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“O Primeiro Marxista”, artigo do livro A Obra Teórica de Marx (ISBN 85-85833-

67-X), pp. 81-89, organizado por Armando Boito Jr., Caio Navarro de Toledo e
outros. São Paulo: Xamã/IFCH-Unicamp, 2000.

O PRIMEIRO MARXISTA

Ricardo Musse*

A questão da relação entre as obras de Karl Marx e de Friedrich Engels


tem sido com freqüência mal posta. A aferição que se propõe a destacar a
unidade ou a heterogeneidade entre elas –particularmente entre os textos
canônicos do materialismo histórico e a produção tardia de Engels– quase
sempre parte de um pressuposto equivocado. Atribui-se ao conjunto de escritos
de Engels após 1878, sintetizados no emblema “último Engels”, o mesmo
estatuto dos textos de fundação do materialismo histórico.

Seja qual for o resultado do exame e da avaliação desse corpus teórico, é


raro que se diferencie, com a devida precisão, que Engels foi protagonista de
dois processos distintos: a constituição do materialismo histórico (numa parceria
que Marx nunca cessou de reconhecer e exaltar) e a configuração do primeiro
capítulo do marxismo (na acepção desse termo que se refere não à teoria –os
escritos e os princípios– de Marx/Engels ou à adesão a essa doutrina, mas à
tradição constituída pela adição ao legado de Marx da contribuição intelectual de
seus seguidores ou do arsenal prático-teórico, desenvolvido pelos diversos
movimentos e partidos operários).

Nessa perspectiva, a questão da unidade ou heterogeneidade entre as


obras de Marx e de Engels não comporta mais, como antes, uma resposta
binária. Se, por um lado, no primeiro movimento, uma assumida co-autoria
(manifesta em princípios e em livros) torna infrutíferas as perquirições centradas

*
Professor do Departamento de Sociologia da USP.
na heterogeneidade, por outro lado, no segundo movimento, a modificação de
propósitos e de procedimentos inviabiliza investigações focadas na questão da
unidade.

A partir da publicação de Anti-Dühring, um escrito de circunstância redigido


a contragosto para satisfazer um pedido da social-democracia alemã, Engels
dedicou-se cada vez menos à determinação da especificidade do materialismo
histórico (um projeto de certa forma concluído com a redação por Marx de O
Capital). Nas quase duas décadas seguintes –um período decisivo para a
consolidação do marxismo como doutrina unitária e como corrente hegemônica
no movimento operário– a divisão de trabalho atribuída a Engels durante os
últimos anos da vida de Marx, a tarefa de orientar e acompanhar os partidos
socialistas (em processo de formação), não deixou de contribuir para que sua
produção teórica caminhasse em outras direções.

Nas últimas obras de Engels, pode-se discernir, retrospectivamente, em


meio ao emaranhado de preocupações conjunturais e práticas, um princípio
organizador: a sistematização das principais providências que possibilitaram ao
marxismo constituir-se como uma tradição teórica e prática após a morte de
seus fundadores. Seus textos serviram de modelo para procedimentos que,
embora ausentes ou secundários nos textos canônicos do materialismo
histórico, cristalizaram-se como próprios do marxismo.

Deve-se ao “último Engels”, por exemplo, a primeira apresentação em


separado do método (um hábito reiterado que leva comentadores a censurar na
tradição do marxismo sua ênfase epistemológica). Pode-se detectar, nesses
textos, a origem da preocupação de ancorar a identidade (e a autocompreensão)
do materialismo histórico em uma das vertentes do saber constituído, patente na
definição que o concebe como “socialismo científico”. Inauguram também o
procedimento de incorporar uma tradição intelectual desenvolvida
independentemente de seus princípios teóricos e de sua prática política, visível
no anseio de Engels de conferir legitimidade ao marxismo, aproximando-o dos
resultados das ciências naturais. Por fim, cabe observar que tais textos
forneceram a primeira versão da gênese e da constituição do materialismo
histórico, associada a uma descrição das complexas relações que o vinculam ao
idealismo filosófico alemão e à economia política inglesa.1

Desde então, a tarefa, renovada a cada geração, de atualizar o marxismo


(demanda inerente a uma doutrina assumidamente histórica), dispõe de um
modelo formal ao qual, ao longo de um século, pouco se acrescentou. A
exigência, solidificada por uma sucessão de teóricos, de que cada autor que se
pretenda marxista deve, junto com um diagnóstico do presente histórico,
complementar o legado de Marx em conexão como uma interpretação própria de
sua obra (e de seus seguidores) nada mais é que um desdobramento do projeto
de sistematização e ampliação do marxismo posto em prática nas últimas obras
de Engels.

