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ENTREVISTA

Entrevista

A filosofia frente a relação entre mídia


e política*
Entrevista com o filósofo Vladimir Pinheiro Safatle**

Realizada por Luiz de Camargo Pires Neto***

Vivemos em uma sociedade na qual a mídia desempenha um importante papel no cam-


po político, cultural, social e econômico. Segundo o Prof. Dr. Vladimir Pinheiro Safatle, o
estudo da mídia configura um capítulo fundamental para compreendermos os processos
de constituição das relações sociais na contemporaneidade, de circulação de desejos e de
organização dos modos de reprodução material da vida. Ao estabelecermos uma relação
com a política, observamos que uma grande expectativa cultivada nos anos 1990, de que a
reconfiguração técnica do campo da comunicação de massa poderia trazer um impacto pro-
dutivo e virtuoso para o processo de democratização, não se consolidou. A livre circulação
de informação não garante a democracia. Diante desse contexto, a filosofia pode contribuir
para desenvolvermos uma reflexão acerca da relação entre a política e a comunicação. Nesta
entrevista, o filósofo e professor Vladimir Safatle nos conta sobre sua trajetória acadêmica
e a principal questão presente em seus estudos e publicações, evoca a produção da Escola
de Frankfurt para refletir uma crítica social e cultural na atualidade, critica a suposição de
que presenciamos uma onda conservadora, analisa a presença dos intelectuais na imprensa
brasileira hoje, dialoga com as ideias de Michel Foucault, observa a função da Filosofia no
mundo contemporâneo e, à luz das ideias de Bento Prado Jr., aponta o que vem se consti-
tuindo em uma experiência filosófica própria de um país como o Brasil.

Luiz de Camargo Pires Neto – Em seu currículo, vemos que o senhor é graduado em Filo-
sofia e Comunicação Social, tendo inclusive concluído os dois cursos no mesmo ano. Para
iniciarmos, o senhor poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória acadêmica, seu per-
curso na Filosofia e se nele existem pontos de intersecção entre essas duas áreas de conheci-
mento, ou seja, a Filosofia e a Comunicação?

* Data de recebimento: 15/09/2017.


** Vladimir Pinheiro Safatle é filósofo formado pela Universidade de São Paulo. Graduado também em Comunicação Social pela Escola
Superior de Propaganda e Marketing, com mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo e doutorado em Lieux et transformations
de la philosophie – Université de Paris VIII. É professor Livre Docente do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo.
*** Luiz de Camargo Pires Neto é doutorando e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é bacharel e licenciado
em Filosofia e graduado em Comunicação das Artes do Corpo (habilitação em Teatro) pela mesma instituição. É professor de Filosofia na Fapcom.
128 Entrevista: A filosofia frente a relação entre mídia e política • Vladimir P. Safatle

