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JACQUES REVEL

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8

A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

M E M Ó R I A e SOCIEDADE
DIFEL
Difusão Editorial. Lda
Liiboa
A co lecção M E M Ó R IA E
SOCIEDADE dirige-se a um
público diversificado, composto
por professores dos diversos
graus de ensino, estudantes dos
anos terminais do ensino secun­
dário e do ensino universitáric,
quadros e empregados de servi­
ços, novas profissões urbanas,
profissões liberais, agentes
culturais de diferentes sectores,
etc. Cobrirá um campo muito
vasto, procurando apresentar es­
tudos de reconhecida qualidade
sobre problemas pertinentes do
presente e do passado.
Os autores previstos para a pri­
meira fase da colecção consti­
tuem uma garantia da diversida­
de de temas e de pontos de vista.
As suas obras têm vindo a insta­
lar rupturas e a pôr em causa as
divisões tradicionais do saber.
Ao mesmo tempo, está em pre­
paração um conjunto de obras
sobre a realidade portuguesa
que, elaboradas no silêncio do
gabinete ou no colorido trabalho
de campo, interessam vastos
círculos de opinião. Contra uma
falsa ideia que faz da obra de
difusão sinônimo de simplifica­
ção forçada, serão dados a conhe­
cer os resultados de cuidadas
investigações, porque só estas
estimulam reflexões aprofunda­
das.
Finalmente, haverá que revalori­
zar textos clássicos, tanto no seu
estatuto, como na força da sua
actualidade. Critério que impli­
ca recuperação do olvidado ou
reco lo cação do dem asiado
conhecido, na linha da concilia­
ção das obras pertencentes ao
patrimônio internacional com as
obras portuguesas.
JACQ UES REVEL

A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

Tradução
de
Vanda Anastácio

Memória e Sociedade

DIFEL
Difusão Editorial. Lda.
Llibta
©Jacques Revel, 1989; Editions du Seuil, 1989; Annales, 1989; Editora
Nova Fronteira, 1989; Pergamon Press, 1989.
Todos os direitos para publicação desta obra em língua portuguesa reser­
vados por:
DIFEL
Difusão Editorial. Lda

Rua D. Estefânia, 46-B


1000 LISBOA
Teiefs.: 53 76 77 - 54 58 39
Telex: 64030 DIFEL P
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Memória e Sociedade
Colecção coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto

Capa: Emílio Távora Vilar


Revisão: Fernando Milheiro
índices: Fernanda Olival
Composição: Maria Fsther — Gab. Fotocomposição
Impressão e acabamento: Tipografia Guerra, Viseu
Depósito Legal n.° 35227/90
ISBN 972-29-0206-7
N O TA DE APRESENTAÇAO

0 nome de Jacques Revel encontra-se ligado à revista Annales E.S.C.


há quinze anos: primeiro como secretário da redacção e depois como co-
-director. Do modo de praticar esta ligação pressentem-se os contornos, mas
dificilmente se saberão os aspectos particulares. É evidente que pela sua
abertura à discussão, pela sua constante vigilância crítica e, também, pelo
seu enorme empenhamento em projectos de trabalho colectivos, Revel tem
contribuído de forma decisiva para a renovação da revista fundada por
Marc Bloch e Lucien Febvre, em 1929. Mas, como ele próprio indica,
estamos longe dos anos em que a revista ocupava uma posição periférica, o
que justificava a reivindicação de percursos heróicos para os seus principais
protagonistas e a difusão das mais diversas hagiografias intelectuais rela­
tivas aos seus fundadores. Situada no centro dos inúmeros debates da história
e das ciências sociais, a revista constitui, hoje, um dos lugares que configu­
ram um campo intelectual em que as posições, as hierarquias e as institui­
ções são facilmente reconhecidas. Outros lugares existem: da Escola dos Al­
tos Estudos em Ciências Sociais (onde Revel é director) à colaboração na
imprensa periódica (concretizada, neste caso, no Nouvel Observateur),
passando pelos compromissos editoriais (por exemplo, com a Gallimard ou
com as Éditions du Seuil), sem esquecer o convite para colóquios, conferên­
cias ou missões de ensino em universidades estrangeiras (da Itália aos Esta­
dos Unidos). Identificar e reflectir sobre a articulação entre estes diversos
lugares coloca, no entanto, um duplo problema: que possibilidades existem
de prolongar a renovação a partir do que se encontra instituído? E qual o
melhor relacionamento com os antepassados — isto é, as figuras emblemáticas
do movimento dos Annales — , com os quais se pretende romper ao nível
da produção científica, mas dos quais se herdam posições, adquiridas ao
longo de um processo de busca de legitimidade?
Em relação a estas duas questões, o itinerário de Jacques Revel afigu-
ra-se-nos paradigmático, pois constitui exemplo de uma disponibilidade cons­
tantemente renovada de uma história experimental, capaz de empreender
VIII /I INVENÇÃO DA SOCIEDADE

sondagens dispersas. Considerar este itinerário obriga a colocar no mesmo


plano a escolha de determinados objectos e as condições da sua produção,
sem esquecer o sistema das relações ou das sociabilidades que os mesmos
objectos evocam. Começando pela «experiência italiana» de Revel, verifica-
se que a ela se encontra ligada uma investigação de história econômica e
uma utilização dos materiais estatísticos relativos à agricultura e ao abas­
tecimento de Roma, a par de uma preocupação em cruzar a problemática da
história social com as perspectivas de uma história religiosa}. Nesta expe­
riência, situam-se os contactos com o grupo de historiadores italianos, que
hoje reivindicam o projecto da micro-história, e é a ela que Revel deve a
entrada para a redacção dos Quaderni Storici. Uma orientação de senti­
do muito diverso detecta-se num segundo conjunto de trabalhos, que preten­
dem articular dois tipos de sondagens: por um lado, as que são relativas às
representações da cultura popular, por outro, as que interrogam a emergên­
cia do olhar etnográfico, inserido numa ordem dos saberes promovida por
grupos de elite (parte II. capítulos II e III do presente livroj 12. Por detrás
deste conjunto de investigações, descobrem-se os nomes de Michel de Certeau

1Por exemplo, os trabalhos do autor intitulados: «Le grain de Rome et la


crise d ’Annone dans la seconde moitié du XVIIIe siècle», Mélanges de ÍEco/e
Française de Rome, 1, 1972, pp. 201-281; «Histoire religieuse, histoire sociale»,
idem, 2, 1972, pp. 309-321; «Les privilèges d’une capitale: 1'approvisionne-
ment de Rome à lepoque moderne», Annales E.S.C., 3, 1975, pp. 563-573;
«Ricerche sulla sociabilità e le organizzazioni sociali nelTetà moderna», Rivista
di Storia sociale e religiosa, 1977, pp. 134-144; «Rendements, production et pro-
ductivité: les grands domaines de la Campagne romaine aux XVlIe et XVIIIe
siècles», in J. Goy e E. Le Roy Ladurie, eds., Prestations paysannes, dimes, rente
fonciere et mouvement agricole à íépoque préindustrielle, Paris, 1982, vol. I, pp. 226-
236.
2Cf. Une politique de la langue. La Révolution française et les patois. L 'enquête de
Grégoire (1790-1794), Paris, Gallimard, 1975 (com Michel de Certeau e Domi-
nique Julia).
NOTA DE APRESENTAÇAO IX

e de Dominique Ju lia e supõe-se que a relação de trabalho com o primeiro


terá sido, para Revel, estímulo decisivo à abertura dos novos caminhos de
análise das práticas culturais, bem distintos dos limites da história econômica
e social. Do mesmo modo, a referência ao nome de Michel Foucault impõe-se
se quisermos compreender a escolha do corpo, bem como de um acontecimento
mórbido constituído por uma peste, como objectos das novas maneiras de
fazer a história, que atendem simultaneamente ao «arquivo como produto
de uma operação» e investem na crítica da «instância global do real como
totalidade a restituir» 3. Teríamos aqui em potência três preocupações, que
iremos encontrar transferidas e desenvolvidas nos trabalhos, onde mais cla­
ramente se analisa a invenção da sociedade na França moderna: em pri­
meiro lugar, a importância da norma e dos dispositivos que esta requere
(onde se sente o eco de Foucault); em segundo lugar, a atenção concedida às
diferentes configurações dos grupos; finalmente, a interrogação sobre as esca­
las temporais adequadas para surpreender o social (do acontecimento à
série, dos processos contínuos à captação das descontinuidades). Preocupações
que suscitam uma atenção variada, quer se trate da nação ou da região —
no quadro de abordagens centradas nas representações do espaço (neste livro:
parte III, capítulos IV e V) — ou, numa outra escala, dos corpos, das
comunidades (parte IV, capítulo VI), dos grupos de estudantes univer­

3 «Autor d une épidémie ancienne: la peste de 1666-1670», Revue d'histoire


modeme et contemporaine, 4, 1970, pp. 951-981; «Le corps: 1’homme malade
de son histoire», in J . Le Goff e P. Nora, Paire de íhistoire, t. 3, Paris,
Gallimard, 1974, pp. 169-191 (tradução portuguesa, Fazer a história., t. 3, Lis­
boa, Bertrand, 1987, pp. 183-206). Sobre as relações de Revel com Michel
Foucault, repare-se que o primeiro escreve sobre duas personagens apenas
— Lucien Febvre, um dos fundadores dos Annales, e o autor da Histoire de
la folie — no Dictionnaire des Sciences Historiques, dir. A. Burguière, Paris, P.U.F.,
1986.
A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

sitários* ou dos círculos da sociedade de corte’’; e, ainda, em proporções mais


reduzidas, de um acontecimento minúsculo ou de uma biografia (capítulos
VII e VIII)456.
Deste percurso, concretizado na análise dos comportamentos colectivos e
dos modelos culturais, a leitura interessada na descoberta de um sentido
tipológico oferece uma disciplina, mas dificilmente poderá dar conta do seu
principal valor, isto é, da sua dispersão exemplar. Frente a esta dispersão,
se existe uma unidade, teremos de a procurar não do lado dos objectos —
tendencialmente fragmentados e descontínuos — , mas do lado do sujeito que
os constrói e observa. É neste âmbito que se encontram as reflexões do autor
sobre as maneiras de fazer a história: indo da historiografia dos próprios
Annales (como acontece no capítulo I do presente livro), ao estudo de figu­
ras como Simiand, Henri Berr, Georges Lefebvre, Lucien Febvre ou Fou-
cault, do repensar dos conceitos utilizados (v.g. cultura popular, mentali­
dade) às propostas da micro-história1.

4 «Université et société dans 1’Europe moderne: position de problèmes»,


Revue âbistotre moderne et contemporaine, 3, 1978, pp. 353-374 (com Roger Char-
tier); Les universités européennes du XVle au XVIIIe siècle: Histoire sociale des popula-
tions étudiantes, t. I, R. Chartier, D. Julia e J. Revel, eds., Paris, E.H.E.S.S.,
1986; t. II, D. Julia e J. Revel, 1989-
5 «Les usages de la civilité», in Histoire de la vie privée, t. 3, Ph. Ariès e R.
Chartier, eds., Paris, Le Seuil, 1986, pp. 169-209-
6Cf., ainda, Logiques de la foule. L ’affaire des enlèvements âenfants, Paris, 1750,
Paris, Hachette, 1988 (em colaboração com Arlette Farge). É no âmbito da
colaboração com A. Farge que mais se sentem as preocupações de proceder à
renovação da história política, aspecto a que esta investigadora se tem dedicado
inteiramente, cf. principalmente a sua obra individual: La vie fragile. Violence,
pouvoirs et solidarités à Paris au XVIIIe siècle. Paris, Hachette, 1986.
La nouvelle histoire, Paris, Retz, 1978 (com Jacques Le Goff e Roger Char­
tier, concepção, direcção e redacção de artigos); «Lucien Febvre et les Sciences
sociales», Australian Journal of Prench Studies, XVII, 5-6, 1979, pp. 424-446
NOTA DE APRESENTAÇAO XI

Neste sentido, a dispersão na construção de objectos só encontra a sua


coerência num trabalho de reflexão constante, que simultaneamente põe em
causa as categorias herdadas, renova os instrumentos utilizados e sustenta
uma relação experimental com os objectos. 0 que equivale a dizer, utilizan­
do uma ideia do próprio Revel, que se pretende escrever uma história «que
reintroduz permanentemente as regras do jogo no próprio relato do jogo»
(in apresentação de G. Levi, citado na última nota, p. XVI). Ora, é nesta
tensão que reside uma das chaves para compreender a lógica de um projecto
de invenção da sociedade. Expressão evidentemente radical, que se apre­
senta como a melhor maneira de definir um percurso em que a participação
nos lugares instituídos não constitui obstáculo à renovação e onde a ruptura
com os antepassados, longe de implicar uma recusa dos seus contributos, tem
em vista recolocá-los no seu tempo e impedir a sua utilização reprodutiva.
Sendo nesta última que residem as formas camufladas e, por isso, mais
arreigadas de positivismo — no sentido vulgar do termo, bem distinto dos
princípios enunciados por Auguste Comte — , enunciar de forma radical
uma ruptura supõe também o sentido da responsabilidade adquirida por
parte de quem fa la a partir de posições instituídas, nomeadamente em rela­
ção aos trabalhos que se resolvem na acumulação de dados a partir de
categorias ou de modelos herdados. T al como se tudo estivesse por fazer, no

(com Roger Chartier); «Sur une crise de 1'histoire aujourd’hui», Bulletin de la


Sociétéfrançaise dephilosophie, Out-Dez., 1985, pp. 97-128; «Mentalités», «Outi-
llage mental», «Febvre», «Foucault» in Dictionnaire des Sciences Historiques, dir. A.
Burguière, Paris, P.U.F., 1986; «La culture populaire: sur les usages et les abus
dune vloúotí»,\n L as culturaspopulares,NLsAnA, Editorial Universidad Compluten-
se, 1986, pp. 223-239; apresentação de Georges Lefebvre, La Grande Peur, suivi de
Foules révolutionnaires, Paris, A. Colin, 1988, pp. 7-25; «L’histoire au ras du sol»
apre-sentação de G. Levi, Le pouvoir au village. Paris, Gallimard, 1989, pp.
I-XXXIII.
XII A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

território da pesquisa e da reflexão históricas, a obra de Jacques Revel


constitui-se, assim, em exemplo das possibilidades de criação num quadro
generalizado de incertezas, onde é recusada a simplificação da complexi­
dade.

Memória e Sociedade — os coordenadores


IN T R O D U Ç Ã O

1. Os textos aqui reunidos foram escolhidos, pelos coor­


denadores da colecção e pelo autor, entre muitos outros
possíveis. Gostaríamos aqui de dar a conhecer ao leitor al­
gumas das razões que orientaram esta escolha. Apesar do
que poderia dar a entender o título relativamente ambicioso
deste pequeno livro, não se trata de apresentar um conjunto
de propostas teóricas. Também não se trata de descrever um
percurso intelectual que, na verdade, só teria interesse, para
mim, e que nada tem de exemplar; aliás, os artigos aqui
reunidos foram publicados nos últimos dez anos. O tama­
nho, modesto, deste volume deve afastar também a ideia de
que se tenha querido apresentar uma amostra de objectos ou
de interesses que seriam os da última — aliás, já antepenúl­
tima — geração dos Annales. A intenção que presidiu a esta
escolha é muito mais simples e muito mais humilde. Pro­
curámos ilustrar, com a ajuda de textos concretos, uma cer­
ta prática de investigação e, cremos, uma certa evolução das
questões que o historiador se coloca perante o social. Daí a
aparente dispersão dos temas abordados e uma diversidade
de gêneros relativamente grande, que vai do ensaio histo-
riográfico a uma biografia «encomendada» (a de Maria An-
tonieta, para o Dictionnaire Critique de la Révolution française,
dirigido por François Furet e Mona Ozouf), e da análise de
corpus documentais na longa duração («a produção do ter­
ritório») à de um acontecimento pontual (o motim parisiense
de 1750).
Estes textos apresentam, apesar da sua diversidade, três
pontos comuns. Muitos deles foram preparados e escritos ao
mesmo tempo — , o que me permite pensar que não são in­
compatíveis entre si. Em segundo lugar, foram todos textos
de trabalho, expostos, discutidos, retomados, perante o se­
2 A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

minário que oriento na École des Hautes Études en Sciences


Sociales. Este aspecto não deixa de ter importância: a re­
flexão colectiva cuja marca lhes está subjacente permite-me
pensar que o elo que vejo entre eles pareceu também evi­
dente, durante anos, a outros — e compreender-se-á, assim,
que este livro seja dedicado aos membros deste seminário.
Passo, finalmente, ao meu terceiro ponto. Através destas
páginas perpassa, segundo creio, uma questão comum: o que
pode ser, qual deve ser, a relação do historiador do social
com o seu objecto? O que equivale a perguntar, o que é o
social, simultaneamente evidente e inatingível, que atrai tão
amplamente hoje em dia a atenção dos historiadores (e tam­
bém a dos sociólogos, dos antropólogos, etc.). Não pretendo
dar uma resposta global a uma questão tão vasta. Mas cada
um dos textos aqui reunidos pode ser considerado como um
exercício de construção do social em escalas e terrenos mui­
to diversos. Num momento em que as grandes construções
conceptuais antigas, como a de Marx, ou mais recentes, como
o estruturalismo triunfante dos anos 60, parecem já não res­
ponder de forma exacta às nossas necessidades, eis-nos ren­
didos a ambições mais modestas, a trabalhos a que gostaria
de chamar práticos. Vivemos um período de incertezas que,
pelo meu lado, considero feliz e benéfico. Não estamos de
forma nenhuma mais perdidos que os nossos antepassados
— ou do que pensaríamos estar há vinte anos. O mundo
intelectual em que nos movemos está desordenado e menos
balizado. Mas possui uma relativa abertura e é, passe a ex­
pressão, laico. Pelo meu lado, acomodo-me bastante bem a
este momento de liberdade e de experiência.

2. Atingido este ponto, é preciso que nos pronunciemos


um pouco mais acerca do momento historiográfico que atra­
vessamos, o qual constituiu, no essencial, a experiência da
minha geração.
Tentei traçar as suas grandes linhas no perfil dos Annales
que inicia esta antologia, mas talvez seja útil abordar desde
já o problema. Os historiadores franceses (e não só) forma­
dos nos anos 60 nasceram no seio da história social. Esta
tem vindo a adquirir uma importância cada vez maior nos
INTRODUÇÃO 3

últimos cinquenta anos, ao mesmo tempo que parece ter a


capacidade de renovar incessantemente os seus objectos e as
suas abordagens. Alargou desmesuradamente o seu «território».
A própria fortuna desta metáfora espacial, quase imperialis­
ta, sugere bem os progressos de uma disciplina à qual nada
parece ter podido resistir. Não foi ela capaz de anexar províncias
consideradas, por definição ou tradição, irredutíveis: ontem,
a história das culturas, hoje a do fenômeno político? Será
que existe uma história que não seja a do social?
Este êxito assentava à partida numa convicção simples.
Contra os mais velhos hábitos historiográficos, afirmava que
o destino colectivo das massas tinha pesado mais que o dos
indivíduos, fossem eles reis ou heróis; que as evoluções em
série eram as únicas capazes de esclarecer o sentido — en­
tendamos a direcção e o significado — das transformações
das sociedades humanas. Uma tal afirmação tornou-se hoje
trivial. Acarretava consequências a nível da escolha dos ob­
jectos de investigação, da determinação das fontes documen­
tais e do seu tratamento, que nos são, também elas, familia­
res. Conduzia também a transformações cujos efeitos não são
indiferentes. Tratarei aqui de três, que se ligam entre si.
A primeira está directamente ligada ao projecto de me­
dir os fenômenos sociais, de qualquer natureza, a partir de
indicadores simples. Estes indicadores têm em comum o fac-
to de pegar num traço isolado, numa propriedade, e seguir a
sua evolução na duração. Estes traços podem ser relaciona­
dos uns com os outros, as suas correlações medidas e podem
entrar na constituição de modelos mais ou menos complexos.
Mas só são pertinentes quando permitem delimitar na maté­
ria histórica uma realidade restrita e de natureza constante.
A segunda transformação remete para algo que consti­
tuiu a ambição dos fundadores dos Annales, em particular: a
de uma história que se desviaria do único, do acidental, para
investir completamente no estudo das regularidades — e,
porque não, das leis? — do social. História pesada, história
lenta, e que encontrou instintivamente o seu terreno de elei­
ção no âmbito das sociedades pré-industriais, numa Idade
Média muito extensa e numa modernidade que se estende
frequentemente até ao século X IX . Uma tal escolha impli­
4 A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

cava, bem entendido, a renúncia a um certo número de ob-


jectos de estudo: o tempo curto, o político. Acarretava tam­
bém a certeza de que a única história importante escapava,
para parafrasear Marx, à consciência e, mais ainda, à von­
tade, dos homens na história.
Há uma terceira transformação que se situa abaixo das
duas anteriores e que foi talvez inevitável. Bloch, Febvre e
uma parte da sua geração tinham aprendido com os mestres
durkheimianos que não há objecto científico se não for cons­
truído segundo processos explícitos e submetido em seguida a
validação. Estas regras elementares de metodologia terão sido
sempre mantidas? A história da investigação contemporânea é
a de objectos cada vez mais sofisticados. As abordagens tor-
naram-se cada vez mais complexas e mais cuidadosamente
controladas. Mas, ao mesmo tempo, o carácter experimental,
hipotético, desses objectos, perdeu-se, por vezes, de vista.
Tentou-se frequentemente encará-los como coisas. A evolu­
ção da história dos preços, entre os trabalhos do primeiro
Labrousse (1933) e os anos 1960, constitui um bom exem­
plo desta tendência para o esbatimento das compartimenta-
ções e das categorias do social, tal como acontece, à distân­
cia de uma geração, com a das classificações socioprofissio-
nais ou a das unidades espaciais de observação. A prioridade
parece ter sido dada, cada vez mais, à acumulação de dados
estruturados segundo categorias mais herdadas do que criti­
cadas, mais descritas do que analisadas, que parecem triun­
far hoje em dia com a acumulação informática de enormes
bancos de dados inertes, que deveríam, no espírito daqueles
que os concebem, poder um dia servir para tudo — quer
dizer, possivelmente, para nada. Este esmagamento da in­
vestigação sob o seu próprio peso permite também compreen­
der que se tenha afinal reflectido muito pouco acerca das
articulações internas da realidade histórico-social assim res-
tituída. Contentámo-nos durante muito tempo com a justa­
posição dos seus diversos aspectos. Na tradição dos Annales,
como se sabe, a história dos grupos sociais é estruturada a
partir do modelo proposto pela história econômica, surgida
anteriormente. E as primeiras tentativas de uma história so­
cial da cultura que se verificaram a partir dos anos 1960,
INTRODUÇÃO 5

foram instintivamente submetidas à grelha de leitura socio-


económica que se lhes oferecia. O que parece ser, mais o efei­
to de uma espécie de embotamento epistemológico daquilo
que parecia ser a contrapartida de uma investigação super-
activa, multiplicando incansavelmente as suas áreas e as suas
conquistas, do que o resultado da influência de um marxis­
mo empobrecido.

3. Se os analisarmos correctamente, estes traços podem


explicar, em grande parte, a situação actual. O esboço que
acabo de fazer é, sem dúvida, brutal e injusto. Insiste ape­
nas nas dificuldades, nos impasses, e passa em claro o êxito
de uma iniciativa colectiva que foi inventiva, trabalhosa,
generosa. Também não dá conta dos esforços de alguns para
repensar de forma nova o projecto e os meios de uma história
social novamente problemática.
Mas aqui já não se trata de fazer um balanço e menos
ainda de fazer um juízo demasiado fácil a posteriori. Trata-se
fundamentalmente de compreender como, da própria prática
dos historiadores do social, nasceram reflexões e exigências
que determinam hoje em dia, um pouco por toda a parte,
uma viragem crítica.
Houve, no início, reacções de rejeição e denúncia de uma
história social cujos resultados já não pareciam merecer os es­
forços que exigia. Lawrence Stone denunciou, em finais dos
anos 1970, numa série de artigos cruéis, a vaidade de um
tipo de história a que tinha, como muitos outros, consagra­
do a sua vida: fê-lo para proclamar o regresso a uma «nova
velha história», a história narrativa, a seus olhos inevitável e
desejável. Um pouco antes, o italiano Furio Diaz, tinha la­
mentado — de longe, é certo — «as fadigas de Clio». Um
pouco mais tarde, François Furet, abandonando os grandes
domínios a que se tinha dedicado durante tanto tempo, rei­
vindicava o direito de conceber uma história exclusivamente
política da Revolução Francesa. Cada um destes casos, e mui­
tos mais ainda que poderiamos acrescentar, é particular. Todos
juntos, pelo eco que suscitaram na comunidade dos historia­
dores, evidenciam um sintoma, definem os contornos de um
m al-estar.
6 A INVENÇÃO DA SOCIEDADE

Houve em seguida proposições alternativas que não de­


vem ser encaradas como uma rejeição da história social, e
menos ainda da tradição dos Annales, mas como a tentativa
de corrigir uma trajectória em curso e como interrogações
acerca do próprio estatuto das nossas práticas. Isolarei duas,
para abreviar. A primeira apareceu em Itália, em torno do
programa de uma «micro-história», cuja definição fora ten­
tada por um grupo de investigadores entre os quais se con­
tavam Cario Ginzburg, Cario Ponti, Giovanni Levi e Edo-
ardo Grendi. Por volta do final dos anos 1970 propuseram
a redução da envergadura dos objectos de estudo de forma a
operar variações de focalização, para tentar uma análise mais
intensiva das inter-relações que constituem o social e a con­
ferir também um estatuto ao excepcional ou ao único. Estas
propostas podem e devem ser discutidas. As realizações que
daí resultaram são aliás muito diferentes entre si e nada ga­
rante que o modelo micro-histórico possa durar, ou em todo
o caso permanecer, unificado. Apresentam, segundo me pa­
rece, em comum, o facto de sugerirem uma mudança de ati­
tude do historiador face àquilo que estuda; de constituir o
objecto de que se dá conta como uma construção experimen­
tal, sempre modificável em função de condições e de estudos
que se podem fazer variar de maneira controlada; de proce­
der, não no sentido de uma simplificação da realidade redu­
zida a um pequeno número de índices significativos, mas,
pelo contrário, no de uma complexificação da realidade con­
tinuamente enriquecida pelo trabalho do historiador1. O meu
segundo exemplo está ainda mais próximo: em 1988, o pe­
queno grupo que está à frente dos Annales apelou para que a
comunidade dos historiadores fizesse um trabalho de revisão
crítica que partia de uma preocupação comparável: não se
enclausurar em hábitos de pensamento que foram frutuosos
(que, a bem dizer, ainda o são); repensar as delimitações
recebidas tendo em conta não apenas as evoluções da ciência1

1 Permito-me aqui remeter, para uma análise mais aprofundada, para


J . Revel, «L'histoire au ras du sol», apresentação de G. Levi, Le pou-
voir au village, Paris, Gallimard, 1989 (trad. francesa de UEreditá im-
materiele. La carriera di un esorcista nel' 600, Turim, Einaudi, 1985).
INTRODUÇÃO 7

histórica mas a relação mutável entre a história e as outras


ciências sociais; orientar-se principalmente na linha de uma
experimentação racional, controlada, mais do que na acumu­
lação indefinida de resultados «positivos»*2.
E evidentemente demasiado cedo para saber o que resul­
tará desta viragem crítica, cuja necessidade se afirma ampla­
mente hoje em dia. Os artigos aqui reunidos não pretendem
de forma nenhuma dar soluções, mesmo locais, aos muito
vastos problemas a que apenas aludimos nas linhas prece­
dentes. Foram no entanto contemporâneos desta interroga­
ção colectiva e constituem, cada um à sua maneira, uma ten­
tativa de experimentação levada a cabo sobre um objecto
«clássico» do historiador. À falta de melhor, desejaríamos
encará-los também como sintomas — para o melhor e para
o pior — de um certo momento do trabalho histórico. Atra-
vessa-os uma certeza comum que talvez constitua a sua uni­
dade para além da diversidade dos gêneros e dos estilos de
realização: o social não é um grande todo englobante e evi­
dente, pelo simples facto de existir. Tal como é, tratar-se-ia
apenas de um tecido indiferenciado, ou seja, existiria apenas
como uma referência cômoda acerca da qual não haveria nada
a dizer. Escolhi, pelo contrário, fazer do social uma reali­
dade que só existe enquanto é construída pelo historiador.
Esta construção — esta reconstrução, melhor dizendo — está
hoje diversificada e este livro é testemunho disso. Seria evi­
dentemente prematuro afirmar que desembocará um dia num
sistema inteiramente articulado de análise do social. A res­
posta a esta questão que é do foro, no ponto em que nos
encontramos, da convicção individual, não me parece de
importância decisiva e pode provavelmente ser deixada en­
tre parêntesis. Encontramo-nos ainda numa fase de experi­
mentação: na altura em que, com os meios ao nosso alcance
e reencontrando a alegria do trabalho do historiador, tenta­
mos, através de várias aproximações desenhar uma cartogra­
fia inédita daquilo que pensávamos conhecer tão bem, in­
ventando novas figuras do social.

2 Cf. «Histoire et Sciences sociales: un tournant critique?», Annales ESC,


2, 1988, pp. 291-294.
PARTE I

Os Annales em perspectiva
Há sessenta anos que os Annales se impuseram como um
ponto de referência do trabalho histórico, quer em França,
quer no resto do mundo. Esta permanência é suficientemente
notável para merecer um apontamento. Se iniciamos esta
antologia com uma tentativa de fazer o balanço da experiên­
cia historiográflca dos Annales, não é, como seria de esperar,
para nos tentarmos colocar sob um patrocínio prestigioso,
nem mesmo para lembrar o que foi, para a minha geração,
para outras duas que a precederam, e ainda para uma quarta
que veio depois, a herança cultural recebida. É principal­
mente para tentar dissipar um certo número de mal-enten­
didos que se exprimem habitualmente acerca desta matéria
e para colocar, em termos que espero sejam um pouco dife­
rentes, os problemas de continuidade e descontinuidade, no
interior de um movimento de pesquisa e de reflexão, que o
apresentamos aqui.
Falei de movimento, não de escola — como se faz, in­
felizmente, com exagerada frequência, quando se trata dos
Annales. Uma escola, rigidamente organizada em torno de
uma instituição, depositária dos seus livros sagrados, espar­
tilhada pelas suas convicções e pela sua hierarquia: não há
nada mais alheio à forma como se constituiu à volta de um
pequeno grupo de homens e da revista que fundaram em
1929, aquilo a que poderiamos chamar, retomando o voca­
bulário do capitalismo nascente, uma sociedade de investiga­
ções. E certo que, depois, se perderam de vista, por vezes, a
dimensão da iniciativa, os seus meios e a agressividade bem-
-humorada dos fundadores; também não duvidamos que o
próprio êxito da revista e das maneiras de fazer a história
que ela propôs, que propõe ainda hoje, tenham pesado no
próprio estilo dos Annales. Os Annales mudaram várias vezes
12 OS ANNALES EM PERSPECTIVA

no decorrer da sua já longa história. Permita-se-me todavia


pensar que o problema da fidelidade ao projecto de Marc
Bloch e de Lucien Febvre, e depois àquele outro, já dife­
rente, de Fernand Braudel, tenha sido, a maior parte das
vezes, mal colocado.
A fidelidade não poderia com efeito ser encarada na
acepção de um respeito literal a máximas que nunca existi­
ram. Há dois eixos gerais que subentendem a experiência
dos Annales: a reivindicação de uma história experimental
científica (mais do que culta) por um lado; e, por outro, a
convicção de uma unidade em construção entre a história e
as ciências sociais. Os dados acerca destes dois pontos eram,
à partida, abertos; e continuaram a ser reformulados desde
os primórdios do movimento, ao mesmo tempo que se trans­
formavam as próprias condições do trabalho histórico. Na
tentativa de análise que se segue, não se encontrarão apenas
idéias, projectos, mas também uma atenção à sociologia das
disciplinas e à sua institucionalização. E minha convicção,
com efeito, que as iniciativas intelectuais remetem, tal como
as outras, para uma sociologia determinada, em cada mo­
mento, pelas condições de uma experiência. Porque muitas
coisas mudam ao mesmo tempo que as idéias, mesmo quan­
do as idéias parecem ser imutáveis, procurei demonstrar que,
onde se tinha complacentemente evocado a existência de um
«paradigma dos Annales» (a expressão é do historiador ame­
ricano Trajan Stojanovich), poderiamos isolar vários para­
digmas, que são outras tantas variações a partir de uma pro­
posta comum.
CAPÍTULO I

História e Ciências Sociais: os paradigmas


dos Annales

É difícil o momento em que se atinge o êxito. Nunca os


Annales foram tão citados, utilizados, imitados. São-lhes con­
sagrados colóquios, estudos1. A sua herança é reivindicada
um pouco por toda a parte. No estrangeiro, incluindo, ulti­
mamente, no mundo anglo-saxónico (que durante muito tempo
se mostrou reticente). Há até qualquer coisa de inquietante
nesta aparente renovação do interesse: por toda a parte se
analisa, se disseca um movimento que se quer ainda vivo.
Vivo? Será possível? Ao mesmo tempo que a revista e aque­
les que dela se reclamam passaram a ser objecto de estudos
historiográficos, a crítica foi-se tornando também mais seve­
ra, incidindo por vezes no próprio sucesso da iniciativa a
qual é objecto de censura por não ser, precisamente, mais
do que uma iniciativa. A um nível mais profundo, a crítica
põe em causa a fidelidade dos Annales ao programa dos seus
fundadores; ou então, pelo contrário, atribui, a esse mesmo1

1 A multiplicação a um ritmo acelerado de livros e artigos que se


tem verificado nos últimos cinco ou seis anos torna qualquer resenha
bibliográfica ilusória e parcial. Retenhamos pelo menos Trajan Stojanovich,
French historical method: the Annales paradigm, com um prefácio de
F. Braudel, Ithaca-Londres, Cornell Univ. Press, 1976; L. Allegra,
A. Torre, La nascita delia storia sociale in Francia. D alla commune alie
Annales, Turim, Fundação L. Einaudi, 1977; M. Cedronio, M. Del Trep-
po, F. Diaz, C. Russo, Storiografia francese di ieri e di oggi, Nápoles,
1977. Uma reflexão geral em M. De Certeau, «L'opération historiogra-
fique», in L'Écriture de l'histoire, Paris, 1975, pp. 63-120. Finalmente,
encontram-se elementos úteis nas actas de um colóquio consagrado ao
impacte dos Annales sobre as ciências sociais publicadas em Review, I,
3-4, 1978; nesse encontro foi apresentada uma primeira versão deste
texto.
14 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

programa, as dificuldades e os impasses que hoje lhe encon­


tra2. Estes debates, estes estudos, têm pelo menos um méri­
to: convidam-nos a interrogarmo-nos acerca da unidade de
um movimento intelectual que dura há meio século — dura
na realidade há mais tempo, como veremos adiante — , no
momento em que essa unidade parecería evidente, quer para
os seus participantes, quer para os seus adversários.
A interrogação é tanto mais necessária quanto se tende a
esquecer talvez que os Annales têm, não apenas uma origem
— a ruptura fundadora de 1929 — , mas também uma história.
Os programas, as declarações de intenção, podem dar a ima­
gem de uma continuidade sem problemas; em cinquenta anos,
a tarefa atribuída ao historiador mudou e a intervenção dos
Annales não é, evidentemente, alheia a essa evolução. O cam­
po da disciplina, o papel social do historiador, o estatuto do
trabalho científico transformaram-se profundamente: quem acre­
dita que o discurso histórico tenha permanecido inalterado?
De facto, a análise destas mudanças torna-se difícil. Em
primeiro lugar, porque a história dos Annales foi marcada,
desde muito cedo, por uma dupla lenda. Uma lenda negra
que, desde os primeiros anos, se associou a uma revista agres­
siva, irritante, que facilmente se propunha dar lições e que
se tinha dedicado a perturbar as regras e os hábitos da co­
munidade historiadora em causa. Esta hostilidade recuou
perante o êxito da iniciativa. Seria errado imaginar que ti­
vesse sido completamente abolida, pois houve debates recen­
tes que vieram recordá-la. Mas também, e talvez sobretudo,
lenda dourada, resultante do sucesso intelectual e institucio­
nal, consagrando conjuntamente a obra dos «pais-fundado-
res», Marc Bloch e Lucien Febvre, e a continuidade de uma
tradição. Não se leia aqui a mais pequena ironia; trata-se

2 Encontram-se ilustrações simétricas desta crítica nos artigos de


Joseph Fontana, «Ascens i decadência de l'Escuela deis Annales»,
Recerques, Barcelona, 1974, 4, pp. 283-298; Tony Judt, «A clown in
regai purple: social history and the historians», History Workshop, 7,
1979, pp. 66-94; e, por outro lado, em Furio Diaz, «Le stanchezze di
C lio», Storiografia, cit., pp. 73-162. Estas referências servem apenas,
claro está, como indicação e poderíam multiplicar-se.
CAPÍTULO / 15

afinal de um facto notável e, para aqueles que se lhe querem


próximos, não é indiferente que um movimento intelectual
colectivo tenha adquirido uma identidade tão explícita ou
que reivindique, de forma tão insistente, a sua origem e a
sua unidade. N a revista, editoriais, efem érides, notas
biográficas, foram durante muito tempo, ocasião de recor­
dar, de forma incansável, a existência de um projecto contínuo,
apoiado por uma comunidade científica. Nada o diz melhor
do que a apresentação dos «nouvelles Annales» feita, em 1969,
por Fernand Braudel: «Os Annales renovam-se, uma vez mais.
Permanecem assim fiéis ao espírito de Lucien Febvre e de
Marc Bloch, que os fundaram há já quarenta anos. O seu
objectivo foi sempre servir a história e as ciências humanas,
mantendo-se ao corrente, tanto quanto possível e apesar dos
riscos inerentes, das inovações que se vão esboçando no ho­
rizonte. Há outras revistas para além da nossa que traba­
lham na mesma área de estudos e se dedicam a defender-lhe
os territórios já conquistados. O seu papel parece-nos im­
portante, decisivo, insubstituível. Permite-nos desempenhar
uma outra tarefa na conjuntura intelectual da nossa época3.»
Tudo está dito neste texto que termina com a esperança de
ver em breve novos «nouvelles Annales»'. a afirmação de uma
fidelidade só demonstrada através da inovação, a vontade de
inscrever a continuidade e a coerência do movimento sob o
signo de uma diferença essencial. São disso testemunho ou­
tros índices mais dispersos mas não menos significativos: o
recurso à referência legitimadora — ao qual este texto tem
consciência de não escapar — , a utilização do pronome «nós»,
ou, mais ainda, do colectivo impessoal — os Annales, sujeito
em nome colectivo — por parte daqueles que têm a seu
cargo a revista, mas também por parte de muitos colabora­
dores ocasionais. Esta identificação repetida pôde mesmo, na
altura, mascarar sérias divergências.
O certo é que são mais as questões que coloca esta co­
munidade proclamada do que as explicações que propõe. Que
pode haver em comum entre o pequeno grupo de professores

3 Fernand Braudel, Annales ESC., 1969, 3, p. 571.


16 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

da Universidade de Estrasburgo que, no final dos anos 1920,


tentou a aventura de uma revista e partiu a defrontar a ci­
dadela universitária, e a rede poderosa que se constituiu nos
últimos vinte e cinco anos à volta dos Annales e da Ecole
des Hautes Etudes; entre esta rede, ainda homogênea, e as
ramificações difusas que proliferam hoje e que, por vezes
mesmo muito para além do campo científico, escapam a maior
parte das vezes à iniciativa e ao controle da revista? Que
haverá ainda em comum entre o programa muito unificado
dos primeiros anos e a aparente explosão das orientações mais
recentes? Só uma história do movimento poderia fornecer
respostas seguras. Esta ainda não existe por uma dupla ra­
zão. Por um lado, porque a maioria dos ensaios que lhe fo­
ram consagrados partem do discurso que os Annales manti­
veram acerca de si mesmos. Admitem, à partida, a existên­
cia de uma continuidade e de uma coerência e limitam-se
frequentemente a ilustrá-las. Postulam a existência de uma
«escola» quando se trata, sobretudo, de um movimento, de
uma sensibilidade, de um conjunto de estratégias: enfim,
de uma actividade pouco preocupada no fundo com defini­
ções teóricas. Por outro lado, conhecemos, pelo menos de
maneira aproximada, através de textos metodológicos e de
testemunhos, as correntes de idéias que circulam em torno
da revista. Mas estes elementos propõem-nos, apenas, uma
história ideológica e, à partida, abstracta. Capelinha? Agru­
pamento informal? Sindicato de interesses? Holding, como se
afirma por vezes nos últimos tempos? Apesar de alguns ele­
mentos terem sido já reunidos4, ignoramos quase tudo acer­
ca da sociologia do movimento, da composição das redes su­
cessivas e sedimentadas que estiveram num momento ou nou­
tro, no todo ou em parte, associadas aos Annales; quase não
conhecemos a organização e o funcionamento do campo das
ciências sociais tal como o definiram e remodelaram as ins­
tituições universitárias desde o princípio do século. Não só
a delimitação de âmbitos científicos, mas também as rela­

4 Por T. Stojanovich, op. cit., e sobretudo por J. H. Hexter num


ensaio crítico e cheio de humor: «F. Braudel et le monde braudellien»,
Journal of modem history, 1972, 4, pp. 480-539-
CAPÍTULO I 17

ções concretas de força ou de prestígio que hierarquizaram


as disciplinas e os grupos. Só uma investigação sistemática
permitirá delimitar, quer o lugar da história no seio das ciên­
cias sociais, quer o papel que ela desempenhou no seu de­
senvolvimento, em França. Permitirá também compreender
melhor a forma assumida por esse desenvolvimento, com os
seus avanços, os seus recuos, os seus bloqueios; analisar as
condições de inovação, de recepção e de reprodução do tra­
balho científico. Esta investigação ainda não foi feita. Será
longa e complexa, devido à intervenção multiforme que ti­
veram os Annales durante meio século. Enquanto não se fi­
zer, e as reflexões que se seguem são disso exemplo, teremos
que nos contentar com hipóteses demasiado gerais e com
propostas empíricas.
História e ciências sociais, a história como ciência social:
estas palavras são hoje em dia usadas pela retórica acadêmi­
ca. Mas nem sempre foi assim. Já foram novas e esforçar-
-nos-emos por mostrar que definem, desde o início, o fulcro
do programa dos Annales. Mas um programa cinquentenário
tem uma história. Foi levado a cabo numa paisagem intelec­
tual em mutação, em condições que não pararam de se trans­
formar, sobretudo porque se proclamou, à partida, aberto a
todas as solicitações do presente. E sobre estas transforma­
ções, e sobre as adaptações que tentam responder-lhes, que
insistiremos aqui, evitando tentar provar à força a existência
de uma continuidade ou de uma unidade. O mesmo equi­
vale a dizer que não começaremos por afirmar a existência
de um «paradigma» geral dos Annales no qual de maneira
nenhuma podemos acreditar. Ao tentar isolar uma série de
paradigmas particulares que se foram sucedendo (por vezes
sem se eliminar), gostaríamos muito simplesmente de reflec-
tir acerca das condições práticas do trabalho do historiador.

O nascimento dos Annales marca profundamente a reflexão


dos historiadores tanto acerca da sua área de estudos como
acerca do seu trabalho. O programa intelectual de que a re­
vista é porta-voz surge, assim, novo, agressivo. Organiza-se
em torno de uma proposta central: a urgência em fazer sair
a história do seu isolamento disciplinar, a necessidade de
18 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

que esteja aberta às interrogações e aos métodos das outras


ciências sociais. Esta reivindicação, que afirma claramente a
unidade do social para além das abordagens particulares de
que é objecto, percorre o meio século de vida dos Annales\
constitui a unidade do movimento, e revela, provavelmente,
a sua verdadeira identidade — mesmo apesar de ter sido
realizada, como veremos, a partir de modalidades bastante
diferentes. Contudo, não se trata de uma exigência comple­
tamente inédita em 1929-
Passaremos aqui em revista o período de tempo em que
se inscreve a iniciativa de Marc Bloch e de Lucien Febvre.
Em 1903, na novíssima revista Revue de synthèse historique, o
sociólogo François Simiand apresentava, com o título «Mé-
thode historique et Science sociale»5, uma crítica cerrada ao
discurso tradicional do método histórico, em especial da sua
última versão que Seignobos acabava de fornecer na Méthode
historique appliquée aux Sciences so ciales (1901); expunha aí,
também, um programa destinado a situar a história no seio
das outras ciências sociais — ou da ciência social, para uti­
lizar as palavras do próprio Simiand — , das quais, funda­
mentalmente, nada a separa nem quanto ao projecto, nem
mesmo quanto aos métodos. Aliás, o artigo de 1903 não é
um caso isolado. Constitui apenas uma das peças do grande
debate que, em França, opunha historiadores e sociólogos6.
O texto é, para além disso, intencionalmente provocador; é
por vezes injusto: à excepção de P. Lacombe, Simiand não se

5 Revue de synthèse historique, 1903, t. VI, pp. 1-22 e 129-157.


6 O debate não é, aliás, exclusivamente francês. Encontram-se ou­
tras versões na Alemanha, na Itália, nos Estados Unidos. Em França,
ele adquire no entanto uma coloração muito particular porque consti­
tui um momento essencial de uma discussão mais vasta sobre o papel
das ciências sociais na universidade e na sociedade, cujas conotações
políticas, nas origens da III República, são conhecidas; situa-se tam­
bém no rescaldo difícil do caso Dreyfus. Acerca das implicações múltiplas
— políticas, institucionais, epistemológicas — desta polêmica, remeto
para a excelente análise de Madeleine Rebérioux apresentada ao colóquio
consagrado ao «Nascimento dos Annales» (Estrasburgo, Outubro de 1979);
publicado nas actas do colóquio em 1980.
CAPÍTULO / 19

mostra nada atento àqueles que, do lado dos historiadores,


vinham estruturando, com os meios ao seu alcance, uma crítica
epistemológica ou institucional parcial, mas de forma ne­
nhuma negligenciável. Trata-se claramente de um manifes­
to, e possui também as vantagens do gênero. Radicaliza as
oposições, simplifica pontos de vista que cliva fortemente,
mas formula, com toda a clareza, os dados da polêmica. Este
manifesto é importante por várias razões. Recordamos aqui
o lugar de Simiand e da sua obra na reflexão dos Annales,
entre L. Febvre, comentador perspicaz do Cours ctéconomie po-
litique, E. Labrousse e ainda, mais recentemente, J. Bouvier.
Ele veio chamar a atenção para a influência que exerceu a
escola francesa de sociologia sobre a geração de Bloch e de
Febvre. Desempenha aí um papel complexo: os durkheimia-
nos propunham aos seus colegas historiadores, simultanea­
mente, um projecto, um estilo de intervenção e um modelo de
sociabilidade intelectual (que ilustra a primeira Année sociolo-
gique1). Se damos aqui tanta importância ao texto de Simiand,
é porque ele foi explicitamente reivindicado. Sob a direcção
de F. Braudel, os Annales voltaram a publicá-lo, com efeito,
sem tirar nem pôr, em 1960, numa rubrica significativa —
Debates e combates — , acompanhado muito simplesmente
de uma nota que lembrava a sua importância para os histo­
riadores formados antes da Segunda Guerra Mundial. Assim,
este artigo de circunstância, datado, escrito no seio do com­ Tfc/iXo T>£
bate durkheimiano, surge como uma espécie de matriz teórica. yào£ Cov\Q
As relações entre a história e as outras ciências sociais são aí
definidas em termos que são ainda admissíveis, pelo menos -CfeoVéC-A
a nível formal, sessenta e cinco anos depois.
Simiand escreve contra uma concepção da história que
denomina «historicizante» e que nos habituámos a chamar
positivista. Nenhuma das duas designações é satisfatória, e
foT sem dúvida um erro aceitá-las sem procurar identificar7

7 Cf. John E. Craig, «The durkheimians and the Annales school»


comunicação inédita ao IX Congresso Mundial de Sociologia, Upsália,
Agosto de 1978; R. Chartier e J. Revel, «Lucien Febvre et Ies Sciences
sociales», Historiem et géographes, Fevereiro de 1979, pp- 425-442.
20 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

melhor o conjunto complexo de concepções e de práticas que


se agrupam sob estes rótulos8. Mas, tal como acontece fre­
quentemente, o adversário é aglutinado no interesse das ne­
cessidades da polêmica. No fundo, a história que Simiand
critica é, paradoxalmente, aquela que assume, como meio e
como finalidade, a constituição de um método proclamado
científico «que deve servir de ponto de união e de informa­
ção para todos»9 e que define por si só as ambições e os pri­
vilégios do conhecimento histórico. Para esta «escola metodo­
lógica», a tarefa essencial é o estabelecimento dos factos (se­
gundo as regras da crítica erudita) afirmando que se trata de
dados cujo sentido já é, precisamente, conhecido de antemão.
Basta portanto restituir-lhes a sua realidade original. Cada
um desses factos constitui para além disso uma unidade su­
ficiente, e todos vêm espontaneamente organizar-se no in­
terior de um relato objectivo, de uma intriga — o tempo
cronológico da evolução e do progresso — que compete
apenas ao historiador tornar visível e correcta. Ora, para
Simiand, as técnicas críticas da história não definem de for­
ma nenhuma uma ciência positiva, limitando-se a levar a
cabo um «processo de conhecimento»; o empirismo reivin­
dicado pelos historiadores repousa de facto sobre escolhas
que nunca são explicitadas. A constituição de uma verdadei­
ra ciência social passa por novas exigências conceptuais, e
em primeiro lugar, pela escolha de hipóteses que devem ser
verificadas. Nesta perspectiva, o facto isolado não significa
nada; não é dado: é construído de forma a integrar-se em
séries que permitirão determinar regularidades e sistemas de
relações. A dimensão temporal já não apresenta pois, aqui,
os limites constrangedores de uma cronologia linear, mas um

8 Encontramos elementos de crítica no artigo de Ch. O. Carbonell,


«L'histoire dite 'positiviste’ en France», Romantisme, número especial
acerca de «Le(s) positivisme(s)», 21-22, 1978, pp. 173-186; e em Giu-
liana Gemelli, «Tra due crisi: la formazione dei método delle scienze
storico-sociali nella Francia republicana», Atti delia Accademia delle scienze
dell'lstituto di Bologna, Rendiconti, 1977-1978, pp. 165-236.
9 G. Monod, «Du progrès des études historiques en France», Revue
historique, t. I, 1876.
CAPÍTULO 1 21

enquadramento no qual se podem estudar variações e recor­


rências: serve de laboratório a uma pesquisa que afirma à
partida a necessidade da comparação. A classificação cons­
truída sobre factos sociais deve assim desembocar numa iden­
tificação de sistemas: «Portanto, se o estudo dos factos hu­
manos tende a explicar, no sentido científico da palavra, [...]
propõe-se como tarefa dominante isolar as relações estáveis
e definidas que [...] podem surgir entre os fenômenos.»
Quando relemos este texto de 1903, vemos bem o que os
Annales irão retomar do programa de Simiand: a primazia da
história-problema, a convergência das ciências humanas, e
até mesmo o convite ao trabalho colectivo, ao inquérito, dos
quais conhecemos a importância na historiografia que se irá
seguir.
Mas, curiosamente, de onde vemos surgir este manifesto
que propõe de forma tão explosiva o repensar da investiga­
ção em ciências sociais? De um sociólogo durkheimiano, re­
presentante de uma prática científica nova, conquistadora,
mas reduzida — durante muito tempo — à marginalidade
universitária e social10. Na viragem do século, a sociologia
está muito pouco inserida no sistema acadêmico francês, mas
tem o dinamismo das novas realizações. Os sociólogos man­
têm com os historiadores relações ambíguas de solidariedade
e de rivalidade: têm frequentemente origens universitárias,
intelectuais, políticas, comuns e a história teve desde sem­
pre um lugar de eleição nas recensões críticas da Année socio-
logique. Mas a sociologia, ainda minoritária, reivindica face
às outras ciências do homem e singularmente à história, o
estatuto proeminente e o direito de controle conceptual cujo

10 Acerca destes aspectos remetemos para os notáveis estudos de


Victor Karady: «Durkheim, les Sciences sociales et l'université: bilan d'un
semi-échec», Revue française de sociologie, 2, 1976, pp. 267-312; «Re-
cherches sur la morphologie du corps universitaire littéraire sous Ia
Troisième République», Le Mouvement social, n° 96, 1976, pp. 47-79;
«Stratégies de réussite et modes de faire-valoir de la sociologie chez
les durkheimiens», Revue française de sociologie, 1, 1979, pp. 49-82; e,
mais longamente, nos dois números especiais que a Revue française de
sociologie consagrou em 1976 e 1979 a Durkheim e aos durkheimianos.
22 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

tom e cujo exemplo a polemica de 1903 veio ilustrar.


E claro que não é indiferente que depois tenha partido da
periferia do sistema universitário a chamada de atenção para
a necessidade de fazer — obstinadamente — a unidade das
ciências sociais, proposta por detrás da qual se afirmará, pou­
co depois, um imperialismo sociológico. Porque é do ponto
de vista do sociólogo que os compartimentos disciplinares
são menos admissíveis: não têm validade epistemológica, mas
desempenham um papel intelectual institucional limitador e
retrógrado impedindo toda e qualquer reformulação do de­
bate científico.
No novo dispositivo da ciência social foi devolvido um
lugar particular à história. Não há, em princípio, nada que
distinga a prática do historiador da do sociólogo, do econo­
mista ou do geógrafo. A história vê ainda ser-lhe atribuído
o papel de banco de ensaio empírico para examinar hipóteses
forjadas fora dela. É que no fundo a dimensão temporal pro­
põe apenas a possibilidade de experimentação a ciências que,
por definição, estudam factos não reproduzíveis — pelo me­
nos no sentido em que o entendem as ciências exactas.
A história vê assim ser-lhe atribuído um duplo papel: o de
uma abordagem entre outras do social, mais particularmente
encarregada de dar conta dos fenômenos passados; e um ou­
tro, mais específico, que a define como uma ciência social
experimental, anexo ou prova, como se queira, de todas as
outras ciências sociais. Tem uma posição importante; mas
não central.

Situemo-nos agora em 1929, no momento da criação dos


Annales. O discurso inaugural de Marc Bloch e de Lucien
Febvre11 retoma de forma bastante exacta os termos de Si-
miand. Vai também evocar, para as criticar, as barreiras dis­
ciplinares que ainda separam os historiadores de todos aque­
les que se consagram «ao estudo das sociedades e das econo­
mias contemporâneas»; atribui à revista a tarefa de unificar1

11 M. Bloch, L. Febvre, «A nos lecteurs», Annales d'histoire économi-


que et sociale, 1, 1929, pp. 1-2.
CAPÍTULO / 23

empiricamente («pelo exemplo e pelos factos») não apenas o


campo da investigação científica, demasiado compartimenta-
do pelas especialidades, mas também, globalmente, a área
das ciências sociais.
As opções da revista explicitam este programa. Para co­
meçar a escolha do título: na fórmula «história econômica e
social», retomada da grande revista alemã Vierteljahrschrift
für Sozial-und Wirtschaftsgeschichte, é o social que se vai so­
brepor. Em primeiro lugar, porque «não existe uma história
econômica e social. Só existe a história na sua unidade»,
como lembrará L. Febvre, já depois de 1933, na sua lição
inaugural no Collège de France. Depois, e talvez sobretudo,
porque o social está à medida das ambições ecumênicas e
unificadoras da iniciativa. E ainda Febvre quem o diz clara­
mente: «Um a palavra tão vaga como social... parecería ter
sido criada para servir de insígnia a uma revista que pre­
tende não se rodear de muralhas12.» As opções intelectuais
dos Annales são, também elas, significativas. Vão recrutar os
seus colaboradores muito para além do círculo dos historia­
dores ou das pessoas ligadas à universidade. A informação e
a reflexão sobre fenômenos muito recentes — em especial
sobre as sociedades em vias de transformação rápida e vo­
luntária — estão aí surpreendentemente presentes. À ima­
gem da Année sociologique, a leitura crítica dos trabalhos de
sociologia, de economia, de geografia, de psicologia, ocupa
um lugar essencial ao lado das recensões mais propriamente
históricas — , excepcional mesmo se se compararem os sumários
dos primeiros Annales com os das outras revistas históricas
da época e provavelmente até dos nossos dias. Ainda inédi­
tos nas publicações históricas, os programas de inquéritos
colectivos que pretendem reunir competências e interesses
pluridisciplinares. As múltiplas abordagens do social, inspi­
radas na maioria dos casos por questões do presente, estão
no centro da renovação historiográfica dos anos 1930.
A infância da revista é o momento das descobertas e das
aventuras. Umas e outras são permitidas, uma vez que se

12
Texto retomado em Combats pour 1'histoire, Paris, 1953, p. 20.
24 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

inscrevem na perspectiva unificadora de uma ciência das so­


ciedades humanas. As relações esboçadas entre a história e
as ciências sociais parecem situar-se perfeitamente no pro­
jecto proposto por Simiand, na geração anterior. Mas não é
certo que as suas implicações e sentido sejam os mesmos.
Veja-se a longa nota crítica que consagra Lucien Febvre, em
1930, ao Cours dlécomomie politique de Simiand, justamente.
Bastante elogiosa, termina com estas palavras: «Historiado­
res, que nos resta? Resultados a utilizar tais quais? Proces­
sos de investigação a transportar do presente para o passado,
sem modificação, ou pelo menos, com a preocupação de os
modificar o menos possível? Evidentemente que não13.» Po­
demos, e devemos ler este texto como um relembrar da fun­
ção heurística consentida por Simiand à experimentação
histórica no seio de uma ciência social unificada. Mas será
que o traímos se virmos aí a impaciência de um historiador
que reivindica a especificidade da sua abordagem e a neces­
sidade de uma dimensão histórica em toda a reflexão acerca
dos objectos sociais?
Historiadores por formação e carreira, Bloch e Febvre es­
tão, antes de tudo o mais, preocupados com confrontações
empíricas às quais começam por abrir os Annales. A descom-
partimentação disciplinar que proclamam e que se esforçam
por ilustrar na revista não se identifica exactamente, nem
nas intenções, nem nas realizações, com o modelo durkhei-
miano. Percebemos rapidamente o que dele mantêm e o que
rejeitam. O que mantêm: a vontade de uma maior eficácia
intelectual obtida através de um incessante pôr em causa
das noções adquiridas, acerca dos limites instituídos: «Quan­
do, aos vinte anos, com um misto de admiração e de rebel­
dia instintiva líamos VAnnée sociologique, uma das novidades
que mais chamava a nossa atenção era esse esforço perpétuo
de ordenação, de readaptação dos sistemas de classificação
que se flexibilizava, se modificava, de volume para volume
— sempre por razões que os colaboradores de Durkheim ex­

13 L. Febvre, «Histoire, économie et statistique», Annales cthistoire


économique et sociale, II, 1930, pp. 581-590.
CAPÍTULO l 25

punham, discutiam, formulavam de maneira clara14». O que


rejeitam também quanto mais não seja por omissão: toda a
construção teórica que a abordagem de uma ciência social
pressupunha. N o caso deles, a afirmação de uma unidade do
social mais do que partir de uma posição epistemológica as­
senta numa convicção de historiadores. No momento em que
se preparava para se tornar depositária do social — como
tinha sido no século X IX , do nacional — , a história retoma
sintomaticamente as insistências e as imagens românticas:
para Bloch e para Febvre, tal como tinha sido para Michelet
e como será depois para Braudel, a sua unidade é «a da vida».
Referência orgânica fundamental sobre a qual se encontrarão
cem variações nas páginas dos Annales: ela é sem dúvida,
sobretudo, um acto de fé e não uma exposição, baseada no
direito, das novas ambições dos historiadores. Mas, tal como
é ela vai revelar-se portadora de um formidável dinamismo,
de um insaciável apetite, para retomar a linguagem carnívora
tão querida a Febvre e Bloch; apetite de leituras, de inicia­
tivas, de experiências; dinamismo confederador, que coloca
rapidamente a história no centro das ciências do homem.
Voltaremos a abordar mais adiante esta vocação confede-
radora da história. Retenhamos que ela se faz em nome do
concreto contra o «esquematismo», a tentação da «abstrac-
ção»: «A história vive de realidades, não de abstracções»; é
um facto que os termos do debate são datados. Contudo,
irão caracterizar durante vários decênios a historiografia que
se desenvolve à volta da revista. Explicam em parte a força
de atracção de um movimento que, para além das suas es­
colhas intelectuais e até nessas mesmas escolhas, permanece
profundamente acolhedor, e mesmo ecléctico. Uma vigilân­
cia crítica incessante, uma retórica combativa não impedi­
ram, os Annales de se tornarem um local de acolhimento,
antes pelo contrário. N a viragem do século, a geografia vi-
daliana tinha dado o exemplo de um questionário aberto, de
uma investigação ao mesmo tempo multiforme e integrada,
bem como de uma investigação concreta, inscrita numa re-

14 L. Febvre, art. cit., p. 583-


26 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

gião, no seio de grupos humanos, numa paisagem: Marc Bloch,


e mais ainda Lucien Febvre, reivindicaram vezes suficientes
a sua herança para que seja necessário determo-nos muito
tempo neste ponto. Foi esta a experiência que os Annales
se dedicaram a retomar e a orquestrar em maior escala15.
A apreensão do facto social, porque deve ser global, interdi­
ta qualquer exclusão, e recusa mesmo o estabelecimento de
qualquer tipo de hierarquia entre as abordagens particulares
de que é objecto. A (relativa) dominante «econômica e so­
cial» dos primeiros anos da revista não deve induzir-nos em
erro neste ponto: a. economia é privilegiada em primeiro lu­
gar porque o seu estudo tinha sido, até aí, demasiadamente
descurado; em seguida e sobretudo porque as relações so­
ciais são aí mais densas e mais visíveis que noutros casos;
mas não desempenha de forma nenhuma o papel de uma ins­
tância que determine o conjunto dos funcionamentos sociais,
no sentido em que o entende a análise marxista com a qual
o Bloch e o Febvre dos Annales mantêm aliás relações de
alguma reserva e mesmo, frequentemente, de crítica aberta16.
As razões das suas reticências foram explicitadas muitas
vezes, apesar de nunca terem sido expostas de forma sis­
temática. Têm a ver com uma desconfiança instintiva pe­
rante toda e qualquer construção teórica passível de se tor­
nar limitadora. Remetem para uma abordagem do social que

15 É sem dúvida inútil hierarquizar retrospectivamente as influên­


cias; o modelo geográfico parece, contudo, mais determinante nas ori­
gens dos Annales do que o da Revue de synthèse historique de Henri Berr:
precisamente por causa da integração efectiva das abordagens no seio
de uma investigação concreta que ilustram o Tableau géographique de la
Trance de Vidal de La Blache e as grandes teses regionais dos seus
discípulos; mas também porque a ideologia das realizações de Berr per­
manece marcada por um evolucionismo social fundamental que é alheio
tanto a Febvre e a Bloch como aos seus sucessores. Os Annales devem
principalmente à Synthèse uma rede e uma forma de sociabilidade inte­
lectual cujo papel é importante pelo menos durante os primeiros .anos
da revista.
16 Acerca destas relações, vejam-se as interessantes observações de
Marina Cedronio na sua contribuição «Profilo delle Annales», na anto­
logia colectiva Storiografia francese di ieri e di oggi, Nápoles, 1977, em
particular, pp. 10-18.
CAPÍTULO I 27

é globalizante no seu projecto, mas fundamentalmente empírica


na actuação. Porque o social não é nunca objecto de uma
conceptualização sistemática articulada; ele é, principalmente,
o lugar de um inventário, sempre aberto, das correspondên­
cias e das relações que fundam a «interdependência dos
fenômenos». A Société féodale de Marc Bloch: «A análise e
a explicação de uma estrutura social com as suas ligações'1.»
E Lucien Febvre: «A tarefa do historiador não é encontrar e
desenrolar entre os grupos e as sociedades uma cadeia inin-
terrompida de filiações sucessivas [...], mas sim descortinar
no passado toda uma série de combinações infinitamente ricas e
diversas.» A tarefa das ciências humanas é explicar o social
complexificando-o e não simplificando-o através de abstrac-
ções, enriquecendo-o de significações actualizadas pelo labi­
rinto indefinido das relações. É preciso distinguir e classifi­
car, sem dúvida; mas a taxinomia tende antes de mais para
a reunião e o melhor ponto de vista é sempre aquele que
permite confrontar o maior número de fenômenos.
Empirismo, abertura em princípio a todas as confronta­
ções: a dinâmica dos Annales explica-se talvez tanto por uma
aptidão reivindicada para a inovação como pelo prestígio de
uma proposta metodológica nova. Mas a sociologia acadêmi­
ca da França de entre duas guerras ajuda, também, a com­
preender o êxito da iniciativa. Os Annales não são a primeira
tentativa de organizar as ciências sociais em torno da história.
Em redor da Revue de synthèse historique, do Centre interna-
tional de synthèse, da sua colecção «L'evolution de l'huma-
nité», Henri Berr tinha tentado a constituição de uma rede
de que faziam parte Febvre e Bloch e na qual puderam be­
ber quando o seu momento chegou. No entanto a Synthèse
situava-se à margem das instituições universitárias e faltou-lhe
sempre legitimidade acadêmica. Ora, esta foi sempre, desde17

17 Febvre censura ainda ao livro, na análise crítica que lhe consa­


gra (Annales dhistoire sociale, 1940, pp. 39-43 e 1941, pp. 125-130), o
facto de ser demasiado esquemático e de marcar um regresso ao «so­
ciológico que é uma forma sedutora do abstracto». Todavia, as posi­
ções dos dois directores dos Annales não coincidem totalmente e evo­
luem em sentidos diferentes nos dez primeiros anos da revista.
28 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

o início nos Annales um dado adquirido. Quando estes lu­


tam contra as concepções historiográficas que dominam a
universidade, fazem-no a partir de uma posição universitária.
Os seus fundadores são historiadores conhecidos, cuja carrei­
ra fora já, em grande parte, reconhecida, não são de forma
nenhuma marginais; os seus primeiros colaboradores, que darão
à revista a sua fisionomia original, são recrutados numa Uni­
versidade de Estrasburgo que se queria brilhante e inovado­
ra depois da vitória; beneficiam do patrocínio prestigioso de
Henri Pirenne.
Ora, de entre as ciências sociais, a história — e, em me­
nor grau a geografia, com a qual mantém, aliás, uma relação
simultaneamente privilegiada e hierarquizada — beneficia
de um estatuto favorecido. A sociologia atravessa então um
longo purgatório. Os jovens durkheimianos tinham sido dis­
persos pela guerra; o líder da escola desaparecera e, com ele,
o projecto sistemático de que a segunda Année sociologique
não conseguirá (ou não quererá) retomar nem o espírito,
nem o tom. Com a psicologia, a sociologia permanece ligada
ao ensino filosófico nas faculdades de letras: as cátedras são
raras, aliás, e encontram-se predominantemente nas grandes
instituições, nas secções da École des hautes études ou no
Collège de France. A etnologia permanece circunscrita ao
Museu do Homem até depois da Segunda Guerra Mundial.
A economia mantém-se afastada, nas faculdades de direito
diversificadas muito antes no que diz respeito aos ensina­
mentos e às formações que propõem, mas que comunicam
pouco com o ensino «geral» das faculdades de letras18. Quan­
to à história, poderiamos afirmar que beneficia do prestígio
tradicional das disciplinas clássicas. Entre tradicionalistas e
inovadores detém numerosas cátedras, oferece carreiras, ren­
tabiliza competências intelectuais. Gere um capital social,
institucional, muito mais pesado que o das outras discipli­
nas, e dispõe de uma legitimidade científica e simbólica muito
mais forte. E neste dispositivo universitário que a inovação

18 Vejam-se alguns desenvolvimentos muito enriquecedores em V.


Karady, «Durkheim, les Sciences sociales...» citado, principalmente a
pp. 275-288.
CAPÍTULO I 29

historiográfica — a ofensiva dos Annales — se inscreve. Esta


tira partido dele, e ao mesmo tempo reforça-o. E sem dúvida
esta conjuntura o que explica a conformação particular do
campo das ciências sociais em França organizado em torno
da história durante pelo menos trinta anos.
Tudo o demonstra: o sucesso, em primeiro lugar, e o efei­
to de arrastamento conseguidos pela revista conduzida por
Bloch e Febvre; o projecto da Encyclopédie française confiado
ao segundo, desde 1932, por Anatole de Monzie; a constru­
ção da IV Secção da École Pratique des hautes études, local
onde o ensino e a investigação em ciências sociais se concen­
traram mais fortemente em França imediatamente a seguir à
guerra, em torno de um núcleo de historiadores; dois histo­
riadores, Febvre e Braudel, foram responsáveis por este esta­
do de coisas e os historiadores continuaram a desempenhar
aí um papel determinante apesar de terem deixado há muito
de ser maioritários quando se transformou em École des hau­
tes études en Sciences sociales. E hoje, quando com o atraso
habitual, os media — dos manuais escolares aos programas
de televisão — descobrem as ciências sociais, de forma desi­
gual e por vezes escandalosa, é através da história que as
abordam mais facilmente, talvez também por ser ela que propõe
o acesso mais fácil. Remodelado, renovado, continuamente
regenerado, o imperialismo dos historiadores dominou as ciên­
cias sociais em França quase sem discussão durante pelo menos
uma geração. Ao mesmo tempo, as outras disciplinas foram
sendo, em parte, redefinidas em relação à história e, por ve­
zes, contra ela. Detenhamo-nos um momento nesta mudança
de perspectiva.