Como se sabe, o esforço de Engels para atualizar a teoria, levando em


conta as demandas próprias de seu tempo, desenvolveu-se em duas frentes:
como intérprete (e sistematizador) e como desbravador de novas fronteiras para
o materialismo histórico. Sua ascendência sobre os teóricos e militantes da
época da Segunda Internacional (que rivalizava e até mesmo sobrepujava às
vezes a influência de Marx) justifica-se não apenas pela sua condição de co-
fundador dessa tradição, mas sobretudo pelo fato de que se deve a ele tanto a
determinação das premissas que possibilitaram então a compreensão do
marxismo como um todo homogêneo e “orgânico” –como um “sistema” apto a
englobar em uma só palavra um método, uma visão de mundo e um programa
de ação–, quanto ao seu trabalho de expansão dos limites do marxismo
(desenvolvido mais em função do ambiente intelectual da época, marcado
duplamente pelos avanços da ciência e pelo anseio cientificista de ordená-los de
maneira enciclopédica, do que propriamente em decorrência de necessidades
internas da teoria).

Sua participação na fundação do materialismo histórico ampliou, com

1
Para uma versão mais detalhada desses pontos, veja meus artigos “A Dialética como
Método e Filosofia no Último Engels” e “Sistema e Método no Último Engels.
certeza, a credibilidade inerente a suas últimas obras, marcadas por uma estrita
coerência interna e adequação aos propósitos. Isso contribuiu para que o
conjunto de texto definidos pela fórmula “último Engels” assumisse uma
importância maior do que seria própria à condição de primeiro estágio de um
percurso histórico. Sua produção intelectual e suas diretrizes práticas, mais do
que o primeiro capítulo do marxismo, tornaram-se uma mediação incontornável
entre a teoria de Marx e os desenvolvimentos posteriores da tradição marxista.

O papel decisivo das últimas obras de Engels é corroborado pela sua


importância para a prática política do marxismo. Esses textos também contêm
um modelo de interpretação do presente histórico que foi adotado como padrão
e medida pelas gerações subseqüentes.

O testamento de Engels

Apesar do evidente teor político presente em qualquer avaliação da


contribuição de Engels para o desdobramento, teórico e prático, do marxismo,
pomo de discórdia –ora central, ora secundário– responsável pela gestação de
uma recepção que tomou a forma de uma controvérsia infindável, consolida-se
hoje cada vez mais a convicção de que a inflexão do seu pensamento a partir de
1878, exige, para ser compreendida corretamente, a determinação de alguns
dos vínculos que a entrelaçam com as transformações históricas do período;
mudanças essas que configuram, se não propriamente um novo padrão para o
capitalismo, pelo menos, uma nova fase de desenvolvimento para o proletariado
europeu.

Uma contraprova da pertinência dessa vertente interpretativa pode ser


obtida por meio de uma análise da famosa “Introdução de 1895” –redigida por
Engels para uma reedição alemã de As Lutas de Classes na França– que
abandone o foco via pacífica ou revolução violenta (questão aliás já dirimida
desde a publicação, por Riazhánov, da versão integral do texto em 1925-26,2
mas, mesmo assim, pauta por demasiado tempo da sua recepção). Ao cabo de
uma leitura não totalmente desinteressada dessa “Introdução” é possível
localizar ali um conjunto de indícios de que o próprio Engels, nesse texto que a
social-democracia acolheu como uma espécie de “testamento político”, tinha
consciência de que a nova configuração que o marxismo adquirira enquanto
“socialismo científico” não era infensa às modificações nas condições sob as
quais o proletariado ensaiava a luta de classes e o caminho para o poder.

A “Introdução de 1895” não é uma peça isolada. A parcela mais conhecida


da produção intelectual do último Engels abrange desde livros como o Anti-
Dühring (e a sua versão condensada Do Socialismo Utópico ao Socialismo
Científico), A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado ou Ludwig
Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã, passando por alguns artigos da
póstuma e inacabada Dialética da Natureza, até extratos de uma volumosa
correspondência (que contém, entre outras coisas, uma tentativa de refinamento
conceptual das premissas do materialismo histórico)3. O corpus de sua obra,
entretanto, permanece incompleto se não se leva em conta uma longa série de
prefácios, na qual a “Introdução de 1895” é de certa forma o ápice, com ajuda
dos quais Engels pretendia cumprir, em parcelas desiguais, o programa de
organizar o conhecimento nos domínios da história, das ciências naturais e da
tradição intelectual nos moldes de uma enciclopédia lacunar e fragmentária.4

