Вы находитесь на странице: 1из 147

No Coração do Oeste

The rancher's wife

Lynda Trent

ALMAS GÊMEAS?
Oklahoma, América do Norte.
Elizabeth Parkins tinha sido abandonada pelo marido na imensidão do Oeste, uma terra onde só
os fortes sobrevivem Agora o destino a entregava nas mãos de Brice Graham, um homem que lhe
oferecia a realização de todos os seus sonhos e desejos.
No entanto, ela tinha medo de se entregar. O preço apagar era alto: sua alma... seu coração!
Quando Elizabeth Parkins entrou em sua vida, Brice Graham acreditou ter encontrado o caminho
para driblar a solidão que o consumia seus dias no recém criado território de Oklahoma. Ali
estava a mulher dos seus sonhos e a mãe ideal para sua filha Mas será que isto bastaria para ela
também? Afinal, Elizabeth era uma mulher especial que, diferentemente de todas as outras em
seu tempo, ansiava por ser senhora do próprio destino...

Digitalização e Revisão: Alice Maria


Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Querida leitora,
A imensidão do Oeste americano já inspirou muitas autoras a escrever histórias de
amor. Posso dizer que nenhuma tão emocionante quanto esta.
Deliciosa, envolvente, de fazer brotar lágrimas aos olhos. Tenho certeza de que você
vai adorar encerrar o ano de 1999 lendo esta magnífica história. E um prenuncio
para o próximo ano: prenuncio de felicidade!

Janice Florido Editora Executiva

Copyright © 1999 by Lynda Trent


Publicado originalmente em 1999 pela
Harlequin Books, Toronto, Canadá.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito


de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada por acordo com a


Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra, salvo os históricos,


são fictícios. Qualquer outra semelhança com pessoas
vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: The rancher's wife

Tradução: Maysa Prande


Editor: Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobón
Paginador: Nair Fernandes da Silva

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Rua Paes Leme, 524 - 10º andar
CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 1999
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda.
Impressão e acabamento: Gráfica Círculo.

CAPÍTULO I

2
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

U ma rajada de vento passou zunindo ao lado da velha cabana e Elizabeth


rezou para que a tempestade não danificasse ainda mais o celeiro. Bem, não era um
celeiro na real acepção da palavra, como aquele que possuíam em Hannibal, porém, era
tudo que a velha égua tinha para lhe servir de abrigo. O marido de Elizabeth havia
saído com o cavalo, portanto, a pobre égua só podia contar com o próprio corpo para
mantê-la aquecida durante a primeira tempestade de neve do ano.
Na verdade, nada havia saído como Elizabeth planejara ao se casar com Robert
Parkins, sete anos antes. Na época, ela tinha dezessete anos e estava ansiosa para se
livrar do domínio tirânico do pai. Ao mesmo tempo, acreditava piamente que estivesse
apaixonada por Robert e sonhava que fossem morar numa linda casa repleta de crianças
e, claro, cheia de amor. Mas agora, aos vinte e quatro anos, Elizabeth Parkins não tinha
nem as crianças nem tampouco uma casa decente para morar. Restara-lhe apenas Robert
e uma gigantesca desilusão. Quanto à velha cabana onde viviam desde o último verão,
dificilmente poderia ser considerada mais que um mero abrigo para protegê-los das
intempéries do velho oeste americano.
Robert ganhara a cabana e alguns acres de terra num jogo de pôquer, há quase um
ano.
Na ocasião, dez alqueires e uma mina de ouro no recém-criado território de
Oklahoma lhes pareceram um sonho que se tornava realidade. Mas Elizabeth deveria
ter sabido que não seria bem assim.
Desde que haviam se casado, Robert tinha trabalhado como funcionário dos
correios, mensageiro de um banco, aprendiz de ferreiro e em inúmeros outros trabalhos,
mas nunca ficara mais que alguns dias em qualquer um deles.
O pior era que assim que recebia um pouco de dinheiro, seu marido gastava tudo
nas intermináveis rodadas de pôquer. Talvez por isso mesmo Elizabeth tivesse
enterrado o último de seus sonhos de felicidade quando descobrira que a velha cabana e
o buraco na montanha, que teoricamente deveria ser uma mina de ouro não passavam
de mais uma ilusão em sua trajetória ao lado de Robert.
De repente, o vento soprou mais forte, trazendo-a de volta à realidade. A
portinhola que dava acesso ao interior da cabana ameaçou abrir diante da ousadia da
força da natureza. Alarmada, Elizabeth pegou uma cadeira e colocou-a diante do
arremedo de porta, na esperança de mantê-la fechada. Sempre tivera medo de
tempestades e agora estava lutando consigo mesma para não ficar petrificada.
Robert tinha ido a cidade em busca de suprimentos, mas a viagem que não deveria

3
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

levar mais que dois dias já durava uma semana. Como sempre, ele havia adiado as
compras até que estivessem praticamente sem mantimentos, por isso, Elizabeth estava
comendo o mínimo possível, a fim de sobreviver até que o marido regressasse.
Desde o começo, Robert havia acreditado na existência da mina de ouro e ficara
feliz que não houvesse vizinhos por perto para vê-lo procurar a tão sonhada riqueza.
Porém, para Elizabeth, acostumada a viver na cidade, a ausência de vizinhos num raio
de dezenas de quilômetros tinha sido aterradora. Sim, eles esta-vam sozinhos no alto da
colina rochosa, há quase cinqüenta quilômetros da cidade mais próxima e há quase dez
de qualquer outro ser humano que vivesse na região.
Em quase um ano, a mina de ouro nunca tinha produzido nem uma grama do
precioso metal, apesar de Robert ter trabalhado com afinco, ou pelo menos, com tanto
afinco quanto ele era capaz de demonstrar. Todos os dias, depois de terminar suas
tarefas, Elizabeth o ajudava a peneirar dezenas de pedregulhos sem valor. Tudo por
nada. Até mesmo Robert finalmente admitia isso.
Para piorar, a terra não era boa para o plantio e pequena demais para se criar
gado, mesmo os de chifres compridos, que eram capazes de sobreviver em áreas com
pouca pastagem. Sim, o único pedaço de chão razoavelmente plano por ali era o que
estava sob a cabana, se é que podia chamar a choupana onde viviam assim. Para seu
desespero, o casebre era coberto por sapé e embora isso tivesse ajudado a refrescá-lo
durante o primeiro verão que passaram ali, o material era terrivelmente úmido e
deixava vazarem grossos pingos quando chovia muito forte.
Como se não bastassem tantos inconvenientes, insetos dos mais variados
tamanhos e espécies faziam ninho no telhado e viviam caindo sobre a mesa onde
Elizabeth e Robert costumavam comer. O chão também era de uma pedra rústica e
escura, tal qual as paredes. Na verdade, não havia um único detalhe ali que pudesse ser
considerado bonito ou agradável aos olhos. Até mesmo os acolchoados coloridos que
Elizabeth trouxera consigo estavam começando a estragar por causa da umidade
excessiva. De repente, a portinhola balançou diante de mais uma investida da forte
rajada de vento, obrigando-a a se sentar na cadeira para evitar a entrada do sopro
gélido, que parecia determinado a roubar-lhe o pouco que restava de calor e proteção.
Por sorte, não durou muito e o peso dela na cadeira foi capaz manter a porta no lugar.
Ora, pelo menos não teria de se preocupar com o possível desmoronamento da
cabana, falou para si mesma, agradecendo aos céus por a construção das paredes ter
sido feita com pedras. O maior problema agora seria o teto resistir ao peso da neve que
poderia se acumular sobre ele.
Ah, mas Elizabeth se recusava a chorar. Desde que se entendia por gente,
detestava chorar, afinal, o gesto não resolvia nada e só servia para fazê-la sentir-se

4
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

ainda mais vulnerável. Em vez disso, tentava manter intacto o ressentimento que
nutria por Robert, o que não era difícil, pois seu marido tivera tempo mais que
suficiente para ir até a cidade de Glory, comprar os mantimentos, embebedar-se, depois
jogar pôquer até perder todo o dinheiro que lhe restava e voltar para casa. Um homem
podia muito bem viajar quarenta e oito quilômetros a cavalo em único dia. Então onde
estava Robert?
Elizabeth tentou por a culpa na tempestade. Não que imaginasse que o marido
tivesse sido surpreendido por ela no meio do caminho. Afinal, a tempestade se formara
no céu de Oklahoma durante um dia inteiro antes de desaguar com toda força sobre a
paisagem quase deserta. Além do quê, Robert era muito bom quando o assunto era
auto-preservação, portanto, não iria se arriscar em uma tempestade de inverno apenas
porque sabia que estava sozinha em casa e quase sem comida.
Enquanto Elizabeth continuava mergulhada em seus pensamentos, a direção em
que o vento soprava mudou, deixando-a livre para se levantar da cadeira e caminhar
pelo pequeno cômodo. Havia pouca mobília para interceptar-lhe os passos.
A cama ficava recostada contra a parede dos fundos, bem como a outra única
cadeira que possuíam. Em poucos meses, o tapete que haviam trazido fora carcomido
pela umidade e agora tinha sido relegado à condição de farrapos que ela jogara no
celeiro.
Embora fosse uma excelente tecelã, Elizabeth não via o menor sentido em tecer
outro, não para aquele lugar inóspito em que vinham morando!
Ela deu um longo suspiro e tentou não lembrar que seu pai era um homem muito
bem estabelecido em Hannibal. O problema era que seria impossível não fazer
comparações entre passado e presente. Recordando-se da casa cheia de móveis
entalhados e ricos tapetes com franjas, quadros em todas as paredes e empregados
bastante eficientes, concluiu que vivera num paraíso perto do que tinha agora. Não que
sentisse falta das atitudes dominadoras do pai, mas ansiava por um pouco mais de
conforto e tinha saudade da mãe, que morrera pouco antes de ela se casar com Robert.
Aliás, sabia muito bem que, apesar de tudo, a mãe teria insistido para que ficasse com
Robert até o fim, não importando as condições em que viviam. A idéia de que o
casamento era sagrado havia sido incutida em sua mente desde que era uma menininha
de tranças longas e rostinho sardento. Naquela época, para as famílias de bem o
divórcio era uma terrível injúria e os corrompidos por tal depravação não eram vistos
com bons olhos pela pudica sociedade colonial americana. Principalmente as mulheres,
que eram acusadas de terem falhado em seu papel de esposa e mãe. Quase sempre as
justificativas para o fim de um casamento eram que a esposa se mostrara tão ineficiente
ou devassa que o marido se vira obrigado a mandá-la embora. O que, na maioria das

5
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

vezes, não passava de uma desculpa deslavada para se livrar de alguém que havia
envelhecido.
Mas, certamente, se sua mãe soubesse como era seu casamento a teria encorajado a
partir, não!?, Elizabeth ponderou. Ora, de nada adiantaria ficar especulando.
Sua mãe estava morta e enterrada em Hannibal e ela não teria lugar para ir, mesmo
se quisesse. O pai nunca a amara de verdade e poderia se recusar a recebê-la de volta.
Além do quê, não queria retomar a vida que levava antes de se casar. Também não teria
dinheiro para viajar ao Missouri, pois Robert havia levado tudo o que lhes restava para
comprar alimentos com os quais enfrentariam o rigoroso inverno que começava.
Com a lamparina nas mãos, Elizabeth foi até a porta e removeu a tranca. Com
cuidado, abriu um pouquinho a folha de madeira improvisada e espiou lá fora. O ar
frio estava denso e pequenos flocos de neve atingiram suas faces e mãos. A neve já
estava com uns cinco centímetros de altura, os montes brancos acumulavam-se bem
próximo da porta e a tênue luz da lamparina foi engolida pela escuridão da noite.
Fechou a porta rapidamente, antes que os flocos brancos e gélidos pudessem bloquear a
entrada da cabana. Se continuasse assim, estaria cercada pela neve ao amanhecer. Como
poderia ir até o celeiro verificar se estava tudo bem com a égua ou até mesmo para
alimentá-la? E o que iria fazer se Robert nunca mais voltasse para casa!? A resposta era
assustadora demais para que pudesse levá-la em consideração.
Sabendo que deveria se concentrar em outra atividade a fim de preservar sua
sanidade mental, Elizabeth pegou o único livro que ainda possuía de sobre o criado-
mudo. Tinha lido Os Mistérios de Udolpho tantas vezes que as páginas já estavam
gastas, prontas a se rasgarem ao menor toque descuidado. Era o único pertence que
havia trazido da casa do pai, além das roupas, mas era seu livro favorito e não poderia
tê-lo deixado para trás. Embora fosse uma história bastante longa, havia memorizado
páginas e páginas, pois em noites assim, quando a realidade estava prestes a levá-la à
terra inóspita da loucura, o livro era seu único amigo e companheiro. Tentando ignorar
o som agudo do vento e dos flocos de neve que se chocavam contra as paredes de pedra,
Elizabeth sentou-se na cama e começou a ler sob a tênue iluminação da lamparina. Era
uma mulher sozinha, num território distante, numa época hostil onde somente os fortes
sobreviviam.

Lá embaixo, no vale, Célia Graham olhou para o marido e, caprichosa, bateu os


pés no chão.
— Eu odeio este lugar! — gritou Célia, como uma criança mimada. — Você me
trouxe para bem longe de todos os que amo e ainda por cima quer que eu me sinta feliz
por viver neste rancho esquecido por Deus!?

6
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Brice olhou-a, irônico.


— Quando nos casamos, você estava ansiosa para vir para cá e se ver livre das
interferências de sua mãe — lembrou-a sem alterar o tom de voz. — E eu tinha a
impressão de que era amado e que seria a coisa mais importante de sua vida para
sempre.
— Ah, sim, como sempre, você interpreta minhas palavras de modo errado. Não
me importo, aliás, não me importo mais com nada que você possa dizer ou fazer. — Seu
lábio inferior projetou-se num trejeito arrogante. Ela odiava ficar presa ali, no rancho de
Brice, longe de sua família e das lojas que tanto adorava visitar na cidade. Odiava,
especialmente, o fato de estar grávida de oito meses, gorda e pesada, sem ter roupas
elegantes que lhe servissem. — Você pode dizer o que quiser, mas garanto-lhe que
nunca mais vou ter outro filho! — explodiu chorosa.
Brice ergueu o rosto do livro de contabilidade do rancho que estivera analisando.
— O que nosso filho tem a ver com isso? Teríamos tido filhos se tivéssemos
continuado a morar em Saxon. Também sinto falta do Texas, mas você não está dando a
menor chance de o território de Oklahoma provar que pode ser um bom lar para nós e
para a família que estamos construindo.
— É porque este fim de mundo não merece chance alguma! — Ela olhou em torno
da sala ricamente mobiliada como se fosse uma desprezível choupana. —Este lugar é
horrível. Não tem nada de charmoso, está muito longe de fazer jus à elegância da casa
de minha mãe. Homens não tem a mínima idéia de como decorar uma casa.
— Mas você gostou bastante daqui na primeira vez que viu. Lembro de tê-la
ouvido dizer que gostaria que sua mãe nos visitasse logo, pois ela ficaria com inveja de
tamanho bom gosto.
Célia fez uma careta. Odiava quando Brice repetia suas palavras, mesmo que
fossem verdadeiras. Céus, ele tinha uma memória impressionante, nunca esquecia de
nada!
— Isso é ridículo! — protestou Célia, tentando demonstrar toda sua indignação. —
Nunca teria sido tão mesquinha a ponto de classificar minha mãe como uma pessoa
invejosa.
Brice a fitou de soslaio. Era melhor ficar calado do que iniciar mais uma de suas
longas discussões com Célia. Seria perda de tempo discutir com a esposa, além do mais,
estava muito ocupado para dar atenção a seus excêntricos caprichos. Se a ignorasse, ela
acabaria esquecendo aquela bobagem e voltariam a conviver em paz, ou pelo menos,
com tanta paz quanto era possível se ter ao lado de alguém que exige devoção e
submissão em tempo integral.
Todavia, Célia não estava disposta a ser ignorada. Apoiando a mão sobre o ventre

7
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

protuberante, fuzilou-o com o olhar. Odiava Brice! Sim, era culpa do marido que tivesse
perdido a cintura delgada, provavelmente para sempre, e que seus pés e mãos
estivessem tão inchados. Detestava crianças e não via a hora de ter o bebê e voltar a ser a
mulher de antes, pois uma vez que o filho não estivesse mais dentro de seu corpo,
poderia entregá-lo aos cuidados de uma criada e esquecê-lo de vez.
Seu ódio tornou-se ainda maior quando viu Brice sair da sala e deixá-la falando
sozinha. Furiosa, seguiu até a escrivaninha e deixou-se cair na cadeira estofada que
havia ali. Sem pestanejar, pegou a pena e mergulhou-a no tinteiro com toda força.
"Queridos pais", ela começou a escrever, dando vazão ao ódio que a corroia
interiormente. Na meia hora que se seguiu, concentrou-se em fazer uma longa série de
acusações contra o homem com quem havia se casado e também contra o rancho onde
moravam desde então. Mesmo que este fosse um assunto muito íntimo, não ficou nem
um pouco constrangida de relatá-los aos pais, afinal, tudo o que queria era se vingar de
Brice por tê-la ignorado. Sabia que seus pais viriam buscá-la assim que desse à luz,
pondo fim a seu suplício. Imagine só, uma moça educada como ela ter de viver o resto
de sua vida num lugar que não tinha nem os recursos nem o glamour europeu do leste
americano!
— Consuela! — ela chamou a criada, assim que terminou de selar a carta.
Quase que imediatamente, uma mulher de cabelos e olhos escuros como a noite
surgiu no aposento.
Célia entregou-lhe o envelope.
— Mande Manuel levar esta carta ao correio amanhã bem cedo.
Consuela olhou através da janela envidraçada e franziu o cenho diante da fúria da
tempestade de neve que caía lá fora.
— Tem muita neve, señora Graham. Manuel pode não conseguir chegar até Glory
amanhã.
Célia dirigiu-lhe um olhar de escárnio.
— Você ouviu minhas ordens, Consuela. Um pouco de neve não vai machucar um
homem forte como seu marido.
— Si, señora — capitulou a mulher, sabendo que nada faria sua teimosa patroa
mudar de idéia.
— Já estou pronta para ir para a cama agora. — Célia virou-se e começou a seguir
para as escadas. Não disse boa-noite a Brice, e nem mesmo procurou por ele
antes de se recolher. Assim, seguiu para o quarto no topo da escada, tendo
Consuela bem atrás de si, para ajudá-la a se livrar do pesado vestido com muitas
anáguas. De repente, uma idéia quase absurda lhe ocorreu e ela voltou-se com olhos
arregalados para a criada.

8
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— O que seu povo costuma fazer para antecipar o nascimento dos bebês? Tenho
certeza de que vocês conhecem ervas que podem fazer isso.
Consuela franziu o cenho, mas continuou a desabotoar o vestido da patroa.
— Não existe um jeito seguro de se fazer isso. E ainda falta um mês ou mais para o
seu bebê nascer, señora. É muito perigoso.
— Não vejo como umas poucas semanas possam fazer diferença — Célia revidou,
odiando ser contrariada. — Deve haver alguma maneira de se apressar esse parto —
falou convicta e continuou a pensar no assunto quando se aninhou embaixo das
cobertas. Tinha de haver uma maneira de adiantar o nascimento do bebê e ainda por
cima se vingar de Brice. Ah, tinha!

Pela manhã, a tempestade de neve havia passado, mas ainda estava escuro para os
lados das montanhas Ouachita. Através da janela na parte sul da cabana,
Elizabeth observou que, pelo menos ali, o céu estava lutando para se livrar das
nuvens carregadas, o que era um alívio.
Com uma panela nas mãos, ela seguiu para a porta e abriu-a para limpar parte da
neve que se acumulara diante da entrada da cabana. Seu progresso era lento, mas
finalmente conseguiu chegar até o arremedo de celeiro que mantinham poucos passos
adiante. A princípio, o cômodo escuro estava gélido e silencioso. Um nó se formou na
garganta de Elizabeth quando lhe ocorreu que poderia ser o único ser vivo que
sobrevivera ao frio daquela noite. Mas, então, um som abafado se fez ouvir,
reacendendo-lhe a esperança. Logo que seus olhos se acostumaram com a escuridão,
avistou a égua aninhada nos fundos do celeiro. Quando caminhou em direção ao
animal, ouviu-o emitir um som que parecia mais uma saudação de boas-vindas.
— Ah, que bom ver que está bem! — Elizabeth exclamou, acariciando-lhe o dorso.
— Estava muito preocupada com você — admitiu, ao perceber que a égua estava
tremendo. — Sinto muito por tê-la deixado passar tanto frio. Este celeiro tem buracos
tão grandes entre as tábuas que eu poderia passar minha mão por eles — resmungou,
pensando que deveria ter insistido mais para que Robert consertasse o celeiro antes de o
inverno chegar. Mas como poderia saber que ele iria partir para a cidade e demorar
tanto para voltar?
De repente, o vento soprou mais forte lá fora, e, através dos buracos na madeira,
invadiu o celeiro sem o menor pudor.
Elizabeth estremeceu.
— Não posso deixá-la aqui para morrer congelada — ela disse à égua que a fitava
com olhos oblíquos. Ora, situações desesperadoras pediam medidas desesperadas,
pensou, chutando o cocho de água para que o gelo que se formara na superfície

9
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

quebrasse e pudesse removê-lo. Carregando o cocho com uma das mãos e puxando a
égua com a outra, retornou ao interior da cabana. O animal relutou em entrar na casa de
seus donos, mas Elizabeth o empurrou com força, até que passasse pela soleira da porta.
Ora, a cabana já era minúscula por natureza, com a égua ali, então, parecia ainda menor.
— Só espero não estar cometendo um grande erro — disse a si mesma, enquanto
prendia sua companheira de infortúnio na parede dos fundos do cômodo. — Mas esta é
a única maneira de impedir que você congele, minha cara.
Respirando fundo, encheu o cocho com neve e colocou-o próximo ao animal, para
que este tivesse água assim que a neve derretesse. Claro que a égua não era a
companhia ideal e também exalava um odor fétido, mas, de alguma forma, ajudava-a a
não se sentir tão só. Sem falar que não ficaria preocupada com o fato de que a pobre
criatura poderia morrer congelada lá fora. Suspirando, Elizabeth colocou outro pedaço
de madeira no fogo e tentou se concentrar no acolchoado que estava fazendo com o
tecido de um vestido velho e com os retalhos das camisas mais rotas de Robert. Aliás,
Robert ficaria furioso se ao chegar descobrisse a égua dentro da cabana, mas Elizabeth
não se importava. Ela faria tudo o que fosse necessário para sobreviver.
No entanto, outros três dias se passaram e Robert Parkins não regressou. A neve
tinha derretido parcialmente e como o vento já não fosse tão gélido e ameaçador, a égua
voltou para o antigo alojamento. O problema era que todo o suprimento de que
Elizabeth dispunha resumia-se em duas mãos cheias de milho, o dobro disso em farinha
de trigo, duas tiras de carne de cervo defumada e um punhado de feijão. Mais uma ou
talvez duas noites e o óleo para a lamparina também teria terminado, o que a deixaria
na mais completa escuridão. Portanto, não podia esperar mais pelo regresso do marido.
Era imperativo que procurasse comida.
Determinada, foi até o celeiro improvisado e colocou as rédeas na égua. Não havia
sela, a única que possuíam Robert usara no cavalo que montara para ir à cidade de
Glory, mesmo assim, Elizabeth não se importou com tal detalhe. Com uma das facas de
caça do marido dentro do bolso da capa de lã e um rifle nas mãos, conduziu a égua até o
toco ressequido que usava como um degrau para montar.
Assim que se acomodou sobre o lombo do animal, percebeu que este estava muito
mais magro do que da última vez que o montara. O que não era de admirar, pois a ração
estava quase acabando e nas últimas semanas tivera de lhe dar metade da porção
habitual.
— Somos companheiras de infortúnio até nisso, não? — ela falou, acariciando o
pêlo maltratado pelo frio, pouco antes de incitar a égua a seguir pelas trilhas sinuosas
que recortavam a colina.
Elizabeth nunca havia segurado um rifle antes, mas sabia que, para seu próprio

10
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

bem, tinha de tentar fazer o melhor possível. Afinal, se não conseguisse caçar algo para
comer, teria de ir até a cidade e isto poderia ser muito mais perigoso, já que não estava
certa sobre qual direção tomar. Só havia estado em Glory uma vez e o território de
Oklahoma lhe era tão inteiramente novo, que não conseguia se lembrar de todos os
detalhes, não havia uma trilha específica, o que só fazia piorar suas chances. Nervosa,
apertou os pés contra o flanco do animal, forçando-o a trotar mais rápido.
O bom senso lhe dizia que deveria seguir em direção ao vale, lá embaixo, pois não
havia razão para que os animais deixassem o lugar, relativamente mais seguro
e protegido dos ventos frios que assolavam o topo da colina onde ficava a cabana
dos Parkins.
Não tardou muito em avistar um pequeno coelho escondido em meio a um tufo de
vegetação castigado pelo frio. Mas, assim que ajeitou a arma para atirar, o animalzinho
fugiu veloz. Só então ela se deu conta de que seria mais difícil do que previra. Primeiro
porque se atirasse do lombo da égua, esta poderia se assustar com o som do disparo e
sair correndo em disparada. Segundo porque não havia pensado em uma maneira
prática de levar uma caça grande de volta para casa. Sua única alternativa seriam os
coelhos, e estes eram rápidos demais para alguém inexperiente com armas.
Uma onda de pânico tomou conta de Elizabeth, mas ela lutou bravamente contra
isso. Iria sobreviver, precisava sobreviver e foi justamente esse sentimento que a fez
rodar indefinidamente pela paisagem inóspita.
Muitas horas depois, Elizabeth chegou até uma das elevações naturais na encosta
da colina. Ao olhar para baixo descobriu-se observando o rancho de seus vizinhos mais
próximos.
Uma charmosa casa de dois andares destacava-se entre um pequeno bosque de
choupos nativos. A casa era toda pintada de branco e suas janelas tinham vidros de
verdade, ao contrário do que acontecia na cabana dos Parkins. Pouco atrás da
construção principal destacava-se um celeiro, muito parecido com o que seu pai possuía
em Hannibal, e um grande galinheiro cercado com ripas de madeira. No curral, bem ao
lado do celeiro, havia alguns cavalos e um casal de vacas leiteiras. Como se não
bastasse, pastando nas encostas da colina também havia gado de cara branca que,
obviamente, pertenciam aos afortunados vizinhos. A cena era tão encantadora quanto as
figuras que Elizabeth costumava ver nos livros que deixara em Hannibal. Num impulso,
ela ajeitou os longos cabelos negros no coque que usava e alisou o vestido sob a capa de
lã. Pela aparência do lugar, estava certa de que os vizinhos eram pessoas que tinham um
bom estoque de provisões. Odiava ter de pedir alimentos emprestados, mas não lhe
restava outra escolha.
Então, no exato momento em que chegou ao pátio defronte à casa, dois cachorros

11
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

labradores vieram recepcioná-la, abanando a cauda com satisfação.


Não muito longe dos animais estava um homem alto, de ombros largos e cabelos
castanhos. Ele sorriu ao vê-la.
— Boa tarde, senhora. É bom vê-la. Não costumamos receber muitos visitantes por
aqui.
Elizabeth teve dificuldade para responder. Os olhos dele eram castanho-escuros e
a pele bronzeada contrastava com a brancura e a perfeição dos dentes. A despeito da
altura incomum, sua voz era suave e gentil, com um leve sotaque que parecia ser
texano. Quando percebeu que estava olhando para o desconhecido com mais interesse
do que seria permitido a uma dama demonstrar, corou intensamente. Tentando se
recompor, acariciou a crina da égua e disse:
— Olá, meu nome é Elizabeth Parkins. Somos vizinhos.
— Somos mesmo? — Ele parecia intrigado. — Não sabia que havia outros
colonizadores nesta área.
— Bem, moramos lá em cima na colina. O lugar pertencia ao sr. Snodgrass antes
de virmos para cá.
— Snodgrass!? — Era óbvio que ele conhecia o ex-proprietário da cabana. —
Refere-se ao velho Zeb?
— Isso mesmo.
— Ora, que surpresa. Mas entre e se aqueça um pouco. Minha esposa ficara feliz
em conhecê-la — convidou-a com um largo sorriso. — A propósito, meu nome é Brice
Graham. — Ele segurou as rédeas da égua para que Elizabeth pudesse desmontar.
Por mais que quisesse, Elizabeth não conseguiu reagir com naturalidade ao
perceber que os olhos escuros estavam fixos em seu rosto. Evitando encará-lo, mudou o
rifle de uma mão para outra, pois não sabia como descer do animal graciosamente, sem
deixar que a arma caísse. De repente, perguntou-se por que de uma hora para outra era
tão importante parecer graciosa!?
O som do vizinho pigarreando chamou-lhe a atenção e quando voltou a olhar para
ele percebeu que este havia estendido a mão como se tivesse a intenção de segurá-la
pela cintura a fim de ajudá-la a descer.
Antes que pudesse se dar conta do que estava acontecendo, Elizabeth já havia
entregado o rifle nas mãos enormes e desmontava apressadamente, quase perdendo o
equilíbrio. Perturbada com o estranho tumulto de emoções que explodiu em seu peito,
Elizabeth forçou-se a exibir um breve sorriso ao mesmo tempo em que alisava a roupa
desajeitadamente.
— A senhora está sozinha?
Ela ergueu o rosto e encontrou os olhos castanho-escuros. Engolindo em seco,

12
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

meneou a cabeça afirmativamente.


— Sim, estava tentando caçar algum animal.
— Entendo. — O charmoso vizinho amarrou as rédeas da égua no pilar da
varanda da frente da casa e sinalizou para que Elizabeth o precedesse nos degraus que
conduziam à porta de entrada. — Pensei tê-la ouvido dizer, "nós" moramos no alto da
colina.
— Sim, meu marido e eu. O nome dele é Robert Parkins, está na cidade agora.
Precisou buscar suprimentos, por isso estou sozinha. — Esperava que o comentário não
tivesse soado muito afetado, afinal, Robert vivia criticando sua maneira de se expressar.
Mas, por alguma estranha razão, de repente, parecera importante que esse desconhecido
soubesse que era casada e exatamente por que seu marido não estava acompanhando-a.
Todavia, ao abrir a porta, Brice perguntou:
— Desculpe-me, senhora. Mas, se seu marido foi à cidade buscar supri-mentos,
por que está caçando?
Elizabeth entrou no hall elegante e suspirou encantada ao divisar a beleza da casa
de seus vizinhos. Bem diante dela estava uma grande escada de carvalho. A parede que
subia até o segundo andar era toda revestida por um adorável papel em estilo floral. À
direita havia uma elegante sala de estar com estofados forrados de veludo vermelho-
granada e mesas com tampo de mármore. Mais a esquerda ficava um gabinete, aliás,
muita parecido com o que havia em sua casa em Hannibal, e automaticamente ela deu
um passo a frente.
— Senhora?
Ele tinha lhe feito uma pergunta e Elizabeth precisou reunir toda dignidade que
lhe restava para responder.
— Bem, Robert partiu há várias semanas.
— Mas Glory fica há apenas um dia de cavalgada daqui — espantou-se o
charmoso vizinho.
— Eu sei. Mas não estou bem certa do dia exato que ele partiu. Não temos
calendário. — Elizabeth vinha marcando a passagem do tempo fazendo pequenos nós
em um ramo de cipó que guardara. Robert julgava isso uma grande bobagem, mas ela
estava determinada a manter-se ligada ao mundo civilizado a qualquer custo.
Brice arqueou as sobrancelhas diante de sua resposta. Parecia levemente
preocupado.
— Talvez tenha acontecido alguma coisa com ele. Eu poderia mandar alguns de
meus homens procurá-lo.
— Não, não. Isso não será necessário. — Por mais que detestasse ficar sozinha, não
queria que ninguém saísse a procura de Robert. O temperamento de seu marido não era

13
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

dos melhores e ultimamente ele até perdera o último resquício de boas maneiras que lhe
restava. Sem dúvida, Robert ficaria ressentido se mandasse alguém a sua procura. —
Imagino que esteja preso por algum negócio. — E, em sua mente, esse negócio tinha
muito a ver com as mesas de jogos do saloon da cidade.
— Então permita que eu arrume alguns suprimentos para a senhora. Ficaria muito
mais tranqüilo sabendo que tem alimento o bastante para mantê-la até o regresso de seu
marido.
— Oh, detesto ter de incomodá-lo desta maneira. — E era a mais pura verdade, ter
de pedir ajuda a estranho, mesmo que fosse para comer e manter a lamparina acesa
durante as longas noites de inverno era como cravejar um punhal no coração de seu
orgulho.
— Não é incômodo algum, senhora. Faço questão. — Brice exibiu um largo sorriso
e Elizabeth sentiu o coração disparar dentro do peito. — Venha até a sala de estar e
descanse um pouco. Deve estar cansada. Esta arma não é nada leve — comentou, antes
de deixar o rifle no hall de entrada e conduzi-la até o interior da sala.
A casa estava decorada de uma forma que teria encantado qualquer mulher.
Cortinas de renda branca cobriam as janelas envidraçadas, e ainda assim permitiam que
a luminosidade banhasse o aposento, tornando-o tão claro quanto estaria se fosse ao ar
livre. Para completar, a sala de estar era separada da sala de jantar em estilo colonial
espanhol por um reposteiro cor de damasco com franjas brancas.
— Sua casa é muito bonita, sr. Graham. Sua mulher tem muito bom gosto. Há
quanto tempo vivem aqui?
— Fui o primeiro colonizador nesta parte do território. Assim que ergui o rancho,
trouxe Célia como minha noiva. — Mal havia terminado de falar, viu a criada surgir no
hall. — Consuela, por favor, diga a Célia que temos visita.
A mulher, obviamente mexicana, olhou com curiosidade para Elizabeth antes de
obedecer as ordens do patrão.
Elizabeth circulou pela sala ricamente decorada, tentando não se comportar como
se há muito tempo não visse tamanha suntuosidade. Contudo, era difícil não se
impressionar com os detalhes de rendas e veludo, e com o cheiro de limpeza de uma
casa que tinha assoalho de madeira encerrado, muito diferente do chão de pedra da
cabana.
Algum tempo depois, ouviu passos se aproximando e voltou-se sorrindo para a
jovem que adentrou no aposento.
Assim que Brice fez as apresentações, Célia Graham percorreu Elizabeth com o
olhar, como se não estivesse muita certa se a queria em sua sala. Aliás, se a jovem sra.
Graham estava feliz em receber a única vizinha, não o demonstrou.

14
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Consciente de seus trajes gastos e quase desbotados, Elizabeth alisou a saia do


vestido e tentou parecer elegante.
— Sente-se, por favor — Célia falou com frieza. — Tem de desculpar minha
aparência, mas não estava esperando visitas.
— Eu é quem preciso pedir desculpas por importuná-los — Elizabeth apressou-se
em dizer. — Não saí para fazer uma visita, mas sim para caçar.
Célia franziu o nariz.
— Você costuma caçar!?
Brice achou que estava na hora de interferir.
— Sei que deve estar feliz por encontrar uma vizinha, querida. Viu só? Não
estamos tão isolados quanto você pensava.
A esposa dirigiu-lhe um olhar de desdém.
— Não repare no estado em que se encontra minha casa, sra Parkins. Brice a
decorou antes mesmo que tivesse colocado meus olhos nela, e imagino que saiba quão
peculiar é o gosto dos homens.
Elizabeth notou a animosidade que pairava entre os Graham e não soube o que
responder. Preferiu esboçar um sorriso polido. Ansiosa por encontrar um assunto
neutro, comentou:
— Vejo que está esperando um bebê? É seu primeiro filho?
Célia assentiu com veemência.
— O primeiro e único também. A senhora tem filhos?
— Não, não temos nenhum. — Ainda se sentia culpada por não ter dado a luz a
um filho depois de sete anos de casamento. O futuro seria muito mais solitário sem os
filhos para preencher suas vidas.
— Vou pedir para Consuela separar alguns suprimentos para a senhora — Brice
atalhou. — É bem-vinda para ficar conosco quanto tempo quiser, e também para nos
visitar, sra. Parkins.
— Obrigada, senhor.
Quando ele saiu da sala, Célia inclinou em direção a Elizabeth e confidenciou:
— É tão bom ter uma mulher com quem conversar. Eu odeio este lugar. É tão
solitário!
Elizabeth concordou.
— Sim, é muito solitário por aqui. Oklahoma não é nada do que eu esperava
quando vim para cá.
— Sim, tampouco é o que eu imaginava! — Célia parecia grata por encontrar
alguém que partilhasse de sua opinião. — Brice parece pensar que isto aqui é uma
maravilha, mas eu preferiria voltar para casa, você não?

15
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Não tenho uma casa para onde voltar. Só tenho meu pai, e não creio que ele
ficaria feliz em me receber. Afinal, Robert e eu fugimos para nos casar e papai nunca me
perdoou por isso.
— Ah, ele pode ter mudado de idéia e você não sabe. É difícil mandar qualquer
correspondência para este lugar. Quanto a mim, assim que o bebê nascer e eu puder
viajar, voltarei para casa. Brice poderá vir comigo ou não, ele que faça o que achar
melhor.
— Puxa, sempre quis fazer isso — Elizabeth confessou dando um longo suspiro.
— É surpreendente como somos parecidas.
— Brice acha que sou uma desalmada por querer partir, ele está me mantendo
aqui contra minha vontade — Célia contou, olhando desconfiada para a porta.
— Quer dizer que seu marido é cruel com você? — Elizabeth estremeceu.
Célia revirou os expressivos olhos azuis.
— Nem posso dizer-lhe como é terrível minha vida aqui, minha cara. Nunca
imaginei que um homem, principalmente aquele a quem pensei amar, pudesse ser tão
cruel. Minha mãe estava certa quando me preveniu a respeito dele. — Ela suspirou de
maneira dramática. — Gostaria de poder mudar o passado e voltar a ser uma moça livre
e despreocupada outra vez.
— É tão ruim assim? — Elizabeth estava muito familiarizada com os abusos e
grosserias de Robert para julgar que a confissão fosse um exagero de uma jovem
caprichosa e egocêntrica. — Seu pai viria buscá-la se soubesse que é tão infeliz?
— Claro que viria. Papai é o homem mais sensível e bondoso que conheci. Mas
não posso viajar no estado em que me encontro. — Ela abriu o xale para exibir a
gravidez avançada. — Não, não posso escapar até que o bebê nasça e eu recupere
minhas forças. — Deu de ombros. — Tremo só em pensar no que Brice irá dizer ou fazer
quando souber que estou partindo.
— Que terrível! Olhando para seu marido ninguém diria que é tão temperamental.
— Eu sei, foi assim que ele me convenceu a aceitar seu pedido de casamento.
Estou mais triste, mas também muito mais sábia depois de tudo o que passei com Brice.
— Quando o bebê deve nascer?
— Em breve... eu espero.
— Por favor, mande me chamar quando chegar a hora. Moro na cabana do sr.
Snodgrass — Elizabeth hesitou diante do olhar que Célia lhe dirigiu. A jovem loira não
parecia mais tão amigável depois de tal revelação. — Não sei muito sobre partos, mas...
— Consuela cuidará disso. Porém, suponho que precisarei ter mais alguém
comigo.
— Claro. Virei tão logo mande me chamar. — Elizabeth estava determinada a se

16
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

tornar amiga daquela mulher. Então, de súbito, olhou para o relógio que havia sobre a
lareira. — Tenho de ir agora. É mais tarde do que eu pensava.
— Certamente. Não gostaria de vê-la atrasar-se.
Elas ficaram em pé e Elizabeth apertou a mão de Célia Graham num gesto
amigável. A jovem loira cheirava a talco e água de rosas, o que fez Elizabeth ficar mais
consciente dos remendos que havia na barra de seu vestido desbotado. Fazia tanto
tempo que não era capaz de se vestir como uma dama e deliciar-se com um pouco de
perfume que, por um momento, teve vontade de chorar. Não que fosse invejosa, no
fundo, queria muito ajudar Célia a se livrar das torturas que sofria nas mãos do marido.
— Prometo voltar assim que puder. — Sorrindo polidamente, começou a se dirigir
para a porta.
Célia Graham não a acompanhou, mas Elizabeth julgou que caminhar era um
suplício para a uma mulher grávida.
Em contrapartida, ao ouvir a visitante inesperada cruzar o hall de entrada, Brice
uniu-se a ela. As mãos fortes carregavam dois sacos de mantimentos amarrados um ao
outro por um cordão branco.
— Tem suprimentos suficientes aqui para durar pelo menos uns quinze ou vinte
dias. Também coloquei um pouco de óleo para as lamparinas.
— Oh, muito obrigada. — Elizabeth sentia-se estranha na presença dele,
principalmente agora que sabia o quanto era cruel com a esposa.
— Algo errado, sra. Parkins? Célia disse alguma coisa que a aborreceu?
— Oh, não, não — mentiu. Ele era tão bonito, e os olhos escuros pareciam tão
gentis que era difícil acreditar que tivesse um temperamento violento.
— É bom saber que nosso vizinho mais próximo está há menos de uma hora de
cavalgada — Brice começou a dizer ao conduzi-la até os degraus da varanda da frente.
— Tão perto assim!? — Elizabeth espantou-se. — Quero dizer, cavalguei durante
horas a fio antes de avistar seu rancho.
— Imagino que tenha andado em círculos. O caminho mais rápido até sua casa é
seguindo em direção à rocha em forma de ovelha. Depois de passar por ela, siga por
entre a fenda que existe na rocha mais atrás e vai sair bem próximo à cabana. Fui
algumas vezes até a mina do velho Zeb — declarou, fitando-a com ar pensativo. — Não
fazia a menor idéia que alguém estivesse morando lá atualmente.
— Robert ganhou a propriedade num jogo de pôquer. Estamos morando ali desde
o último verão.
— Então tiveram tempo para fazer algumas melhorias no lugar. — Brice riu. — O
velho Zeb já se dava por satisfeito tendo algumas pedras para lhe servir de abrigo,
porque passava grande parte do tempo cavando na mina. Ele estava convencido de que

17
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

havia ouro ali. Não importava que nunca ninguém tivesse visto nem sequer uma lasca
do vil metal — completou, com uma expressão divertida.
Brice parecia tão gentil e agradável! Com certeza fora muito fácil para uma garota
delicada como Célia se apaixonar por ele.
— Devo reconhecer que o lugar estava completamente abandonado, mas Robert
não se importou. — Elizabeth ouviu a exasperação que transparecia na própria voz e
tentou se conter, uma esposa nunca deveria falar mal do marido. — Mas tenho
esperança de que, pelo menos aquele buraco nas rochas que o antigo proprietário
chamava de mina de ouro, um dia possa vir a ser transformado em um celeiro para as
raízes que plantarmos — acrescentou, mas ocultou que ainda não conseguira fazer
nenhum tipo de alimento crescer no solo rochoso, nem mesmo batatas.
— Tem certeza de que não quer que mande meus homens procurarem por seu
marido?
— Não será necessário, obrigada. Robert é do tipo que fica fora por quanto tempo
lhe aprouver. Não que eu o esteja recriminando por isso — apressou-se em explicar. —
Ele voltará para casa um dia desses, pode ser até que já tenha chegado a essa altura dos
acontecimentos. E, pode ficar tranqüilo que pagarei pelos alimentos que me emprestou
assim que meu marido retornar, sr. Graham.
— Não. Por favor. Nós plantamos a maioria dos alimentos que está levando e o
óleo para a lamparina é realmente muito barato. Quero que aceite essas coisas como um
presente de boas-vindas. Só lamento que tenha sido tão atrasado. Se soubesse que tinha
vizinhos teria ido visitá-los.
Elizabeth sorriu, tentando não demonstrar o quanto estava relutante em partir.
Agora, pelo menos, sabia como encontrar Célia e o rancho dos Graham. Mas como
poderia visitá-los?
Robert não iria querer que ficasse fora de casa por horas seguidas. Havia sempre
muito trabalho para fazer lá e, em suas hora de folga, tentava ajudá-lo com a mina.
Alheio aos sentimentos que a dominavam, Brice colocou os dois sacos de
suprimento, um de cada lado, sobre o lombo da égua e franziu levemente o cenho ao
voltar-se para Elizabeth.
— A senhora cavalga sem sela?
— Bem, na verdade, só temos uma sela. Não me importo muito com isso, a não ser
pelo fato de ficar mais difícil montar e desmontar — confessou, levando o animal para
mais perto dos degraus a fim de montá-lo. Todavia, antes que se desse conta do que ele
pretendia fazer, sentiu as mãos enormes segurando-a pela cintura. No minuto seguinte
estava sentada sobre o lombo da égua.
Brice entregou-lhe o rifle nas mãos e deu alguns passos atrás.

18
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

No entanto, o calor dos dedos longos que haviam se fechado em torno de sua
cintura gravada em sua memória para sempre, e o sangue correu mais rápido em suas
veias quando se deu conta disso. Não, não lhe faria nenhum bem voltar ao rancho para
uma visita.
— Obrigada — agradeceu e sua voz não era mais do que um sussurro.
— Não há de quê, senhora. Aqui na fronteira temos que nos ajudar mutuamente
para sobreviver.
Elizabeth disse a si mesma que estava sendo tola. Brice Graham só queria ser
gentil. Como ele podia ser tão violento quanto Célia sugerira e ainda assim ser capaz de
esboçar um sorriso tão amigável e cativante? Melhor não se preocupar com tais
detalhes. O belo sr. Graham era um homem casado e ela também.
Forçando um sorriso, bateu com o calcanhar no flanco de sua montaria, que se pôs
a galopar na direção das colinas. Elizabeth ainda olhou para trás para ver Brice lhe
acenando com um sorriso. Se fosse franca consigo mesma, admitiria que ali estava um
homem que se encaixava perfeitamente na beleza e imensidão do território recém-criado
onde havia escolhido viver.
Ele era forte, bonito, misterioso e poderia fazer mil promessas de felicidade com
um simples sorriso.