Foi proposto um programa de unificação no início do sé­


culo, por sociólogos, em nome de uma concepção unificada,
integrada das ciências sociais. Trinta anos mais tarde, é re­
tomado e desviado, do interior, por um grupo de historiado­
res universitários por meio de uma revista que começou por
ser marginal passando depois a ser, progressivamente, re­
conhecida — alguns dirão institucionalizada — dotada em
todo o caso de um magistério intelectual importante. O pro­
grama inicial — o dos durkheimianos — saiu razoavelmente
30 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

deformado desta experiência. A confrontação desejada reali­


zou-se em parte: mas não retoma, nem nas modalidades, nem
nos fins, a construção voluntarista e quase transparente que
anunciava Simiand em 1903. Nunca assume, em todo o caso,
o aspecto de uma integração, nem mesmo de uma reorgani­
zação disciplinar. A palavra de ordem do segundo pós-guer­
ra é a interdisciplinaridade. Face à proliferação das especia­
lidades e à sua lenta institucionalização, é preciso constituir
novas instituições de acolhimento, espaços científicos aber­
tos onde o encontro seja possível. Enquanto o projecto dur-
kheimiano propunha uma reformulação radical do questionário
das ciências sociais tentar-se-á, a partir de então, inventar
estruturas de concentração, de colaboração, de comunhão de
métodos e de resultados; curiosamente é imaginado em ter­
mos espaciais, facto de que dá conta um relatório oficial, re­
digido em 1957: «Todas as ciências humanas são ‘cruzamen­
tos' ou, se se preferir, pontos de vista diferentes sobre o
mesmo conjunto de realidades sociais e humanas [•..] qual­
quer que seja a sua idade (ou o seu êxito). Consequente­
mente, ao sabor da conjuntura intelectual, houve e deve ha­
ver fases de aproximação e fases de segregação das diversas
ciências humanas. As fases de segregação — onde cada um,
embrenhando-se no seu domínio específico, o defende do seu
vizinho — correspondem ao nascimento das novas ciências,
ou seja de novos métodos e de novos pontos de vista: a demo-
grafia, a sociologia, a etnografia, para citar os exemplos mais
recentes. As fases de aproximação permitem às ciências já
constituídas assimilar esses novos resultados [...]. Hoje, de­
pois do desenvolvimento algo desordenado de várias ciências
novas, impõe-se uma aproximação global, entenda-se um pôr
em comum de tudo o que se adquiriu e uma ultrapassagem
sistemática de velhas posições19.» O desenvolvimento da VI

19 H. Longchambon, «Les Sciences sociales en France. Un bilan, un


programme», Annales ESC, 1958, 1, pp. 96-97. O artigo, publicado
com um comentário caloroso à revista, é extraído de um relatório so­
bre as ciências sociais apresentado ao governo em Junho de 1957. Hen-
ri Longchambon era então presidente do Conseil supérieur de la re-
cherche scientifique et du progrès technique.
CAPÍTULO I 31

Secção da École des hautes études, os projectos de uma Mai-


son des Sciences de 1'homme nos anos 1950 (cuja história
será necessário fazer um dia), ilustram bem esta concepção.
Em todos estes empreendimentos, os historiadores desem­
penham um papel multiforme de iniciadores, aglutinadores,
coordenadores e serão durante muito tempo os principais
beneficiários dos ganhos das ciências sociais, cuja penetra­
ção em França data apenas de há uma vintena de anos*.
Constatam-se assim estranhos atrasos, desfasamentos surpreen­
dentes. A reflexão antropológica desempenha hoje um papel
central, quase referencial; ora não é com a tese sobre os Nam-
bikwara (1948), nem mesmo com as Estruturas Elementares do
Parentesco (1949), que Claude Lévi-Strauss atinge, para além
do círculo dos especialistas, um público intelectual, mas com
Tristes Trópicos (1955) e sobretudo com a publicação da An­
tropologia Estrutural (1958). Noutros casos os atrasos de re­
conhecimento serão ainda muito maiores. Às dificuldades de
recepção vêm somar-se os problemas ligados à instituciona­
lização tardia e frequentemente parcial, dos vários ramos das
ciências sociais no sistema universitário; também aí umas e
outras reforçaram, durante muito tempo, a posição dos his­
toriadores. Entenda-se que não se trata, por parte destes
últimos, de uma intenção maquiavélica com a finalidade de
reger as ciências do homem. Basta percorrer, através de um
número considerável de recensões e notas críticas, o leque
das leituras e dos interesses de Lucien Febvre, para disso
nos persuadirmos. Simultaneamente Fernand Braudel esfor­
çava-se por manter um diálogo difícil com o sociólogo Geor-
ges Gurvitch e com o economista François Perroux; pouco
depois, será um dos primeiros a saudar, nos Annales, a im­
portância dos primeiros trabalhos de Michel Foucault. De­
vemos responsabilizar os efeitos induzidos pela delimitação
das disciplinas bem mais do que as intenções ou as pessoas.
Esta menoridade das ciências sociais, prolongada durante
um tempo demasiadamente longo, esteve em risco de se pa­
gar muito cara pela história que ainda imperava no início

Texto escrito em 1979-


32 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

dos anos 1960. A extraordinária violência da reacção estru-


turalista em França, há cerca de vinte anos, exprimiu-se em
termos de um anti-historicismo por vezes terrorista. Vários
elementos confluíram nessa atitude: a definição de novos mé­
todos, desencadeando processos de trabalho relativamente
homólogos em vários domínios até aí separados; a reivindi­
cação (legítima) de campos teóricos específicos, sem dúvida
nenhuma; a decepção de uma inteligenzia desiludida pelos
ardis da história real, como demonstrou F. Furet20; mas tam­
bém, e talvez não se tenha insistido até aqui suficientemente
neste ponto, uma vontade de emancipação intelectual e ins­
titucional.
Há um texto de Fernand Braudel que dá a medida da
amplitude do debate ainda antes de este se ter tornado ver­
dadeiramente empenhado. Trata-se de um artigo clássico acerca
«Da longa duração», publicado nos Annales em 1958 — no
mesmo ano da Antroplogia Estrutural. É conhecido sem que
seja necessário voltar a dizê-lo, o impacte que obteve. Dele
se reteve e discutiu sobretudo a sistematização da análise
diferencial das temporalidades sobre a qual tinha sido cons­
truído o Mediterrâneo. Também se pode ler aí — e os dois
aspectos não se encontram reunidos por acaso — uma situa­
ção da investigação em ciências sociais e, mais especificamente,
uma reflexão sobre as relações que mantém a história com as
outras disciplinas. O texto inicia-se com a constatação da
existência de «uma crise geral das ciências do homem» si­
multaneamente «sobrecarregadas com o peso do próprio pro­
gresso» e tentadas pelo fechamento sobre si mesmas em nome
da sua respectiva especificidade. Por detrás deste quadro corre
pois, como uma filigrana, a nostalgia de uma unidade que
os durkheimianos tinham identificado com o método so­
ciológico e que os Annales de Febvre e Bloch tinham deseja­
do realizar em nome de uma história sem fronteiras. Mas,
trinta anos depois, que lugar é proposto à história? Braudel
apresenta-o como «um a das possibilidades de linguagem

20 François Furet, «Les intellectuels français et le structuralisme»,


Preuves, 1967, pp. 3-12.
CAPÍTULO I 33

comum tendo em vista uma confrontação das ciências so­


ciais». E, mais explicitamente ainda: «Quer se trate do pas­
sado quer da actualidade, é indispensével que haja uma cons­
ciência nítida desta pluralidade do tempo social para chegar
a uma metodologia comum das ciências do homem21.» Não
há dúvida que a exigência de uma perspectiva histórica, em
toda a interrogação sobre o social, é aqui claramente reto­
mada; também não há dúvida de que a história conserva a
sua vocação unificadora, ainda que tenha deixado de ser
a única perspectiva a oferecer uma linguagem comum à co­
munidade dos especialistas. Mas quem não sente que o tom
mudou, e quem não pressente que, por detrás da inquieta­
ção explícita, se opera uma reorganização do campo científico?
Assim, no momento em que o dispositivo institucional que
organiza as ciências sociais está talvez mais poderosamente
organizado em torno da história, há um historiador que es­
colhe os Annales para propor aí uma revisão necessária à qual
talvez não se tenha prestado a atenção devida na altura.
Abre-se assim uma crise: crise larvar da qual só se terá
plena consciência, como acontece com frequência, quando tiver
sido já resolvida em parte, quando as relações entre a história
e as outras ciências humanas se tiverem redefinido empirica-
mente. Descobrir-se-á então que as modalidades do trabalho
científico mudaram ao mesmo tempo que o projecto pluri-
disciplinar. Surgirá mais tarde a inquietação, acerca da fide­
lidade dos historiadores ao programa inicial dos Annales, como
se um programa fosse indiferente às condições intelectuais
em que foi pensado.
Contudo, no momento, foram raros aqueles que soube­
ram reconhecer as renovações em curso. Esta miopia tem causas
evidentes. Antes que a recusa da história se tivesse tornado
durante alguns anos, uma palavra de ordem polemica, foram
tecidos laços reais entre as diversas práticas disciplinares e a
exigência de uma dimensão histórica está patente em mui­
tos trabalhos sobre ciências sociais levados a cabo em Fran-

21 Fernand Braudel, «Histoire et Sciences sociales. La longue du-


rée», Annales ESC, 1958, 4, pp. 752-753-
32 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

dos anos 1960. A extraordinária violência da reacção estru-


turalista em França, há cerca de vinte anos, exprimiu-se em
termos de um anti-historicismo por vezes terrorista. Vários
elementos confluíram nessa atitude: a definição de novos mé­
todos, desencadeando processos de trabalho relativamente
homólogos em vários domínios até aí separados; a reivindi­
cação (legítima) de campos teóricos específicos, sem dúvida
nenhuma; a decepção de uma inteligenzia desiludida pelos
ardis da história real, como demonstrou F. Furet20; mas tam­
bém, e talvez não se tenha insistido até aqui suficientemente
neste ponto, uma vontade de emancipação intelectual e ins­
titucional.
Há um texto de Fernand Braudel que dá a medida da
amplitude do debate ainda antes de este se ter tornado ver­
dadeiramente empenhado. Trata-se de um artigo clássico acerca
«D a longa duração», publicado nos Annales em 1958 — no
mesmo ano da Antroplogia Estrutural. É conhecido sem que
seja necessário voltar a dizê-lo, o impacte que obteve. Dele
se reteve e discutiu sobretudo a sistematização da análise
diferencial das temporalidades sobre a qual tinha sido cons­
truído o Mediterrâneo. Também se pode ler aí — e os dois
aspectos não se encontram reunidos por acaso — uma situa­
ção da investigação em ciências sociais e, mais especificamente,
uma reflexão sobre as relações que mantém a história com as
outras disciplinas. O texto inicia-se com a constatação da
existência de «uma crise geral das ciências do homem» si­
multaneamente «sobrecarregadas com o peso do próprio pro­
gresso» e tentadas pelo fechamento sobre si mesmas em nome
da sua respectiva especificidade. Por detrás deste quadro corre
pois, como uma filigrana, a nostalgia de uma unidade que
os durkheimianos tinham identificado com o método so­
ciológico e que os Annales de Febvre e Bloch tinham deseja­
do realizar em nome de uma história sem fronteiras. Mas,
trinta anos depois, que lugar é proposto à história? Braudel
apresenta-o como «uma das possibilidades de linguagem

20 François Furet, «Les intellectuels français et le structuralisme»,


Preuves, 1967, pp. 3-12.
CAPÍTULO 1 33

comum tendo em vista uma confrontação das ciências so­


ciais». E, mais explicitamente ainda: «Quer se trate do pas­
sado quer da actualidade, é indispensével que haja uma cons­
ciência nítida desta pluralidade do tempo social para chegar
a uma metodologia comum das ciências do homem21.» Não
há dúvida que a exigência de uma perspectiva histórica, em
toda a interrogação sobre o social, é aqui claramente reto­
mada; também não há dúvida de que a história conserva a
sua vocação unificadora, ainda que tenha deixado de ser
a única perspectiva a oferecer uma linguagem comum à co­
munidade dos especialistas. Mas quem não sente que o tom
mudou, e quem não pressente que, por detrás da inquieta­
ção explícita, se opera uma reorganização do campo científico?
Assim, no momento em que o dispositivo institucional que
organiza as ciências sociais está talvez mais poderosamente
organizado em torno da história, há um historiador que es­
colhe os Annales para propor aí uma revisão necessária à qual
talvez não se tenha prestado a atenção devida na altura.
Abre-se assim uma crise: crise larvar da qual só se terá
plena consciência, como acontece com frequência, quando tiver
sido já resolvida em parte, quando as relações entre a história
e as outras ciências humanas se tiverem redefinido empirica-
mente. Descobrir-se-á então que as modalidades do trabalho
científico mudaram ao mesmo tempo que o projecto pluri-
disciplinar. Surgirá mais tarde a inquietação, acerca da fide­
lidade dos historiadores ao programa inicial dos Annales, como
se um programa fosse indiferente às condições intelectuais
em que foi pensado.
Contudo, no momento, foram raros aqueles que soube­
ram reconhecer as renovações em curso. Esta miopia tem causas
evidentes. Antes que a recusa da história se tivesse tornado
durante alguns anos, uma palavra de ordem polêmica, foram
tecidos laços reais entre as diversas práticas disciplinares e a
exigência de uma dimensão histórica está patente em mui­
tos trabalhos sobre ciências sociais levados a cabo em Fran­

21 Fernand Braudel, «Histoire et Sciences sociales. La longue du-


rée», Annales ESC, 1958, 4, pp. 752-753.
34 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

ça. Nada o ilustra melhor do que a organização da investi­


gação (e das instituições de investigação) em áreas culturais,
concebidas de forma sensivelmente diferente das area studies
americanas, das quais não são, aliás, exactamente contempo­
râneas. Simetricamente, a historiografia associada aos Anna-
les foi, por assim dizer, caminhando à frente destas evolu­
ções, privilegiando o estudo dos sistemas em relação ao es­
tudo da mudança. A constatação é evidente no caso da análise
de uma estrutura social em Bloch (La société féodalé), da defi­
nição dos sistemas culturais e da noção de civilização em
Febvre (Le problème de l'incroyance au XVI1 siècle) e da longa
duração em Braudel. Atentos às permanências, às solidarie-
dades, estes historiadores procuram menos restituir evolu­
ções do que marcar as rupturas que assinalam a passagem de
um sistema a outro, ou que, mais precisamente, identificam
o desvio entre dois sistemas sucessivos: as «revoluções» tec­
nológicas, econômicas, mentais que evocaram tantas vezes.
Objectar-se-á, sem dúvida, referindo o esforço de análise da
conjuntura — das conjunturas econômica, social, cultural —
que os Annales acolheram e encorajaram desde o início e que
continua até aos nossos dias. Mas quem é que não vê que,
por detrás daquilo a que se chama conjuntura na historio­
grafia francesa, o que se procura antes de mais compreender
é a intervenção iterativa dos fenômenos cíclicos cuja com­
plexa interligação caracteriza um modelo? Do mesmo modo
que o estudo dos factos repetitivos delimitará em Braudel
um nível de permanências quase estruturais, os recuos cíclicos
definem em Labrousse um modelo socioeconómico (o Antigo
Regime econômico); e em Meuvret e Goubert, o sistema de
flutuações e os mecanismos da crise caracterizarão, de forma
semelhante, um Antigo Regime demográfico. Convém, sem
dúvida, não forçar demasiadamente a oposição: de F. Simiand
a E. Labrousse e a P. Vilar, a análise conjuntural investirá
também «o tempo econômico que aparece como criador, e
como criador através dos seus próprios ritmos [,..]»22, e toda
uma reflexão sobre o crescimento (aliás bastante variada nas

22 Pierre Vilar, La Catalogne dans 1'Espagne modeme. Recherches sur


les fondements économiques des structures nationales, Paris, 1962, t. I, p. 17.
CAPÍTULO I 35

suas inspirações) far-se-á porta-voz destas preocupações. Não


é verdade que a interrogação acerca do crescimento econômico
assumiu geralmente a forma, de uma análise das condições
de possibilidade do crescimento num sistema dado? E quem
concordará que, na impressionante posteridade da obra de
Ernest Labrousse, a Esquisse desempenhou um papel mais de­
terminante do que a Crise?*
Tem sido frequentemente repetido que a vontade sis­
temática dos Annales era uma espécie de exibição ideológica
perante as desordens reais de um mundo dificilmente inte­
ligível, no tempo da Grande Depressão, contemporânea do
seu nascimento. Como vimos, a inspiração era mais antiga.
Mas continua a ser interessante verificar até que ponto a
história maioritária nos Annales é alheia a qualquer análise
da mudança social, e até mesmo de qualquer explicação da
passagem de um sistema histórico ao sistema seguinte. Sig­
nificativamente, aqueles que a isso se arriscaram foram bus­
car a outros lados os seus modelos de análise, àqueles teori-
zadores que tanto intimidam a nossa historiografia: em Marx
para Georges Lefebvre, para Pierre Vilar sobretudo, e muito
recentemente para Guy Bois; num Malthus revisitado por
Emmanuel Le Roy Ladurie (mas para encontrar aí a negação
da mudança no seio de cinco séculos de história imutável).
Esta orientação, mais frequentemente funcionalista do que
estruturalista avant la lettre, mostra como a história, enquan­
to disciplina, conseguiu sobreviver à crise dos anos sessenta.
Às «novas» ciências sociais, oferecia pelo menos um terreno
onde era possível identificar outras organizações, e outras
lógicas: é o que ilustram de forma muito diferente, o desen­
volvimento da antropologia histórica ou o êxito de uma ar­
queologia de sistemas de pensamento de que Michel Fou-
cault foi o iniciador. Mas estes elementos de continuidade
— seria preciso dizer de conciliação — não devem escon­
der-nos descontinuidades essenciais.
Estas sequências que acabam de ser, rapidamente, recons-

* Esquisse du mouvement des prix et des revenus en France au XVIII'


siècle, 2 ts., Paris, 1933; La crise de 1'économie française à la fin de l'An-
cien Régime, Paris, 1947. (N. do T.)
36 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

tituídas, evocam bem a unidade de um projecto continuado


durante vinte e cinco anos. Cada uma delas, contudo, re­
mete para uma organização quer da prática histórica, quer de
maneira mais ampla, de todo o campo das ciências sociais.
N a definição dos paradigmas que se seguem e se encadeiam,
há dois pontos que estão no centro do debate: a própria uni­
dade deste campo, por um lado, e as modalidades do traba­
lho interdisciplinar, por outro. Retomemos os nossos exem­
plos. Para Simiand, no início do século, a unidade era defi­
nida como uma unidade de método. Ele propunha que a história
se alinhasse com as outras ciências sociais (ou, mais exacta-
mente, que entrasse completamente na ciência social) refor­
mulando o seu método de forma a produzir, segundo regras
homólogas, objectos de estudo comparáveis aos que constrói
' o sociólogo, e com ele o economista, o geógrafo, etc. O pro­
blema da interdisciplinaridade não se colocava então enquan­
to tal. Simiand aceitava como evidente a existência de um
modelo de referência unificado: «[...} creio que, de facto, no
trabalho dos historiadores actuais, na escolha e organização
muito estudadas dos seus trabalhos, na sua preocupação ma­
nifesta de renovar a sua obra aproveitando os progressos fei­
tos pelas disciplinas vizinhas, se manifestam já muitas ten­
dências para a substituição progressiva da prática tradicio­
nal por um estudo positivo, objectivo, do fenômeno huma­
no, susceptível de uma explicação científica, e para apontar
a tarefa essencial no sentido da elaboração consciente de uma
ciência social.»
Na geração seguinte, o modelo tinha mudado. Já se in­
sistiu no facto de por volta de 1 9 3 0 e durante trinta anos, o
campo das ciências sociais em França se ter reorganizado em
torno da história. Mas o que mais nos interessa aqui, é que
9 referente fundamental já não é um método, mas um objec­
to: o homem. A universidade francesa conservou este hábito,
que penso ser original, de denominar ciências do homem
(ou ciências humanas) ao que antes designara e se continua
a designar no estrangeiro, por ciências sociais. A unidade do
campo coloca, agora, do lado do apreendido objecto diversas
práticas científicas, objecto supostamente comum e sobre o
qual se funda a possibilidade de uma investigação colectiva.
CAPÍTULO 1 37

O modelo de troca e de circulação interdisciplinares deixa


assim de ser aqui o de uma normatividade metodológica para
se tornar no do empréstimo conceptual ou factual. As práticas
científicas já não têm que se alinhar umas com as outras
mas sim que capitalizar um fundo comum onde cada um vai
buscar provisoriamente o que lhe serve. Esta capitalização
faz-se numa perspectiva optimista em que a suposta unidade
do homem faz esperar, pelo menos de forma assimptótica,
uma reconciliação geral. Este esquema parece estar implícito
na célebre concepção do zusammenhang que Lucien Febvre
sempre defendeu e quis ilustrar23. Propõe aí uma espécie de
interdisciplinaridade flexível — diz-se por vezes mole — ,
de que a história foi, como era de esperar, o principal bene­
ficiário, tanto pela sua abertura intelectual como pelo seu
dinamismo institucional. Com efeito oferecia o campo de
experimentação mais vasto à comparação e à importação con­
ceptual, e simultaneamente o discurso científico menos co­
dificado e, à partida, o mais acolhedor. Foi ainda Fernand
Braudel quem o escreveu com muita coragem, num momen­
to em que o prestígio e as realizações da história convida­
vam principalmente ao triunfalismo, no seu artigo de 1958:
«[..•1 a história — talvez a menos estruturada das ciências
do homem — aceita todas as lições dos seus vizinhos e es­
força-se por repercuti-las24.»
Esta constelação do saber tem-se vindo a desfazer perante
os nossos olhos desde há uma vintena de anos. O campo da
investigação em ciências sociais fragmentou-se então, clivou-
-se. O homem, figura central do dispositivo precedente, deixa
de ser o referente fundador para se tornar o objecto tran­
sitório, datado, de um ajustamento particular do discurso
científico. É significativo segundo este ponto de vista que,
a obra obstinada, devastadora, de Michel Foucault, As Pala­
vras e as Coisas, mantenha um lugar emblemático: publicado
em 1966, este livro propõe, precisamente, uma arqueologia

23 Há excelentes textos de Febvre no estudo de H. D. Mann, Lucien


Febvre, la pensée vivante d'un historien, Cahiers des Annales, 31, Paris,
1971, pp. 93-122.
24 F. Braudel, «La longue durée», art. cit., p. 726.
38 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

(ou seja uma desconstrução) das ciências humanas. Mas, per­


dida quanto ao seu objecto, a unidade das ciências sociais
também não será reencontrada junto de um improvável mé­
todo geral que não teria, tal como nos é recordado no mo­
mento, precisamente, objecto. A descontinuidade irrompe pois
nas ciências sociais. Tudo se passa, com efeito, como se pe­
rante a hipótese de uma unidade global se tivesse substi­
tuído a constituição de unidades parciais, locais, definidas,
por maneiras de proceder científicas, ou seja, por um traba­
lho. A partir daí trata-se principalmente de confrontar práticas
e medir desvios em relação à construção de objectos parti­
culares em sequências limitadas em vez de reconciliar abor­
dagens diferentes numa abordagem única. Mas é talvez en­
tão que começa um verdadeiro trabalho interdisciplinar. As
compartimentações disciplinares são postas em causa mais
em nome de uma produção específica do que em nome de
um projecto unificador de conjunto. É bem possível que se
tenha começado a assistir a uma reorganização das fronteiras
disciplinares, onde às velhas circunscrições institucionais se
substituirão campos definidos por práticas.
Trata-se da evolução que, desde há uma dezena de anos,
tem sido descrita por vezes como o «estilhaçar da história»,
ou denunciada de maneira mais severa como a tentação de
uma «história das migalhas». Deixemos de momento a polê­
mica de lado. Nenhuma destas caracterizações é completa­
mente pertinente, pois tanto uma como outra parecem iden­
tificar dois aspectos de natureza sensivelmente diferente: por
um lado, a vitalidade de uma pesquisa que não pára de di­
versificar os seus interesses, que multiplica as suas realiza­
ções e que se abre — bem ou mal, pouco importa aqui — a
todas as sugestões; e por outro, as condições epistemológicas
desta investigação; o território do historiador e o estatuto
de um trabalho. Foi a relação de uma com a outra que, de
facto, mudou. Mas será que a exigência de uma prática mais
local, que se esforçasse por experimentar mais explicitamente
as estratégias científicas às quais tem acesso, poderia vir a
pôr em causa a perspectiva de uma história global, tão es­
sencial às duas primeiras gerações dos Annales?
Há alguns anos que esta pergunta não pára de ser for­
CAPÍTULO I 39

mulada e tem servido para exprimir a inquietação ou a irri­


tação que suscita a evolução recente da investigação histórica,
principalmente tal como é apresentada na revista. Não está
claro, aliás, que o problema possa ser colocado correctamente
em termos tão gerais; mas tem pelo menos o mérito de con­
vidar à reflexão sobre os paradigmas dos Annales.
A reivindicação de uma história global — ou total, como
já foi dito, sem que a utilização dos dois adjectivos tenha
sido alguma vez claramente especificada — exprimia, ao mesmo
tempo, uma recusa e uma convicção. A recusa, como vimos,
era a das compartimentações demasiado marcadas entre
os vários conhecimentos e as competências disciplinares,
das especializações abusivas no interior de uma disciplina.
A convicção afirmava que entre as abordagens do social de­
via existir uma coerência e uma convergência e que a inte­
gração das ciências sociais era possível, logo necessária. Es­
tas opções têm constituído, nos últimos cinquenta anos, a
originalidade dos Annales\ mas tiveram consequências que
talvez não seja inútil lembrar.
Na impossibilidade de poder dizer tudo (mesmo que se
conservasse frequentemente a nostalgia de uma ressurreição
integral do passado), o historiador decidia à partida não se
coibir de nada. Ele já era, mais ou menos, geógrafo; fez-se
também economista, demógrafo, antropólogo, linguista, na­
turalista. Trazia para a sua investigação noções, hipóteses,
elementos de comparação, inéditos. Esta capacidade inventi­
va não conheceu nenhum enfraquecimento desde há meio sé­
culo e convoca, novos domínios, a um ritmo crescente. Será
suficiente para definir uma «história global»? Dá mais a im­
pressão de ter procedido por justaposição de abordagens di­
versificadas no interior de um trabalho cuja definição não
tinha sido de maneira nenhuma posta em causa. Os grandes
estudos monográficos (que sob a forma de teses continuam a
constituir, em França, o gênero historiográfico dominante)
ilustram bem esta evolução ambígua: sumários, sempre so­
brecarregados, manifestam o enriquecimento constante do
questionário e dos métodos; mas o âmbito do inquérito — o
«assunto», como se continua a dizer — permanece na maior
parte dos casos estranhamente repetitivo, e como que inerte.
40 HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

Convém ter aqui em conta as limitações da profissão e as


I condições concretas em que se efectua um trabalho que con­
tinua a ser, na maioria das vezes, uma realização individual;
ter em conta também as limitações universitárias e as dos
hábitos. Para além disto, grandes livros recentes (e menos
recentes) existem para nos lembrar que um objecto tradicio­
nal pode ser renovado totalmente na sua definição e na sua
construção. Maioritariamente, a discordância entre o objec-
tivo e os meios permanece, contudo, evidente. Tudo se passa
como se o programa de história global oferecesse apenas um
enquadramento neutro para a soma de histórias particulares
cuja articulação não parece constituir problema.
Ora a contribuição do investimento metodológico não parou
de aumentar, as técnicas de análise e de tratamento dos da­
dos tornaram-se mais complexas — até chegarem a esboçar
novas especialidades com as suas competências e as suas fron­
teiras. Esta evolução é sem dúvida inevitável a partir do
momento em que se sai do nível do programa para o da sua
realização prática. Ao reduzir o campo das investigações, ao
precisar as hipóteses, ao afirmar maneiras de proceder es­
pecíficas, algumas destas histórias sectoriais chegaram a re­
sultados pelo menos verificáveis, por vezes, cumulativos: é o
caso da demografia histórica, ou de certas formas de história
econômica. Mas estas tentativas só progrediram, como acon­
tece com todo o processo científico, delimitando o seu ob­
jecto e demarcando as suas ambições. A sua própria arti­
culação com a disciplina-mãe — cujo objecto permanece fun­
damentalmente por definir — constitui já um problema. Não
é portanto surpreendente que se vejam aparecer novas deli­
mitações e até exclusões. Esta fragmentação do campo histórico
é alarmante na medida em que manifesta a tentação de se
debruçar sobre si mesma acalentando, a longo prazo, situa­
ções adquiridas. Mas não é ela isso mesmo? Sem dúvida que
a unidade das ciências sociais já não parece tão evidente como
podia parecê-lo há vinte anos25. Mas também aqui, o que

25 Claude Lévi-Strauss foi um dos primeiros a exprimi-lo claramente:


cf. «Critères scientifiques dans les disciplines sociales et humaines»,
Revue In te rn atio n ale des Sciences so c iale s , 1964, 4, pp. 579-597.
CAPÍTULO I 41

parece ter-se perdido a nível do programa está talvez em


vias de ser recuperado no trabalho efectivo. N a análise dos
factos sociais a interdisciplinaridade deixa de ser invocada
como panaceia universal para ser experimentada a nível lo­
cal, em campos definidos de maneira mais precisa, onde as
prerrogativas disciplinares se apagam. História «estilhaça­
da» ou história em construção?
Por fim é preciso recordar que, no início, a história glo­
bal era uma interrogação acerca da própria história. O his­
toriador renunciava à lógica e à dinâmica do relato; revoga­
va a perspectiva evolucionista e as interpretações finalistas:
doravante, o passado, tal como o presente, não se encontrava
assegurado; inventariava a espessura e a complexidade do tempo
social. Contra a tentação das sínteses demasiado harmonio­
sas, demasiado esquemáticas, a abordagem global que suge­
riam os Annales queria-se, desde o início, atenta à diversi­
dade dos espaços, às evoluções desfasadas, às temporalidades
múltiplas, às descontinuidades — e não é sem dúvida por
acaso que o Mediterrâneo de Fernand Braudel permanece ain­
da hoje a obra emblemática da iniciativa: no seu projecto,
bem como na arquitectura, o livro diz claramente a vontade
de apreender o social através de todo um sistema de diferen­
ças. Aqui também, as formas e o estilo do trabalho muda­
ram. Mas para além da multiplicidade e do aparente des­
perdício dos esforços, em condições profundamente transfor­
madas, os Annales continuam talvez a testemunhar a favor
de uma forma de história que não procura reduzir à força
desvios e descontinuidades, mas sim torná-los o objecto pri­
vilegiado da sua interrogação, situá-los e compreendê-los.
PARTE II

Duas variações acerca do «popular»


A historiografia tem as suas modas que, como todas as
modas, são como outros tantos sintomas de uma ordem (ou
de uma desordem) cultural e social. Nos últimos vinte anos,
a reflexão acerca da cultura popular tem sido uma delas,
uma das mais visíveis, por vezes uma das mais cansativas.
Seguiu-se-lhe um amplo debate que contribuiu frequente­
mente para obscurecer ainda mais as coisas. E que se forjou,
a partir da própria noção de cultura popular, um instrumen­
to útil, insuficiente, cujo abuso era tentador1.
As razões deste interesse pelo popular são bem eviden­
tes. A partir do momento em que a análise histórica se pas­
sou a interessar pelas massas e já não pelos reis, pelos heróis,
pelos criadores que deixaram um nome, passou a ter o de­
ver, evidentemente, de ir ao encontro da voz dessas multi­
dões anônimas. A solicitação era tanto mais forte quanto a
maioria das sociedades ocidentais conheceram, mais cedo, ou
mais tarde segundo os casos, uma espectacular experiência
de massificação da cultura a seguir à Segunda Guerra Mun­
dial: do livro de bolso à televisão, uma nova circulação in­
duzia uma transferência de valores e de saberes que convida­
va, por sua vez, como é evidente, à interrogação sobre as
formas das partilhas culturais, sobre as resistências à difusão
e sobre as hipóteses de uma cultura de massas. Assistiu-se,
então, a um debate multiforme, confuso, permanentemente
renascente e que, em França, em particular, nem sempre soube
resistir à tentação populista, ou até mesmo miserabilista. Acres­

1 Permito-me aqui remeter para o meu artigo: «La culture popu-


laire: sur les usages et les abus d’un outil historiographique», in Cul­
turas populares, Madrid, Editorial Universidad Complutense, 1986, pp.
223-239.
46 ACERCA DO «POPULAR»

centemos por fim a este esboço as sugestões vindas de ou­


tras ciências sociais: da antropologia sobretudo, e da socio­
logia, em menor grau, que forneciam modelos, conceitos, ter­
ritórios. Não foi preciso mais para que se abrisse um amplo
caminho diante dos historiadores.
Em minha opinião o trabalho parece ter-se revestido de
um duplo aspecto. Traduziu-se, por um lado, num conjunto
de pesquisas «positivas» que se esforçaram por individuali­
zar traços próprios do «popular» a partir de uma documen­
tação bem delimitada: o modelo pôde ser, no caso francês, o
livro pioneiro e envelhecido que Robert Mandrou consagrou
em 1964 à «Bibliothèque bleue» de Troyes. Encontramos
aí, por outro lado, uma reflexão crítica que procurou, numa
desordem bastante grande, especificar (na maioria das vezes
a partir destes primeiros trabalhos) o próprio conteúdo da
noção de «cultura popular». Depois de duas décadas durante
as quais o volume das publicações não parou de aumentar,
temos frequentemente a impressão de ter atingido um curio­
so ponto de incerteza. E certo que sabemos muitas coisas
acerca das práticas culturais colectivas, sobretudo no que diz
respeito às sociedades pré-industriais. Mas, ao mesmo tempo,
os contornos desta nova província tornaram-se cada vez mais
incertos e as concepções dos historiadores menos seguras.
Tínhamos posto mãos à obra sem nos pormos questões pré­
vias, com a convicção de que deveria existir qualquer coisa
como uma cultura popular. Tínhamos provavelmente razão.
É evidente que não se poderia voltar a pôr em causa a exis­
tência, amplamente demonstrada, de formas culturais dife­
rentes, heterogêneas, por vezes alternativas. Mas temos hoje
menos certezas acerca daquilo que está na base desta dife­
rença e da distribuição social destas formas. Demasiado pro­
clamada, invocada por vezes como uma fórmula mágica cujo
efeito seria suficiente para garantir a existência de uma rea­
lidade, a cultura popular aparece hoje como uma noção pre­
cocemente gasta no próprio momento em que se torna ne­
cessário reconhecer a sua fecundidade historiográfica.
Há dois vícios principais que me parecem ter comprome­
tido esta iniciativa. O primeiro consistiu no fechamento fre­
quente numa definição tautológica: em definir o popular atra­
II PARTE 47

vés do povo e vice-versa. Não é de forma nenhuma necessário


precisar este traço que tantos exemplos ilustram. O segundo
consistiu em procurar, na produção cultural, o simples re­
flexo de delimitações econômicas e sociais: ou seja, tradu-
ziu-se, simultaneamente, em negar a autonomia relativa do
campo cultural e em supor, pelo menos implicitamente, a
existência de uma continuidade das produções culturais no
seio de um mesmo quadro de distribuição.
Os dois ensaios que se seguem vão no sentido oposto a
estas convicções. O primeiro, escrito no rescaldo de 1968
como reacção contra uma certa vertigem populista da época,
procura recuperar a forma como a cultura das elites molda
permanentemente a cultura popular que lhe convém. O se­
gundo, escrito dez anos mais tarde, é menos polêmico. Pro­
põe uma indagação do mesmo tipo acerca das figuras do po­
pular que constroem, entre meados do século XVII e o início
do século X IX , saberes legítimos a propósito de formas cul­
turais que geralmente não o são. O meu propósito não é,
portanto, negar a existência da cultura popular, ou antes
daquilo a que chamaria, mais facilmente, as culturas do povo.
Recusa-se a considerá-las como objectos em si mesmas. Con­
tra esta tentação tentei mostrar que as relações estratégicas
entre os actores sociais agem por detrás da constituição das
identidades culturais. Algumas são mais fortes, outras en­
contram-se em posição de fraqueza, de marginalidade, de ile­
gitimidade. Mas as suas posições recíprocas estão em perma­
nente mudança. E o próprio campo cultural na sua totali­
dade que é preciso ter em conta se queremos construir como
conceito operatório, num momento histórico dado, a confi­
guração do popular.
CAPÍTULO II

com
MICHEL DE CERTEAU E DOM INIQUE JU LIA

A beleza do morto: o conceito de «cultura popular»


«Ninguém consente facilmente em ser enterrado vivo, e a magni­
ficência do túmulo não torna a estada mais saudável.»

Charles Nisard

A «cultura popular» pressupõe uma operação difícil de reco­


nhecer*. Foi preciso ter sido censurada para passar a ser estuda­
da. Tornou-se então objecto de interesse porque o seu perigo
tinha sido eliminado. O nascimento dos estudos consagrados à
literatura de colportage** (o livro iniciador é o de Nisard, em
1854) esteve, com efeito, ligado à censura social do seu objec­
to. Desenvolve uma «boa intenção» da polícia. A repressão polí­
tica esteve aqui na origem da curiosidade científica: a eliminação
dos livros julgados «subversivos» e «imorais». Este é um dos as­
pectos de um problema que coloca, no entanto, uma questão geral.

No começo há um morto

Os estudos que têm sido consagrados a este tipo de lite­


ratura tornaram-se possíveis através do gesto que a retirou
ao povo e a reservou aos eruditos ou aos amadores. Também
não é surpreendente que estes a julguem «em vias de extin­
ção», que se dediquem agora a preservar ruínas, ou que aí

* Visamos o conceito de «cultura popular» deixando provisoria­


mente de lado todo o problema da literatura oral tal como ele é
actualmente estudado pelos folcloristas.
* * Literatura de colportage: de venda ambulante mas, também de
cordel (aprox.). (N. do T.)
50 A BELEZA DO MORTO

vejam a calma de um «aquém da história», o horizonte de


uma natureza ou de um paraíso perdido. N a demanda
de uma literatura ou de uma cultura popular, a curiosidade
científica não sabe que repete as suas origens e que procura
assim não encontrar o povo.
Os resultados e os métodos traem, contudo, esta origem,
de que a censura de 1852 é apenas, como veremos, um caso
particular. Há numerosos trabalhos recentes que nos podem
dizer muito acerca deste assunto, mesmo quando ignoram
aquilo que constituiu o lugar onde o seu discurso se coloca.
Nisard, não o ignorava. Vangloriava-se até desse lugar, o de
«secretário adjunto» da polícia:
«Impressionado com a influência perniciosa que tinha
exercido até então, em todos os espíritos, a quantidade de
maus livros que o colportage difundia quase sem obstáculos,
em toda a França, o Sr. Charles de Maupas, ministro da Polícia
Geral, concebeu e executou a sábia iniciativa de estabelecer
uma comissão permanente para o exame desses livros (30 de
Novembro de 1852) e teve a bondade de me chamar para
tomar parte nela, com o cargo de secretário adjunto. Isso
deu-me ocasião de reunir e de estudar esses livrinhos com o
mais escrupuloso cuidado1.»
Esta declaração surgia a seguir às jornadas republicanas
de Fevereiro e Junho de 1848, depois de 1852, data da res­
tauração do Império. Era já possível transformar em «objec-
to» científico aquilo que se tinha perseguido até aí.
Trata-se de um velho reflexo. M. Soriano mostrou que
tinha sido utilizado no tempo da Fronda, em 1647-1653,
quando a linguagem da «canalha», minuciosamente intro­
duzida pelos irmãos Perrault nos seus poemas burlescos, ti­
nha caído em desgraça, ao mesmo tempo que permitia ridi­
cularizar os «clássicos». Por um lado o cavalo de Tróia ser­
via-lhes numa polêmica contra os «antigos»: querela entre
letrados, como hoje em dia entre as escolas antigas e moder­
nas. Mas, por outro lado, esse fundo popular, útil durante
um tempo, torna-se suspeito à medida que vão surgindo os

Charles Nisard, Histoire des livres populaires, 2‘ edição, 1864, p. 1.


CAPÍTULO II 51

levantamentos populares da Fronda. Também os Perrault o


mantêm cada vez mais à distância, irônicos e hostis, na pro­
porção da sua aproximação a Mazarino. O «cômico» e a
«curiosidade» deste fa la r vão a par, entre os grandes bur­
gueses ameaçados, com o triunfo da ordem graças ao Cardeal.
O burlesco mede a derrota do povo, cuja cultura é tanto
mais «curiosa» quanto menos se receiam os seus súbditos2.
Este sistema continua a funcionar, ainda que de outro
modo até nos próprios trabalhos que se inspiram hoje em
convicções contrárias às do passado. Antes eram conservado­
res e evidentemente apaixonados, como Nisard. Após 1960,
sobretudo, a erudição posta ao serviço da cultura popular é
de inspiração marxista, ou pelo menos «populista». Inscreve-
-se também na sequência de uma «história social» em plena
expansão nos últimos trinta anos. Desenha, por Fim, a uto­
pia de uma outra relação política entre as massas e a elite3.
Mas será possível que a operação científica obedeça a outras
leis que não as do passado? Parece, pelo contrário, estar ain­
da submetida a mecanismos de excomunhões muito antigos.
«A sociologia da ‘cultura popular’», dizia Mühlmann, «co­
meça com o laicismo dos hereges4.» Prolonga-se o mesmo
processo de eliminação. O saber permanece ligado a um po­
der que o autoriza.
Portanto, o que está em causa não são as ideologias, nem
as opções, mas as relações que um objecto e determinados
métodos científicos mantêm com a sociedade que os autori­
za. E se os processos científicos não são inocentes, se os seus
objectivos dependem de uma organização política, o próprio
discurso da ciência deve confessar uma função que lhe é au­
torizada por uma sociedade: esconder aquilo que pretende
mostrar. Isto quer dizer que uma melhoria dos métodos ou

2 Marc Soriano, «Burlesque et langage populaire de 1647 a 1653:


sur deux poèmes de jeunesse des frères Perrault», Annales ESC, 1969,
pp. 949-975.
3 Retomamos estes termos — «elite», «massa», «povo», etc. — tal
como são empregues na literatura sobre o assunto.
‘ W. Mühlmann, Les Messianismes révolutionnaires, Paris, Galli-
mard, 1968, p. 218.
52 A BELEZA DO MORTO

uma inversão das convicções não mudará aquilo que uma


dada operação científica faz da cultura popular. E necessário
que intervenha aí uma acção política.
Um pouco de história esclarecer-nos-á, aliás, acerca das
suas repetições.

Nascimento de um exotismo

Como nasce o exotismo do interior, este olhar que supõe


oprimida a realidade que objectiviza e idealiza? Há dois
momentos privilegiados que evidenciam esta óptica: o fim
do século XVIII por um lado, e os anos 1850-1890, por
outro. Apoderou-se da aristocracia liberal e esclarecida do
final do século XVIII uma espécie de entusiasmo pelo «po­
pular». Mas esta «rusticofilia» que se encontra nos roman­
ces de Louvet e Rétif é também o reverso de um medo: o da
cidade perigosa e geradora de corrupção porque as hierar­
quias tradicionais aí se baseiam. Donde o regresso a uma
pureza original dos campos, símbolo das virtudes conserva­
das desde os tempos mais remotos. Mas este selvagem do
interior que é o camponês francês — a espessura da história
substitui aqui a distância geográfica — apresenta a vanta­
gem de estar ao mesmo tempo civilizado pelos costumes cris­
tãos: a proximidade da natureza ligada a séculos de moral
cristã produz estes «súbditos fiéis, dóceis e laboriosos5» que
podem ver-se, por exemplo, em Salancy na Picardia, onde
todos anos a 8 de Junho se coroa uma roseira:
«Salancy, local favorecido pelo céu, se alguma vez se es­
crever a história da Virtude, a tua festa será célebre nos
seus fastos. Aí, dir-se-á, cidadãos sensatos, serenos e bons

5 «Relation de la cérémonie de la rose qui s'est faite dans le village


de Salancy le 8 juin 1766», Noyon, 1766. A cerimônia é presidida pelo
intendente da Picardia Le Pelletier de Morfontaine acompanhado pela
condessa de Genlis, futura educadora de Luís Filipe. Tratar-se-á de um
acaso o facto de na literatura bem pensante destinada ao operário de
Lille do Segundo Império se reencontrar La Rosière de Salancy de Jo-
seph Chantrel (1867, 120 p.)? Cf. Pierre Pierrard, La vie ouvnere à
Lille sous le Second Empire, p. 274.
CAPÍTULO II 53

vivem numa simplicidade digna da primeira idade. Aí, longe


das falsas necessidades, mãos laboriosas fornecem a corpos
vigorosos uma alimentação frugal. Aí, castas esposas fazem
dia após dia a felicidade de esposos honestos. Aí, uma rapa­
riga leva apenas como dote a quem a procura, a sua casti­
dade, a sua doçura e a glória de ter merecido a Rosa. Aí,
enfim, sob os olhos de um Pastor prudente, um povo indus-
trioso, submetido a doces leis, cumpre em paz todos os de­
veres do cristão e do cidadão.
«Festa da Rosa, instituição consagrada pela honestidade
e pela honra! Augusta solenidade, onde o mais simples pre­
ço é outorgado à inocência mais pura6!»
A grande voga das festas deroseiras a partir dos anos 70
do século é o regresso a um povo ao qual se cortou a palavra
para melhor o domesticar7. A idealização do «popular» é tan­
to mais fácil quanto se efectua sob a forma de monólogo.
Aliás, já que o povo não fala, pode pelo menos cantar.
A voga das cantigas populares — Dame Poitrine revelou,
em 1781, na corte de Luís XVI, Malbrough s’en va-t-en guerre,
que Beaumarchais poria nos lábios de Chérubin três anos
depois — é um outro sinal desta confiscação de um tesouro
perdido. O prazer experimentado pela auréola «popular»8 que
cobre essas melodias «inocentes» está precisamente na base
de uma concepção elitista da cultura. A emoção nasce da
própria distância que separa o ouvinte do suposto compo­
sitor.
Mas a atitude assim delimitada não é apenas obra de uma
aristocracia mais ou menos masoquista. E realização dos Cons­
tituintes. O inquérito que o Abade Grégoire, pároco de
Embermesnil, lança em Agosto de 1790 acerca dos patois
de França, e que tem como resultado o seu famoso relatório

6 Histoire de le rosière de Salancy ou recueil de pièces tant en prose


qu'en vers sur la rosière dont quelques unes n’ont point encore parues,
Paris, Merigot, 1777, p. 83.
7 Nas numerosíssimas relações de festas de roseiras do fim do sé­
culo XVIII, o povo surge como um figurante aos olhos enternecidos
dos cortesãos que vêm fazer uma viagem à Arcádia.
8 Cf. Ainda hoje Henri Davenson, Le Livre des Chansons, Club des
I.ibraires de France, 1958, p. 20.
54 /I BELEZA DO MORTO

de Prairial, ano II: Sur la necéssité et les moyens d’anéantir les


patois et d'universaliser Tusage de la langue française9 é extre­
mamente revelador. O que conta aqui não são propriamente
as informações — que o historiador pode e deve retirar daí
para uma análise da cultura popular — mas sim a intenção
manifestada pelo inquiridor e seus correspondentes. Trata-se
simultaneamente de coleccionar («Têm obras em patois impressas
ou manuscritas, antigas ou modernas? {...} Seria possível
arranjá-las facilmente10*? ») e de reduzir («Qual seria a impor­
tância religiosa e política da destruição completa desses
patois? {...} As pessoas do campo são mais preconceituo­
sas e como? [...} Estão mais esclarecidas hoje do que há vinte
anos?»). A maioria das respostas (fornecidas em grande parte
por burgueses — homens de lei, ou padres) é a favor de
uma eliminação dos patois. Sem dúvida que a razão mais
frequentemente alegada para a universalização da língua fran­
cesa é a destruição do odioso feudalismo que seria favoreci­
do pela sobrevivência dos particularismos. Mas estes citadi-
nos esclarecidos retomam, sem disso se aperceberem, o facho
da campanha escolar conduzida pela Igreja da reforma católica:
a unidade nacional — tal como antes o regresso do herético
— far-se-á através da instrução, ou seja, pela eliminação de
uma resistência devida à ignorância. Alguns receiam sem dúvida
pela «pureza» dos costumes rústicos; mas, como nota um
deles, o patois está j á condenado:
«Os costumes dos nossos bons antepassados eram sim­
ples como o seu patois e este parecia feito para pintar a sim­
plicidade e a bonomia. De acordo com isto (teria talvez sido
necessário) que lhes deixassem as virtudes simples e naturais
antes que esta mudança funesta se tivesse operado; mas ago­
ra a ignorância junta à corrupção, seria o pai de todos os
m ales1*.»
Impõe-se novamente a mesma constatação: é no momen­

9 Cf. Cartas a Grégoire sobre os patois de França, 1790-1794,


publicadas por A. Grazier, Paris, 1880.
10 A Biblioteca da Sociedade de Port-Royal conserva uma colecção
de peças impressas em patois e enviadas a Grégoire.
" Op. cit., p. 118.
CAPÍTULO II 55

to em que uma cultura já não tem meios para se defender


que o etnólogo e o arqueólogo aparecem. Como afirma o
próprio Grégoire no seu relatório à Convenção: «O conheci­
mento dos dialectos pode fazer luz sobre alguns monumen­
tos da Idade Média. [...] Quase todos os idiomas possuem
obras que gozam de uma certa reputação. Já a Comissão das
Artes, na sua instrução, recomendou a recolha desses monu­
mentos impressos ou manuscritos; é preciso procurar as pé­
rolas até no fumeiro de Ennius12.»
O período entre 1850-1890 define uma segunda etapa
deste culto castrador devolvido a um povo que se constitui,
a partir daí, como «objecto» de ciência. Será ainda preciso
que nos interroguemos acerca dos postulados subjacentes do
«folclorism o». N o preciso momento em que o colportage
é perseguido com o maior vigor encontramos estes indivíduos
bem-intencionados que se debruçam com deleite sobre os li­
vros ou os conteúdos populares. Numa circular de aplicação
da lei do 27 de Julho de 1849 acerca da imprensa, o minis­
tro do Interior escrevia aos prefeitos: «A característica mais
comum dos escritos que têm mais difusão neste momento,
os quais apresentam a forma o mais popular possível, é a
divisão da sociedade em duas classes, os ricos e os pobres,
representando os primeiros como uns tiranos, os segundos
como vítimas, excitando a inveja e o ódio de uns contra os
outros e preparando assim, na nossa sociedade que tanto ne­
cessita de unidade e de fraternidade, todos os elementos de
uma guerra civil13.»
Daí a criação, pelo Ministério da Polícia Geral, em 30
de Novembro de 1852, de uma «comissão de exame dos li­
vros de colportage»\ já não bastava vigiar os colporteurs, era
necessário controlar, através da concessão de licenças,
o conteúdo das obras difundidas e verificar se não era contrário
«à ordem, à moral, e à religião». Ora é a Charles Nisard,
secretário desta comissão, tal como já foi recordado, que de­
vemos a primeira Histoire des livres populaires et de la littéra-

12 0p. cit., pp. 300-301.


13 Circular de 4 de Janeiro de 1851, Arquivos nacionais F (18) 555.
56 A BELEZA DO MORTO

ture de colportagelA. No prefácio da sua primeira edição, o au­


tor confessa as suas intenções com uma ingenuidade desar-
mante: «Pensei que, no interesse das pessoas facilmente in­
fluenciáveis, como são os operários e os habitantes dos cam­
pos, a Comissão não deveria deixar de proibir a venda am­
bulante de três quartos destes livros, mas que esta proibição
não se deveria aplicar a pessoas à prova de más leituras, ou
seja, aos eruditos, aos bibliófilos, aos coleccionadores e mes­
mo aos simples curiosos de literatura excêntrica. Pensei por­
tanto fazer uma coisa que fosse agradável a todos, reunindo
esses livros, partindo deste ponto de vista, salvando-os em
massa do naufrágio em que iriam perecer isoladamente1415.»
Assim, pois, o povo é uma criança cuja pureza original
convém proteger, preservando-o das más leituras. Mas os
amadores esclarecidos podem reservar a área «curiosa» das
suas bibliotecas às antologias dos folcloristas tal como ante­
riormente os aristocratas tinham encadernado, com as suas
armas, os almanaques. O interesse do coleccionador é corre-
lativo de uma repressão que procura exorcizar o perigo revo­
lucionário que as jornadas de Junho de 1848 mostraram es­
tar ainda perto, latente.

A Belle Époque do folclore

Vinte e cinco anos mais tarde, assistimos a uma primeira


vaga folclorista contemporânea dos começos da IIa República.
Visa um mundo rural que o caminho-de-ferro e o serviço
militar (e muito menos os meios de comunicação de massas)
ainda não tinham posto em contacto com a cidade: um mun­
do que se alterará rapidamente a seguir à Primeira Guerra
Mundial. Contudo, a preocupação folclorística não está isen­
ta de segundas intenções: quer situar, relacionar, garantir.
O seu interesse é o reverso de uma censura: uma integração

14 Ia edição, 1854, 2a edição 1864, reeditado em 1968 por Maison-


neuve e Larose.
15 Charles Nisard, op. cit., edição de 1854, p. IV.
CAPÍTULO II 57

ponderada. A cultura popular define-se, assim, como um pa­


trimônio, segundo uma dupla rede histórica (a interpenetra-
ção dos temas garante uma comunidade de história) e geográfica
(a sua generalização no espaço atesta a coesão deste último).
A genealogia e o comparatismo vêm assim reforçar a exis­
tência de uma unidade do repertório francês no qual se expri­
me uma mentalidade francesa. Assim arregimentado o domínio
popular não deixa de ser o mundo inquietante que Nisard se
esforçava por exorcizar e conter menos de um quarto de sé­
culo antes. O folclore assegura a assimilação cultural de um
museu que passou a ser tranquilizador: «A audição das can­
tigas dos nossos camponeses não deixa de ter interesse para
os músicos e poetas. Eles aperceber-se-ão melhor, ao ouvi­
das, de que o segredo de comover e de encantar não consiste
na busca de sonoridades e de vocábulos complicados, mas no
rigor do acento e na sinceridade da inspiração {...]», procla­
ma esta mesma revista que nega todo o interesse à etnogra-
fia colonial e recorda, no final do texto, «mas sobretudo per­
maneçamos franceses16!»
Este interesse revela uma outra ambiguidade. As conota­
ções do termo popular que se encontram nas revistas folclóricas
da época são esclarecedoras: o popular está associado ao na­
tural, ao verdadeiro, ao ingênuo, ao espontâneo, à infância.
Muitas vezes o zelo folclórico enche-se de preocupações fe-
deralistas cujo significado político é evidente. Não é por aca­
so que «popular» passa a ser, a partir daí, sempre identifi­
cado com «campesino». A cultura das elites, as próprias eli­
tes, estão ameaçadas numa outra frente: as classes trabalha­
doras e perigosas das cidades, e principalmente de Paris, pas­
sam a constituir uma ameaça presente de uma outra manei­
ra. G. Paris não procura escondê-lo, quando, num discurso
solene na Sorbonne, define a arte popular: «Tudo aquilo que
se produz ou se conserva no povo, longe da influência dos
centros urbanos17.» A reivindicação de uma restauração da

16 La Tradition nationale, Outubro de 1896, pp. 4-5.


17 Discurso de 24 de Março de 1895, in La Tradition en Poitou et
Charente, Paris, 1896, p. VI.
58 A BELEZA DO MORTO

vida de província sancionada por um medievalismo de bom-


-tom, a exigência de uma renovação social que deverá reen­
contrar o camponês no operário e conhecer as virtudes pri­
mitivas da terra18, a vontade de um regresso às origens esté­
ticas contra o «refinamento perturbado e o mal-entendido
intelectual»: são outros tantos temas que anunciam os da
Revolução nacional — Vichy, essa outra idade de ouro da
tradição e do folclorismo — e que manifestam de imediato
a existência de um populismo do poder, em busca de uma
nova aliança. Encontramos um reflexo de tudo isto neste arre-
batamento curiosamente actual e, contudo, fortemente datado
de Déroulède: «Sim, juntemo-nos aos operários e campone­
ses; melhor ainda, se pudermos, tornemo-nos nós próprios
camponeses, operários, tomemos parte nas suas festas; faça­
mos reviver aquelas que a intolerância e o esquecimento ma­
taram; criemos outras novas19.» A França burguesa, uma imensa
romaria? Faça-se o bem sem olhar a quem.
Espontâneo, ingênuo, o povo é, uma vez mais, a criança.
J á não aquela criança vagamente ameaçadora e violenta que
se quis mutilar: o filho pródigo regressa de longe e reveste-
-se dos atractivos do exotismo. Da sua distância também.
Para G. Vicaire, «a tradição, um mundo de tradições inédi­
tas», deve instruir-nos acerca da «alma tão obscura, tão difícil
de penetrar, do camponês20». O povo é um japão: é preciso
devolver-lhe o gosto pelo canto; é um rio, é preciso matar
nele a sede21. E, claro está, uma mulher que é preciso reve­
lar a si própria: «Em suma, toda a criação do espírito huma­
no deve, para se aperfeiçoar, percorrer três etapas: primeiro,
concepção quase espontânea de um ideal na imagética popu­
lar, ou seja Tradição e Inconsciência; depois, organização lógi­
ca, onde está o ideal na obra de gênio, ou seja, Progresso
Social £...]. Num grande homem há sempre e deve sempre
haver um inconsciente nervoso e sentimental como uma mulher;

18 Ibid., p. XIV (discurso de G. Boucher).


19 Ibid., p. XVIII.
20 G. Vicaire, «Nos idees sur le traditionnisme», Revue des tradi-
tions populaires, 1886, n° 7, p. 189.
21 I b id ., pp. 190-191.
CAPÍTULO II 59

mas há, e deve sempre haver para além disso uma virilidade
clarividente e dominante [..,]22.» Elogio da violação dialéc-
tica? Em todo o caso confissão mal disfarçada de uma vio­
lência antiga que oscila agora entre o voyeurismo e- a peda­
gogia. Nesta área tudo é possível. O liberalismo um pouco
depreciativo de alguns grupos assinala precisamente que «o
espírito novo não despreza ninguém; na natureza, nada lhe é
indiferente23». O povo é, em suma, o bom selvagem; ao fe­
chamento cultural pode suceder-se a reserva ou o museu.
O olhar dos letrados pode querer-se neutro e, porque não,
simpático. A violência mais secreta do primeiro folclorismo
foi ter camuflado a sua violência. Ela conduz-nos de novo ao
presente.

0 popular ou o mito das origens perdidas

O que é «popular»? No seu estudo sobre «popular e povo»,


Marcei Maget fala da «impossibilidade de definir» e de «aporias
lógicas». Soma e multiplica os critérios que a sua crítica
remete para outros, indefinidamente, até à vertigem24. A his­
tória será mais feliz quando se dedica à demanda da litera­
tura popular no Antigo Regime? É possível duvidar, apesar
do reforço de estudos notáveis devidos a Robert Mandrou, a
Geneviève Bollème, a Marc Soriano etc.25. Neste fluxo de li­
vros eruditos, a literatura popular nem sempre se deixa nomear.
Juntamente com outros, embora mais claramente, M. So-

22 La Tradition..., 1887, t. 1, pp. 3-4.


23 Ibid., p. 8.
24 Em Jean Poirier (ed.), Ethnologie générale, Encyclopédie de la
Pléiade, Paris, 1968, pp. 1279-1304.
25 Robert Mandrou, De la culture populaire en Prance aux XVII' et
XVIII' siècles. La bibliothèque bleue de Troyes, Stock, 1964; Gene­
viève Bollème, «Littérature populaire et littérature de colportage au
XV IIP siècle», in Livre et société dam la France du X V III' siècle,
Mouton, 1965, pp. 61-92; G. Bollème, Les Almanachs populaires aux
X V //' et X V III' siècles. Essai d’histoire sociale, Mouton, 1969; Marc
Soriano, Les Contes de Perrault. Culture savante et traditions populaires,
Gallimard, 1968, etc.
60 A BELEZA DO MORTO

riano distingue, na literatura dita popular, os «escritos para


uso do povo» e as «obras autenticamente populares». Con­
tudo, os próprios textos — os contos escritos pelos Perrault,
claro, e também os almanaques (G. Bollème mostra-o) —
são produzidos por autores profissionais26. Revelam, portan­
to, a mentalidade dos letrados. Mas estes especialistas, estes
letrados, não se teriam adaptado ao gosto do público? Ou
seja, o «popular» deverá ser procurado do lado dos leitores?
E pouco provável, apesar da difusão dos almanaques durante
o Antigo Regime (72 000 exemplares para o de Colombat,
150 a 200 000 noutros casos). Numa França ainda com 60%
de analfabetismo por volta de 1780 (80% em 1685), os al­
manaques encontram-se sobretudo na biblioteca das classes
médias — Roger Chartier assinalou-o27 e são muitos os ar­
quivos que o confirmam. Estes livrinhos do século XVIII
parecem portanto estar nas mesmas circunstâncias que a ac-
tual literatura de bolso: atingia mais leitores, mas, segundo
parece, sem passar a fronteira das classes mais favorecidas e
das classes médias28.
Onde colocar então «o autenticamente popular»? Alguns
verão aí o tesouro escondido de uma tradição oral, fonte
«primitiva» e «natural» que desemboca na literatura escri­
ta. Outros postulam uma unidade da cultura estendida ao
longo de um movimento que faria da literatura de elite a
anunciadora das evoluções globais. Existem, portanto, varia­
dos sistemas de explicação.
Para G. Bollème, a literatura de elite do Antigo Regime
degradou-se numa cultura «popular» elaborada por letrados
especializados, mas tem também a função transitória de des­
pertar no povo uma necessidade de saber e de felicidade.
Uma vez desempenhado este papel, no final do século XVIII,
o almanaque deixa de ter razão de existir; torna-se «anti­
quado, caduco», porque o povo começa então a falar a filo­
sofia única, «conjugação do bem viver, da ciência, da inves­

26 Cf. por ex. G. Bollème, «Littérature populaire...», op. cit., pp. 66-67.
27 R. Chartier, in Rerue bistorique, 495 (1970), pp. 193-197.
28 Cf. por exemplo Jean-Paul Sartre, «Points de vue: culture de po-
che et culture de masse», in Temps modemes, 208 (Maio de 1965).
CAPÍTULO II 61

tigação e do gosto da verdade, do desejo de felicidade, do


esforço para a virtude»29.
Mas, para G. Bollème, tudo isto funciona porque «há»
no povo, um «gosto», o de saber ou de «ser instruído»30,
que os almanaques despertam da sua sonolência. Este «gos­
to», equivalente de uma «necessidade» ou de uma natureza
profunda, é trazido à luz do dia pelos almanaques que co­
meçaram por apresentar o povo como o lugar onde habita
um Deus pobre e onde uma sabedoria interna se transmite.
Mas, afinal não se deverá concluir que o Deus escondido não
é mais que este «gosto» e esta «necessidade», o sol que a
trombeta dos letrados faz sair da sua noite?
Para M. Soriano, o esquema parece ser inverso. Para ele,
é a própria literatura popular, «muito antiga», enraizada nas
origens da história e levada por uma tradição oral, que emerge
na literatura clássica. Transparece pouco a pouco na obra dos
eruditos, no momento em que, tal como Perrault, estão em
«simpatia particular com as massas laboriosas» e julgam ape­
nas utilizá-la. Contrariamente à hipótese de G. Bollème, M.
Soriano vê o movimento subir das profundezas da tradição
popular até às obras clássicas, e não descer de uma literatu­
ra de elite para dar lugar a uma vulgarização estimulante.
Esta vinda à superfície retira a sua força de «necessi­
dades fundamentais» e de «aspirações profundas». A expres­
são popular é a sua manifestação primeira31. A história li­
terária encontra aí a sua «origem» natural. N a perspectiva
de Soriano, esta «origem» não é totalmente invisível nem
pode reduzir-se à evocação de aspirações populares. Ela tem,
mais próxima de si do que as obras dos letrados, uma ex­
pressão «autêntica» na arte popular. A busca das origens
passa, portanto, por uma pesquisa dos textos «primitivos».
Um método textual, aliás notável, deve pois pressupor que
estes textos primitivos são caracterizados por um estilo «sóbrio,
nervoso e eficaz». Deste modo, torna-se possível hierarquizar
as versões do mesmo conto e recuperar «o autenticamente*1

29 G. Bollème, Les Almanacbs populaires, pp. 123-124.


50 G. Bollème, in Livre et Société..., pp. 75 e 89.
11 Marc Soriano, Les Contes de Perrault, p. 489.
62 A BELEZA DO MORTO

popular» na literatura das elites. A «sobriedade», a versão


curta, o vigor: todos estes elementos, emprestados a uma ge­
nialidade fundamental, permitem dizer onde se encontra o
«p rim itiv o ».
Evidentemente que esta construção se baseia completa­
mente naquilo que pretende provar. Pressupõe que o popu­
lar é o «começo» da literatura e a «infância» da cultura;
que a pureza de uma origem social está escondida na história;
que uma genialidade primitiva é permanentemente compro­
metida pela literatura, e deve ser incessantemente preserva­
da e reencontrada; que, por fim, a tradição popular articula
as profundezas da natureza (as «aspirações profundas») e as
perfeições da arte (sobriedade, vivacidade, eficácia do rela­
to). Com um pouco de psicanálise, explicar-se-ia facilmente
o recalcamento desta origem e o regresso do recalcado na
própria linguagem da repressão.
O que chama a atenção nestas análises, não são, como
dizia Maget, as «aporias» consequentes dos termos do proble­
ma tal como ele é colocado, mas o peso deste mesmo pro­
blema: encontrar as origens perdidas. Qualquer que seja o
seu tratamento científico, esta fascinação do objecto perdido
toma as metodologias na vertigem da sua contradição inter­
na. Agarra-as na sua impossibilidade.
Mais do que criticar a contribuição, que se sabe consi­
derável, dos estudos assinalados, o nosso exame visa a pres­
são quase obsessiva que exerce sobre eles esta questão das
origens. O mesmo se poderia dizer quanto ao próprio con­
ceito de «cultura popular».
De onde vem, pois, esta sombra? Como é que se consti­
tuiu esta forma que apenas parece ter dado às pesquisas eva-
nescência e inefável? N a sua bela e sábia Introduction à la
chanson populaire française, como vimos, Henri Marrou dizia já
que, em última análise «a canção folclórica tira o seu carácter
específico da auréola popular que a cobre aos nossos olhos32».
Qual é então o significado deste fantasma que designa a ori­

32 Henri Davenson, Le livre des chansons, Club des libraires de France,


1958, p. 21.
CAPÍTULO II 63

gem ao mesmo tempo que a esconde, desta «auréola» que


mostra «cobrindo»?
Impõe-se uma hipótese, mesmo que não justifique tudo.
Estes estudos sobre a cultura popular atribuem-se como ob-
jecto a sua própria origem. Perseguem na superfície dos tex­
tos, perante si, aquilo que é na realidade a sua condição de
possibilidade: a eliminação de uma ameaça popular. Não sur­
preende que este objecto assuma a imagem de uma origem
perdida: a ficção de uma realidade a encontrar mantém a
marca da acção política que a organizou. A literatura científica
faz funcionar o gesto que está na sua origem como uma re­
presentação mítica. Não poderia, pois, introduzir no discur­
so, como um objecto ou um resultado de processos rigoro­
sos, o acto inicial que constituiu uma curiosidade apagando
uma realidade. E, sem dúvida nenhuma, não resolverá as suas
contradições internas enquanto este gesto fundador for «es­
quecido» ou negado.

Temas populares ou leituras cultas?

Voltamos a encontrar, ao nível da análise e da interpre­


tação destes temas, a ambiguidade do objecto cultura popular
que deixavam já transparecer as formulações contrárias, e con­
tudo solidárias, em relação ao problema das origens. O pri­
meiro momento é o do recenseamento. Ele é útil e necessário,
o que não quer dizer que seja evidente. G. Bollème e R.
Mandrou constituíram repertórios, aliás abertos, dos temas
essenciais que encontravam nos almanaques ou nos livros da
Bibliothèque bleue: «Explorar os temas principais, as pre­
senças e ausências no seio do repertório da Bibliothèque
bleue, é atingir, em larga medida, os próprios temas da cul­
tura popular francesa do Antigo Regime...33» Muito bem.
Mas eis que se pressupõe que estes temas se oferecem de
moto próprio como pertinentes, e que as «unidades signifi­
cativas» assim inventariadas o são na realidade. Reencontra­

53 R. Mandrou, op. cit., p. 21.


64 A BELEZA DO MORTO

mos aqui o problema irritante e clássico que coloca aos his­


toriadores, tal como a outros estudiosos das ciências huma­
nas, a modéstia agressiva dos folcloristas — da classificação
de Aarne-Thompson ao M anual de Van Gennep: solidamente
entrincheirados num positivismo proclamado, na recusa de
interpretar ou de concluir, estes inventários não serão o es­
tratagema último, e como que o reverso da interpretação?
Sabe-se hoje que nenhuma classificação é inocente.
Daqui nasce uma nova interrogação: a partir de que pers­
pectiva falam os historiadores de cultura popular? E que
objecto constituem em consequência? Não é indiferente
assinalar que as noções que serviram para constituir a sua
rede de inventário foram todas retiradas das categorias do
saber (em G. Bollème) ou, mais amplamente, da cultura «culta»
à qual R. Mandrou quis restituir o correlato popular34, «um
nível cultural ignorado, esquecido»: o feérico, o maravilhoso,
o pagão, os conhecimentos científicos ou ocultos definem me­
nos o conteúdo de uma cultura popular do que o olhar que
sobre ela faz incidir o historiador. «A inflexão em direcção
ao real, ao actual, ao humano» que G. Bollème lê nos alma­
naques do século XVIII conduz a que real, a que história, a
que homem? A recusa da duração em que se vê aliás, a ca­
racterística deste fundo cultural35 não será antes o reconhe­
cimento pela cultura «erudita» de hoje, da sua tempora-
lidade essencial e, por fim, uma confissão surpreendida
perante o seu outro? A incerteza reconhecida acerca das
fronteiras da área do popular, acerca da sua homogenei­
dade em face da unidade profunda e sempre reforçada da
cultura das elites, podería perfeitamente significar que a área
do popular ainda não existe porque somos incapazes de falar
dele sem fazer com que deixe de existir. R. Mandrou es­
creve que as «incoerências fazem parte desta visão do mun­
do que a Bibliothèque bleue difundiu durante mais de dois

34 A afirmação implícita de uma simetria parece ser só por si muito


reveladora da cultura «erudita» que quer que se esqueça, e sem dúvida
acaba por esquecer a sua relação repressiva com a cultura popular.
55 G. Bollème, in Livre et Société dans la France du XVIII', Paris-
-Haia, 1965.
CAPÍTULO II 65

séculos36». São, paradoxalmente, os termos empregados pe­


los antigos censores. Estas incoerências são, contudo, o re­
verso da nossa impotência para encontrar a coerência de uma
totalidade cultural: eis os nossos primitivos. Daí decorre tam­
bém, o que é mais grave, uma desqualificação do objecto
assim classificado, recolocado, e a partir desse momento, tran­
quilizador.

Os temas da história social

Mas há mais. A um nível mais profundo, os problemas


do inventário remetem para os da interpretação dos temas e,
em primeiro lugar, para os que coloca o próprio estatuto da
interpretação. Que dizem os textos assim trazidos à luz do
dia? Que podem eles dizer? A temática da literatura popu­
lar apresenta-se em todas as nossas obras como a manifesta­
ção de outra coisa que lhe serviría de suporte: o popular.
Nada mais esclarecedor a este propósito do que o capítulo
sumário dedicado por Soriano às massas camponesas e ao fol­
clore no final do século X V II37; põe em causa, aumentando
os problemas, a própria existência de uma história social da
cultura: uma evocação rápida do «obscuro século X V II», al­
gumas generalidades acerca das tensões sociais no campesi­
nato francês (as revoltas) e da sua suposta derivação ideológica
(a feitiçaria), alusões ao mundo da crença e da superstição
tomadas dos autores recentes, vêm servir de caução histórica
ao inquérito: «E, diz Soriano, neste contexto que é preciso
situar o folclore ou seja, o conjunto das manifestações artísticas
deste campesinato: danças, cerimônias, canções e naturalmente
contos38.» Para além do facto de não estar clara a identidade
entre o «artístico» e o «popular», vê-se claramente que a

36 R. Mandrou, op. cit., p. 150. Diferença fundamental contudo: a


«incoerência» de que falam estas censuras implica uma apreciação mo­
ral e visa uma desordem mental; em M. Mandrou designa «aquilo que
escapa», um inacessível.
37 M. Soriano, op. cit., 2a parte, capítulo I, pp. 88-98.
38 M. Soriano, op. cit., p. 95.
66 A BELEZA DO MORTO

cultura popular se define aqui apenas de maneira tautológica:


é «popular» aquilo que reflecte imediatamente a situação
histórica do povo no Antigo Regime. A tarefa passa então a
ser uma busca dos temas da história social levada a cabo no
âmbito da história cultural. Entra-se num ciclo vicioso de
glosas e de atribuições. A invenção encerra-se no reconheci­
mento, e o corpus torna-se um repertório de citações. Nem o
folclore, nem a história têm aí lugar.
Como funciona a expressão cultural em relação à sua in­
serção social? Se é verdade que aquilo a que chamamos cul­
tura popular penetrou todos os aspectos da vida camponesa
do século XVII, em que sonhos, em que mitos se terá orga­
nizado3940? Respondendo à questão de E. Le Roy Ladurie, So-
riano deseja reconstituir a grelha através da qual Perrault
teria ido beber ao repertório folclórico; é efectivamente uma
das chaves dos Contos''0. Mas será possível, a partir daí, su­
por que o problema se encontra resolvido no que diz respei­
to ao repertório em si? Não é surpreendente que os temas,
ou seja o próprio popular, oscilem entre a descrição social
positivista («o conteúdo social dos contos») e a alusão ao
conteúdo inatingível de um domínio falaciosamente evidente.
Muito sintomaticamente, Soriano desvia-se do problema da
coerência e do funcionamento da cultura popular para a pes­
quisa genealógica do texto primitivo. A cultura popular está
aí pressuposta em todos os instantes da iniciativa que vem
caucionar. Está aliás sempre por perto; por fim, não é nada.
Algumas observações aqui ou ali dão contudo uma ideia
do que poderia ser uma análise temática. Trabalhando sobre
corpus bastante próximos, R. Mandrou e G. Bollème, histo­
riadores mais atentos, notam que, na representação endure­
cida e imposta de cima que dão da sociedade, livrinhos e

39 Cf. as observações de Nicole Belmont, «Les Croyances populai-


res comme récits mythologiques», L'Homme, Abril-Junho de 1970, pp.
94 -1 0 8 .
40 M. Soriano, «Table ronde sur les contes de Perrault», Annales ECS,
Maio-Junho 70, p. 65. Seria, à partida, uma abordagem essencial das
relações históricas entre uma cultura «erudita» e as tradições popula­
res. Cf. também Annales ESC, 41, 1969.
CAPÍTULO II 67

almanaques deixam transparecer uma fenda: a função do pas­


tor, marginal social de profissão, sujeito e objecto da natu­
reza cuja simplicidade se rege pela evidência evangélica, cuja
inocência garante a festa e traz a violência simultaneamente,
poderia revelar incidentalmente o olhar do outro sobre uma
sociedade que se constrói sobre o silêncio e a exclusão desse
mesmo outro.
Noutro lugar ainda G. Bollème nota que «o catolicismo
é a religião dos pobres» e que o Deus dos almanaques é o
«Deus dos pobres»: tema evangélico, lugar-comum ao passa­
do rico, ao futuro ainda mais rico, sem dúvida; sentimo-nos
todavia tentados a ver aí um grupo social a fazer ouvir a sua
verdade (quer dizer, em primeiro lugar situar-se na verdade)
através da sua participação alegórica nos sofrimentos do Evan­
gelho. Sentimo-lo tanto mais quanto a autora nota a impor­
tância aparentemente paradoxal de uma linguagem religiosa
(aliás secularizada) nos almanaques do século XVIII41. Pode-
-se ver aí, quer o índice de uma religiosidade popular em
expansão, quer o refluxo de uma cultura popular em direcção
à única linguagem que lhe permite ainda exprimir-se face ao
triunfo da razão que a querería negar. A linguagem da reli­
gião poderia então ser o último recurso de uma cultura que já
não se pode exprimir e que tem que se calar ou mascarar
para que se faça ouvir uma ordem cultural diferente. Reen­
contramos aqui a própria raiz do nosso problema: a cultura
popular só se apreende no modo do desaparecimento porque
o nosso saber nos impõe, seja como for que deixemos de a
ouvir e de saber falar dela.
Finalmente, para além dos métodos e dos conteúdos, para
além daquilo que diz, uma obra julga-se por aquilo que cala.
Ora é preciso constatar que os estudos científicos — e sem
dúvida também as obras que eles privilegiam — incluem
estranhas e vastas praias de silêncio. Estes brancos dese­
nham uma geografia do esquecido. Traçam em negativo a si­
lhueta das problemáticas expostas preto no branco nos livros
eruditos.

41 G. Bollème, Livre et Sociéte'..., p. 79.


68 A BELEZA DO MORTO

Uma geografia do eliminado

Se nos limitarmos a esboçar esta geografia, há três áreas


que parecem ausentes ainda que a diferentes títulos: a crian­
ça, a sexualidade e a violência.
Ausência da criança? Parece paradoxal dizê-lo quando estes
trabalhos têm precisamente por motivo principal a associa­
ção «a criança e o povo». Passam, aliás, frequentemente, da
literatura infantil para a literatura popular. Literatura para
crianças, literatura vinda da infância e das origens do ho­
mem, literatura pedagógica: todos estes temas favorecem a
assimilação entre o povo e a criança, e explicitam-lhe o sen­
tido. Mas tornam ainda mais sintomático tudo o que é dito
da criança, figura que serve de alegoria ao que se pensa do
povo.
M. Soriano mostrou magistralmente que o problema do
pai é uma das chaves da obra de Perrault. É necessário, sem
dúvida, fazer desta tese uma hipótese muito mais geral e
alargá-la a um número muito grande de contos e de lendas.
Mas será de facto necessário, como crê M. Soriano, interpre­
tar este facto como indício de uma «morte» ou de um apa-
gamento do pai? Soriano vê aí a prova do nascimento de
uma geração privada de pais e sem «anciães», para sempre
abandonada a si própria, educada apenas pelos livros que
lhe são próprios. A literatura infantil substituir-se-ia à pre­
sença dos pais.
Há muitos indícios que parecem aconselhar a pensar o
contrário. Em primeiro lugar, há muito poucas crianças na
literatura escolhida. Os adultos dão, pelo contrário, uma
imagem sonhada de si próprios, no espelho dos textos que
dizem destinados às crianças. Oferecem a si próprios a sua
própria lenda, por intermédio dos adultos que apresentam
às crianças. Sem dúvida seria necessário que também nos
perguntássemos se não acontece o mesmo com os membros
das classes médias que se repetem e se idealizam na imagem
que pretendem oferecer de si próprios ao «bom povo». Sur-
preender-nos-íamos menos, neste caso, que os fidalgotes e os
burgueses tivessem tido tanto prazer a ler esta literatura,
supondo que tenham constituído a parte mais importante da
CAPÍTULO II 69

sua clientela. O adulto agiria da mesma forma quando com­


pra «para agradar às suas crianças», contos concebidos para
lhe agradar. Uma auto-satisfação, que é também uma tauto-
logia de adultos, faria apenas das crianças o seu pretexto, o
seu meio e a sua garantia.
Mas, mais ainda, a criança, quando aparece, tem precisa­
mente o saber ou as virtudes do adulto. «O pequeno feiti­
ceiro», «o pequeno mágico», etc.42 ou «o menino prodígio de
três anos»43 sabe já tanto como os grandes, e mais ainda. Será
contestatário por essa razão? Não, ele repete os seus prede-
cessores, mesmo quando os ultrapassa. Ele confirma, portan­
to, que não há duas sabedorias, nem duas morais, mas que a
dos pais continuará a ser a dos filhos, a do futuro, a de sem­
pre. O fundo «natural» na criança, recupera o dizer dos pais
e prova-o muito mais do que o ameaça. Espera-se que a es­
pontaneidade infantil deva escapar aos adultos, mas este des­
vio é uma artimanha que os assegura melhor do seu saber.
Da mesma forma, os autores desta literatura infantil — os
«pais» destes livrinhos — , referindo-se a uma natureza in­
fantil confirmam, desta forma, as suas concepções e aspira­
ções, que precisam de passar através do outro para serem
reconhecidas. As crianças não teriam, assim, «pais», e deixa­
riam de encontrar à sua frente a violência do pai, pela sim­
ples razão de que se teriam transformado na sua repetição e
imagem na literatura que fala deles. Há assim, à partida,
um poder que se afirma neles, através deles, sem ter que se
confessar enquanto tal. Fá-lo-á todavia quando a «nova pe­
dagogia» pretender conhecer, como um objecto, a «nature­
za» da criança e propuser de antemão os «instintos» ou as
«necessidades» que quiser desenvolver44.
«As crianças», escreve M. Maget, «são depositárias de
uma cultura que se transmite à margem da cultura adulta,
da qual pode representar uma forma alterada45.» Isto são as

42 Nisard, ed. 1864, t. I, p. 184.


43 Ibid., t. II, p. 15.
44 Cf. Claude Rabant, «L ’illusion pédagogique», in LTnconscient,
n° 8, pp. 89-118.
45 M. Maget, in Ethnologie générale, op. cit., p. 1283.
70 A BELEZA DO MORTO

crianças tais como as remodelam os estudos etnológicos. A


sua «cultura» apresenta-se aí como que alterada, para não
aparecer diferente da dos adultos. Num outro sentido, foi
necessário «alterá-la» para a adequar ao sonho do adulto, e
colocá-la sob o signo dos «Civilizados»*6 ou dos Espelhos de
virtudes; apagaram-se-lhes dois aspectos fundamentais: a sexua­
lidade e a violência.
Não se terá feito a mesma coisa com o povo, para o con­
formar à imagem que o exotismo etnográfico ou «popularis-
ta» como todo o exotismo, tem como objectivo fornecer ao
adulto, ao homem ou ao burguês? Não há nada tão belo
«como a honestidade rude e grosseira do artesão», escreve o
jornal Le Français em Agosto de 1868 a propósito do livrinho
La Malice des grandes filies. Do mesmo modo «maldito seja
quem perturbar a limpidez destas águas». A Comissão de
Censura será o «anjo da guarda» protegendo a inocência do
povo contra as «fotografias impuras».
Nisard, porta-voz, mais uma vez, desta ciência, diz mui­
to sobre este assunto. Assim, a propósito dos conhecimentos
sexuais das crianças, extasia-se perante as «patetices» que
encontra no Catéchisme des amants, par demandes et réponses, ou
sont enseignées les principales maximes de 1’amour et le devoir d’un
véritable amant (Tours, 1838) quando se fala da «idade em
que se pode começar a fazer amor, que é de catorze anos
para os rapazes e de doze anos para as raparigas4647». Não
sabia muito acerca dos hábitos infantis e camponeses.
Mas o adulto precisa da «inocência» que atribui à crian­
ça (e que, por exemplo, os trabalhos de Gaignebet sobre as
lengalengas desmistificaram)48. Nega o que se opõe ao seu
sonho. Reflexo característico cuja forma seria necessário ana­
lisar mais detidamente pela maneira como insiste na elimi­
nação da sexualidade e da violência. Contentemo-nos em assi­
nalar uma vez mais estes dois espaços em branco.
Com efeito, nos estudos citados, chama a atenção o si-

46 Nisard, op. cit., t. II, pp. 381 s.


47 Ibid., t. I, p. 294.
48 Claude Gaignebet, Le Folclore obscène des enfants français, a publi­
car por Maisonneuve et Larose.
CAPÍTULO II 71

lêncio que se estende sobre a sexualidade. M. Soriano conta-


-nos a estranha história passada no conto d'A Bela Adormeci­
da'. ao homem casado que era seu amante, substituiu-se um
príncipe adolescente, e é apenas enquanto está inconsciente,
mergulhada num sonho mágico, que ela faz amor com ele e
que dá à luz49.
Poder-se-á ver nesta história a alegoria daquilo que se
passa até em alguns estudos consagrados à cultura popular?
Os conhecimentos ou as relações amorosas mergulham aí num
sono mágico. Entram no inconsciente da literatura «culta».
De Nisard a G. Bollème, deixam de existir, a não ser para
assinalar a inverosimilhança.

Será possível ser-se bretão?