Vladimir Pinheiro Safatle – A minha du- psíquico, como a psicanálise, não era dire-
pla formação vem de uma questão muito cionada só à reflexão sobre os modos tera-
contingente, na verdade. Quando eu disse pêuticos de alívio do sofrimento. Ela tinha
para meus familiares que ia fazer Filosofia, no seu interior todo uma reflexão que vinha
eles entraram em pânico. Eles achavam que de uma certa partilha com o campo filosó-
teria de ser sustentado pelo resto da vida. fico, uma reflexão sobre o sujeito, sobre a
Então, eu fiz os dois cursos juntos e escon- estrutura do sujeito, sobre os processos de
di que estava fazendo Filosofia por quatro reconhecimento, sobre a estrutura do de-
anos. Mas é claro que o curso de Comuni- sejo, que foram meus tópicos centrais. En-
cação me foi muito útil, foi um belo curso tão havia um problema fundamental que
para ter uma visão mais precisa dos pro- permeava os meus estudos, que eram as
cessos do interior da mídia e da retórica de formas de experiência do reconhecimento.
consumo, que eram temas que me interes- E esse foi o eixo da minha produção poste-
savam – tanto que eu fui o responsável pela rior, em especial, o Grande Hotel Abismo1
formação do programa de mestrado que a e mesmo o recente livro sobre o Circuito
ESPM implementou. Esse projeto, o Pro- dos afetos,2 que é uma maneira de se per-
grama de Pós-Graduação em Comunicação guntar o que pode significar reconhecer e
e Práticas de Consumo, foi coordenado por quais são as consequências políticas, filo-
mim. Então, é inegável que, no campo das sóficas e estéticas de se reconhecer um su-
reflexões sobre a sociedade contemporânea, jeito que não é mais pensado como sujeito
o estudo da mídia é um capítulo decisivo substancial dentro da tradição da filosofia
e fundamental para entender processos de moderna, mas como um sujeito marcado
constituição de relações sociais, de circula- por uma potência de indeterminação, que
ção de desejos, de organização dos modos é um pouco a maneira como eu lia a pro-
de reprodução material da vida. Não me blemática da negatividade dentro da tradi-
arrependo, não. ção hegeliana. Eu queria insistir um pouco
como isso poderia se desdobrar. É verdade
Luiz de Camargo Pires Neto – Ainda sobre que outras questões foram se anexando,
sua trajetória acadêmica na Filosofia, o se- mas eu acredito – e isso é uma ideia do De-
nhor poderia de alguma maneira sintetizar leuze – que toda pessoa realmente engaja-
o que vem estudando atualmente? da dentro de uma reflexão filosófica pen-
sa uma única questão que se desdobra de
Vladimir Pinheiro Safatle – Eu comecei várias formas. E a minha questão rapida-
estudando especificamente a relação entre mente ficou clara, que era pensar sujeitos
a Filosofia e a Psicanálise, especialmente a em relação, ou seja, conservar a categoria
psicanálise lacaniana, que foi meu tema de do sujeito, recusar sua tentativa de supe-
mestrado e doutorado. Meu interesse era ração por várias correntes do pensamento
mostrar como uma clínica do sofrimento contemporâneo desde a filosofia heideg-

1 SAFATLE, Vladimir. Grande Hotel Abismo – por uma reconstrução da teoria do reconhecimento. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
2 SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos – corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
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Havia toda uma discussão de como esse sistema seria implodido


pelo advento das novas tecnologias como – na época ainda
não eram nem as redes sociais – a TV a cabo, com 150 canais,
e não mais aqueles três antigos canais.