Como Brice dissera, não levou nem mesmo uma hora para que ela chegasse à
cabana e colocasse os preciosos suprimentos no único armário que tinham. Ali havia
alimentos para durarem muito mais do que algumas semanas, mas nem por isso, iria
desperdiçá-los, pois, no fundo, temia que Robert não regressasse.
Dando um longo suspiro, ela sentou-se sobre a cama. Sentia-se culpada por ficar
se perguntando se o que Célia dissera sobre o marido seria verdade.
Talvez sim, ela própria tinha todas as razões do mundo para acreditar que os
maridos poderiam ser verdadeiros tiranos. Ainda assim, achava que não poderia haver
duas pessoas mais diferentes do que Brice Graham e Robert. Até mesmo quando Brice a
tocara sua reação fora instintiva, sentira todo seu corpo vibrar como se ansiasse por ele
na real acepção da palavra.
"Não é de admirar", disse a si mesma, tentando ser racional. Robert estava fora
havia semanas e, mesmo antes disso, fazer amor com seu marido não era mais um
momento de prazer. Pensando bem, não estava certa se um dia tinha sido. Não quando
ele sempre terminava antes que ela começasse a se sentir preparada para o prazer.
Elizabeth tinha tentado convencer a si mesma que era sempre assim no casamento. Os
homens eram criados para gostarem de sexo, mas as mulheres não. E, ela, como muitas
outras, tinha recebido essa mensagem ao longo de toda sua vida.

19
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

O pior era que não acreditava nisso. Claro, fora criada para ser uma dama, mas
havia ocasiões em que gostaria muito que Robert a tocasse com mais delicadeza e
sensualidade. Será que se o marido não tivesse tanta pressa e se preocupasse em dar-lhe
carinho na hora do sexo, não gostaria de fazer amor tanto quanto ele?
De súbito, sua mente a levou de volta a Brice. Seria diferente fazer amor com um
homem como o vizinho charmoso?
Estarrecida com o rumo de seus pensamentos, levantou-se de um salto e tentou se
concentrar em tarefas mundanas. Não podia e nem queria se dar ao luxo de pensar em
tal absurdo. Havia Robert, Célia... e também os intensos sentimentos que começavam a
germinar dentro de seu peito.
O que Elizabeth não sabia era que se existia espaço em seu coração para outra
pessoa, era porque há muito Robert deixara de cultivar e fazer jus à porção de sua alma
que dedicara a ele durante tanto tempo...

CAPÍTULO II

D epois de ter contado o quão miserável se sentia para Elizabeth, Célia estava
mais determinada do que nunca a apressar o nascimento do bebê e abandonar Brice de
uma vez por todas. O marido queria muito o filho e ela sorriu deliciada ao imaginar o
quanto o magoaria se levasse a criança embora do rancho para sempre. Aliás, era
exatamente isto que Brice merecia por tê-la trazido para viver num lugar tão detestável
quanto o território de Oklahoma.
Imbuída de sua sede de vingança, ela intimidou Consuela o máximo que pôde, até
que finalmente a criada preparou uma mistura de mandrágora, colocíntida, raiz
de algodão e vinha indígena. O sabor era horrível e deixava um gosto amargo na
boca, mas, pelo jeito, a poção era eficientíssima, pois em pouco menos de uma hora
Célia começou a sentir as primeiras contrações.
Consuela a colocou na cama e mandou avisar Brice, que se encontrava nas
pastagens da colina, que o bebê estava prestes a nascer.
Ele chegou mais rápido do que Célia julgava ser humanamente possível. Contudo,
entre uma contração e outra a a jovem loira ainda censurou o marido por tê-la colocado
naquela situação. A medida que as contrações se tornavam mais fortes e ela começou a
ter hemorragia, suas palavras reprovadoras foram sufocadas pelo pânico. Não havia
imaginado que seria tão doloroso e, pela expressão de Consuela, podia perceber que
havia algo errado. O bebê deveria ser pequeno e, portanto, nasceria mais fácil, já que

20
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estava um mês adiantado, não? Por que sentia tanta dor?


Quando Brice entrara no quarto, Célia tinha visto Consuela esconder o frasco do
preparado dentro de uma das gavetas do guarda-roupa que bloqueava a porta que
conectava seu quarto ao dele. Porém, se alguma coisa saísse errada, Célia pretendia
mostrar o frasco a Brice e culpar a criada por tudo. Mas por que o bebê não nascia logo?,
pensou quando outra contração a assolou.
Brice viu a esposa arquear o corpo e sentiu-se terrivelmente mal. Sempre soubera
que ela não queria filhos, mas acreditara que mudaria de idéia assim que tivesse um
bebezinho nos braços. Além do quê, não havia meios eficientes para se evitar a gravidez,
a não ser a abstinência. Célia nunca o quisera em sua cama e esta era a principal razão
porque se sentia culpado ao vê-la sofrer para dar a luz ao filho deles. Desde que tinha se
mudado para o quarto ao lado, só se recusara a curvar-se aos desejos dela uma vez e
essa criança era o resultado daquela noite de teimosa ousadia. Na verdade, Brice era
uma pessoa de bom coração e odiava saber que Célia estava sofrendo por sua causa.
— Você quer que eu mande um de meus homens buscar Elizabeth Parkins? — ele
sugeriu, para tentar reconfortá-la.
— Não! — Célia exclamou. — Você sabe que ela mora na cabana que foi do velho
Zeb. Não quero gente dessa espécie em torno de mim. Muito menos num momento
como esse. Quero minha mãe e minhas tias!
— Elizabeth me pareceu uma boa pessoa. Certamente é uma senhora de respeito,
além de estar muito mais perto do que suas mães e sua tia, querida.
— Vá embora, Brice! Saía de minha frente! Queria que você estivesse morto! —
gritou com tanta histeria que a saliva chegou a escorrer-lhe pelo canto dos lábios.
Brice saiu do quarto sem dizer uma palavra.
Cal, seu melhor amigo entre os homens que trabalhavam no rancho, tinha vindo
do alojamento e o esperava na sala íntima da família. Ele era chamado de Cal o caolho,
por causa do estrabismo em seu olho direito. Brice não sabia o seu sobrenome ou de
onde ele vinha, mas eram amigos há anos e desde que chegara ali Cal havia se tornado
seu braço direito.
— Como ela está indo? — o capataz perguntou. Era um homem de poucas
palavras, que dificilmente sorria.
— Não sei. É muito cedo ainda para o bebê nascer. Cedo demais! — Brice foi até a
lareira, e dali para a janela. — E se eu perder os dois, Cal?
— Ah, provavelmente não vai acontecer isto. — Cal sentou-se ao lado do fogo,
mas parecia inteiramente deslocado na sala íntima da família, embora esta não fosse
nem tão grande nem tão luxuosa quanto a sala de visitas.
— Eu deveria tê-la mandado de volta para casa quando vi que não gostava daqui.

21
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Achava que ela acabaria se acostumando depois de um tempo. Estava enganado.


— Ora, as mulheres tem de permanecer junto do marido seja onde for. — Cal não
gostava de Célia e nunca tinha escondido seus sentimentos de ninguém.
Viera até a casa sede do rancho apenas para fazer companhia a Brice. Aliás, Célia
também nunca permitia que ele ou qualquer um dos capatazes chegassem além da
varanda da frente.
Um grito agoniado ecoou do segundo andar da casa, fazendo Brice ir até a porta,
hesitar, então retornar à janela.
— Espere no celeiro — Cal sugeriu. — Vou até lá lhe avisar quando tudo terminar.
— Não, tenho de ficar aqui mesmo. Se Célia é obrigada a passar por isso eu
também devo fazê-lo, sou o pai do bebê, lembra-se? — tentou ser corajoso. Porém, o
grito que se ouviu em seguida o deixou totalmente pálido.
Cal olhou para o teto e respirou fundo, esperando que o som passasse.
Brice voltou a andar de um lado para outro. Tinha necessidade de se movimentar
mesmo que não fosse a lugar algum. A cada grito da esposa sentia como se tivesse sido
ferozmente golpeado.
E o terrível suplício continuou por muito tempo ainda. Horas depois, a voz de
Célia não passava de um gemido rouco. Não podendo se conter, Brice foi até o quarto
dela. Era incrível, mas Célia não parecia mais a mesma pessoa, seus cabelos loiros
estavam molhados e grudavam em torno da face que já considerara muito bonita.
Círculos roxos haviam se formado em torno dos olhos outrora tão azuis.
Consuela fitou o patrão assustada.
— O bebê não está vindo, señor. Acho que está virado.
Não havia necessidade de a criada explicar a Brice o que isto significava. Ele tinha
visto muitos nascimentos de bezerros e sabia bem que o bebê não nasceria se
continuasse em tal posição.
— E você não pode virá-lo?
Consuela meneou a cabeça de um lado para outro, agoniada.
— A señora Graham não me deixará fazer isto.
Brice aproximou-se mais da cama.
— Temos de virar o bebê, Célia.
— Não! Não vou deixar que nenhum de vocês toque em mim!
Ele sentou-se ao lado dela na cama e segurou-lhe os braços gentil, mas
firmemente.
— Você não tem escolha. Está ficando muito fraca para arriscarmos. Consuela,
pode fazer o que é preciso?
— Si — a criada respondeu relutante. Era óbvio que estava com medo da patroa,

22
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

mas ainda assim preparou-se para virar o bebê.


Célia gritou e protestou como se a estivessem maltratando, e não apenas tentando
ajudá-la a dar a luz. Brice, por sua vez, continuou a reconfortá-la com ternura, a
despeito de todos os impropérios que a esposa lhe dirigia.
Minutos depois, Consuela afastou-se e lavou as mãos na enorme bacia de louça
que havia no quarto.
— Então? Conseguiu virá-lo? — perguntou Brice, ansioso.
Silenciosamente, a criada negou com um movimento de cabeça.
— Vou tentar eu, então. — Ajeitando-se numa posição que a esposa não poderia
empurrá-lo, ele fez o que julgou certo e logo sentiu um pé pequenino em suas mãos,
depois outro. — Eu o peguei! — exclamou triunfante. — Faça força, Célia!
Poucos minutos depois o bebê já estava sobre a cama, chorando e movimentando
os punhos em protesto ao fato de ter sido forçado a nascer.
— É uma menina, Célia — ele gritou. — Mas é tão pequenina! — Terminou de
cortar o cordão umbilical e ergueu a filha nos braços para que a mãe pudesse vê-la. —
Não é linda?
— Não, não é! Ela é horrível! — Célia grunhiu.
— Está enganada — disse, levando o bebê até a bacia de louça para lavá-la. —
Nossa menininha vai ser uma beldade algum dia... Célia?
De súbito, a sala estava silenciosa demais.
Consuela parou de limpar a patroa e fitou-lhe o rosto. Então, voltou-se para Brice
com os olhos cheios de pavor e medo.
— Célia? — ele repetiu, embrulhando o bebê numa toalha antes de seguir para
junto da esposa.
Os olhos de Célia estavam fixos no teto e começavam a ficar opacos. Num
impulso, ele curvou-se para ouvir as palavras que emergiam dos lábios sem cor.
— Odeio você, Brice. Odeio você e esse maldito bebê. — A frase soou tão baixo
que mal dava para ouvi-la.
De repente, ela deu um último suspiro e ficou imóvel para sempre.
— Célia! Célia!? — Brice gritou atordoado.
Consuela afastou-se da cama e comentou:
— A señora Graham está morta. Vi o espírito dela saindo! — Os olhos da mulher
estavam dilatados pelo medo.
Brice encarou o corpo da esposa mal podendo acreditar no que acontecera.
Certamente ela não poderia estar morta! Muitas vezes as mulheres ficavam em trabalho
de parto durante dias seguidos e Célia tinha estado assim por apenas algumas horas.
Ela era jovem tinha de resistir!

23
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Todavia, fossem quais fossem os argumentos a favor da vida, a verdade era que
no caso de Célia Graham a morte tinha sido a grande vencedora. Não haveria mais
amanhã, nem reclamações a fazer em relação a Brice. Finalmente, ela iria embora de
Oklahoma para sempre, mas não do jeito que planejara...

O funeral foi simples. Cal e alguns dos capazes fizeram um caixão de madeira e
Brice e Consuela ajudaram a colocar o corpo de Célia ali.
Perturbado, Brice decidiu enterrá-la a uma certa distância da casa. Ele mesmo,
ajudado por Cal, fez a cova. O sepultamento aconteceu ao amanhecer. Ao voltarem para
casa, todos ainda estavam silenciosos. Como não havia nenhuma ama-de-leite por perto
para alimentar o bebê, Consuela improvisou uma mamadeira usando uma velha garrafa
de uísque, com um bico de borracha, a qual encheu com leite de vaca diluído em água
numa proporção que pudesse ser bem digerida pela criança.
Brice lutou para se adaptar à triste realidade, mas estava sendo difícil. Há muito
não existia mais amor em seu casamento, e as palavras de ódio que sua mulher lhe
dirigira no leito de morte o tinham magoado sobremaneira, ainda assim, sentia-se
terrivelmente mal com a perda. Será que parte disso não se devia à culpa?, perguntou a
si mesmo milhares de vezes. Sim, porque, indiretamente, acabara por expô-la a um
perigo mortal.
Célia nunca tinha sido forte e a gravidez a castigara muito, fazendo-a a inchar
como se estivesse prestes a explodir. Era provável que o coração dela tivesse parado de
bater por causa do esforço excessivo durante o parto. Mesmo assim, Brice não conseguia
aceitar o que havia acontecido. Os dias que se seguiram foram como um terrível
pesadelo para ele.
Então, quando acordou algumas semanas após a morte da esposa, ele descobriu
que Consuela e o marido tinham partido durante a noite e o deixado sozinho com sua
filha para cuidar. Tal fato serviu para fazê-lo despertar para a realidade. Tinha perdido
a mulher, mas não iria perder seu bebê também. Ah, isso não!

A esta altura dos acontecimentos, Elizabeth já tinha se acostumado com a idéia de


que Robert não iria voltar para casa. Às vezes, essa percepção a deixava aterrorizada,
porque tinha o resto do inverno pela frente e teria de enfrentá-lo sozinha, porém, em
outros momentos, ficava quase feliz, pois com Robert longe não haveria ninguém para
discutir e dizer-lhe que tudo o que fazia estava errado ou para bagunçar a cabana
sempre que conseguia colocar um pouco de ordem no caos do lugar que tinha de
chamar de lar. Começava a perceber que Robert fizera muito pouco para melhorar a
vida deles ali ou em qualquer outro lugar e ficava ressentida só de pensar nisso. Caso

24
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

seu marido voltasse para casa, o que era improvável, jurou para si mesma que tudo
seria diferente. Ou ele se esforçava para que as coisas melhorassem ou cada um iria
viver sua vida, mesmo que para isso tivesse de se expor aos preconceitos de uma
sociedade essencialmente moralista.
Aqueles pensamentos serviram para mantê-la sóbria durante mais de um mês.
Contudo, logo se deu conta de que se Robert não voltasse, o mais sensato a fazer seria ir
para casa de seu pai em Hannibal e implorar perdão. Essa idéia, por si só, a fazia ver
que dificilmente regressaria a Hannibal, pelo menos não para implorar o perdão de
alguém, pois não julgara ter feito nada de tão grave a ponto de ter de se humilhar.
Estava começando a aprender como era bom ser senhora do próprio destino e não
queria perder a liberdade recém-conquistada por nada no mundo.
Em seus longos dias de solidão, havia aprendido a caçar e a manejar o rifle com
certa destreza. A princípio, não conseguia acertar uma único alvo e seus ombros
ficavam doloridos de tanto esforço para manter a posição em que deveria disparar.
Contudo, gradualmente, começou a acertar mais do que errar e agora se considerava
uma ótima atiradora. Talvez a falta de dinheiro para comprar mais munição tivesse lhe
servido de incentivo. Ainda não sabia o que iria fazer quando as balas terminassem. Até
lá teria de pensar em alguma coisa, mas, por enquanto, precisava ser prática, por isso,
logo que o solo ficou livre da neve, juntou um pouco de grama para alimentar a égua
que deixara no celeiro.
Elizabeth era boa na arte de racionar suprimentos. Havia adquirido esse talento
graças a necessidade que passara nos últimos sete anos. Comia apenas o estritamente
necessário, e quando caçava algum animal de porte não perdia nenhuma parte que
pudesse ser cozida, frita ou defumada para durar um pouco mais. Estava até mesmo
aprendendo a curtir o couro para assim substituir as solas gastas de suas botas. Aos
poucos, foi conseguindo executar todas as tarefas que deveriam ser feitas por Robert, e o
mais espantoso era que o fazia ainda melhor do que seu marido desaparecido. A única
coisa ruim nisso tudo era a solidão. Havia momentos em que pensava que iria
enlouquecer se não ouvisse a voz de um ser humano. Nessas ocasiões, ela cantava ou
falava em voz alta com a égua, e até mesmo recitava poemas que aprendera na escola.
Chegava ao cúmulo de repetir uma equação matemática, mas qualquer coisa era melhor
do que o silêncio.
Freqüentemente, considerava a hipótese de voltar ao rancho de seus vizinhos para
visitar Célia, porém, o tempo era tão imprevisível que não se arriscava a ir muito longe.
Além do quê, sabia que Célia e Brice insistiriam em lhe dar mais suprimentos e era
orgulhosa demais para aceitar caridade quando não tinha nada para dar em troca,
mesmo sabendo que sua farinha e aveia estavam quase terminando.

25
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Essa era uma de suas constantes preocupações, como substituir os produtos que
não poderia fazer por si mesma; como o óleo para a lamparina, a munição ou os tecidos
de algodão para fazer um vestido quando os dois que ainda lhe restavam finalmente se
transformassem em trapos. Não tinha nem um centavo e também não havia nada que
pudesse fazer para ganhar dinheiro. Algumas vezes, fora até a mina e tentara escavar a
superfície rochosa na esperança de encontrar o ouro que sabia muito bem não haver ali.
O tempo passava depressa. Veio outra nevasca e, de novo, Elizabeth ficou presa
com a égua na cabana. O animal não parecia gostar muito do arranjo, mas ela não o
deixaria no celeiro para congelar. No segundo dia da tempestade, descobriu o quão
acertada fora sua decisão, porque o peso da neve acumulada fez o telhado desabar.
Ela observou tudo da janela da cabana e tentou não pensar por quanto tempo mais
o teto sobre sua cabeça ainda resistiria.
Entretanto, não demorou muito para saber a resposta a sua dúvida. Assim que a
neve finalmente começou a derreter, uma parte do telhado da cabana desabou sobre a
mesa onde ela estava comendo. Era difícil decidir o que a irritara mais; o buraco no
telhado ou a perda da comida que não teria como substituir.
Precisava fazer alguma coisa. A cada dia que passava, ficava mais consciente de
que não poderia permanecer ali indefinidamente. Mas para onde iria? Se fosse a Glory
poderia ganhar a vida lavando e passando roupas para fora, ou até mesmo costurando
algumas, mas até que conseguisse guardar algum dinheiro, não teria onde morar. Sem
uma casa, como poderia lavar, passar ou costurar? Claro que tinha a opção de vender a
cabana e aquele pedaço infértil de terra, mas quem seria tolo o suficiente para comprar?
Chegou a considerar a hipótese de ir até o rancho de Brice Graham e pedir-lhe um
emprego como governanta ou babá. A esta altura, Célia já deveria ter tido o bebê e
Elizabeth sempre adorara crianças. Quem sabe poderia ser uma espécie de preceptora
do filho dos Graham? Tinha tido uma ótima educação em Hannibal e como não havia
escolas no vale, poderia muito bem oferecer seu trabalho à família que, sem sombra de
dúvida, tinha condições de pagar por ele. Sem contar que adoraria poder fazer algo de
útil.
No entanto, se conseguisse o emprego tão almejado, teria de enfrentar o problema
de viver sob o mesmo teto com um homem que já morava em seus sonhos e cujo
temperamento fora lhe dito ser tão cruel quanto o de Robert.
Elizabeth odiava a si mesma por causa dos sonhos constantes que tinha com Brice
Graham. Nunca poderiam ser mais do que apenas vizinhos! Ela era casada com Robert e
estaria presa ao marido pelo resto da vida, mesmo que ele a tivesse abandonado; quanto
a Brice, havia Célia e o bebê.
Não, a única opção que tinha era ir até Glory e ver o que conseguia por lá.

26
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Contudo, um dos primeiros obstáculos que teria de enfrentar era descobrir o caminho
que levava à cidade. Poderia começar pela direção que Robert tomara ao partir, mas
teria de rezar para não se perder no meio da jornada e morrer congelada por aquelas
paragens inóspitas.
Começava a considerar seriamente a hipótese de partir quando um dia,
inesperadamente, ouviu o trotar de um cavalo que se aproximava da casa. Por um
momento, sentiu o sangue gelar nas veias. Poderia ser Robert? Correu para a porta e
abriu-a de maneira intempestiva.
Em lugar de Robert, Brice Graham estava desmontando de um cavalo baio. Ele
sorriu e Elizabeth sentiu o coração disparar dentro do peito.
— Espero não estar incomodando, senhora — disse Brice, enquanto amarrava o
animal num tronco de árvore queimado pelo frio.
— Não. De jeito algum. Entre, por favor — convidou-o, dando graças aos céus por,
poucas horas antes, ter levado a égua para fora e limpado a cabana da melhor maneira
possível. Ao mesmo tempo, sentiu-se envergonhada por ter de mostrar a ele onde e
como vivia.
Brice precisou agachar um pouco para passar pela porta da cabana.
Surpreendentemente, os olhos castanhos permaneceram inexpressivos quando se
depararam com o interior do casebre.
— Seu marido não está? — perguntou ele, segurando o chapéu nas mãos enormes.
— Não, Robert nunca voltou para casa. — Seus sonhos traiçoeiros não tinham feito
justiça a Brice. Ele era ainda mais bonito do que se lembrava e a voz de barítono mais
impressionante do que em seus devaneios românticos. Assustada com o rumo de suas
emoções, Elizabeth desviou o olhar abruptamente.
Brice inclinou-se para frente, como se não a tivesse ouvido direito.
— Não voltou? Continua sozinha aqui?
Elizabeth recusou-se a encará-lo.
— Não creio que meu marido vá voltar, senhor. Não depois de ter estado longe
durante todo esse tempo. Estou planejando me mudar para Glory. — E logo acrescentou
num tom defensivo: — Não posso continuar aqui, não teria como me virar sozinha.
Ele olhou para o céu que aparecia através do buraco no teto e fez uma leve careta.
— Não sei como conseguiu fazer isso até agora, minha cara.
Lágrimas minaram dos olhos acinzentados e Elizabeth piscou para evitar que
rolassem por suas faces.
Nunca chorava, não seria agora que iria começar.
— Acho até que me virei melhor do que eu poderia imaginar. Aprendi a atirar e
encontrei um ponto, perto do riacho, onde poderia fazer uma horta, assim que a

27
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

primavera chegar, é claro. Só vou para Glory porque não tenho outro maneira de
ganhar dinheiro para comprar munição e óleo para a lamparina. Os outros produtos eu
até poderia produzir aqui mesmo.
— Ah, eu não a estava culpando, senhora. Pelo contrário, queria cumpri-mentá-la
pelo que conseguiu.
Elizabeth respirou fundo.
— Desculpe a aparência deste lugar, mas não há muito que se possa fazer para
embelezar uma velha cabana. — Ainda se sentia como se precisasse defender a si
mesma e a seu estilo de vida.
Brice ficou calado por um momento.
— Gostaria que a senhora voltasse comigo para o rancho.
Os olhos acinzentados encontraram os dele.
— Por quê? — Se Brice estava lhe oferecendo ajuda por piedade, não poderia
aceitá-la, mesmo se quisesse.
Foi a vez de ele evitar encará-la.
— Muitas coisas aconteceram desde que nos visitou, sra. Parkins. Célia teve o
bebê. — Fez uma pausa longa demais para ser considerada natural. — A criança, uma
menina, está bem, mas minha mulher não teve a mesma sorte.
Obedecendo a um impulso de momento, Elizabeth deu um passo a frente.
— Não! Célia morreu?
Ele assentiu.
— Foi uma fatalidade. Não havia nada que pudéssemos fazer. Quando o bebê
finalmente nasceu, pensei que Célia estivesse fora de perigo, porém, minha esposa
morreu antes mesmo de ter tocado a filha.
— Que coisa horrível! — Elizabeth estava boquiaberta. Nunca tinha lhe ocorrido
que Célia Graham pudesse morrer durante o parto. — Sua esposa disse que mandaria
me buscar quando entrasse em trabalho de parto. Por que não fez isso?
Brice fitou-a demoradamente, antes de responder com voz pausada:
— Mudou de idéia, disse que eu não deveria vir buscá-la.
Elizabeth franziu o cenho. Não estava acreditando muito nessa versão dos fatos.
Em sua mente, imaginou Célia chamando-a e o marido se recusando a vir buscá-la para
ajudar. Se fosse assim, Brice era mesmo um monstro cruel, tal qual lhe fora dito.
— Por que a senhora está me olhando desta maneira?
— Não é nada — disfarçou.
— Bem, estou aqui porque Consuela partiu sem me avisar. Acordei uma manhã e
descobri que ela e o marido tinham desaparecido. Claro que sabia que Consuela não
gostava muito daqui, e não posso culpá-la por isso, mas ela me deixou sem ter ninguém

28
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

para cuidar de Mary Kate. Detesto ter de lhe pedir, mas preciso de sua ajuda. Além de
um quarto e comida, também poderei lhe pagar um salário para ser babá de minha filha
e governanta da casa. O que me diz?
Ele estava lhe oferecendo a melhor das alternativas que tinha para deixar a
cabana. Sim, Brice Graham poderia ter sido um monstro com a esposa, mas Elizabeth
não podia se dar ao luxo de recusar uma proposta dessas.
— Claro que cuidarei de sua filha. Tive uma boa educação e à medida que ela for
crescendo poderei ensiná-la a escrever e também um pouco de aritmética.
— Para mim seria a solução perfeita. — A voz modulada a deixou ofegante. —
Vim aqui achando que precisaria convencer seu marido a deixá-la ir até que, pelo
menos, eu conseguisse alguém para substituir Consuela.
— Mas eu não estou aceitando só porque não tenho outra opção, senhor. É melhor
que isso fique bem claro entre nós.
Ele sorriu.
— Certamente. A senhora ainda tem essas terras e as coisas que estão aqui. Posso
mandar uma carroça vir buscar seus pertences.
— Isso não será necessário. Posso amarrar tudo num acolchoado e colocá-lo no
lombo da égua. A maior parte do que está aqui não vale a pena de ser levado. — Sim,
não teria nenhuma utilidade para uma velha mesa, duas cadeiras e nem mesmo para
uma cama cujo colchão não perdia o cheiro de umidade nem mesmo no verão.
Pensando melhor, seus poucos pertences pessoais não encheriam nem mesmo o
acolchoado.
— Vou selar a mula para a senhora — Brice se ofereceu.
Elizabeth assentiu e ao ficar sozinha olhou em torno de si pela última vez. O
acolchoado colorido com o qual cobria a cama parecia estar lutando em vão para tornar
o lugar mais agradável. O outro fora jogado sobre um velha cômoda para esconder a
madeira desbotada. Sem pestanejar, ela dobrou o menor e colocou-o no centro do que
estava usando como colcha.
Não havia necessidade de levar as roupas de Robert consigo, portanto, pegou a
cópia de Os mistérios de Udolpho e colocou-a na pequena trouxa que preparava.
Olhou de novo para o aposento opressor, onde tinha vivido por quase um ano, e a
única coisa que sentiu necessidade de levar foram as roupas íntimas e o único outro
vestido que possuía.
Em poucos minutos, estava com tudo pronto. Com um suspiro, saiu da cabana
para se unir a Brice. Ele ajeitou a trouxa em sua própria sela, então, como já tinha feito
antes, pegou-a pela cintura e colocou-a sobre o lombo da égua. O toque dos dedos
longos a perturbou mais desta vez do que da primeira. Por que sempre se interessava

29
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

pelo homem errado?, perguntou a si mesma, ao lembrar das acusações que Célia
Graham fizera contra o marido.
Precisava fazer alguma coisa para manter a compostura, assim, declarou solene:
— Embora eu esteja indo morar em sua casa, sr. Graham, quero que fique claro
que irei apenas tomar conta do bebê e cuidar dos serviços domésticos. O senhor e eu...
Bem, quero dizer que irei assumir apenas o lugar de Consuela como criada da casa e
nada mais.
— Entendo sua preocupação. Pode ficar tranqüila, isto será tudo que irei lhe pedir,
sra. Parkins.
Elizabeth sentiu o rubor tingir suas faces.
— Eu sei. Só queria que as coisas ficassem bem claras desde o começo.
— É compreensível. Vivemos num lugar isolado. Seu quarto terá uma fechadura
com chave e tudo, mas garanto-lhe de que não precisará usá-la. Sou um homem
honrado. Não tenho a menor intenção de me aproveitar da senhora.
— Que bom! — exclamou, antes de bater os calcanhares no flanco da égua,
incitando-a a partir. Não ousou nem mesmo olhar para trás. Estava certa de que não
sentiria saudade de tanta miséria.
Só esperava não estar cometendo um grande erro ao acompanhá-lo. Nenhum
outro adulto vivia na casa dos Graham. Contudo, Brice deixara claro que não tinha o
menor interesse nela e isto iria facilitar a convivência de ambos. Elizabeth sabia que
deveria ficar feliz por isso, mas não estava. Era difícil compreender os sentimentos que a
assolavam naquele momento.
A primeira parte do trajeto até o rancho foi feita em silêncio, então, de repente, ela
indagou:
— Por que o nome Mary Kate?
— É o nome de minha mãe.
— É um nome bonito — elogiou, pensativa. Será que a maioria dos homens não
teria preferido dar o nome da esposa que acabava de perder à filha? Esta parecia ser
mais uma prova da frieza dele em relação à Célia.
Quase uma hora depois, quando cruzaram uma elevação do terreno e o rancho se
tornou visível ao longe, ela não pôde evitar de admirar o lugar. Era ainda mais bonito
do que se lembrava.
Brice notou-lhe a reação e sorriu.
— Sei o que está sentindo. Este lugar me afeta da mesma maneira. Eu amo o oeste.
Essa parte de Oklahoma me faz lembrar de minha infância no Texas, embora o vento
aqui seja muito mais forte do que por aquelas paragens.
Elizabeth o observou de soslaio enquanto desciam a colina para chegar ao vale.

30
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Pensei que no Texas só existissem cactos e amarilhos.


Ele riu.
— Sem ofensa, mas aposto que nunca esteve lá. Tudo no Texas é muito bonito, até
mesmo o oeste do território que é a parte mais árida e deserta. O leste, onde fui criado,
tem muitas colinas e vegetação abundante.
— Se gostava tanto de lá, por que veio embora?
— Meu irmão herdou o rancho da família quando papai morreu. Minha madrasta
e eu nunca nos demos muito bem. Portanto, nossa relação não era tão boa a ponto de me
prender por lá. Achei que seria uma boa idéia começar a vida em outro lugar e como
meu pai me deixou uma herança em dinheiro, comprei este rancho assim que o Governo
Federal abriu o território para a colonização.
— Eu, pessoalmente, acho que o dinheiro é a melhor das heranças — Elizabeth
pensou em voz alta.
De novo, Brice riu.
— Não para um texano.
— Foi lá que conheceu Célia?
Brice assentiu.
— Sim, casamos depois que construí esse rancho.
Os pais dela não ficaram nada felizes por eu trazer sua filha para cá. Agora me
culpam pela morte dela. Elizabeth procurou por um sinal de culpa no rosto anguloso,
mas não encontrou nada.
— Célia nunca foi muito forte. Desde criança ela adoecia com freqüência. Mas,
talvez, se tivesse ficado no Texas, teria morrido do mesmo jeito. Quem pode saber?
— Sinto muito por sua perda, sr. Graham — disse com sinceridade. — Deve ter
sido muito difícil tê-la perdido logo após o parto de seu primeiro bebê.
Ele ficou em silêncio, só depois comentou:
— Tem uma coisa engraçada em relação à fronteira. Parece que aqui as pessoas
revelam sentimentos que em outros lugares, sob o verniz da civilização, nunca
deixariam transparecer. — Não explicou a razão do comentário e Elizabeth achou que
também não deveria insistir para que o fizesse.
Assim, seguiram direto até o celeiro e deixaram os animais com um dos capatazes
do rancho, que a fitou com curiosidade, mas não fez qualquer pergunta.
Brice carregou sua trouxa de roupas como se fosse mais leve do que uma pena.
O fundo da casa tinha uma varanda tão grande e espaçosa quanto a da frente.
Havia uma vassoura e um esfregão mergulhados num balde perto da chaminé e um
gato cinza estava estirado no último degrau, aproveitando os tímidos raios de sol
daquele dia de inverno. A porta do fundo tinha um entalhe em madeira que combinava

31
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

com a da frente da casa e Elizabeth, novamente, ficou surpresa ao constatar a diferença


que havia entre a choupana que vivera até então e a casa de Brice Granam.
Porém, ao contrário de muitas casas antigas que ela conhecia em Hannibal, aqui a
cozinha era grande e ficava dentro da casa. O forno a lenha também a impressionou, era
alto o suficiente para alguém entrar dentro e tão largo que poderia acomodar um
novilho inteiro. Como se não bastasse, havia utensílios de todos os tipos e tamanhos
pendurados na parede ou acomodados em prateleiras de madeira pintadas de branco.
— Nos primeiros anos de casados tivemos uma cozinheira, mas ela adoeceu e quis
voltar para o Texas. Consuela era prima dessa senhora. Fiquei até surpreso que tivesse
permanecido conosco durante tanto tempo. Quando a cozinheira foi embora, Consuela
teve de cuidar de tudo por aqui.
— Onde está o bebê? O senhor não a deixou sozinha enquanto foi me buscar,
deixou?
— Claro que não! Cal o caolho está tomando conta de Mary Kate.
— Cal o caolho!? — Elizabeth repetiu incerta.
— É o responsável pelos homens que trabalham no rancho. Chamamos Cal assim
porque seu olho direito é um pouco torto. Ele está comigo desde que vim para
Oklahoma e Mary Kate está segura em suas mãos.
— Acho que devo ir vê-la.
Brice a levou através do largo corredor, que servia como vestíbulo, até a saleta
íntima.
— Já chegamos. Sra. Parkins este é Cal. Cal, Mary Kate te deu muito trabalho?
O homem ficou em pé e, cuidadoso, entregou o bebê nos braços de Elizabeth.
— Prazer, madame. A menina não deu trabalho algum. Nós dois estávamos
brincando um pouquinho. — A voz rouca e sonora era tão inusitada quanto a aparência
de Cal. Ele era alto como Brice, mas muitos anos mais velho, pois já estava bem grisalho.
Contudo, parecia mais um bandido do que um substituto de babá.
Automaticamente, Elizabeth apertou o bebê junto a seu corpo, como se quisesse
protegê-lo.
Mary Kate a fitou com solenes olhos azuis, então avistou o pai e resmungou
alegremente, erguendo braços e perninhas roliças como se quisesse tocá-lo.
Brice sorriu e quando acariciou o braço da filha com a ponta dos dedos, Mary Kate
agarrou-lhe o indicador e tentou levá-lo à boca.
Elizabeth se descobriu sorrindo e, naquele exato momento, o amor pela criança
começou a brotar em seu peito. Aliás, ninguém poderia ver aquele bebê e lhe ser
indiferente.
— Ela é linda. Os olhos são tão azuis quanto os de Célia! — falou Elizabeth, pouco

32
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

antes de se deparar com as íris castanhas de Brice.


— Na minha opinião todos os bebês são parecidos — Cal resmungou, dando de
ombros. — Não têm cara de nada.
Mary Kate riu para ao capataz como se pudesse ver muito além daquela fachada
de desinteresse.
Para seu alívio, Elizabeth divisou um sorriso nos lábios ressequidos pelo tempo,
mas Cal o escondeu assim que percebeu que estava sendo observado.
— Se não precisa mais de mim, vou voltar para meu trabalho — atalhou,
voltando-se para o patrão.
— Pode ir. Irei para lá assim que a sra. Parkins tiver se acomodado.
Cal assentiu e logo depois de pegar seu chapéu desapareceu da sala.
— Ele até que está falante hoje. Passamos dias e dias juntos e, às vezes, não
consigo ouvi-lo pronunciar uma só palavra. Acho que Mary Kate é uma boa influência
para Cal.
— O que sabe sobre esse homem? Ele se parece com um desses bandidos que
vemos em cartazes de Procurados.
Brice riu.
— Cal é um completo mistério. Não tem passado, não tem família. Ele é num
nômade que, por alguma estranha razão, acabou se estabelecendo por aqui.
— Confia nele mesmo assim?
— Claro, estamos juntos há muitos anos e a esta altura já sei que é muito mais
esperto e confiável do que parece. Não lhe fará nenhum mal, portanto, não precisa se
preocupar. Aliás, é muito provável que até a ignore, era assim que agia com Célia.
— Se está dizendo — Elizabeth deu de ombros e voltou sua atenção para o bebê.
— Com que a está alimentando?
— Vou lhe mostrar. — Ele a levou até uma pequena edificação sobre o riacho que
ficava atrás da casa, ali havia muitas garrafas de leite armazenadas.
Elizabeth puxou sua capa de lã para proteger Mary Kate do frio.
— O gado dá bastante leite, mas é muito forte para um bebê — explicou Brice. —
Consuela experimentou uma mistura de água e leite até a achar a combinação ideal para
Mary Kate.
— Foi uma ótima idéia.
— As garrafas que usamos como mamadeiras estão ali — Brice indicou uma
prateleira onde havia diversas garrafas de uísques com bicos de borracha. — Consuela
achava mais fácil enchê-las aqui do que levá-las para cozinha e depois ter de trazê-las de
volta.
— Nesta época do ano não vejo muita necessidade de deixá-las aqui. A varanda

33
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

dos fundos deve ter sombra suficiente para refrescá-las.


Brice concordou.
— Também acho — disse, observando-a com mais atenção. — Estou feliz que
tenha vindo comigo, senhora. Não posso dar conta de tudo sozinho e ainda administrar
o rancho. — A voz modulada confirmava a sinceridade das palavras.
— Não será difícil cuidar de sua filha, sei que vamos nos dar bem — Elizabeth
declarou, saindo do quartinho que usavam para refrigerar os alimentos mais sensíveis
ao calor.
Mary Kate ergueu a cabecinha e estudou sua nova babá, como se soubesse que era
dela que estavam falando.
Elizabeth acabou sorrindo do gesto da menina.
Brice a estava observando.
— Quando sorri a senhora fica muito mais bonita.
Ela não estava acostumada a elogios, por isso ficou séria enquanto caminhava de
volta para a casa.
— Eu a aborreci, senhora? Não tive a intenção.
— Não estou aborrecida. — Recusou-se a olhar para Brice até mesmo quando ele
segurou a porta aberta para que entrasse.
— Vamos subir, quero lhe mostrar o seu quarto e o de Mary Kate. — Brice pegou a
trouxa do local onde havia deixado e conduziu-a até a escadaria de carvalho.
Elizabeth ficou feliz em segui-lo. Assim poderia observá-lo sem ser vista. O elogio
que lhe dirigira a incomodara. Brice Graham era viúvo há muito pouco tempo e deveria
estar de luto, não elogiando outra mulher. Talvez Célia tivesse mesmo razão nas coisas
horríveis que lhe confidenciara sobre o marido, deduziu, preferindo aceitar essa
verdade porque era uma forma de se proteger contra as emoções que pulsavam em seu
peito.
Alheio aos sentimentos que despertava, Brice indicou-lhe a primeira porta do
corredor.
— Este é o meu quarto. Se precisar de mim no meio da noite é só bater.
— Por que eu precisaria do senhor no meio da noite? — perguntou desconfiada.
— Ora, no caso de minha filha ficar doente.
— Claro. — Sentiu as faces se tingirem do mais intenso rubor e esperou que ele
não tivesse notado.
— Seu quarto é este aqui. — Brice abriu, a porta do quarto conjugado ao dele. —
No verão pode deixar a porta da varanda aberta e o quarto ficará muito mais fresco.
Aqui no vale sempre sopra uma brisa agradável, mesmo nos dias mais quentes. A
varanda é comum aos dois quartos deste lado da casa, mas pode confiar em mim, jamais

34
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

invadirei sua privacidade. Como deve ter notado, a porta que conecta os dois quartos
está bloqueada pelo armário de Célia.
Elizabeth assentiu, não confiando em si mesma para falar.
Brice olhou em torno do aposento, como se estivesse perdido em suas próprias
lembranças.
— Este era o quarto de Célia. Durante a gravidez ela passava mal com freqüência e
preferia ficar sozinha, mas mesmo antes tinha seu próprio quarto, era assim que queria.
Elizabeth olhou em torno de si. Isso explicava por que o papel de parede exibia
delicadas flores em rosa e lilás e a cortina de renda tinha laçarotes rosa. Nenhum detalhe
ali era masculino.
— Este é um assunto bastante delicado — Brice começou a dizer —, mas não
conheço outra maneira de lhe colocar os fatos. As roupas de Célia ainda estão no
armário e não sei o que fazer com elas. Não serviam para Consuela, mas se a senhora
quiser poderá usá-las. Acho que tem o mesmo tipo físico. Do contrário, terei de queimar
tudo.
— Seria um desperdício queimar as roupas! — Elizabeth exclamou. Durante todos
aqueles anos em que estivera casada, nunca tivera mais do que dois ou três vestidos
decentes para usar, por isso, a idéia de queimá-los lhe parecia inaceitável. Roupas eram
artigos muito raros e vestidos melhores eram difíceis de serem costurados. — Posso
consertar tudo se não servir. Mas não seria uma lembrança triste para o senhor?
— Não. Prefiro que alguém faça uso deles do que vê-los jogados ou sendo
queimados. Além do quê, minha mulher tinha tanta roupa que muitos vestidos não
chegaram a ser usados. — Ele saiu do quarto e parou no corredor, esperando um pouco
antes de abrir a porta de um quarto todo rosa. — Este é o quarto de Mary Kate.
Não havia a menor necessidade de Brice lhe dizer isso. Era óbvio que alguém
passara horas fazendo acolchoados, toucas e roupinhas de bebê. Sobre o berço pintado
de branco estavam vários casaquinhos bordados à mão. Em todas as peças o rosa era
predominante.
Se Mary Kate fosse um menino, muitas coisas do enxoval que Célia fizera não
poderiam ser usadas. Como se tivesse o dom de ler-lhe os pensamentos, Brice explicou:
— Foi a mãe de Célia quem nos mandou o enxoval. Como pode ver, minha sogra
estava certa de que seria uma menina. Ela nem considerou a hipótese de que poderia ser
menino. Só existem mulheres na família de Célia, muitas irmãs e dezenas de primas,
mas nenhum primo. Acho que era por isso que a ausência de uma companhia feminina
perturbava tanto minha esposa.
— Entendo.
— Esperava que ela se tornasse sua amiga.

35
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Eu também esperava.
— A senhora tem liberdade para mudar o que quiser no quarto de Mary Kate.
Tudo o que peço é que não faça o mesmo no meu.
— Só entrarei lá para limpá-lo.
Seus olhares se encontraram e Elizabeth, de repente, teve consciência do quão
íntima era a situação. Lá estava ela, segurando a filha de Brice Graham, falando sobre o
quarto dele no tom mais natural do mundo. De repente, baixou os olhos incapaz de
continuar a encará-lo.
— Será que a deixo nervosa, senhora? — inquiriu Brice, franzindo o cenho.
— Não! — Elizabeth negou rápido demais para ser convincente. — Por que diz
isso?
— Talvez seja porque eu mesmo fique muito nervoso em sua presença, como
nunca fiquei antes diante de uma mulher. — Sem mais uma palavra, ele virou e a
deixou sozinha com Mary Kate nos braços.
Elizabeth o viu partir enquanto seu coração batia descompassado dentro do peito.
Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter ido para o rancho. Não podia confiar em si
mesma e, pelo jeito, nem em Brice Graham.

CAPÍTULO III

Brice prendeu a correia de couro no arreio da pequena charrete. O ar do estábulo


estava ainda mais frio do que lá fora, mas ele não se importou. Precisava mesmo esfriar
a cabeça.
Elizabeth chegara ao rancho há apenas um dia e só o fato de saber que ela estava
ali servia para distraí-lo.
— Maldição! — murmurou quando não conseguiu ajustar a correia como deveria.
— Quer que eu faça isso? — Cal se ofereceu. O capataz estava escovando uma
égua que logo daria cria. Era fácil notar que se relacionava melhor com os animais do
que com seres humanos.
— Não, pode deixar.
Cal deu de ombros e voltou a se concentrar em seu trabalho. O som ritmado da
escova passando sobre o pêlo da égua recomeçou. Depois de um tempo, ele se afastou e
passou por Brice enquanto seguia para o quartinho onde guardavam os arreios e demais
utensílios de montaria.
Brice até podia ouvir o comentário que o amigo faria se fosse dado a esse tipo de

36
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

atitude. Contudo, tinham trabalhado juntos durante tantas horas que as palavras não
faziam falta.
— Aquela égua baia pode puxar a charrete — Brice comentou, tentando se
concentrar. — Ela é esperta e se dá muito melhor com o arreio do que as outras.
— É.
— Será bom para Mary Kate sair para passear ao ar livre. As crianças também
precisam tomar um pouco de sol.
Cal limitou-se a fitá-lo de soslaio enquanto guardava a escova que usara na caixa
de ferramentas.
— Estou fazendo isto por Mary Kate, não por Elizabeth.
Cal pegou uma corda que estava jogada no chão e começou a enrolá-la com
cuidado.
— Pensei que o nome da moça fosse sra. Parkins.
— Foi isso que eu disse, sra. Parkins.
As faces enrugadas de Cal foram iluminadas por um de seus raros sorrisos.
Brice segurou a outra ponta da correia e tentou prendê-la ao arreio.
— Ah, você fala demais Cal. Não tinha notado este defeito antes — disse ao
entender o significado do gesto raro, mas também sorrindo para o empregado.
Cal apenas resmungou algo incompreensível e puxou a égua prenha para outra
extremidade do estábulo, onde ficavam os cochos de ração.
Durante algum tempo, Brice permaneceu concentrado em seu trabalho, então, ao
ouvir passos se aproximando, comentou sem se voltar para ver quem era:
— Ela é muito bonita. Notou isso, Cal?
— Quem é bonita? — Elizabeth perguntou, olhando a seu redor.
Brice ergueu a cabeça assustado.
— Ah, pensei que fosse Cal — explicou um tanto desorientado, antes de se
levantar e tirar o chapéu para cumprimentá-la polidamente. Era assim que um
cavalheiro deveria agir no oeste.
— Cal está dando de comer aos animais. — Elizabeth apontou para o fundo do
estábulo.
— Eu estava dizendo que a égua que comprei para puxar a charrete é bonita —
improvisou Brice. Tinha notado que Elizabeth era pequena, aliás, deveria ser muitos
centímetros mais baixa do que Célia, e, sob a tênue iluminação dos estábulos, os cabelos
dela pareciam tão negros quanto as asas de um corvo. Ao contrário do que havia
imaginado, os olhos dela não eram escuros, mas sim acinzentados, da exata cor do céu
em dias de inverno.
— O senhor tem uma charrete? — ouvi-a perguntar surpresa.