Não encontramos nenhuma incursão das «classes perigo­


sas», das reivindicações ameaçadoras, nesta literatura. Para
que intervenham é preciso, por exemplo, que M. Soriano se
afaste do terreno da literatura e passe ao da história (sobre­
tudo, no seu artigo dos Annales, para analisar a função e o
lugar social desta literatura). A articulação dos textos com
uma história política é, contudo, fundamental. Só ela expli­
ca como se constituiu um olhar.
O mesmo «esquecimento» se verifica quanto às revoltas
camponesas, reivindicações regionalistas, conflitos autonomis­
tas, em suma, a violência. Robert Mandrou sublinhou como,
desde o século XV III, a literatura popular desempenha o
papel de um álibi e funciona como uma alienação do povo
que «distrai» ou representa50. O mesmo acontece no século
X IX : do camponês, os folcloristas apagam as guerras; dele
resta apenas uma «alma obscura». As revoltas provinciais
deixam apenas como marca, na Sociedade dos «Traditionna-
listes», «os reservatórios profundos onde dormem o sangue eI

I 49 M. Soriano, op. cit., pp. 125-130.


50 Os livrinhos azuis de Troyes, diz ele, constituíram «um obstáculo à
tomada de consciência das condições sociais e políticas às quais estavam
72 /l BELEZA DO MORTO

as lágrimas do povo» (1887). Os levantamentos populares


emergem apenas, nas pesquisas eruditas, sob a forma de um
objecto miserável a «preservar»: «as tradições francesas abo­
lidas ou desfiguradas.»
Será possível ser-se bretão?, perguntava Morvan Lebesque.
Não, responde a literatura científica, a não ser enquanto
objecto «abolido» e nostálgico. Mas a história mostra que a
violência foi apagada da literatura porque o tinha sido an­
teriormente por uma violência. As datas são eloquentes.
O «burlesco» dos Perrault (1653) segue-se à repressão das
frondas políticas. O interesseque demonstram os correspon­
dentes de Grégoire pelos patois (1790-1792) acompanha e
pressupõe o apagamento político dos regionalismos perante
o «patriotismo». Os estudos de Nisard acerca do colportage
(1854) tornaram-se possíveis graças à derrota dos movimen­
tos republicanos e socialistas de 1848 e pelo estabelecimento
do Império em 1852. A violência política explica a elimina­
ção da violência no estudo dos particularismos, do mundo
campesino, ou da «cultura» popular. O que permitiu a exis­
tência destes paraísos perdidos oferecidos aos letrados foi
sempre a vitória de um poder.
Não se poderia aliás censurar uma literatura por se arti­
cular numa violência (uma vez que é sempre esse o caso),
mas por não a confessar.

Ciência e política

Para onde quer que olhemos voltamos a deparar com


os problemas que de Tristes Trópicos à recente Paz Branca
de R. Jaulin, os etnólogos aprenderam a encontrar numa práti­
ca mais imediatamente concreta e política, mais facilmente
decifrável que a dos historiadores. Numa primeira aborda­
gem, quereriamos tirar a lição de alguns destes livros recen­
tes, importantes, aqui criticados longa e facilmente. Tive­
ram o mérito, não o esqueçamos, de inventar um assunto
tópico na sua própria ambiguidade e, também, de se basea­
rem num enorme trabalho de decifração sugerido por um
certo número de pistas de estudo; a mais clássica, que talvez
CAPÍTULO II 73

seja a mais difícil pela raridade de documentos significati­


vos, seria a via de uma sociologia da cultura, da sua produ­
ção, da sua difusão, da sua circulação: esta pode ser, se se
quiser, a abordagem externa de uma coerência, necessária e
contudo insuficiente. A outra via passa por uma crítica in­
terna da mesma coerência; pode recorrer a instrumentos tão
diversos (mas também tão problemáticos) como a análise lin­
guística, a formalização do relato reduzido a esquemas-tipo51,
ao método textual, à análise das representações conceptuais,
etc. Todavia, trata-se apenas de abordagens cujo objectivo
principal é a definição de uma meta, e a partir daí um ob­
jecto a inventar.
Para o historiador, tal como para o etnólogo, o objectivo
é fazer funcionar um conjunto cultural, fazer aparecer as suas
leis, ouvir-lhe os silêncios, estruturar uma paisagem que não
poderia ser apenas um simples reflexo sob pena de não ser
nada. Mas faria mal se pensasse que os seus instrumentos
são neutros e o seu olhar inerte: nada se dá, tudo tem que
ser tomado, e a própria violência da interpretação pode aqui
criar ou suprimir. A mais ambiciosa das nossas obras, a mais
audaciosa, é também a menos historiográfica e aquela que
mais falha, com certeza, o seu objecto, ao pretender subme­
tê-lo ao fogo convergente de uma série de interrogações (lite­
rária, folclorista, linguística, histórica, psicanalítica, etc.).
M. Soriano declara «assumir de bom grado o rótulo de eclec-
tism o»52. Mas, não será um eclectismo da indiferença, ilusório,
aquele que pretende submeter o mesmo objecto a tantas in­
terrogações, como se cada uma delas não constituísse, na sua
especificidade, um novo objecto cuja distância em relação aos
outros, e não a similitude imediata, é constitutiva? O risco
não é utilizar «ao mesmo tempo métodos reputados inconci­
liáveis», coisa que o autor se abstém de fazer, mas sim uti­
lizá-los da mesma forma sem nada retirar da sua diferença.
Neste sentido, o ensinamento mais enriquecedor, continua a
ser a arquitectura quase autobiográfica do livro, na qual se

51 Cf. as traduções recentes de W. Propp, Morphologie du conte, Pa­


ris, Le Seuil e Gallimard, 1970.
52 Artigo citado, Annales ESC, 1970, p. 638.
74 /l BELEZA DO MORTO

pode tentar ler a maneira como o inquérito «conduziu» o


seu autor53. É que, em última análise, o estudo informa-nos
muito mais acerca do que é, para um universitário progres­
sista de hoje, falar da cultura popular do que sobre a cultu­
ra popular enquanto tal. Remete-nos para uma pergunta que
encontramos a cada passo, e à qual é preciso tentar respon­
der: de onde se fala, que é possível dizer? Mas também: de onde
falam os? O problema torna-se desta forma imediatamente
político uma vez que põe em causa a função social — quer
dizer, em primeiro lugar, repressiva — da cultura «erudita».
Está claro que através da crítica de Soriano, é o nosso
lugar que nos propomos definir. Onde estamos, senão no seio
da cultura «erudita»? Ou, se se quiser: a cultura popular
existirá fora do acto que a suprime? É evidente, por outro
lado, que a nossa agressividade postula, talvez menos ime­
diatamente mas de forma tão segura como o progressismo
confiante dos nossos autores,um tipo de relação política e
social na qual a relação da cultura popular com a cultura
«erudita» poderia não ser de simples hierarquização, mas uma
espécie de democracia cultural cuja utopia é apenas o con-
tratipo da violência que exercemos. Se recusarmos a distin­
ção elite/povo, que as nossas obras admitem sem problemas
no início da nossa investigação, não podemos ignorar que
um acto escrito (portanto, o nosso), uma intenção, não pode­
ríam suprimir a história de uma repressão, nem pretender
seriamente fundar um novo tipo de relação: reservar-se a pro­
fecia política é a última artimanha do saber. Aliás, será possível
pensar uma organização nova no seio da cultura que não seja
solidária de uma mudança da relação das forças sociais?
É precisamente o que o historiador — é, afinal, o nosso
lugar — pode indicar às análises literárias da cultura. Pela
sua própria função ele desapossa-as de um pretendido esta­
tuto de puras espectadoras manifestando-lhes em toda a parte
a presença de mecanismos sociais de escolha, de crítica, de
repressão, lembrando-lhes que é sempre a violência quem
funda um saber. É neste aspecto, e talvez seja mesmo o único,

53 Ibid., p. 636.
CAPÍTULO II 75

que a história se torna o lugar privilegiado em que o olhar


se interroga. Porém, seria vão esperar de um questionamen­
to político uma libertação das culturas, um jacto finalmente
liberto, uma espontaneidade livre como desejavam ambigua­
mente os primeiros folcloristas. A história das antigas deli­
mitações ensina-nos que nenhuma delas é indiferente, que
qualquer organização pressupõe uma repressão. Simplesmente,
não está claro que essa repressão deva sempre fazer-se se­
gundo uma distribuição social hierárquica das culturas. Cabe
à experiência política viva ensinar-nos aquilo que ela pode
ser se a soubermos interpretar. Talvez seja útil recordá-lo no
momento em que se colocam as questões prementes de uma
política e de uma acção culturais.

Falta demarcar os limites da própria interrogação. Toda


a antropologia articula cultura e natureza segundo uma or­
dem que é maioritária e estática: a do olhar e do saber.
A invenção política pode propor novas articulações que dêem
conta de uma dinâmica da repressão. Não se trata de prever
ou de querer essa nova ordem que é o próprio acto político,
e como que o reverso da história. O acto político pode rei­
vindicar toda a cultura e voltar a pôr em causa todas as
delimitações. Contudo, uma outra cultura suporia ainda uma
outra repressão, mesmo que dê origem a uma nova partici­
pação política. A linguagem instala-se nesta ambiguidade,
entre aquilo que implica e aquilo que anuncia. A própria
ciência recebe os objectos e a forma do acontecimento político,
mas não o seu estatuto; não lhe é redutível. Sem dúvida será
sempre necessário que haja um morto para que haja discur­
so; ela dirá a sua ausência ou a sua falta mas, assinalar o
que a tornou possível num momento dado não equivale a
explicá-la. Apoiada num desaparecimento cujas marcas trans­
porta, visando o inexistente que promete sem dar, ela per­
manece o enigma da Esfinge. Entre as acções que simboliza,
mantém o espaço problemático de uma interrogação.
CAPÍTULO III

Formas de especialização: os intelectuais


e a cultura «popular» em França (1650-1800)

O nosso conhecimento acerca das subculturas ou cultu­


ras «populares» raramente procede de referências directas ou
espontâneas feitas por aqueles que delas participam. Pelo
contrário, tal como se tornou um lugar-comum admitir, a
reunião da maior parte da informação disponível foi efectua-
da no Período Moderno por letrados que apesar de serem
muitas vezes originários de meios e formações culturais ex­
tremamente diversos pertenciam, no entanto, à esfera da cul­
tura «letrada» do Antigo Regime: designá-los-ei aqui por
«intelectuais». Esta designação não pretende indicar um gru­
po social ou socioprofissional rigorosamente definido (apesar
de, como veremos, o problema da especialização profissional
ser importante); lidarei aqui com teólogos, homens de le­
tras, médicos, viajantes e funcionários administrativos. Tam­
bém não pretendo insinuar que a sociedade francesa pré-mo-
derna tenha reconhecido como categoria claramente identi­
ficável aqueles cuja actividade social se define pelo seu nível
cultural.
Apesar de a caracterização «intelectual» ser anacrônica
quando aplicada à França moderna, o seu uso é, justificado.
Qualquer que seja a sua preparação, tanto comentadores le­
trados como siimples observadores da vida popular descreve­
ram uma esfera cultural que lhes era alheia. Definiram esse
mundo como diferente e estabeleceram, com ele, uma rela­
ção tendente a reforçar a coerência da sua própria cultura.
Desta forma os seus trabalhos transmitem dois registos fre­
quentemente impossíveis de distinguir: o da observação (no
seu sentido mais lato) e o da visão da sociedade no seio da
qual os autores se situavam, pelo menos implicitamente. Além
disso, quando estes escritores partindo de uma forma de co-
78 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

nhecimento estabelecida, se dedicaram a descrever, explicar,


classificar e julgar as práticas populares, recorreram, de for­
ma mais ou menos explícita, a formas de autoridade (com as
suas contingências contraditórias e por vezes coincidentes)
que os investiam de um certo tipo de magistério cultural e
social, o que está na origem de uma dupla coerência e de
uma interdependência entre aqueles que descreveram a cul­
tura popular e aquilo que descreveram. Dada esta interde­
pendência, proponho-me investigar aqui a produção de um
certo tipo de discurso e de conhecimento, e mais precisa­
mente a relação entre a utilização deste discurso e a produ­
ção de um objecto específico: a «cultura popular».
Esta relação não se tem mantido estável — pelo contrário,
evoluiu entre os séculos XVI e XVII. Os historiadores re­
centes da relação entre as culturas popular e dominante (re­
presentados, de forma muito diversa, por G. Cocchiara ou
R. Muchembled) têm geralmente interpretado esta evolução
em termos lineares1. Têm argumentado que, entre o final da
Idade Média e o aparecimento da sociedade industrial, se
teria acentuado a divagem entre as duas culturas e que a
cultura popular teria continuado a ser reprimida e margina­
lizada. Os folcloristas do século X IX só teriam redescoberto
os encantos da cultura popular depois de esta ter sido redu­
zida à categoria de simples curiosidade12. Da mesma forma o
racionalismo do Iluminismo, ter-se-ia limitado a continuar
o esforço das duas Reformas, a Protestante e a Católica, bem
como da monarquia absoluta, para normalizar tais práticas e
crenças. Limitando-me a uma análise das formas de especia­
lização, aproximadamente entre 1650 e 1800, mostrarei que
esta evolução foi menos linear e mais complexa do que até
agora se tem afirmado.
No período anterior a 1750, aproximadamente, podemos
identificar dois tipos de atitudes, de manipulações, de dis­
curso, que evoluíram em direcções opostas. Em meados do

1 G. Cocchiara, Storia dei folklore in Europa, Turim, 1971; R. Mu­


chembled, Culture populaire et culture des elites dans la France moderne
(X V -X V U I' siècles), Paris, 1978.
2 Cf. Capítulo II.
CAPÍTULO lll 79

século XV II, aqueles que lidavam com práticas populares


eram, na sua maioria, intelectuais cujo estatuto decorria da
especialização profissional: eram principalmente teólogos, mas
também alguns médicos, juristas e astrônomos. Todos con­
fiavam simultaneamente na autoridade do conhecimento e
na sua competência profissional. Contudo, quanto mais nos
aproximamos da primeira metade do século XVIII, mais a
competência daqueles que discutem acerca da cultura popu­
lar parece dissolver-se; são desprofissionalizados, desinvesti-
dos de autoridade. Começara a surgir um consenso cultural
e social baseado no senso comum e nas convenções e assisti­
mos, por consequência, a um desvio gradual nas atitudes
acerca das práticas populares: estas eram, em 1650, objecto
de estudo de um grupo qualificado de profissionais e, a par­
tir de 1700, passaram a ser tratadas, pouco a pouco, como
um fenômeno sociocultural distinto.
Este movimento inverteu-se em meados do século XVIII.
Foi reconstruída paulatinamente, de uma forma complexa e
por vezes contraditória, uma abordagem sistematizada da
cultura popular e as condições de observação foram codifica­
das de forma ainda mais ampla. Consequentemente, rede-
finiram-se as formas de especialização e de competência,
conduzindo ao estabelecimento, no final do século, de uma
disciplina nova e autônoma: a antropologia. O futuro desta
disciplina parecia incerto mas a natureza do seu objecto de
estudo, os seus métodos e os seus critérios clarificavam-se.
Passarei a examinar essas três fases sucessivas com mais por­
menor.
Utilizarei o termo «popular» para designar aquele con­
junto de práticas que não têm um estatuto legítimo na cul­
tura da sociedade tradicional. Estas práticas definem-se por
uma série de atributos que se opõem, ponto por ponto, aos
atributos da cultura estabelecida.
Estas oposições foram estabelecidas com base em três cri­
térios que tiveram um efeito cumulativo sem se sobreporem
claramente. O primeiro, mais estreito, enraizado na tradi­
ção, era o critério da verdade: o conhecimento verdadeiro
opunha-se ao falso conhecimento, o conhecimento ao desco­
nhecimento. Esta era a posição do teólogo, por exemplo, que
80 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

usou a oposição para distinguir o lícito do ilícito. O segun­


do, era um critério de racionalidade. Contrapondo práticas e
atitudes coerentes e aceitáveis (de um ponto de vista moral,
intelectual, social ou até teológico) com outras que o não
eram; ou seja, com produtos de paixões perversas. O terceiro
e mais amplo destes critérios pode designar-se por «conven­
ção»: baseava-se no reconhecimento de um código social mais
ou menos explícito que determinava o que era culturalmente
aceitável e o que não era. Entre meados do século XVII e
meados do século XVIII, estes três sistemas de oposição fun­
cionaram simultaneamente. Porém, a hierarquia de critérios
foi-se alterando gradualmente; o último sistema de oposi­
ção, que é também o mais aproximado — mas de forma ne­
nhuma o menos eficiente — foi substituído pelo primeiro
critério (verdadeiro/não verdadeiro), mais rigoroso. Por volta
de 1750, assiste-se a um maior interesse pela identificação
da propriedade de certas práticas em relação às quais a preo­
cupação do século anterior tinha sido estabelecer se estavam
ou não baseadas na verdade. Consequentemente, o objecto
de especialização transformou-se também.
O abade Jean-Baptiste Thiers, o mais famoso dos escri­
tores teológicos de opúsculos acerca de superstições, é um
bom exemplo da primeira destas três posições. Para além do
Traité des superstitions (publicado em 1679, significativamente
aumentado em 1702, e reimpresso várias vezes no século
XVIII), Thiers dedicou inúmeros panfletos, ensaios, e co­
mentários denunciando falsas crenças, falsas práticas, e o uso
errado da religião. Este moralista, pároco, situa-se na mes­
ma área que uma larga rede de padres «jansenistas» e, insa­
tisfeito com a sua relação com a hierarquia católica, foi um
homem comprometido cujas preocupações pastorais informa­
ram uma incansável militância teológica. No entanto, abor­
da o assunto, medindo as formas de comportamento analisa­
das pela bitola da verdade. O Traité des superstitions baseia-se
completamente na confrontação do imprecisamente definido
mundo das práticas actuais com um corpo de referências
teológicas (um corpus retirado na sua maioria de Santo Agos­
tinho através de S. Tomás de Aquino e das autoridades con­
ciliares e sinodais, as quais fazem a distinção entre a verda-
CAPÍTULO III 81

deira religião e a idolatria)3. Nas suas polêmicas com Ma-


billon, entre outros, no final do século XVII e inícios do
século XVIII, acerca da autenticidade das relíquias de S. Fir-
mino de Amiens (1699) ou da Santa Lágrima de Vendôme
(1699), este destruidor de falsos cultos conduziu um duplo
exame crítico4. Thiers verificou a conformidade canônica da
tradição: assim, a Lágrima de Vendôme era uma crença, mas
uma crença falsa, uma vez que a tradição que a legitimava
não era «nem divina, nem apostólica, nem episcopal ou ecle­
siástica, existindo apenas estes três tipos de tradições verda­
deiras». Por outro lado criticava, em nome da utilização cor­
recta da linguagem, as provas apresentadas por aqueles que
argumentavam a favor da relíquia: «Todos estes aconteci­
mentos são apresentados de tal maneira que poderíam passar
por verdadeiros, se não fosse a inexistência de provas. Mas o
historiador que os narra não tem para nós autoridade sufi­
ciente para que acreditemos na sua palavra. Não possui nem
domínio do estilo, nem erudição, nem gênio, nem discerni­
mento esclarecido. O seu raciocínio perde-se; tende a acre­
ditar cegamente em fábulas; escreve levado apenas pelo in­
teresse ou pela paixão; e eu poderia demonstrar, sem grande
esforço que, de todos os factos que apresenta, não há um
único que não seja ou extremamente improvável ou absolu­
tamente falso [...]5.» Neste texto, podemos já aperceber-nos
do critério da racionalidade das práticas (por exemplo, «dis­
cernimento esclarecido», «domínio do estilo» versus «fábula»)
mas a referência a uma autoridade do conhecimento, seja ela
a das escrituras ou a da história, permanece dominante e é a
base da condenação.
A caracterização que Thiers faz da «cultura popular», não
se prende aliás, a nenhum atributo social, sociocultural ou a
qualquer qualidade intelectual. A crença popular opõe-se à

3 R. Chartier e J. Revel, «Le paysan, 1’ours et St. Augustin», La


découverte de la France au 17' siècle, Paris, 1980, pp. 259-64.
' J. B. Thiers, Dissertation sur la Sainte Larme de Vendôme, Paris,
1699; Dissertation sur le lieu ou repose présentement le corps de S. Firmin le
Confès, III' Evesque d'Amiens, Paris, 1699-
5 Dissertation sur la Sainte Larme, Amsterdão, 1751, p. 125.
82 FORMAS DE ESPEC1ALIZAÇAO

fé católica tal como o particular se opõe ao universal («to­


dos os reinos, todas as províncias, todas as dioceses, todas as
cidades, todas as paróquias têm as suas próprias crenças»); a
crença popular não tem fundamento na autoridade canônica.
A «tradição popular» (e Thiers foi um dos primeiros a utili­
zar esta expressão) é por definição inaceitável porque con­
funde crença e tradição: «A crença na Lágrima de Vendôme
não é nem uma tradição divina nem uma tradição ecle­
siástica. Não é mais do que uma tradição popular que não
merece o nome de tradição, e não se funda em nenhuma
verdade6. »
A linha de demarcação entre conhecimento e ignorância
esteve em constante mutação durante a segunda metade do
século XVII e primeira metade do século XVIII. Os crité­
rios que serviram para estabelecer a distinção tornavam-se
relativamente laicos. O oratoriano P. Lebrun, contemporâ­
neo de Thiers e discípulo de Malebranche, publicou em 1702
uma Histoire critique des pratiques superstitieux qui ont séduit
les peuples et embarassé les savants. Como o título indica, Le­
brun examinou as práticas supersticiosas de perto, de acordo
com as normas da ciência e da fé. Os seus métodos de peri-
tagem pretendiam ser sistemáticos e científicos — tal como
apareceríam de forma ainda mais explícita alguns anos mais
tarde na Histoire des Oracles de Fontenelle. Mas este interesse
não era nem simples nem linear; não se tratava apenas de
uma secularização indiscriminada, alicerçada no descrédito
ou tentando desqualificar os especialistas eclesiásticos. A ra­
zão da complexidade desta tendência é dupla. Por um lado,
os próprios eclesiásticos adoptaram, pelo menos em parte, o
novo critério, e este facto restringiu um pouco a sua reivin­
dicação de um magistério cultural. Esta foi a atitude do ra-
cionalismo católico. Em segundo lugar, mesmo quando o ra-
cionalismo se mostrava mais militante, os seus defensores
foram suficientemente cautelosos para não se intrometerem
no território dos teólogos. A obra de Dom Calmet é um

6 Ibid., p. X X X IX .
CAPÍTULO III 83

reflexo da primeira atitude7. Dom Calmet era um dominica­


no, vítima bem conhecida do sarcasmo de Voltaire no auge
do Iluminismo. Publicou, em 1746, uma Dissertation sur les
apparitions des anges, des démons et sur les revenants et vampires
de Hongrie que foi reeditada várias vezes. As suas in­
cansáveis e frequentemente desajeitadas tentativas de resol­
ver a questão da fé e da razão levaram-no a contrapor aquilo
a que chama «verdadadeiro sobrenatural» (isto é, razoável) e
todo um conjunto de superstições populares, que atribui à
ignorância e que não hesita em criticar. «Nota-se que quan­
to maior é a ignorância num país, mais reina a superstição,
e que o espírito das trevas exerce um domínio proporcional
ao grau de erro e desordem em que vivem os povos8.» Nesta
análise, dificilmente poderiamos encontrar o rasto do demônio
que obcecava Thiers. Podemos, no entanto, observar a pru­
dência do racionalismo. Foi notado recentemente que mes­
mo no bastião da militância iluminista, na Encyclopédie, os
artigos que dizem respeito às várias formas de superstição se
caracterizam por uma cautelosa discrição9. Estes artigos, na
sua maioria escritos pelo Chevalier de Jaucourt, referem-se
geralmente às obras de teólogos tradicionais (em particular
de Thiers). Invocam mais facilmente a prática da «razão sólida»
do que os requisitos do racionalismo secular. Os encyclopédis-
tes apelam para os teólogos para estabelecer os limites da
razão. Até mesmo a definição de superstição indica uma es­
pécie de divisão de tarefas: é «um culto religioso, falso, de­
ficientemente controlado, eivado de terrores ilusórios, contrário
à razão e às noções saudáveis que se devem ter acerca do Ser
Supremo». O artigo acerca dos feitiços é ainda mais explícito:
«Os feitiços são parte daquilo a que chamamos magia; mas
destinam-se principalmente a prejudicar o homem, quer na

B. Kopeczi, «Un scandale des Lumières: les Vampires», Thèmes et


figures du Siècle des Lumières: Mélanges offerts à Roland Mortier, ed. por
R. Trousson, Genève, 1980, pp. 123-35.
8 Calmet, Dissertation sur les apparitions, p. 178.
9 O que se segue baseia-se num estudo recente de J. M. Goulemot,
«Démons, merveilles et philosophie à l'âge classique», Annales ESC, 6,
1980, pp. 1223-50.
84 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

sua pessoa, quer no seu gado, nas suas plantas, ou nos frutos
que reuniu da terra. Só os teólogos têm capacidade para li­
dar com um assunto tão delicado.» Trata-se, sem dúvida, de
um exemplo da cautela dos encyclopédistes, mas sugere a exis­
tência de uma solidariedade entre os detentores do uso cor­
recto da razão quando se defrontam com aqueles que racio­
cinam de forma deficiente ou nula. O que me conduz a um
segundo sistema de oposições, identificável muito antes da
época da Encyclopédie. Na primeira metade do século XVII,
aparece um outro tipo de divisão entre cultura de elite e
cultura popular. O século XVI assistiu a uma grande diver­
sidade de interesse pelos produtos da subcultura (particular­
mente no caso de regionalismos, linguagem e provérbios que
foram cuidadosamente coleccionados e compilados). O clas-
sicismo francês definiu claramente a distância entre os dois
níveis culturais101.
Publicavam-se abertamente colecções de provérbios, em­
bora em pequena escala, e houve colecções de contos popu­
lares que entraram na literatura culta com os Contes de ma
mère l’Oye de Charles Perrault (1697). Estes marcos históricos
não reflectem de forma exacta a atitude mais generalizada.
N a senda de René Pintard, J. M. Goulemot insistiu acerta-
damente no papel decisivo desempenhado nesta evolução pelo
círculo dos libertins érudits' ‘. Apesar de ser constituído por
uma minoria e de ser praticamente marginal, este grupo advo­
gava um tipo de controle social e cultural muito diferente
daquele que sustentavam os guardiães do bon usage acima
descrito. A pretensão de um magistério sociocultural já não
se fundava aqui num estatuto profissional. Este grupo en­
volvia alianças muito mais amplas e diversas do que aquelas
que aproximavam, por exemplo, os teólogos, do abade Thiers.
Estes «livres-pensadores» não se definiam nem se identifica­
vam na base de uma competência normativa: nem se consi-

10 N. Z. Davis, Society and Culture in Early Modem France, Stanford,


1975, capítulo 8, «Proverbial Wisdom and Popular Errors», pp. 227-
-67.
11 R. Pintard, Le libertinage érudit dans la première moitié du XVII'
siècle. Paris, 1943.
CAPÍTULO 111 85

deravam senhores da verdade. O que tinham em comum era


o desejo de uma utilização livre e benéfica do espírito crítico.
Sem dúvida que os caminhos da razão eram por definição
acessíveis a todos; mas a capacidade de a utilizar era um
privilégio distribuído de forma desigual. Era o sinal no qual
se revia uma elite nascente e desejosa de estabelecer uma
nova aristocracia. No preciso momento em que a noção de
raison d’État se desenvolvia, esta elite esperava que a jovem
monarquia absoluta não só lhe reconhecesse e confirmasse
talentos e privilégios mas também que transformasse o Esta­
do num agente da institucionalização social da «razão».
A relação entre conhecimento e política — que seria ressus­
citada e desenvolvida no século XVIII — estava assim pre­
sente no início do processo evolutivo. No entanto, mais uma
vez seria um erro simplificar demasiadamente. A batalha pela
razão foi combatida em várias frentes no século XVII e pri­
meira metade do século XVIII. Surgiram grandes debates
acerca daquilo que deveria ser aceite como credível: entre
1630 e I 6 6 O o interesse incidia sobre a realidade de casos
de bruxaria e de possessão diabólica; entre 1650 e 1 6 8 0 ,
sobre a natureza e significado dos cometas. Estas discussões
opuseram os libertinos à «ignorância», mas também os clé­
rigos aos laicos, os cientistas aos amadores, diferentes gru­
pos profissionais uns contra os outros, todos eles utilizando
estratégias e alianças variadas e complexas12. Foi então que
o clero, com uma impetuosidade misturada de reticência, se
juntou ao grupo do conhecimento positivo: estavam ameaça­
dos, por um lado, pela tenacidade das crenças populares e,
por outro, pela denúncia dos libertinos e pela competência
técnica de profissionais como os médicos e os astrônomos.
De qualquer forma, nesse momento, ser denunciado por
erro ou crenças falsas significava ser socialmente desacredi­
tado. As crenças populares já não eram encaradas como sinal
de inconformismo epistemológico, como tinha acontecido na

12 R. Mandrou, Magistrais et sorciers en France au XVII' siècle: Une


analyse de psychologie historique. Paris, 1968; M. de Certeau, L a Posses-
sion de Loudun, Paris, 1971; El. Labrousse, Uentrée de Satume au Lion:
Uéclipse du 12 aoüt 1654, Haia, 1974.
86 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

fase anterior; passaram a ser encaradas como a origem do


obscurantismo e da ignorância. E o que o intendant de forti­
ficações, Petit, exprime claramente na sua Dissertation sur la
nature des cometes (1654). Este homem fora encarregado pela
monarquia de efectuar uma descrição racional do aconteci­
mento astronômico que abalou a Europa crédula: «Toda a
Europa foi abalada pelo terror, falo do povo ignorante, ao pon­
to de se acreditar que se tratava do fim do mundo [,..]13.»
Uma geração depois, na altura do cometa de 1680, os ter­
mos eram ainda mais explícitos: as falsas crenças eram uma
«doença popular». O povo era visto como portador desta mar­
ca fossilizada de arcaísmo social e cultural; era simultanea­
mente uma indicação do seu estatuto de subserviência e a
sua justificação. As práticas populares representavam, assim,
uma época passada, eram apenas um repositório das crenças
errôneas da humanidade e da infância da espécie humana (o
tema tornar-se-ia recorrente). O Journal des Savants reflecte
claramente esta atitude ao mesmo tempo que traça uma tra-
jectória surpreendente desde a astronomia de Aristóteles até
ao submundo das crenças populares:
«A antiga filosofia acreditava, porque queria que os co­
metas fossem sublunares e queria que a sua natureza fosse
uma massa de emanações evolada da terra, que quando essas
emanações se incendiavam, o que só podia indicar uma grande
perturbação na Região Elementar, alguma enorme e gran­
diosa revolução deveria seguir-se-lhes. Mas desde que apren­
demos que os cometas são corpos celestes abrimos os olhos
para este erro que é apenas um erro popularu.»
Está clara a forma como se deu a imperceptível mudan­
ça: aquilo que se denunciou em nome da razão aceite ou do
conhecimento científico passou a ser invalidado como pro­
dução de um grupo social inferior. Podemos assim identifi­
car uma terceira linha divisória.
Esboçarei apenas resumidamente a reorganização das re­
ferências culturais que caracteriza a época do classicismo fran-

15 Citado por Goulemot, «Démons», pp. 1226-27. Sublinhado meu.


14 Ibid., p. 1227. Sublinhado meu.
CAPÍTULO 111 87

cês — um período que se estende aproximadamente entre


1650 e 1750 — porque o fenômeno é bem conhecido. Com
o apoio do Estado monárquico e das suas novas instituições,
e graças aos esforços da Igreja pós-tridentina, foi levada a
cabo uma normalização cultural multifacetada. Os seus efei­
tos são evidentes um pouco por toda a parte: na codificação
das obras e nos critérios do gosto, na reforma da conduta
social e das formas lícitas de sociabilidade e, ainda, nas nor­
mas da moral colectiva. Um amplo leque de modelos de
comportamento e de valores elitistas, geralmente urbanos na
sua origem, passaram a ser oferecidos; foram postos em con­
traste com formas populares, consideradas de origem campo­
nesa. Como vimos, a purificação e o controle das práticas
religiosas foram levados a cabo de forma sistemática, geral­
mente, por especialistas profissionais. Mas o próprio êxito
dos seus empreendimentos — uma vez que os seus livros
passaram a estar na moda e foram rapidamente elevados à
categoria de colecções de curiosidades (curiosa), reimpressos
muitas vezes para os amadores do século XVIII — mostra
que os efeitos da discriminação eclesiástica (isto é, teológica)
e racionalista eram compostos por um público mais amplo
de honnêtes gens e produto de um ostracismo social (há provas
mais do que evidentes disto na correspondência de Mme de
Sévigné, por exemplo). Simultaneamente, a utilização da lin­
guagem sofreu um duplo tratamento: inventariação e análise
científica por um lado, e codificação social, por outro. Insti­
tuições públicas como a Académie Française, gramáticos e
compiladores de dicionários determinaram as regras do uso
correcto da linguagem; este uso preferencial deveria excluir
todos os outros (burguês, popular, regional, profissional, téc­
nico, etc.), invalidados a partir de então. A partir daí,
a propriedade de práticas legítimas estabeleceu-se contra a
marginalidade de usos não regulamentados da linguagem (que
eram, evidentemente, os usos da maioria). A norma tinha-se
tornado classificadora; o termo «popular», apesar de ter per­
manecido socialmente pejorativo, deixou de referir uma iden­
tidade social específica. Ainda incluía as superstições do campo
e a gíria das ruas de Paris, claro, mas podia agora incluir
também o corpus fora de moda da literatura de «elite» do
88 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

passado, reeditada na Bibliothèque bleue e as balourdises


(disparates) do Bourgeois Gentilhomme, e la vieille chanson,
de « nos pères tous grossiers» que Alceste, em contraste com a
moda prevalecente, tanto elogiava. O domínio do popular
era agora o mundo negativo das práticas ilícitas, da conduta
estranha ou errada, da expressividade descontrolada, e da
natureza contra a cultura — a mesma natureza que tantos
exploradores da França mais profunda julgaram, no século
XVIII, ter descoberto.
Podemos assim postular a existência e aplicação simultâ­
nea de critérios tanto mais gerais quanto menos precisamente
definidos. De facto, entre 1650 e 1750 os critérios menos
rigorosos, portanto mais exclusivos, passaram, gradualmente,
a prevalecer. Estes critérios eram, contudo, manipulados por
grupos cuja competência e especialidade foram sendo defini­
dos com mais rigor à medida que os seus referentes se foram
clarificando. Demonologistas como Bodin, teólogos como Thiers
ou Lebrun, médicos, e, mais ainda, astrônomos, eram espe­
cialistas profissionais numa área específica do conhecimento;
dominavam técnicas específicas e aplicavam-nas num campo
de interesses bem definido. Quando o papel destes profissio­
nais começou a declinar, durante os séculos XVII e XVIII,
estabeleceu-se um código social e cultural de legitimação e
exclusão. Socialmente o código era tanto mais eficiente quan­
to os seus métodos de operar permaneciam obscuros: apre­
sentava-se como um compêndio de práticas comuns, mas o
seu domínio era limitado apenas a alguns. Este código não
possuía o seu próprio corpo de especialistas; era antes domi­
nado por indivíduos que se consideravam parte dele. Onde
houvera outrora um corpo de conhecimentos, por mais arbi­
trários que se possa considerar terem sido, havia agora um
sistema de acordo tácito.
Esta evolução teve consequências óbvias na própria defi­
nição do objecto em questão, a «cultura popular». Como muitos
teólogos que escreveram acerca da superstição, Thiers, no
seu Traité, tem dificuldade em escolher entre o rigor de uma
definição já feita, e peremptória (religião contra superstição)
e um inventário impreciso e empírico das manifestações con­
cretas do mal que pretende expor — de práticas ilícitas que
CAPÍTULO III 89

devem ser identificadas, descritas e classificadas. É por esta


razão que o acto de classificação assume tanta importância
para Thiers. Esse acto era, em última análise, mais impor­
tante para ele do que a própria reunião de dados ou o exame
dos princípios de classificação — uma classificação que não
poderia ser questionada em razão da sua origem divina e
eclesiástica. Curiosamente, a correspondência de Thiers com
outros párocos seus homólogos revela apenas referências bi­
bliográficas e dados livrescos, e nenhuma tentativa de verifi­
car directamente a qualidade das fontes e a validade dos
dados. Não há nunca a consciência de que as práticas que
recolhe possam ter um significado em si ou através de si
próprias. Há um relatório acerca de Thiers que nos dá uma
ideia dos seus métodos:
«Quando decidia escrever acerca de um assunto escolhi­
do, que era sempre extraordinário ou estranho, folheava a
lista dos seus livros — tinha muitos livros bastante fora do
vulgar — e continuava a sua busca nas melhores bibliotecas
ou nas bibliotecas dos amigos, de forma a reunir material
para os seus projectos; depois punha as suas descobertas no
papel15.»
Não é surpreendente verificar a ausência de preocupa­
ções etnográficas no trabalho de um escritor cujo interesse
não se encontra nesse tipo de análise. E que, embora a sua
vocação e especialidade o pusessem em contacto diário com
práticas populares, a sua intenção era a defesa e a exemplifi-
cação de uma norma.
Apesar de tudo, acreditava na existência da verdade e da
falsidade e nas regras que as determinam. O seu interesse
não era a cultura popular mas a verdadeira fé, a qual sentia
ser seu dever preservar e impor aos outros. Se nos colocar­
mos no outro extremo do espectro, onde o discurso da ex­
clusão social era mais geral e menos explícito, verificamos
que este discurso parece não ter nem autor nem objecto.
Isto não quer dizer que não operasse na sociedade de forma

15 Biblioteca Municipal de Grenoble, Ms. 227, recolha de cartas de


D. Bonaventure d'Argonne, ff. 28-29.
88 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

passado, reeditada na Bibliothèque bleue e as balourdises


(disparates) do Bourgeois Gentilhomme, e la vieille chanson,
de « nos pires tous grossiers» que Alceste, em contraste com a
moda prevalecente, tanto elogiava. O domínio do popular
era agora o mundo negativo das práticas ilícitas, da conduta
estranha ou errada, da expressividade descontrolada, e da
natureza contra a cultura — a mesma natureza que tantos
exploradores da França mais profunda julgaram, no século
XVIII, ter descoberto.
Podemos assim postular a existência e aplicação simultâ­
nea de critérios tanto mais gerais quanto menos precisamente
definidos. De facto, entre 1650 e 1750 os critérios menos
rigorosos, portanto mais exclusivos, passaram, gradualmente,
a prevalecer. Estes critérios eram, contudo, manipulados por
grupos cuja competência e especialidade foram sendo defini­
dos com mais rigor à medida que os seus referentes se foram
clarificando. Demonologistas como Bodin, teólogos como Thiers
ou Lebrun, médicos, e, mais ainda, astrônomos, eram espe­
cialistas profissionais numa área específica do conhecimento;
dominavam técnicas específicas e aplicavam-nas num campo
de interesses bem definido. Quando o papel destes profissio­
nais começou a declinar, durante os séculos XVII e XVIII,
estabeleceu-se um código social e cultural de legitimação e
exclusão. Socialmente o código era tanto mais eficiente quan­
to os seus métodos de operar permaneciam obscuros: apre­
sentava-se como um compêndio de práticas comuns, mas o
seu domínio era limitado apenas a alguns. Este código não
possuía o seu próprio corpo de especialistas; era antes domi­
nado por indivíduos que se consideravam parte dele. Onde
houvera outrora um corpo de conhecimentos, por mais arbi­
trários que se possa considerar terem sido, havia agora um
sistema de acordo tácito.
Esta evolução teve consequências óbvias na própria defi­
nição do objecto em questão, a «cultura popular». Como muitos
teólogos que escreveram acerca da superstição, Thiers, no
seu Traité, tem dificuldade em escolher entre o rigor de uma
definição já feita, e peremptória (religião contra superstição)
e um inventário impreciso e empírico das manifestações con­
cretas do mal que pretende expor — de práticas ilícitas que
CAPÍTULO III 89

devem ser identificadas, descritas e classificadas. É por esta


razão que o acto de classificação assume tanta importância
para Thiers. Esse acto era, em última análise, mais impor­
tante para ele do que a própria reunião de dados ou o exame
dos princípios de classificação — uma classificação que não
poderia ser questionada em razão da sua origem divina e
eclesiástica. Curiosamente, a correspondência de Thiers com
outros párocos seus homólogos revela apenas referências bi­
bliográficas e dados livrescos, e nenhuma tentativa de verifi­
car directamente a qualidade das fontes e a validade dos
dados. Não há nunca a consciência de que as práticas que
recolhe possam ter um significado em si ou através de si
próprias. Há um relatório acerca de Thiers que nos dá uma
ideia dos seus métodos:
«Quando decidia escrever acerca de um assunto escolhi­
do, que era sempre extraordinário ou estranho, folheava a
lista dos seus livros — tinha muitos livros bastante fora do
vulgar — e continuava a sua busca nas melhores bibliotecas
ou nas bibliotecas dos amigos, de forma a reunir material
para os seus projectos; depois punha as suas descobertas no
papel15. »
Não é surpreendente verificar a ausência de preocupa­
ções etnográficas no trabalho de um escritor cujo interesse
não se encontra nesse tipo de análise. E que, embora a sua
vocação e especialidade o pusessem em contacto diário com
práticas populares, a sua intenção era a defesa e a exemplifi-
cação de uma norma.
Apesar de tudo, acreditava na existência da verdade e da
falsidade e nas regras que as determinam. O seu interesse
não era a cultura popular mas a verdadeira fé, a qual sentia
ser seu dever preservar e impor aos outros. Se nos colocar­
mos no outro extremo do espectro, onde o discurso da ex­
clusão social era mais geral e menos explícito, verificamos
que este discurso parece não ter nem autor nem objecto.
Isto não quer dizer que não operasse na sociedade de forma

15 Biblioteca Municipal de Grenoble, Ms. 227, recolha de cartas de


D. Bonaventure d'Argonne, ff. 28-29.
90 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

extremamente eficiente. Foi perpetuado anonimamente por


uma voz colectiva cuja identidade derivava do uso do dis­
curso, independentemente de qualquer capacidade técnica de
especialização. O grupo usava o discurso para sua definição
própria e não para ilustrar ou aplicar uma norma ou para
indicar uma competência profissional. O objectivo do dis­
curso era qualificar ou desqualificar práticas em termos de
posição social. Enquanto Thiers se esgotava a compor taxi-
nomias de infinita complexidade e Lebrun tentava estabele­
cer uma forma segura para distinguir entre verdade e falsi­
dade, o abade Lenglet Dufresnoy propunha, em 1751, um
Recueil de dissertations anáennes et nouvelles sur les apparitions,
les visions et les songes, compilação muito útil de «histórias
extraordinárias», acerca das quais afirma: «Não serei acusa­
do de acreditar em tudo o que aqui se imprime16.» Enquan­
to autor, mantém uma distância segura em relação ao corpo
dos textos, que dispõe da maneira o mais neutra possível —
cronologicamente — e que apresenta à curiosidade dos seus
leitores sem exprimir opiniões nem fornecer regras de inter­
pretação. Contudo, ao fazê-lo, Lenglet Dufresnoy não deixa
espaço para a especialização; aparentemente, já não era ne­
cessária.
Por volta de meados do século XVIII, no preciso mo­
mento em que o velho sistema de oposições utilizado para
definir a cultura popular estava aparentemente em estado de
desagregação, parece ter-se desenvolvido um movimento na
direcção oposta. Antes do final do século, no espaço de duas
gerações, este movimento conduziría a uma redefinição do
objecto em causa (práticas populares) e a novas formas de
profissionalização, baseadas quer na acumulação de um cor­
po de conhecimentos, quer numa nova codificação da obser­
vação.
Ao contrário dos textos que acabámos de descrever, cuja
finalidade era distinguir entre produções culturais lícitas ou
ilícitas e formas de cultura dominantes ou autorizadas, atra-

16 N. Lenglet Dufresnoy, Recueil, nota introdutória; Goulemot,


«Démons», p. 1234.
CAPÍTULO 111 91

vés da proibição ou da desqualificação, há uma outra série


de textos que indica uma mudança de atitude decisiva. Po­
demos caracterizá-los grosseiramente como «pré-etnográficos»,
não no sentido em que contêm dados etnográficos rudimen­
tares (poderiamos dizer o mesmo acerca dos tratados sobre
superstições do século XVII, das colecções de curiosités do
século XVIII e de muitos documentos medievais), mas pela
atitude que os seus autores adoptaram em relação ao objecto
que se propõem investigar. Estas obras são de natureza di­
versa: relatos de viagens pela província, documentos es­
tatísticos, relatórios administrativos, monografias descritivas;
a maioria destes materiais floresceu depois de 1750 e foi
secundada por grandes investigações colectivas no último terço
do século. Apesar de variados, apresentam alguns aspectos
em comum. Revelam, em grau variável, a descoberta e o
reconhecimento de um nível cultural diferente, estranho e
alheio (ou, como muitas vezes o definem, «curioso»). Mas
essa «curiosidade» já não constituía um argumento para evi­
tar o estudo das práticas populares; pelo contrário, tornou
possível um novo tipo de investigação. Porque o reconheci­
mento da diferença de uma outra cultura foi possível — e
aqui reside a novidade — apenas quando existiu um forte
sentido de identidade entre «nós» e «eles», entre observa­
dor e observados; e esta identidade serviu para afirmar uma
unidade fundamental entre as várias formas de humanidade.
A descrição e compreensão das características do «outro» tinha
que ser incorporada na história das origens colectivas da
humanidade. Recordamos imediatamente os grandes teóricos
do século como Rousseau ou Buffon17. Mas é mais inte­
ressante examinar a massa de esforços efectuados, muitas vezes
de forma modesta e atabalhoada para reconstituir, peça por
peça, a genealogia social e cultural da humanidade — ou
seja, os esforços para redescobrir os substratos do passado
que dão coerência à actividade e à história humanas. Agora,
qualquer curiosité, qualquer vestígio, qualquer fragmento de

17 M. Duchet, Anthropologie et histoire au Siècle des Lumières, Paris,


197 1 .
92 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

práticas populares posto a descoberto, fornecia uma prova


de um passado enterrado. «Arcaico» não identificava já um
passado longínquo e degradado mas sim uma cadeia de ser
que tinha que ser compreendida para tornar inteligível a
nova sociedade. Sem dúvida que a recolha de factos era ain­
da a reunião de dados e objectos insignificantes, e continua­
ria a sê-lo durante algum tempo, mas a iniciativa tornou-se
significante à medida que a informação reunida foi sendo
integrada num esquema mais vasto que os pensadores do sé­
culo XVIII construíram para descobrir e compreender.
A cultura popular foi encarada, nesta fase, como uma
entidade preservadora da memória das épocas passadas. De­
veria ser compreendida como um artefacto social produ2 Ído
em condições particulares, não como o produto negativo de
um sistema de invalidação. Destutt de Tracy exprimiu esta
ideia já no final deste movimento intelectual, nos seus Elé-
ments de 1'idéologie (1801-1804):
«O selvagem dá-nos frequentemente oportunidade de
considerar que homens não esclarecidos podem ser capazes
de criar estruturas muito requintadas e que, ao fazê-lo, po­
dem ser completamente incapazes de criar outras que nos
parecem bem menos complexas. Nas sociedades civilizadas,
a classe com meios de comunicação menos alargados e varia­
dos apresenta fenômenos análogos. Os camponeses que vi­
vem em áreas remotas das montanhas são notáveis pela exacti-
dão que demonstram num pequeno número de estruturas,
pela sua absoluta ignorância de uma imensidade de outras, e
pela sua incapacidade para criar outras novas18.»
Este texto é importante por dois motivos: em primeiro
lugar, apesar do contraste simplista que faz entre o selva­
gem e o homem civilizado, relativiza a ordem e a hierarquia
das produções culturais; em segundo lugar, porque não su­
gere que uma civilização deva ser julgada por oposição a
outra. Sublinha pelo contrário a importância do estatuto so­
cial no seio de cada civilização. O paralelo entre o selvagem
e o camponês, verdadeiro lugar-comum na Europa do Ilumi-

18 Destutt de Tracy, Eléments de 1'idéologie, (1801) Paris, 1970, I: 295.


CAPÍTULO lll 93

nismo, não introduz nenhum julgamento de valor negativo;


remete, antes, para uma hierarquia de formas da vida social
inteligíveis no seio de uma história. Durante o século XVIII,
este assunto foi objecto de juízos de valor, no mínimo, con­
traditórios.
Destutt de Tracy não é de maneira nenhuma um exem­
plo isolado. Pelo contrário, surge no fim de uma época de
investigação «genética» extremamente diversificada, que durou
trinta ou quarenta anos. Antoine Court de Gébelin, por exem­
plo, partiu em busca da Origine du langage et de Técriture no
seu Monde prim itif analysé et comparé avec le monde moderne, con-
sidéré dans l’histoire naturelle de la parole (1775). Partindo do
postulado segundo o qual é possível «reconduzir todas as
línguas a uma única língua da qual todas as outras são ape­
nas variantes», tenta identificar a língua primitiva de toda
a humanidade, depois identificar a língua da Europa (ou seja,
céltica, «a língua que serve de fundamento às nossas ori­
gens francesas»), e traçar a história das suas diferenciações
progressivas. O objectivo da abordagem científica é claro:
exorcizar o «terrível fantasma da imensidade das línguas»
— que é também o fantasma da heterogeneidade social — e
tornar as suas diferenças compreensíveis a partir de um pon­
to de vista histórico. Quase contemporânea da obra de Court
de Gébelin é a análise que faz Legrand d’Aussy na sua His-
toire de la vie quotidienne des Français depuis Torigine de la na-
tion jusques à nos jours (1782), marcada por preocupações
semelhantes. O autor, ao mesmo tempo que lida de uma
forma extremamente original com a diversidade das práticas
alimentares e se preocupa constantemente com a sua loca­
lização e datação, também procura compreender a multipli­
cidade a partir de uma perspectiva genética, uma vez que
essa multiplicidade, como o título indica, procede de uma
história.
De um modo geral a obsessão com o celtismo do século
XVIII pode ser interpretada como a manifestação do desejo
de construir uma antropologia baseada na história. Nada o
demonstra mais claramente do que os trabalhos da Académie
Celtique, no início do século X IX e, em particular, a elabo­
ração de um questionário por Dulaure e Mangourit em 1807,
94 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

estudado recentemente por Mona OzouP9. Os membros da


Académie estabeleceram um conjunto pormenorizado de per­
guntas destinadas a efectuar um inquérito tão sistemático
quanto possível das características da cultura francesa tradi­
cional que ainda se podiam observar.
Tem-se afirmado acertadamente que a reunião de dados
era, à partida, uma tarefa ilimitada; o questionário podia ser
alargado, e, principalmente, definia «mais o território a de­
limitar do que um objecto específico». Mas era o território
social e cultural o verdadeiro objecto do inquérito. A inicia­
tiva baseava-se em dois postulados, que determinaram o seu
método: em primeiro lugar procurava determinar cultural­
mente a unidade da nação francesa (no preciso momento em
que se procurava a unidade política); em segundo lugar, to­
dos os pormenores coligidos, todos os «vestígios» observa­
dos, tinham que encontrar o seu lugar num sistema cultural
coerente, cuja reconstrução era prova dessa almejada unidade.
Assim, as perspectivas tinham-se invertido, e a relação
dos intelectuais com a cultura popular tinha mudado. O que
parecia oferecer resistência à assimilação cultural tinha-se
tornado agora o principal objecto de estudo e de interesse.
Os viajantes cultos do século XVII e até mesmo da primeira
metade do século XVIII, visitavam as cidades e os monu­
mentos que atestavam uma história já constituída; familiari­
zaram-se com obras de arte, descobriram práticas culturais
dominantes e aprenderam a reconhecer as formas de sociabi­
lidade da elite local. Os seus colegas do final do século XVIII
seguiram um rumo completamente diferente. Segundo M.
Vovelle, foi aproximadamente entre 1770 e 1780, que os
visitantes da Provença começaram a mostrar maior curiosi­
dade e a visitar de maneira mais sistemática o interior da
província. O interesse dos viajantes levava-os agora até lo­
cais onde não havia monumentos assinalados, nem história
reconhecida, nem práticas identificáveis. Dirigiam-se para os
arredores, para locais afastados dos caminhos, para monta-19

19 M. Ozouf, «L'invention de 1'ethnographie française: le question-


naire de 1'Académie Celtique», Annales ESC, 2, 1981, pp. 210-30.
CAPÍTULO III 95

nhas e ilhas (a Bretanha, os Pirenéus e os Alpes estavam


muito em voga). Este exotismo doméstico era simultanea­
mente um regresso às origens e uma exploração de carácter
social. No apogeu da Ideologia*, De Gérando forneceu uma
justificação teórica perfeitamente explícita para este fenômeno:
«O philosophe-\iajante que navega até aos confins da Terra
passa por uma sucessão de épocas; viaja no passado; em cada
passo que dá percorre outro século. As ilhas desconhecidas
que encontra são para ele o berço da sociedade humana20.»
O projecto cultural encontra-se profundamente ligado aos
projectos políticos. A ligação tornar-se-ia bem patente na
altura da Revolução e do Primeiro Império, mas é muito
anterior ao século XVIII. Grande parte da literatura sobre a
descoberta da vida popular foi obra de administradores, mé­
dicos e economistas. Estes não inventaram o gênero da des­
crição administrativa, que já existia em França desde o sé­
culo XVII. Mas os seus textos, que eram incomparavelmente
menos numerosos que os escritos anteriores, distinguiam-se
por estarem obcecados com o desejo de intervenção prática e
social. N a sua maioria reflectem uma questão fulcral: de que
modo se poderia gerir a sociedade? Qual seria a melhor ma­
neira de introduzir melhoramentos e inovações? Mas essa
vontade de inovar chocou frequentemente com a resistência
da tradição. Quer através das críticas recorrentes na litera­
tura fisiocrata acerca da inércia dos costumes campesinos,
quer na apreensão de Grégoire acerca da penetração das idéias
revolucionárias no campo durante os primeiros anos da Re­
volução, ou ainda através do inquérito de François de Neuf-
château acerca do estado de espírito popular nas províncias
sob o Directório, ou dos correspondentes da Société royale de
médecine, os gestores do Iluminismo descobriram o obstáculo
constituído pela mentalidade e pelo comportamento popula-

* Cf. supra, nota 22.


20 J . M. De Gérando, Considérations sur les diverses mthodes à sui-
vre dans 1'exploration des peuples sauvages, Paris, 1800; reeditado in
J . Copans e J . Jam in, Aux origines de 1'Anthropologie française: Les
Mémoires de la Société des Observateurs de 1'Homme en l'an VIII, Paris,
1978, p. 131.
96 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

res. Também aqui não foram decerto os primeiros a identifi­


car a França rural — o símbolo adequado simultaneamente
à opacidade social e ao tradicionalismo cultural — com o
maior obstáculo às suas realizações. Porém, as coisas tinham
m udado.
Para começar, estes homens estavam muito mais preo­
cupados com a eficácia empírica do que o tinham estado os
seus predecessores. Basta comparar o inquérito sobre o esta­
do do reino levado a cabo em 1697 pelo duque de Beau-
villiers para o Delfim, com outros inquéritos médicos ou admi­
nistrativos da segunda metade do século XVIII. A eficácia
administrativa não pode avançar sem uma pedagogia desti­
nada às classes populares; mais, isto implica que aquilo que
determinava a rejeição obstinada do progresso por parte das
classes populares tivesse sido já localizado e explicado. E,
assim, em vez de encarar este comportamento como um tra­
ço errado e peculiar associado a um estatuto inferior, tenta-
-se apreender a sua coerência; ou seja, não apenas aquilo que
forma um sistema mas também (na mente destes pioneiros
da etnografia) aquilo que permite a associação, numa mesma
estrutura de dados geográficos (solo, clima, etc.), de formas
de povoamento humano, de códigos de sociabilidade, de uma
fisiologia particular, de traços fisiológicos consistentes —
em resumo, de todos os factores cuja relação pode em última
análise dar conta de um certo atraso intelectual e de resis­
tência à inovação. Em 1790 o abade Grégoire elaborou um
questionário com vista a estabelecer medidas para generali­
zar o uso do francês e reduzir as línguas regionais; a inicia­
tiva é característica desta nova abordagem. A Revolução acres­
centou uma nova ruptura, de carácter político ainda mais
explícito; pois aqueles que tinham ficado para trás do Ilu-
minismo tornaram-se então os protagonistas oficiais da Re­
volução, incumbidos daí em diante do destino da nação. Não
só se colocava o povo na origem de toda a humanidade como
se pretendia que a partir daí ele personificasse o futuro da
humanidade. No preciso momento em que as suas hesitações
em seguir o curso da Revolução criavam os maiores proble­
mas aos políticos, o povo foi objecto da maior comemoração
ideológica. Havia uma necessidade urgente de o compreen-
CAPÍTULO III 97

der pois que através da compreensão seria incorporado no


esquema colectivo21.
Obviamente que qualquer distinção entre cultura e política
pode apenas ser artificial: os dois factores estão interligados,
por vezes mesmo numa mesma expressão. Mas é importante
assinalar, para concluir, que correspondendo a esta nova vi­
são do povo quer durante o Iluminismo quer na era revolu­
cionária surge um novo estatuto do observador e uma nova
forma de especialização. E um facto que esta evolução ocor­
reu por vezes no seio de instituições tradicionais (a rede das
academias por exemplo) ou no interior de velhas formas li­
terárias (tal como o voyage littéraire)\ mas nenhuma predomi­
na. Estudos topográficos e livros médicos de referência, in­
vestigação estatística, relatórios administrativos, e acima de
tudo inquéritos, que aumentaram rapidamente em número
durante os últimos anos do Antigo Regime e mais ainda
durante a Revolução, todos representam o quadro oficial em
que se desenvolveu o novo interesse pelas classes populares.
As informações reunidas são frequentemente mais austeras
do que as discussões gerais dos philosophes, mas a intenção
específica destas publicações era acumular dados positivos
acerca do peuple.
Surgiram novas instituições, cuja organização revela o
objectivo científico recentemente definido. Os novos gêne­
ros literários tinham já inspirado os escritores a apagar-se
por detrás de uma exposição de conhecimentos simultanea­
mente cumulativa e comunicável: toda a informação sistemática
poderia então ser considerada como contribuição para o in­
quérito colectivo concebido para apresentar a órbita francesa
segundo regras mais ou menos padronizadas. Mas as sociétés
de pensée revolucionárias (como por exemplo a Société des
Amis de la Constitution que forneceu a Grégoire tantos
dos seus correspondentes), e em particular as organizações
especializadas, dotaram estas realizações simultaneamente de

21 M. de Certeau, D. Julia e J . Revel, Une politique de la langue: La


Révolution française et les patois. Venquête de Grégoire (1790-1794),
Paris, 1975.
98 FORMAS DE ESPECIALIZAÇÃO

uma estrutura de sociabilidade intelectual e de um objecti-


vo científico claramente definido. J á mencionei a mais conhe­
cida, a Académie Celtique. Talvez tenha sido ainda mais
representativa a sua antecessora, Société des Observateurs
de 1’Homme (1799-1805), estudada recentemente22. Esta
última definia-se como um círculo erudito, operando colecti-
vamente ao mesmo tempo que reunia investigadores de áreas
completamente diferentes. Eis a definição encontrada por
médicos e geógrafos, linguistas e naturalistas, historiadores
e filósofos, publicistas e viajantes, todos concentrados no mesmo
objectivo científico — o «estudo» físico, intelectual e moral
do homem. Os cinquenta membros partilhavam as suas práticas
especializadas para elaborar uma filosofia da investigação (Idéo-
logie é o título genérico da seita) bem como a codificação de
um método comum. Porque, na estrutura do seu objectivo
vagamente definido — o estudo do homem — , os Ideólogos
propuseram uma reorganização de disciplinas, o controle sobre
a utilização profissional da investigação científica, e até uma
determinada pedagogia de pesquisa. Normalizar, codificar,
profissionalizar, sistematizar o estudo da cultura popular, tudo
isto foi usado para estabelecer o âmbito e os critérios da
especialização. Pela primeira vez as práticas populares foram
objecto de um estudo coerente, no contexto da elaboração
mais antiga das ciências humanas e deixaram de ser julga­
das a partir de critérios retirados de outros domínios socio-
culturais. Contudo, como se sabe, o projecto não obteve êxi­
to imediato. Os Ideólogos seriam rapidamente dispersos e,
no início do século X IX , o estudo da cultura popular estaria
dividido, uma vez mais, entre uma estatística moral frequen­
temente normativa e o folclorismo romântico.

22 Copans e Jamin, Aux origines; J . Jamin, «Naissance de 1'observa


tion anthropologique: La Société des Observateurs de 1'Homme (1799-
-1805)», Cahiers internationaux de socio/ogie, 1980.
PARTE III

Configurações espaciais
Como se sabe, em França, a história e a geografia são
disciplinas tradicionalmente associadas. È preciso ver neste
facto a herança longínqua do ensino dos Jesuítas que, como
se sabe, ainda pesa nas nossas concepções educativas. Mas
este par foi muitas vezes reformulado: a história e a geogra­
fia deixaram muito precocemente o domínio do sagrado para
se laicizar; nos finais do século X IX , a sua associação conhe­
ceu uma nova fecundidade com o aparecimento, contempo­
râneo, da escola geográfica francesa, de Paul Vidal de La
Blache e seus sucessores, e de um grande debate acerca da
conceptualização geográfica iniciado pelos sociólogos durkhei-
mianos. Trata-se apenas de algumas etapas numa história
muito longa, muito complicada e que está em grande parte
ainda por escrever. Podem ser úteis, de imediato a um leitor
estrangeiro que se interrogue acerca da evidente obsessão do
espaço na historiografia francesa e na dos Annales em parti­
cular: de La Terre et 1’évolution humaine de Lucien Febvre (1921)
aos Caracteres originaux de 1’histoire rurale française de Marc
Bloch (1931), de La Méditerrannée de Fernand Braudel (1949)
às Structures du Latium médiéval de Pierre Toubert (1973)
passando pelo exército das grandes teses francesas deste sé­
culo, a interrogação geográfica está presente um pouco por
toda a parte.
Abordamo-la nas páginas que se seguem, sob um ângulo
talvez pouco habitual apesar de o fazermos a propósito de
um tema clássico: a formação do espaço francês. Trata-se
de uma iniciativa paradoxal: nada é mais sacralizado que o
território da nação. No caso francês, a antiguidade da nação
França e a referência gaulesa que a antecedeu impõem há
muito que se considere esse território como uma realidade
intocável. Não é verdade que César na Guerra das G álias, e
102 CONFIGURAÇÕES ESPACIAIS

depois Estrabão descreveram, há dois mil anos, o istmo gau-


lês como uma realidade já constituída, harmoniosa, pratica­
mente acabada? Estes textos continuam a ser lidos como an­
tigos horóscopos do destino nacional.
As páginas que se seguem foram escritas, evidentemente,
contra esta convicção providencialista. J á sabemos que o sen­
timento nacional foi — relativamente — precoce em França
(em particular graças aos trabalhos de Colette Beaune). Tam­
bém não constitui dúvidas o facto de o espaço da soberania
francesa, ou seja, do território, ter sido, a partir da Idade
Média central, um dos símbolos privilegiados dessa identi­
dade. Mas que tudo tenha conduzido a França harmoniosa­
mente e ao mesmo ritmo em direcção à unidade que há dois
mil anos lhe estava prometida, corresponde a uma concepção
teleológica que não me parece de forma nenhuma admissível.
O território foi, é ainda, um símbolo forte. Mas foi também
construído através de uma série de práticas e de representa­
ções que se inscrevem em durações diferentes, que obede­
cem a dinâmicas heterogêneas e, por vezes, contraditórias.
Dedicámo-nos a recuperar algumas delas para seguir os ca­
minhos sinuosos de uma unidade bem mais tardia do que se
julga — e que em cada época se impõe, não tenhamos dúvidas,
repensar.

Y)^ C 3 o / f v A pov^/jj .

/) poíGiUíiJ&lc ‘s.iirvltac,- Jj
CAPÍTULO IV

Conhecimento do território, produção do território:


França, séculos X I1I-X IX

A França identifica-se aos nossos olhos com um territó­


rio: com um espaço delimitado por fronteiras de soberania,
e também com uma extensão e uma forma que o mapa' nos
tornou familiar ou, melhor, veio pôr em evidência. Nem sem­
pre foi assim, o que não se deve apenas ao facto de o ter­
ritório se ter transformado profundamente durante o longo
processo da sua formação. Entre meados do século IX e o
século X I, o termo Francia serviu para designar realidades
geográficas de natureza e importância variáveis antes de ser
utilizado para designar o Reino Capeto. Foi necessário che­
gar ao reinado de Philippe Auguste para que se afirmasse a
noção de uma unidade e de uma territorialidade do reino
que se imporá no decorrer do século XIII. Começa-se a fa­
lar então de regnum Francia antes de, pela primeira vez em
1254, o rex Francia ter substituído o rex Francorum nos
ç>
actos emanados pela chancelaria. A evolução parece ser um
dado adquirido por volta de 1300: a França é então enca­
rada como um espaço; pode ser evocada como o lugar
de todas as perfeições; torna-se um território intocável, a
pátria da defesa pela qual será necessário em breve aprender
a morrer1.
Com esta inflexão considerável começa um processo se­
cular de conhecimento e de domínio do espaço nacional. Nada
ou quase nada é dado à partida. A partir do imbricado com­
plexo de terras e de direitos que é ainda, a nível de porme­
nor, o reino, falta constituir um território unificado sob o

1 C. Beaune, Naissance de la nation France, Paris, G allim ard,


1985.
104 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

controle de um soberano2. A conquista das fronteiras desem­


penhou, como acabámos de ver, um papel determinante nes­
ta longa empresa; é também o seu aspecto mais visível. Não
podemos contudo negligenciar os esforços obstinados do po­
der público para reunir e para tornar mais homólogos os
espaços que, a pouco e pouco, foram compondo a França.
Estes inscrevem-se numa muito longa duração, entre os sé­
culos XIII e X IX , pelo menos, e a Revolução inscreve-se a
este respeito bem mais numa linha de continuidade do que
em ruptura com o Antigo Regime, como lembrou Tocque-
ville num texto célebre. Estes esforços exercem-se simul­
taneamente em várias direcções. Uns visam organizar, me­
lhorar e uniformizar a gestão do território; evocá-los-emos
no capítulo seguinte. Outros identificam-se com operações de
conhecimento, que podem ser de natureza muito diferente,
mas que têm todas em comum o facto de assegurar ao poder
do Estado uma forma de domínio sobre o espaço que lhe
está, em princípio, submetido. Cada uma delas fornece um
tipo específico de informação, mas cada uma constrói simul­
taneamente uma representação da França. Propomo-nos se­
guir aqui estas três modalidades distintas e, afinal, conver­
gentes: a viagem de Estado, o inquérito, o mapa. Todas elas
sublinham que o conhecimento do território é, indissocia-
velmente, uma produção do território.

Ar viagens do soberano

A soberania pública identifica-se para nós com um local


central e estável: com uma capital que acolhe a autoridade
política, o seu aparelho simbólico, o seu séquito, mas tam­
bém, e sobretudo, as administrações que asseguram a gestão
efectiva do país. Reputada como «cabeça do reino» caput re-
gni desde o século XII, Paris beneficiou assim de um inves­

2 R. Fawcier, «Comraent, au début du XIV' siècle, un roi de France


pouvait-il se représenter son royaume?», Académie des Inscriptions et Bel-
les-Lettres, Comptes rendus des séances de 1'année 1959 Paris 1960
pp. 117-123.

Jo t\AL lAVw ( £ 'P J e .


CAPÍTULO IV 105

timento excepcional. Num espaço circunscrito e visível, o


Palais de la Cité, São Luís e depois Filipe, o Belo, principal­
mente, reuniram a maior parte dos instrumentos do poder.
Encontramos aí o ponto de partida de uma concentração e
de uma centralização políticas e administrativas que são os
traços principais da história da França. O rei poderá mais
tarde multiplicar as residências ou, como Luís XIV, insta­
lar-se resolutamente à margem da sua capital; o próprio cres­
cimento desta poderá obrigar as repartições e os serviços a
expandir-se: nada porá em causa, até aos nossos dias, o po­
der de Paris.
No entanto, devido a um paradoxo que é apenas apa­
rente, esta centralização precoce e espectacular — não única:
verifica-se também em Inglaterra na mesma época — acom-
panha-se da preocupação nova de uma política do espaço.
Tudo se passa como se procurasse ser compensada com um
melhor domínio do território. A concentração do poder im­
põe em troca que se conheça melhor a França, mas que se
seja conhecido por ela. A constituição de administrações hie-
rarquizadas, o desenvolvimento dos processos de recurso, a
utilização do inquérito constituem outras tantas respostas
a esta nova necessidade, tornada ainda mais urgente pela ex­
pansão espacial do reino. São outros tantos indícios, de que
voltaremos a falar, de uma transformação em profundidade
das relações do poder com o território com o qual se identi­
fica, a partir de meados do século XIII, o regnum Franciae. A
viagem do soberano, cuja fórmula se define nesse momento,
talvez ajude a compreender melhor ainda as implicações
políticas e simbólicas de um domínio do espaço francês.
A itinerância do rei não é novidade. Desde a Alta Idade
Média que o conduz de terra em terra para que consuma no
local os seus produtos e rendimentos e ao mesmo tempo para
que relembre aí os seus direitos. Mais tarde, quando nos
séculos XIII-XIV , as transformações da vida econômica já
não justificam esta política de presença e de predação, o so­
berano não pára de se deslocar. «A errância é um modo de
vida.» (J. Favier). Escoltado pelo hotel royal, passa de re­
sidência para residência seguindo o acaso da caça, da reli­
giosidade que o atrai aos grandes centros de peregrinação,
106 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

da guerra ou das contingências internacionais. São Luís, Fi­


lipe, o Belo, encarnam bem essa peregrinação tradicional,
complexa, que continuará a existir ainda durante muito tem­
po depois deles. Com o segundo aparece no entanto uma
modalidade nova da viagem: a viagem política, que faz da
presença real do soberano um meio de governo e de apro­
priação do território. Na viragem dos séculos XIII e XIV,
as tensões políticas e religiosas exacerbam-se num Langue-
doc mal controlado cuja integração no reino permanece
precária. A luta encarniça ordens rivais, Dominicanos e Fran-
ciscanos. No Outono de 1303, a situação parece suficiente­
mente grave para que Filipe se decida a deslocar-se ao local
com a rainha, os seus três filhos e o seu conselho alargado3.
Instala-se em Toulouse durante algumas semanas antes de
continuar a digressão por Carcassonne, Béziers, Montpellier,
nos primeiros meses de 1304. A expedição reveste-se clara­
mente de um aspecto guerreiro e punitivo no momento em
que as elites locais se deixam tentar por vezes pela traição.
Mas é inegável o predomínio de elementos novos. N a capi­
tal do Languedoc, o rei recebeu solenemente os embaixado­
res de várias cidades. Por toda a parte afirmou a vontade de
ver com os seus próprios olhos exibindo, simultaneamente, o
exercício da soberania. O discurso com que é recebido em
Carcassonne, à entrada da cidade, mostra-o bem: «Rei de
França! Voltai-vos e contemplai esta cidade miserável, que é
reino vosso e que é tratada tão duramente [...}.»
A viagem de Estado oferece assim um recurso que jamais
será esquecido. A sua fórmula será afinada pouco a pouco, a
montagem mais elaborada, as intenções mais complexas, mas
é a mesma estratégia de constituição e de legitimação do
poder soberano pelo território que irá a partir daí atravessar
os séculos. O exemplo mais famoso, o mais acabado tam­
bém, desta deambulação real é dado pela interminável di­
gressão de Carlos IX 4. Durante 27 meses, de 24 de Janeiro
de 1564 a 1 de Maio de 1566, o jovem rei — que não tem

3 J . Favier, Philippe le Bel, Paris, Fayard, 1978, p. 335 e ss.


4 J . Boutier, A. Dewerpe, D. Nordman, Un tour de Trance royal. Le
voyage de Charles IX (1564-1566), Paris, Aubier-Montaigne, 1984.
CAPÍTULO IV 107

ainda catorze anos no início da expedição — , a rainha-mãe


Catarina de Médicis, os seus principais conselheiros, as equi-
pagens, bem como uma corte flutuante de dez a quinze mil
pessoas, nomadizam dando a volta à França. A viagem faz
sentido numa situação política dramática. Devastado pelos
conflitos religiosos, torturado pelos particularismos periféri­
cos, em particular no Sudoeste, inquieto quanto às suas fron­
teiras, o reino está ameaçado pela desintegração. O rei é uma
criança cuja autoridade é posta em causa. A viagem é uma
tentativa de resposta a estes perigos acumulados. Uma vez
que o país deixou de ser controlado a partir da capital, faz-se
uma aposta arriscada — mas amplamente ganha — para re­
conquistar o território. De facto, o itinerário deste longo
percurso permite compreender a sua lógica e intenções: a
leste, consolida uma fronteira ameaçada antes de tranquili­
zar, ao longo do vale do Ródano, a vertente do Dauphiné;
faz-se pacificador no Languedoc onde se esforça por reunir a
província em torno do rei. Em Bayonne, a entrevista arran­
jada na fronteira com os representantes de Filipe II, tenta
pelo menos, provisoriamente, resolver as divergências pen­
dentes entre o Rei Cristianíssimo e o soberano católico. No
regresso escolhe-se, por fim, atravessar as províncias ganhas
pela Reforma antes que a corte faça uma longa paragem de
três meses em Moulins, no coração do território que se deci­
dira reconquistar.
Mas há mais. Em cada etapa da sua digressão, compete
ao rei dar provas da sua soberania. Pertence-lhe claramente
suscitar e satisfazer «um pedido de Estado localizado e ge­
neralizado». A viagem assume deste modo o aspecto de uma
«passagem em revista» para pôr em ordem o reino. Carlos
torna-se magistrado supremo para receber a submissão dos
parlamentos da província, mete na ordem as oligarquias ur­
banas, estreita a vigilância sobre os seus próprios oficiais.
Por toda a parte, à sua passagem, arbitra os conflitos e es­
força-se por verificar os contenciosos. Torna-se necessário.
Esta pacificação do espaço francês seria contudo impossível
se a presença do rei não impusesse a todos o espectáculo
físico da sua soberania. Minuciosamente ritualizada, desde
as entradas nas cidades visitadas até ao toque milagroso das
108 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

escrófulas, a actividade real repete-se, de paragem em para­


gem, vai unindo um por um todos os pontos do percurso.
Constitui como um todo o espaço que circunscreve. Em con­
trapartida, constrói sobre a sua deambulação a sua própria
legitim idade. Catarina de M édicis compreendeu-o bem:
«Quanto mais adiante vamos, tanto mais a obediência ao
Rei, senhor meu filho, se estabelece e a calma, a tranquili­
dade deste reino cresce e aumenta [...}.»
A volta a França de Carlos IX é espectacular; é, de certa
forma perfeita, mas não é única. Entre os séculos XIV e
XVII, a prática da viagem de Estado verifica-se, com efeito,
regularmente. Filipe IV em 1335-1336, Luís XI, o maior de
todos os viajantes, em 1462-63, Francisco I por duas vezes,
em 1517-1518 e depois em 1531-1534 lançaram-se também
em grandes expedições. E interessante notar que de todas as
vezes, ou quase, o rei tenta a aventura da viagem para resta­
belecer um poder e um reino que parecem estar ameaçados.
O jovem Luís X I põe-se a caminho imediatamente antes de
subir ao trono, combinando a reconquista do Languedoc com
uma intensa actividade diplomática internacional5. Francis­
co I, por sua vez, começou a percorrer a França num período
favorável. Passeia a sua jovem glória no regresso de Mari-
gnan, em 1516, e ainda no ano seguinte quando, entre a
Primavera de 1517 e Novembro de 1518, apresenta a rai­
nha, Cláudia, e depois o «delfim» recém-nascido às províncias
a norte do Loire. Mas a sua verdadeira digressão é efectuada
em circunstâncias bastante mais dramáticas. Depois de Pa-
via, do cativeiro e dos territórios que teve que abandonar,
Francisco decidiu voltar a partir durante vinte e seis meses,
acompanhado de uma nova rainha e de um novo «delfim»,
dos seus conselheiros e da corte, através da Picardia, Nor-
mandia, Bretanha, vale do Loire, Champagne, províncias
do centro e o vale do Ródano, a Provença, o Dauphiné e a
Borgonha, para regressar enfim a Paris em Fevereiro de 15346.

