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Loucuras de amor

(Fantasy Girl)

Carole Mortimer
Disponibilização: Márcia Silveira
Digitalização: Simoninha
Revisão: Cris Veiga
“Eu sempre consigo o que quero". As palavras de Adam Thornton encheram de medo o coração de
Natalie. A sobrevivência de sua agência de modelos dependia de manter ele e sua companhia felizes. Sua
própria irmã – a garota propaganda da Thornton cosméticos – tinha colocado sua firma em risco. E Adam,
seu cliente irado não era homem para brincadeiras. Implacável nos negócios, ele era também perigoso no
amor, como Natalie descobriu. O que ele queria mais do que tudo era Natalie como sua amante!

Copyright: Carole Mortimer


Título original: “Fantasy Girl” Publicado originalmente em 1983 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Tradução: Nina Horta
Copyright para a língua portuguesa: 1984 Abril S.A. Cultural — São Paulo
Esta obra foi integralmente composta e impressa na Divisão Gráfica da Editora Abril S.A.
Foto da capa: Harlequim
CAPÍTULO I

O telefone mal começou a tocar e Natalie já o atendeu, empurrando um


pouco o monte de papéis de sua mesa para poder continuar a escrever, enquanto
falava. As contas da agência Jackson não podiam esperar, tinham que ser pagas,
senão ela própria não saldaria seus compromissos de fim de mês.
Estava meio distraída mas logo se ligou.
— Natalie Faulkner? — Do outro lado do fio vinha uma voz definitivamente
máscula e zangada. Uma voz que demonstrava autoridade, apenas ao dizer o seu
nome.
Talvez Natalie devesse prestar mais atenção ao tom daquela voz, mas ainda
estava muito preocupada com os números das contas, esforçando-se para não
errar. Meu Deus, como ela era ruim de aritmética! Dee, sua secretária e
assistente-geral, um eufemismo de quebra-galhos, já tinha muito o que fazer no
escritório para lhe resolver ainda a soma daquela conta.
— Sim? — respondeu, vagamente.
— Srta. Faulkner — a voz tornou-se um pouco mais fria, — a senhorita
pode ter tempo para perder, mas eu não tenho — vociferou o homem. — Tive que
ajeitar meu horário hoje de manhã para poder encontrá-la, e o mínimo que
esperava era que estivesse aqui na hora.
Dizer que ela se espantou seria pouco; ficou atônita! Quem esse homem
pensava que era, para telefonar desse jeito, cobrando-a por um compromisso que
não tinha assumido? Não tinha marcado nada para aquela manhã. Tinha se
certificado disso na véspera, antes de sair do escritório da agência de modelos
que administrava, e que ocupava duas salas num prédio situado em um bairro
bem moderno, cheio de prédios elegantes e com um certo ar de riqueza e sucesso.
Verificou se a manhã estava livre porque sabia que tinha de fazer um balancete.
Precisava pagar umas contas, entre elas o aluguel e o condomínio do escritório.
Classe! Tinham lhe dito que era necessário ter classe para abrir uma
agência como aquela, onde trabalharia com excelentes modelos, o que atrairia os
melhores clientes da cidade. E ela esbanjou classe na mobília branca e cromada
das duas salas, nas confortáveis poltronas de couro branco para os clientes, e
nas práticas cadeiras para seu uso pessoal, no mesmo couro macio, além de
exuberantes plantas tropicais espalhadas por todos os cantos. Tudo tinha sido
planejado para dar a impressão de riqueza e elegância, e havia lhe custado uma
pequena fortuna.
Nessa altura do campeonato aparecia-lhe um desconhecido que, com voz
fria e rouca, lhe telefonava para cobrar um encontro que não fora marcado.
Mas negócios são negócios, e talvez fosse um cliente em potencial: nunca
dava as costas para clientes.
— Acho que deve haver um engano, meu senhor — começou, propondo paz.
— Se há, o engano é seu. A esta hora, mexendo aqui e ali em meu horário,
dentro de uma hora poderei lhe conceder quinze minutos. Esteja aqui!
— Mas...
— Não estou acostumado a repetir, srta. Faulkner. Expliquei à sua
secretária ontem à noite que precisava falar urgentemente com a senhorita, e
continuo precisando.
Dee! Dee havia marcado o encontro depois que ela saíra, na noite anterior,
e havia se esquecido de lhe dizer! Natalie começou a procurar e achou a agenda
marrom enterrada debaixo de um monte de papéis, na sua escrivaninha. Virou
rapidamente as folhas, até achar aquela em que estavam anotados os seus
compromissos para aquele dia, e quase caiu de costas ao ler: dez horas, Adam
Thornton. Era o que faltava! Seu cliente mais importante e havia faltado ao único
encontro marcado com o chefe da Cosméticos Thornton!
Custara a acreditar na sua sorte, quando Jason Dillman, o responsável
pela parte de propaganda da Cosméticos Thornton, entrara em contato com ela,
querendo uma garota símbolo para a nova linha de maquilagem que iam lançar
na praça. Natalie tomava conta da agência há um ano e tinha trabalho suficiente
para mantê-la, mas o contrato com a Thornton era melhor do que todos os
outros, e nos últimos seis meses havia trabalhado bastante com Jason Dillman,
arranjando-lhe a garota símbolo e outras modelos que ele pedia a toda hora. Era
um contrato lucrativo, mesmo depois de pagar os modelos, e não queria perdê-lo
de jeito nenhum.
— Sinto muito, sr. Thornton — disse ela, ofegante, — parece que houve
uma confusão aqui na nossa agenda. Estarei aí às onze e meia, sem falta.
— Muito bem — foi tudo o que ele disse, desligando em seguida o telefone.
Puxa, não era um começo auspicioso para o primeiro encontro com o chefe
da C.T. Ela sabia que era Adam Thornton que administrava sua própria
companhia, já tinham lhe falado a respeito dele, mas até agora mantivera contato
apenas com o departamento de propaganda. Sua atuação junto ao departamento
de publicidade da C.T. não fora suficientemente importante para atrair a atenção
do homem mais rico da indústria de cosméticos do país, no momento. Quem
sabe, o lançamento bem-sucedido da garota símbolo tinha alguma coisa a ver
com isso? Talvez o próprio Adam Thornton fosse lhe agradecer por ter achado a
moça ideal. Não havia dúvidas sobre o sucesso de Judith, cuja foto aparecia em
todos os lugares. Mas Natalie, no fundo, sabia que não era por isso que ele estava
zangado daquele jeito. Talvez fosse porque ela não tinha comparecido ao encontro,
quando, do alto de seu poder, ele resolvera recebê-la. Não, não era isso, também.
Havia algo de muito errado e ela tinha poucas esperanças de ajeitar a situação.
Não podia se dar ao luxo de perder o contrato com a Thornton, inclusive por
razões de prestígio. Os negócios haviam dobrado na agência, depois que Judith se
tornara a garota símbolo.
Ficou de pé, andando de cá para lá na sala, esperando a volta de Dee. A
secretária tinha ido tirar fotocópia de uns relatórios. Pobre Dee!, devia estar muito
atribulada para se esquecer de avisá-la de um encontro tão importante como
aquele!
Franziu a testa e continuou a andar, irrequieta, já esquecida das contas.
Era bonita como uma de suas modelos; o cabelo castanho-claro muito brilhante,
a pele de magnólia, olhos nem verdes nem azuis; uma mistura muito especial,
que lembrava a água-marinha, cílios longos, nariz pequeno e reto, a boca
vermelha e perfeita, enfatizando a curva sensual dos lábios. Fora modelo por
algum tempo, mas não havia gostado do trabalho; não era desafio suficiente.
Bem, agora tinha um grande desafio pela frente, envolvendo um dos homens mais
poderosos de seu mundo. Sua agência inteira dependia do sucesso ou do fracasso
desse encontro.
Deu uma olhada nos espelhos que cobriam uma das paredes do escritório,
para dar a impressão de que era maior do que era, dando, ao mesmo tempo, um
certo brilho ao ambiente. Parecia calma, como sempre, o que era resultado de seu
treino como modelo. Contemplou sua figura esguia e feminina, vestida com um
tailleur bege e uma blusa de seda preta, que enfatizavam as pernas compridas e
bem-feitas. É, podia voltar a ser modelo, se quisesse, mas não queria. Não tinha
gostado nada de ser usada como um cabide de roupas bonitas.
Ora, provavelmente estava exagerando o significado do telefonema. Com
certeza, ele só queria discutir algum assunto relacionado à garota símbolo. Só
isso.