37
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Claro, está bem ali.


Elizabeth se voltou na direção que ele apontava e divisou a charrete.
— É linda! Nossa, e os detalhes são em latão polido!
Ele sorriu. Era bom quando uma mulher notava seus esforços.
— Não estava tão bonita quando a comprei. Tive que trabalhar um pouco para
colocá-la em ordem — confessou. Sim, polira o latão até que ficasse brilhante e pintara
as partes de madeira com muito carinho e paciência.
— Não ando em uma charrete há muito tempo! — Parecia bastante excitada com a
novidade. — Aliás, pensei que nunca mais voltaria a andar em uma destas.
— Onde está o bebê?
— Dormindo. Tomou uma mamadeira de leite e adormeceu. Vim aqui justamente
para agradecê-lo por ter me trazido para cá. Mary Kate é uma criança maravilhosa. O
senhor tem muita sorte.
Até um dia e meio atrás, teria discutido sobre a veracidade de tal afirmação, mas
as coisas haviam mudado.
— Sim, minha filha é um anjinho. Não creio que ela irá lhe dar muito trabalho.
Elizabeth se aproximou e tocou o arreio com a ponta dos dedos, parecia
hipnotizada.
— Costuma sair com a charrete com freqüência? — quis saber.
— Não, ainda não foi usada depois que a comprei. Achei que Célia poderia gostar
de usá-la, mas ela não estava se sentindo muito bem e nem quis vê-la. Foi uma pena,
porque comprei-a para agradar minha esposa.
— Quanta consideração de sua parte. — Fitou-o surpresa.
— Assim que o tempo estiver bom a senhora e Mary Kate podem sair para um
passeio.
— Obrigada, seria maravilhoso. — Ela foi até a estrebaria e observou os cavalos
que havia ali. — Sempre adorei animais. Tínhamos um quase desta cor em Hannibal.
— Quer dizer a senhora e seu marido? — Era bom lembrar que Elizabeth Parkins
era casada.
— Não, meu pai.
— Gosta de morar aqui no território? — perguntou, querendo saber um pouco
mais sobre essa mulher.
— Mentiria se dissesse que gosto. A vida aqui é muito dura. — Estava pensando
nas privações por que passara na cabana e no abandono de Robert. — Pretendo voltar
para o Missouri assim que puder — confessou, tocando a crina aveludada da égua baia.
Brice não esperava uma resposta assim. Elizabeth parecia tão independente que
acreditara que ela adoraria a liberdade com que se vive na fronteira.

38
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Se souber de algum trem que estiver voltando para o leste eu a aviso —


declarou um tanto arredio.
— Obrigada, mas por um bom tempo não terei condições de bancar os custos de
uma viagem dessas. Além do quê, ainda tenho de pensar em Robert... onde quer que ele
esteja.
— Não deveria se preocupar tanto com seu marido. Existem milhares de coisas
que podem prender um homem na cidade. Pode ser que teve problemas com a
montaria e não tenha como regressar. — Aquela era a única desculpa em que Brice
conseguia pensar, e mesmo assim não era tão convincente. Se fosse Robert Parkins e
tivesse uma esposa a sua espera, compraria um outro cavalo e voltaria para casa o mais
depressa possível.
— Robert sabe se cuidar, sempre fez isso e não vou perder noites de sono por
causa de seu atraso. — Desviou o olhar, como se já tivesse falado demais. — Preciso
voltar para casa, não quero que Mary Kate acorde e pense que está sozinha.
Brice a viu se afastar.
Antes de sair, Elizabeth voltou-se e perguntou:
— Gostaria de pernil para o jantar?
— Ah, seria ótimo.
— Devo cozinhar para quantas pessoas?
— Apenas para mim. Os homens fazem a refeição no alojamento. — Estava
ansioso para comer algo diferente. Desde que ficara sozinho vinha comendo com os
capatazes. Ezra Smart não era um mau cozinheiro, mas fazia sempre a mesma coisa.
Quando Consuela ainda estava ali, até que havia variedade, mas a mexicana costumava
colocar pimenta vermelha em tudo e depois de algum tempo aquilo era entediante para
o paladar de qualquer um.
— Servirei o jantar assim que o sol se pôr. — Elizabeth sorriu antes de desaparecer
no dia nublado.
Brice ficou lá olhando para a porta como se ela ainda estivesse ali. Nossa,
Elizabeth sabia até mesmo a hora certa de um homem comer no oeste. Célia, ao
contrário, insistia em que o jantar fosse servido sempre às seis da tarde, em qualquer
época do ano, porque aquele era o horário na casa de seus pais. Sua falecida esposa nem
mesmo tentara entender que em certos dias ele tinha que trabalhar enquanto houvesse
luz. Pernil... Humm! Sua boca já estava cheia de água só em pensar.
— Você está parecendo com alguém que acabou de levar uma forte pancada na
cabeça — Cal comentou, assim que voltou para junto do patrão.
— A sra. Parkins só veio aqui para dizer que Mary Kate está dormindo — Brice
disse na defensiva.

39
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Então ela vai ficar vindo te dar explicações todas as vezes que a menina fechar
os olhos? — Cal ocupou-se em guardar algumas selas que ainda estavam no chão.
— Claro que não! — Brice voltou a se concentrar no arreio que preparava para a
charrete. — Ela vai fazer pernil para o jantar.
Cal resmungou. Esse era seu sinal costumeiro de aprovação.
— Quer que eu mande colocar um prato a mais na mesa? É bem-vindo para jantar
conosco quando quiser.
Desta vez o resmungo de Cal tinha uma nota de humor.
— Humm...
— Célia não está mais aqui para perturbá-lo com seus comentários. Além de meu
capataz, é também meu amigo. Se quiser comer na minha casa poderá fazê-lo todos os
dias. — Brice começava a pensar que talvez assim fosse mais seguro. Se Cal estivesse
presente, não ficaria sozinho com Elizabeth. — Vou dizer a ela para por mais um prato.
— Não! Prefiro comer feijão.
Brice meneou a cabeça de um lado para outro.
— Você é muito estranho, Cal. Para mim é um mistério como consegue comer a
comida de Ezra todas as noites e, ainda por cima, ser capaz de recusar um convite para
comer pernil.
— Ezra não tem mania de etiqueta.
Brice entendeu que Cal nunca iria esquecer ou perdoar o fato de Célia tê-lo
proibido de entrar na casa, mesmo que ela estivesse morta e enterrada a esta altura dos
acontecimentos. No entender do capataz, ainda era a sala de jantar de Célia Graham e
ele tinha jurado que nunca mais se sentaria ali.
Sim, Célia era exigente demais em relação a etiqueta e comportamento e não
admitia que as coisas fossem um pouco diferentes do que o que estava acostumada na
casa de seus pais no Texas. Ela deveria ter sido um pouco mais flexível com todos no
rancho. Teria sido muito mais fácil.
,Sem querer, começou a compará-la a Elizabeth, que parecia muita mais prática e
sincera em relação a seus sentimentos. Sim, Elizabeth se mostrara deliciada com a
charrete e, ao mesmo tempo, não escondera que o comportamento do marido não
agradava nem um pouco.
Brice não podia culpá-la por isso. O homem era um bastardo por tê-la deixado
sozinha em uma situação de quase miséria. Contudo, quer gostasse ou não, Elizabeth
ainda era casada e precisava se lembrar de tal detalhe. Não podia esquecer que ela
também não parecia estar muito feliz por morar em Oklahoma.
O que o deixava sozinho com seu amor pela terra, pelo rancho. Aliás, já se sentia
solitário bem antes de Célia morrer e talvez fosse por isso que ansiasse tanto por uma

40
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

companhia feminina. Uma mulher que o entendesse, amasse, que nas noites longas de
inverno colasse seu corpo ao dele e o deixasse repousar a cabeça no vale macio entre os
seios redondos e firmes, enquanto o ouvia contar como fora o dia nas pastagens de
Oklahoma e os planos que tinha para o futuro.
Sim, a mulher que sempre aparecia em seus sonhos tinha o rosto emoldurado por
cabelos negros como a noite e olhos cinza-prateados como o luar, único elemento capaz
de iluminar a escuridão de uma vida errante e solitária...

Mary Kate era um bebê muito fácil de se cuidar e amar. Elizabeth arrumou duas
cadeiras da cozinha de maneira a formar uma cama improvisada e colocou a menina ali
enquanto preparava o jantar.
A todo instante, tentava lembrar a si mesma que não deveria se apegar muito ao
bebê porque não iria ficar ali por muito tempo. Se Robert voltasse, insistiria para que
fosse para casa e, se isso não acontecesse, ela pretendia juntar dinheiro e retornar à
Hannibal.
Não podia se apegar ao dono da casa também, mas esse já era um assunto bem
diferente e muito mais difícil de se lidar. Lembrava-se claramente de Célia ter
reclamado que Brice era cruel e isso era algo que não podia suportar. Depois de ter
convivido com seu pai e com Robert, Elizabeth achava fácil acreditar que todos os
homens tinham arroubos de tirania. Talvez houvesse um outro diferente, mas, em sua
opinião, esses eram tão raros quanto as pepitas de ouro que procurara na mina e jamais
encontrara.
Divagou durante algum tempo e, por mais que quisesse, não conseguiu mudar o
rumo de seus pensamentos. A todo instante a figura atraente do dono da casa vinha-lhe
a mente, provocando um estranho frisson, era como uma febre, que a fazia queimar por
dentro e tremer ao mesmo tempo.
Ansiosa para se manter ocupada e se livrar da sensação estranha, Elizabeth fez um
purê de batata para Mary Kate. Tinha primas que já haviam tido bebês e por isso estava
acostumada com crianças. Seu pai sempre a mandava ficar algum tempo com as primas,
para ajudá-las a cuidar dos bebês da família. Assim, a experiência lhe dizia que sem
poder contar com o leite materno, era importante que Mary Kate recebesse outros
alimentos o mais rápido possível.
Com carinho, pegou a menina no colo e alimentou-a usando uma pequena colher
de pau. Para sua felicidade, a pequena comeu como se há muito não fosse alimentada.
Elizabeth riu.
— Ah, você é uma pequena muito faminta. Mas isto é bom, vai ajudá-la a crescer
forte e saudável e nesta terra só os fortes sobrevivem, querida.

41
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Mary Kate riu e resmungou algo típico da linguagem de um bebê de dois meses e
meio.
Quando ela já havia comido tudo o que queria, Elizabeth a trocou e embalou para
que dormisse.
Parecendo satisfeita com os cuidados que vinha recebendo, a menina ergueu um
pouco a cabecinha e sorriu-lhe de um jeito travesso, fazendo uma onda de amor
espalhar-se pelas veias de Elizabeth.
Não demorou muito para que pegasse sono e, após colocá-la no berço, Elizabeth
voltou a cozinha a fim de colocar a mesa para o jantar. Mal havia terminado de fazê-lo,
ouviu Brice se lavando na bomba que ficava na varanda dos fundos.
Ao entrar, os cabelos castanhos estavam molhados e penteados para trás. Ele
parou ao vê-la curvar-se sobre o fogão à lenha para mexer o feijão que estava na panela
de ferro.
— Pronto para comer? — Elizabeth o recebeu com um sorriso afável.
— Sim, só preciso subir para trocar de camisa — disse, começando a seguir para o
corredor. — Não vou demorar.
— Não há pressa — garantiu, ao colocar o feijão na travessa de cerâmica e
cantarolar baixinho. Não estava acostumada a cozinhar com freqüência porque até
então não tinha muita escolha. Mesmo em épocas melhores, ela e Robert não podiam se
dar ao luxo de comprar mais do que carne e um pouco de farinha. Por isso, pernil,
feijão, batata e pão de milho, tudo em uma só refeição, lhe parecia uma grande festa.
Tinha preparado até mesmo torta de maçã para sobremesa. Só esperava que Brice não a
considerasse esbanjadora. Precisava manter aquele emprego. Seria sua passagem de
volta à civilização depois de meses de isolamento nas terras do velho Zeb.
Quando o ouviu descer as escadas, acendeu as duas arandelas da sala de jantar, o
que deixou o ambiente iluminado o suficiente para a refeição. Para economizar óleo,
tinha usado o mínimo de luz possível enquanto estava arrumando a mesa. E, embora
não soubesse se deveria sentar-se ali para comer junto ao dono da casa, havia colocado
um prato a mais.
— Está tudo certo assim? — perguntou a Brice ao vê-lo adentrar no aposento. —
Posso comer na cozinha se o senhor preferir.
Ele a fitou demoradamente.
— Não. Quero que fique ao meu lado. Não é uma criada Eliza... sra. Parkins.
Nunca tive a intenção de lhe pedir que se comportasse com tal.
Ela sentiu o rubor tingir-lhe as faces.
— Eu não sabia direito o que fazer — confessou. — Na casa de meu pai apenas a
família podia sentar-se à mesa da sala de jantar. Não gostaria que o senhor pensasse que

42
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estava sendo atrevida ao colocar um prato a mais.


Polidamente, Brice puxou a cadeira para que ela se sentasse.
Ah, Robert nunca tinha feito isso!
— Isso parece maravilhoso! — Brice comentou, sentando-se à cabeceira da mesa,
com Elizabeth a sua direita.
Ela sorriu, mas evitou os olhos castanhos.
— Também fiz torta de maçã para a sobremesa. Sei que fui um pouco
extravagante, mas é que... Bem, nem sei se o senhor gosta de doces.
— Pode fazer tudo o que quiser, senhora. Não sou exigente, mas sim um homem
faminto.
Ela passou-lhe o pão de milho.
— Mary Kate foi um anjo hoje. Ficou comigo na cozinha e agora está dormindo —
contou, achando que deveria colocá-lo a par de tudo. Afinal, era o dono da casa.
— Que bom! A senhora tem irmãos ou irmãs, sra. Parkins?
— Não, sou filha única. Porém, tenho muitas primas. Foi com elas que aprendi a
cuidar de crianças. Eu sonhava ter uma família bem grande, mas, pelo visto, isto nunca
acontecerá.
— A senhora é jovem. Pode ser que ainda tenha muitos filhos. — Observou-a por
um instante, mas não deixou transparecer o que tinha em mente. — Feijão?
— Obrigada. — Elizabeth colocou um pouco em seu prato e depois deixou a
travessa num local onde Brice poderia pegá-la com facilidade. Estava tentando fazer
tudo da melhor maneira possível, assim, mal conseguia respirar. — O senhor disse que
tem um irmão? Não
existem outros?
— Não. Somos só dois. Na verdade, somos meio-irmãos. James gostava de me
lembrar este detalhe com freqüência. Nunca nos demos muito bem. Se fosse diferente,
poderíamos ter trabalhado juntos no rancho, e eu teria ficado no Texas.
— Arrepende-se de ter vindo para cá?
— Não, agora não mais. Sou senhor do meu destino aqui e não tenho que dar
satisfação a ninguém.
Ela o fitou embevecida.
— Foi exatamente isto que disse a mim mesma há alguns dias! — exclamou, mas,
de repente, conteve-se. — Claro que é diferente para um homem.
— A senhora é bem-vinda para ficar aqui por quanto tempo quiser.
Elizabeth brincou com os grãos de feijão que havia em seu prato.
— Vamos ver o que acontece. Nem sempre podemos fazer o que desejamos.
Especialmente se Robert voltar. Tenho obrigações a cumprir — a voz delicada soou em

43
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

falsete.
Brice a estava observando com grande atenção e ela apressou-se em lhe passar as
batatas.
— Já peguei algumas, obrigado. — Brice parecia divertido ao vê-la ansiosa para
mudar de assunto.
— Ah, claro... Será que é o choro de Mary Kate que estou ouvindo?
— Não, não ouviu nada.
— Deixei a porta do quarto aberta para poder ouvir se ela acordar, pois não quero
que Mary Kate pense que está sozinha.
— É uma pessoa muito gentil, senhora. Mas eu sabia que seria assim.
— Não posso ver bebês chorar por muito tempo. Acho que é uma fraqueza minha,
talvez por não ter tido os meus. Tudo o que precisamos para agradar essas criaturinhas
é um pouco de comida, fraldas limpas ou um abraço.
— Consuela dizia que chorar ajudava a limpar os pulmões de Mary Kate.
— Pois eu nunca vou deixá-la chorar. Não conheço uma única criança que tenha
sido estragada por ter sido tratada com amor e carinho. Portanto, se o senhor não
concordar com meus métodos é melhor falarmos agora mesmo.
— Por que está tão determinada a brigar comigo?
Elizabeth o fitou aturdida.
— É isso que pensa? Nunca quis dar tal impressão. Não sou uma pessoa
intransigente. Eu só... — corou envergonhada. Estava prestes a dizer que achava que era
ele que era difícil de agradar, mas calou-se a tempo.
Pelo menos fora o que ouvira de Célia.
— Espere aí, jamais disse que era intransigente, senhora. Tira conclusões muito
depressa.
— É, estou falando demais. Robert sempre me disse isso. Vou tentar me conter. —
Respirou fundo e cortou mais uma fatia do pão de milho que fizera à tarde.
— Sabe, gosto que fale. Cal nunca diz muita coisa além do estritamente necessário
e resto dos homens têm medo de conversar comigo. Portanto, algumas vezes me sinto
muito solitário. — Achou que era melhor controlar seus impulsos. Não era hora de ser
tão sincero. — Desculpe-me, sei que não deveria estar falando de meus sentimentos tão
abertamente. Mas estou um pouco sem traquejo social. Há muito tempo não converso
com uma dama.
— Ah, não me importo — Elizabeth disse honestamente. Mas o que será que ele
queria dizer com "há muito tempo não converso com uma dama"? Célia não tinha
morrido há tanto tempo assim! Por certo, marido e mulher costumavam conversar antes
da morte trágica, não? — Já ouvi coisas muito piores. As vezes Robert e seus amigos do

44
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

pôquer falavam sem cerimônias sobre tudo o que pensavam.


— Seu marido permitia que os amigos dissessem coisas indecorosas em sua
presença? Como podia aceitar isso? Por que ele não ia para o salão onde seria mais
apropriado jogar cartas?
— Robert era de opinião que a casa era dele e que eu deveria me curvar às suas
vontades e hábitos. Meu pai teria concordado com ele, pelo menos em termos, embora
preferisse morrer a ter de admitir que tinha algo em comum com o genro que tanto
desprezava.
— Parece que sua vida nunca foi um mar de rosas, mesmo antes de vir morar na
cabana do velho Zeb.
— Bem, minha família tinham uma linda casa em Hannibal. Meu pai a construiu
para dar de presente de casamento a minha mãe.
— É a primeira vez que fala de sua mãe.
— Mamãe morreu há muito tempo.
— Lamento. Deve sentir a falta dela.
— Sinto, nos dávamos muito bem embora minha mãe fosse uma mulher
totalmente submissa — Elizabeth contou pensativa. — Queria que eu fosse exatamente
igual a ela, dizia que eu seria mais feliz se aceitasse as coisas sem me rebelar, mas não
posso fazer isto. Seria impossível ficar sentada deixando que os outros tomem decisões
importantes por mim, sem levar em conta minha vontade.
— Também não gosto disso. Célia, certamente, não aceitaria este tipo de
comportamento. Minha esposa exigia que todos se curvassem a seus menores desejos.
Não era muito fácil viver com ela.
Elizabeth franziu o cenho e empurrou o prato para longe.
— O que eu disse que a aborreceu? — Brice surpreendeu-se.
— Como pode perguntar? Célia morreu há tão pouco tempo e o senhor já está
falando sobre os defeitos dela.
— Não se conteve. — Pois saiba que gostei muito de sua esposa, acho que nós duas
temos muito em comum.
— Mesmo? — ele perguntou com frieza.
— Sr. Graham, se vamos viver sob o mesmo teto é melhor sermos muito honestos
um com o outro. O senhor e eu não precisamos necessariamente gostar um do outro.
Embora eu só tenha visto Célia uma vez, considero-a como se tivesse sido uma grande
amiga e sou leal a sua memória.
— Talvez esteja exagerando senhora. É preciso mais do que uma visita para se
tornar amigo de alguém.
— Célia foi a primeira mulher que vi em quase um ano e insisto que o senhor a

45
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

respeite, embora não esteja mais conosco. Era uma moça muito nobre e bondosa.
Brice retalhou-a com o olhar.
— Conheci-a muito melhor de que a senhora, por isso, não é preciso ficar tentando
lembrar-me de meus deveres.
— Espero que não. — Elizabeth levantou-se e pegou seu prato. — Sou apenas a
babá de sua filha. Não devo me intrometer em seus assuntos pessoais.
— Tem toda razão.
Bem, não era assim que planejara terminar a primeira refeição que preparava na
casa, mas era melhor ser honesta do que deixá-lo falar mal da esposa falecida, tentando
fazê-la acreditar que não a amava. Se isso acontecesse, Elizabeth tinha medo de que
acabaria fazendo papel de tola, apaixonando-se pelo texano de olhos castanhos e fala
mansa. Ainda bem que Célia lhe contara exatamente quem era o marido!
Naquela noite, Brice acordou com o barulho de Mary Kate se debatendo no berço.
Automaticamente, jogou as cobertas para longe, levantando-se de um salto. Tinha
colocado a calça e estava no meio do corredor antes mesmo de estar completamente
desperto. Com um bocejo, abriu a a porta do quarto da filha, mas diante da cena com a
qual se deparou não ousou dar outro passo.
Elizabeth já estava lá, com o bebê nos braços, e começava a cantarolar uma canção
de ninar. Graciosa, abriu a janela para pegar a mamadeira que deixara na varanda a fim
de que o leite não estragasse.
Os cabelos negros estavam soltos e caíam em ondas reluzentes até pouco abaixo
da cintura delgada. Vestia uma camisola branca que lhe cobria até o pescoço, mas a
tênue iluminação da lamparina revelava detalhes perturbadores da silhueta feminina.
Ela parecia mais jovem e muito mais vulnerável.
Ao vê-la voltar-se para se sentar na cadeira de balanço com Mary Kate nos braços,
Brice deu um passo atrás e escondeu-se nas sombras do corredor. Não queria que
Elizabeth o visse. Estava descalço e sem camisa e isso poderia alarmá-la.
Sem saber que estava sendo observada, Elizabeth deu a mamadeira a Mary Kate
enquanto cantava a canção de ninar e sorria para a garotinha com ternura.
Era uma cena tão doméstica e emocionante que Brice sentiu um nó na garganta.
Então quando os cabelos negros ondularam por causa do balanço da cadeira, ele se
perguntou se seriam tão macios quanto pareciam. Afinal, eram muito mais longos e
brilhantes do que havia imaginado ao vê-los presos no coque característico.
Mary Kate devia ter a mesma curiosidade do pai, pois, inesperadamente, ergueu a
mãozinha rechonchuda e acariciou a madeixa escura que caía sobre o ombro delicado.
Elizabeth sorriu para a menina.
Silencioso, Brice afastou-se e voltou a seu quarto. Uma vez ali, sentou-se na

46
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

beirada da cama e correu os dedos por entre os cabelos castanhos. Talvez tivesse feito
uma grande bobagem ao trazê-la para sua casa. Jamais imaginara que se sentiria tão
atraído por ela. Naquela ocasião, chamar Elizabeth para ajudá-lo parecera-lhe o mais
sensato a fazer. Precisava de uma mulher para cuidar da casa e do bebê e ela de um
lugar decente para morar. Ainda assim, não estava funcionando como imaginara.
Elizabeth deixara isso bem claro durante o jantar e o comentário duro que fizera para
defender Célia ainda o magoavam.
Por que, diabos, ela parecia disposta a pensar o pior a seu respeito? Bem, pelo
menos isso serviria para não deixá-lo se apaixonar por outra mulher que não queria
ficar em Oklahoma, Brice tentou se consolar.
Perturbado, levantou-se e rumou para a varanda. O ar estava muito frio para ser
reconfortante, mas o choque de temperatura o ajudou a pensar com clareza.
Sim, Elizabeth Parkins não gostava dele por razões que desconhecia. Afinal,
deixara claro que pretendia regressar ao Missouri e ficar com sua família assim que
tivesse dinheiro para fazê-lo. Talvez fosse melhor assim.
Ela tinha um marido que poderia voltar a qualquer momento. Aliás, pensando
bem, só havia uma coisa decente a fazer, dadas as circunstâncias: mandar Cal a Glory
para procurar notícias de Robert Parkins, assim perderia todas as suas ilusões em
relação àquela mulher.
E Brice precisava fazer isso com a máxima urgência, antes que as emoções e
sentimentos que o devastavam se tornassem fortes demais para serem sufocados!

CAPÍTULO IV

Q uando completou dois meses que Elizabeth estava morando no rancho, ela já
havia se acostumado com a rotina da casa e tinha de admitir que gostava muito de viver
ali.
Brice mandara Cal a Glory para procurar Robert, mas o capataz não tinha
conseguido descobrir muita coisa.
Algumas pessoas lembravam-se de tê-lo visto na cidade meses antes, porém,
ninguém tinha idéia de onde Robert teria ido depois disso.
Elizabeth recebeu a notícia com tranqüilidade, mas o desaparecimento do marido
só confirmava suas suspeitas de que ele a abandonara e que não pretendia voltar mais.

47
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

A essa altura, Mary Kate já a conhecia muito bem e parecia considerá-la como
propriedade sua.
O rostinho delicado iluminava-se tão logo Elizabeth entrava em seu quarto.
Dengosa, a menina estendia os bracinhos, ao mesmo tempo que exibia um sorriso
angelical, para deixar claro que queria colo. Elizabeth a amava tanto quanto amaria se
fosse sua própria filha.
Ao contrário do que havia esperado, Brice também tinha se tornado muito
importante em sua vida. Como considerasse ser seu dever atendê-lo nos mínimos
detalhes, elaborava todo o cardápio da casa em torno das preferências do patrão.
Até agora, Brice ainda não mostrara nenhum sinal da crueldade que Célia
alardeara, mas Elizabeth ainda acreditava que a falecida sra. Graham tinha sido honesta
ao reclamar do marido, pois sua experiência com homens confirmava que esses eram
dados a arroubos de tirania.
Todas as noites depois do jantar, Brice sentava-se em seu gabinete, que também
servia como uma pequena biblioteca e verificava a contabilidade do rancho.
Elizabeth se sentira atraída por aquele aposento desde que o vira pela primeira
vez. Durante o dia, quando Brice estava fora, sempre ia à biblioteca e admirava as capas
de couro dos inúmeros exemplares, deliciando-se com a grande variedade de títulos que
havia ali. Talvez, por isso, finalmente seu desejo de ler falou mais alto do que o orgulho.
Certa noite, após colocar Mary Kate no berço, foi até a porta da biblioteca e parou
indecisa.
Brice estava sentado diante da escrivaninha de mogno, a luz do candeeiro
iluminava as faces angulosas e dava-lhes um ar um tanto quanto irreal. Embora
estivesse concentrado em muitos papéis com números, devia ter pressentido a presença
dela, pois, de súbito, ergueu a cabeça e a encarou.
— Sim? Deseja alguma coisa?
Elizabeth sentiu a boca seca. E se Brice se recusasse a deixá-la ler um livro? Seu pai
sempre repetia que leitura não era coisa para mulher e a desencorajava a cultivar o
hábito. Robert, então, chegava a ofendê-la por causa do único livro que tinha.
— Eu... eu estava pensando... — hesitou, incerta sobre como deveria continuar.
Ele deixou a pena de lado.
— Pensando em quê? — quis saber, curioso.
Elizabeth foi até a estante mais próxima e tocou um dos livros.
— Já leu todos estes?
— Sim, li. Gosto muito de ler.
— Eu também. Estava imaginando se, bem, se podia pegar um desses livros
emprestados de vez em quando. Tomarei muito cuidado e o colocarei de volta na

48
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estante assim que terminar. — Encarou-o com ar de súplica.


— A senhora gosta de ler?
A nota divertida que permeava a voz de barítono a irritou.
— Já lhe disse que sei ler. Minha mãe me ensinou antes mesmo que eu fosse à
escola. — Estava tentando não ser arrogante, mas era difícil. — Esqueça que eu pedi —
falou, virando-se para sair do aposento.
— Espere. — Brice recostou-se na cadeira de veludo. — Nunca falei que não a
deixaria ler meus livros. Ficarei feliz em partilhá-los com a senhora.
Elizabeth voltou-se para ele, embaraçada, e, ao mesmo tempo, sentindo-se mais
indignada do que nunca.
— O senhor está zombando de mim? Pode ter me encontrado morando numa
pobre choupana, mas fui muito bem educada. Se eu ficar aqui por mais alguns anos,
poderei muito bem ser a preceptora de Mary Kate.
— Se a ofendi de alguma maneira, por favor, aceite minhas desculpas — pediu
Brice com sinceridade genuína. — Sei que é uma mulher muito bem educada. Posso ver
por seu jeito de falar. Sei que a senhora tem um exemplar de Os Mistérios de Udolpho
que parece ter sido lido muitas e muitas vezes.
Ainda desconfiada, ela respirou fundo e declarou:
— É meu romance favorito. O senhor já o leu?
— Diversas vezes. Mesmo no Texas nós ouvíamos falar muito da sra. Radcliffe.
Para ser sincero, também tenho outro livro dela. — Levantou-se e foi até a estante que
ficava próxima à janela. — Aqui está. — Estendeu o livro na direção de Elizabeth.
Seus dedos se tocaram acidentalmente e os dois puxaram a mão depressa demais,
como se tal gesto pudesse apagar a onda de emoções que os varrera como um tornado.
— "O Romance da Floresta" — Elizabeth leu a contracapa. Só de saber que era da
sra. Radcliffe já ficava empolgada. Com mãos trêmulas, acariciou o livro como se fosse
um ser vivo. — Prometo que tomarei bastante cuidado.
— Se quiser, poderá lê-lo aqui mesmo. Estou quase terminando estas contas e
também planejo ler um pouco.
Elizabeth se descobriu sorrindo.
— Gostaria muito — confessou. Com passos lentos, foi até uma das cadeiras
bergère e acomodou-se ali.
Seus olhos voltaram-se para as páginas cobertas por letras desenhadas e, por uma
fração de segundo, acreditou que estava sonhando. Era bom demais para ser verdade.
Algumas vezes até considerara a hipótese de ler os livros da biblioteca sem pedir
permissão a ele, mas sua moral não permitiria tal abuso.
— A senhora poderia ter lido meus livros quando quisesse — Brice pareceu ter o

49
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

dom de ler seus pensamentos. — Estou surpreso que tenha imaginado que precisava
pedir permissão.
— Não costumo tocar nos pertences de outras pessoas sem autorização. Meus pais
sempre insistiram que uma pessoa tem de ser íntegra nos mínimos detalhes se quiser
que os outros a tratem com igual respeito.
Brice deixou a pena de lado outra vez, como se a perspectiva de conversar com ela
fosse muito mais interessante do que os cálculos.
— A senhora disse que seu pai também tinha uma biblioteca em casa. Deveria
gostar muito de ler, não?
Elizabeth baixou o olhar.
— Meu pai nunca gostou que eu lesse. Claro que lia tudo o que tínhamos em casa,
mas ele nunca soube desse detalhe. Principalmente, porque papai não comprava os
livros para ler e sim porque seus amigos importantes sempre diziam que ter uma
biblioteca em casa, por menor que fosse, dava um ar de respeitabi-lidade e elegância a
um cavalheiro.
— Eu gostaria muito que Mary Kate se tornasse uma leitora ávida. Podemos ter
acesso ao mundo todo através da leitura. Algumas vezes, sinto-me transportado para
um lugar mágico e encantador, sem ter nem mesmo precisado sair desta sala. — Ele riu
e parecia mais charmoso do que nunca.
Elizabeth sentiu o coração bater mais rápido e tentou buscar um assunto que a
trouxesse de volta à realidade.
— Célia gostava de ler?
— Não. Acho que minha esposa nunca leu um livro durante toda sua vida. Claro
que ela sabia ler e escrever, mas não julgava que a leitura fosse importante.
Durante um momento, Elizabeth considerou aquela informação. Sim, por mais
que estivesse tentando desesperadamente gostar de Célia e mantê-la no pedestal em que
se coloca os grandes amigos, aos poucos vinha descobrindo que a falecida sra. Graham
não era tão virtuosa como imaginava.
— Bem, algumas pessoas não gostam mesmo — tentou desculpá-la. — Meu pai
mesmo não gostava. Acho que herdei o gosto pela leitura de minha mãe. Passávamos
horas lendo. Enquanto uma lia em voz alta, a outra costurava ou bordava. Claro que
papai nunca soube disso.
— Espero que faça o mesmo com Mary Kate, presumindo que ainda esteja aqui
quando minha filha crescer um pouco. — Brice levantou-se da escrivaninha e foi se
sentar na bergère em frente a ela. O fogo crepitava na lareira, projetando sombras
douradas sobre o rosto anguloso. — Acho que deveria começar a pensar que seu marido
pode nunca mais regressar — sugeriu, de repente, observando-a com grande atenção. —

50
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

O sr. Parkins deveria ter voltado há muito tempo. Cal não conseguiu descobrir
nenhuma pista de seu paradeiro.
— Eu sei disso. De certa forma, nunca esperei que Robert voltasse — Elizabeth
deu de ombros. — Quer dizer, não depois da primeira semana após a partida dele. —
Pressionando os lábios um contra o outro, recostou-se na cadeira e olhou para o teto
como se pudesse encontrar uma resposta vinda do alto. — Algumas vezes me pergunto
se meu marido está morto. Claro, não acho que seria impossível que Robert tivesse
simplesmente decidido partir para sempre. Só não consigo acreditar que ele pudesse
fazer isso deixando a mim, ou a qualquer outra pessoa, sem suprimentos. Seria
desumano demais.
— Também pensei nisso.
— Eu poderia ter morrido de fome se o senhor não houvesse me trazido para cá.
Mesmo se tivesse usado a égua para tentar chegar a Glory, não creio que poderia
encontrar o caminho certo. Fui uma tola em não prestar atenção na trilha quando Robert
me trouxe para a cabana. E também por deixar que meu marido tivesse adiado a ida à
cidade até quando estávamos praticamente sem provisões. Se pudesse voltar atrás, faria
muitas coisas de maneira diferente.
— Se fizesse diferente, talvez nunca tivesse vindo para o meu rancho. E para Mary
Kate, é claro — acrescentou, com medo de quebrar aquele momento mágico que
estavam vivendo. Era a primeira vez que conversavam seriamente, sem discutirem ou
falarem sobre Célia.
— Quanto a isso, eu não mudaria nada — ela confessou.
— Nem eu. Embora deva confessar que se me encontrasse com Robert Parkins iria
levá-lo para trás do celeiro e ensiná-lo como se deve tratar uma dama, especialmente se
esta dama é sua esposa.
— Acho que esse era o grande problema entre nós — murmurou Elizabeth
pensativa. — Robert não podia suportar a idéia de que recebi uma boa educação e que
tinha uma visão um pouco mais abrangente do mundo. Para ser franca, creio que meu
marido nunca se perguntou por que o céu é azul ou as folhas são verdes na primavera,
mas se tornam frágeis e avermelhadas no outono, antes de cairem totalmente durante o
inverno. Muito menos sobre o que as estrelas realmente são e se um dia o homem vai
descobrir uma forma de voar e alcançá-las.
— Voar!? — Brice repetiu, franzindo o cenho. Apesar da utopia, admirava-a pela
sagacidade e pela ousadia de pensar em algo que estava muito a frente do século em
que viviam.
— Sim, li uma história a respeito de um homem que desejava tanto voar que colou
penas em seus braços com cera e saltou de um lugar bem alto para tentar voar. No

51
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

entanto, ele voou tão perto do céu que a cera derreteu, as penas caíram e ele também, é
claro. — Elizabeth exibiu um sorriso cativante. — Desde então, fico me perguntando
como seria estar no céu junto com os pássaros. Pode ser que isso nunca aconteça, mas
tem de admitir que a idéia é intrigante.
— Sim, muito.
— Certas noites, quando olho para o céu e vejo as estrelas cintilando ao longe,
pergunto-me o que realmente são. Por que estão lá como se fossem sentinelas a nos
vigiar?
— Ouvi dizer que são sóis, como o nosso, mas tão distantes que só conseguimos
divisar reflexos de sua luminosidade.
— Isto não o deixa curioso? Porque a mim, com certeza, deixa muito. Milhares de
sóis, todos lá, no espaço. O que mais deve haver por lá? — Riu da própria utopia. —
Deve estar me achando uma tola. Mas prometo que não vou incutir estas idéias malucas
na cabeça de Mary Kate. De qualquer forma, continuarei intrigada.
— Eu também.
— Os mistérios em geral sempre me fascinaram. Esta foi uma das razões pela qual
não me importei quando Robert quis vir para o oeste. A fronteira era um mistério
gigantesco para mim. Não podia imaginar uma terra onde ninguém tinha morado e
milhas e milhas de campinas, sem um único ser humano por perto. Agora sei muito
bem o que é isso. — Respirou fundo.
— Cheguei a pensar que Robert e eu nunca encontraríamos a cabana do sr.
Snodgrass depois de tanto tempo viajando sem ver uma única alma.
— Aposto que quando a encontraram ficou ainda mais surpresa — Brice
comentou divertido.
— Isto é o mínimo que posso dizer sobre o que senti naquele momento. — Ela
passou os braços em torno do próprio corpo, como se para se reconfortar diante das
lembranças daquele dia terrível. — Sabia que não seria um lugar maravilhoso, mas
esperava encontrar uma casa com assoalho e, pelo menos, um teto que não servisse de
ninho para insetos ou que pudesse desabar sobre minha cabeça após a primeira
tempestade de neve.
— O velho Zeb nunca se preocupou muito com conforto, por isso a cabana estava
abandonada — Brice refletiu. — E, até bem pouco tempo atrás, todo o material para se
construir uma casa decente tinha de vir do leste. Eu mesmo trouxe cada pedaço de
madeira para construir esta casa em uma carroça — contou, perdido em suas
recordações. — Não foi nada fácil, mas estava determinado a conseguir. Depois de a
casa estar pronta, foi a vez de a mobília ser trazida do mesmo jeito. Alguns móveis
estavam em minha família há anos, outros comprei para agradar minha esposa.

52
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Célia foi um noiva de sorte.


— Ela não pensava assim. A casa não a agradou, queria que fosse igual a de seus
pais. Isto sem falar que odiava o fato de não termos vizinhos. Imagino que Célia nunca
tenha se dado conta da real imensidão da fronteira. A mobília a agradou, mas ela
sempre achou que era muito masculina, que eu deveria tê-la deixado escolher tudo
pessoalmente. Foi por isso que ao chegar aqui encomendou papel de parede com
motivos florais para todos os cômodos. Nem imaginava como tinha sido difícil viver no
rancho antes de os móveis chegarem. Dormi no chão durante semanas e Célia teria
odiado isso. Não acho que ela resistiria a tamanho desconforto.
— Bem, qualquer mulher gosta de dar palpite na decoração de sua própria casa.
Tremo só em pensar o que Robert poderia ter escolhido se estivesse em seu lugar. Meu
marido achava que a cabana miserável em que vivíamos era apenas um inconveniente
natural e que conforto era bobagem, capricho feminino.
— Célia não era feita para a vida na fronteira e eu deveria ter percebido isso antes.
Mas creio que o ditado popular que diz que "só vemos o que queremos" é verdadeiro.
— Cometi o mesmo erro com Robert. No início de nosso relacionamento eu o via
como um rapaz ousado e um pouco irresponsável, mas não tanto quanto meu pai dizia.
Tínhamos grandes planos. Pena que esses planos foram esquecidos após os primeiros
meses de dificuldades — sussurrou. — Meu marido gostava muito de jogar e o vício
acabou com tudo que havia de bom nele.
— Elizabeth — Brice murmurou —, estou feliz que esteja aqui, cuidando de... de
Mary Kate — corrigiu-se em tempo.
— Eu também — confessou ela com um sorriso tímido.
O rosto de Brice estava longe do foco de luz, mas dava para notar que os olhos
castanhos brilhavam intensamente. Então, de súbito, ele se levantou e cobriu a distância
que os separava, antes de ajudá-la a fazer o mesmo.
Elizabeth sabia que Brice estava prestes a beijá-la, também sabia que deveria
impedi-lo de qualquer maneira. Contudo, em vez disso, fechou os olhos e ofereceu os
lábios numa entrega silenciosa.
O beijo foi gentil, impregnado de emoções novas para ambos. Os lábios carnudos
eram quentes e firmes, mas, ainda assim, convidativos. Uma onda de calor espalhou-se
pelas veias de Elizabeth. Sentia suas mãos pressionadas contra o peito viril, mas não se
lembrava de tê-lo abraçado ou tocado. Estremecendo, deixou o pudor de lado e
abraçou-o mais apertado.
Em resposta a essa ousadia, Brice deslizou as mãos por suas costas, insinuando-se
por sob o xale que ela usava. Era um gesto impregnado de sensualidade, que a
despertava para um admirável mundo novo. Elizabeth não imaginava que pudesse

53
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

vibrar com tanta intensidade diante das carícias de um homem. Ouviu um gemido
rouco e só depois de algum tempo se deu conta que o som emergira de sua garganta.
Minutos depois, Brice finalmente afastou os lábios, pondo um fim ao beijo ardente,
mas não a soltou. Em vez disso, ficaram abraçados em silêncio.
Elizabeth podia ouvir as batidas aceleradas do coração dele sob suas faces e
constatou que o beijo o tinha afetado quanto a ela. Sentia-se como se tivesse ganhado
asas e fosse capaz de flutuar. Só mesmo o rosto anguloso que repousava no alto de sua
cabeça a fazia perceber que mantinha os pés firmes no chão.
Por fim, seus olhares se encontraram.
Ah, se Brice se desculpasse iria querer morrer!, disse a si mesma, temendo-lhe a
reação.
No entanto, Brice tocou-lhe o contorno das faces com a ponta dos dedos,
parecendo querer memorizar cada detalhe de sua fisionomia.
— Elizabeth... — murmurou, pronunciando-lhe o nome como se estivesse
dominado por uma espécie de encantamento.
Ela colocou a mão pequenina sobre os lábios carnudos, impedindo-o de
prosseguir.
— Não diga nada, por favor. Já sei que não deveríamos ter ido tão longe.
— De onde tirou a idéia de que era isso que eu dizer? — revidou, antes de beijar-
lhe a testa com ternura, demorando um pouco para afastar os lábios da pele acetinada.
— Não estou arrependido. Você está?
Elizabeth sabia qual deveria ser a resposta. Sua mãe fora muito clara ao ensiná-la.
Qualquer carícia mais atrevida deveria ser refutada com firmeza, de maneira a
desencorajar futuras tentativas. O que deveria ser ainda mais sério em se tratando de
uma mulher casada, como era seu caso.
— Eu... Nós... — gaguejou. — O senhor nunca mais deverá se aproveitar de mim
dessa maneira! — tentou simular indignação.
— Aproveitar? — Brice repetiu, franzindo o cenho. — Pois tive a impressão que
estava gostando tanto quanto eu, minha cara.
— Sou uma mulher casada, sr. Graham! — alterou-se antes de erguer o queixo
com dignidade. Suas pernas tremiam e a respiração estava tão ofegante que mal podia
falar. Obedecendo a um impulso, pegou o livro que estava sobre a cadeira e saiu da
biblioteca o mais rápido que conseguiu.
Uma vez na segurança do próprio quarto, recostou-se na porta e tentou controlar
as batidas alteradas de seu coração. Apenas uma parte de sua agitação se devia ao fato
de ter subido as escadas correndo. Na verdade, a principal causa da respiração ofegante
ainda era o beijo e a paixão inesperada que Brice havia suscitado em seu corpo. Se

54
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

tivesse permanecido na biblioteca por mais um segundo sequer, com certeza teria
voltado a se atirar nos braços fortes e pedido que ele a amasse com ternura.
O desejo era tão intenso que ela fechou os olhos aturdida. Céus, o que tinha feito!?
Sucumbir aos prazeres da carne era natural para os homens, mas não para mulheres de
boa família. Havia se entregado aos beijos de Brice sem o menor pudor e, mesmo agora,
em sua auto-recriminação, não conseguia negar que o desejava com ardor.
Desconcertada, foi até o lado da cama e tirou a roupa. Abriu a gaveta do criado-
mudo e pegou uma camisola de algodão. Como o vestido que usava, o traje de dormir
também havia pertencido à Célia. Desde que chegara ao rancho, quase nunca colocava
os próprios vestidos pois estavam velhos e desbotados, já os de Célia eram novos e
tinham cores lindas.
Suspirando, abotoou a parte da frente da camisola antes de ir até o espelho e
encarar o próprio reflexo.
Era como se estivesse diante de uma completa estranha. Usava as roupas e a casa
de outra mulher e ainda por cima se dava ao desfrute de beijar o marido de sua
benfeitora!? Lentamente, o desejo que sentia por Brice foi substituído pela auto-
recriminação. Célia Graham tinha sido sua amiga, ou pelo menos teria sido se não
houvesse morrido no parto! Ela a prevenira a respeito de Brice! Não era justo que a
traísse, não era direito, não era digno...
Odiando-se por ceder às fraquezas do corpo, Elizabeth deitou-se no colchão de
penas e prometeu a si mesma que iria manter distância do dono da casa.
Por que tudo tinha de desmoronar justamente quando acreditava ter encontrado
um pouco de paz?, perguntou-se, ajeitando o travesseiro. Sim, a vida no rancho era tão
tranqüila e farta, muito diferente da que levara nos últimos sete anos, sem contar que
adorava Mary Kate. Se ao menos Brice não mexesse tanto com suas emoções! Depois do
beijo daquela noite ele saberia que não lhe era tão indiferente quanto tentava parecer.
Como fora ingênua ao acreditar que poderia viver no rancho sem se deixar
dominar pela atração que sentia por Brice.
Sentindo-se miserável, rolou na cama e tentou não pensar mais em Brice ou Célia.
Mas como não fazer isso se tudo a sua volta pertencia à outra mulher? Sim, era a casa de
Célia, as roupas de Célia, o marido de Célia...
Depois de vários minutos de silenciosa tortura, Elizabeth sentou-se e pegou o livro
da sra. Radcliffe que deixara sobre o criado. Abrindo o romance, tentou se concentrar
nas palavras e frases românticas e não no homem que estava no andar debaixo.
No entanto, pela primeira vez em sua vida, o amor pela leitura foi sobrepujado
por outro, o de um amor verdadeiro...