5 Lettres de Louis XI, roí de France, publicadas por J . Volsen e Et.


Charavay, tomo II (1461-1465), Paris, 1885.
6 J . Jacquart, François 1", Paris, Fayard, 1981, pp. 88-99, 112-114,
251-253.
CAPÍTULO IV 109

Rito de passagem e de reconhecimento a viagem pode, por­


tanto, ser repetida quando a situação o exige. Catarina de
Médicis e os conselheiros de Carlos IX saberão recordá-lo
em 1564, tal como, cinquenta anos mais tarde a regente
Maria de Médicis, que envia o jovem Luís XIII para percor­
rer durante quatro meses as províncias ocidentais antes da
proclamação solene da sua maioridade em Outubro de 1614.
Quando se desloca, o rei delimita o seu território. Faz o
seu reino existir e toma posse dele. Claro que nem todos os
soberanos foram grandes viajantes e nem todas as viagens
foram tão completas como as de Francisco I ou Carlos IX.
Na charneira dos séculos XV e XVI, Luís XII, que efectuara
aliás quatro grandes expedições a Itália, conhece apenas da
França um espaço que se inscreve no triângulo Abbe-
ville-Nantes-Gap7. Mas é provável que nem todas as situa­
ções requeressem a grande Digressão; é sobretudo o princípio
da deambulação — «ir em frente» é a litania da rainha-mãe
em 1564-1566 — que está aqui em causa e não propria­
mente o território percorrido de facto. A soberania deve ser
móvel.
Devemos evitar, contudo, reduzir a viagem a uma sim­
ples estratégia de autoridade. Podemos ver nela antes, uma
espécie de intercâmbio contratual implícito entre o rei e o
reino. Fazer um reconhecimento e fazer-se reconhecer: aqui
o modelo é o da entrada real, tantas vezes repetida durante
o percurso, cujo ritual reitera simbolicamente o contrato que
liga uma cidade ao soberano ao mesmo tempo que delimita
os respectivos direitos8. Da mesma forma que a cidade es­
colhe dar-se ao rei enquanto corpo, é toda a comunidade
territorial que se oferece àquele que escolheu ir à sua desco­
berta.
A última das grandes viagens reais é a que efectua o

7 F. Maillard, «Itinéraire de Louis XII, roi de France (1498-1515)»,


Bulletin philologique et historique du Comitê des travaux historiques, 1972,
pp. 171-206.
8 B. Guenée e F. Lehoux, Les entrées royales françaises de 1328 a
1515, Paris, Ed. do CNRS, 1968; L. M. Bryant, The French Royal Entry
Ceremony, Genève, Droz, 1986.
110 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

jovem Luxs X IV 9. Mas as suas modalidades e significações


são já ambíguas. Retoma dos seus predecessores a amplitude
e a duração: um ano inteiro, de Agosto de 1659 a Agosto de
1660; inclui a digressão às fronteiras: o seu ponto alto é o
casamento do rei com a infanta Maria Teresa, preparado pe­
las intermináveis conferências da Bidassoa e celebrado em
São João da Luz em 9 de Junho. Será bom não esquecer,
finalmente, que alguns anos depois do drama da Fronda, o
rei atravessa as províncias que tinham sido profundamente
minadas pelas forças contrárias à afirmação da monarquia
absoluta. Portanto, a corte pôs-se de novo em movimento.
Contudo, o que chama a atenção nesta viagem, é o facto de o
rei desempenhar aí apenas parcialmente o seu papel. A admi­
nistração central permanece, no essencial, na capital. Maza-
rino, que se desloca ao seu próprio ritmo, encarrega-se da
política. Quanto a Luís, distrai-se. Caça, joga, dança, en­
quanto a mãe reza. Ostenta apenas a sua soberania em se­
quências descontínuas: quando entra na cidade pacificada de
Bordéus antes de se instalar durante dois meses e meio em
Toulouse, onde se certifica da submissão do Parlamento e
dos capitouls. Em Aix, recebe o preito e a homenagem de
Condé. Visita os restos mortais dos seus antepassados no san­
tuário real de Sainte-Baume. Em Marselha, principalmente,
entra como um vencedor depois de ter canhoneado as mura­
lhas, para pôr fim duramente, às veleidades de independên­
cia da cidade. Noutros lados, o rei é recebido, evidentemente,
com as honras devidas. Mas, no dia a dia, a viagem está,
segundo parece, menos preocupada em mostrar o espectáculo
da eficácia monárquica ao país que atravessa.
Este episódio marca também o fim provisório de uma
longa história. A última entrada real em Paris tem lugar em
1660. Durante o seu reinado pessoal, Luís só sairá para a
guerra e para reconhecer as províncias anexadas, antes de
encerrar a realeza em Versailles em 1682: Versailles, resumo

9 Journal contenant la relation véritable et fidelle du voyage du Roy, &


de son Eminence pour le Traité du mariage et de sa Majesté, & de la Paix
générale, Paris, 1659-1660. Agradecemos a Jean Boutier e a Daniel Milo
que nos ajudaram a constituir este dossier.
CAPÍTULO IV 111

da França e do mundo, mas lugar longínquo, lugar abstrac-


to onde se estendem os laços fundadores instituídos entre o
poder real e o território. Mais seguro, o soberano poderá daí
em diante — contra o desejo de Colbert — ignorar um ter­
ritório que domina melhor. A mais longo prazo, é possível
que o magnífico exílio do rei fora do seu reino tenha sido
pago caro pela monarquia absoluta. De qualquer modo, se a
centralização do poder é, em França, uma característica de
muito longa duração, a sua imobilização completa é tardia e
talvez mesmo anómica.

0 regresso ao território

Neste sentido, durante mais de dois séculos, o poder pa­


rece ter-se tornado sedentário. E um facto que a partir desse
momento a sua natureza muda. Outras formas de controle
do espaço vieram substituí-lo a pouco e pouco. Durante o
Antigo Regime, até à Revolução e mesmo para além desta,
a França foi obstinadamente dominada por uma série de ins­
tituições, de equipamentos, de redes sobrepostas que des-
multiplicaram, a partir do centro, a presença da autoridade
soberana. Esta permanece una, mas passou a possuir meios
de se fazer sentir em toda a parte. Pode dar-se ao luxo, pois,
de prescindir da viagem.
Ou pelo menos assim o crê. Porque basta que se sinta
menos segura de si própria, menos legítima e mais desprote­
gida, para que instintivamente reinvente a velha fórmula do
regresso ao território. Em Dezembro de 1848, no fim de um
ano de experiências e de aventuras políticas que terminaram
na confusão e na divisão, Luís Napoleão Bonaparte foi eleito
Presidente da República por sufrágio universal. Obtém quase
três quartos dos votos mas o seu crédito permanece incerto;
a sua pessoa e a sua função são postas em causa pela classe
política. Precisa, portanto, de se afirmar. Fá-lo-á desenvol­
vendo uma política cada vez mais autoritária, de controle e
repressão. Mas também procurando no país a investidura que
Paris parece regatear-lhe. Menos de um mês depois da vitória,
«anuncia-se que o Presidente da República, assim que o seu
112 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

Governo esteja organizado, logo que o impulso dado aos as­


suntos pendentes e o trabalho das combinações ministeriais
e administrativas esteja terminado, fará aquilo a que chama
a sua volta à França». Assim, tem que esperar até ao Verão
de 1849 para inaugurar uma série de viagens, cuja cronolo­
gia é estreitamente comandada pela conjuntura política. Um
total de dezasseis saídas, dezasseis explorações do território
que lhe permitirão, em quatro anos, visitar cinquenta de­
partam entos10.
As visitas presidenciais são de natureza muito variável.
Algumas são pontuais; outras constituem verdadeiras expe­
dições que culminam com a viagem de trinta e dois dias
que, em Setembro e Outubro de 1852 — na véspera da res­
tauração do Império — , conduz Luís Napoleão a atravessar
a França reticente do Sul, a Provença, o Languedoc e a Aqui-
tânia. Apesar das suas diferenças, estas viagens apresentam
um certo número de elementos comuns. Todas elas são for­
temente ritualizadas: a chegada pelo caminho-de-ferro, símbolo
novo e duplo da modernidade e da coesão territorial, o ri­
tual cívico da entrada, a missa, a revista às tropas e a apre­
sentação da Guarda Nacional, o encontro com os dignitários
por ordem hierárquica e o banquete final são os seus mo­
mentos obrigatórios. Todos estes momentos reivindicam, uma
função de conhecimento: àquele que aspira a uma verdadeira
legitimidade, compete apropriar-se dos pormenores da Fran­
ça. De caminho, «o Presidente da República vai dedicar-se a
efectuar um grande inquérito popular». Visita principalmente
cidades, fábricas, portos, oficinas, monumentos. A própria
geografia destas deslocações é reveladora. Contrariamente aos
seus predecessores reais, Luís Napoleão não tem fronteiras a
defender. A integridade do território já não se encontra amea­
çada. A França que ostensivamente descobre é a do número,
da riqueza, do comércio e da indústria. Ignora pois as zonas
mortas, as montanhas agrestes, os Alpes, os Pirenéus, o Maci-

10 Utilizamos aqui a dissertação de mattrise de Gilles Cosnier,


«Le voyage présidentiel et sa mise en scène sous la Deuxième Repu­
blique», sob orientação de A. Corbin, Universidade de Tours, 1984.
Agradecemos a Alain Corbin ter-nos comunicado este trabalho inédito.
CAPÍTULO IV 113

ço Central. Descura a Bretanha, um beco sem saída. Des-


loca-se sobre os grandes eixos da modernidade, com uma
predilecção evidente pela metade setentrional do país.
A imprensa do regime entusiasma-se: «Há, nesta inicia­
tiva, qualquer coisa de sincero, de honesto e de simpático
ao mesmo tempo, que impressionará favoravelmente as mas­
sas.» Mas a intenção da viagem vai, de facto, muito para
além da simples propaganda. O que se procura a todo mo­
mento, é uma entronização renovada que confirmará a do
sufrágio universal. O ritual transforma-se em prova. O pre­
sidente oferece-se à contestação dos gritos rebeldes — en-
contrá-la-á por vezes — , não hesita em avançar perante zo­
nas hostis. Precisa de reforçar a sua autoridade em contacto
com aqueles que lha investiram. O governador civil que o
recebe em Chartres na sua primeira saída, a 1 de Julho de
1849, compreendeu-o bem, e declarava: «O senhor não foi
[...], Senhor Presidente, o eleito de nenhum partido, mas o
de toda a gente.» E é a essa «toda a gente» que, como no
tempo dos Valois, compete reconhecer o novo soberano. Ins-
tintivamente, reencontra-se o velho aparelho simbólico: as
chaves, os pendões e as divisas, o arco de triunfo, os sinos e
o Te Deum. Mas ele só é eficaz porque em cada etapa, o que
se trata de assegurar é uma verdadeira tomada do poder terri­
torial. Aquando da expedição de 1852, ela identificar-se-á
por fim com o projecto de uma «revista à população civil»
que, centrada no povo urbano, «seria formada pelos habitan­
tes do campo, tendo à cabeça os presidentes das Câmaras, os
adjuntos e conselheiros municipais, com as bandeiras, divi­
sas e pendões de cada comuna»11. Não é certamente indife­
rente que no momento em que se prepara para tomar posse
de um novo Império, Luís Napoleão tenha sentido a necessi­
dade de se confrontar com a França das comunas. Oferece-
-lhes o espectáculo da soberania, ao mesmo tempo que re­
conhece a sua dívida.
Deveremos considerar as viagens presidenciais de Luís N a­
poleão Bonaparte como uma simples reminiscência, sobrevi-

11 Circular confidencial do ministro do Interior Persigny, com data


de 9 de Setembro de 1852; citada por Cosnier, op. cit., anexos.
114 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

vencia tardia de uma política secular do espaço? Nada é menos


seguro. Sem dúvida que a partir de meados do século X IX ,
a morfologia, as modalidades e a própria tecnologia das via­
gens se transformam. Na mesma época, o poder do Estado
acaba de se laicizar, ao mesmo tempo que tende a tornar-se
mais impessoal, mais abstracto. O espaço francês, fixado daí
para o futuro, reduz-se espectacularmente: o caminho-de-ferro
e depois o avião, a fotografia e depois a imagem animada, a
imprensa escrita, a rádio, a televisão aceleram-no e unificam
o seu conhecimento. Multiplicadas a partir daí, as desloca-
ções podem tornar-se pontuais e quase instantâneas. Mas é
curioso, por isso mesmo que, apesar destas grandes mudan­
ças, a viagem tenha permanecido uma forma privilegiada que
permite à soberania pública fazer-se reconhecer, construir a
sua legitimidade e reforçar a sua autoridade em contacto com
o território nacional.
E o caso, como seria de esperar, de toda a tradição bona-
partista, que assume como programa a mobilização, para além
da hierarquia das instituições representativas e dos apare­
lhos políticos, a adesão do maior número na sua máxima ex­
tensão espacial. Napoleão III saberá recordar o êxito da expe­
riência do príncipe-presidente e fazer das suas deslocações
pela província o meio de uma propaganda enérgica. Com o
triunfo dos bons tempos do Império autoritário, voltar-se-á
a tentar, quinze anos mais tarde, reunir a França profunda
em torno de um soberano e de um regime em situação afli­
tiva. A exibição mostrar-se-á insuficiente. Mas nem por isso
desvalorizará a viagem enquanto recurso político. Boulanger
e os seus colaboradores tentarão construir uma ofensiva con­
tra a Terceira República, iniciada em 1887-1889, recorren­
do a uma série de campanhas regionais e mesmo cantonais.
Mais tarde, De Gaulle continuará a pôr à prova o seu caris­
ma bem perto da França real: do discurso de Bayeux (16 de
Junho de 1946) ao lançamento nacional do Rassemblement
du Peuple Français (1947-1948) e às viagens oficiais das
quais se faz, uma vez chegado ao poder, um dos grandes
rituais da nova República. Simples visitas, comícios de mas­
sa, declarações solenes: o percurso do espaço quer-se, bem
entendido, mobilizador. Mas visa também alicerçar o reco­
CAPÍTULO IV 115

nhecimento da autoridade na indispensável investidura do


«país, em profundidade».
Contudo, a viagem de Estado não caracteriza, apenas, os
empreendimentos políticos que se identificam com o êxito
de um só indivíduo. Poderes divididos, personalidades mais
indistintas, programas menos visíveis, podem também reco­
nhecer-lhe as vantagens. É o caso de Vincent Auriol, pri­
meiro presidente de uma Quarta República mal-amada desde
o nascimento que cedo pareceu dar uma forma institucional
às discórdias que dilaceravam o país a seguir à Segunda Guer­
ra Mundial12. Este democrata exemplar não tem ambições
pessoais. De qualquer modo, a Constituição aprisionava-o num
papel de representação, de arbitragem no melhor dos casos,
do qual não tencionava sair. A sua tarefa, tal como a conce­
bia, consistia em defender o regime contra os ataques de
que era alvo, e em reunir os Franceses no esforço urgente da
Reconstrução. Significativamente, este presidente discreto
confiava, em larga medida, à viagem, o próprio sentido da
sua missão: «E absolutamente necessário ir até ao país.» Per-
correu-o. E que viu nele? Cidades martirizadas, cemitérios,
ruínas; províncias resistentes, desde a Savoie, ao norte e ao
Languedoc, cidadelas socialistas, os altos dignitários da
República; a juventude das escolas e dos ginásios. Durante
os três primeiros anos do seu mandato, consola, encoraja,
inaugura. Celebra Joana d ’Arc em Orléans, Salengro em Lille,
Robespierre em Arras, Herriot em Lyon. Incansavelmente,
prossegue através do país a improvável geografia de uma
unidade nacional impossível de encontrar. Em toda a parte
evoca a história, que reúne os homens em face da desgraça:
«Também eu liguei o presente ao passado.» Apresenta a Fran­
ça à França. Mas não se fica apenas por aí. Ao mesmo tem­
po, reinventa a sua própria função e, através dela, dedica-se
a acreditar, contra todos os obstáculos, o regime de que é o
primeiro dignitário. O diário que redige dia-a-dia teste­
munha incessantemente esta dupla preocupação. Em Junho
de 1949, anota com satisfação: «Em todas as visitas que te­

12 Segundo V. Auriol, Journal du septennat (1947-1953), publicado


sob orientação de P. Nora e J. Ozouf, Paris, A. Colin, 1970-1980, 7 vols.
116 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

nho feito desde há quase três anos, foi possível verificar que
a unidade nacional se afirmou com brilho e sem nenhum in­
cidente, em torno da França e da República [...]•» No ano
anterior, após três dias extenuantes passados na Alsácia, Robert
Schumann confortara-o acerca do seu propósito: «Está cansa­
do, fez um grande esforço, mas é uma boa aposta.» O desti­
no da nação, mas também a fadiga, o dom de si mesmo à
multidão, mas também o sentido burguês do investimento:
estes elementos não são contraditórios, e se as viagens de
Auriol não os impõem, não se conclua que não têm impor­
tância e grandeza. Num momento em que a autoridade do
Estado, que ele encarna, está debilitada, a peregrinação pre­
sidencial reencontra, como que por instinto, o velho recurso
real do espaço. Este socialista, filho do povo republicano,
terá ficado, sem dúvida, feliz com este comentário de um
operário ao seu filho, durante a passagem do cortejo oficial
em Calais: «Queres saber o que é um presidente? Leste na
história que houve os reis de França? Ora bem o presidente,
é o rei de uma República13.» A função da viagem perpetua-
-se assim até aos nossos dias. Transformou-se, adaptou-se,
empobreceu-se talvez. Os presidentes da Quinta República,
aliás superinvestidos de poderes constitucionais, conservaram
no entanto o hábito de percorrer em todos os sentidos um
país que a partir de certa altura passou a estar reduzido à
metrópole. Acentuaram-no, e é dos confins da província que
gostam de divulgar, dramatizando-as, as suas opções e os
seus grandes projectos. Destas visitas conduzidas a passo rápido,
espartilhadas pelo protocolo, não retiram, claro está, nenhum
conhecimento novo. Limitada ao essencial, a viagem do po­
der enuncia-se hoje sob o signo de uma constatação recíproca.
Ao soberano republicano compete verificar se tudo está em
ordem em toda a parte; De Gaulle, combinando humor e
retórica, teve o gênio destes truísmos esplêndidos — «Saúdo
Fécamp, porto de mar que pretende continuar a sê-lo», ou
ainda: «Lyon nunca foi tão lionês14.» Espera-se ainda do povo

13 A historieta é relatada por P. Nora, op. cit., vol. 1, p. LXIX.


14 Citado por J . Lacouture, Citations du Président De Gaulle, Paris,
Ed. du Seuil, 1968, p. 152.
CAPÍTULO IV 117

reunido que reconheça o regresso da soberania pública en­


carnada num homem que vem refugiar-se nele. Assim se per­
petuou até às sociedades laicas de hoje a união simbólica do
poder e do território.

0 inquérito: da visita à estatística

A eficácia da viagem é, em primeiro lugar, simbólica.


Quando se desloca, o soberano aprende, na maioria das ve­
zes, muito pouca coisa; também não é esse o verdadeiro ob-
jectivo da iniciativa. Terá outros meios de conhecer o seu
reino em concreto? A esta pergunta Robert Fawtier, que re-
flectia acerca do reinado de Filipe, o Belo, pensava poder
responder pela negativa. O pormenor do reino era então cons­
tituído por uma rede demasiado complexa de terras e de
direitos de natureza diversa para que fosse possível identifi­
car a área da soberania com um território claramente deli­
mitado e para que esse território pudesse ser objecto de um
conhecimento positivo. No melhor dos casos o rei consegui-
ria ter dele uma percepção jurídica e, sobretudo, fiscal: «Só
interessava o rendimento que daí podia retirar e isso podia
ser-lhe comunicado pelos seus agentes financeiros15.» Ape­
sar de documentada, não é totalmente convincente. Mede a
experiência dos homens da Idade Média pela bitola da nossa.
Hoje pensamos em termos de território, aprendemos a me­
dir as nossas informações, a distribuí-las num mapa. Não
era seguramente este o caso dos contemporâneos de Filipe, o
Belo. Podemos contudo tentar compreender os primeiros es­
boços de apreensão do espaço francês, entre os séculos XIII
e XV, ou seja, durante o período decisivo que vê a territo-
rialização progressiva da nação como uma prova de que o
conhecimento do país se torna uma exigência explícita. Esta
evolução não é específica da França, onde acontece até mais
tarde do que noutros lugares — em Inglaterra, por exem­
plo; mas assume aí uma amplitude e um poder excepcionais.

15 R. Fawtier, «Comment, au début du XIV' siède, un roi de France


pouvait-il se représenter son royaume», art. cit.
118 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

No momento em que a existência da nação se impõe como


uma «convicção» partilhada16, em que o poder real se constrói
e inventa novas fontes de legitimidade, em que o espaço
francês se dilata, o domínio do território adquire uma im­
portância decisiva.

Os inventários medievais

Às anexações realizadas por Filipe Augusto — como Ar-


tois em 1191 e, principalmente, a Normandia em 1204-1205,
onde herdará práticas administrativas inglesas — seguiram-
-se os primeiros inquéritos (inquisitiones) acerca dos recursos
das novas províncias. A intenção é transparente: trata-se de
avaliar de forma clara aquilo que estes territórios são sus­
ceptíveis de render, e a preocupação fiscal e orçamentai vai
continuar a ser, durante muitos séculos, o motivo principal
de um melhor conhecimento do reino. Acresce que, durante
estes anos, se constitui um gênero. Recuperou-se cerca de
uma centena de inquéritos, cuidadosamente arquivados, le­
vados a cabo apenas durante o reinado de Filipe Augusto.
São de importância variável. Alguns deles incidem sobre as
aquisições recentes, outros sobre domínios mais antigos na
França Setentrional; interessam-se também por uma vasta gama
de problemas, com uma predilecção marcada pelo patrimônio
florestal que se quer, conjuntamente, proteger e explorar
melhor; requerem por vezes uma competência específica da
parte do inquiridor. Estas visitas frequentemente reiteradas,
testemunham bem da vontade de reunir e manter actualiza-
do um corpus de informações acerca do reino17.
É com São Luís que a iniciativa adquire a sua maior am­
plitude. Quando preparava a sua partida para a cruzada, em

16 B. Guenée, VOccident aux XIV' et XV" siècles. Les Etats, Paris,


PUF, 1971; C. Beaune, Naissance de la nation France, Paris, Gallimard,
1985.
17 J . W. Baldwin, The Government of Philip Augustus. Foundations of
French Royal Power, Berkeley, University of Califórnia Press, 1986, em
particular, pp. 248-258.
CAPÍTULO TV 119

1247, o rei quis deixar o reino em ordem e reparar os erros


que poderia ter cometido. Decide então levar a cabo, desta
vez à escala de todo o país, uma espécie de vasto «exame de
consciência» que testemunha, para além da preocupação re­
ligiosa, uma percepção já clara dos perigos ligados ao cresci­
mento do Estado, e a vontade de conhecer os abusos e de os
corrigir. Mais, o processo é retroactivo epoderá retroceder,
se tal for necessário, até ao tempo de Filipe Augusto. Os
inquiridores, clérigos e laicos, partem frequentemente em
conjunto para recolher as queixas da França. Reúnem uma
dezena de milhar de respostas, de natureza e importância
muito variadas. Esta iniciativa espectacular tem uma tripla
importância. Testemunha, em primeiro lugar, do domínio
do soberano sobre boa parte do seu reino tanto por intermé­
dio da administração normal (bailiado e senescalias), como
por intermédio dos seus enviados especiais; começa a existir
um grupo de indivíduos que possui competência e meios para
a exercer, em quem também os súbditos mostram confiar.
Mostra, em seguida, que este dispositivo permite, em mui­
tos casos, um conhecimento preciso das situações locais e
pode mobilizar uma espécie de memória administrativa e polí­
tica. Liga por fim, de forma audaciosa, o trabalho de infor­
mação com o de gestão do contencioso, antecipando uma
fórmula que acabará por se impor muitos anos mais tarde
(lembremos que no mesmo momento, o processo de apelo,
que contrabalança o poder crescente dos oficiais locais, se
torna mais frequente). Trata-se de facto, como notou G. Si-
véry, de «fazer aceitar o poder real» ao país, ao mesmo tem­
po que se melhora a sua eficácia18.
A experiência de 1247 é excepcional tanto na sua inten­
ção como nas suas modalidades. Conhecerá adaptações a par­
tir do momento em que o rei regressa da Terra Santa, ao
mesmo tempo que se institucionaliza. O inquérito tende ra­
pidamente a tornar-se uma forma normal da actividade
monárquica. As informações reunidas orientam a reforma

18 Cf. em último lugar G. Sivéry, «Le mécontentement dans le royaume


de France et les enquêtes de Saint-Louis», Revue historique, 1, 1983,
pp. 3-24.
120 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

administrativa levada a cabo por São Luís em 1254. Os in­


quiridores, que a partir do início do século XIV se chamam
«inquiridores-reform adores» (enquêteurs-réformateurs), passam
a ser agentes regulares do soberano apesar de a duração e
periodicidade das suas missões nunca terem chegado a ser
fixadas. Entre 1270 e 1328, são assim levados a efeito cerca
de uma centena de inquéritos por todo o país. Mas à medida
que a tarefa se banaliza e se torna, aliás, mais complexa, o
significado da missão altera-se. Os inquiridores são cada vez
menos encarregados de corrigir os erros do Estado, e cada
vez mais investidos de poderes coercivos. De Luís IX a Filipe,
o Belo e mesmo depois, vão passando a ser progressivamente
identificados com a defesa dos direitos e das prerrogativas
— em primeiro lugar fiscais — da coroa. Por vezes brutal, a
sua intervenção pode ser questionável e justificar um con-
tra-inquérito, como é o caso do Languedoc, em 1297-1298.
Acontece ainda que, mesmo quando a sua reputação se de­
grada, exercem através do espaço francês uma vigilância
monárquica que incide tanto sobre a administração local como
sobre os simples súbditos19.
Os inquiridores estão encarregados de conhecer a França.
O que é ela de facto? O território da sua missão pode ser de
importância muito variável: é por vezes um bailiado, por
vezes uma província inteira; o mesmo acontece com os meios
postos à sua disposição. Contudo, prevalece a impressão de
uma real — e por vezes assustadora — eficácia do trabalho
efectuado no local. Sob Filipe, o Belo, Raimond de Poujoulat
pode assim ser encarregado de delimitar a delicada fronteira
entre as senescalias de Beaucaire e de Carcassonne e Filipe,
o Converso dá provas de uma competência notável na gestão
das florestas reais20. Mas o documento que dá melhor a me­
dida do domínio do espaço adquirido em algumas gerações,
é o Estado das freguesias e dos fogos de 1328. Trata-se do
primeiro documento deste tipo, chegado até nós, que resume
e totaliza os resultados de uma quantidade de operações lo­

19 J. Glénisson, «Les enquêteurs-réformateurs de 1270 a 1328», Po-


sitions de theses de l'Ecole nationale des Charles, Paris, 1946, pp. 81-88.
20 J . Favier, Philippe le Bel, op. cit., pp. 21-22.
CAPÍTULO IV 121

cais e através de algumas delas podemos entrever a minúcia


com que foram estabelecidos. No momento em que a mo­
narquia entra numa guerra interminável, o projecto do in­
quérito demográfico é estabelecer de forma mais exacta os
recursos do reino. Os resultados, publicados e criticados por
F. Lot, demonstram que, à excepção dos grandes feudos (Bre­
tanha, Guyenne, Borgonha, Champanhe, Flandres) e dos pri­
vilégios, que escapam à administração regular do rei, o rei­
no pode ser conhecido de forma bastante satisfatória — pelo
menos plausível21. E o que sucede localmente, no quadro lo­
cal dos bailiados e das senescalias. E o que também pode
acontecer através de uma recapitulação feita à escala de todo
o território governado.

N ascim ento da e sta tístic a

Neste sentido, o conhecimento do território tornou-se


inseparável do exercício da soberania desde muito cedo. Foi
tributário das necessidades e do desenvolvimento de uma
administração pública que tendia a cobrir a França com uma
rede simultaneamente mais apertada e mais regular. Mais
centralizada também: Luís XI, a «aranha universal», é o seu
símbolo, na segunda metade do século XV. «Nunca nenhum
homem prestou tanta atenção às pessoas, nem se inteirou de
tantas coisas como ele, nem quis conhecer tanta gente como
ele» (Commynes). A sua teia, atentamente tecida, perma­
nece no entanto inacabada e os meios do poder central per­
manecem insuficientes, ao ponto de requerer deste soberano
itinerante que se sirva dos seus próprios meios para satisfa­
zer a vontade de saber. No entanto, à medida que se avança
em direcção à Idade Moderna, os processos de conhecimento
tornam-se mais anônimos; a observação e recolha dos dados
passam a ser cada vez mais asseguradas por instituições re­
gulares e, pouco a pouco, sedentárias — o que não implica,
aliás, que a qualidade da informação ou a sua exaustividade

21 F. Lot, «L'Etat des paroisses et des feux de 1328», Bibliothèque


de 1'Ecole des Charles, XC, 1929, pp. 51-107 e 256-315.
122 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

tenham sido proporcionais ao crescimento do equipamento


administrativo do reino22.
O Antigo Regime é, assim, atravessado por uma longa
gestação conduzindo da visita à estatística. Está ainda ina­
cabada quando surge a Revolução a qual, longe de interrom­
per este processo secular, vai acelerá-lo e inflecti-lo23. Para
além das suas diferenças, os momentos sucessivos desta evo­
lução apresentam um certo número de características comuns.
Muito antes que o termo «estatística» fosse utilizado, eles
testemunham do papel preeminente do Estado nas operações
de conhecimento, que desde muito cedo foram tidas como
prerrogativa real. Este traço é, à partida, comum à maioria
dos Estados europeus, mas é mais acentuado em França, e
tem aí uma maior duração do que em qualquer outro lugar.
É, evidentemente, o imperativo fiscal, a necessidade de pre­
ver melhor os recursos e de determinar de forma mais eficaz
os impostos, que explica o investimento precoce e constan­
te da autoridade pública nestas matérias. Trata-se, neste ca­
so, de poder avaliar, especialmente nos momentos difíceis
— guerras ou crises — as capacidades do país real. Do mes­
mo modo esta medida é, em primeiro lugar, e durante mui­
to tempo, de natureza prioritariamente demográfica. Muito
antes de terem começado, no último século do Antigo Re­
gime, as interrogações e as polêmicas acerca do declínio ou
do crescimento da população, o recenseamento dos homens
deveria satisfazer as exigências do poder central, desde o Tri­
bunal de Contas medieval ao Controle geral moderno. Daqui
resulta uma tripla consequência. O saber assim constituído
acerca da França é completamente tributário das necessida­
des, dos meios e da eficácia de uma administração que, na
prática, permanece subequipada até ao século XVIII. Iden­
tificada às exacções dos agentes fiscais, a pesquisa da infor­

22 Estes problemas são desenvolvidos no segundo volume da His-


toire de la France, dirigida pelo autor e A. Burguière, Paris, Ed. du
Seuil, 1989.
23 Pour une histoire de la statistique, publications de l'INSEE, Paris,
1976, t. 1: vejam-se, em particular, as contribuições de J. Hecht, J.
Dupâquier e E. Vilquin, J.-Cl. Perrot.
CAPÍTULO IV 123

mação é, por outro lado, suspeita aos olhos dos súbditos e é


frequentemente objecto de recusa ou de tácticas de evasão
que lhe limitam, o alcance — tanto mais que uma reticên­
cia bíblica muito antiga se liga ao recenseamento cujo pro­
jecto parece querer usurpar as prerrogativas divinas. Por fim,
porque é um fenômeno que depende do rei, porque tem im­
plicações políticas e militares evidentes, o conhecimento dos
povos e do território participa essencialmente do segredo de
Estado. Durante muito tempo, interessa apenas a um grupo
restrito de gente com poder de decisão. «O que me enviais
não deve tornar-se público», escreve o duque de Beauvilliers
aos intendentes, em 1697. E preciso, com efeito, esperar pela
Revolução para que a informação estatística seja proclama­
da «um bem colectivo dos cidadãos e não um bem privado
do monarca» e para que seja objecto de uma publicidade de­
clarada.
Nesta história que se estende durante séculos, a viragem
do século XIII para o século XIV tinha constituído um pri­
meiro momento importante. A afirmação da monarquia abso­
luta apoiada num poderoso movimento de centralização admi­
nistrativa marca um segundo momento nos séculos XVII e
XVIII. As necessidades crescentes do Estado requerem uma
apreensão mais exacta do reino. Determinam, pois, uma sé­
rie de inquéritos a um ritmo constante24. Alguns são sim­
ples recenseamentos que deverão ter tido precedentes, pro­
vavelmente, no século XIV. Outros constituem verdadeiros
trabalhos de estatística aplicando ao conjunto do território
uma complexa grelha de leitura. O primeiro exemplo é, em
1630, o inquérito pedido pelo superintendente de Effiat aos
comissários reais encarregados de introduzir os impostos nas
províncias; é-lhes prescrito que contem, não apenas as fre­
guesias e sua população, mas também o número de clérigos
e oficiais, o valor dos ofícios e os recursos fiscais, a activi-
dade dos mercados e o estado dos feudos. A experiência é
repetida em 1634 e ainda em 1664, por Colbert, quando a
vontade de conhecer melhor o funcionamento da administra­

24 E. Esmonin, Etudes sur la France des XV//' et XVIII' siècles, Paris,


PUF, 1964.
124 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

ção real e de lhe corrigir os defeitos conduz o ministro a


pedir aos intendentes toda uma gama de informações sobre
a justiça, as finanças, certas infra-estruturas e trocas, sobre
os governos militares e sobre a hierarquia eclesiástica. Col-
bert desejava ainda dispor de mapas geográficos e adminis­
trativos satisfatórios, de tal forma o inventário dos recursos
do reino parecia inseparável do controle de um espaço unifi­
cado que os dois aspectos apoiam, na mesma época, tanto o
programa absolutista como o projecto mercantilista.
Nos últimos anos do século XVII, talvez seja o inquérito
decidido por instrução do duque de Borgonha (1697) aquele
que oferece a versão mais acabada da ambição estatística.
Constitui também a ocasião mais carregada de significado
simbólico: não é verdade que se trata de apresentar a França
ao delfim, uma criança de catorze anos? Fénelon tinha-o exor­
tado a conhecer o seu futuro reino num texto célebre: «Não
basta saber o passado; é preciso conhecer o presente; sabeis
o número de homens que compõem a vossa nação? quantos
homens, quantas mulheres, quantos trabalhadores, quantos
artesãos [...]. Que se diria de um pastor que não soubesse o
número do seu rebanho? E igualmente fácil para um rei sa­
ber o número do seu povo: basta querer [...}. Deve saber os
diversos tribunais estabelecidos em cada província, os direi­
tos dos cargos, os abusos desses cargos, etc. Um rei que ignora
todas estas coisas não passa de um semi-rei: a sua ignorân­
cia incapacita-o de endireitar o que está torto, causa-lhe um
mal maior do que a corrupção dos homens que governam
em seu nome25.» Eis aqui enunciados simultaneamente as
justificações e o programa de um inquérito cuja realização
frequentemente laboriosa, deveria prolongar-se por três anos.
Os trabalhos que daí resultaram são de valor muito desigual
e as informações procuradas muitas vezes decepcionantes. Mas,
isso pouco importa afinal, uma vez que é o projecto pedagógico
e político que conta antes de mais: «conhecer o estado pre­
sente do reino», ou seja, apreender um corpo político e so-

25 Fénelon, «Examen de conscience sur les devoirs de la royauté,


composé pour 1'éducation du duc de Bourgogne» (1697?), citado por
Esmonin, Etudes, p. 119.
CAPÍTULO IV 125

ciai, funcionamentos administrativos e econômicos no inte­


rior de um espaço.
Mas que espaço? Convém distinguir, como faz J.-C l. Per-
rot, dois ramos divergentes da estatística, cujas características
próprias se irão acentuando no último século do Antigo Re­
gim e26. O primeiro, que se aproxima dos princípios da
aritmética política à maneira inglesa, não tem relação cons­
titutiva com o espaço. Recolhe os dados em escalas variáveis
mas propõe-se fundamentalmente inscrevê-los numa série
temporal; escolhe medir evoluções. Quando Vauban propõe,
cerca de dez anos antes de La Díme Royale, um Método geral e
fácil para fazer o recenseamento dos povos (1686), delimita os
princípios de uma iniciativa que é precisamente geral e que
pode ser levada a cabo, indiferentemente, à escala de uma
cidade, de uma eleição ou da França inteira — como irá
acontecer, pela primeira vez, em 1694 com o recenseamento
por cabeça realizado para o estabelecimento da capitação nesse
ano. Os resultados destinam-se a ser comparados com da­
dos futuros e este confronto permitirá destrinçar regularida-
des e tendências. Este modelo de análise encontra-se em toda
uma vasta gama de inquéritos que incidem, cada um, de
Colbert à Revolução — e para além dela — sobre um tema
único: o número de homens, a produção das minas e das
manufacturas, os recursos agrícolas, o comércio, as subsis-
tências, os preços ou os salários27. Constituem uma parte
importante do enorme material estatístico reunido no último
século do Antigo Regime pelos administradores, cada vez
mais preocupados em dispor de avaliações globais para apoiar
as suas opções, e por demógrafos como Expilly, Moheau ou
Des Pomelles, que procuram fundar, sobre dados mais segu­
ros, as suas reflexões acerca do destino da «populaça».
Existe uma segunda abordagem, oposta em tudo à pri­
meira e na qual o espaço é, pelo contrário, o próprio objecto
de análise. Remete para uma outra tradição, particularmente

26 J.-Cl. Perrot, Vâge d'or de la statistique régionale française (an IV-


-1804), Paris, Société des études robespierristes, 1977.
27 Encontramos uma apresentação sumária em B. Gille, Les sources
statistiques de l'histoire de France, Genève-Paris, Droz, 1964, pp. 46-100.
126 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

florescente no mundo alemão, cujo modelo se propõe em Fran­


ça com o grande inquérito de 1697. Ao número organizado
em séries, esta estatística descritiva prefere o quadro mo-
nográfico que tem em conta todos os aspectos de uma situa­
ção local e procura reconstruir o sistema de relações que os
une. À abstracção aritmética, opõe a fidelidade de uma cópia
feita «a partir do real». Porque tudo pode e deve entrar na
descrição explicativa: as condições naturais — um solo, um
clima, uma vegetação, um regime de águas — como as con­
dições sociais — o número de homens, o seu «temperamen­
to», as suas actividades, o seu comportamento e as suas tra­
dições. É a combinação variável destes diferentes factores que
define as particularidades do lugar. O inquérito propõe-se
como objectivo muito mais aquilo a que se chama por vezes
no século XVIII, uma «história natural» baseada na analo­
gia do que um inventário sociológico. O geógrafo Darluc
exprime-o bem quando afirma, nos últimos anos do Antigo
Regime: «A história natural de uma província que tivesse
apenas como objectivo a simples enumeração dos seus fósseis,
a descrição das suas montanhas, do seu clima e das suas pro­
duções serviría, apenas, para satisfazer a curiosidade. Pelo
contrário, aquela que ligasse todas estas diferentes partes entre
si e tratasse de retirar daí induções relativas à espécie huma­
na, e as trouxesse, tanto quanto possível, à utilidade públi­
ca {...] seria muito mais preciosa28.» A lição é clara: para
compreender as organizações sociais e para as gerir da melhor
maneira, é preciso conhecer o conjunto das suas determina­
ções, reconstituir-lhes ao mesmo tempo a gênese e o sistema.
Um tal empreendimento requer necessariamente espa­
ços restritos de observação. Põe em jogo um número dema­
siado elevado de variáveis para poder ser alargado e, afinal,
não é verdade que tem por finalidade identificar as proprie­
dades de um lugar específico? Tende pois a justapor inqué­
ritos monográficos onde a aritmética política propusera uma
apreensão global do território. A estatística descritiva é tan­

28 Darluc, Histoire naturelle de la Provence..., 1782, p. VII, citado


por N. Broc, La géographie des philosophes. Géographes et voyageurs fran­
çais au XVIII‘ siecle, Paris, Ophrys, 1975, p. 407.
CAPÍTULO W 127

to mais tendente a produzir este esboroamento do espaço


quanto é, muito amplamente no século XVII, obra de um
meio original. Os seus principais promotores já não são o
Estado e os seus agentes mas a iniciativa privada: uma rede
espontânea de viajantes e geógrafos, de economistas, de
agrônomos e de médicos, de administradores de nível mo­
desto e de dignitários locais. Todos são homens das Luzes e
todos procuram o bem público. A maior parte deles tem
— ou adquiriu — uma experiência de campo cuja singulari­
dade funda, aos seus olhos, a exemplaridade. Não duvidam
que cada um dos seus inquéritos esteja vocacionado para se
tornar uma peça de um vasto puzzle nacional; mas recusam -
-se a extrapolar resultados que apenas têm valor pelo facto
de serem específicos. Os dados que reúnem têm essa vocação
para ser confrontados, no interior de uma combinatória gi­
gantesca que é o verdadeiro fim — assimptótico, será ne­
cessário dizê-lo? — da iniciativa. O inquérito que organiza,
a partir de 1775, a Société Royale de Médecine por iniciativa
do seu fundador, Vicq d'Azyr, pode aqui servir de modelo.
Preparado pelas primeiras topografias médicas regionais, confia
a uma rede de correspondentes, que esquadrinharão o terri­
tório, a tarefa de um «plano topográfico e médico da Fran­
ça». Em poucos anos acumula, assim, um enorme material,
único e contudo de utilização difícil porque é demasiado díspar.
Como as monografias dos acadêmicos de província, os rotei­
ros dos viajantes ou as relações dos agrônomos, privilegia o
espaço concreto. Mas desenha uma França resplandecente,
apesar de inacessível.

Descrever ou contar?

Posto nestes termos, o debate atravessa o século das Lu­


zes e culmina nos anos decisivos da Revolução e do Impé­
rio29. O conhecimento do território — e de facto, o próprio

29 Perrot, Vâge dor, op. cit.; M.-N. Bourguet, Déchiffrer la France.


La statistique départementale à 1’époque napoléonienne, Paris, Editions des
archives contemporaines, 1988.
128 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

território — tornam-se então, declaradamente, problemas


políticos que põem em causa o destino da nação. A mobili­
zação contra as ameaças do interior e do exterior foi ne­
cessária desde muito cedo. A crise econômica, a penúria, a
guerra, mas também a vontade proclamada de realizar na
Terra a felicidade dos homens, exigiam que o novo regime
pudesse conhecer a todo o momento o estado da França, tan­
to os recursos materiais e morais como o número de cida­
dãos. Deveria providenciar os meios de responder às urgên­
cias de curto prazo, precisava também de construir o espaço
nacional e de demonstrar a sua unidade através da selecção
sistemática da informação. Dupla exigência a que corresponde
uma dupla estratégia do inquérito.
Em primeiro lugar, efectua-se toda uma série de recen-
seamentos parciais que, na tradição das estatísticas temáticas
da monarquia, têm por objectivo fornecer ao poder político
uma informação imediatamente utilizável na preparação das
suas decisões. Estas operações multiplicam-se nos tempos de
crise em função de necessidades imediatas. Os Comitês da
Convenção dispõem assim, em dois anos, de um recensea-
mento dos homens em idade de combater, de vários inquéri­
tos sobre os meios e produtos da agricultura, sobre o estado
das subsistências, sobre a actividade dos diversos ramos in­
dustriais. Tal como já acontecera com as suas precursoras,
estas operações centralizadas não conferem importância par­
ticular à distribuição espacial dos dados que reúnem. Expri­
mem um jacobinismo «autárquico e veemente» (J.-Cl. Per-
rot) cuja principal preocupação é mobilizar, sob a forma de
números e de quadros, as possibilidades do país e pô-las ao
serviço do governo e da República. E verdade que por vezes,
este espaço de que se pensa poder ignorar a diversidade, os
desníveis e até a existência, faz-se lembrado no espírito dos
políticos parisienses: quando, por exemplo, os administrado­
res locais sobrecarregados de circulares e de perguntas, reve­
lam através das suas queixas — por vezes pelo seu silêncio
— as desigualdades da França real.
Para além das urgências, o esforço estatístico conhece,
contudo, outras motivações. A Revolução funda uma nação.
Instaura uma nova ordem através de um território cujos por­
CAPÍTULO IV 129

menores necessita conhecer para melhor integrar todos os


pontos, para melhor os associar ao projecto político e social
de que se quer portadora. Já não se trata aqui de contar
para decidir, mas de apreender o verdadeiro estado da Fran­
ça começando pelo inventário das suas diferenças. A prepa­
ração da divisão departamental no Outono de 1789 foi oca­
sião para uma primeira visão de conjunto, aliás largamente
espontânea. Esta imensa reorganização do espaço adminis­
trativo, levada a cabo em apenas alguns meses, põe a nu
todo um leque de representações do território; torna sensíveis
fenômenos atávicos e solidariedades, exclusões também, que
até aí tinham tido apenas existência local. Ora, é porque a
Revolução quer reunir os Franceses que faz da diversidade
das suas situações um problema cujos dados necessita conhe­
cer. A partir deste primeiro inventário deverá ser possível
medir os progressos efectuados, as transformações benéficas
do novo regime, os atrasos e as recusas: apresentar um ba­
lanço, comparar um antes, e um depois. Amplos questionários
interrogam as comunas ou os departamentos, já não apenas
acerca dos recursos mas sobre todos os aspectos da vida so­
cial e sobre o «espírito público», síntese da informação reco­
lhida e verdadeiro objectivo destes inquéritos. Por fim dá-se
o Termidor e o golpe desferido sobre o avanço da Revolu­
ção. A França reencontra uma base mais estável, escapando
durante um certo tempo à dupla pressão política e militar.
Tentar descrevê-la é simultaneamente constatar um ponto
de chegada e fixar uma nova origem. O primeiro-ministro
do Interior do Directório, Bénézech, di-lo claramente na cir­
cular que envia, nos finais de 1795, aos administradores dos
departamentos: «Só desta maneira e através da comparação
do estado ou inventário que vos peço com a situação em que
se encontrará a França dentro de alguns anos se poderão co­
nhecer as vantagens de um governo livre e o bem que tiver­
mos feito30.»
Começa então «a idade de ouro da estatística regional».
Dura menos de um decênio, e caracteriza-se por um esforço
excepcional de descoberta e de descrição da França. O in­

30Citado por Bourguet, op. cit., cap. 1.


130 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

quérito torna-se sistemático, ou melhor, enciclopédico. Ju s­


tapõe capítulos habituais de informação estatística e «tudo
aquilo que se encontra de útil, de interessante, de digno de
nota, no departamento, seja qual for a relação que possa ter
com ele». Associa as vantagens complementares de uma ini­
ciativa centralizada e de uma realização decididamente lo­
cal. Em Paris, há uma série de responsáveis inventivos, ex­
cepcionais, que se sucedem no Ministério do Interior: Fran-
çois de Neufchâteau, Lucien Bonaparte e por fim Chaptal,
que acreditam todos no projecto de uma Estatística da
República. As suas ordens são executadas em Paris por mi­
nistérios especializados, na província por uma administração
estabilizada e mais eficaz, mas também por membros de gran­
des corpos públicos, engenheiros de «Obras Públicas» e de
Minas, professores das Escolas Centrais, etc. Tende-se assim
a constituir uma rede nacional. N a prática, o inquérito pode
mobilizar os interesses e as competências destes dignitários
cultos, industriosos e políticos cuja emergência, na segunda
metade do século XVIII, evocámos; podem explorar também
materiais longamente acumulados. François de Neufchâteau
vê nesta colaboração a realização da nova ordem política e
social: «Compete apenas a uma República submeter as ope­
rações do seu governo ao exame dos seus administrandos,
dar-lhes anualmente conhecimento do emprego dos dinhei-
ros públicos, chamar todos os cidadãos à discussão dos in­
teresses do seu país.»
Daí o carácter particular da iniciativa. Esta propõe-se
realizar uma cobertura nacional do território, mas inscreve-se
num quadro departamental; obedece a um questionário co­
mum, mas privilegia aquilo que a originalidade de cada si­
tuação local tem de irredutível. Para retomar o título de um
inquérito realizado na mesma época, diriamos que propõe
uma «estatística geral e particular da França»31. Daí resultam
uma série de descrições e de quadros departamentais — cons­
tantemente retomados, remodelados — e, para terminar, as

31 P.-E. Herbin, J . Peuchet e a l, Statistique générale et particulière de la France


et de ses colonies avec une nouvelle description topographique, physique, agricole, politique,
industrielle et commerciale de cet état, Paris, 1803, 7 vols. e um atlas.
CAPÍTULO IV 131

grandes monografias para o projecto estatístico dos governa­


dores civis, incompletamente realizado sob a orientação de
Chaptal entre 1801 e 1804. Estes textos oferecem uma ima­
gem contraditória da França. São peças de um edifício em
construção e inscrevem-se numa perspectiva unitária; esta­
vam previstos suplementos anuais que deveríam, aliás, asse­
gurar a sua actualização e permitir medir os progressos da
coesão nacional. Mas estas peças estão, de momento, separa­
das. Mesmo quando respondem a um questionário e a preo­
cupações comuns, os governadores civis, autores das mono­
grafias departamentais, parecem fascinados pela diversidade
francesa, pela evidência opaca dos particularismos. O pro­
jecto acaba por resvalar no sentido de uma antropologia do
local. Símbolo destas tendências contrárias: o trabalho de
observação e recolha dos dados aceita, ou melhor, reivindica
o novo quadro departamental para reinventar aí os velhos
hábitos da província. Damo-nos conta de que as peças do
puzzle encaixam muitas vezes mal umas nas outras. Apesar
de se ter feito «topografia», como diz Chaptal, o quadro
explicativo dos factos naturais e sociais, o conhecimento glo­
bal da nação, parecia ser temporariamente, impossível. Ape­
sar de ter optado pela precisão, observando directamente o
espaço real, a estatística regional manifestará o estado inaca­
bado do território.
Esta iniciativa não teve futuro. A evolução autoritária do
regime, sancionada pelo estabelecimento do Império em 1804,
acompanhou-se de uma vontade afirmada de centralização e
de unificação que já não deixa espaço para a iniciativa
e para a experimentação locais. O projecto estatístico e os
seus meios são revistos. Na época, esta mudança de orienta­
ção pode ter passado por uma vingança das aritméticas políticas
exercida sobre os detentores da estatística descritiva. Trata­
va-se de facto do efeito de uma mutação bem mais profun­
da, que mostrava que o território enquanto tal tinha deixa­
do de ser um problema — ou, mais exactamente, que se
tinha decidido que deixara de o ser e que se conformaria às
expectativas do poder político. Escolha voluntarista, que ten­
ta impor em toda a parte um mesmo olhar e um modelo
único de recolha da informação e demonstrar a unidade admi-
132 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

nistrativa e política da nação através da constituição de um


corpo de dados homogêneos. Ao governo central compete,
segundo a fórmula de Duquesnoy, «orientar o fio que liga
todas as partes e coordená-las para atingir um objectivo
comum». A estatística deixa de ser um projecto global de
conhecimento da França para se tornar um instrumento re­
gular de informação. As distribuições espaciais, as particula­
ridades já não tem aí lugar: conta apenas o orçamento na­
cional que recapitula o total dos orçamentos departamen­
tais. Os inquéritos regularizam-se ao ponto de se tornarem
periódicos; multiplicam-se — principalmente quando a si­
tuação econômica, com as consequências do Bloqueio Conti­
nental e depois as dificuldades militares requerem uma nova
mobilização dos recursos; mas tornam-se resolutamente uti­
litárias, especializadas, tendo em conta apenas um tipo de
dados de cada vez. A iniciativa estatística torna a ser, assim,
um privilégio do Estado e regressa significativamente ao
domínio do segredo. Deixa de haver lugar para as colabora­
ções locais face às repartições parisienses32.

A França em números

A reorganização napoleónica é o ponto de partida de uma


tendência que conduzirá, trinta anos mais tarde, ao projecto
de uma estatística geral da França. Inseparável de uma von­
tade de organizar o espaço da Grande Nação, já não tem
interesse nem tempo para se consagrar a nada que possa re­
sistir à sua convicção unificadora. A unidade geográfica de
base — no caso, o departamento — deixa de ser objecto
de análise para se tornar no seu enquadramento neutro, que
não é, aliás, o único possível33. Quando voltamos a encon­
trar estatísticas departamentais, na primeira metade do século

32 St. Woolf, «Contribudon à 1'histoire des origines de la statisti-


que: France, 1789-1815», in La statistique en France à l'époque napoléo-
nienne, Bruxelas, Centre G. Jacquemyns, 1981, pp. 45-126.
53 J.-P. Bachasson de Montalivet, Exposé sur la situation de PEmpire,
apresentado ao Corpo legislativo na sua sessão de 25 de Fevereiro de
1813, Paris, 1813.
CAPÍTULO IV 133

X IX , a intenção é apenas reunir informações susceptíveis de


se agregarem aos dados nacionais. Significaria isso que o
domínio do território era uma operação acabada? Nada é menos
certo, apesar de tantas provas de uma centralização e de uma
integração imperiosas. Durante a Restauração e a Monarquia
de Julho, a interrogação sobre a estrutura e homogeneidade
do espaço francês, que se poderia pensar definitivamente
abandonada, reaparece — de uma forma completamente di­
ferente. J á não são as particularidades locais que a alimen­
tam mas a identificação de contrastes acentuados que opõem
uma à outra, duas Franças34. Sistematizando as intuições dos
fisiocratas e dos aritméticos políticos do século XVIII, a nova
estatística moral articula um domínio global do território e
a recuperação de oposições espaciais irredutíveis. Foi o ba­
rão Dupin que em 1826 primeiro traçou num mapa «a linha
divisória e escura que separa o Norte do Sul», aquela que, de
Saint-Malo a Genève, separa a «França esclarecida» da «Fran­
ça obscura» baseando-se, à partida, na desigualdade maciça
das taxas de escolaridade. O próprio Dupin, A.-M. Guerry,
Bigot de Morogues, Villeneuve-Bargemont reforçarão esta
divisão a partir de outros indícios nos anos que se seguem, e
A. d’Angeville tentará fazer a sua descrição sistemática no
Essai sur la statistique de la population française (1836)35. Com
eles, segundo a expressão de R. Chartier, «o espaço francês
torna-se o lugar de uma experiência». Para além do que pode
separar estes autores, é possível discernir uma preocupação
comum: confrontar o território voluntarista e abstracto dos
administradores com a textura, os desníveis concretos da Fran­
ça, os comportamentos, a riqueza e a desgraça.
Quando finalmente se impõe nos anos 1830, o projecto
de uma estatística geral da França é recebido como uma no­
vidade radical. Contudo, em muitos aspectos é a realização
ou o resultado de preocupações por vezes muito antigas às

34 R. Chartier, «Les deux France. Histoire d'une géographie», Ca-


hiers dlhistoire, 1978, 4, pp. 393-415.
35 A. d'Angeville, Essai sur la statistique de la population française,
considérée sous quelques-uns de ses rapports physiques et moraux, Bourg-en-
-Bresse, 1836, reed. com uma apresentação de E. Le Roy Ladurie, Pa­
ris, Mouton, 1969.
134 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

quais dará forma e meios inéditos56. A própria ideia de cen­


tralizar os resultados dos diversos recenseamentos tinha sido
retomada várias vezes no século XVIII e, nos últimos anos
do Antigo Regime, Necker tinha proposto a criação de uma
«Secretaria Geral de pesquisas e informações». Confrontados
com a massa da informação acumulada, os homens da Revo­
lução ressuscitaram o seu projecto; mas foi preciso esperar
pelo Directório e, em particular, pelas iniciativas de Neuf-
château, para que se decidisse reunir operações dispersas por
diversos ministérios, e por diferentes repartições do Minis­
tério do Interior. E por fim em 1800 que os esforços conju­
gados de L. Bonaparte e de Chaptal conduzem à criação de
um Bureau de Statistique autônomo que terá, aliás, uma exis­
tência agitada antes de ser suprimido por Napoleão em 1812,
distribuindo de novo as tarefas. A monarquia restaurada não
mostrará nenhum interesse por uma iniciativa que evocava a
centralização revolucionária e as suas virtualidades inquisi-
toriais: mas, na longa procura de unificação do conhecimen­
to estatístico, a excepção talvez seja essa lacuna, uma vez
que interrom pe provisoriam ente uma evolução secular.
O problema não se coloca apenas em França. Nos primeiros
decênios do século X IX , a Prússia, a Grã-Bretanha, a Bél­
gica, a maioria dos países da Europa, vêem-se confrontados
com ele e tratam-no de forma semelhante3637. São aliás as pu­
blicações do Board of Trade britânico que levam Thiers, em
1833, a pedir o restabelecimento de um serviço central en­
carregado da «reunião e organização dos quadros estatísticos
acerca do território, da população, da riqueza e de todos os
serviços da França»; será, em 1840, a Estatística Geral da
França.
Este amplo movimento à escala europeia não obedece,
contudo, a uma lógica estritamente institucional e estatal.

36 P. Marietti, La Statistique générale de la France, Paris, PUF, 1947;


R. Le Mée, La Statistique générale de la France de 1833 a 1870, Paris,
Service de microfilms, 1975; H. Le Bras, L a Statistique générale de la
France, in P. Nora (éd.), Les lieux de mémoire, II, 2, Paris, Gallimard,
1986, pp. 317-353.
37 J . e M. Dupâquier, Histoire de la démographie, Paris, Perrin, 1985.
CAPÍTULO IV 135

É apenas compreensível se for enquadrado por sua vez, na


extraordinária efervescência estatística da primeira metade
do século X IX . Não é, principalmente, fruto de iniciativas
públicas ou centralizadas. O que chama a atenção durante
estes anos, pelo contrário, é a multiplicação de experiências
individuais e locais. Dupin, Guerry, Villermé, d'Angeville
ou os animadores dos Annales dlkygiene publique et de médecine
légale (criados em 1829) são particulares preocupados com
a utilidade social e as aplicações práticas. Reunidos em tor­
no de algumas grandes instituições e sociedades eruditas,
não ficaram à espera das sugestões do Estado para tentar a
aventura da estatística moral. Foram ainda estas pesquisas
privadas que prepararam a publicação, a partir de 1827, da
Compte général de 1’Administration de la Justice criminelle. As
iniciativas dos representantes do Estado inscrevem-se aliás
no mesmo contexto e são muito mais um produto de inte­
resses pessoais ou sectoriais do que o resultado de um pro­
grama de conjunto: é o caso do governador civil do Sena,
Chabrol, animador de quatro volumes de Recherches statisti-
ques sur la ville de Paris et le département de la Seine (1821-
-1829). Um pouco por toda a parte, se espera que a estatística
forneça os elementos de um estudo geral da sociedade. «O
estatístico, novo geómetra, torna-se com o médico, outro ros­
to da ciência organizadora, o grande especialista social capaz
de medir todas as coisas38.» A convicção nasce no momento
em que se torna possível uma «física social», de que Quéte-
let será o ambicioso teórico. Nas sociedades individualistas
que nasceram da Revolução, o «homem médio» do estatístico
torna-se a unidade base quer da observação, quer da gestão
política.
E nestas condições que se reconstrói um serviço central
de estatística que pode, simultaneamente, aproveitar as expe­
riências acumuladas e empreender uma sistematização à esca­
la do país. A criação é original, por um lado, porque edi-

38 M. Perrot, «Première mesure des faits sociaux: les débuts de la


statistique criminelle en France», in Pour une histoire de la statistique,
op. cit., p. 125. Veja-se também, no mesmo volume, a contribuição de
J. Ozouf (acerca do ensino) e de B. Lécuyer (sobre os Annales dhygiène).
136 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

fica uma instituição que vai atravessar um século e seis regi­


mes políticos até que, em 1946, o INSEE, que a continua,
a substitua; a existência de um observatório econômico e
social passa a ser inseparável do funcionamento do Estado
moderno. É por outro lado, porque passa em revista as
ambições da nova disciplina. A circular que expõe o projec­
to aos governadores civis, em 1834, apresenta-o como uma
«recolha de documentos estatísticos destinados a facilitar
o estudo dos assuntos do país e a esclarecer as discussões
legislativas». E Moreau de Jonnès, que será o seu primeiro
animador, di-lo claramente: a Estatística Geral da França
destina-se «aos homens de Estado, e aos homens de negócios
cuja vida é demasiado ocupada para lhes permitir clarificar
por si sós cálculos informes. Para poder atingir o seu objec-
tivo é necessário que haja uma estatística acessível em todos
os seus pormenores».
A iniciativa apresenta-se assim como o vasto projecto de
um inventário da França, sim ultaneam ente com pleto e
manejável; é aliás exactamente contemporânea da imensa ope­
ração do cadastro, levada a cabo entre 1828 e 1851. Contu­
do, se consagra ao «Território» a primeira das catorze rubri­
cas do seu plano inicial, não faz dele de forma nenhuma
o objecto privilegiado da descrição, nem mesmo de uma
reflexão particular. Os dados recolhidos continuam, é certo,
a ser registados a nível de bairro ou, cada vez mais, do
departamento. Mas o âm bito espacial permanece formal
e vale sobretudo pela estabilidade e pela uniformidade as
quais autorizam, a prazo, a constituição de séries cronoló­
gicas coerentes. A observação local ou regional já não tem
pertinência própria. Os dados que fornece têm apenas inte­
resse porque estão vocacionados para serem agregados a nível
nacional. Esta recapitulação global, que é o primeiro objec-
tivo da Estatística Geral da França, pressupõe um espaço
uniforme, e impõe em contrapartida uma «desterritorializa-
ção da descrição do mundo social» (A. Desrosières). A evo­
lução dos questionários confirma esta progressão: quanto mais
se avança no século X IX , mais se enriquecem e se comple-
xificam; mas as categorias de análise que desencadeiam eli­
minam a diversidade espacial «em benefício de ligações cen­
CAPÍTULO IV 137

tradas em códigos e estatutos de alcance nacional»39. Consta­


tamo-lo, por exemplo, nas nomenclaturas socioprofissionais uni­
ficadas que se impõem nos recenseamentos da população fran­
cesa durante a segunda metade do século X IX .
Mas não é possível reduzir o projecto da uniformização
estatística da França à dimensão epistemológica. A Estatística
Geral da França é, ao mesmo tempo, indissociável de uma
afirmação política que considera como dados adquiridos a
unidade e a homogeneidade do território nacional. Compete
ao inquérito científico demonstrar, através das categorias e
da organização de uma descrição, que se efectua um proces­
so secular. A «ortopedia política», que Y. Lequin identifica
de forma feliz com a iniciativa estatística40, não consiste ape­
nas numa tomada de consciência por parte da instituição
estatística de um número crescente de factos econômicos,
sociais ou «morais». Dedica-se também a moldar o corpo
colectivo da nação, a produzir um espaço contínuo e abs-
tracto, em que qualquer ponto é, por definição, igual a qual­
quer outro. Um século antes da contabilidade nacional, dá
crédito à ideia de que uma medida global da França é não
apenas possível, mas a única coisa verdadeiramente perti­
nente. Situa-se aí, talvez, o verdadeiro êxito da Estatística Geral,
cujo precoce embotamento no decurso do século X IX tem sido
frequentemente referido. Num momento em que as dispari­
dades do espaço são contudo objecto de interrogações multi­
plicadas, de d'Angeville a Michel Chevalier, de Le Play a Ch.
Brun, consegue impor junto da maioria — e alimentar, apoian­
do-se nos números — a convicção de um aperfeiçoamento do
território41. E preciso esperar o período posterior à Segunda
Guerra Mundial para que esta convicção seja de novo posta
em causa profundamente e para que a preocupação com uma

39 A. Desrosières, «La tradition statistique de description du monde


social», documento de trabalho INSEE, dactilog. 1986. Agradeço aqui
ao autor ter-me comunicado este texto inédito.
40 Y. Lequin, Histoire des Français, X IX "-X X ' siècles, t. I, Un peuple
et son pays, Paris, A. Colin, 1984, pp. 102-103.
41 Estes problemas são retomados e desenvolvidos nos capítulos consa­
grados ao ordenamento do território, no final do volume. (Cf. infra,
nota 22).
138 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

política do espaço, marginalizada durante muito tempo, read­


quira um lugar central nas prioridades do Estado.

0 mapa da França

Pode parecer paradoxal que o mapa seja aqui abordado


em último lugar: não é ele a representação que simboliza a
apreensão do território, o instrumento que melhor a exprime
e domina? A identidade da França é, aos nossos olhos, inse­
parável de uma forma que aprendemos a reconhecer e a esti­
lizar42. No mapa mural da escola, as crianças têm aprendido,
há dezenas de anos, a ler os contornos do seu país, a perda
insuportável da Alsácia e da Lorena depois da derrota de
1870, as conquistas imperiais da metrópole enfim, através
do planisfério. Reduzida ao hexágono, a imagem nacional
adquiriu um duplo carácter de evidência e de necessidade.
Resume uma história cujas vicissitudes permite esquecer, uma
longa caminhada. Impõe um traçado que é uma realização,
simultaneamente familiar e perfeita.
No conhecimento geográfico da França, o mapa aparece,
contudo tardiamente. Até ao final da Idade Média parece
desempenhar apenas um papel mínimo, aliás difícil de do­
cumentar, numa época em que o reino passara a ser encara­
do como um território e que há outras práticas, como vimos,
que traduzem a vontade de o apreender. Este atraso da repre­
sentação figurativa constitui um problema ou, mais exacta-
mente, recorda que os sistemas de percepção também têm
uma história. Porque a ausência de um mapa não significa
de maneira nenhuma que os homens da Idade Média não
tenham tido «o sentido do espaço», simplesmente, como bem
demonstrou B. Guenée, exprimiram-no por meio de formas
simultaneamente retóricas e cognitivas que se nos tornaram
alheias43. Formas retóricas: a descrição geográfica é um gé-*45

42 Cf. E. Weber, «L'hexagone», in Les lieux de mémoire, II, 2, Paris,


Gallimard, 1986, pp. 97-116.
45 B. Guenée, Histoire et culture historique dam l'0ccident médiéval,
Paris, Aubier-Montaigne, 1980, pp. 166-178, «Le sens de 1’espace».
CAPÍTULO IV 139

nero literário inspirado nos modelos antigos, fortemente co­


dificado, tem os seus momentos obrigatórios — a apresenta­
ção, passo a passo, do país, dos homens e dos mirabilia dignos
de nota — , mistura descrição e elogio. Alimentada de refe­
rências clássicas, conforma-se mais a uma tradição letrada
que às exigências de uma observação «objectiiva» do espaço
e associa, aliás significativamente, os dados antigos e os da­
dos recentes. No entanto estes textos são, na sua maioria,
inseparáveis de uma tentativa de conhecimento. Esta passa
por outros processos para além daqueles a que desde há cin­
co séculos nos acostumámos. A lista de nomes, de que já
sublinhámos a importância na confecção dos inquéritos a partir
do século XIV, desempenha aqui um papel essencial. Ofe­
rece um recurso habitual a quem quer representar um espa­
ço. No início do século XII, um monge de Marmoutier com­
pôs, assim, uma descrição da Touraine relativamente organi­
zada, especificando as suas fronteiras, as praças-fortes e os
rios referindo-os aos quatro pontos cardeais; demonstra uma
observação regrada, construída a partir do espaço dado atra­
vés de uma série de pontos e sugere um espaço com a ajuda
de nomes44. E Primat, o primeiro autor das Grandes Chroni-
ques de France (1274), descreve a Gália segundo o mesmo
processo «porque pelos nomes das cidades será mais claramen­
te entendida a descrição». Estas listas multiplicam-se nos
últimos séculos da Idade Média. As crescentes exigências da
administração — e sobretudo do fisco — , as utilizações
públicas e privadas do espaço explicam então o êxito desta
fórmula. Mesmo que fossem actualizadas regularmente — o
que não é evidente — , as listas autorizavam um ordenação,
uma recapitulação e uma memorização do território; porme­
norizadas a nível local, simplificadas à escala do reino, possi­
bilitavam comparações entre as diversas unidades que o com­
punham, mais facilmente, talvez, que os mapas onde o im-
bricado das circunscrições políticas e administrativas compli­

44 J . Tricart, «La Touraine d'un Tourangeau au XVIT siècle», in


Le métier d'bistorien au Moyen Age. Etudes sur 1’historiographie médiéva-
le, sob orientação de B. Guenée, Paris, Publications de la Sorbonne,
pp. 79-93.
140 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

cava a realização. Aliás, dedicados aos viajantes, comerciantes


e peregrinos que se aventuravam pelas estradas, os itinerários
ofereciam um material semelhante: através de uma sucessão
de nomes e de informações práticas, descreviam as etapas de
uma forma que pareceu durante muito tempo suficientemente
explícita para que não se sentisse imperiosamente — muito
depois do aparecimento do mapa — a necessidade de fazer a
sua tradução gráfica. Este conhecimento que parece tão abs-
tracto, tão descarnado — e ao mesmo tempo tão empírico
— tornou provavelmente possível, desde muito cedo, uma
medida aproximada das dimensões do reino. Gilles Le Bou-
vier, arauto de Carlos VII, prova-o quando indica, na pri­
meira metade do século XV: «O dito reino tem X X II dias
de comprido, a saber, desde Escluse na Flandres até Saint
Jehan de Pié de Port que é a entrada do reino de Navarra, e
tem de largo XVI dias, a saber, de Saint-Mathieu de Fine
Poterne na Bretanha até Lyon no Ródano.» Estimativa plausível
que se baseia provavelmente na prática da viagem e cuja
relativa precisão contrasta, por exemplo, com as contas
fantásticas que alimenta, na mesma época, a avaliação da
população indígena15.
O primado, do nome e da lista, conservado durante mui­
to tempo, não significa que o mapa tenha permanecido com­
pletamente ausente das representações medievais do espa­
ço. Mas estes documentos, na sua maioria desaparecidos, não
visavam necessariamente transcrever medições, ou tornar real
um espaço. Muitos eram mapas do mundo que se conforma­
vam no essencial à tradição livresca e não a um reconheci­
mento empírico do espaço. Terá existido provavelmente um
certo número de mapas regionais, que não foram conserva­
dos, sem os quais as primeiras representações do reino não
teriam sido possíveis. Seriam de natureza diferente, mais rea­
lista? É impossível sabê-lo, mas podemos colocar hipóteses
na medida em que parecem ter-se multiplicado no século
XV , como resposta às necessidades da administração real.*1

45 Cf. Ph. Contamine, «Contribution à 1'histoire d'un mythe: les


1 700 000 clochers du royaume de France (X V -X V I' siècles)», in Eco-
nomies et sociétés. Mélanges E. Perroy, Paris, PUF, 1973, pp. 414-428.
CAPÍTULO IV 141

Quando Carlos VII recebe em herança um certo número de


bens do Dauphiné, é enviado um notário, em 1423, encarre­
gado de fazer o seu inventário bem como um pintor para
lhes traçar o mapa. E, no outro extremo do século, Béraud
Stuart, na sua Instruction touchant le faict de la guerre, reco­
menda «que se ponha em pintura» as conquistas do sobera­
no46. Pouco a pouco, a imagem gráfica impõe-se como uma
percepção do território. Não inventa o sentido do espaço,
mas dá-lhe uma forma — perceptiva, conceptual, técnica —
que acaba por parecer indissociável da própria espacialidade.
E verdade que no final da Idade Média a cartografia apre­
senta várias tradições sem que nenhuma seja completamente
autônoma; o confronto e ajuste entre elas não se faz, aliás,
sem problemas47. O desenvolvimento da navegação marítima
está, a partir do século XIII, na origem de uma primeira
família de documentos: são os portulanos, compostos de um
livrinho manuscrito e, eventualmente, de um mapa, que in­
dicam aos marinheiros a rota a seguir entre dois pontos.
Nascidos da prática, estes mapas náuticos oferecem essen­
cialmente um traçado das costas onde assinalam, aos nave­
gadores, os acidentes, os marcos, os perigos e os abrigos.
O portulano, que ignora na maioria dos casos o interior das
terras, fornece assim um perfil litoral acompanhado de uma
lista de pontos de referência e de locais, e não uma repre­
sentação do território. Nascido em Itália, pouco a pouco di­
fundido pela Europa mas raro em França, o gênero ofereceu
(e fixou) um primeiro perfil, aproximado, do país, cujo co­
nhecimento esteve principalmente reservado, durante muito
tempo, a um grupo profissional. A Geografia de Ptolomeu,
redescoberta no início do século XV também em Itália e
espalhada rapidamente por todo o Continente é uma segun­
da fonte, ainda mais importante. Fornece muitos tipos de

46 Guenée, Histoire et culture historique, op. cit., p. 172; Contamine,


«Contribution», art. cit., p. 424, n. 51. E principalmente F. de Dain-
ville, «Cartes et contestations au X V ' siècle», Imago, X X IV , 1970,
pp. 99-121.
47 N. Broc, La géographie de la Renaissance, Paris, Bibliothèque Na-
tionale, 1980; Ib., «Quelle est la plus ancienne ‘carte moderne’ de la
France?», Annales de Géographie, 1983, pp- 513-530.
142 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

dados. Para começar, tábuas de longitudes e latitudes, que


sofreram numerosas correcções durante o último século da
Idade Média. Em seguida, mapas baseados nestas coordena­
das astronômicas que serão também objecto de revisões e
renovações «modernas», a partir do fim do século XV. En­
contramos aí uma representação da G ália, errônea e defor­
mada, mas que privilegia desta vez o interior das terras.
Consagrado pela tradição letrada, este mapa não terá tido
utilização prática real, como pensava L. Gallois? E difícil
julgar a partir das nossas exigências que são, forçosamente,
anacrônicas. Mas é certo que, apesar dos seus defeitos, a car­
tografia ptolomaica dá a um público alargado o exemplo de
uma cobertura espacial à escala do país. E verdade que tam­
bém deixa atrás de si um tributo de hábitos gráficos, de
deformações e de erros que irão desaparecendo lentamente.
E preciso, por fim, comparar todo este material erudito com
os dados da experiência, com as distâncias, por exemplo, que
apresentam os documentos práticos e os itinerários.
O mapa da França emerge lentamente destas tradições
heterogêneas no fim do século XV e início do século XVI.
Não sem que haja hesitações e contradições: Bernardo Silvano,
autor em 1511 de uma das primeiras e mais satisfatórias re­
presentações da Gália, e que parece ter confrontado sistemá­
ticamente as fontes disponíveis, corrige de forma muito sensível
o traçado do litoral atlântico tanto em relação aos mapas por-
tulanos italianos como em relação à tradição ptolomaica. Este
esforço crítico resoluto e conseguido não o impede todavia
de continuar a mencionar, nas costas rectificadas da Aquitâ-
nia, uma lista de acidentes que a sua própria representação
gráfica desmente mas que figuram no texto de Ptolomeu!48
O primeiro mapa moderno da França, a Charte gallicane
cuja primeira edição, perdida, remonta provavelmente a
152549, tem sido frequentemente atribuído ao matemático
Oronce Finé. Não é propriamente inovador em relação aos

48 N. Broc, «Quelle est la plus ancienne carte...», art. cit., p. 529.


49 L. Gallois, «Les origines de la carte de France. La carte d'Oronce
Finé», Bulletin de geographie historique et descriptive, 1981, pp. 13-24;
Broc, art. cit.
CAPÍTULO IV 143

seus predecessores. A partir de uma rede de coordenadas aproxi­


madas, retoma, muitas vezes com os seus defeitos, os traça­
dos anteriores: o litoral atlântico permanece fantasioso (é,
em todo o caso, bastante menos fiel que em Silvano), a orien­
tação dos Pirenéus é incerta. E principalmente o preenchi­
mento do mapa que introduz elementos novos: é abundante,
apesar de ser desigual de província para província; muito
rico para a Ile de France, a Guyenne, o vale do Ródano ou o
Dauphiné, é-o muito menos para o Oeste, Bretanha, Nor-
mandia, Poitou. Finé foi provavelmente tributário de um
material cartográfico regional e de uma documentação li-
vresca que não cobriam uniformemente o conjunto do ter­
ritório. Compósita quanto às suas fontes, a Charte gallicane
aparece menos como uma criação original do que como uma
tentativa de síntese de dados difíceis de relacionar entre si.
E um facto que o seu próprio autor a apresenta como uma
realização provisória, afirmando ter querido «preparar a via
para que alguém a amplie e a corrija».
De facto, talvez não devamos procurar, nas realizações
técnicas, a originalidade do trabalho de Oronce Finé. Não
oferece a primeira imagem da Gália, longe disso, mas talvez
a primeira imagem da França. Apresentado numa vinheta
em francês, o mapa justapõe toponímia latina e toponímia
vulgar. Retoma sem dúvida a nomenclatura dos Comentários
de César e representa a Céltica, a Bélgica, a Aquitânia e a
Narbonesa; sem dúvida representa também para além da
Transalpina — que, corresponde grosseiramente ao reino —
a Cisalpina até ao Arno e «ao rio dito Rubicão». Mas essas
reminiscências clássicas não têm como único nem mesmo como
primeiro motivo, a preocupação de se inscreverem numa tra­
dição letrada revivificada pelo humanismo: vêm inscrever-se
muito oportunamente no espaço (e legitimar na história) as
pretensões dos reis de França sobre a Itália do Norte que
duravam há meio século. Leitor real no Collège de France, pres­
tigiosa criação da monarquia na ordem do saber, Finé pre­
tende realizar o seu mapa «para satisfazer os pedidos de al­
gumas boas personagens». Não há dúvida que a sua iniciativa
é guiada por uma preocupação política que passa a atribuir
à representação cartográfica um papel decisivo. De grandes
144 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

dimensões (0,95 X 0,68 m), a Charte gallicane foi feita para


ser mostrada, para dar a ver o reino tanto na sua realidade
territorial como nas suas ambições. E preciso notar todavia
que no caso francês, esta transformação dos hábitos mentais
intervém tardiamente — em relação à Inglaterra e à Escócia
por exemplo (onde os mapas de Mathieu Paris remontam ao
século XIII) ou ainda à Itália. Este notável atraso é difícil
de interpretar. Explica-se provavelmente pelo facto de a Fran­
ça, potência continental, ter permanecido relativamente afas­
tada das grandes experiências cartográficas medievais. Re­
mete talvez também para as próprias dimensões do reino,
gigante à escala da Europa, bem como para a sua complexi­
dade política e administrativa e, sobretudo, para a sua con-
tinentalidade. Para ultrapassar estes obstáculos, foi necessário,
que se estabelecesse o domínio do soberano sobre o território50.