Conferiu a maquilagem: estava com uma sombra escura nas pálpebras, um
leve toque de rimel nos cílios escuros, pouquíssima base sobre a pele sem um
defeito, um blush escuro que enfatizava as maçãs salientes do rosto, e um batom
brilhante na boca. Precisava retocá-lo, e estava fazendo exatamente isso quando
escutou os passos de Dee, que voltava ao escritório. Ainda bem, pois já estava
quase na hora de sair para o encontro com Adam Thornton.
— Ufa! — Dee pôs a pilha de papéis sobre a mesa dela. — Viu só que
demora? Aquela máquina infernal quebrou de novo. Vou levar o resto da vida para
botar tudo isso em ordem.
Natalie entendeu na perfeição o desespero da outra, pois já havia tido
problemas com a mesma fotocopiadora.
— Vou sair, Dee — disse o mais suavemente que pôde. — Tenho uma
reunião com o sr. Thornton.
— Tudo bem. Eu só... Meu Deus, o sr. Thornton! — Dee virou-se para ela,
assustada. Era uma lourinha pequena, de olhos azuis, bonita, com muito gosto
para se vestir. — Ah, Natalie, eu me esqueci completamente. Ele telefonou ontem,
quando eu já estava saindo, e anotei o recado rapidamente, pois estava com
pressa, porque Tom está com uma gripe horrível. Aliás, passei a noite inteira
cuidando dele, e hoje...
— Ei, sossegue! — Natalie sorriu. — Não aconteceu nada de grave. — Por
delicadeza, procurou minimizar o próprio receio, para não deixar Dee numa
situação muito embaraçosa. — Já marcamos novo encontro para daqui a pouco.
— Espero que isso não tenha nada a ver com Judith. — Dee franziu a testa.
— Ela faltou de novo à sessão fotográfica de hoje de manhã.
— Ah, não! — Tremia só de pensar em ter que enfrentar o temperamento
difícil de Judith naquela manhã, além de todas as outras coisas.
Quando soubera por Jason Dillman que Judith tinha sido escolhida como
garota símbolo, ficara meio preocupada porque conhecia a irresponsabilidade da
moça, mas ele havia insistido, dizendo que tinha que ser ela, pois era uma ordem
direta de Adam Thornton, e não podia ser discutida.
— Jake telefonou hoje cedo, e disse que Judith não tinha aparecido —
acrescentou Dee. — Mas você estava tão preocupada com suas contas que não
quis interrompê-la. Liguei para o apartamento de Judith, mas ninguém atendeu.
— Deu de ombros. — Não é a primeira vez que ela faz isso.
— É, Dee. Judith está se tornando um problema. — Devia ser essa a razão
pela qual Thornton queria vê-la, e não para cumprimentá-la pelos bons serviços
prestados até então.
— Ela sempre foi um problema — comentou Dee, sentando-se e começando
a pôr as folhas em ordem. — E eu preveni você de que essa história de garota
símbolo podia não dar certo...
Natalie não se tocou com a crítica, pois as duas tinham ficado muito
amigas nesses últimos dezoito meses em que haviam trabalhado juntas, e ela
queria que continuasse assim. Ambas tomavam conta da agência sozinhas e às
vezes se entendiam até sem se falar. Elas sabiam que Judith não era a garota
ideal, mas Jason Dillman havia insistido tanto, que Natalie não tivera escolha.
Infelizmente estava acontecendo tudo o que haviam previsto.
— Vou falar com ela. — Suspirou.
Dee levantou as sobrancelhas.
— Vai ajudar em alguma coisa?
— Duvido. Mas vou tentar assim mesmo.
— Isso, quando ela aparecer.
— É. — Natalie deu um sorriso. — Você tem razão. — Judith tinha por
hábito só aparecer quando estava sem dinheiro. E sempre que queria tinha
trabalho, mas desde que fora escolhida como a garota da Thornton, pouco
aparecia na agência.
— Sei que você precisa muito dela, Natalie — afirmou Dee. — Mas eu não
lamentaria muito se ela arranjasse outra agência.
Natalie não falou nada. Sabia que era Dee quem ouvia as reclamações dos
clientes.
Também não ficaria muito triste se perdesse Judith, e até gostaria que a
Thornton pedisse exclusividade da moça por um tempo não especificado. Pelo
contrato redigido pelos advogados da C.T., Judith prestaria serviços por um ano e
depois ficaria livre para trabalhar onde quisesse. Natalie sabia que ela voltaria à
sua agência, onde o trabalho para ela era mais fácil. Judith não ia querer
assumir maiores responsabilidades. Seu lema era trabalhar o mínimo necessário
e se divertir o resto do tempo. E levava a sua filosofia a ferro e fogo, sem se
importar com os sentimentos alheios. Não era uma situação fácil para ninguém.
Natalie olhou para o reloginho de ouro no seu pulso. Além dele, só usava
uma pulseira de ouro branco no outro braço. Não tinha anéis nos dedos, e as
unhas eram pintadas no mesmo tom de vermelho do batom.
— Tenho que ir embora. Daqui a meia hora vou me encontrar com Adam
Thornton no escritório dele.
Dee franziu a testa.
— Mas é pertinho daqui!
— Sei disso. Mas ele falou que só dispõe de quinze minutos para me
atender e não quero me atrasar.
A secretária deu de ombros.
— Você deve levar uns dez minutos para chegar lá. — Sorriu. — Ele é do
tipo mandão, não é?
— Parece — concordou Natalie com uma careta. Aos vinte e cinco anos
muito pouca coisa a assustava, confiava em si e em sua habilidade. Mas Adam
Thornton a fizera se sentir como uma colegial desajeitada.
— Como será que ele é? — imaginou Dee.
— Se pessoalmente ele for como é ao telefone, então deve ser intragável.
— Achei a voz dele muito sexy — comentou Dee. — Tem um tom meio
rouco, que dá uma impressão de poder. — Riu. — Mas, provavelmente, ele deve
ser horroroso como você diz.
Natalie concordou.
— Provavelmente. Se Judith aparecer...
— Pode deixar que eu a seguro aqui, até à força, se for preciso.
Natalie sabia que podia confiar em Dee, portanto tirou esse problema da
cabeça, procurando se concentrar no que diria a Adam Thornton. Não tinha
desculpas para o comportamento de Judith, mas bem que tinha prevenido Jason
Dillman na ocasião. Não que isso resolvesse o problema, mas era uma saída.
Adam Thornton não parecia ser do tipo de homem que deixava alguém escapar
sem ser responsabilizado por seus erros.
Seu M.G. estava estacionado na garagem do prédio, e ela levantou a mão
para o porteiro ao sair com o carro esporte à luz do dia.
Era final de outono e as árvores já estavam nuas e escuras. O céu,
enevoado e triste, anunciava o inverno.
Guiava muito bem, com naturalidade e graça. Não era o símbolo da
executiva eficiente, mas quando queria alguma coisa costumava conseguir.
O problema é que não sabia o que esperar desse encontro com Adam
Thornton! Ele podia querer falar, tanto sobre a garota símbolo como sobre algo
completamente diferente. Ela se reconhecia como uma profissional competente, e
já convencera Jason Dillman disso, portanto não havia razão para não conseguir
o mesmo resultado com o chefe da companhia.
Sabia pouca coisa sobre ele, o que significava que: ou Adam Thornton
preservava sua privacidade a todo custo ou que sua vida particular era tão
insossa que nenhum jornal se interessava em escrever sobre ela. Natalie preferiu
a segunda versão; a idéia de um homem de meia idade com uma mulher ocupada
e cheia de filhos era muito menos aflitiva do que o quadro amedrontador que
estava se formando em sua cabeça.
Amedrontador? Já fazia um bom tempo que não sentia medo; pois, no dia
em que completara dezessete anos, tinha descoberto que um sorriso iluminado e
um bater tímido de seus olhos de água-marinha sob os cílios longos podiam
derreter o coração mais duro, e que com uma voz doce conseguiria tudo o que
quisesse. Adam Thornton nem ia saber o que o tinha atingido e já estaria fora de
combate.
Estacionou o M.G. na garagem privativa da C.T., ao lado de um Porsche
prateado que chamava atenção. Na plaqueta da parede estava escrito o nome de
Adam Thornton. Um velhote com uma mulher chata e uma criançada infernal
não ia dirigir um carro como aquele. Tinha que refazer a imagem que havia
criado.
Ah, para o inferno com aquele homem! Saiu do carro zangada e bateu a
porta. Não ia se preocupar com Adam Thornton, tinha muita coisa a fazer no
escritório, e quanto mais depressa acabasse com aquilo, melhor.
A C.T. ocupava um prédio inteiro, do tamanho daquele em que Natalie
alugava duas salas. A maior parte do espaço era reservado para área de recepção.