geriana até a filosofia francesa e seus eixos de como esse sistema seria implodido pelo
fundamentais, recusar essa afirmação, mas advento das novas tecnologias como – na
também insistindo em pensá-lo para além época ainda não eram nem as redes sociais
do paradigma da identidade como locus de – a TV a cabo, com 150 canais, e não mais
uma experiência de não identidade. E esse aqueles três antigos canais. Então, cada um
é o eixo da minha reflexão. desses canais teria uma personalidade pró-
pria e isso ampliaria a esfera pública, a cir-
Luiz de Camargo Pires Neto –Agora, para culação de informações, de imagens, de no-
pensarmos a temática desta terceira edição tícias dentro da esfera pública, fortalecendo
da Revista PAULUS, temos que nos anos com isso o processo democrático. Vimos
1990 presenciamos uma promessa de que a como isso foi uma falácia, pois a democra-
reconfiguração técnica do campo da comu- cia não passa por esse tipo de acessibilidade
nicação de massa poderia trazer um impac- técnica de informações – embora o bloqueio
to produtivo e virtuoso para a democratiza- da informação, é claro, seja um risco para a
ção. Hoje, nos encontramos em uma esfera democracia. Mas a simples circulação da in-
na qual todos produzem ou compartilham formação não tem nenhuma relação, a rela-
informação. Como podemos analisar a re- ção é negativa: a ausência de circulação é um
lação entre comunicação e democracia na bloqueio à democracia. A circulação por si
contemporaneidade? não garante nada, não é a realização efetiva
da democracia, e acho que isso vai ficando
Vladimir Pinheiro Safatle – A questão é im- cada vez mais claro em uma situação com
portante, porque de fato houve um discur- muitos produtores de informação, em que
so muito laudatório a partir dos anos 1990, todo mundo ao redor é um receptor e pro-
que era acompanhado da consciência do fim dutor ao mesmo tempo. Isso não significa
do sistema broadcasting, das televisões ou que vivemos em sociedades mais democrá-
mesmo das estruturas de comunicação com ticas. Significa que todos começam a produ-
poucos atores e produtores e muitos recep- zir informações a partir de um padrão mais
tores, e as informações circulavam interna- ou menos preestabelecido de gramática de
cionalmente, ou seja, não só as informações visibilidade, de gramática de tempo, de ex-
da imprensa, mas também a produção de pressão. As expressões começam a se equi-
imagens de consumo, a produção da retóri- valer de uma maneira muito forte, criando
ca do consumo. Havia toda uma discussão um outro nível de estereotipia, de que nós
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não havíamos suspeitado até então. uma crítica social que nos permita refletir
os riscos corridos pela democracia?
Luiz de Camargo Pires Neto – Para o se-
nhor, a partir de que referenciais teóricos Vladimir Pinheiro Safatle – Eu insisti-
nós poderíamos pensar essa relação entre a ria: se vocês quiserem mesmo pensar essa
democracia e a comunicação? Ou seja, que questão, eu acho que de fato, por mais que
referenciais nos ajudariam a refletir sobre dentro do horizonte dos estudos de comu-
essa temática? nicação isso possa parecer um pouco arcai-
co – o que eu acho uma péssima maneira de
Vladimir Pinheiro Safatle – Veja, eu perdi entender esse tipo de produção, pois confi-
um pouco o contato com essa bibliografia gura uma produção que realmente merece
dos estudos de mídia desde o começo do sé- ser retomada –, é a produção da Escola de
culo XXI, eu não segui muito o que foi feito Frankfurt. Acho que ninguém melhor que
depois. Lembro-me de algumas coisas da eles insistiu em como os riscos da democra-
política da mídia de que gostava muito, por cia não são só riscos externos às sociedades
exemplo, John Thompson, que eu achava liberais, mas também riscos internos a es-
muito significativo e que eu li com muito sas sociedades. E dentro desses riscos está
gosto, com muito interesse. Acho, porém, a consolidação da indústria cultural como
que há uma questão fundamental sobre a um ator fundamental de produção não só
experiência democrática atual, e para refle- da formação da opinião pública, mas tam-
tir sobre isso há uma bibliografia importan- bém de conformação das experiências. Eu
te que vai falar sobre os riscos, sobre o en- sei que há vários teóricos que tentaram cri-
fraquecimento, sobre as possibilidades. Eu ticar esse conceito, mas acho que essas crí-
recomendaria fortemente trabalhos como o ticas não são boas, pois o conceito descrevia
pensamento de Agamben, no livro Estado processos que só foram se consolidando
de exceção,3 ou ainda O ódio à democracia,4 com o passar do tempo: a constituição das
de Jacques Rancière, e principalmente O estruturas das mídias em oligopólio, esses
desentendimento.5 Mesmo umas reflexões sistemas de mídia e entretenimento, in-
do Alan Badiou sobre A hipótese comunista6 formação, tecnologia controlando todos
e sobre São Paulo7 seriam textos importan- os processos, dos processos de produção
tes a serem lidos. aos processos dos meios de recepção, ao
processo de comentário da produção. Va-
Luiz de Camargo Pires Neto –Muito obri- mos pegar um conglomerado como o News
gado pelas indicações bibliográficas. A par- Corporation, por exemplo, do Rupert Mur-
tir do pensamento destes filósofos citados doch; você vai ver todo o processo, você
pelo senhor, poderíamos pensar a ideia de tem desde a indústria cultural, mais fora do

