênero de provas. Para os que
não conseguiam, dávamos um comando para que o mesmo pu-
desse acessar a lembrança de quando fez esta suposta escolha.
Poucos foram os desencarnados auxiliados que se lembravam de
uma suposta escolha de um gênero de provas sem o uso da técnica
apométrica, Porém, com o seu uso, os casos de rememorização
chegaram a cerca de 90 %. E, um dado surpreendente, muitos
diziam ter encarnado para vencer a tentação do suicídio. Ou seja,
vencer essa tendência era o gênero de provas escolhido, volun-
tariamente, antes de encarnar. É óbvio que não temos como saber
se o que o desencarnado está falando é verdade ou não, e se não
é um “animismo” (criação mental do próprio médium), mas esta
resposta, em Tese, demonstra um lado do problema negligenciado
por muitos livros ou artigos espiritistas sobre o suicídio. Até hoje
não li um único livro espiritista que afirme que vencer a tentação
do suicídio seja um gênero de provas. Porém, se aceitarmos, pelo
menos como hipótese, que haja essa possibilidade, nossa visão
sobre a questão do suicídio muda significativamente, inclusive a
nossa forma de pensar a vida humanizada. A demonização do
suicídio no meio espiritista deixa de fazer sentido e o fato passa a
ter o mesmo peso que qualquer outro gênero de provas: vencer a
tentação dos vícios, da vaidade, da tendência ao roubo etc.
Enfim, o espírito humanizado pode ou não passar na prova que
escolheu e somente aí se encontra o problema. Problema que,
aliás, cabe somente a ele superar. E essa hipótese fica mais plau-
sível com as pesquisas genéticas que afirmam que a tendência ao
alcoolismo ou ao suicídio podem estar programadas no DNA. Ou
seja, ao escolher um gênero de provas, o seu ego (incluindo a pro-
gramação do DNA) será preparado para que o Espírito humanizado
138 Adilson Marques

possa passar de forma adequada pela provação que escolheu.


Como vencer a tentação ao suicídio se não tem vontade de come-
ter? Como vencer a tentação ao alcoolismo se ele não tem vontade
de beber? Em suma, podemos levantar a hipótese que, apesar de
programado para ter o desejo de beber ou de se matar, esta ten-
tação também não deixa de ser fruto do livre-arbítrio do Espírito
humanizado que, como escreveu Kardec, foi exercido na “erra-
ticidade”, antes da encarnação.
Em outras palavras, podemos compreender que nenhum Espí-
rito puro ou a Individualidade (Espírito humanizado) é suicida ou
viciado, mas a personagem que vai representar pode ser construída
para que sua prova aconteça na Terra. Vou ilustrar essa reflexão
com um atendimento a um Espírito desencarnado que estimulava
uma pessoa do sexo masculino a beber. O socorro foi solicitado
pela mãe do jovem alcoólatra. Ao iniciar o atendimento, uma
falange de Espíritos desencarnados foi localizada junto ao rapaz
pelas médiuns videntes. Todos foram atendidos e o líder, após
recuperar a consciência espiritual, relatou o seguinte: em uma vida
passada abandonou um filho por esse ser alcoólatra. Ele consi-
derava o filho como um fracassado. Após morrer, arrependido,
solicitou passar também por essa prova: a do alcoolismo. Ele
narrou ao grupo que sucumbiu novamente, ou seja, a mate-
rialidade da encarnação foi mais forte que ele, o Espírito huma-
nizado.
E quando morreu ficou preso ainda naquela personagem provi-
sória e se tornou obsessor de outros alcoólatras encarnados, até
ser despertado dessa ilusão naquele atendimento apométrico.
Com base neste caso, podemos dizer que não basta desencarnar
para a Individualidade se libertar do ego criado para uma deter-
minada encarnação. Porém, o que esse e outros casos parecem
elucidar, é que o vício está no ego programado para uma provação
e não na Individualidade. Este apenas não é tão forte como ima-
ginava, pois acreditou que poderia vencer a prova do vício e
sucumbiu. Mas, quando recupera a consciência, se dá conta de que
não precisa mais da bebida na “erraticidade”. Com a consciência
desperta, consegue se aperceber que ficar bebendo com os encar-
nados era ainda fruto do gênero de provas que havia escolhido e
do qual ainda não havia se desvencilhado.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 139

E, possivelmente, Deus permite que fique influenciando encar-


nados, ou seja, sendo um instrumento inconsciente que Ele se
utiliza para criar as provas que cada um deve passar. E como se faz
para o Espírito humanizado se lembrar do gênero de provas, através
da Apometria? A técnica adotada é muito simples e consiste em
dar a sugestão para que o desencarnado incorporado no médium
se lembre da reunião em que escolheu o gênero de provas, se-
guida de pulsos energéticos, normalmente sete, para que ele
possa se lembrar daquele momento. Por ser apenas uma técnica,
este procedimento pode ser reproduzido facilmente por qualquer
agrupamento mediúnico e, dentro de uma perspectiva científica,
comparar as respostas fornecidas por diferentes desencarnados.
Os que participaram desta experiência, não importando se
foram suicidas ou vítimas de eutanásia, mas que acreditavam ter
morrido antes da hora, após a recuperação da consciência da
Individualidade ou se lembrar da escolha do gênero de provas que
fizeram, nenhum manteve a antiga opinião. Ao contrário, com a
nova consciência, passaram a perdoar aqueles que consideravam,
antes da experiência, como algozes. Um dado importante, que
ajuda a compreender a diferença entre a consciência da Indivi-
dualidade e o ego, é que, ao se libertar do sofrimento que o afligia
após o desencarne, é que os outros deixam de ser filhos, pais,
amigos ou inimigos. Todos se tornam apenas irmãos espirituais em
provação. Muda a maneira de encarar os fatos. No caso de um pai
que desencarna e os seus filhos ficam órfãos, o apego paternal é
substituído por um amor realmente fraterno.
Aqueles que antes ele entendia como filhos órfãos, passam a
ser pensados como irmãos espirituais em provação. Por isso, quan-
do acontece a recuperação da consciência da Individualidade, tudo
se transforma e o sofrimento termina rapidamente, como acon-
tece quando acordamos de um pesadelo. É nesse momento que,
de fato, há a ruptura com o ego e não, necessariamente, após o
desencarne.
É importante salientar que consideramos de forma teórica esse
fato, até porque não temos como saber se o desencarnado falou a
verdade e que não se tratava de animismo do médium. Porém,
colocando entre aspas estas possibilidades, podemos afirmar que
há evidências de que a nossa existência humanizada está rela-
140 Adilson Marques

cionada com as dos outros Espíritos humanizados que fazem parte


do nosso círculo familiar ou não. Assim, ao mesmo tempo que
passamos por nossas provações, somos também os instrumentos
necessários para as provas dos outros, de tal forma que nossos atos
necessitam ser direcionados para que essa ordem cósmica preva-
leça, restringindo o nosso livre-arbítrio para a esfera moral, ou seja,
da escolha dos sentimentos com os quais vivenciaremos os atos
praticados, uma vez que eles estão interligados com os dos demais
espíritos humanizados, não podendo ser diferentes daqueles que
o outro necessita receber, naquele exato momento, em função
da lei de “causa e efeito”.
Assim, no caso da eutanásia, por exemplo, alguém precisa ser
o instrumento que vai “provocar” o desencarne de alguém, mas
não será “antes da hora”, e sim no momento permitido por Deus.
O que vai contar na contabilidade divina deste Espírito humanizado
é a intenção com que o ato foi praticado. Despertar a Individua-
lidade é similar a acordar de um sonho e perceber que tudo não
passou de uma grande ilusão. E o importante é tomar consciência
que o sofrimento ou a felicidade depende da nossa consciência e
não dos atos materiais praticados.
Enquanto o Espírito humanizado, encarnado ou desencarnado,
se ver como vítima de alguém, pode sofrer ou até mesmo se tornar
um obsessor, mas ao recuperar a consciência e se aperceber que
aconteceu apenas o que estava de acordo com o gênero da prova
que escolheu, o outro passa a ser visto apenas como o instrumento
necessário para as suas provações, mesmo que este último não
tenha a consciência desse fato, ou seja, sendo apenas um instru-
mento inconsciente da vontade divina. Com a consciência da
Individualidade desperta, o outro deixa de ser um inimigo e se
torna um irmão espiritual, mesmo aquele escolhido para ser o
instrumento de uma vicissitude negativa.
Contra essa possível fatalidade nos atos materiais, muitos
espiritistas dizem que em O Livro dos Espíritos também está escrito
que se uma telha cai em nossas cabeças não significa que este ato
estava previsto antes da encarnação do Espírito. Isso é verdade,
mas neste livro também encontramos a afirmação de que se al-
guém não merece receber um tiro, será intuído para se desviar.
Logo, podemos concluir que mesmo não sendo um ato escrito
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 141

antes da encarnação do Espírito, se ele não merecer que uma telha


lhe caia na cabeça, receberá na hora certa uma intuição para se
desviar da mesma. Enfim, se a telha lhe acertou a cabeça é porque
aquele ato era importante, trazia algum ensinamento embutido.
Com esta pesquisa, conduzida através de reuniões mediúnicas
apométricas, foi possível compreender que a prática da Apometria,
dentro da perspectiva da Animagogia, não contraria os ensina-
mentos da doutrina espírita. Ao contrário, trazem elementos que,
se não comprovam, pelo menos vão ao encontro deles, como os
que dizem que não morremos antes da hora, não importando o
perigo e que o livre-arbítrio está na intenção e não, necessa-
riamente, nos atos, pois estes, com frequência, são dirigidos pelos
próprios Espíritos.
A partir dos casos estudados, temos a convicção que o impor-
tante é procurar não ser o instrumento para uma vicissitude nega-
tiva que alguém necessite passar, perseverando no Bem, mas
alguém o será e colherá os frutos desse ato, sobretudo quando
agir intencionalmente. Devemos lembrar que, no capítulo sobre
o mal, em O Livro dos Espíritos, encontramos que ele é necessário,
mas que acarreta consequências espirituais em quem o realiza,
sobretudo quando há a intenção de praticá-lo.
Enfim, estamos diante do mesmo ensinamento de Jesus quan-
do afirma que o escândalo é necessário, mas ai daquele por quem
o escândalo acontece. Em outras palavras, parece existir uma rela-
ção oximorônica (paradoxal) entre a liberdade e a necessidade ou
entre o livre-arbítrio e a fatalidade. Ou seja, apesar de termos a
liberdade de escolher roubar ou não (uma atitude egoísta), nosso
ato será guiado para que a vítima seja alguém que precisava,
naquele momento, passar por tal provação. E, obviamente, o
responsável pelo ato acumulará débitos em sua economia espi-
ritual, uma vez que teve a intenção de cometer aquele ato. O
mesmo vale para qualquer ação egoísta, entre elas o suicídio, já
que todos os motivos para quem comete o ato, intencionalmente,
são egoístas (perda material, sentimental, orgulho ferido etc.).
Podemos encerrar este capítulo apresentando um esquema
conceitual sobre esta problemática: O Espírito humanizado, quan-
do se encontra com sua consciência plena, escolhe um gênero de
provas. A partir dessa escolha será criado um ego (uma consciência
142 Adilson Marques

provisória para ser vivenciada na Terra ou um avatar) e toda uma


programação genética para a prova acontecer. O espírito humani-
zado não é homem ou mulher, branco ou preto, rico ou pobre, mas,
essa diversidade acontecerá em função da escolha da prova reali-
zada no plano espiritual, na dimensão que chamamos de Noosfera.
No caso daquele que opta por vencer a tentação do suicídio, ele
poderá vir a ter durante a sua existência várias tentações progra-
madas, em diferentes momentos de sua existência, mas que não
vão se concretizar. Neste caso, mesmo que tente o suicídio, não
alcançará êxito. Porém, quando chegar a prova derradeira, se
suportar a tentação que se abate sobre ele, conseguirá alcançar o
objetivo almejado pelo Espírito humanizado, vindo a desencarnar
de outra forma. Porém, se a materialidade da vida encarnada for
mais forte e não a suportar, desencarnará vítima do suicídio e será,
obviamente, responsabilizado pelo ato, sofrendo nos mundos de
purgação (umbral) o tempo necessário para purificar seu perispírito
da toxidade acumulada na Terra e estar em condições de voltar
para a dimensão espiritual originária, onde analisará seu desem-
penho naquela prova e poderá programar sua próxima encarnação,
tentando novamente esta ou outra prova.
Porém, o ato cometido, vai gerar naqueles que foram seus
familiares ou amigos também uma prova, que pode ser a do desa-
pego sentimental. E isso vale para todos os tipos de prova. Obvia-
mente que ninguém encarna, por exemplo, com a missão de tirar
a vida encarnada de outro Espírito humanizado, mas enquanto
houver os que precisem desencarnar com um tiro, será necessário
que alguém seja o instrumento para esta ação acontecer. E, se o
escolhido agir com intenção, assumirá a responsabilidade pelo ato
e colherá toda a consequência do mesmo. Porém, pode ser que o
ato aconteça em um acidente, sem que haja a intenção. Nesse
caso, ou no anterior, a “vítima” desencarnou na hora certa, pois só
Deus tem, em Tese, o direito de tirar a vida, afirma O Livro dos
Espíritos. Assim, quem atira com intenção gera um débito e aquele
que se torna um instrumento involuntário, não se compromete
com a Lei de causa e efeito, pois não teve a intenção de cometer o
crime.
E essa hipótese se torna mais evidente quando estudamos os
atendimentos espirituais às vítimas da eutanásia. No grupo mediú-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 143

nico que acompanhamos ficou patente que o responsável pela


prática da eutanásia foi também um instrumento e sua prova
sempre foi moral e não material: com qual intenção ele praticou a
eutanásia ativa ou passiva, uma vez que ela aconteceu na hora
certa, e alguém precisava ser o responsável por essa ação? Em O
livro dos Espíritos, o Espírito Verdade afirma que eles frequen-
temente agem sobre nossos pensamentos e nossas ações (questão
459), logo, também devem agir sobre aquele que pratica a euta-
násia. Enfim, são vários os indícios que nos levam a afirmar que o
Espírito humanizado que desencarna através da eutanásia também
“morre na hora certa” e, quando o desencarnado narra, em algum
trabalho mediúnico, que sofre após a morte, não foi por causa do
ato praticado, mas, na maioria das vezes, em função da sua não
preparação para o retorno ao mundo astral ou por seu egoísmo,
por ter uma existência marcada, predominantemente, pelo mate-
rialismo, ou quando sua religiosidade não passava de mera for-
malidade exterior.
Em outras palavras, não foi a eutanásia o motivo do sofrimento,
mas o apego ao ego e suas verdades. A nossa experiência com o
socorro de supostos suicidas ou vítimas da eutanásia nos leva a
pensar na existência de uma relação paradoxal entre o livre-
arbítrio e a fatalidade, demonstrando que a Lei de causa e efeito
não possui falhas. Além disso, parece comprovar os ensinamentos
do Espírito Verdade para Kardec quando afirma que após a encar-
nação o livre-arbítrio é moral e não material. Há evidências nos
relatos obtidos que após a encarnação temos a liberdade de
manifestar amor ou egoísmo, mas os atos materiais são coor-
denados por uma força superior, chamada de carma ou de Lei de
causa e efeito, para não haver injustiças. Ou seja, para que cada
um possa colher o que necessita e merece, em cada momento de
sua vida humanizada.
E isso vale para as vicissitudes positivas e para as negativas.
144 Adilson Marques

CAPÍTULO 7

QUANDO COMEÇA E TERMINA


UMA ENCARNAÇÃO?

Neste capítulo vamos apresentar alguns atendimentos, com-


preendendo-os a partir do ponto de vista da animagogia. Come-
çaremos, neste capítulo, abordando alguns atendimentos insólitos,
realizados através das técnicas apométricas, nos quais o socorro
aos desencarnados foi realizado antes mesmo de os fatos materiais
acontecerem. Ou seja, em Tese, os médiuns foram projetados para
o futuro para auxiliar no resgate daqueles que desencarnariam em
tragédias pré-programadas, mas que ainda não tinham acontecido
na Biosfera.

NAUFRÁGIO NO EGITO
No dia 31 de janeiro de 2006, em uma reunião de Apometria,
uma das médiuns desdobradas se depara com um naufrágio. Ela
descreve muitas pessoas desesperadas tentando se salvar. A mé-
dium percebe que são desencarnados iludidos, ou seja, que acre-
ditam que ainda estão se afogando. O grupo, então, mentaliza
vários botes que são plasmados no local onde aqueles se en-
contram. A médium continua descrevendo a cena, afirmando que
os vê subindo nos botes. Quando isso acontece, todos ficam mais
calmos, ela afirma. Mais energia é enviada pelo grupo e os botes
com os desencarnados são envolvidos em uma forte luz branca e
levados para uma espécie de hospital, segundo ela. Após o término
do trabalho, um dos mentores incorpora em uma das médiuns e
esclarece o grupo informando que a tragédia ainda não havia
acontecido, mas que a imprensa, em breve, noticiaria o fato.
Não se passou nem uma semana e um acidente no Egito foi
divulgado pela imprensa. Mais de mil pessoas morreram naquele
naufrágio. E, na primeira reunião apométrica após a tragédia, um
preto-velho confirmou que a energia que o grupo enviou naquele
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 145

atendimento foi utilizada no resgate daqueles que, pelas suas


provações, precisavam desencarnar naquele evento. Não fomos
informados sobre o número de desencarnados que foram resga-
tados. Pode ser que, até o momento, muitos permaneçam iludidos,
acreditando que ainda lutam para não se afogar, sem saber que,
supostamente, já desencarnaram.

ACIDENTE EM SUPERMERCADO NA RÚSSIA


Algumas sessões apométricas após o acidente no Egito, a espiri-
tualidade nos trouxe outro caso parecido. Uma das médiuns viu
que algo caía do céu. Segundo ela, pareciam pedras. Logo em
seguida, ela descreve uma cena com várias pessoas soterradas.
Algo como um galpão havia desabado com o peso das “pedras” que
caíam do céu. Através do envio de energia, abrimos um espaço e
as “pessoas” começaram a sair do galpão. Mais energia foi enviada
e a médium descreveu que elas foram recolhidas por uma equipe
de Espíritos e conduzidas para uma colônia. Após a reunião, fomos
novamente informados pelos mentores espirituais que coor-
denavam o trabalho que, aquele acidente, também não havia
ainda acontecido, mas que, em breve, seríamos informados pelos
meios de comunicação.
Naquela mesma semana a TV mostrou um supermercado na
Rússia cujo teto havia desabado devido ao gelo que se acumulava
sobre ele, matando várias pessoas. Como no caso anterior, a ener-
gia para o resgate de alguns desencarnados foi, em Tese, enviada
antes de o fato acontecer na Terra.

FOGO EM UM OLEODUTO NA NIGÉRIA


Em outra ocasião, com a abertura dos trabalhos apométricos,
uma das médiuns começou a descrever algo como uma grande
fábrica pegando fogo. Fomos orientados pelos mentores para,
semanalmente, enviar energia para essa tragédia, mesmo sem
saber onde e quando ela aconteceria. Com o passar das semanas,
as médiuns sentiam que o acidente se aproximava, pois a vibração
ficava mais intensa, segundo elas, e a sensação que uma delas
sentia era de muita dor e sofrimento. Uma das médiuns tinha a
impressão que o acidente seria em uma usina atômica. Os men-
tores, por sua vez, não nos passava nenhuma informação.
146 Adilson Marques

Algumas pessoas ficavam levantando hipóteses ansiosamente,


querendo saber se aconteceria um acidente ou um atentado. Mas
não adiantava se preocupar. Não sabíamos o local ou a data do
evento. A única orientação dos mentores era para enviar frequen-
temente muita energia amorosa para o fato. Passados alguns
meses, ocorreu um acidente em um oleoduto na Nigéria e aquela
vibração densa que as médiuns sentiam foi aliviada totalmente.
Em outra reunião, os mentores confirmaram também que a
energia enviada teria sido canalizada para os resgates dos desen-
carnados neste acidente.
Estes três resgates de desencarnados nos fizeram questionar
o porquê dos mentores trazê-los para o nosso grupo apométrico.
A resposta que nos foi apresentada é lógica, apesar de não poder
ser comprovada. Segundo um dos mentores que se comunicava
durante as sessões, aquele grupo de médiuns tinha uma forte
ligação com aquelas regiões da Terra e aos fatos cármicos coletivos
ali vivenciados. Se isso for verdade, então o que chamamos de
mundo exterior parece, de fato, ser uma criação divina da qual não
temos nenhum controle. Em outras palavras, parece existir um
fatalismo no mundo, uma pré-determinação do que acontecerá.
O presente, o passado e o futuro são como ilusões criadas pelo
ego, pela nossa incapacidade de enxergar a integração de todos
os elementos da vida.
E, nesse sentido, se existe algum livre-arbítrio após a encar-
nação, ele parece residir no mundo interior, ou seja, na forma como
vamos vivenciar sentimentalmente as vicissitudes da vida material
ou encarnada. E como já salientamos, nos capítulos anteriores, não
basta o Espírito humanizado desencarnar para se libertar do ego,
da consciência provisória que criou antes de mais uma encarnação.
Dessa forma, em Tese, muitos permaneceriam no mundo espiritual
acreditando que são homens ou mulheres, que ainda são pais ou
filhos, sentindo os desejos próprios da personagem vivida etc.
Assim, para que possamos desde já nos libertar das armadilhas
e artimanhas do ego é necessário transcender a dicotomia espírito
humanizado encarnado X espírito humanizado desencarnado. A
realidade espiritual é muito mais complexa do que essa dicotomia
criada pelo ego, pois, apesar do Espírito humanizado estudar no
mundo espiritual e conhecer as coisas do Universo, sem a criação
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 147

da personagem e da encarnação não há como provar que real-


mente ele aprendeu a lição.
Como no nosso ensino escolar, não basta o aluno apenas estu-
dar o ano todo, ele precisa passar nas provas. São estas que ates-
tam se ele aprendeu ou não a lição. No caso do Espírito huma-
nizado, podemos dizer que é através da encarnação que ele pro-
vará se aprendeu a lição estudada no mundo espiritual, antes de
se ligar a um novo ego. Assim, do ponto de vista animagógico, não
encarnamos para aprender a tocar violão, dirigir carro, estudar essa
ou aquela disciplina escolar, mas para colocar em prática o que foi
estudado na condição de Espírito humanizado. Em outras palavras,
não é na Terra que ele aprenderá medicina, mas se ser médico faz
parte da prova que ele escolheu antes de encarnar, ele será levado
a se tornar médico e não outro Espírito humanizado, cuja prova é
em outro campo de atividade humana.
Ou seja, a encarnação é o momento de provar, para o próprio
Espírito humanizado, se aprendeu ou não a lição estudada ante-
riormente. Se ele será médico, advogado ou outra coisa qualquer,
isso foi definido antes, em função das provas escolhidas. E o que
caracteriza essencialmente uma encarnação?
É a necessária mudança de consciência; é a colocação de um
véu sobre a consciência da Individualidade, a verdadeira cons-
ciência do Espírito humanizado, para que a Realidade fique velada.
Assim, velando o mundo Real, onde vive e faz seu aprendizado,
onde planeja suas próximas encarnações, só lhe resta viver a
experiência humanizada a partir do ego, uma consciência provi-
sória, mas carregada com um conjunto de verdades necessárias
para realizar suas provas, missões ou expiações: acreditar que se
é homem ou mulher, preto ou branco, africano ou europeu etc.
Não importa qual seja o palco da nova encarnação, todos os Espí-
ritos humanizados precisam se desligar da consciência da Indivi-
dualidade, após acabar um ciclo de estudos, para se ligar a um novo
ego e encarnar. Em outras palavras, a encarnação é um processo
muito mais complexo do que apenas se ligar a um corpo físico. E
quando compreendemos que encarnar é se ligar, basicamente, a
uma nova consciência que servirá de instrumento para as provas
do Espírito humanizado, podemos também compreender que a
encarnação não termina quando este é desligado do corpo físico.
148 Adilson Marques

A encarnação só termina, de fato, quando o Espírito humanizado


se desliga do ego, ou seja, daquela consciência artificial criada para
suas provações. E tal ilusão pode durar dias, meses, anos, séculos
ou milênios. Podemos dizer que apenas Deus sabe o momento
exato de o Espírito humanizado ser despertado dessa ilusão. E,
através da Apometria, praticada no contexto da animagogia, temos
consciência de que apenas os desencarnados que possuem este
“merecimento” é que serão auxiliados, ou seja, poderão ser
despertados da ilusão em que vivem no mundo astral.
A Apometria não tem como interferir na Lei de causa e efeito.
Nesse sentido, a espiritualidade socorrista pode, em Tese, ser
informada de um resgate coletivo e saber quais os Espíritos huma-
nizados que podem ser socorridos, ou seja, que podem ser libertos
da ilusão da matéria ou do ego. E, provavelmente, Deus permite
que utilizem a energia liberada pelos encarnados que atuam em
grupos apométricos ou em outras práticas complementares de
saúde para realizar essa tarefa, mesmo quando o fato ainda não
se concretizou no mundo material, estando sendo ainda gestado
na dimensão astral. Provavelmente, este processo sempre acon-
teceu. Quando grupos de orações se reúnem ou praticantes de
qualquer técnica de vibração canalizam energia para alguma tragé-
dia, estão ajudando em resgates similares.
A única vantagem da Apometria, nesse sentido, se é que isso
pode ser chamado de vantagem, é a possibilidade de descrever o
que acontece na Psicosfera, uma dimensão invisível que nos
rodeia, apesar de não termos como comprovar, também, se o que
o médium descreve é real ou apenas fruto de uma fértil ima-
ginação.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 149

CAPÍTULO 8

SOFRIMENTO OU FELICIDADE:
QUAL O CAMINHO PARA O
DESPERTAR DO HOMO SPIRITUALIS

Em um belo ensinamento sobre o sofrimento Buda diz mais ou


menos assim: Uma jovem mulher, após a morte do filho, implorava
pelas ruas por um remédio milagroso capaz de restituir a vida deste.
Os demais moradores do povoado a ironizavam, dizendo que era
louca. Até que, um dia, um sábio lhe recomendou: “Procure o
homem que mora no topo daquela montanha, ele saberá fazer esse
milagre”.
A jovem subiu feliz a montanha e pediu ao homem que resti-
tuísse a vida de seu filho. E ele respondeu: “Traga-me um grão de
mostarda de uma casa onde nunca ninguém morreu”. Ela voltou
alegremente para o povoado e, de casa em casa, procurou uma onde
ninguém conhecesse a morte. Não encontrando, ela voltou ao topo
da montanha e disse: “Minha dor havia me cegado. Pensava que
somente eu sofria nas mãos da morte. Porém, eu voltei para que
me ensines a verdade!”. E o homem lhe falou: “Em todo o mundo
humano existe uma única Lei: todas as coisas são transitórias”.
A vida humanizada do Espírito encarnado é feita de vicissitudes,
portanto, a única felicidade real é a felicidade incondicional, ou
seja, não condicionada a nada e sem apegos. O apego aos bens
transitórios leva, necessariamente, ao sofrimento, pois, estes, um
dia, deixarão de existir. Pai Joaquim de Aruanda, um preto-velho,
certa vez, disse o seguinte em uma reunião mediúnica: “não confie
sua felicidade a ninguém; nem a Deus. Porque ele não vai fazer
acontecer o que você quer, mas aquilo que você precisa vivenciar”.
E voltando aos ensinamentos de Buda, encontramos também
a seguinte afirmação: “Todas as posses materiais têm de chegar a
um fim – nada é permanente, e aquele que se agarra a objetos do
150 Adilson Marques

mundo tem inevitavelmente que sofrer, quando esses alvos de


sua atenção são removidos”.
Podemos atentar que Buda não legitimava o sofrimento como
caminho para a “evolução espiritual”. Ao contrário, ensinou como
podemos não sofrer se praticarmos o desapego às posses ma-
teriais. Na mesma linha de raciocínio, Krishna ensina Arjuna a viver
com equanimidade, ou seja, com igualdade de ânimo qualquer
fato material. O agir com equanimidade seria o caminho para
superar o ciclo prazer/sofrimento.
Assim, se optarmos em viver nossa encarnação presos às vicissi-
tudes da vida, nós sentiremos prazer quando o fato material for
agradável ao nosso ego e sofreremos quando ele for considerado
desagradável pelo ego. E, segundo várias tradições orientais, o
caminho mais curto para se livrar do samsara (roda das encar-
nações) é o amor universal e a felicidade incondicional. Nesse
caminho não há sofrimento porque não há apego às coisas ma-
teriais e aos desejos ilusórios programados pelo ego. O agir com
equanimidade diante dos fatos nos permite estar imune ao so-
frimento, mesmo que eventualmente sintamos alguma dor.
Essa seria a prática do “correto agir”, segundo os ensinamentos
de Lao Tsé e Krishna, pois faríamos aquilo que precisamos, pois
somos naturalmente impelidos a agir, mas sem se envolver com
os frutos do trabalho. Em suma, trata-se do agir desinteressado,
sem tirar vantagem das situações favoráveis e nem sofrer quando
elas são desfavoráveis, dentro do nosso estreito ponto de vista
humanizado e encarnado.
Essa breve introdução sobre o sofrimento se fez necessária,
para afirmarmos que a Apometria, como qualquer outra prática
de tratamento complementar espiritualista, não interfere no livre-
arbítrio. Assim, aquele que opta por “evoluir” pelo sofrimento
será respeitado. Não temos como nos livrar dos fatos materiais,
criados em função do gênero de provas escolhido pelo Espírito
humanizado antes de encarnar, mas temos o livre-arbítrio no
domínio moral, ou seja, resignando-se ou se revoltando, por
exemplo, diante de uma determinada prova. É o que vamos ana-
lisar nos três seguintes casos.
No primeiro, apresentaremos o caso de uma consulente que
procurou a Apometria por indicação de amigos. Ela não conseguia
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 151

andar sozinha, apesar de inúmeros médicos não diagnosticarem


nenhum problema físico que a impedisse de realizar movimentos.
Durante o período em que fomos procurados, fizemos três sessões
de Apometria, com intervalos de quinze dias, sem que nenhum
resultado concreto fosse obtido. Na primeira sessão, assim que sua
frequência foi aberta, um desencarnado sem pernas manifestou-
se em uma das médiuns de incorporação. Inconformado, disse-nos
que havia sido empregado dela e que ela era culpada pelo estado
em que se encontrava. Após ficar vagando e a encontrar novamente
encarnada, resolveu se vingar a impedindo de andar.
Esse caso de obsessão simples foi tratado com o esclarecimento
do desencarnado que, em seguida, foi levado para uma “colônia
espiritual”. A mulher teve suas pernas energizadas para retirar toda
e qualquer vibração deixada por ele. Imaginamos que o problema
se resolveria em poucos dias, com a retirada daquele desencar-
nado, mas, segundo sua família, ela ainda não conseguia andar sem
apoios. Quinze dias se passaram e, na segunda sessão, constatou-
se que não havia nenhum problema de ordem espiritual. A con-
sulente foi energizada e, uma médium de incorporação acabou
“dando passagem” a um dos mentores do trabalho.
Este, conversando com a consulente, disse que ela precisava
mudar sua forma de pensar. Segundo ele, aquela mulher não queria
ser curada, pois tinha receio, inconscientemente, de que seu ma-
rido e filhos não lhe dessem mais atenção. Apesar de não ter
nenhum problema nas pernas, seu desejo de ser o foco da atenção
da família fazia com que ela, mentalmente, enviasse fluidos nega-
tivos que paralisavam a perna. Assim, ela se tornava dependente
dos outros para andar e realizar outras atividades. Tratava-se de
uma enfermidade psicossomática que seria curada quando ela
vencesse sua necessidade de atenção familiar. Em seu corpo astral,
uma médium vidente percebeu cordas que foram desmanchadas
com o envio de energia. Supostamente, a própria consulente teria
as plasmado em suas pernas.
O mentor do trabalho ainda esclareceu a família, informando
que ela não estava fingindo. De fato, ela não conseguia andar, mas
era por se sentir desamparada. Assim, orientou a família da consu-
lente para que a amasse incondicionalmente, sem brincar com sua
situação.
152 Adilson Marques