55
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth viu a charrete se aproximar quando estava pendurando roupas no varal


de arame farpado. Visitantes eram tão raros por aquelas paragens que deixou o que
estava fazendo e correu para chamar Brice.
Ele ficou tão surpreso quanto ela própria.
Juntos, postaram-se na varanda e esperaram que os visitantes chegassem mais
perto para que pudessem reconhecê-los.
De súbito, Elizabeth o sentiu tenso e voltou-se para encará-lo.
— Algum problema?
— São os pais de Célia — contou Brice com um suspiro. — Eu temia que eles
pudessem fazer isso.
— Será que vieram para uma visita rápida? — indagou um tanto incerta. Mesmo à
distância, dava para notar que a postura do casal de meia-idade não era nada amigável.
Pareciam estar se aproximando para uma batalha.
Então, logo que a charrete adentrou no pátio, eles viram Elizabeth ao lado de Brice
e seus rostos assumiram uma expressão abertamente hostil.
O homem saltou e ajudou a mulher a fazer o mesmo. Ainda assim, ninguém
sorriu.
Elizabeth notou que havia uma grande semelhança entre a mulher e Célia. Os
olhos dela eram tão azuis quanto os de Mary Kate e seus cabelos, agora grisalhos,
deveriam ter sido loiros na juventude.
— Não esperava a visita de vocês. Bem-vindos a meu rancho. — Embora as
palavras fossem polidas e adequadas, Brice não parecia estar nem um pouco satisfeito
com a presença dos sogros.
— Não viemos para um visita de cortesia — o homem retrucou com rispidez. —
Sabe muito bem o que nos traz.
— Sim, viemos buscar nossa neta — completou a senhora de olhos azuis.
— Vejo que continuam tão gentis e amigáveis para comigo quanto sempre foram.
— Brice começou a se dirigir para a porta da frente. — Entrem e descansem um pouco.
A viagem foi longa.
— Não pretendemos ficar muito tempo — a senhora atalhou num tom
empertigado. — Onde está minha neta?
Em lugar de responder, Brice dirigiu-lhe um sorriso de desdém, antes de se voltar
para Elizabeth.
— Que falha a minha! Permita-me lhe apresentar nossos hóspedes, querida. Estes
são Lorna e Hillyard Lanningan, pais de Célia. Sr. e sra. Lanningan, esta é Elizabeth...
minha esposa.
Elizabeth o encarou perplexa.

56
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Todavia, o casal pareceu ainda mais chocado do que ela.


— Esposa!? — exclamaram em uníssono encarando Elizabeth com hostilidade.
— Como pode ter se casado!? Célia morreu há apenas cinco meses! — Lorna
estava tão zangada que as palavras foram pronunciadas como se fossem dardos mortais
lançados para aniquilar o suposto inimigo.
— Esse é um tempo demasiado longo aqui no território — Brice deu de ombros. —
Elizabeth era viúva e vivia só em uma propriedade vizinha ao rancho. Mary Kate
precisava de uma mãe, Elizabeth de um marido, eu de uma esposa. Simples, não
acham?
Lorna e Hillyard olharam de Brice para Elizabeth.
— Ora, vamos — Brice acrescentou zombeteiro, parecia estar tendo prazer em
chocá-los — E vocês mesmo me escreveram uma carta dizendo que Mary Kate não
poderia ser criada por um homem sozinho. Segui o conselho que me deram.
— O que a senhora tem a dizer a seu favor? — Hillyard ignorou o genro e
concentrou sua fúria em Elizabeth.
— Eu... ãh, acho que tudo foi muito rápido. Mas resolveu todos os nossos
problemas — afirmou, tentando sorrir. Ah, deveria esbofetear Brice por tê-la obrigado a
mentir! E agora!?
— Sua... sua aproveitadora! — vociferou Lorna. — Você e Brice já deveriam estar
tendo um romance antes de minha Célia morrer.
Brice deu um passo a frente para defendê-la, mas Elizabeth estava acostumada a
travar suas próprias batalhas e foi mais rápida.
— Eu era amiga de Célia — falou com dignidade. — Os senhores não têm o direito
de me acusar de tal atrocidade! Brice e eu mal trocamos duas palavras antes da morte da
sua filha. Acho bom se lembrarem que estão na casa de Brice, nossa casa, e que não
poderão ficar aqui se decidirem ser rudes com qualquer um de nós.
Brice dirigiu-lhe um largo sorriso, parecendo feliz por constatar que era capaz de
tomar conta de si mesma, sem temer oponentes que gostavam de mostrar as garras
mesmo estando em território inimigo.
— De qualquer forma levaremos nossa neta conosco quando partirmos —
Hillyard rosnou feito um cão de caça diante da presa.
— Não, não levarão! — Elizabeth disse com firmeza. — Lamento que tenham
vindo de tão longe por nada, mas deviam saber que uma criança tem de ficar com o pai,
com sua família. E agora Brice e eu somos a família de Mary Kate. Sou a única mãe que
ela conheceu nesses cinco meses.
— Já havia lhes dito isso em minhas cartas — Brice acrescentou. — Sempre serão
bem-vindos para visitar sua neta, mas Mary Kate é minha filha e não sairá do meu lado

57
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

enquanto eu viver. Nasceu em Oklahoma, é aqui que vai crescer.


— Quero vê-la! — Lorna exigiu inconformada. — Onde ela está?
— Está dormindo no quarto — Elizabeth virou-se para entrar. — Venha, eu a
mostrarei para os senhores. — Ainda bem que havia fechado a porta dos quartos, por
que, do contrário, seria difícil explicar como recém-casados dormiam em camas
separadas. Também ficou feliz por ter continuado a usar a aliança de ouro que Robert
lhe dera. Isso a ajudou a sentir-se mais senhora de si enquanto levava os Lanningan até
o berço.
— Olhe só para ela! — Lorna sussurrou ao parar diante da neta. — Veja, Hillyard,
não é igualzinha a nossa Célia?
— Sim, poderiam ser gêmeas — murmurou o senhor de bigodes enormes. — Seu
cabelo parecia ouro líquido.
Lorna curvou-se sobre o berço e pegou a neta nos braços.
— Ela tem os meus olhos — anunciou orgulhosa.
Sonolenta, Mary Kate esfregou os olhinhos e seu lábio inferior começou a tremer,
deixando claro que logo iria chorar.
Elizabeth tomou-a do colo da avó. Sabia que não deveria ter feito isso, mas, de
repente, teve muito medo que os Lanningan a levassem embora para sempre. Não iria
suportar viver longe daquela criança. Considerava-a como sua própria filha!
— Desculpe, mas Mary Kate não está acostumada com visitas e também ainda não
dormiu o suficiente. Fica mal-humorada quando não a deixamos descansar depois do
almoço.
Lorna não lhe deu atenção. Girando nos calcanhares, passou a observar o quarto
cor de rosa.
— Os acolchoados e as roupinha que mandei estão todos aqui! — exclamou,
surpresa.
— Sim, a senhora fez um enxoval muito bonito para Mary Kate — Elizabeth
comentou, tentando ser justa. — Deve ter costurado e bordado durante meses a fio. Foi
um trabalho e tanto.
— Uma avó faz qualquer sacrifícios para garantir o bem-estar de uma neta. É por
isso que estamos aqui, não queremos deixá-la crescer neste lugar selvagem.
— Mary Kate está segura no rancho. Tem tudo o que precisa e um pouco mais —
Brice disse da porta.
Só então Elizabeth notou que ele os havia acompanhado. Receosa, achou melhor
interferir antes que uma nova discussão eclodisse diante do bebê.
— Brice, vou acomodar os Lanningan no quarto de hóspede e cuidar para que o
cavalo deles seja levado para o estábulo.

58
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Pode deixar que eu mesmo farei isso. — Ele se prontificou. — Voltarei num
minuto.
— Os senhores viajaram longas horas para chegar aqui — Elizabeth comentou
assim que Brice se foi.
— Não gostariam de descansar ou se lavarem antes do jantar?
Lorna lançou-lhe um olhar de desdém.
— Ainda não posso acreditar que minha Célia mal foi enterrada e o marido já a
substituiu por outra. E a senhora ainda se diz amiga de minha filha! Uma amiga jamais
faria o que fez!
— Não sabe do que está falando, senhora — Elizabeth replicou sem alterar o tom
de voz. — As coisas acontecem de maneira diferente aqui na fronteira. Algumas
demoram mais, outras acontecem depressa, bem ao compasso de nossas necessidades
imediatas. A sobrevivência torna-se um ponto de honra para todos. Quando Consuela, a
governanta, partiu, não havia outra mulher que pudesse tomar conta de Mary Kate.
Brice adora a filha, mas precisa cuidar do rancho. Eu, por minha vez, estava vivendo
sozinha em circunstâncias muito difíceis. O mais sensato foi vir para cá pois, como já
explicamos, resolvia o problema de todo mundo.
— Célia nos escreveu contando sobre a crueldade de Brice — Hillyard atalhou. —
A senhora ficaria estarrecida se soubesse as atrocidades que ele cometeu com nossa
filha.
— Só posso dizer que tudo que tenho visto em Brice é a mais pura bondade. Ele é
muito gentil para comigo e com Mary Kate é o pai mais devotado, e amoroso que uma
criança poderia ter. Não precisam se preocupar com a segurança de sua neta.
— O lugar do bebê é conosco. Podemos dar uma educação a ela que seria
impossível neste lugar. Aqui não existe escola, muito menos vizinhos. Quando minha
neta for uma jovem dama, quem irá cortejá-la neste lugar isolado? — Lorna empertigou-
se.
— Não sei — Elizabeth admitiu. — Mas recebi uma boa educação, poderei ensiná-
la tudo o que aprenderia se fosse à escola.
— A senhora é uma mulher — Hillyard disse com desprezo. — Os professores das
escolas são homens. Pelo menos os melhores deles são.
Elizabeth respirou fundo, tentando conter a resposta mal-criada que estava na
ponta da língua.
— Vou deixar os senhores com Mary Kate enquanto preparo o quarto de hóspedes
— declarou, entregando a menina à avó e saindo do aposento sem olhar para trás.
Minutos depois, estava trocando os lençóis da cama do quarto de hóspedes
quando Brice entrou trazendo a bagagem dos Lanningan.

59
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Como pôde dizer a eles que somos casados? — gemeu exasperada.


— Foi a única coisa em que consegui pensar — admitiu, dando de ombros.
— Como vai explicar o fato de dormirmos em quarto separados? O que vai dizer a
eles quando eu voltar ao Missouri?
— Não sei — Brice confessou. — Não esperava ver os Lanningan em meu rancho.
— Ah, mas certamente esta mentira complicou ainda mais sua relação com eles! —
gemeu, enquanto alisava o tecido sobre o colchão de penas. — Casados! Francamente!
Quem poderia imaginar nós dois casados!? — empertigou-se, escondendo de si mesma
que essa união fantasiosa já havia se tornado real muitas vezes... mas em seus sonhos
românticos.

O jantar daquela noite foi um acontecimento deprimente. Os olhares eram


inamistosos e os raros comentários cheios de farpas. Elizabeth, por fim, cansou de tentar
entreter os visitantes com uma conversa amena e deixou que o silêncio reinasse sobre a
sala. Vendo a maneira como os Lanningan tratavam Brice era fácil entender por que ele
nunca quisera viver perto dos sogros ou mesmo encontrá-los. Só agora lhe ocorria que
Célia talvez não fosse o anjo que havia pintado em suas lembranças. Sim, com pais
como aqueles era bem provável que a falecida sra. Granam tivesse mais defeitos do que
havia considerado até então. Depois da refeição ninguém quis sentar-se à sala de visitas
e Elizabeth teve de lavar a louça sozinha pois Lorna não se ofereceu para ajudar.
Hillyard foi para a varanda da frente e ficou ali fumando um enorme charuto. Não
dava para saber o que Lorna e Brice haviam conversado no hall, mas Elizabeth percebeu
que ele estava furioso quando subiram as escadas que levavam aos quartos.
Elizabeth teria passado direto da porta do quarto de Brice, porém ele a segurou
pelo braço e a empurrou em direção a seus aposentos.
— Pode deixar que eu olharei Mary Kate — anunciou, fazendo um sinal discreto
que lhe dizia para não protestar, ou pelo menos não enquanto estivessem sendo
observados.
Os Lanningan entraram no próprio quarto e fecharam a porta atrás de si sem nem
mesmo dizerem boa-noite. Elizabeth ficou parada no centro do quarto de Brice sem
saber o que fazer. Não tinha a menor intenção de dividir a cama com ele, mas também
não queria que os Lanningan descobrissem que dormiam separados.
Brice logo retornou, trazendo a filha adormecida nos braços.
— O que está fazendo com Mary Kate? — ela sussurrou.
— Estou me certificando de que os Lanningan não fugirão com minha filha
enquanto durmo. Isto não se seria de admirar vindo de pessoas como Lorna e Hillyard.
— Colocou a menina na cama de casal e a cobriu.— Lorna me contou que Célia escreveu

60
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

dizendo-lhes que desejava partir assim que o bebê nascesse. Uma vez que minha esposa
pediu que a ajudassem a criar nossa filha, agora presumem que devem atender a seu
último desejo.
— Célia ia abandoná-lo?
— Não éramos felizes juntos, mas eu não fazia idéia que ela poderia ir tão longe. A
verdade é que Célia faria qualquer coisa para me magoar, e fugir com o bebê seria bem
típico de seu egoísmo exacerbado.
— Ela era mesmo assim? — Elizabeth estava sendo obrigada a mudar sua opinião
a respeito de Célia e não gostava nada disso. — É muito difícil de acreditar. Tinha um
rosto tão angelical!
Brice meneou a cabeça de um lado para outro.
— As aparências enganam, e, depois, você só a encontrou uma única vez.
Qualquer um pode ser agradável durante uma visita de cortesia, mas o mesmo não
pode-se dizer quando temos de dividir toda uma vida.
Elizabeth franziu o cenho.
— Isso não muda a posição delicada em que me colocou. Não vou passar a noite
em sua cama.
— Nem esperava que o fizesse. Os Lanningan ouviriam se você abrisse a porta o
corredor, por isso precisará usar a varanda para ir a seu quarto. — Sem mais uma
palavra, foi até a varanda e abriu a porta para deixá-la passar.
— Ah, claro, é uma boa idéia — aquiesceu, corando.
— Boa noite, Elizabeth — murmurou ele com um sorriso.
— Boa noite — respondeu com frieza, para disfarçar o efeito devastador que o
sorriso cativante havia exercido sobre suas emoções.

Os Lanningan partiram na manhã seguinte. Embora Brice não tivesse lhes dito que
deviam sair de sua casa o mais rápido possível, ele chegou bem perto disso.
Elizabeth esperava que Lorna fosse cobrir a neta de lágrimas e beijos antes de
partir, mas ela mal de um abraço em Mary Kate. Todas as suas emoções estavam
concentradas no ódio que sentia de Brice.
— Você está cometendo um trágico erro ao se recusar a atender o último desejo de
nossa filha — Lorna o avisou. — Mary Kate será quase uma bárbara se for educada
neste lugar.
— Presumo que Célia estava tão ocupada reclamando de mim que nem
mencionou a proposta de construção da cidade.
— Cidade? Que cidade? — Hillyard interrogou desconfiado.
— Como sua filha estivesse se sentindo muito sozinha, escrevi para o comitê de

61
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

colonização do governo e ofereci terras a um grupo de colonizadores, desde que entre


eles houvesse um pastor, um professor e um comerciante para cuidar do armazém
geral. Quatro famílias concordaram em vir. Mary Kate não vai crescer sozinha.
— Ah, por certo essa é mais uma de suas mentiras! — Lorna replicou, espumando
de raiva. — Célia teria nos contado sobre isso se fosse verdade.
— Não se ela estivesse determinada a me retratar como o pior dos maridos.
Elizabeth estava fazendo um esforço hercúleo para não demonstrar o quanto a
revelação a surpreendia. Então logo haveria uma cidade no vale? Era bom demais para
ser verdade.
— Façam uma boa viagem de volta ao Texas — Brice disse aos Lanningan num
tom pouco convincente.
Eles partiram tão ou mais zangados do que quando haviam chegado. A charrete
seguiu na direção de Glory, de lá os Lanningan pegariam o trem que os levaria de volta
ao Texas.
— Uma cidade!? — Elizabeth perguntou tão logo estavam sozinhos. — Aqui? Por
nunca me contou?
— Porque só soube que minha oferta tinha sido aceita há poucas semanas. Não
queria falar sobre algo que não era uma certeza.
— Pois deveria ter falado.
— Não tenho pressa de perder você, Elizabeth. — Inesperadamente, ele se virou e
entrou na casa, deixando-a sozinha para decifrar o significado do comentário intrigante.
"Uma cidade!", Elizabeth pensou deslumbrada com a idéia. A chegada de outras
famílias significaria que teriam uma carruagem que faria viagens constantes a Glory e,
talvez, para o leste. Será que até lá teria dinheiro para bancar o custo de tal trajeto?
Ah, tinha muito em que pensar. Talvez logo tivesse a solução para seus
problemas. E afastar-se de Brice era a única maneira de não se perder de vez nos braços
daquele amor que entrara em seu coração sem pedir licença, e fora ficando, ficando... O
problema era que um dia poderia se tornar grande demais e Elizabeth não teria mais
como controlá-lo...

CAPÍTULO V

P ara felicidade de todos, a primavera chegou aos campos de Oklahoma, ao

62
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

norte das montanhas Ouachita, espalhando ondas de flores silvestres de todas as cores e
formatos pelas encostas da colina e ao longo do vale verdejante. Aliviada por se ver
livre dos dias frios e cinzentos de inverno, Elizabeth costumava levar Mary Kate para
brincar ao ar livre sempre que tinha um pouco de tempo.
Desde a noite em que Brice a beijara na biblioteca, nunca mais haviam tocado no
assunto ou demonstrado abertamente o quanto se desejavam. Assim, ela não se permitia
enfrentar os olhos castanhos e fazia o máximo para evitar qualquer contato físico
acidental, o que era comum acontecer entre duas pessoas que viviam na mesma casa e
cuidavam do mesmo bebê.
Em uma daquelas manhãs primaveris, estava sentada no acolchoado que jogara
sobre a grama para que Mary Kate pudesse brincar à sombra de uma árvore quando
Brice saiu do celeiro.
Por um momento, ficou parado observando-as como se fosse um quadro que
merecia ser admirado e capturado em toda sua essência. Mary Kate tentava firmar as
perninhas roliças e empregava todas as suas energias para ficar em pé, gritinhos
extasiados escapavam dos lábios rosados da menina quando ela conseguia seu intento
com a ajuda de Elizabeth.
— Não vai demorar muito para Mary Kate sair correndo por aí — Brice comentou,
aproximando-se e se agachando junto delas.
Ao ouvir a voz conhecida, Mary Kate produziu o som característico dos bebês
antes de cair de quatro e gatinhar em direção ao pai.
— Nunca vi uma criança tão determinada a andar!
— Elizabeth comentou com um sorriso. — Todos os meus primos mal gatinhavam
aos sete meses. Claro que isso poderia ser culpa das mães, pois entre as mulheres de
minha família existe a crença de que se uma criança andar cedo demais pode ficar com
as pernas tortas ao crescer.
— Isto não é verdade, é? — Brice questionou preocupado.
— Não, claro que não. Conheço muitas mulheres que deixaram seus filhos ficaram
em pé logo que eram capazes de fazê-lo e nenhuma dessas crianças tem qualquer
defeito. Todos os bebês têm a perna um pouco torta, mas assim que começam a andar o
problema melhora por si só.
— Tive muita sorte de encontrá-la, Elizabeth.
Ela o fitou desconfiada, antes de desviar os olhos.
Brice fez o mesmo.
— Quis dizer que tive sorte de encontrá-la para cuidar de Mary Kate — corrigiu-
se.
— Eu entendi.

63
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Vim até aqui para lhe dizer que vou à cidade. Precisa de alguma coisa? Posso
trazer o que quiser.
— Você vai à cidade? — Elizabeth repetiu. Robert tinha dito a mesma coisa para
ela antes de partir. — Hoje?
— Sim, se sair agora poderei chegar lá antes de escurecer. Cal vai me seguir com a
carroça.
Ela virou o rosto na direção oposta, para que Brice não percebesse que estava
perturbada com a notícia.
— Preciso de farinha, açúcar e, claro, café. Será que poderia comprar linha
também? Mary Kate está perdendo todas as roupinhas que tem e preciso costurar
algumas novas para ela. Estava pensando em cortar o vestidinho com flores rosa e
reaproveitá-lo.
— Posso comprar tecido para você. Cal me contou que o novo armazém geral tem
uma sessão de armarinhos e tecidos. Que cor você quer?
Elizabeth pensou por alguns instantes.
— Azul iria muito bem com os olhos dela.
— Então será azul.
Enquanto Brice ficava em pé, Elizabeth murmurou:
— Você voltará, não é?
Ele a encarou por um longo momento.
— Sim, amanhã mesmo estarei de volta.
Embaraçada, desviou o olhar.
— Só estava perguntando.
— Não sou Robert. Nunca tive a intenção de fugir de minha responsabilidades ou
de desertar alguém — respondeu com uma expressão enigmática, antes de seguir para a
casa.
Elizabeth o observou até que ele entrou. A lógica lhe dizia que Brice não iria
deixar um rancho próspero para trás e a própria filha. Mas também havia imaginado
que Robert não abandonaria o pouco que possuía, inclusive a esposa.
Mary Kate pressentiu-lhe a mudança de humor e aninhou-se em seu colo.
Elizabeth a abraçou bem apertado. Estava sendo tola em se preocupar. Brice voltaria.
Minutos depois, ele saiu da casa carregando um poncho nos braços para usar em
caso de chuva. Também trazia uma pistola no cinturão da calça índigo.
Elizabeth nunca o vira usando uma arma antes e, por isso, não pôde evitar de
franzir o cenho.
— Voltarei amanhã antes de escurecer — Brice informou. — Você estará
perfeitamente segura aqui. Lucky Jones irá ficar responsável pelo rancho em minha

64
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

ausência. Se precisar de alguma coisa peça ajuda a um dos homens.


— Tudo bem, estou acostumada a cuidar de mim mesma.
— Eu sei, mas, de qualquer forma, quero que saiba que é Jones quem está no
comando.
Elizabeth assentiu. Gostara de Lucky Jones desde a primeira vez que o vira. Ele
era quase da mesma idade de Cal, mas tinha sempre um sorriso no rosto. Como Cal,
Lucky não tinha história e ela duvidava que Jones fosse, de fato, o sobrenome do
capataz. Ainda assim, sentia-se segura em sua companhia.
— Voltarei amanhã, antes de o sol se pôr — Brice tornou a repetir, abaixando-se
para beijar Mary Kate no alto da cabeleira dourada. — Até mais, Elizabeth... — encarou-
a como se tivesse mais alguma coisa a dizer, porém, de súbito, girou nos calcanhares e
seguiu para o estábulo.
Pouco tempo depois o viu partir montando o cavalo baio e tendo Cal em seu
encalço, pois era preciso levar a carroça para trazer os suprimentos.
Com um suspiro, ela pegou Mary Kate nos braços e entrou na casa, sentindo-se
estranhamente solitária. Porém, desta vez era uma solidão muito diferente da que
experimentara quando Robert partira. Claro, agora tinha os trabalhadores do rancho
para lhe fazerem companhia e também o lindo bebê que trazia nos braços. O problema
era que a solidão que a assolava era como se somente uma pessoa no mundo importasse
ou fizesse diferença para sua felicidade: Brice.
Sim, todos os meses que passara no rancho acabaram por tornar seu amor por ele
ainda mais intenso e Elizabeth não sabia o que fazer com tal sentimento.

Brice acordou muito antes de o sol nascer.


Cal se remexeu na cama ao lado e também começou a despertar.
Sem dizer uma palavra, Brice jogou as cobertas para longe e ficou em pé. Logo
vestiu a calça, as botas e a camisa de flanela xadrez.
Cal cocou a cabeça e esfregou os olhos. Tinham conseguido chegar à cidade antes
mesmo do escurecer e, ao contrário de Brice, o capataz havia passado muito tempo no
saloon. Não que fosse dado a beber, mas bem que gostava de uma boa partida de
pôquer. Era justamente por causa do jogo que voltaria para casa uma centena de dólares
mais rico do que chegara a Glory.
— Você vai limpar mais alguns bolsos enquanto eu estiver comprando os
suprimentos? — Brice perguntou conforme abotoava a camisa.
— Pode ser que sim.
— Eu estarei pronto para partir no meio da manhã.
— Não precisarei de tanto tempo assim — Cal dirigiu-lhe um de seus raros

65
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

sorrisos.
Brice riu.
— Passarei no saloon para chamá-lo — prometeu antes de sair do quarto e descer
para a sala de jantar.
Todas as vezes que vinha a Glory se hospedava naquela pensão. O único outro
lugar onde havia quartos para alugar era no andar de cima do salão e ele odiava ficar
ouvindo o som de risos e discussões, sem contar com os acordes dissonantes do piano
ou os gemidos que vinham dos quartos das garotas que recebiam os cowboys em seus
aposentos. Não, definitivamente, aquele não era o melhor ambiente para ele. Preferia
essa casa de família. Era simples, mas limpa e adequada. E logo confirmou que sua
escolha estava certa.
Ao vê-lo descer, a dona da pensão o recebeu com um sorriso e serviu seu café
como sempre. Por sorte, a pensão ficava perto do centro da cidade e após alguns
instantes de caminhada Brice estava onde queria. Embora Glory houvesse crescido
bastante nos últimos tempos, ainda era uma cidade típica do oeste. As ruas eram sujas e
empoeiradas e as calçadas praticamente não existiam. Afinal, muitos comerciantes
consideravam perda de tempo construir calçadas porque havia poucas damas
transitando por ali e os cowboys não se preocupavam com tais detalhes.
Obedecendo ao roteiro que traçara mentalmente, Brice foi direto ao armazém de
ferragens e utensílios agrícolas. Pediu remédios e ração para o gado e animais
domésticos que mantinha no rancho. Claro que, com a chegada da primavera, seu gado
tinha muita grama fresca para comer, mas os cavalos precisavam de aveia para
agüentarem os cavaleiros em seus lombos, também havia um touro doente que
necessitava de alimentação especial.
O proprietário o conhecia bem e prometeu que as compras logo seriam levadas
para a carroça estacionada perto do saloon. Brice agradeceu antes de seguir para o novo
armazém geral que ficava perto da barbearia.
Era fácil de perceber que a construção era nova porque as paredes ainda exalavam
a um aroma de pinho silvestre e continuavam brancas, pois não dera tempo de a poeira
grudar na pintura recente. Como Cal lhe dissera, ali havia de tudo um pouco. Satisfeito,
apertou a mão do dono do armazém e entregou-lhe a lista com os pedidos de Elizabeth.
— Vou separar o que pediu, Brice. Fique à vontade para olhar as prateleiras e ver
se não esqueceu de colocar alguma coisa na lista. Recebi um novo carregamento de
farinha de trigo e vou ver se consigo encontrar alguns sacos com o mesmo padrão para
você levar.
Brice acatou a sugestão inicial e foi até os fundos da loja onde ficava a sessão
destinada às senhoras. Sentia-se um potico deslocado ali, mas estava determinado a

66
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

comprar o que viera buscar.


Uma mulher com a fita métrica no pescoço veio atendê-lo.
— Preciso de tecido azul para fazer um vestido de criança.
— Que idade tem a criança?
— Ela é um bebê. Tem mais ou menos este tamanho — disse, abrindo os braços
para simular a altura de Mary Kate.
— Temos um guingão lindo aqui — comentou a senhora, referindo-se ao tecido
fino que imitava algodão.
— É o preferido das mulheres para fazer roupas de crianças. — Imediatamente,
mostrou-lhe uma peça de tecido azul salpicado de flores brancas.
Brice riu. Sentia-se com um touro numa sala de jantar cheia de peças de cristal e
porcelana. Não sabia nem ao menos se podia ou não tocar no tecido.
— Ah, este serve.
A vendedora não se importou de perguntar-lhe que metragem queria. Sabia muito
bem o quanto era preciso para se costurar um vestido de bebê, porque era óbvio que
Brice não fazia a menor idéia do quanto teria de levar.
— Preciso de outro tecido — ele comentou inspirado. — Desta vez, para uma
roupa de mulher. Ela tem cabelos pretos e olhos acinzentados.
— Qual o tamanho da senhora em questão?
Brice ergueu as mãos até a altura dos ombros.
— Mais ou menos assim e sua cintura deve ser deste tamanho — uniu as mãos
para formar um pequeno círculo.
A vendedora riu.
— A maioria das mulheres gosta muito de rosa — sugeriu.
Brice assentiu. Sim, rosa ficaria bem em Elizabeth.
— Que tal aquela peça ali, senhor? — Foi até a prateleira e pegou um tecido que
era da cor exata das flores silvestres que pontilhavam o vale. — Daria um lindo vestido.
Também tenho uma renda que combinaria certinho aqui.
— Sim, pegue tudo que ela poderá precisar para fazer um lindo traje — ordenou,
ansioso para agradar Elizabeth. Não sabia ao certo o que lhe dera, mas, de repente, era
muito importante fazê-la feliz.
A vendedora mediu metros e metros de tecido rosa, renda creme e alguns fitilhos
de cetim para o acabamento.
— Não sei quantos botões ela irá apreciar, senhor, por isso coloquei um número
próximo à média que nossas freguesas costumam comprar.
Brice assentiu antes de frisar:
— Não se esqueça de colocar linha também.

67
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— De que cor? — A vendedora colocou várias meadas de linha sobre o balcão.


— Elizabeth não disse. Rosa, talvez.
A vendedora mordeu o lábio inferior, como se preferisse caminhar descalça sobre
um canteiro de espinhos do que confiar em um homem para comprar apetrechos de
costura.
— Que tal se eu lhe desse um pouco de linha rosa, azul, branca e preta que s ão as
cores básicas? E fitas, não quer fitas para o cabelo?
Ele riu.
— Sim, Elizabeth precisa de fitas — concordou, enchendo as mãos com fitas de
cetim de várias cores antes de carregar suas compras até o balcão principal.
— Parece que você está querendo se distrair um pouco com costura, Brice. Tem
andado muito solitário lá pelo rancho, hein? — o dono do armazém brincou bem-
humorado.
— Nem tanto quanto costumava ser, Ed — replicou, mas não ousou explicar o
porquê da resposta. — Está vendendo bastante, não? Neste novo prédio você tem muito
mais espaço e pode oferecer todo tipo de mercadoria. O movimento melhora bem, não?
— Sim, mas nós precisávamos mesmo ampliar o negócio. Várias famílias se
mudaram para a cidade antes do inverno e todas com muitos filhos, o que significa que
eu tinha de oferecer mais produtos para a freguesia. Eu adoro famílias grandes. — Ed
riu enquanto embrulhava as fitas e tecidos. — Por falar nisso, como vai seu bebê?
— Crescendo como uma semente bem adubada — brincou. — Mary Kate não vai
demorar muito a andar.
— Já? Parece que foi ontem que nasceu e... — calou-se ao lembrar que a mãe
morrera ao dar a luz a Mary Kate. — Sinto muito pelo que aconteceu com dona Célia.
Imagino que seja muito duro para você viver sem sua esposa.
Brice hesitou.
— Tenho uma pessoa que cuida de Mary Kate e organiza a casa.
— Isto é bom. — Ed virou o papel em que estivera fazendo a conta e assim Brice
pôde ver o resultado.
— Está tudo aqui. — O tecido, as fitas, farinha açúcar, óleo e feijão.
Brice colocou a mão no bolso e tirou um maço de notas dali.
— Sua carroça está aí em frente?
— Ainda não. Cal vai trazê-la daqui a pouco.
— Pode deixar que ficarei de olho e carrego tudo assim que seu ajudante chegar.
Muito agradecido pela preferência. — Disse, apertando a mão de um de seus
melhores fregueses.
Brice aquiesceu e deixou o armazém. Sentia-se feliz por ter comprado um vestido

68
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

novo para Elizabeth. As mulheres adoravam roupas novas. Algumas vezes chegara a se
perguntar se ela não se importava de usar os vestidos que foram de Célia. Acabara
concluindo que nem tanto. Elizabeth era prática, e, portanto, não costumava ficar se
lamentando por pequenas coisas.
Ele próprio não faria qualquer objeção a usar as roupas de Robert Parkins se a
situação fosse invertida.
Além do quê, roupas eram roupas, nada mais. Mal havia reconhecido as de sua
falecida esposa quando vira Elizabeth usá-las. Sim, Elizabeth tinha curvas nos lugares
certos e Célia, apesar de um rosto angelical, era reta como uma tábua.
Ainda estava pensando nisso quando Cal estacionou a carroça diante da loja. Pela
rapidez com que chegara, era óbvio que não havia encontrado ninguém que quisesse
jogar uma partida de pôquer. O que não era de se estranhar, pois Cal tinha a reputação
de um homem que nunca perdia, portanto, estava ficando cada vez mais difícil
encontrar parceiros dispostos a correrem o risco.
Brice olhou no interior da carroça e viu que as compras que fizera no armazém de
ferragens já estavam acomodadas ali.
— Pare mais perto da loja de Ed, Cal. Ele o está esperando. Vou buscar meu cavalo
e logo poderemos partir.
Pouco depois, quando deixavam a cidade, Brice avistou Oscar Pellam, o agente
funerário, diante de sua loja e puxou as rédeas do cavalo baio.
— Vá na frente, Cal. Eu logo o alcançarei — disse, antes de seguir até Pellam e
desmontar.
— Bom dia sr. Graham. Um dia lindo depois de todos esses meses de inverno,
não?
— Sim, muito. Posso lhe falar, Pellam?
— Claro. Não aconteceu nada em seu rancho, não? Foi uma pena o que houve com
dona Célia. Por favor, aceite meus sentimentos.
— Obrigado. Mas o que quero saber é se em seu trabalho não se deparou com um
homem chamado Robert Parkins.
— Parkins... — o agente funerário repetiu como se estivesse tentando se lembrar.
— Ele era um homem de cabelos escuros, perto dos trinta anos, magro e alto?
— Nunca o vi. Saiu da cabana do velho Zeb pouco depois do Natal e nunca mais
regressou. O mais espantoso é que deixou a esposa sozinha.
— Entre um pouco para conversarmos melhor — Pellam abriu a porta.
Brice o acompanhou ao interior da funerária e ficou feliz ao perceber que não
havia nenhum defunto sendo preparado.
Pellam o levou até o escritório e remexeu numa pilha de papéis que estava sobre a

69
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

escrivaninha.
— Aqui está — falou com um suspiro. — São os pertences de um homem que foi
encontrado totalmente congelado na planície e trazido para cá. Nunca o tinha visto
antes, por isso imaginei que fosse um aventureiro que ainda não havia se estabelecido
na região. — Abriu a gaveta e pegou um cinturão com uma pistola, uma sacola de
couro, do tipo que se pendura no pescoço, e um envelope. Em seguida tirou alguns fios
do cabelo do envelope. — Sempre faço isso. As senhoras gostam de guardar fios de
cabelos de seus entes queridos. Acha que este podia ser Robert Parkins?
— Provavelmente era. Posso levar os pertences para a sra. Parkins e ela nos dir á
com certeza. Se não for dele, trago de volta para você na próxima vez que vier à cidade.
— Parece um acordo justo. Eu dei um enterro decente ao pobre homem. Está no
cemitério da Glory. Se for ele mesmo, pode dizer à viúva que ficarei feliz em colocar o
nome, ou melhor, um epitáfio completo na sepultura. Diga-lhe também que meus
preços são bastante razoáveis.
— Eu direi. Muito agradecido pela informação. — Brice voltou para o cavalo baio
e colocou os pertences que Pelam havia lhe dado na garupa.
Morrer sozinho e congelado nas planícies de Oklahoma não era a melhor maneira
de se morrer, mas havia outras muito piores. Isso explicava por que Parkins nunca tinha
retornado. Por um instante, ficou se perguntando como Elizabeth reagiria à notícia de
que também era viúva.
Eles chegaram ao rancho no momento exato em que o sol começava a se esconder
atrás das colinas verdejantes. O céu era de um tom vivido de vermelho, com nuances
púrpuras e douradas que se projetavam em todas as direções. Uma lua cheia começava
a se erguer no horizonte conforme o astro rei se retirava para o merecido descanso.
Assim que a carroça parou no pátio, Elizabeth saiu na varanda. Ao avistar Brice
ela começou a correr, mas logo se controlou e diminuiu a velocidade dos passos.
— Eu disse que chegaria hoje, não foi?
Ela apertou as mãos diante do corpo, como se quisesse contê-las para não se trair.
— Estou feliz em vê-lo. Mary Kate ficará também. Ela andou meio irritada o dia
todo.
— Provavelmente deve estar nascendo outro dente. — Brice olhou para o rosto de
pele aveludada e, pela enésima vez, perguntou-se como lhe mostrar os objetos que
Pellam havia lhe dado. Não queria ser fonte de má notícia, mas precisava ser feito e
quanto antes melhor. Desmontando, pegou os pacotes da sela e colocou-os sobre os
ombros antes de seguir até a carroça.
— Trouxe-lhe algo especial — contou, pegando alguns embrulhos.
— O tecido para as roupas de Mary Kate?

70
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Só espero ter comprado a quantidade certa. Vamos entrar onde podemos ver
melhor.
Quando já estavam na sala de estar, Elizabeth puxou o barbante do enorme pacote
que Brice lhe entregou e removeu o papel pardo.
— Céus, olhe para todo este tecido! Vai dar para fazer dezenas de vestidos para
Mary Kate!
— O azul é para ela, mas o rosa é para você.
— Para mim!? — Elizabeth encarou-o surpresa. — Mas eu não preciso de um
vestido novo.
— Todas as mulheres precisam de vestidos novos. Disse à vendedora do armazém
para colocar aí tudo o que você poderia precisar para fazer um.
Elizabeth pegou as fitas de cetim e o encarou numa silenciosa interrogação.
— Estas também são para você. Mary Kate ainda não tem cabelo suficiente para
usar fitas. — Para surpresa de Brice, os olhos acinzentados se encheram de lágrimas. —
O que fiz de errado desta vez? — perguntou, começando a ficar preocupado.
— Nada. Você fez tudo certo. Certo demais. — Esfregou os olhos e colocou as fitas
ao lado do tecido.
— Se não há nada errado, por que está chorando?
— Eu não estou chorando!
— Sim, está! — Aproximou-se dela e ergueu-lhe o queixo para obrigá-la a encará-
lo.
— É só que você é tão... gentil. — Elizabeth afastou-se o mais que pôde. — Acho
que nunca encontrei um homem tão gentil em toda minha vida. Sinto-me como se esta
fosse uma noite de Natal!
Só agora Brice entendia o quão dura tinha sido a vida de Elizabeth. O que trouxera
para ela não teria sido mais do que um mero agrado passageiro para Célia ou para a
maioria das mulheres que conhecia. Mais uma vez se perguntou por que ela fora tratada
com tanta maldade pela vida e pelos homens que deveriam tê-la amado
incondicionalmente: o pai e o marido. Por certo, Elizabeth não merecia!
— Lamento, mas também lhe trouxe outra surpresa, desta vez não tão agradável
— disse relutante. — Como era Robert?
Elizabeth o fitou confusa.
— Como assim?
— Estou me referindo a aparência física.
— Bem, ele era alto, tinha cabelos escuros, também era muito magro e seus olhos
eram verdes.
A descrição batia com aquela feita por Pellam. Por isso, começou a desembrulhar

71
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

os pertences que o agente funerário lhe entregara.


— Você o viu? — Elizabeth perguntou impaciente. — Robert está em Glory?
Brice estendeu-lhe a pistola e a sacola e couro.
Elizabeth não produziu nenhum som, apenas pegou a bolsa e ficou olhando para
ela.
Brice deu-lhe o envelope.
Quando ela divisou o conteúdo deste os olhos acinzentados se encheram de
lágrimas.
— O que aconteceu?
— Ele morreu congelado no meio do caminho de Glory até aqui. Uma vez que a
bolsa está vazia, deveria estar voltando para casa ou então os ladrões que o encontraram
levaram todo o dinheiro.
Lentamente, Elizabeth se sentou e observou a bolsa de couro e os fios de cabelo.
— O sr. Pellam deu um enterro digno a seu marido, mas não sabia que nome
deveria colocar na sepultura. Está no cemitério de Glory. Irá colocar uma cruz de
madeira ou você pode comprar uma lápide com epitáfio.
— Robert está morto — disse como se estivesse hipnotizada.
— Sinto muito por ter lhe dado a notícia assim, mas eu nem ao menos tinha
certeza de que era seu marido, Elizabeth. — Nenhum deles notou com que
familiaridade estavam se tratando pelo nome de batismo. — Da próxima vez que for à
Glory mandarei Pellam fazer a lápide e colocá-la.
Ela assentiu solenemente.
Então, de repente, um choro agoniado veio do andar de cima da casa e os trouxe
de volta à realidade.
— Mary Kate não está se sentindo bem — disse Elizabeth, suspirando antes de se
levantar e seguir para as escadas.
Brice a seguiu em silêncio.
— Acho que Mary Kate estava um pouco febril esta tarde. Ela mal tocou no jantar,
o que não é comum.
— Fez uma pausa diante da porta de seu próprio quarto para deixar os pertences
de Robert.
Brice olhou por entre a porta entreaberta e viu que o guarda-roupa tinha sido
colocado na parede onde deveria estar originalmente. Surpreso, voltou-se da porta que
conectava os dois quartos principais da casa e dali para o guarda-roupa que Célia usara
como escudo nos últimos meses de seu casamento.
Sem dar qualquer explicação sobre o motivo da mudança do móvel, Elizabeth
passou por ele e foi até o quarto de Mary Kate.

72
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

A menina estava sentada no berço e balançava o corpinho para frente e para trás
enquanto chorava com força.
— O que há de errado, meu bem? — Elizabeth a pegou no colo e Mary Kate
agarrou-se a ela ainda chorando. Os olhos acinzentados encontraram os de Brice. —
Céus, ela está queimando de febre.
Brice tocou a testa da filha e ficou surpreso com a temperatura elevada.
— O que há de errado com ela?
— Não sei. Pode acender a lamparina, por favor?
Brice tentou não demonstrar o quanto estava preocupado. Precisava se acalmar,
afinal, era normal que bebês adoecessem.
Assim que a lamparina foi acesa, Mary Kate cobriu os olhinhos com as mãos. Era
como se a luminosidade ferisse-lhe os olhos. Suas faces estavam totalmente vermelhas.
Parecia ter dificuldade até para movimentar a cabeça e, embora, tivesse parado de
chorar, emitia um gemido agoniado. Mas, talvez, o maior indício de que não estava bem
era que não havia nem ao menos atirado os bracinhos para o pai, como sempre fazia ao
vê-lo.
Elizabeth aninhou-a em seus braços e tentou reconfortá-la com palavras carinhosa.
— Precisamos fazer a febre baixar — declarou, virando-se para Brice. — Poderia
me trazer uma bacia com água e um pano limpo?
Enquanto se afastava para atender ao pedido, Brice viu Elizabeth começar a despir
sua filha. Pelo menos a preocupação dela com Mary Kate tinha amenizado o choque por
saber da morte de Robert, pensou dando um longo suspiro.
No momento em que Brice retornou ao quarto, Elizabeth estava inspecionando o
corpo de Mary Kate a procura de algum sinal visível de sarampo ou catapora.
— O que acha que é? — indagou ele, tenso.
Elizabeth pressionou os lábios até que formassem uma linha dura.
— Sinceramente, não sei. Ela não tem qualquer sinal na pele, mas fico me
perguntando se não pode ser sarampo.
— Onde ela pegaria isso? Tem alguém doente no alojamento dos homens?
— Não que eu saiba. — Elizabeth ajeitou a menina nos braços e mergulhou o
tecido limpo na bacia de água. Quando tocou a pele de Mary Kate, ela chorou mais alto
ainda e tentou impedir o contato. — Eu sei, querida. Está muito frio, mas tenho que
refrescá-la de qualquer forma. Vai ficar tudo bem.
Brice assistiu a cena em silêncio. O medo começava a corroê-lo como um monstro
voraz. Era muito comum que as crianças pequenas morressem com febres altas e
inexplicáveis e Mary Kate estava quente demais para ser uma febre provocada por um
dente ou coisa assim. Só de olhar dava para notar que estava mal.