2
Na verdade, essa controvérsia só pôde existir devido a uma fraude. À publicação no
Vorwärts, em 1895, de uma versão expurgada de qualquer menção revolucionária, em
parte justificada por uma nova ameaça de suspensão dos direitos de organização do
partido socialista, seguiu-se a falta de empenho por parte da social-democracia alemã em
tornar pública a versão integral. Sobre isso cf. Negt, “O Marxismo e a Teoria da
Revolução no Último Engels”, p. 153 e Bertelli, “Uma Introdução Polêmica”, pp. 10-13.
3
Para um relato pormenorizado do contexto e do conteúdo desse esforço para clarificar e
determinar melhor o materialismo histórico cf. Gustafsson, Marxismo e Revisionismo, pp.
48-65. Algumas dessas cartas encontram-se traduzidas em Marx e Engels, “Natureza e
Significado do Materialismo Histórico”, pp. 455-470.
4
Nessa lista cabe destacar os prefácios às edições inglesas de O Capital, (novembro de
1886), do Manifesto do Partido Comunista (janeiro de 1888), de Do Socialismo Utópico
ao Socialismo Científico (abril de 1892) e as introduções às edições alemãs de A Guerra
Em parte, os temas abordados nesses prefácios procuram complementar
assuntos discutidos mais extensamente nos livros do período. Assim, por
exemplo, o “Prefácio à edição inglesa de Do Socialismo Utópico ao Socialismo
Científico” traz uma longa digressão sobre a história intelectual da Inglaterra,
mais particularmente acerca da sua tradição materialista, muito semelhante,
guardadas as proporções, ao painel histórico da vida mental alemã apresentado
em Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã.

O objetivo principal desses prefácios, porém, parece ser o de completar o


esboço de história universal delineado por Marx e Engels no Manifesto do
Partido Comunista e atualizado em vida por Marx apenas no que tange à história
francesa,5 acompanhada passo a passo da insurreição de 1848 à derrocada da
Comuna de Paris em 1871. Além de sumariar, em rápidas e breves pinceladas,
as histórias correspondentes da Alemanha e da Inglaterra, Engels se propõe a
avançar até a década de 1890, destacando a “transformação em realidade
daquilo que até então existira apenas em germe: o mercado mundial” (id.,
“Prefácio de 1892 a A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, p. 122).

Engels identifica, adotando uma periodização depois banalizada pela


história econômica, duas fases nesse intervalo: o surto de prosperidade
industrial, iniciado após a crise de 1847 (causa primária, segundo ele, das
revoluções de 1848) e que se estende até meados da década de 1870, uma era
de expansão comercial e industrial promovida pelo incremento e pela aplicação
generalizada de novos meios de comunicação (estradas de ferro e navio a
vapor); e o subseqüente período de estagnação que, além de ampliar a
concentração do capital, quebra o monopólio industrial mantido pela Inglaterra
por quase um século. O que mais lhe interessa nesse quadro, entretanto, é a
situação da classe operária, ou melhor, as modificações das condições de
enfrentamento entre as classes.

Civil na França (março de 1891) e de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra


(junho de 1992).
Dentre os sinais mais evidente de uma mudança no panorama estão, sem
dúvida, as alterações na avaliação, levada periodicamente a cabo por Engels, da
capacidade organizacional e insurrecional da classe trabalhadora na França, na
Alemanha e na Inglaterra. Enquanto em 1886, no “Prefácio da Edição Inglesa de
O Capital”, a confiança no potencial da classe operária inglesa ainda lhe permite
endossar a afirmação de Marx de que a Inglaterra é “o único país onde a
revolução social poderia realizar-se inteiramente por meios pacíficos e legais”,
nos anos 90 a esperança de triunfo desloca-se inteiramente para o proletariado
alemão.

Essa transferência do centro de gravidade do movimento operário europeu


é atribuída, no painel constituído pelos prefácios de Engels, a uma conjunção
circunstancial de fatores: a gestação, na Inglaterra, de uma parcela privilegiada
–já nomeada pela etiqueta “aristocracia operária”–, basicamente operários fabris
e “tradeunionistas”,6 capaz de manter durante a depressão a “melhoria” relativa
conquistada, por meio de pequenas reformas, na fase de expansão; as
dificuldades do proletariado francês para se recuperar da derrota da Comuna e,
por fim, o novo cenário desencadeado pelo acelerado desenvolvimento industrial
alemão (obtido em parte graças às reparações de guerra pagas pela França por
conta da derrota de 1871), no qual o partido social-democrata não cessava de
acumular votos e adesões.