A cura para a sua enfermidade psicossomática aconteceria


assim que ela parasse de enviar vibrações negativas para a pró-
pria perna, uma vez que não havia nenhum problema fisiológico.
Assim, bastaria ela mudar seus pensamentos e sentimentos em
relação à família, deixando de se fazer de vítima para que seu
problema fosse resolvido. Porém, mesmo não tendo nenhum
problema físico e nem espiritual, a perna dela continuava sem
movimento.
Em nossa terceira sessão, fomos explorar suas vidas passadas.
Talvez o motivo para o medo de perder a atenção da família se
explicasse trazendo para o consciente algum trauma de outra
existência. A regressão, na Apometria, consiste em ligar um sensi-
tivo à energia do consulente e dar um comando mental para que
acesse informações de outras vidas. Quem faz essa captação que
chamamos de Noética é a sensitiva e não, necessariamente, a
consulente.
Assim que o comando foi dado, a sensitiva começou a descrever
a seguinte cena: ela via um soldado durante uma guerra. Esse
soldado tinha muito medo de pisar no chão, pois tinha nojo de pisar
nos companheiros já mortos. O grupo apométrico enviou energia
para “despolarizar” essa memória presa no inconsciente daquela
mulher. Em seguida, uma nova regressão para uma vida anterior a
esta como soldado e a sensitiva se depara com uma matrona, uma
mulher extremamente poderosa, cuidando com mãos de ferro de
uma propriedade rural. Essa mulher impunha-se pelo medo. Em
tese, seria a consulente em uma de suas vidas passadas.
Segundo a sensitiva, naquela encarnação a consulente não
tinha as pernas e administrava tudo de cima de sua cadeira de
rodas. Também tentamos “despolarizar” essa memória para ver
se ela melhorava.
E antes de fechar a sessão, novamente um dos mentores do
trabalho se manifestou em outra médium e conversou com a
consulente dizendo que ela precisava vencer suas pulsões auto-
ritárias e precisava ter fé. Ela precisava se desligar daquelas antigas
encarnações em que tinha poder e controlava as pessoas. Disse
que, enquanto ela insistisse em manter total domínio sobre a
família, mandando e desmandando na vida dos filhos, criticando
suas amizades e relacionamentos, ela não conseguiria se curar.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 153

Depois desse atendimento não tivemos mais contato com a


consulente ou com pessoas de sua família. Infelizmente, este caso
demonstra claramente que o livre-arbítrio moral (sentimentos e
pensamentos) pode dificultar qualquer ajuda exterior. Enquanto
a pessoa que solicita ajuda não fizer também uma mudança
interior, seu processo metanoico, a ajuda apométrica é difícil. No
caso acima, o desencarnado que apareceu na primeira sessão foi
ajudado. Podemos concluir que ele tinha “merecimento”, mas a
consulente ainda precisava fazer por merecer a sua cura.
O segundo caso que vamos narrar é similar. Fomos procurados
por uma mulher cujo ex-marido havia a abandonado fazia 18 anos.
Ela narrou que ele a deixou e que precisou cuidar, sozinha, de dois
filhos pequenos. Apesar do tempo percorrido, ela não conseguia
o perdoar. Além disso, continuava a tratar os filhos como crianças,
apesar de já serem adultos. Ela interferia de forma autoritária na
vida dos filhos.
Antes de iniciar a sessão de Apometria, a consulente disse que
era injustiçada. Ela se considerava um “espírito de Luz” que fazia
muita caridade, mas que era incompreendida. Ela reclamou da
mãe, dos filhos e, sobretudo, do ex-marido e da atual mulher deste
que, para ela, é a culpada por todo o seu sofrimento.
Ao iniciar a sessão de Apometria com essa consulente, conse-
guimos tirar dois desencarnados que a acompanhavam, atraídos por
sua vibração doentia. E a consulente teve a oportunidade de con-
versar com duas entidades que davam suporte ao trabalho: um Exu e
um Caboclo. O Exu tentou orientá-la, dizendo que o problema era com
ela. Aliás, afirmou que os problemas que o filho tinha eram causados
pela energia deletéria que ela lhe enviava. A mulher ficou revoltada
e bateu boca com o Exu, não aceitando nenhuma das orientações.
Em seguida, o Exu foi embora e veio o caboclo. Este incorporou
em uma médium e tentou conduzir uma regressão de memória
com ela. Ele dizia que assim ela poderia entender o que aconteceu
no passado e resolver o seu problema. Porém, segundo o Caboclo,
ela estava bloqueando a regressão, não querendo ver a verdade,
mas que eu havia captado o que tinha acontecido na vida passada
dela e pediu para eu contar o que eu tinha intuído.
Eu fiquei meio sem jeito, mas contei tudo o que veio em minha
mente. Contei que em uma vida passada o seu atual marido era
154 Adilson Marques

casado com a mulher com quem hoje ele convivia. Com esta,
tiveram dois filhos. Porém, a consulente o seduziu, naquela outra
existência, e o fez se afastar da esposa. Além disso, ela não aceitou
cuidar dos filhos do casal, alegando que jamais cuidaria dos filhos
de outra mulher. Assim, ela teria abandonado as duas crianças que,
atualmente, são seus filhos biológicos.
Continuei a história que veio em minha mente, e confirmada
pelo Caboclo. Este tentou explicar a ela que na encarnação atual
a justiça havia se restabelecido. Ou seja, quando o marido a aban-
donou, nada mais estava acontecendo do que a Lei de causa e
efeito em ação. Para que ela parasse de sofrer bastava, segundo
o Caboclo, perdoar o ex-marido e também a mulher com quem
ele se uniu no presente. Disse também que o fato que ela
vivenciou nada mais era do que uma oportunidade de aprender
cuidar, com amor, dos Espíritos humanizados que havia
abandonado no passado, por causa de seu individualismo. Mas
ela não aceitou a informação. Continuou alegando que era um
“espírito de Luz” e que nunca faria uma coisa dessas, nem em
vidas passadas.
Infelizmente, este caso demonstrou mais uma vez que a Apo-
metria não é capaz de passar por cima do livre-arbítrio de ninguém.
A Animagogia (educação espiritual) presente nesse atendimento
reforça a tese de que após escolher o gênero de provas, cria-se,
na vida de cada Espírito humanizado, uma série de provações. E,
após a encarnação, o livre-arbítrio está no mundo interior. Não
poderia ter sido diferente a vida dessa consulente. Ela teria que
casar com a pessoa certa, precisaria ter dois filhos e, no momento
preciso, ser abandonada pelo marido que passaria a viver com
outra pessoa, a mulher que ele abandonou no passado.
Em relação à consulente, ela tinha que cuidar daqueles que
também abandonou no passado. Como ela dizia que não cuidaria
de crianças que não fossem geradas por ela, dessa vez estava tendo
a oportunidade de criar os filhos que gerou, mas sozinha.
O caso é mais um que evidencia que a reencarnação é um fato
e que a Lei de causa e efeito regula nossa vida humanizada durante
a encarnação. Para essa mulher parar de sofrer bastaria ela aceitar
o que aconteceu e ainda agradecer a Deus a oportunidade de
aprender a amar aqueles que ela abandonou no passado e também
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 155

os Espíritos humanizados que representaram o papel de marido e


de amante. Mas ela preferiu continuar sofrendo.
O terceiro caso que vou narrar, e deixei por último de propósito,
mostra como a mudança de pensamento e a aceitação do “carma”
pode amenizá-lo, diminuindo o sofrimento. Ou seja, o processo
metanoico felizmente aconteceu.
Neste atendimento foi possível compreender a força do per-
dão e constatar a Lei de causa e efeito funcionando, não para punir,
mas para dar uma nova oportunidade de aprendizado ao Espírito
humanizado em prova.
Fomos procurados por uma mãe, não especificamente para um
tratamento apométrico, mas para fazer algumas sessões de TVI em
sua filha de aproximadamente dois anos de idade. A menina
possuía deficiências físicas e mentais, sem que a medicina
acadêmica conseguisse diagnosticar a enfermidade da criança.
Além da TVI, a criança fazia Fisioterapia e Acupuntura em uma
clínica da cidade. Na primeira sessão de TVI, a criança ficou feliz.
Ria à toa e olhava para o espaço, brincando com alguém que não
conseguíamos ver. Depois de algumas sessões, conversei com a
mãe sobre o nosso trabalho de Apometria. Disse-lhe que, talvez,
pudéssemos descobrir algumas coisas sobre a enfermidade de sua
filha.
Ela aceitou e no dia do atendimento, a mãe compareceu ao
trabalho apométrico e, após a sessão ser aberta, uma das médiuns
videntes começou a descrever um cemitério e uma pessoa cho-
rando desesperadamente sobre um túmulo. A médium notou que
se tratava do corpo astral da menina. Outra médium, com grande
potencial sensitivo, percebeu as dores que a criança sentia e disse
que tais dores originavam-se de remorsos morais. Enviando mais
energia para a criança, a médium vidente transmitiu ao grupo a
seguinte informação: em sua encarnação anterior, o Espírito huma-
nizado que hoje é a filha com problemas mentais e físicos havia
sido a mãe de várias crianças. Em um momento de grande revolta
e descontrole emocional, matou todos os filhos. Sua atual mãe
estava entre as crianças assassinadas.
Este Espírito humanizado perdoou o ato e aceitou reencarnar
para ser a mãe daquele outro, invertendo, agora, os papéis. Porém,
o Espírito humanizado que veio a encarnar como a filha (a mãe dela
156 Adilson Marques

na encarnação anterior) ainda manifestava, segundo a médium,


dúvidas de ter sido realmente perdoado. Assim, ainda se la-
mentava pelo que aconteceu e sofria muito.
Conseguimos, com um comando mental, retirar o corpo astral
que se encontrava no cemitério e ela conseguiu se manifestar
através de um dos médiuns de incorporação. Assim que se mani-
festou, começou a chorar desenfreadamente. Tentamos conversar,
estimulando a Fé em Deus e informando que sua mãe atual a
perdoou de verdade e que a amava muito. Aparentemente, ela
aceitou nossas palavras de esclarecimento e consolo, ficando mais
calma.
Em seguida, ainda incorporado no médium, recebeu energia
do grupo. Em seguida, com um comando mental, solicitamos que
seu corpo astral fosse reacoplado novamente ao seu corpo físico.
A mãe foi orientada, por um mentor do trabalho, a amar muito a
filha e sempre dizer-lhe que a perdoou por tudo o que aconteceu
no passado e que não guarda nenhuma mágoa ou rancor. Dois dias
depois do atendimento, a mãe nos informou que o corpo da criança
começou a apresentar um desenvolvimento mais intenso, cha-
mando a atenção do médico e da fisioterapeuta que cuidava dela.
Com este último caso, temos uma aparente contradição. Enfa-
tizamos ao longo deste livro que o importante é a intenção que
está por trás dos atos e não eles em si. Pela descrição acima, parece
que foi o assassinato dos filhos que gerou o sofrimento no Espírito
humanizado que reencarnou com graves problemas de saúde.
Porém, na essência de todos os atos há uma intenção. E O Livro
dos Espíritos esclarece que o maior mal da humanidade é o egoís-
mo. É ele que precisa ser erradicado. E não importa como ele se
manifesta.
No caso acima, o que motivou o assassinato foi o egoísmo
daquele Espírito humanizado. Se não houvesse a intenção, pode
ser que os filhos também morressem naquele momento, já que
ninguém morre antes da hora, segundo a doutrina espírita. Mas
poderia ser por outra causa, sem que houvesse a intenção de
cometer um assassinato ou mesmo por acidente.
E o que desencarna está diante de uma nova prova: perdoar ou
não o seu “algoz”. O que não perdoa costuma se tornar um obsessor,
passando a perseguir aquele que considera como o culpado pelo
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 157

seu sofrimento ou por ter “morrido antes da hora”. É por isso que
a doutrina espírita diz que “fora da caridade não há salvação”. E
caridoso é aquele que sempre é benevolente, indulgente e perdoa
aqueles que ferem seu ego, não importa o que aconteça. Em outras
palavras, o ser caridoso não sofre e passa pelas vicissitudes, positi-
vas ou negativas, com a Paz de Deus no coração. Foi o que aconte-
ceu com aquele Espirito humanizado que perdoou e ainda reen-
carnou como mãe do outro, aceitando cuidar do seu antigo “algoz”.
158 Adilson Marques

CAPÍTULO 9

DIALONGANDO COM SUICIDAS E COM


VÍTIMAS DA EUTANÁSIA

Vamos abordar novamente a questão do suicídio e da eutanásia.


Desta vez, apresentando uma descrição mais detalhada de vários
casos atendidos na ONG Círculo de São Francisco.
E, com base no que apresentamos até agora, a perspectiva da
Animagogia é de que o nosso livre-arbítrio foi exercido no plano
espiritual, quando escolhemos o gênero de provas para vivenciar
na Terra. Assim, não haveria, em tese, um Deus julgador e punitivo
que coloca algumas almas de seu lado “direito” e outras do lado
“esquerdo”, ou que mostre preferência por este ou por aquele ser.
A experiência com a Animagogia com seres humanizados desen-
carnados demonstrou que é a própria consciência do Espírito
humanizado, na maioria dos casos, que decide o momento em que
deseja encarnar, adquirindo “novos talentos” através do amor
universal e escolhendo um novo gênero de provas.
E o caminho mais curto para sair da roda da reencarnação (o
samsara dos budistas ou a salvação dos cristãos) parece ser o da
prática da caridade ou do altruísmo. E, entre os seres humanizados
desencarnados, costumam necessitar do auxílio caritativo da Ani-
magogia aqueles que, em sua última passagem pela Terra, come-
teram suicídio. Segundo alguns livros espíritas, o suicida entra em
um estado de sofrimento muito grande, que parece eterno. Se,
por exemplo, sua morte foi provocada após ter se jogado na frente
de um trem, o desencarnado passaria a se ver na linha do trem,
vendo e ouvindo a composição se aproximar. Em seguida, por
alguns instantes, sentiria a mesma intensidade de dor experi-
mentada quando o trem arrebentou seus ossos e órgãos. Tal sen-
sação se repetiria de forma constante, sem que o desencarnado
soubesse como se livrar deste padrão mental, vivendo um so-
frimento que lhe parece eterno.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 159

A prece por ele seria uma forma de energia balsâmica que ajuda
o desencarnado que passou pela experiência do suicídio a sentir
uma paz momentânea e um alívio de seu sofrimento. Em pouco
tempo, porém, se o próprio desencarnado não mudar seu padrão
consciencial, o mesmo som e imagens recomeçam, assim como a
dor insuportável do corpo se despedaçando, narram os próprios
desencarnados nas experiências mediúnicas.
Um dos clássicos da literatura espírita sobre suicídio é o livro
Memória de um suicida, escrito por um Espírito que diz ter vivido
a personalidade Camilo Castelo Branco, o famoso escritor por-
tuguês. Para a maioria dos espiritistas que escrevem sobre o
assunto, qualquer suicídio seria uma forma de transgressão à Lei
de Deus, o que contradiz a resposta do Espírito Verdade, na questão
número 853 de O livro dos Espíritos. Nesta questão encontramos
que Deus sabe antecipadamente a hora e o gênero de morte de
cada um, ou seja, Deus, em nenhum momento, pode ser “pego de
surpresa” com o suicídio de um de seus filhos. O Espírito huma-
nizado, antes de encarnar, pode não saber que irá cometer esse
ato, mas Deus já sabia com antecedência, como o pai que sabe se
o filho tem condições ou não de realizar uma determinada tarefa
material, afirma também pai Joaquim de Aruanda.
E se atentarmos à resposta do Espírito Verdade na questão 944,
sobre o suicídio, que afirma não ter o homem o direito de dispor
de sua própria vida, pois apenas Deus tem esse direito, e que o
suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei, podemos inter-
pretar de uma forma diferente daquela adotada por alguns
espiritistas que acreditam que o suicida morreu antes da hora,
contradizendo também o ensinamento da questão 853 que
afirma o seguinte: não importa o perigo, ninguém morre antes
da hora.
E os trabalhos de Apometria com alguns desencarnados pare-
cem evidenciar esse ensinamento, ou seja, que apenas Deus tem
esse direito, significando que o suicídio só se concretiza quando
Deus assim também o permitir. Em outras palavras, mesmo que o
Espírito humanizado tente por diversas vezes o suicídio, seu plano
só se concretizará quando Deus o permitir. E, como já abordamos
em outro capítulo, a Terra é um mundo de provas e expiações, e
uma delas é vencer a tentação do suicídio.
160 Adilson Marques

Assim, quando encarnados, é como se vivêssemos em um


mundo imaginário ou uma Matrix onde o que importa é a intenção.
Tudo aquilo que acreditamos ser Real não passaria de um filme
que está sendo exibido em nosso cérebro. As únicas coisas REAIS
seriam os Espíritos e seus sentimentos.
Nós, enquanto Espíritos humanizados, e não importa se esta-
mos encarnados ou não, seriamos os responsáveis pela mani-
pulação da energia cósmica universal através do pensamento e dos
sentimentos. E esta energia vai se manifestar nas formas ma-
teriais, e vai sempre estar presente na essência das pontes, via-
dutos, carros, venenos etc. E acima de tudo isso está Deus com sua
Onipotência, Onisciência e Onipresença. Assim, vencer a tentação
do suicídio seria uma das provas que o Espírito humanizado escolhe
antes de encarnar e, a partir de sua encarnação, esta personagem
com tendências suicidas torna-se também um instrumento para
as provações de seus familiares, amigos e todos que se relacio-
narem com ele. Por isso, é importante atentar para a expressão
“suicídio voluntário” na questão 944. Como ensina o Espírito Ver-
dade, nem sempre isso acontece.
O louco, por exemplo, não sabe o que faz, ele afirma em O livro
dos Espíritos, relativizando o fato. Na prática apométrica, realizada
a partir do enfoque da Animagógica, foi possível constatar que não
é o ato de se suicidar que transgride a Lei de Deus, uma vez que
Ele, em tese, já sabia que era dessa forma que aquele Espírito
humanizado desencarnaria, mas a vontade (intenção) de cometer
o suicídio, motivado, na maioria das vezes, por orgulho, por
egoísmo, por falta de Fé etc. é que gera o sofrimento. Em suma, o
sofrimento descrito pelo desencarnado é fruto da intenção com a
qual vivenciou o ato e não o ato em si, pois o ato é material e a
matéria nada mais é que energia cósmica universal.
Se ao invés de cometer suicídio com um tiro na cabeça, o
Espírito humanizado fosse atingido por uma bala perdida ou fosse
morto em um assalto, também com um tiro na cabeça, o que
aconteceria? Apenas a intenção mudaria o quadro, pois, mate-
rialmente falando, a situação seria a mesma: uma bala perfurando
uma cabeça e levando a pessoa à morte.
Até hoje, com 20 anos de experiência, não constatamos
nenhum suicídio que não tinha sido voluntário. E os motivos são
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 161

sempre o egoísmo, não importando a racionalização que o ego


utilize para legitimar o ato. Assim, por permanecer preso ao ego,
mesmo após o desencarne, ele sofre as consequências do egoís-
mo que, segundo o Espírito Verdade, é o maior dos males da
humanidade (questão número 913 de O livro dos Espíritos).
É por pensar de forma semelhante ao Espírito Verdade que a
Animagogia praticada em valoriza a importância do amor universal
e não luta contra atos motivados pelo egoísmo, já que é preciso
abordar com profundidade a questão dos sofrimentos humanos e
não os sintomas secundários do egoísmo. No contato com os
desencarnados que cometeram suicídio, constatamos que o sofri-
mento descrito por ele aumenta conforme o grau de egoísmo que
motivou o ato. O suicídio em si nada mais seria do que uma forma
de desligar a personagem do corpo físico, porém, a intenção (que
é uma atitude espiritual) gera o sofrimento atroz narrado pelos
desencarnados através dos médiuns que os “incorporam”.
Nas práticas apométricas que foram observadas para esta pes-
quisa, constatamos que alguns desencarnados conseguem en-
contrar uma forma de aliviar, momentaneamente, essa dor: por
intermédio da obsessão. Apresentarei um caso em que essa forma
de alívio da dor foi o meio que o desencarnado encontrou, lem-
brando sempre que Deus permite a obsessão como prova para o
obsedado, conforme responde o Espírito Verdade na questão 466
de O livro dos Espíritos.
E parece que o ensinamento do Espírito Verdade presente na
questão número 551 que afirma não ser permitido por Deus que
um homem “mau”, com a ajuda de um Espírito “mau” faça mal ao
seu próximo, parece ser verdade. Se a obsessão acontece, é por
merecimento, por estarem ambos os envolvidos (obsessor e víti-
ma) na mesma vibração energética, na mesma sintonia. Após esse
esclarecimento teórico, podemos continuar apresentando o caso.
Segundo o depoimento do próprio desencarnado, incorporado
em um médium, ele praticou o suicídio quando ainda vivenciava o
ego de um adolescente na Terra. Afirmou ter procurado ajuda para
o seu problema (que não foi relatado por ele) e nunca encontrou
alguém que pudesse orientá-lo. Após muito sofrimento descobriu
como aliviá-lo. E sua vítima passou a ser uma antiga amiga, ainda
encarnada. De acordo com o desencarnado, ele se aproximava da
162 Adilson Marques

amiga porque ela assim o permitia, devido a sua falta de Fé. Se


não fosse ela sua vítima, seria outra pessoa, afirmou, comprovando
que a Lei de afinidade une o “algoz” e a “vítima”.
Encontrando afinidade vibratória, ao se aproximar de sua ami-
ga, enviava para ela seus eflúvios deletérios. Ele parecia cons-
ciente de que não era mais um encarnado, mas não sabia como
superar seu sofrimento de outra maneira. Enfim, o que ele buscava
era parar de sofrer, mesmo sendo de uma forma egoísta, já que o
seu alivio se transformava em sofrimento para a amiga. Obvia-
mente que estamos narrando a partir da observação da fala e
gestos do médium incorporado. O animagogo, durante a reunião
mediúnica, tentou convencê-lo de que ele precisava, naquele
momento, tomar consciência de que não estava sofrendo à toa.
Era a sua própria consciência que o punia e pediu a ele para fazer
uma prece reconhecendo seu erro e solicitando auxílio para re-
pará-lo no futuro.
Ele não acreditou nas palavras do animagogo, respondendo que
sempre rezava. Disse a ele que suas orações de nada adiantavam.
Sua única forma de alívio era aquela que ele praticava. Acreditava,
porém, que, caso sua amiga também cometesse suicídio, ele se
sentiria melhor. E esse era o seu plano.
A situação estava se tornando dramática quando lhe foi dito
que toda prece deve ser realizada com o coração limpo e não
precisa ser feita com frases decoradas. Uma prece sincera lhe
abriria muitas portas. Como ele relutava em fazer a prece, o grupo
se ofereceu para fazê-la, pedindo ajuda para que ele pudesse ser
preparado para uma nova encarnação. Ele, com um sorriso maroto,
disse que não acreditava em reencarnação e perguntou se o
animagogo acreditava em Deus. Depois da resposta afirmativa, ele
pediu uma explicação. Ele queria saber como era possível alguém
acreditar em Deus. Ao ouvir que pela razão não se chega a Deus e
que só nos era possível sentir Sua presença com o coração puro e
que todo o seu sofrimento após o desencarne aconteceu por sua
falta de Fé, ele ficou pensativo.
Novamente o animagogo orientou-o para que fizesse uma
prece. Ele nada respondeu. Para quebrar o silêncio, o coordenador
do atendimento perguntou se o grupo ali reunido poderia fazer
uma prece para ele. Após ele fazer com a cabeça um sinal afir-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 163

mativo, o grupo fez a prece e, pouco tempo depois, o médium


voltou do transe, e o desencarnado foi levado para tratamento em
um hospital do mundo astral, segundo relato de outros médiuns.
Em suma, ele havia cooperado consigo mesmo. Ao se abrir espiri-
tualmente para a ajuda, permitiu que o socorro chegasse até ele.
É importante assinalar que o fato de um obsessor ter sido escla-
recido não significa que a pessoa que era sua “vítima” esteja livre.
Se ela não fizer sua mudança consciencial e sentimental, ou seja,
seu processo metanoico, desapegando-se dos bens materiais,
sentimentais ou culturais e passar a ter uma Fé plena, outros
desencarnados similares àquele poderão encontrar nela o alvo
para aliviar suas dores e sofrimentos, já que se encontram no
mesmo nível vibratório.
Na Animagogia, a pessoa obsedada não é tratada como uma
pobre vítima. Assim, não bastaria afastar o obsessor, é preciso
esclarecer a vítima que ela precisa fazer sua mudança interior,
aumentando o seu padrão vibratório. Passaremos, agora, para
outro atendimento com suicidas.
Dessa vez o trabalho foi realizado com um desencarnado que
viveu um ego feminino e cujo suicídio foi motivado pelos maus
tratos recebidos na infância. Possivelmente, o suicídio aconteceu
no início da adolescência e foi um caso muito dramático de se
acompanhar. Não tivemos informações sobre o que o mesmo
vivenciou na infância, porém, ficou patente o aprendizado do
Espírito humanizado de que o suicídio voluntário não foi o melhor
caminho para encontrar a paz ou extinguir seus sofrimentos. Na-
quela sessão ficou claro que, ao acabar voluntariamente com sua
própria vida física, o sofrimento que já manifestava enquanto
encarnado se tornou muito mais agudo e traumático após a morte.
Com a possibilidade de se manifestar por intermédio do corpo
do médium, o desencarnado começou a chorar desesperada-
mente. O caso era tão grave que, para ser atendido, um dos men-
tores do trabalho incorporou em outro médium e passou a conduzir
o trabalho de esclarecimento. O desencarnado gritava e afirmava
sentir muito frio. Pediu que alguém segurasse suas mãos. Após
receber vibrações através da TVI e conforto emocional, ficou mais
tranquilo e parou de chorar. Tomando consciência de sua nova
realidade e recobrando a consciência do que havia se passado, fez
164 Adilson Marques