Ao serviço do poder

A iniciativa cartográfica é indissociável da afirmação do


poder monárquico. A representação do território é primeiro
que tudo um assunto do rei. Entre Francisco I e Carlos IX,
multiplicam-se os índices de uma procura de informação acer­
ca do reino de que o mapa passa a fazer parte51. Em 1565,
Louis le Boulenger publica um Project et calcul faict par le
commandement du Roy, de la grandeur, longueur et largeur de son
Royaume, pays, terres et seigneuries, que pode ter sido resultado
de uma iniciativa mais antiga. Os resultados são aí desi­
gualmente assegurados, mas é evidente que há uma ordem
soberana na origem desta medição da França. N a mesma al­
tura, Nicolas de Nicolay, viajante, diplomata, engenheiro e
«geógrafo do R ei», recebe, segundo escreve, «o cargo e a
missão [...] de reduzir e pôr em ordem os mapas e descri­

50 Acerca da desmesura do espaço francês entre os séculos XV e


XVIII, ver as reflexões de F. Braudel, Civilisation matérielle, économique
et capitalisme, t. 3, Le Temps du Monde, Paris, A. Colin, 1979, p. 269 ss.
51 J . Boutier, A. Dewerpe, D. Nordman, Un tour de France royal.
op. cit., pp. 41-57.
CAPÍTULO IV 145

ções geográficas que farei da cada uma das províncias deste


reino»; em cada caso, «uma descrição em forma de história
tanto geral como particular» completará o inquérito, reu­
nindo em torno do mapa todos os dados disponíveis acerca
da topografia, limites, circunscrições administrativas e di­
reitos do soberano. Deste grande projecto de «visitação» sai­
rão apenas os três volumes das Descriptions générales do Berry
(1567), do Bourbonnais (1569), do Lyonnais e do Beaujolais
(1573). Resta ainda dizer que mesmo inacabada, a iniciativa
torna manifesto que neste período conturbado — que é tam­
bém o da volta à França de Carlos IX e de Catarina de Mé-
dicis — , o mapa se tinha tornado o substituto e o meio
privilegiado de uma vontade política. Nicolay di-lo clara­
mente: «Sabe Vossa Majestade muito melhor o grande bem
e utilidade que pode resultar tanto para o príncipe, quanto
para os súbditos, da curiosa pesquisa e diligência de que usa
na visita das localidades, cuja fortuna depende apenas (de­
pois de Deus) da Vossa providente administração. De forma
que Deus vos {...] forneceu para este efeito um meio para
não perder a lembrança e verdadeira representação da dispo­
sição e estado da Vossa França, da qual sois há muito tempo
e por direito, chefe legítimo e soberano, moderador e Rei.
E a geografia, para exercício da qual, tanto no geral como no
particular neste Vosso Reino, V. M. se dignou designar-me.»
Sem se deslocar, o rei passará a poder, a partir do seu gabi­
nete, «sem grande dificuldade, ver com os olhos e tocar com
os dedos» a extensão e a diversidade do seu território52.
O mapa, investido de uma dupla função simbólica e prática,
tornou-se uma das imagens do poder. Constituem-se, a par­
tir dele, fundos que o soberano ou os seus ministros têm o
privilégio de consultar: Henrique III, e depois Sully virão
assim visitar as peças reunidas por Nicolay e pelo seu genro
e sucessor, A. de Lavai, antes de terem sido organizadas as
colecções reais e, depois de 1668, as do Depósito da Guerra.
Nem todos estes soberanos e seus ministros tiveram pelos

52 R. Hervé, «L'oeuvre cartographique de Nicolas de Nicolay et d'An-


toine de Lavai (1544-1619)», Actes du 80' Congrès national des sociétés
savantes, section de Géographie (Lille, 1955), Paris, 1956, pp. 223-263.
146 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

mapas a mesma predilecção que Henrique IV, de quem se


afirma que «os amava com paixão». Nenhum, pelo contrário,
pôde ignorá-los. Ou melhor, a representação do reino passa
a identificar-se com a expressão de uma vontade política,
até se tornar um instrumento de propaganda. E ao mesmo
Henrique IV que o impressor Bouguereau de Touraine ofe­
rece o seu Théâtre Françoys em 1594. A obra é um atlas, que
recupera um certo número de mapas existentes completados
por outros inéditos. Não é, por isso, completamente origi­
nal. Mas o seu interesse é outro: num momento decisivo, ao
sair de um tempo de perturbações políticas e religiosas,
manifesta a restauração plena do poder soberano e exprime a
fidelidade da França e das províncias ao novo rei53. O geógrafo
está perto da Coroa e compete-lhe exaltar a sua glória.
A função do mapa não é apenas de natureza simbólica.
Bouguereau sugere algumas das suas utilizações práticas possí­
veis, que concorrem para uma melhor apreensão do reino:
são precisos mapas «pelo prazer de ver as particularidades e
coisas notáveis das províncias, para utilização dos homens
marciais, para os departamentos das acomodações do pessoal
das ordenanças, para os cobradores e tesoureiros, que podem
adequar os seus conhecimentos das paróquias, das jornadas e
da conduta das províncias estabelecidas à receita das finan­
ças, e também para servir como orientação a todos os súbditos,
para o comércio exercido no reino». Gestão administrativa,
gestão fiscal, gestão econômica: nos últimos anos do século
XVI a representaçãográfica do espaço ainda não substituiu
as técnicas antigas, a lista, o itinerário, cujo duradoiro suces­
so, atesta, nas suas múltiplas reedições, La Guide des chemins
de Trance de Charles Estienne (1552); mas este oferece já um
novo suporte, visual, às ambições da monarquia.
Impõe-se muito cedo e muito logicamente num domínio
particular: o da guerra54. Desde as guerras de Itália que Car­

53 F. de Dainville, «Le premier atlas de France. Le Théâtre Françoys


de M. Bouguereau, 1594», Actes du 80' Congrès national des sociétés sa-
vantes (Chambéry-Annecy, 1960), Paris, 1969, pp- 3-50.
54 R. Siestrunck, «La carte militaire», in Cartes et figures de la Terre,
Catálogo da exposição apresentada no Centro Georges Pompidou, Pa­
ris, 1980, pp. 363-374.
CAPÍTULO IV 147

los VIII tinha mandado efectuar mapas das passagens alpi­


nas e, entre os reinados de Francisco I e Henrique II, passou
a ser habitual pedir auxílio a especialistas italianos. Mas é à
acção de Sully, superintendente das fortificações, grande mestre
da artilharia e encarregado geral da conservação das estra­
das, que devemos a inflexão decisiva e o início de uma reali­
zação sistemática da cartografia militar confiada aos enge­
nheiros do rei, cujo número e importância nunca mais deixa­
rão de aumentar55. As suas tarefas são muito variadas. Si-
tuam-se muitas vezes à escala reduzida de uma cidade e suas
fortificações, de que é preciso fazer a planta ou de um sec-
tor cujas possibilidades logísticas e tácticas necessitam ser
inventariadas. Mas compete-lhe também fazer o reconheci­
mento de vastas zonas fronteiriças onde é necessário fixar os
direitos do rei depois do tratado de Vervins (1598). Jean de
Beins no Dauphiné, Claude de Chastillon em Champagne,
Jean Martelier na Picardia obtêm assim coberturas quase sis­
temáticas das fronteiras do Norte e do Leste, enquanto Sully
manda levantar o traçado das costas da Normandia e da Bre­
tanha a partir de 1604. E o início de um enorme esforço
que continuarão Richelieu, depois os ministros do Rei Sol e,
depois deles, os últimos Bourbons em função das vicissitu-
des da guerra. Devemos-lhes, por exemplo, o atlas de Chris-
tophe Tassin, Les cartes générales de toutes les provinces de France
(1634), que consagra uma série de mapas da costa e dos
confins do reino e que dá a conhecer amplamente os traba­
lhos dos engenheiros militares. A cartografia serve para fa­
zer a guerra, e será assim até aos grandes mapas do Estado-
-Maior do século X IX . Serve também para continuar a guerra
por outros meios mostrando, para além das suas utilizações
militares, a extensão do reino. Mostra também as amplia­
ções do reino, e reencontramos aqui a função de propaganda
porque «é frequentemente curta a distância entre a ilustra­
ção, a apologia e os traçados exigidos pela conduta da guer­

55 São quatro em 1597, seis em 1611, cerca de meia centena nos


anos 1630. Cf. D. Buisseret, «Les Ingénieurs du roi au temps de Hen-
ri IV», Bulletin de la section de Géographie (cartographie et géographie his-
torique), 1965, pp. 13-84.
148 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

ra»56. É no reino de Luís XIV que esta ponderada combina­


ção de gêneros encontra a sua realização mais gloriosa.
O atlas das Aquisitions de la France par la paix de Pierre
Duval, actualizado em 1660, 1669 e 1679, apresenta para
um público alargado, as anexações territoriais efectuadas pelo
rei. N a mesma época, Sébastien de Beaulieu assegura, de
batalha em batalha, a cobertura cartográfica do teatro da
guerra. Os seus levantamentos, reunidos depois da sua morte
na antologia das Glorieuses conquêtes de Louis-le-Grand (1698),
tal como as primeiras plantas em relevo suas contemporâ­
neas, têm uma dupla missão: pedagógica, no sentido em que
permitem àqueles que nela não participam directamente e,
antes de mais, à Corte, seguir visualmente, como no terre­
no, os episódios mais importantes dos campos; e também
política, pois que a glória do rei é o verdadeiro objecto des­
tas representações bélicas. Mas seria vão distinguir neste lugar
aquilo que compete à produção — intensa, maciça — de
conhecimentos objectivos, utilizáveis, acerca do terreno e o
que é do domínio da ideologia triunfal, da mesma forma
que não convém opor a cartografia militar e a cartografia
civil. O saber e a glória são como o verso e o reverso de
uma mesma afirmação monárquica, que não receia mobilizar
a ordem do mundo e organizá-la ao seu serviço. Luís XIV
deu-o a entender quando «deu ordem à Academia para fazer
um mapa da França; parece que desejava que a sua verdadei­
ra posição no Globo da Terra fosse mais exactamente conhe­
cida no tempo em que era mais célebre do que nunca, quer
pela guerra que tinha sustentado contra toda a Europa, quer
pela paz que acabava de ordenar»57.
Deste modo, o laço entre o mapa e o poder real que lhe
capitaliza as virtudes é precoce e forte. É ao pedido do sobe­
rano e frequentemente junto dele que, durante o Antigo
Regime, se constitui todo um círculo encarregado do inventário

56 R. Siestrunck, «La carte militaire», art. cit., p. 368.


57 Histoire de 1'Académie Royale des Sciences, t. I, p. 198, citado por
F. de Dainville, La géographie des Humanistes, Paris, Beauchesne, 1940,
p. 479. Cf. também L. Marin, Le portrait du roí, Paris, Ed. de Minuit,
1981, pp. 209-220.
CAPÍTULO IV 149

e da representação do território: engenheiros cujo número e


tarefas continuarão a aumentar, mas também geógrafos do
rei cujo título, distribuído de forma bastante alargada, se
faz eco do dos historiadores reais. A aprendizagem do mapa
passa a fazer parte integrante da formação do príncipe e dos
grandes. Nicolas Sanson transmite assim o seu saber a Ri-
chelieu, a Luís XIII, aos Condé, antes que Nicolas de Fer se
torne «geógrafo dos príncipes reais»58. A cartografia é um
verdadeiro assunto de Estado e o príncipe continua a sê-lo
até aos nossos dias. Rodeia-se muitas vezes, dos aparelhos
do segredo, como é o caso na mesma época, das primeiras
iniciativas estatísticas. Será necessário por isso concluir daí,
com E. Weber, que permaneceu inacessível durante muito
tempo àqueles que não participavam directamente no gover­
no do reino? Não estamos disso inteiramente convencidos.

0 amor ao mapa

Este material científico foi objecto de uma divulgação


vulgarizada desde muito cedo cuja importância, a partir do
século XVII, foi demonstrada por Mireille Pastoureau. Esta
divulgação explica-se em primeiro lugar por um amor ao
mapa que, na boa sociedade, assume as características de uma
moda sensível em toda a Europa, testemunhada, por exem­
plo, pela pintura de Vermeer. E suportada ainda pelo desen­
volvimento de um gênero editorial, o atlas, que se destina a
públicos alargados e que visa utilizações diversas, mas que
se inscreve cada vez mais num quadro nacional. O Théâtre
Françoys de Maurice Bouguereau fornecera o primeiro exem­
plo, como se sabe, nos últimos anos do século XVI. Foi con­
tinuado e completado pelo Théâtre géographique du Royaume
de France de Le Clerc, que assegura uma cobertura bem me­
lhor do território e conhece nada menos que sete edições
entre 1619 e 1632; ainda em 1632 Melchior Tavernier pro­
põe, utilizando o mesmo título, uma recolha de sessenta e

58 M. Pastoureau, «Les atlas imprimés en France avant 1700», lma­


go Mundi, 32, 1980, pp. 45-72.
150 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

dois mapas que será reeditada em 1634 e 1637. Trata-se


apenas das primeiras realizações de uma série ilustrada pelo
atlas de Christophe Tassin, sobretudo os de Nicolas e depois
de Guillaume Sanson, antes que os grandes editores do rei­
no de Luís XIV, Alexis-Hubert Jaillot, Nicolas de Fer ou
Jean Baptiste Nolin assegurem a esta produção cartográfica
uma circulação alargada que transbordará até ao século XVIII.
O papel determinante é aqui o dos editores, que antecipam
o favor do rei e a procura do público; justapõem, nas suas
antologias, mapas mais ou menos recentes e as novidades
que encomendam a especialistas como os Sanson. As suas
ambições são desiguais, bem como as suas realizações.
Alguns destes atlas são o resultado de investimentos dis­
pendiosos e os volumes, grandes, vendidos aos coleccionado-
res por preços elevados. Outros respondem, em contraparti­
da, às expectativas de um público médio, tais como as pe­
queninas obras in-12\ verdadeiros livros de bolso, que Pierre
Duval produz pensando nos militares, nos estudantes e, mais
amplamente, nos contemporâneos a quem informam acerca
do estado da França e do mundo. Além disso, os mapas que
recolhem são frequentemente vendidos avulsos pelos livrei­
ros e negociantes de estampas. Escapam-nos os preços e o
mercado, durante os séculos XVII e XVIII, de todo este mate­
rial, que se contenta frequentemente em retomar ou adaptar
mapas mais antigos e muitas vezes ultrapassados. A m ulti­
plicação das iniciativas concorrentes e o número de edições,
acrescido ainda pelas contrafacções estrangeiras, deixam pelo
menos supor que correspondiam a uma procura crescente.
E possível, por vezes, localizá-la. E o caso das práticas
escolares que se socorrem cada vez mais do mapa. F. de Dain-
ville mostrou como o ensino da geografia, tradicionalmente
associado ao comentário dos textos antigos e sagrados, se foi
emancipando pouco a pouco no decorrer do século XVII para
«explorar melhor o mundo moderno». A cartografia entra
assim na cultura escolar como um dos elementos de uma for­
mação honnête. O padre Fabri oferece-nos um testemunho
precoce em 1669: «Aconteceu-me ver crianças bem nasci­
das, que encontrando por acaso um mapa de Itália, de Ale­
manha, de França ou de Espanha, os descreviam prontamente
CAPÍTULO IV 151

nas suas divisões com a régua fazendo as vezes de ponteiro,


ou seja, indicando as fronteiras com a ponta da régua, de­
pois indicar região a região as cidades principais ou fortifi­
cadas, os rios, os montes, os lagos, as minas e toda a nomen­
clatura59.» Ora, é significativo que, ao mesmo tempo, os
manuais dêem à representação da França um lugar cada vez
maior, por vezes mesmo proeminente. A elite alargada do
reino aprende assim, desde os anos do colégio, a conhecer o
seu país, país real e país sonhado, desde as fronteiras «natu­
rais» da antiga Gália até às novas conquistas do seu rei. Aos
militares é também destinado todo um grupo de produções,
tal como aos marinheiros Le peit flambeau de la mer de Bou-
gard (1684), que apresenta uma cartografia sumária da costa
e dos portos da fachada atlântica da Europa. E talvez com a
obra de Nicolas Sanson (1600-1667) que melhor se manifes­
ta a pluralidade dos usos do mapa de tal modo quanto soube
oferecer «ao público produtos que correspondiam exactamente
aos seus gostos» (M. Pastoureau). Tinha escolhido muito cedo
ser um geógrafo de gabinete e responder à dupla procura
dos editores e dos compradores cultos. Diversificou os gêne­
ros: cartografia histórica, mas também cartografia adminis­
trativa em escalas muito diferentes: do mundo, da Europa,
da França ou das suas províncias. Os seus mapas «polivalen-
tes» dirigiam-se resolutamente a um público plural seguro
de aí encontrar o que procurava. Ofereciam simultaneamente
dados gerais e, comodamente valorizada por processos gráficos
simples, a informação particular de que necessitava uma uti­
lização especializada — em particular as divisões adminis­
trativas e religiosas do reino — provida de recapitulações
que eram outras tantas organizações. Entre a cultura geral e
as utilizações práticas, o atlas atesta, durante muito tempo,
a generalização do instrumento cartográfico. Até o próprio
Sanson, recém-chegado à fama, decide consagrar à França o
essencial do trabalho dos seus últimos anos60.

59 Citado por F. de Dainville, La géographie des humanistes, op. cit.,


p. 205; L ’éducation des jésuites, Paris, Ed. de Minuit, 1978.
60 M. Pastoureau, Les Sanson: un sikle de cartographie française (1630-
-1730), tese dactilog., Paris, 1981, 3 vols.
152 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

0 mapa unificado

Desiguais do ponto de vista da qualidade, os atlas pro­


põem, no entanto, uma imagem aproximada e deslumbrante
do reino. Se abrirmos uma vez mais o Théâtre Françoys de
Bouguereau encontraremos quatro mapas de França de ori­
gens diversas e mais ou menos recentes, e, sobretudo, ca­
torze «mapas particulares das províncias», dos quais três são
originais e os outros tomados de empréstimo aos cartógrafos
flamengos ou franceses. O conjunto assegura uma cobertura
muito parcial do território. De uma imagem para a outra, o
pormenor e, o que é mais grave, a escala variam considera­
velmente. Os sucessores de Bouguereau preencherão a pouco
e pouco os espaços em branco, mas a sua produção perma­
nece fundamentalmente compósita e as peças continuam a
ajustar-se dificilmente entre si. E através da cartografia re­
gional, militar ou civil, que o conhecimento do território
progride, mas as próprias condições em que é elaborada im­
pedem frequentemente que o mapa geral da França benefi­
cie das suas aquisições.
É a Colbert que se deve o projecto de uma cartografia
sistemática do reino que constituiría uma realização autônoma
e coordenada. Um tal projecto é objecto de uma dupla insti­
tucionalização, política e científica. Política porque o mapa
é cada vez mais um assunto de Estado. Científica porque a
concepção e realização do mapa são confiadas em 1668 à
Academia das Ciências, de que aquele ministro foi fundador
e protector. De facto, os dois registos confundem-se, pois o
governo do reino, tal como o bem público, já não se podem
contentar com uma apreensão global do território. Reque­
rem uma medição exacta: «Tanto quanto é necessário a um
soberano conhecer bem o país que está sob seu domínio, é
também útil aos seus súbditos saber bem a posição dos lo­
cais onde os interesses do seu comércio podem conduzi-los.»
Pesadamente institucionalizada, a operação é simultaneamente
centralizada, ao contrário de todas aquelas que a tinham pre­
cedido. Dispõe de um instrumento preciso: a triangulação
geodésica por cálculo trigonométrico a partir de uma base
calculada — aperfeiçoada pelo holandês Snellius no início
CAPÍTULO IV 153

do século XVII: daí o papel central desempenhado no pro­


jecto pelo Observatório de Paris sob a direcção de Jean-Do-
minique Cassini, iniciador de uma longa e ilustre dinastia.
Apesar de poder socorrer-se de toda uma série de apoios e
colaborações, bem como dum financiamento público, a ini­
ciativa é desmesurada para a época. Vai portanto estender-se
no tempo. Há trabalhos preliminares que asseguram um pri­
meiro arranque. O reconhecimento da costa, começado em
1679, dá alguns anos depois à silhueta da França o seu as­
pecto definitivo que encontramos gravado desde 1693 no
Neptune françoys. Em contrapartida, será necessário muito mais
tempo para levar a bom termo a medição do meridiano de
Paris, inaugurada em 1670 e acabada, de Dunquerque a Per-
pignan, em 1718, pelo segundo Cassini. A partir de então,
todos os elementos estão teoricamente reunidos para uma
triangulação geral da França que, apesar do impulso decisi­
vo do controlador geral Orry, só estará terminada em 1744
— três quartos de século depois de ter sido lançado o pro­
jecto por Colbert. Uma rede de três mil pontos marcados por
coordenadas precisas cobre agora a totalidade do território.
Mas falta construir o mapa a partir desta «descrição geo­
métrica». Uma primeira realização em 18 folhas acopláveis
foi terminada pelos Cassini em 1744. E suficientemente con­
seguida para que Luís X V ordene uma segunda cobertura
adaptada às necessidades da guerra. A partir de 1750, come­
ça então a imensa realização do grande mapa de Cassini em
180 folhas61. Será longa, difícil, e permanece inacabada no
final do Antigo Regime. A sua estatura explica, em parte, a
lentidão da realização, mas também a incerteza do seu esta­
tuto. Para a levar a bom termo César-François Cassini de
Thury (dito Cassini III) pôde apoiar-se na iniciativa real bem
como numa subvenção notável do Controle Geral. Irá re­
correr também a recursos privados: funda uma companhia
por acções que beneficia quer do entusiasmo da Corte, quer

61 B.-H. Vayssière, «La Carte de France», Cartes et figures de la


terre, op. cit. pp. 252-265; J.-W . Konvitz, «The National Map Survey
in 18th Century France», Government Publications Review, 10, 1983,
pp. 395-403.
154 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

daquele, mais duradoiro, do mundo culto; sofrerá assim os


efeitos das suas flutuações. Apesar de querer o mapa, a mo­
narquia não está disposta a assumir todos os seus encargos e
será necessário, com efeito, esperar por 1793 para que a Con­
venção, pressionada por imperativos militares, decida «na­
cionalizar», a expensas dos Cassini, o projecto cartográfico.
Mas este deve também enfrentar as reticências das institui­
ções de província que deveríam apoiá-lo e associar-se-lhe.
Ora, não contentes com contrariá-lo, um certo número de
entre elas opõe-lhe realizações concorrentes. Os Estados da
Borgonha e do Languedoc encomendam mapas específicos
enquanto Belleyme começa a trabalhar, a pedido do inten­
dente da Guyenne; a situação é semelhante na Provença, em
Artois, na Bretanha.
Estas dificuldades mostram, de várias maneiras, que se
o mapa nacional era tecnicamente possível, não se conseguiu
impor completamente antes da Revolução. A resistência ofe­
recida por certas províncias é, evidentemente, o primeiro
indício deste estado de coisas, e ilustra uma tomada de cons­
ciência tardia provocada pela resistência a tudo o que pare­
cesse ser uma expressão da centralização absolutista. Esta
não é apenas ideológica, mas traduz uma expectativa e ne­
cessidades práticas que não encontram satisfação no material
proposto pelos Cassini. Da mesma forma, os limites do apoio
consentido pelo Estado talvez não se expliquem apenas pela
crise financeira que mina os últimos anos do Antigo Re­
gime: pois, se o domínio cartográfico une de forma indisso­
lúvel vontade científica e afirmação política, o problema da
utilidade real dos seus resultados é colocado muito cedo. Os
seus defeitos foram reconhecidos. O mapa de Cassini res­
ponde a uma exigência geométrica, é muito imperfeito do
ponto de vista topográfico. Constrangidos pela necessidade,
guiados pela formação técnica e com alguma altivez, os enge­
nheiros escolheram deixar a «expressão do terreno» à res­
ponsabilidade das iniciativas locais. O preenchimento é as­
sim irregular e frequentemente insuficiente. O relevo é dado
de forma demasiado aproximada para que a sua utilização
para fins militares seja evidente. O pormenor das vias per­
manece muito incompleto e apresenta inaceitáveis soluções
CAPÍTULO IV 155

de continuidade e o dos maciços florestais é aleatório. Os


responsáveis descuraram a topografia da França que conside­
ravam «sujeita a demasiadas variações»; trabalharam para rea­
lizar um edifício geral feito para durar. Os seus sucessores,
durante a Revolução e o Império, dedicar-se-ão a completar
e principalmente a melhorar a informação fornecida pelo mapa
antes que o início de um projecto inteiramente novo acabe
por se impor. Parada desde 1808, a realização da nova co­
bertura do território em 1/80 000, conhecida pelo nome de
Mapa do Estado-Maior, começará efectivamente em 1818;
os levantamentos só serão terminados em 1866 e a publica­
ção em 1880.
Coloca-se também o problema de saber o que é possível
representar à escala nacional. Bernard Lepetit mostrou-o cla­
ramente num estudo sobre as representações da rede de es­
tradas francesas entre os séculos XVIII e X IX 62. E certo que
existia, desde os protótipos de Tavernier e Sanson (1632) e
dos Jaillot (1689), uma tradição de cartografia das estradas
postais que foi lentamente aperfeiçoada mas que oferece ape­
nas uma abordagem muito parcial do sistema de comunica­
ções. A política de estradas inaugurada pelo controlador ge­
ral Orry em 1738 que será levada a cabo pelos engenheiros
de Pontes e Calçadas está na origem de uma importante pro­
dução de plantas levantadas por iniciativa de Trudaine e Per-
ronet: situam-se à escala local e traduzem uma concepção
«celular» do espaço, que continua a justapor uma multipli­
cidade de territórios reduzidos e definidos pelas pretensões
concorrentes de cidades «que não imaginam as relações de
complementaridade entre elas». A existência de uma rede
de estradas continua a ser, assim, impensável, não por falta

62 B. Lepetit, Chemins de terre et voies d’eau. Réseau de transports et


organisation de /'espace en France, 1740-1840, Paris, Editions de l'Ecole
des Hautes Etudes en Sciences Sociales, 1984; Id., «L'impensable ré­
seau: les routes françaises avant les chemins de fer», in G. Dupuy, ed.,
Réseaux, Caen, Paradigme, 1988, pp. 21-32. Ver também G. Arbellot,
«Le réseau des routes de poste, object des premières cartes thémati-
ques de la France moderne», Actes du 104' Congrès national des sociétés
savantes, (Bordeaux, 1979), Section d'histoire moderne et contempo-
raine, t. 1, 1980, pp. 97-115.
156 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

de dados, mas porque os usos e as representações, em con­


junto, se lhe opõem. O primeiro mapa de estradas mais ou
menos completo é o de V. Dubrena em 1814, mas oferece
apenas um inventário frio não hierarquizado. Preenche uma
forma conhecida sem procurar produzir uma leitura nova.
Não é apenas a complexidade das estruturas administrativas
do Antigo Regime o que está aqui em causa, mas sim a
dificuldade de pensar a organização e as diferenças do espa­
ço francês visto como um todo.
Esta dificuldade remete para problemas de escala. O mapa
nacional favorece, significativamente, quando existe, a re­
presentação dos equipamentos institucionais e das divisões
administrativas e mostra uma França homogênea, contínua.
Constatamos assim, sem grande surpresa, que desde 1790,
Capitaine utiliza as folhas de Cassini (reduzidas a um quar­
to) para representar a nova divisão do reino em departamen­
tos, bairros e cantões, tal como fazia, na mesma época Du-
mez no Atlas National de France publicado directamente em
folhas departamentais. Mas quando se trata de cartografar
outros tipos de fenômenos, mais complexos, mais diversifi­
cados, mais móveis, como as realidades econômicas, de­
mográficas ou culturais, há espaços restritos que parecem
continuar a ser, durante muito tempo, mais pertinentes e
mais operatórios, como acabamos de ver. Pode-se explicar
desta forma, para além de uma real desconfiança, a reacção
da província ao mapa de Cassini, pouco capaz de responder
aos interesses e preocupações das elites locais.
Assim se compreende também o relativo atraso do mapa
temático a nível nacional. É atestado apenas episodicamente
na segunda metade do século XVIII, quando a estatística
monárquica se encontra em condições de fornecer os dados
necessários. Um documento anônimo e não datado apresen­
ta, de forma bastante pobre, os recursos da France com-
merçante\ um outro, que ficou manuscrito, representa os
preços da medida de trigo nos principais mercados em Feve­
reiro de 1768; um pouco mais tarde, um mapa mais ambi­
cioso — também anônimo, manuscrito e, para além disso
inacabado — propõe, com um grande luxo de símbolos, uma
França econômica (mas encontramos aí também uma infor­
CAPÍTULO IV 157

mação adm inistrativa, algum as indicações sobre «locais


notáveis», ao passo que as estradas não estão indicadas). Pou­
ca coisa no total, apesar de evidenciar um interesse novo.
O projecto de tratar um só tipo de informação à escala do
território demora a impor-se. Faz-se principalmente a partir
de 1800. Se o Atlas preparado para Napoleão pelo duque de
Feltre em 1812 trata, em cinquenta e seis mapas, da popu­
lação, da economia e das finanças, dos cultos e dos museus,
dos equipamentos militares, fá-lo ainda de um ponto de vis­
ta que permanece essencialmente institucional e administra­
tivo. Mais significativas são, sem dúvida, as tentativas de
Coquebert de Montbret, chefe do Gabinete de Estatística do
Ministério do Interior, que toma a iniciativa de cartografar
nesses mesmos anos, realidades originais: as práticas lin­
guísticas, ou ainda as produções agrícolas. Fundando-se nas
séries reunidas pela sua administração em 1808-1809, mas
também tirando partido da sua colaboração com Omalius
d’Halloy, apresenta à Academia das Ciências, em 1821, um
mapa «mineralógico agrícola» do reino que visa representar
distribuições maciças da produção63. Há um limite inte­
lectual que implica uma outra relação com o território e sua
representação, que é ultrapassado então. Alguns anos mais
tarde, os detentores da estatística moral, que já evocámos,
farão do mapa temático sistematicamente utilizado o meio
privilegiado de uma interrogação acerca da homogeneidade
e das evoluções da sociedade contemporânea. Ao construir
uma França da antropologia física, do analfabetismo, do crime,
da riqueza, irão sugerir vertiginosos jogos de espaço. O mapa
torna-se com eles um incomparável instrumento heurístico.
É bom para pensar. Mas este momento excepcional não iria
durar muito. E para os números e para os quadros que irão,

63 J . Konvitz, op. cit., cap. 6; M. Focin, «A Manuscript Economic


Map of France», Imago Mundi, X IX , 1965, pp. 51-55; Espace français.
Vision et aménagement, XVI’-X IX ’ siècle, catálogo da exposição organiza­
da pela Direcção dos Arquivos de França (Setembro de 1987-Janeiro
de 1988), 1987, documento n° 141 (Arquivos nacionais, N N 40/15);
F. de Dainville e J . Tulard, Atlas administratif de 1’Empire français dtapres
l'atlas rédigé par ordre du Duc de Feltre en 1812, Genève-Paris, Droz,
1973, 2 vols.
158 CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO

sem hesitar, as preferências do século X IX . A forma assim


dominada, investida de potenciais simbólicos, tende a redu­
zir-se à evidência, ou seja a um quadro neutro. E valorizada
mas, porque já não serve para colocar problemas, é, paradoxal­
mente, indiferente. Permanecê-lo-á durante muito tempo.
CAPÍTULO V

Do Antigo Regime ao Império: a identidade regional,


inevitável e impensável

Datar da Revolução Francesa um retrocesso e uma re­


flexão acerca da história do Estado perante as culturas re­
gionais e comunitárias constitui uma opção que não é, cer­
tamente, nem casual nem neutra. Tudo, na nossa maneira
de pensar e nas nossas tradições acadêmicas, nos convida a
datar do momento do nascimento de um novo regime — e
da história contemporânea da nação — o início de um longo
e obstinado processo de centralização e de uniformização cul­
tural (ao mesmo tempo que administrativa, econômica ou
política). O termo jacobino qualifica comodamente esta evo­
lução multiforme mas aparentemente unívoca e a palavra fun­
ciona, simultaneamente, como explicação e desculpa para tudo1.
Creio que, apesar de ter sido utilizado durante muito tempo
e de forma bastante vaga, o recurso permanente a um jaco-
binismo intemporal — autoperpetuado desde a Convenção à
Quinta República e que seria a chave universal da nossa história
cultural — acabou por esconder mais do que ilustrar muitas
coisas. Ora, talvez se devam procurar neste facto as próprias
razões do êxito dessa referência tornada improvável.
Em França, as duas últimas décadas foram marcadas por
uma forte recrudescência da sensibilidade regionalista. Como
era de prever, conheceram também novos apelos à história
tentando encontrar aí os percursos que teriam conduzido às

1 Encontramos uma análise muito útil desta palavra e do seu em­


prego em M. Ozouf, «'Jacobin’: fortune et infortunes d’un mot», Le
Débat, 13 de Junho de 1981, pp. 28-39- Acrescentar-lhe-emos, sobre o
mesmo assunto, as reflexões de M. Agulhon, «Plaidoyer pour les jaco-
bins. La gaúche, l’État et la région dans la tradition historique fran-
çaise», ibid., pp. 55-65.
160 /I IDENTIDADE REGIONAL

configurações actuais. Exploraram-se de maneira útil as for­


mas e as expressões das identidades regionais através das trans­
formações de uma série de pontos-chave: as tradições etno­
gráficas e as produções letradas, as relações entre a língua
nacional e as línguas regionais, dialectos e patois. Os com­
portamentos religiosos, políticos ou sociais foram assim tra­
zidos a lume por historiadores, profissionais ou não, que to­
maram em mãos a tarefa de reconstruir e reabilitar o passa­
do plural de uma França perdida. Esta redescoberta, sabe­
mo-lo, não é inédita na nossa história. Adquiriu neste mo­
mento, contudo, traços particulares. Tratarei aqui apenas de
um: sem nunca perdoar à Revolução e ao Império o pecado
jacobino, a historiografia mais recente teve tendência, de uma
maneira geral, para inscrever a centralização e a uniformiza­
ção culturais numa cronologia mais longa, começando muito
antes. Não sugeria Tocqueville, tardiamente revisitado du­
rante estes mesmos anos, que se lesse na Revolução a reali­
zação das promessas da monarquia absoluta e a antecipação
de muitos séculos da marginalização e, depois, do apaga-
mento das culturas regionais?
Devemos a este ressurgimento do interesse pelos motivos
regionalistas uma literatura abundante e desigual, uma recolha
importante de novos dados, e correcções substanciais das in­
terpretações recebidas. Trá-las-emos amplamente a lume aqui.
Contudo, apesar de algumas excepções, chama-nos a atenção
a constatação seguinte: na grande maioria destes trabalhos,
o modelo explicativo que coloca face a face o Estado, esse
«monstro frio», e as regiões, essas entidades desprotegidas e
dóceis votadas ao sacrifício, nunca é verdadeiramente posto
em causa. Entendamo-nos: o paradoxo que seria querer ne­
gar a existência de tendências para a centralização inscritas
na muito longa duração da nossa história nacional seria vão
e ridículo. Mas deveremos, por esse facto, aceitar que o Es­
tado e as regiões sejam invocadas como realidades intocáveis
cuja relação antagônica se pode detectar imutavelmente du­
rante, dois, três ou quatro séculos da história da França?
As reflexões que se seguem destinam-se a repensar tais
convicções generalizadas. Não têm de forma nenhuma a pre­
tensão de propor, em poucas páginas, uma interpretação nova,
CAPÍTULO V 161

e menos ainda uma contra-interpretação. Pretendem simples­


mente inscrever-se numa perspectiva um pouco diferente
daquela que tem sido maioritariamente aceite até agora. Todos
julgamos saber o que é o Estado e (talvez um pouco pior) o
que são as regiões. Estamos também convencidos de que temos
uma ideia clara das relações que estas entidades mantêm hoje
em dia entre si. É a partir desta percepção contemporânea
que tendemos, instintivamente, a reler e a interpretar a nossa
história. Ao fazê-lo corremos, segundo me parece, um duplo
perigo: o de aceitar definições de tipo essencialista das no­
ções que manejamos habitualmente (Estado, região...); o de,
por outro lado, projectar num processo histórico estendido
no tempo uma interpretação que é, afinal, o resultado, pa­
tente aos nossos olhos e provisório, da história de que que­
remos dar conta. A esta tentação de anacronismo pode opor-
-se uma iniciativa, de resultados sem dúvida mais modestos
e menos imediatamente satisfatórios. Em vez de interpretar
as atitudes e as políticas antigas do «Estado» perante as «cul­
turas regionais e comunitárias» em função dos nossos próprios
parâmetros, começaremos por perguntar-nos qual terá sido a
pertinência dessas noções para os contemporâneos. Antes das
opções políticas, podemos assim tentar reconstruir os siste­
mas de representação que as informaram e autorizaram e in­
terrogar-nos acerca da pertinência e da utilização das noções
que aqui nos ocupam2.
Ora, acontece que o período que inclui os últimos cin­
quenta anos do Antigo Regime, da Revolução e do Império
constitui, para além das rupturas ou das inflexões políticas,
um momento de reflexão teórica e de experimentação prática
de uma intensidade excepcional, acerca da diversidade do
espaço francês. Como tornar esta diversidade «pensável»? Ou
seja: como podemos dar conta dela? Como explicá-la? E, por
fim, que fazer com ela?

2 Cf. As sensatas observações de Ch. Charle, «Région et conscience


régionale en France. Questions à propos d’un colloque», Actes de la
recherche en Sciences sociales, n° 35, 1980, pp. 37-43- Trata-se de uma
reflexão acerca das Actas do Colóquio de 1974 sobre Régions et régiona-
lisme en France du XVIII' siecle à nos jours, Paris, 1978.
162 A IDENTIDADE REGIONAL

Partamos, pois, da situação das últimas décadas da mo­


narquia absoluta, uma vez que é durante estes anos que o
problema se constrói conceptualmente e se definem, ao mes­
mo tempo, as suas implicações. Num a primeira abordagem,
impõem-se duas constatações contraditórias.
O reino é um mosaico de particularidades imperfeitamen­
te reunidas e aglutinadas. O antigo domínio real foi alarga­
do progressivamente através de um certo número de comu­
nidades territoriais que lhe foram sendo acrescentadas em
épocas diversas e segundo modalidades muito variadas, por
laços de tipo contratual. A afirmação da sua identidade é
perpetuada pela existência, mais ou menos viva, de regras
de Direito específicas (os costumes) e de instituições próprias
(em particular os Estados provinciais) que representam, pe­
rante o rei, a comunidade das províncias. Observemos, con­
tudo, que esta relação contratual não é apanágio dos conjun­
tos regionais; funda os privilégios que as cidades, os domínios
senhoriais ou as simples comunidades de habitantes reivin­
dicam no seio de uma sociedade de corpos. Esta heteroge-
neidade dos estatutos constitui regra geral até ao final do
Antigo Regime e surge comentada na forma clássica de Mi-
rabeau que vê na França um «agregado inconstituído por
povos desunidos». Esta multiplicidade de direitos é ainda
aumentada e complicada por uma pluralidade de facto: a data,
mais ou menos antiga, de integração no reino, a distância
relativa dos centros de governo e de controle (e principal­
mente da corte), a vizinhança eventual de pólos de atracção
concorrentes além-fronteiras, os usos linguísticos diferencia­
dos são outros tantos factores que vêm reforçar a miscelânea
regional. Esta primeira constatação alimentou, nos últimos
dois séculos, as nostalgias de uma historiografia conserva­
dora que via na antiga monarquia a forma política mais ca­
paz de respeitar e de fortalecer as identidades particulares
das comunidades orgânicas que são a base das organizações
sociais.
Mas esta imagem tem o seu reverso, que apresenta tra­
ços completamente opostos. Porque a monarquia francesa
também é, desde o final da Idade Média pelo menos e, prin­
cipalmente, depois do século XVII, o agente — e o benefi­
CAPÍTULO V 163

ciário — principal, de um poderoso movimento de centrali­


zação e de nivelamento sobre o qual alicerçou essencialmente
o seu poder. Torna-se desnecessário recordar aqui o porme­
nor bem conhecido de uma evolução cumulativa que, do édi­
to de Villers-Cotterêts (1539) à instituição dos intendentes,
de Colbert a Maupeou, se dedicou a impor aos diferentes
componentes do reino um conjunto de regras comuns.
Ambas as constatações são verdadeiras. Cada historiador
terá tendência, claro está, para insistir principalmente num
dos aspectos em função dos seus próprios investimentos ou
das necessidades das suas demonstrações. Mas parece-me
importante ter aqui em conta as duas pontas da cadeia e não
sacrificar uma perspectiva à outra. A França dos finais do
século XVIII é, ao mesmo tempo, um aglomerado relativa­
mente heteróclito e um Estado fortemente consciente da sua
unidade, sobre o qual se exerciam, desde há muito, fortes
aspirações à uniformização. E precisamente desta tensão en­
tre dois registos de representação (e de práticas) contraditórios,
que nasce uma reflexão multiforme sobre as diferenciações
do espaço nacional.
Todavia, não é evidente que esta reflexão passe pela to­
mada de consciência de uma pertinência particular do qua­
dro regional. N a esteira de G. Dupont-Ferrier, A. Soboul
observava, há pouco tempo, que não existia nenhum termo
adequado para designar a realidade regional no léxico do
século XVIII, mas antes uma constelação de palavras (província,
região, língua, nação, país) cobrindo, cada uma, através das
suas diversas utilizações, uma parte daquilo que a noção evo­
ca hoje para nós. Aquando dos debates de Outubro de 1789
na Constituinte, um deputado da nobreza, M. de Tracy, pede
que se defina «aquilo que se entende pela palavra province
antes de tratar da nova divisão administrativa»3.
A lacuna, pelo menos parcial, que as palavras assinalam,

3 G. Dupont-Ferrier, «De quelques synonymes du terme ‘prov‘nce


dans le langage administratif de 1’ancienne France», Revue historique,
1929, pp. 241 e 278. A. Soboul, «De l’Ancien Régime à la Révolu-
tion. Problème regional et réalités sociales», in Régions et régionalisme
ett France du XVIII' siècle à nos jours, Paris, 1978, pp. 25-54.
164 A IDENTIDADE REGIONAL

volta a encontrar-se ao nível das práticas. Existe na monar­


quia absoluta uma tradição de descrição do reino relativa­
mente antiga. Pode ser o resultado quer da preocupação de
uma administração central que se deseja melhor informada e
mais eficaz, quer das necessidades da educação do príncipe,
como no caso do célebre inquérito preparado pelos inten­
dentes «para a instrução do duque de Borgonha» dos últimos
anos do século XVII. As monografias que daí resultam são
de qualidade muito desigual. Mas chama-nos a atenção, glo­
balmente, quando as lemos, o pouco interesse que estes tex­
tos testemunham pela descrição e análise de particularida­
des «regionais» ou «provinciais», apesar de estarem incum­
bidos de apresentar ao delfim a diversidade dos seus povos.
Com efeito, as particularidades parecem existir apenas na
ordem jurídica e fiscal dos privilégios. Quanto ao resto, a
descrição das pertinências regionais parece dissolver-se numa
caracterologia repetitiva que, de uma província para outra,
opõe permanentemente os «laboriosos» aos «indolentes», os
«dóceis» aos «rudes» e aos «indisciplinados»4.
O inquérito tem como objectivo dar a conhecer ao príncipe
«o natural dos habitantes das suas diferentes províncias, os
seus principais usos e costumes», mas revela-se incapaz de
pensar a especificidade e de dar conta dela de uma forma
articulada. É certo que tudo opõe a província à corte e à
cidade; mas a própria província é sempre apreendida através
do pormenor indefinido e fugitivo de características locais
que podemos evocar e não organizar no seio de um modelo
explicativo.
Voltamos a encontrar um problema de acomodação se­
melhante no olhar dirigido sobre o espaço francês por um
certo número de observadores da segunda metade do século
XVIII que se preocupam, também eles, em avaliar e empre­
gar melhor os recursos do reino. O caso de dois grupos —
de duas escolas, poder-se-ia dizer — bem analisado por Ro-

4 F. de Dainville, «Les Français vus par leurs intendants», Etudes,


Abril-Junho de 1954, pp. 59-74. Encontramos uma reflexão interessan­
te em M.N. Bourguet, Déchiffrer la France: la statistique départementah
à 1’époque napoléonienne, tese de «terceiro ciclo», Paris I, 1983, capítulo 1.
CAPÍTULO V 165

ger Chartier, é esclarecedor5. Os fisiocratas dedicam-se a re­


ferir as distribuições espaciais a categorias econômicas: por­
que a sua «apreensão do espaço não deve nada à história
nem ao pitoresco»; funda-se completamente numa oposição
central entre áreas de grande cultura e áreas de pequena
cultura, que permite repartir a França entre uma elite mi­
noritária da produção e uma maioria de assalariados. Esta
distribuição hierárquica resulta de uma constatação; pode ser
compreendida em termos de análise econômica; nunca re­
mete para a evolução particular de uma comunidade territo­
rial cujas características seriam explicadas através das for­
mas que assume. Os aritméticos políticos estão, por sua vez,
pouco seguros dos critérios que lhes permitirão classificar as
realidades demográficas que estudam na mesma altura. Mas
estão de acordo, pelo menos, em reconhecer a existência de
uma espécie de rede nacional que, de norte a sul, oporia
uma França urbana, densa, produtiva e consumidora de bens,
a uma França rural, mal povoada e economicamente atrasa­
da. Este contraste maioritário — que a nível do pormenor
das situações locais se exprime, de facto, através de toda
uma série de gradações — também não atribui nenhuma per­
tinência particular à realidade regional. Ultrapassa as fron­
teiras do reino, para partilhar mais amplamente o espaço
europeu de que a França representa, nos seus limites específicos,
um surpreendente resumo. Tudo se passa como se os obser­
vadores só fossem capazes de pensar o espaço nacional em
termos de macrodivisões, frequentemente abstractas e glo­
balmente indiferentes à existência de comunidades territo­
riais, mesmo antigas e fortemente enraizadas.
Ao lado dos observadores que podem apenas reflectir so­
bre grandes conjuntos, existem outros, na mesma altura, cujo
olhar parece sofrer do defeito oposto e se mostra incapaz de
se libertar do pormenor das situações locais. São médicos,
funcionários administrativos de nível modesto, geógrafos,
viajantes, por vezes simples curiosos mais ou menos erudi­
tos, pequenas autoridades. Devemos-lhe, no essencial, esta

5 R. Chartier, «Les deux France. Histoire d’une géographie», Ca-


hiers d’H istoire, 1978, 4, pp. 393-415.
166 A IDENTIDADE REGIONAL

redescoberta da França profunda que marca as últimas déca­


das do Antigo Regime. Para eles, em produções aliás, muito
diversas, a descrição e a análise dissolvem-se no infinitamente
pequeno, como se a redução da escala fosse, em última análise,
uma garantia da sinceridade e da veracidade da observação.
Eis o caso, por exemplo, dos médicos correspondentes da Société
royale de médecine que, do fundo da província, enviam a
Paris a informação que recolheram no terreno; mostram-se
intransigentes em relação à excepcionalidade do seu território
no próprio momento em que se associam a um amplo inqué­
rito nacional. É que estão convencidos, tal como os outros
observadores locais, de que cada cantão é uma mónada, um
átomo indissecável da realidade natural e social, o produto
de uma combinação única comandada por um meio\ um solo,
um clima, uma vegetação e um regime de águas — em suma,
toda uma ecologia que determina soberanamente as formas
particulares das organizações sociais. É a organização destes
diferentes factores que define a especificidade do lugar, mas
remete mais fundamentalmente para aquilo que então se
denomina uma «história natural» — e não para uma história
ou para uma sociologia. O geógrafo Darluc exprime-o bem
nos últimos anos do Antigo Regime: «A história natural de
uma província que tivesse apenas como objectivo a simples
enumeração dos seus fósseis, a descrição das suas monta­
nhas, do seu clima e das suas produções, serviría, apenas,
para satisfazer a curiosidade. Pelo contrário aquela que li­
gasse todas estas partes diferentes entre si e tratasse de reti­
rar daí conclusões relativas à espécie humana, e as trouxesse,
tanto quanto possível, à utilidade pública [...] seria muito
mais preciosa6.»
Olhar míope, olhar presbíope: um e outro falham sime­
tricamente quanto à existência da região enquanto realidade
histórica, social e cultural. Se quisermos encontrá-la nas preo­
cupações do Antigo Regime em decadência, é principalmente
junto das elites sociais e culturais que é preciso procurá-la,

6 Darluc, Histoire Naturelle de la Provence, 1782, p. VII, citado por


N. Broc, La géograpbie des philosophes. Géographes et voyageurs français au
XVIII' siècle, Lille III, 1972, p. 579-
CAPÍTULO V 167

em particular no seio das academias de província onde se


conserva ainda o orgulho da história e das obras locais7. São,
poderiamos dizer, por vocação, as conservadoras de uma cul­
tura que institui, ao mesmo tempo, a sua eminência e a sua
singularidade. Mas, para além do facto de estarem distri­
buídas, de maneira muito desigual, no interior do reino, o
seu papel é, por definição, ambíguo. Antes de se poder in­
teressar pela língua, pelos monumentos e pela história local,
esta província esclarecida começou por querer ser reconheci­
da. E só poderia sê-lo à custa de uma submissão prévia às
regras culturais ditadas pela capital (que se impuseram tan­
to mais facilmente quanto encontraram nas elites da província
defensores interessados). A cultura restaurada pelos cuida­
dos das autoridades é, portanto, amplamente, uma recons­
trução que deveria poder satisfazer simultaneamente as exi­
gências do gosto e dos interesses parisienses e uma necessi­
dade de identidade local. Ela vem legitimar a posição inter­
média de um grupo restrito que procura um duplo reconhe­
cimento. A moda do «provençalismo», que se impôs no fi­
nal do século XVIII, pode assumir aspectos de um patriotis­
mo local e nostálgico, exprime-se em termos que se desti­
nam a ser recebidos em toda a parte e, evidentemente, tem
muito pouco a ver com as práticas quotidianas da maioria8.
Ora estas autoridades têm a sua importância. São elas
quem, desde o Antigo Regime até ao Império, vão ser os
guardiães naturais das iniciativas do poder central em rela­
ção às províncias. Ou seja, têm uma dupla tarefa: no terre­
no, têm que se comportar como agentes, informadores e exe-
cutantes de uma política nacional; mas, colocados em con­
tacto com realidades e resistências da província, o seu dis­
curso e as suas práticas raramente coincidem com aquilo que
Paris espera deles, sem que a sua fidelidade ou o seu patrio­

7 D. Roche, Le siècle des Lumières en province, Paris, 1978, principal­


mente t. I, pp. 368-385.
8 F. X. Emmanuelli, «De la conscience politique à la naissance du
‘provençalisme’ dans la généralité d’Aix à la fin du XVIII' siècle», in
Régions et régionalisme en France du XVIII' siècle à ms jours, Paris, 1978,
pp. 117-138.
168 /I IDENTIDADE REGIONAL

tismo devam ser, por isso, postos em causa. Devemos ter


presente que quando se fala do «Estado» face às culturas
regionais, existem vários registos de percepção e de inter­
venção que convém distinguir.
A monarquia do Antigo Regime é uma forma política e
jurídica tolerante — até certo ponto — quanto às particula­
ridades; não é no entanto capaz de conferir um estatuto, e
menos ainda uma legitimidade, às expressões, e singularmente
às expressões culturais, das identidades regionais. É a partir
dessa época que se verifica essa «dificuldade particular que
tem a França em assumir as suas diferenças regionais» refe­
rida, muito justamente, por Mona OzouP. Ao analisar o exem­
plo de uma província, destinada a um belo futuro em maté­
ria de particularidades e de consciência da sua especifici­
dade, C. Bertho concluiu, da mesma forma que, «antes do
final do século XVIII, não encontramos nada daquilo que
alimentará depois as representações colectivas contemporâ­
neas: nem grupos de autores coerentes, nem apoio literário
especializado, nem o mesmo gênero de eleição. A Bretanha
não é um assunto em si e por s i» 910 — e o estereótipo bretão
ainda não tinha nascido.
Uma tal constatação não significa de forma nenhuma que
os observadores sejam necessariamente indiferentes às caracte­
rísticas particulares das culturas regionais. Interessam-se por
elas, pelo contrário, com uma singular preferência, a partir
dos anos 1770-1780, inaugurando assim um tipo de preo­
cupação destinada a durar eternamente — em modalidades
muito variáveis. Mas durante os últimos tempos do Antigo
Regime, da Revolução e do Império, a abordagem que pre­
domina entre eles é uma iniciativa de tipo antropológico,
que opta por observar e recolher os vestígios das culturas

9 M. Ozouf, «La Révolution française et la perception de l’espace


national: fédérations, fédéralisme et stéréotypes régionaux», retomados
em LEcole de la France. Essais sur la Révolution, 1’utopie et 1 enseignement,
Paris, 1984, pp. 27-54. Este artigo é fundamental para o estudo do
assunto que aqui nos interessa.
10 C. Bertho, «L invention de la Bretagne. Genèse sociale d’un stéréo-
type», A ctes de la recberche en Sciences so c iale s , n° 35, 1980, pp. 45-62.
CAPÍTULO V 169

locais não para pensá-las na sua especificidade, mas para as


integrar no quadro de conjunto da humanidade. Entre o ob­
servador e o objecto de observação — tradicionalmente evo­
cado em termos de exclusão ou, pelo menos, de exteriori-
dade — entre «nós» e «eles», passa a ser colocada, à parti­
da, uma forte consciência de identidade que passa pela afir­
mação explícita de uma unidade fundamental das formas par­
ticulares das sociedades humanas. Pensamos, é claro, nos
grandes teóricos do século, em Rousseau (mas também em
Buffon). Convém igualmente estar atento à massa das tenta­
tivas frequentemente modestas e improvisadas destinadas a
reconstruir a genealogia social e cultural dos homens; a to­
dos esses esforços para reconstituir a imagem de conjunto
que restituiria às suas produções e à sua história a coerência
esquecida. Porque cada destroço de uma cultura perdida, cada
curiosidade local, passa a ser percepcionado como o índice
de um estádio mais antigo e o testemunho de um passado
que é urgente restituir. O arcaísmo mudou de signo: já não
é a marca infamante de um passado morto, mas o vestígio
precioso de um encadeamento cuja compreensão é necessária
à inteligência do presente11.
O que resiste à assimilação e à uniformização culturais
passa a ser o principal objecto da atenção e do estudo. Até
aí, um viajante culto conhecia as províncias, as cidades, os
monumentos, os testemunhos de uma «grande história» já
constituída. A partir de então, passa a seguir um percurso
completamente diferente. E por volta de 1770-1780 que,
segundo Michel Vovelle, a curiosidade dos visitantes da Pro-
vença se alarga e estes começam a explorar de forma mais
sistemática os seus recantos escondidos. Orientam os seus
passos para locais onde não subsiste nenhum monumento
explícito, nenhuma história anterior: os desvios, os fins-do-
-mundo, as montanhas. Este exotismo do interior é simulta­
neamente um regresso às origens e uma exploração do so­
cial. Alguns anos mais tarde, nos bons tempos da Ideologia,
De Gérando dará desta iniciativa uma espécie de justifka- 1

1 Cf. Capítulo III.


170 A IDENTIDADE REGIONAL

ção teórica perfeitamente explícita: «O viajante filósofo que


navega em direcção aos confins da Terra, atravessa a sequên­
cia das idades; viaja no passado; cada passo que dá é um
século que atravessa. Essas ilhas desconhecidas que aborda
são para ele o berço da sociedade humana.» Estas «ilhas des­
conhecidas» são também, para os inventores da etnografia
da França, os confins das províncias.
Assim, todos estes desvios, todas as distâncias, se equi­
valem e são como as peças espalhadas de um imenso quebra-
cabeças disperso. Uma tal representação não convida, evi­
dentemente, na sua vontade universalista, a conceder espe­
cial importância ao quadro regional enquanto tal. Este é apenas
encarado como o aspecto localizado de um sistema geral.
Vemos assim até que ponto o projecto antropológico, en­
raizado no Iluminismo, está profundamente associado a um
projecto político. Isto torna-se patente, evidentemente, com
a Revolução e a construção voluntarista da nação francesa,
mas está já presente nas últimas décadas do século XVIII.
Boa parte dessa literatura que descobre, inventaria, estuda e
classifica as peças da cultura local deve-se, como já foi dito,
a administradores, médicos, geógrafos, economistas, inquiri­
dores isolados ou associados a iniciativas mais vastas. Os seus
textos, em comparação com a antiga literatura da descrição
administrativa — incomparavelmente mais numerosos e mais
ricos — são inovadores pela sua vontade explícita de inter­
venção social e de eficácia prática. A maior parte deles põe
em evidência uma questão central: até que ponto um me­
lhor conhecimento do terreno que estudam pode autorizar
uma melhor gestão da sociedade? Como atenuar os caminhos
abertos pelas Luzes e pela inovação?
Mas a vontade de inovação choca muito frequentemente
com as resistências da tradição: das queixas repetidas da li­
teratura fisiocrata acerca da inércia dos hábitos campesinos,
aos inquéritos de François de Neufchâteau acerca do «espírito
público» das províncias no tempo do Directório, passando
pelas inquietações do abade Grégoire quanto à penetração
real das convicções e dos valores revolucionários nos campos
— os gestores das Luzes, parisienses e provincianos, desco­
brem, incessantemente, o obstáculo dos comportamentos e
CAPÍTULO V 171

das mentalidades. Não são certamente os primeiros a ver na


França local o próprio símbolo da opacidade social e da inér­
cia cultural isto é, o mundo que resiste, por excelência, às
suas salutares iniciativas. Mas já não se limitam simples­
mente a esta constatação. Como já foi dito, estão muito mais
preocupados que os seus antecessores com a eficácia prática.
Neles, a racionalização administrativa tem que ser acompa­
nhada de uma pedagogia destinada à França profunda.
O que pressupõe também que se saiba assinalar e explicar
aquilo que, nas províncias, determina a recusa obstinada do
progresso benfazejo; que em lugar de ter em consideração os
hábitos como testemunhos incertos de uma inferioridade fun­
damental, se procure compreender a sua coerência para me­
lhor os erradicar. Referimo-nos àquilo que se constitui como
um sistema: ou seja, o que, nas representações comuns a
estes pioneiros da etnografia regional, permite associar, no
seio de um mesmo quadro explicativo das determinantes
geográficas, formas de implantação humana, regras de socia­
bilidade, uma fisiologia particular, traços psicológicos cons­
tantes, todas as características enfim, cuja interacção deve­
ria, em última análise, permitir dar conta do atraso dos espíritos
e do bloqueio social e político. O questionário que redige
Grégoire, em 1790, dedicado aos seus correspondentes da
província, para que reúnam informações que lhe permitam
legislar acerca da universalização do francês e da redução
das línguas regionais, é perfeitamente representativo desta
nova abordagem12.
A Revolução vem acrescentar uma urgência mais especi­
ficamente política a esta forma de abordar os problemas, am­
plamente difundida antes de 1789- Esse povo que, como se
constata um pouco por toda a parte, adere ao novo curso dos
acontecimentos, é também o actor proclamado da regenera­
ção nacional. J á não basta situá-lo algures na escala das ida­
des da humanidade uma vez que passou a identificar-se com
o seu futuro. No preciso momento em que a sua integração
na nova ordem política e social coloca os maiores problemas

12 M. de Certeau, D. Julia, J . Revel, Une politique de la langue. La


Révolution et les patois, Paris, 1975.
172 A IDENTIDADE REGIONAL

aos responsáveis políticos parisienses ou regionais, torna-se


objecto da maior valorização ideológica. E tanto mais impor­
tante e tanto mais urgente compreendê-lo quanto é através des­
ta compreensão que passa necessariamente a sua incorpora­
ção no projecto político colectivo. Cultural, político: é evidente
que a distinção entre os dois registos é aqui abusiva, uma
vez que os dois motivos se interpenetram permanentemente.
Creio que poderia ser útil recordar a existência deste fun­
do comum de representações que, para além das grandes ruptu­
ras políticas da época, me parecem orientar as análises e as
opções daqueles que, dos finais do Antigo Regime até à Re­
volução e ao Império, se dedicaram a reflectir sobre o desti­
no das realidades regionais e tomaram decisões sobre elas.
Ora estas representações eram confrontadas com situações de
facto extremamente diversas. Entre os grupos regionais mais
fortemente particularizados (como a Alsácia, o Rossilhão ou,
em menor grau, o Franco Condado), e os restos remanescen­
tes de velhas unidades políticas conscientes do seu passado
mas profundamente alteradas durante os séculos anteriores
no quadro administrativo e político do reino (tal como a
Gasconha), para não evocar essas formas vazias mas sempre
reivindicadas apesar de frequentemente assimiladas desde longa
data, muitos eram os factores de diversidade. A existência
de uma comunidade linguística reconhecida, a reivindicação
de privilégios perdidos, a resistência às iniciativas centrali­
zadoras da monarquia, a atracção de forças centrífugas, a
reunião das elites locais, tinham um peso decisivo na toma­
da de consciência e na expressão de interesses comuns ou
até mesmo de uma identidade a defender13. Ora eram exacta-
mente estas diferenças de estatuto e de identidade intelec­
tual que os observadores das Luzes, obcecados como estavam
por uma antropologia da generalidade, estavam menos pre­
parados para compreender.

13 C. Bertho, art. cit.; A. Soboul, art. cit. e, principalmente, na


mesma antologia, as contribuições de L. Trénard (Países Baixos france­
ses), M. Gresset (Franco Condado), A. Marcet (Rossilhão), F. X. Em-
manuelli (Provença) e M. Bordes (Gasconha), Regions et régionalisme en
France du XVIIF siecle à nos jours, Paris, 1978, pp. 25-154.
CAPÍTULO V 173

A monarquia tinha-se acomodado a esta diversidade do


espaço francês desde que deixara de pôr entraves ao processo
de centralização que iniciara na longa duração. Muito pelo
contrário, a Revolução acha inaceitável, desde o início, este
compromisso contraditório definido empiricamente. Dedica-
-se à construção da Nação, que passa, aos olhos dos homens
de 1789, por uma nova distribuição de poderes e pela insti­
tuição de uma espécie de transparência fundamental nas re­
lações entre os homens. Este é o significado da noite de
4 de Agosto. Sem que o facto nos cause surpresa, um dos ar­
tigos que daí resultaram afirma: «Sendo uma constituição
nacional e a liberdade pública mais vantajosas para a província
que os privilégios de que gozam alguns, cujo sacrifício é
necessário à íntima unidade de todas as partes do império,
declara-se que todos os privilégios particulares das províncias,
principados, países, cantões, cidades e comunidades de habi­
tantes, sejam eles pecuniários, ou de qualquer outra nature­
za, são abolidos sem remissão e permanecerão confundidos
no direito natural de todos os Franceses» (decretos dos dias
5-11 Agosto de 1789). Afirmando assim a prioridade abso­
luta da unidade nacional e atribuindo a si própria os meios
legais de a realizar, a Revolução cria, de certa maneira, o
problema regional ou, por outras palavras, trá-lo à luz do
dia e faz dele, potencialmente, um obstáculo impossível de
contornar. Convém todavia notar que neste texto a «província»
não está constituída como um objecto excepcional: é apenas
um dos exemplos da irregularidade essencial que manchou
até então as relações das diversas partes com o todo e figura
entre outros corpos e comunidades regulamentados, regidos
pelo privilégio, ou que pretendem sê-lo. Não é, portanto, a
particularidade provincial enquanto tal que é visada no tex­
to de 1789, mas sim uma das modalidades da antiga ordem;
não é a identidade de uma comunidade territorial, mas a
pretensão de uma parte a impor a sua lei ao conjunto.
A perspectiva não é aqui a de uma centralização que quisesse
negar à partida as diferenças e as personalidades. E sim, a
de uma uniformização jurídica que deveria ser a base de no­
vas relações sociais. Aliás vê-lo-emos muito cedo: longe de
ser afastada, a interrogação acerca da realidade, acerca da
174 A IDENTIDADE REGIONAL

pertinência do facto regional, torna-se, nas semanas que se


seguem, obsessiva, com a reflexão conduzida sobre a nova
divisão administrativa do reino.
Recordemos que o projecto de uma revisão das divisões
administrativas francesas é muito anterior à Revolução14.
Durante a segunda metade do século XVIII, as reflexões e
as propostas, vindas tanto de Paris (Turgot, d’Argenson), como
de responsáveis de província, multiplicaram-se, apresentan­
do um certo número de preocupações comuns: garantir me­
lhores condições de eficácia à administração central mas tam­
bém uma maior regularidade e cuidado na gestão local; ra­
cionalizar, igualizar, uniformizar, mas também dar a cada
parte do reino as mesmas oportunidades e os mesmos meios.
A partir de 1789, Condorcet proclama no seu Essai sur la
Constitution et les fonctions des assemblées provinciales: «Achámos
que esta Constituição deveria ser uniforme para todas as
províncias, porque nos foi impossível imaginar um motivo
real para estabelecer diferenças entre elas.» Mas especifica
imediatamente: «D e futuro deveremos procurar eliminar a
desigualdade demasiadamente grande das províncias ou dos
distritos, a sua forma demasiadamente irregular ou demasia­
damente alongada, os seus encavalgamentos recíprocos, pro­
curando contudo, à partida, conciliar estas mudanças com as conve­
niências locais relativas aos costumes, a certos usos regionais
e à forma dos impostos, até ao momento em que a uniformi­
dade puder ser restabelecida.» Texto notável na sua própria
contradição, uma vez que mostra, tal como o novo debate
acerca da departamentalização que começa no Outono de 1789,
que os mesmos argumentos podem ser invocados segundo
duas lógicas diferentes: a que conduz à centralização e a que
acaba na descentralização. Remodelar o espaço nacional, fa­
zer de uma nova divisão a base de uma gestão e de uma
representação mais equilibrada do território e dos homens

14 Sobre estes problemas dispomos hoje em dia do excelente estudo


de Marie-Vic Ozouf, L a représentation du territoire français à la fin du
XVIII' siècle d’après les travaux sur la formation des départements, tese de
«terceiro ciclo», EHESS, 1983, 3 vols., que utilizo nas linhas que se
seguem .
CAPÍTULO V 175

não implica, de forma nenhuma, nesse momento, que se te­


nha optado por negar o respeito das várias particularidades,
significa, antes, que se quer associar melhor as caracterís­
ticas específicas de cada província ao grande destino colecti-
vo da nação.
E ainda esta preocupação que inspira, no essencial, o pro­
jecto de divisão apresentado por Sieyès e Thouret na Consti­
tuinte, no Outono de 1789- Os autores propõem aí uma rede
geométrica abstracta que delimitaria, no espaço nacional, 80
departamentos de tamanho idêntico e regular num quadrado
de 18 milhas de lado, subdividido cada um em nove distritos.
O voluntarismo geométrico que a proposição inspira, mostra
bem que se tratou prioritariamente, para os seus promoto­
res, de uma tentativa de afastamento do imbricado das cir-
cunscrições tradicionais substituindo-o por uma organização
simples, uniforme e legível. Sieyès chama «unidade social»
ao principal objectivo da reforma que propõe. Mas no Outono
de 1789, o processo revolucionário desencadeia-se e as resis­
tências ao novo curso dos acontecimentos começam já a fazer-
-se sentir no interior do país. Por parte de Sieyès e Thouret
insinua-se um novo comentário que, para além da racionali­
zação necessária, põe em causa a própria existência das per­
sonalidades das províncias. «Se deixamos passar esta ocasião»,
avisa o primeiro, «perdê-la-emos para sempre e as províncias
continuarão a manter, eternamente, o seu espírito de corpo, os
seus privilégios, as suas pretensões, as suas invejas.» E, o
segundo, termina o relatório de 3 de Novembro anunciando
o dia em que «todos os Franceses [...] abjurarão todos os
privilégios do espírito de corporação particular e local».
Será, contudo no debate parlamentar que se irá seguir e,
mais ainda, nos arquivos de trabalho do Comitê de Consti-
tution, que a reflexão sobre uma melhor distribuição do es­
paço nacional se transformará pouco a pouco em discussão
acerca da natureza e da pertinência das particularidades re­
gionais. Os argumentos da polêmica sãò bem conhecidos, e
serão imperturbavelmente retomados pela historiografia re­
gionalista militante: o recorte provincial adequa-se à natu­
reza (por oposição ao carácter artificial das construções ar­
bitrárias); exprime solidariedades intocáveis, insubstituíveis
176 /l IDENTIDADE REGIONAL

que constituem a própria trama da existência social (Mira-


beau: «[...] cortar-se-iam todos os laços que ligam, há tanto
tempo, os comportamentos, os hábitos, os costumes, as pro­
duções e a linguagem»). Estes argumentos gerais são na maio­
ria dos casos, como demonstrou M.-V. Ozouf, cômodas pla­
taformas de entendimento para esconder a multiplicidade dos
interesses locais que levam estas autoridades urbanas, inter-
locutoras habituais do Comitê, a intervir. O problema de
uma reorganização do espaço coloca-se também porque os
adeptos e os adversários da reforma passaram a partilhar uma
forte convicção de que «a organização territorial é responsável
pela integridade ou pela desintegração política» do reino15.
A iniciativa departamental pode perfeitamente ser encarada
por alguns como sinceramente descentralizadora (uma vez
que permitirá fazer participar os cidadãos, mais e melhor,
na vida administrativa e política) ou como rigorosamente
centralizadora; pode mesmo ser objecto desta dupla inter­
pretação contraditória no interior de um mesmo texto16. Res­
ta acrescentar que são os próprios termos do debate e as
condições políticas em que se coloca no primeiro ano da Re­
volução, que fazem surgir o problema da identidade das
províncias como problema político — como um obstáculo
— ao projecto de uniformização e de igualização do espaço
francês que alguns continuam a querer levar a cabo enquan­
to outros começam a medir as suas consequências a nível
local. O resultado da divisão é, como se sabe, híbrido. Asso­
cia a vontade proclamada de inovação e simplificação à reu­
tilização muito ampla das antigas divisões. Mas o equilíbrio
aproximativo que traduz revela, ao mesmo tempo, um certo
estado das forças em presença e uma tomada de consciência,
nova, de identidades locais que procuram reconhecimento.
Nesta tomada de consciência, a intervenção e a expressão
de realidades e de interesses locais desempenharam um pa­
pel determinante apesar de aparecerem sempre justificadas

15 Id., ibid., t. 1, p. 123.


16 Encontramos a mesma ambiguidade no movimento das federa­
ções do ano de 1790. Cf. M. Ozouf, «La Révolution et la perception...»,
citado, pp. 37-39-
CAPÍTULO V 177

por razões gerais. Encontramo-las, sob variadas formas, a partir


do momento em que a revolução parisiense se dedica a asso­
ciar melhor a França da província ao seu grande objectivo.
Na prática, os defensores obrigatórios das grandes iniciati­
vas nacionais —- administradores, autoridades, eruditos, mi­
litantes — irão sempre recordando que o país resiste aos
projectos e tentativas da capital. Vejamos um outro exem­
plo. Em Agosto de 1790, o abade Grégoire envia por toda a
França «uma série de questões relativas aos patois e aos
costumes das gentes do campo». O objectivo deste inquérito
é claro: visa medir a importância e a natureza das resistên­
cias ao francês, língua cívica, política e jurídica do novo
regime e, também, tomar as medidas necessárias à unidade
linguística da nação com base no diagnóstico por ele possi­
bilitado. Apesar de ter sido redigido num momento em que
ainda se traduziam as actas da Assembléia, o questionário
de Grégoire coloca-se na perspectiva de um desaparecimen­
to dos patois'1. Na sua própria formulação, associa a pro­
dução das línguas regionais a uma ecologia e a determina­
dos sistemas de uso, a um meio e a «costumes». Mas aquilo
que o iniciador do inquérito apenas esboça, encontra, junto
dos seus correspondentes locais, um eco sem dúvida inespe­
rado. Não que houvesse razões para suspeitar do zelo destes
últimos ou da sua adesão à Revolução: mas ao reflectir no
local acerca da importância do patois, acabam por desco­
brir que está indissociavelmente ligado à inefável especifici­
dade do local: «Para o destruir seria necessário destruir o
sol, a frescura das noites, o tipo de alimentos, a qualidade
das águas, o homem, enfim.» Os mesmos informadores que,
segundo se pressupunha, tornariam legível a opacidade das
províncias, acabaram por constituí-la como um obstáculo inul-
trapassável. Quando o inquérito chega a bom porto — ou
seja, à relação que dele retira Grégoire perante a Conven­
ção, em 16 de Prairial do ano II, os tempos tinham muda­
do, a urgência política já não deixava espaço para fantasias
deste tipo e a conclusão teve que ser simplesmente: que se17

17 Recordemos no entanto que entre 1790 e 1792 foi levada a cabo


uma vasta obra de tradução dos decretos e das leis.
178 A IDENTIDADE REGIONAL

tratará de um Relatório da necessidade e dos meios de eliminar os


«patois» e de universalizar o uso da língua francesa. A Revolu­
ção tornara-se jacobina e as línguas regionais tinham passa­
do a ser suspeitas de suscitar «o federalismo e a supersti­
ção» (Barère)18. Mas será ao nível destas proclamações gerais
que as coisas se passam de facto? Não só a sentença de morte
dos patois pronunciada por Grégoire não é seguida, de
facto, por nenhuma medida coerciva, como os trabalhos que
a precederam e sobre os quais pretendia apoiar-se inventa­
ram, de certa maneira, uma cultura — ou, mais precisamente,
deram um estatuto cultural a um conjunto de práticas até aí
sem importância.
Estes exemplos não são casos isolados. Segundo me pa­
rece, sugerem a necessidade de uma certa prudência na in­
terpretação da política revolucionária à luz das identidades
regionais. Há, é certo, inflexões principais, visíveis: a de 1789-
-1790 que visa fundar a coerência e a transparência da nação;
uma outra, centralizadora e autoritária, em 1793-1794, que
procura mobilizar um povo unificado e arrancado às suas raí­
zes; e, por fim, a regularização consular. Mas por detrás des­
tas grandes orientações políticas, é possível identificar um
outro percurso mais discreto, obstinado, multiforme, que faz
da opacidade das províncias um enigma colocado à Revolu­
ção e como a pedra de toque do seu objectivo. Não sacrifi­
quemos um dos registos a outro: eles coexistem, e frequen­
temente nas mesmas pessoas. A perspectiva jacobina que se
reforça e se instala depois de 1793 pode decretar a unidade
nacional; mas torna a irredutibilidade dos particularismos
muito mais sensível para aqueles que estão encarregados de
a levar a cabo. E quando, muito mais tarde, Lucien Bona-
parte e depois Chaptal lançam o imenso projecto da estatística
departamental, podem reunir os meios de um inquérito cen­
tralizado, coerente, que permitiría fazer o verdadeiro ponto
da situação da Revolução à escala de todo o território; mas
os inquiridores estatísticos que estão encarregados de reali­
zar a operação e os seus colaboradores locais encontram per-

18 Rapport du Comitê de Salut Public sur les idiomes, 8 de Pluviôse do


ano II (27 de Janeiro de 1794).
CAPÍTULO V 179

manentemente essa presença obsessiva da diversidade e do


particular. O inventário dos recursos e das opiniões tende,
sempre, para o lado da descrição etnográfica19. A normaliza­
ção jacobina e a descoberta das diferenças indefinidas entre
os Franceses são as duas faces contraditórias mas inseparáveis
de uma mesma apropriação do espaço francês. O resultado
desta dupla iniciativa será, só por isso, uma melhor tomada
de consciência da existência das culturas regionais? A res­
posta é, também aqui, ambígua. A Revolução e o Império
constituem, sem dúvida nenhuma, um momento de especta-
cular acumulação de informações acerca da diversidade fran­
cesa e o Estado — ou antes, os seus agentes aos diversos
níveis — é o principal responsável por este estado de coisas.
Trata-se, para alguns, de salvaguardar os testemunhos de um
Estado antigo que a marcha da história vota ao desapareci­
mento; para outros, de inventariar as forças que se opõem ao
novo curso; para outras ainda — talvez para o maior número
— de tentar compreender os problemas que a sua prática
quotidiana coloca. Há instituições e colectividades que vêm
logo orquestrar esta pesquisa da França e dar-lhe um estatu­
to científico: tal como a Société des Observateurs de
1’Hom m e, e mais tarde a Académie C eltique20. Destes
esforços acumulados resulta uma massa de conhecimentos e
de reflexões que estão ainda em grande parte por descobrir
e por estudar ainda hoje. Mas chama a nossa atenção o facto
de, nestes arquivos abundantes e prolixos, a identidade re­
gional se revelar inatingível. Não que seja ignorada: está em
toda a parte, mas permanece impensável. Tudo se passa como
se os administradores e os sábios se confessassem incapazes
de articular aquilo que é próprio de um local. Encontramos
nos seus textos as figuras contrárias e solidárias que obnubi-
lavam os seus predecessores do século XVIII: a de uma an­

19 Cf. M. N. Bourguet, Déchiffrer la France: la statistique départemen-


tale..., op. cit.
20 J . Jamin, «Naissance de 1’observation anthropologique: la Socié­
té des Observateurs de l’Homme (1799-1805)», Cahiers internationaux
de soáologie, 1980; M. Ozouf, «Linvention de 1’ethnographie française:
le questionnaire de 1’Académie Celtique», Annales ESC, 2, 1981.
180 /I IDENTIDADE REGIONAL

tropologia que passou a ser política, que certifica que todo


o homem é um homem no seio da comunidade nacional; a
de um esmiuçamento indefinido do pormenor, de um refina­
mento das distinções, que tornam por fim impossível qual­
quer imagem de conjunto. Trata-se da negação voluntarista
da diferença mas também da evidência sofrida da diferença
absoluta. Entre uma e outra, seria necessário que uma toma­
da de consciência das identidades regionais exigisse um des­
vio da história capaz de articular a diversidade francesa no
seio de uma unidade provisória, em formação. Esta conti­
nuava por inventar no início do século XIX.
PARTE IV

Jogos de papéis sociais


O último grupo de artigos aqui reunido é o que poderá,
à partida, parecer mais heteróclito e menos convincente. Os
seus temas são dispersos e a única relação evidente entre
eles, parece ser o facto de se agruparem cronologicamente
na segunda metade do século XVIII. Pertencem a gêneros e
a escritas diferentes: encontramos neles uma reflexão sobre
um conceito central na sociologia do Antigo Regime, o dos
corpos e comunidades; uma tentativa de descrição e de análise
de uma revolta parisiense anómica; uma biografia, e do tipo
mais clássico, uma vez que se trata de Maria Antonieta, tema
obrigatório dos cronistas da história.
Sem querer usar um paradoxo demasiado simples, gosta­
ria de sugerir que estes três ensaios obedecem, cada um à
sua maneira, a uma preocupação comum: a que procura iden­
tificar a construção de papéis sociais em situações históricas.
De uma maneira geral sabemos descrever e analisar as estru­
turas e as evoluções de massa. No outro lado do espectro,
soubemos, desde sempre ou quase, focalizar a nossa atenção
sobre os comportamentos individuais, frequentemente enten­
didos em termos psicológicos (ou ainda em termos de desti­
no, o que vem a ser geralmente o mesmo). Mas, por defini­
ção, esses registos não comunicam entre si. Se os historiado­
res do social se aventuram no domínio da biografia indivi­
dual e colectiva, encontram-se aí, geralmente, pouco à von­
tade, e julgam por vezes desenvencilhar-se colocando o re­
trato que lhes acontece ter que fazer sobre o pano de fundo
de indistintas condições «gerais», a maior parte das vezes
sem pertinência própria. Ora um dos problemas que parece
colocar-se hoje é o da tensão entre esses dois registos, o das
variações de escalas que, do campo social no seu conjunto, à
insignificância das acções individuais, permitiría reconstruir
184 JOGOS DE PAPÉIS SOCIAIS

articulações e compreender de que maneira configurações


distintas, regidas por lógicas sociais próprias, comunicam umas
com as outras, sem procederem de uma matriz comum. Ten­
tei recentemente compreender com Arlette Farge, num pe­
queno livro em que se desenvolve o texto acerca do motim
de 1750 aqui traduzido, a forma como um movimento popu­
lar «criava», por assim dizer, o social1. Os protagonistas con­
formam-se a distribuições que os precederam, mas na acção,
formulam hipóteses, alteram representações, chegam por ve­
zes a inventá-las. Estes papéis estão enraizados evidentemente
na imagem que uma sociedade produz de si mesma, mas são
continuamente improvisados e agem permanentemente uns
sobre os outros a partir de uma rede de convenções comuns.
O motim transforma-se assim numa espécie de grande jogo
colectivo previsível que, no entanto, nunca se repete de for­
ma idêntica. Não acontece o mesmo com o discurso com­
passado que mantêm acerca de si até as próprias instituições
sociais arcaicas como as corporações, no momento em que
são ameaçadas de extinção? Ou mesmo com o percurso de
uma heroína involuntária como foi Maria Antonieta? Nestes
três casos, o desempenho, reivindicado ou imposto, de pa­
péis sociais, pareceu-me poder esclarecer algumas figuras do
jogo social.