73
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth pareceu notar-lhe a aflição.


— Vá ajudar Cal descarregar a carroça. Posso cuidar disso sozinha.
Ele estava relutante, mas sabia que não havia nada mais que pudesse fazer para
minimizar o sofrimento da filha. Além do quê, odiava ver Mary Kate chorar e gemer
daquele jeito.
— Voltarei assim que terminar — prometeu.
Elizabeth assentiu. Embalando o bebê com uma canção de ninar, molhou o pano
novamente.
Pouco mais tarde, quando Brice retornou, Mary Kate havia se acalmado, mas
continuava queimando de febre.
— Lucky disse que o jovem Avery também está doente — contou, referindo-se ao
mais jovem dos ajudantes do rancho. Na verdade, Avery era pouco mais que um
menino. — Passou mal esta tarde e parece que é escarlatina. Cal está cuidando dele
agora.
Elizabeth estremeceu.
— Você já teve escarlatina?
— Sim, e você?
— Acho que tive. Mas vamos ficar sabendo logo. Avery esteve aqui na casa com
Lucky para me ajudar a mudar o guarda-roupa de lugar. Talvez Mary Kate tenha pego
dele.
— Ouvi dizer que essa doença passa de uma pessoa para outra quando se fica
muito perto ou coisa assim? Por acaso Avery pegou Mary Kate no colo?
— Não, nem olhou na direção dela.
— Bem, de qualquer forma aconteceu. Parece que minha filha também está com a
doença. — Com ternura, acariciou os cabelos úmidos de Mary Kate, que ergueu um
pouco o rosto para encará-lo com expressão sofrida. — Venha aqui, minha querida.
Deixe-me segurá-la por um minuto.
Mary Kate apoiou o rosto no peito de Brice e ele pôde senti-la queimando como
ferro em brasas.
Elizabeth encheu o peito de ar e meneou a cabeça de um lado para outro. Os olhos
acinzentados estavam brilhantes e arregalados.
Brice notou que ela estava apavorada.
— Ela vai ficar bem — murmurou, querendo reconfortá-la.
— Sim, vai. Não deixarei que nada aconteça com Mary Kate — Elizabeth disse
com firmeza.
Brice assentiu. Sabia que naquela noite ninguém dormiria na casa, mas estava
contente de estar ali.

74
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth era a mulher mais admirável que já conhecera, parecia que quanto mais
as adversidades a encurralavam, mais encontrava forças para lutar e vencer os
obstáculos que a vida colocava em seu caminho.
Sim, ela tinha coragem, e o Oeste só poderia ser conquistado por pessoas assim,
capazes de sobreviver à tormentas sem perder a essência de amor e ternura que pulsa
no peito de todos os seres humanos. Afinal, quando os bravos amam conseguem
superar a si mesmos e a todos os outros desafios...

CAPÍTULO VI

E lizabeth ergueu levemente o rosto. Suas faces estavam pálidas e o cansaço era
evidente, porém, ela se recusava a ir para a cama. Brice ficara a seu lado durante toda a
noite enquanto tentava baixar a temperatura de Mary Kate. Quando a luz perolada da
aurora tingiu o horizonte, finalmente a menina já não estava tão quente.
— Acha que o pior já passou? — perguntou angustiada.
Brice tocou a testa da filha com a ponta dos dedos.
— Não sei dizer com certeza. Talvez um pouco. — Não queria lhe dar falsas
esperanças.
— Olhe só o rostinho dela. Está tão vermelha quanto antes, menos em torno da
boca. Deve ser mesmo escarlatina. Eu tinha esperanças de que Lucky estivesse
enganado a respeito de Avery, mas, pelo jeito, não — falou, parecendo exausta.
— Vá dormir um pouco. Eu cuido de Mary Kate.
— Não quero deixá-la.
— Ela pode piorar ao longo do dia e é melhor que esteja descansada para pensar
com clareza e decidir o que devemos fazer. Não vai ajudar em nada se desmaiar de
exaustão.
Elizabeth assentiu e colocou a menina adormecida no berço.
— Fique atento. Se Mary Kate piorar, por favor, me chame.
— Prometo que o farei. — Brice sentou-se na cadeira de balanço e olhou para a
filha. Ela parecia tão pequenina e indefesa. Podia até ouvir a respiração raspando-lhe a
garganta.
Em seu sono, Mary Kate ergueu a mão e passou sobre a vermelhidão que se
apossara das faces alvas. Gentilmente, Brice afastou a mãozinha da pele irritada.
A escarlatina era um doença muito temida, não só no Oeste, mas no mundo todo.

75
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Ninguém sabia ao certo como ela passava de uma pessoa para outra, mas, quando
morava no Texas, Brice tinha ouvido falar que um rancho inteiro havia sido
contaminado pela doença. O pior era que as pessoas morriam de escarlatina. Até onde
sabia não havia cura nem remédios que pudessem resolver o problema. A doença
seguia seu curso e só o destino poderia dizer quais felizardos conseguiriam sobreviver a
ela.
Brice desejava ter contraído a doença ele mesmo. Faria de tudo para poupar Mary
Kate. Afinal, desde o nascimento a menina tinha sido como um milagre em sua vida. Ela
era pequenina, ainda assim havia sobrevivido ao parto difícil e até agora nunca tivera
nenhum problema de saúde mais sério. Com o coração apertado dentro do peito, rezou
para que sua filha voltasse a ser a criança saudável e esperta de sempre e não uma
criatura frágil e doente como a mãe fora. Célia adoecia com freqüência e quando o fazia
demorava a se restabelecer. Será que Mary Kate seria como a mãe?
Ele fechou os olhos e esfregou-os com as costas das mãos. Também estava
exaurido. Cavalgar de Glory até o rancho já não era fácil, que dirá então ter passado a
noite acordado, de vigília. Claro que tivera a ajuda de Elizabeth, mas ainda assim tinha
a sensação de que suas forças estavam se acabando.
Será que Elizabeth havia mesmo contraído escarlatina na infância?, perguntou-se,
de súbito. As pessoas não contraiam a doença duas vezes, mas ela dissera não ter
certeza de que a tivera. Ele próprio não se lembrava direito como fora difícil quando
padecera desse mal. Só sabia que o tivera pois sua mãe fizera questão de contar que era
imune. Aliás, Mary Kate também deveria ser informada disso quando estivesse
maiorzinha, seria uma forma de evitar preocupações e sofrimento desnecessários. Só
pedia a Deus que houvesse oportunidade para dizer a sua filha.
As horas passaram lentamente. Mary Kate acordou e Brice tentou lhe dar a
mamadeira, mas ela virou a cabeça para o lado, irritada. Sua garganta estava vermelha e
inflamada o que, por certo, a impedia de engolir. Bem junto à raiz dos cabelos loiro-
dourados a pele estava terrivelmente vermelha o que o deixou ainda mais preocupado.
Por sorte, Elizabeth não dormiu tanto quanto Brice havia esperado. Ao juntar-se a
ele, parecia muito mais descansada. Havia trocado de roupa, usava um vestido limpo
agora, e seus cabelos estavam presos num coque baixo.
— Vá descansar um pouco. Tomarei conta dela — disse, pegando o bebê e a
mamadeira das mãos de Brice.
— Não, não. Estou bem. Talvez eu devesse ir até o alojamento para ver como está
indo Avery.
— Se acha que é preciso... Mas, por favor, quando voltar para casa quero que
descanse um pouco. — Seus olhares se encontraram — A febre baixou agora, mas vou

76
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

precisar de ajuda assim que começar a subir.


— Acha que irá subir de novo?
Elizabeth assentiu com um movimento de cabeça.
— Febre é assim mesmo, pela manhã sempre abaixa e depois torna a subir no final
do dia. Vá ver Avery e então tente dormir um pouco.
Brice rumou para o alojamento, sentindo-se como se estivesse dormindo em pé.
Estava ansioso por deitar em sua cama e poder relaxar um pouco, mas era um homem
consciente de suas obrigações. Não se esquecia de que o capataz era quase um garoto e
devia estar assustado.
O alojamento ficava um pouco atrás do celeiro e o refeitório ficava ao lado. Aquele
tinha sido o primeiro prédio que Brice construíra antes de erguer a casa. Também vivera
ali. Era uma construção longa e baixa, com apenas alguns pares de janelas. Em geral,
ninguém ficava ali durante o dia, portanto, a luz do sol não fazia tanta falta, e todos
sabiam que um aposento sem janelas era mais fácil de ser aquecido quando chegava o
inverno.
Sem bater, entrou e esperou um pouco até seus olhos se acostumarem à tênue
iluminação do local. Avery estava na cama, completamente imóvel.
Brice pegou uma das lamparinas que ficavam junto à porta e carregou-a até
próximo da cama do rapaz. Dava para notar que Avery respirava com muita
dificuldade.
— Como está se sentindo? — perguntou com voz pausada.
Avery tentou forjar um sorriso.
— Ah, parece que acabei de entrar nas chamas do inferno. Meu corpo todo está
queimando, como se eu estivesse em meio à enormes labaredas de fogo. Minha garganta
também está toda dolorida. — O rosto dele, como o de Mary Kate, era um vermelhão só,
a não ser pela faixa branca em tomo da boca, marca característica da escarlatina. — Será
que vou morrer patrão?
— Não! — Brice conseguiu parecer mais otimista do que realmente se sentia. — Vi
casos piores do que o seu e eles sobreviveram.
Avery assentiu. Era óbvio que o simples ato de falar fazia sua garganta doer ainda
mais.
Condoído, Brice pegou um copo de água da moringa e deu-o ao rapazote.
— Tome isto. É preciso tomar muita água quando se está com febre.
— Não consigo engolir nada e quando o faço logo coloco tudo para fora.
— Vamos tentar. — Brice ficou feliz por Mary Kate, ao contrário de Avery, não
estar vomitando o pouco de leite que conseguia tomar. Tinha ouvido falar que uma
pessoa com febre alta precisava se alimentar o melhor possível e beber líquidos e disse

77
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

isso ao capataz.
Avery seguiu seus conselhos e tomou um pequeno gole, então fechou os olhos
como se não pudesse mais suportar tamanho esforço.
— Precisa de alguma coisa? Posso lhe trazer o que quiser.
O jovem meneou a cabeça de um lado para outro, sem ousar nem ao menos abrir
os olhos.
— Vou voltar para casa agora, mas virei aqui de vez em quando para ver se
melhorou.
Avery assentiu.
Brice estava relutante em sair. Avery era pouco mais do que uma criança, e estava
tão doente quanto Mary Kate, ou talvez pior. Cal e os outros homens tinham muito
trabalho a fazer nas pastagens e não podiam cuidar do jovem amigo o tempo todo. Para
piorar, o vermelhão dele havia se espalhado pelo peito, braços e mãos. Evidentemente,
levaria um bom tempo até se recuperar.
Brice odiava a sensação de impotência que o assolava, mas o bom senso lhe dizia
que não havia mais nada que pudesse fazer para ajudá-lo, a não ser deixá-lo o mais
confortável possível diante das circunstâncias.
Estava pensando nisso quando retornou à casa e entrou em seu quarto para
descansar um pouco. Já havia tirado a roupa, e se acomodava na cama macia, no
instante em que seus olhos se voltaram para a porta que conectava seu quarto ao de
Elizabeth.
Ela havia removido o guarda-roupa que bloqueava a passagem. Por que teria feito
isso?, perguntou-se, dando um longo suspiro.
Só havia uma explicação coerente, talvez Elizabeth finalmente estivesse abrindo
caminho para aceitá-lo em sua vida e em seu coração. Talvez tivesse sentido a falta dele
tanto quanto sentira a dela e resolvera deixar que o destino seguisse seu curso sem
tentar impedi-lo.
Um sorriso brincou nos lábios carnudos de Brice e ele adormeceu antes mesmo
que se desse conta disso.

No dia seguinte, Mary Kate estava vermelha dos pés à cabeça. Contudo, a
temperatura havia baixado consideravelmente. Ainda assim, Elizabeth não estava
convencida de que o pior da doença havia passado. A menina não estava mais tão
irritadiça, porém, sua aparência era péssima.
Avery se recuperava mais lentamente, porém estava melhor do que no dia
anterior. Ninguém mais no rancho deu sinais de que estava com escarlatina e Elizabeth
começou a relaxar. Naquela noite, Mary Kate dormiu tranqüila pela primeira vez desde

78
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

que a febre havia surgido.


— Ah, acho que ela está fora de perigo.
Brice olhou para o bebê com ternura.
— Tem razão. Parece muito melhor do que ontem.
— Sim, mas precisamos ficar atentos. Pelo que me lembro as piores complicações
podem acontecer num período de três semanas. — Tocou gentilmente na face angelical.
— Mas Mary Kate é uma criança forte e saudável, vai ficar bem.
— Acha mesmo isso? Que Mary Kate é forte?
— Claro. Olhe como sua filha se recuperou depressa. Está se saindo melhor do que
Avery. — O alojamento era domínio masculino, mas Elizabeth fora lá diversas vezes
para ver como o jovem estava e também para lhe servir um pouco de sua comida, que
era de longe mais palatável do que qualquer coisa que Ezra Smart pudesse preparar. —
Ele ainda está tão fraco que mal consegue se levantar. Essa tarde Mary Kate até fez um
esforço para brincar. Sem sombra de dúvida, sua filha vai ficar boa logo.
— Espero que esteja certa.
Saíram do quarto do bebê e foram direto para a varanda da frente. Uma brisa
suave de primavera estava beijando a grama e a vegetação da encosta da colina, as
flores silvestres dançavam a sabor do vento. A medida que o sol se escondia atrás das
montanhas, o anoitecer espalhava nuances azuis a perder de vista, contrapondo-se ao
rasto carmim e topázio que o astro rei deixava em sua cena de despedida.
— Sinto muito pelo que aconteceu com Robert — Brice disse, de repente. — Com
todas essas coisas acontecendo você nem teve tempo de chorar a morte de seu marido.
— Acho que eu sabia há muito tempo que Robert poderia estar morto. Já lamentei
bastante a ausência dele durante todos esses meses, não existe mais nada que lamentar.
— Ergueu o rosto e o encarou. — Por favor, não pense que sou fria e sem coração. Na
verdade, sou da opinião que não é porque uma pessoa morre que devemos colocá-la em
um pedestal e esquecer seus defeitos, e Robert tinha muitos defeitos. Não éramos felizes
juntos. Meu casamento foi um grande erro. Descobri isso na primeira vez que meu
marido se embebedou e passou a noite toda jogando pôquer. Durante sete anos essa foi
minha rotina. Estava enganada a respeito dele.
— Sinto muito.
Elizabeth deu de ombros e o estudou com atenção.
— Também me enganei a seu respeito — confessou. — Não é nada parecido com o
que eu imaginava.
— Como assim? — Brice franziu o cenho.
— É melhor, muito melhor — riu com timidez e desviou o olhar para a primeira
estrela que surgia.

79
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Essa história de oferecer terras me surpreendeu bastante.


— Por falar nisso, recebi uma carta hoje. Um mensageiro veio entregá-la.
— Uma carta? — A entrega de correspondência era algo tão raro que só o fato de
saber que Brice havia recebido uma a deixou excitada.
— Sim, era do homem que guiará os colonos até Glory. Queria me informar que a
caravana que formará nossa pequena cidade partirá em breve. Como o correio por aqui
é muito lento, acho até que, a esta altura, eles já partiram.
Elizabeth bateu palmas extasiada.
— Ah, é bom demais para ser verdade! Mas e quanto a suas terras? Não vão tentar
usar parte das pastagens boas para o próprio gado ou coisa assim?
— Não, nenhum deles é fazendeiro. Fiz questão de deixar isso claro quando
ofereci parte das terras. A cidade deverá ser construída naquela área ali, além das
pastagens, e todos que quiserem criar gado terão de fazê-lo além da cidade, o que os
colocará a uma boa distância de nós.
— Vamos ter vizinhos, que bom! Isso significa que Mary Kate também terá com
quem brincar.
— E amigas para você também, minha cara. — Ele sentou no gradil de madeira e
olhou para o vale como se já pudesse ver uma formosa cidade incrustada ali.
— O lugar que tenho em mente é bem próximo ao riacho. Puma Creek nunca seca,
mesmo durante os meses de verão, e poderá fornecer água para todos. Existem muitas
árvores por lá, carvalhos, choupos, pinheiros, e a terra plana fará com que seja fácil
construir qualquer edifício que quiserem. Poderemos ver a cidade de nossa varanda,
mas, ao mesmo tempo, não perderemos nossa privacidade.
— E se outras famílias quiserem vir? E se eles realmente quiserem torná-la uma
cidade de verdade, não apenas uma cidade de colonos convocados pelo dono do rancho
mais próximo?
— Já reservei terras suficientes pensando nessa possibilidade. Está vendo aqueles
choupos ao lado do pinheiro alto? Elizabeth estreitou os olhos e virou-se na direção
indicada.
— Será lá? Tão perto assim?
— Sim. Acha muito perto?
— Não, parece a distância perfeita — reconsiderou.
— Quando Mary Kate ficar mais velha poderá cavalgar até lá ou mesmo caminhar,
se preferir. — Tentou imaginar a paisagem repleta de casas, mas era difícil. — Desejaria
saber exatamente quando eles chegarão.
— Tudo vai depender do quão duro foi o inverno no Leste e se as cheias de
primavera não fizeram os rios transbordarem. Temos sorte de não estarem vindo de

80
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

muito longe, sairão do oeste do Missouri.


— Vizinhos, que maravilha! — suspirou ela.
— Imagino o que está sentindo. Sei que por aqui é muito solitário para uma
mulher. Para mim não é tão ruim porque tenho contato com os vaqueiros o dia todo,
mas você deve sentir falta das conversas femininas e tudo o mais.
— Sim, confesso que sinto — Elizabeth sorriu. — Tinha uma vizinha em Hannibal
que acabou se tornando uma grande amiga. Nós duas choramos quando Robert decidiu
vir para o Oeste. Sinto saudade e fico me perguntando como ela estará agora.
— Ouvi dizer que a ferrovia está pensando em implantar um trem semanal
ligando Glory ao Leste. Quando isto acontecer você poderá escrever para sua amiga sem
problema, o correio será muito mais eficiente do que agora. — Sugeriu, observando-a
com atenção.
Elizabeth o fitou com ar divertido.
— Nunca pensei nisso. Eu poderia mesmo escrever, não?
— Claro, a civilização está chegando ao nosso território. Não somos mais uma
dúzia de forasteiros perdidos nas campinas de Oklahoma. A população têm crescido
bastante nos últimos anos. — Continuava a fitá-la com olhos sagazes. — Uma vez
mencionou que gostaria de voltar para o Leste. Ainda pensa em fazer isto?
Elizabeth virou-se, fingindo apreciar o início da noite.
— Sim, claro. — Não era forte o suficiente para resistir quando Brice a fitava
daquela maneira.
— Por que virou as costas para mim?
— Pensei ter ouvido Mary Kate chorar — mentiu. — Devo ter me enganado.
Inesperadamente, Brice colocou as mãos sobre seus ombros.
— Não creio que possamos ignorar para sempre o que está acontecendo entre nós,
Elizabeth — murmurou ele com voz rouca.
— Não faço a menor idéia do que quer dizer. — O toque das mãos viris faziam sua
pele arder, embora o tecido do vestido amarelo fosse grosso. — Sempre desejei partir.
Deixei isso claro desde o início.
Ele a virou, forçando-a a encará-lo.
— Por quanto tempo ainda vamos fingir que não desejamos um ao outro? Você
me quer tanto quanto eu a você!
Elizabeth abriu a boca para protestar, porém, nenhuma palavra veio a seus lábios.
Pela primeira vez em sua vida, estava sem saber o que dizer.
Brice também ficou em silêncio durante um longo tempo.
— Acho que estava enganado — falou por fim, antes de soltá-la abruptamente e
entrar na casa.

81
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth fez menção de chamá-lo de volta, mas conteve-se em tempo. Ainda não
estava certa se Brice iria lhe dizer que a queria como esposa, pois agora estava viúva, ou
se iria lhe propor outro tipo de relacionamento. As palavras dele poderiam ter
significado muito diferente do que seu coração apaixonado sonhava. Seria possível que
o "desejamos um ao outro" significasse algo mais pragmático do que romântico? Brice
não tinha mais tentado beijá-la desde a fatídica noite na biblioteca. Nem mesmo tentara
segurar sua mão. Por certo, não fazia a menor idéia com que freqüência tinha sonhos
eróticos com ele, sonhos estes que terminavam depois de terem provado como era bom
estarem nos braços um do outro.
Elizabeth ralhou consigo mesma. Não deveria ser assim entre eles, ambos eram
viúvos recentes, e, apesar do que dissera a Lorna, era normal que se guardasse luto
durante algum tempo.
Desolada, recostou a cabeça na coluna da varanda e olhou para a noite primaveril
em busca de respostas para suas dúvidas existenciais. Não era nada fácil ser mulher,
sozinha, e, ainda por cima, apaixonada no coração do Oeste...

Três dias depois a vermelhidão de Mary Kate havia desaparecido e a menina tinha
voltado a ser mesma de antes. Ao contrário de Avery, que estava descarnando até
embaixo da língua e ainda se sentindo mal, Mary Kate quase não descamou e parecia se
sentir bem outra vez. Elizabeth tratou de hidratá-la com freqüentes banhos de óleo e
com loções perfumadas. Não acreditava na crença popular que sugeria que as pessoas,
especialmente bebês, adoeceriam se tomassem banhos regularmente. Ela mesma tomava
banho todos os dias e nunca tinha tido qualquer doença mais grave.
Brice também se banhava todas as tardes, como ela logo testemunhou.
Certo dia, precisou ir ao celeiro para buscar ovos para uma receita que estava
preparando para o jantar. Mal havia entrado lá, quando uma visão inesperada a fez
engolir em seco.
Brice estava junto à tina, totalmente nu, esfregando-se com sabão perfumado e
jogando um balde de água sobre a cabeça.
Elizabeth parou onde estava, mas seus olhos percorreram a figura máscula,
totalmente despida, de alto a baixo.
Ele tinha um corpo magnífico, com músculos nos lugares certos, nenhum sinal de
gordura ou saliência, além de pernas e peito cobertos por pêlos escuros que mexeriam
com a imaginação e a libido de qualquer mulher.
Elizabeth estava fascinada demais e não ousou se mover, ficou estática,
contemplando-o com admiração virginal. Foi só depois de algum tempo que percebeu
que Cal estava consertando um arreio, poucos metros atrás de Brice, e que a encarava

82
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

consciente da direção de seu olhar.


Mortificada por ter sido pega em flagrante, levantou um pouco a barra da saia e
voltou correndo para a casa.
— Do que você esta rindo? — Brice perguntou ao capataz, com os olhos ainda
fechados por causa da água que havia jogado sobre a cabeça.
— Não é nada — respondeu Cal, porém o tom de riso que lhe permeava a voz o
desmentia.
Brice esfregou os olhos.
— Não faria mal nenhum se também se banhasse de vez em quando, sabia, Cal?
Acho que a última vez que fez isso foi no Natal, para ganhar aquelas roupas novas que
te dei. — Não era verdade, mas o medo que o capataz tinha de água era lendário e
sempre fora motivo de brincadeira entre eles.
Cal não se aborrecia com isso, assim, limitou-se a continuar sorrindo.
Brice olhou em torno de si. Estavam sozinhos. Até mesmo o animal doente tinha
sido levado para os cochos de ração que ficavam do lado de fora.
— Espero que a solidão não esteja começando a fazer você me ver com segundas
intenções, hein, Cal! — gracejou Brice, com bom humor.
O capataz atirou a toalha sobre a cabeça dele, mas continuava sorrindo.
Intrigado com tal reação, Brice franziu o cenho enquanto se secava. Embora o dia
estivesse quente, a água fria o fazia tremer de frio e era bom sentir a toalha de encontro
a sua pele.
— Pode dar uma olhada se está tudo bem com aquele touro? Acho que logo
poderemos soltá-lo nas pastagens — comentou, abotoando a camisa e colocando-a por
dentro da calça. — Estou indo para casa.
O riso dissimulado de Cal se transformou em uma gargalhada.
— Diga olá a dona Elizabeth por mim.
Esta era uma atitude muito mais sociável do que Brice teria esperado de seu velho
amigo.
— Dizer alô a Elizabeth por você!? Não estou entendendo nada. Mas está bem, eu
direi — assentiu, mais intrigado do que antes.
Minutos depois, deixou o celeiro e passou os dedos por entre os cabelos ainda
molhados. Um brisa suave soprava pelo cenário bucólico e Brice tratou de aproveitá-lo
ao máximo, pois lembrou-se de que quando o verão chegasse seria tão quente que
mesmo após um banho se sentiria terrivelmente mal.
Ainda pensava nisso quando entrou na cozinha e sorriu para Mary Kate que
brincava no cantinho onde Elizabeth costumava deixá-la enquanto preparava a comida.
— Olá, meu docinho — murmurou, estendo os braços para chamá-la.

83
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

A menina deu um gritinho extasiado e tentou se levantar, mas perdeu o equilíbrio.


— Boa tarde, Elizabeth — acrescentou ele, voltando-se para o fogão. — Cal pediu
que lhe dissesse alô.
A reação de Elizabeth foi espantosa. Virou-se para Brice com o rosto em brasa.
— Pode dizer a Cal para guardar seus "alôs" para si mesmo. E você também! —
Fuzilou-o com o olhar, antes de girar nos calcanhares e sair da cozinha pisando duro. As
faces alvas estavam tão vermelhas quanto as de Mary Kate haviam ficado nos dias
anteriores.
Brice a seguiu até a escadaria, mas não conseguiu alcançá-la. Ainda olhando para
cima, perguntou-se:
— O que está acontecendo aqui? Não estou entendendo nada. — Deu um longo
suspiro e retornou para pegar Mary Kate. — Será que quando crescer vai ficar tão
misteriosa assim, docinho? Não, não você. Não a menininha do papai.
Mary Kate tocou-lhe o rosto com as mãozinhas rechonchudas e meneou a cabeça
como se estivesse concordando com que acabara de ouvir.
Brice riu, mas sabia que a resposta não passava de um reflexo natural da criança e
nada mais.

Elizabeth só parou de correr quando chegou a seu quarto. Era bem típico de Cal
dizer a Brice que ela o vira nu. Os homens costumavam fazer trocadilhos sobre assuntos
tão íntimos e delicados quanto estes. Estava tão embaraçada que mal conseguia respirar!
Não que tivesse sido ruim vê-lo nu, este era o problema. Tinha ficado maravilhada com
a visão do corpo másculo e sensual e, sem sombra de dúvida, continuaria observando-o
indefinidamente se não tivesse avistado Cal um pouco mais atrás do patrão.
Só de lembrar o quanto Brice era bonito a fazia estremecer. Sim, ele era tão
atraente quanto os heróis dos livros que gostava de ler. O mesmo não podia ser dito de
Robert, que era magro demais e quase nunca a deixava vê-lo sem camisa.
Talvez por isso tivesse ficado tão impressionada com Brice. Em sua mente ainda
estava bem viva a imagem do corpo sensual. As nádegas eram firmes e arredondadas.
Por sorte, Brice estava de costas para ela, assim, tinha certeza de que não pudera vê-la.
Mas, aparentemente, Cal não perdera tempo em lhe contar todos os detalhes da cena
que presenciara. Por que tinha ficado parada lá a fitá-lo com adoração virginal? Não era
de seu feitio, não combinava com a noção de moral que sua mãe incutira em sua mente
desde criança.
E o pior de tudo: como poderia encará-lo durante o jantar após tê-lo visto sem
roupa e sabendo que Brice fora informado desse fato?
Atordoada com o rumo dos acontecimentos, deixou-se cair na cadeira e recostou a

84
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

cabeça no encosto de veludo. Até poucos minutos atrás nunca lhe ocorrera que Brice
tomasse banho no celeiro. Havia presumido que ele o fizesse na bacia de louça que
havia em seu quarto, mas estava enganada e agora não sabia como encará-lo.
Tinha vontade de torcer o pescoço de Cal por tê-la delatado tão despudorada-
mente.
Confusa, Elizabeth esperou o máximo de tempo possível antes de voltar a descer.
Encontrou Brice mexendo os feijões na panela de cobre. Também já tinha colocado
os pratos na mesa juntamente com o pão que ela assara pela manhã. Ao vê-la entrar,
virou-se para ver o que ainda faltava fazer antes do jantar.
Elizabeth revirou os olhos.
— Como foi o seu dia? — perguntou num tom cortante.
— O mesmo de sempre, e o seu?
— Não quero falar sobre isso.

— Será que pode me contar por que está tão zangada?


— Não! — Passou os feijões para uma travessa que poderia ir direto à mesa
enquanto virava o assado na grelha.
— Foi alguma coisa que eu fiz? — Brice insistiu em saber. — Maldição, Elizabeth,
eu não a vi durante o dia todo. O que a deixou tão irritada?
Ela fez uma pausa.
— O que Cal lhe disse?
Brice parou onde estava e pensou por um momento.
— Nada. Apenas para lhe dizer alô por ele. Claro que vindo de Cal isso já é muito.
— Ele não lhe contou que... — Mordeu a língua antes de terminar a frase. — Não
contou nada mais? — Fez o melhor que pôde para soar casual.
— Não, não me contou nada. Aliás, ele não é melhor pessoa para fazer isso. Sua
economia com as palavras é famosa. Por acaso, Cal deveria me contar alguma coisa
importante?
Elizabeth esfregou a testa com a ponta dos dedos.
— Não, nada. Esqueça.
Brice a encarou desconfiado, mas depois acabou dando de ombros.
— Se você diz assim.
— Vamos, sente-se e jante.
Estava tão feliz por Brice não saber que o vira tomando banho que podia até
perdoar Cal por se divertir à sua custa.
— Elizabeth, ainda não estou entendendo o que houve — ele tentou novamente.
— Não foi nada. Coma. — Agora que sabia que seu segredo estava seguro se

85
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

permitiu sorrir. — Vou tentar colocar Mary Kate à mesa esta noite. Ela é muito pequena
para comer conosco, mas já aprendeu a lidar muito bem com a colher e acho que merece
uma chance.
— Para mim está perfeito. — Continuava intrigado com o comportamento de
Elizabeth, mas preferia deixar o assunto de lado já que ela não estava mais zangada.
Parecendo ter o dom de ler seus pensamentos, Elizabeth sorriu a fim de desencorajá-lo a
fazer mais perguntas e depois se concentrou em amarrar um guardanapo de linho em
torno do pescoço de Mary Kate. Carinhosa, colocou o cadeirão de madeira ao seu lado e
ajudou a menina a levar a colher aos lábios.
Brice sorriu ao vê-la cuidar de sua filha. A cada dia tinha mais certeza de que
estava diante da mulher ideal para fazê-lo feliz. Mas será que Elizabeth desistiria de ser
senhora do próprio destino para se tornar esposa de um homem que vivia solitário no
Oeste e que ainda por cima tinha um bebê para criar? Era uma chance em mil...

CAPÍTULO VII

L ogo que as primeiras flores silvestres começaram a murchar e as folhas


assumiram a tonalidade vermelho-alaranjada que anunciava o final da primavera, uma
caravana de carroças serpentou pelo vale vinda da direção de Glory.
— Brice! Brice! — Elizabeth gritou alto enquanto corria pelas pastagens. — Os
colonos estão aqui! Chegaram! Vi as carroças se aproximando — contou, agarrando-se à
cerca. Sua respiração estava ofegante por causa da corrida e também pela empolgação
diante da novidade.
Brice afrouxou o laço em torno do pescoço do animal que estava sendo domado e
voltou-se para encará-la.
— Já estou indo, vou deixar o trabalho aqui para os rapazes.
Cal e Avery o estavam ajudando e também pareciam felizes com a notícia.
— Certo, te espero na varanda! — Ela agarrou a saia e voltou correndo para a casa.
Da varanda, observou o progresso da caravana que seguia em direção ao rancho. Uma
duas, três... quatro carroças! O coração acelerou em seu peito, desta vez não por causa
do esforço físico da corrida, mas sim por puro deleite diante da novidade. Oh, céus,
iriam ter vizinhos! Vizinhos!
Devido à grande ansiedade que a assolava, teve a impressão de que as carroças
demoraram uma verdadeira eternidade para alcançarem a casa. No momento em que o
fizeram, Brice já havia se lavado e estava ao lado dela para recepcionar os recém-

86
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

chegados. Elizabeth também havia buscado Mary Kate no quarto, porque, algum dia,
quando a menina fosse grande o suficiente para entender, o pai poderia lhe dizer que
juntos haviam presenciado à chegada dos colonos que fundaram a cidade.
As carroças pararam a uma distância respeitável da casa, desta forma os cascos
dos animais e as rodas de madeira não destruiriam a grama do pátio. Todos os recém-
chegados saltaram. Só agora dava para notar que as carroças eram vagões como o dos
ciganos, algo que podia
protegê-los muito mais do que um transporte comum.
Elizabeth ficou deliciada ao avistar várias crianças
e também jovens casais, além de outros de meia-idade.
Minutos depois, o guia da caravana apertou as mãos de Brice e tirou o chapéu
para cumprimentar Elizabeth. Uma das jovens senhoras também veio até ela:
— Meu nome é Maida Harrison. Este é meu marido Edmund. — A voz da jovem
tinha uma nota de timidez, mas era óbvio que estava ansiosa para fazer amizade.
Aparentava ter por volta de dezenove ou vinte anos e o marido também não
deveria ser muito mais velho, o que os tornava, pelo menos, cinco anos mais novos que
Elizabeth.
— Por favor, podem me chamar de Elizabeth. — Mudou Mary Kate de um quadril
para o outro e estendeu a mão para apertar a de Maida. Em sua empolgação, esqueceu
de lhes dizer seu sobrenome.
— Que bebê lindo! — Maida acariciou as mãozinhas de Mary Kate.
A menina respondeu com um sorriso tímido.
— Esta é Mary Kate. Nem posso lhes dizer como estou empolgada por ver que ela
terá crianças com quem brincar assim que crescer um pouco mais — confessou
Elizabeth.
— Bem — Maida lançou um olhar apaixonado para o marido —, ainda não temos
filhos, pois nos casamos faz poucas semanas, mas com certeza eles virão quando for a
hora.
— Claro que virão. — Elizabeth olhou para os outros colonos. Todos falavam e
riam ao mesmo tempo. — Isso parece um sonho que está se tornando realidade.
— Sim, para nós também. Foi muita bondade do sr. Graham nos oferecer terras e
casas. Não poderíamos ter vindo para cá se fosse diferente. Gastamos todo o dinheiro
que tínhamos para comprar as carroças e também suprimentos. Por acaso sabe quais são
as terras que ele reservou para nós?
Elizabeth apontou na direção em que a caravana viera.
— Passaram perto quando estavam vindo para cá. Vê aqueles choupos e carvalhos
lá embaixo? Aqueles perto do pinheiro alto? É ali. Grande parte das terras de Brice se

87
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estendem ao leste e ao sul da casa. A cidade será construída perto da divisa da


propriedade.
— Que maravilha, vamos ter árvores! — Maida sorriu para o marido.
Edmund retribuiu o gesto da esposa.
— Maida acha muito importante termos árvores por perto — explicou. — Ficou
preocupada quando cruzamos a planície e só vimos vegetação rasteira.
— Aconteceu o mesmo comigo quando cheguei aqui — Elizabeth contou. — Era
verão e tive medo de terminarmos em um lugar onde não houvesse nada além de céu e
terra seca!
No instante seguinte, um outro casal se aproximou e se apresentou como Ella e
Abner Baker. A mulher parecia familiar para Elizabeth, mas, definitivamente, nunca
haviam se encontrado antes. Durante algum tempo, tentou, sem sucesso, descobrir
quem Ella lhe lembrava. Logo a conversa com os Baker foi interrompida
por Brice:
— Vou mostrar para nossos vizinhos onde deverá ser construída a cidade.
Gostaria de vir? Lucky poderá colocar o arreio na charrete para que nos acompanhe.
Não vai demorar muito.
— Será bem-vinda para vir conosco se não quiser esperar que preparem sua
charrete — Maida ofereceu.
— Eu adoraria.
Brice chamou Lucky e ordenou que preparasse a charrete e depois a levasse até
eles no local do assentamento dos colonos. Enquanto isso, Elizabeth e Mary Kate foram
na carroça dos Harrison e Brice montou o cavalo baio.
Quando começaram a percorrer os primeiros metros até o local onde seria
construída a cidade, Elizabeth lembrou-se de sua própria chegada ao Oeste. Tinha
sido um começo difícil, aterrador. Os colonos teriam muito mais sorte do que ela e
Robert, graças à bondade de Brice. Sem saber bem o porquê, seu coração encheu-se de
orgulho e ela se voltou para apreciar o homem alto e charmoso que cavalgava à frente
da caravana.
Sim, Brice era especial, muito especial!, concluiu sem se dar conta de que estava
completamente apaixonada por aquele que definia como alguém especial.

O lugar reservado para a construção da pequena cidade não poderia ser mais
bonito e aprazível. Puma Creek era um riacho largo, de águas cristalinas, e as árvores
que o ladeavam eram bastante altas para aquela região do país.
— Brice me contou que ao chegar a aqui ficou tentado a construir a casa do rancho
neste local, só mudou de idéia no último instante, porque lá de cima poderia ter uma

88
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

visão melhor do vale, e, claro, do gado — Elizabeth comentou com um sorriso.


— Nossa, este lugar é lindo! — Maida deu a mão a Edmund. — Onde poderemos
construir as casas?
— Acho que serão vocês mesmos que deverão escolher. — Conhecendo Brice
como conhecia, Elizabeth tinha certeza de que ele não iria interferir.
— Gostaria que fosse bem aqui — manifestou-se Edmund. — Claro que isto se
estiver bem para você, Maida.
A moça anuiu entusiasmada.
— Podemos construir a casa com a varanda de frente para o riacho? Seria
maravilhoso nos sentarmos na varanda nos finais da tarde e observar a água correr
tranqüilamente ou oscilar ao sabor do beijo da brisa — poetizou sonhadora.
— Parece perfeito para mim. — Edmund piscou para a esposa num misto de
charme e cumplicidade. Era óbvio que se amavam e que ainda estavam fascinados com
as descobertas do casamento.
Elizabeth sorriu.
— Isto os deixaria do lado da cidade mais perto de nossa casa. Seriam nossos
vizinhos mais próximos — comentou, antes de se juntarem aos demais.
Os outros colonos estavam rindo e também discutiam sobre onde construiriam
suas casas. De repente, um homem alto e magro, que deveria ter perto de quarenta anos,
pediu silêncio.
No mesmo instante as pessoas se calaram e lhe deram atenção.
— Quem é ele? — Elizabeth cochichou com Maida.
— É o irmão Amos Sanders. A esposa dele está logo atrás, chama-se Dorca. Irmão
Amos é o pastor.
— Vamos todos orar e dar graças ao Senhor por termos chegado bem a nosso novo
lar — Amos prosseguiu, erguendo o tom de voz e assumindo uma inflexão fervorosa.
Parecia o tipo de homem que exige que o máximo de atenção de seus ouvintes.
Confirmando suas suspeitas, todos abaixaram a cabeça. Elizabeth fez o que pôde
para manter Mary Kate em silêncio também. No entanto, a oração do irmão
Amos continuava e continuava, dando-lhe a impressão de nunca terminar. Ela
tentou não ficar impaciente, afinal, fé e religião sempre tinha sido preceitos importantes
em sua vida e não podia desertar agora só porque o pastor havia se excedido e se
tornava mais do que repetitivo em seus comentários.
Finalmente, Amos disse "Amém". Depois que todos lhe fizeram eco ele apontou
para uma pequena clareira entre as árvores.
— O Senhor me mostrou que este é,o lugar em que devemos construir nossa
igreja. Quando podemos começar, irmãos?

89
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Já fiz o pedido do material na madeireira mais próxima — Brice explicou. — A


encomenda deve estar chegando a qualquer momento, mas sugiro que construam as
casas primeiro. Haverá madeira suficiente para todos.
— Não, irmão, a casa de Deus dever ser a primeira a ser erguida — Amos disse
com firmeza.
— Isso são vocês que decidem. Não vou poder ajudá-los muito. A primavera é
uma época de muito serviço para mim e os rapazes. Na verdade, desejo contratar alguns
de vocês para o trabalho no rancho. Também precisaremos de uma mulher para ajudar
Elizabeth com a casa e o bebê.
Mal ele havia terminado de falar, uma das adolescentes mais velhas deu um passo
a frente.
— Sou muito boa com trabalhos domésticos, senhor. E tenho certeza de que minha
mãe poderá me liberar para ajudar dona Elizabeth. Não é mesmo? — perguntou,
voltando-se para os pais que assentiram prontamente.
Brice sorriu.
— E qual é seu nome?
— Sou Molly McGivens. — Ela sorriu para Elizabeth e aproximou-se para
cumprimentá-la.
— Prazer Molly, sou Elizabeth...
Irmão Amos a impediu de dizer seu sobrenome.
— Estou feliz em ver tamanha generosidade — comentou o pastor, aproximando-
se também. — A senhora e seu marido já ganharam uma estrela no céu por essa atitude.
Elizabeth engoliu em seco.
— Não, não. Deve estar havendo algum engano. Brice não é...
— Ora, vamos, não precisa ser modesta. — Amos voltou a dar um passo atrás. —
Quero lhes apresentar minha esposa, Dorcas. Esta é a sra. Graham.
— Não sou...
— Prazer em conhecê-la — Dorcas disse. Sua voz era modulada e o rosto anguloso
parecia ser incapaz de exibir um sorriso. Era magra a ponto de parecer lúgubre, mas não
havia o menor sinal de fragilidade em sua figura.
— Está havendo um engano — Elizabeth tentou de novo.
Mas, como antes, Amos a interrompeu.
— Deus me disse para erguer a igreja com face para o leste. O cemitério, que o
Senhor permita que não venhamos a usá-lo tão cedo, será bem ao lado da igreja. A casa
paroquial será um pouco mais atrás.
— Acho que é uma boa idéia. — Elizabeth sabia que deveria insistir em esclarecer
sua relação com Brice, porém os modos do pastor eram por demais intimidantes. O

90
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

rosto anguloso e os olhos pretos de Amos davam a impressão de vasculharem a alma de


uma pessoa a procura dos piores segredos para poder condená-la ao inferno e não para
lhe ensinar o caminho do Paraíso. Para ser sincera consigo mesma, precisava reconhecer
que o pastor era o único dos colonos que não a deixava à vontade.
— Meu marido ficou muito feliz ao receber esta missão — Dorcas contou. — Eu
também. Esperamos conquistar muitas almas para a glória do Senhor. Obrigado por nos
darem esta oportunidade.
— Não precisam agradecer — Elizabeth respondeu um tanto incerta. Sabia que
todos tinham tido uma impressão errada sobre a posição que ocupava na vida de Brice,
mas não encontrava coragem para corrigi-los.
O que aquele pastor austero e sua mulher diriam se soubessem que estava
morando sozinha com um homem que não era seu marido?
Com certeza, os excomungariam e poderiam até mesmo regressar imediatamente
para o Leste. "Deixe isso para depois", falou para si mesma. Sim, explicaria tudo quando
todos já tivessem fixado residência na cidade e não tivessem mais interesse em voltar.

Naquela noite, depois de ter colocado Mary Kate na cama, Elizabeth desceu para
falar com Brice que estava na biblioteca.
— Acho que temos um pequeno problema.
Ele a encarou surpreso.
— Que tipo de problema?
— Os colonos acreditam que sou sua esposa — declarou, sentando-se na cadeira
defronte a ele. — Não havia percebido que poderiam ter tal impressão até que o pastor
me apresentou à sua esposa como sendo Elizabeth Graham. Tentei corrigi-lo, mas não
me deixou explicar.
Brice assentiu pensativo.
— Percebi que o pastor tem mania de tirar suas próprias conclusões. Mas os outros
também pensam assim?
— Não sei. Como disse, nunca imaginei que pudessem interpretar minha presença
aqui dessa maneira, mas, se o irmão Amos pensa assim, é provável que os outros
também. — Deu um longo suspiro. — O problema é que não encontro nenhuma
maneira de justificar o fato de estar vivendo aqui sozinha com você.
— Para ser franco, este é um detalhe no qual também não havia pensado. Não
existe nada entre nós. Temos nos comportado com muito respeito. Eu só a beijei uma
vez.
— Eu sei. — Lamentou que sua voz traísse o quanto a lembrança do beijo a
afetava.

91
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Um pesado silêncio se bateu sobre eles.


— Quer que eu explique sua presença aos colonos? Poderia dizer que é minha
irmã ou mesmo prima.
— Não, não gosto de mentir. Especialmente para um pastor. Odeio desonestidade
e também fui educada sob preceitos religiosos.
— Então o que sugere?
— Não sei. — Meneou a cabeça de um lado para outro e respirou fundo. — Por
que não previ antes que isso poderia acontecer!?
Cauteloso, Brice sugeriu:
— Podemos deixá-los continuar a pensar que é minha esposa.
Ela ergueu o rosto e esperou por uma explicação.
— Já acreditam mesmo nisso, ninguém irá fazer perguntas.
— Mas não é verdade!
— Elizabeth, passei algum tempo conversando com irmão Amos e ele é um
religioso tão fanático e conservador que quase me assustou. Se lhe contássemos a
verdade, insistiria em ir embora daqui e levaria os outros consigo. O homem me passou
um sermão por que fiz comentários sobre um jovem casal que passeava de mãos dadas.
Parece que ainda não são casados e o pastor os está vigiando de perto para que não se
excedam antes do tempo. Se ele considera pegar na mão um excesso, imagine então
morar sob o mesmo teto!
— Não esperava que um pastor pudesse ser tão rígido. O pastor de minha igreja
em Hannibal era um homem gentil e nunca erguia o tom de voz. Era uma pessoa
maravilhosa e confiável, muito diferente desse tal irmão Amos.
— Também devemos pensar nos outros colonos. Não os conhecemos direito, mas
estou certo de que poucos aceitariam ficar se soubessem que não somos casados.
— Olhou pensativamente para a janela, de onde se podia ver a apenas a noite
estrelada, que algum dia daria vistas para a cidade. — Também não gosto de mentir,
mas não vejo outra forma de contornar o problema. E — acrescentou relutante —, você
disse que assim que puder irá embora.
— Isso pode demorar um pouco. Ainda não guardei dinheiro suficiente para
voltar a Hannibal. Não tenho nem mesmo a quantia que preciso para a viagem.
— Poderia lhe dar o dinheiro se quisesse.
— De jeito nenhum! — Recriminou-o com o olhar. — Não sou do tipo que aceita
caridade. Ficarei aqui até poder pagar as despesas por mim mesma. Além disso, Mary
Kate precisa muito de mim. — Fez uma pausa e uma dúvida a assolou. — A não ser que
seja isso que você quer. Irei embora se for essa sua vontade.
— Não! — Brice negou com veemência.