3 AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004.
4 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2014
5 RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – política e filosofia. Tradução de Ângela Leite Lopes. São Paulo: Ed. 34, 1996.
6 BADIOU, Alain. A hipótese comunista. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2012.
7 BADIOU, Alain. São Paulo – A fundação do universalismo. Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2009.
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O Brasil sempre teve um eixo de pensamento conservador


muito forte. Se a direita precisava colocar duzentas mil pessoas
nas ruas, ela colocava, tanto que ela o fez
em vários momentos da história brasileira.

tema, até os canais de televisão, até as redes dezembro de 2015, intitulado A falsa onda
de informação, ou seja, toda essa maneira conservadora,8 o senhor relaciona a criação
de consolidar um capitalismo monopolista da hipótese de que vivemos uma onda con-
do interior do universo da produção cul- servadora com o medo que nos paralisa e nos
tural. Eles foram os primeiros a perceber torna incapazes de criar alternativas, discutir
isso de uma maneira muito clara, e esse novos modelos de organização política e fa-
diagnóstico, eu diria, é mais atual do que zer a autocrítica de nossos erros e dos mode-
nunca, e mais do que isso. Principalmente los que foram implementados na última dé-
os trabalhos do Adorno foram muito exem- cada. O senhor poderia nos falar mais sobre
plares nesse sentido, de lembrar a questão essa ideia do conservadorismo de que hoje
fundamental como a crítica social está na tanto se fala em todos os níveis da sociedade?
mobilização do potencial desestabilizador
da diferença, ou da não identidade, como Vladimir Pinheiro Safatle – Eu gostaria de in-
ele chamava, e a indústria cultural conhe- sistir, na verdade, no fato de que talvez não
ce diferenciais, ela não conhece diferença. seja correto falar em fortalecimento do pensa-
A diferença exige um outro tipo de tempo, mento conservador. O Brasil sempre teve um
experiência temporal, outro tipo de espaço, eixo de pensamento conservador muito forte.
outro tipo de recepção, outro tipo de visi- Se a direita precisava colocar duzentas mil
bilidade e de visualização, tanto que outro pessoas nas ruas, ela colocava, tanto que ela o
tipo de afeto, que a indústria cultural des- fez em vários momentos da história brasilei-
conhece, e ela faz com que as pessoas des- ra. Então, não é que essas pessoas apareceram
conheçam isso. Então, a partir daí a crítica do nada, é que agora elas operam, elas falam
social deve ser necessariamente uma crítica num espaço sem fricção. Não há contraponto.
cultural. Uma crítica social que não tem um Por isso, temos essa impressão de onda. Não é
ponto de vista cultural fortalecido é uma porque eles ficaram mais fortes, e sim porque
crítica social manca, porque não consegue não há um contraponto efetivo; e acho que
entender de onde vem o embotamento da essa é a questão que me parece fundamental.
imaginação social e política dos sujeitos. De outro modo, seria muito fácil ficarmos ati-
rando pedras no pensamento conservador na-
Luiz de Camargo Pires Neto –Em um artigo cional, porque ele é tosco, é primário. Nem de
publicado no jornal Folha de S. Paulo, em liberal ele pode ser chamado, pois é um libe-