Ao entrar, caminhou até a mesa da recepcionista, e os saltos de seus sapatos
afundaram no tapete verde-mar. A moça era tão bonita que Natalie poderia lhe
oferecer quantos empregos quisesse. De fato, observou que o lugar estava repleto
de mulheres bonitas. Tomou o elevador que levava aos escritórios dos executivos.
A própria secretária de Adam Thornton era lindíssima.
— Posso ajudá-la? — ronronou a mulher, como uma gata, a ma-quilagem
perfeita, o cabelo vermelho levemente cacheado, olhos de um verde frio. Quando
Natalie disse seu nome ela se levantou, alisando o vestido verde que lhe caia às
mil maravilhas. — Por favor, sente-se. Vou avisar o sr. Thornton.
Natalie se sentou numa das quatro cadeiras de couro preto e ficou
observando o escritório luxuoso, cheio de posters enormes de anúncios antigos,
sem idéia de quanto tempo teria que esperar.
Quinze minutos depois a secretária voltou requebrando e parou em frente a
Natalie. Era uma mulher de uns trinta anos, e tão sofisticada que podia até olhar
Natalie com arrogância.
— O sr. Thornton vai vê-la agora, srta. Faulkner — cantou, como se Natalie
tivesse acabado de chegar.
Mas Natalie estava bem consciente e olhou o relógio de pulso. Exatamente
onze e trinta! Ah, ia ser assim!
Levantou-se e seguiu a secretária, que era uns oito centímetros mais baixa
do que ela. Os saltos altos ajudaram-na a levantar o seu moral, que tinha se
abalado durante a espera.
— Srta. Faulkner — anunciou-a a secretária com um gesto exagerado,
antes de sair da sala e fechar a porta suavemente atrás de si.
Mas anunciá-la a quem? O escritório parecia vazio. Era o mais elegante que
Natalie já tinha visto: uma sala decorada com os mesmos sofás confortáveis que
havia na recepção, um bar e uma escrivaninha de mogno, e, à sua frente, uma
grande cadeira de couro preto, que estava voltada de costas para ela, e que era a
única coisa que parecia fora do lugar. Uma espiral de fumaça denunciou a
presença de Adam Thornton, que parecia não ter nenhuma pressa em aparecer.
De repente, a cadeira girou.
— Conseguiu chegar a tempo, srta. Faulkner — caçoou ele com voz rouca,
que era muito mais interessante do que parecia ao telefone. Dee o teria adorado!
O adjetivo adequado para ele seria eficiente... ou elétrico. Parecia ser muito alto.
Vestia um terno listrado de cinza muito bem-talhado. Tinha ombros largos,
cintura esguia, quadris masculinos. Mas era especialmente de seu rosto que
emanava uma corrente elétrica, que prendia os olhos azul-esverdeados dela. Era
um rosto bonito mas rude, e, se analisássemos as feições, teríamos um selvagem
engaiolado na chama da civilização.
Tinha olhos azuis, que brilhavam sob as sobrancelhas grossas, um nariz
marcante, lábios firmes, as maçãs do rosto fortes e magras, rugas nos cantos do
nariz e da boca, que denunciavam seus trinta e tantos anos, queixo quadrado,
pescoço forte e cabelo castanho, passando do colarinho da camisa de seda. As
mãos eram compridas e finas, e nos dedos da mão direita segurava um charuto
fino, cuja fumaça enchia o ar com um cheiro agradável, que se misturava ao
aroma gostoso da sua loção após a barba.
Natalie teve a impressão de que ele a olhava há muito tempo, enquanto ela
levara apenas alguns segundos para observar o homem. Sabia que estava sendo
avaliada dos pés à cabeça, embora os brilhantes olhos azuis, tão enigmáticos, não
deixassem transparecer seus sentimentos.
Ela, muito calma, exteriormente, não demonstrava o receio que sentia ao se
ver face a face com aquele homem. Ele parecia um tigre, a quem os laços da
civilização prendiam atrás daquela mesa, obrigando-o a ser polido e educado com
ela.
Mas Natalie não deixou transparecer nada, nem o choque ao ver como ele
era realmente, nem o embaraço pelo seu magnetismo, e encarou-o com firmeza.
— Já pedi desculpas — disse ela suavemente. — Quer que peça de novo?
— Não precisa — respondeu ele, seco. — Sei que você não foi informada do
nosso encontro.
Natalie se surpreendeu.
— Sabe, como?
Ele inclinou a cabeça e recostou-se na cadeira.
— Você não esperava a minha chamada e ficou indecisa quando falei sobre
o nosso encontro às dez horas. — Deu de ombros. — Não sabia nada sobre o
assunto, logo... Por favor, sente-se, srta. Faulkner.
Natalie se afundou agradecida na cadeira macia colocada em frente à dele e
cruzou as pernas bonitas. Adam Thornton levantou-se devagar, desenrolando
seus quase dois metros de altura, fazendo-a sentir-se pequena e vulnerável.
Ele foi à ponta da mesa e ela reparou em suas pernas compridas e esguias,
de coxas musculosas. Apertando os olhos, Adam Thornton amassou o charuto no
cinzeiro de ônix, devagar, e endireitou-se, com expressão severa.
— Vamos direto ao que nos interessa — informou ele, deixando claro que
faria isso, quisesse ela ou não. — Quero retirar o contrato daquela garota Grant.
Natalie segurou a respiração diante daquela afirmação brusca e mordeu o
lábio ao ver o brilho de satisfação nos olhos dele. Diabo de homem! Estava se
divertindo com a reação dela. Mas, apesar disso, falava sério, com uma expressão
dura. Ela levantou a cabeça, desafiadora. — Por quê?
Ele juntou as sobrancelhas, como se não tivesse o costume de ser
questionado em suas decisões.
— Preciso de uma razão? — perguntou friamente.
Ela duvidava que aquele homem, pelo menos uma vez na vida, tivesse
explicado a alguém suas ações. Mas sentia que ele lhe devia uma, pois era um
assunto importante e, quer ele quisesse ou não, teria que se justificar.
— Acho que sim — concordou ela, teimosa. Ele a observou em silêncio por
alguns minutos.
— Está bem, srta. Faulkner. Vou lhe dizer a razão. Sua Judith Grant está
tendo um caso com o chefe do Departamento de Propagan-da, Jason Dillman.
Falou com calma, sem emoção, e por isso o impacto foi maior, deixando
Natalie sem fala. Não que ela duvidasse da verdade do fato, conhecia Judith
muito bem para isso.
— E meu chefe de departamento é casado — acrescentou Adam Thornton.
Natalie fechou os olhos por um momento. Judith já tinha aprontado
muitas, mas essa era a pior de todas. Sabia da importância daquele contrato para
Natalie, e, além de não aparecer para as sessões de fotografia, estava tendo um
caso com um empregado casado, coisa que Adam Thornton pelo jeito não
aprovava.
Veio-lhe à mente a imagem de Jason Dillman, muito bem-vestido, bonito,
charmoso, louro, e com maliciosos olhos castanhos. Realmente, não dava a
impressão de ser casado; ele a havia convidado para sair diversas vezes na época
da escolha da garota símbolo. Mas seu charme não a atraíra nem um pouco, de
modo que lhe deu o fora, sem sequer sonhar que ele passaria a dirigir suas
atenções para Judith, e pelo jeito com muito sucesso.
Mas, pelo menos, tinha que tentar defender a moça, embora Judith
estivesse provando por suas ações que não sentia a mesma lealdade por ela.
— Talvez ela não saiba que ele é casado...
— Ela sabe.
— Sabe...?
— Sabe. Se não tiver cuidado, sua agência vai ter a reputação de ser mais
do que uma agência de modelos.
Natalie empalideceu.
— O que quer dizer? — engasgou, tensa.
Os olhos azuis zombaram dela e a boca se contraiu.
— Use a imaginação, srta. Faulkner. Há um nome para modelos que fazem
mais do que posar.
— Como ousa! — Natalie se levantou, indignada, e se arrependeu de tê-lo
feito, pois ficou perigosamente perto de Adam Thornton. Recuou, aflita.
— Ah, eu ouso — afirmou ele, não se impressionando nem um pouco com
seu mau humor. — E quero impedir que isso continue.
Os olhos dela brilharam. Odiava o jeito dele, calmo e relaxado, acusando
sua agência de ser intermediária de mulheres.
— Então fale com Jason Dillman. São necessárias duas pessoas para que
haja um caso, não sei se sabe.
— Conheço bem a vida, obrigado — retrucou ele friamente.
Ela podia imaginar que ele conhecia mesmo, e muito bem, devendo lidar
com esses fatos com muita freqüência. Ele transmitia uma sexualidade que
denotava uma necessidade regular de relações físicas. Com sua mulher... ?