um apelo emocionado para que os pais procurassem amar seus


filhos e não os maltratassem para que ninguém precisasse passar
por uma experiência como a dela.
Felizmente, ao final do trabalho de esclarecimento, ela com-
preendeu que eles (seus pais) foram os instrumentos de sua
provação e que o egoísmo foi o responsável por seu sofrimento.
Antes de partir, o animagogo solicitou que fizesse uma prece. Ela
atendeu o pedido e rezou um “Pai Nosso” com muito ardor, en-
fatizando sempre a necessidade de proteger as crianças. Esse
desencarnado que sofria os efeitos do suicídio voluntário foi
levado para um tratamento mais específico no mundo astral e não
tivemos mais informações sobre o seu estado.
Abordaremos, agora, o caso de um suicida que não quis ajuda
e que ainda afirmou que se vingaria por termos perturbado sua
“paz”. Não ficamos sabendo se ele havia se tornado obsessor de
alguém. Como ele estava tomado pelo ódio, não foi possível ajudá-
lo naquela noite. Assim que aconteceu a comunicação através do
médium, o desencarnado passou a maldizer os que o trouxeram
para aquela reunião. Ele se manifestou livremente, uma forma de
aliviar um pouco de sua ira e receber alguns eflúvios benfazejos.
Ele afirmou que não precisava de ajuda e nem de esclarecimento.
Dizia saber o que tinha acontecido com ele e que estava bem assim.
Seu único desejo naquele momento era de que o libertassem para
que pudesse ir embora. Disse, em tom ameaçador, que se ele não
fosse solto imediatamente voltaria para se vingar de todos: “Vocês
sabem o que é vingança, não é? Se vocês não me libertarem agora,
vou me vingar de cada um de vocês!”.
Os participantes, percebendo que estavam diante de um desen-
carnado que ainda não se encontrava em condição de ser auxiliado,
fizeram uma prece pedindo a Deus e à espiritualidade superior
que amenizassem o ódio que ele ainda manifestava e que o
mesmo pudesse voltar em outra ocasião. Infelizmente, naquele
momento, ele ainda não havia aprendido o valor do perdão.
Esses três exemplos nos dão uma ideia da dificuldade que é
tentar criar um sistema genérico para o esclarecimento e aten-
dimento espiritual. Cada Espírito é uma totalidade e reage singu-
larmente. É assim durante a encarnação e, provavelmente, con-
tinua sendo assim no plano astral até que o Espírito humanizado
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 165

se liberte do ego que construiu para vivenciar suas provações na


Terra. Mas é importante lembrar sempre que mais importante que
o ato praticado é a intenção com que o mesmo foi vivenciado.
Quanto mais preso ao egoísmo, mais sofrimento vivencia aquele
que comete suicídio.
Abordaremos agora o efeito da eutanásia em espíritos huma-
nizados que vivenciam o ego materialista.
Como já salientamos em capítulos anteriores, o ensinamento
do Espírito Verdade presente em O livro dos Espíritos é claro: não
importa o problema, ninguém morre antes da hora (853). Além
disso, na questão sobre homicídio (746), encontramos que este ato
corta uma vida de expiação ou de missão, mas não foi dito que este
corte acontece antes da hora prevista. Se tal informação aparecesse,
estaríamos diante de uma contradição nos ensinamentos do Espírito
Verdade. Sabemos, porém, que não é essa a posição dominante no
meio espiritista brasileiro. Nesse meio, é comum encontrar dou-
trinadores ensinando que, por imprudência, e também através da
eutanásia ou do suicídio, “alguém morre antes da hora”.
No trabalho animagógico que agora vamos relatar não se con-
firmou essa visão espiritista que contradiz o Espírito Verdade. A
eutanásia, como forma de cortar uma vida de missão ou de expia-
ção, aconteceu na hora que o desencarne deveria acontecer.
Podemos dizer que a eutanásia interromperá uma existência
sim, porém, na hora prevista por Deus. Se há algum problema
espiritual para quem pratica o ato estaria na intenção como o
mesmo foi vivenciado. Ou seja, o ato foi praticado com sentimento
amoroso ou egoísta? O ato pode ser feito para aliviar a dor e o
sofrimento de alguém ou para se libertar de uma pessoa que se
tornou um incômodo para a família ou que está dando muita
despesa para o hospital. Em suma, como já vimos em outras res-
postas do Espírito Verdade, aqui também Deus julga a intenção e
não os fatos, para que haja coerência.
Em relação àqueles que desencarnam pela eutanásia, se há
algum sofrimento, não foi por causa do ato em si, mas de sua
condição espiritual no momento do desligamento, ou seja, do grau
de vinculação ao ego vivenciado na Terra.
Vamos relatar agora alguns atendimentos de educação espi-
ritual (Animagogia) com alguns desencarnados que, suposta-
166 Adilson Marques

mente, passaram pela vicissitude de seres desligados do corpo


físico por meio da eutanásia. Como salientamos, não parece ter
sido este o problema que retardou a readaptação do desencarnado,
mas o fato de se interessarem apenas por questões materiais,
dando pouca ou nenhuma atenção para a dimensão espiritual.
Neste trabalho com as “vítimas” da eutanásia, a primeira parte do
trabalho consistiu em discutir o tema para, na etapa seguinte, por
meio da psicofonia, conversar e tentar orientar alguns desen-
carnados incorporados nos médiuns.
E, como constatamos, o que faz esses desencarnados vagarem
de forma desorientada pela Terra não foi a eutanásia, mas o fato de
terem vivenciado egos materialistas, o que não significa que são
Espíritos “inferiores” ou “maus”. O fato de se dedicarem, em tese,
apenas às questões materiais fez com que se esquecessem da
existência da vida espiritual, perdendo a consciência ao entrarem
em coma. Ao serem desligados do corpo físico ficaram inconscientes,
anestesiados e sem saber quem eram e o que estava acontecendo,
algo similar ao que ocorre, normalmente, com viciados em drogas
alucinógenas. A situação vivenciada por tais desencarnados seria
uma forma de expiar o excesso de materialismo durante sua última
encarnação e esse tempo vai variar de acordo com o grau de apego
ao ego e a toxidade que precisariam drenar de seu corpo astral.
De dezenas de desencarnados assistidos com o mesmo pro-
blema, apenas um conseguiu se lembrar de seu nome na Terra,
nas reuniões presenciadas por mim. Porém, mesmo assim, o fato
aconteceu com muitas dúvidas. Ele não lembrava se o seu nome
era Roberto ou Alberto, na Terra. Este foi um dos raros desen-
carnados que vivenciou a eutanásia e conseguiu conversar de
forma um pouco mais articulada com o grupo animagógico.
Durante o atendimento, primeiramente quis saber onde es-
tava. Ele recebeu a informação de que estava em uma casa es-
piritual que orientava os desencarnados que lá chegavam.
Segundo suas palavras, ele conseguia ouvir o que ali se dizia,
mas não conseguia enxergar ninguém. O animagogo pediu a ele
que fizesse um esforço mental, não se preocupando em enxergar
com os “olhos físicos”, mas com a alma enquanto o grupo enviaria
energia. Ele ficou concentrado por alguns instantes e começou a
chorar. Tomou consciência de que não estava mais encarnado e
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 167

começou a sentir saudades da filha. Ele falou, chorando, que havia


deixado na Terra uma filha muito bonita, chamada Carmem. Pediu-
nos que a ajudássemos também com preces.
Emocionante, porém, foi quando ele nos disse que estava
percebendo que Deus existia mesmo e começava a se lembrar de
outras existências, de outras encarnações.
Apesar das descrições realizadas pelos sensitivos, sabemos que
nos atendimentos de Apometria o trabalho realizado pela espiri-
tualidade é muito diversificado. Para nós, os encarnados, o trabalho
se resume em passar algumas informações para o desencarnado
e, sobretudo, emitir energia através das mãos para auxiliar no
socorro. É comum nesses atendimentos a produção de uma espé-
cie de tela em sua mente onde o desencarnado que está sendo
ajudado revê passagens de suas outras encarnações.
Possivelmente, era o que estava acontecendo com esse desen-
carnado, uma vez que, depois de alguns minutos, ele exclamou
emocionado: “Então existe mesmo a reencarnação!”.
Aparentemente, aquela experiência estava sendo muito inten-
sa para ele. Depois que já se encontrava menos ansioso e suas
emoções pareciam estar sob controle, ele contou que havia estu-
dado muito e que, enquanto esteve encarnado, abrira muitos
corpos e que nunca havia encontrado o “espírito” de que muitos
falavam. Sua fala, através do médium, demonstra que ele tinha
interesse em encontrar evidências materiais da existência espi-
ritual, mas, ao mesmo tempo, não encontrando o “espírito” nos
corpos abertos, mais materialista se tornava. Também levantamos
a hipótese de que ele havia sido algum médico ou, quem sabe,
algum acadêmico da área da saúde, trabalhando, possivelmente,
com o ensino de Anatomia ou alguma disciplina semelhante.
Como não era o momento para conversar sobre curiosidades
da vida física, continuou-se o diálogo sobre o mundo espiritual.
Percebendo o desejo sincero daquele grupo em auxiliá-lo, pois
esta não era nem a primeira nem a última vez que passaria por
esse processo de readaptação consciencial, ele ouviu atentamente
as palavras do animagogo. Este lhe dizia que o Espírito, apesar de
invisível para os olhos do encarnado, existe. E o mais importante:
ele precede a existência do corpo físico. Ou seja, a nossa condição
natural seria como Espíritos.
168 Adilson Marques

Foi constatado que o desencarnado ficou satisfeito com o


auxílio e muito aberto às colocações do animagogo. Ele dizia sentir
os bons fluidos que estava recebendo durante aquela experiência
e solicitou uma oração, por ele e por sua filha Carmem.
Algumas questões relacionadas a esse caso são importantes e
merecem aprofundamento. Uma delas é em relação ao espaço físico.
Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, se estiverem na
mesma dimensão. Assim, o que acontece do “outro lado” o nosso
cérebro não se encontra programado para decodificar. Mesmo um
médium vidente não terá condições de enxergar tudo o que acontece
no plano astral, mas somente o que tiver permissão para acessar.
É com base em relatos da equipe espiritual socorrista que
recebemos a informação de que nem todos os desencarnados
atendidos são levados imediatamente para alguma colônia
espiritual. Muitos continuam em outros “ambientes” da casa,
recebendo ainda “tratamentos médicos”. A energia que os encar-
nados liberam é importante para a recuperação de desencarnados
que ainda se encontram presos às verdades criadas pelo ego, daí o
fato de alguns afirmarem que não enxergam ou que não ouvem.
Em tese, eles se esqueceram de que, no plano astral, os órgãos físicos
não são mais necessários. É tudo uma questão de readaptação. É
possível concluir que as aflições que atingem os seres desencarnados
vitimados pela eutanásia são produções mentais e não uma hipo-
tética “desencarnação antes do tempo”. Aquele que cultivou
excessivamente uma visão materialista em sua última encarnação,
com o desencarne vivenciará durante algum tempo o fruto da
“cegueira” e da “surdez” espiritual que cultivou na Terra, sofrendo
por não saber o que está acontecendo com ele.
Muitos que desencarnam por eutanásia permanecem dor-
mindo por um período variado para cada caso. E se pessoas en-
carnadas orarem, a recuperação será muito mais rápida. A energia
emitida pelas preces parece excelente e indispensável remédio
para todos, encarnados ou não. Porém, se acreditarmos que apenas
Deus tem o direito de definir a hora que o desencarne acontecerá,
não existe eutanásia e nem o processo oposto, a distanásia. Aquele
que “antecipa” ou “prolonga” uma existência seria apenas um
instrumento da justiça divina, já que a hora programada para o
desencarne ainda não havia chegado ou passado.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 169

CAPÍTULO 10

DESCOBRINDO A MORTE DO CORPO FÍSICO,


A COMUNICAÇÃO MEDIÚNICA
E O VALOR DA PRECE

Vamos apresentar alguns trabalhos de esclarecimento espi-


ritual em que o desencarnado ainda não estava, em tese, cons-
ciente de que estava “morto” ou em que ele descobre pela pri-
meira vez a comunicação mediúnica e o valor da prece feita com
Fé e amor. Constatamos que o espanto ou a alegria manifestada
pelo desencarnado sempre causa algum tipo de surpresa também
à equipe de encarnados presente no trabalho animagógico, uma
vez que parece ser uma tendência natural achar que depois do
desencarne a consciência seria plena, mesmo sabendo que o
desligamento da Individualidade pode demorar séculos e até
milênios. Fatos assim são comumente observados em filmes
como “o sexto sentido” ou “os outros”.
Segundo a literatura espírita esse fato é muito mais comum do
que possamos imaginar. É por isso que parece ser racional a ideia de
que devemos nos libertar da ilusão criada pelo ego o mais rapida-
mente possível, deixando de acreditar em suas verdades, pois, se
daqui a cinco segundos formos desligados do corpo físico, mante-
remos nossos apegos, desejos e pensamentos individualistas, e
ficaremos imantados ao mundo ilusório da matéria, ao invés da
possível condução para as “moradas espirituais superiores” que
transcendem as formas materiais, as percepções, as sensações etc.
A consciência da morte física envolve certa polêmica. Alguns espi-
ritistas acreditam que o “doutrinador” nunca deve dizer ao Espírito
humanizado trazido para o atendimento que ele está desencarnado.
Isso faria com que ficasse ainda mais desesperado.
No enfoque da Animagogia, o esclarecimento é visto como o
melhor caminho para o Espírito humanizado resgatar sua cons-
170 Adilson Marques

ciência espiritual. É claro que tudo depende de como o escla-


recimento é realizado nesse momento dialógico entre um encar-
nado e o desencarnado iludido pelo ego. Mas omitir essa infor-
mação seria valorizar a ilusão material ao invés da metanoia. A
situação parece similar a do médico que discute com a família se
um paciente deve ou não saber que está com câncer e em estado
terminal. Há casos em que o paciente irá piorar se souber, entrando
em profunda depressão e, praticamente, entregando-se ao “des-
tino”. Mas há aquelas pessoas que preferem saber a verdade e
encontram forças para superar mais um desafio na vida.
No caso do desencarnado que ainda não sabe que “morreu” o
problema parece ser o mesmo. Mas se a nossa condição Real é
como Espíritos e não como seres humanizados encarnados ou
desencarnados, parece óbvio que não se deve omitir a informação
acima.
Segundo os mentores que conduzem o trabalho animagógico,
em nenhum momento afirmaram que os desencarnados tiveram
sua situação agravada pelo fato de ouvirem o animagogo dizer que
se encontravam no plano astral, sem o corpo físico. Para a melhor
compreensão do leitor, vamos aqui discutir alguns exemplos em
que essa situação ocorreu. Começaremos pelo caso de um desen-
carnado que estava totalmente confuso. Ele não parecia sofrer,
mas estava completamente perdido e sem entender o que se
passava com ele. O grupo foi orientado, posteriormente, que se
tratava de um desencarnado benevolente. Isso impediu que ele
virasse alvo de obsessores. Estes últimos não conseguiam vê-lo
graças à diferença vibracional. O problema dele seria a falta de
interesse por questões espirituais em sua última passagem pela
Terra.
Mas teria sido graças às preces de familiares e de amigos que
foi possível levá-lo para aquele trabalho animagógico, com a per-
missão de Deus, obviamente. Assim que se manifestou através
do médium, quis saber onde estava.
Após o animagogo explicar o que acontecia naquele local, ele
quis saber como havia chegado até ali. Ao ser esclarecido que
alguém o amava muito e fizera preces pedindo para ele ser auxi-
liado, o que permitiu às entidades espirituais o levarem para
conversar com aquele grupo, constatamos que o desencarnado
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 171

não havia percebido ainda sua nova condição, mas já dava sinais
de que estava chegando à conclusão de que havia “morrido”. O
animagogo, para evitar falar que ele estava “morto”, iniciou um
diálogo falando que a morte não existia e concluiu dizendo que
ele havia desencarnado.
Ingenuamente, ele perguntou: “O que é isto?”. Essa pergunta
desconcertou por um instante o grupo. Mas, depois do “choque”,
o animagogo procurou humildemente esclarecê-lo de que não se
encontrava mais preso a um corpo físico. Ao tomar consciência,
talvez pela primeira vez, que estava “morto”, quis saber como seria
viver como desencarnado. Ao ser lembrado que essa não era a
primeira vez que passava pela experiência do desencarne, o
animagogo pediu a ele para ficar tranquilo e fazer uma prece
pedindo auxílio a Deus. Dessa forma, ele seria conduzido para um
local adequado, no mundo astral, para continuar se readaptando,
com muito amor e paz, à verdadeira vida.
Ele disse que não sabia rezar e pediu ao grupo para fazer uma
oração por ele. Atendendo ao seu pedido, a prece foi realizada e
ele falou que via duas entidades e que não estava sentindo medo.
Dentro de alguns segundos o médium voltou do transe em que se
encontrava.
Partindo do pressuposto que não se trata de um caso de alucinação
coletiva, podemos dizer que esse caso demonstra um sensível e
positivo trabalho de esclarecimento em que o Espírito soube que
estava “morto” sem que isso gerasse problemas mais graves para ele.
O mesmo pôde ser socorrido tranquilamente pela espiritualidade.
Discutiremos agora outro caso de descoberta da “morte”. Aqui,
curiosamente, além de tal descoberta, houve ainda outra também
singular: a de como funciona a comunicação mediúnica entre os
seres humanizados desencarnados e os encarnados. Quando o
processo psicofônico teve início, ficou evidente que o desen-
carnado comunicante não havia se conscientizado do fato que mais
assusta a humanidade: a morte. Ele, porém, não demonstrava raiva
nem manifestava qualquer tipo de sofrimento. Apenas parecia
desorientado. Como no caso anterior, o desencarnado cumpri-
mentou todo o grupo e queria saber onde estava.
Sua indagação foi respondida e o grupo se colocou à disposição
para tirar outras possíveis dúvidas. Ele nos agradeceu por mostrar
172 Adilson Marques

interesse em auxiliá-lo e fez mais algumas perguntas. Depois de


muito dialogar, o animagogo pediu a ele que olhasse para o corpo
que estava “utilizando” para se comunicar com o grupo. Ele olhou
atentamente para o corpo do médium e com um ar de ingenuidade
respondeu: “Não... não é o meu corpo!”.
Nesse momento, o animagogo tentou pacientemente trans-
mitir a informação de que ele era um desencarnado que não mais
habitava o mundo material. Ele não deu sinais de que a informação
estivesse lhe causando algum mal-estar e chegou a dizer a seguinte
frase: “Então eu morri!”.
Mas sua atenção parece ter se voltado para o processo comu-
nicativo entre os dois mundos (que na verdade é um só). O anima-
gogo procurou, então, esclarecer-lhe que era possível conversar
com os encarnados por intermédio de técnicas mediúnicas. Ou
seja, que ele estava se comunicando através de um médium e que
tal técnica era conhecida como psicofonia.
Como hipótese, acredito que o desencarnado já tivesse ouvi-
do falar em comunicação com os “mortos”. Mesmo os ateus e os
que acreditam que apenas o corpo físico existe já ouviram falar no
assunto. Possivelmente, ele não devia levar o tema a sério en-
quanto encarnado e, naquele momento, parecia deslumbrado
com sua condição de “morto” que conversava com os “vivos” por
meio de um médium. Não tivemos nenhum comunicado por parte
das entidades responsáveis pelo caso para saber se tal hipótese
se confirmava. O importante, porém, é que a informação de que
era um “morto” não o prejudicou ainda mais, como defendem
alguns espiritistas.
Para encerrar o diálogo, o animagogo pediu a ele que fizesse
uma prece de agradecimento. Ele preferiu que o grupo fizesse.
Ele segurou as mãos do animagogo e uma prece foi feita para que
ele fosse conduzido para um local no mundo astral a fim de con-
tinuar sua recuperação e, quem sabe, um dia retornasse na con-
dição de novo trabalhador, ajudando no resgate de outros necessi-
tados no plano astral. No decorrer da prece ele foi conduzido e o
médium retornou do transe.
Vamos apresentar agora mais um caso importante e que serve
de alerta para os encarnados: o de um desencarnado que havia
sido cristão e que não sabia que a prece também deve ser feita
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 173

pelos “mortos”. Não soubemos qual era a religião dele enquanto


se encontrava encarnado, mas foi possível deduzir que era um
cristão, de alguma agremiação evangélica. Ele estava assustado e
com medo. Dizia que se encontrava em um lugar sem luz. Ao
mesmo tempo, tínhamos a impressão de que ele estava consciente
de não mais habitar o mundo material.
Durante sua fala, exclamou: “Aqui não é o paraíso que ima-
ginei!”. Sua expressão manifestou o desconhecimento da necessi-
dade de se libertar do ego para a Individualidade vivenciar seu
“paraíso” interior.
O animagogo conversou um pouco sobre reencarnação e sobre
a escalada gradual do Espírito humanizado para vencer o ego e
chegar ao “paraíso”, que não é externo, mas interno. Ele parecia
compreender essa reflexão. Possivelmente, durante a conversa,
ele se lembrou de outras encarnações ou de algum fato que fazia
com que as colocações do animagogo fizessem sentido. Ele de-
monstrou muito interesse e confiança nas explicações que foram
transmitidas, mas queria saber por que havia sido “punido” por
Deus, já que ele havia sido uma pessoa boa.
Após ouvir que Deus não punia ninguém e que para sair do
“local” onde ele dizia estar, seria necessário, em primeiro lugar,
perdoar a si mesmo, ele ficou pensativo e quis saber como poderia
fazer isso. A resposta foi que ele fizesse uma prece pedindo ajuda
a Jesus e se perdoando pelos erros cometidos. Ele, com espanto,
exclamou: “É mesmo! Por que eu não pensei em fazer uma prece
antes?”.
Ele foi convidado para fazer a prece e aceitou. Todo o grupo deu
as mãos e ele fez uma singela oração que emocionou a todos.
Alguns segundos após o término da prece, o médium voltou ao
seu estado de vigília.
Este último caso apresenta uma questão instigante, já discutida
na primeira parte desse livro. Ao despertar no plano espiritual,
nem sempre o Espírito encontrará o mundo que imaginava antes
da morte. Talvez por orgulho, esse desencarnado tinha forte
convicção de que, ao morrer, encontraria o “paraíso”. Outra hipó-
tese possível para esse caso é a da crença, comum entre alguns
segmentos religiosos cristãos, de que Deus ou Jesus pune ou
perdoa nossos atos. Bastaria se confessar a um padre ou participar
174 Adilson Marques

de algum ritual para ter os “pecados” perdoados. Algumas


correntes cristãs acreditam que não temos mais “pecados”, pois
Jesus teria nos salvado por intermédio da cruz.
Porém, apenas uma consciência tranquila e em paz é capaz de
levar alguém para a Luz, que não está fora, mas dentro de cada
um. E a prece, seja na Terra ou no plano astral, é o melhor caminho
para solicitarmos auxílio aos “anjos” socorristas. Já dizia Jesus: “Bata
e a porta se abrirá!”.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 175

CAPÍTULO 11

DIALOGANDO COM OS
“FALSOS PROFETAS”

Em um dia de atendimento, os mentores do trabalho avisaram,


através dos médiuns, que seriam auxiliados vários “falsos pro-
fetas”. Perguntei o que definiria um e a resposta dele foi esta: “o
Espírito humanizado que não pratica o que ensina, independente
de religião”. A resposta deste mentor é interessante. De forma
geral, cada adepto de uma religião considera a sua “verdadeira” e
as demais como sendo as “falsas”. Assim, os doutrinadores da
agremiação religiosa rival costumam ser classificados como “falsos
profetas”. Porém, segundo a resposta, cada religião possui os seus
“falsos-profetas”.
E pai Joaquim de Aruanda vai além e diz que, no plano espiritual,
não há a necessidade de religião. Essa seria uma necessidade típica
dos mundos de “provas e expiações”. Nesse sentido, afirma que
as religiões também são campos de provação. E sempre que idola-
tramos uma religião, nos esquecemos de amar a Deus acima de
todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, já que deixamos
de emanar amor universal para amar apenas os que pensam e agem
da mesma forma ou seguem a mesma religião, ele afirma.
Como salientamos, segundo os mentores daquela noite, os
“falsos profetas” estão em todas as religiões, e são aqueles que
passam a difundir que sua religião é a verdadeira, a superior, e que
as demais são falsas e devem ser combatidas.
E nesta categoria de “falsos profetas” estão também os desen-
carnados que, presos ao ego, utilizaram seu poder de liderança
religiosa ou espiritual para se beneficiar materialmente. Nessa
categoria, há ex-pastores evangélicos que encontraram na religião
uma forma de fazer fortuna, ex-líderes de seitas, grupos eso-
téricos ou “Nova Era” que comercializavam o intercâmbio com a
espiritualidade e até médiuns kardecistas ou de umbanda que não
176 Adilson Marques

usaram a mediunidade que receberam da Providência Divina para


a prática da caridade ou que se fingem médiuns para autopro-
moção.
Durante os atendimentos, foi possível constatar que os “falsos
profetas” costumam apresentar rápido raciocínio e domínio dos
ensinamentos sagrados. Ou seja, na maioria das vezes, o grupo está
diante de desencarnados cultos e que gostam de conversar. O
problema dos “falsos profetas” costuma ser o orgulho, o charla-
tanismo e a crença de que ainda se encontram encarnados e lu-
dibriando as pessoas.
Vamos narrar, primeiramente, o caso de um desencarnado
muito irônico. A impressão era de que ele havia se aproveitado
muito bem de sua profissão de “falso profeta”. Assim que a
médium entrou em transe, ele começou a nos oferecer seus ser-
viços de orientação espiritual. Foi fácil notar que ele ainda não
havia se apercebido de que não estava mais entre os encarnados.
Quando recebeu a notícia, quis saber onde estava e começou a ficar
mais interessado no diálogo que ali acontecia. Parou de falar um
pouco e tornou-se mais receptivo. De repente, exclamou: “Então
existe mesmo essa história de alma!”.
Ao mesmo tempo em que parecia contente com a revelação,
começou a contar que havia magoado muitas pessoas. Ele demons-
trava sinais de arrependimento. Mesmo sem saber o que ele havia
feito, o animagogo falou para ele buscar se abrir, a partir de agora,
para os ensinamentos espirituais e que se tornasse mais um tra-
balhador no plano espiritual.
O diálogo pareceu ter surtido algum proveito para ele. Aparen-
temente, estava feliz e pediu uma prece antes da médium voltar
do transe.
Outro desencarnado que vivenciou o ego de “falso profeta” na
Terra, atendido pelo grupo em questão, foi ilustrativo. Sem per-
ceber que estava se manifestando por meios mediúnicos, assim
que viu o animagogo falou: “Boa noite irmão, deseja algum con-
selho?”.
Ele foi informado que o grupo estava contente com sua pre-
sença e que gostaria muito de ouvir seus conselhos. Porém, tam-
bém gostaria que ele ouvisse os conselhos que seriam passados
para ele, caso não se importasse. Surpreso, talvez por ser ele a
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 177

pessoa que vendia conselhos espirituais, quis saber o que o anima-


gogo teria para lhe dizer.
Após ser informado que estava vivendo no mundo astral, que
era um ser desencarnado e que seu corpo físico não mais existia,
ele disse: “Mas eu não estou no Céu! Onde está o Céu para onde
eu deveria ir?”.
Ficou patente, naquele momento, que ele vagava desorientado
pela Terra, acreditando que ainda estava encarnado e vendendo
seus conselhos espirituais. Ao ser informado que não existia um
espaço circunscrito chamado de “céu” ou de “inferno”, mas que o
reino de Deus estava dentro de cada um e que, para se libertar da
Terra, ele precisaria mudar suas atitudes (sentimentos e pensa-
mentos), ele se interessou e perguntou como fazer isso.
Ele foi orientado a fazer uma prece do fundo da alma, pedindo
ajuda e o esclarecimento espiritual. Meio arrependido, ele não
quis fazer a prece e pediu para que o grupo a fizesse para ele.
Outro “falso profeta” que foi atendido pelo grupo não tinha
interesse em dar conselhos. Sua preocupação era com o fato de
“não estar no Céu”. Ao contrário do anterior, tinha consciência de
que não se encontrava mais no mundo dos encarnados. Ao per-
guntar onde estava, ficou intrigado com a nossa resposta e disse:
“Aqui não se parece com nenhuma das igrejas que conheço. Isto
não parece uma Casa de Cristo”.
Ele foi esclarecido da sua participação em um trabalho mediú-
nico e que sua comunicação conosco, os encarnados, se dava
através de um médium de incorporação. Ele disse-nos que já havia
escutado falar no assunto, mas que não acreditava nisso. Porém,
sem alternativa, aceitou o fato, e pediu uma prece antes de ser
resgatado.
Também registramos o atendimento de um típico charlatão que
vivera da exploração espiritual na Terra. Ele se mostrava tranquilo
e muito irônico. Possivelmente seria um desencarnado que os
adeptos da Doutrina Espírita classificariam como “zombeteiro”. Ao
contrário dos demais que questionavam seriamente ou com des-
confiança onde estavam, este parecia estar bem tranquilo quando
fez a pergunta. E quando soube que havia desencarnado, res-
pondeu com uma mistura de ironia e curiosidade: “Iiiiiih! Então
eu já era!”.
178 Adilson Marques