8 SAFATLE, Vladimir. A falsa onda conservadora. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 dez. 2015. Disponível em: <http://bit.ly/1mZV6mn>.
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ralismo em que a reflexão sobre as liberdades tribuir para que o pensamento conservador
individuais não existe. No Brasil, você pode corra em um espaço sem fricção e nos dê esta
ser liberal e ser contra o aborto, você pode ser sensação de uma onda conservadora?
liberal e ser contra a afirmação individual das
suas decisões a respeito da sexualidade, da vi- Vladimir Pinheiro Safatle – É evidente, no
sibilidade da sua sexualidade, da sua relação caso brasileiro, que uma parte da imprensa
com o corpo. No Brasil, pode-se ser liberal tentou criar uma versão de intelectuais con-
sem aceitar o direito de resistência contra a servadores, os quais nascem na própria im-
tirania, por exemplo. O sujeito se diz liberal prensa. Eles não têm vida fora da imprensa,
e acha normal e aceitável que exista a dita- eles não têm vida na Universidade, ou seja,
dura militar, exista o terrorismo de Estado e não os conhecemos através de trabalhos
que exista assassinato de pessoas que lutaram universitários ou de debates acadêmicos,
contra o regime militar, sem levar em conta ou de inserção internacional de projetos de
o fato de que um dos pilares do liberalismo pesquisa e de circulação de saberes. Eles
político, desde John Locke, é o tiranicídio. É não têm nada disso, eles têm uma mera
um direito que você tem de matar um tirano. vida midiática, de imprensa. Eu entendo
Isso poderia ser muito bem aplicado à situa- que o papel do intelectual é articular os dois
ção da ditadura militar brasileira. De um país campos, e não abandonar algum dos dois –
que dizia liberal e era escravocrata, pode-se porque é claro que você vai ter essa figura
esperar o quê? Então, eu diria que esse tipo do especialista que não vai conseguir sair
de conservadorismo primário simplesmente dos muros da universidade e da discussão
consegue falar mais alto hoje porque o cam- com seus próprios pares, e isso é tão nefasto
po das esquerdas brasileiras se decompôs. E quanto. Assim, temos essa figura de inte-
se decompôs na sua incapacidade de se cons- lectuais que são produzidos sem levar em
tituir um novo corpo político, de se pensar a conta qualquer tipo de inserção efetiva, de
organização e de se criar um campo de impli- debate acadêmico, ou que perdem comple-
cação genérica onde todos de uma certa ma- tamente essas características quando pas-
neira possam se referir e possam tomar a fala. sam para uma dimensão midiática, como se
Assim, vai-se esvaziando do ponto de vista fosse uma espécie de trampolim, na verda-
da práxis e do ponto de vista das ideias. Nesse de. Assim, o que acontece hoje no Brasil são
sentido, é claro, como eu disse, eles correm essas duas possibilidades, sem uma articu-
num espaço sem fricção. lação que faça jus, inclusive, ao que foi uma
tradição louvável de intelectuais brasileiros
Luiz de Camargo Pires Neto – Em sua pales- como Celso Furtado, Milton Santos, Rai-
tra ministrada na Fapcom, o senhor trouxe mundo Faoro, Darci Ribeiro, Sérgio Buar-
uma ideia do descolamento da produção dos que de Holanda, Antônio Cândido – todos
saberes e a imprensa, dizendo que a relação intelectuais que tiveram essa capacidade
entre a imprensa e os intelectuais entra em de passagem em relação ao campo da for-
colapso. Será que podemos pensar que esse mação da opinião pública, no sentido mais
descolamento ou essa falta de posiciona- amplo do termo, e o campo acadêmico. Eu
mento por parte dos intelectuais pode con- acho que esse é um problema.
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É evidente, no caso brasileiro, que uma parte da imprensa tentou


criar uma versão de intelectuais conservadores,
os quais nascem na própria imprensa.