Natalie duvidou que fosse casado. Era mais o tipo do lobo solitário, que só voltava
à matilha por necessidade e não por escolha. Um selvagem!
— Esse assunto, senhorita, é de sua responsabilidade.
— Minha? — protestou ela.
— Judith Grant é modelo da sua agência.
— E o senhor a escolheu para o trabalho! — Ele levantou as sobrancelhas
novamente.
— Eu, não. Jason.
— Mas ele disse...
— Sim?
— Nada — retrucou ela ríspida, vermelha, irritada com o sarcasmo dele. —
Muito bem, sr. Thornton. Vou falar com Judith.
— Vai fazer mais do que falar com ela, se quiser manter o contrato da
Thornton. — Rodeou a mesa e foi se sentar na cadeira outra vez. — Ou a moça
pára com esse caso já ou deixa de ser a garota símbolo.
“O que lhes custará muito dinheiro”, pensou Natalie, sabendo em quanto
tinha ficado a campanha.
Adam Thornton inclinou-se para a frente, os braços sobre a escrivaninha.
— Podemos arcar com essa despesa — disse, arrogante.
— Mas em que isso o afeta? — Murmurou ela, impaciente. Judith não era a
primeira mulher a ter um caso com um homem casado! — E daí, se estão tendo
um caso?
— Eu me importo, srta. Faulkner. E acho que devia se importar também.
Ou as suas modelos oferecem serviços extras?
Natalie nunca se sentira tão zangada em toda a sua vida; sua mão coçava
para entrar em contato com aquele rosto, mas reprimiu o impulso. O homem
queria que perdesse a esportiva, o que não ia ajudar em nada a situação.
— Bem — disse ele. — Oferecem ou não?
Natalie comprimiu os lábios, furiosa.
— Acho que mereço um pedido de desculpas pelo insulto dirigido a mim e a
todas as mulheres que trabalham comigo. — Não pestanejou sob o olhar de aço
dirigido para ela.
— Quer dizer que a resposta é não? — caçoou ele.
— É.
— Que pena! — murmurou ele, nada arrependido. — Já estava pensando
em pedir uns favores... à senhorita.
— Sr. Thornton!
— Tudo bem! — Levantou a mão, apaziguador. — Se sua agência é tão
inocente como diz, peço desculpas. — Não foi fácil para ele dizer essas palavras.
— O que não altera o fato de uma de suas modelos estar tendo um caso com um
dos meus empregados casados.
Aos vinte e cinco anos, Natalie já devia ter passado da fase de ficar
vermelha quando um homem lhe dirigia um gracejo, mas não esperava aquela
atitude de Adam Thornton. A conversa deles, até o momento, tinha sido
totalmente impessoal. Aquele comentário a havia feito reparar na aura de
sensualidade que emanava daquele homem. Não era nada engraçado, depois de
ter sido insultada, vê-lo sob essa perspectiva. Considerava-o um inimigo, e assim
devia permanecer! Quanto menos tivesse contato com ele, melhor. Pegou a bolsa,
endireitando os ombros.
— Já falei que vou falar com Judith — disse, muito empertigada.
— E se ele não a escutar?
— Vou fazer com que escute. — Imprimiu mais confiança à voz do que
realmente sentia. Era a última pessoa que Judith escutaria. Mas tinha que
tentar.
Fez um gesto de despedida.
— Se não me escutar deixo-a em suas mãos, muito mais capazes.
Deu uma última olhada furiosa para aquela cabeça escura, inclinada. Ele
acendeu um charuto e foi envolvido por uma nuvem de fumaça, que lhe escondeu
o rosto.
Natalie sentiu, no entanto, que a seguia com os olhos. Só conseguiu
relaxar-se um pouco quando chegou perto de seu carro.
Como Judith podia ser tão burra a ponto de se envolver com um homem
casado? Com certeza não via nisso nenhum problema.
Era pouco mais de meio dia quando Natalie chegou no escritório.
Continuava nervosa e zangada com as acusações de Adam Thornton, apesar de
não demonstrar suas emoções, mantendo a aparência calma.
Dee olhou-a quando entrou.
— Uma visita para você no escritório — informou, alegre.
— Judith? — perguntou, esperançosa.
— É, Judith — concordou Dee, com uma careta.
Natalie entrou no escritório, fechando a porta atrás de si para enfrentar a
garota sentada na cadeira, atrás de sua mesa. Sua irmã, Judith...

CAPÍTULO II
Um observador desavisado não diria que eram irmãs; o colorido era
diferente, Judith era bem morena e Natalie tinha cabelo castanho-claro, os olhos
de Judith eram de um azul muito claro, sem manchas de verde, enquanto os de
Natalie eram de um tom difícil de definir. Os traços eram também completamente
diferentes, apesar de as duas serem bonitas; ambas eram altas e usavam o
mesmo manequim, coisa de que Natalie não se esquecia, pois a irmã sempre
pegava tudo o que era seu, sem pedir permissão. Mas Judith tinha uma graça
lânguida, que ela cultivava, e os movimentos de Natalie eram mais decididos e
objetivos.
Três anos mais velha, Natalie sempre protegera a irmã, apesar de nunca
receber agradecimentos por essa proteção; a falta de consideração de Judith pela
agência era uma prova disso.
Quando as duas se mudaram para Londres, Judith mudou-se um ano
depois de Natalie, os pais fizeram-na prometer que ia tomar conta da caçula. Não
foi uma tarefa fácil, e as duas só conseguiram dividir um apartamento por seis
meses, até o dia em que Judith se mudou, dizendo que não estava conseguindo
manter um mínimo de privacidade. O que Natalie sentiu com a mudança da irmã
foi um grande alívio, mas os pais não acharam graça nenhuma.
Quando ela abriu a agência, os pais, aflitos, lhe imploraram que arranjasse
um emprego para Judith, e, apesar de não ser absolutamente o tipo de garota que
escolheria, ela pensou nos dois, preocupa-díssimos lá em Devon, e concordou.
Eles não podiam imaginar a razão que tinham em ficar ansiosos pela filha, pois a
caçula se envolvera com homens nada recomendáveis nos últimos três anos. Os
pais ficariam horrorizados se soubessem desse último caso. Bem, teria que
colocar um ponto final naquilo antes que Judith a arruinasse. Natalie não se
iludia. Adam Thornton levaria adiante todas as ameaças que havia feito.
Judith levantou-se com graça lânguida e felina, característica da modelo
Judith Grant. Por alguma razão, a irmã caçula achara que Faulkner não era um
nome muito comercial, e Natalie se alegrou com a decisão da irmã. Pelo menos,
Adam Thornton não suspeitaria de seu parentesco. Como teria sido ferino e
sarcástico se soubesse que ela era sua irmã!
— Não, não me venha com caretas, querida — disse Judith com sua voz
rouca, saindo da escrivaninha para se sentar em uma das poltronas. — Não
estava fuxicando em suas coisas, só estava tentando ver como você consegue ficar
atrás daquela mesa o dia inteiro. Eu é que não conseguiria!
Natalie se sentou na cadeira que a irmã deixara, sabendo que aquela tinha
que ser uma conversa de negócios, sem envolvimentos familiares. Já tinha
problemas suficientes e não precisaria apelar para sentimentos fraternais.
— Judith, preciso falar com você...
— Ah, espero que não seja a respeito da sessão de fotos!. — gemeu a irmã.
— Dee já me passou um sermão, disse-me que sou irresponsável...
Natalie já tinha até se esquecido da história das fotografias, o que não era
de surpreender, depois do encontro com Adam Thornton!
— Então não vou falar mais sobre isso, a não ser para insistir que não
devia ter acontecido. Tenho uma firma aqui, Judith e...
— Achei que não ia falar mais no assunto — murmurou a irmã, tentando
encerrar a conversa.
— Está bem. Ponto final. Vamos então falar de Jason Dillman, está bem? —
Apertou os olhos e encarou Judith.
Se tinha esperança de deixar a irmã embaraçada estava sem sorte. Judith
nem ligou para a mudança de assunto e ficou observando o esmalte das unhas
brilhantes com uma expressão de tédio.
Natalie perguntou, zangada:
— Judith, você anda saindo com ele?
Os olhos azuis a enfrentaram, sem pestanejar.
— Claro, trabalhamos sempre juntos com essa história de garota símbolo.
— Não é o que quero dizer, e sabe disso muito bem! — replicou Natalie,
desesperada.
— Natalie, se quer saber se estou dormindo com ele, por que não pergunta
de uma vez?
— Está? — explodiu.
— Estou.
— Judith, ele é casado! — Natalie quase perdeu o fôlego.
— E daí? — sussurrou a irmã, desinteressada.