92
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Facilitaria as coisas para você — prosseguiu com leve ironia. — Poderia dizer
aos colonos que eu era sua irmã ou seja lá o que preferir. Agora teria alguém para cuidar
de Mary Kate. Molly parece muito gentil e Mary Kate gostou bastante dela.
— Molly não é você. — Ele parecia zangado e Elizabeth o fitou com atenção.
Por um momento, imaginou que Brice não fosse fazer nenhum comentário. Então,
de repente, ele se levantou e veio até ela, segurando-lhe as mãos para ajudá-la a fazer o
mesmo.
— No começo eu só estava intrigado. Apareceu em meu rancho montada num
animal esquálido e carregava uma arma quase maior que você. Fiquei com medo de que
pudesse se machucar com a arma ao voltar para a cabana. — Brice sorriu diante das
próprias lembranças.
O coração de Elizabeth batia descompassado. Céus, aonde aquela conversa os
levaria?
— Foi quando a vi sorrir pela primeira vez e não parei mais de olhar para você —
ele confessou. — Quando sorri, aparecem estrelas brilhando em seus olhos e há uma
doce melodia no som de seu riso que me faz vibrar e me sentir mais vivo do que nunca.
Elizabeth prendeu a respiração.
— Eu a respeito mais do que a qualquer outra mulher. Não sei o que vai acontecer
conosco, provavelmente seja errado lhe pedir para ficar, mas não posso fazer outra
coisa. — Hesitou ligeiramente. — Mary Kate te ama, sentiria muito a sua falta se
partisse.
Elizabeth tinha pensado que Brice iria revelar os próprios sentimentos em relação
a ela, não os da filha. Certamente, se ele tivesse algum interesse em mantê-la a seu lado
para sempre aquele seria o melhor momento para manifestá-lo. Poderiam fugir,
casarem-se em Glory, e ninguém ficaria sabendo.
Ah, mas talvez estivesse enganada em relação aos sentimentos de Brice. Quem
sabe, depois do desastre que fora seu casamento com Célia, ele não quisesse mais se
arriscar. Por um instante, sentiu uma vontade incontrolável de questioná-lo a respeito
de seus verdadeiros sentimentos, mas e se Brice dissesse que não se importava com ela?
Neste caso, era melhor não saber a verdade.
— Vou subir. — Elizabeth virou-se para sair. Céus, de quem estava fugindo? Da
verdade ou de si mesma? — Foi um longo dia — tentou disfarçar.
Ele assentiu. Um brilho triste surgiu no fundo dos olhos castanhos.
— Sim, deve estar cansada.
— Tem razão. Boa noite. — Elizabeth saiu da sala antes que Brice fizesse qualquer
coisa para detê-la.
Atordoado, ele deixou-se cair na bèrgere. O que tinha acontecido? Num minuto

93
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estava dizendo que não queria perdê-la e no outro a via sair da sala como se nada
tivesse acontecido? Será que Elizabeth gostava dele ou não? Se gostasse, não deveria ter
ficado na biblioteca? Sentia-se terrivelmente confuso.
Ficou sentado ali durante algum tempo e depois saiu para a varanda. Lá embaixo
no vale estava o acampamento dos colonos, um grande ponto iluminado em meio a
escuridão. De vez em quando podia ver um homem ou uma mulher passando diante da
luz e desaparecendo nas sombras bruxuleantes. O que a chegada daquelas pessoas
significaria para a sua vida e a de Elizabeth?
Até o momento em que ela havia lhe contado sobre o mal-entendido com irmão
Amos e a esposa, nunca havia lhe ocorrido que precisaria explicar o relacionamento
deles. Elizabeth havia se tornado uma parte tão integrante de sua vida que jamais
imaginara que a convivência de ambos poderia ser ultrajante para um estranho.
Na verdade, não importava que não tivessem tido qualquer contato sexual, de
acordo com a moral da época, ela estava tão comprometida quanto se fossem de fato
amantes.
— Amantes... — repetiu consigo mesmo e perguntou-se como seria ser amante de
Elizabeth. O que essa mulher corajosa e terna poderia querer dele? Não conseguia
entendê-la.
Lá embaixo, a luz do vagão dos Harrison se apagou e a imaginação de Brice o
levou a pensar o que um jovem casal apaixonado estaria fazendo na intimidade do
quarto improvisado.
Com as emoções explodindo em seu peito, entrou na casa e soprou a vela antes de
subir os degraus.
Precisava saber exatamente em que terreno estava pisando com Elizabeth e tinha
de ser agora. Quando chegou diante da porta do quarto dela, bateu sem hesitar.
— O que foi? — perguntou Elizabeth assustada. Minutos depois, abriu a porta e
segurou o roupão bem apertado contra o corpo. — Mary Kate está doente?
— Não. Quero falar com você. — Sem esperar por uma resposta, passou por ela e
entrou no quarto. Disse a si mesmo que assim o som de suas vozes não acordaria o bebê,
mas sabia que isso não passava de uma desculpa deslavada.
Elizabeth ficou parada junto à porta; segurava o roupão com tanta força que era
possível ver os nódulos brancos que se formavam em seus dedos.
— Como exatamente se sente a meu respeito, Elizabeth? — Brice não perdeu
tempo. — Diga logo. Não consigo entender você. Seus olhos me dizem uma coisa, mas
você age de forma a me deixar desconcertado. — O tom de voz era ríspido e cortante,
por causa da frustração que o dominava. — Fale a verdade, não vou sair daqui
enquanto não souber.

94
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Um brilho indignado surgiu no fundo dos olhos acinzentados, enquanto ela


avançava em direção a Brice.
— Não tem o direito de entrar em meu quarto e me fazer tal pergunta. Mesmo um
dos animais do estábulo teria mais modos do que você, Brice Graham!
Com a proximidade, Brice notou que Elizabeth estava descalça e que, sem sapatos,
as faces pálidas ficavam na altura exata de seu peito. Se não soubesse que era uma
mulher que nunca chorava, poderia jurar que havia lágrimas no fundo dos olhos
expressivos.
— Preciso saber!— repetiu enfático.
— Já lhe disse que ficarei no rancho pelo bem de Mary Kate. É isso que você quer,
não? Se não for, partirei com o guia que trouxe a caravana.
— Não quero que você parta, já lhe disse isso.
— Então não temos mais nada para discutir, meu caro. Boa noite. — Abriu a porta
e o encarou beligerante.
Brice percebeu que de nada adiantaria insistir. Sem mais uma palavra, saiu tão
intempestivamente quanto entrara.
Assim que ficou sozinha, Elizabeth fechou a porta e se recostou na madeira como
se precisasse se apoiar em algo sólido o bastante para conter as emoções que explodiam
em seu peito. Lágrimas quentes rolavam-lhe dos olhos e escorriam pelas faces. Odiava
ter de fingir que era imune a Brice. Por certo estava cometendo um grande erro ao
continuar no rancho. Tentava dizer a si mesma que só o fazia porque amava Mary Kate
como se a menina tivesse sido gerada em seu próprio ventre, mas no fundo sabia que
não era apenas por isso, também havia se apaixonado pelo pai da garota como nunca
imaginara ser possível.
Lutar contra as emoções que pulsavam em seu peito não fazia mais o menor
sentido. Brice tinha se tornado parte de sua vida. Também aprendera a amar o território
de Oklahoma, pois estar ali significava estar perto daquele por quem havia se
apaixonado.
Havia momentos em que sentia seu coração pulsar de contentamento e orgulho ao
olhar para as colinas e para a mansidão transparente do riacho que cortava o vale
verdejante. Algum dia, se Brice viesse a confessar que a amava, contaria que gostava
tanto do rancho quanto ele. Mas, até esse dia chegar, se é que chegaria, não poderia
revelar o que havia em seu coração.
CAPÍTULO VIII

95
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

A s construções estão ficando cada vez mais bonitas. Está sendo


tudo muito rápido — Maida comentou enquanto ajudava Elizabeth a lavar a louça.
— É quase como se tivéssemos plantado sementes de casas e agora estivéssemos vendo-
as crescer. — Riu de si mesma. — Edmund diz que tenho pensamentos muito
fantasiosos.
— Ora, mas eu concordo com você. Também tenho a sensação de que estamos
vendo a cidade crescer e desabrochar como uma flor que anuncia a chegada da
primavera.
— Tento ficar longe dos homens enquanto trabalham, mas adoro caminhar pelo
local que será nossa casa e fico andando pelos cômodos como se já estivessem
construído. Parece tudo muito pequeno agora, mas Edmund diz que as casas sempre
parecem menores antes de as paredes serem erguidas. Depois de ter ficado naquela
carroça durante tanto tempo, qualquer lugar será um palácio para mim.
— Eú sei. Lembro de minha própria viagem. Achei que nunca fossemos chegar. —
Sorriu diante das lembranças.
Maida secou o prato e colocou-o junto com os outros.
— Como é o Texas? Edmund diz que por lá é tudo deserto e a única planta que se
vê é o cacto.
— Nunca estive no Texas — Elizabeth respondeu sem pensar.
— Não esteve!? Achei que você e Brice tivessem vindo de lá.
Cautelosa, Elizabeth comentou:
— Brice veio. Eu sou do Missouri.
— Exatamente como nós! Como vocês dois se conheceram?
— É uma longa história. Mas, voltando a falar do Texas, Brice me contou que
existem muitas árvores e colinas por lá também. Às vezes ele sente saudade de sua terra
natal.
— Pois eu sinto falta de minha família, mas não posso dizer que sinto falta do
Missouri. Onde você morava?
— Hannibal. Meu pai é o único parente que deixei para trás, além de muitos
primos e primas, é claro, mas nunca nos demos muito bem. — Precisava tomar cuidado
para não mencionar Robert ou as circunstâncias que a tinham trazido para o rancho.
— Seu bebê é tão lindo! — Por sorte, a atenção de Maida voltou-se para Mary Kate
que brincava no canto improvisado atrás das cadeiras.
— Obrigada. — Ainda a incomodava quando as pessoas se referiam a ela como
sendo a mãe de Mary Kate ou a esposa de Brice, porém estava descobrindo ser
surpreendentemente agradável fingir que tal fato era verdade. Para uma mulher que

96
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

abominava mentiras, até que não estava tendo problemas para vivenciar uma.
— Ela é linda. Tem os traços de Brice, não? Só espero que nosso bebê seja bonito
assim.
— Tenho certeza de que será.
— Como a filha dos McGivens está se saindo no trabalho? — Maida perguntou,
baixando o tom de voz para não ser ouvida.
— Molly é ótima. Mary Kate a adora e ela mantém a casa em perfeita ordem. Sei
por experiência que é difícil manter tudo em ordem por aqui. A poeira lá de fora insiste
em enveredar pela porta e acomodar-se na sala de visitas como se fosse uma convidada
de honra — brincou.
— Mal posso esperar para também ter a minha sala de visitas. — Maida observou
Elizabeth carregar a bacia com a água de lavar louça até a porta dos fundos e dali jogar
o conteúdo sobre a grama do pátio. Não era preciso viver muito tempo no Oeste para
descobrir que a água era um artigo que não podia ser desper-diçado e sim
reaproveitado.
Elizabeth retornou à cozinha, secou bem a bacia e pendurou-a no lugar de sempre,
pouco abaixo das prateleiras de madeira.
— Acho que até domingo a igreja já estará pronta para realizarmos nosso primeiro
culto oficial — Maida comentou. De repente, estreitou os olhos como se alguma coisa a
estivesse perturbando. — O que acha do Irmão Amos?
— Estou certa de que é um bom homem. Tivemos muita sorte em encontrar um
pastor que aceitasse o desafio de vir para a fronteira.
— Claro que é um bom homem — Maida assentiu. — Quem sou eu para criticar
um pastor — acrescentou enrubescendo.
Elizabeth riu, antes de sussurrar:
— Mas, para ser franca, acho que ele é muito radical para meu gosto.
Maida fez uma pequena careta.
— Que vergonha, Elizabeth! — caçoou. — Falar dessa maneira sobre o pastor. —
Fez uma pausa, então, acrescentou em tom de cumplicidade: — Mas eu concordo
plenamente. Amos fica repetindo provérbios bíblicos, porém é o primeiro a atirar pedras
sempre que alguém faz algo de errado. Detestaria ser mulher dele.
Deve ser terrível agüentar suas críticas o tempo todo!
— Penso da mesma forma. Por que acha que Dorcas se casou com Amos?
— Só Deus sabe. Ela não possui muitos atrativos físicos e talvez o pastor tenha
sido seu único pretendente.
— Isso não seria razão suficiente para mim. — Elizabeth pegou Mary Kate no colo
e disse: — Está na hora do cochilo de minha menininha.

97
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Posso vê-la colocar Mary Kate na cama? Quero aprender tudo direitinho.
Assim, quando nosso bebê chegar não cometerei nenhum engano.
— Bem, não me considero nenhuma autoridade no assunto, mas será bem-vinda
para me acompanhar nesta missão — Elizabeth brincou, antes de subir até o quarto de
Mary Kate, trocar-lhe as fraldas e dar-lhe uma mamadeira improvisada.
— Você não a amamenta com seu próprio leite? — Maida surpreendeu-se.
— Não, não estava dando certo — respondeu evasiva. Sentou-se na cadeira de
balanço e começou a movê-la ritmicamente.
Mary Kate a fitou, os olhinhos azuis começavam a ficarem sonolentos. Assim que
a mamadeira esvaziou, a menina já estava adormecida.
Elizabeth a colocou no berço antes de fazer um sinal para Maida e saírem
silenciosamente do aposento. Ao passar pelo seu próprio quarto, disse:
— Deixe-me pegar meus apetrechos de costura. Estou fazendo um vestido e posso
trabalhar nisso enquanto conversamos. — Pegou o tecido rosa que Brice comprara de
uma das gavetas do guarda-roupa. Havia descosturados um de seus velhos vestidos e
usava as partes com molde para o novo.
— Que cor linda! — Maida elogiou.
— Brice me trouxe esse tecido de presente. Nunca tive um desta cor. Acha que é
modismo demais?
— Claro que não. Se quer saber, em minha cidade as mulheres estão usando cores
vibrantes e muitos enfeites em suas roupas. Esse tom de rosa está perfeito, realçará seus
olhos e cabelos.
Elizabeth adorou ouvir isso. Estava totalmente por fora do que acontecia na moda,
afinal, havia se mudado para Oklahoma há muito tempo e, mesmo antes, não tinha
como se interessar por tal detalhe, pois estava preocupada demais com sua
sobrevivência para se ater a modismos.
Parecendo muito à vontade, Maida foi até as portas francesas que se abriam na
sacada.
— Que brisa deliciosa... e que vista! Parece até que posso ver os contornos da
montanha ao longe.
— Sim, pode vê-la com nitidez nos dias de sol. Também adoro me debruçar aí ao
anoitecer — confessou, pegando o cestinho de vime que usava para guardar seus
apetrechos de costura.
Sorrindo, Maida foi até a outra porta que também se abria na sacada.
— De quem é este quarto? Vocês tem dois quartos extras para hóspedes?
Elizabeth hesitou.
— É de Brice — acabou dizendo.

98
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

A jovem a encarou surpresa.


— Vocês não dormem juntos!?
— Posso ouvir Mary Kate melhor desse quarto — disfarçou e seguiu até a porta
que dava para o corredor.
— Não gostaria de se sentar lá embaixo na varanda? A vista é bonita e o vento
refrescante. Assim também não atrapalharíamos Molly enquanto ela limpa a sala.
Entretanto, Maida não estava pronta para desistir do assunto com tanta facilidade.
— Não pode ouvi-la do outro quarto também? Estão todos um ao lado do outro.
Ou melhor, por que seu marido não se muda para esse quarto com você? — Ela seguiu
Elizabeth até o corredor e olhou curiosa para a porta fechada do quarto de Brice. — Sei
que não é de minha conta, mas acho que não é bom para um casamento se o casal
dorme em camas separadas.
— Ora, não ficamos tão longe um do outro assim — Elizabeth argumentou,
tentando aparentar calma. — Apenas uma porta nos mantém separados.
— Dá no mesmo. — Maida meneou a cabeça de um lado para outro
inconformada. — Edmund e eu nunca dormiríamos separados.
Elizabeth não respondeu, esperava que seu silêncio fizesse a jovem perceber que
não desejava prolongar o assunto. Disfarçando, abriu o cestinho e pegou a tesoura. A
agulha estava presa no tecido do vestido. Para mudar o rumo da conversa, disse:
— Deveríamos fazer uma festa do acolchoado. Tenho um quase pronto.
— Seria maravilhoso. Não vou a um festa do acolchoado há muito tempo e adoro
isso. Sem falar que não há muito que possamos fazer enquanto os homens estão
construindo as casas. Sim, com certeza seria o momento ideal para fazermos uma festa
do acolchoado.
— Está combinado, então! — Elizabeth exclamou satisfeita. — Que tal daqui a dois
dias? Isso daria tempo para as outras mulheres se prepararem para o evento,
— Mal posso esperar por isso. Darei o recado a todas as senhoras e assim não
precisará ir até lá para avisá-las.
Elizabeth sorriu deliciada. Ela própria mal podia esperar pelo acontecimento.

— Edmund, estou muito preocupada com os Graham — Maida disse enquanto


colocava o cozido no fogo. — Eles não dormem juntos!
— Querida, todos tem seu jeito de viver e fazer as coisas. Talvez os Graham não
queiram mais filhos ou, quem sabe, Brice seja do tipo que ronca muito.
— Elizabeth não reclamou que ele ronca. E quem não iria querer mais filhos?
— Nem todos gostam de famílias grandes como você, meu bem — lembrou-a com
delicadeza. — E também a vida particular dos Graham não é de nossa conta.

99
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Mas eu sou amiga de Elizabeth, se não fizermos alguma coisa para ajudá-los o
casamento deles pode desmoronar de uma hora para outra. — Olhou aflita para o
marido. — Não concorda comigo?
— Não vejo o que poderíamos fazer diante das circunstâncias.
— Você poderia falar com Brice.
Edmund a encarou surpreso.
— O quê!? Não posso dizer nada a Brice. Como explicaria o fato de saber que não
dorme na mesma cama que a esposa!?
— Não precisa contar a ele que Elizabeth e eu andamos falando sobre o assunto.
Invente alguma coisa que o faça pensar melhor sobre esse arranjo absurdo de cada um
dormir em seu próprio quarto. Afinal, nada é mais importante do que preservar um
casamento.
— Não vou tocar num assunto destes com Brice. Homens não discutem tais
particularidades, minha cara.
— Não sei por que não!
— Eu ficaria envergonhado e Brice também. A bem da verdade, estou atônito que
tenha discutido algo tão íntimo com Elizabeth. Deveria ser mais cuidadosa, querida.
Nem todos entendem que quando faz coisas como essas é porque está cheia de boas
intenções.
— Mas você sabe e isto é o que importa. Por favor, Edmund, ajude-me a salvar o
amor destes dois? Eles têm uma filha.
Edmund respirou fundo, desde que conhecera Maida, nunca tivera coragem de
lhe negar o que quer que fosse, não seria agora que as coisas iriam mudar.
— Está bem, vou ver o que posso fazer, mas não prometo nada.

— Está tudo bem com Elizabeth? — Edmund perguntou à Brice enquanto


pregavam os caibros do telhado.
Os outros colonos estavam ocupados construindo suas casas e Brice viera até ali
para lhes dar uma ajuda.
— Sim, está. Vire um pouco mais para a esquerda... Isto, assim está bem. — Brice
colocou dois pregos na boca e martelou um terceiro para fixar o caibro onde desejava.
— Maida estava preocupada.
Brice o fitou de soslaio.
— Preocupada com Elizabeth?
O rapaz praguejou baixinho:
— Oh, maldição. Não sou muito bom nisso. Esqueça o que eu disse.
— Tudo bem — tornou Brice num tom amigável. — Esta madeira é muito boa. A

100
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

construção ficará muito sólida — mudou propositadamente de assunto.


— Tem razão, é a melhor madeira que já vi. — Edmund olhou na direção da
carroça que ocupava e viu Maida pendurando as roupas que acabara de lavar no riacho.
Odiava desapontá-la, por isso tentou mais uma vez: — Tem certeza mesmo de que não
há nada de errado acontecendo em sua casa?
— Claro! — Brice exclamou como se não fizesse a menor idéia sobre o que
Edmund estava falando. — Está tudo bem na sua também?
— Sim, mal posso esperar para que está casa fique pronta e Maida e eu possamos
ter um pouco mais de privacidade. Sabe como é, as carroças estão muito perto umas das
outras. Nada como ter seu quarto e sua mulher por perto, não?! — tentou soar divertido.
Bem, tinha feito o melhor que podia para ajudar e Maida não poderia culpá-lo por não
tentar. Provavelmente, sua jovem esposa estava lendo romances demais, não havia nada
de errado com o casamento de Brice e Elizabeth Graham, deduziu, voltando a se
concentrar no trabalho que fazia.

Brice entrou em casa em casa e encontrou Elizabeth pegando o bastidor no sótão.


— Ei, deixe isso comigo. O que está tentando fazer? Cair da escada? — Ele deu
alguns passos a frente e tirou o objeto pesado das mãos delicadas.
— Ia mesmo pedir sua ajuda para pendurá-lo. Mas, primeiro, queria levar o
bastidor lá para baixo e limpá-lo.
— Então deveria ter pedido ajuda para tirá-lo do sótão também. Não gosto de vê-
la carregando peso. Quando precisar de ajuda é só me chamar, se eu não estiver por
perto fale com um dos rapazes. Sempre tem alguém no alojamento.
— Minha intenção era pedir a Molly para me ajudar a pegá-lo no sótão, porém,
quando lembrei ela já tinha ido para casa. — Elizabeth limpou as mãos empoeiradas na
saia do vestido. — Só não entendo por que um bastidor de acolchoados estava
guardado em um lugar como o sótão — resmungou, cocando o nariz por causa da
poeira.
— Célia não gostava de tecer acolchoados. Lorna mandou-lhe o tear e o bastidor
em nosso primeiro ano de casados, mas ela me pediu que o levasse lá para cima no
mesmo dia em que chegou.
— Mas é um excelente bastidor! Pensei que Célia gostasse de trabalhos manuais.
Eu adoro. — Não queria trazer à tona as lembranças da falecida esposa de Brice, mas era
difícil se livrar dela, ainda havia muitas marcas de Célia naquele rancho.
— Célia não gostava de nenhum tipo de atividade. Imagino que ela acreditava que
nossos acolchoados iriam durar para sempre ou então que sua mãe poderia mandar
outros assim que os nossos ficassem gastos e rotos.

101
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth começava a pensar que Célia Graham era mais mimada do que qualquer
outro adulto que já conhecera.
Ainda pensava no assunto quando, pouco depois, Brice trouxe algumas cordas do
celeiro, prendeu-as nos ganchos que havia no teto e colocou o bastidor ali,
suspendendo-o com o auxílio das cordas.
Elizabeth ergueu-o e o abaixou para ver se funcionava.
— Perfeito! Sempre quis trabalhar em um bastidor como este.
— Sua festa é amanhã, não? — Brice perguntou solícito.
— Sim, e estou ansiosa por isso. Não existe maneira melhor de conhecer as
mulheres do que participar de uma festa do acolchoado ou então debulhar milho juntas.
É nesse momento que nos soltamos e somos nós mesmas.
— Por falar em se soltar — Brice começou a dizer cauteloso —, Edmund me fez
umas perguntas estranhas hoje.
— Que tipo de perguntas? — indagou ela, arregalando os expressivos olhos
acinzentados.
— Queria saber se estava tudo bem com você ou se havia algum problema aqui
em casa.
Elizabeth deu um longo suspiro.
— Foi Maida. Ela deve ter contado ao marido.
— Contado o quê?
— Maida quis me acompanhar quando coloquei Mary Kate na cama esta tarde e,
ao entrar em meu quarto, notou que não dormimos juntos.
Brice praguejou baixinho.
— Tentei inventar algumas desculpas, mas percebi que não a convenci muito.
Maida é do tipo que acredita que um casamento não pode sobreviver se marido e
mulher não dormirem juntos.
— E eu concordo com ela. Detestaria esse tipo de arranjo. — Brice parou e pensou
por um instante. — Se isso ajuda, invente alguma mentira para tranqüilizá-la. Diga que
um de nós está doente.
— Não posso fazer isso. Maida ficaria ainda mais preocupada.
— Então deixe-a se preocupar.
Elizabeth o fitou por trás do bastidor.
— Detesto mentir. Deveríamos ter contado a verdade desde o começo.
— Fizemos o que tínhamos de fazer — Brice a lembrou.
Suspirando, Elizabeth puxou a corda e ergueu o bastidor, tirando-o do caminho.
— As coisas estão ficando muito complicadas, não?
— Sinto muito. Só queria protegê-la.

102
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Ela cruzou a sala e parou ao lado da porta.


— Aprecio muito sua dedicação, meu caro. Mas e agora? Como vamos explicar o
fato de não sermos casados? — Sem esperar por uma resposta, girou nos calcanhares e
deixou-o sozinho.
Com passos rápidos, foi para seu quarto e pegou o envelope onde estavam
guardados os fios de cabelo de Robert e os outros pertences que Brice trouxera de Glory.
Sem a menor sombra de dúvida, os objetos eram de seu marido. Lembrava-se de
tê-lo visto usando-os dezenas de vezes, porém, a cor dos fios de cabelo parecia um
pouco diferente. Verdade que eram cabelos escuros, mas com um leve reflexo
avermelhado que Robert não tinha.
Seria mesmo seu marido que morrera? Ela estaria livre para amar ou se casar com
Brice se ele assim decidisse? Ou será que Robert não havia morrido de verdade e
poderia voltar a qualquer momento? Sentiu um frio na barriga $ó de pensar em tal
possibilidade. E se Robert aparecesse, de repente, e alardeasse diante de todos os
colonos que era sua esposa?
Elizabeth nem queria imaginar o que aconteceria, assim, colocou os fios de cabelos
de volta no envelope e tentou não pensar mais no assunto. Porém, não era fácil. O medo
de ser flagrada em uma mentira era grande,mas seu amor por Brice era ainda maior, e
isso a impelia a ficar no rancho e aceitar as conseqüências.

CAPÍTULO IX

—A doro festas do acolchoado — Ella Baker disse enquanto, juntamente


com sua filha adolescente, sentava-se nas cadeiras da sala de jantar que Elizabeth havia
levado para a sala de visitas e organizado em torno do enorme bastidor.
— Céus, você tem uma linda casa! — exclamou a sra. Baker, sem perder nenhum
detalhe da decoração.
— Obrigada — Elizabeth estava tão ansiosa para conhecer as outras mulheres que
havia se levantado antes de o sol nascer para deixar tudo devidamente organizado.
Instruíra Molly para cuidar de Mary Kate, assim, poderia ficar tranqüila e
aproveitar cada instante de seu primeiro evento social, após anos de ostracismo. —
Como vai indo a construção de sua casa, Ella?
— Muito bem. Meu Abner está colocando o telhado hoje. Assim que tivermos um
teto sobre nossas cabeças poderemos entrar e terminar os detalhes aos poucos. — Ella

103
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

era do tipo prático e não se deixava abalar com facilidade. — O que são alguns
inconvenientes se você tem uma casa para morar? Meu marido está construindo a escola
também. Abner é um ótimo professor, ah, isto ele é mesmo!
— Brice e eu estamos muito felizes que tenham vindo.
Maida, que a estivera ajudando na cozinha desde cedo, entrou na sala carregando
um prato com bolinhos de chá e cookies amanteigados que haviam preparado naquela
manhã. A receita era da mãe de Elizabeth e estava deliciosa.
— Cookies! Santo Deus, eu não como estas delícias desde que saímos de casa. —
Ella pegou o biscoito e levou-o aos lábios com avidez. — São maravilhosos. Mal posso
esperar até que meu forno esteja pronto. Não podemos fazê-los se não tivermos um
forno, não é?
— Brice disse que os tijolos para os fornos e para as chaminés estão secando
rapidamente. Foram encomendados do mesmo homem que Brice chamou para o fazer
os desta casa.
Uma batida na porta da frente indicou a chegada de outras convidadas. Elizabeth
apressou-se em atender.
Duas mulheres e uma adolescente estavam esperando na varanda.
— Entrem, por favor. Já arrumei o tear e o bastidor na sala de visitas.
Harriet McGivens precedeu as outras na sala e fez questão de elogiar a beleza da
casa.
Dorcas Sanders acompanhou-as em completo silêncio.
A princípio, Elizabeth acreditou que a esposa do pastor fosse tímida demais para
falar, mas quando seus olhos se encontraram com os dela, assustou-se ao divisar uma
expressão que parecia de puro ressentimento por as outras senhoras terem elogiado a
beleza da casa. Até aquele instante, jamais lhe ocorrera que o conforto da casa de Brice
poderia parecer ostensivo para a esposa do pastor.
A expressão no rosto fino da mulher era tão sombria quanto seu traje. Sim, o
vestido de Dorcas era preto, como todas as outras roupas que a vira usando desde que
chegara ao rancho. Embora o dia estivesse quente, o corpete estava abotoado até a altura
do pescoço e as mangas puxadas de maneira a cobrir os punhos.
Elizabeth não podia evitar de sentir pena da mulher que se submetia a tal
desconforto, mas achou melhor não fazer qualquer comentário, pois não sabia se a
escolha de se vestir assim era de Dorcas ou uma imposição do marido austero.
— Ah, Molly não exagerou em nada! — Harriet exclamou, lançando olhares na
direção da escadaria de carvalho e da sala de jantar. — Ela disse que sua casa era linda e
tinha toda razão.
— Não posso levar os créditos por isso — atalhou Elizabeth num tom divertido. —

104
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Brice construiu e decorou a casa sozinho.


— Certamente, ele tem um gosto maravilhoso para um homem — Harriet
prosseguiu com um sorriso. — Não posso nem imaginar o que Tavish teria escolhido.
Uma coisa é certa, iria colocar tecido xadrez em todos os lugares. — Voltou-se para
Elizabeth e explicou: — Meu marido nasceu na Escócia e é verdade o que as pessoas
dizem a respeito dos escoceses.
Elizabeth não sabia o que "as pessoas diziam" a respeito dos escoceses, mas não
achou educado perguntar. Sorrindo, levou as senhoras até a sala de visitas e elas
cumprimentaram Maida e Ella como se não as vissem há semanas.
Darcy, a filha de Ella, sentou-se ao lado da mãe.
Elizabeth percebeu que a menina era excessivamente tímida e dirigiu-lhe um
sorriso simpático enquanto tomava seu lugar diante do enorme bastidor de acolchoado.
A garota retribuiu o sorriso, mas não disse nada. Em diversas ocasiões, Elizabeth a
vira conversando com o jovem Charley McGivens e Maida era de opinião que os dois
seriam os primeiros a se casarem na nova cidade de Puma Creek, pois era assim que
decidiram chamá-la.
A outra garota era a irmã de Charley e Molly, Dorothy, e ela era tão extrovertida
quanto a mãe.
— Eu adoro esse modelo! Posso pedi-lo emprestado qualquer dia desses? —
Dorothy quis saber.
— Claro! — Elizabeth sorriu. — Chama-se trilha de urso.
Harriet McGivens também elogiou o modelo enquanto tocava o bastidor com
cuidado.
— Sim, tenho um bastidor similar chamado cesta de tulipas. Você poderá usar
cores diferentes e ficará muito bonito, Dorothy.
— Com certeza ficará, mamãe — a menina concordou de pronto. — Vou querer
tecer um acolchoado em azul e amarelo — voltando-se para Elizabeth acrescentou: —
Meu quarto vai ser azul e amarelo, Molly e eu já decidimos.
— É melhor falarem com Anna antes de decidirem qualquer coisa, querida. Sabe
que sua irmã odeia amarelo. — Harriet riu de novo. — Minha prole certamente tem
idéias formadas a respeito de tudo. — A família McGivens era a mais numerosa da nova
cidade. Além de quatro garotas, tinha três filhos e um outro bebê estava a caminho. —
Sabe, como Molly e Dorothy já estão bem crescidinhas e Anna só tem oito anos, tende a
ser deixada de lado na hora de tomar as decisões.
— Só espero conseguir me lembrar do nome de todas — Elizabeth comentou com
um sorriso. — Vocês ainda me deixam confusa.
— Bem, no tocante a minha família não precisará decorar muitos nomes — Ella

105
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Baker disse. — Só temos Darcy.


Mais uma vez Elizabeth teve a estranha sensação de a ter conhecido anteriormente
e também a Darcy.
Era como tentar encontrar o nome para um rosto conhecido e, por alguma estranha
razão, nunca se sentia inteiramente à vontade com os Baker.
Tentando não pensar mais no assunto, pegou suas agulhas e fez menção de
começar o trabalho.
Dorcas olhou em torno de si e declarou enfática:
— Acho que devemos fazer uma prece antes de começarmos.
As outras mulheres a encararam surpresas.
Elizabeth achou melhor intervir.
— Certo, sra. Sanders. A senhora dirá a prece por nós?
Baixando os olhos, Dorcas começou a orar em tom firme.
Elizabeth teve dificuldade em acompanhar-lhe as palavras. Afinal, ela era tão
fervorosa quanto o marido e repetia muitas vezes coisas que já havia dito. Nunca antes
Elizabeth tinha visto uma festa do acolchoado começar com uma prece, o que a fez
concluir que não seria muito fácil conviver com pessoas austeras e fanáticas por religião
como os Sanders. Tão logo a prece chegou ao fim, pigarreou e tentou sorrir.
— Temos limonada e chá naquelas jarras — disse apontando para a mesinha
lateral. — E também cookies e bolinhos.
Dorothy ergueu os olhos interessada. A adolescente tinha o corpo roliço, parecido
com o da mãe.
A conversa seguiu o curso previsível, ou seja, comentou-se quando as casas
ficariam prontas, se as sementes que haviam trazido do Missouri brotariam no solo de
Oklahoma e o quão duro deveria ser o próximo inverno.
Elizabeth ouviu a todas e tentou dar-lhes igual atenção. Só agora percebia o
quanto havia sentido falta de uma reunião de senhoras como aquela. Era bom ter com
quem falar sobre amenidades e sobre os problemas que afligiam as mulheres, mas que
não surtiam o mesmo efeito sobre os homens.
Ainda assim, continuava intrigada com Ella Baker. Ela era gentil, mas,
instintivamente, Elizabeth não confiava nela e nem em seu marido Abner. Os olhos de
Ella eram azuis e não pareciam perder um único detalhe do que acontecia a sua volta. Se
Mary Kate estivesse por perto era ainda pior, pois insistia em tomá-la nos braços e dava
a impressão de estar devorando-a com o olhar, embora quase sempre ignorasse as
crianças dos McGivens. E, mesmo sabendo que Charley McGivens e Darcy estavam se
apaixonando, Ella também não demonstrava muito interesse pelo rapaz.
— Se meu Charley estiver sendo inconveniente, mande-o embora sem cerimônias

106
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Harriet estava dizendo. — Não quero que ele as incomode.


— Charley é bem-vindo — Ella disse rapidamente. — Nunca vi um rapaz mais
educado.
Darcy sorriu diante do comentário da mãe, mas não ousou levantar os olhos do
acolchoado.
Elizabeth observou o movimento das agulhas que mergulhavam no tecido. Todas
as senhoras ali eram muito habilidosas e logo o acolchoado começou a tomar forma.
— Adoro estes acolchoados — uma delas disse. — São tão coloridos e alegres.
Dorcas lançou um olhar recriminador em direção as demais.
— Tudo o que é colorido em excesso é uma terrível demonstração de frivolidade
— disse com aspereza. — Só faço meus acolchoados em cores sóbrias. Aliás, como uso
apenas roupas pretas, ou em ocasiões especiais marrom, não é difícil conseguir as cores
que desejo. Os retalhos das camisas brancas do irmão Amos são todo o colorido de que
preciso.
A imagem de um acolchoado em preto, branco e marrom se formou na mente de
Elizabeth e ela não o considerou nada agradável.
Dorcas prosseguiu.
— Cor demais chega a ferir meus olhos. Sempre fico espantada com o excesso de
cores.
— Abner já planejou todos os detalhes da escola — Ella contou, obviamente
querendo mudar de assunto. — Decidiu construí-la perto do riacho porque assim
ninguém precisará caminhar muito para chegar até lá. Imaginamos que deve ser muito
frio aqui durante o inverno.
— Sim, o último inverno foi muito difícil — Elizabeth admitiu. — Na cabana... —
Mordeu o lábio inferior ao perceber que havia falado mais do que deveria, porém era
tarde demais.
— Que cabana? — Maida quis saber.
— Morei em uma antes de vir para cá. — Não tinha a menor intenção de elaborar
mais a resposta. — Alguém aceita outro pedaço de bolo? — perguntou rapidamente. —
Temos uma forma cheia na cozinha. Molly e eu estivemos cozinhando durante toda a
manhã.
Dorcas meneou a cabeça de um lado para outro e uma expressão recriminadora
surgiu no fundo de seus olhos castanhos.
— Não devemos comer tantos doces e guloseimas, não faz bem para á alma.
Harriet fez uma careta.
— Como um doce pode afetar nossa alma!?
— É a luxúria — Dorcas insistiu. — Se alguém se acostuma com os doces irá

107
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

desejar tê-los sempre. Irmão Amos e eu temos uma alimentação espartana e acredito
que somos muito saudáveis exatamente por causa disso.
— Se eu servir uma refeição a Tavish sem uma boa sobremesa ele é capaz de me
mandar fazer as malas e desaparecer para sempre. Meu marido adora doces, mesmo
que não for nada além de um pouco de mel espalhado sobre uma fatia de pão.
— Mãe — Dorothy a interrompeu —, talvez o sr. Sims do armazém geral de Glory
tenha em estoque um pouco de tecido amarelo e azul que eu possa usar para fazer meu
acolchoado. — Perdida em seus sonhos a respeito de um quarto novo, ela não havia
acompanhando a conversa das mulheres mais velha.
— Talvez, querida. Isto presumindo que Anna concorde que amarelo será a cor do
quarto. Já disse que acho melhor falar com sua irmãzinha antes de começar a fazer
planos.
— Está pensando em comprar tecido novo para um acolchoado? — Dorcas
indagou num tom cortante. — Não é muita extravagância?
— Não se comprar o tecido para fazer vestidos para as meninas e usar os retalhos
que sobrarem para fazer o acolchoado — Harriet revidou, voltando-se para a filha e
piscando em sinal de cumplicidade. — Sei exatamente quem irá usar o vestido amarelo.
Dorothy abaixou a cabeça e sorriu.
— Talvez eu devesse fazer uma acolchoado para mim também — Darcy comentou
em voz baixa.
— Bem, não há mal algum em tecer mais um acolchoado para seu enxoval, menina
— Harriet sugeriu com docilidade. — Logo estará em idade de casar e é bom estar
preparada.
— Todas vocês serão bem-vindas para usarem meu bastidor até que os seus
estejam prontos e em condições de uso — Elizabeth ofereceu. — Eu adoraria ter
companhia. Não sabem como às vezes é solitário por aqui.
— Ah, temos muita sorte de Brice ter encontrado um pastor, um dono de armazém
e um professor para vir formar Puma Creek — Maida disse empolgada. — Temos tudo
o que precisamos para que nossa cidade progrida rapidamente.
— Abner adora ensinar — Ella fez questão de frisar. — Meu marido esperava que
tivéssemos mais de um filho, quando não conseguimos resolveu se tornar professor
porque adoro ter crianças por perto.
— Por falar nisso, a única coisa que está faltando por aqui são alguns jovens —
completou Harriet pensativa. — Espero que mais famílias venham para cá antes de
minhas filhas terem idade para se casar. Claro que Charley e Molly já estão quase lá, um
com dezenove e o outro com dezoito.
— Quem sabe possam encontrar jovens pretendentes em Glory? — Elizabeth

108
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

sugeriu. — Até que uma cidade de tamanho bem considerável para uma área de
fronteira.
— Sim, mas também fica há um dia de distância daqui — frisou a sra. McGivens.
— A velha tradição do bundling board talvez seja a solução — completou, referindo ao
costume britânico de colocar dois jovens, inteiramente vestidos, para dormir na mesma
cama.
O rosto macilento de Dorcas ficou ainda mais pálido do que o habitual.
— Um bundling boardl? Isso seria o cúmulo da falta de decoro!
— Muito pelo contrário! — Harriet defendeu-se. — Minha família promoveu um
desses encontros quando eu era adolescente. Morávamos tão longe da cidade que foi a
única maneira de encontrarmos noivos. Não fosse por isso, talvez ninguém de minha
casa teria encontrado seus esposos e esposas, e, diga-se de passagem, somos todos
muito felizes em nossa vida conjugal.
— Não quero nem imaginar que isso possa acontecer por aqui! — Dorcas
indignou-se.
— Pois digo-lhe que seria perfeitamente respeitável. — Harriet não iria voltar
atrás depois de ter admitido que ela própria fizera uso do velho costume galês. — Na
minha casa nós usávamos um enorme tapume de pinho que ia de uma extremidade a
outra da cama.
A garota ficava de um lado, o rapaz do outro e nem mesmo podiam se ver, apenas
conversar.
— O que não muda o fato de estarem dormindo na mesma cama! — Dorcas
alfinetou. — Não importa a maneira como o faça, esse costume é do demônio porque faz
os jovens incorrerem em pecado.
— Nem sempre. Posso instruir meus filhos e cuidar para que isso não aconteça. Na
casa de meus pais, por exemplo, não houve nada de pecaminoso. Foi uma solução muito
prática, porque também não tínhamos camas extras para dar pousada aos pretendentes.
— Eu tenho certeza de que nada aconteceu mesmo — Ella tentou ajudar Harriet.
— Ouvi muitas histórias sobre pessoas que usaram o velho costume britânico e nunca
soube de nada que pudesse classificá-lo como pecaminoso.
— Pois eu sugiro que no caso das jovens McGivens — Dorcas não se fez de rogada
—, se houver algum pretendente ele poderá ficar na casa paroquial. O irmão Amos
ficaria fora de si se soubesse que um membro de sua comunidade está praticando o
bundling board.
Harriet abriu a boca para levar a discussão a diante, mas Elizabeth a interrompeu:
— Se importaria de me ajudar com a limonada, Harriet? Tenho certeza de que
todas estão derretendo com esse calor e um bom suco é tudo que precisamos para

109
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

refrescar nossas gargantas. — Embora tivesse sido bem-sucedida em terminar com a


discussão, podia perceber que Harriet e Dorcas deveriam estar acostumadas com troca
de farpas e o desentendimento poderia voltar a se repetir a qualquer momento. Aliás,
todas as outras senhoras pareciam estarem acostumadas àquela cena. Bem, pelo menos
não poderia mais dizer que a vida ali seria parada e sem novidade, pois a nova cidade
ficava a poucos metros do rancho, Elizabeth pensou dando um longo suspiro. Estava
decidida a aproveitar o resto de sua festa e não deixaria que nem o fanatismo de Dorcas
nem a teimosia de Harriet pudessem afetá-la. Afinal, ainda estava encantada demais por
ter com quem conversar para se preocupar com os problemas comuns daqueles que
vivem em sociedade, principalmente em sociedades pequenas e fechadas, onde todos se
conhecem.

No dia seguinte, Brice precisava ir para as pastagens a fim de verificar o progresso


de uma vaca doente. Uma vaca caída no pasto era uma presa fácil para os lobos e pumas
que havia no território e não queria perdê-la. Seu sucesso como vaqueiro se devia
justamente aos cuidados que tomava para manter seu gado protegido, fora assim que
conseguira ganhar muito dinheiro desde que chegara a Oklahoma.
— Deverei estar em casa antes de anoitecer ou então um pouco depois —
informou, observando Elizabeth enquanto ela limpava a cozinha após o café da manhã.
— Ficarei te esperando.
— Não é preciso. Se eu tiver problemas com a vaca posso dormir no pasto esta
noite. Portanto, não me espere. — Sabia que não estava sendo muito gentil, porém, a
cada dia que passava ficava mais difícil controlar a vontade que sentia de tocá-la.
Somente suas preocupações com as conseqüências de tal gesto davam-lhe força para
resistir à tentação.
— Coloquei comida para você nesta sacola. — Elizabeth entregou-lhe uma sacola
feita de saco. — É um pedaço do pernil da noite passada e o pão que fiz esta manhã.
Mas talvez fosse melhor fritar alguns bifes já que vai ficar fora até tarde.
— Não, isto bastará. — Era hora de partir, porém Brice estava relutante em deixá-
la. — Vou procurar a vaca naquela parte onde o Puma Creek faz uma grande curva em
torno da rocha alta. Lucky disse que foi lá que a viu pela última vez. Se Lucky estiver
certo e o animal tiver apenas um problema de estômago, logo conseguirei trazê-la de
volta.
— Lucky vai com você?
— Não, se a vaca estiver mal não precisarei de ninguém para me ajudar a medicá-
la. E se estiver bem, então será só trazê-la de volta.
Elizabeth encarou-o e os olhos acinzentados brilharam de maneira enigmática.

