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Paul Krugman tem razão: a taxa de juro do leilão da dívida foi “pouco menos que ruinosa”

Continuamos a empurrar os problemas com a barriga…

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP
º andamento: O Beco contra a humanidade”. Mesmo assim falha o ponto
Esta semana um amigo meu interrogava-se essencial: Portugal depende da boa vontade dos cre-
não sobre se deveria aconselhar os filhos a dores porque se deixou endividar a um ponto que
procurarem um futuro fora de Portugal – isso não vive sem empréstimos constantes. Pior: num
já estava a acontecer –, mas sobre se algum dia, país que tem de importar 75 por cento dos cereais
mais tarde, eles teriam um futuro em Portugal. No que consome, imaginar que se pode romper com
mesmo dia uma jovem aluna, ao ler um título do os mercados é pura estultícia e, em campanha elei-
José Diário de Notícias que indicava durarem os encar- toral, só serve para alimentar a demagogia.
Manuel gos das PPP mais 72 anos, confessava que já tinha É que, como escrevia a revista The Economist, “pa-
Fernandes pensado procurar um casamento de conveniência ra todos aqueles que se deram ao trabalho de obser-
nos Estados Unidos para se poder naturalizar ime- var, tem sido evidente de há bastante tempo que o
Extremo diatamente. Não soube que responder-lhes. país estava a viver acima dos seus meios. Mais tarde
ocidental Foi por isso quase com um sentimento de revolta ou mais cedo era inevitável que acabasse na bancar-
que ouvi, na quarta-feira, as reacções entusiasmadas rota, e foi à bancarrota que Portugal agora chegou”.
ao “sucesso” do leilão de divida pública à taxa de Na verdade, tecnicamente, ainda não chegámos à
6,716 por cento (um preço “muito bom”, delirou bancarrota, mas este artigo da Economist também
mesmo o primeiro ministro). Paul Krugman cha- não é desta semana, foi publicado a 6 de Fevereiro de
mou-lhe porém “leilão pírrico” e previu que com 1892. Alegre pode conhecer Os Lusíadas de cor, mas
“mais alguns sucessos destes a periferia europeia se conhecesse melhor a nossa história económica
será destruída”. É fácil explicar porquê: com a in- talvez soubesse que não nos convinha repetir esse
flação limitada a dois por cento pelo Banco Central colapso financeiro de que levámos décadas a sair e
Europeu, Portugal precisaria de crescer a quase que conduziu, em última análise, a Salazar.
cinco por cento ao ano para conseguir, sem alienar

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património, começar a amortizar as suas dívidas. º andamento: O Segundo Dilema
Isto quando, nos últimos dez anos, praticamente Se nos abstrairmos dos cálculos políti-
não crescemos e, em 2011, o Banco de Portugal prevê cos e partidários, assim como dos jogos de
mesmo que encolhamos 1,3 por cento. Ou, como orgulho pessoal, um eventual pedido de
se escrevia na The Economist, “a taxa [de 6,716 por ajuda de Portugal também deve ser anali-
cento] é insustentavelmente alta para um país com sado numa perspectiva europeia. É que, como se
tanta dívida pública. Se Portugal quer continuar sol- escrevia no Wall Street Journal, um eventual resgate
vente, o custo dos seus empréstimos tem de descer de Portugal – cada vez mais provável, mesmo que no
substancialmente”. leilão aparecessem compradores, como apareceram
Não deviam pois estalar rolhas de champanhe aos fundos europeus até não terem – “não impediria que os problemas europeus com as
quando, ao contrairmos dívida a esta taxa de juro,
Não foram “os mercados” outra alternativa, Atenas e Dublin dívidas soberanas continuassem a alastrar”.
estamos a cravar mais um prego no nosso caixão. que nos aprisionaram, tornaram o processo de resgate O raciocínio dos editorialistas do WSJ era seme-
Isso só aconteceu porque, em Portugal, e também mais confuso e penoso do que o lhante ao que Vitorino expusera no jantar queiro-
na Europa, domina uma visão de curto prazo. Os fomos nós que nos necessário. Lisboa está a repetir o siano: ao pensar que podem resolver os problemas
líderes preocupam-se apenas com o mês seguinte colocámos na posição erro ao encarar como uma desgra- da dívida soberana separando mais uma fatia como
e não, como os meus interlocutores, com as próxi- ça nacional pedir ajuda”. quem corta um salame, a Europa não está a perce-
mas décadas. de depender da sua boa Ambas estas abordagens partem ber que tem é de tratar de todo o salame sob risco
Sejamos pois claros: Portugal encontra-se numa do princípio do que será melhor de não conter a infecção. É por isso que ele se opõe
situação semelhante à da generalidade dos países
vontade depois de anos e para Portugal, e ambas convergem ao resgate de Portugal.
do sul da Europa que, esta semana, foi muito bem anos de farra orçamental, num ponto: quando mais depres- Falta contudo considerar as alternativas. Isto é,
retratada por Wolfgang Münchau, colunista de as- sa chegar a ajuda, menos dolorosa pensar no que poderá fazer a Europa para além de,
suntos europeus do Financial Times, e por Ambrose pagamentos a clientelas será a terapia. E até nem é difícil por exemplo, aumentar o tamanho do fundo de
Evans-Pritchard, editor de economia internacional e gastos lunáticos perceber porquê: os juros que terí- emergência ou flexibilizar as suas regras. Wolfgang
do Telegraph de Londres: estes países têm, ao mes- amos de pagar pelos empréstimos Münchau fazia no FT algumas sugestões e Vitori-
mo tempo, de conseguir recuperar a competitivi- se recorrêssemos depressa à ajuda no também entreabriu algumas portas. Münchau
dade perdida das suas economias e de controlar as europeia seriam sempre menores do que aqueles reconhecia contudo que as suas propostas eram
suas dívidas, mas realisticamente só conseguirão, que pagámos quarta-feira no leilão da dívida. Só aí “politicamente inconcretizáveis”, o que se com-
nas actuais condições, enfrentar um desses proble- estaríamos a ganhar, e muito. preende se pensarmos que elas passariam sempre,
mas, nunca os dois ao mesmo tempo. Só através de Por outro lado, apesar de toda a retórica sobre como disse Vitorino, por “novas transferências de
uma desvalorização (impossível no quadro da união “estarmos a fazer o trabalho de casa”, a verdade é soberania sem mexer nos tratados”, logo sem ter
monetária) ou do reescalonamento da dívida (um que ainda se arrasta os pés. Basta pensar no famo- de passar pelo crivo dos eleitores. Para Portugal o
tabu por enquanto) poderão países como Portugal so pacote para a competitividade levado por José cenário poderá ainda ser pior, ocorrendo aquilo a
sair do beco onde se meteram. Sócrates a Bruxelas, e que não passava de uma mão que chamou “transferências de soberania assimé-
cheia de nada e de outra de coisa nenhuma. Um em- tricas”. Já para a Europa representaria a criação