Um dos méritos da “Introdução de 1895” foi ter cristalizado em um todo


coerente, sob a forma de uma espécie de balanço fin de siècle, linhas de forças
apenas entremostradas em textos anteriores. O saldo revolucionário do século,
marcado por uma dupla constatação, indica o fim do ciclo histórico influenciado
pelo modelo de 1789 –uma seqüência (1830, 1848, 1871) de derrotas,

5
Os livros de Marx sobre esse período, tentativas de escrever a história no calor da hora,
são, respectivamente, As Lutas de Classes na França (1850), O 18 Brumário de Luís
Bonaparte (1852) e A Guerra Civil na França (1871).
6
Engels designa por “tradeunions” as “organizações que abrangem os ramos de produção
em que exclusivamente ou pelo menos predominantemente trabalham homens adultos”
(id., “Prefácio de 1892 a A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, pp. 129-
130).
inevitáveis segundo Engels, porque tais insurreições se efetivaram ainda no
registro, ultrapassado e, sobretudo, inadequado para o proletariado, de
“revoluções de minorias”–, mas aponta também para a consolidação de novas
formas de lutas em que o fortalecimento dos partidos operários, por meio de um
uso inteligente do sufrágio universal, torna possível, agora sim, a verdadeira
insurreição (cuja legitimidade, diga-se de passagem, é garantida, mesmo nos
quadros estritos da legalidade, pelo inalienável “direito histórico à insurreição”)
preconizada pelo marxismo desde o Manifesto –a “revolução da maioria”.

Desse modo, ao colocar novamente na ordem do dia a questão da


passagem do capitalismo ao socialismo, abandonada desde os escritos de
balanço do desbaratamento da Comuna, a “Introdução de 1895” ensejou uma
revivescência da teoria revolucionária. O procedimento de ancorar a
determinação da estratégia e da tática proletária tanto, retrospectivamente, em
uma compreensão unitária e abrangente da história das lutas do movimento
operário quanto, prospectivamente, na delimitação de novos espaços e formas
de atuação, estabeleceu um padrão que acabou incorporado por toda uma
geração de marxistas.7

Deixando de lado, por enquanto, a recepção que a posteridade concedeu


ao “testamento político” de Engels, importa aqui observar que a “Introdução de
1895”, cuja finalidade inicial consistia em apresentar uma coletânea de textos
sobre a revolução de 1848 na França, escritos por Marx no decorrer dos
acontecimentos, nem sempre desatenta às normas do gênero, desenvolve-se
sob a forma de uma reiterada comparação entre essas duas épocas, tomando
por eixo a mudança nas condições e nos métodos de luta do proletariado.

7
Não seria descabido identificar traços de uma retomada da “Introdução de 1895” na
linhagem subseqüente de escritos revolucionários. Kautsky, Rosa Luxemburg, Trotsky,
Lenin e até mesmo Gramsci parecem ter sido influenciados, em maior ou menor medida,
no mínimo, pelo seu modelo de exposição. Além disso, determinados conteúdos como,
por exemplo, a recomendação da conquista prévia da maioria antes do embate decisivo
com a burguesia, tornaram esse texto uma referência obrigatória. Confrontados por novas
condições históricas, muitos marxistas devotaram-se seja a desenvolver idéias ali
esboçadas seja a refutar suas afirmações.
O fim do fascínio pelo modelo instaurado pela experiência histórica
anterior, especialmente pela revolução francesa de 1789; a perseverança no
trabalho a longo prazo, o combate prolongado por posições –o que implica em
uma consistente alteração na natureza e na marcha da revolução social–,
decorre, na interpretação de Engels, de uma série de transformações que
subverteram o padrão assentado em domínios aparentemente tão díspares
como os da técnica militar, da urbanização e da tática de enfrentamento entre as
classes. A obsolescência da insurreição no estilo antigo, centrada no combate
de barricadas, é apenas a ponta mais visível desse novo cenário, transfigurado
pela crescente complexidade do Estado burguês, atestada tanto pelo
aprimoramento do aparato de repressão e coerção quanto pela existência de
instituições que possibilitam ao proletariado levar adiante, dentro da legalidade,
o confronto com a burguesia.