110
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Vai ter muito cuidado, não vai? — murmurou preocupada. Oh, céus, e se algo
acontecesse a ele e nunca mais o visse!?, perguntou-se de repente.
— Eu sempre tenho. — Brice sentia um desejo quase incontrolável de acariciá-la.
Há muito ansiava por deslizar as mãos pelas curvas femininas e arredondadas do corpo
que tantas vezes sonhara em ter sob o seu.
— É melhor eu ir — disse abruptamente, consternado com a pungência das
emoções que o dominavam.
Elizabeth o viu caminhar para a porta e sair. Tinha divisado o desejo que brilhara
no fundo dos olhos castanhos. Não estava sendo fácil viverem tão próximos e, ainda
assim, separados e impedidos de concretizarem o que realmente queriam. Desalentada,
concentrou todos os seus esforços em limpar a cozinha. Já havia percebido que o
trabalho pesado não a impedia de pensar em Brice, mas, pelo menos, a deixava tão
exausta que podia dormir assim que colocasse a cabeça no travesseiro.
Foi apenas quase uma hora depois que percebeu que a sacola de comida havia
ficado sobre a mesa. Brice tinha esquecido de levá-la consigo. Movida por um impulso,
foi até a porta e espiou lá fora. A esta altura, ele já deveria estar longe dos ranchos e os
rapazes também cuidavam de suas tarefas rotineiras.
— Molly? — Elizabeth gritou.
A jovem McGivens entrou carregando Mary Kate nos quadris.
— A senhora me chamou, dona Elizabeth? — como os capatazes, Molly havia
adotado a forma de tratamento do Oeste para chamá-la.
— Sim, Brice esqueceu a comida. Como, talvez, precise passar a noite fora, vou
levá-la para ele. Pode cuidar do bebê enquanto faço isso?
— Claro que sim. Estamos aprendendo a fazer pilhas de tijolinhos de madeira, não
é mesmo, Mary Kate?
— Como Elizabeth, Molly tinha sido instantaneamente cativada pelo charme da
menina.
— Voltarei o mais rápido possível. A mamadeira está pronta e eu já fervi algum
leite extra para o caso de ela querer mais.
Molly assentiu com um sorriso. Gostava muito de trabalhar com Elizabeth e mais
ainda de ter a chance de brincar com a pequena Mary Kate.
Com movimentos rápidos, Elizabeth tirou o avental e pegou a sacola de sobre a
mesa. A medida que saía, colocou sua touca com abas para protegê-la do sol. Como já
presumia, Brice havia mesmo seguido atrás da vaca doente e, após falar com Cal, selou
um cavalo e se pôs a galopar em direção às pastagens próximas ao rio.
Desde que chegara ao rancho, não gostava de se afastar muito da casa, mas sua
missão agora era muito mais importante do que seus temores e apreensões. A distância,

111
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

podia ver o brilho prateado das águas do Puma Creek e ela o seguiu, pois sabia que só
assim encontraria a rocha grande mencionada por Brice.
Após quase uma hora de cavalgada, a rocha surgiu a sua frente e Elizabeth forçou
o cavalo a diminuir a marcha.
Brice estava lá, ajoelhado ao lado da vaca doente que se encontrava estatelada
sobre os tufos de grama.
O som do galope chamou-lhe a atenção e ele levantou os olhos surpreso ao vê-la.
— Você esqueceu sua comida — Elizabeth respondeu à pergunta silenciosa. —
Não queria que ficasse com fome.
Brice respirou fundo, evitando encará-la.
— Não iria me fazer mal algum. Eu não me alimentava com regularidade antes de
você chegar ao rancho. — Contudo, logo fitou-a novamente e sorriu. — De qualquer
forma, agradeço que tenha lembrado de trazer minha comida.
Elizabeth ficou aliviada ao perceber que ele não estava zangado por vê-la cavalgar
sozinha até ali. Desmontando, amarrou seu cavalo em um arbusto.
— Como está ela? — inquiriu, referindo-se à vaca doente.
— O estômago da Mimosa está melhorando — Brice contou e a vaca levantou a
cabeça mugindo, como se soubesse que era dela que estavam falando.
— Ela não me parece muito bem.
— E não está, não ainda. Mas, já que veio, talvez possa me ajudar a lhe dar o
remédio. — Um sorriso brincou nas faces angulosas. — Aposto que não esperava ter a
chance de se divertir tanto hoje, não, minha cara? — gracejou num lampejo de bom
humor.
— Tem toda a razão. — Elizabeth se aproximou do animal com cuidado. Todos os
animais do rancho viviam soltos nas pastagens e eram quase selvagens. Além do mais,
nunca tinha tocado em uma vaca durante toda a sua vida e o desconhecido sempre era
motivo de apreensão.
— Mimosa não vai te morder — Brice assegurou-lhe. — Pegue a bolsa com os
remédios que está em minha sela, por favor.
Ela fez o que era dito e depois entregou a bolsa a Brice.
— O que houve? — quis saber curiosa. — Mimosa engoliu algum tipo de planta
venenosa?
— Não, comeu trevos daquelas moitas ali e deve ter bebido muita água por cima.
Isto fez com que os trevos inflassem rápido e ela não pôde digeri-los direito. — Com
habilidade, pegou os remédios da bolsa e começou a agitar um dos frascos que continha
uma mistura esbranquiçada.
— Isto parece leite de magnésia.

112
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— E é. Agora conte quarenta gotas de óleo de hortelã e coloque naquele frasco


vazio — ordenou, antes de se posicionar perto do animal e segurar-lhe o pescoço até
que ficasse perpendicular ao chão.
A vaca ainda protestou, mas Brice a forçou a abrir a boca e virou o remédio
garganta abaixo.
— Já contei as gotas — Elizabeth disse, entregando o frasco a ele.
Brice acrescentou mais duas gotas de láudano ao óleo de hortelã e o agitou.
— Com isso Mimosa vai se sentir como se tivesse tomado uma bebedeira —
explicou, antes de abrir a boca do animal pela segunda vez e dar-lhe o resto da
preparado. — Mas depois de algumas horas começará a melhorar e amanhã estará
novinha em folha.
Elizabeth colocou o frasco vazio na bolsa e olhou para Brice que começava a
massagear a barriga do animal para aliviar as dores.
Mimosa mugiu agoniada e o resto do gado que pastava mais adiante aproximou-
se deles, sem, no entanto, chegar perto demais.
— Esses animais são muito bonitos — Elizabeth comentou.
— Sim. As pessoas em Glory acharam que eu estava louco quando decidi criar os
animais de cara branca em vez dos de chifre longo, porque dão muito trabalho. Os de
chifre longo podem comer praticamente de tudo e nunca ficam doentes. Essas aqui
sempre precisam de atenção.
— Então por que não as vende e compra os de chifre longo? — perguntou,
franzindo o cenho.
— Porque na hora de vendê-las elas valem três vezes mais do que as de chifre
longo e meu lucro é muito maior, foi assim que consegui fazer este rancho prosperar tão
depressa, Elizabeth. Quando cheguei em Oklahoma, só tinha o dinheiro do rancho e um
pouco para sobreviver, hoje não tenho do que me queixar. Pelo menos não no que se
refere a dinheiro.
Elizabeth sentiu o coração dar um salto dentro do peito. Era impressão sua ou
Brice estava tentando levar o assunto para um terreno mais íntimo?
De repente, ele ficou em pé, pois Mimosa também acabava de se levantar e seguia
em direção aos outros animais.
— Parece que a cura foi rápida demais — Elizabeth comentou, com um breve
sorriso. — Pensei que você teria de cuidar dela o dia todo.
— Não, mas vou ficar de olho nela durante algum tempo — disse, começando a
seguir em direção à margem do riacho, de onde podia vê-la melhor.
Elizabeth o acompanhou e olhou para a água cristalina como se fosse um espelho
mágico, com poder de revelar-lhes os sentimentos mais profundos, e não apenas a

113
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

superfície de um pequeno rio do Oeste.


— É tão bonito por aqui — disse, como se falasse consigo mesma.
— Sim, é. — Ele estava parado mais perto do que Elizabeth esperava e, ao virar o
rosto, seus olhares se encontraram. — Adoro este lugar. Quando o vi pela primeira vez
fiquei maravilhado e só descansei ao ter o título de propriedade em minhas mãos. Nessa
terra o que se planta dá porque o riacho nunca seca. É tudo o que eu poderia querer da
vida... ou quase tudo. — O brilho de desejo estava de volta em seu olhar.
Impulsivamente, Elizabeth tocou-o no braço.
— Você poderia ter tudo o que deseja, Brice. Só precisa pedir.
Ele ficou em silêncio durante alguns segundos, então entendeu a mensagem
cifrada e, lentamente, tomou-a nos braços.
Elizabeth o sentiu estremecer e percebeu como era difícil para Brice se conter.
Permaneceram abraçados durante um certo tempo, relutantes para voltarem à rotina da
vida no rancho.
— Maldição, queria muito que tivéssemos nos encontrado antes que Célia e Robert
aparecessem! — Brice praguejou de repente.
— Eu sei, sinto-me da mesma forma. Algumas vezes imagino você cavalgando até
a casa de meu pai em Hannibal. Eu estaria sentada na varanda, tomando um pouco de
limonada. Ao vê-lo sofrendo por causa do calor, lhe ofereceria um copo do refresco.
— E eu aceitaria — Brice disse, passando a tomar parte na fantasia romântica. —
Diria: "Bom dia, senhorita." Depois subiria os degraus e ficaria a seu lado na varanda.
— Sim, logo entregaria o copo de refresco em suas mãos, nossos dedos se tocariam
de leve e nos dois ficaríamos sensibilizados com o breve contato. Com uma moça
educada, eu o convidaria para se sentar na varanda e se refrescar um pouco. Lógico que
você teria de pedir permissão a meu pai se quisesse me fazer a corte.
— Claro que pediria. Mas, caso seu pai não a desse, continuaria a cortejá-la do
mesmo jeito.
— Neste caso poderíamos nos encontrar às escondidas. O celeiro seria um ótimo
lugar... — Seu coração batia descompassado. Era impressionante como a fantasia
conseguia ofuscar a realidade!
Brice também se sentia assim. Com delicadeza, segurou-a pelo queixo e a beijou,
primeiro gentilmente, depois, ao vê-la corresponder, intensificou o contato.
A língua experiente invadiu a boca de Elizabeth, enviando ondas de prazer por
todo o corpo dela.
Todavia, de repente Brice se afastou e, encarando-a com sofreguidão, deu um
longo suspiro.
— E então nós dois nos amaríamos sobre o feno empilhado no celeiro —

114
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

prosseguiu ele num tom sonhador. Os olhos escuros brilhavam cheios de paixão.
— Você parece conhecer minha fantasia muito bem.
— E não poderia ser diferente. Todas as noites sonho com esta mesma cena, com
pequenas variações, é claro. — A voz de barítono estava embargada de emoção. —
Elizabeth, o que vamos fazer?
Ela fechou os olhos e o abraçou mais apertado. Há muito desejava poder colar o
corpo ao dele desta maneira.
— Não sei, Brice. Francamente, não sei...
— Se eu não a desejasse tanto seria muito mais fácil. — Ele tocou-lhe as faces com
a ponta dos dedos, como se quisesse memorizar cada detalhe de sua fisionomia. —
Desde que a conheci tenho vivido um tormento. — Curvou-se e a beijou de novo, desta
vez mais apaixonadamente do que antes. — Meu amor, vamos até Glory para nos casar.
Isto resolveria tudo.
Elizabeth virou o rosto.
— Não podemos. Existe algo que ainda não lhe contei. Andei olhando nas coisas
de Robert e a cor do cabelo está errada.
— Errada?!
— Sim, Robert tinha cabelos castanho-escuros. Aqueles fios que vieram no
envelope são castanho-avermelhados. — Ela respirou fundo. — Não tenho certeza se
Robert está mesmo morto. Pode ser que eu ainda seja casada.
Brice a abraçou mais apertado.
— Mesmo se estiver vivo, Robert provavelmente nunca mais voltará. Você irá
esperar para sempre e nada.
— Mas será pior se Robert voltar e me encontrar casada com você, não acha? Oh,
Brice, temos de esperar até termos certeza.
— Maldição, o problema é que você está certa! — Parecia tão infeliz quanto ela
própria.
— O que vamos fazer, Brice? Isso está acabando comigo, eu o desejo mais do que
tudo e ainda assim não posso me atirar em seus braços, apesar de vivermos na mesma
casa e dormirmos sob o mesmo teto.
— Sei o que quer dizer, meu amor. — Fitou-a atentamente. — Você me ama
mesmo? Gosta quando a toco?
O coração deu um salto dentro do peito de Elizabeth. Brice falava com tanta
ternura que era impossível não se emocionar.
— Claro que amo! — Ela deslizou as mãos sobre o peito viril, deliciando-se com o
contato. — Algumas vezes, a única maneira que consigo evitar de me atirar em seus
braços e esquecer do resto do mundo é sendo rude e fugindo para bem longe de você.

115
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Não imaginava que fosse assim. Deve ser por isso que nunca entendo suas
atitudes.
— Há muita coisa que você não entende a meu respeito, Brice — respondeu com
suavidade. — Mas vai acabar aprendendo. Aliás, seria maravilhoso aprender-mos mais
um sobre o outro. Podemos começar agora. Não posso me casar com você, mas nada
impede que demos vazão aos sentimentos que nos movem.
— Tem razão. Contudo, precisamos tomar cuidado para não nos tornarmos alvo
dos sermões do irmão Amos e de sua esposa.
— Não me importo com que os Sanders pensem ou digam sobre nós. Amar não é
pecado. E depois, como eles poderiam saber que não somos casados?
— Isso é verdade. Meus homens são leais a mim e não contarão nada. Eles
também gostam muito de você e jamais farão qualquer coisa que a desabone.
— Mas antes de tomarmos qualquer atitude é melhor estarmos certos de que é isso
que desejamos. Se dermos o primeiro passo, não haverá como voltar atrás. Tudo será
diferente.
— Muito diferente — Brice concordou, deslizando as mãos sobre as costas dela. —
Mas, Deus, eu a desejo com loucura! Preciso de você.
Elizabeth ajoelhou-se na grama e puxou-o consigo.
— Às vezes a paixão que vejo em seus olhos me assusta, Brice — murmurou,
sentindo o sangue correr-lhe rápido pelas veias.
— Ora, eu nunca a machucaria!
— Sei disso. — Com delicadeza, tocou as faces douradas pelo sol de Oklahoma,
em seguida curvou-se para beijá-lo.
Inebriado, ele tirou os prendedores que mantinham os cabelos negros erguidos e
guardou-os no bolso da camisa, ao mesmo tempo que os caracóis escuros caíam em
profusão sobre os ombros de Elizabeth, chegando-lhe até quase à cintura. Sem
pestanejar, Brice a deitou sobre a relva e fitou-a com paixão.
— Faça amor comigo, Brice, por favor.
— Tem certeza de que não se arrependerá de se entregar a mim? — perguntou ele
estremecendo. Lentamente, começou a desabotoar a camisa. — Quer que eu a ame a
despeito do que possa ter acontecido com Robert?
— Sim, quero. Há muito tempo que não me considero mais a esposa de Robert.
Embora tenha de respeitar as leis que dizem que sou casada com ele é a você que amo,
Brice, a mais ninguém — confessou com os olhos brilhando de paixão.
Em resposta a tal confissão, Brice ajudou-a a despir o vestido e a anágua
engomada. Quando a viu inteiramente nua a sua frente, ele respirou fundo e também se
despiu.

116
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Você tem um corpo tão atraente — Elizabeth sussurrou, acariciando os


músculos dos braços e ombros. — Parece um daqueles deuses do Olimpo que vemos
retratados em livros de histórias.
Brice riu baixinho e traçou uma linha de fogo ao longo do pescoço de Elizabeth,
descendo lentamente até o pico dos seios rosados e firmes.
— E você, além de linda, é uma mulher muito especial, minha querida — disse
com um leve sorriso a brincar nas faces angulosas. — Faz com que eu me sinta mais feliz
e vivo do que nunca. Sabe, durante todo esse tempo em que esteve em minha casa, eu
ficava observando seus movimentos e seu jeito de falar e memorizava cada detalhe para
depois, à noite em minha cama, torturar-me com o desejo que pulsava em meu corpo e
alma.
— Esses dias terminaram, Brice. — Elizabeth correu as mãos pelo corpo desnudo,
sem o menor pudor de tocar-lhe as regiões íntimas. — Vou mudar minhas coisas para
seu quarto esta noite mesmo e não sofreremos mais por causa disso. Se Robert não
aparecer dentro de um ano, então poderemos realmente nos casar em Glory —
prometeu com um sorriso deliciado.
Brice também sorriu e, ao senti-la mover-se sob seu corpo, acompanhou-lhe os
movimentos instintivamente. Elizabeth se abriu para recebê-lo como se fosse uma
dádiva do céu e prendeu a respiração por um momento, pois só assim poderia
prolongar a suprema satisfação de serem um só corpo, quase uma só alma...
— Sim, Brice, por favor, faça amor comigo... agora e sempre, meu querido! —
pediu num gemido rouco, quando não podia mais suportar a pungência do desejo que
queimava suas entranhas.
Seus olhares se encontraram à medida que eles se moveram juntos em busca da
satisfação mais plena que alguém pode conhecer. De repente, todo seu universo girava
em torno de Brice e dos sentimentos que os unia. O mais maravilhoso de tudo era saber
que ele se sentia da mesma maneira.
Quando finalmente chegaram ao êxtase, gritaram juntos, sorriram juntos e
deixaram-se cair um nos braços do outro como um navio que aporta em terra firme
depois de enfrentar o mar revolto. Durante um longo tempo, ficaram imóveis,
deliciando-se com a descoberta, com os cheiros e com a felicidade trazida por aquele
novo amor.
— Por que lutamos contra isso durante tanto tempo? — Brice murmurou
finalmente.
Um sorriso bailou nos lábios rosados. Ela pegou um punhado de grama e
esfregou-o de leve no rosto tão amado, provocando-o, e, ao mesmo tempo, acariciando-
o com ternura.

117
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Brice levantou-se de um salto e ajudou-a a fazer o mesmo.


— Em pé, senhora!
— Tão depressa assim? — protestou Elizabeth. Queria muito continuar nos braços
fortes, saboreando o doce langor da paixão.
Todavia, Brice a pegou pelas mãos e puxou-a em direção ao riacho.
— Você vai nadar!? — perguntou boquiaberta. — Agora?
— Aqui o rio não é muito fundo e a água é deliciosamente tépida. Venha!
Ela o seguiu incerta. Pararam no centro do riacho, quando a água estava na altura
da cintura de Elizabeth.
Brice uniu as mãos em concha e começou a jogar-lhe água no rosto, esfregando-lhe
o corpo e removendo os vestígios de grama que havia nos cabelos escuros. Elizabeth
aceitou a brincadeira e começou a fazer o mesmo com ele, tocando-o, acariciando e
aprendendo que por baixo do cowboy corajoso e firme havia um menino terno e
brincalhão.
No entanto, assim que seus olhares se encontraram, o momento de descontração
deu lugar a uma nova onda de desejo e logo os dedos de Brice passaram a deslizar pelos
seios rosados, num gesto enlouquecedor e provocante.
Ao senti-lo curvar-se para beijar-lhe os mamilos túrgidos, Elizabeth gemeu
baixinho.
— Eu não o aconselharia a fazer isso se tiver muito trabalho a sua espera, meu
caro — brincou ela, sentindo todo seu corpo pulsar de desejo. Oh, céus, queria que Brice
a possuísse outra vez! Era como se estivesse enfeitiçada. Seria possível amar um homem
com tanta avidez!?
Brice riu sedutor.
— Minha querida, vou dedicar esta tarde inteira a você — prometeu num tom
rouco... e cumpriu. Então o resto do mundo deixou de ter importância. Eles fizeram
amor no meio do riacho, com as águas cristalinas impelindo-os um para o outro, como
se estivesse batizando a nova fase de suas vidas. Afinal, eram um homem, uma
mulher... corações solitários que haviam se encontrado no Oeste...

CAPÍTULO X

E lizabeth esperava ansiosa que Brice chegasse em casa. Tinha passado a tarde
toda mudando suas coisas para o quarto dele. Dissera a Molly que estava fazendo uma
limpeza de primavera, porque não desejava que seus assuntos pessoais fossem motivo

118
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

de fofocas entre os novos moradores do Vale de Puma Creek.


Por sorte, a jovem McGivens parecia ter aceitado bem a desculpa e não fez
qualquer pergunta comprometedora.
Elizabeth estava tão nervosa quanto uma noiva em sua noite de núpcias. Seu
corpo ainda vibrava ao se lembrar de como haviam feito amor naquela manhã, o
coração batia descompassado e, às vezes, tinha a sensação de que poderia voar de tanta
felicidade.
Certamente, nenhuma mulher havia se sentido mais realizada nos braços de seu
amado do que ela. E Elizabeth amava Brice apaixonadamente, depois de ter descoberto
isso, nada no mundo poderia atrapalhar sua felicidade, nem mesmo o fato de que
Robert poderia estar vivo. O melhor de tudo era que embora Brice não tivesse dito que a
amava com todas as letras, era óbvio que se sentia da mesma maneira.
Quando ele finalmente chegou em casa ao entardecer, sorriu para Elizabeth de
uma forma que deixava claro que também estava se lembrando do que acontecera
naquela manhã. Beijou-a na testa com carinho,em seguida tocou-a gentilmente no rosto,
como só um marido devotado e apaixonado poderia fazer.
Mary Kate, que a essa altura não se contentava mais em ficar brincando no canto
da cozinha, correu até o pai e enroscou-se em suas pernas em busca de atenção.
Elizabeth sentiu uma onda de satisfação inundar seu peito. Sim, era exatamente
aquela a família com que sempre sonhara.
Naquela noite, havia preparado os pratos favoritos de Brice: um assado com
batatas dourados, feijão, pão de milho e uma torta de maçã de sobremesa.
Durante o jantar, trocaram olhares tão reveladores e cheios de amor que uma
confissão verbal se tornou desnecessária. A não ser pela presença de Mary Kate,
estavam sozinhos, mas, mesmo assim, não deram voz as emoções que pulsavam dentro
de si. Aliás, Elizabeth não estava certa se haveria palavras que pudessem traduzir com
justiça a grandeza dos sentimentos que pulsavam em seu corpo e alma.
Cada movimento de Brice lhe parecia mágico. Adorava a maneira como as mãos
fortes e vigorosas cortavam a carne e também o quão brancos e perfeitos seus dentes
pareciam em contraste com a pele bronzeada por causa do trabalho sob o sol do Oeste.
Como sempre, ele havia tomado banho antes de se sentar para o jantar e seus cabelos
estavam úmidos e limpos. Não importava o quanto estivesse cansado do trabalho duro
no rancho, sempre se cuidava para estar apresentável quando Elizabeth estava por perto
e ela adorava isso.
Mary Kate pareceu pressentir que queriam ficar sozinhos e estava determinada a
não perder nada, pois lutou contra o sono o máximo que pôde. Elizabeth a levou para a
cama sob protestos. Depois de muito choramingar, a menina finalmente se acalmou e

119
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

fechou os olhos azuis.


Após algum tempo, Elizabeth fechou a porta do quarto atrás de si e começava a se
preparar para descer as escadas, mas encontrou Brice no meio do caminho.
— Já apaguei as lamparinas — ele disse com voz rouca.
— Então não preciso mais descer.
— Não. — Brice parou a seu lado, no topo das escadas.
— Tem certeza de que quer dar este passo, minha querida? — perguntou
baixinho.
— Nunca tive mais certeza de algo em toda minha vida — confirmou ela,
esticando o braço e tocando-o de leve nas faces.
A pele estava macia, pois Brice tinha até mesmo se barbeado. Aquela noite era tão
importante para ele quanto para Elizabeth. Assim, em silêncio, colocou as mãos em
torno dos ombros delgados e a conduziu ao quarto. Só o fato de tê-lo a seu lado a fazia
se sentir extasiada. Nenhum outro cômodo da casa retratava tanto a personalidade de
Brice quanto o quarto de mobília escura e prática, com um ar essencialmente masculino
e uma elegância sóbria.
Como se estivesse lendo seus pensamentos, ele sugeriu:
— Pode colocar um toque feminino aqui se quiser. Talvez alguns laços de cetim ou
um acolchoado novo.
— Não, gosto do jeito que está. — Elizabeth seguiu até o guarda-roupa. —
Coloquei minhas coisas na última gaveta. Estava quase vazia. As suas estão nesta.
— Indicou a gaveta de cima. — Espero não ter mexido em nada que o desagrade.
Brice sorriu.
— Pode mexer em tudo o que é meu e mesmo assim não me desagradará.
Um rubor tingiu-lhe as faces quando percebeu a conotação que tal comentário
poderia ter. Mesmo assim, sorriu e, aproximando-se, enlaçou-o pelo pescoço.
— Devo dizer o mesmo em relação ao senhor, sr. Graham. — Graciosa, repousou a
cabeça no peito másculo. — Só tenho uma coisa a reclamar. Não encontrei seu pijama e,
depois de pensar bem, lembrei-me de nunca ter lavado um.
— Talvez seja porque eu não tenha um — Brice confessou com um sorriso maroto.
— Mas, se quiser, poderei comprar da próxima vez que for a Glory.
— Não! — exclamou ela prontamente. — Não há razão para isso — completou,
tentando ocultar um suspiro de satisfação antecipada.
— Você também pode ficar livre de suas camisolas, querida — Brice sugeriu.
— Nunca dormi nua.
— Tenho certeza de que irá gostar.
Elizabeth sorriu levemente.

120
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Talvez sim.
— Acha que poderemos sobreviver com duas ou três horas de sono por noite? —
ele indagou com um sorriso sedutor. — Afinal, a partir de hoje, não pretendo dormir
muitas horas. Tenho planos melhores para passar o tempo neste quarto.
— Imagino que poderemos descobrir a resposta juntos.
Brice segurou-lhe o rosto com a mãos em concha e depositou-lhe um beijo terno na
testa, nos olhos, na pontinha do nariz e finalmente nos lábios entreabertos.
Elizabeth queria dizer que o amava, mas, em vez disso, deixou-se beijar e
contentou-se em abraçá-lo bem apertado contra si.
Quando Brice começou a desabotoar o vestido rosa, os dedos de Elizabeth fizeram
o mesmo com a camisa xadrez. Sim, estava ansiosa para se deitar ao lado dele no
colchão de penas e assim passar as próximas horas amando e sendo amada. Seus dias e
noites de solidão no Oeste haviam chegado ao fim.

Elizabeth cantarolava enquanto preparava manteiga na varanda dos fundos. Aliás,


ela sempre cantava quando fazia isto, mas naquele dia tinha cantado o tempo todo, sem
parar nem mesmo para descansar a garganta. Sabia que Molly deveria estar se
perguntando o que estaria acontecendo, mas a garota não deu voz a seus pensamentos e
ela, certamente, também não pretendia explicar nada.
A noite anterior tinha sido perfeita. Brice era um amante fantástico, sexy e atento
para com seus menores desejos. Ele parecia saber exatamente como tocá-la e quando
falar com ela naquele tom rouco e apaixonado que a fazia vibrar de prazer. Robert
nunca falava enquanto fazia amor e o gesto de Brice a pegou de surpresa, deixando-a
ainda mais encantada. Sim, Brice sabia como despertá-la para a paixão, para depois
fazer seu corpo explodir em êxtase várias vezes seguida.
Elizabeth ainda devaneava com sua noite de amor quando Maida se aproximou.
— Molly me disse que você estava aqui. Quer ajuda? Adoro bater manteiga.
Elizabeth assentiu e transferiu a tarefa para a jovem sra. Harrison, antes de pegar
um vestidinho que estava bordando para Mary Kate.
— Obrigada. Ainda bem que está quase pronta — disse à amiga.
Maida movimentou a enorme colher de pau numa velocidade ritmada.
— Não precisa me agradecer, gosto de me manter ocupada e por enquanto ainda
não tenho, muito o que fazer. Não vejo a hora de termos uma vaca leiteira para poder
fazer coalhada e uma série de pratos que Edmund adora. Se as coisas continuarem como
estão, não vai demorar muito para meu sonho se realizar. Edmünd já fez um belo
galinheiro, também prometeu que assim que for a Glory comprará alguns pintinhos e
logo teremos muitos animais para cuidar.

121
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Eu também gosto de animais, principalmente de gatos. Tinha um quando era


criança, são muito limpos e espertos — Elizabeth comentou. — Também são ótimos
para vigiar os celeiros e proteger a colheita dos roedores. Imagino que Brice não tenha
um porque Célia não gostava. — Só percebeu que tinha falado demais quando as
palavras já haviam escapado de seus lábios.
— Quem é Célia?
Elizabeth não sabia o que responder, por fim, disse:
— A primeira esposa de Brice. Ele construiu esta casa para ela. Célia está
enterrada na colina, no lugar que Brice separou para ser o cemitério da nova cidade e,
claro, da família.
Maida quase parou de bater a manteiga.
— Brice foi casado antes?! Você nunca me contou. Presumi que esta casa tivesse
sido construída para você.
Elizabeth sabia que tinha encorajado Maida a pensar assim, porém, não havia
nada que pudesse fazer para se redimir desse pecado, pelo menos não agora.
— Por favor, Maida, eu agradeceria se não contasse nada sobre este assunto aos
outros colonos. Brice não gosta de falar a respeito de Célia. Ela morreu durante o parto.
— Nossa que história triste! Então você e Mary Kate devem ter sido mesmo uma
bênção na vida dele! — Maida virou-se e observou a casa como se a estivesse vendo sob
um novo prisma após a revelação inesperada. — Mas certamente Brice a ama. Já notei a
maneira como ele olha para você.
— Sim, acho que ama — Elizabeth concordou com um sorriso de satisfação.
— Por falar em amor, Edmund disse que viu Dorcas carregando as coisas da
carroça para a casa nova ontem à noite. Parece que ela fez todo o trabalho pesado
sozinha enquanto irmão Amos ficava olhando para as estrelas. Se ele fosse meu marido,
pastor ou não pastor, iria lhe dar uma boa lição sobre como compartilhar deveres e
obrigações. Amos a obriga a fazer quase todo o trabalho pesado. É sempre assim. Não
me conformo. Por que será que Dorcas o agüenta?
— Talvez ela ame o marido. — Elizabeth já tinha se feito a mesma pergunta
dezenas de vezes, mas não era do tipo que gostava de fofocas. Não era da conta delas se
irmão Amos obrigava Dorcas a fazer o trabalho que deveria ser responsabilidade do
homem da casa.
— Uma mulher já tem muito trabalho para deixar tudo em ordem sem precisar
pegar no pesado — Maida prosseguiu indignada, começando a descarregar toda sua
fúria no creme que deveria virar manteiga.
— Ora, você ajudou Edmund a construir sua casa, não ajudou?
— Sim, mas ele não me obrigou a fazê-lo. Fiz isso por minha livre e espontânea

122
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

vontade, pois não via a hora de ter um teto sobre minha cabeça.
— Pode ser que tenha acontecido o mesmo com Dorcas. Sabe como é, foram os
últimos a terem a casa pronta porque Amos quis construir a igreja primeiro.
— Eles poderiam ter dormido na igreja durante esse tempo. Qualquer coisa seria
melhor do que dormir na carroça. Espero nunca mais precisar dormir em um lugar que
não seja uma casa de verdade.
— Eu também — Elizabeth completou, dando um ponto com linha rosa no
bordado em forma de flor. — Fico me perguntando se Mary Kate vai gostar de costurar
quando crescer — tentou mudar de assunto. — Sempre gostei muito de costura e
trabalhos manuais.
— Eu não, até posso fazê-los, mas prefiro me distrair com outras coisas.
Rindo da sinceridade quase pueril de Maida, Elizabeth olhou na direção do celeiro
e viu Brice rumando para casa. Um delicioso calor irradiou-se de seu coração para todas
as outras partes do corpo, e ela se pegou suspirando sem uma explicação plausível para
o fato.
— Bom dia, Maida — Brice cumprimentou ao subir os degraus da varanda.
— Ah, bom dia.
— Parece que Elizabeth a colocou para bater a manteiga, hein? — gracejou Brice,
bem-humorado.
— Oh, não, foi idéia dela me ajudar — Elizabeth defendeu-se. — Mas eu não o
esperava em casa tão cedo, pensei que estivesse construindo a cabana no meio das
pastagens ao leste. — Para Maida, voltou-se e explicou: — Brice está construindo uma
pequena cabana nos pastos que ficam mais ao leste, assim os homens poderão cuidar do
gado com mais conforto durante o inverno.
— Mandei Cal e Avery para lá — Brice justificou-se. — Preferi ficar trabalhando
no celeiro e nos estábulos hoje, afinal, Mimosa ainda não está bem e pode precisar de
meus cuidados.
— Espero que Mimosa esteja melhor do que ontem. — Elizabeth sabia muito bem
que Brice não quisera se afastar de casa para ficar mais perto dela.
— Está sim, vai ficar boa. — Sorriu, pois sabia que Elizabeth tinha percebido que a
história não passava de uma desculpa esfarrapada. — E Mary Kate, como está hoje? Os
dentes ainda a estão deixando irritada?
— Mary Kate está bem, todos os bebês sofrem com o nascimento dos dentes. — De
repente, Elizabeth não podia mais suprimir o riso. O que Maida iria pensar?
Eles estavam rindo um para o outro como se fossem recém-casados. Embora, de
certa forma, realmente se enquadrassem nessa categoria, não era prudente agir com tal,
pelo menos não em público.

123
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Neste caso vou voltar para o celeiro e cuidar do meu trabalho. Preciso consertar
a roda da carroça que está meio torta.
— Certo, nos veremos na hora do jantar. — Elizabeth continuou a bordar, dando
ponto atrás de ponto, afinal, só assim não sucumbiria ao desejo de se atirar nos braços
fortes e deixá-lo abraçá-la. Embora quisesse muito se render ao desejo, sabia que não
poderia fazê-lo na frente de outras pessoas, mesmo que fosse uma amiga como Maida.
Portanto, limitou-se a dirigir-lhe um sorriso cheio de promessas.
Brice decifrou a mensagem corretamente, pois o sorriso que brincava nos lábios
carnudos alargou-se ainda mais. Então, num gesto de cortesia, ele ergueu levemente a
aba do chapéu branco e começou a se afastar.
Ela o observou caminhar e não pôde conter um suspiro. Brice era tão charmoso e
atraente de costas quanto de frente, seu corpo era perfeito e ele tinha uma elegância
natural, que poucos homens possuíam.
— Por que você está sorrindo dessa maneira? Se eu não os conhecesse, diria que os
dois têm um grande segredo — atalhou Maida desconfiada.
Elizabeth quase deixou o vestido que estava bordando cair no chão.
— Um segredo?! Claro que não. Que segredos nos poderíamos ter?
— Talvez Mary Kate esteja prestes a ganhar um irmãozinho...
— Não, isso não. Quero dizer, não temos segredo algum. Só estou feliz em vê-lo,
nada mais.
Maida sorriu e inclinou a cabeça para o lado de maneira sonhadora.
— Ah, espero que mesmo depois de anos de casados Edmund e e sejamos como
você e Brice. Parecem tão apaixonados um pelo outro!
— E muito fácil se apaixonar por um homem como Brice — a voz de Elizabeth
soou mais rouca do que deveria. Pigarreando, mudou de assunto: — Acho que a
manteiga já está boa, podemos acrescentar um pouco de sal.
Juntas, elas terminaram de preparar a manteiga e a colocaram na despensa que
ficava sobre o rio. Quando voltavam para casa, Maida apontou na direção da vila.
— Não é Ella Baker que está vindo para cá?
Elizabeth virou-se na direção indicada.
— Sim. O que será que deseja? Ella nunca vem me visitar a não ser que as outras
senhoras também estejam presentes.
Naquele instante, Ella Baker também as avistou e, de repente, parou onde estava.
Ao vê-las observando-a, girou nos calcanhares e retornou rapidamente para a vila.
— Que estranho! — Maida exclamou. — Assim que nos viu ela voltou para casa.
— Talvez seja só impressão nossa — Elizabeth comentou incerta. — Por que faria
isso?

124
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Não sei, não a conheço direito. Abner Baker e sua família só se uniram à
caravana no último minuto. Ella nunca foi muito simpática e nem tentou fazer amizade
com qualquer uma de nós.
— Verdade? Eu não sabia disso — Elizabeth surpreendeu-se e um arrepio de mau
agouro a percorreu de alto a baixo.
— Havia uma outra família, com tantos filhos quanto os McGivens, que deveria
vir conosco. O homem seria o professor. Estava tudo combinado, mas, no último
minuto, Abner apareceu e comprou a carroça com todos os pertences desse senhor.
Elizabeth olhou para Ella que se afastava apressadamente e depois para Maida.
— Nem eu nem Brice sabíamos disso — comentou sentindo um estranho aperto
no peito. Nunca gostara muito de Ella, embora não houvesse nenhum motivo para tal
aversão. Agora, depois do que acabara de saber, ficava ainda mais apreensiva. — Ah,
vamos colocar o resto da manteiga na despensa antes que estrague por causa do calor —
disse tentando esquecer suas preocupações.
— Sim, o calor é maravilhoso, mas nos faz perder muitos alimentos. De qualquer
forma, ainda prefiro o verão ao inverno.
— Eu também — Elizabeth concordou sorrindo. — Os primeiros meses do último
inverno foram terrível para mim. Eram longos dias. de solidão. Mal posso acreditar que
agora tenha com quem conversar.
— Ora, deve estar exagerando. Você tinha Brice — Maida frisou bem-humorada.
— Também havia os vaqueiros que, por mais calados que sejam, sempre podem lhe
fazer companhia. Cal, por exemplo, é calado mas está sempre disposto a ajudar no que
precisamos.
Elizabeth limitou-se a sorrir. Não poderia contar a Maida que o milagre Brice só
acontecera em sua vida após seu primeiro marido tê-la abandonado à própria sorte.
Mas, a esta altura dos acontecimentos, isto não importava. Todas as feridas de sua alma
haviam cicatrizado ao descobrir estar apaixonada por Brice e, mais ainda, quando
confirmara que estar nos braços musculosos era o mais perto do céu que uma mulher
poderia chegar. E era só naquele amor e em sua silenciosa promessa de felicidade que
desejava pensar dali para frente...

As coisas aconteciam rapidamente na pequena Puma Creek. Cerca de dois meses


depois, Anna McGivens chegou correndo ao rancho para avisar que sua mãe estava
tendo o bebê. O que não era de admirar, pois Harriet chegara grávida à nova cidade e os
colonos já estavam ali há meses.
Rapidamente, Elizabeth chamou Molly e juntas correram para a casa dos
McGivens.

125
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Ella Baker e Maida já estavam lá.


Harriet tentou sorrir ao vê-la, mas foi acometida por uma nova contração e seu
rosto redondo transformou-se numa máscara de dor.
Maida olhou para Elizabeth e era óbvio que estava preocupada.
— As contrações estão muito próximas umas das outras — disse a jovem sra.
Harrison, apertando as mãos nervosamente.
— Sim, estão — Ella Baker concordou. — O problema é que ainda não vejo a
cabecinha do bebê. — Era a primeira vez que Ella se dispunha a ajudar alguém no
vilarejo e, mesmo assim, só o fizera porque Abner insistira em que deveria ir.
Elizabeth a observou enquanto cuidava de Harriet e pensou que talvez a sra.
Baker não fosse tão má e perigosa quanto intuíra. Por isso, fez o que pôde para afastar
seus temores e tentou ajudá-la.
Durante horas seguidas, as mulheres trabalharam juntas para ajudarem Harriet a
dar a luz, porém, algo deveria estar muito errado, pois o bebê não nascia.
Dando um longo suspiro, Ella lavou as mãos na bacia de louça e chamou Elizabeth
para um dos cantos do quarto.
— Precisamos de ajuda — cochichou. — Algo está errado e não sei o que fazer.
Todos os partos que já assisti foram muito fáceis e rápidos. E você, teve algum problema
com o nascimento de Mary Kate? — perguntou e a fitou com grande atenção.
— Na... não — Elizabeth engasgou diante da intensidade do olhar de Ella. —
Também não faço a menor idéia do que possa estar errado com o bebê de Harriet.
Molly, que estivera ouvindo a conversa, aproximou-se da duas. Era óbvio que
estava preocupada com a mãe.
— Talvez possamos pedir ajuda no acampamento que fica a duas horas daqui — a
garota sugeriu. — Henry Wells costuma comprar no armazém de meu pai e ele contou
que sua mãe é parteira.
Há algum tempo, um outro rancheiro havia imitado o gesto de Brice e os colonos
do acampamento vizinho costumavam vir a Puma Creek para comprar no armazém de
Tavish McGivens, principalmente Henry Wells, que já pedira permissão para fazer a
corte a Molly.
— Acho que não temos outra saída — Ella disse com um suspiro.
Elizabeth assentiu de pronto.
— Molly, peça a seu pai para ir buscar a sra. Wells.
Quatro horas depois, Leona Wells estava no pequeno quarto, cuidando de Harriet
com ares de profissional.
— É justamente o que eu desconfiava, o bebê está sentado. Teremos de tentar virá-
lo, mas vou precisar de sua ajuda Harriet.

126
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Embora já estivesse praticamente sem forças, Harriet cooperou da melhor maneira


possível e, pouco tempo depois, o choro rouco de um bebê de cabelos avermelhados
ecoou pelo quarto como se fosse um grito de vitória.
— Conseguimos! — as mulheres exclamaram aliviadas.
Elizabeth, que durante todo o tempo se lembrou do que acontecera com Célia,
agradeceu aos céus por desta vez mãe e filho terem se salvado.
— É um lindo, menino, Harriet. Parabéns — disse, tocando gentilmente no braço
daquela senhora corajosa.
— Obrigada...
Mais tarde, quando ela e Maída voltavam para casa, a jovem sra. Harrison
confessou:
— Tive muito medo de que Harriet morresse.
— Eu também. Foi uma sorte Tavish ter conseguido encontrar a sra. Wells que
sabia exatamente o que fazer.
— Elizabeth, quero lhe contar uma coisa — Maida parou hesitante. — Estou
grávida. Você é a primeira pessoa a saber depois de meu Edmund.
— Oh, Maida, que maravilha! Deve estar muito feliz.
— Sim, eu estava encantada com a novidade, mas depois do que vi Harriet passar
hoje estou em pânico. — Maida colocou as mãos sobre o próprio ventre, como se
pudesse proteger o bebê que estava sendo gerado em seu corpo. — E se algo der errado
em meu parto também?
— Nada vai dar errado. Nem pense nisso! — Elizabeth a contradisse, mas as
dificuldades por que Harriet passara ainda eram muito recentes para que se sentisse tão
segura quanto desejava parecer.
— Não sei não. — Maida meneou a cabeça de um lado para outro. — Sabe,
Elizabeth, nesses meses todos acabamos nos tornando grandes amigas. Eu a considero
como a uma irmã. Se alguma coisa me acontecer, promete que criará meu filho para
mim?
Elizabeth abraçou-a com carinho.
— Tenho certeza de que não vai te acontecer nada, mas se isto a faz se sentir
melhor, então eu prometo.
— Queria ter podido soar mais convincente, mas, no fundo no fundo, sabia que,
naqueles dias, era muito mais fácil uma mulher morrer de parto do que de qualquer
outra doença. Só esperava que no futuro alguém pudesse descobrir um meio de evitar
tal calamidade, a vida não poderia existir à custa de uma morte, seria contra as leis da
natureza.

127
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

O pequeno Nial McGivens tornou-se logo o "queridinho" de toda Puma Creek,


pois além de ser o único bebê, uma vez que Mary Kate já era uma menininha de quase
dois anos, também era muito risonho e simpático como os pais. Todos diziam que
deveria ser o sangue escocês.
— Pobre Nial, nem imagina que logo vai perder seu trono — Elizabeth comentou
com Maida que viera visitá-la.
— Sim, está chegando a hora do meu bebê nascer. Aliás, você e Brice também
poderiam dar uma mãozinha para o crescimento da população local, não? Se você
ficasse grávida, seria muito melhor para mim.
— Você é engraçada, Maida. Como o fato de eu engravidar poderia ajudá-la? — O
sorriso de Elizabeth escondia um segredo. Ela tinha boas razões para acreditar que o
desejo de Maida seria atendido em breve.
— Poderíamos dar apoio moral uma a outra. E não seria de se estranhar se logo
tivesse outro bebê. As coisas por aqui estão acontecendo muito depressa. Veja Henry
Wells e Molly, por exemplo. O rapaz já começou a construir uma casa na outra margem
do rio e o casamento deve acontecer em breve.
— Tem razão — Elizabeth concordou com uma ponta de pesar. Já se acostumara a
ter Molly em casa e iria sentir sua falta. — Há uma semana Dorothy tem vindo trabalhar
com a irmã para aprender o serviço. Vai ficar no lugar de Molly após o casamento.
— Ah, é tão bonito ver um casal apaixonado. Você e Brice, por exemplo, apesar de
todos esses anos, parecem continuar tão enamorados quanto recém-casados.
— Ora, também não são tantos anos assim — Elizabeth a contradisse, feliz por seu
amor por Brice ser tão intenso, mas ao mesmo tempo triste por ter de sustentar a farsa
de um casamento que não existia. Aquela era a única sombra que pairava sobre sua
felicidade.
— Estou sempre falando a respeito de mim e de Edmund, mas você nunca me
contou como conheceu Brice — insistiu Maida.
— É uma longa história, outro dia poderemos falar sobre isso. Não quero ser rude,
mas está vindo uma tempestade por aí. Se não se apressar, vai ficar toda encharcada.
Maida não se ofendeu com suas palavras, pelo contrário.
— Sim, é melhor eu ir. Odeio ficar com o pé atolado na lama e com esta barriga
não consigo andar muito rápido.
Sorrindo, elas trocaram mais uma ou duas palavras antes que Maida finalmente
fosse embora.
Elizabeth também dispensou Molly e Dorothy mais cedo, pois sabia que as
tempestades de primavera costumavam varrer o vale com ventos fortes. Já estava quase
na hora de Brice chegar em casa e gostava muito quando estavam sozinhos.