Às vezes tinha a impressão de não conhecer Judith. Pelo jeito, ela não se
importava a mínima com o fato de Jason Dillman ter uma mulher.
— Ele não é feliz com a mulher...
— Nunca são — ironizou Natalie, e Judith fez um muxoxo de pouco caso.
— Ora, Kenny estava me segurando há muito tempo. — Deu de ombros,
confiante. — E ele só me queria porque a mulher ia ter um bebê e não podia
transar com ele. Mas com Jason é diferente.
Natalie não entendia como a irmã podia, às vezes, ser tão sofisticada e, ao
mesmo tempo, tão boba em relação aos homens. Tivera um caso com Kenny
Richards há um ano; era um sujeito casado, que dizia que seu casamento estava
no fim, que ia largar a mulher quando chegasse a hora. Diziam que a mulher dele
estava grávida e que não podia ter relações com ele por motivos de saúde. Logo
que o bebê nasceu e ela ficou boa, Kenny deixou Judith de lado, como se fosse
um trapo.
— Isso é a verdade ou é o que ele lhe conta? — perguntou Natalie, cética.
— Pura verdade! — Os olhos azuis flamejaram. — Teria largado Tracy há
anos, se pudesse.
Ela franziu a testa.
— Como, se pudesse...?
— Falando sem rodeios, Natalie, é Tracy quem tem o dinheiro. E o emprego
na Thornton é muito importante, também. Pagam bem e ele tem um cargo
importante. Seria um horror se Adam Thornton soubesse do nosso caso.
— Por quê? Ele está paquerando você? — Natalie não conseguia entender o
interesse de Adam Thornton nessa história, já que não era parte interessada.
— Por Deus, não! — Judith riu ante essa idéia. — Adam Thornton
interessado em mim? — Riu de novo. — Ele não se envolve com modelos. A última
mulher na vida dele foi uma princesa em carne e osso, viva!
— Seria estranho se fosse morta — zombou Natalie, seca.
— Muito engraçado. O que quero dizer é que não faço o gênero dele. Mas
por que está tão interessada, se nunca o viu?
— Acabo de me encontrar com ele. E ele já sabe de você e Jason, Judith.
Chamou-me hoje de manhã em seu escritório para me falar sobre isso. Quer que
a coisa acabe e que você tome a iniciativa. — Olhou a irmã, sem pestanejar.
— Diabos! — murmurou Judith, levantando-se e pondo-se a andar pela
sala. — Como foi que ele descobriu?
— Não tenho a mínima idéia.
— Temos nos encontrado durante o dia, para que ele não desconfie —
continuou Judith, falando consigo mesma, como se Natalie não estivesse
presente.
— Então é por causa de Jason Dillman que você tem faltado às sessões de
fotos?
— Tínhamos que nos encontrar...
— ...e justo no horário de trabalho, no horário de Adam Thornton!
— Não é por causa disso que ele está zangado. É por causa da irmãzinha
dele.
— Irmãzinha?
— Hum, hum. Jason é casado com a irmã caçula de Thornton.
— E ele... você e ele... — Natalie se interrompeu, chocada demais para
conseguir falar qualquer coisa a mais.
Agora entendia porque Adam Thornton estava tão zangado com o caso e
porque queria acabar com ele imediatamente. Imagine! O marido da irmã! Deus
do céu, tinha o direito de estar uma fúria, como ela estava com Judith. A irmã
sempre havia sido rebelde, mesmo quando criança, buscando o que queria sem se
importar com os sentimentos alheios. Mas dessa vez não ia escapar. Tinha ido
longe demais. No passado, Judith podia ter sido mimada por pais indulgentes,
mas ali em Londres era diferente, tinha que pensar nos outros, em Tracy Dillman
para começar, em Adam Thornton, e por último na própria irmã. Judith nunca
havia sequer considerado a reputação da agência ao se envolver naquele caso.
— Como pôde fazer isso, Judith? — perguntou, furiosa. — Justamente o
cunhado de Adam Thornton!
A irmã deu de ombros.
— Não sabia disso quando começamos o namoro, e, quando soube, não fez
a menor diferença. Por que vou me importar com quem só é cunhado dele? Se a
bobinha não consegue segurar o marido é melhor deixá-lo ir embora e não ficar
pedindo ao irmão para interferir!
— Sua sem-vergonha, irresponsável!
— Natalie! — Judith abriu a boca, atônita com a veemência da irmã.
— Está surpresa, não é? Nunca pensou que sua irmã mais velha tivesse
coragem de dizer exatamente o que pensa de você, não é? — Suspirou fundo. —
Pois acabou-se. Você já fez muita besteira e esta foi a gota d’água. Tracy Dillman
deve amar o marido, e é por isso que quer segurá-lo. De repente aparece você,
bonita e disponível...
— Chega, Natalie. — Judith estava branca. — Não vim aqui para ser
insultada!
— Então por que veio? — As mãos de Natalie tremiam ao se levantar e
enfrentar a irmã. — Não foi para trabalhar! Quero acabar com esse caso agora,
Judith, ou perderemos o contrato da garota símbolo.
Judith permaneceu imperturbável.
— Não pode fazer isso — retrucou, confiante.
— Talvez eu não possa — respondeu, mais zangada do que nunca. — Mas
Adam Thornton pode. Ele tem advogados que conseguiriam que você desejasse
nunca ter ouvido falar em Jason Dillman!
— Jamais! — negou Judith, ardorosamente. — Eu o amo!
Tão rápido quanto se acendera, a raiva de Natalie morreu, e o instinto
protetor de irmã mais velha veio à tona.
— Talvez você pense que o ama...
— Não penso, não. Eu sei que o amo — respondeu a irmã, com firmeza.
— Mas ele é casado, Judy!
— Não me chame assim. Sabe que eu não gosto. E só porque Jason assinou
um papel há sete anos, isso não quer dizer que ele ainda queira ser casado. As
pessoas mudam muito em sete anos.
— Então por que não larga a mulher?
— Já lhe disse...
— Por causa do emprego e do dinheiro dela!... — ironizou Natalie. — O que
será que ele se importa mais de perder? Você não pode amar um homem desses,
Judith.
— Mas amo. E quero esse homem para mim — disse Judy, satisfeita.
— Tem que acabar com esse caso.
— Por quê?
— Porque é imoral, Judith! — Natalie franziu a testa, exasperada.
— Mamãe e papai ficariam chocadíssimos se soubessem disso. Além do
mais, Adam Thornton vai acabar com esta agência, se você não der um jeito
nessa história.
— Ah, agora está chegando ao ponto! Nada de amor fraternal! — zombou
Judith. — Esta agência significa mais para você do que qualquer outra coisa,
Natalie. Mais do que eu, papai e mamãe, mais do que qualquer coisa. — Curvou
os lábios. — Devia arranjar um homem, Natalie... não aquela praga daninha do
Lester. Estou falando de um homem de verdade. Talvez assim entendesse o que
sinto por Jason.
Natalie ignorou a rudeza da irmã para com Lester, sabendo que a antipatia
dos dois era mútua. Saía com Lester Fulton há uns três meses, e desde a
primeira vez que ele e a irmã se encontraram, implicaram um com o outro, e não
perdiam a oportunidade de se agredir quando podiam.
O fato de a irmã lhe dizer que precisava de um homem não a magoou.
Judith a considerava antiquada por não gostar de falar sobre seu relacionamento
com os homens, e ela mesma tinha consciência de que não era uma moça
popular. Tivera muitos amigos homens nos últimos anos, mas o fato de não falar
sobre eles não queria dizer que não houvesse acontecido amizades significativas e
profundas. Significativas e profundas! A quem ela estava querendo enganar?
Nunca se apaixonara, nunca, e Judith tinha razão. Não fazia idéia do que ela
sentia por Jason Dillman ou por qualquer outro homem.
— Não vou desistir dele, Natalie — acrescentou Judith, com veemência. —
Você e Adam Thornton podem fazer o que quiserem, mas não vou desistir de
Jason. — Abriu a porta. — Não vou desistir, Natalie. — E saiu sem fazer barulho.
Natalie levou a mão à testa febril. Conhecia a irmã o bastante para saber
que estava dizendo a verdade. Qual seria a reação de Adam Thornton se
descobrisse?
Judith a encostara na parede, dessa vez. Quando eram crianças vivia
arrancando a irmã, tão vulnerável — vulnerável para os pais, que a viam assim, é
claro, — de enrascadas incríveis. Mas Judith, dessa vez, não queria ser ajudada.
Naquela, manhã, ao falar com Adam Thornton, nem desconfiara que Tracy
Dillman era sua irmã. Meu Deus, como devia estar furioso com Judith! Nas
circunstâncias, a ameaça dele de revogar o contrato da garota símbolo era
pequena, comparada com o que realmente podia fazer. E o que ela podia fazer!