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º andamento: O Primeiro Dilema purrãozinho de fora para tomarmos juízo e darmos de uma união política nas costas dos cidadãos, um
Há uma pesada sensação de “déjà vu” na corda aos sapatos seria, de novo, bem-vindo. movimento contra o qual alertou, também esta se-
coreografia dos líderes europeus e portu- mana, o influente economista alemão Otmar Issing,

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gueses a propósito de um eventual recurso ntermezzo: Os Desvairados um dos “pais” da moeda única.
de Portugal ao fundo de emergência euro- Entretanto prossegue nas estradas do país Daí que, desculpem a minha frontalidade, tenha
peu (e ao FMI). Passo a passo parece estarmos a uma campanha eleitoral onde desvairadamen- de colocar um segundo dilema associado à vin-
seguir as pisadas da Grécia e da Irlanda. Ambrose te se grita que as nossas aflições derivam “de da ou não do FMI: será melhor uma transferência
Evans-Pritchard notou até uma particular coincidên- uma acção especulativa que tem como objec- temporária de soberania até ultrapassarmos esta
cia: a precipitação do processo de ajuda ocorreu, na tivo forçar a entrada do FMI em Portugal”, algo que crise ou uma transferência permanente de sobe-
Irlanda, quando o governador do Banco Central en- “vem de fora mas tem cumplicidades cá dentro”, rania para uma Europa que se tornaria institucio-
trou em dissonância com o Governo de Dublin; em como disse Alegre. Claro que esta gritaria contra “os nalmente desigual?
Portugal Carlos Costa ainda não divergiu de Teixeira mercados” é completamente inútil, pois estes não Não sei a resposta. Só sei, e não esqueço, que
dos Santos, mas uma das suas vice-governadoras, se impressionam por serem considerados “bodes estamos neste buraco por causa de uma gestão po-
Teodora Cardoso, já o fez. E o que é que ela disse? expiatórios”, como notou António Vitorino num lítica irresponsável. Não foram “os mercados” que
Que tudo poderá ser mais “mais fácil se tivermos jantar no Círculo Eça de Queiroz. nos aprisionaram, fomos nós que nos colocámos
um apoio externo, desde logo porque isso permite Claro que a campanha de Alegre não chega aos na posição de depender da sua boa vontade depois
que o ajustamento não seja tão abrupto “. delírios retóricos do seu apoiante Boaventura Sousa de anos e anos de farra orçamental, pagamentos
Em editorial, o Financial Times defende uma Santos, para quem os mercados “são um bando de a clientelas e gastos lunáticos. Jornalista, www.
posição semelhante: “ao terem recusado recorrer criminosos”, “uns mafiosos” que cometem “crimes twitter.com/jmf1957