128
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Como ela previu, a chuva logo caiu impiedosa e não parecia que iria parar tão
cedo. A medida que as hora passavam, tornava-se mais forte, como os ventos
produzindo um intenso zunido conforme varriam o vale.
Brice tinha chegado ensopado e, após o jantar, tinha se recolhido ao quarto para
esperá-la.
Elizabeth levou Mary Kate para a cama, antes de entrar no quarto que partilhavam
há vários meses. Encontrou-o observando a noite através do vidro da porta-balcão.
Os relâmpagos transformavam a paisagem verdejante de Puma Creek num
soturno quadro em preto e branco.
— É uma tempestade e tanto — Brice disse, colocando os braços em torno de seus
ombros. — Acho que a pior que já vi desde que cheguei aqui.
— Graças a Deus não estou mais naquela terrível cabana. — Elizabeth passou os
braços pela cintura de Brice. Adorava senti-lo colado a seu corpo. Ele era tão alto e forte
que tinha a sensação de que nada no mundo poderia afetá-la quando estavam assim,
unidos.
— Com uma chuva como esta você não teria ficado na cabana por muito tempo,
minha querida. O teto desabaria antes que se desse conta do que tinha acontecido.
— Ah, nem me fale. Ainda bem que estou aqui. Amo este lugar, Brice. Não passa
um único dia sem que eu de graças aos céus por você ter me trazido para cá.
Ele sorriu com ternura.
— O mesmo acontece comigo, meu amor. Você tornou esta casa um verdadeiro lar
para mim. — Inclinou-se e beijou-a nos lábios. — Eu te amo, Elizabeth.
— Eu também te amo, Brice Graham. — As palavras eram tão simples, mas ainda
assim era tudo o que precisavam para dar significado a suas vidas.
Brice a abraçou mais apertado quando um trovão ecoou pelo casa.
— Algum dia vou querer fazer amor lá fora, na chuva — ele disse provocante. —
Deve ser uma aventura deliciosa.
— Claro, deliciosa e chocante, especialmente se um raio nos atingir em cheio —
gracejou Elizabeth.
— Tem razão, talvez seja melhor ficarmos por aqui mesmo e nos contentarmos em
ver tudo pela janela.
Elizabeth sorriu e começou a desabotoar a camisa de flanela que ele usava.
— Ah, você desistiu muito depressa. Não é de seu feito fazer isso — alfinetou-o. —
Imagino que ainda ouvirei outras propostas deste tipo quando o verão chegar.
— Quem sabe, mas para o verão tenho uma idéia melhor. Lembra-se daquele
lugar perto do rio, onde nos amamos pela primeira vez? Poderemos voltar lá no verão.
— Não sei não — Elizabeth disse, encarando-o com um brilho intenso no olhar. —

129
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Talvez só possamos fazer isso no verão do ano que vem e não neste.
Brice a beijou.
— Ei, espere aí. Vamos ter um ótimo verão este ano. Por que esperar tanto?
— Porque vou estar muito ocupada este ano, sr. Graham.
Ele riu enquanto tirava os grampos dos cabelos escuros e deixava-os cair
reluzentes sobre os ombros delgados.
— Puxa, eu não sabia que a senhora tinha uma vida social tão agitada. O que
pretende fazer durante esse verão?
— Simples, vou dar à luz o nosso filho, meu amor.
Brice a fitou boquiaberto durante um longo tempo, só depois conseguiu falar:
— Nosso filho?! Vamos ter um bebê!? Você e eu!?
Ela assentiu.
— Não fique tão espantado. Certamente, nos últimos meses não perdemos uma
única oportunidade para gerar um filho, não é mesmo?
Ele colocou as mãos sobre o ventre ainda plano.
— Obrigado por me fazer tão feliz, querida. Eu te amo, te amo muito —
murmurou, emocionado. — Nem pode imaginar o quanto.
— Também te amo, Brice. — Ela o beijou apaixonadamente e, naquela noite,
fizeram amor com ternura ao som da tempestade que caía sobre o vale.
Elizabeth se entregou a Brice sem reservas, e ele lhe deu todo o prazer do mundo,
somado a um amor imenso e incondicional que prometia ser eterno. Mais do que nunca,
tiveram a certeza de que eram feitos um para o outro e agradeceram aos céus e... as
terras de Oklahoma por terem se conhecido quando tudo parecia perdido. Só agora
entendiam que os sofrimentos por que passaram não eram o fim, mas o começo...

CAPÍTULO XI

S entindo-se mais feliz do que nunca, Elizabeth cruzou os braços na altura do


peito e apreciou a brisa suave que soprava na varanda da frente.
Brice estava a seu lado e Mary Kate brincava no jardim, correndo e tentando, em
vão, capturar as borboletas que pousavam sobre as flores de abril. Encantada, a menina
apontou para uma pequena borboleta amarela e branca e gritou:
— Linda!
Elizabeth sorriu e concordou.

130
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Desde que começou a falar Mary Kate nunca mais parou — disse, voltando-se
para Brice. — Sempre ouço ela e Dorothy conversando animadamente. Claro que
grande parte das palavras que diz são pura invenção, mas isso não a intimida. Mary
Kate adora falar. É muito bem-humorada e sociável.
Brice observou a filha com um misto de carinho e indulgência.
— Mary Kate é como uma borboleta. Salta de flor em flor e seus cachinhos
dourados são tão impressionantes quanto o colorido de suas amigas de asas.
— Sim, ela é linda. — Elizabeth tocou o ventre protuberante. — Fico me
perguntando se o bebê que está a caminho também será assim.
— Claro que será! Como poderia não ser lindo tendo você como mãe?!
— E você como pai — ela replicou com um sorriso. — É um homem muito bonito,
Brice Graham.
Ele tocou-lhe a mão com carinho.
— Eu deveria passar mais tempo em casa para ouvir coisas como estas... Adoro
ficar na varanda com você e Mary Kate.
— Também adoro. Sabe, estive pensando e acho que deveríamos escolher um
nome para o bebê.
— Tem razão. Isso já me passou pela cabeça, mas não consigo encontrar um que
me agrade. — Ele franziu o cenho parecendo estar se concentrando na lista de nomes
que tinha em mente. — Desta vez não quero nomes que de família e também não desejo
um que depois será abreviado para se transformar em algum apelido idiota. Gostaria de
algo diferente.
— Eu também. Só não consegui encontrar um que me agrade o bastante. Não acha
que dá azar escolher o nome do bebê antes de ele nascer, acha?
— Não. Mas, pelo jeito, se continuarmos nesse compasso de indecisão, só vamos
escolher o nome de nosso filho quando ele estiver freqüentando a escola — Brice
gracejou.
Elizabeth riu.
— Acho que vamos encontrar alguma coisa que nos agrade antes disso, meu caro.
Maida, por exemplo, gosta de nomes que vê em romances e diz que vai escolher um
desses para seu filho. Contudo, não quis me dizer o que exatamente tem em mente. Está
fazendo o maior segredo.
— Não vai demorar muito para o bebê dela nascer. Edmund está nervoso como
um cavalo selvagem que é selado pela primeira vez. Espero, pelo bem dele, que o bebê
nasça enquanto o pai estiver trabalhando no campo e que tudo termine bem antes de
Edmund sequer ter tempo de se preocupar.
— Também espero — Elizabeth riu e o bebê chutou em sua barriga, fazendo-a

131
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

estremecer. Como sempre, a sensação a deixou extasiada, e, passando a mão


carinhosamente sobre o ventre, sugeriu: — O nosso é um bebê muito forte, sinta aqui.
Brice colocou a mão sobre a barriga enorme e sorriu ao sentir o pezinho que se
revelava sob a pele da mãe. Estava adorando viver cada minuto da gravidez de
Elizabeth, pois tomava parte em tudo o que acontecia.
Ela era muito diferente de Célia, que o mantivera a distância durante todo o tempo.
— Ah, estou sentindo. Estou sentindo! — exclamou entusiasmado. — Obrigado,
por me deixar compartilhar desse momento, meu amor.
— Não tem por que me agradecer, querido. Você merece, é um marido
maravilhoso e um ótimo pai — disse com suavidade.
— Nunca antes se referiu a mim como seu marido. Adorei ouvir isso agora.
Elizabeth tocou-o de leve no rosto.
— Mas de agora em diante vou dizer sempre. Eu te amo, Brice, e não me importo
se não estejamos legalmente casados, em meu coração, será sempre meu "marido" e é
isto que importa.
— Você está certa. Somos muito felizes juntos. A única sombra nessa felicidade é a
possibilidade de Robert estar vivo.
— Não acredito que esteja, se estivesse, já teria voltado para cá. Os fios de cabelos
devem ter ficado avermelhados por causa do frio intenso que o congelou.
— Também penso assim, por isso, quando estiver pronta para se casar comigo
oficialmente, iremos para Glory e falaremos com um vigário que é meu amigo. Tudo
será muito rápido.
— Sim, meu amor — Elizabeth concordou, sorrindo para o homem que lhe
ensinara que amar valia a pena. — Faremos isso assim que passarem as chuvas de
primavera.

Dias depois, assim que Brice saiu para marcar o gado, o jovem Brian McGivens,
um dos muitos filhos de Harriet, trouxe-lhe a notícia de que Maida havia entrado em
trabalho de parto.
Elizabeth deixou Dorothy cuidando de Mary Kate e foi até a pequena Puma Creek
para dar apoio à amiga.
Na varanda da casa de Maida, fez uma pausa para limpar os pés, cobertos de lama
por causa da chuva que caíra na noite anterior. Dali podia ver as duas casas recém-
construídas na outra margem do riacho e alegrou-se que a vila estivesse crescendo
rápido e atraindo novos moradores. Logo depois de Henry ter se casado com Molly, os
pais do rapaz também tinham vindo para Puma Creek e construíram uma casa ao lado
da do filho e nora.

132
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Enquanto Elizabeth observava as novas construções, Leona Wells cruzou a


pequena ponte de madeira. Ela não parecia estar apressada. Todos agora a
consideravam como a parteira oficial da cidade e isto lhe conferia um certo prestígio.
A parteira acenou ao avistá-la e Elizabeth retribuiu o cumprimento, porém, em
vez de esperar por Leona, entrou na casa que lhe era tão familiar quanto a sua própria.
Maida, em sua camisola de algodão branco, andava de um lado para outro da sala.
Sorriu ao avistar Elizabeth, mas seu rosto estava pálido de medo.
— Onde está Ella? — Elizabeth perguntou ao ver que o bebê de Harriet estava
num caixote perto da porta e que não havia ninguém ali â não ser a sra. McGivens.
— Ela disse que não podia vir — Harriet respondeu. — E eu estava contando que
estivesse aqui para cuidar de meu bebê, enquanto ajudo Leona a fazer o parto.
A conversa foi interrompida por um gemido de Maida. Era mais uma contração.
Quando passou, a futura mamãe contou:
— Até agora as dores não foram tão fortes quanto imaginei que seriam. Leona
disse para eu continuar andando o máximo que agüentar. Falou que assim o bebê nasce
mais depressa.
— Que desculpa Ella deu para não vir? — Elizabeth perguntou, quando estendeu
o braço para a amiga se apoiar e passou a caminhar com ela pela sala.
— Disse que estava ocupada demais. — O tom de escárnio de Harriet deixava bem
claro o que pensava sobre o assunto.
— E Edmund, onde está? — insistiu Elizabeth.
— Teve de ir à cidade ontem. Não creio que chegará antes dessa tarde. — Maida
agarrou-se à mão de Elizabeth até que a contração passasse. — Gostaria que houvesse
alguma maneira de dizer a ele para se apressar. Mas também, eu não deveria ter entrado
em trabalho de parto tão cedo!
— Ah, não se preocupe, você ficará bem, mesmo seu marido estando longe —
Harriet a consolou. — Nessas horas os homens não podem nos ajudar e, às vezes, até
atrapalham. E quanto a ser cedo para o bebê nascer, talvez você tenha se enganado em
suas contas. Foi o que aconteceu comigo quando tive meu segundo filho.
— Pode ser, mas eu sempre me sinto muito mais segura quando Edmund está por
perto.
Elizabeth olhou para a porta e viu Leona entrar.
— Ah, você está andando como eu aconselhei. Isso é bom! — A parteira colocou
uma sacola em cima da mesa. Tinha vindo preparada para o caso de o parto demorar
mais do que o previsto. Era uma pessoa ativa e prática e isto fazia com que todos
confiassem nela.
— É assim que os índios fazem e eles não tem muitos problemas com o nascimento

133
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

de seus rebentos.
— Onde você aprendeu a fazer partos à maneira dos índios? — Harriet indagou
curiosa.
— Minha prima, Amélia, foi capturada pelos índios quando era garota. Só a
tivemos de volta há poucos anos. Ela me contou coisas que iriam deixá-las de cabelos
em pé.
— Posso até imaginar — Harriet comentou com um suspiro.
De repente, Maida parou de andar e curvou-se segurando o baixo ventre. Ela teria
caído se Elizabeth e Harriet não estivessem lá para segurá-la.
— Esta foi a pior de todas — disse quando finalmente conseguiu falar.
— Bom! Significa que o bebê não vai demorar muito a chegar. — Seguiu-se uma
nova contração e Leona colocou a mão sobre a barriga de Maida, então olhou para o teto
como se estivesse profundamente concentrada. Após alguns instantes, anunciou: — Já
está na hora de ir para a cama. As dores estão mais próximas agora e não quero vê-la
cair.
Maida obedeceu e assim que estava devidamente acomodada segurou as mãos de
Elizabeth.
— Estou apavorada — sussurrou. — Lembre-se da promessa que me fez.
— Eu lembro, mas nada irá acontecer a você.
Leona ergueu uma das extremidades do lençol que Harriet havia colocado sobre a
cama e assentiu.
— A sra. Graham tem razão. Não há nada a temer, Maida. O bebê está coroando, o
que significa que a cabecinha já começou a aparecer.
— Já?! — Maida cerrou os dentes quando uma nova contração a assolou.
Harriet trouxe-lhe uma toalha limpa para morder, pois assim não corria o risco de
quebrar os dentes.
Seguiu-se uma hesitante batida na porta e Dorcas Sanders entrou na casa.
— Posso ajudar de alguma maneira? Imaginei que o bebê estivesse nascendo
quando vi todas vocês vindo para cá.
— Nós não sabíamos se gostaria de vir, sra. Sanders, por isso não a chamamos.
Mas este aqui vai nascer bem depressa — Leona disse à medida qúe colocava Maida
numa posição mais prática para o parto.
Dorcas foi até a cama.
— Não se preocupe com seu jantar. Farei o suficiente para trazer para você e
Edmund, também rezarei para que Deus abençoe todos em sua casa, principalmente
o bebê.
— Obrigada — Maida agradeceu e tentou sorrir. Segundos depois, apertou as

134
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

mãos de Elizabeth enquanto seu corpo lutava para trazer um novo ser ao mundo.
Não havia mais intervalo entre as contrações, elas aconteciam uma atrás da outra e
desta vez ela gritou alto.
— Empurre! — Leona ordenou. — Faça força! Força!
Maida obedeceu e reuniu suas forças pois sabia que era dali que viria o sopro de
vida de que seu filho precisava.
Alguns minutos depois, Elizabeth assistiu maravilhada quando Leona pegou o
frágil bebê nos braços e ergueu-o como um troféu, um troféu de vida.
— Você tem uma linda menininha, minha cara. Ela é realmente linda! — a parteira
anunciou, ao mesmo tempo que o bebê chorava a plenos pulmões. — Veja só isso! Ela já
sabe gritar.
As outras mulheres sorriram ao ver que o bebê estava bem, pois, do contrário, não
choraria tão alto.
— Aposto que quando esta senhorita chorar à noite vamos ouvi-la de nossas casas.
Você não conseguirá dormir se sua filha resolver chorar assim sempre, Maida —
brincou a parteira.
— Ora, vamos, ela é uma linda senhorita e aprenderá a se comportar — Harriet
disse em defesa da recém-nascida.
Leona deu o bebê para Elizabeth lavar e limpar e ela estremeceu, pois nunca antes
tinha segurado algo tão pequeno e delicado. As mãozinhas eram minúsculas e o rosto,
embora congestionado por causa do choro, tinha traços lindos.
— Maida, espere só até vê-la. Ela tem cabelos vermelhos como os seus — Elizabeth
contou deliciada.
— Deixe-me vê-la! — Maida tentou se levantar da cama, mas Leona a fez deitar-se
outra vez.
— A senhora deve ficar exatamente onde está. Não deverá se levantar da cama nos
próximos dois dias.
Elizabeth enrolou o bebê num cobertor macio e carregou-o até a mãe que esperava
de braços abertos.
— Oh, céus, ela tem cabelos vermelhos, mesmo! — exclamou Maida emocionada.
— E olhe só para estes dedinhos. Como são pequenos!
— São pequenos mas estão todos aí — Leona comentou sorrindo. — Já contei.
Dorcas inclinou-se e olhou para a criança com grande atenção. Por um instante, a
expressão do rosto sisudo suavizou-se e ela quase pareceu bonita e jovem outra vez.
Elizabeth se perguntou se o fato de não ter tido filhos seria uma das causas da
amargura daquela mulher. No entanto, era difícil imaginar Dorcas enterne-cendo-se e
dando carinho de mãe a uma criança.

135
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Maida estava chorando de felicidade quando voltou a olhar para a amiga.


— E pensar que eu estava com medo do parto!
Elizabeth sorriu aliviada ao ver que Maida já tinha superado as dores e o
desconforto. Talvez ter um bebê não fosse tão ruim e difícil quanto parecia à primeira
vista. Mais uma vez desejou poder confiar em alguém a ponto de perguntar exatamente
como seria.
— Como vai chamá-la?
— Escolhemos Malia Elizabeth Harrison. — Ela sorriu para Elizabeth. — E,
lembre-se, você será a madrinha, quer irmão Amos proclame isso oficial ou não.
— Vou me lembrar. — Elizabeth acariciou os cabelos vermelhos do bebê. —
Nunca antes um bebê recebeu meu nome — completou à beira das lágrimas.
— Vamos chamá-la de Malia para não haver confusão quando precisarmos dizer o
nome de uma de vocês duas — Maida explicou. — Talvez você tenha outra garota e
nossas filhas poderão ser grandes amigas.
— Ou, se for um menino — Harriet sugeriu —, ele e meu Nial poderão brigar para
ver quem ganha o amor da jovem srta. Harrison quando estiverem em idade de casar.
As mulheres riram. Embora as crianças em questão estivessem a anos de distância
de tais acontecimento, era reconfortante pensar que a nova geração de habitantes de
Puma Creek já estava nascendo e junto com eles a esperança de que a cidade floresceria
no território de Oklahoma, bem no coração do Oeste.

Ella Baker sabia que Maida estava tendo o bebê e que Elizabeth, com toda certeza,
estaria ao lado da amiga.
— Você já preparou tudo? — Abner perguntou, olhando para a esposa com o
cenho franzido. Era óbvio que não estava satisfeito.
— Sim, está tudo na carroça. Coloque um encerrado em cima das coisas para que
não percebam que estamos partindo. Faça isso no celeiro.
— Sei exatamente o que fazer — ele replicou. — Não sou o tolo que imagina —
completou irritado. — Tenho amigos aqui. Detesto ter de partir.
— Eu bem que lhe disse para não se apegar a essa gente. Sabíamos que não
poderíamos permanecer aqui por muito tempo.
— Mas estamos em Puma Creek há meses! Pensei que tivesse mudado de idéia e
que poderíamos continuar a cuidar de nossas vidas neste lugar que está desabrochando
como uma flor na primavera. Poderíamos ter uma velhice tranqüila nesse vale, mulher.
— Você é mesmo um bobo, Abner. Prometi a prima Lorna que faria isso e não vou
faltar com minha palavra. Lamento que tenha demorado tanto para acontecer, mas eles
olham a menina durante todo o tempo! Só hoje tive oportunidade de colocar meu plano

136
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

em ação.
— Dorothy estará com Mary Kate agora. Não a entregará a você com tanta
facilidade.
— Sei disso — Ella rebateu. — Mas nem Brice nem Elizabeth estarão lá. Tudo o
que tenho de fazer é dizer que Elizabeth me mandou buscar Mary Kate e Dorothy me
entregará a menina sem problemas. Cuide apenas de estar pronto para partir assim que
eu voltar.
Abner franziu o cenho, mas assentiu de qualquer maneira.
Ella sabia que o marido faria o que dissesse. Sua prima, Lorna Lannigan, os pagara
muito bem para roubarem Mary Kate e levá-la até Saxon, onde seria criada pelos avós.
Determinada, Ella enrolou o xale de crochê em torno dos ombros e saiu de casa.
Sim, o xale era enorme e seria grande o suficiente para esconder Maiy Kate enquanto
passasse pelo vilarejo. Todos os homens estavam trabalhando e as mulheres haviam
seguido para a casa de Maida por causa do nascimento do bebê.
Tinha demorado muito para conseguir o que queria, mas agora a ocasião era mais
que perfeita.
Elizabeth pegou a xícara de café que Harriet lhe entregou e bebeu-a
cuidadosamente.
Harriet era conhecida por fazer o café mais forte do vilarejo e o líquido fumegante
que lhe serviu só vinha a comprovar a fama.
— Você viu como ela é cabeluda? Céus, ela e meu Nial formariam um par e tanto
com seus cabelos vermelhos!
Elizabeth sorriu e concordou.
— Sim, do jeito que as coisas vão parece que teremos uma cidade cheia de criança
ruivas.
Leona meneou a cabeça discordando.
— Não espero que seu bebê seja ruivo, Elizabeth. Você tem cabelos quase pretos e
Brice castanho.
— Sim, mas olhe para a pequena Mary Kate — Harriet interveio na conversa. —
Ela tem os cabelos tão dourados quanto os lírios do campo. Nunca se pode dizer com
certeza como as crianças irão nascer.
Elizabeth sorriu e tentou mudar o rumo da conversa.
— Ah, tudo o que sei é que não vejo a hora de o meu bebê nascer. Já estou me
cansando com muita facilidade.
— Será um menino — Leona previu. — Olhe só como sua barriga está baixa.
— Não sei, não — Harriet voltou a se manifestar. — Minha barriga ficava mais
baixa quando esperava meninas do que meninos.

137
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Durante algum tempo, as senhoras discutiram qual a melhor maneira de se


descobrir se um bebê seria menino ou menina. Então, Elizabeth foi até a cama de Maida.
— Sua filha é uma criança linda — elogiou com sinceridade.
— Obrigada. Acho que Edmund ficará muito surpreso quando chegar em casa e
descobrir que já é pai.
— Por acaso ele estava querendo um menino?
Maida negou com um movimento de cabeça.
— Não creio que Edmund se importe com o sexo do bebê. Planejamos ter uma
família bem grande e, portanto, teremos outras chances de ter um filho.
— Como pode dizer isso logo depois de ter dado a luz?
— Ora, não foi tão ruim quanto eu imaginava que seria. Bem que você disse para
não me preocupar.
— Quer dizer que não sentiu muitas dores? — aproveitou para matar a própria
curiosidade.
— Senti algumas, mas quando peguei Malia em meus braços vi que o sacrifício
valia a pena. — Maida não conseguia tirar os olhos da filha. — Veja só estas mãozinhas.
E as unhas, então, como são perfeitas e pequeninas!
Elizabeth inclinou-se sobre Maida e também regozijou-se diante do milagre da
vida. Quando finalmente se dirigiu para casa, o sol começava a baixar no horizonte. Ela
sorriu ao apreciar os matizes de rosa e amarelo criados pelas flores silvestres que se
espalhavam ao longo do caminho. Parecia ser a época do ano perfeita para um bebê vir
ao mundo. Tudo era fresco e novo, a brisa suave que beijava a paisagem do vale de
Puma Creek era ainda mais adorável.
Estava quase chegando ao pátio do rancho quando avistou Dorothy na varanda.
Mas Mary Kate não estava com ela.
— Onde está Mary Kate? — Dorothy foi a primeira a perguntar.
— O que está dizendo? Deixei-a com você. — Um medo colossal começou a
crescer dentro de Elizabeth.
— A sra. Baker veio buscá-la. Disse que você mandou pegar Mary Kate porque o
trabalho de parto da sra. Harrison iria demorar muito. — A garota apertava as mãos e
mordia o lábio nervosamente. — Não queria deixá-la ir, mas dona Ella insistiu que fora
uma ordem sua.
Elizabeth a encarou perplexa.
— Não vi Ella o dia todo. Maida teve um parto muito rápido e fácil. Foi uma
menina.
— Por que, então, a sra. Baker mentiria para mim? O que ela poderia querer com
Mary Kate?

138
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth voltou-se na direção do vilarejo e estremeceu. Podia ver uma carroça


partindo em direção a Glory e, a julgar pelos animais que a puxavam, podia jurar que
era a dos Baker. Ao mesmo tempo, viu uma enorme fumaça acinzentada subindo do
teto da igreja.
— Vá chamar Brice e os homens agora mesmo! — gritou para Dorothy, antes de
agarrar a saia e começar a correr de volta à cidade.

Henry Wells estava descarregando a carroça diante do armazém quando o alarme


de incêndio começou a tocar. Ao se voltar para a rua, viu Elizabeth Graham correndo
em sua direção. Ela estava com as faces congestionadas por causa do esforço e era óbvio
que respirava com dificuldade.
— A senhora não deveria estar correndo no estado em que se encontra! O que está
pegando fogo? Sua casa?
A esta altura, Elizabeth já havia subido na carroça do rapaz e, sem pedir
permissão, soltou o freio e incitou os animais a partirem a toda velocidade.
Henry a fitou boquiaberto, mas não teve tempo de fazer nada para impedi-la.
Elizabeth nem notou. Finalmente, havia se dado conta de quem Ella Baker lhe
lembrava. Ela se parecia muito com Célia e era o retrato perfeito do que Lorna Lannigan
deveria ter sido quando jovem e mais magra. Agora não lhe restava a menor dúvida de
que Ella estava roubando Mary Kate.
Muitos gritos ecoaram atrás dela enquanto os homens corriam para salvar a igreja
que começava a ser consumida pelas chamas.
Num repente de loucura, Elizabeth fez com que os cavalos passassem a se mover a
uma velocidade perigosa demais para o tipo de terreno acidentado por onde passavam.
Porém, tinha de deter Ella a qualquer custo e recuperar Mary Kate.
A carroça dos Baker estava muito pesada e, embora Abner tivesse feito seus
animais correrem muito, Elizabeth conseguiu alcançá-los e colocou-se diante deles,
impedindo-os de prosseguir. Com uma coragem que não sabia possuir, segurou as
rédeas dos animais e ordenou com firmeza:
— Devolvam minha filha!
— Fique longe de nosso caminho! — Abner a ameaçou. — Deixe-nos passar.
— Só depois de me entregarem a menina.
— Passe por cima dela, Abner! — Ella gritou enfurecida.
— Não posso fazer isso — o professor retrucou perplexo. — Além de ser mulher
ela ainda está grávida.
— Mary Kate não é sua filha! — Ella exclamou num tom cortante.
A esta altura, Mary Kate estava aterrorizada e seu choro podia ser ouvido a

139
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

distância.
— Célia era a mãe dela e vou levá-la para a prima Lorna que é quem deverá criá-
la.
— Você não vai levar minha filha para lugar nenhum! — Elizabeth vociferou com
determinação.
— Atire nessa mulher, Abner! Temos de sair daqui o mais rápido possível!
— Não posso atirar em uma mulher! — Ele engoliu em seco enquanto olhava
aturdido para a esposa. — Ninguém deveria sair ferido desta história. Aliás, eu nunca
concordei com isso.
— Entregue-me Mary Kate, Ella — Elizabeth insistiu.
Ella ouviu os gritos da menina e olhou sobre os ombros para o interior da carroça.
— Se tentar tomá-la de mim eu mato a menina. Lorna deixou claro que ela não
deveria ficar com você em hipótese alguma.
— Lorna nunca quis que você a matasse! — Abner empertigou-se. — Enlouqueceu
de vez, mulher!?
Foi naquele instante que Elizabeth percebeu que Brice cavalgava em disparada
para alcançá-los. Sabia que tinha de fazer o possível e o impossível para evitar que os
Baker também o vissem. Por sorte, o choro agoniado de Mary Kate abafava o som dos
cascos do cavalo baio.
— Por favor, não a machuquem. Mary Kate é só um bebê — suplicou, tentando
ganhar tempo.
— Célia morreu por culpa de Brice! — Ella estava soluçando. — Nós éramos como
irmãs. Mesmo depois que me casei com Abner e me mudei para longe de Saxon,
trocávamos cartas com freqüência. Brice a tratava muito mal. Ele não é um homem, é
um monstro. Matou minha prima obrigando-a a viver aqui. Uma mulher tão delicada
como ela! Célia morreu por culpa de Bri...
A frase ficou pela metade.
Brice, montado no cavalo baio, aproximou-se da carroça e tirou Mary Kate dos
braços de Darcy. Ele a salvou como um príncipe que resgata sua princesa das mãos do
inimigo. Mas não era assim mesmo que sempre se referia à filha, como sua princesinha!?
Elizabeth teve medo que Brice deixasse a menina cair, mas ele a segurou com
firmeza enquanto sussurrava palavras ternas e reconfortantes.
Ao ver Mary Kate em segurança nos braços do pai, Elizabeth soltou as rédeas dos
animais dos Baker.
— Podem partir agora. E, se fosse vocês, iria embora antes que os outros
descobrissem que tentaram roubar Mary Kate de nós.
— Ah, vou fazê-la pagar por isso! — Ella gritou num acesso de fúria. — Sua sem-

140
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

vergonha! Roubou tudo o que era de minha prima!


Abner dirigiu um olhar desgostoso para a esposa.
— Cale a boca, Ella! De agora em diante sou eu quem direi o que vamos ou não
fazer — impôs-se pela primeira vez, antes de pegar as rédeas e incitar os animais a
correrem para bem longe de Puma Creek.
Brice, que até então estivera tentando reconfortar a filha, entregou Mary Kate nos
braços de Elizabeth e preparou-se para segui-los.
— Vou atrás deles!
— Não, não vá! — Elizabeth abraçou Mary Kate e beijou-a na testa. — Mary Kate
não está ferida e tenho certeza de que Abner irá obrigar Ella a ir para bem longe daqui e
nunca mais aparecer.
— Tem certeza de que Mary Kate não está ferida?
— Só está assustada. Deixe-os ir, nunca mais quero vê-los.
— Mas eu deveria mandá-los para a prisão em Glory! — protestou Brice.
— Assim você os deixaria muito perto de nossa família. Mas, se forem embora,
Abner finalmente dará um jeito em Ella, disto estou certa. — Um longo suspiro escapou
de seus lábios. — E, quer saber do que mais, está na hora de arrumarmos nossas vidas.
Não tenho mais dúvida de que Robert está morto mesmo, podemos nos casar quando
você quiser. Já basta de mentiras.
Brice franziu o cenho.
— O que a fez tomar essa decisão tão repentina? Pensei que desejasse esperar que
as chuvas de primavera passassem.
— Só de pensar que poderia perder Mary Kate ou a felicidade que nós três, como
família, temos juntos, fiquei enlouquecida. Percebi que não fazia mais sentido adiar. Eu
amo vocês, Brice. Não posso viver sem nenhum dos dois!
— E nem eu sem você, minha querida. Nunca pensei que pudesse ser tão feliz! —
Brice confessou com um sorriso e aproximou-se para abraçar sua família. Sim, em seus
braços estavam não só a mulher de sua vida como também seus dois filhos: Mary Kate e
o bebê que deveria nascer em breve. E, provavelmente, ainda haveria muitos outros por
vir...

Quando eles retornaram à vila de Puma Creek, o fogo na igreja já havia sido
apagado e todos falavam sobre o que teria dado início ao incêndio.
Elizabeth sabia que só poderia ter sido Ella ou Abner que havia colocado fogo ali,
pois assim os moradores estariam tão ocupados tentando salvar a igreja que nem
notariam que estavam partindo com Mary Kate, mas ainda não era hora de falar. Quem
sabe um outro dia.

141
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Um forte arrepio a percorreu diante de tal percepção e ela apertou a menina contra
si enquanto seguiam direto para o rancho na encosta da colina. Aquela era sua casa, o
lugar onde se sentia protegida e amada e era lá que gostaria de estar agora e para
sempre. No fundo, no fundo, Ella Baker lhe fizera um grande favor, mostrara que estava
na hora de assumir o que era seu por direito, o papel de mulher, esposa e mãe na vida
de um adorável cowboy.

EPÍLOGO

N o dia seguinte, todos em Puma Creek já haviam juntado as peças do quebra-


cabeça formado pelo sumiço dos Baker e o fogo na inesperado na igreja.
Ao voltar da casa de Maida, Dorcas tinha decidido rezar para agradecer por mãe e
filha estarem bem depois do parto antecipado e acabou vendo Abner fugir apressado da
igreja.
Tavish também saíra na frente de ser armazém geral e avistara os cachos loiros de
Mary Kate esgueirando-se por sob o xale enorme de Ella Baker. Aliás, foi justamente por
isso que todos no vilarejo, com exceção de Maida, seguiram para o rancho. Queriam
saber por que os Baker tinham tentado roubar a menina.
Brice estava preparado para lhes dar uma explicação convincente, mas Elizabeth
não agüentava mais viver na mentira. Assim, segurando a mão dele, saiu na varanda da
frente e encarou os colonos de cabeça erguida.
— Meu nome é Elizabeth Parkins — começou dizendo. — Sou viúva e Brice
também. Ele foi casado com Célia Lannigan, que era prima de Ella. Quando Célia
morreu durante o parto eu vim para o rancho a fim de cuidar de Mary Kate e da casa.
Acabamos nos apaixonando. — Olhou para o rosto anguloso a procura de apoio e o
amor que divisou no fundo das íris castanhas lhe deu forças para prosseguir.
— Por que não nos contaram tudo isso desde o começo? — Tavish quis saber.
Ela respirou fundo e confessou: — Porque não somos casados de verdade.
Um murmúrio espalhou-se por entre a pequena multidão aglomerada na frente do
rancho e Brice segurou a mão de Elizabeth de maneira protetora. Ele mesmo decidiu
terminar a história:
— Quando decidimos nos casar, vocês já estavam aqui. O problema foi que, desde
o começo, presumiram que fôssemos marido e mulher e ficamos com medo de contar a
verdade. Temíamos que fossem embora, enterrando para sempre o sonho de construir

142
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

uma cidade no vale.


— Vocês não podem continuar a viver em pecado! — o pastor Amos vociferou,
parecendo tão aturdido como se tivesse acabado de levar um coice de um cavalo
selvagem.
Dorcas aproximou-se e sugeriu:
— Então você pode casá-los. Isto consertaria tudo.
— Não, não consertaria! — Amos empertigou-se. — Este é um dos piores pecados
que já vi. Estão vivendo juntos sem as bênçãos de Deus e da igreja. Como se não
bastasse, ela ainda está esperando um filho!
— Não pode se recusar a casá-los! — Tavish McGivens interveio. — Eles nos
deram terras e também nos ajudaram a construir nossas casas. Este lugar pertence a eles.
Os demais concordaram com um murmúrio de aprovação.
— Case-os, Amos — Dorcas repetiu. — Nossa religião é baseada no perdão e na
ajuda mútua.
Amos deu a impressão de que pretendia discutir a questão, mas logo percebeu
que não seria sensato fazê-lo.
— Reconheço que poderia muito bem casá-los.
Elizabeth olhou esperançosa para Brice.
— O que acha? — Sabia muito bem o quanto ele se irritava com o radicalismo de
Amos Sanders. Talvez não quisesse se casar sob as bênçãos de um pastor que, a seu ver,
tinha muitos defeitos, entre os quais a soberba.
Mas, para surpresa dela, Brice sorriu-lhe com ternura.
— Não precisa nem perguntar. Espere só um minuto. — Ele entrou na casa.
Elizabeth sentiu-se envergonhada de ficar sozinha para encarar os colonos, pois
agora sabiam de todos os seus segredos. Contudo, não divisou recriminação nos olhos
de nenhum deles, a não ser no de Amos, é claro.
— Acho que está na hora de todos recomeçarmos — Dorcas disse calmamente
para o marido. — Ontem eu assisti ao nascimento de um bebê, o primeiro em toda
minha vida. Agora Brice e Elizabeth também poderão começar uma nova fase com as
bênçãos do Senhor. Quero que o mesmo aconteça conosco, Amos. Vamos começar de
novo. Desta vez de uma forma mais amena e terna, por favor.
— Do que é que você está falando, irmã Dorcas? — ele perguntou num tom
exasperado.
— Pense um pouco, Amos. Estou certa de que vai entender o que quero dizer. —
Ela sorriu e quase pareceu bonita ao fazê-lo.
Amos a encarou perplexo.
Foi naquele exato momento que Brice retornou.

143
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

— Estamos prontos se você estiver, Amos. — Colocou o braço em torno de


Elizabeth e juntos seguiram até o pastor. Pararam a poucos metros dele e esperaram que
lhes desse a bênção da igreja.
Elizabeth tirou a aliança que Robert havia lhe dado quando se casaram e jogou-a
bem longe no quintal, como se quisesse deixar o passado, definitivamente, para trás.
— Caros irmãos, estamos aqui reunidos... — Amos começou, sabendo que não
teria outra alternativa a não ser abençoá-los.
Elizabeth e Brice fizeram seus votos de amor eterno sob a sombra de um choupo
enquanto tordos azuis se encarregavam de cantar sua melodia inconfundível, num
improviso para a marcha nupcial. Assim que Amos os declarou marido e mulher, Brice
colocou a mão no bolso do colete e, pegando um anel, colocou-o no dedo que até então
usara a aliança de Robert.
Era uma jóia muito bonita, em ouro amarelo com filetes de prata. Elizabeth o fitou
com ar de surpresa.
— Foi o anel de casamento de minha mãe — Brice explicou logo. — Posso lhe
comprar outro quando formos a Glory, mas por enquanto esse terá de servir.
— Não, não quero outro, este está perfeito. Como tudo o mais por aqui, senhor
meu marido — comentou, e todos os presentes aplaudiram a cena com entusiasmo.
Até mesmo Mary Kate, que brincava no jardim, voltou-se para eles com um largo
sorriso. Agora era oficial, Brice e Elizabeth Graham eram mesmo marido e mulher, dois
corações que haviam se unido no Oeste.

O outono chegou cedo naquele ano. Elizabeth ficou feliz por se livrar do calor
excessivo que fizera no verão.
— Nunca imaginei que ficaria tão ansiosa para chegar o inverno — ela disse à
Maida quando estavam sentadas na varanda, observando as crianças brincarem sob os
tênues raios de sol do final de tarde.
— Nem eu. Olhe aqueles dois. Não formam uma dupla e tanto?
Elizabeth sorriu ao olhar para o acolchoado que havia sobre a grama e ver a
pequena Malia tocar em Court, que estava brincando com os próprios pés.
— Ele parece mais e mais com Brice a cada dia que passa, não acha? — perguntou,
contemplando o filho com um misto de carinho e orgulho. — E Mary Kate ainda não se
cansou de bancar a irmã mais velha.
— Sim. Seus filhos são tão diferentes quanto a água e o vinho, Court tem cabelos
pretos como os seus e olhos castanho-dourados como os de Brice, já Mary Kate parece
um anjo loiro — Maida comentou também sorrindo.
— Isso presumindo que anjos tenham mesmo cabelos loiros e olhos azuis —

144
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth replicou bem-humorada. — Eu, particularmente, acredito que alguns possam


ter cabelos escuros e olhos castanhos.
— Ou então cabelos avermelhados — acrescentou Maida. — Se fosse assim, Malia,
certamente, poderia ser um anjo, mas um anjo meio travesso.
Court rolou sobre o próprio corpo e virou-se para puxar os caracóis avermelhados
de Malia. A menina o evitou, mas ele não desistiu.
— Pobre Malia, não teve nenhuma chance — atalhou Elizabeth ao ver o filho
conseguir o que queria após muita insistência. — Court nunca desiste do que quer.
— Isso é um bom sinal num homem, permite que conquiste seus ideais —
filosofou Maida, então franziu o cenho. — Só não entendi por que o chamou Valencourt.
É algum nome de família?
— Não. — Elizabeth sorriu ao ver Mary Kate apressar-se para defender Malia dos
ataques do irmão. — É o nome do herói de um livro que eu e Brice adoramos, Os
Mistérios de Udolpho. Foi uma das primeiras coisas que descobrimos ter em comum.
— Por falar em seu marido...
Elizabeth levantou os olhos e descobriu Brice se aproximando com a carroça.
Como sempre, seu coração bateu mais rápido só em avistar a homem forte e másculo,
mas que sabia ser gentil e terno nas horas certas.
— Boa tarde, Maida — ele cumprimentou tocando na aba do chapéu. Ao descer da
carroça, passou a mão sobre os cachinhos dourados de Mary Kate antes de abaixar-se e
pegar Court no colo.
O menino sorriu deliciado e bateu com as mãozinha no rosto do pai.
— Como está Edmund? — perguntou Brice, tenta do ser cortês com a dona da
casa.
— Ainda está na plantação. Nossa colheita foi maior do que esperávamos e o
trabalho dobrou.
— Este vale tem terras muito ricas — Brice comentou com orgulho. — Tudo que
plantamos cresce em profusão.
— Sim, e agradecemos ao céu e a vocês por nos terem dado a chance de vivermos
aqui. — Maida sorriu e acompanhou Elizabeth que já pegava o bebê das mãos do
marido.
— Não tem do que me agradecer. Podemos ir, querida?
— Claro — Elizabeth assentiu. — Mas não precisava ter vindo me buscar, eu e as
crianças poderíamos ter voltado para casa sozinhos. Mary Kate adora caminhar.
— Eu sei, mas pensei que poderíamos aproveitar este lindo fim de tarde para
darmos um passeio. A paisagem das encostas está realmente muito bonita e queria lhe
mostrar.

145
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

Elizabeth despediu-se de Maida e deixou Brice ajudá-la a subir na carroça com o


bebê, depois de acomodar Mary Kate na parte de trás.
— Qual a verdadeira razão de me convidar para este passeio? Existe algo errado?
— Não, eu só queria desfrutar de sua companhia e a das crianças. Ainda não
acredito no milagre que transformou minha vida e me trouxe vocês três como um
verdadeiro presente dos céus.
Elizabeth riu e acariciou o braço musculoso antes de recostar a cabeça no ombro
do marido.
— Você é um romântico incurável, Brice Graham.
— Eu sou? Quem foi que deu o nome do herói de os Mistérios de Udolpho para o
nosso bebê?
— Se bem me lembro, você não fez nenhuma objeção. — Ela adorava sentir a
firmeza daqueles músculos sob o toque de suas mãos e pele. — Talvez da próxima vez
consigamos ter uma pequena Emily.
— Não há pressa — Brice acrescentou rápido. — Temo não estar pronto para
passar por tudo aquilo novamente.
— Por que diz isso? Tive um parto muito fácil. Leona quase não chegou a tempo
para me ajudar.
— Eu sei, mas de qualquer forma tive muito medo de perdê-la. Acho que
envelheci um dez anos de tão angustiado que fiquei, nem olhei direito para o bebê.
— Não é verdade — Elizabeth riu. — Lembro-me que ficou muito orgulhoso
quando o tomou nos braços.
Brice também riu.
— Court é um lindo garoto, não?
Elizabeth segurou o bebê mais apertado nos braços.
— Sim, é lindo como o pai.
— Eu também sou linda — Mary Kate falou e colocou a cabeça loira entre os dois.
— Sim, é, meu anjo — Brice concordou, virando-se para Elizabeth e piscando num
gesto de cumplicidade.
— Aliás, nossa família toda é linda. Oklahoma será um território de pessoas
bonitas e amáveis no que depender de nós. Não poderia haver colonizadores melhores
ou mais apaixonados. Eu amo vocês... Sabe disso não, sra. Elizabeth Graham?
— Sei, Brice. E também te amo. Sou uma mulher de sorte por ter te encontrado.
Bendita a hora em que aceitei vir para o Oeste, foi aqui que descobri minha felicidade e
pretendo cultivá-la para que continue dando muitos e muitos frutos — falou num tom
impregnado de sensualidade.
— No que terá todo meu apoio, querida — Brice gracejou, beijando-a de leve nos

146
Clássicos Históricos nº 172 – No Coração do Oeste – Lynda Trent

lábios para o deleite de Mary Kate e do pequeno Court que os fitavam embevecidos.
Enquanto o céu se tingia das cores púrpura do entardecer e as aves gorjeavam
anunciando que mais um dia chegava ao fim, os Graham regozijavam-se certos de que o
amanhã no Oeste seria ainda melhor, afinal, só os que sonham ousam, só os que ousam
vencem...

****
Há vinte anos LYNDA TRENT vem escrevendo romances sob vários pseudônimos.
Seus romances de viagens são escritos sob o pseudônimo de Elizabeth Grane e os de
mistério como Abigail McDaniel. Já os de não-ficção e históricos são publicados como
Lynda Trent. Entre outros prêmios, Lynda já recebeu o famoso RITA, oferecido pela
Academia de Escritores da América, por seu livro Opal Fire, ou "Opala de Fogo", um
romance contemporâneo. Aliás, ela sempre é uma das finalistas ao RITA. Em 1985,
recebeu também um PARGO de bronze, oferecido ao melhor romance do Oeste, prêmio
concedido pela West Coast Review of Books. Sendo assim,
não é de admirar que traduções de seus cinqüenta e três livros sejam vendidas no
mundo todo e que a revista Romantic Times a tenha colocado
na lista dos melhores autores de Romances Históricos da América.

147

Оценить