Luiz de Camargo Pires Neto –Em uma en- Vladimir Pinheiro Safatle – Como alguém
trevista com Alexandre Fontana, intitulada que lê Foucault com muito prazer e inte-
Verdade e poder,9 Michel Foucault apresen- resse, eu acho essa divisão muito ruim,
ta uma distinção entre duas figuras do inte- sempre achei. Considero que as análises
lectual: o intelectual universal e o intelec- dele sobre a classe intelectual não são os
tual específico. O primeiro seria aquele que melhores momentos da sua obra. Não só
atua no plano do “universal” e do “exem- ele, mas também Lyotard, que faz uma
plar”, tido como a consciência de todos, análise sobre a tumba dos intelectuais.10 Eu
que tem uma visão global da sociedade, acho que essa divisão não é boa porque a
fala por aqueles que não têm voz e é ouvido ideia de que as lutas pelas quais os inte-
como um representante daquilo que é uni- lectuais deveriam se engajar seriam lutas
versal, enquanto o segundo seria o que ne- por causas específicas, por um lado, e por
cessariamente se coloca em uma posição es- outro seriam lutas pelas quais eles não
pecífica, com atuação local e regional, com apareceriam com uma consciência diri-
um engajamento que apenas será válido se gista, e sim como uma espécie de aliados
puder atuar no regime de “verdade/poder” entre processos ligados a movimentos que
em que estiver inserido, sem se colocar no são relações espontâneas. Para mim, há
“plano da totalidade”. Ou seja, domina algo de falacioso nesse tipo de colocação,
determinados conhecimentos, os quais põe além do que acho que é estrategicamen-
em ação de maneira imediata e, desta for- te muito equivocada, porque eu acho um
ma, opera uma crítica bem elaborada sobre equívoco brutal imaginar que, num pro-
um campo que recobre suas competências, cesso em que existe uma estrutura global
dirigindo-se a problemas específicos, que que interfere em todos os campos da vida
muitas vezes não são aqueles que se refe- social – processo este ligado aos modos
riam às massas, mas se aproximam deles de organização da vida econômica, liga-
porque se trata de lutas reais, materiais e do a uma lógica interna de circulação do
cotidianas. Será que a partir desta distin- capital –, você consiga se contrapor a isso
ção poderíamos estabelecer alguma relação com transformações locais – sem levar em
com o contexto do Brasil, hoje, para anali- conta que se você não tiver a capacidade de
sar o meio intelectual? organizar uma contraposição global, essas

9 FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In: ______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1978. p. 1-14.
10 LYOTARD, Jean-François. Tombeau de l’intellectuel et autres papiers. Paris: Galilée, 1984.
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transformações locais se dissolvem, se humildade não está um desejo inconfesso


perdem no tempo. Porque assim, cria-se de integração absoluta.
uma ideia das lutas específicas que, se não
forem agenciadas no interior de uma re- Luiz de Camargo Pires Neto –Ainda no
flexão – não só sobre a contradição global pensamento do Foucault, sobre a relação da
a ser posta, mas também a emergência de Filosofia com a política, em uma conferên-
um sujeito global, por mais que isso possa cia dada no Japão em 1978,11 intitulada a
parecer estranho, mas acho extremamente Filosofia analítica da política, ele diz: “Tal-
fundamental –, perdem completamente vez poderíamos considerar que há ainda
sua força e sua direção. E sua capacidade para a filosofia uma certa possibilidade de
efetiva de transformação. Então, eu insis- ter um papel em relação ao poder, que não
tiria que a classe intelectual tem uma fun- será um papel de fundação ou de recondu-
ção muito clara, existem classes que são ção do poder. Talvez a filosofia possa ainda
de difícil integração. Durante um tempo a ter um papel do contrapoder, com a condi-
classe intelectual foi assim, a questão é sa- ção de que este papel não consista em fazer
ber se ela ainda é assim hoje, e se o fato de valer, frente ao poder, a lei da filosofia, com
ela estar mais integrada não está inclusive a condição de que a filosofia pare de se pen-
relacionado à aceitação desse tipo de diag- sar como profecia [...], como pedagogia ou
nóstico, ou seja, de que sua função seria como legislação, e que ela se dê por tarefa
de ser somente um intelectual específico. analisar, elucidar, tornar visível, e portanto
Eu me perguntaria se isso não acabou, na intensificar as lutas que se desenrolam em
verdade, alimentando um processo muito torno do poder, as estratégias dos adversá-
menos dramático e traumático e de difí- rios no interior das relações de poder, as tá-
cil integração, tirando a força crítica dos ticas utilizadas, os focos de resistências”.12
intelectuais. Porque os intelectuais como A partir desse olhar que Foucault nos apre-
classe têm uma função importante. Cla- senta, sobre o papel da Filosofia, como po-
ro que dificilmente eles produzem revol- deríamos entender sua função diante desta
tas sociais: Maio de 68 foi um caso muito situação na qual nos encontramos?
específico, pela força dos estudantes e de
alguns intelectuais da época. Mas eu diria Vladimir Pinheiro Safatle – Essa sua lem-
que cabe à classe intelectual a nomeação brança desse texto do Foucault é bem-suce-
dos acontecimentos. Nomear um aconte- dida pelo fato de ser uma boa descrição do
cimento não é só descrever o que aconte- que significa a força crítica da Filosofia. Ele
ceu. Nomear um acontecimento é mostrar fala não como profecia, não como pedago-
suas relações, abrir suas ressonâncias, é gia, ou seja, de uma certa maneira a evitar
mais do que simplesmente descrever, é se colocar como horizonte legislador nor-
produzir uma dimensão nova. Acho que mativo, mas ser capaz de intensificar as lu-
seria importante que os intelectuais se per- tas. Eu colocaria, talvez, não só intensificar,
guntassem se por trás dessa sua aparente mas, o fato do que significa a capacidade
11 FOUCAULT, Michel. La Philosophie analytique de la politique. In: ______. Dits et écrits III (1976-1979). Paris: Gallimard, 1994. p. 534-551.
12 Ibidem, p. 540.
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A própria capacidade de modificação e de intervenção se limita