'A. Farge, J . Revel, Logiques de la foule. L ’affaire des enlèvements


d’enfants. Paris. 1750, Paris, Hachette, 1988.
CAPÍTULO VI

Os corpos e comunidades

Os corpos e comunidades constituíram até ao final do


Antigo Regime uma forma omnipresente de organização so­
cial, ao mesmo tempo que exprimiam uma das representa­
ções fundamentais que a sociedade tradicional produzia de
si própria: os homens só existem no seio de colectividades
orgânicas, cuja natureza e importância podem diferir, mas
em que cada uma individualmente e todas na sua disposição
geral garantem a regulamentação, a conformidade e a har­
monia das acções humanas. Esta é a representação que evoca
o célebre discurso de Séguier ao rei quando em 12 de Março
de 1776, impunha ao Parlamento, da tribuna real, o édito
de supressão dos corpos dos juizes dos ofícios preparado por
Turgot: «Todos os vossos súbditos, Senhor, estão divididos
em tantos corpos diferentes quantos os Estados diferentes
que há no reino. O clero, a nobreza, as cortes soberanas, os
tribunais inferiores, os oficiais ligados a estes tribunais,
as universidades, as academias, as companhias de finanças,
as companhias de comércio, tudo apresenta, em todas as par­
tes do Estado, corpos existentes que podem ser encarados
como elos de uma grande cadeia, estando o primeiro nas
mãos de Sua Majestade como chefe e soberano administrador
de tudo o que constitui o corpo da nação1.» A metáfora da
cadeia, tantas vezes retomada nos últimos anos do Antigo
Regime, relembra que o reino é, também ele, um corpo com­
posto por corpos inseparáveis, definidos e hierarquizados se­
gundo um plano que não foi desejado pelos homens mas sim
pela Providência e do qual o soberano, intermediário entre a
ordem humana e a ordem divina, é a principal garantia. To-

1 Citado em G. Schelle, ed., Oeuvres de Turgot et documetitsconcer-


le
nant, Paris, 1923, t. 5, p. 287.
186 CORPOS E COMUNIDADES

car neste plano, é atentar contra a ordem do mundo: «A


simples ideia de destruir esta cadeia preciosa seria assus­
tadora.»
Os corpos são portanto uma maneira de pensar e de cons­
truir o social. N a pena dos juristas, como Loyseau, mas tam­
bém nas definições sugeridas pelos grandes dicionários clássicos,
a noção foi objecto de uma série de formulações sucessivas,
tal como as noções próximas de «estado» e de «ordem» de
cuja utilização nem sempre se consegue distinguir claramente.
São incessantes as derrapagens de uma para outra, mesmo
se, como foi recentemente sugerido, não são irregulares2.
Retenhamos no entanto que, em todos estes textos, os cor­
pos e as comunidades aparecem, como no caso da arenga de
Séguier, numa perspectiva que poderiamos chamar macros-
social. Servem para compreender a sociedade no seu con­
junto e são apresentados como produto de um princípio de
ordem geral. As suas características individuais contam me­
nos do que a sua relação com o todo o qual é algo mais do
que a soma das suas particularidades. Significativamente, esta
abordagem é muito frequente nos historiadores da organiza­
ção corporativa, apesar de a historiografia francesa não pro­
por nenhuma tentativa de elaboração e de interpretação com­
parável à que fez, por exemplo, Otto von Gierke para o mundo
alemão. Notaremos que, retomando o léxico sociopolítico
do Antigo Regime, estes historiadores deram de bom grado
à «sociedade de corpos» uma extensão máxima: tanto para
F. Olivier-Martin como para R. Mousnier, ela engloba não
apenas os «corpos e comunidades de artes e ofícios» mas
também os corpos eruditos (universidades e academias), os
corpos de oficiais reais, os dos auxiliares da justiça (advoga­
dos, procuradores, notários, funcionários), os corpos da saúde
(médicos, cirurgiões, boticários), as companhias de comércio
e de finanças e ainda (no caso de Mousnier) os domínios

2 W. Sewell, «Etat, Corps and Ordre: Some Notes on the Social


Vocabulary of the French Old Regime», in Sozialgeschichte Heute. Festschrift
fü r Hans Rosenberg zum 70. Geburtstag, Gottingen, 1974, pp. 49-68,
propõe um útil estudo dos campos semânticos destas noções e tenta
classificar os seus respectivos usos (cf. em particular, p. 64).
CAPÍTULO VI 187

senhoriais, as cidades e as comunidades territoriais no seu


conjunto3. Esta visão de um mundo maciçamente incorpo­
rado em que o conjunto dos comportamentos e das relações
sociais é mediatizado por estruturas orgânicas, foi recente­
mente objecto de uma formulação inédita (e ganhou talvez
uma nova legitimidade) com o estudo que William Sewell
consagrou às práticas e às representações do trabalho em Fran­
ça entre meados do século XVIII e a primeira metade do
século X IX 4. A abordagem quer-se aqui antropológica e já
não estritamente jurídico-política. Dedica-se a reconstituir
o contexto em que a experiência do trabalho teve sentido.
Afirma também que na longa duração, a organização em cor­
pos constituiu um princípio de ordem simultaneamente fun­
damental e unificador.
Tudo atesta a importância desta leitura holista do social
até ao fim do Antigo Regime e basta que este seja seria­
mente posto em causa, como no caso da reforma-revolução
de 1776, para que aquela leitura volte a ser confirmada. Mas
convém recordar que os historiadores que a retomam repe­
tem, à sua maneira, o discurso da evidência que a sociedade
corporativa não deixou de manter acerca de si própria.
Este discurso enraíza-se numa concepção medieval da so­
ciedade destinada a durar até à Revolução Francesa e da qual
E. Lousse realizou, há mais de quarenta anos, uma análise
que continua a ser notável5. A visão individualista e igua­
litária que se impôs nas sociedades democráticas de há dois
séculos, opõe uma construção solidarista e desigualitária na
qual as colectividades são protegidas do arbitrário através

3 F. Olivier-Martin, Uorganisation corporative de la France d’Ancien


Regime, Paris, 1938; R. Mousnier, Les institutions de la France sous la
monarchie absolue, t. 1, Paris, 1974.
4 W. Sewell, Work and Revolution in France: The Language of Labor
from the Old Regime to 1848, Cambridge, 1980 (tradução francesa: Gens
de métier et révolutions. Le langage du travail de 1’Ancien Regime a 1848,
Paris, 1983). Acerca desta obra, vejam-se as reflexões críticas de L.
Hunt e G. Sheridan, «Corporatism, Association and the Language of
Labor in France, 1750-1850», a publicar no Journal of Modern History.
5 E. Lousse, La société d'Ancien Regime. Organisation et représentatiom
corporatives, t. 1, Louvain, 1943.
188 CORPOS E COMUNIDADES

de privilégios. Coloca, por outro lado, o bem comum acima


das satisfações individuais, neste aspecto fiel à tradição aris-
totélica retomada por São Tomás: «llle qui quaerit bonum
m ultitudinis ex consequentia etiam quaerit bonum suum .»
Tende, por fim, a substituir a pirâmide hierárquica das rela­
ções feudo-vassálicas por uma multitude de «liberdades» jus­
tapostas, d esigu ais, totalm ente fundadas em contratos6.
A partir desta definição genérica, qualquer colectividade pode
apresentar-se como um corpo e obter os privilégios deste na
sociedade do Antigo Regime. De onde decorre a profusão
dos vocábulos que servem para os designar e cuja variedade
e imprecisão têm sido frequentemente sublinhadas. Contu­
do, por detrás desta proliferação de comunidades, existe um
certo número de constantes que sugerem um estatuto coe­
rente. Cada uma delas constitui-se legitimamente apenas «para
proveito e para o bem de todos» atribuindo-se a execução de
uma tarefa de interesse geral (ministerium) da qual obtém, si­
multaneamente, o monopólio: o serviço de Deus ou o estu­
do, a oração contemplativa, a gestão de uma cidade ou o
exercício de um ofício. Esta função social (professio) é inse­
parável dos privilégios que lhe são consentidos em contra­
partida. Uma comunidade só existe, em teoria, se for reco­
nhecida e fundada de direito pela autoridade real: de sim­
ples associação de facto, torna-se então uma realidade jurídica
acompanhada de uma pessoa moral. Em troca deste reconhe­
cimento, que lhe serve de base, recebe uma autonomia de
funcionamento interno; determina as suas próprias leis e or­
ganiza a polícia no seu sector de actividade «desde que por
meio delas não se infrinjam os estatutos do colégio feitos ou
homologados pelo soberano»7. Encontramos, mais uma vez,
por detrás da extrema diversidade das situações, a troca con­
tratual de um serviço colectivo por um privilégio colectivo.
A este respeito podemos com propriedade falar, até 1798,
de uma sociedade de tipo corporativo uma vez que a organi-

6 Acerca da elaboração polídco-teórica à qual deu lugar a realidade


corporativa, cf. A. Black, Guilds and Civil Society in European Political
Thought from the 12th Century to the Present, Ithaca-New York, 1984.
7 J . Bodin, Les Six Livres de la République, VI, cap. VII.
CAPÍTULO VI 189

zação corporativa ocupa aí sem dúvida nenhuma, um lugar


mais importante do que, por exemplo, a relação feudal.
Os corpos profissionais representam apenas um caso no
seio dos agrupamentos reconhecidos e as comunidades de ar­
tes e ofícios apenas uma parte dos corpos profissionais. Po­
demos então perguntar por que razão, na segunda metade
do século XVIII, acabaram por simbolizar toda a organiza­
ção corporativa e por se encontrar no centro de uma polemi­
ca que os ultrapassava. As «corporações», como começaram a
ser designadas então segundo o hábito inglês, conformam-se
muito largamente, é certo, com o modelo que acabamos aqui
de recordar8. Fazem parte dos agrupamentos obrigatórios cujo
papel é formalmente reconhecido pela monarquia, mas fa-
zem-no lado a lado com dezenas de outros tipos de organiza­
ções. De onde lhes vem então esta repentina exemplaridade?
Não é certamente de ordem jurídica. Apesar dos esforços
unificadores que formam sendo efectuados pela monarquia
absoluta desde o final do século XVI pelo menos, que os
seus estatutos continuam a ter a marca de uma extraordinária
variedade. Fundamentalmente, o seu direito continua a ser,
se o compararmos com o de muitas outras comunidades, ela­
borado de forma incompleta e tardia. «De Bodin a Domat,
passando por Loyseau e Le Bret, filósofos e juristas ofere­
cem-se apenas visões imprecisas»9, bem menos acabadas em
todo o caso do que quando se trata dos corpos de oficiais
reais ou das universidades.
Esta exemplaridade também não é de ordem social ou
econômica como parece afirmar F. Olivier-Martin. A organi­
zação corporativa do trabalho é sem dúvida dominante num
certo número de locais — e antes de mais na capital que
continua a ser o local mais estudado, apesar de imperfeita­
mente, devido ao desaparecimento da maior parte das fon­
tes. Mas não é de forma nenhuma hegemônica uma vez que

8 Para além de Olivier-Martin, op. cit., veja-se E. Martin Saint-


-Léon, Histoire des corporations de métiers depuis leurs origines jusqu’à leur
supression en 1791, Paris, 1909 (reed. aumentada em 1941); E. Coornaert,
Les corporations en France avant 1789, Paris, 1941.
9 Coornaert, Les corporations en France, op. cit., p. 25.
190 CORPOS E COMUNIDADES

lhe são subtraídos, por direito, um certo número de espaços


privilegiados: é o caso, em Paris, como se sabe, do Faubourg
Saint-Antoine, dos enclaves do Temple e de Saint-Jean de
Latran, dos enclaves de Saint-Germain-des-Près e Saint-De-
nis de la Chartre. E para além disso obstinadamente re­
cusada num certo número de cidades. E esse, em particular,
o caso de Lyon onde, à excepção de quatro comunidades com
juizes de ofício, todos os outros estão colocados sob o con­
trole do Consulado. O mundo do trabalho é assim, aí, regu­
lamentado por meio de estatutos de uma grande heteroge-
neidade. E certo que estes induzem diferenças determinan­
tes em relação aos lugares em que os ofícios com juízos próprios
são a regra comum101. Para além da distinção clássica entre
ofícios com juízos próprios, ofícios regulamentados e ofícios
livres — que é antes de mais uma distinção jurídica formal — ,
as condições efectivas do trabalho e da produção parecem ter
partilhado muitos traços comuns mesmo quando se tratava
de formas de actividade muito afastadas umas das outras, ou
mesmo antagônicas e teoricamente incompatíveis11. Pelo contrá­
rio, no próprio seio do sector regularmente incorporado, um
estudo por domínios de actividade mostra que as estratégias
econômicas e sociais puderam divergir fortemente de uns para
outros, determinando comportamentos profundamente diferen­
ciados. Foi o que mostrou, por exemplo, J.-C l. Perrot para
Caen, no século XVIII, ao analisar por ramos os conflitos e
tentativas de agrupamento entre os ofícios. Uma investigação
sobre as atitudes dos corpos de ofício face ao progresso tecno­
lógico conduz a constatações igualmente contraditórias se­
gundo a antiguidade e a natureza das actividades em causa12.

10 M. Garden, Lyon et les Lyonnais au XVIII' siècle, Paris, 1970, pp.


325 e ss e 550 (Monografia da comunidade dos padeiros acerca das
comunidades de Lyon, Agosto de 1756).
11 Cf. S. L. Kaplan, «Les faux-ouvriers à Paris au XVIII' siècle»,
texto inédito. Agradeço a Steve Kaplan ter-me comunicado este texto
e mais ainda, ter-me permitido beneficiar do seu saber e das suas ob­
servações aquando de uma série de seminários que fizemos em comum
na Primavera de 1986.
12 J.-Cl. Perrot, Genèse d’une ville modeme. Caen au XVIII' siècle, Pa­
ris, 1975, t. 1, pp. 327-336.
CAPÍTULO VI 191

Por fim, podemos procurar a exemplaridade das comuni­


dades de artes e ofícios na sua própria forma. Mesmo se já
não há nenhum historiador que se aventure a ver nelas a
encarnação de uma harmonia profissional e social garantida
por uma relação paternalista, permanece a forte convicção
de que elas propunham um modelo de organização único que
«prende o homem na sua totalidade» (Coornaert). Os regu­
lamentos minuciosos dos ofícios esmiuçavam, como se sabe,
os direitos e os deveres dos trabalhadores. A sua participa­
ção nas actividades religiosas e morais de uma confraria asso­
ciava-os a uma comunidade moral. Esta dupla integração foi,
não duvidemos, constitutiva de uma forma de sociabilidade
poderosa e visível em toda a sociedade do Antigo Regime.
Séguier evoca-a em 1776: «As comunidades podem ser con­
sideradas como outras tantas pequenas repúblicas, que se
ocupam unicamente do interesse geral de todos os membros
que as compõem e, se é verdade que o interesse geral se
forma da reunião dos interesses de cada indivíduo em parti­
cular, é igualmente verdade que cada membro, ao trabalhar
para a sua utilidade pessoal, trabalha necessariamente, mes­
mo sem o querer, para a verdadeira utilidade de toda a comu­
nidade.» Seria assim a forma corporativa como tal o que ga-
rantiria a socialização das vontades individuais. Mas, mais
uma vez, as comunidades de ofícios não são as únicas a en­
carnar esta forma na segunda metade do século XVIII. Uma
vez que, do ponto de vista do século X X , o trabalho foi um
dos pontos de apoio de uma longa transformação individua­
lista, temos sem dúvida tendência para aumentar a posteriori
o carácter excepcional e a fecundidade particular do modelo
corporativo. Mas será que para o homem do século XVIII, a
comunidade das intenções realizada pelo serviço profissional
da divindade e pela oração no seio dos mosteiros, ou de ma­
neira mais trivial, a defesa dos privilégios de uma comuni­
dade urbana representavam necessariamente encarnações mais
fracas do mundo «incorporado»? Parece-nos que nada per­
mite afirmá-lo.
Estaríamos tanto mais inclinados à prudência quanto o
conjunto dos discursos produzidos para atacar e para defen­
der os corpos de ofícios nos últimos decênios do Antigo Re-
192 CORPOS E COMUNIDADES

gime contribuíram muito para dar destas uma percepção idea­


lizada (a preto e branco) e rígida. As comunidades de artes
e ofícios aparecem aí para assegurar a permanência intempo-
ral de um modelo arcaico, amaldiçoado por uns, elogiado
por outros e cuja imagem é falaciosa e a tese de uma conti­
nuidade ne varietur das formas corporativas entre a Idade
Média e o final do século XVIII não é de forma nenhuma
admissível. Tudo demonstra, pelo contrário, a sua plastici­
dade na longa duração para além da imutabilidade procla­
mada dos valores e das instituições. Demonstrá-lo-emos atra­
vés de dois exemplos.
No momento em que se inicia o debate acerca das corpo­
rações de ofícios, está solidamente enraizada a convicção de
que se trata de assuntos do rei. Os juristas e os políticos
não param de o recordar: dependeda sua boa vontade auto
rizar ou suprimir uma comunidade e «a autoridade soberana
pode só por si formar um corpo dentro do Estado»13. Esta
referência real pode servir de argumento quer para defender
a intangibilidade do princípio corporativo, considerado como
indissociável da própria ordem monárquica (é o sentido do
discurso final de Séguier), quer para legitimar o livre direi­
to do rei que pode, quando quer, desfazer o que fez (é um
dos argumentos que os reformadores fazem valer junto de
Luís XVI). Acima daquilo que divide uns e outros, postu­
lam à partida, em princípio, uma relação imutável entre o
rei e as comunidades. Essa relação não é, de forma nenhu­
ma, evidente. Para além do facto de continuarem a existir,
em pleno século XVIII, comunidades reputadas sem cartas
patentes (e portanto sem reconhecimento formal)14, a política
monárquica flutuou, no que diz respeito aos ofícios, entre o
século XVI e o século XVIII. Foi só tardiamente, com os
éditos de Henrique III (1581), de Henrique IV (1597) e
sobretudo com a reorganização de Colbert de 1673 que a

13 Bigot de Saint-Croix, Traité de la liberte générale du commerce et de


l’industrie qui démontre les abus des anciennes corporations et jurandes, 1775.
O texto encontra-se na Encyclopédie méthodique, Commerce, vol. II, 1783,
p. 770, s. v. Jurande.
14 Perrot, Genese d’um ville moderne, t. 1, pp. 321-322.
CAPÍTULO VI 193

forma corporativa, que se tentava então impor a toda a acti-


vidade econômica, passou a servir de instrumento para uma
ordenação e uma unificação do reino ao mesmo tempo que
oferecia uma possibilidade de recursos fiscais suplementa­
res15. Pouco importa aqui que este programa, formulado pela
última vez no édito de 1767, não tenha nunca sido verda­
deiramente realizado. É preciso ver que, longe de ser uma
realidade inalterável, consubstanciai à ordem monárquica, as
comunidades são formas que se utilizam para fins de con­
trole, econômico ou político e que se adaptam a estes mes­
mos fins.
Mas esta manipulação da forma associativa não é apenas
um fenômeno de Estado. Encontra-se também no mundo do
trabalho. Contra a interpretação jurídica tradicional, o in­
tendente da polícia observa em Caen, em 1731, que «por
ter as prerrogativas das comunidades e adquirir ou conser­
var, com exclusão das outras ou com o seu concurso, uma
parte do comércio, é necessária uma vontade actual dé com­
por uma comunidade [,..]»16. O que equivale a dizer, de ma­
neira muito brutal, uma evidência que só a ideologia corpo­
rativa conseguiu ocultar de forma durável. Certos ramos de
actividade escolhem a incorporação, outros contornam-na, e
estas opções podem ser consideradas segundo os incitamen­
tos da conjuntura, segundo o estado das forças em presença,
a concorrência ou a composição dos mestres de ofício. Certas
comunidades fecham-se sobre si mesmas e outras escolhem,
pelo contrário, confederar à sua volta famílias de actividades
próximas. Este jogo complexo de alianças e divisões, muito
raramente estudado, remete por vezes para princípios «ob-
jectivos»: o aparecimento de uma nova técnica, por exemplo.
Mais frequentemente, como Perrot demonstrou de forma
notável no caso de Caen, mostra estratégias de expansão ou
de defesa nas quais a corporação não é um fim mas um meio.
Tudo sugere pois, que, contra a própria ideologia corpo­
rativa, seria conveniente dissecar a forma associativa e o
exercício de um ofício para melhor compreender uma e ou-

15 Cf. Coornaert, Les corporations en France, op. cit., pp. 153-164.


16 Citado por Perrot, Genèse d’une ville moderm, t. 1, p. 322.
194 CORPOS E COMUNIDADES

tro. Não para negar que estes dois aspectos tenham estado
muitas vezes estreitamente imbricados, mas para compreen­
der melhor as suas relações efectivas17. Tudo parece advogar
também contra a existência de um modelo corporativo unifi­
cado regendo, para além da diversidade dos seus estatutos,
das suas funções e da sua importância, o conjunto das artes
e dos ofícios. Mas se aceitamos pôr em causa estes aspectos,
a pergunta coloca-se de forma ainda mais insistente: porque
será que os corpos de ofícios passaram nos anos 1770, a sim­
bolizar toda a realidade corporativa?
Enquanto problema propriamente político, a organização
corporativa está no centro do debate durante um período
relativamente breve, aproximadamente de Janeiro a Setem­
bro de 1776. No espaço destes nove meses, assistimos su­
cessivamente e num ritmo extremamente rápido, ao pôr em
causa das comunidades profissionais, à sua abolição legisla­
tiva, e em seguida, depois do despedimento de Turgot, à
sua restauração segundo modalidades transformadas. Curio­
samente, este ciclo de uma particular intensidade parece ter­
minar aí. Continuar-se-ão a disputar corporações até à sua
supressão definitiva em 1791, mas o assunto deixou de ser
fulcral. Tudo se passa como se o tema tivesse perdido o seu
valor exemplar e já não fosse capaz, por isso, de focalizar o
debate político. Podemos por isso arriscar a hipótese de que
tenha sido a própria forma que assumiu, em 1776, o choque
das posições confrontadas, o que lhe deu a sua importância
excepcional.
Contudo, como se sabe, o assunto está muito longe de
ser novo. A denúncia dos abusos das comunidades é indisso­
ciável da sua própria existência, quer venha do âmbito dos
poderes públicos, do «público» ou de outras comunidades
rivais. Tem os seus temas obrigatórios: tradicionalmente põe
em causa o «egoísmo» dos ofícios, as suas iniciativas contínuas
de expansão ou de defesa, as práticas nefastas que cobrem1

1 Na linha reconhecida por J.-Cl. Perrot, Simona Cerrutti acaba


de fazer actualmente a sua demonstração num trabalho intitulado: «Du
corps au métier: la Corporation des tailleurs à Turin entre le XVII' et
le X V lir siècles», Annales ESC, 1988, pp. 323-352.
CAPÍTULO VI 195

com o seu monopólio legal, mas também o seu deplorável


funcionamento interno.
A esta polêmica recorrente, muitas vezes ruidosa e tra­
paceira, veio sobrepor-se, sem a excluir, um novo tipo de
crítica no turbilhão das Luzes, em meados do século XVIII.
Utiliza largamente o mesmo repertório de argumentos, mas
inscreve-o num quadro de referências muito diferente. Três
convicções principais orientam a crítica «filosófica» da orga­
nização corporativa dos ofícios18. A primeira, que ilustram
em primeiro lugar os enciclopedistas, proclama a urgência
em dar ao trabalho e à técnica um lugar proeminente entre
os valores colectivos. Esta convicção denuncia este paradoxo
escandaloso: «Exigimos que as pessoas se ocupem de forma
útil e desprezamos os homens úteis.» A segunda, opõe à or­
ganização tradicional em corpos compartimentados e hierar-
quizados segundo os desígnios misteriosos da Providência um
sonho de transparência social: uma visão imaginária da so­
ciedade fundada na ordem natural. Nesta reordenação do
mundo, os ofícios ocupam um lugar estratégico. Não apenas
porque é deles «que obtemos todas as coisas necessárias à
vida», mas ainda porque são apenas, na sua essência, um
prolongamento da própria natureza. Não é a sua história «a
da natureza empregada»? Não é «o objectivo de todas as ar­
tes em geral» imprimir certas formas determinadas numa
base dada pela natureza? A sua organização não deve, pois,
ser regulamentada por leis e privilégios, mas sim confor­
mar-se às leis naturais e à ordem de uma razão empírica. Da
mesma forma que os bens da natureza são dados para serem
partilhados por todos os homens, o domínio das transforma­
ções de que ela é objecto não pode permanecer um segredo
ciosamente guardado por um pequeno número, constituindo
um saber útil que deve ser divulgado o mais amplamente
possível. É sobre este fundamento «natural» das artes que
se articula logicamente a terceira afirmação, a da liberdade
necessária ao seu pleno desenvolvimento e à difusão das suas
consequências benéficas na sociedade. Notemos que esta liber-

18 Cf. Sewell, Gens de métier et révolutions, op. cit., cap. III, do qual
retiro as citações que se seguem, todas tiradas da Encyclopédie.
196 CORPOS E COMUNIDADES

dade não é fundamentalmente política: é, antes de mais, uma


concordância das formas do trabalho com a ordem natural.
Este fundo de convicções comuns alimenta, é certo, in­
terpretações diversas e a crítica filosófica nem sempre foi
radical como lembrou utilmente Coornaert. No próprio seio
da opinião esclarecida, parece mesmo ter sido largamente
maioritária uma posição moderada, que se mostra mais preo­
cupada em corrigir os abusos das comunidades do que em
pôr em causa a sua existência. A série de artigos que a Enci­
clopédia consagra ao assunto ilustra bem esta via intermédia,
as suas hesitações e até mesmo as suas eventuais contradi­
ções19. Encontramos aí, por exemplo, uma formulação muito
tradicional da teoria dos corpos e comunidades «contribuin­
do com todo o seu poder para o bem geral da grande socie­
dade». Estes textos não hesitam em reconhecer e denunciar,
sem dúvida, os excessos de que os corpos de ofícios se torna­
ram culpados. Não encontram aí, contudo, nenhuma razão
para pôr em causa a existência política dos corpos mas, prin­
cipalmente, a sua utilidade social: «O abuso não é o facto de
existirem comunidades, uma vez que é necessária uma polícia,
mas que elas sejam indiferentes quanto aos progressos das
próprias artes das quais se ocupam: que o interesse parti­
cular absorva aí o interesse público é um inconveniente que
muito as envergonha.» A abordagem é, portanto, decidida­
mente reformista. O artigo «Maítrises» (da autoria de Fai-
guet de Villeneuve) pode acentuar bastante a denúncia dos
«requintes de monopólio» e pormenorizar os efeitos perver­
sos que exercem tanto no mundo do trabalho como em de­
trimento do público. As soluções vão, no entanto, no senti­
do de um ordenamento daquilo que existe: de uma flexibili­
zação do quadro corporativo, de uma democratização interna
dos corpos de ofícios, tudo segundo uma evolução controla­
da: apesar da proclamada confiança nas leis do mercado e no
espírito de iniciativa, o autor evita prescrever qualquer ruptu­
ra e dá visivelmente a sua preferência a soluções provisórias
de compromisso que prepararão a mais longo prazo uma trans-

19 Utilizo aqui os artigos «Communauté» , «Corps et communautés», «Mar-


chands», «M aítrises».
CAPÍTULO VI 197

formação progressiva do mundo dos ofícios. Sempre que se


trata de avançar soluções concretas, encontramos a mesma
moderação mesmo num texto considerado, justamente, como
um dos modelos da polêmica anticorporativa, o vigoroso Mé-
moire sur les corps et métiers de Clicquot de Blervache-Delisle
(1757). Mas estará de facto esta atitude polemica tão afasta­
da da linha seguida pela administração real em meados do
século XVIII, quer se trate de intendentes, da Junta do
Comércio, ou mesmo, mais recentemente, dos projectos de re­
forma preparados pela equipa governamental do abade Terray,
pouco antes do episódio Turgot20?
A expressão do questionamento radical das comunidades,
deve procurar-se, evidentemente, junto dos «economistas»,
nestes mesmos anos: Vincent de Gournay (Mémoire sur les
communautés lyonnaises, 1752) e seus discípulos; junto de um
publicista como o abade Coyer que dá uma versão roman­
ceada da crítica em Chinki, histoire cochinchinoise (1768); e
ainda, sobretudo, na monografia póstuma de Bigot de Sainte-
-Croix, esse magistrado de Rouen encarregado por Laverdy
de efectuar um relatório acerca do funcionamento do siste­
ma corporativo: o seu Traité sur la liberte du commerce et de
1’industrie, qui démontre les abus des anciennes corporations et ju-
randes inscreve-se significativamente, como o seu título in­
dica, na perspectiva de uma liquidação decisiva do «antigo»
sistema e de um «regresso à liberdade geral». Publicado nas
Nouvelles Ephémérides em 1775, logo, pouco antes do grande
debate público, o texto recapitula e pormenoriza toda a ar­
gumentação liberal substituindo-a numa óptica que aponta
como única solução a abolição pura e simples. E porque «a
liberdade geral do comércio e da indústria» é apenas um
regresso ao direito natural que, «segundo os economistas
modernos, a primeira lei das sociedades políticas deve ser
assegurar a todos os cidadãos o pleno e inteiro exercício des­
ta liberdade». A vontade de libertar de todas as peias jurídicas
os agentes econômicos, de os estimular pela lei da concorrên­
cia, a afirmação de uma primazia do interesse individual sus-

20 Cf. Coornaert, Les corporations en France, op. cit.\ sobre Terray ver
E. Faure, La disgrâce de Turgot, Paris 1961, pp. 426-429-
198 CORPOS E COMUNIDADES

tentado pelas perspectivas do lucro, estes dogmas de fé de


um credo economista em plena radicalização ideológica, con­
ferem à análise propriamente econômica uma dimensão ex­
plicitamente política que vai dar o tom ao debate do ano
1776. As conclusões que induzem desembocam necessaria­
mente em reformas sociais e políticas e já não em simples
«arranjos» técnicos. Contudo, por mais radical que seja a
crítica é preciso notar, mais uma vez, que é formulada tar­
diamente depois de a questão dos trigos ter monopolizado a
reflexão durante dois decênios.
A iniciativa de Turgot inscreve-se evidentemente na li­
nha desta crítica radical. Intervém tarde, também aqui, no
decurso da sua breve passagem pelo Controle Geral, como
que à defesa, acerca dos dois temas principais que domina­
ram a sua reflexão e a sua acção ministeriais: a questão dos
cereais e a reforma fiscal e municipal (longamente preparada
mas nunca terminada)21. Voltamos a encontrar a partir de
1775 uma série de medidas pontuais que anunciam uma
política liberal esperando «um trabalho considerável que me
proponho colocar sob os olhos de Vossa Majestade o mais
cedo que me for possível»: mas era o mínimo que se poderia
esperar do autor do Éloge de Vincent de Gournay. Sem dúvida
também que, na monografia que envia ao rei em Janeiro de
1776, Turgot fala do seu projecto de supressão como de uma
preocupação antiga (V. M. «conhece desde há muito a mi­
nha maneira de pensar»). Mas apresenta a abolição dos cor­
pos de ofícios como uma extensão de princípios já utilizados
no caso do comércio dos trigos. Lembremos por fim, para
situar a sua importância, que o édito de Fevereiro de 1776,
não é publicado isoladamente. Faz parte de um conjunto de
seis textos, dos quais pelo menos dois — o édito sobre a
política dos cereais e, principalmente, o édito sobre as cor-
veias — dizem respeito a funcionamentos cruciais da socie­
dade do Antigo Regime.

21 Acerca da política de Turgot, para além da biografia de Schelle


e da sua edição das Obras, veja-se D. Dakin, Turgot and the Ancient Re­
gime in France, Londres, 1939, bem como Faure, La disgrâce de Turgot,
op. cit. Mas ainda não possuímos uma grande biografia intelectual e
política desta personagem.
CAPÍTULO VI 199

A análise que oferecem quer a monografia ao rei, quer o


preâmbulo do édito retoma, sem que isso surpreenda, os prin­
cipais argumentos liberais22. Parte explicitamente de uma
profissão de fé economista: «Devemos assegurar a todos os
nossos súbditos o gozo pleno e inteiro dos seus direitos; de­
vemos principalmente esta protecção à classe de homens que,
possuindo apenas como propriedade o seu trabalho e a sua
indústria, têm tanto mais necessidade e direito a empregar,
em toda a sua extensão, os únicos recursos que têm para
subsistir.» E em nome destes direitos que são denunciados
sucessivamente o monopólio das comunidades na produção e
na comercialização dos bens; o poder abusivo dos mestres
sobre os corpos de ofícios (em particular sobre os confrades
que aspiram a ser mestres de ofício); a sua má gestão (san­
cionada por um enorme contencioso judicial e pela dívida
esmagadora das comunidades); os efeitos perniciosos que
a falta de concorrência determina sobre os preços e sobre a
qualidade dos produtos, bem como os danos que daí resul­
tam para o Estado. Este feixe de críticas, longamente reto­
madas, não é original, como vimos. Mas deve ser recolocado
na perspectiva de uma dupla afirmação que constitui a verda­
deira ruptura que Turgot pretende fazer sancionar pela lei.
A primeira é doutrinária. Opõe às pretensões dos corpos
a representar uma espécie de matriz social essencial, de
ordem econômica, simplificada em extremo, que reconhece
apenas indivíduos distribuídos ao longo de um processo de
trabalho e de produção. O preâmbulo do édito de Fevereiro
põe na boca do rei as palavras seguintes: «Aqueles que co­
nhecem o andamento do comércio sabem também que toda
a iniciativa importante de comércio ou de indústria exige o
concurso de duas espécies de homens, empreendedores que
fazem os avanços para as matérias-primas, de utensílios ne­
cessários a cada comércio, e de simples operários que traba­
lham por conta dos primeiros, mediante um salário combi­
nado. Tal é a verdadeira origem da distinção entre os em­
preendedores ou mestres, e os operários ou confrades, a qual
se funda na natureza das coisas e não depende da instituição

22 Dossier em Schelle, Oeuvres, op. cit., t. 5, pp. 158-160 e 238-255.


200 CORPOS E COMUNIDADES

arbitrária dos corpos de ofício.» Linguagem espantosa ape­


sar de tudo, redefinindo os súbditos como agentes econômicos
e as relações sociais segundo as leis da empresa! A segunda
afirmação é de natureza histórica e política. Denuncia, na
existência das comunidades, um abuso historicamente entro-
nizado pela prática, mas que contradiz as máximas do direi­
to público. «Foi depois de um longo intervalo que a autori­
dade, ora surpreendida, ora seduzida por uma aparência de
utilidade, lhes deu uma espécie de sanção.» Acabámos assim
por tomar como um «direito comum» uma colecção desor­
denada de disposições frequentemente contraditórias que
acabaram por formar um inextricável arbusto regulamentar.
Ora o Estado — no caso, a polícia — é suficiente para asse­
gurar as tarefas de vigilância que requer o exercício dos ofícios;
o édito prevê portanto a sua substituição sob um controle
unificado e simplificado, mas sobretudo público. Pouco im­
porta aqui que a reconstituição histórica sobre a qual Tur-
got apoia a sua demonstração seja sumária e improvável, a
lição é clara: o texto afirma os direitos do Estado e recusa
tudo o que pretendia interpor-se entre este e os súbditos
individuais (quer se trate, aliás, das associações operárias,
quer dos corpos de ofícios). E esta dupla reformulação do
social que dá ao problema das comunidades uma dimensão
explicitamente política, no momento em que o ministro se
prepara para inscrevê-lo num texto legislativo. E ela tam­
bém que determina os eixos e os parceiros do futuro confli­
to, os quais, desde Janeiro de 1776, Turgot tinha claramente
recuperado.
Porque a polêmica não esperou que o texto do édito fosse
tornado público, aquando da sua transmissão ao Parlamento
para se inflamar. Antes mesmo que o problema dos corpos
de ofícios estivesse inscrito na ordem do dia do Contador
Geral, são os ofícios que, primeiro, antecipam as decisões do
ministério. Desde Junho de 1775, que os Seis Corpos pari­
sienses que encontramos em ponta durante toda a crise, fi­
zeram chegar a Turgot uma monografia em defesa das co­
munidades. Durante o Inverno que se segue não param de
correr os rumores de projectos de abolição iminente. Esta
preparação subterrânea de alguns meses explica que os argu-
CAPÍTULO VI 201

mentos estejam preparados desde a abertura do debate político.


As Monografias secretas notam aliás «uma grande fermenta­
ção nas Sociedades divididas em Economistas e Antiecono-
mistas ou Colbertistas»23. Durante uma estação, o assunto
está visivelmente em moda nos salões. Mas não fica por aí.
O conflito desenvolve-se em duas frentes que devem distin-
guir-se mesmo se, frequentemente, são levadas a desdobrar-
-se. Uma opõe Turgot às próprias comunidades; a segunda
põe contra ele o Parlamento que escolheu fazer sua a causa
dos corpos de ofícios.
Disse-se que as comunidades reagiram depressa. Houve
um pequeno número de entre elas que se preocupou em de­
fender a sua causa junto do soberano e da opinião política.
Em Janeiro, o advogado Delacroix foi encarregado de apre­
sentar um novo Mémoire à consulter sur 1’existence actuelle des
Six-Corps et la conservation de leurs privilèges, que se apresenta
como uma refutação do tratado de Bigot de Sainte-Croix;
em Fevereiro, é Linguet que fornece as Réflexions des Six-
-Corps de la Ville de Paris sur la suppression des jurandes\ se-
guem-se algumas outras comunidades da capital, logo cen­
suradas desajeitadamente pelo ministério. Mas estes textos
emanam da elite dos ofícios parisienses — os Seis Corpos
orgulhavam-se de ser «a fonte mais pura das famílias da bur­
guesia» e compraziam-se em recordar que tinham sido sem­
pre uma fonte de rendimentos para uma monarquia finan­
ceiramente debilitada. N a ausência de um inventário sistemático
é forçoso reconhecer que esta documentação principalmente
parisiense, preparada por juristas políticos, não é necessaria­
mente representativa nem do conjunto dos ofícios nem do
país inteiro. Resta o facto, evidente, de uma mobilização
maciça dos mestres de ofício contra o édito de Fevereiro.
E um fenômeno lógico que não deveria surpreender-nos. Re­
presenta no entanto, no conjunto da história das comunida­
des, um momento bastante excepcional.
As reacções do mundo do trabalho parisiense à supres­
são dos corpos de ofícios foram recentemente estudadas por

23 Mémoires secrets pour servir à 1’Histoire de la République des Letlres,


t. 9, (1776), p. 46.
202 CORPOS E COMUNIDADES

S. L. Kaplan24. À excepção de alguns casos mais visíveis, a


expressão ideológica parece dar lugar a um sentimento mui­
to imediato de revolta contra uma medida que põe em causa
a ordem do mundo: todo o episódio parece ter sido vivido
como uma « carnavalização» das relações sociais. Este discur­
so colectivo situa-se raramente ao nível de abstracção política
em que o colocam tanto Turgot como o Parlamento. Evoca
muito concretamente e de forma quase obsessiva, a ameaça
de uma ruptura dos laços sociais fundamentais estabelecidos
em torno da produção. Determinemos o que corresponde evi­
dentemente ao egoísmo dos mestres e ao seu encarniçamento
em defesa dos seus privilégios e da sua posição hierárquica:
encontraremos aí apenas uma reacção normal. Mas há mais.
O desmantelamento de uma forma social secular é encarado,
mais profundamente, como o pôr em causa de uma identi­
dade — individual e colectiva — ao mesmo tempo que como
um princípio de desorganização de toda a sociedade. O que
a nova «liberdade» do trabalho significa é a igualdade, ou
seja, a anarquia das relações mais quotidianas — e é assim
que o entendem, à sua maneira, os confrades que, segundo
Hardy, acolhem com «um verdadeiro delírio» as (abusivas)
esperanças que o édito lhes deixa entrever. Por fim, há a
subversão das relações sociais, a ruína da produção em de­
trimento do bem comum. O futuro sinistro dos ofícios é o
contramodelo do Faubourg Saint-Antoine, esse enclave fora
da lei, e os seus falsos operários.
Contudo é necessário precavermo-nos quanto a estas re-
acções unânimes, de cuja veracidade não temos razões para
suspeitar, para não lhes fazer dizer demasiado. Elas arris­
cam-se a conferir ao mundo das comunidades uma coerência
forçada que a sua evolução no século XVIII desmente. De­
pois de decênios, sabemo-lo melhor hoje, a inflexibilidade
dos corpos de ofícios dissimula mal as desuniões que cor­
roem os ofícios. Apesar de continuar a ser difícil estabelecer

24 S. L. Kaplan, «Social Classification and Representation in the


Corporate World of 18th Century France: Turgot’s Carnival», in S. L.
Kaplan e C. J . Koepp, eds., Work in France. Representations, Meaning,
Organization and Practice, Ithaca-New York, 1986, pp. 176-228.
CAPÍTULO VI 203

uma cronologia exacta, os conflitos profissionais parecem multi­


plicar-se a partir dos anos 1720-1730, por razões que conti­
nuam a ser pouco conhecidas. Não opõem apenas os mestres
aos confrades, mas também, e de forma cada vez mais áspera,
as diferentes categorias de mestres entre si e, apesar de cons­
tituir um testemunho excepcional, a atitude crítica do vi-
dreiro Ménétra, não deveria ser certamente um caso isola­
do25. Quanto à oposição entre trabalho incorporado e traba­
lho livre, acenada em 1776 pelas comunidades de forma tão
intransigente, sabemos que apesar de ter sido declarada in­
tocável já não proíbe aos mestres parisienses que façam com
o Faubourg Saint-Antoine alianças contranatura nem aos juizes
dos ofícios, em teoria encarregados de fazer respeitar a or­
dem profissional, que cubram estas transgressões escandalo­
sas26. As próprias opções e comportamentos econômicos não
permitem traçar uma fronteira clara entre as empresas livres
e os corpos de juízos: de umas para outras as estratégias são
definidas bem mais em função dos interesses próprios a cada
ramo de actividade particular do que em nome de princípios
gerais de organização27.
Ao velho tecido corporativo em vias de decomposição, pelo
menos parcial, a ofensiva declarada de Turgot dá, durante
alguns meses, um novo vigor. Mas ele é tão provisório como
recente. No próprio momento em que se tenta remendar o
sistema através do édito de Agosto de 1776 procura-se antes
de mais serenar os mestres. Aquele provocará entre eles ape­
nas um entusiasmo incerto, é o mínimo que se pode dizer, à
excepção, mais uma vez, dos grandes corpos parisienses mais
sensíveis à dimensão política de uma restauração do princípio
corporativo. Não é exagerado dizer, a este respeito, que as
comunidades de ofício foram apenas abolidas uma única vez,
em 1776, e que a primeira abolição nunca foi eliminada. Na

25 Journal de ma vie. Jacques-Louis Ménétra, compagnon vitrier au XVIII'


siècle, apresentado por D. Roche, Paris, 1982, p. 244.
26 Kaplan, «Les faux-ouvriers...», art. cit.
21 Cf. G. M. Bossenga, Corporate Institutions. Revolution and the State.
Lille from Louis X IV to Napoleon, tese inédita, Universidade do Michigan,
1983.
204 CORPOS E COMUNIDADES

medida em que a ameaça de uma liquidação crispa então as


corpos de juizes numa representação de si próprios que a
realidade desmente, estão já reduzidos a um espectacular
combate de fundo. Dedicam-se assim a uma certa marginali­
dade, mesmo no interior do partido que os sustenta, do mes­
mo modo que não poderão ficar satisfeitos com as soluções
que lhe serão propostas como reparação para os seus reveses.
É bem diferente a posição do outro grande protagonista
da crise de 1776, o Parlamento de Paris, aliás secundado
por um certo número de tribunais soberanos. Entramos aqui
no domínio da grande política. É aí, aliás, que se espera a
batalha decisiva. Durante o mês que separa a transmissão
dos seis éditos à Cour du lit de justice* que a 12 de Março,
obriga o Parlamento a registá-las, a tensão não pára de au­
mentar perante um público consciente de assistir desta vez a
uma crise decisiva. Trata-se contudo de um episódio apenas
numa luta conduzida em várias frentes e na qual o assunto
dos juizes de ofício, por mais urgente que se tenha momenta­
neamente tornado, aparece frequentemente como um pretexto.
O célebre discurso de Séguier resume comodamente — dema­
siado comodamente talvez — a posição dos magistrados acerca
do problema. Tem a habilidade de não se esquivar ao terre­
no sobre o qual tinha decidido colocar-se o Contador Geral
no preâmbulo do édito e de lhe responder ponto por ponto
analisando o funcionamento concreto das comunidades.
Não nos interessa aqui que os argumentos econômicos
desenvolvidos por Séguier pareçam frágeis face às demons­
trações racionais do economista Turgot. Estão lá apenas para
lembrar que a Corte se preocupa exclusivamente com «o in­
teresse do comércio em geral» e para tornar mais aceitável a
lição política que constitui o essencial da mensagem. Por­
que o discurso é antes de mais uma ocasião habilmente apro­
veitada para fazer ouvir de novo o credo político dos parla­
mentares. Apoia-se em duas proposições principais. A pri­
meira, afirma que a existência de corpos orgânicos é necessária
à coesão e ao equilíbrio de todo o Estado policiado. Contra
o universalismo abstracto de Turgot que denunciava neles

* Tribunal de última instância.


CAPÍTULO VI 205

um principio de desintegração do laço social28, Séguier faz


da organização tradicional dos ofícios o próprio modelo de
uma integração social legitimada pela história. Aos princípios
do direito natural, opõe organizações minuciosas — «as mo­
las que impulsionam esta multidão de corpos diferentes» —
empiricamente aperfeiçoadas por uma prática secular. Só elas
podem gerar a «correspondência de interesses» que garante
a harmonia entre os súbditos. A segunda proposição denun­
cia, como uma verdadeira arbitrariedade, esta «liberdade
indefinida» que «não é mais do que uma verdadeira inde­
pendência» e que fará arruinar toda a solidariedade entre os
homens. Séguier opõe-lhe uma «liberdade real», que «só existe
sob a autoridade das leis» e não hesita em defender que «são
estes incômodos, estes entraves, estas proibições que fazem
a glória, a segurança, a imensidade do comércio da França».
O tema também não é novo. J á servira contra os economis­
tas nos anos 1760 a propósito do comércio dos cereais.
O conflito dos juizes de ofício confere-lhe uma actualidade
oportuna, na medida em que permite simultaneamente asso­
ciar a defesa das comunidades à causa parlamentar e apre­
sentá-la como um dos elementos da «constituição do rei­
no»29. Toda a demonstração de Séguier visa assim acreditar
a convicção de que a existência dos corpos — e o seu desti­
no futuro — é de facto indissociável da própria ordem
monárquica mesmo que seja necessário para o provar apelar
para a obra de Luís XIV e de Colbert, paradoxalmente dada
como exemplo ao jovem Luís XVI!
Podemos todavia interrogar-nos: os juizes de ofício esta­
riam realmente no seio das preocupações parlamentares em
1776 ou ofereceram antes de mais aos magistrados uma cômoda
ocasião para martelar mais uma vez as suas convicções políticas?
Intransigentes em princípio, mostram-se, pela pena de Sé-

2S Acerca deste debate veja-se K. M. Baker, «French Political Thought


at the Accession of Louis X V I», Journal of Modem History, 50, 1978,
pp. 279-303.
29 Acerca da definição da «liberdade» parlamentar nos anos 1760,
veja-se Kaplan, Bread, Politics and Political Economy in the Reign of Louis
XV, Haia, 1976, principalmente o capítulo IX.
206 CORPOS E COMUNIDADES

guier, muito flexivelmente reformistas a nível dos factos,


correndo o risco de desapontar as expectativas das comuni­
dades. Séguier sugere um desmantelamento parcial do siste­
ma, uma simplificação e uma correcção dos abusos que ire­
mos encontrar, aliás, no édito de restabelecimento. Chama-
-nos a atenção, por outro lado, o facto de o essencial da
ofensiva parlamentar incidir aí sobre os juizes dos ofícios,
enquanto que os seis éditos submetidos à Corte continham
muitas outras disposições importantes, em particular o édito
sobre as corveias. Bloqueando o conjunto dos textos, Turgot
provocava, voluntariamente ou por inépcia, uma coligação
de interesses muito diversos. A habilidade do contra-ataque
dos magistrados consistiu talvez em focalizar o conflito num
único tema, aparentemente afastado dos seus próprios inte­
resses que lhes oferecia uma ocasião suplementar para se apre­
sentarem como defensores do bem público. A táctica ofere­
cia três vantagens a curto prazo: evitava o confronto directo
com o rei: enfraquecia Turgot no seio de um ministério já
minado pelas divergências; e principalmente dava à inter­
venção parlamentar uma poderosa repercussão a nível das co­
munidades parisienses. Para além dos princípios defendidos,
o tema corporativo deveu talvez a sua súbita — e breve —
fortuna política à inteligência tácita do Parlamento.
N a história dos corpos e comunidades, a crise de 1776
marca, independentemente do seu desenlace, um ponto crítico
sem regresso. Nada voltaria a ser como dantes. O édito de
Agosto não constitui, aliás, uma verdadeira restauração. Pro­
posto como uma solução parcial, o texto preparado por Mau-
repas conhece à partida apenas uma aplicação puramente
parisiense antes de ser posto em prática em Lyon (Janeiro de
1777), e de ter sido alargado depois às cidades da competên­
cia do Parlamento de Paris (Abril de 1777), à Normandia
(Fevereiro de 1778), ao Rossilhão e à Lorena (Maio de 1779);
para além disso, sempre reafirmando a validade do princípio
corporativo, aponta claramente os abusos e disfunções de que
o antigo sistema estava minado. O édito inscreve-se, aqui
na continuidade de uma política monárquica que, desde o
final do século XVI pelo menos, se esforçou por regulamen­
tar e racionalizar o funcionamento dos corpos; se em lugar
CAPÍTULO VI 207

de o referir às medidas de Turgot, que apaga, o comparar­


mos aos textos mais antigos que estabelecem esta política,
verificamos que parece mesmo mais decidido e mais coerente
que os seus predecessores30.
Por mais que possamos segui-la, a nova política teve efei­
tos muito limitados. Aplicado ao reino de maneira incom­
pleta, o texto era de execução delicada e parece ter descon­
tentado muita gente, tanto junto daqueles que se tinham
aliado ao édito de abolição das comunidades, como entre
aqueles que tinham, no seu entusiasmo, aplaudido o seu res­
tabelecimento. Ele impunha uma reorganização total, um novo
recorte profissional (e, assim, portanto no futuro, uma outra
divisão das actividades), mas também novos direitos a res­
peitar: perturbava uma paisagem conhecida sem todavia ofe­
recer um projecto claro e mobilizador para o futuro. A este
respeito o sentimento de triunfo expresso pelos Seis Corpos
parisienses no Outono de 1776 corre o risco de nos despis­
tar, pois estes constituem uma aristocracia no interior do
mundo corporativo, um meio restrito, altamente politizado
o qual, segundo tudo indica, mantém durante os meses que
dura a crise — e bem para além dela — laços estreitos tan­
to com o Parlamento como com certas facções do ministério.
Nada garante pelo contrário que um tal discurso político seja
representativo das posições do conjunto dos juizes dos ofícios.
À extrema politização e à determinação dos Seis Corpos cor­
respondem em muitas outras comunidades uma mobilização
incerta e uma hesitação visível acerca da atitude a adoptar
face ao novo rumo. Encontramos, sem surpresa, reflexos
comuns: a defesa dos direitos adquiridos, as tentativas de
impedir o recrutamento, a hostilidade para com as confra­
rias (que o édito de Agosto de 1777 não restabeleceu), esfor­
ços para se subtrair ao controle do Estado (em particular no
que diz respeito à liquidação das dívidas). Mas estes compor­
tamentos regressivos não constituem uma política. Os últimos

30 Acerca desta política monárquica cujos princípios são regular­


mente contraditos pela prática de governos constrangidos por urgên­
cias financeiras, remeto para as obras gerais de Martin Saint-Léon,
Olivier-Martin e Coornaert.
208 CORPOS E COMUNIDADES

anos do sistema corporativo dedicam-se, de facto, a aperfei­


çoar o regulamento renovado de 1776, a contorná-lo ou a
atrasar, tanto quanto possível, a sua entrada em acção, sem
que nunca se tenha a impressão de que os corpos e as comu­
nidades tenham maciçamente visto nele a oportunidade de
uma nova distribuição de papéis.
Efectivamente, depois de o debate ter mobilizado e divi­
dido a opinião em 1775-1776, tudo se passa como se o tema
corporativo se tivesse rapidamente tornado menos sensível.
Durante o Inverno de 1776, as Memórias Secretas tinham fre­
quentemente referido as polêmicas abertas entre «economis­
tas» e «coibertistas»51; mas o restabelecimento do mês de
Agosto e suas consequências deixaram visivelmente de des­
pertar o seu interesse — e, provavelmente, para além do do
redactor, o das elites políticas e intelectuais. Tudo se passa
como se, apenas conquistada, a reforma das comunidades —
uma das raras tentativas do Antigo Regime «para melhorar
as suas instituições permanecendo fiel aos seus princípios»3132
— tivesse perdido toda a importância no debate político.
Deveremos como François Olivier-Martin, concluir daí que
a iniciativa estava mal «situada» — que foi mal apreendida
— que se tratou de uma tentativa incerta, encurralada entre
o radicalismo do programa de Turgot e a liquidação defini­
tiva de 1791? Isso equivalería a aceitar uma perspectiva te-
leológica que parece difícil de sustentar. Se a história política
e social dos corpos e comunidades parece simultaneamente
culminar e parar em 1776, é mais verosímil que seja porque
a polêmica desencadeada pela sua abolição provisória consti­
tuiu uma ocasião excepcional: ao radicalizar os termos do
problema, provocou uma espécie de unanimidade no interior
de cada um dos campos em confronto. Apesar do desmenti­
do de Turgot pelo rei e da chegada dos seus rivais terem
sido vistos como uma vingança política e o édito de Agosto
como a vitória de uma coligação tradicionalista, a nova le­
gislação era moderada demais e permanecia demasiadamente
inacabada para servir de argumento — ou de pretexto — a

31 Mémoim secrets, tomo 9 (1776), pp. 41, 45, 46, 47, 50, 54, 56, 69-70.
32 Fr. Olivier-Martin, Uorganisation corporative, op. cit., p. 541.
CAPÍTULO VI 209

posições nítidas. Daí decorre, talvez, uma dupla consequên­


cia: o futuro do sistema corporativo deixa de ser encarado
como um questão decisiva enquanto que a antiga e aparente
unanimidade dos mestres é substituída por um discurso ma­
nifesto frequentem ente contraditório.
O primeiro ponto tem sido frequentemente sublinhado.
Até às leis da Primavera de 1791 inclusive, a questão corpo­
rativa deixa de ser determinante. Já não aparece em primei­
ro plano nos anos pré-revolucionários e o seu lugar perma­
nece modesto nos cadernos de agravos. Sobretudo estes, mes­
mo quando emanam directamente das comunidades, não se
mostram nada inclinados a fazer uma exploração política mais
ampla do problema. Dedicam-se mais a denunciar os abusos
da fiscalidade real do que a defender uma concepção irre­
dutível da organização social33. Nas primeiras semanas da
Revolução, os corpos e comunidades também terão maior
destaque no debate político. Ou se aí aparecem, já não é de
forma nenhuma nos termos que se tinham imposto nos anos
1770 — os da polêmica liberal — mas a favor da denúncia
multiforme dos privilégios que culmina na noite de 4 de
Agosto. Vejamos mais de perto. O problema afunda-se na
massa de moções suspensas pela Assembléia e a sua formula­
ção permanece pelo menos incerta. Que se decidiu ao certo?
Uma simples «reforma dos corpos de ofícios», como sugere
a recapitulação estabelecida no final da sessão pelo presi­
dente da Assembléia, Le Chapelier? Ou uma liquidação pura
e simples que afectaria as corporações juntamente com toda
uma série de outros corpos privilegiados, tal como prevê o
texto provisório de 5 de Agosto: «Todos os privilégios parti­
culares das províncias, principados, cidades, corpos e comu­
nidades, quer pecuniários, quer de qualquer outra natureza,

33 Cf. por exemplo as observações de L. Hunt, Revolution and Urhan


Po/itics in Provincial France. Troyes and Reims,1786-1790, Stanford, 1978,
pp. 48-54 (e, a propósito de Reims, o estudo mais antigo de A. Bur-
guière, «Société e culture à Reims à la fin du XVIIIe siècle: Iadiffu-
sion des 'Lumières' à travers les cahiers de doléances», Annales ESC, 1967,
2, pp. 303-339- Cf. também Perrot, Genèse d’une ville modeme, op. cit.,
t- 1, pp. 341-342.
210 CORPOS E COMUNIDADES

são abolidos sem apelo e permanecem confundidos nos direi­


tos comuns de todos os Franceses?» Nem uma coisa, nem ou­
tra. A hesitação é cortada pela elisão uma vez que a redacção
definitiva de 11 de Agosto suprime no seu artigo 10.° qual­
quer referência aos corpos e comunidades — sem parecer
levantar emoção34. A mesma relativa indiferença se constata,
desta vez em sentido inverso, quanto ao voto do decreto de
Allarde e da lei Le Chapelier em Fevereiro e Junho de 1791.
Ao mesmo tempo que passa para segundo plano o tema
corporativo deixa de alimentar posições radicais a nível da
opinião. Tem-se vindo a sublinhar desde há muito tempo a
diversidade dos votos emitidos nos cadernos de reivindica­
ções quanto ao futuro das comunidades e E. Martin Saint-
-Léon, em particular, tentou em parte dar conta deste fenômeno
sugerindo, por exemplo, que as cidades de importância se­
cundária teriam sido favoráveis à sua abolição enquanto que
as grandes cidades teriam defendido a sua manutenção, e
até mesmo nalguns casos um regresso à situação anterior a
177635. Mas esta oposição não se encontra apenas nos cader­
nos do Terceiro Estado, cuja redacção é, como se sabe, pro­
duto de arbitragens complexas: encontra-se mesmo em ca­
dernos de comunidades ao nível das assembléias primárias.
Apesar de a posição abolicionista continuar a ser, como era
previsível, minoritária entre eles, não está ausente e são nu­
merosos aqueles que, pelo contrário, pedem uma liberaliza­
ção do édito de restabelecimento (diminuição dos direitos
de entrada, liberdade de comércio). Em Caen, por exemplo,
«uma ligeira maioria dos ofícios foi favorável ao reforço da
liberdade econômica»36. Faltam as análises de pormenor que

34 Cf. J. P. Hirsch, La Nuit du 4 Aoüt, Paris, 1978, pp. 184, 208


e 222; e A. Mathiez, «Les corporations ont-elles été supprimées en
principe dans la Nuit du 4 Aoüt?», Annales historiques de la Révolutiort
française, 1931, pp. 232-237.
35 Por exemplo E. Martin Saint-Léon, Histoire des corporations de
métiers, op. cit., pp. 605-615.
36 J.-Cl. Perrot, Genese d’une ville modeme, op. cit., t. 1, p. 342: Três
cadernos são favoráveis à destruição das corporações, doze a um regres­
so ao estado de coisas anterior a 1776, dezasseis à nova regulamenta­
ção incluindo uma diminuição dos direitos de entrada.
CAPÍTULO VI 211

permitiriam compreender as razões destas escolhas. Mas elas


fariam aparecer, sem dúvida, no interior do mundo dos cor­
pos de ofícios, fenômenos de concorrência ou conflitos entre
os ramos. Para alguns ofícios, a abolição da regra corporati­
va é encarada como a condição da sua sobrevivência face a
uma comunidade mais poderosa que as esmaga: é, por exem­
plo, o caso dos tamanqueiros de Orléans que se sentem opri­
midos pelo monopólio dos sapateiros: para eles «estas peri­
gosas disposições não são menos contrárias aos interesses da
sociedade que aos direitos da natureza. Favorecem o monopólio,
impedem a concorrência e são fonte de rivalidades odiosas».
Para outros, a diminuição de barreiras parece ser um preâm­
bulo necessário ao pleno desenvolvimento das suas activida-
des econômicas37. Em suma, tudo se passa como se o proble­
ma já não fosse colocado ao nível de princípios gerais abs-
tractos, tal como tinha sido aquando do debate dos anos 1770,
mas como se ele se tivesse de alguma maneira desideologi-
zado. Voltamos a encontrar, sem dúvida, no texto dos cader­
nos a argumentação, que passaria a ser canônica dos par­
tidários e dos adversários da «liberdade»: mas esta serviu
muitas vezes de capa a reivindicações e interesses mais cir­
cunscritos, mais locais. A constatação convida, mais uma vez,
a não aceitar como evidente. a descrição unanimista das co­
munidades e sugere que se estude com maior pormenor as
linhas de divagem que as separam, bem como as modalida­
des dos seus conflitos internos.
Deveremos concluir daqui que os ofícios, fechados sobre
si mesmos estiveram inteiramente afastados dos processos
políticos que minam os últimos anos do Antigo Regime?
Certamente que não. Mas poderia ser simultaneamente pru­
dente e eficaz distinguir modos de intervenção e expressão
política onde, muitas vezes, se fazem generalizações a partir
de alguns exemplos mais conhecidos.
Vejamos o caso dos Seis Corpos parisienses, cujo com-

37 Exemplos em Martin Saint-Léon, op. cit., p. 614. Para um caso


singular mas esclarecedor que antecipa esta individualização dos com­
portamentos, cf. Ménétra, Journal de ma vie op. cit., p. 244 e o co­
mentário que lhe faz D. Roche, ibid., pp. 349-350.
212 CORPOS E COMUNIDADES

portamento durante os últimos anos do regime corporativo


pode ser seguido em pormenor graças a uma notável fortuna
documental38. Assiste-se, aqui, a uma politização crescente,
determinada, explícita. A partir do édito de Agosto de 1776,
esta elite — reformada — das comunidades da capital torna
públicas as suas escolhas e as solidariedades que reivindica.
Os Seis Corpos louvam o rei, é certo, mas afirmam mais ain­
da a sua gratidão para com o Ministério, o Intendente-Geral
da Polícia e sobretudo o Parlamento que defendera com tan­
ta determinação a causa dos corpos de ofícios. Mas não fi­
cam por aí. Nos anos que se seguem, não cessam de se ex­
primir numa linguagem que sentimos impregnada pelo léxi­
co e pelos motivos da retórica parlamentar ao mesmo tempo
que se transformam progressivamente em agentes políticos
autônomos. De facto, a sua solidariedade com os magistra­
dos vai muito longe: não é verdade que os vemos, em 1787,
censurar Brienne a propósito do exílio do Parlamento e de­
pois, no regresso da Corte, regozijar-se publicamente com o
seu restabelecimento? Saudar, em Setembro de 1788 a che­
gada de Necker como último recurso «da nação mergulhada
no mais profundo desamparo»? A sua convicção de ter um
papel político essencial a desempenhar tanto quanto valores
a defender exprime-se por fim na reivindicação de obter de­
putados eleitos para os representar enquanto tais perante os
futuros Estados Gerais. A monografia de Desèze e depois a
de Guillotin (Dezembro de 1788) — a segunda apresentada
em forma de petição assinada perante o notário e contudo
transmitida ao rei pelos magistrados! — marcam assim o
ponto culminante da coligação estabelecida entre os Seis
Corpos e o Parlamento em nome da defesa das instituições
fundamentais. Tudo muda, bem entendido, na Primavera de
1789. Não que os Seis Corpos renunciem quanto ao que quer
que seja a intervir em Maio junto dos Estados Gerais, e de­
pois em Agosto junto da Assembléia: mas se despertam aí
alguma atenção e mesmo a promessa de alguma cumplici-

38 A. N ., Registres de délibération des Six-Corps, K K 1343. Este do­


cumento foi assinalado e explorado por Martin Saint-Léon, op. cit.,
pp. 595-605.
CAPÍTULO VI 213

dade, já não acham o eco e o apoio que, durante uma dezena


de anos, lhes tinha assegurado uma extraordinária presença
política. E preciso sublinhar no entanto que se trata de um
caso verdadeiramente excepcional e que os grandes juizes de
ofícios parisienses, que têm acesso a todos os lugares de dis­
cussão e de decisão políticas, não poderiam ser considerados
representativos do mundo dos ofícios no seu conjunto. Na
verdade, quando proclamam «a necessidade absoluta das cor­
porações numa grande cidade», estarão a defender algo para
além das suas próprias conveniências? E a politização dos
Seis Corpos poderá ser separada de uma tentativa decidida
de chamar a si a representação e o governo das corporações
parisienses?
N a sua imensa maioria, as comunidades permaneceram
afastadas desta grande política parisiense e versalhesa. Não
concluiremos daí, que tenham permanecido insensíveis ao
debate — quanto mais não seja porque repercutem frequen­
temente os seus ecos enfraquecidos, os seus temas e por ve­
zes apenas as suas palavras. Mas sobretudo puderam partici­
par aí segundo modalidades diferentes e a sua entrada na
política pôde ser ocasião de aprendizagens indirectas. Para
além das representações que os ofícios produzem por si,
M. Sonenscher e S. L. Kaplan convidaram recentemente os
historiadores a interessar-se pelo que se passa no interior
das próprias corporações, nos seus funcionamentos mais re­
gulares — quando temos possibilidades de os encontrar59.
A nível dos mestres, a ideologia corporativa é teoricamente
igualitária, solidária, fraterna. Mas as verdadeiras relações
são de facto outras e uma estrita hierarquia opõe aos «jo­
vens» e aos «modernos» os antigos que — muitas vezes com
o concurso das autoridades urbanas3940 — monopolizam as fun-

39 M. Sonenscher, «The Sans-Culottes of the Year II: Rethinking


the Language of Labour in Revolutionary France», Social History, Ou­
tubro de 1984, 3, pp- 320-328; S. L. Kaplan, «The Character and Im-
plications of Strife Among the Masters Inside the Gilds of Eighteenth-
Century Paris», Journal of Social History, 1989-
40 Em Lyon, por exemplo cf. Garden, Lyon et les lyonnais, op. cit.,
pp. 555-556.
214 CORPOS E COMUNIDADES

ções de comando, de gestão e de polícia na comunidade.


A divagem não se reduz evidentemente a uma questão de
antiguidade: opõe uma oligarquia fechada de juizes de ofícios
que se considera como uma sênior pars, à plebe indiferencia-
da dos mestres comuns, e o édito de 1776 reforça mais ain­
da esta «tensão entre uma representação igualitária e um
funcionamento hierárquico», que parece não ter parado de
acentuar-se durante os séculos XVII e XVIII e que culmina
nas últimas décadas do Antigo Regime. Quer se trate da
gestão dos assuntos comuns ou dos processos eleitorais, as
assembléias gerais do corpo, parcimoniosamente reunidas
porque sempre receadas, tornam-se então o lugar privilegia­
do desses conflitos. Os mestres mantidos afastados do poder
são levados, como mostra muito inteligentemente Kaplan, a
pôr em causa ao mesmo tempo a representatividade e a res­
ponsabilidade (accountability) dos juizes de ofícios e a colo­
car, acerca dos estatutos corporativos, problemas de tipo «cons­
titucional». Mas serão os antigos tal como pretendem, uma
elite «naturalmente» constituída ou não serão, como afir­
mam de forma cada vez mais aberta os modernos, simples
mandatários da comunidade? Nestas duas interpretações con­
traditórias, voltamos a encontrar uma linguagem e motivos
políticos que evocam muitas vezes nos seus argumentos e na
sua forma as polêmicas contemporâneas em torno do papel
dos tribunais soberanos41. Sem dúvida que os mestres que
denunciam a tirania dos juizes de ofícios não serão todos
«republicanos rebeldes» como o pretendem os seus adversários;
constituirão apenas sem dúvida, também, uma minoria acti­
va no mundo dos ofícios, e verosimilmente, no essencial, uma
minoria parisiense. Resta ainda dizer que estes conflitos pro­
porcionaram uma verdadeira aprendizagem política. Sensibi­
lizaram um público profissional com temas reivindicativos,
determinaram-no a inventar estratégias de contestação (que
passam pelo recurso e pela obstrução, mas também por ver­
dadeiras técnicas de mobilização da opinião pública). A eficácia

41 Kaplan, «The Character and Implications of Strife», art. cit.,


pp. 27, 32, 34-35 da versão dactilografada.
CAPÍTULO VI 215

talvez não seja determinante nos anos pré-revolucionários.


Não poderia, pelo contrário ser esquecida no processo de ges­
tação do fenômeno sans-culotte. Por fim, estes conflitos limi­
tados, locais, por vezes minúsculos, puderam enfim ser o lugar
de uma transformação decisiva: a que vai fazer do trabalho
um valor e um jogo de forças político.42

42 Sonenscher, «The Sans-Culottes of the Year II», art. cit., mostra


bem a mobilização do tema do atelier como referência social no ima­
ginário político da Revolução parisiense.
CAPÍTULO VII
com
ARLETTE FARGE

As regras do motim: o caso dos raptos de crianças


(Paris, Maio de 1730)

O motim parisiense de 1750 não é certamente um acon­


tecimento inédito nos anais da historiografia. A sua memória
conservou-se bem viva porque foi objecto de comentários quase
imediatos, de memorialistas e de cronistas. Também chamou a
atenção porque a sua causa imediata — o «rumor» da exis­
tência de raptos de crianças em Paris — pareceu estranho e até
mesmo fabuloso; destaca-se, em todo caso, dos casos vulgares
das emoções cerealíferas e das revoltas antifiscais. Segundo o par­
tido que se escolha, ele pode sucessivamente — ou até mes­
mo simultaneamente — ilustrar a barbárie no declínio do An­
tigo Regime ou a ingenuidade de uma multidão com refle­
xos arcaicos. Pouco importa: este interesse contínuo proporcio­
nou-nos um bom dossier que reúne arquivos policiais, uma
parte das peças da instrução aberta pelo Parlamento na sequên­
cia da agitação, em 25 de Maio de 1750', os testemunhos
de cronistas e por fim leituras sucessivas do acontecimento
que marcou a historiografia dos últimos dois séculos. Fontes múl­
tiplas, heterogêneas também: valeria a pena mostrar, e tenta­
remos fazê-lo noutro lugar, como cada uma delas sugere não
apenas uma relação, mas uma narrativa do acontecimento.
Bem documentado, o motim foi também relativamente
estudado. Desde o trabalho antigo, mas ainda hoje funda­
mental do comandante Herlaut até ao recentíssimo estudo
de Chr. Romon, estas investigações fizeram o reconhecimen­
to essencial da informação existente, fixaram a trama do1

1 Essencialmente: A.N., X2B 1367 e 1368 e B.N., ms. Joly de


Fleury 1101 e 1102.
218 AS REGRAS DO MOTIM

episódio e propuseram interpretações autorizadas2. É este o


caso do artigo de A.-P. Herlaut que continua a ser refe­
rência obrigatória e para o qual nós próprios não deixaremos
de remeter frequentemente. Pareceu-nos no entanto haver
ainda espaço para uma abordagem um pouco diferente do
dossier referido.
O caso dos raptos de crianças assenta, como se sabe, num
fundamento real, apesar de os factos serem bastante mais
triviais do que pretendia o rumor. No Inverno de 1749-1750,
a polícia, seguindo as ordens do intendente-geral Berryer,
decide intensificar a acção contra os adolescentes ociosos que
se encontravam, brincando e passeando por Paris. É posta
em marcha uma operação excepcional e a sua execução con­
fiada a auxiliares da polícia: estes deterão estes jovens «li­
bertinos» conduzindo-os directamente à prisão. De facto esta
iniciativa, destinada a «limpar» a capital — e paralelamente
a enviar alguns reforços para a Louisiana — foi rapidamente
pervertida por aqueles que estavam encarregados de a levar
a cabo. Estimulados, pelos prêmios, a aumentar o número
de capturas, mal controlados por aqueles que os tinham con­
tratado, os «raptores» espalharam o pânico em Paris pren­
dendo sem precauções e indistintamente jovens vagabundos
e filhos de artesãos. Partindo desta situação bem conhecida,
segundo parece, da multidão parisiense, os rumores e as in­
terpretações mais diversos — e também os mais contraditórios
— vão circular na capital. Esta iniciativa intolerável, e as
proporções que atingiu na opinião parisiense, estão na ori­
gem de uma tensão que vai crescendo desde o início da Pri­
mavera de 1750 para culminar nos dias da revolta de 16 a
23 de Maio.