Judith se recusava a desistir de Jason Dillman e ele tinha todo o direito de
acabar com todos os contratos da agência Faulkner.
Dee entrou com os relatórios da manhã, e empoleirou-se na ponta da mesa
de Natalie.
— Ela deu trabalho hoje, hein?
— Deu mesmo — sussurrou.
— E como foi tudo lá com Adam Thornton? — perguntou Dee, interessada.
— É um cara arrogante — respondeu ela sem pensar, corando ao ver que o
interesse da outra aumentava. — Pois é. Arrogante.
— Combina com aquela voz de mormaço?
Combinaria? Bem, a imagem do homem de meia idade cheio de filhos havia
desaparecido de sua cabeça.
— Acho que sim — respondeu, displicente. — Dee, se ele telefonar, diga que
eu não estou.
Dee olhou-a, curiosa.
— Algum problema?
— Sim. — Natalie suspirou.
— Judith outra vez?
— Como foi que descobriu?
— Não é difícil. — A amiga sacudiu a cabeça. — Sei que é sua irmã, meu
bem, mas vale a pena o trabalho?
— Não. É pelos meus pais. — Mordeu o lábio inferior. — Eles não fazem a
menor idéia.
— Posso fazer alguma coisa?
— Acho que não, Dee, obrigada. — Natalie balançou a cabeça, sabendo que
tinha que resolver o problema sozinha, se pudesse. — Já será uma grande ajuda
se conseguir tirar Adam Thornton do meu caminho.
— Vou fazer força. — Dee saltou da mesa. — Acho que vou dar um pulo até
em casa para ver meu doce maridinho doente. — Levantou os olhos para o céu. —
Deve estar semimorto, como todos os homens quando adoecem.
Natalie riu, mas seu humor desapareceu logo que a outra saiu para o
almoço. O dia começara bem, e, de repente, tinha dado uma virada. E ainda tinha
aquelas contas para fazer! Tirou-as da gaveta, completamente esquecida do
almoço.
Voltou para casa depois das seis. Seu apartamento, tão calmo, foi como um
oásis para ela. Não era grande. Só um quarto, banheiro, um bom living e cozinha
espaçosa. Mas o mais importante é que ali podia relaxar. Tentara manter uma
aparente calma frente a Dee, mas o dia não tinha sido nada fácil. Para coroar
tudo, Adam Thornton ainda havia telefonado depois das cinco.
— Ele não me pareceu muito contente quando eu disse que você não
estava. — Dee fez uma careta engraçada.
Ficaria menos contente ainda se recebesse a mesma resposta várias vezes.
Não era um homem paciente, pelo contrário; tinha um temperamento que pedia
ação. Natalie não imaginava quanto tempo ele ia esperar no que dizia respeito à
Agência de Modelos Faulkner.
Não imaginava também o que ela própria ia fazer com relação a Judith. Sua
irmã não ia desistir de Jason, e não podia forçá-la a acabar com o caso, apesar de
a agência sofrer com isso. Enquanto não chegasse a uma solução não adiantava
falar com Adam Thornton.
Tomou um banho quente de banheira e relaxou, sentindo-se um pouco
melhor, pensando no encontro com Lester, à noite. Os dois tinham se visto pela
primeira vez no elevador, pois a firma de contabilidade para a qual ele trabalhava
ficava no mesmo edifício que a agência. Com o correr do tempo foram progredindo
do bom-dia até uma conversinha leve e descompromissada.
Quando Lester a convidou para jantar, ficou sem saber se aceitava. Afinal
de contas um papo no elevador era uma coisa bem diferente de um programa
noturno. Resolveu aceitar, achando que gostava dele o bastante para se
divertirem algumas horas juntos. Era alto, bonitão, moreno, olhos castanhos
cheios de calor e sempre bem-vestido. A noite foi um sucesso e o começo de várias
outras saídas.
As palavras zombeteiras de Judith voltaram a atormentá-la. Não que Lester
não fosse um amor; podia ser um amante ardoroso quando queria, mas não
acendia seu desejo, como nenhum outro homem ainda o havia feito.
Retribuiu carinhosamente o beijo de Lester quando ele chegou, antes das
oito. Era sempre muito pontual.
— Você está linda. — Ele sorriu. — Reservei uma mesa para as oito e
quinze. — Olhou o relógio de pulso. — Temos que sair logo, para chegar em
tempo.
Natalie gostava do jeito dele, tão pontual, chegando sempre na hora certa
para sair, marcando tudo e obedecendo aos compromissos combinados, o que lhe
dava segurança: aliás, tudo em Lester lhe sugeria apoio, e o ar protetor dele a
encantava. Depois de ser patroa o dia inteiro era gostoso sentir-se uma mulher
desamparada na companhia de um homem confiável.
Só não gostava quando ele metia o bedelho e lhe dizia como devia dirigir
seus negócios! Ele notou, pelo jeito, que estava preocupada e perguntou qual era
o problema. Foi só ela falar o nome de Judith para ele fechar a cara.
— Não sei porque se preocupa tanto com ela — zangou-se. — Só dá
problemas.
— Mas é minha irmã...
— Negócios são negócios, Natalie — atalhou, sério. — Lealdades familiares
não podem entrar nisso.
Judith era o único ponto de discórdia no seu relacionamento com Lester, e
geralmente procurava não falar na irmã. Mas precisava conversar com alguém
sobre o caso dela com Jason Dillman, e Lester era a pessoa mais próxima. Afinal
de contas era seu namorado, e tinham que compartilhar tudo, até os problemas.
Lester bufou, desgostoso, quando ela lhe contou do encontro com Adam
Thornton e da recusa de Judith em terminar com tudo.
— Típico dela! — caçoou ele. — Bem, já tem sua resposta, Natalie! Deixe
que Adam Thornton a dispense — aconselhou, sem dó.
Ela suspirou, bebericando o vinho que Lester havia escolhido para
acompanhar a refeição. Era um bom conhecedor e escolhera aquele com todo o
cuidado. Para Natalie, que não prestava atenção na bebida, podia perfeitamente
ser água que não faria a menor diferença. Lester não gostaria de saber que havia
desperdiçado seu talento.
— Não é tão simples assim. — Ela sacudiu a cabeça e empurrou o prato,
sem conseguir se entusiasmar com o pato e a salada verde. — Meus pais confiam
em mim, e esperam que eu proteja Judith.
Ele fez uma careta que não denotava a mínima compreensão.
— Seria melhor se lhe arranjassem um marido. Isso não é tarefa de irmã.
Mas pelo jeito como ela se comporta não vai achar um marido... só os maridos de
outras.
Natalie sabia que a crítica era merecida, que, até então, Judith só tinha
feito besteiras com relação a homens, mas mesmo assim a crítica de Lester doeu.
Ela já fora apresentada aos pais dele e ao irmão mais velho, e não tinha feito
nenhum comentário sobre eles, mesmo achando que o pai era dominado pela
mãe prepotente, e que se metia muito na vida dos dois filhos solteiros.
— Está na hora de Judith tomar conta de si mesma — continuou Lester,
sem perceber o leve recuo dela. — Ela é quem decide tudo o que quer fazer, e só
quando está em apuros é que vem correndo para você.
— Ela não está em apuros — murmurou Natalie. — E não veio pedir nada.
Já lhe disse. Foi Adam Thornton que me chamou.
— Hum. — Ele mordeu o lábio inferior, pensativo. — Não é conveniente que
você lide com um homem como ele.
— Como você sabe disso? Você o conhece?
— Já ouvi falar sobre ele e li alguma coisa no jornal de finanças que assino.
É um garoto prodígio.
— Não é bem um garoto — caçoou ela.
— Não. — Ele sorriu. — A C.T. é uma das maiores companhias de
cosméticos do mundo. O homem está rolando em dinheiro. Foi uma sorte sua
fazer os contratos com eles.
— Não foi “sorte”, Lester — contradisse, meio zangada. — Trabalhei muito
para conseguir esses contratos. — Pensando bem, já não sabia se tinha conse-
guido tudo por causa de sua habilidade. Jason Dillman lhe pedira fotos de suas
modelos, para escolher uma como garota símbolo. Na hora ela tinha achado que
era uma atitude normal, afinal tinham que ver o que iam lhe mandar.
Agora, depois que sabia do caso com Judith, via as coisas por outro ângulo.
Uma agência tão pequena como a dela, dificilmente chamaria a atenção de uma
companhia do tamanho da Thornton. Estava desconfiada de que a atração de
Jason por Judith podia ter influenciado os contratos que foram feitos depois da
escolha da garota símbolo.