brutalmente, porque há que se abandonar essa ideia de que o
conceito está de um lado e a vida de outro – ou a prática de um lado
e o pensamento de outro.

que se tem de, de fato, “conceitualizar” plesmente. Então acho que lembrar que a
processos, ou seja, encontrar conceitos e Filosofia com esse discurso é algo muito es-
operação dentro dos processos de conflito tranho de certa forma, da contemporanei-
social, produzir conceitos a partir desses dade porque esse discurso me parece meio
conflitos, e mais, entender que é necessá- arcaico. Esse objeto que vem de um tempo
ria uma produção de conceitos – e muitas imemorial com essas pessoas que parecem
vezes quando você não tem essa produção, não ter uma especialidade muito definida.
a capacidade prática para. A própria ca- Assim, o sujeito fala sobre arte, sobre po-
pacidade de modificação e de intervenção lítica, fala sobre teoria do conhecimento e
se limita brutalmente, porque há que se acha que pode falar sobre lógica, antologia,
abandonar essa ideia de que o conceito está e acha que pode ficar falando sobre isso
de um lado e a vida de outro – ou a práti- tudo e desrespeitando radicalmente essa
ca de um lado e o pensamento de outro. ideia de compartimentalização do saber.
Heidegger tem uma colocação muito boa Você fala do que é a sua especialidade. Ser
nesse sentido, quando ele fala em A carta filósofo é exatamente isso. É a pessoa que
do Humanismo:13 “não entendo muito bem tem um pensamento completamente trans-
essa diferença entre pensamento e práxis. versal e por isso enxerga coisas que as pes-
Para mim o pensamento age quando pen- soas não têm capacidade para enxergar. Por
sa. O problema é que ele pensa muito ra- quê? Porque isso faz parte da sua formação,
ramente”. O que entendemos sobre pensar que é estabelecer relações, e essas relações
está longe ser o pensar no sentido estrito do não são simples analogias. Elas são a cons-
termo. Pensar é abrir a clareira em direção ciência de que existe uma espécie de prin-
ao que antes era impossível. Pensar signifi- cípio de racionalidade que vai constituindo
ca redimensionar o campo da experiência, vários campos da esfera do saber ao mesmo
ou seja, você redefine o campo do possível. tempo. Você pode retomar seus princípios
Isso o pensamento faz porque ele revê pres- gerais da racionalidade, seus pressupostos,
supostos, ele reorienta modos de existência que tipo de experiência eles nos permitem e
e, nesse sentido, ao fazer isso, abre o es- que tipo de experiência nos impedem. Nes-
paço a uma ação. Muitas vezes, não é que se sentido, ao falar de intensificação das lu-
nós pensamos para não agir, muitas vezes tas políticas, eu diria que não é somente fa-
nós agimos para não pensar, pura e sim- zer a glosa da luta política ou dar uma nota