Na avaliação de Engels, as novas condições do jogo político seriam


extremamente favoráveis ao proletariado.8 As possibilidades abertas pela
utilização do sufrágio universal, redimensionada pelos êxitos do partido social-
democrata alemão, vão além de aplicações indiretas como a aferição da força
da proletariado pelo recenseamento periódico da sua base de apoio. O uso
político das eleições e da vida parlamentar –facilitando, em períodos de agitação
eleitoral, o acesso às parcelas mais distantes das massas populares e
amplificando pela ressonância da tribuna parlamentar a voz dos operários–
tende a transformar a atuação legal dos partidos socialistas em verdadeiros
instrumentos de emancipação.

A compreensão engelsiana do presente histórico completa-se com a


exposição de dois pontos decisivos que realçam ainda mais a vantagem

8
Em 1884, em A Origem da família, da propriedade privada e do estado, Engels
concebia o Estado de forma mais unilateral, ainda no registro “comitê executivo da
burguesia”. O sufrágio universal, arma do domínio burguês na república democrática,
servia apenas para facilitar a organização do proletariado em partido independente, capaz
de eleger seus próprios representantes, funcionando assim como uma espécie de índice do
seu amadurecimento. A classe operária, na conclusão de Engels, “no Estado atual não
pode, nem poderá jamais ir além disso” (id., ibid., p. 195).
comparativa do proletariado de então. A derrota de 1848 não pode ser imputada
apenas ao modelo insurrecional predominante, à “revolução de minorias”, uma
vez que “o estado de desenvolvimento econômico no continente ainda estava
muito longe do amadurecimento necessário para a supressão da produção
capitalista” e, além disso, “reinava então a multidão dos confusos evangelhos
das diferentes seitas com suas respectivas panacéias” (Engels, “Introdução a As
Lutas de Classes na França”, pp. 35-36). Em 1895, ao contrário, junto com as
alterações nas condições objetivas –a disseminação por toda a Europa da
revolução industrial, do predomínio da grande indústria, e o subseqüente
esgotamento da sua capacidade de crescimento, comprovado por uma
persistente recessão econômica– modifica-se também a situação política. Pela
primeira vez, os marxistas não são fustigados por facções concorrentes à
esquerda:

hoje em dia há uma única teoria, a de Marx, universalmente


reconhecida, excepcionalmente clara e que formula com
precisão os objetivos finais da luta (...) hoje há um só grande
exército internacional dos socialistas, incessantemente em
progresso, crescendo dia a dia em número, organização,
disciplina, clarividência e certeza na vitória (Engels, idem, p. 36).

Cauteloso e reservado como sempre, Engels sequer insinua, mas é lícito


inferir que uma parcela ponderável do êxito da unificação do proletariado sob a
bandeira do marxismo deve ser atribuído ao seu trabalho dos últimos anos, em
especial à exposição geral, sistemática e unitária dessa doutrina como uma
concepção dialética e materialista da natureza e da história.9 Afinal, foi sob a
égide dessa imagem uniformizada do conteúdo e da história do marxismo que
se conquistou a tão almejada unidade política da classe operária.

9
Uma manifestação teórica desse predomínio absoluto do marxismo no âmbito do
movimento operário é a reavaliação, levada a cabo pelo último Engels em Do Socialismo
Utópico ao Socialismo Científico e em Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica
Alemã, respectivamente, dos socialistas utópicos e dos jovens hegelianos. Os rivais de
Diante do triunfo extraordinário da versão engelsiana do marxismo,10 quase
tudo parecia corroborar a versão que credenciava o “socialismo científico” como
a teoria mais afeita às transformações históricas que apontavam uma nova fase
de desenvolvimento para o proletariado europeu.

A pretensão de Engels, entretanto, motivo dessa contida autoexaltação,


era verdadeira apenas em parte. Entre a imagem que construíra do marxismo e
as massas proletárias havia ainda uma correia de transmissão imbuída da tarefa
de transformar a teoria em força material –o aparato organizacional da classe
operária, cuja instância superior eram os diversos partidos social-democratas–,
que, mesmo funcionando apenas como anteparo, acabou por cristalizar uma
determinação própria da doutrina, posteriormente qualificada de “marxismo da
Segunda Internacional”.

outrora, tratados acerbamente nos escritos juvenis, são retratados agora, enquanto elos de
uma tradição, como inofensivos precursores.
10
Esse sucesso torna-se ainda mais espantoso quando se leva em conta que na década de
1870, quando Engels entra em campo, como ressalta Oskar Negt, “apesar da inegável
influência do pensamento de Marx sobre toda uma série de intelectuais socialistas, sobre
os quadros do partido e sobre uma parte da própria ciência burguesa, o processo
estritamente político de transformação da classe operária numa ativa potência material
ameaça desenvolver-se de maneira independente da teoria marxista da sociedade e até
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