— Eu sei. — Lester tocou sua mão, compreensivo. — E é uma pena deixar
que Judith estrague tudo. Ela não pode se envolver com o cunhado de Adam
Thornton.
— Mas já está envolvida!
— Então faça com que termine tudo.
— Como? Já lhe falei sobre as ameaças de Adam Thornton. Ela não se
impressionou nem um pouquinho.
— Talvez você e Thornton estejam vendo as coisas pelo ângulo errado. —
Lester franziu a testa. — Esse Jason Dillman parece um mercenário. Talvez seja
mais fácil pressioná-lo, em vez de Judith.
Por que Adam Thornton não havia pensado nisso? Será que ele não exercia
nenhuma influência sobre o cunhado? É claro que sim! Ele é quem tinha que
acabar com aquilo, já que ela não havia conseguido. Pronto. Ia parar de se
preocupar. Sorriu para Lester, e mudou de assunto. Trataria do caso de Adam
Thornton no dia seguinte.
Encorajou Lester a falar sobre o seu trabalho, maravilhando-se com a sua
habilidade em lidar com números, o que era o seu pesadelo.
— Acho que você devia ser meu contador — caçoou ela.
— Não teria dinheiro para me pagar — respondeu ele, sério. — Você gosta
mesmo de dirigir aquela agência, Natalie? Só dá trabalho!
— Gosto. — Empertigou-se. — É a minha independência.
Lester chegou-se mais perto dela no sofá, pois já tinham voltado para o
apartamento de Natalie há alguns minutos e faziam hora, bebericando um café
quente.
— Talvez eu preferisse que não fosse tão independente. Gostaria que se
apoiasse mais em mim.
Natalie riu, nervosa, não gostando nada do ar sério dele.
— Não gosta de mulheres que trabalham?
— Não muito.
— Lester! — Afastou-se dele, atônita.
— Ora, não gosto mesmo. Quando me casar, quero que minha mulher se
contente em ser dona da minha casa e mãe dos meus filhos.
Puxa, exatamente como a mãe dele!
— Não seria muito chato para... a sua mulher? — caçoou ela, imaginando-
se como outra sra. Fulton. Ah, que Deus a livrasse de tal sina.
Ele se ofendeu.
— Acho que não. E por que está rindo? — Franziu a testa, sem entender.
Rindo para não chorar! Aliás, essa conversa estava séria demais para seu
gosto; não tinha a menor dúvida de que Lester a via como a sua mulherzinha, que
ia ficar em casa cozinhando para ele e as crianças. Gostava dele, mas só de
pensar em ser aquele tipo de mulher, enchia-se de horror.
— Estou só brincando, Lester. Tenho certeza de que a mulher que você
escolher para esposa vai ficar muito feliz por tomar conta de você e dos seus
filhos. — Contanto que não fosse ela!
— Acha?
— Tenho certeza — disse objetiva, levantando-se e pondo um ponto final na
conversa. — Está ficando tarde, Lester... — jogou a indireta e esperou.
— É mesmo — concordou, sem ter a menor idéia do pânico que lhe
causara. Pôs a xícara vazia na mesa em frente a ele e levantou-se. — Vamos
almoçar juntos amanhã?
— Ótimo — concordou Natalie, sabendo que tinha que terminar aquele
namoro devagar, sem demonstrar como estava horrorizada.
Ele se inclinou para beijá-la na boca, suavemente.
— Meio-dia e meia?
— Maravilhoso — concordou ela, conduzindo-o disfarçadamente em direção
à porta.
Pouco depois, para seu alívio, ele se foi. Que dia! O terrível encontro com
Adam Thornton, a teimosia da irmã e, finalmente, a descoberta de que o homem
de sua vida era um macho chauvinista.
E o amanhã não se oferecia mais brilhante!

Para surpresa sua, a manhã passou depressa. Tinha umas reuniões com
alguns clientes, dos quais desconfiava que ia precisar muito, se perdesse os
contratos da Thornton.
Não ouvira mais falar sobre ele e não queria ligar para o homem. Se ele já
tivesse falado com Jason Dillman e este tivesse se recusado a acabar com o caso,
como Judith, então recomeçaria tudo de novo. A ignorância era uma bênção,
nesse caso. Pelo menos, era uma paz!
Uma Dee de cara vermelha entrou no escritório, depois das onze.
— Acho que ele não vai engolir muito tempo essa história, Natalie — disse,
preocupada.
— Hum? — Natalie olhou para cima, distraída.
— Adam Thornton. Ele...
— Tem telefonado? — Estatelou os olhos.
— A manhã inteira. A secretária dele, pelo menos. Tentei passar a perna
nela, mas da última vez foi ele mesmo que ligou. Acho que não acreditou quando
eu disse que você não estava.
Natalie franziu a testa.
— Mas eu... Que ódio, esqueci de avisá-la que o atenderia — gemeu,
praguejando contra si própria, lamentando sua burrice. Tinha se esquecido
completamente de avisar a Dee que queria falar com ele.
— Quer dizer que passei a manhã toda evitando o homem e você precisava
falar com ele?
— Sinto muito — disse Natalie. — Ele telefonou várias vezes? — Encostou-
se na cadeira, a pintura do rosto perfeita, como sempre, o cabelo castanho
brilhando, e o vestido turquesa combinando com os olhos.
— Pelo menos, meia dúzia de vezes. E da última vez estava uma fúria!
Natalie suspirou, preocupada.
— É melhor chamá-lo imediatamente. Sinto muito dar-lhe tanto trabalho.
— Não seja boba. Já tem coisas demais na cabeça. Mais ainda, agora!
— Pode ser. Mas não preciso ser burra por causa disso. Como está o Tom,
hoje?
— A mesma coisa. — Dee fez uma careta. — Ah, os homens!
Era uma afirmação com a qual Natalie concordava plenamente. Homens! E
um deles em particular. Dee chamou pelo interfone logo depois.
— Ele não está lá, agora.
— Verdade? Ou será que é desculpa da secretária? — Seria bem do estilo
de Adam Thornton decidir não lhe falar mais, quando ela resolvesse chamá-lo.
— Bem, ela disse que ele não estava no escritório, antes que eu dissesse
quem era. Portanto, acho que não está mesmo. Quer que continue tentando?
— Por favor.
Olhou o relógio de pulso e viu que eram quase onze e meia. Quem sabe
tinha saído para o almoço? Com certeza se cansara de se preocupar com uma
pessoa insignificante como Natalie Faulkner. Ela duvidava que ele se ocupasse
com pessoas como ela, e não teria perdido tanto tempo se não se tratasse da
felicidade de sua irmã.
Cinco minutos depois, Adam Thornton entrou no escritório sem bater, sem
ser anunciado por Dee, com um jeito dominador, impondo-se sobre ela e sua
mesa.
Tinha se esquecido de como era alto e cheio de vitalidade. A sala toda
pareceu diminuir com a presença dele, ressaltando sua selvageria; os olhos azuis
como aço ficavam mais evidentes, com aquela expressão de impaciência no rosto
duro.
Natalie percebeu tudo isso em poucos segundos. O corte do terno bege, a
camisa creme, as feições rudes e bonitas. É, era exatamente a figura de que se
lembrava e mais um pouco.
— Sinto muito, Natalie — murmurou uma Dee toda atrapalhada. — Ele foi
entrando...
Natalie viu o desafio arrogante nos olhos que se contraíram pura observar
Dee.
— Tudo bem — apaziguou ela. — Esse é o sr. Thornton, sr. Adam Thorton
— acrescentou, quase rindo, ao ouvir o “ah!” de espanto de Dee.
— E você é a moça competente que andou enganando a minha secretária a
manhã inteira — sussurrou, rouco. — Preciso de alguém como você no escritório.
Natalie pestanejou, tonta, sentindo-se também presa ao charme daquele
sorriso, e sacudiu a cabeça para se livrar do encanto. Ele parecia dez anos mais
moço quando sorria. As rugas da boca se acentuavam, os olhos se enchiam de
calor, e isso não contribuía para deixá-la mais calma. O homem era perigoso,
cruel, tinha que se lembrar disso.
— Muito obrigada, Dee. — Dispensou a secretária que, desapontada, saiu e
fechou a porta. — Agora, sr. Thornton — olhou para cima, friamente, — o que
posso fazer pelo senhor?
Ele puxou uma cadeira, sentou-se e demorou para acender um de seus
charutos, com jeito de leopardo preparando-se para atacar.
Finalmente levantou os olhos apertados, olhando-a através da fumaça.
— Para começar, pode me chamar de Adam — disse suavemente. —
Desconfio que vamos trabalhar juntos por muito tempo, tempo suficiente para
que passemos a nos tratar com mais familiaridade. — Encarou-a desafiador.