2 Recordamos aqui A.-P. Herlaut, «Les enlèvements denfants à Pa­


ris en 1720 et en 1750», Revue Historique, C X X X IX , 1922, p. 43-61 e
202-223; A. M. Legras, Uaffaire des émeutes parisiennes de 1750: étude
sommaire de la procédure criminelle devant le Parlement de Paris, Monogra­
fia de D.E.S., Faculdade de Direito de Paris, 1966; J . Nicolas, «La ru-
meur de Paris: rapts denfants en 1750», VHistoire, 40, 1981, p. 48-57;
Ch. Romon, «L ’affaire des enlèvements d ’enfants dans les archives du
Chatelêt (1749-1750)», Revue Historique, CCLXX, 3, 1983, pp. 55-95.
CAPÍTULO VII 219

O nosso propósito neste capítulo é voluntariamente limi­


tado. Deixando de lado, de momento, as questões colocadas
pela construção colectiva do acontecimento e pelas leituras
de que é objecto, quisemos centrar a análise numa dupla
abordagem: os comportamentos revoltosos, e as representa­
ções de ordem policial. Através dos primeiros, tentamos ca­
racterizar o motim como uma prática social cuja lógica e
cuja função se exprimem através das formas que assume3;
quanto às segundas, elas sugerem a existência, entre os di­
versos gestores da autoridade, de estratégias sociais e políticas
que podem ser profundamente divergentes.

Práticas do motim

Entre os dias 16 e 23 de Maio de 1750 o motim desloca-


-se dentro de Paris. A sua intensidade varia, de dia para
dia, de lugar para lugar. N a cidade, aparece mais como uma
série de explosões esporádicas sob o fundo de uma inquieta­
ção partilhada do que como um motim geral. Contudo, de
episódio para episódio, as práticas do motim parecem apre­
sentar regularidades que sugerem, como tentaremos mostrar,
uma racionalidade. Observamos assim, durante toda esta
semana de desordem, um deslocamento principal que se ins­
creve no espaço parisiense. Os incidentes surgem sempre como
que acidentalmente, ao acaso; a multidão aglomera-se à vol­
ta de um raptor de crianças, verdadeiro ou suposto. Mas sempre
também, a acção colectiva desloca-se para um lugar já não
ocasional mas fortemente valorizado e fortemente carregado
de sentido: a casa do comissário da polícia. Esta translação
repete-se de dia para dia.
A 16 de Maio têm lugar duas cenas de violência nas mar­
gens do Sena, uma no cais do hotel de ville, outra na Pont-
-Marie. Trata-se, em ambos os casos, da mesma ocorrência: a

3 Referimo-nos explicitamente aqui ao modelo de análise proposto,


para as revoltas cerealíferas é certo, por E. P. Thompson no seu artigo
clássico «The moral economy of the English crowd in the 18th century»,
Past and Present, 50, 1971.
220 AS REGRAS DO MOTIM

detenção de crianças na rua, à vista da população. Aqui, é o


filho de um mestre torneiro conhecido na zona que é tirado
à força das mãos de quem tentava prendê-lo. Mais adiante,
três homens (junto de uma carruagem já cheia de crianças
raptadas) assaltam o filho de um carregador do mercado e as
testemunhas alarmadas perseguem os esbirros. N a Pont-Marie
há feridos, entre os quais um guarda que é conduzido ao
comissário do bairro. Diante da casa deste último, uma nova
e grave escaramuça justifica a intervenção da guarda que
chega a fazer fogo.
A 22, têm lugar violências e aglomerações ameaçadoras
na Rua do Gros-Chenêt, na Cité, e no cruzamento da Croix-
-Rouge; da mesma maneira, habitantes e vizinhos perseguem
um suspeito acusado de raptos de crianças. Também ele é
conduzido ao comissário mais próximo. A tensão aumenta,
os revoltosos estendem correntes à entrada das ruas, partem
montras e procuram armas; há um morto.
No sábado, 23 de Maio, dia considerado por todos os
testemunhos como o mais importante, um auxiliar de polícia
perseguido na Rua de Saint-Honoré é retirado do seu escon­
derijo pela multidão, num edifício do mercado. Os perse­
guidores levam-no ao comissário La Vergée; depois, nova­
mente apanhado pelos revoltosos, é massacrado e o seu cor­
po arrastado até à residência do intendente-geral da polícia
Berryer.
Este cenário repetitivo da revolta não é certamente um
produto do acaso: constitui, pelo contrário, um momento
obrigatório e corresponde pelo menos a três séries de moti­
vações, que se interpenetram.
No espaço urbano, a casa do comissário tem uma locali­
zação específica e privilegiada. Visível ao longe, conhecida
por todos, as suas paredes estão cobertas de editais e de in­
formações. Afixam-se aí as sentenças, os anúncios de conde­
nações; afixam-se aí as disposições tomadas para as cerimônias
reais, as festas ou os Te Deum. A todos estes avisos oficiais,
juntam-se os anúncios de objectos perdidos e até por vezes
denúncias anônimas escritas à mão por algum vizinho malé­
volo. Local de informação, de encontro, de comentário das
novidades, a residência do comissário é também um local
CAPÍTULO VII 221

acessível a todos: é a própria função do seu ocupante que o


impõe. Se acontece qualquer incidente (uma renda que não
se paga, uma fivela de sapato roubada) ou um acontecimen­
to grave (um suicídio, um assassinato, uma escaramuça), é
junto do comissário que se vai. Sempre ou quase sempre dis­
ponível, uma vez que vive aí com a família, o comissário
autua, assina mandatos de captura, acalma os ânimos, tenta
conciliações ou, muito simplesmente, repreende. Encarrega­
do também dos processos civis, está em contacto directo com
a população e é uma personagem simultaneamente familiar,
autoritária e protectora. A sua casa pode parecer tranquili-
zadora uma vez que manifesta aos olhos de todos a sua pre­
sença e o seu poder. A figura do comissário, autoridade e
recurso visível, opõe-se a esse outro pessoal da polícia de
que tanto desconfia o bairro: os inspectores, os auxiliares
de polícia e os «bufos» que se insinuam no seio da popula­
ção e vivem nos mesmos prédios sem nunca ocupar locais
oficiais visíveis.
A mesma lógica manda que o comissário seja a teste­
munha imediata deste paradoxo inaceitável: na Primavera de
1750, a polícia, que se supõe dever proteger a população, é
responsável pelo rapto de crianças bem conhecidas nos seus
bairros. Ainda aqui se joga uma divisão entre uma autori­
dade sem equívoco, manifestada como tal e tranquilizadora,
e a rede mal identificada dos «espiões» da polícia que agem
no seio do povo e contra ele. À primeira, pede-se que reco­
nheça publicamente a duplicidade destas forças ocultas que
ameaçam tanto quanto protegem e da traição ligada a uma
iniciativa que se situa, aos olhos da multidão, fora da lei.
Afloramos aqui a terceira motivação que nesses dias de
revolta conduz a multidão para casa dos comissários. Habi­
tualmente, quando um indivíduo era detido em plena rua
pela guarda, pela ronda ou «por clamor público» era ime­
diatamente conduzido junto do comissário. Era levantado o
auto da sua detenção e efectuava-se a prisão depois de um
breve interrogatório. Era este o procedimento normal, ao qual
a população parisiense estava habituada uma vez que a de­
tenção na rua era coisa corrente. Ora nada se passa assim no
caso que aqui nos ocupa. Havia muitos meses que as crian-
222 AS REGRAS DO MOTIM

ças raptadas pelos auxiliares de polícia eram logo encerradas


em carruagens de persianas corridas que as levavam directa-
mente à prisão de Fort 1’Evêque ou à do Petit-Châtelet, sem
passar pelo comissário. Cada incidente, rapidamente aumen­
tado pelos rumores, mostrava neste erro de procedimento uma
prova complementar das más intenções da polícia. O proce­
dimento excepcional decidido por Berryer vem, por isso, for­
talecer a suspeita de traição.
Quando a multidão arrasta perante o comissário um ho­
mem suspeito ou culpado de rapto de crianças está a impor
de facto o regresso ao procedimento normal e denuncia assim
a existência de uma dupla infracção à justiça: em primeiro
lugar, o rapto e, em seguida, as formas de detenção. Condu­
zir o suspeito perante o comissário é restabelecer o caminho
normal de qualquer detenção.
Por detrás da desordem destas aglomerações espontâneas,
as deslocações repetitivas da multidão são assim, racionais e
demonstrativas. Racionais porque a casa do comissário é um
local familiar e visível. Demonstrativas porque é intolerável
que as detenções se façam sem ordem do comissário e por­
que é preciso repor esse marco ausente tanto mais essencial
quanto é colectivamente encarado como uma garantia.
Se nos esforçarmos por observar com maior pormenor os
comportamentos revoltosos, encontraremos em cada sequên­
cia formas de organização e lógicas de acção que parecem
confirmar esta análise. Veja-se o episódio mais conhecido e
mais documentado da revolta: o dia 23 de Maio. É consti­
tuído por dois momentos importantes: primeiro, a persegui­
ção e detenção de um auxiliar de polícia efectuam-se num
prédio do Mercado Saint-Honoré; segue-se-lhes uma revolta
em frente da residência do comissário. Podemos tentar uma
leitura mais profunda destas duas sequências que talvez ul­
trapasse a interpretação tradicional.

0 Mercado Saint-Honoré

L o cal p riv ile g ia d o d e reu n ião e d e circ u laç ão , o m ercad o


tem os seu s h áb ito s, e os seu s c ó d ig o s d e troca, q u e r se trate
CAPÍTULO VII 223

de víveres, de trabalho ou de notícias. Para além disso, a


sua função e a sua topografia amplificam o que nele se passa
e habituaram aqueles que aí residem a detectar os sinais de
acontecimentos colectivos.
Enclave acessível por três portas de entrada, rodeado de
prédios, o Mercado Saint-Honoré é um local animado e aber­
to ao mesmo tempo que é também um espaço fechado sobre
si mesmo. Abriga uma população aí radicada há muito tem­
po (por vezes 10 a 12 anos), constituída por revendedores,
ajudantes de talho, cortadores, operários e confrades.
Os testemunhos recolhidos no momento da ocorrência
são significativos. O motim começa por ser um rumor; é,
literalmente, um boato. Antes mesmo que se tenha visto o
que quer que seja — e muitas das testemunhas, aliás, preo­
cupam-se prudentemente em afirmar que não viram nada —
os habitantes do mercado já sabem que alguma coisa se irá
passar. Reconhecem o motim antes que ele se tenha tornado
realidade. Os ajudantes do talho anunciam-no às vendedei-
ras: «Levem-me os meus filhos que vai haver bacanal!»
O acontecimento tem nome, como proclama por toda a parte
o aguadeiro Roland que gritava como se de um aviso se tra­
tasse: «Eis o motim!» Grito público, preparação colectiva,
mas também referência infalível de uma forma social afinal
conhecida — que encontramos sem surpresa de emoção em
emoção, até aos dias de Julho de 1789-
O povo do mercado sabe responder a este aviso. Fá-lo
através de uma série de comportamentos e de gestos que
mostram que identifica bem, quer o motim, quer os seus
riscos. Os interrogatórios mostram, na sua rápida execução,
esta familiaridade com o motim constituída por gestos habi­
tuais. E o caso da peixeira que, aos primeiros sinais de de­
sordem esconde no fundo das canastras as facas de cortar o
peixe, ou da vendedeira de ervas aromáticas que conta o seu
susto e fuga especificando que foi primeiro beber um copo a
casa da amiga prostituta. Confissão da sua familiaridade com
o motim: sabe que é preciso narrar o medo, mas sabe pior
que a sua paragem na taberna se pode virar contra ela, pois
a polícia pode ver aí um indício da sua aprovação.
No entanto, os depoimentos permanecem raros e relati-
222 AS REGRAS DO MOTIM

ças raptadas pelos auxiliares de polícia eram logo encerradas


em carruagens de persianas corridas que as levavam directa-
mente à prisão de Fort 1’Evêque ou à do Petit-Châtelet, sem
passar pelo comissário. Cada incidente, rapidamente aumen­
tado pelos rumores, mostrava neste erro de procedimento uma
prova complementar das más intenções da polícia. O proce­
dimento excepcional decidido por Berryer vem, por isso, for­
talecer a suspeita de traição.
Quando a multidão arrasta perante o comissário um ho­
mem suspeito ou culpado de rapto de crianças está a impor
de facto o regresso ao procedimento normal e denuncia assim
a existência de uma dupla infracção à justiça: em primeiro
lugar, o rapto e, em seguida, as formas de detenção. Condu­
zir o suspeito perante o comissário é restabelecer o caminho
normal de qualquer detenção.
Por detrás da desordem destas aglomerações espontâneas,
as deslocações repetitivas da multidão são assim, racionais e
demonstrativas. Racionais porque a casa do comissário é um
local familiar e visível. Demonstrativas porque é intolerável
que as detenções se façam sem ordem do comissário e por­
que é preciso repor esse marco ausente tanto mais essencial
quanto é colectivamente encarado como uma garantia.
Se nos esforçarmos por observar com maior pormenor os
comportamentos revoltosos, encontraremos em cada sequên­
cia formas de organização e lógicas de acção que parecem
confirmar esta análise. Veja-se o episódio mais conhecido e
mais documentado da revolta: o dia 23 de Maio. É consti­
tuído por dois momentos importantes: primeiro, a persegui­
ção e detenção de um auxiliar de polícia efectuam-se num
prédio do Mercado Saint-Honoré; segue-se-lhes uma revolta
em frente da residência do comissário. Podemos tentar uma
leitura mais profunda destas duas sequências que talvez ul­
trapasse a interpretação tradicional.

0 Mercado Saint-Honoré

L o cal p riv ile g ia d o d e reun ião e d e circ u laç ão , o m ercad o


tem o s seu s h áb ito s, e o s seu s c ó d ig o s de tro ca, q u e r se trate
CAPÍTULO VII 223

de víveres, de trabalho ou de notícias. Para além disso, a


sua função e a sua topografia amplificam o que nele se passa
e habituaram aqueles que aí residem a detectar os sinais de
acontecimentos colectivos.
Enclave acessível por três portas de entrada, rodeado de
prédios, o Mercado Saint-Honoré é um local animado e aber­
to ao mesmo tempo que é também um espaço fechado sobre
si mesmo. Abriga uma população aí radicada há muito tem­
po (por vezes 10 a 12 anos), constituída por revendedores,
ajudantes de talho, cortadores, operários e confrades.
Os testemunhos recolhidos no momento da ocorrência
são significativos. O motim começa por ser um rumor; é,
literalmente, um boato. Antes mesmo que se tenha visto o
que quer que seja — e muitas das testemunhas, aliás, preo-
cupam-se prudentemente em afirmar que não viram nada —
os habitantes do mercado já sabem que alguma coisa se irá
passar. Reconhecem o motim antes que ele se tenha tornado
realidade. Os ajudantes do talho anunciam-no às vendedei-
ras: «Levem-me os meus filhos que vai haver bacanal!»
O acontecimento tem nome, como proclama por toda a parte
o aguadeiro Roland que gritava como se de um aviso se tra­
tasse: «Eis o motim!» Grito público, preparação colectiva,
mas também referência infalível de uma forma social afinal
conhecida — que encontramos sem surpresa de emoção em
emoção, até aos dias de Julho de 1789.
O povo do mercado sabe responder a este aviso. Fá-lo
através de uma série de comportamentos e de gestos que
mostram que identifica bem, quer o motim, quer os seus
riscos. Os interrogatórios mostram, na sua rápida execução,
esta familiaridade com o motim constituída por gestos habi­
tuais. É o caso da peixeira que, aos primeiros sinais de de­
sordem esconde no fundo das canastras as facas de cortar o
peixe, ou da vendedeira de ervas aromáticas que conta o seu
susto e fuga especificando que foi primeiro beber um copo a
casa da amiga prostituta. Confissão da sua familiaridade com
o motim: sabe que é preciso narrar o medo, mas sabe pior
que a sua paragem na taberna se pode virar contra ela, pois
a polícia pode ver aí um indício da sua aprovação.
No entanto, os depoimentos permanecem raros e relati-
224 AS REGRAS DO MOTIM

vamente imprecisos. Ninguém sabe de nada nem reconheceu


ninguém. Esta táctica defensiva, face a inquiridores dema­
siado apressados em recolher informações e denúncias, é tan­
to mais compreensível quanto, se alguém disser demasiado,
se arrisca a ter que prestar contas do seu próprio depoimen­
to. Mas há mais. Tudo se passa como se, deste acontecimen­
to tão bem delimitado, ninguém quisesse reconhecer, depois
do aviso, o desenlace. Todos, ou quase todos, se fecham no
pormenor das suas ocupações quotidianas. A acreditar no que
dizem, o motim parece ter-se desenrolado longe deles, fora
do seu campo de acção e da sua responsabilidade — como se
fosse, no fundo, autônomo.
Depois de ter atravessado o mercado, o motim precipita-
-se para dentro de um prédio onde Labbé, conduzido por
uma cúmplice que trabalhava para a polícia, se tinha refu­
giado. E um outro momento da revolta em que o prédio, à
sua maneira, se torna actor social. A sua estrutura e o seu
habitat vão em parte fabricar comportamentos, conduzir os
acontecimentos, induzir de alguma forma uma sucessão de
acções e de reacções. E o espaço que se atravessa a pouco e
pouco: aqui cinco andares abrigam 70 fogos numa circula­
ção quotidiana de trabalho e de intimidade. No rés-do-chão
há oito lojas que se abrem sobre um quarto contíguo e dez
ganchos de talho estão alugados a talhantes. Nos andares,
vive-se e trabalha-se ao mesmo tempo: as engomadeiras têm
as selhas nos quartos, a abortadeira ocupa vários alpendres,
onde também estão instaladas as famílias dos revendedores e
dos assalariados. No sótão, num vasto dormitório, alojam-se,
como é habitual, os confrades; aqui, mais especificamente,
os do principal inquilino uma vez que este é também mes­
tre serralheiro. Quase tudo se comunica: não há nenhuma
diferença entre aberto e fechado; há passagens que dão acesso
aos quartos, quartos que se abrem sobre duas escadas ao mes­
mo tempo e comunicam por um alçapão com o andar supe­
rior, os patamares dão a volta ao pátio formando uma espécie
de varanda, os apartamentos dão uns para os outros.
Quando a população persegue Labbé, utiliza comodamente
esta permeabilidade de um espaço que não autoriza nenhum
segredo. Aqueles que se tentam preservar da intrusão têm
CAPÍTULO VII 225

apenas o recurso a gestos inúteis, porque mal-acomodados às


possibilidades do local: é o caso da mulher que quer impe­
dir que lhe abram a porta e a tapa com um tecido pregado à
pressa, ou de outra, com receio de ser tida como cúmplice,
que retira a capa de repente, cobre com ela a mesa e finge
estar atarefada a passar a ferro.
O prédio é ainda actor social a um outro título: há dois
anos que vivia nele um inspector da polícia, Poussot, bem
conhecido e pouco querido do público, bem como, traba­
lhando para ele, uma mulher de reputação escandalosa. Esta,
cúmplice de Labbé, pensou poder encontrar aí antigas soli-
dariedades. Mas o que acontece é o contrário: a multidão
organiza-se em solidariedade adversa em torno de uma per­
sonagem central, Devaux, o inquilino principal4. A hora não
é propícia à recordação de eventuais alianças com a polícia.
Nesta curta sequência que é a caça ao homem, a multi­
dão vai-se deixar conduzir por este indivíduo, o qual, devi­
do à sua função social costumeira, detém habitualmente a
autoridade. Devaux conduz um jogo seguro: solidário com o
motim, não quer sofrer os seus riscos e aplica-se a conter-lhe
a força dos impulsos, pelo menos enquanto tem por teatro o
espaço que gere. Di-lo claramente aos perseguidores: «Eu
sou o dono da casa.»
Devaux age em dois tempos: começa por «entregar» Labbé,
refugiado debaixo de uma cama, ao mesmo tempo que re­
cusa eventuais excessos; e àqueles que querem atirá-lo pela
janela, opõe-se declarando: «Desembaracem-me dele para não
haver aqui problemas.» Em seguida, temendo pela sua auto­
ridade e atento a evitar que surjam rivalidades a esse respei­
to, apressa-se a fazer sair a mulher da polícia que acompa­
nhava Labbé. Depois de ter sido senhor da calma — a mul­
tidão obedece às suas indicações e Labbé sai do prédio —
torna-se senhor da desordem. Afirmando «não gostar daque­
les e daquelas que denunciam as pessoas», provoca injúrias

4 O inquilino principal é, no século XVIII, o responsável por um


prédio perante o proprietário e as autoridades da polícia. Em contra­
partida, está encarregado da vigilância dos outros inquilinos e da ges­
tão do prédio; é ele também quem se encarrega de receber as rendas.
226 AS REGRAS DO MOTIM

e atropelamentos utilizando as capacidades femininas tradi­


cionais de emoção e violência. Porque são mulheres quem
coloca nas janelas, empurrando-as inclusivamente, para que
insultem a cúmplice e alarmem a multidão que ficara no
exterior. Domínio dos locais, mas também domínio das pes­
soas e percepção imediata dos seus papéis.
Contrariamente ao que se poderia pensar, Devaux não é,
todavia, um condutor da revolta: é uma personagem que,
em função de um estatuto vulgar de autoridade, canaliza a
atenção popular sobre o local tradicional da sua actividade.
Personagem do momento, desaparece em seguida quando ela
se dirige para outro lugar. Reconhecido pela multidão como
detentor de uma autoridade bem vincada sobre o prédio, adequa
todos os gestos à finalidade da acção, utilizando um poten­
cial de solidariedade, o seu poder pessoal, uma gama pre­
visível de sensibilidades sociais, feminina em particular, um
jogo subtil e rápido de incitação e controle. Em suma, serve
por um momento como ponto de apoio à revolta, como per­
sonagem suplente, a partir da qual se realiza uma ordem
através da desordem aparente.

A casa do comissário La Vergée

O segundo momento desta jornada de 23 de Maio orga­


niza-se essencialmente, em redor da casa do comissário La
Vergée, na Rua de Saint-Honoré. É o episódio mais violento
da revolta uma vez que se transforma na batalha entre as
forças da ordem e a multidão que conduz ao massacre de
Labbé. Desta violência são testemunhas, em pormenor e de
forma relativamente coincidente, quer os protagonistas in­
terrogados no âmbito da instrução, quer os cronistas, em
particular Barbier. Todos o evocam como uma desordem e,
na relação dos factos, a acumulação de pormenores concretos
destinados a acreditar a veracidade do testemunho reforça
mais ainda esta impressão.
Ora, nesta aparente confusão, não nos parece abusivo iden­
tificar, uma vez mais, uma ordem. Ou, mais exactamente:
os comportamentos revoltosos parecem conformar-se a um
CAPÍTULO VII 221

certo número de regras. Estas regras remetem por sua vez


para valores que a multidão entende deverem ser respeitados
— e que foram transgredidos pela polícia — , bem como
para um código de conduta que deve ser partilhado. Todo o
episódio pode assim ser lido como uma sequência de nego­
ciações entre o motim e a autoridade, que desmentem a in­
coerência dos gestos e das palavras e cuja brutalidade mani­
festa não deve esconder a lógica.
Numa primeira fase, a multidão conduz Labbé, captura­
do e já maltratado, em direcção à casa de La Vergée. Fá-lo
para obter justiça. De facto o letrado, Louis Paillard e, de­
pois, o próprio comissário, comprometem-se perante os re­
voltosos a conduzir o auxiliar da polícia à prisão e a que
seja feita justiça segundo as regras. O motim, como se vê, é
aqui apenas o meio de chegar a uma transacção. Não é ape­
nas — nem mesmo principalmente — o meio de uma de­
monstração intimidante, mas visa antes de tudo restaurar
entre a autoridade e o povo uma relação encarada como re­
gular. J á insistim os no significado, tanto prático como
simbólico, da residência do comissário no espaço parisiense.
Sublinhámos também que apresentando aí a vítima, dupla­
mente suspeita de crime de rapto e de traição à sua activi-
dade, a multidão não faz mais do que restabelecer, contra
um procedimento incorrecto, uma ordem natural das coisas.
Ela é aliás recebida em conformidade, e o compromisso de
La Vergée mais do que uma cedência à pressão da rua signi­
fica a autorização, através do gesto, ao regresso a uma situa­
ção habitual e aceitável. Encontramos uma prova suplemen­
tar destas afirmações na carta que o intendente-geral da polícia
Berryer, antecipando as violências do dia, dirigia nessa mes­
ma manhã a um outro comissário, Regnard le Jeune:
«Seria necessário, Senhor, no intuito de contribuir para
acalmar a populaça e dissipar as inquietações que apesar de
infundadas parecem aumentar, que no caso de ser conduzido
a vossa casa, quer por essa populaça, quer pela ronda, al­
guém que fosse acusado ou que se suspeitasse de ter querido
deter alguma criança, fosse enviado imediatamente, sem o
manter em vossa casa um só instante, à Cadeia, culpado ou
não, e isto à vista de todo o povo que seria mesmo impedido
228 AS REGRAS DO MOTIM

de o seguir se quisesse. O Senhor Primeiro-Presidente e o


Senhor Procurador-Geral aprovam que faça assim e dese­
jam que lhes deis conta do facto imediatamente, bem como
a mim5.»
Tudo o que era secreto deve ser efectuado a partir de
agora à vista de todos, tudo o que era irregular deve obede­
cer à regra. Para que regresse a calma é preciso, antes de
mais, que a distribuição de papéis volte a ser clara. O que
se censura a Labbé, para além dos raptos de que o responsa­
bilizam, é a indecisão que não deixa de manter acerca da
sua própria pessoa (mesmo no próprio escritório do comissário,
onde pretende ser «aprendiz de comerciante de vinhos sem
condição»), Mas a desconfiança vai bem para além dele. Bar-
bier nota bem que neste caso os suspeitos «perseguidos re­
fugiaram-se todos junto de um comissário, como local de
asilo para a polícia, e todas (essas) pessoas [•••] provaram ser
beleguins, bufos, espiões. Porque se encontravam ali?»
Tudo poderia agora entrar na ordem. Contudo, não é assim.
Uma série de manobras desajeitadas da parte da autoridade
policial vêm arruinar a transacção a que se tinha chegado.
A ronda, que vem buscar Labbé para o conduzir à prisão sob
controle da multidão, comete um duplo erro grave. Numa
primeira fase detém um dos revoltosos no próprio pátio da
residência, provocando assim um assalto geral contra a casa
do comissário que é rapidamente cercada. Depois, durante a
escaramuça que se segue, há um sargento suficientemente
desajeitado para ameaçar uma criança com a alabarda: gesto
particularmente infeliz, nas circunstâncias afectivas que acom­
panham a emoção popular, e que provoca imediatamente ti­
ros. Mas há pior. Perante a ofensiva, o próprio La Vergée se
entrincheira no seu apartamento. Aquele que, pelas suas fun­
ções, é o parceiro obrigatório de toda a negociação da rua
com a autoridade, subtrai-se ao seu papel e falta ao seu de­
ver. Nesse mesmo momento passa, aos olhos da multidão,
para o lado dos suspeitos. A casa do comissário, ponto de
reunião, torna-se, por sua vez, um dos objectivos da vingan-

5 A.N., Y 11 932 e 15 258 (23 de Maio de 1750); citado por Ro-


mon, «L ’affaire des ‘enlèvements’», citado, p. 67.
CAPÍTULO VII 229

ça colectiva. À noite, imediatamente a seguir a ter retoma­


do e massacrado Labbé, o motim falará de voltar à carga
sobre ela, para sancionar mais claramente a fraqueza do co­
m issário.
Mesmo nesta altura, nem tudo estava perdido. A cólera
da revolta desencadeia-se, mas há lugar para formas de tran-
sacção, com jogos de forças definidos, com parceiros parcial­
mente novos, sem dúvida. Uma vez que a autoridade regu­
lar se furtou, o acordo tem que ser negociado de novo a
expensas de outrem. E preciso inventar os termos de um
outro acordo, quer dizer, obter uma resposta de um parceiro
de substituição. A multidão quer, desta vez, recuperar Labbé
e fazer justiça por suas mãos uma vez que a ronda parece ter
traído a sua confiança. Mas esta recuperação, que poderia
ser obtida simplesmente pela violência é, significativamente,
objecto de uma negociação cerimoniosa. Pareceu-nos signifi­
cativo que neste momento da revolta, quase desesperado para
as autoridades policiais, se sinta ainda necessidade de re­
correr aos serviços de um mediador improvisado em vez da
força pura e simples. Quem sai da multidão para assumir
este papel não é um homem qualquer: é Claude-Toussaint
Parisis, «aprendiz da loja de prazeres de Sua Majestade»;
um empregado de nível medíocre, sem dúvida nenhuma, mas
que ostenta a grande libré do rei (insiste-se neste facto qua­
tro vezes no decorrer do interrogatório a que deverá ser subme­
tido durante a instrução). No auge da revolta, só ele parece
estar em condições de se fazer ouvir pelos revoltosos, dos
quais se faz porta-voz, e da ronda, a quem aconselha que
conduza Labbé em vez de se deixar massacrar. A autoridade
cujo longínquo símbolo ostenta nos ombros, impele-o para
diante, acredita-o, apesar de a instrução o repreender mais
tarde duramente por «se ter feito assim mediador» e o con­
siderar conluiado com a rua. Nada nos assegura, é claro, que
o diálogo que vai testemunhar, a 10 de Julho, perante o
magistrado instrutor, tenha realmente tido lugar na tarde
de 23 de Maio. Mas, no fundo, isso interessa-nos pouco —
uma vez que esta testemunha, que se arrisca a tornar-se réu,
precisa, antes de mais, de ser crível. O inacreditável tom de
representação, a ostentação da civilidade que Parisis julga
230 -45 REGRAS DO MOTIM

plausível quando a narra, bastariam para mostrar que se tra­


ta de uma encenação que não é de forma nenhuma casual e
na qual a troca está codificada de forma muito precisa:
«O inquirido responde que vendo o furor daquela popu-
laça e o risco que corria a ronda, foi suficientemente impru­
dente para avançar, vestindo o fato da grande libré, e tiran­
do o chapéu disse: Senhor sargento, acabo de ouvir que se
não derdes satisfação ao público, ele forçar-vos-á e fazer-vos-
-á em pedaços; o sargento diz ao inquirido: Senhor, agrade­
ço-vos, peço-vos que digais à populaça que lhe daremos sa­
tisfação. O inquirido fez a reverência ao sargento, e partin­
do, disse à populaça: o Senhor sargento acaba de me dizer
que serieis satisfeitos, e foi para a loja6.»
Ultimo momento deste episódio: Labbé é entregue aos
revoltosos; depois de uma tentativa vã para fugir, é agarrado
e apedrejado em frente da Igreja de Saint-Roch. Trata-se aí
da cena mais violenta de todos estes dias e os testemunhos,
directos ou não, sublinham a sua crueldade. Todavia, tam­
bém aqui nada foi deixado ao acaso. O corpo massacrado é,
num primeiro momento, arrastado até à residência do inten­
dente da polícia que se pensa, por um instante, assaltar. É a
prova evidente de que para além das acusações que pendiam
sobre o próprio auxiliar da polícia, a multidão nunca per­
deu de vista aquele que considera o principal responsável de
todo o caso. Depois, quando as brigadas da ronda conse­
guem libertar a residência, o corpo é levado numa escada
até à morgue; o cortejo é então seguido pelo povo que o
obriga a passar pela Rua de Saint-Honoré onde proclama, de
alguma maneira, a sua vitória: percurso pleno de significado
uma vez que coloca o desenlace deste dia sob o controle e
sob a responsabilidade da multidão, mas que manifesta tam­
bém que longe de ser tentada a dessolidarizar-se, uma vez
sanada a cólera e acalmado o entusiasmo, ela reivindica, pelo
contrário a coerência da sua acção7.

6 A.N., X2B 1367, interrogatório de 10 de Julho de 1750.


7 A.N., AD III 7, comentário do procurador Gueulette inserido na
sentença do Parlamento de 25 de Maio de 1750.
CAPÍTULO VII 231

A ordem policial

A 24 de Maio, Paris parece ter recuperado a calma. Com­


pete agora ao Parlamento colocar-se como mediador entre o
povo e a autoridade monárquica. O intendente da polícia, o
advogado do rei e o primeiro-presidente do Parlamento re­
digem uma sentença destinada a evitar novas desordens.
A sentença tornada pública e afixada em toda a parte desde
o dia 25 de Maio, designa Severt, conselheiro da Corte, para
dirigir a informação.
A detenção imediata de auxiliares de polícia suspeitos de
rapto, ao mesmo tempo que de revoltosos autores de delitos,
dá em parte razão à multidão: o motim é assim como que
legitimado nos seus motivos, mesmo se os seus excessos são
condenados. E raro que homens da polícia sejam levados a
comparecer perante a justiça8. Principalmente por ocasião de
uma revolta popular surgida contra eles.
Mas este reconhecimento tácito dura pouco. O processo
de instrução demonstra, rapidamente, que o trabalho dos
magistrados se rege por uma única preocupação: sancionar
os revoltosos e proclamar simultaneamente o carácter ina­
ceitável de qualquer expressão que, vinda de baixo, assuma
a forma de um levantamento. Não se esquece, é certo, que a
emoção do mês de Maio tem origem nas acções perturbado­
ras da polícia. Mas a ordem das prioridades não deixa lugar
para dúvidas e importa, em primeiro lugar, punir os excessos
que perturbaram a ordem parisiense. Face a estes, a autori­
dade judicial deve mostrar-se sem hesitações nem remorsos,
receando, como nota o advogado Barbier «deixar ao povo
conhecer a sua própria força que pode ser temível»9. Reor­
ganizam-se as solidariedades. O julgamento da revolta passa
a ser do foro do direito comum. A 1 de Agosto, o Parla­
mento pronuncia a sua sentença e a 3, três revoltosos são
enforcados como exemplo na Praça de Grève. Quanto aos

8 Conhecemos apenas um único precedente, o processo dos ins-


pectores de polícia perseguidos por desvio de dinheiros públicos
em 1716.
9 E. J . F. Barbier, Journal, ed. 1857, t. IV, pp. 432-433.
232 AS REGRAS DO MOTIM

polícias envolvidos e considerados culpados, são repreendi­


dos ou, no máximo, punidos com uma multa simbólica.
Entretanto, o face a face entre juizes e executantes da
polícia revela-se nas lógicas do interrogatório, acerca da sua
respectiva representação da ordem pública, bem como nas
suas estratégias sociais e políticas.
São-lhes comuns duas percepções: o motim é de qual­
quer maneira um acontecimento recorrente que é preciso evi­
tar; a detenção de crianças é uma eventualidade admissível,
que o Estado tem o direito de levar a cabo em nome da
ordem pública e que se justifica aliás pelos pedidos de pri­
são feitos pelas famílias, frequentes na época.
A partir dessas representações partilhadas da ordem e da
desordem constroem-se, contudo, figuras de interpretação di­
ferentes que remetem para práticas distintas.
De facto, no decorrer da instrução, surgem frequente­
mente observações feitas por inspectores, letrados ou auxi­
liares de polícia, irritados ao constatar que os pais, que se
escandalizaram com os raptos das crianças e espalharam o
respectivo rumor, são por vezes os mesmos que faziam pe­
tições a pedir a prisão dos seus filhos. Insistem na dificul­
dade, para a polícia, de estabelecer a diferença entre as ini­
ciativas privadas dos pais e a decisão deliberada, vinda de
cima, de desembaraçar a cidade dos jovens libertinos. Para a
polícia, os dois comportamentos decorrem de uma mesma
representação da tranquilidade pública: a ordem deve ser gerida
pelas autoridades e apenas por elas; a única atitude que com­
pete ao povo é conformar-se com elas. Se os pais se queixam
dos excessos dos seus filhos, a sua iniciativa integra-se lógica
e necessariamente numa ordem cujas modalidades não têm
que ser determinadas por eles. Quando a polícia decide de­
ter jovens, os pais podem apenas reconhecer o bom funda­
mento destas medidas uma vez que se trata de assegurar
uma tarefa de saneamento urbano.
Para as autoridades da justiça, duas reflexões políticas
podem legitimar a detenção de crianças: a criança abando­
nada, o órfão, o miserável, pertencem por direito ao Estado
que pode dispor deles, nem que seja para povoar as colônias
da Louisiana, como o atestam os projectos de ordenação do
CAPÍTULO VII 233

princípio do século10. Para além disso a legislação sobre a


vagabundagem e o jogo autoriza a detenção de «pequenos
libertinos ou devassos» que obstruem os cruzamentos e par­
tem as lanternas, de quem a população se queixa frequen­
temente.
Todavia, estas detenções acompanhavam-se de precauções:
os filhos de burgueses e de artesãos são teoricamente poupa­
dos. Evidente vontade de separação social acompanhada da
ideia, sempre reafirmada, de que o «verdadeiiro» povo, súbdito
do rei, não deve ser contaminado pela canalha. Prender os
filhos dos artesãos, seria antes de mais, causar prejuízo
econômico a um grupo social de que o Estado necessita e
não deseja perturbar, privando-o dessa fonte de rendimento
indispensável, e frequentemente lembrada, que é o trabalho
infantil.
Quando interrogam os auxiliares de polícia, os magistra­
dos estão, pois, atentos a denunciar a perturbação pública
que provocou a rapacidade destes, remunerados por cada de­
tenção, que não se preocuparam em distinguir entre as crian­
ças que prendiam. Foi porque não quiseram respeitar estas
distinções simultaneamente elementares e essenciais que fo­
ram os geradores da desordem. Nem a corrupção policial,
nem os direitos do cidadão são visados em primeiro lugar,
mas sim uma má utilização das regras da ordem.
A lógica dos auxiliares de polícia é ainda diferente. Os
«raptores» de crianças são todos assalariados que «trabalham
na polícia quando o senhor intendente quer empregá-los».
Mudam frequentemente de actividade segundo as necessida­
des e as ordens da polícia. Tanto fazem serviço na morgue,
como são requisitados para vigilância dos cocheiros de praça
e obtêm frequentemente as suas comissões por recomenda­
ção dirigida ao intendente-geral. A sua situação é tanto mais
precária quanto é totalmente dependente. Esta submissão não
autoriza nenhum desvio, declara um deles no momento da
instrução, «sob pena de morrer de fome».
Sujeição pessoal desejada pelo próprio Berryer, que fun-

10 Cf. o projecto de ordenação de la Boullaye, H 11, B.N., ms,


Nouv. Acq. fr., 1619.
234 AS REGRAS DO MOTIM

damenta nela a sua eficácia. Àqueles que propõem uma so­


lução mais «conveniente» — que os agentes fossem pagos à
tarefa e não por detenção — , Berryer respondeu brutalmente:
«Isso seria um lugar de cônego. Não quero lugares desses
junto de mim. Quero que me dêem a mercadoria e pago em
dinheiro.» Diz claramente a lógica de um sistema em que
rentabilidade e obediência devem ser uma coisa só.
Estritamente limitados, os auxiliares podem apenas opor
às ordens vindas de cima uma reticência feita de hesitações,
de prudência, por vezes de precauções expressas (dois auxi­
liares fizeram assim o relato da sua missão).
As suas reticências não são morais, mas fundadas sobre
um saber social imediato que oos distingue dos juizes ou das
autoridades. Conhecem os movimentos de rua e sabem bem
que é provocatório deter crianças em pleno cruzamento, e
ocasião de revolta cometer tais raptos. A partir daí, preser-
vam-se dos riscos disfarçando-se ou afastando-se rapidamente
quando o povo acorre, mas sabem também que se trata de
recursos frágeis. Como o povo a que pertencem e com o qual
partilham todas as formas de sociabilidade quotidiana, re­
conhecem os instantes em que se formam colectivamente re­
voltas e violências, prevêem os gestos habituais da resposta
popular que fará deles as vítimas privilegiadas da cólera
pública. Porque são «vizinhos ou amigos» — como dirá um
pai indignado com o desaparecimento do seu filho — aper­
cebem-se muito melhor do que os juizes de como a detenção
pública provoca, evidentemente, a desordem.
As suas hesitações, relatadas ao juiz, traduzem, não um
desacordo de fundo (muitos deles não têm nenhuma estima
por estas crianças que vagabundeiam sem respeitar o tempo
obrigatório de escola, do catecismo e do trabalho) mas uma
inteligência imediata das práticas sociais e uma construção
lógica do acontecimento.
Voltamos a encontrar estas múltiplas clivagens da ordem
pública quando chega o momento da distribuição desigual
de penas, que coloca o motim no centro das preocupações
judiciais, em vez dos raptos de crianças os quais, apesar de
reconhecidos, passam a ser considerados como um simples e
abusivo pretexto para as perturbações. Os relatos dos cronis-
CAPÍTULO VII 235

tas e dos memorialistas, o comentário manuscrito do procura­


dor do rei, Gueulette, testemunham da impossibilidade das
elites em dar conta dos factos enquanto tais e aceitá-los sem
impor sobre eles esquemas de interpretação que apelam para
acções exteriores à revolta propriamente dita: voltamos a encon­
trar aqui, sem surpresa, a obsessão espontânea do complot.
A sentença do Parlamento reitera a visão da ordem pública
tal como as autoridades a concebem nesta primeira metade
do século XVIII. A tese adoptada não muda nada, aliás, de
revolta para revolta: opõe entre si, no seio do «povo», três
grupos sociais e furta-se ao problema das responsabilidades.
Há por um lado, os delinquentes «mal-intencionados que
incitam a populaça» e por outro, um povo impressionável e
sempre pronto a seguir os agitadores que o desviam. Mas há
também «pessoas sensatas, comerciantes, burgueses e arte­
sãos honestos», que se assustam, se inquietam ao ver a de­
sordem instalar-se na rua e incitam a polícia à severidade,
achando que a «brandura» é vã e que é preciso dar o exem­
plo. Neste ponto da explicação dos acontecimentos, a polícia
rejeita a responsabilidade das desordens pela falta de zelo
dos soldados da ronda, do seu desinteresse e até pela sua
cobardia: «Em vez de fazer respeitar a lei à canalha, é ela
que lho faz a ela.» É aqui que é preciso procurar aqueles
cuja punição pública servirá de exemplo.
O inquérito conduzido pelos inspectores da polícia é re­
velador, principalmente o de Roussel que expõe os seus vários
métodos ao intendente-geral num relatório datado de 25 de
Maio de 1750 — dia do anúncio oficial da instrução. Põe
em campo uma rede de informadores, espiões e mesmo de
mulheres — que se supõe passarem mais facilmente desper­
cebidas — permitindo identificar nas tabernas e nas hospe­
darias «aqueles que são de todas as revoltas» ou aqueles que
se deixaram levar por más intenções. Estes formarão o grupo
dos suspeitos.
De entre eles, serão escolhidos três amotinados para se­
rem enforcados. A sua origem social prevalece, sem dúvida,
sobre os motivos de acusação que lhes são imputados: é pre­
ciso justificar a tese dos agitadores sem que o mundo dos
artesãos, noutras ocasiões autor de levantamentos legítimos,
236 AS REGRAS DO MOTIM

se possa sentir ameaçado. Um dos três, com apenas dezasseis


anos de idade, serve de forma exemplar esta causa oficial: os
interrogatórios mostram como os juizes o acusam primeiro
de um passado de vagabundagem, de vadiagem nocturna e
de ladroagem testemunhado tanto pelos vizinhos como pelo
pároco. Sobre este pano de fundo, avançado deliberadamente,
a sua participação no motim prova, no caso de ainda ser
necessário, a que ponto é «um dos mais activos a excitar a
populaça e a revoltar-se contra a ronda e os agentes da polícia».
Urbano desde «sempre», situa-se fora do mundo da ordem e
do trabalho; portanto, não é difícil de identificar e de julgar.
A execução na Praça de Grève faz desaparecer assim o
que foi a ocasião da revolta para tornar memorável apenas a
desordem e o seu único motor, a iniciativa dos «profissio­
nais da revolta». Porque uma ordem essencial só poderia opor-
-se e impor-se a uma desordem comparável.
C A P ÍT U L O V III

M aria Antonieta

«A calúnia tinha-se dedicado a perseguir a rainha, mes­


mo antes daquela época em que o espírito de partido fizera
desaparecer a verdade da superfície da Terra. A causa disto
é uma triste e simples razão: ela era a mais feliz das mulhe­
res. Maria Antonieta a mais feliz! Ai! Essa foi a sua sorte e
o destino do homem é agora tão deplorável que o espectáculo
de uma brilhante prosperidade é apenas um presságio funes­
to!» É em Agosto de 1793, dois meses antes do seu fim no
cadafalso, que Mme de Staèl resume assim a trajectória de
Maria Antonieta nas suas muito apologéticas Reflexões sobre o
Processo da Rainha. Faz mais do que exprimir, magnificamente,
a compaixão de uma mulher por outra mulher. Toca no se­
gredo de uma vida que teria podido, que deveria ter sido,
apenas, medíocre, e que oscondicionalismos da sua época
transformaram num destino heróico. Diz sobretudo de for­
ma clara aquilo que, bem mais do que a desgraça, faz a sua
importância e a sua involuntária exemplaridade: o registo
do público e do privado surgem misturados aí de uma forma
até aí inédita a uma tão curta distância do trono de França
e é a felicidade damulher que faz a desgraça da rainha.
Mme de Staèl fixa assim, enquanto Maria Antonieta ainda
vivia, os temas que há dois séculos alimentam uma lite­
ratura prolixa, indiscreta e repetitiva. Terá sido boa? Terá
sido má? O processo da rainha é incessantemente recriado
sem que o inquérito seja aliás muito renovado; interroga-
-se essa biografia romanesca, pormenorizam-se os amores, os
prazeres e as dores, pretende-se pesar escrupulosamente aqui­
lo que permanece indeciso em qualquer experiência íntima;
inventam-se razões para odiar ou amar esta morta lon­
gínqua. Nesta abundante biografia, raras são as tentativas
bem sucedidas de tentar, como fez Stephan Zweig num li-
238 MARIA ANTONIETA

vro que permanece notável', compreender essa vida no seu


tempo.
Nasceu a 2 de Novembro de 1755, última filha da impe­
ratriz Maria Teresa e de Francisco de Lorena, no momento
em que se preparava a grande viragem nas alianças da Euro­
pa que em breve iria determinar o seu destino. No ano se­
guinte, a Áustria e a França estabelecem um acordo para
responder à aproximação, julgada ameaçadora, da Prússia e
da Inglaterra. A nova distribuição internacional conduz Luís
X V à aventura desastrosa da Guerra dos Sete Anos, de que a
França sai destroçada (sem que o seu novo aliado pareça preo-
cupar-se muito com o facto) e privada da maior parte das
suas colônias. Enfraquecido na Europa, o rei não tem outra
escolha se não reforçar mais ainda os laços que o ligam à
Casa Habsburgo, apesar da política antiaustríaca que se de­
sencadeia imediatamente a seguir ao Tratado de Paris (1763)
e que deixará marcas cruéis. Choiseul é, a seu lado, o artífice
desta política. Tenta-se sancionar esta aliança através de um
casamento real. Primeiro, pensou-se encontrar uma princesa
austríaca para dá-la como esposa ao velho rei; depois, numa
das filhas de Luís XV , para a unir ao imperador José, viúvo
pela segunda vez. Nem um nem outro mostraram ter grande
pressa em tomar uma decisão. Choiseul e Kaunitz viram-se
então para a solução mais fácil, que é também aquela que
lhes parece ter mais futuro: preparam o casamento da arqui-
duquesa Maria Antonieta com o duque de Berry, neto de
Luís XV, que a morte do pai, em 1766, tinha tornado del­
fim da França. O princípio fica decretado desde aquela data,
mas o assunto é menos evidente do que parece se nos lem­
brarmos de que o pai do futuro Luís XVI foi um dos adver­
sários mais obstinados de Choiseul e da sua política austríaca.
A mãe, Maria Josefa de Saxe, dedica-se tanto quanto o per­
mitem os meios ao seu alcance a atrasar um casamento de
que não gosta particularmente.
Não serão contudo estas medidas retardadoras o que atra­
sa durante quatro anos a conclusão deste belo projecto, mas1

1 Marie-Antoinette: Bildnis eines mittleren Charakters, 1932; trad. fran­


cesa, 1933.
CAPÍTULO VIII 239

sim uma interminável dança diplomática no decurso da qual


cada um dos soberanos se dedica a tirar as maiores vanta­
gens de uma situação ainda não definida completamente. Do
lado francês, é o meio de controlar melhor um aliado fre­
quentemente incômodo. Do lado austríaco, o casamento fran­
cês é pensado como uma das manobras, essencial é certo, de
uma política matrimonial que vê Maria Teresa dar duas das
suas filhas, Maria Amélia e Maria Carolina, ao mesmo tem­
po, uma a um infante de Parma, outra ao rei de Nápoles.
Nesta estratégia decidida que visa simultaneamente reforçar
as posições dos Habsburgos na Europa e consolidar o Impé­
rio contra as forças que ameaçam desuni-lo, Maria Antonieta,
a última a chegar, é apenas um joguete. Brilhantemente
manipulado, aliás, uma vez que a imperatriz acaba por
arrancar a Luís XV, em Junho de 1769, a carta oficial que
pede a mão da pequena arquiduquesa em nome do delfim.
O contrato pode então ser assinado e depois de um casamen­
to por procuração em Viena, a jovem deixa a sua família e a
sua terra para ser «entregue», com grande pompa, ao seu
novo país. O cerimonial, o último dos grandes rituais deste
tipo do Antigo Regime, tem lugar nas margens do Reno,
perto de Estrasburgo, a 8 de Maio de 1770. Oito dias mais
tarde, os esposos reúnem-se em Versalhes.
A jovem esposa do delfim tem quinze anos, o que não é
extraordinário dados os costumes do tempo. Mas o mínimo
que se pode concluir é que esta adolescente não se encontra­
va preparada para o papel que lhe foi confiado. O facto não
deixa de nos surpreender, uma vez que, desde o seu nasci­
mento, ocupou certamente um lugar nos cálculos complica­
dos da mãe. Cresceu quase inculta e não receberá nunca os
rudimentos de uma aprendizagem intelectual. E viva, mas
superficial: este é o diagnóstico que faz rapidamente o abade
de Vermond quando é enviado de Paris para Viena, em 1768,
para tentar colmatar as brechas da sua educação e que irá
acompanhá-la durante quase toda a vida. «Compreendia-me
bem quando eu lhe apresentava as idéias já explicadas; o seu
raciocínio era quase sempre correcto, mas não consegui ha­
bituá-la a aprofundar uma questão apesar de sentir que seria
capaz de o fazer.» Mas, talvez tanto quanto as suas inclina-
240 MARIA ANTONIETA

ções pessoais, esta formação descuidada dá, sem dúvida, a


medida do que separa as cortes de Viena e Versalhes. Por
um lado, espera-se de uma futura rainha que dê provas de
qualidades morais e de religiosidade, que seja uma mãe fe­
cunda, que escute sem hesitar as directivas de uma mãe que
a colocou onde está a fim de servir fielmente os seus pro­
jectos. Por outro, espreitam-se os seus primeiros passos com
interesse, mas sem indulgência: como conseguirá abrir ca­
minho e afirmar o seu lugar por entre as rivalidades e os
conflitos que dilaceram a corte? Se tivesse sido melhor pre­
parada, Maria Antonieta ter-se-ia saído melhor? É evidente­
mente impossível dizê-lo, mas podemos pensar que o mundo
no qual entra então, lhe teria colocado, em qualquer caso,
problemas insolúveis.
Contudo, não entra nele completamente desprovida de
recursos. A imperatriz forneceu-lhe um mentor, seu embaixa­
dor, o conde de Mercy-Argenteau, simultaneamente conse­
lheiro, confidente e espião. E o homem que mantém Viena
ao corrente das acções e gestos da jovem e do êxito da ma­
nobra política, cuja correspondência primeiro com Maria Teresa
e depois com José II continua a ser uma das nossas melhores
fontes de informação. Por detrás de Maria Antonieta e aci­
ma dela há, sobretudo, esta mãe imperiosa, invasora e que,
até à sua morte, em Novembro de 1780, pesa sobre ela com
todo o seu peso. A imperatriz julga, repreende, comanda.
Esta velha mulher desenganada convenceu-se, mais do que
ninguém da precaridade do seu grande objectivo, mas conti­
nua a governá-lo com mão inabalável. Impôs à filha, à ma­
neira de viático, um «regulamento» religioso e político que
lhe manda ler todos os meses. E durante os dez anos
que dura a correspondência entre ambas, vemo-la meter-se
em tudo: problemas conjugais do jovem casal real, amizades
de Maria Antonieta, mexericos de Versalhes e política exter­
na da França. Fá-lo com uma franqueza e uma brutalidade
que não estão sem dúvida desligadas da irresponsabilidade
que se criticará à herdeira do trono e depois à rainha. Apa­
ga-se apenas para dar lugar ao seu filho José, cuja visita a
Versalhes, em 1777, parece ter indisposto a corte contra a
indiscreta presença austríaca.
CAPÍTULO VIII 241

É atribuída uma tripla missão à esposa do futuro rei de


França. Esta desenvencilhar-se-á mal das três tarefas, sem
que a culpa possa ser-lhe sempre imputada. Mas destas expe­
riências infelizes nasce, a partir dos anos 1770, a lenda negra
de Maria Antonieta, da qual não conseguirá mais escapar
até ao fim da vida. Os seus termos poderão ser alterados, o
tom mais ou menos violento, mas os temas estão fixados.
O primeiro drama é, evidentemente, o de um casamento
que não é consumado antes de 1777 e que é fecundo apenas
em 1778. A jovem não tem culpa nenhuma disso. É Luís,
cujo interesse moderado pelo amor não pressiona a reconhe­
cer, e depois a tratar, uma dificuldade fisiológica menor.
Mas tratando-se de um rei e de uma rainha, o problema não
poderia permanecer na intimidade durante muito tempo.
A fraca virilidade e suposta impotência do herdeiro de Luís
XV são em breve debatidas na praça pública, e da forma o
mais humilhante possível. Para o velho rei, para a impera­
triz e para o seu filho, a preocupação é principalmente de
natureza dinástica e política. A linhagem real deve ser per­
petuada, é necessária uma criança para selar de forma durável
a aliança concluída entre a França e a Áustria. Preocupam-
-se os três sem tomar medidas efectivas para chegar a uma
conclusão necessária. Este malogro prolongado pode trazer
grandes esperanças aos irmãos de Luís, Provence e Artois, e
nada menos que uma substituição na ordem da sucessão do
trono. Portanto, é sem surpresa que os vemos ser o alvo da
maioria dos rumores que circulam quer na corte quer na
cidade. É aí que se joga o essencial. As desgraças do casal
real alimentam a crônica. Recolhem-se e dissecam-se todos
os rumores, espia-se a cama real, espia-se cada minuto do
jovem casal. Troça-se também, pois o que era assunto
de Estado acaba por se tornar também grosseiro mexerico de
rua. Maria Antonieta, arrastada na tormenta, tenta defen-
der-se por vezes, desajeitadamente. Em 1775 permite-se fa­
lar do marido em termos tão violentos que lhe valem ime­
diatamente duras repreensões de Maria Teresa, e tudo leva a
pensar que não se teria tratado de uma ocasião excepcional.
Dá simultaneamente ocasião a todos os comentários malévo­
los. Acaba por nascer uma criança desta união no final de
242 MARIA ANTONIETA

1778: é infelizmente uma rapariga, Maria Teresa, a futura


Senhora real, que preenche insuficientemente uma espera
demasiado longa. Será necessário esperar ainda três anos para
que venha um delfim em 1781, e depois mais um filho e
uma última rapariga em 1785 e 1786. De certa forma esta
prole, cujo destino será por vezes cruel, chega demasiado
tarde. O mal está feito. A intimidade de Luís XVI e sua
mulher tornou-se objecto de uma zombaria pública que não
terá fim. Mas como se poderia acreditar que esta linda rai­
nha pudesse aceitar a condição que lhe impõe a timidez e o
desinteresse do «bronco» do marido? Uma vez que o rei é
impotente, a rainha deve ser evidentemente leviana. Desde
meados dos anos 1770, que se divulga a convicção de que se
consola dos malogros conjugais e é da própria corte que parte
o motivo da «nova Messalina».
Nessa mesma época, enfrenta na corte uma segunda série
de dificuldades. O Versalhes dos últimos anos de Luís XV
está dividido pela rivalidade dos vários círculos. Maria An-
tonieta parece ter tido uma graça que lhe conquistou de início
simpatias, entre as quais as do velho rei. Mas não foi sufi­
ciente para lhe permitir reconhecer-se nesta paisagem com­
plicada e mutável. A imperatriz sua mãe bem podia reco­
mendar-lhe que se mantivesse afastada das facções que se
devoravam reciprocamente: chega sempre o momento em que
é preciso escolher os aliados. Ora a situação era completa­
mente inextricável. A esposa do delfim tem apenas hostili­
dade para com a Du Barry, a amante que reina despudo-
radamente sobre os últimos anos de Luís XV e que pre­
tende através dele reger o reino. Opõe-se-lhe assim, fingin­
do ignorá-la, e aproxima-se das filhas do rei que gostariam
de pôr fim à conduta do pai. Mas, a este conflito de pessoas
e de influências, vem sobrepor-se um segundo que se desen­
rola em frentes opostas. Pois se Maria Antonieta se encon­
tra naturalmente, pela posição que ocupa, ao lado do par­
tido de Choiseul — o homem da política austríaca da Fran­
ça, que conseguiu a realização do seu casamento e que aliás
lhe consagra uma verdadeira amizade — , descobre no cam­
po adverso uma aliança heterogênea que se assemelha, na
desordem, à de Du Barry, as senhoras tias e o seu próprio
CAPÍTULO VIII 243

marido, o delfim, que herdara os sentimentos antiaustríacos


do pai. A desgraça de Choiseul, em Dezembro de 1770, não
põe fim a estas tensões uma vez que o ministro exilado con­
serva durante muito tempo a esperança de regressar e que a
esposa do delfim, fiel na amizade, continua a apoiá-lo nestes
projectos. Esta arranja mesmo ocasião de fazer escândalo en-
contrando-se com ele em Reims, durante as festas da sagra­
ção de Luís XVI. Ora, em momento algum, parece estar em
condições de se orientar no labirinto político da corte. Mais
frequentemente, dá a impressão de ser manipulada pelo círculo
de Choiseul, ou por outros. Uma vez que há ainda, não de­
vemos esquecê-lo, as intrigas dos irmãos do rei e do seu
primo de Orléans. Maria Antonieta intervém fora de tempo,
deixa-se arrastar para assuntos comprometedores como o es­
cândalo de Guines. Mercy, que mantém Maria Teresa ao
corrente desta actividade desordenada, julga duramente este
amadorismo intriguista que apenas lhe vale, afinal, inimiza­
des: «E possível picar-lhe o amor-próprio, irritá-la, manchar
aqueles que para bem da causa querem resistir às suas von­
tades. Tudo isto se opera durante as corridas e outras oca­
siões de prazer.» Nenhum projecto político por detrás des­
tas manobras que constituem o quotidiano da corte, faz o
seu quotidiano, mas um arrebatamento irreflectido que ali­
cerça nos espíritos a convicção de que a estrangeira quer ter
o seu partido.
Afloramos aqui um terceiro registo de manobras desajei­
tadas, de que Maria Antonieta não poderia ser tida como
única responsável, mas cuja acumulação alimentará em breve
um dos principais capítulos da lenda negra. A mulher do
delfim, que se quis que fosse naturalizada solenemente à sua
entrada em França na Primavera de 1770, critica-se por ter
continuado a ser, no seu coração, a Austríaca. A incessante
pressão de que é objecto, por parte da mãe, explica sem dúvida
esta reputação. Pois, ao mesmo tempo que lhe recomenda
que se mantenha afastada da política francesa, Maria Teresa
não pára de repetir a sua filha que é alemã e deve permane­
cê-lo no meio dessa corte fútil. Faz mais: pede-lhe desde
muito cedo que intervenha para defender junto do rei e dos
seus ministros os interesses do Império. Não é verdade que
244 MARIA ANTONIETA

desde o primeiro ano Mercy lhe dá esperanças de que «Ma-


dame la Dauphine governará certamente o príncipe seu es­
poso»? E portanto de Viena que chegam as instruções que
lhe mandam orientar as decisões e as escolhas.
A imperatriz, que exige ser informada de tudo, desejaria
pesar na escolha dos ministros de Maurepas, em particular
na nomeação do titular dos Negócios Estrangeiros em 1774.
Em 1778, pressiona a rainha para que faça «bom uso do seu
ascendente sobre o rei» para orientar a posição francesa no
caso da sucessão da Baviera: «Preciso [...] de todos os vossos
sentimentos por mim, pela vossa casa e pela vossa pátria.»
Este constante apelo a uma fidelidade estrangeira, mesmo
justificada por laços de sangue, acabou por ser conhecido e
foi mal recebido na corte onde os sentimentos antiaustríacos
permaneciam fortes. Foi encarado de forma ainda mais dura
nos anos 1780 quando José II continuava a solicitar as in­
tervenções da irmã. Maria Antonieta, boa filha, acede na
maioria das vezes. Fá-lo com a ingenuidade e a «ligeireza»
que não deixa de deplorar Mercy, a maior parte das vezes
inoportunamente. Sem eficácia também, uma vez que Luís
XVI parece ter rapidamente decidido manter a esposa afas­
tada das suas decisões. Não importa: esta rainha que fala de
mais, que convoca os ministros para tentar manobrá-los, aca­
ba por espalhar a convicção de que serve uma causa que não
é a do reino.
A partir do final dos anos 1770, estão, portanto, fixados,
os traços principais do retrato. Acentuar-se-ão depois, à medida
que a rainha se foi tornando objecto, ainda antes da Revolu­
ção, de uma verdadeira campanha de opinião. Depois de 1789,
alimentarão um ressentimento de uma inacreditável violên­
cia, que se expressará principalmente, numa abundante lite­
ratura de panfletos. As dimensões mudarão ao mesmo tempo
que os interesses em jogo. Mas o repertório de base não será
renovado. Voltaremos a encontrar, durante duas décadas, as
mesmas figuras obrigatórias: a rainha é uma estrangeira; uma
ambiciosa que pretende tirar partido da fraqueza de Luís
XV I; uma mulher, enfim, que os primeiros momentos do
casal real identificaram com o segredo indiscreto de uma
sexualidade que se quer acreditar capaz de todos os desre-
CAPÍTULO VIII 245

gramentos. Três temas que se entrelaçam e se alimentam


uns aos outros, como num dos primeiros libelos escritos con­
tra ela, os Essais historiques sur la vie de Aí.-A. d’Autriche,
reine de Trance, publicado em Londres em 1781 e depois reim-
presso com grande sucesso em 1789: «Antonieta tinha há
muito o projecto de engravidar; era um ponto essencial das
instruções que lhe tinham sido dadas em Viena pela sabida
imperatriz, sua mãe. Permitiu ao seu augusto esposo que
esgotasse todos os seus recursos para este fim; foram tão cur­
tos como vãos. Foi preciso então recorrer a um amante {...].»
E a própria mãe que atira a Austríaca para os caminhos da
vida para levar por diante a sua política. Ora estes temas
não mais deixarão de ser retomados. Encontramos os seus
ecos aquando do processo de 1793, mas também na mono­
grafia em sua defesa que redige dois meses antes Mme de
Staél, que se dedica a refutá-los ponto por ponto; estão pre­
sentes ainda na apologia pérfida que compõe anonimamente
em 1798 o conde de Provence, futuro Luís XVIII, nas suas
Reflexions historiques sur M.-A.
Uma tal constância constitui um problema. Como todos
os rumores, a lenda de Maria Antonieta apoia-se em alguns
factos verdadeiros e num número ainda maior de outros factos
apenas verosímeis; uns e outros são livremente manipulados
e submetidos à sua própria lógica. Não temos a mínima pro­
va da existência dos amantes que tão generosamente se atri­
buem à rainha, para além da longa relação, discreta e com­
plicada, que teve com Fersen; mas as imprudências dos pri­
meiros anos, bem como o estranho par que forma com o
marido, tornaram-nos plausíveis, assim, é portanto como
se tivessem existido. Mais do que o luxo de que se rodeia, o
tenebroso caso do colar, em 1785-1786, torna-se uma de­
monstração flagrante da sua cupidez e crueldade vingativa,
apesar de se ter visto implicada contra a sua vontade e de
nunca ter medido as suas implicações: uma intriga de ro­
mance escandaloso, que atira para a praça pública os maio­
res nomes da corte e na qual a rainha encontra, muito natu­
ralmente, o seu lugar; vítima de uma maquinação, passa,
depois da absolvição de Rohan, por ter sido a sua instigado-
ra. Nos últimos anos da monarquia dá, pelo contrário, pro­
246 MARIA ANTONIETA

vas mais palpáveis da sua vontade de intervenção nos assun­


tos públicos quando os perigos se avolumam e a saída política
da crise se torna cada vez mais incerta. Fá-lo à sua maneira
— desordenada, desajeitada — , mas mais imperiosa do que
no passado. Pretende dizer uma palavra sobre a escolha dos
homens: é ela quem, substituindo-se aos desejos dos notáveis,
obtém a partida de Calonne; é ainda ela quem impõe ao
controlador-geral Brienne, amigo do abade de Vermond, con­
tra Necker. Participa cada vez mais nas juntas ministeriais
e anuncia-se a sua próxima entrada para o Conselho do rei.
Quando tem que se resignar à partida de Brienne, desem­
penha ainda o seu papel na renomeação de Necker junto do
qual Mercy-Argenteau serve de intermediário em Agosto
de 1788. Actividade febril, conhecida de todos os que estão
de fora. Não chega, porém, para fazer de Maria Antonieta
uma manipuladora política, antes pelo contrário. Parece nun­
ca ter compreendido os jogos de força instáveis de uma si­
tuação que não pára de se degradar. Como sempre, empurra
aqueles que lhe estão próximos; quanto ao resto, comanda
sem discernimento mantendo uma atitude de firmeza que
talvez traduza, sobretudo, a sua exasperação perante os sub­
terfúgios do rei e dos seus ministros. Tudo isto não chega
para fazer uma política.
Provadas ou inventadas, todas estas razões não teriam sido
suficientes, sem dúvida, para conferir à figura da rainha a
importância que adquiriu, se não tivessem sido utilizadas ao
serviço de algo que as ultrapassava. E assim que Maria An­
tonieta, que durante muito tempo não passa de uma perso­
nagem medíocre, acabou por encontrar o seu lugar na mito­
logia das grandes criminosas da história: «Mais perversa que
Agripina/ cujos crimes são extraordinários,/ mais lúbrica que
Messalina,/ mais bárbara que Medieis?» Podemos pensar que,
sem se dar conta, evidentemente, ela acabou por encarnar a
imagem mais intolerável da realeza.
Imagem dúplice, aliás, e contraditória, simultaneamente
arrogante e envilecida, que se constitui através de uma du­
pla contra-utilização. Temos por um lado, a rainha que pre­
tende fazer de rei em vez de se satisfazer com as funções
maternais e caritativas que são normalmente as da esposa do
CAPÍTULO VIII 247

soberano. Pela sua insuportável ambição, assume um lugar


na linhagem das amantes reais que se aproveitaram da apa­
tia de Luís XV e acentua a impotência de Luís XVI. E, no
entanto, esta rainha nem sequer é capaz de ser rainha: tenta
subtrair-se à cena pública que há um século acolhia obriga­
toriamente o espectáculo monárquico. Maria Antonieta fez
muito para devolver a Versalhes todo o seu brilho e para re­
ter aí a elite da nobreza europeia. Mas desde muito cedo
exigiu ter, retirada da corte, uma vida privada no meio dos
amigos que escolheu. A tentação não é inédita: Luís XIV
tinha mandado construir Marly, para o submeter imediata­
mente às regras imprevisíveis de um ritual de eleição; Luís
XV tinha arrastado o seu aborrecimento e os seus prazeres
de castelo em retiro, e é com ele, de facto, que começa, no
meio do século, o longo processo de privatização da pessoa
real que contribuiu tão fortemente para afastar o povo do seu
rei, a acreditar no marquês de Argenson que foi um dos
primeiros a compreendê-lo. Ora, tal como recorda Mme de
Campan: «Os reis não têm interior; as rainhas não têm nem
gabinetes nem toucadores. E uma verdade de que nunca po­
deremos convencê-los dem asiado.» Maria Antonieta quer
ignorar esta verdade elementar. Nos seus primeiros anos em
França, pensa poder levar, de festa para baile e de espectáculo
em espectáculo, a vida de uma pessoa privada e a maior parte
das intrigas que sobre ela circulam enraízam-se nesta tenta­
tiva. Depois de 1779, manda arranjar os seus aposentos e
esforça-se por proteger aí uma forma de intimidade. Mas é
com certeza Trianon o que, com a sua simplicidade luxuosa,
mais se opõe a Versalhes: um espaço completamente priva­
do, subtraído ao peso da etiqueta, comandado por uma mu­
lher, onde o próprio rei não é mais do que um convidado;
um local onde a natureza contrasta com a transparência or­
denada do parque e cuja sábia desordem parece simbolizar a
licenciosidade de um pequeno grupo que se liberta dos con-
dicionalismos que a sociedade de corte se impõe a si própria.
Num tal lugar, tudo se torna possível aos olhos daqueles
que aí não são (ou deixaram de ser) admitidos. O favor que
a rainha concede aos seus confidentes, homens e mulheres,
não é em si mesmo um facto inédito. Mas nestas novas con­
248 MARIA ANTONIETA

dições torna-se um gosto inconfessável e uns e outros não


podem deixar de ser vistos como amantes da insaciável sobe­
rana. A mulher torna-se tríbade, o seu capricho «fúrias ute-
rinas». Desde 1775 que Maria Antonieta confia a sua mãe
que, nas canções satíricas que se multiplicam lhe são atri­
buídos «muito liberalmente [...] os dois gostos, o das mu­
lheres e o dos amantes». Quanto às primeiras, a princesa de
Lamballe, e depois sobretudo a condessa Jules de Polignac
cuja convivência cumula de favores espectaculares até mea­
dos dos anos 80; quanto aos homens, o conde de Artois,
irmão sagaz do rei, o «Charlot» desta «Toinette», mas tam­
bém todo o partido de Choiseul e em breve todos aqueles
que reecebe no Trianon. O «jardim zoológico real», os «ani­
mais malcheirosos e ferozes» de que os libelos porão a cabe­
ça a prêmio desde os primeiros dias da Revolução, amigos
fiéis e simples comparsas estão todos aí. Através deles e
com eles, a rainha comete, aos olhos da opinião, um atenta­
do irreparável contra as virtudes da realeza e vê-se por sua
vez arrastada na sua obra de destruição.
Num século que coloca tão alto os valores femininos ao
mesmo tempo que reinventa os do foro privado, Maria An­
tonieta parece propor assim uma espécie de contra-exemplo.
E sancionada pela opinião por ter tentado impor um modo
de vida e é caluniada porque é uma mulher. Mas este juízo
deve ser atenuado. Por um lado porque a rainha, que segun­
do tudo indica tinha uma forte ideia daquilo que represen­
tava, conduziu a sua vida durante muito tempo com uma
imprudência apenas explicável pela inconsciência. No entan­
to, tomou conhecimento, senão de tudo pelo menos de mui­
to do que se lhe atribuía. Sabe-se que sofreu com isso na
ocasião, mas não parece ter querido nunca tirar daí as lições
possíveis. Por outro lado e principalmente porque a sua ex­
periência infeliz o recorda, porque até 1789 — de facto tal­
vez há mais tempo — as rainhas não têm o direito de ser
mulheres iguais às outras. O que transparece como de um
negativo através da lenda pérfida que dela se apoderou é a
figura exemplar da soberana que ela deveria ter sido e à
qual se censura o facto de não se lhe poder identificar. Por
um paradoxo irônico, o destino de Maria Antonieta que tan­
CAPÍTULO VIU 249

to fez para degradar a percepção colectiva das pessoas reais


nos últimos anos do Antigo Regime, demonstra ao mesmo
tempo a força intacta dos valores monárquicos que lhe cen­
suram por ter encarnado pouco e mal.
A este retrato, a Revolução vem acrescentar mais ele­
mentos de uma dramatização e não traços verdadeiramente
novos. O silêncio que acolhe a passagem da rainha aquando
da cerimônia de abertura dos Estados Gerais confirma uma
inimizade antiga, de que os Parisienses deram mostras várias
vezes desde meados dos anos 1780, que contrastava com a
simpatia que durante muito tempo rodeia Luís XVI. Em
contrapartida, Maria Antonieta foi sempre favorável a uma
linha dura. Imediatamente a seguir ao 17 de Junho, faz parte
daqueles que, com Artois e Provence, pressionam o rei a
tentar a prova de força recusando os compromissos propostos
por Necker. Acredita ser ainda possível destituir os deputa­
dos e apelar para a tropa para controlar a situação. Todos os
testemunhos provam que ela multiplica então as interven­
ções para decidir o rei a uma maior intransigência. Não o
consegue e, aliás, a Assembléia primeiro e depois Paris, obri-
gam-no, entre Junho e Outubro, a fazer uma série de con­
cessões que em breve tornarão quiméricas estas bravatas.
Imediatamente a seguir ao 14 de Julho a primeira emigra­
ção fez o vazio em torno do casal real; Artois, mas também
os Polignac e o abade de Vermond fogem, abandonando os
soberanos num palácio deserto que só deixarão para serem
levados à força para as Tulherias.
Maria Antonieta não renunciará nunca à sua hostilidade
para com a Revolução e nunca deu a impressão de que do
seu ponto de vista fosse possível um compromisso. Assim,
também, durante todo o tempo que dura a hesitação acerca
dos verdadeiros depoimentos do rei, é colocada entre os adver­
sários declarados das novas idéias. Evoquemos a conspiração aris­
tocrática ou, mais tarde, o «comitê austríaco»: ela está no
centro de todas as supostas manobras. Quando a 1 de Outubro
de 1789, o banquete oferecido ao regimento da Flandres se
transforma em manifestação de lealdade — que o rumor transfor­
ma imediatamente em orgia — , ela é de novo a primeira a
ser posta em causa. E quando as mulheres de Paris marcham
250 MARIA ANTONIETA

sobre Versalhes, a 5 de Outubro, é contra ela que proferem


ameaças de uma violência inacreditável. E certo que, du­
rante todas estas semanas, a rainha se mostrou de uma «im ­
prudência» (Sagnac) que mostra bem a opção de não ter em
conta a situação política e de agir como se nada tivesse mu­
dado. No dia de São Luís, achou por bem receber majestosa­
mente os representantes de Paris e fazer-lhes sentir,
com altivez, o seu estado de espírito; pelo contrário, infor­
ma que ficou «encantada» com o banquete de 1 de Outu­
bro. Jogadas inúteis para forçar o destino, mas que fazem
dela, agressivamente, a inimiga da Revolução.
Aos soberanos instalados em Paris sob vigilância resta
uma tripla escolha: tentar dialogar com os novos responsáveis;
fugir; obter a intervenção das potências europeias. Nestes
três pontos, as possibilidades e as opções de Maria Antonie-
ta não são muito diferentes das de Luís XVI. Mas, bem mais
do que ele, a rainha afirmará uma vontade e, por vezes, uma
coragem que se destacam das improvisações desajeitadas de
outrora. Coragem, a 5 de Outubro, quando recusa refugiar-
-se em Rambouillet; coragem ainda, quando, apesar das ins­
tâncias de todos aqueles — Fersen em particular — que lhe
aconselham a fuga, escolhe ficar e fazer frente aos aconteci­
mentos. Detesta a multidão, despreza-a, mas não tem medo
dela — o que lhe valerá mesmo alguns êxitos públicos, sem
futuro, é certo. Vontade: são numerosos aqueles que concor­
dam com Mirabeau ao reconhecer que «o rei só tem um homem,
é a mulher». Sente desprezo por esses novos homens e não
tem nenhuma intenção de negociar a sério com eles. Contu­
do, com uma autoridade que surpreende, é ela que faz o
acordo secreto com o tribuno corrupto durante o Verão de
1790. É talvez na improvável correspondência secreta que
mantém com Barnave, depois da fuga falhada para Varennes
e até ao início de 1792, que a mudança de estilo e de tom é
mais sensível. Maria Antonieta joga, com toda a certeza, um
jogo duplo. Tenta ganhar tempo; mostra-se capaz de seguir
uma intriga, de discutir argumentos, de dissimular também.
Melhor ainda, é ela que dá aos seus parceiros provisórios
lições de determinação quando são, em sua opinião, dema­
siadamente prudentes: «Confesso francamente que não pude
CAPÍTULO VIII 251

encontrar nessa sua iniciativa, nem o carácter, nem o desejo


do bem público que me agradaria encontrar neles» (21 de
Outubro de 1791).
Trata-se todavia de tentativas desesperadas para voltar a
controlar uma situação que, menos do que ninguém, pode
pretender dominar. A radicalização progressiva da Revolu­
ção torna ilusória qualquer tentativa de acomodação, ao mes­
mo tempo que se desvanece a esperança de um restabeleci­
mento político favorável à monarquia. Muito antes do desas­
tre de Varennes, a fuga aparece como uma solução incômoda
de tal forma os soberanos se querem demarcar dos emigra­
dos, mesmo que estes sejam os próprios irmãos do rei; estes,
aliás, não lhes facilitam nada as coisas e a rainha queixa-se
abertamente das suas iniciativas ambíguas, da sua lealdade
suspeita. A fuga só teria sentido se se tratasse do primeiro
momento de uma reconquista do reino apoiada não pelos
emigrados, mas pelas cortes europeias. E para esta pressão
política graduada que apela na sua correspondência com Mercy-
-Argenteau, em Abril de 1791, contando mais com o au­
mento do descontentamento em França do que com a inter­
venção armada das potências que só poderia ser um último
recurso. Estas últimas, apesar das suas declarações, não es­
tão nada interessadas em aflorar mesmo de longe os assuntos
franceses. Os contactos estabelecidos depois do Outono de
1790 não conduzem a nada e nem José II, nem o seu suces­
sor Leopoldo — também ele irmão de Maria Antonieta —
reagem: a sua lógica é a da política internacional e o enfra­
quecimento da França interessa-lhes. As instâncias da rai­
nha ficam assim sem efeito. A princesa austríaca acreditava
sem dúvida poder esperar tudo da política familiar que a
colocou na posição em que se encontrava, mas mediu mal o
peso e a razão de Estado e dos egoísmos nacionais. Quando
a guerra é finalmente declarada, em Abril de 1792, as coi­
sas parecem estar finalmente claras. Mas é tarde de mais.
A rainha pode desejar o desastre das tropas da Revolução,
pode contribuir para isso traindo activamente. Mas, não pode
prever nem dominar as consequências internas de um confli­
to que, em poucos meses, derrota a monarquia e transforma
em réus os soberanos destronados.
252 MARIA ANTONIETA