13 HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. 2. ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2005.
136 Entrevista: A filosofia frente a relação entre mídia e política • Vladimir P. Safatle

de rodapé para a luta política que acontece pela nossa história, pela nossa ancestralida-
fora do pensamento. Não, o pensamento é de, como se existisse algo Made in Brazil,
uma luta política. É uma dimensão funda- uma marca registrada para a produção inte-
mental. Você perde a força da luta se o pen- lectual do nosso país. Acho que ele mostrou
samento não abre espaço. E você pode ter muito claramente que Filosofia nacional é
uma experiência prática sem pensamento. uma certa liberdade que nós podemos ter
É um tipo de pensamento que vem depois, de não estar presos diretamente a certas
uma curva de minerva que demora para tradições, de poder trafegar por tradições,
chegar, mas o importante é ele chegar, mui- de poder analisá-las como um algo interno
tas vezes. Ou às vezes o pensamento chega e externo ao mesmo tempo, não totalmente
antes, empurra o acontecimento, como foi o imbuído da exigência de campo, de conti-
caso do ministro francês, em que o processo nuar tradições, mas também não completa-
de pensamento veio antes do acontecimen- mente fora e intocado por elas. O que faz,
to. Assim, é entender e respeitar esses des- então, que se tenha um tipo de hibridismo,
compassos, e eu acho que é um elemento mas longe de ser um mero hibridismo con-
fundamental a necessidade de transpassar ceitual, é uma força do pensamento que
de um para outro. desconhece claramente suas fronteiras. Ele
mostrava muito isso, e mostrava como isso
Luiz de Camargo Pires Neto – Para con- abria um espaço para produção de um país
cluir, recentemente o senhor editou e or- em situação periférica, que longe de ser um
ganizou a publicação do professor Bento defeito, se tornava uma virtude. Ele podia
Prado Júnior, Ipseitas.14 Como a maneira fazer coisas que você não encontrará em lu-
de exercer a Filosofia do professor Bento gar nenhum. Por exemplo, articular Witt-
Prado Júnior, propondo novas perguntas, genstein e Deleuze, sendo que a articula-
outras questões que trazem a transversali- ção é completamente relevante. Claro, as
dade da Filosofia, pode nos trazer uma ou- questões contemporâneas você pode fazer
tra maneira de pensar a Filosofia que é feita tudo com tudo. A maneira como ele fazia
no Brasil hoje para além do método de aná- mostrava muito claramente como havia sis-
lise estrutural do texto filosófico? temas de pensamento que andavam em rit-
mo relativamente comum, mesmo que eles
Vladimir Pinheiro Safatle – Eu espero que tivessem pressupostos e, consequentemen-
o tempo mostre como o Bento Prado Junior te, resultados e desdobramentos distintos.
foi um dos maiores intelectuais que nós tive- Mas eles tinham um ritmo de produção de
mos nos últimos trinta anos, não só por sua questões que era muito comum, e a capaci-
produção, mas também por sua experiên- dade de ouvir esses ritmos e pensar a partir
cia de pensamento, pela compreensão, por deles é algo que talvez possa marcar isso
exemplo, de que a Filosofia nacional não é que ainda não se constituiu por total e que
uma Filosofia que se debruça em pretensos é uma experiência filosófica própria de um
conteúdos nacionais que seriam marcados país como o Brasil.

14 PRADO JÚNIOR, Bento. Ipseitas. Edição Vladimir Safatle. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.