Sua forma descontraída de conversar com o grupo ajudou a criar


um clima bem amistoso, apesar da seriedade do trabalho. Ele foi
informado que o corpo físico que usou em sua última encarnação
“já era” mesmo. Porém, sendo um Espírito eterno, ele permanecia
vivo. Ele parecia tranquilo com sua nova situação, lamentando
apenas um pouco de dor em seu corpo astral. Ele foi orientado a
tentar amenizar a dor com a força do pensamento e pedir em uma
prece sincera, a Deus e a Jesus, a ajuda necessária para se livrar
das dores, já que elas eram reflexos da personagem da qual estava
se libertando, e retomar sua consciência humana plena.
Com expressão de curiosidade perguntou ao animagogo se a
prece realmente funcionava. Ao ouvir que sim, tanto no mundo
material como no espiritual, ele pediu que uma fosse feita por ele.
Os casos apresentados acima resumem a condição dos desen-
carnados que viveram o ego de “falsos profetas” na Terra. E não
importa a religião que abraçaram, conforme a maioria relata, por
algum período ficaram na “escuridão”, sofreram dores e sentiram-
se atordoados mentalmente por não encontrarem o Céu que
“venderam” na Terra. Aparentemente, não seriam Espíritos
“maus”, apenas não fizeram com amor a missão que receberam.
Usaram para fins egoísticos o poder que Deus confiou a eles.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 179

CAPÍTULO 12

ALGUNS DESAFIOS E A BUSCA


POR AUTODOMÍNIO:
A FUNÇÃO ESPELHO NA PRÁTICA

Apesar de toda e qualquer preparação teórica, é somente na


hora do contato com os desencarnados necessitados de auxílio que
aprendemos a ter autodomínio sobre a situação e a superar diver-
sas barreiras, principalmente mentais. A Animagogia é, sobretudo,
uma prática educativa e não apenas uma teoria. E é justamente no
trabalho cotidiano com os seres humanizados desencarnados que
a Animagogia se torna plena. Sem falar que os casos mais com-
plexos, onde o ódio parece ser fim, que inúmeras lições morais
podem ser aprendidas.
Escrevo isso porque, compreendendo o problema de cada
desencarnado, aprendemos que, de fato, o único caminho para a
Individualidade se libertar do ego está no ensinamento cristão:
“amar o outro como a si mesmo”. A Animagogia com os seres
humanizados desencarnados é um dos trabalhos de doação volun-
tária mais difícil e, a cada novo encontro, notamos como ainda não
estamos totalmente preparados para realizá-la. Os problemas são
singulares e cada atendimento exige criatividade e autodomínio
para não ofender nem agredir o desencarnado comunicante, e
também para não se envolver emocionalmente com cada um e
nem transformar em meras curiosidades suas experiências trau-
máticas, respeitando a experiência e o valor de cada desencarnado,
sem julgá-lo ou puni-lo.
Além disso, o trabalho com os desencarnados deve ser sempre
compreensivo. Mesmo que “erraram” ao deixar de amar, cada um
nunca deixa de ser um instrumento inconsciente da justiça divina.
Ou seja, seus atos foram aqueles que o outro, naquele momento,
necessitava receber.
180 Adilson Marques

Em um dos primeiros trabalhos de esclarecimento que coor-


denei, foi trazido um desencarnado que parecia muito irritado.
Queria saber por que aquele grupo tinha perturbado sua paz e por
que estavam com aquela “conversa mole” para cima dele. Em
determinado momento, olhou bem para mim e perguntou: “Por
que você está com medo de mim?”. Eu respondi que não era medo,
mas a ansiedade normal que cerca o primeiro encontro com um
desconhecido, ainda mais com um ser que já deixou o mundo
material. Mas que, apesar de tudo, estava ali para ajudá-lo no que
estivesse ao meu alcance e competência.
Aquele desencarnado, embora se lamentasse por não conse-
guir fazer nada direito, felizmente, se abriu e extravasou seu ódio,
podendo, assim, ser socorrido para esferas mais elevadas.
Em outro atendimento, o trabalho estava sendo realizado com
um desencarnado que se manifestava através de uma forma
feminina. Parecendo perdido e com medo enquanto conversava
comigo, outro desencarnado se manifestou em outro médium,
e começou a dizer que era irmão dela e pedia-lhe para acom-
panhá-lo. Seu tom de voz era estranho e sem afeto. Era nítida a
falsidade em sua intenção. Eu continuei o atendimento e ques-
tionei o primeiro se conhecia aquele que se identificava como
seu irmão.
Além de responder negativamente, informou que sentia muito
medo dele. Mas o outro desencarnado continuava insistindo para que
ela fosse embora com ele. De repente, um terceiro médium incor-
porou um dos mentores do trabalho que, com uma postura séria,
enérgica e vigorosa, criticou o que tentava enganar a jovem de-
sencarnada.
Não sabemos o que aconteceu, mas aquele começou a chorar
e afirmou estar arrependido, dizendo que não enganaria mais
ninguém. Dessa vez ele pareceu sincero e foi retirado pela espiri-
tualidade que conduzia o trabalho e eu, na figura de animagogo,
continuei o diálogo com a entidade feminina.
Após este atendimento, o mentor do trabalho se manifestou
e orientou os médiuns a não dar passagem a mais de um desen-
carnado por vez, exceto em casos excepcionais, para que algo
semelhante não voltasse a ocorrer. A intenção daquele desen-
carnado não era boa, mas, aparentemente, também acabou sendo
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 181

esclarecido e auxiliado. É a velha máxima: nada acontece sem a


permissão divina!
E, em outra ocasião, um ser humanizado desencarnado e infe-
liz, mas, sem dúvida, esclarecido, manifestou-se. Para cada colo-
cação que eu fazia, ele tinha sempre uma resposta na ponta de
sua língua e ele sempre dizia que o eu tinha os mesmos problemas
que ele. Por exemplo, se eu falasse sobre a importância de se livrar
do ódio, ele dizia que eu também tinha muito ódio em meu
coração. Se eu falasse algo sobre felicidade, ele respondia que eu
também não era feliz.
Aquele desencarnado parecia não compreender como alguém
que vivia os mesmos problemas poderia lhe ajudar. Mas parece
que algo mexeu com ele quando eu lhe disse que independen-
temente de estarmos encarnados ou não, estamos todos juntos
nesse processo de aprendizagem, trabalhando e buscando nosso
próprio aprimoramento espiritual, aprendendo a amar universal-
mente. Falei, também, que ele não estava apenas sendo ajudado,
mas também nos ajudando a entender e aceitar que devemos ser
felizes incondicionalmente, libertando-se do rancor e do ódio,
perdoando a todos etc. Essa minha colocação o deixou sensibilizado.
Mas calmo, pediu ao grupo que fizesse uma prece por ele.
Em outra reunião, um desencarnado manifestou-se pedindo
ajuda. Ele se dizia amarrado e que não conseguia se livrar das
cordas. Nesse momento, o médium que apenas recebia os men-
tores que conduziam o trabalho (seja para auxílio no esclare-
cimento dos desencarnados ou para trazer alguma informação para
a equipe de médiuns) incorporou um desencarnado com corpo
astral de mulher, possivelmente, que tinha sido a mãe biológica
do rapaz.
Ela agradeceu o grupo por estar ajudando-o e disse que espe-
rava ansiosamente por esse momento. Ela mesma, então, começou
a esclarecer o desencarnado. Disse-lhe que ele não estava
amarrado e que deveria desfazer aquela imagem para se libertar.
Falou que, pela forma como desencarnou (não ficamos sabendo
detalhes do que aconteceu), ele mantivera aquela impressão e
sofrimento em sua mente pelo tempo que Deus considerou neces-
sário e como forma de expiação. Mas que já era hora dele perceber
que não tinha mais o corpo físico.
182 Adilson Marques

Quando o que recebia o atendimento parecia estar rompendo


com o pensamento doentio que o prendia àquela situação, a que
ajudava pediu para fazer uma prece e foi embora junto com o rapaz.
Ambos os médiuns voltaram à consciência quase simultanea-
mente.
Outro atendimento também emocionante aconteceu quando
um desencarnado se manifestou através do médium identifi-
cando-se como André e dizendo que sentia muito frio nas mãos.
Quando eu as segurei, ele disse emocionado que conhecia aquelas
mãos, que conhecia quem estava segurando-as e que já tinha
estado naquela casa. Porém, disse ao grupo que no encontro
anterior não tinha conseguido compreender o que haviam falado
para ele, mas que recebeu o auxilio que necessitava.
Somente nessa segunda oportunidade é que tomou cons-
ciência de estar desencarnado e ter retomado a consciência de ser
um Espírito eterno. Começava a se lembrar de outras encarnações.
Mais tranquilo, agradeceu pela ajuda e solicitou uma prece,
afastando-se do médium.
Em outra ocasião, o grupo foi alertado pelos mentores que o
trabalho seria difícil. Naquela noite estaríamos diante de desen-
carnados que sofriam no mundo astral há séculos. Tratava-se de
seres humanizados que desencarnaram em guerras e que, por
causa do ódio que traziam em seus corações, não conseguiam ser
socorridos pelas entidades espirituais. Somente o tempo era capaz
de dissipar tanto ódio, permitindo a ajuda a esses desencarnados
presos fortemente ao ego. A energia do grupo e a conversa comigo
seriam importantes para ajudá-los, uma vez que nenhum deles
era capaz de ver ou ouvir os socorristas.
Não foi difícil notar que a maioria dos desencarnados que se
manifestaram naquela noite demonstrava muito orgulho. Poucos
assumiam a necessidade de ajuda e se portavam de forma arro-
gante diante de nossa tentativa de diálogo. Um deles, porém,
assim que se manifestou, disse que precisava de ajuda e que faria
tudo o que fosse recomendado para cessar seu sofrimento. Falei
para ele, em primeiro lugar, para se perdoar. Somente assim con-
seguiria ter a consciência tranquila e se preparar para uma nova
encarnação retificadora. Ele queria saber se Deus o havia perdoado
e eu disse a ele que Deus não precisa perdoar ninguém, pois Ele
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 183

apenas ama e nunca se ofende. Naquele momento era ele mesmo


quem precisava se perdoar.
Pedi que olhasse ao redor e ver os socorristas que estavam ao
seu lado querendo ajudá-lo, levando-o para um lugar tranquilo
onde receberia o tratamento que necessitava. Ele, então, disse
chorando que não merecia tanta ajuda e, angustiado, confessou
que havia cometido muita “maldade”. Usando os ensinamentos
espíritas e universalistas da Animagogia, tentei acalmá-lo dizendo
que apesar de não ter colocado amor em seus atos, no fundo ele
foi um instrumento inconsciente da justiça divina, já que nada
acontece sem a permissão de Deus.
Por alguma razão, os que foram vítimas da maldade dele
precisavam passar por aquelas situações, mas que isso não tirava
dele a responsabilidade. E o fato de ter a consciência de ter errado,
de ter feito maldade era importante e que agora precisava se
perdoar para conseguir prosseguir em seu processo metanoico.
Ele agradeceu a ajuda e foi levado após uma prece.
Outra reunião foi com desencarnados que, no meio espiritista,
são classificados como zombeteiros. Um deles, assim que se mani-
festou, começou a ironizar o corpo do médium que lhe dava
passagem. Mexeu as pernas e os braços e disse, com ironia: “Esse
corpo está meio enferrujado”. Em seguida, cruzou as pernas,
apoiou a mão sob o queixo e disse que não prejudicava ninguém,
por isso não sabia por que havia sido levado até ali. Contou que
gostava de se aproximar das pessoas e de se divertir com elas, mas
não prejudicava ninguém.
Eu perguntei se ele não gostaria de melhorar seu padrão
vibratório, reencarnando e procurando ajudar as pessoas. Ele
respondeu que se sentia feliz naquela situação e desejou ao grupo
sucesso no trabalho pedindo apenas que fizéssemos uma prece
antes de ele se retirar.
Encerrando aquela noite de trabalho manifestou-se um Espírito
bem singular. Ele parecia muito seguro de si. Disse que não precisava
de ajuda. Falou ainda que nada tinha para dizer naquela reunião e
que nada tinha contra o trabalho que ali se realizava. Ao ser pergun-
tado sobre o que gostava de fazer no plano espiritual, ele respondeu
que só tinha interesse por sexo. Contou de sua felicidade porque o
Carnaval estava se aproximando e que se “esbaldaria”.
184 Adilson Marques

Ao ser questionado se não gostaria de tentar sentir prazer


ajudando quem precisa, fazer uma prece e sentir toda a vibração
amorosa que ela irradia; ou sentir o prazer de brincar com uma
criança, em cultivar um jardim etc., ele respondeu que só queria
saber de sexo mesmo.
Perguntei se ele acreditava em reencarnação e ele nos res-
pondeu: “Tenho de acreditar, né!”. Quando o grupo se ofereceu
para lhe fazer uma prece, ele a rejeitou e foi embora, fazendo com
que o médium voltasse ao seu estado de vigília.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 185

CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Como apresentado ao longo deste livro, a primeira definição


de Animagogia que fizemos tinha um sentido mais restrito, iden-
tificando todo e qualquer processo de educação espiritualista com
desencarnados que acontece em centros espiritistas, de umbanda
ou universalista. Porém, desde 2009, ela passou a ter um sentido
mais amplo, identificando uma teoria ou uma cosmovisão sobre o
Homo spiritualis. E essa teoria quando instrumentaliza um trabalho
de educação espiritualista com um desencarnado tem como obje-
tivo auxilia-lo a recuperar sua consciência humanizada plena, ou
seja, como uma Individualidade liberta do ego que criou para mais
uma encarnação.
No sentido restrito, os chamados trabalhos de exorcismo não
podem ser chamados de Animagogia, uma vez que o objetivo
destes seria apenas o de “expulsar os demônios”. E, no sentido
mais amplo, o Espiritismo, doutrina codificada por Allan Kardec,
está presente na Animagogia, pois esta Psicosofia (sabedoria
espiritual) é uma das bases de sustentação do seu arcabouço
teórico, mas, ao mesmo tempo, a Animagogia pode ser realizada
através de técnicas que não são aceitas pelos kardecistas, como é
o caso, por exemplo, da Apometria.
Em suma, a Animagogia utiliza, sem dúvida, os ensinamentos
presentes em O livro dos Espíritos, pois eles são importantes para
se compreender a vida ativa após a morte e a relação que existe
entre o mundo espiritual e o material, conforme foi possível per-
ceber nas descrições dos casos apresentados neste livro.
Obviamente que não temos como provar empiricamente tais
ensinamentos e nem como provar que a mediunidade é realmente
o intercâmbio com um “morto” ou uma forma de “patologia men-
tal”. O que podemos garantir, com certa segurança, é que os
médiuns que acompanhamos ao longo de 20 anos não estavam
representando ou fingindo um contato com os desencarnados.
186 Adilson Marques

E como poderíamos provar empiricamente que antes de encar-


nar escolhemos um gênero de provas ou que só vamos morrer na
hora prevista? Todos os casos apresentados ao longo do livro
ocorreram em reuniões cujo objetivo era auxiliar no despertar de
seres humanizados desencarnados, ou seja, que já haviam desen-
carnado, mas que estavam ainda vinculados à energia mais densa
que forma o ego.
Obviamente que esta interpretação só faz sentido para os
universalistas que aceitam a prática do ecletismo criativo, ou seja,
que enxergam uma complementaridade entre diferentes Psico-
sofias. Aliás, o próprio Espírito Verdade, na questão 628, faz uma
recomendação neste sentido, ao dizer que não se deve negli-
genciar o estudo de nenhum sistema filosófico ou religião.
E é justamente o que acontece na ONG Círculo de São Francisco
e outras casas Universalistas que praticam a Animagogia com os
seres humanizados desencarnados. Estas casas procuram também
compreender a essência dos ensinamentos de Buda, de Krishna e
de tantos outros mestres espiritualistas para melhor ajudar encar-
nados e desencarnados. E como afirma na questão 628 o Espírito
Verdade: “não há para o estudioso, nenhum sistema filosófico
antigo, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, porque
tudo contém os germes de grandes verdades que, ainda que pa-
reçam contraditórias uma com as outras, esparsas que estão no
meio de acessórios sem fundamentos, são muito fáceis de
coordenar, graças à chave que nos dá o espiritismo para uma
multidão de coisas que puderam, até aqui, vos parecer sem razão,
e da qual, hoje, a realidade vos é demonstrada de maneira irrecu-
sável. Não negligencieis, portanto, de haurir objetos de estudos
nesses materiais; eles são muito ricos e podem contribuir podero-
samente para a vossa instrução”.
A Animagogia, assim, não desconsidera essa orientação do
Espírito Verdade e integra em sua prática a Psicosofia de Lao-Tsé,
de Krishna, de Buda, de Jesus e de tantos outros mestres que,
inspirados por Deus, intuíram verdades confirmadas posterior-
mente pelas revelações dos Espíritos, através do Espiritismo. E
como já foi salientado, a Animagogia é um processo educativo
voltado, exclusivamente, para a transformação interior, ou seja,
ajudar na metanoia de encarnados ou desencarnados.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 187

E seu estudo pode ser realizado a partir do referencial das


Ciências do Espírito que, ao estudar a relação entre o mundo
material e o espiritual, reconhece a contribuição de todas as
Psicosofias (sabedorias espirituais) ensinadas ao longo do tem-
po, nas mais diferentes tradições socioculturais. Sistematizando,
podemos dizer que a partir da experiência animagógica com os
seres humanizados desencarnados, alguns ensinamentos que
formam o Espiritismo, se tornam fundamentais neste processo:

Deus é a causa primária de todas as coisas (questão 01). A


inteligência é atributo do Espírito (questão 24). A matéria
resulta de uma única e mesma substância primitiva (questão
32). Todos os globos que circulam no espaço são habitados
(questão 55). O livre-arbítrio foi exercido antes da encar-
nação (questão 258). Os Espíritos superiores exercem uma
autoridade irresistível sobre os inferiores (questão 274).
Frequentemente são os Espíritos que dirigem nossos pensa-
mentos e ações (questão 459) e também os acontecimentos
da vida (questão 525). Um homem mau, com o auxílio de
um mau espírito não pode fazer o mal ao seu próximo
(questão 551). A verdadeira adoração é a do coração (ques-
tão 653). Deus julga a intenção e não os fatos (questão 747).
A fatalidade só existe em função do gênero de provas
escolhido pelo Espírito antes da encarnação (questão 851).
Ninguém morre antes da hora, não importa o perigo (ques-
tão 853). Caridade consiste em ser benevolente, indulgente
e perdoar (questão 886). É do egoísmo que deriva todo o
mal (questão 913).

E é importante salientar também a diferença que demons-


tramos existir entre o campo de atuação das Ciências do Espírito,
a disciplina que estamos propondo para estudar todas as formas
possíveis de manifestação do Espírito e o Espiritismo. Nesse
sentido, podemos dizer que: Romance espírita significa um tipo
de literatura produzida por Espíritos (desencarnados, seres
humanizados desencarnados) e que podem estar de acordo ou
não com os ensinamentos da Doutrina Espírita, porém, sempre
serão objetos de estudo das Ciências do Espírito. Operações
188 Adilson Marques

espíritas, como as praticadas por Dr. Fritz, através da mediunidade


de José Arigó, entre outros, são “fatos espíritas” (mediunidade),
mas podem e devem ser estudados pelo Cientista do Espírito.
As Ciências do Espírito não são produzidas dentro dos chama-
dos “centros espíritas”, uma vez que neles não são permitidos
alguns “fatos espíritas” como a Apometria e as giras de Umbanda.
Por isso, o que identificamos como Ciências do Espírito é uma área
do conhecimento que estuda, obviamente, todas as manifes-
tações mediúnicas que ocorrem em um centro espírita, mas tam-
bém as que ocorrem nos chamados terreiros de Umbanda e em
outros locais, pois seu objeto de estudo é a relação entre o mundo
material e o espiritual e a vida ativa após a morte.
Enfim, o Espiritismo é uma filosofia espiritualista que foi
sistematizada por Allan Kardec através das respostas que obteve
das entrevistas com o Espírito Verdade. Esse método de estudo
foi chamado por nós de Espiritologia, que é o uso da História oral
com os supostos Espíritos. Mas o importante é ressaltar que nem
todos os ensinamentos que formam essa doutrina filosófica podem
ser comprovados empiricamente, mas formam uma teoria racional
sobre o mundo espírita ou dos Espíritos.
Em todos os atendimentos aqui apresentados, apesar de nem
todas as práticas animagógicas serem aceitas pelo movimento
espiritista brasileiro, como é o caso da Apometria, ela demonstra
o valor de todos os ensinamentos que aparecem em O livro dos
Espíritos.
Em suma, a Animagogia valoriza todas as faces do espiri-
tualismo, mostrando que a consciência do ser humanizado pode
se libertar do ego através da união de todas essas forças comple-
mentares. E como foi possível demonstrar, o trabalho de orien-
tação e esclarecimento espiritual, chamado por nós de Animagogia,
consiste em propiciar inúmeras situações educativas e fraternas
para que o ser humanizado desencarnado, carente de informação
e amor, possa se conscientizar de sua nova realidade e prosseguir
em sua caminhada de despertar espiritual, preparando-se para
novas encarnações.
Para a realização do trabalho animagógico com os seres huma-
nizados desencarnados é necessária uma equipe de médiuns, no
mínimo três: um que “incorpora” Espíritos ou psicografa, outro que
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 189

fará vibração positiva por intermédio de preces, mantendo seu


pensamento elevado, e, por fim, o animagogo, aquele que conver-
sará com o Espírito que ali se encontra, algumas vezes contra sua
própria vontade, como já salientamos, usando, quando possível,
recursos como regressão de memória e outras técnicas próprias
da Apometria.
E essa prática seria necessária porque nem sempre a “espiri-
tualidade superior” consegue se fazer visível e audível para esse
ser desencarnado. Em razão da baixa frequência vibracional na qual
se encontra, apenas com a participação de encarnados é que esse
trabalho pode ser realizado. Os adeptos da Doutrina Espírita
chamam esse trabalho de Doutrinação. Mas esta expressão mani-
festa uma forte carga pejorativa, uma vez que aparece associada à
imposição de ideologias autoritárias, como o Fascismo, o Nazis-
mo e o Stalinismo.
E a Animagogia, por ser um processo educativo que visa ajudar
o Espírito humanizado a libertar-se do ego, seu objetivo não é, em
nenhuma hipótese, “doutrinar”. Poderíamos pensar essa questão
do ponto de vista arquetípico. O trabalho educativo aqui realizado
se manifesta como um dos atributos de Urano que, segundo a mito-
logia grega, seria um deus heróico, mas que não luta. Ao contrário
de seu neto Zeus, que enfrenta e destrói os inimigos, Urano busca
“laçá-los” e trazê-los para seu lado. Essa diferença arquetípica pode
ser encontrada quando se procura compreender as diferenças entre
esclarecer um Espírito e “exorcizar o demônio” ou “passar por uma
sessão de descarrego”, em uma igreja evangélica.
Não estamos dizendo que essas práticas estejam erradas.
Porém, dentro do ponto de vista animagógico, o ser humanizado
desencarnado que está assediando espiritualmente alguém não
é tratado como sendo o “próprio Mal” ou o “satanás”. E nem como
alguém que sempre foi e será um ser das “trevas”. Na Animagogia,
compreende-se que ele é também um Espírito passando por sua
fase humanizada e que precisa de esclarecimento. Na verdade,
reconquistar sua consciência que se encontra adormecida para
vivenciar mais um ego na Terra.
E quando se fala em esclarecer esse Espírito ainda humanizado,
entende-se que, naquele momento, por alguma razão específica,
ele encontra-se envolvido pelo ódio e, por esse motivo, age com
190 Adilson Marques

o desejo de vingança. Porém, sua essência não é má. Ele também


foi criado como imagem e semelhança de Deus.
Lembremos que nas filosofias orientais o ego não pertence ao
Espírito. O ego é um agregado que o Espírito necessita para
encarnar. Podemos afirmar, portanto, que tal Espírito humanizado
se encontra desorientado e que precisa de esclarecimento, ou seja,
passar por um processo de educação espiritual (Animagogia). Este
trabalho educativo de orientar um desencarnado, mesmo aquele
carregado de ódio e desejo de vingança, deve sempre partir da
noção de que nos encontramos diante de um ser que “errou”
(deixou de amar) e está colhendo o que plantou. Porém, mesmo
assim, não é um inimigo, e sim um “irmão espiritual” necessitado
de ajuda.
Em um trabalho de orientação e esclarecimento não se utilizam
as técnicas dramatizadas de “exorcismo” ou de afastamento de
“encostos”, pois não se trata aqui de lutar contra um “ser do mal”,
mas reconhecemos que se estes trabalhos medievais ainda acon-
tecem, é porque Deus ainda permite. Logo, ainda possuem alguma
importância.
Nem sempre, porém, as palavras afetuais do animagogo serão
suficientes para apaziguar a dor ou o ódio do desencarnado, sendo
necessário o uso de uma técnica que consiga ir mais fundo no
inconsciente, como é o caso da Apometria. Os mais atormentados,
os mais rudes, nem sempre conseguem ser auxiliados enquanto
não dispersam um pouco da mágoa e ódio. Para tanto, são usadas
as técnicas da TVI. A junção das duas técnicas costuma ajudar no
processo de despertar do Espírito humanizado e o consequente
perdão aos seus “algozes”.
E até no Evangelho segundo o espiritismo, livro de Allan Kardec,
podemos encontrar explicações para a ação da Apometria. Por
exemplo, a maior parte das críticas e condenações que os
kardecistas fazem a essa técnica pode ser facilmente respondidas
pela leitura do capítulo que trata da prece. E a Apometria, segundo
alguns supostos Espíritos, trabalha para Deus, sob a coordenação
de Maria, a fim de ajudar no esclarecimento dos Espíritos e não
para fazer proselitismo religioso. E nada acontece por acaso. Tudo
está harmoniosamente acontecendo como deveria acontecer. Vale
para a Apometria o mesmo argumento que Kardec usava para os
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 191

céticos ou para os católicos que criticavam o espiritismo, no século


XIX: “A natureza não dá saltos”. Por isso, cada coisa só acontece no
momento certo. Ontem, o kardecismo era a “vítima” das outras
religiões; hoje, é o principal “algoz” da Apometria. Mas devemos
julgar ou condenar alguém? Se é tão difícil para um kardecista
aceitar que um bote pode ser plasmado no Astral pela
espiritualidade, através da energia liberada pelo grupo
apométrico, a fim de resgatar um suposto Espírito iludido para
algum hospital ou centro de recuperação, é melhor deixar de ser
espiritista. Para demonstrar como tal resgate é possível, usaremos
a informação presente em o Evangelho segundo o espiritismo, no
capítulo sobre o poder da prece, que começa com uma citação de
Marcos:

“Seja o que for que peçais na prece, crede que o obtereis, e


vos será concedido” (11; 24).