De qualquer forma, a nível da opinião, o destino da rai­


nha estava já determinado há muito tempo. Desde os pri­
meiros anos da Revolução que uma imensa literatura pan­
fletária a tomara por alvo. Esta não começa em 1789, como
se disse, mas desde os anos 1770 com alguns momentos de
maior intensidade, como a campanha de Natais obscenos que
a atinge tão fortemente em 1781 ou ainda os tempos que se
seguem ao caso do colar. Tratava-se de um material prepara­
do, a maior parte das vezes, a partir de Londres, por pan­
fletários profissionais, mantendo laços mais do que ambíguos
com a polícia francesa: entre eles, Théveneau de Morande,
Pelleport — aos quais é necessário talvez acrescentar Brissot
— , incluindo em França o polícia Goupil são os mais conhe­
cidos. Foram eles que constituíram o repertório de base de
toda a produção futura. Mas com a Revolução, as coisas mudam
de dimensão e de significado. Os panfletos passam a ser pu­
blicados em França (acompanhados de referências que tor­
nam hoje a história editorial difícil de determinar); são mui­
to mais numerosos; impressos em papel de má qualidade,
muitas vezes reduzidos a oito ou dezasseis páginas, vendidos
por baixo preço, passam a destinar-se a um consumo alar­
gado (o dos ocasionais ou da biblioteca de colportage enquan­
to que nos últimos anos do Antigo Regime, eram prova­
velmente a corte e a cidade os principais destinatários. Estes
textos foram tanto pior conservados quanto se trata de
material frágil e perecível. A colecção que se pode tentar
reconstituir hoje sugere, no entanto, um desfasamento entre
a conjuntura panfletária e a conjuntura política. E a partir
de 1790, «o ano feliz», que Maria Antonieta se torna a
heroína principal destes libelos, num momento em que o
jornalismo político a ignora ainda e antes que o Père Du-
chesne de Hébert retome a cantilena. Os temas não fo­
ram verdadeiramente renovados, mas tornaram-se mais du­
ros. A libertina transformou-se em prostituta; a intriguista
está sedenta do sangue dos seus concidadãos; a Austríaca
proclama a sua obsessão de trair a Revolução. A escrita tor­
nou-se mais violenta, antecipando uma leitura «popular» à
qual se ajusta até à caricatura. A pornografia torna-se um
meio de expressão política, comprazendo-se em pormenori-
CAPÍTULO VIII 253

zar a suposta lascívia da rainha e do seu «jardim zoológico»,


os panfletos falam à maneira clássica, a dupla linguagem da
obscenidade e da moral. Deixam também transparecer no seu
centro a figura enigmática da mulher, inimiga da Revolu­
ção. O inacreditável arrebatamento verbal, a germinação me­
tafórica de que o corpo de Maria Antonieta serve então de
pretexto, sugere que para além da rainha é o sexo feminino
que é visado num tempo em que se incensam as mães, mas
nem sempre se sabe o que fazer das cidadãs.
Um paradoxo irônico faz com que esta literatura tenha
a sua expansão no momento em que Maria Antonieta, que
tanto se tinha dedicado a inventar as regras de uma vida
privada em Trianon, se encontre pela força das circunstân­
cias aí confinada. A partir do final de 1789 até 1793, vai-se
fechando o círculo à volta da família real que leva uma vida
cada vez mais doméstica. A rainha não é apenas forçada a
isso; parece ter retomado para si, com convicção, este último
papel. Quando declara que não faz mais do que seguir o
marido e os filhos; quando responde aos seus acusadores: «Eu
era apenas a mulher de Luís XVI e {...} tinha que me con­
formar com a sua vontade»; quando, enfim, coloca a felici­
dade do seu filho acima de qualquer outra esperança, não
temos motivos para suspeitar da sua sinceridade e para ver
aí, por exemplo, uma fuga às responsabilidades. A rainha —
a mulher endurecida pela desgraça que David fixará num
desenho cruel, no momento em que a conduzem ao cadafalso
— assume, inesperadamente uma espécie de heroísmo fami­
liar e cristão que, num outro tom, é um eco da santa resi­
gnação de Luís XVI. Esta última figura, inesperada, terá
em todo o caso parecido suficientemente ameaçadora aos
seus adversários para que, no processo, Hébert tenha tenta­
do com um último ataque, enorme, atingi-la no seu papel
de mãe, apresentando o testemunho do seu filho, de oito
anos de idade, que a acusa de brincadeiras incestuosas.
O processo em si tem apenas interesse na medida em
que reúne todos os traços deste retrato colectivo. Não tem
nem a amplitude, nem principalmente o significado do de
Luís XVI. Desde Dezembro de 1792 que o relator do comi­
tê de legislação e depois Robespierre o tinham anunciado,
254 MARIA ANT0N1ETA

mas foram os acontecimentos que precipitaram as coisas. No


Verão de 1793, como diz brutalmente Michelet, impõem-se
três urgências à Convenção: «Matar a Rainha, matar os Gi-
rondinos, vencer os Austríacos.» Precedido de longos interro­
gatórios, o caso é depois resolvido em dois dias pelo Tribu­
nal revolucionário, entre 14 e 16 de Outubro de 1793- Qua­
renta testemunhas vêm retomar as acusações tradicionais: a
traição, a delapidação dos dinheiros públicos, a imoralidade,
às quais se acrescentam acusações mais pontuais acerca do
papel de Maria Antonieta aquando de Varennes, em 10 de
Agosto, ou acerca das tentativas desajeitadas de organizar
uma evasão do Temple e depois da Cadeia. Ressurgem assim
as velhas acusações em particular o caso do banquete dos
guardas em Outubro de 1789, às quais se juntam novas in­
sinuações de crimes privados. O conjunto é sem glória, mis­
turando o testemunho e a convicção complacentemente soli­
citada pelos juizes e este debate confuso, no qual a rainha
deposta dá provas de uma certeira habilidade, permanece ao
nível do chão. E que contrariamente ao processo do rei este
não tem implicações políticas de maior. Resta a Fouquier-
-Tinville tirar partido desta confusão. Sabe fazê-lo e recapi-
tula habilmente os pontos de acusação, os que têm funda­
mento e os outros, num último retrato mitológico desta rai­
nha «fértil em intrigas de todo o gênero», «tão perversa e
tão familiar com todos os seus crimes», que «foi, desde o
início da sua permanência em França, a praga e a sanguessu­
ga dos Franceses». Assim, a vida que termina a 16 de J u ­
lho na Praça da Revolução, há muito que se apagara por
detrás da lenda de Maria Antonieta.
255

ÍNDICE DE AUTORES

AARNF - BUISSERET, D. - 147


AGOSTINHO. Santo-80. 81 BURGUIÈRE, A. - 122(ed. lit.), 209
AGULHON, M. - 159 CALMET - 82, 83
ALCESTE - 88 CAMPAN, Mme. de - 247
ALLEGRA, L. - 13 CARBONELL, C. - 20
ANGEVILLE, A. d’ - 133, 135, 137 CASSINI (os) - 153, 154
Annales ESC - 7, 15 CASSINI de THURY, C.-F. - 153, 156
ARBELLOT, G. - 155 CEDRONIO, M. - 13, 26
ARGONNE, B. d’ - 89 CERRUTTI, S. - 194
ARISTÓTELES, - 86 CÉSAR - 101, 143
AURIOL, V. - 115 CHABROL - 135
BACHASSON de MONTAL1VET, J.-P. - CHANTREL, J. - 52
132 CHAPTAL- 130, 131
BAKER, K. - 205 CHARAVAY, E. - 108
BALDWIN, J. - 118 CHARLE, C. - 160
BARBIER, E. - 226, 228, 231 CHARTIER, R. - 19, 60, 81, 133, 165
BARÈRE - 178 CHEVALIER, M. - 137
BEAUMARCHAIS - 53 CL1QUOT de BLERVACHE - 197
BEAUNE, C. - 102, 103, 118 COCCHIARA, G. - 78
BEAUVILL1ERS, Duque de - 96, 123 COMMYNES - 121
BELMONT, N. - 66 CONDORCET - 174
BÉNÉZECH - 129 CONTAMINE, P. - 140, 141
BERR, H. - 26, 27 COORNAERT, E. - 189, 191, 193, 196, 197,
BERTHO, C. - 168, 172 207
BIGOT de MOROGUES - 133 COPANS, J. - 95, 98
BIGOT de SAINT-CROIX - 192, 197, 201 COQUEBERT de MONTBRET - 157
BLACK, A. - 188 CORBIN, A. - 112(orientação)
BLOCH, M. -4 ,12,14,15,18,19,22,24,25, COSNIER, G. - 112, 113
26, 27, 29, 32, 34, 101 COURT DE GÉBELIN, A. - 93
BODIN, J . - 88, 188, 189 COYER (Abade) - 197
BOIS, G. - 35 CRAIG, J. - 19
BOLLÈME, G. - 59,60,61,62,64,66,67,71 DAINVILLE, F. de -141,146,148,150,151,
BORDES, M. - 172 157, 164
BOSSENGA, G. - 203 DAKIN, D. - 198
BOUCHER, G. - 58 DARLUC - 126, 166
BOUGARD - 151 DAVENSON, H. - 53, 62
BOUGUEREAU, M. - 146, 149, 152 DA VIS, N. - 84
BOULENGER, L. - 144 DE CERTEAU, M. - 13, 85, 97, 171
BOURGUET, M.-N. - 127, 129, 164, 179 DE GAULLE - 116
BOUTIER, J. - 106, 110, 144 DE GÉRANDO, J. - 95, 169
BOUVIER, J. - 19 DEL TREPPO, M. - 13
BRAUDEL, F. - 12,13,15,16,19,25,29,31, DELACROIX - 201
32, 33, 34, 37,41, 101, 144 DEL1SLE, pseud. de CLIQUOT de BLER­
BROC, N. - 126, 141, 142, 166 VACHE - 197
BRUN, C. - 137 DÉROULÈDE - 58
BRYANT, L. - 109 DES POMELLES - 125
BUFFON - 91, 169 DESROSIÈRES, A. - 136, 137
256 A IN V EN ÇÃ O DA SO C IE D A D E

DESTUTT de TRACY - 92, 93 HERBIN, P.-E. - 130


DEWERPE, A. - 106, 144 HERLAUT, A.-P. -217, 218
D IA Z .F .-5, 13, 14 HERVÉ, R. - 145
DOMAT - 189 HEXTER, J. - 16
DUBRENA, V. - 156 HIRSCH, J. -210
DUCHET, M. - 91 HUNT, L. - 187,209
D ULA URE- 93 JACQUART, J. - 108
DUMEZ - 156 JAM1N, J. - 95, 98, 179
DUPÂQUIER, J. - 122, 134 JAUCOURT, Chevalier de - 83
DUPIN- 133, 135 JAULIN, R. - 72
DUPONT-FERRIER, G. - 163 JUDT, T. - 14
DUPUY, G. - 155(ed. lit.) JULIA, D .-97, 171
DUQUESNOY - 132 KAPLAN, S. - 190, 202, 203, 205, 213, 214
DURKHEIM - 21, 24, 28 KARADY, V. - 28
durkheimianos, 4, 19, 21, 24, 28, 29, 30, 32, KOEPP, C. - 202
101 KONVITZ, J.-W. - 153, 157
DUVAL, P. - 148, 150 KOPECZ1, B. - 83
EMMANUELLI, F. - 167, 172 LABROUSSE, E. - 4, 19, 34, 35, 85
ESMONIN, E. - 123, 124 LACOMBE, P. - 18
EST1ENNE, C. - 146 LACOUTURE, J. - 116
ESTRABÃO - 101 LAVAL, A. de - 145
EXPILLY - 125 LE BOUVIER, G. - 140
FABRI (Padre) - 150 LE BRAS, H. - 134
FA1GUET de V1LLENEUVE - 196 L E B R E T - 189
FARGE, A. - 184 LE CLERC - 149
FAURE, E. - 197, 198 LEM ÉE, R. - 134
FAV1ER, J. - 105, 106, 120 L E P A Y - 137
FAWTIER. R. - 104, 117 LE ROY LADURIE, E. - 35, 66, 133
FEBVRE, L .- 4 , 12,14,15, 18, 19,22,23,24, LEBESQUE, M. - 72
25, 26, 27, 2 9 ,3 1 ,3 2 ,3 4 , 37, 101 LEBRUN, P. - 82, 88, 90
FÉNELON - 124 LÉCUYER, B. - 135
FINÉ, O. - 142, 143 LEFEBVRE, G. - 35
FOCIN, M. - 157 LEGRAND d’AUSSY - 93
FONTANA, J. - 14 LEGRAS, A .-218
FONTENELLE - 82 LEHOUX, F. - 109
FOUCAULT, M .-31,35, 37 LENGLET DUFRESNOY - 90
FOUQU1ER-TINVILLE - 254 LEPETIT, B. - 155
FRANÇOIS de NEUFCHÂTEAU - 95, 130, LEQU1N. Y. - 137
170 LEV1, G. - 6
FURET, F. - 1,5,32 LÉVI-STRAUSS, C. -3 1 .4 0
GAIGNEBET, C. - 70 L1NGUET - 201
GALLOIS, F. - 142 LONGCHAMBON, H. - 30
GARDEN, M. - 190,213 LOT, F. - 121
GEMELLI, G. - 20 LOUSSE, E. - 187
GIERKE, O. von- 186 LOUVET - 52
GILLE, B. - 125 LOYSEAU - 186, 189
GINZBURG, C. - 6 MABILLON - 81
GLÉNISSON, J. - 120 MAGET, M. - 59, 62, 69
G O UBERT- 34 MAILLARD, F. - 109
GOULEMOT. J. - 83, 84, 86, 90 MALEBRANCHE- 82
GRAZIER, A. - 54(ed. lit.) MALTHUS - 35
GRÉGOIRE (Abade) - 53, 54, 55,72,95,96, MANDROU, R. -46,59,63,64,65,66,71,85
97, 170, 171, 177, 178 MANGOURIT - 93
GRENDI, E. - 6 MANN, H. - 37
GRESSET, M. - 172 MARCET, A. - 172
GUENÉE, B. - 109, 118, 138, 139, 141 MARIETTI, P. - 134
GUERRY, A.-M. - 133, 135 MAR1N, L. - 148
GU EU LETTE- 235 MARTIN, E. - 189
GURVITCH, G .-31 MARROU, H. - 62
HÉBERT - 252, 253 MARX, K. - 2, 4, 35
HECHT, J. - 122 MATH1EZ, A. -210
ÍN D IC E D E A U TO R ES 257

MEUVRET - 34 SANSON (os) - 150, 151


MICHELET - 25, 254 SANSON, G. - 150
MILO, D. - 110 SANSON, N. - 150, 151
MIRABEAU - 162, 176, 250 SARTRE, J.-P. - 60
MOHEAU - 125 SCHELLE, G. - 185, 198, 199
MONOD, G. - 20 SCHUMANN, R. - 116
MOREAU de JONNÈS - 136 SEBASTIEN de BEAULIEU - 148
MORTIER, R. - 83 SÉGUIER - 185, 186, 191, 192,204,205-206
MOUSNIER, R. - 186, 187 SEIGNOBOS - 18
MUCHEMBLED, R. - 78 SÉVIGNÉ, Mine. de - 87
MÜHLMANN, W. - 51 SEWELL. W. - 186, 187, 195
NICOLAS.J. -218 SHERIDAN, G. - 187
NICOLAY, N. de - 144, 145 SIESTRUNCK, R. - 146, 148
NISARD, C. - 49, 50, 51, 55-56, 57, 69, 70, SIEYÈS - 175
71, 72 SILVANO, B. - 142, 143
NORA, P. - 115 (ed. lit.), 116, 134 (ed. lit.) SIMIAND, F. - 18, 19, 20-22, 24, 30, 34, 36
NORDMAN, D. - 106, 144 SIVÉRY, G. - 119
OLIVIER-MARTIN, F. - 186, 187, 189,207, SNELLIUS - 152
208 SOBOUL, A. - 163, 172
OMALIUS d ’HALLOY - 157 SONENSCHER, M. - 213, 215
OZOUF, J. - 115(ed. lit.), 135 SORIANO, M. - 50,51,59,60,61,65,66,68,
OZOUF, Marie-Vic - 174, 176 7 1 ,73,74
OZOUF, Mona - 1, 94, 159, 168, 176, 179 STAÉL, Mme de - 237, 245
PARIS, G. - 57 STOJANOVICH, T. - 12, 13, 16
PARIS, M. - 144 STONE, L. - 5
PASTOUREAU, M. - 149, 151 STUART, B. - 141
PERRAULT (irmãos) - 50,51,59,60,61,66, TASSIN, C. - 148, 150
68, 72 TAVERN1ER, M. - 149
PERRAULT, C. - 84 THIERS, J.-B. - 80,81,82,83,84,88,89,90,
PERROT, J.-C. - 122, 125, 127, 128, 190, 134
192, 193, 194, 209, 210 THOMPSON - 64
PERROT, M. - 135 THOMPSON, E. -219
PERROUX, F. - 31 THOURET - 175
PERROY, E. - 140 TOCQUEVILLE - 104, 160
PETIT - 86 TOMAS DE AQU1NO, São - 80, 188
PEUCHET, J. - 130 TORRE, A. - 13
P1ERRARD, P. - 52 TOUBERT, P. - 101
P1NTARD, R. - 84 TRÉNARD, L. - 172
PIRENNE, H. - 28 TRICART, J. - 139
POIRIER, J. - 59(ed. lit.) TULARD, J. - 157
PONTI, C. - 6 TURGOT - 185, 198
PRIMAT - 139 VAN GENNEP - 64
PROPP, W. - 73 VAUBAN - 125
PROVENCE, Conde de (futuro Luís XVIII) - VAYSSIÈRE, B.-H. - 153
245 VICAIRE, G. - 58
PTOLOMEU - 141, 142 VIDAL de LA BLACHE, P. - 26, 101
QUÉTELET - 135 VILAR, P. - 34, 35
RABANT, C. - 69 VILLENEUVE-BARGEMONT - 133
REBÉRIOUX, M. - 18 VILLERMÉ - 135
RÉTIF - 52 VILQUIN, E. - 122
REVEL, J. - 6, 19, 45, 81, 97, 122 (ed. lit.), VINCENT de GOURNAY - 197
171, 184 VOLSEN, J. - 108
ROCHE, D. - 167, 203, 211 VOLTAIRE - 83
ROMON, C . -217, 218, 228 VOVELLE, M. - 94, 169
ROUSSEAU - 91, 169 WEBER, E. - 138, 149
RUSSO, C. - 13 WOOLF, S. - 132
SAGNAC - 250 ZWEIG, S. - 237
SAINT-LÉON, E. - 189, 207, 210, 211, 212
256 A IN V EN ÇÃ O DA SO C IE D A D E

DESTUTT de TRACY - 92, 93 HERBIN, P.-E. - 130


DEWERPE, A. - 106, 144 HERLAUT, A .-P.-217, 218
DIAZ, F , -5, 13, 14 HERVÉ, R. - 145
DOM AT - 189 HEXTER, J. - 16
DUBRENA, V. - 156 H1RSCH. J. -210
DUCHET, M .-91 HUNT, L. - 187, 209
D ULAURE- 93 JACQUART, J. - 108
DUMEZ - 156 JAMIN, J. - 95, 98, 179
DUPÂQUIER. J. - 122. 134 JAUCOURT, Chevalier de - 83
DUPIN - 133, 135 JAULIN, R. - 72
DUPONT-FERRIER, G. - 163 JUDT, T. - 14
DUPUY, G. - 155(ed. lit.) JULIA. D. -97, 171
DUQUESNOY - 132 KAPLAN, S. - 190, 202, 203, 205, 213, 214
DURKHEIM -2 1 ,2 4 , 28 KARADY, V. - 28
durkheimianos, 4, 19, 21, 24, 28, 29, 30, 32, KOEPP, C. - 202
101 KONVITZ, J.-W. - 153, 157
DUVAL, P. - 148, 150 KOPECZI, B. - 83
EMMANUELLI, F. - 167, 172 LABROUSSE, E. - 4, 19, 34, 35, 85
ESMONIN, E. - 123, 124 LACOMBE, P. - 18
ESTIENNE, C. - 146 LACOUTURE, J. - 116
ESTRABÃO - 101 LAVAL, A. de - 145
EXPILLY - 125 LE BOUVIER, G. - 140
FAB RI (Padre) - 150 LEB R A S, H. - 134
FA1GUET de V1LLENEUVE - 196 LE BRET- 189
FARGE, A. - 184 LE CLERC - 149
FAURE. E. - 197, 198 LE MÉE, R. - 134
FAVIER, J. - 105, 106, 120 L E P A Y - 137
FAWTIER, R. - 104, 117 LE ROY LADURIE, E. - 35, 66, 133
FEBVRE, L . -4,12,14,15,18, 19,22,23,24, LEBESQUE, M. - 72
25, 26, 2 7 ,2 9 .3 1 ,3 2 , 34, 37, 101 LEBRUN, P. - 82, 88, 90
FÉNELON - 124 LÉCUYER. B. - 135
FINÉ, O. - 142, 143 LEFEBVRE, G. - 35
FOCIN, M. - 157 LEGRAND d’AUSSY - 93
FONTANA, J. - 14 LEGRAS, A .-218
FONTENELLE - 82 LEHOUX, F. - 109
FOUCAULT, M .-3 1 ,3 5 , 37 LENGLET DUFRESNOY - 90
FOUQUIER-TINVILLE - 254 LEPETIT, B. - 155
FRANÇOIS de NEUFCHÂTEAU - 95, 130, LEQU1N, Y. - 137
170 L E V I.G .-6
FURET, F .- 1,5,32 LÉV1-STRAUSS, C. -3 1 ,4 0
GAIGNEBET, C, - 70 LINGUET - 201
GALLOIS, F. - 142 LONGCHAMBON, H. - 30
GARDEN, M. - 190,213 LOT, F. - 121
GEMELLI, G. - 20 LOUSSE, E. - 187
GIERKE, O. von - 186 LO U V ET- 52
GILLE, B, - 125 LOYSEAU - 186, 189
GINZBURG, C. - 6 MABILLON - 81
GLÉNISSON, J. - 120 MAGET. M. - 59, 62, 69
G O UBERT- 34 MAILLARD, F. - 109
GOULEMOT, J. - 83, 84, 86, 90 M ALEBRANCHE- 82
GRAZIER, A. - 54(ed. lit.) MALTHUS - 35
GRÉGOIRE (Abade) - 53, 54, 55, 72,95,96, MANDROU, R. -46,59,63,64,65,66,71.85
97, 170, 171, 177, 178 MANGOURIT - 93
GRENDI, E. - 6 MANN, H. - 37
GRESSET, M. - 172 MARCET, A. - 172
GUENÉE, B. - 109, 118, 138, 139, 141 MARIETTI, P. - 134
GUERRY, A.-M. - 133, 135 MARIN, L. - 148
GUEULETTE - 235 MARTIN, E. - 189
GURVITCH, G .-31 MARROU, H. - 62
HÉBERT - 252, 253 MARX, K. -2, 4, 35
HECHT, J. - 122 MATHIEZ, A .-210
ÍN D IC E D E A U TO R ES 257

MEUVRET - 34 SANSON (os) - 150, 151


MICHELET - 25, 254 SANSON, G. - 150
MILO, D. - 110 SANSON, N. - 150, 151
MIRABEAU - 162, 176, 250 SARTRE, J.-P. - 60
MOHEAU - 125 SCHELLE, G. - 185, 198, 199
MONOD, G. - 20 SCHUMANN, R. - 116
MOREAU de JONNÈS - 136 SEBASTIEN de BEAULIEU - 148
MORTIER, R. - 83 SÉ G U IE R -185,186, 191, 192,204,205-206
MOUSNIER, R. - 186, 187 SEIGNOBOS - 18
MUCHEMBLED, R. - 78 SÉVIGNÉ, Mine. de - 87
MÜHLMANN, W. -51 SEWELL, W. - 186, 187, 195
N IC O L A S.J.-218 SHERIDAN, G. - 187
NICOLAY, N. de - 144, 145 SIESTRUNCK, R. - 146, 148
NISARD, C. - 49, 50, 51, 55-56, 57, 69, 70, S1EYÈS - 175
71,72 SILVANO, B. - 142, 143
NORA, P. - 115 (ed. lit.), 116, 134 (ed. lit.) SIMIAND, F. - 18, 19, 20-22, 24, 30, 34, 36
NORDMAN, D. - 106, 144 SIVÉRY, G. - 119
OLIVIER-MARTIN, F. - 186, 187, 189,207, SNELLIUS - 152
208 SOBOUL, A. - 163, 172
OMALIUS d HALLOY - 157 SONENSCHER, M. - 213, 215
OZOUF, J. - 115(ed. lit.), 135 SORIANO, M. - 50,51,59,60,61,65,66,68,
OZOUF, Marie-Vic - 174, 176 7 1 ,73,74
OZOUF, Mona - 1,94, 159, 168, 176, 179 STAÈL, Mme de - 237, 245
PARIS, G, - 57 STOJANOVICH, T. - 12, 13, 16
PARIS, M. - 144 STONE, L. - 5
PASTOUREAU, M. - 149, 151 STUART, B. - 141
PERRAULT (irmãos) - 50,51,59,60,61,66, TASSIN, C. - 148, 150
68, 72 TAVERNIER, M. - 149
PERRAULT, C. - 84 TH1ERS, J.-B. - 8 0 ,8 1,82,83,84,88,89,90,
PERROT, J.-C. - 122, 125, 127, 128, 190, 134
192, 193, 194,209,210 THOMPSON - 64
PERROT, M. - 135 THOMPSON, E . -219
PERROUX, F . -31 THOURET - 175
PERROY, E. - 140 TOCQUEVILLE - 104, 160
PETIT - 86 TOMAS DE AQUINO, São - 80, 188
PEUCHET, J. - 130 TORRE, A. - 13
PIERRARD, P. - 52 TOUBERT, P. - 101
PINTARD, R. - 84 TRÉNARD, L. - 172
PIRENNE, H. - 28 TRICART, I - 139
POIRIER, J. - 59(ed. lit.) TULARD, J. - 157
PONTI, C. - 6 TURGOT - 185, 198
PRIMAT - 139 VAN GENNEP - 64
PROPP, W. - 73 VAUBAN - 125
PROVENCE, Conde de (futuro Luís XVIII) - VAYSSIÈRE, B.-H. - 153
245 VICAIRE, G. - 58
PTOLOMEU - 141, 142 VIDAL de LA BLACHE, P. - 26, 101
QUÉTELET - 135 V1LAR, P. - 34, 35
RABANT, C. - 69 VILLENEUVE-BARGEMONT - 133
REBÉRIOUX, M. - 18 VILLERMÉ - 135
RÉTIF - 52 VILQUIN, E. - 122
REVEL, J. - 6, 19, 45, 81, 97, 122 (ed. lit.), VINCENT de GOURNAY - 197
171, 184 VOLSEN, J. - 108
ROCHE, D. - 167, 203,211 VOLTAIRE - 83
ROMON, C. -217, 218, 228 VOVELLE, M. - 94, 169
ROUSSEAU - 91, 169 WEBER, E. - 138, 149
RUSSO, C. - 13 WOOLF, S. - 132
SAGNAC - 250 ZWEIG, S. - 237
SAINT-LÉON, E. - 189, 207, 210, 211,212
1
259

ÍNDICE TEMÁTICO

ACONTECIMENTO, 75, 217, 221, 223; ASTRONOMIA, 86, 142; astrônomos, 79,
construção do -, 219, 224. 85, 88; cometas, 86.
ALTERIDADE, 6 7 ,6 9 ,9 1,92; diferença, 41,
46,73,77,91,93, 179, 180; exclusão BIOGRAFIA DE MARIA ANTONIETA, 1,
do outro, 67; «exotismo», 52,70,95, 183, 184, 237-254; amantes, 245,
169; o outro da cultura erudita, 64; 248; casamento, 238, 239, 241, 242;
selvagem, 52, 92, 95. confidentes, 240, 247; educação,
ANNALES, 4,6,11-12, 13-41. 101; bibliogra­ 239; filiação, 238; filhos, 241-242,
fia sobre, 13,16; - e Ciências Sociais, 253; fontes para a -, 240; influência
7, 13,15, 16, 21, 22-23, 27,29; cola­ política, 246, 249, 250, 251; inquéri­
boradores, 23, 28; colóquios/debates to sobre a -, 237; intimidade(esfera
sobre os -, 13, 14, 18; conjunturas da), 241,242, 247, 248, 253; «lenda
(estudo das), 34; continuidade/des- negra», 241, 243, 245, 254; mãe
continuidade dos/nos -, 14, 15, 16, (relação com a), 240, 243, 244, 245;
17, 41; e economia, 26; empirismo morte, 254; nascimento, 238; proces­
nos -, 27; escola/movimento dos so da rainha, 237,253,254; retrato de
11,13,14,15,16, 18,25;estruturalis- Maria Antonieta, 244,246,249,253,
mo, 35; funcionalismo, 35; fundado­ 254; Revolução Francesa (como ini­
res, 3-4, 11, 13, 14, 15, 28; e geogra­ miga da), 249, 250, 251, 252, 253;
fia vidaliana, 25, 26; gerações, 1, 2, rumores/comentários, 241,245, 249.
11; história dos, 14, 16, 17 história
global, 38-39,41; história-problema, CAMPO INTELECTUAL, 17, 19, 32, 85,
21; identidade dos -, 15, 18; inquéri­ 150; academias, 97, 167; - hodiemo,
tos, 21, 23; institucionalização dos -, 2; círculo, 98; critérios de gosto, 87;
29; interdisciplinaridade, 23; «lenda eruditos, 49, 56, 61, 165, 177, 179;
dos -», 14; métodos, 11, 13, 27; estudantes, 150; intelectuais, 77, 79,
mudança social (estudo da), 35; 94; letrados, 50, 59, 60, 61, 72, 77;
«nouvelles Annales» (1969), 15; ori­ «livres-pensadores», 84; movimento
gem dos -, 14, 15, 22, 26; intelectual, 92; partilhas das práticas
«paradigma(s)dos-», 12,13-41; pro­ especializadas, 98; salões, 201, so­
grama, 17,23,33; retroprojecção, 23; ciabilidade intelectual, 98; sociétés
sistemas (estudo dos), 34, 35; socia­ de pensée revolucionárias, 97.
bilidade intelectual dos -, 26; sociolo­ Centros de investigação, 30; Académie Cri­
gia dos, 16; teoria, 16,26,35; Univer­ tique, 93, 94, 98, 179; Académie
sidade (relação com a), 27-28. Française, 87; Académie Royale des
ANTROPOLOGIA, 31,46,75,79,91,93,95, Sciences, 148, 152, 157; Centre In­
98, 157, 170, 172, 179, 180, 187; ternationa! de Synthèse, 27; Collège
- estrutural, 32; - histórica, 35; - do de France, 23,28,143; Conseil Supé-
local, 131, 168; estatuto institucio­ rieur de Ia Recherche Scientifique et
nal, 31; método, 79; objecto, 79; pa­ du Progrès Technique, 30; Ecole des
rentesco, 31. Hautes Etudes en Sciences Sociales,
ARQUEÓLOGO, 55. 2, 16, 28, 29, 31, 174; INSEE, 136,
ARQUIVOS, 60, 175, 179, 218; - policiais, 137; Maison des Sciences de
217; memória, 92, 95, 119, 134; mo­ 1'Homme, 31; Museu do Homem, 28;
numentos, 94, 112, 167, 169. organização dos -, 34; sociedades
ARTE/ESTÉTICA, 58, 62, 94; - popular, 57, eruditas, 135; Société des Amis de Ia
61,65. Constitution, 97; Société des Obser-
260 A INV ENÃ O DA SO C IE D A D E

vateurs de 1'Homme, 98,179; Société 47,94; civilização, 34,92; civilizado,


Royale de Médecine, 95, 127, 166; 52,70,92; concepção elitista de -, 53;
Universidade de Estrasburgo, 16, conjuntura cultural, 34; consenso - e
28. social, 79; - de elites, 47, 57, 64, 78,
CAPITALISMO. 11. 84; - erudita, 59, 64, 66, 72, 74;
CENSURA, 50, 56, 65; censor, 65; - social, - letrada, 77; - de massas, 45,60; - re­
49; - da «literatura de colportage», gional, 159, 160, 168-170, 179; - tra­
55. dicional, 94; defesa de uma -, 55; de­
CERIMÔNIAS, 65, 109, 220, 229,239, 249; mocracia-, 74; estatuto-, 178; fecha­
casamentos régios, 110; coroar, 52; mento -, 59; formações culturais, 77;
entradas régias, 107, 109, 110, 112; formas culturais diferentes, 46; for­
espectáculo, 107, 110, 113,247; fes­ mas das partilhas -, 45; humanismo,
ta, 52-3, 58. 67, 220, 243, 247; inau­ 143; identidade -, 4 7 ,9 1 ,169; liberta­
gurações, 115; romaria, 58; ritual, ção das -, 75; massificação da -, 45;
107, 109, 112, 113, 114, 239. natureza contra a -, 88; nível -, 64,77,
CIÊNC1A/CIENTÍFICO, 60, 67, 72, 75, 86, 84, 91; normalização -, 87, 89, 90,
87, 93, 97, 98, 135, 139, 149, 152, 179; ordem -, 45,67,92; particularis-
154; campo -, 16, 17,33; curiosidade mos, 54, 72; política -, 75; produção
-, 49, 50; discurso -.51: estatuto do -, 47. 73, 90, 92, 160; projecto -, 95;
trabalho -, 14, 17, 179; função da -, referências -, 86; regras -, 167; siste­
51; inquérito, 93, 94, 96, 97, 137, mas culturais, 34,94; subcultura, 84;
171, 177; método - , 20, 51, 82, 89, totalidade -, 65; unidade da-, 60; uni­
94,98; operação -, 51,52; processo -, formização-, 159, 160, 169, 178.
40,51. Difusão da cultura, 45, 50, 73, 150-151; an-
CIÊNCIAS SOCIAIS, 20, 21, 22, 28, 30, 32, siães, 68; clientela, 69; - da «literatu­
40, 46, 98; arqueologia das -, 37-8; ra de colportage», 55, 56; editores,
campo(s) das -, 16, 29, 30,31,36-38, 150,151; história editorial, 252; livro
40, 41; e Ciências do Homem, 36; de bolso, 45, 150; manuais, 151;
construção de objectos particulares, mass media, 56; televisão, 45; trans­
38; crise das -, 32, 33; descontinui- missão da cultura, 69.
dade nas -, 38; estatuto institucional, CULTURA POPULAR, 45-75, 77-98; bur­
28-29, 31; estudioso das -, 64; lesco e -, 51,72; cantigas populares,
História (relação com a), 29, 32-33; 53, 57, 62, 65; censura da -, 49, 50;
interdisciplinaridade, 37, 38, 41; e classificação da -, 64; comparatismo,
mass media, 29; metodologia co­ 57; conceito de -, 49, 62; e conheci­
mum, 33, 36, 38; papel das -, 18, 27; mentos científicos, 64; danças, 65;
práticas científicas, 36, 37, 38. definição de -, 57, 66, 90; erudição
CONFLITOS, 106, 107, 115, 119, 190, 200, e -, 51; folclore, 57, 65. 66, 70, 78;
201, 203, 206, 211, 214, 240, 242, funcionamento da -, 66; genealogia
251; - autonomistas, 71; frondas da -, 57; lengalengas, 70; métodos de
políticas, 50,51,72,110; guerras, 71, análise, 73-75; objecto da -. 49; ori­
106, 121, 122, 128, 141, 146, 147, gem da -, 62-63; produção da -, 78;
148, 153,238,251; lutas, 204; motim relação com a cultura dominante, 78,
geral, 219; revoltas, 51, 71, 72, 217, 90,94; relação repressiva entre cultu­
219, 220, 231,234, 235. ra erudita e -, 64, 74; repressão sobre
CRENÇA(S), 65, 66, 78, 80, 81, 82, 85, 86; a -, 78; sociologia da -, 51, 81; temas
demônio, 83, 85, 86, 90; feitiçaria, da -, 63, 65; tradição, 57, 58, 60, 95,
65, 83, 85; feiticeiro, 69, 85; fim do 96.
mundo, 86; significado dos cometas,
85, 86; sobrenatural, 83; superstição, DEMOGRAFIA, 30,121,122,124,125,126,
65. 80, 82, 83,87, 88,91. 128, 133, 134, 137, 140, 156, 157,
CRIANÇAS, 58, 68-70; adolescentes, 218, 165; - histórica, 40.
239; filhos de artesãos, 218, 220, DIREITO(S), 103, 105, 109, 117, 120, 124,
233; hábitos infantis e camponeses, 162, 164, 168, 171, 188, 189, 199,
70; raptos de -, 217-236. 200, 207, 221, 231; crime, 157,218,
CULTURA/CULTURAL, 62,66,69,70,75, 227, 254; denúncia, 220, 224, 225;
84, 91, 97, 156, 165, 166, 167, 169, Direito Natural, 173, 197, 205, 211;
172, 178, 209; analfabetismo, 60, direitos dos cidadãos, 233; interro­
157; antigos/modernos, 50; assimila­ gatório, 221,223,229,230,232,236;
ção -, 57, 68, 94, 169, 172; atraso -, jurista, 79, 186, 189, 192, 201; justi­
171; barbárie, 217; campo cultural. ça, 124,135,222,227,229,231,232;
ÍN D IC E TEM Á TICO 261

lei natural, 195; ordem natural, 195, 90; estratégias científicas, 38; hierar­
196, 227; privilégios, 121, 145, 162, quia das disciplinas, 17, 98; interdis-
164, 172, 173, 175, 188, 195, 201, ciplinaridade, 30, 33, 36; modelos
202, 209; realidade jurídica, 117, explicativos, 160, 164; objectivismo,
188, 190, 197; uniformização 4; objecto científico, 4,40; perspecti­
jurídica, 173, 174, 177. va genética, 93; relação conheci-
DISCURSO, 51, 57, 63, 75, 78, 89, 90, 106, mento/política, 85; relação objecto
163, 184, 187, 191, 204; argumenta­ científico/métodos/sociedade,51;sis-
ção, 211; monólogo, 53; - político, temas de percepção, 138, 141, 161;
207; produção de -, 78; retórica, 138, teóricos, 91; «trabalhos práticos», 2;
212 . tradição/conhecimento, 139,140,142,
DISPOSITIVO, 37, 119; silêncio, 67, 128; 143,159,170; validação científica, 4,
moda, 87, 88. 22.
DOCUMENTAÇÃO, 46. 55, 73, 89, 90, 91, ESPAÇO, 96, 101, 109, 114, 116, 117, 118,
92,120,136,138,141,143,185,201, 125, 133, 136, 143, 224; apropriação
212; almanaques, 56, 59, 60, 61, 62, do -, 106, 107, 108, 109, 112, 113,
64, 67; bibliófilo (ofício de), 56; co- 138, 139, 146, 152, 157, 179; atlas,
leccionador (ofício de), 56; colec- 146, 147, 148, 149, 150, 151, 152,
ções, 84,87,91,252; compilação, 90, 156, 157; capital, 104, 105,107, 110,
150; corpus, 1, 66, 80, 87, 118; dos­ 167, 189, 212, 218, 227; citadinos,
sier documental, 217, 218; encader­ 54; concepção «celular» do espaço,
nação, 56; livros eruditos, 67; relatos 155, 156; concepções de região, 166;
de viagens, 91; revistas folclóricas, configurações espaciais, 160; conhe­
57; vestígio, 91,94. cimento do território, 103-158, 170;
DOMINAÇÃO, 75, 226; «cortar a palavra», consciência regional, 161, 167, 168,
53; «doces leis», 53; domesticar, 53; 169, 172, 176, 179, 180; construção
excomunhões, 51; instrução, 54; ob- do - francês, 101, 102, 103-158, 173,
jecto «abolido», 72; ordem, 51; 175; controlo do -, 111; delimitação
polícia, 49, 50; processo de elimina­ do território, 109, 117, 120; diversi­
ção, 51; resistência à -, 54; submis­ dade, 41, 128, 131, 136, 145, 155,
são, 233. 156, 161, 163, 164, 168, 172, 173,
179, 180; domínio do -, 103, 104,
ECOLOGIA, 166, 177. 105, 118, 119, 120, 133, 144, 226; -
ECONOMIA, 26, 105, 112, 125, 126, 132, restrito, 126, 127, 156; Estado/re-
133, 136, 137, 146, 152, 156, 157, giões, 160-163, 167-168, 171-173,
165, 189, 190, 193, 197, 198, 203, 175-176, 179; estradas, 140, 146,
204, 205, 210, 211, 233; agentes 147, 154, 155-156, 157; fronteiras,
econômicos, 200; concorrência, 197, 104, 107, 110, 112, 120, 138, 139,
199, 211; conjuntura econômica, 34; 147, 151, 162, 165; identidade regio­
contabilidade, 137; controlo econô­ nal, 159-180; inquérito, 104, 105,
mico, 193; crise(s), 122, 128, 154; 112,117-138,139,166, 170,178; iti-
- moral, 219; economista, 95, 127, nerância do rei, 105, 109, 121; iti­
170, 197, 199, 201, 204, 205, 208; nerário, 107,108,109, 140,142,146;
estatuto institucional, 28; finanças, local de informação e de encontro,
124, 146, 154, 157, 207; fisco, 117, 220, 222-223; mapa, 104, 117, 124,
118, 120, 122, 123, 125, 139, 146, 138-158; mercado, 222-224; metró­
164, 174, 193, 217; fisiocrata, 95, pole, 116, 138; nação, 94, 96, 101,
133, 165, 170; interesse individual, 103, 116, 118, 128, 131, 137, 159,
197; leis do mercado, 196; lucro, 163, 170, 175; particularismos, 107,
198; mercantilismo, 124; mo­ 126, 130, 131, 132, 133, 146, 162,
nopólio, 188, 195. 196, 199, 211; 164,168, 173, 175, 178,179; política
produção, 190, 199, 202; proprie­ do -, 105, 114, 138, 152-158, 172-
dade, 199; recursos, 124, 125, 128, 176; prédio, 224-226; província(s),
134, 156, 157, 164, 176, 179; unifor­ 94,107,108,109,114,116,118,120,
mização econômica, 159. 123, 124, 126, 130, 131, 143, 145,
EMPIR1SMO/EMPÍRICO, 27, 88, 140, 173, 146, 147, 151, 152, 154, 156, 162,
195. 163, 164, 166, 167, 168, 169, 170,
ENSINO (ver pedagogia). 171, 173, 174, 175, 176, 177, 178,
EPISTEMOLOGIA, 5, 19, 25, 38, 85, 137; 209; regional, 87, 96, 114, 127, 129,
aporia, 62; disciplina-mãe, 40; espe- 136, 143, 152, 162, 163, 164, 165,
cialidades/especialização, 30,32,39. 167, 168, 170, 172, 173, 174, 175:
262 A IN V EN ÇÃ O D A SO C IE D A D E

reorganização do 129, 132, 155, 183, 185, 186, 187, 188, 191, 192,
156,163,174, 175,176; rural/cidade, 193, 208, 211, 214, 217, 239, 249,
56,57,87,94,96,113,164,165,176, 252; Arcádia, 53; campo da discipli­
177; «sentido do espaço»[ou percep­ na, 14, 17,28-29, 38,40; ciclos, 34; e
ção do -], 138,141, 168; taberna, 223, Ciências Sociais, 7,12,17,18,19,22,
235; território da nação, 101, 103, 24-5, 27, 28-9, 32-33, 35, 36, 37;
111, 114, 117, 121, 128, 130, 131, classicismo francês, 86-87, «condi­
138, 148, 152, 155, 157, 166; uni­ ções gerais», 183; condições de tra­
dade nacional/unificar, 54, 102, 103, balho, 12, 17; conjuntura, 34; cons­
108, 112, 115, 116, 124, 131-132, trução do objecto, 6, 7, 36; discurso
137, 152,178,180; uniformizar, 104, histórico, 14; empírica, 20; especiali­
133, 136, 137, 143, 156, 159, 163, zações, 40; estatuto da -, 32-33; estru-
174-176; utilizações do -, 139, 154; turalista, 35; estruturas, 34, 183; «o
viagem régia[e outras], 104-117, excepcional», 3, 6; factos históricos,
140, 145; viajantes, 94, 95, 98, 108, 20; fragmentação da -, 38, 40, 41;
109, 126, 127, 140, 144, 165, 166, global, 40, 41; - evolucionista, 41; -
169, 170. «experimental», 4,6, 12,22,24,37; -
ESTATÍSTICA, 91, 117, 121-138, 149, 156, narrativa, 5, 41; - finalista, 41; - fun-
157, 164, 178, 179; «- moral», 98, cionalista, 35; Idade Média, 3,55,58,
133, 135, 157; série temporal, 125, 78,102,105,117,138,139, 140,141,
126, 136; variáveis, 126. 142, 144, 162, 187, 192; Idade Mo­
ESTRUTURALISMO, 2,32,35; anti-histori- derna, 3,77,121; Iluminismo, 83,91,
cismo, 32. 92-93, 95, 96, 97, 127, 170; longa
ETNOLOGIA/ETNOGRAFIA, 30, 55, 59, duração, 1, 32, 34, 104, 160, 187; e
69, 70, 8 9,91,94,96, 160, 170, 171, mass media, 29; messianismos, 51;
179; «Belle époque do folclore», 56- métodos, 18, 20, 36, 39, 40; micro-
59; - colonial, 57; costumes cristãos, -história, 6; modelos, 34; orgulho
52; costumes rústicos, 54; estatuto da -, 167; «permanências», 34; posi­
institucional da -, 28; etnólogo tivismo, 7, 19; pré-modema, 77; pro­
(ofício do), 55, 72, 73; folclorismo, postas teóricas, 1; revoluções, 34,
55,58,59, 98; folclorista, 49,56, 64, 187, 195, 203, 215; rupturas, 34; se­
71,75,78. rial, 20; sistema, 34; temática, 39;
tempo/temporalidades, 20, 22, 32,
FEUDALISMO, 54; relações feudo-vassá- 33,41.92, 95, 102.
licas, 188, 189. História da(s) cultura(s), 3, 66, 159, 160; -
FILOSOFIA. 60, 83, 86, 98; estatuto institu­ popular, 46, 52-59, 64.
cional, 28. História demográfica, Antigo Regime de­
mográfico, 34; crise, 34; flutuações,
GEOGRAFIA, 25, 26, 101, 112, 115, 126, 34.
138, 141, 145, 148, 151, 165, 166, História econômica, 4,23,26,40; Antigo Re­
171; conceptualização -, 101; ensino gime econômico, 34; conjuntura
da -, 150; «- do esquecido/elimina- econômica, 34; crescimento eco­
do», 67,68-71; estatuto institucional, nômico, 34-5; crise, 35; história dos
28; geógrafos, 126, 127, 144, 146, preços, 4, 35; modelo socioeconó-
149, 151, 165, 166, 170. mico, 34; «revolução» econômica,
GNOSEOLOGIA, 82; autoridade do conhe­ 34; ritmos, 34; sistema, 35.
cimento, 79, 81; convenções, 79, 80, História política, 3, 4, 5, 71, 208.
184; produção de conhecimento, 78, História social, 2-6, 13, 14,23,51,65; colec-
148; «reconhecer», 49, 66, 69; rela­ tivo, 3, 183; construção da -, 5; fon­
ção sujeito/objecto, 91, 97; senso tes, 3; - da cultura, 4-5,65; e historia­
comum, 79. dores franceses, anos 60,2; indicado­
res, 3; informática, 4; longa duração,
HISTÓRIA, 4, 15, 20, 22, 31,41, 50, 52,59, 3; métodos, 3; modelos, 3 ,4 , 34; ob­
62, 66, 71, 75, 81, 91, 93, 94, 101, jecto (relação do historiador com), 2,
105, 110, 115, 138, 143, 145, 159, 4; objectos, 3; periodização, 3; pro­
160, 161, 165, 169, 179, 180, 205; blemática, 1, 5; série, 3; temas, 65,
anacrônico, 77, 161; anti-historicis- 66; território(s), 3, 5.
mo, 32; Antigo Regime, 34, 59, 60, Historiador(es), 2 ,5,6,12, 18,20,24,27,36,
63, 66, 77, 97, 104, 111, 122, 125, 46,54,62,66,72,73,74,81,98, 149,
126, 134, 148, 153, 154, 156, 159, 160, 163, 187, 191, 213; cronista,
161, 162, 163, 166, 167, 168, 172, 183, 217, 226, 234-235; estatuto dos
ÍN D IC E TEM Á TICO 263

28-9, 31, 38; hábitos dos -, 3, 4, 6, sicos, 50, 61; colporteur, 55; contos,
14, 17, 39, 40; - da organização cor­ 59, 61, 65, 66, 68, 69,71,73, 84, 90;
porativa, 186; - do social, 183; me- descrição, 95, 127, 129, 130, 136,
morialista, 217,235; papel social, 14; 138, 139, 140, 144-145, 164, 166,
relação com os sociólogos, 21, 25. 170; estilo, 61; função da -, 60, 71;
Historiografia, 1-2,5, 11, 13, 23, 25, 26, 34, gêneros, 95, 97, 118, 138-139, 149,
73, 101, 139, 160, 162, 186, 217; 151; gosto do público, 60, 150, 151;
concepções, 28; gêneros histo- história literária, 61; história dos li­
riográficos, 39,41,183; heróis, 3,45, vros populares, 50; inconsciente da
184; - regionalista, 175; modas, 45; -, 71; jornalismo político, 252; len­
reis, 3, 45; tradição historiográfica, das, 68; - bem pensante, 52; - de
159 . bolso, 60; - científica, 63, 72; - de
colportage, 46,49,50,55-56,59,63,
IDEOLOGIA/IDEOLÓGICO, 26,51,65,92, 64, 71, 72, 88, 252; - de cordel, 49; -
95, 96, 98, 148. 154, 169, 172, 198, culta, 71, 84; - de elite, 60, 61, 87; -
202, 211; celtismo, 93; esquerda, escrita, 60; - excêntrica, 56; - infantil,
159; história - 16; ideal, 58; idéias re­ 68,69; - oral, 49; - popular, 50,59,60,
volucionárias, 95; - corporativa, 193, 61, 68, 71; método textual, 61; ori­
213; interesses, 88, 130, 156, 172, gem da -, 61-63; panfletos, 80, 244,
176, 191, 203, 205, 206, 211, 244; 252,253; poemas burlescos, 50; por­
«jacobino», 159, 160, 178, 179; pa­ nografia, 252; temas da literatu­
triotismo, 72, 167-168; progresso ra popular, 65; tradição oral, 61;
social, 58, 96, 171; reconhecimento, vulgarização/generalização, 61, 149,
77, 80, 91, 94, 109, 114, 167, 192, 151.
224; sentimento (ou identidade) na­ LÓGICA, 107,134; aporias lógicas, 59; orga­
cional, 102, 103, 105, 138; utopia, nização -, 58.
51, 74; visão do mundo, 64, 77.
IGREJA, concílios, 80; hierarquia católica, MARGINALIDADE, 47, 67, 78, 84, 87, 88,
80,124; - da reforma católica, 54,87; 89, 129, 138, 160, 204; prostituta,
e instrução, 54 sínodos, 80. 223, 225, 252; vagabundos, 218,
IMPRENSA, 113, 114. 233, 234, 236.
INCONSCIENTE, 58. MARXISMO,2, 5, 26, 51.
INSTITUIÇÕES, 87,97, 111, 114, 121, 134, MÉDICOS, 77,79,85,88,95,96,97,98,127,
135-136, 154, 157, 162, 179, 187, 135, 165-166, 170.
192,208, 212; chancelaria, 103; cos­ MENTAL(IDADE), 95,171; desordem men­
tumes, 95, 126, 162, 164, 174, 176, tal, 65; hábitos mentais, 144; - france­
177; dispositivos institucionais, 33; sa, 57; - dos letrados, 60; revolução
dote, 53; - sociais, 184; prisão, 218, -, 34.
222, 227, 254. MILITAR(ES), 123, 124, 128, 129, 132, 147,
INTERPRETAÇÃO, 64, 65, 68, 73, 75, 78, 148, 150, 151, 152, 154, 157; serviço
160, 161, 176, 178, 218, 222, 232, militar, 56, 103, 146.
235; comentários, 217,220,235; glo­ MITO(LOGIA), 52, 66, 140, 246, 254; bom
sa, 66; regras de -, 90; tese, 68. selvagem, 59; idade do ouro, 58; - das
origens, 59; Primeira Idade, 53; re­
LEITURA, 63, 68, 156, 252; grelha de -, 66, gresso às origens, 58, 95, 169.
123; leitor, 60. MOTIM PARISIENSE DE 1750,1,183,184,
LINGUAGEM, 75, 81, 84, 87, 93, 157, 176, 217-236; acaso, 219, 220, 230; auto­
200, 214, 253; código, 88, 222; com­ nomia do -, 224; causas do -, 217 -
piladores de dicionários, 87; escrita, 218, 236; complot, 235; condutor da
93; gíria, 87; gramáticos, 87; história revolta, 226; depoimentos sobre -,
da -, 93; - administrativa, 163; - reli­ 223-224; episódio, 218, 219, 227,
giosa, 67; - da repressão, 62; provér­ 230; espaço do motim, 219,222-230;
bios, 84. familiaridade com o motim, 223; fon­
LÍNGUAS, 93, 96, 97, 162, 163, 167, 171, tes, 217, 218, 222; função do -,219;
172, 177-178; dialectos, 55, 160; gestos do motim, 223,225,227,228;
idiomas, 55, 178; Língua francesa, incidentes/distúrbios, 219, 220, 221,
54, 171, 177-178; patois, 53-54, 72, 222, 228; inquietação, 219, 220,227;
97, 160, 171, 177, 178; política da -, intensidade do motim, 219; leituras
97; regionalismos, 84, 160. do acontecimento, 217, 219, 222;
LITERATURA, 62, 71, 95, 160, 170, 237, lógica do -, 219, 222, 227, 234;
253; autores profissionais, 60; clás­ momentos do -, 222, 226, 228, 229;
264 A IN V EN Ç Ã O DA SO C IE D A D E

motivações do 220-222; multidão, súbditos, 51, 52, 119, 120, 123, 145,
217, 219, 220, 221, 222, 225, 226, 146, 200, 205, 233.
227, 228, 229,230, 231; narrativa do POLÍTICA, 72, 74, 96, 97, 105, 110, 111,
acontecimento, 217; negociações, 115, 119, 123, 124, 125, 126, 128,
227, 228, 229; organização, 222, 129, 130, 131, 133. 135, 137, 143,
225; palavras, 227; personagem do 144, 145, 146, 147, 152, 154, 159,
momento, 226; práticas dos motins, 162, 165, 167, 168, 171, 172, 176,
219-222; prédio como actor social, 177, 178, 180, 192, 194, 196, 197,
224-226; profissionais da revolta, 200, 201, 202, 204, 205, 206, 207,
236; raptor, 218, 219, 233; regras do 208, 209, 211, 212, 213, 214, 215,
motim, 217-236; revoltosos, 219, 219, 232, 238, 240, 241, 242, 252;
220, 222, 228, 229, 230, 231; rumor/ acção, 52, 63, 184, 219; acto -, 75;
boato, 217, 218, 222, 223, 232; sus­ administração, 104, 105, 106, 110,
peito, 219, 220, 222, 227, 228, 231, 118, 119, 120, 121, 122, 123-124,
235; vingança, 228; violência do -, 125, 128, 129, 130, 133, 135, 139,
219, 220, 226, 229, 230. 140, 144, 145, 146, 151, 156, 157,
MUSEU, 57, 59, 157. 159, 164, 165, 170, 171, 172, 176;
agentes políticos, 212; alianças e di­
PARTICIPAÇÃO, opinião pública, 214, visões, 193, 203, 238, 241, 242; apa­
221; grito público, 223; - alegórica, relhos -, 114, 149; «bem comum»,
67; - política, 75, 176, 213; público, 188, 202, 206, 251; centralização,
214. 105, 111, 121, 123, 131, 133, 134,
PEDAGOGIA, 59, 69,96, 98, 124, 148, 150, 154, 159, 160, 163, 172, 173, 174,
171; concepções educativas, 101; 176, 178; círculos -, 242, 243; classe
educar(educação), 68; ensino dos Je­ -.111; comícios, 114; comportamen­
suítas, 101, 151; escolaridade, 133, to-, 160; conjuntura-, 112, 193,250,
234. 252; consciência das condições -, 71;
PENSAMENTO, 96; arqueologia dos siste­ Constituição, 115, 173, 174, 205,
mas de 35; espírito crítico, 85; 214; contestação, 214; controlo -,
- político, 205; - teleológico, 102, 193; crise -, 204, 207, 246; educação
208; racionalismo, 78, 80, 82, 83; do príncipe, 164; «espírito público»,
razão, 67,83,84,85,86; razão/fé, 83; 129, 170; facções, 242; igualdade,
relativizar, 92; sistema de oposições, 202, 213; imaginário político, 215;
84, 90. intervenção. 95, 170, 176; inven­
PODER(ES), 51,69, 72, 108, 111, 114, 116, ção -, 75; militante, 177; opinião -,
118, 119, 120, 122, 123, 144, 146, 201, 210, 244, 248; ordem pública,
163, 221; autoridade, 78, 104, 107, 232, 233, 234, 235, 236; organiza­
109, 111, 113, 114, 115, 116, 122, ção -, 51; partido, 237,242,243,248;
167, 176, 177, 178, 188, 192, 200, - matrimonial, 238-239; - liberal,
205, 213, 219, 221, 225, 226, 227, 198; prática -, 72; privatização da
228, 229, 231, 232, 234, 235, 250; pessoa real, 247; profecia -, 74; pro­
comissário da polícia, 220, 221,222, grama -,115,124,193; projecto -, 95,
226,227, 228,229; divisão de -,115, 129, 170, 172,243; propaganda, 114,
173; Estado, 85, 87, 104, 106, 107, 123, 146, 147; questionamento, 75;
114, 116, 118, 119, 120, 122, 123, recurso(s) -, 114, 121; reformas so­
127, 132, 134, 135, 136, 138, 149, ciais e políticas, 198; regionalismos,
152, 154, 159, 160, 161, 162, 179, 72, 161, 163, 167, 172; reivindica­
192, 193, 199, 200, 203, 204, 207, ções regionalistas, 71, 172; relação
232,233,241; imagem do -, 145; ins­ contratual, 162, 188; relação -, 51,
trumentos de -, 105; intolerância, 58; 173, 227; repressão -, 49; unidade
legitimação, 88, 106, 108, 111, 112, política, 94, 131-132, 172, 176; uni­
114, 118, 143, 167, 168, 187, 205, formização -, 163, 173, 193; violên­
231; oligarquias, 107,214; - público, cia -, 72.
104, 194; polícia, 218,219,220,221, POPULAR, 4 3 ,4 5 ,46,47,53,59,62,65,66,
222, 223, 224, 225, 227, 228, 230, 87, 95, 226, 228; «ameaça popular»,
231, 232, 233, 235, 236, 252; popu- 63; configuração do -, 47; conota­
lismo do -, 58; preito e homenagem, ções do termo, 57; conteúdos popula­
110; proibição, 91; protecção, 221; res, 55; definição do -, 59-63, 79-80,
razão de Estado, 85, 251; séquito, 88; domínio -, 57, 88; «entusiasmo
104; soberania, 102, 103, 104, 106, pelo-», 52; erro -, 86; figuras do po­
107, 109, 110, 113, 114, 117, 121; pular, 47; formas -, 87; fronteiras
ÍN D IC E TEM Á TICO 265

do 64; idealização do 53; imagé- do -, 64; delimitações do -, 75; erudi­


tica 58; linguagem 50, 51, 87; ção, 81; formas de especialização,
meios 71; movimento 184; 77-98; normalização, 98; obscuran­
práticas 78, 79, 86, 89, 90, 91, 92, tismo, 86; - social, 234; transferência
98; rusticofilia, 52; sistemasdc expli­ de - 45.
cação do -, 60; tradição 62, 66, 72, SEXUALIDADE, 68, 70; amor, 70; silêncio
82. sobre a -, 70-71.
POSITIVISMO, 64, 66. SÍMBOLOS/SIMBÓLICO, 102, 105, 109,
PRÁTICAS, 20, 72, 80, 88, 89, 90, 93, 94, 112, 117, 121, 131, 145, 146, 158,
102, 138, 163, 164, 167, 178, 207, 171, 227, 232; aparelho -, 104, 113;
232,234; atitudes, 78,79, 80, 86,91, armas, 56.
190; critérios de distinção, 82, 180; SOCIAL, 2, 7, 22, 23, 26, 27, 30, 33, 80, 94,
critério de racionalidade das práticas, 95,96, 124-125, 129, 130, 136, 163,
81; hábitos, 142, 170, 171, 176, 222; 166, 169, 171, 184, 189, 190, 215,
- de classificação, 64, 65, 78, 89, 90; 219, 223, 232; actores sociais, 47,
- culturais colectivas, 46; - disciplina­ 224-225; apreensão do -, 41; «ar­
res, 33, 38. caísmo - e cultural», 86; aristocracia,
PSICANÁLISE, 62; morte do pai, 68, 69; re- 52, 53, 56, 85, 207; artefacto -, 92;
calcamento, 62. bloqueio -, 171; burguês, 51, 54, 58,
PSICOLOGIA, 171; conduta/comportamen- 68, 70. 88, 201, 233,235; campo so­
to, 8 7 ,8 8 ,9 5 ,9 6 ,1 2 6 ,1 3 3 ,1 7 0 ,176, cial, 183; camponês(es), 52, 54, 56,
183, 187, 219, 222, 223, 224, 226, 58,65,71, 81,92, 177; categorias do
227; estatuto institucional, 28; medo, -,4; cidadão, 52,53,123,176; ciência
52, 223; terror, 86. do -, 24,25, 36; classe média, 60,68;
classes populares, 96, 97; classes -,
RELIGIÃO, 55, 80, 81, 88, 119, 151. 191, 55, 71,92; classes trabalhadoras, 57;
240; autoridade canônica, 82; cate­ classificações socioprofissionais, 4,
cismo, 234; catolicismo, 67,82; com­ 54,77,137,202; código -, 80,87.88;
portamento religioso, 160; controlo coerência nas abordagens do -, 39;
das práticas -, 87; culto religioso, 83, comportamento -, 160; conceptuali-
157; deveres do cristão, 53; Evange­ zação, 27; condições -, 126; configu­
lho, 67; fé, 89; hereges, 51; herético, rações -, 7, 26, 184; conjuntura -, 34;
54; idolatria, 81; laicismo, 51, 101; consciência das condições -, 71;
ordens religiosas, 106; peregrinação, construção do -, 2 ,6 ,7 , 186; controlo
105; - popular, 67; relíquias, 81; sa­ -, 84; cortesão, 53; descrição -, 66;
grado, 101; secularização, 82; distribuição - das culturas, 75; do­
teólogo (ofício de), 77,79,82,83,84, mínios socioculturais, 98; elite(s),
88 51,57,74,85,94, 106, 151, 156, 165,
REPRESENTAÇÕES, 20, 102, 115, 148, 166, 167, 172, 201, 208, 212, 214,
161, 163, 171, 185, 202, 213, 214, 235, 247; escalas do -, 183; especia­
229; dos adultos, 68, 70; do artesão, lista social, 135; estatuto -, 92, 96,
70; do camponês, 71, 92; do espaço, 226; estrutura -, 27, 34; facto -, 26,
139, 140, 141, 144, 145, 146, 149, 137; fidalgotes, 68; «física social»,
155, 156, 157, 174; da França, 103, 135; forças -, 74; função -, 74, 188;
104, 129, 137, 138, 151, 152; mítica, grupos sociais, 27,59,67, 77, 86,90,
63; de ordem policial, 219; da ordem 233, 235; heterogeneidade -, 93; hie­
pública, 232; do pastor, 67; do povo, rarquia -, 52, 93, 213; homogenei­
58, 61, 68, 71, 97, 171; do regional, dade 157; identidade -, 87; integra­
160, 168, 170, 172; da sociedade, 66, ção -, 205; laços -, 202,205; leis do -,
184, 195; do trabalho, 187. 3;leiturado-, 187;lógicas-, 184; ma-
REVOLUÇÃO FRANCESA, 5, 95, 96, 97, crossocial, 186; massas, 51, 113; ma­
104, 111, 122, 123, 125, 127, 128, triz -, 199; mecanismos sociais de
129, 134, 135, 154, 155, 159, 160, escolha, de crítica, de repressão, 74;
161, 163, 168, 170, 171, 172, 173, notáveis, 246; organizações -, 126,
174. 175, 176, 177, 178, 179, 187, 162,166, 185,209; origem -, 62,235;
209, 223, 244, 248, 249, 251, 252; papéis -, 183-184, 208, 226, 228; po­
Convenção, 55, 128, 154, 159, 177, sição -, 90; povo, 47, 49, 50, 51, 53,
254; Directório, 134, 170. 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61,66, 68, 70,
72,74. 82,86,96,97, 113, 114, 116.
SABER(ES), 47,51,60,61,69,74,75,82,88, 123, 124, 162, 164, 171, 178, 221,
90, 122, 143, 148, 149; categorias 223, 227, 230, 231, 233, 234, 235.
266 A IN V EN ÇÃ O D A SO C IE D A D E

247; práticas de classificação, 21,24, SOCIOLOGIA, 12, 19, 27, 28, 30, 46. 126,
27; relações sociais, 26, 173, 187, 166, 183; durkheimianismo, 19, 21,
200, 202; ricos/pobres, 55, 67; siste­ 28, 29, 30, 32; estatuto institucional
ma, 7, 21, 96; sociabilidade, 87, 94, da - , 21; imperialismo sociológico,
96, 98, 171, 191, 234; socialização, 22; - da cultura, 46, 73,74; - das dis­
191; sociedade, 67, 84, 89, 92, 95, ciplinas, 12; - do mercado, 222-223;
135, 157, 162, 169, 170, 186, 187, - do prédio, 224-226.
196. 198, 209, 211; sociedade de
corte, 247; sociedade industrial, 78; TÉCNICA(S), 87, 88, 114, 146, 154, 190,
sociedades ocidentais, 45; socieda­ 193, 195; caminho-de-ferro, 56, 112,
des pré-industriais, 46; sociedades 114; engenheiro, 130, 144, 147, 154,
tradicionais, 79. 185; solidariedade, 155; revoluções tecnológicas, 34.
34, 84, 129, 175, 187, 205, 212, 225, TRABALHO. 187, 189, 193, 195, 196, 199,
230, 231; tensões -, 65; teoria do so­ 202, 203, 215, 223, 224, 234. 236;
cial, 25; transformações do -, 3, 23; assalariados, 165, 224, 233; associa­
unidade do -, 18, 36,175; utilidade -, ções operárias, 200; competência
135, 196; vocabulário -, 186. profissional, 79, 84, 85, 88, 90, 130;
SOCIEDADE CORPORATIVA, 186, 187, especialistas profissionais, 87, 88,
188, 189; abolição dos corpos de 150; especialização profissional, 77,
ofícios, 184, 198, 200-213; acade­ 79, 88. 90, 98; estatuto profissional,
mias, 185, 186; colectividades orgâ­ 84; grupo profissional, 141; ministe-
nicas, 185, 188; companhias, 185, rium, 188; ofícios, 123, 190, 191,
186; comunidades, 183. 185-215; 192, 193, 194, 195, 197, 199, 200,
confraria, 191, 207; corporações, 201, 202, 205, 207, 209, 211, 212,
184, 189, 192, 193, 194, 197, 203, 213, 214; operário, 52, 56, 58, 116,
207, 210, 213; corpos, 183, 185-215; 199, 202, 223; sans-culottes, 213,
corpos profissionais, 189; críticas à -, 215; trabalho infantil, 233.
194-200; estados ou ordens, 185,
186; estatutos/regulamentos, 189, VALORES, 55, 87. 93, 192, 195, 212, 215,
190, 191, 194, 195, 214; estruturas 227; «imoral», 49, 254; «más leitu­
orgânicas, 187; jurídico-política ras», 56; moral, 52, 65, 69, 80, 87,
(abordagem) da -, 187; modelo cor­ 137, 234, 240, 253; transferências
porativo, 194,195, 197,208; oficiais, de -, 45; - monárquicos, 249; «- revo­
185, 186, 189; e providência divina, lucionários», 56, 170.
185,195; teoria dos corpos e comuni­ VIOLÊNCIA, 59,67,68,70, 71,72,74, 226,
dades, 196; Terceiro Estado, 210; tri­ 234, 244, 250; repressão, 56, 72, 74,
bunais, 185; universidades, 185, 186, 75, 111; - do pai, 69.
189.
267

Origem dos textos por Capítulos:

Capítulo I — «Histoire et Sciences sociales: les paradigmes des Annales», An-


nalesE.S.C., 1979, pp. 1360-1376.

Capítulo II — (Com Michel de Certeau e Dominique Julia) «La beauté du


mort. Le concept de “culture populaire”, Politique d’aujourd’hui, 12, 1970, pp.
1-23.

Capítulo III — «Forms of Expertise: Intellectuals and “Popular” Culture in


France (1650-1800)», in S.L. Kaplan, ed., Understanding Popular Culture, Ber­
lim, W. de Gruyter, 1984, pp. 256-276.

Capítulo IV — «Connaissance du territoire, production du territoire: France,


XIII-XIX1' siècle», in Histoire de la France, dir. André Burguière e J. Revel, vol.
I — Uespace français, dir. J . Revel, Paris, Seuil, 1989-

Capítulo V — «De 1'Ancien Regime à 1’Empire: 1’identité régionale, incon-


tournable et impensable» a publicar em Les lieux de mémoire, dir. Pierre Nora.

Capítulo VI — «Les corps et communautés», in The Prench Revolution and the


Creation of Modem Political Culture, vol. I — The Political Culture of the Old
Regime, direcção de K.M. Baker, Oxford, Pergamon Press, 1988.

Capítulo VII — (Com Arlette Farge) «Les règles de lemeute: 1’affaire des enlè-
vements d’enfants (Paris, mai 1750)», in Mouvements populaires et conscience sociale.
Colloque de 1’Université Paris VII — C.N.R.S., Paris, 24-26 mai 1984, Paris,
1985, pp. 635-646.

Capítulo VIII — «Marie-Antoinette» in Dictionnaire critique de la Révolution


Française, dir. de François Furet e Mona Ozouf, Paris, Flammarion, 1988.
269

ÍNDICE

Nota de apresentação VII

Introdução 1

Parte I Os Annales em perspectiva 9

Capítulo I História e ciências sociais: os paradigmas dos


Annales 13

Parte II Duas variações acerca do popular 43

Capítulo II A beleza do morto: o conceito de cultura


popular. (Com Michel de Certeau e D. Julia) 4 ç>
No começo há um morto, 49- Nascimento de um
exotismo, 52. A «Belle époque» do folclore, 56.
O popular ou o mito das origens perdidas, 59.
Temas populares ou leituras cultas?, 63- Os
temas da história social, 65. Uma geografia do
eliminado, 68. Será possível ser-se bretão, 71.
Ciência e política, 72.

Capítulo III Formas de especialização: os intelectuais e a


cultura «popular» em França (1650-1800) 77

Parte III Configurações espaciais 99

Capítulo IV Conhecimento do território, produção do


território: França, séculos XIII-XIX 103
As viagens do soberano, 104. O regresso ao
território, 1 1 1 . 0 inquérito: da visita à estatística,
117. Os inventários medievais, 118. Nascimento da
estatística, 121. Descrever ou contar?, 127. A
França em números, 132. O mapa da França, 138.
Ao serviço do poder, 144. O amor ao mapa, 149- O
mapa unificado, 152

Capítulo V Do Antigo Regime ao Império: a identidade


regional, inevitável e impensável 159

Parte IV Jogos de papéis sociais 181

Capítulo VI Os corpos e comunidades 185

Capítulo VII As regras do motim: o caso dos raptos de


crianças (Paris, Maio de 1750). (Com Arlette
Farge) 217
Práticas do M otim, 219- O Mercado Saint-Honoré,
222. A casa do Comissário La Vergée, 226. A ordem
policial, 231.

Capítulo VIII Maria Antonieta 237

índice de autores 255

índice temático 259

Origem dos capítulos 267

índice 269
A colecção MEMÓRIA E SOCIEDADE procura dar resposta a uma tripla
mutação que tem ocorrido nas últimas décadas na área das ciências sociais
e humanas. Em primeiro lugar, a pesquisa procede cada vez mais através da
formulação de problemas, desenvolvendo os métodos necessários à sua
elucidação. Paralelamente, põe em causa as condições da sua própria
produção e as possibilidades dos discursos com que lida. Este itinerário
im plica uma ruptura com as barreiras existentes entre disciplinas, emergin­
do formas interdisciplinares de pensar os problemas que contrariam os
sim plism os das «escolas». Nesta perspectiva, tendem a ser superadas as
fronteiras entre sociologia, história, geografia, antropologia, psicologia
social ou ciências do texto, surgindo reflexões cruzadas sobre velhos objectos
e transferências metodológicas na construção de novos objectos de estudo.
Em segundo lugar, o número de investigadores deste campo aumentou
extraordinariamente nos últimos vinte anos, verificando-se uma actividade
de pesquisa mais intensa e inovadora, uma maior troca de experiências e
uma comunicação activa com a pesquisa internacional. Enquanto se esboça a
organização informal de uma comunidade científica, complicam-se as rela­
ções entre os investigadores e os diversos agentes culturais que trabalham no
sistem a de ensino, nos meios de comunicação social e noutras áreas. Por um
lado, a afirmação de um duplo estatuto por parte de numerosos agentes
permite ao sector da criação aproximar-se do sector da difusão. Por outro
lado, as necessidades da especialização e os condicionamentos da reprodução
im plicam bloqueios no intercâmbio entre os dois sectores.
Por últim o, a reestruturação da oferta cultural, tanto ao nível dos agen­
tes como dos suportes de difusão utilizados (livro, jornal, disco, filme, video,
diskette), tem caminhado a par de uma maior complexidade da procura
cultural. Com efeito, o aumento do nível de instrução registado nos últimos
vinte anos e a diversificação profissional ocorrida no sector de serviços
(particularmente na indústria cultural e na indústria do lazer), tornaram
o público mais exigente e mais especializado. Este fenômeno comporta em si
um a procura de leituras diversificadas, incluindo nestas a leitura de quali­
dade — que permita compreender as tendências mais profundas da socieda­
de, a posição de cada um e a posição dos outros — , pois a especialização cria
a necessidade de olhar em volta e de aceder a visões descentradas dos
pequenos universos em que nos movemos.
Colecção
MEM ÓRIA E SOCIEDADE

Bourdieu, Pierre
0 Poder Simbólico

Chartier, Roger
A História Cultural:
entre Práticas e Representações

Revel, Jacques
A Invenção da Sociedade

A publicar:

Almeida, Pedro Tavares de


eleições e Caciquismo no Portugal de 0,

Burke, Peter
Antropologia Histórica

Crespo, Jorge
A História do Corpo

Dunning, Eric
Elias, Norbert
A Busca da Excitação

Elias, Norbert
A Condição Humana

Geertz, Clifford
0 Teatro do Estado no Século XIX

Ginzburg, Cario
A Micro-História e Outros Ensaios

Godinho, Vitorino Magalhães


Mito e Mercadoria, Utopia
e Prática de Navegar

Luhmann, Niklas
0 Amor como Paixão

Oliveira, Antônio de
Poder e Oposição (1580-1640)

Shils, Edward
Centro e Periferia