Se o capítulo começa com uma afirmação tão enfática do poder


da prece, porque não acreditar que é possível plasmar um bote
para socorrer um suposto Espírito que acredita estar se afogando?
Se a crítica viesse de um católico ou de um evangélico que não
acredita na vida após a morte, daria até para entender. Mas,
quando um kardecista acostumado a ler livros que apresentam a
complexidade da vida espiritual e o trabalho da espiritualidade,
com o apoio do ectoplasma dos médiuns, para resgatar alguns
irmãos desencarnados diz que isso não é possível e que é apenas
fantasia ou “animismo”, podemos constatar que tal crítico ignora
o poder da ação mental na Psicosfera ou plano astral, pois, quando
um Espírito tem merecimento para ser resgatado do sofrimento
mental que vivencia, o que a equipe apométrica faz, em suma, é
apenas uma prece e se a espiritualidade socorrida consegue atuar
naquela cena mental, segundo as descrições dos médiuns videntes
ou desdobrados naquele momento, é porque houve a permissão
divina para acontecer.
O Evangelho segundo o espiritismo, no mesmo capítulo, afir-
ma que a prece é uma invocação. Ao fazê-la, o homem entra em
comunicação, pelo pensamento, com o ser ao qual se dirige; pode
ser para pedir, para agradecer ou para glorificar. Ou seja, o caso
192 Adilson Marques

acima não contradiz nada do que o Espiritismo ensina. E o mesmo


capítulo se desenrola afirmando que “podemos pedir pelos vivos
ou pelos mortos”. Ou seja, se o grupo pediu com fé para que um
bote fosse enviado para um suposto Espírito que acreditava estar
se afogando, não percebendo que estava desencarnado, e tal
pedido foi concedido por Deus, não dá para entender o que tanto
incomoda os kardecistas.
E no item 10, desse mesmo capítulo, encontramos uma passagem
ainda mais esclarecedora: “(para compreender a ação da prece) é
preciso imaginar todos os seres encarnados e desencarnados
mergulhados no fluido universal que ocupa todo o espaço, tal qual
nos achamos envolvidos pela atmosfera aqui na Terra. Esse fluido
recebe um impulso da nossa vontade e ele é o veículo do pensamento
como o ar é o veículo do som”. Essa explicação sintetiza o poder da
mente e da prece (um pedido feito com fé e amor) e esclarece que as
formas do mundo material ou do astral são ilusórias. A única realidade
é que estamos mergulhados no fluido universal, um campo energético
informe que pode ser modelado de infinitas formas pelo poder da
mente. E na mesma passagem lemos: “As vibrações do fluido universal
se estendem ao infinito. Portanto, quando o pensamento é dirigido
a um ser qualquer na Terra ou no espaço, uma corrente de fluidos se
estabelece entre um e outro, transmitindo o pensamento entre eles
como o ar transmite o som”.
E como fica os pulsos energéticos enviados com o estalar de
dedos? A explicação para esse recurso também está no Evangelho
segundo o espiritismo: “A intensidade dessa corrente de fluidos
será forte ou fraca de acordo com a força do pensamento e da
vontade de quem ora”. A contagem de pulsos serve apenas para
agregar intensidade e força de vontade à corrente fluídica. Utiliza-
se tal contagem como um recurso. Uma casa kardecista cujos
dirigentes se sentem incomodados com essa técnica pode aboli-
la sem problema. Ele apenas facilita, e muito, a concentração da
equipe e aumenta a intensidade da energia enviada para plasmar
algum objeto ou destruir outros (cordas que enforcam, facas ou
outros objetos que se encontram plasmados no corpo astral do
Espírito humanizado).
Na ONG Círculo de São Francisco, até porque muitos médiuns
vieram de formação católica, usamos muito o poder de preces
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 193

como “O pai nosso” e a “Ave Maria”, mentalizando cores ou formas


como cachoeiras, flores etc. Em suma, a Apometria não entra em
contradição com os ensinamentos do Espírito Verdade. Porém, a
Apometria é tão dinâmica que pode ser adaptada para ser prati-
cada em qualquer cenário espiritualista. Um grupo de Apometria
não-kardecista pode, para agregar fluidos e aumentar sua inten-
sidade, pedir auxilio aos “elementais”, evocar a “chama violeta”
ou utilizar um “ponto cantado de Ogum” etc.
Enfim, tudo dependerá do grupo que estiver utilizando a técni-
ca, pois ela não está relacionada com nenhuma doutrina religiosa.
Da mesma forma que cada casa kardecista desenvolve sua forma
de “dar passe”, cada grupo espiritualista que utiliza a Apometria
encontrará a melhor maneira de trabalhar com ela. A Apometria
vai se adaptando a cada grupo, pois ela é apenas uma técnica de
desdobramento induzido dos médiuns com o objetivo de auxiliar
nos atendimentos espirituais de encarnados e desencarnados.
E por que dissemos que os ensinamentos espirituais de Krishna
são importantes também na Animagogia? Porque nos ensina que
nada que aconteceu, acontece ou acontecerá em nossa vida huma-
nizada é “real”. É uma “ilusão” que nosso ego está programado para
perceber, sentir e racionalizar. Essencialmente, a Terra é como um
dos milhões de “programas de computador” que geram provas para
os Espíritos humanizados (o Eu superior). A água, a terra, o fogo, a
carne, toda e qualquer matéria deriva de um único elemento: o
fluido cósmico universal. E nada disso afeta o Espírito. O que é
afetada é a consciência do Espírito humanizado, iludido pelo ego,
o programa que o faz acreditar que é homem, mulher, branco,
preto, pai, filho, médico, professor, advogado, rico, pobre, brasi-
leiro, japonês etc. e que sofre quando seu ego é ferido. A nossa
casa, o nosso corpo, o nosso dinheiro, o nosso carro etc. deriva da
mesma energia universal e só existe em função do nosso ego,
programado para acreditar que tudo isso existe, criando sensações,
percepções e racionalizações. E quem ainda se apega a essa ilusão
sofrerá muito quando o “jogo virtual” chamado “Juízo Final” entrar
em seus capítulos mais dramáticos, nos quais as catástrofes naturais
ou provocadas pelo ser humanizado encarnado (atuando como
instrumento inconsciente da justiça divina) aumentarem em
intensidade e quantidade.
194 Adilson Marques

Como o Espírito humanizado encarnado foi programado para


buscar a felicidade condicionada a esses valores ilusórios, ou seja,
quando “conquista” os objetos materiais ou pessoas que deseja,
sente prazer e acha que é feliz; tende a sofrer quando os perde,
sente-se abandonado por Deus. O ego, porém, é um mau patrão,
alerta Krishna, mas é um ótimo servidor. Ou seja, temos de
aprender a nos servir do ego para nos libertar, não nos submetendo
a seus desejos e vontades. Mas o ego é cheio de artimanhas.
Quando acreditamos que nos libertamos dele, é aí que mais nos
encontramos presos e amarrados a ele.
Por exemplo, quando ele nos diz: apenas o Espiritismo salva, e
acreditamos nisso por estarmos espíritas, não nos libertamos da
ilusão por ele criada; quando ele nos diz: apenas a meditação e o
yoga nos conectam com Deus, e acreditamos nele, se gostamos
de meditação e de yoga, não nos libertamos de seu jugo; quando
ele nos diz: apenas a ciência conhece a verdade, e acreditamos
em suas palavras, estamos completamente subordinados às suas
verdades. Em todos esses casos, criamos o “certo” e o “errado” e
passamos a julgar e a condenar as opiniões diferentes das nossas.
Ou seja, continuamos presos, e bem algemados, aos desejos e às
verdades criadas pelo ego.
Em outras palavras, podemos dizer que estamos prestes a nos
libertar do ego quando conseguimos amar a Deus acima de todas
as coisas e somos benevolentes, indulgentes e perdoamos a todos,
principalmente os inimigos (aqueles que fazem ou falam o que
não gostamos). Agindo como descrito acima, não conseguiremos
matar o ego, o que é impossível, mas ficará mais fácil não se iludir
quando ele tentar insuflar nosso orgulho ou nos deixar sentindo
culpa ou com remorso de alguma coisa feita ou falada. E como
ensina a Baghavad Gita:

“Ninguém pode existir um só momento sem agir; a própria


natureza o compele a agir, mesmo sem querer; pensar tam-
bém é agir, no mundo mental. (...) Mas aquele que, pelo
poder do espírito, alcançou perfeito domínio sobre seus
sentidos e realiza todos os atos externos, ficando inter-
namente desapegado deles – esse homem possui sabedoria.
(...)”.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 195

“Sejam as tuas atividades atos de adoração!(...) A fonte dos


atos é Brahman (Deus), o Uno que enche o Universo, e está
presente em todos os atos.”

A Animagogia, nesse contexto, é um caminho (criado pelo ego,


obviamente) para auxiliar na tomada de consciência espiritual do
ser humanizado encarnado ou desencarnado que participa desse
épico contemporâneo cheio de “tragédias” e “sofrimentos”. Ela o
ajuda a se esclarecer, a se tornar um bodhicitta, ou seja, um Espírito
sem ilusões. Este, sabendo que estar pobre ou rico, homem ou
mulher, católico ou espírita etc. são ilusões criadas pelo ego, inter-
pretará o seu papel sem se preocupar com os frutos do mesmo, e
viverá de forma “apática” (sem sofrimento) suas provações, pro-
curando, apenas, ser benevolente e indulgente e pronto para
perdoar a tudo e a todos, vivendo para servir ao próximo e para
amar a Deus acima de todas as coisas.
Em outras palavras, vivendo com Deus, para Deus e em Deus,
desinteressadamente. E como já foi salientado, a Animagogia não
possui vínculos com nenhuma religião, mas se fundamenta nos
ensinamentos universalistas de Buda, de Krishna, de Jesus, do
Espírito de Verdade e de tantos outros mestres, sem se constituir
em uma nova seita. E uma de suas mais importantes ferramentas
é a Apometria. Uma ferramenta sublime de auxílio espiritual, no
qual a mediunidade é exercida com consciência e com benevo-
lência. Mas também é instrumento de prova para o Espírito huma-
nizado que a utiliza, pois pode entender que ela é obra de Deus e
é Sua vontade que sempre predominará, ou agirá motivado pela
ego-complacência, sentindo-se orgulhoso e cheio de vaidade
quando resgata um Espírito humanizado de sua ilusão.
A Apometria é, modernamente, um conjunto de técnicas e
procedimentos psíquicos desenvolvidos, fundamentados cientifi-
camente e instrumentalizados operacionalmente pela perso-
nalidade vivida por um Espírito humanizado que recebeu o nome
de Dr. José Lacerda de Azevedo (1919-1997) em sua roupagem
terrestre. Tal personagem exerceu em sua última encarnação/
humanização a profissão de médico, formando-se em Medicina
pela Universidade do Rio Grande do Sul (URGS). E a Apometria,
segundo o Dr. Lacerda, não é uma ciência, muito menos uma
196 Adilson Marques

filosofia ou uma religião. Trata-se apenas de um poderoso instru-


mento psíquico capaz, quando Deus assim o desejar, de auxiliar
no tratamento de inúmeras patologias, cujo tratamento médico
tradicional quase sempre se mostra ineficaz. Por se tratar de um
conjunto de técnicas, a Apometria vem sendo praticada e apri-
morada em casas espiritistas, umbandistas, esotéricas, e por
grupos independentes.
Aqui apresentamos uma visão animagógica de atendimento
espiritual utilizando-se da Apometria como recurso terapêutico.
A Apometria parte do fenômeno anímico conhecido como
“desdobramento espiritual”, induzido através da contagem
pausada e progressiva de pulsos energéticos, acompanhados por
forte intenção mental. Este procedimento, diferentemente da
hipnose, foi (re)descoberto pelo farmacêutico-bioquímico Luis
J. Rodrigues, nascido em Porto Rico e estudioso do psiquismo
humano, na segunda metade do século XX. A “projeção astral”
obtida dessa maneira não necessita das sugestões e sugestio-
nabilidade do hipnotismo, levando a pessoa, sensitiva ou não, a
realizar um desdobramento consciente, sendo possível conduzi-
la para qualquer lugar da Terra, como também para o passado e
para o futuro.
A intenção do Sr. Rodrigues era a de instrumentalizar os mé-
dicos e a medicina com técnicas psíquicas, pois o bom médico, em
sua opinião, deveria cuidar do corpo e da alma. Porém, ainda hoje,
sua contribuição, como também a do Dr. Lacerda, não encontra eco
no meio acadêmico, para o qual a vida ainda se resume ao corpo
físico e se extingue com a falência e decomposição deste. Mas isso
não é motivo para lamentação. Apenas não chegou o momento. A
natureza (inclusive a humana) não dá saltos. E como disse o Espírito
Verdade para Kardec na questão 529 de O Livro dos espíritos: “O
que Deus quer, deve ser; se há atraso ou obstáculo, é por sua
vontade”. Para aceitar a Apometria, a medicina acadêmica
precisaria compreender que existe um complexo físico-biológico-
psíquico-espiritual no ser humanizado e, além disso, a influência
das reencarnações na etiologia de muitas enfermidades. Temos
certeza de que esse fato acontecerá, inexoravelmente, em futuro
breve. Enquanto isso, a Apometria continuará sendo enquadrada
no campo das chamadas “terapias alternativas”.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 197

Na Apometria não se prescreve nenhum medicamento, seja


alopático, homeopático ou floral. Na ONG Círculo de São Francisco
ela é utilizada junto com os recursos bioenergéticos da TVI,
focando apenas na força mental da equipe mediúnica para irradiar
energia, criar campos de força magnéticos, fazer regressões de
memória etc. A Apometria, como dissemos, é um conjunto de
técnicas e apesar de também estar presa ao ego, pode ser uma
forma de servir-se dele e não para se escravizar a ele. Assim, o
poder da mente e a mediunidade convivem harmoniosamente na
prática apométrica.
198 Adilson Marques

ANEXOS

ANEXO 1
VOCÊ ESTÁ PREPARADO PARA MORRRER?

Durante todo o livro fizemos menção aos ensinamentos da


entidade espiritual que se manifesta com o nome Pai Joaquim de
Aruanda. Este, desde 1999, faz palestras públicas através do mé-
dium Firmino José Leite. Apesar de muito criticado por vários
espiritistas, seus ensinamentos não diferem daqueles transmi-
tidos pelo Espírito Verdade para Kardec. E suas várias palestras
podem ser acessadas na internet, na forma de arquivos de áudio
ou de textos (transcrições das palestras).
Para quem deseja compreender um pouco de sua Psicosofia,
resolvemos colocar como anexo neste livro o texto “Você está
preparado para morrer?”, que foi uma de suas palestras públicas e
transcrita pelo próprio médium.

VOCÊ ESTÁ PREPARADO PARA MORRER?


Hoje vamos partir de uma parábola ensinada pelo Cristo:
As dez moças (Mateus capítulo 25). 25-1 Jesus disse: — Naquele
dia o Reino do Céu será como dez moças que pegaram as suas
lamparinas e saíram para se encontrar com o noivo. 25-2 Cinco eram
sem juízo, e cinco ajuizadas. 25-3 As moças sem juízo pegaram as
suas lamparinas, mas não arranjaram óleo de reserva. 25-4 As
outras levaram vasilhas com óleo para as suas lamparinas. 25-5 O
noivo estava demorando e, então, a cochilar, pegaram no sono.
25-6 — À meia-noite se ouviu este grito: “O noivo está chegando!
Venham se encontrar com ele!” 25-7 — Então as dez moças acor-
daram e acenderam as suas lamparinas. 25-8 - Aí as moças sem juízo
disseram às outras: “Dêem um pouco de óleo para nós, pois as
nossas lamparinas estão se apagando.” 25-9 — “De jeito nenhum”,
responderam as moças ajuizadas. “O óleo que nós temos não dá
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 199

para vocês e para nós. Se querem óleo, vão comprar!” 25-10 — Então
as moças sem juízo saíram para comprar óleo, e, enquanto estavam
fora, o noivo chegou. As cinco moças que estavam com as lam-
parinas prontas entraram com ele para a festa do casamento, e a
porta foi trancada. 25-11 — Mais tarde as outras chegaram e
começaram a gritar: “Senhor, senhor, nos deixe entrar!” 25-12 —
O noivo respondeu: “Eu não sei quem são vocês!”. 25-13 — E Jesus
terminou, dizendo: — Portanto, fiquem vigiando porque vocês não
sabem qual será o dia nem a hora.
Grande parábola! Vamos entender primeiro os elementos dela
para depois falarmos sobre o assunto de hoje. Na Bíblia, Cristo é
codificado como o noivo da humanidade dos Espíritos que habitam
o planeta Terra. Assim, cada ser humano é uma noiva do Cristo, é
uma noiva que está se preparando para o casamento com o Cristo.
Esse é o primeiro aspecto dessa historinha. E as noivas ficam na
escuridão esperando o noivo, não os noivos! Ele é o Cristo, o amor, e
para essa vigília é preciso ter Luz. Algumas têm a Luz e outras não. Estas
não conseguem se unir ao noivo, não conseguem entrar no recinto
do casamento, ou seja, no reino espiritual. Ou seja, os Espíritos que
estão vivendo no orbe terrestre um dia casarão com o Cristo; alcan-
çarão a elevação espiritual. Mas, enquanto esperam por esse momen-
to, os Espíritos precisam se manter preparados para o encontro,
porque não sabem qual será o dia e a hora que irão casar com o Cristo,
ou seja, o dia e à hora em que voltarão para o mundo espiritual. Em
outras palavras: o dia e a hora em que vocês vão morrer!
Esse é o tema da palestra de hoje e a pergunta que eu quero
fazer para vocês é a seguinte: você está preparado para morrer?
Será que você está pronto para abandonar a encarnação, para
abandonar a roda da encarnação e ir viver no mundo espiritual?
Essa é a minha pergunta e o tema da conversa de hoje, que será
realizada a partir da parábola das dez moças esperando o
casamento. Será que você esta pronto para morrer? Será que dá
para sair da carne nesse exato momento e ter Luz suficiente para
ingressar no recinto do casamento?
Pergunta de um participante – Sócrates dizia que a Filosofia
era uma preparação para a morte. Seria algo semelhante ao
conhecimento espiritual? A Filosofia como um instrumento de
transformação da consciência?
200 Adilson Marques

Resposta – Sim. A transformação da consciência é a preparação


para a morte. Nós vamos falar sobre isso com muita calma, pois
estar preparado para a morte é saber: você tem a consciência
necessária para desligar-se da Terra. Por quê?
Só para começar o assunto, morrer nada mais é do que isso:
desligar-se da Terra, das coisas mundanas. Morrer não é nada
diferente disso. Quem morre apenas se desliga das coisas mun-
danas. É isso que eu quero falar hoje. Então a transformação da
consciência através da Filosofia, da Espiritologia, do Espiritismo,
da Psicologia, do Cristianismo é o caminho para preparar-se para a
morte.
Pergunta de um participante – E o que a gente faz depois da
morte?
Resposta – Depende. Se você gosta de conviver com a sua
família, vai ser isso que você vai fazer depois que morrer. Você vai
ficar preso aqui junto aos seus familiares. Se você gosta do monte
do Tibet, você vai morrer e vai ficar preso lá. Preste atenção! A
morte não é algo físico, mas é uma transformação de consciência.
Será que você esta vivendo para morrer, porque esse é o ponto
fundamental. Você vai morrer um dia e a encarnação, a sua
existência, é um preparatório para a morte. Não há mais nada a se
fazer na vida a não ser se preparar para voltar ao reino do céu, para
voltar ao mundo espiritual. É isso que precisa ficar bem claro,
porque tudo que você faz durante a vida carnal não é real, não
existe. Tudo vale por um determinado tempo e só vale para você.
Então a vida humana é relativa, não é absoluta. E alguma coisa para
ser Real tem que ser absoluta. Por isso nada do que você faz
durante a vida interessa. Ou seja, se você estuda, se você casa, se
você tem filho, se você planta uma árvore... Nada disso interessa.
Agora, vai interessar se ao vivenciar essas coisas você está, ao
mesmo tempo, se preparando para morrer. Ou seja, você vive hoje
com a consciência de que vai morrer? Você vive hoje com a
consciência de que a família que você tanto presa vai acabar na
morte? Você vive hoje com a consciência de que o prazer que você
busca tão enfaticamente não terá nenhum valor depois da morte?
Você vive hoje com a consciência que vai morrer quando torce pelo
seu time de futebol e que ele vai continuar existindo e não você? A
cada momento da sua vida, você vive com a consciência de que ele
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 201

pode ser o último? Você vive com a consciência de estar preparado


a esse retorno a pátria espiritual ou você só vai se lembrar disso no
momento da morte? Ou será que você só vai se lembrar que tem
que voltar a viver como espírito depois do desencarne?
Essas são as primeiras perguntas que eu faço porque, como eu
disse, nós estamos lendo a Bíblia para trazer o ensinamento do
Cristo para a nossa vida. E trazer o ensinamento do Cristo é dizer:
você é uma das cinco noivas que tem o querosene de reserva para
esperar o noivo ou você é uma das cinco noivas que vai esperar a
hora do noivo chegar para saber que esta sem luz?
Pergunta de um participante – E se eu não for preso a nada, o
que vou fazer depois da morte?
Resposta – Se você não for preso a nada material, depois da
morte você vai viver o espiritual. Agora se você for preso ao ma-
terial, você vai morrer e vai continuar aqui, sem corpo, mas preso
às coisas materiais. Um casamento ou uma faculdade, por
exemplo, podem durar anos. Já o tempo de uma viagem, horas, e
o de um jogo de futebol, minutos. Enfim, todos os acontecimentos
da vida têm uma extensão de tempo, menos um: a morte. A morte
não dura meses, anos, minutos, horas. A morte acontece em uma
micro-fração de tempo. No momento você está vivo e no outro
você está morto. Essa é outra consciência que você precisa ter!
Você não pode e não deve contar com a perspectiva de entrar num
processo de morte porque não existe tal processo. A morte
acontece subitamente.
Você pode achar que vai sentir a morte chegando e que poderá
correr para se preparar, mas isso é ilusão! Mesmo os doentes que
estão em fase terminal ainda acham que vão viver dias, semanas
ou meses e a morte não tem essa característica. Ela é igual ao
machado que desce de uma vez só. Então, não dá para esperar,
não dá para deixar para se preparar para a morte em outro
momento. Durante o casamento você pode até relaxar porque se
hoje você fizer uma besteira terá tempo para se recompor. Durante
a escola você pode relaxar porque se fizer uma besteira você terá
tempo para mudar o que fez. Agora, na morte, não há volta. Não
há como refazer a não ser em outra existência. Na morte, não há
como dizer: “eu fiz errado, da licença, eu vou começar tudo de
novo”.
202 Adilson Marques

Viver é se preparar para morrer e a morte vai acontecer de


súbito. Por isso é preciso que você esteja atento e vigilante como
Cristo ensina: atento e vigilante. Mas você vive, completamente,
ao contrário. A cada dia, a cada hora, a cada minuto você programa
mais coisas para fazer na Terra como se fosse eterno, imortal. Age
como se o momento da morte pertencesse a todos, menos a você.
Não se pode viver a vida desse jeito. Quem vive a vida desse jeito
não consegue libertar-se da Terra, não consegue casar com o Cristo,
não consegue sair do ciclo das encarnações. É preciso que a cada
minuto, a cada problema você diga: e se esse for meu último
minuto, estarei pronto para morrer agora? Estarei pronto para
abandonar isso agora?
Pergunta de um participante – Sabemos de alguma forma quan-
do iremos morrer? Temos essa consciência?
Resposta – Racionalmente, não. O Espírito sabe quando, pois
isso lhe é revelado antes da encarnação. Esta informação foi res-
pondida pelo Espírito Verdade em O livro dos Espíritos, mas,
racionalmente, não sabe. Então vamos começar a conversar sobre
essa preparação para estar pronto para, a qualquer momento,
libertar-se do mundo material.
Pergunta de um participante – Em um centro espírita, minha
mãe recebeu uma mensagem dizendo que meu avô já estava
esperando por ela e foi uma semana antes dela morrer.
Resposta – O Espírito pode ter uma noção, mas não sabe o dia
ou a hora. O Cristo diz assim: “o dia e a hora vai chegar, isso é certo;
mas só Deus sabe quando será o dia e a hora”. Por isso, nós po-
demos ter uma noção e receber uma ordem de Deus para falar,
mas não sabemos o dia e hora precisa.
Pergunta de um participante – Alguém consegue saber que
desencarnou logo após a morte?
Resposta – Perceba! Você fala em saber que desencarnou e isso
é um processo racional. E todo processo racional é ego. Então, o
ego pode criar para você a informação que você desencarnou, mas
isso vai acontecer quando você merecer. Somente quando você,
por merecimento, tiver a condição de receber essa informação,
Deus vai permitir que você tenha essa informação. Porém, 99,9
por cento dos que desencarnam não sabem de imediato. Eu
costumo sempre dizer que o próprio Arjuna, que era o seguidor
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 203

fiel de Krishna, teve que passar pelo Umbral, pelo menos por um
minuto. Agora eu vou começar a conversa de hoje.
Como é que eu me liberto da Terra? Quando é que eu vou estar
apto a me libertar da Terra? Quando eu passar a viver o presente!
Ou seja, passe a viver o que você tem hoje e não o futuro. O futuro
não existe e quem projeta ou cria futuros está preso à Terra, está
gerando tempo para estar na Terra ou, pelo menos, uma previsão
de tempo para estar. Se você está pensando no que vai fazer
amanhã, você não está pronto para morrer. Porque você não sabe
se vai estar vivo amanhã. E se você desencarnar essa noite? Se isso
acontecer, você vai querer viver o amanhã que você projetou e
não vai conseguir se desligar do mundo material, do mundo que
você projetou para ter amanhã. A vida foi feita não para viver
amanhãs, e é por isso que a vida é completamente instável. Hoje
você sai à rua e não sabe se volta para casa.
E mesmo tendo a consciência dessa instabilidade, você projeta
futuros como se fosse normal sair de casa e voltar. Mas você não
sabe se voltará. É essa consciência que é a preparação para a morte.
Eu estou saindo de casa; vou voltar? Não sei. Não sei se vou voltar,
não sei o que vai acontecer na rua, não sei o que poderá se suceder.
Quando eu voltar, eu verei se voltei. Se preparar para a morte é
isso: viver o que você esta vivendo neste momento sem se
preocupar com mais nada, sem projetar mais nada. Mas você vive
sempre preparando o dia de amanhã, mesmo dizendo: o dia de
amanhã pertence a Deus. Quem vive projetando-se para o futuro
não está preparado para morrer. Enquanto você disser: hoje de
noite, amanhã de manhã, na semana que vem, no mês que vem,
no ano que vem eu vou fazer isso e aquilo..., saiba que você deixou
de se preparar para a morte e, quando ela vier, você vai estar
comprando óleo para a sua lamparina e não vai casar com o Cristo,
não vai entrar no recinto do casamento.
Pergunta de um participante – Para se desligar da matéria,
devemos fazer uma evolução na consciência... É possível morrer e
só depois fazer essa evolução na consciência, nos desprendendo
da matéria?
Resposta – Não é pode, vai. Se você não se desprender na carne,
você vai se desprender depois dela, porque ninguém pode assumir
uma nova encarnação enquanto estiver preso a uma anterior. Ou
204 Adilson Marques

seja, enquanto você achar que é o João, você vai estar preso a essa
encarnação e para você vir como Maria, Josefina ou qualquer outro
nome, você terá que se libertar do João. Porém, se você se liberta
durante a ligação com uma matéria carnal, isso conta pontos para
a sua elevação espiritual. Depois que você sai da carne, tal
libertação não conta mais pontos para a evolução. O Espírito
Verdade diz: “a evolução só se dá no mundo material, fora dele
existem os intervalos entre encarnações para o espírito se preparar
para uma nova encarnação”. Por isso, o libertar-se do João após a
morte será parte do preparatório para uma nova encarnação e não
uma elevação espiritual.
Então vamos continuar. Outra coisa que te prende a matéria
carnal são os desejos carnais. E não estou falando em sexo não.
Estou falando em desejar estar vivo, em desejar ganhar um
presente, em desejar ganhar na loteria, em desejar saúde para
você, em desejar que a sua mulher ou o seu marido trate você bem.
Qualquer desejo baseado em elementos materiais te prende ao
mundo material. Você fica na dependência daquilo acontecer para
ser feliz. Quem se prepara para a morte não cria raízes na Terra,
não se fixa na Terra, por isso ele não deseja nada da Terra. Ele não
deseja nem um prato de comida, nem uma casa para morar, nem
um carinho de quem quer que seja. Ele é autossuficiente, tendo
Deus no seu coração. Esse é outro aspecto do preparatório para a
morte. Quem está com a sua lamparina acessa, com o seu
querosene em ordem no momento em que o noivo chega, não tem
desejo algum. Se tivesse, a única coisa que ele desejaria é que o
noivo chegasse antes. E sabe por quê? Porque a noiva que quer
que o noivo chegue logo, valoriza o casamento, valoriza
positivamente o casamento, ou seja, a morte.
A morte, para quem está preparado para ela, é um momento
de felicidade, é um momento de ternura, é um momento de
realização. Mas o ego induz o Espírito a acreditar que deve
permanecer vivo e que viver é bom e morrer é ruim. É por isso que
você cria desejo em cima de desejo e, pior que isso, nenhum desejo
realizado te satisfaz. Repare bem nisso! Você deseja uma coisa e,
no momento que consegue o que deseja, pode ter alguns
momentos de satisfação, mas logo vem o ego e cria um novo
desejo. Para quê? Para te manter preso, para te manter enraizado
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 205

na Terra e distraído com a chegada do noivo. Por isso, quem quer


casar com o Cristo vive atento e esperando, ansiosamente, a che-
gada do noivo. Não estou falando em se matar. Estou falando em
viver para morrer, em transformar a morte no coroamento de uma
ação espiritual chamada encarnação.
O seu ego não deixa você se lembrar que é um Espírito encar-
nado. Ele diz que você é um ser humano. Ele diz que você é um
elemento da Terra. Mas você é um Espírito. E para que a sua
lamparina esteja acessa e você não tenha que voltar para buscar
mais querosene é preciso não viver o futuro, não programar futuro,
não esperar futuro e também não acreditar em desejos, sonhos,
planejamentos, esperança... Você diz que sonhar não custa nada,
mas custa muito caro. Custa perder a hora do casamento. É isso
que custa sonhar, programar, viver a ilusão. Você não está errado
se continuar vivendo assim, mas se quer casar com o Cristo precisa
reformar-se. Essa reforma é a elevação espiritual, é a reforma da
consciência, não sendo mais um ser humano e sim um Espírito na
carne. O Espírito na carne é aquele que tem a consciência de que
é um Espírito eterno. E esta consciência leva à morte do ser
humano. Esse é o significado do último segredo de Fátima: O fim
da raça humana. O fim da existência de Espíritos que se acreditem
como humanos. Assim será a transformação da Terra, deixando de
ser um planeta de provas e expiações para se tornar de
regeneração. Mas tem outra coisa que te liberta da Terra. É não ter
paixões, não ser apaixonado positiva ou negativamente por nada
desse mundo. Não achar nada certo e nem errado, bom ou mal.
Não ter prazer ou desprazer com alguma coisa. Porque só tem
prazer com alguma coisa quem é apaixonado por algo... Não desejar
ter fama ou ter medo da infâmia, pois aquele que se acha famoso
é porque é apaixonado por alguma coisa... Não querer elogios e
nem ter medo da crítica, porque quem quer ter elogios está preso
à Terra, espera conhecimento, espera que o outro o reconheça,
nem que seja como ser humano, nem que seja como amigo.
Quem nutre paixões terrestres capazes de gerar o bem e o mal,
o prazer e a dor, a fama ou a infâmia, o elogio ou a critica... Está
fincado na Terra e não tem como sair disso, pois toda a sua vida
depende dessas paixões. Quem passa o dia inteiro julgando o certo
e o errado, que aquilo deveria ser feito de outra forma, que aquilo
206 Adilson Marques

não poderia estar acontecendo, ou mesmo dizendo gostei disso,


não gostei daquilo... Vai se enraizando, se enraizando, se
enraizando... São dessas paixões que surge o desejo: “eu gosto
daquilo”, “eu quero que aquilo aconteça” e olha você preso à
condicionalidade, à dualidade que só existe no planeta Terra.
Quem se prepara para morrer luta contra essas paixões, não se
deixa levar pelas paixões que o ego cria. Não acha nada bonito ou
feio, não acha nada certo ou errado. Se preparar para morrer é abrir
mão das paixões humanas, é abrir mão daquilo que você gosta,
daquilo que você quer e abrir mão também de não gostar de nada
ou de não querer alguma coisa. É soltar todas as amarras que te
prende ao mundo carnal. Quem não se solta, quem só acha bonito
o que esta fazendo, vive preso ao desejo, vive amarrado à Terra. É
por isso que usei essa parábola. Ela é perfeita! Será que você está
preparado para morrer? Será que você não tem nada para fazer
amanhã para poder morrer hoje em paz? Será que você não tem
nenhum desejo pendente que te impeça de morrer hoje em paz?
Será que você não tem alguma paixão que te impeça de morrer
hoje em paz?
Se você tiver o que fazer amanhã, se estiver esperando alguma
coisa para amanhã ou se tiver algo que você não é capaz de abrir
mão, sinto muito: você não está preparado para o casamento e não
vai conseguir entrar no ambiente do casamento.
Pergunta de um participante – Ok! Desligo-me de tudo, nada
sei, nada desejo, nada possuo... Eu consigo viver assim, mas como
ficam os compromissos assumidos com a família? E os filhos?
Resposta – Que compromisso você assumiu com a sua família e
filhos? De representar determinado papel para que o ego dos
filhos e da família crie determinadas provas para eles? Esses atos
vão acontecer. Deus não vai deixar de dar a cada um o que necessita
e merece. Agora, internamente, você tem que estar desligado de
tudo. Eu não falei em se desligar externamente. Eu falei em você
se desligar de desejos, de paixões, de planejamentos, e não de
atos. Eu falei de você não desejar um carro novo, mas não falei em
não ter um carro novo. Eu não falei em você não ter uma casa nova,
mas eu falei em você não ser apaixonado pela casa que tem.
Porque você se preocupa com o que vai comer amanhã? Se é Deus
que dá comida aos bichos, será que não vai dar a você? Cristo não
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 207

falou que você não deve comer, disse que você não deve se
preocupar e essa preocupação é uma paixão. Você é apaixonado
pela ideia de que tem que dar o alimento para os seus. Se você
acredita nisso, não está pronto para morrer. Sabe o que vai
acontecer, se você morrer agora? Vai dizer assim: “e agora, meu
Deus, minha mulher e meus filhos, como vão ficar?” Ou seja, você
vai voltar para trás e vai perder o noivo.
Comentário de um participante – Eu acho que as variações do
mundo são boas porque provém de Deus. Não importa se somos
tristes ou alegres, mas saber que tudo é passageiro e curtir cada
momento sempre esperar o próximo ou comparar ao anterior.
Resposta – Então o bom não é a variação do mundo. O bom é o
estado de espírito com o qual você vive a variação do mundo. É isso
que eu chamo de Bem: tudo aquilo que provêm de Deus. E o Bem
não é bom e nem mal, é apenas Bem. É essa a diferença! Agora, se
você achar a tristeza boa você será masoquista. A tristeza não é boa
é Bem porque o bom é aquilo que você gosta e o Bem é aquilo que
não importa se você gosta ou se você não gosta, mas como vem de
Deus é fruto do amor do Pai por mim. Por isso, além do planejamento
do futuro, dos desejos, das paixões... Você precisa se desligar das
posses. São elas que criam as paixões e os desejos. Deixe o mundo
enterrar os mortos e venha comigo. Você já cumpre a Lei, então
abandone todas as suas posses e me siga! Não foram essas as pala-
vras do Cristo? Só que, quando se fala em possuir, vocês pensam
logo em objetos, em posse material, em posse das coisas. Você
precisa se libertar delas, é claro. Você precisa se libertar do seu carro,
da sua casa, do seu emprego se quiser morrer em paz. Caso contrário,
vai morrer preocupado com o que seu filho vai fazer com a herança
que você deixar; vai morrer preocupado com o que seu filho ou a
sua mulher vai fazer com a casa que você deixar... Mas você precisa
libertar-se de outras posses também. Além da posse material, você
precisa se libertar da posse sentimental: o meu filho, a minha
mulher, o meu amigo, o meu inimigo... O “meu” é uma posse, o
“meu” quando dirigido a outro ser humano é uma posse
sentimental. Se você não se libertar desse “meu filho”, não está
pronto para morrer, para se encontrar com o Cristo.
Se você estiver preocupado com o filho, vai ficar aqui querendo
tomar conta do filho; se você não se liberta da sua esposa, você
208 Adilson Marques

vai morrer e vai querer ficar aqui tomando conta dela e se você
não se libertar do seu inimigo, vai morrer e virar obsessor, pois
estará preso a matéria carnal para se vingar. Para se estar preparado
para a morte, é necessário que você se liberte dos sentimentos
que te levam a possuir o próximo. E a terceira posse que você
precisa se libertar é a moral: o “eu sei”. “Eu sei” o que vai acontecer
depois da morte; “eu sei” como é o mundo espiritual... Quem diz
isso não está preparado para morrer porque o seu ego não te deixa
saber o que acontece deste lado da vida. O seu ego não tem ele-
mentos para isso. Por isso, preparar-se para a morte não é buscar
cultura; é libertar-se das culturas. Aprender a morrer não é adquirir
novas verdades que sejam mais ou menos espiritualizadas, mas é
alcançar o “eu não sei nada”. Porque só quando você não souber
de nada, poderá aprender algo.
O Cristo disse: “louvado seja Deus que mostra ao simples,
aquele que não sabe nada o que esconde dos sábios”. Não que
Deus queira esconder alguma coisa de alguém, mas porque Ele não
pode chegar a um sábio e ensinar porque o sábio “sabe”. Depois
de me ouvir falar que você não deve programar futuro, que não
deve prender-se a desejos, que não deve apaixonar-se por nada
nesse mundo, que não deve possuir as coisas desse mundo, seja
materiais, pessoas ou culturas, será que você está preparado para
morrer? Mas até agora eu falei de elementos do mundo. Você tem
que doar o que você quer, você tem que doar o que você é
apaixonado, você tem que doar o que você possui. Mas agora eu
vou falar que você tem que doar você. Ou seja, libertar-se de você.
A última coisa que você precisa fazer para se preparar para morrer
é deixar de ser quem você é.
Você tem que deixar de ser o José, a Maria, o Pedro... Enquanto
você for José, Maria, Pedro... Estará preso na Terra porque o José,
a Maria e o Pedro são da Terra e não Espíritos. Quem não se liberta
do ego não se prepara para voltar a ser só um Espírito. E sabe o que
acontece quando você se liberta do ego? Acaba o egoísmo, o
querer para si... Todos os que se identificam com uma persona-
lidade são egoístas. É dele que surge a paixão, o desejo, o esperar
o amanhã... Então, você tem que vir descendo, libertando-se do
planejamento, do futuro, do desejo, das paixões, das posses, mas
tudo isso você só conseguirá quando se libertar do José, da Maria,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 209

do Pedro... É por isso que eu deixei esta parte para o final, porque
esse final é o início. E sabe por quê?
Porque o José, a Maria e o Pedro vão morrer. O José que você é
hoje, essa personalidade transitória, vai morrer e quem se apega
ao José prolonga a existência do José e um dia vai ficar sem saber
o que fazer. Por que o José morreu! O José acabou e agora meu
Deus? O José morreu, como é que eu faço? Como é que eu vivo se
o José está morto? Cadê a minha masculinidade, a minha femi-
nilidade, cadê ao meu corpo bonito ou feio? Esse é o ponto
fundamental da vida. Quem não se prepara para morrer não viveu,
quem não se prepara para morrer perdeu a encarnação. Portanto,
seja vigilante com o seu ego. Não o deixe planejar futuros, criar
desejos, paixões, posses e uma personalidade. Você não sabe a
hora do casamento. Não deixe para se preocupar com isso no
momento da morte porque ela dá tempo para você se preocupar
com ela. Para morrer, basta estar vivo. Morrer sem ser para se casar
com o Cristo não vale de nada. Simplesmente será mais uma
encarnação e você terá que viver outras até chegar o dia em que
essa noiva prometida terá que se casar com o Cristo. Então, para
que ficar adiando o casamento? Quem adia o casamento com o
Cristo esta simplesmente jogando o tempo fora, perdendo oportu-
nidades de criar uma grande família, de viver uma relação que
satisfaz por si só.
Se você quer um conselho: passe a acordar de manhã e se veja
se está preparado para morrer. E se você trabalha na apometria,
na umbanda, no centro espírita, na igreja católica, na igreja evan-
gélica ou no raio que o parta, e não ajudar o próximo a se preparar
para morrer, você não fez nada. Essa é a única ajuda que você pode
dar a alguém que está vivo, no sentido de estar ligado ao ego, preso
à matéria. Você precisa o ensinar a morrer, estando ele vivo
(encarnado) ou morto (desencarnado). É isso que este preto-velho
faz e é isso que o pastor, o padre e você devem fazer: ensinar a
morrer, ensinar a estar preparadíssimo para o casamento com o
Cristo.
Que a graça de Deus esteja com todos.
210 Adilson Marques

ANEXO 2 – ARTIGOS DIVERSOS

Vamos reproduzir alguns dos artigos publicados em revistas,


jornais ou sites na internet sobre Apometria. São artigos escritos
que divulgam o trabalho realizado na ONG Círculo de São Francisco,
na cidade de São Carlos.

Artigo 1 – ONG realiza atendimentos de Apometria gratuitamente


em São Carlos
Na segunda metade do século XX ampliou-se o vínculo entre
ciência e espiritualidade. Alguns cientistas já consideram, após os
avanços das pesquisas quânticas, a possibilidade de existir um
universo transcendente e até um Criador para o Universo. No Brasil,
um estudioso do assunto foi o médico gaúcho Dr. José Lacerda de
Azevedo (1919-1997). Formado em medicina, pela Universidade do
Rio Grande do Sul, este pesquisador criou a técnica por ele deno-
minada “apometria”. Aprofundando os estudos sobre hipnose e
técnicas de tratamentos espirituais, criou a Apometria, uma técnica
revolucionária para o tratamento de diferentes distúrbios emo-
cionais ou enfermidades que a medicina acadêmica não é capaz de
encontrar a causa. A técnica consiste em realizar o desacoplamento
dos corpos sutis do paciente (corpo físico, duplo etéreo, corpo astral,
mental etc.), sem que o mesmo entre em transe, como na hipnose.
Com o desacoplamento, alguns sensitivos conseguem observar e
diagnosticar problemas nesses corpos sutis e realizar o tratamento,
através, sobretudo, do envio de bionergia ou, quando a causa da
enfermidade está no passado, utilizando técnicas de regressão de
memória. Em alguns casos, faz-se necessária a comunicação com
seres desencarnados, como nos tratamentos realizados nos centros
espíritas. Em suma, a Apometria consegue sintetizar em um único
trabalho diferentes técnicas de auxilio e tratamento espiritual.
Citaremos três casos para exemplificar:

1. sexo masculino, casado, 4 filhos. Sofria havia várias semanas


de angústia e depressão sem causa conhecida. Com o desa-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 211

coplamento dos corpos sutis, foi possível notar pelos médiuns


uma faixa de energia de cor vermelha envolvendo seu corpo
astral. Tratava-se da energia de ódio e rancor emitida por um
antigo desafeto do consulente. Uma sensitiva do grupo apo-
métrico sintonizou-se com este ser desencarnado que se mani-
festou dizendo ter sido irmão do consulente em outra encar-
nação e não o perdoava por este o ter roubado. Ele queria que o
ex-irmão pedisse perdão. Após o perdão sincero do consulente
e o envio de energia através da imposição das mãos para o
desmanche daquele laço vermelho, o consulente não voltou a
manifestar traços de angústia e depressão.

2. sexo feminino, casada, 2 filhos. Sente que é uma pessoa “desor-


ganizada”. Isso a incomoda muito e gera conflitos familiares. Com
o desacoplamento dos corpos sutis, nada foi verificado de anormal.
Fez-se, então, uma regressão de memória para sua vida anterior.
A própria consulente se viu como uma freira, na Alemanha, na
época da I Guerra Mundial. Percebeu que era muito metódica,
autoritária e punitiva. Intuiu que sua falta de organização na vida
atual era um reflexo negativo da vivência anterior. Ela tinha medo
de ser como antes. Com o “trauma” resolvido, sentiu-se mais
tranquila e preparada para trilhar o “caminho do meio”, evitando
os extremos comportamentais.

3. sexo masculino, casado, 2 filhos. Reclamava de muita dor de


cabeça. Vários médicos diziam que era enxaqueca e que não tinha
cura. Com o desacoplamento dos corpos sutis, uma sensitiva notou
uma faca atravessada em seu corpo astral. A faca havia sido colo-
cada por um antigo desafeto. Com o envio de energia, a faca (que
não era de matéria física, mas de matéria astral) foi desma-
terializada e a dor de cabeça curada.
O Dr. Lacerda, criador da técnica, em seu livro “Espírito/ matéria:
novos horizontes para a medicina”, esclarece-nos o funciona-
mento da Apometria utilizando as referências da física contempo-
rânea e os conhecimentos milenares sobre os corpos sutis pre-
sentes nas filosofias orientais. Através de inúmeros cálculos
matemáticos procurou comprovar como a nossa capacidade mental
é poderosa fonte de cura para diversas enfermidades, do corpo e
212 Adilson Marques

da alma, além de esclarecer a possibilidade de solucionar traumas


do passado e até como evitar problemas no futuro.

Artigo 2 – Apometria é como o budismo


A Apometria, técnica de desobsessão e auxilio espiritual criado
pelo Dr. Lacerda se assemelha à filosofia budista, ou seja, ela pode
ser adaptada para todo e qualquer ambiente sociocultural. Essa
flexibilidade própria do pensamento pós-moderno é o que a torna
uma das técnicas de valorização do Espírito mais paradoxal e efi-
ciente. Paradoxal porque através dela é possível realizar resgates
coletivos de uma forma muito simples, criando cenários mentais
através da energia (ectoplasma) liberada pelos participantes,
favorecendo o socorro de irmãos desencarnados presos a deter-
minadas formas pensamentos, criadas após o desencarne. A Apo-
metria é apenas uma técnica e, se usada em uma casa espiritualista
de orientação kardecista, será adaptada a essa doutrina. Por outro
lado, se for usada em uma casa umbandista poderá utilizar os
recursos dos pontos cantados, entre outros. E assim sucessi-
vamente em outros espaços espiritualistas. Em suma, não importa
a situação; a boa-vontade e o desejo de servir ao próximo com
amor e respeito é que vai fazer a técnica se tornar cada vez mais
eficiente.
Alguns espiritualistas não gostam de enviar energia estalando
os dedos. Mas o próprio Lacerda disse que isso não é impres-
cindível. A contagem de pulsos facilita a concentração da equipe
que está doando energia, porém, os agrupamentos espiritualistas
onde a equipe de trabalho possui grande capacidade de concen-
tração mental, outras técnicas podem ser utilizadas. O importante
é a irradiação amorosa de energia para auxiliar tanto nossos irmãos
encarnados como desencarnados.

Artigo 3 – TVI e Apometria: uma parceria de sucesso


Atendemos, certa vez, uma paciente com fortes dores na
garganta. Achamos que seria alguma infecção e que somente a TVI
poderia não ser suficiente. Pedi a ela que procurasse um médico
também. Porém, após a sessão de TVI, com a presença de uma
médium vidente na ONG, levantamos a hipótese de abrir a fre-
quência da paciente através da Apometria. Assim que demos inicio
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 213

ao trabalho, a médium captou uma encarnação da paciente em


Roma, na Antiguidade. Naquela encarnação, por motivos que não
ficaram claros, ela desencarnou enforcada. A médium não con-
seguiu captar se foi suicídio ou se o marido teria sido o mandante
do ato. Em seguida, a médium captou outra encarnação da consu-
lente, dessa vez, em uma aldeia indígena.
A pessoa que havia sido o marido da paciente em Roma, agora,
na encarnação com índia, seria o seu pai. E este a forçou a viver um
casamento arranjado, sem amor. Possivelmente, pela Lei de ação
e reação, esse casamento teria relação com o enforcamento e a
encarnação em Roma. E isso parece ter ficado evidente quando a
médium perguntou a consulente se ela tinha um irmão na atual
encarnação. Com a resposta afirmativa, a médium lhe disse que o
seu irmão atual teria sido o marido e o pai, nas respectivas encar-
nações descritas acima. Com essa revelação e outros detalhes
narrados pela médium vidente foi possível perceber que uma
contrariedade que a consulente teve com o irmão foi o suficiente
para que houvesse uma ressonância vibratória com a encarnação
em Roma, quando desencarnou por enforcamento. Tal ressonância
gerou a dor de garganta e o endurecimento do pescoço.
Trazendo o fato à consciência da consulente e com a energia da
TVI, a garganta e o pescoço voltaram ao normal no dia seguinte.

Artigo 4 – O moderno e o pós-moderno na mediunidade: das mesas


girantes às palestras online com seres incorpóreos
As manifestações mediúnicas estão registradas em todos os
lugares e épocas da história humana. O uso da comunicação mediú-
nica para fins escusos e materialistas foi alvo de censura, quando
Moisés decidiu “proibir” a comunicação com os mortos. Porém,
nos tempos modernos, temos relatos de filósofos famosos como
Goethe ou de cientistas como Hahnemann, criador da Homeopatia,
que também se comunicavam com os espíritos através da “psico-
fonia” e da “psicografia”, nomes que Allan Kardec criou no século
XIX para classificar, respectivamente, o que o senso comum chama
de “incorporação” e o ato de receber mensagens por escrito de
seres incorpóreos. Não podemos esquecer também da sensacional
vidência e paranormalidade de Swedenborg, cientista do século
XVIII, cujo famoso livro Arcana celestia foi alvo de grosseira crítica
214 Adilson Marques

do filósofo Emmanuel Kant, em 1766, no livro “sonhos de um


vidente explicados por sonhos da metafísica”, no qual reconheceu
a existência do mundo dos Espíritos, mas classificou o contato
entre o mundo espiritual e o material como patológico.
Apesar de todos estes acontecimentos, a mediunidade, nome
também criado por Allan Kardec, passou a ser alvo de pesquisas
mais rigorosas no século XIX, com o surgimento das famosas “mesas
girantes”.
Esse entretenimento pequeno burguês, comum nos salões
europeus do século XIX, foi alvo de sérias investigações do peda-
gogo Hippolyte Leon D. Rivail, mais conhecido por seu pseudônimo
Allan Kardec, levando-o a conclusão de que tais atos eram reali-
zados por consciências incorpóreas, afastando todas as possi-
bilidades de charlatanismo. A partir dos estudos das mesas gi-
rantes e outras manifestações mediúnicas, esse pesquisador
francês escreveu três obras significativas: O Livro dos Espíritos, no
qual 1018 perguntas foram formuladas aos supostos Espíritos,
abordando diferentes assuntos de interesse da humanidade; O
Livro dos Médiuns, um verdadeiro tratado científico sobre a mediu-
nidade, e O Evangelho segundo o Espiritismo, no qual o novo
testamento é interpretada pelos supostos Espíritos.
Em nenhuma de suas obras, porém, Allan Kardec define o espiri-
tismo como religião, mas como uma ciência positiva cujo objetivo
era estudar as manifestações dos Espíritos e as relações entre o
mundo espiritual e o material. No Brasil, o nome espiritismo foi
utilizado para identificar um movimento religioso e seus adeptos
costumam afirmar que o “espiritismo não é mais uma religião, mas
a religião”, conforme palavras dos ex-presidentes da Federação
Espírita Brasileira, o senhor Guillon Ribeiro e o senhor Francisco
Thiesen.
Mas o século XX não trouxe somente mudanças paradigmáticas
no âmbito da epistemologia, renovando a ciência, a filosofia ou o
campo da tecnologia aplicada e das artes; o campo das manifes-
tações mediúnicas também se ampliou e se renovou considera-
velmente. São os sinais da pós-modernidade. Em linhas gerais,
podemos dizer que a modernidade se caracteriza por ser o projeto
do Iluminismo. Trata-se, portanto, de um movimento eurocêntrico
e cientificista. Apesar de sua tendência ao ateísmo, culminando
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 215

no positivismo e no evolucionismo do século XIX, a ambição ilumi-


nista de dominar e racionalizar o mundo está presente inclusive
na obra de Kardec, que não ficou imune a tais pensamentos euro-
cêntricos. Mas o projeto iluminista começou a desmoronar com
os avanços da termodinâmica e da mecânica quântica, cujos re-
flexos logo se manifestaram na arquitetura e na arte do século XX,
mais universalistas e menos eurocêntricas.
E como afirmou certa vez o músico baiano Caetano Veloso: “o
Brasil foi o último país a entrar na modernidade, mas foi o primeiro
a entrar na pós-modernidade”. E um dos marcos dessa pós-moder-
nidade brasileira foi a origem mediúnica da Umbanda, na primeira
década do século XX, quando, dentro da Federação Espírita de
Niterói, o médium Zélio Fernandino de Moraes “incorporou” um
espírito que se identificava como “caboclo Sete encruzilhadas”.
O suposto espírito anunciava a criação de um credo religioso
medianímico no qual as entidades manifestantes usavam as formas
simbólicas de índios (simbolizando a força de caráter), de pretos-
velhos (simbolizando a sabedoria) e de crianças (simbolizando a
felicidade incondicional). Assim, entrava em cena novos perso-
nagens espirituais além dos famosos médicos, filósofos, literatos e
padres; entidades mais conhecidas nas manifestações mediúnicas
dos centros espiritistas e também nos livros de Allan Kardec. A
umbanda revelada pelos espíritos através do médium Zélio de
Moraes ficou conhecida como “espiritismo de umbanda”, talvez para
não ser confundida com a prática umbandista que já existia no Brasil
e que consistia na realização de trabalhos de magia negra, utilizando
o sacrifício de animais etc. O “espiritismo de umbanda” foi revelado
com o objetivo de ser uma religião cristã, voltada para a prática da
caridade. No I Congresso de espiritismo de Umbanda, realizado no
Brasil, em 1941, deliberou-se que:
1. o espiritismo de umbanda é uma das maiores correntes do
pensamento humano existente na terra há mais de cem séculos,
cuja raiz provém das antigas religiões e filosofias da Índia, fonte
de inspiração de todas as demais doutrinas filosóficas do Ocidente.
2. umbanda é palavra sânscrita, cuja significação em nosso
idioma pode ser dada por qualquer dos seguintes conceitos: Prin-
cípio Divino, Luz Irradiante, Fonte permanente de Vida, Evolução
Constante. A receptividade às filosofias milenares do Oriente é
216 Adilson Marques

outra característica da pós-modernidade, e, no campo mediúnico,


isso se manifestou através do contato com os espíritos “orientais”.
Tanto no meio kardecista, mas, principalmente, no umbandístico,
as chamadas “correntes orientais” foram se firmando e se tornando
cada vez mais conhecidas. No âmbito da literatura psicografada,
destacou-se um suposto espírito hindu-chinês que se identifica
como Ramatís.
Este suposto espírito afirma, em diversos livros, ter sido, em
uma de suas encarnações, Pitágoras, o filósofo de Samos. No Brasil,
o primeiro médium a escrever sob a inspiração desse suposto
espírito foi Hercílio Maes, falecido em 1993. Atualmente, vários
médiuns dizem psicografar mensagens e livros desse espírito. Mas
a presença da espiritualidade oriental nas manifestações mediú-
nicas pós-modernas se fez mais evidente na origem e crescimento
de uma técnica de tratamento espiritual denominada Apometria.
O nome foi criado pelo médico brasileiro Dr. José Lacerda de
Azevedo (1919-1997), mas a técnica parece ser também multi-
milenar, conhecida por grupos iniciáticos e esotéricos. O mérito
de Lacerda parece estar em sua capacidade de reunir de forma
eclética e criativa as contribuições do espiritismo de Allan Kardec
com as contribuições mentalistas das filosofias orientais e também
da Teosofia.
Essa modalidade de tratamento espiritual que consiste em
induzir os médiuns e pacientes ao desdobramento de seus corpos
sutis, diagnosticando e tratando diversas enfermidades através da
concentração mental e do envio de energia, com o auxilio de
supostos espíritos que se manifestam mediunicamente, vem ao
encontro das mais hodiernas hipóteses levantadas pela Física
quântica. É o retorno ao ponto de partida de Allan Kardec, aproxi-
mando a ciência da espiritualidade, sem vínculos religiosos ou pr-
oselitismo. Porém, como falar em pós-modernidade sem falar em
comunicação instantânea, em internet? E aqui também a mediu-
nidade se manifesta. Há vários anos um suposto espírito que se
denomina como Pai Joaquim de Aruanda, um preto-velho, realiza
palestras online pela internet, através do sistema PalTalk.
As palestras costumam ser acompanhadas por pessoas residentes
em várias partes da Terra, e abordam diferentes temas espiritualistas:
dos estudos clássicos da Índia ao Livro dos Espíritos, passando pelos
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 217

ensinamentos de Buda, de Jesus etc. Até o momento, o médium


Firmino José Leite, que incorpora o suposto Espírito, tem um acervo
com mais de 500 horas de gravações. Algumas das palestras estão
disponíveis na internet, no site: http://www.meeu.com.br. Outras
gravações foram transcritas e disponibilizadas em várias listas de
discussão e sites. Em março de 2006 foi publicado pela ONG Círculo de
São Francisco, localizada na cidade de São Carlos, um livreto intitulado
“a oração de São Francisco interpretada por Pai Joaquim de Aruanda”,
com a transcrição integral de uma de suas palestras.
Em suma, a pós-modernidade já se constrói não só como um
plano de novas ideias filosóficas, científicas e culturais, mas como
um cenário onde, a cada dia, se torna mais factual a crença na
imortalidade da alma, na reencarnação e na comunicação natural
com os seres incorpóreos.

Artigo 5 – TVI + apometria


Este artigo pretende relatar o uso da TVI em atendimentos
apométricos. Com o decorrer dos atendimentos realizados na ONG
Círculo de São Francisco, na cidade de São Carlos/SP, fomos intuídos
para além do envio de energia através da contagem de pulso ou
de preces, visualizar também cores. Sabemos que a Apometria não
faz milagre e nem altera o livrearbítrio, e que, os consulentes,
encarnados ou não, são socorridos pela espiritualidade quando
possuem merecimento para isso. Tendo isso em mente, e a humil-
dade de reconhecer que a participação da equipe apométrica está,
basicamente, na doação de bioenergia, temos notado que o uso
da cromoterapia nos atendimentos facilita o socorro. A seguir
apresentamos a correlação entre a cor mentalizada o tipo de
problema enfrentado no atendimento:
a. Espíritos revoltados ou com muito ódio: envio de cor rosa para o
coração (chacra cardíaco). Em alguns casos, enviamos energia
através de uma “Ave Maria!”.
b. Adormecer espíritos ou criar um “manto” de proteção no pa-
ciente após a consulta: envio de cor azul, envolvendo todo o seu
organismo.
c. Pacientes fracos ou em convalescença: envio de energia na cor
laranja para revigorar o organismo. A energia pode ser direcionada
para todo o seu corpo ou para os chakras umbilical e plexo solar.
218 Adilson Marques

d. Enviar espíritos para atendimentos nos hospitais do astral:


envolvê-los em uma bola de energia branca e dar o comando para
que sejam conduzidos para tratamento.
e. Limpeza de ambientes ou de energias enfermiças, fruto da
indução espiritual, pseudo-obsessão ou obsessão: envio de ener-
gia na cor lilás.
f. Energização de ambientes ou do paciente após a consulta: envio
de energia na cor dourada. Todo o trabalho é realizado através da
mentalização de cores claras e brilhantes.

Artigo 6 – O movimento espiritual pós-Kardec


O espiritismo, rigorosamente, é formado pelos ensinamentos
sistematizados por Allan Kardec. Outras informações surgidas após
Kardec, podem ser complementares, concorrenciais ou antagô-
nicas aos ensinamentos acima. Para os espiritistas mais ortodoxos
tudo o que aconteceu após Kardec não tem valor, nem mesmo o
trabalho realizado por Chico Xavier. Para outros, a obra deste mé-
dium brasileiro seria complementar ao trabalho de Kardec. Porém,
os dois grupos acima compartilham o mesmo pensamento, que a
obra de outros médiuns não seria espiritismo, como por exemplo,
os livros psicografados do suposto Espírito Ramatis e tantos outros.
Nesse sentido, faz-se mister a criação de uma ciência capaz de
estudar todos os conhecimentos espiritualistas transmitidos pelos
supostos Espíritos. E esta forma de estudar a mediunidade contem-
porânea nós estamos chamando de Ciências do Espírito, desde
2003.
As Ciências do Espírito estudam os ensinamentos dos Espíritos,
que podem ser tanto os sistematizados por Kardec como por outros
pesquisadores e/ou médiuns. O “espiritólogo”, como cientista, não
toma partido, não briga por verdades; ele apenas estuda. Assim,
procura correlacionar os temas e abordagens que são comple-
mentares ou que são antagônicos entre os ensinamentos trans-
mitidos pelos espíritos, mas sem tomar posição dogmática ou
doutrinária. Esse papel cabe aos religiosos e não aos cientistas. O
“espiritólogo”, nesse caso, deve ser alguém capaz de transcender
os limites do Espiritismo, no sentido kardecista, obviamente.
Assim, necessita ter a mente aberta para estudar sem pré-con-
ceitos o inefável mundo dos espíritos, estudando, inclusive, o que
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 219

estes têm a dizer sobre a Apometria, sobre o Reiki, sobre a


Baghavad Gita, sobre a Psicologia Transpessoal, sobre os Chakras,
sobre os Orixás, sobre a Magia Negra, sobre a Transcomunicação
Instrumental etc.
Ou seja, uma série de ensinamentos não sistematizados por
Allan Kardec e que muitos espiritistas chamam de “elementos
estranhos ao espiritismo”. Assim, apesar destes temas não inte-
ressarem ao movimento espírita, podem interessar a humanidade
do século XXI e por isso precisam ser estudados. Em suma, o
“espiritólogo” não precisa ser, necessariamente, espiritista; aliás,
não ser pode até ser uma vantagem. Porém, o espiritista que
deseja ser um “espiritólogo” deve estar preparado para separar a
ciência do proselitismo, do doutrinismo. Por exemplo, recen-
temente, em um programa “espírita”, em uma rádio de São Carlos,
atacou-se de forma velada a Umbanda pelo fato de alguns um-
bandistas acreditarem que os Orixás são espíritos criados puros e
que não encarnam, quando, há anos, supostos espíritos como
Ramatís, Vovó Maria Conga e Pai Joaquim de Aruanda afirmam, em
livros e palestras que orixás não são espíritos, mas identificação de
padrões de energia. Para eles, Orixás são nomes para definir ondas
eletromagnéticas com determinadas velocidades e amplitudes.
Ficou evidente, para o ouvinte atento do programa, o interesse
em rebaixar a Umbanda, mostrá-la como “inferior” ao Espiritismo,
ao invés de apresentar um estudo aprofundado sobre o tema. Mas
isso aconteceu porque se tratava de um programa “espírita”, preo-
cupado, obviamente, com proselitismo e doutrinação. O mesmo
deve acontecer com os programas de rádio e de TV das igrejas
evangélicas ou católicas. Critica-se, veladamente, a igreja rival para
atrair mais adeptos e se colocar como a única e verdadeira religião.
E é justamente o que as Ciências do Espírito não devem fazer. O
objetivo dela é o de estudar, com espírito isento de pré-conceitos,
os ensinamentos dos supostos espíritos e se libertar de toda e
qualquer forma de doutrinação religiosa. De seus estudos e codi-
ficações podem até surgir novas filosofias, novos “ismos”, mas,
nesse caso, já saiu de seu campo de atuação que é pesquisar e
sistematizar os ensinamentos dos supostos espíritos, de forma
imparcial e neutra, como fizemos, no livro “História oral, Imagi-
nário e Transcendentalismo: mitocrítica dos ensinamentos do
220 Adilson Marques

espírito pai Joaquim de Aruanda”. Da mesma forma, a Apometria,


a Transcomunicação Instrumental e qualquer outro tema espiri-
tualista, mesmo que não sejam do interesse do espiritista, devem
ser estudados sem pré-conceitos pelas Ciências do Espírito, uma
ciência aberta para o estudo de todas as possíveis manifestações
dos espíritos e seus ensinamentos. Para esta ciência não existe
tema “não-doutrinário”.

Artigo 7 – A Apometria segundo Pai Joaquim de Aruanda


Em recente palestra na cidade de Rio das Pedras, interior do
estado de São Paulo, em um evento chamado “espiritologia: a
ciência do espírito”, Pai Joaquim de Aruanda, o personagem de um
suposto espírito que utiliza a postura Preto-velho em trabalhos
mediúnicos, através de Firmino José Leite, manifestou sua opinião
sobre a Apometria, técnica sistematizada pelo médico espírita Dr.
José Lacerda de Azevedo (1919-1997). Apresentarei, nesse artigo,
um resumo do que o espírito falou naquela manhã de domingo.
Primeiramente, o espírito não entendia o porquê de tanta
celeuma para justificar que a Apometria não é espiritismo. Porém,
e aqui é o meu ponto de vista, não conheço nenhum apômetra
preocupado com essa questão. Normalmente, o que se lê e ouve
por aí, são “espiritistas” afirmando que a Apometria não é uma
“técnica espírita”, e que a mesma não deve ser praticada em
“centros espíritas”. Os apômetras ou quem estuda e usa essa técni-
ca de desobsessão, não costumam se preocupar se a Apometria
será realizada em uma casa espiritista, umbandista, esotérica ou
onde quer que seja. Parece que a paranóia em não aceitar a Apo-
metria como “espírita” ou não, parte daqueles que se autode-
nominam “espiritistas”. Como técnica anímico-mediúnica, a Apo-
metria não se vincula com nenhuma doutrina religiosa. Porém,
talvez o espírito Pai Joaquim de Aruanda entenda a palavra “es-
pírita” como aparece nos livros de Allan Kardec, e não no sentido
que os “kardecistas” criaram, uma vez que, ao falar em “fatos
espíritas” ou em “mundo espírita”, Kardec se referia sempre às
manifestações dos supostos espíritos. Nesse sentido, a Apometria
é um “fato espírita”, no sentido kardequiano, já que espíritos
“superiores” ou “inferiores” se manifestam durante o trabalho,
seja para auxiliar, seja para ser auxiliado. Outro ponto ressaltado
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 221

pelo espírito em sua palestra foi sobre a idolatria que algumas


pessoas manifestam em relação à Apometria.
Segundo Pai Joaquim de Aruanda sempre quem cura é Deus e
a Apometria é apenas mais um dos instrumentos que Ele utiliza
para libertar aqueles espíritos, encarnados ou não, que já possuem
merecimento para isso. Logo, quem traz os pacientes é Deus e
quem cura é Deus. E os apômetras? Estes, além de instrumentos,
estão passando por uma prova: vão acreditar no ego que lhes diz
que são os apômetras quem curam, quem colocam pernas nos
espíritos, plasmam botes no astral para salvar aqueles que acre-
ditam que estão se afogando, desmancham “magia negra” etc., ou
vão aceitar que nada acontece sem que Deus permita e que a
Apometria é mais um dos instrumentos criados para provação do
espírito humanizado, mais uma ilusão para se vencer o ego?
Assim, como é a vontade de Deus que vai prevalecer, na opinião
de pai Joaquim de Aruanda, seria ilusão acreditar que a Apometria
interfere no carma de alguém ou que se não existisse a Apometria
aquele espírito não seria curado ou resgatado. Assim, na visão
dele, ninguém será “prejudicado” pela Apometria, se passar pela
experiência de se sentir “prejudicado” já não estava escrita para
aquele espírito; e ninguém será “libertado do Umbral” pela Apo-
metria se isso também já não estivesse escrito. O importante, na
Apometria, como em tudo na vida, é trabalhar com amor, ele
afirmou. Só o amor importa, já que todo o resto faz parte da ilusão
criada por Deus, uma vez que o espírito não precisa de perna, não
está amarrado, não está no umbral, no hospital etc.
Para pai Joaquim de Aruanda tudo isso também não passa de
ilusão criada pelo ego, ou seja, não quer dizer que não exista, mas
que é uma “realidade ilusória” que o espírito, encarnado ou não,
precisa também aprender a se libertar. Enquanto o espírito acre-
ditar que sofre por não ter pernas e que precisa de pernas para ser
feliz, não se libertará do ego e dali a algumas semanas, se não
mudar sua consciência, perderá novamente as pernas e precisará
ir novamente a uma casa que faça Apometria para que os apô-
metras criem novamente um par de pernas para o espírito, afirma
pai Joaquim de Aruanda. Esse foi o ponto central da palestra. Sem
a Espiritologia, ou seja, a orientação para que o Espírito consiga se
libertar do ego, a Apometria se torna um paliativo, importante,
222 Adilson Marques

obviamente, mas apenas um paliativo, em sua visão. Se o Espírito


acha que não tem pernas, que tem uma corda no pescoço, que seu
corpo está cheio de balas etc. é tudo ilusão criada em sua mente
porque ele desencarnou humanizado, ou seja, preso excessi-
vamente às verdades que seu ego criou. Por isso, satisfazer o ego
do desencarnado não irá libertá-lo, acredita ele. Pai Joaquim de
Aruanda ressalta que isso não é uma crítica à Apometria, pois vai
acontecer o que Deus quer que aconteça.
Assim, se uma perna foi criada no Espírito, foi porque isso já
estava escrito para acontecer, mas junto com essa mudança exte-
rior é necessária a mudança interior, tanto do encarnado como do
desencarnado que são atendidos na Apometria. Sobre animismo
e mistificações, motivos de críticas de muitos kardecistas à Apo-
metria, ele afirma que isso também seria uma prova para o vidente.
As imagens, materiais ou espirituais, são criadas pelo ego. Por isso,
o mesmo Espírito guardião de uma casa, por exemplo, poderá ser
visto por um vidente como um samurai, por outro como um sol-
dado romano e por outro como um índio. É o ego que vê a imagem.
Para pai Joaquim de Aruanda, a imagem não está no Espírito, mas
na mente de quem vê. E cada vidente vê o que tem que ver, em
função do gênero de provas que está passando. Ou seja, para ele,
a Apometria não deve ser idolatrada e nem nos preocuparmos se
estamos fazendo do jeito “certo” ou “errado”. O importante é fazer
com amor, pois vai acontecer em cada sessão o que tiver que
acontecer. É apenas isso que Deus espera de nós, ele afirma.
A Apometria não é melhor ou pior que outras técnicas, apenas
mais um instrumento de prova para quem vive nos mundos cha-
mados de “provas e expiações”, como ainda é a Terra.

Artigo 8 – A síndrome da perna inquieta e a apometria


Fomos procurados por uma senhora residente na cidade de São
Carlos que possuía uma patologia bem curiosa: a “síndrome da
perna inquieta”, segundo a nomenclatura médica. Tal patologia
causa dores, formigamentos e outros sintomas na perna da pessoa,
o que a impede de viajar e participar de outras atividades sociais.
No momento que esta senhora expôs o seu problema, estava
incorporado em uma das médiuns um preto-velho que se iden-
tifica como pai Jeremias. Assim que ela disse o nome da doença,
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 223

ele deu uma gostosa risada e disse que ela sairia curada da “sín-
drome da perna inquieta”. Na hora do atendimento apométrico,
uma médium vidente viu que, agarrado na perna da consulente
havia um suposto Espírito sem as pernas.
Com um comando, ele se manifestou em uma médium de
incorporação e, revoltado, contou uma história insólita. Disse que,
em outra encarnação, aquela senhora passou propositadamente
com uma carroça em cima de suas pernas, amputando-as. Em
seguida, ele teria morrido por hemorragia e ficado vagando até
saber que ela tinha também morrido e reencarnado. Assim, ele a
procurou e quando a encontrou, ficou agarrado nas pernas dela,
iniciando o problema. Para apaziguar o ódio desse irmão espi-
ritual, foi feito com ele uma regressão de memória. O mesmo
lembrou-se que, numa vida anterior, a pessoa que atualmente era
vítima da “síndrome da perna inquieta” era sua escrava e, por ela
não aceitar submeter-se aos seus caprichos, ele a matou.
Como consequência da Lei de causa e efeito, na encarnação
seguinte, ele passou pela vicissitude negativa de ter suas pernas
amputadas pela carroça. Atualmente, a senhora teve oportu-
nidade de encarnar e ele continuou no plano espiritual, porém,
como ela agiu com intenções egoístas ao passar por cima de suas
pernas com a carroça, adquiriu o “merecimento” de ter esse
suposto Espírito agarrado em suas pernas durante esses anos
todos, causando-lhe a famosa “síndrome da perna inquieta”,
segundo a nomenclatura dos médicos da Terra. Após ser es-
clarecido, reconstruímos através de pulsos energéticos as pernas
desse suposto Espírito e ele aceitou ser levado pela espiri-
tualidade para uma colônia espiritual onde será preparado para
uma nova encarnação. Em seguida fizemos a limpeza das ener-
gias deletérias acumuladas na perna dessa senhora através do
envio de pulsos energéticos.

Artigo 9 – Tratamento alternativo une ciência e espiritualidade


Vida após a morte, reencarnação e comunicação com mortos
deixou de ser assunto para rodas de espíritas, umbandistas, bu-
distas e de outros religiosos. Com as pesquisas acadêmicas de
cientistas como Stanislav Grof, um dos nomes respeitados do que
se convencionou chamar de psicologia transpessoal, ou mesmo
224 Adilson Marques

do físico Amit Goswami e do psiquiatra Briam Weiss, com suas pes-


quisas sobre regressão e progressão de memória, a espiritualidade
deixa de ser apenas um assunto religioso e a ponte ligando-a com
a ciência começa a ser construída.
No Brasil, um dos pioneiros a trilhar esse caminho foi o médico
gaúcho José Lacerda de Azevedo, criador de uma técnica deno-
minada Apometria, que consiste em desdobrar (veja no quadro
ao lado o significado dessa expressão) o paciente e analisá-lo em
sua dimensão espiritual. Para a Apometria, assim como para a
maioria das filosofias orientais, o ser humano é formado por
diferentes corpos e não só pelo físico. Acredita-se na existência
de sete veículos de manifestação humana, no qual o corpo físico é
apenas um deles, o responsável pela relação com o mundo ex-
terior. Reunindo técnicas de manipulação bionergética e regressão
de memória, vários problemas “incuráveis” pela medicina ganham
uma nova esperança de cura.
Na cidade de São Carlos, a técnica é uma das ferramentas de
trabalho da ONG Círculo de São Francisco, onde pacientes que
possuem doenças de difícil diagnóstico ou que a medicina con-
sidera como incurável, são tratados. A ONG não promete a cura
para quem a procura, porque milagres não existem, mas muitos
pacientes conseguiram obter a cura de doenças que, se não fosse
essa compreensão científica, poderia ser pensada como um mi-
lagre, ou seja, uma alteração no rumo natural dos fenômenos. O
interessado necessita agendar um horário para entrevista e tria-
gem. Em alguns casos, além da apometria, o paciente é encami-
nhado para fazer um tratamento com Reiki ou outra terapia com-
plementar, todas gratuitas.

Artigo 10 – ONG de São Carlos é referência internacional no


atendimento com apometria
Pessoas residentes nos EUA, em Portugal, no Paraguai e até no
Japão já utilizaram os serviços da ONG são-carlense Círculo de São
Francisco. Utilizando a técnica criada pelo médico brasileiro José
Lacerda de Azevedo, denominada Apometria, a ONG vem auxi-
liando no tratamento de enfermidades como fibromialgia, ansie-
dade, depressão e até de algumas doenças com nomes exóticos
como a “síndrome da perna inquieta”.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 225

A apometria é uma técnica que reúne os mais avançados conhe-


cimentos científicos, advindos da física quântica, e práticas conhecidas
milenarmente pelas culturas orientais como a manipulação bioe-
nergética através da mente. Em suma, é uma técnica que reúne ciência
e espiritualidade, sem a necessidade de mistificações ou o envol-
vimento de religiões. “Muitas enfermidades só são possíveis de
diagnosticar suas causas quando aceitamos a reencarnação como um
fato natural”, explica Adilson Marques, responsável pela aplicação da
técnica na ONG, seguindo os passos de ilustres acadêmicos de renome
mundial, como Fritjof Capra e Amit Goswami. “Porém, a Apometria
não faz milagres e nem todas as doenças podem ser curadas com essa
técnica”, afirma Adilson Marques.
A apometria necessita de pelo menos três sensitivos, sendo
dois videntes. “Essa é nossa maior dificuldade para ampliar nossos
atendimentos, encontrar pessoas para compor nossa equipe de
trabalho”, afirma o responsável pela técnica na ONG Círculo de São
Francisco. Através do fenômeno conhecido como desdobramento
espiritual, os sensitivos são induzidos a enxergar o paciente em
sua dimensão espiritual, analisando seus corpos sutis (duplo
etérico, corpo astral e mental) onde costumam residir boa parte
das energias estagnadas que irão afetar o funcionamento do corpo
físico e gerar inúmeras enfermidades, como também analisar suas
vidas passadas, através da regressão de memória.
A partir da constatação dos bloqueios energéticos, esses são
eliminados através da emissão de bionergia através da concen-
tração mental e da visualização de cores. “O tratamento apométrico
deve ser encarado como complementar e não utiliza nenhum tipo
de medicamento, seja alopático ou homeopático. Todo o tra-
tamento é realizado através da bioenergia do grupo de aten-
dimento”, afirma Adilson Marques.
A ONG Círculo de São Francisco começou atuando na cidade
oferecendo, gratuitamente, cursos e atendimentos de TVI, Florais,
Fitoterapia, entre outras terapias alternativas. Atualmente, a Apo-
metria tornou-se o carro-chefe da ONG, que tem capacidade para
atender, em média, 20 pessoas semanalmente, vindas de várias
partes do país e até do exterior. Todo o tratamento é gratuito. A
ONG também ministra cursos para interessados em montar grupos
de atendimentos apométricos, na cidade ou na região.
226 Adilson Marques

Artigo 11 – A Apometria e a busca por pessoas desaparecidas


Certo dia nós recebemos um pedido diferente por parte de uma
consulente. Ela nos disse que seu genro saiu de casa para levar as
filhas para a escola e não voltou. Esse fato estava completando dez
anos. Afirmamos a ela que nunca tínhamos feito um atendimento
similar. Seria a nossa primeira experiência e não sabíamos se tería-
mos condições de auxiliá-la, já que o trabalho é, basicamente, feito
pela espiritualidade. No dia combinado abrimos a freqüência da
pessoa desaparecida e, na hora, uma das médiuns localizou o corpo
dentro de um poço, em uma região de canavial.
Não foi possível identificar a cidade, mas foi possível resgatar
o suposto Espírito que ainda se encontrava junto ao corpo decom-
posto. Com bastante energia mental ele conseguiu sair do buraco
e se manifestou em uma das médiuns. Soubemos que ele, segundo
a médium, havia sido assaltado após ter levado as filhas para a
escola. Ele foi torturado, morto e teve o corpo jogado naquele
poço. O suposto Espírito agradeceu pelo resgate e foi levado para
uma colônia para continuar sua recuperação. Para a família foi um
consolo.
Através de um dos mentores espirituais do trabalho, a família
foi aconselhada a orar muito por ele e, por ser católica, encomen-
dar uma missa para sua alma. Isso tudo ajudaria bastante em sua
recuperação espiritual. Após esse atendimento, fomos procurados
por outras famílias com problemas similares e o resultado, feliz-
mente, foi diferente do descrito acima.
Em um deles, o rapaz que estava desaparecido foi visto por uma
médium vidente no litoral norte de São Paulo. A mesma não soube
precisar o local, mas disse que ele parecia bem. Segundo a mé-
dium, o rapaz fugiu de casa por não suportar a pressão familiar. Em
outro caso, a pessoa em questão foi vista pela mesma médium em
uma feira no Recife. Ele teria virado artesão e ganhava a vida em
uma feira de artesanato em Recife. Ao contrário do rapaz do caso
anterior, este sentia falta da família, disse a médium, mas tinha
vergonha de entrar em contato, com medo da reação que seus
familiares poderiam ter.
Fizemos orações por ele, buscando intuí-lo a ter coragem de
entrar novamente em contato com a família. A espiritualidade, nos
três casos apresentados acima, não forneceu detalhes mais pre-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 227

cisos para que os mesmos fossem localizados, seja o local onde o


corpo do primeiro se encontrava em decomposição, ou os ende-
reços residenciais dos rapazes que fugiram de casa. Possivelmente
não tiveram essa permissão. Provavelmente, trata-se de provas
que os familiares precisam suportar. Ir além dessas informações
seria interferir no livre-arbítrio e nas provas de cada um.
Porém, conversando com participantes de outras casas apo-
métricas, soubemos de casos onde a espiritualidade passou o
endereço do local onde a pessoa se encontrava, facilitando o
contato da família com a pessoa desaparecida. Nestes casos, como
cada um só passa por provações que estão de acordo com o gênero
de provas que escolheu antes de encarnar, não temos como saber
o que vai ou não acontecer, já que cada um recebe de Deus aquilo
que necessita e merece. E assim acontece também com os desa-
parecidos. Quando alguém desaparece, não foi por acaso. Faz parte
das provações dele ou de seus familiares. Alguma lição espiritual
se esconde por trás desse ato material. Mas se a família pede
informação sobre um desaparecido, não custa tentar localizá-lo
através da Apometria. Se houver permissão, alguma informação
será transmitida.
228 Adilson Marques

ANEXO 3 – O QUE É ANIMAGOGIA?

Esse anexo apresenta 15 questões que foram formuladas para


a realização de um mini-curso na cidade de Belo Horizonte, em
2014. O material se transformou em um livreto editado pela ONG
Círculo de São Francisco, com uma tiragem de 1000 exemplares que
foram distribuídos gratuitamente.
A Animagogia é o programa de educação espiritual criado pela
ONG Círculo de São Francisco, na cidade de São Carlos, para ajudar
a despertar os atributos do Espírito na vida cotidiana. Ela foi siste-
matizada em 2003, a partir do estudo das principais psicosofias
(sabedorias espirituais) e é transreligiosa, ou seja, apesar de res-
peitá-las, é independente de religiões. É importante enfatizar que,
por ter uma fundamentação espiritualista, ela não é uma prática
educativa materialista (que parte do pressuposto que apenas a
matéria existe e que a consciência nada mais é que o resultado de
reações bioquímicas que ocorrem no cérebro) e nem idealista (que
parte do pressuposto que apenas a consciência existe e que a
matéria não passa de uma projeção mental).
Como a maior parte das escolas espiritualistas, a Animagogia
também é dualista, ou seja, parte do pressuposto que existe o
espírito e existe a matéria. E, esta última, possui uma finalidade
divina ou providencial: servir de campo para as provações do Espírito
humanizado, escolhidas voluntariamente antes da encarnação. O
Espírito é o princípio inteligente do universo e a matéria tem origem
na energia cósmica universal. O Espírito, portanto, não é energia,
mas é quem manipula a energia, em alguns casos com sua força
mental e emocional (energia psíquica), em outros com sua força
imaginativa e anímica (energia noética), mas, também, através da
ação física, transformando a natureza através do trabalho.
A Animagogia, em resumo, tem como meta despertar o Homo
spiritualis na vida cotidiana. E esse processo não vê a ciência como
adversária e não vê a religião como superstição. Assim, a Anima-
gogia, com seu objetivo de despertar o Homo spiritualis, procura
propor atividades que ajudem a viver com habilidade espiritual a
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 229

vida humanizada. Seu campo de atuação é amplo, pois é voltado


para oferecer uma nova forma de se (re)envolver com a natureza,
com a sociedade, com o corpo físico e, sobretudo, com a alma. A
mudança interior (metanoia ou sensibilidade espiritual) é uma
consequência direta do fato de se vivenciar o cotidiano através dos
atributos do Espírito. A Animagogia considera como constituindo
os atributos do Espírito, ou seja, da nossa essência, os seguintes:
1. a vontade (sobretudo, de se autorrealizar);
2. o pensamento (sendo o mais profundo a consciência de
ser um Espírito eterno vivenciando uma experiência huma-
nizada);
3. a imaginação simbólica/criatividade;
4. a capacidade de amar (sendo o amor universal o nível mais
profundo);
5. a felicidade incondicional;
6. a fé plena (na verdade a fé é humana, pois o Espírito tem
certeza da existência de Deus, não precisando, assim, da fé);
7. a paciência;
8. a equanimidade;
9. a paz interior;
10. a humildade;
11. o livre-arbítrio (o Espírito, gozando de sua consciência
plena, escolhe seu gênero de existência) e, finalmente,
12. o agir de forma desinteressada (sem esperar nada em
troca).

Para melhor esclarecer o tema exposto acima, apresentamos


15 questões que frequentemente as pessoas fazem para tentar
compreender a Animagogia e diferenciá-la de outras propostas
espiritualistas ou religiosas.

1 – O que é a Animagogia?
Resposta: É um programa de educação espiritual, de cunho univer-
salista e transreligioso, criado em 2003 na ONG Círculo de São
Francisco, na cidade de São Carlos. A Animagogia parte do pressu-
posto que somos Espíritos eternos vivenciando uma experiência
humanizada e que a matéria existe de forma relativa, não sendo
apenas uma projeção da mente, como afirma o pensamento
230 Adilson Marques

solipsista que sustenta o idealismo contemporâneo. Para a Anima-


gogia, a matéria existe para o Espírito humanizado provar para ele
mesmo, e a mais ninguém, que pode ser mais forte que ela, viven-
ciado sua vida humanizada com habilidade espiritual, ou seja,
colocando em prática os atributos do Espírito apresentados na
introdução. Isso não significa que o Espírito humanizado planeja sua
encarnação nos mínimos detalhes. Mas ela apresenta vicissitudes
que estão de acordo com o gênero de existência escolhido antes da
encarnação (nascer em um corpo masculino ou feminino, em um
país e não em outro, em uma determinada classe social etc.).

2 – E qual é o objetivo da Animagogia?


Resposta: Compreendendo que o Espírito em si foi criado puro e
perfeito, à imagem e semelhança de Deus, porém, sem experiên-
cia de vida e sem sabedoria, ao longo das encarnações o Espírito
“evolui” e, ao mesmo tempo, “desperta” seu potencial interior (os
talentos já adquiridos ao longo das existências). O objetivo da
Animagogia é ajudar nesse processo complementar de “evolução”
e “despertar”. O despertar dos atributos do Espírito é um processo
que se faz integrando o ego (consciência humanizada da perso-
nalidade ou “eu inferior”) com o Self (consciência humanizada
universal ou “eu superior”), permitindo que a sensibilidade crís-
tica (onde se “localizam” os atributos do Espírito) “tempere” nossa
existência humanizada em todas as dimensões (Biosfera, Psicos-
fera e Noosfera). É importante salientar que para a Animagogia
não há “Espírito inferior” ou “Espírito superior”, apenas Espírito
humanizado mais preso ou liberto do ego. Por isso, todos possuem
em sua essência os atributos do Espírito e são capazes de viver sua
vida humanizada com habilidade espiritual, assim que os des-
pertam. No Self estão armazenadas as experiências adquiridas em
vidas passadas e mesmo que estas informações não estejam no
ego, uma consciência provisória criada para cada nova encarnação,
o Self sempre se manifesta na forma de intuição, em sonhos, ou
em outras manifestações noéticas. E, mesmo assim, o Espírito
sempre é capaz de “evoluir” a cada encarnação, adquirindo mais
sabedoria e novas experiências de vida.
O ego é uma projeção do Self, pois não há duas ou mais cons-
ciências atuando no ser humanizado. O ego é uma parte da cons-
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 231

ciência que vibra em outra dimensão e com outra frequência,


adequada para se viver no estado de vigília. Da mesma forma que
a energia elétrica produzida por uma usina precisa passar por
transformadores que vão abaixar sua tensão para 110/220 V e entrar
em nossas casas, o Self precisa reduzir sua frequência para viven-
ciarmos nossa humanização encarnada, pelo menos, na Terra.
Porém, como já salientamos, é necessária a integração do Self e
do ego para que se possa despertar os atributos do Espírito, ou seja,
nossa sensibilidade crística. Sem essa integração, é praticamente
impossível que a vida humanizada seja vivenciada com habilidade
espiritual, o principal objetivo da Animagogia.

3 – Se o espírito foi criado puro e perfeito por que precisa encarnar/


reencarnar?
Resposta: Apesar de ter sido criado puro e perfeito, ou seja, feliz,
amoroso, pacífico, humilde, equânime etc. o Espírito no momento
em que foi criado carece de experiência e de sabedoria, o que se
adquire ao longo das encarnações e não somente como ser huma-
nizado. Esta é apenas uma entre as várias fases que o Espírito já
passou e ainda vai passar. Por isso, na Animagogia, costumamos
dizer que o Espírito não é humano, mas está humanizado. Estamos,
atualmente, na fase humanizada do Espírito e nos habilitando para
iniciar uma nova: a fase angelical. Assim, estar humanizado é uma
fase importante desse aprendizado. E a fase humanizada se ca-
racteriza pelo desabrochar da racionalidade e da intuição, tendo
pleno domínio das emoções e das formações mentais. O Espírito,
assim, pode estar “evoluindo”, mas também despertando, pois já
tem um cabedal de informações, conhecimento e sabedoria acu-
mulado ao longo do tempo. Um preto-velho que se identifica como
pai Joaquim de Aruanda costuma usar uma metáfora muito in-
teressante em suas palestras públicas através do médium Firmino
José Leite.
Ele afirma que o Espírito é como uma lâmpada de 100 W. Deus
não teria criado o Espírito “sem luz” e o colocaria para “evoluir”
até atingir 100 W. Concordando com essa metáfora, a Animagogia
considera que o ego funciona como uma “sujeira” que impede o
Espírito de brilhar. Por exemplo, se observarmos três Espíritos
diferentes, poderemos nos iludir e acreditar que um deles brilha
232 Adilson Marques

mais que os outros, passando-nos a falsa impressão de que ele


tem mais “luz” que os demais. Porém, essa compreensão é falsa,
pois todos apresentam o mesmo quantum de luz, desde sua cria-
ção. A diferença no brilho ocorre porque alguns estão exagera-
damente condicionados às verdades criadas pelo ego, o que faz
com que sua luminosidade fique opaca, não brilhe de forma
plena. O ego age como uma cortina que impede a luz do Sol de
iluminar um determinado ambiente. Por outro lado, aquele que
despertou medianamente seus atributos espirituais tem seu
brilho mais intenso, mas a sua Luz tem a mesma potência que a
do Espírito anterior. Podemos dizer, metaforicamente, que a
“lâmpada” daquele que tem pouco brilho se encontra totalmente
suja, engordurada, cheia de poeira etc.
Por isso, quanto mais o Self se integra ao ego, mais a luz interior
se manifesta na vida exterior. E o objetivo da encarnação é justa-
mente aprender a deixar a Luz brilhar em um ambiente (mundo
de provas e expiações) cuja essência é o egoísmo e seus derivados
(vaidade, orgulho, desejo de poder, busca por fama, competição
etc.) e também adquirir mais experiência e sabedoria, ou seja,
acumulando mais “talentos” que terão uma grande importância
na encarnação posterior. É por isso que muitas escolas espiri-
tualistas, incluindo a Animagogia, acredita que a encarnação na
Terra seja uma escola. Ser mais forte que o egoísmo no plano
espiritual é muito fácil, por isso que a prova e a aquisição de
experiência e de sabedoria acontecem, na fase humanizada, com
a encarnação nos chamados “mundos de provas e expiações”. E,
quanto mais experiência e sabedoria são adquiridas, mais fácil será
vivenciar com habilidade espiritual a vida humanizada do Espírito.
Isso permite que muitos seres humanizados e encarnados na Terra
consigam vivenciar com amor universal, felicidade incondicional
e paz interior toda e qualquer vicissitude, e se tornam exemplos
para todos nós. Estes seres já possuem uma “bagagem” construída
ao longo de muitas encarnações e, assim, conseguem se sobressair
espiritualmente mesmo diante de grandes desafios.
A experiência e a sabedoria se manifestam na vida cotidiana e
podemos compreender como elas agem, pois, semelhante à
experiência de um expert em um jogo de cartas, elas ajudam a “tirar
leite de pedra”, como diz a sabedoria popular. Com frequência não
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 233

vemos uma “mão boa” na mão de um jogador inexperiente não


representar nenhuma vantagem? E o contrário? Quantas vezes um
jogador experiente, mesmo com uma “mão fraca”, é capaz de
vencer uma partida que daríamos como perdida devido à dis-
tribuição casual das cartas?
Assim, simbolicamente, podemos dizer que ao iniciar suas
encarnações nos mundos de provas e expiações, na fase huma-
nizada, a sensibilidade espiritual (crística) e o Self (consciência
humanizada universal) estão adormecidos e o “patrão” é o ego.
Mas, ao longo das encarnações, sempre com mais experiência e
sabedoria, o Espírito com mais facilidade desperta sua sensibilidade
crística e é capaz de utilizar o Self e o ego de uma forma positiva,
impedindo que as vicissitudes da vida humanizada, seja ela
encarnada ou desencarnada, tirem sua paz interior e sua felici-
dade. E, além disso, se torna um exemplo para ajudar na
“evolução” e no despertar espiritual de outros seres humanizados.
Dentro dessa perspectiva, a Animagogia não se fundamenta no
pensamento idealista que afirma ser a matéria uma ilusão criada
pela mente. A matéria é relativa, mas existe, dificultando a ação
do espírito humanizado e encarnado. Assim, ao invés de dizer que
o cérebro cria a realidade através da observação, a Animagogia
parte do pressuposto que o cérebro é um redutor da Realidade,
uma vez que, a terceira (Biosfera) e a quarta dimensão (Psicosfera)
são articuladas e materiais, apesar da nossa impossibilidade (a não
ser em circunstâncias especiais) de interagir com a matéria e com
os seres desencarnados presentes naquela dimensão. Em outras
palavras, existem outras ondas sonoras, olfativas, auditivas, etc.
no Universo, mas que não se transformam em realidade para nós.
Um objeto da Psicosfera (mundo astral) pode estar colocado sobre
uma mesa que vibra na Biosfera. Ele influencia energeticamente
pessoas e objetos, mas não conseguimos tocá-lo. Em muitos casos
é possível “desmaterializá-lo” com a força do pensamento, como
acontece nos trabalhos de Apometria.

4 – E como ocorre a encarnação?


Resposta: A Animagogia compreende que para encarnar o Espírito
que em seu processo evolutivo se encontra na fase humanizada
passa pelos seguintes processos:
234 Adilson Marques

a. Processo de humanização - acontece na dimensão que


chamaremos de Noosfera (termo usado pelo psicólogo
Willian James, não necessariamente, com esse mesmo
sentido). Nesta dimensão “residem” os valores universais
humanizados, valores que devem nortear a existência de
todos, tanto do bandido e do policial, do terrorista e do
humorista ateu, do religioso e do cientista, do homem e
da mulher etc. Podemos dizer também que é o campo do
“insconsciente coletivo”, conforme conceituação de C G
Jung. Essa dimensão é onde vibra o Self (a consciência
humanizada universal) e que costuma ser acessada pela
intuição ou até mesmo por sonhos. Não se trata de uma
esfera racional, mas intuitiva. Por não trabalhar com a
linguagem verbal, o acesso se dá através de imagens
simbólicas, oníricas e arquetípicas.
b. Processo de personalização do ser humanizado - acontece
em uma dimensão “abaixo”, com outra vibração, que
chamaremos de Psicosfera. Aqui se encontram os valores
relacionados à raça, etnia, gênero etc. que particulariza
cada agrupamento humano. É o campo das emoções, racio-
nalizações mentais, desejos etc. Como salientamos, o Espírito
puro não é nem um ser humanizado, quanto mais islâmico,
europeu, católico, espírita etc. Ele está humanizado para
adquirir experiência e sabedoria nessa atual fase de sua
existência eterna. E se o Espírito não é um ser humanizado,
só podemos considerar que ele está brasileiro, europeu,
africano, judeu, muçulmano, espírita, homem, mulher,
homossexual, heterossexual, branco, preto, amarelo etc.
Tudo isso faz parte apenas de sua personalização (lembrando
que a palavra persona significa máscara).
c. Processo de encarnação do ser humanizado - acontece na
dimensão onde nos encontramos e que chamaremos de
Biosfera. Ela possui as vibrações mais densas que formam o
chamado mundo material. Somos, portanto, Espíritos
eternos vivenciando um processo de humanização e esta-
mos, momentaneamente, agindo na Biosfera como seres
humanizados encarnados. A partir do exposto acima, pode-
mos dizer que o Espírito (o princípio inteligente do universo)
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 235

representa a subjetividade pura. Por outro lado, o ser


humanizado encarnado, no outro polo desta linha, vive um
processo de subjetividade condicionada. E só é possível se
universalizar nos chamados “mundos de provas e expiações”
como ainda é a Terra. É aqui que passamos pela “prova” de
conseguir ou não despertar os atributos do Espírito (amor,
felicidade, paz interior, equanimidade etc.). Como já
salientamos, para acontecer esse despertar, é necessário
também um processo de integração do Self, nosso “eu
superior” que “habita” a dimensão noética (Noosfera), e o
ego, a consciência humanizada que é uma projeção invertida
do Self e que “habita” as dimensões psicológica e biológica.
Nesta última se encontra o lado consciente do ego e, na
psicológica, o subconsciente e o inconsciente, da
psicanálise. O inconsciente é sempre pessoal e sociocultural
(não podendo ser confundido com o inconsciente coletivo
que é de fundo universal e que vibra na Noosfera).

Na Psicosfera também se encontram os seres humanizados


desencarnados. A diferença entre eles e nós reside em estar ou
não ligado a um corpo físico. Uma analogia para entender essa
relação pode ser o programa de TV Big Brother. É como se nós, os
seres humanizados encarnados, estivéssemos confinados na
“casa” e os seres humanizados desencarnados estivessem do lado
de fora observando, mas podendo nos influenciar com
pensamentos e sentimentos. Em alguns casos, estes podem se
manifestar mais ostensivamente através de pessoas que são
chamadas de médiuns, oráculos, pitonisas etc.
Após essa reflexão sobre as dimensões, podemos fazer uma
comparação com a teosofia. Assim, podemos dizer que na Biosfera
vibram o corpo físico e o etérico; na Psicosfera o corpo astral e o
mental inferior; na Noosfera o corpo causal e o corpo búdico; e,
finalmente, no plano espiritual, o Atma.

5 – Então não basta desencarnar para voltar a ser um espírito puro?


Resposta: Exatamente! Quanto mais o Espírito integrar o ego ao
Self durante a encarnação, mais fácil será uma desumanização na
dimensão seguinte, após a morte física. Porém, quanto mais forte
236 Adilson Marques

o vínculo do Espírito humanizado ao ego, ele poderá se tornar um


ser humanizado iludido do “lado de lá” e, assim, tornar-se um
“obsessor”, ficar em estado de sofrimento ou preso aos vícios
(álcool, cigarro, sexo e outros que tinha sobre a Terra) etc. Porém,
na Animagogia, não chamamos esses seres de “espíritos”, mas de
seres humanizados desencarnados. A palavra Espírito é usada
apenas para se referir a nossa essência que, como já salientamos,
é feliz, amorosa, pacífica, equânime etc. A vida na Psicosfera é
apenas um prolongamento da vida na Biosfera. Por exemplo,
imagine um Espírito que se humaniza e encarna em um país árabe
ou em uma tribo indígena. Ao desencarnar, ele vai continuar se
vendo como árabe ou indígena e vai habitar uma “colônia espi-
ritual” onde encontrará outros seres humanizados do mesmo
grupo étnico ou religioso. O mesmo acontecerá conosco.
Se estamos católicos, espíritas, budistas, ateus etc. vamos
“acordar” em colônias afins. Trata-se de um processo de adaptação.
Só depois de algum tempo, e de acordo com a experiência e a
sabedoria adquirida, vamos começar a nos lembrar das existências
pregressas e vamos nos “universalizando”, ou seja, retomando a
consciência de ser um Espírito eterno, sem religião, nacionalidade,
sexo, etnia, raça etc. O Self que era o nosso “inconsciente coletivo”
durante a encarnação, transforma-se na nossa real consciência,
agora acrescida com as novas experiências transformadas em
sabedoria em nossa última encarnação. Assim, ao despertar para
nossa condição universal, somos atraídos vibratoriamente para a
Noosfera, onde poderemos planejar a próxima encarnação, es-
colhendo outro gênero de existência.
Em outras palavras, é na Noosfera que “habita” o nosso “corpo
causal” (ou “mental superior”). Este é o único veículo consciencial
que permanece entre uma encarnação e outra e que preferimos
chamar de Self. Mas ele também não é eterno. Ao vencer o mundo
de provas e expiações, encerrando a fase humanizada, até o Self
terá que ser, finalmente, abandonado. É quando podemos retornar
ao mundo espiritual propriamente dito. Porém, ao contrário de
quando fomos criados, ao se vencer a prova, o Espírito passa a ter
também experiência e sabedoria. Ou seja, é nesse momento que
ele se encontra pronto para começar uma nova “etapa evolutiva”:
não mais como ser humanizado, mas como ser angelical.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 237

Todos os Espíritos foram criados e vibram na Logosfera (plano


espiritual) e “descemos” para começar a jornada evolutiva. Em um
primeiro estágio, ao desencarnarmos, atingimos os níveis mais
baixos da Psicosfera e voltamos para a Biosfera, em um novo corpo
físico. Neste estágio, não estamos em condições de escolher nossos
gêneros de existência. A maior parte dos seres humanizados hoje
encarnados na Terra esta no “terceiro estágio”. Já são Espíritos
humanizados capazes de escolher seus gêneros de existência e,
alguns, já estão quase encerrando o “quarto estágio”. Estes, em
breve, vão deixar a fase humanizada e iniciar uma nova: desta vez,
como seres angelicais.

6 – E a Animagogia pode ser praticada com os seres humanizados


desencarnados?
Resposta: Sim! Aliás, a Animagogia nasceu em 2003 para ajudar no
processo de despertar espiritual desses seres humanizados. So-
mente, a partir de 2005, que ela passou também a ser utilizada com
os seres humanizados encarnados, através da Terapia Vibracional
Integrativa (TVI), prática terapêutica que se fundamenta exclu-
sivamente nos princípios animagógicos aqui apresentados. E o
principal recurso para fazer a Animagogia com os seres huma-
nizados desencarnados é a Apometria, técnica espiritualista criada
por José Lacerda, um médico espírita brasileiro, em meados do
século XX. No trabalho animagógico com estes seres que perma-
necem iludidos habitando a Psicosfera ou mesmo vagando pela
Biosfera, enfatizamos sempre que são Espíritos puros e procu-
ramos despertar a consciência do “eu superior” (Self) para que se
lembrem do momento em que fizeram suas escolhas e planejaram
seu gênero de existência.
Libertar-se da persona que viveram na Terra é o objetivo da
Animagogia com estes seres e, entre os recursos disponíveis,
acreditamos que a Apometria é o que melhor atinge esse objetivo.

7 – E quais são os recursos ou técnicas utilizadas para se praticar a


Animagogia com os seres humanizados encarnados?
Resposta: Como a Animagogia não é uma doutrina, não existem
para ela técnicas que podem ser chamadas de “doutrinárias” e
“não-doutrinárias”, técnicas que podem e que não podem ser
238 Adilson Marques

utilizadas. Em tese, qualquer técnica pode ser usada em um tra-


balho animagógico desde que seu foco passe a ser o despertar do
Espírito humanizado e não reforçar o ego. Por exemplo, a cons-
telação familiar, de Bert Hellinger, pode reforçar o ego (a cons-
ciência humanizada pessoal) ou integrá-lo ao Self (a consciência
humanizada universal). Se o segundo caso acontecer, pode ser
utilizada em um trabalho animagógico. O mesmo pode ser dito de
um trabalho mediúnico. Se este trabalho ajudar no processo de
despertar espiritual, de forma que a pessoa consiga viver sua vida
humanizada com habilidade espiritual, é uma técnica animagógica.
Se ela reforçar ainda mais o ego, não será. O mesmo pode ser dito
para qualquer técnica. Em suma, não é a técnica em si que conta,
mas o seu enfoque. Uma aula de hatha-yoga, por exemplo, pode
reforçar ainda mais o ego, deixando a pessoa ainda mais vaidosa e
egoísta, ao invés de despertar sua essência espiritual, que a tor-
naria mais humilde, mais fraterna etc.
Em suma é a intenção que conta para identificar se um trabalho
é animagógico ou não.

8 – E o que é o Homo spiritualis?


Resposta: Mircea Eliade, um dos principais historiadores da re-
ligião, identificou duas formas de ser e agir no palco da vida huma-
nizada: o Homo religiosus e o Homo profanus. Na Animagogia, o
ser humanizado que está neste processo de integração do ego com
o Self, buscando vivenciar sua vida humanizada com habilidade
espiritual, não se confunde nem com um e nem com outro. Assim,
esse ser humanizado passou a ser identificado como sendo o Homo
spiritualis. Em suma, o Homo spiritualis consegue transcender os
limites dogmáticos das religiões e também o ceticismo da ciência
contemporânea, vivenciando e experimentando a realidade
espiritual sem fanatismo, proselitismo, fuga da realidade etc.
Podemos dizer que o Homo spiritualis é uma diferente forma de
ser e agir no palco da vida humanizada, integrando espiritualidade
e ciência. O ser humanizado que consegue despertar, de forma
significativa, os atributos do Espírito em sua vida cotidiana, ou seja,
que vivencia sua existência com habilidade espiritual despertou
sua essência, o Homo spiritualis. Até algumas décadas atrás, quem
atingia essa condição ainda na Terra se habilitava para continuar
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 239

suas encarnações em mundos chamados de superiores. Porém, em


tese, com a Terra mudando de estágio, passando a ser um “mundo
de regeneração” e não mais de “provas e expiações”, são aqueles
que atingiram esse estado que continuarão a reencarnar na Terra.

9 – E como podemos entender o ego e o Self, segundo a Animagogia?


Resposta: Na Animagogia a expressão ego é utilizada para identi-
ficar a consciência humanizada da personagem que vivenciamos
na Biosfera. O ego é necessário para estabelecermos uma relação
com o mundo exterior ou material. Por isso, na Animagogia, não é
possível “matar” o ego ou libertar-se dele enquanto encarnado.
Além disso, é importante salientar que, na Animagogia, o mundo
material não é uma simples projeção da mente, como afirma o
solipsismo, pensamento filosófico predominante no movimento
que vem sendo chamado de “misticismo quântico” por legitimar
esse posicionamento através de uma interpretação idealista da
Física quântica.
Voltando ao ego, podemos dizer que ele possui cinco atributos:
a relação corporal estabelecida com as formas materiais, a per-
cepção sensorial, as emoções geradas mentalmente a partir destas
percepções, as formações mentais criadas a partir das percepções
e das emoções e, por fim, a memória, que nos impede de vivenciar
nossa experiência humanizada apenas no presente, nos vincu-
lando fortemente ao passado ou nos fazendo idealizar um futuro.
O ego em si não é positivo e nem negativo. O que importa é o que
fazemos com ele. Se lembrarmos dos ensinamentos de Krishna,
presentes na Baghavad Gita, encontramos que o ego é um mau
patrão, mas um ótimo servidor. É por isso que, na Animagogia, não
consideramos ser necessário (e nem possível) matar o ego, como
algumas escolas espiritualistas propõem. Mas ele não é também
o mal que deve ser vencido ou exorcizado. Como ele é voltado
para o exterior e os mundos de provas e expiações são nutridos
pelo egoísmo, o problema é deixar o ego sendo o nosso patrão.
Na Animagogia, ele deve ser integrado ao “eu superior”, o Self,
que se encontra adormecido e deve ser despertado durante a
encarnação. O Self não é ainda o Espírito ou a nossa “consciência
espiritual”. Na Animagogia consideramos o Self como a consciência
humanizada universal, ou, na linguagem da teosofia, o “mental
240 Adilson Marques

superior” que se manifesta através do “corpo causal”. O Self re-


gistra nossas experiências passadas e é através dele que somos
capazes de intuir e compreender a Unidade na diversidade e que
somos Espíritos eternos vivenciando uma experiência huma-
nizada. Ele se comunica com o ego (mente consciente ou “normal”)
através, sobretudo, da intuição e também dos sonhos. Sua comu-
nicação é, frequentemente, simbólica e não verbal.
Propostas que buscam despertar o Self sem integrá-lo ao ego
podem causar inúmeras psicoses, como acontece com aqueles que
buscam nas drogas uma forma de “fugir da realidade”. De outro
lado, o ego hipertrofiado leva, fatalmente, ao egoísmo e todas as
suas derivações (orgulho, desejo por poder, fama etc.). A inte-
gração do Self e do ego é um processo metanoico (de mudança de
sensibilidade) necessário para despertar os atributos do Espírito,
iluminando os diferentes níveis conscienciais, cada um em sua
esfera de atuação. A integração do ego e do Self permite trans-
formar o desejo em vontade, na Biosfera; o conhecimento em
sabedoria, na Psicosfera, e despertar a imaginação criativa, na
Noosfera. Quando essas “chaves” são ligadas, nossa sensibilidade
crística ou espiritual se manifesta em todas essas dimensões
existenciais.

10 - E quais são os pilares teóricos da Animagogia?


Resposta: Como salientamos, a Animagogia é uma prática educa-
tiva e não uma doutrina. Mas ela tem seus pressupostos e estes
estão presentes em ensinamentos espiritualistas que chamamos
de Psicosofias. Seus pressupostos estão presentes na Psicosofia
de Lao Tsé, de Buda, de Krishna e de Jesus. E complementam tais
pilares básicos, a Psicosofia presente no Evangelho de Tomé, em
O livro dos espíritos e também na doutrina da não-violência de
Mahatma Gandhi. E podemos dizer também que há muita se-
melhança, no campo teórico, com a filosofia univérsica criada por
Huberto Hohden. E a Animagogia está sempre em construção. Por
exemplo, foi somente em 2009 que a Animagogia passou a con-
siderar a reencarnação como um fato, após várias experiências que
evidenciaram a existência dela. A metodologia adotada pela
Animagogia é experimental, podendo se processar através do
contato mediúnico, da projeção astral ou da clarividência. E os
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 241

ensinamentos podem ser aprofundados ou modificados em en-


contros regionais ou realizados nacionalmente.

11 – No aspecto acadêmico, onde entraria a Animagogia?


Resposta: Consideramos a Animagogia no campo dos estudos pós-
junguianos. Ela se distingue, por exemplo, da Psicologia Arque-
típica de James Hillman, importante para se compreender a di-
nâmica da Noosfera, assim como da Antropologia do Imaginário,
de Gilbert Durand e da Psicologia Transpessoal de S. Grof. Mas,
apesar desta distinção, compreende que faz parte da mesma
constelação de pesquisas e práticas que podem, de forma geral,
serem classificadas como pós-cartesianas. A Animagogia pode ser
pensada também como um método de pesquisa no âmbito das
Ciências do Espírito.

12 – E qual a relação da Animagogia com a Física quântica?


Resposta: A Física quântica estuda a essência da matéria, a organi-
zação das partículas e subpartículas atômicas. O conhecimento
advindo desta área do saber acadêmico vem sendo utilizado em
escala crescente na criação de novas tecnologias. Mas, ao contrário
do pensamento solipsista que renasceu nas últimas décadas bus-
cando legitimar-se através de afirmações polêmicas, por exemplo,
que a Física quântica comprovou que a mente cria a matéria e a
transforma, a Animagogia reconhece o valor da Física quântica para
se estudar a matéria e não o Espírito ou a consciência. E, lembrando
Jung que afirmava que a energia sentimental e mental não são
quantificadas, a Animagogia propõe identificá-las como sendo o
qualitum, distinguindo-as do quantum, uma forma de medir as
energias descontínuas irradiadas por corpos materiais. Para o
pensamento solipsista, a consciência cria a matéria colapsando as
ondas e as transformando em partículas. Mas, além dessa
perspectiva, temos a concepção de físicos como Capra e outros que
confundem o mundo espiritual com o “vazio quântico”.
Nessa perspectiva, o Tao, Brahman, a “realidade última” seria essa
dimensão concebida pela mente humana. Mas, para a Animagogia, o
mundo espiritual está além do “vazio quântico”, sem se confundir com
ele. No próprio Tao Te Ching vamos encontrar o ensinamento de que
o Tao está além de toda e qualquer concepção humana.
242 Adilson Marques

13 – E como a Animagogia foi importante para o surgimento da TVI?


Resposta: A Terapia Vibracional Integrativa (TVI) é um tratamento
bioenergético criado na ONG Círculo de São Francisco, que utiliza
meditação, chi kung e imposição das mãos. Ela foi criada para ser
utilizada em trabalhos animagógicos. Ao contrário de técnicas
similares que se fundamentam em símbolos místicos, em rituais
etc., a TVI busca integrar as energias das mais diferentes dimen-
sões para ser utilizadas em tratamentos físicos, mentais e emo-
cionais, buscando ajudar no processo de despertar espiritual. Para
ser praticada, exige a vontade, o pensamento elevado, a imagi-
nação criativa e o amor, que formam o qualitum fundamental para
o processo terapêutico ocorrer. Podemos dizer que a vontade é
uma força típica da Biosfera; o pensamento elevado, da Psicosfera;
a imaginação criativa da Noosfera e, o amor universal, canalizado
de nossa essência espiritual. Mas é importante salientar que a TVI
não pensa a matéria como uma projeção mental e não promete
curar todos os problemas físicos, mentais, emocionais e espirituais
da humanidade, como outras técnicas prometem.
Seu foco, por ser uma prática animagógica, é o despertar dos
atributos do Espírito e não a cura física momentânea. Assim, a TVI
pode ser pensada como uma terapia complementar aos trata-
mentos médicos tradicionais ou acadêmicos e que pode ser pra-
ticada por pessoas das mais diferentes crenças religiosas. E dentro
da perspectiva de difusão da técnica, desde 2003, ela é ensinada
de graça em todo o território nacional, já capacitando mais de 5000
pessoas.

14 – E por que a Animagogia é uma proposta espiritualista?


Resposta: Existem infinitas teorias que relacionam a consciência
e a matéria. Porém, elas vão se encaixar em apenas 4 escolas que
podemos identificar como materialista, energista, idealista e
espiritualista. As escolas materialistas, que predominam no am-
biente acadêmico, partem do pressuposto que a consciência é um
epifenômeno da matéria, no caso, do cérebro. Assim, com a de-
composição do cérebro, a consciência desaparece. Dentro desse
enfoque materialista, Freud, por exemplo, postula que o in-
consciente é um epifenômeno da consciência. Por pensar de forma
diferente, houve a ruptura deste com Jung, o criador da Psicologia
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 243

Analítica e que propôs a teoria sobre o inconsciente coletivo. Nas


abordagens energistas, a consciência e a matéria se originam no
“vazio quântico” e voltam para lá, ciclicamente. Não há, necessa-
riamente, uma individualidade que reencarna. Em suma, não deixa
de ser uma visão materialista, porém, não mais mecanicista ou
empírica, e sim, racionalista.
Por sua vez, as abordagens idealistas vão partir do pressuposto
que a matéria não existe, sendo, apenas, uma projeção mental. Entre
elas, destaca-se o solipsismo que afirma a existência apenas do Eu,
sendo que, todo o resto, inclusive os demais seres humanos, uma mera
projeção da mente. Dentro da corrente idealista temos também os
ensinamentos do suposto mestre Ascenso Saint Germain, através da
canalizadora norte-americana Elizabeth Clare Prophet, afirmando
que, pelo poder da mente, é possível “dormir no corpo de um
homem negro africano e acordar no corpo de uma mulher loira
alemã”.
Ao contrário das três correntes acima, as abordagens espiri-
tualistas que fundamentam várias religiões no Ocidente e no
Oriente, partem do pressuposto que a matéria existe, mas é re-
lativa e condicionada ao Espírito. No caso da Animagogia, a matéria
é fundamental para as provações escolhidas voluntariamente pelo
próprio Espírito para provar, a ele mesmo, que é capaz de ser mais
forte que a matéria. Em outras palavras, mais forte que o ego (cujos
atributos descrevemos acima). Assim, cada país, com sua cultura e
organização política, econômica e social é como uma “quadra
esportiva”, com suas marcações adequadas para o jogo que ali se
realizará. Dessa forma, ao escolher o gênero de existência e suas
respectivas provações, o Espírito humanizado vai encarnar em um
determinado país ou agrupamento étnico de acordo com tais es-
colhas, pois ali encontrará o cenário mais adequado para vivenciar
suas escolhas realizadas antes da encarnação.

15 – Por fim, qual a relação da Animagogia com a Antropolítica do


(re)envolvimento humano?
Resposta: Em 2003, foram lançadas as primeiras sementes do que
seria a Antropolítica do (re)envolvimento humano. Em tese, um
movimento educativo e cultural voltado para se recriar a relação
do ser humanizado com o seu mundo circundante através de 4
244 Adilson Marques

eixos: o (re)envolvimento com a natureza, o (re)envolvimento


com a comunidade, o (re)envolvimento com o corpo físico e, por
fim, o (re)envolvimento com a alma ou nossa dimensão espiritual.
Alguns temas passaram a pautar esse movimento, como a
defesa do vegetarianismo, de valorização das culturas tradicionais
ou não-modernas, a diversidade religiosa, o parto humanizado etc.
Dos 4 eixos, o que a ONG Círculo de São Francisco se “especializou”
foi no (re)envolvimento com a alma. É neste contexto que nasceu
a Animagogia que completou, em maio de 2019, 16 anos de prática.
Mas é importante ressaltar sempre que a Animagogia não é uma
doutrina religiosa, mas uma prática educativa espiritualista e
transreligiosa, bebendo em várias fontes, mas com um único
objetivo: integrar o Self e o ego, despertando os atributos espi-
rituais universais (felicidade incondicional, amor universal, paz
interior, equanimidade, humildade etc.) de forma que a vida
humanizada seja vivenciada com habilidade espiritual.
A Apometria e a TVI segundo a Animagogia 247