Ela respondeu, desconfiada:
— O que quer dizer com isso?
— Muito simples — caçoou. — Resolvi tratar pessoalmente todos os
assuntos relacionados com esta agência. E gostaria de aceitar as comissões que
você oferece pelos contratos que consegue.

CAPÍTULO III

Natalie quase perdeu o fôlego. Nunca fora tão insultada em toda a sua
vida.
— Esta empresa que administro, sr. Thornton, é uma firma perfeitamente
legal!
— Acredito — respondeu ele, nem um pouco impressionado. — E acredito
também que deve saber que minha companhia não costuma fazer negócios com
agências tão pequenas como a sua!
A raiva de Natalie foi tanta, que seus olhos brilharam.
— Está insinuando que induzi Judith a ir para a cama com o seu gerente
de publicidade para conseguir o contrato da garota símbolo? — Sua voz saiu
macia, perigosamente macia.
Adam Thornton deu de ombros, assoprando anéis de fumaça para o teto.
— Não, não estou sugerindo...
— Ainda bem! — atalhou ela.
— Mas estou dizendo que esta agência pegou o contrato porque Jason já
tinha ido para a cama com essa moça, Judith Grant. — Ele observou Natalie,
com os olhos apertados.
Ela corou, incerta.
— Pode me explicar melhor o que disse?
— Muito simples. Jason conheceu a garota antes de vir a esta agência. Os
dois se encontraram em uma festa, há alguns meses. Já eram amantes antes que
ele começasse a procurar a garota símbolo.
— Ah, não! — exclamou ela, perturbada, sabendo que devia ser verdade.
Isso explicaria muita coisa.
— Pois é — confirmou Adam Thornton, seco. — É desnecessário
acrescentar que eu desconhecia esse fato.
— Eu também — retrucou Natalie.
— Não achou estranho que uma companhia do tamanho da Thornton
procurasse seus serviços? — ironizou, ferino.
— E você não achou estranho que Jason trabalhasse com uma agência tão
pequena quanto a nossa?
Ele deu de ombros.
— Jason sempre foi bom no serviço. Disse que a moça era o que queríamos
e eu acreditei.
— E eu tenho uma boa reputação pelo trabalho que desenvolvi no ano
passado — defendeu-se ela, com calor. — Era possível que uma outra companhia
nos recomendasse ao sr. Dillman.
— Possível — concordou ele, — mas não era provável. Ou ficou tão contente
que resolveu não ir ao fundo da questão? — Os olhos azuis a observavam com
evidente desprezo.
Natalie sabia que havia alguma verdade no que ele dizia, tinha mesmo
custado a acreditar na sua boa sorte. Na época era exatamente o empurrão que
sua agência precisava, fazendo com que outras companhias tomassem
consciência de sua presença no mercado.
Olhou Adam Thornton. Como seria bom se ele não fosse tão confiante, se
não tivesse tanta certeza. Parecia um homem que não cometia erros.
— Deve admitir que o trabalho de minhas modelos foi tão profissional
quanto o de outras agências com as quais trabalhou.
— Exceto no caso da garota símbolo — concordou ele. — E nós sabemos
muito bem por que ela não trabalha direito. — Apertou o charuto com força no
cinzeiro.
— Sabemos?...
— Ela não tem tempo para nada, já que passa as manhãs e as tardes na
cama com Jason!
Natalie empalideceu e engoliu em seco.
— Quer dizer... quer dizer que já lhe falaram sobre isso?
— Resolvi me inteirar de tudo sobre o caso. Jason se recusa a terminar
com ela. Teve mais sorte do que eu? — perguntou, à queima-roupa.
Ela mordeu o lábio inferior, aflita.
— Ah... não.
Ele contraiu a boca, zangado.
— Foi por isso que não queria me atender?
Seu rosto se incendiou, enfatizando o azul-esverdeado dos olhos.
— Foi um erro...
— Concordo. Foi mesmo. Não teria que me “enfrentar pessoalmente se
atendesse ao telefone.
— Não é isto o que quero dizer — explodiu Natalie, agitada. — Eu disse a
Dee que não ia atender nenhum telefonema de manhã — inventou. — Quando
descobri o que aconteceu pedi a Dee que lhe telefonasse, mas o senhor já tinha
vindo para cá. — Será que ele teria sido mais simpático pelo telefone?
O homem curvou os lábios, irônico.
— Não estou acostumado a ser evitado. — Levantou-se, enchendo a sala
com seu corpo felino como o de um tigre na mata. Olhou o relógio de pulso, uma
jóia de ouro, simples, que provavelmente devia ter custado um ano do salário de
Natalie. — Meio-dia e dez — murmurou, pensativo. — Pegue o casaco, Natalie,
vamos almoçar.
Ela o olhou de boca aberta, tanto por ele saber o seu nome quanto pelo
convite. Bom, mas não era para se surpreender tanto. Havia investigado tudo
sobre a Agência Faulkner, quando percebera o que estava acontecendo entre o
cunhado e uma de suas modelos. Devia saber tudo sobre ela, até o número de
seu sutiã! “Não”, pensou, enquanto o observava. “Ele tem bastante experiência
para adivinhar , sem que ninguém o ajude.”
— Hoje só almoço ao meio-dia e meia — disse, muito digna, sabendo que
suas bochechas estavam pegando fogo.
— Você é o patrão?
— Sou.
— Então almoça na hora que quiser. Pegue o casaco.
Natalie olhou-o, rebelde.
— Talvez eu não queira almoçar com o senhor, sr, Thornton. — Ele se
divertiu com a resposta.
— Tenho certeza que não. Mas pegue seu casaco, de qualquer modo.
— Eu...
— São negócios, Natalie. Ou acha que estou pretendendo cobrar minhas
comissões agora? — zombou suavemente.
Ela respirou fundo.
— Não existem comissões do tipo que você insinua!
— Não?
— Não! — Adam Thornton apertou os lábios, pensativo.
— Então, preciso imaginar algumas. — Seus olhos estavam cheios de calor,
e tinham perdido a frieza de até então.
Natalie não podia acreditar no que estava acontecendo. Adam Thornton
flertando com ela!
— Vai imaginar em vão, sr. Thornton. Nesta agência, a única coisa que vai
conseguir de mim é eficiência.
— Serve. Para começar, serve. — Ele deu de ombros. — Vai me fazer
esperar muito para o almoço? Já vou avisando. Fico insuportável quando estou
com fome.
Ela mexeu com os lábios, reprimindo o riso.
— Quem teve a coragem de lhe dizer isso?
Adam Thornton deu um sorriso aberto, parecendo, de novo, uns dez anos
mais moço.
— Uma jovem senhora que sabe que a amo muito para me zangar com ela.
— Seu rosto se abrandou ao dizer isto.
Natalie desviou o olhar.
— Hum, entendo.
— Minha irmã — caçoou ele.
Ela mordeu o lábio. O comportamento de Judith lhe parecia mais
condenável frente ao amor e preocupação desse homem pela irmã. Meu Deus,
estava se sentindo culpada e não tinha nada a ver com isso.
— O que é que há? — Adam franziu a testa.
— Nada. É mesmo um almoço de negócios?
— É claro. Só espero que me perdoe se eu sentir prazer com a comida.
Ela ignorou o sarcasmo.
— Quer sair agora?
— O mais depressa possível.
Natalie sorriu, marota, incapaz de resistir.
— Você fica rabugento de verdade?
— Muito — confirmou. — Mas também dizem que fico manso como um
gato, depois de comer.
Ela reprimiu um sorriso.
— Sua irmã, outra vez?
— É. — Ele pegou a jaqueta de veludo preto do cabide e colocou-a em seus
ombros.
Natalie enfiou os braços, afastando-se depressa de perto do calor daquele
corpo, que cheirava a loção de barba e charuto.
Procurou ignorá-lo ao retocar o batom, mas não conseguiu vencer uma
certa timidez por ver que ele a olhava pelo espelho, olhos fixos na sua boca
entreaberta.
— Você não sabe — murmurou ele quando ela se virou, ficando muito perto
dele — que observar uma mulher fazer isso acende nos homens um desejo de
experimentar os lábios coloridos? — A voz era suavemente sedutora.
Natalie engoliu em seco e, ao se ver tão perto, perdeu o equilíbrio. E ele a
abraçou, apoiando-a contra o próprio peito. O coração dele batia rápido sob a
palma de sua mão e olhou-o meio tonta. Ela era alta, mas Adam Thornton
ganhava dela por uns doze centímetros.
Sentiu-se hipnotizada por aqueles intensos olhos azuis, e ele, calmamente,
inclinou-se e beijou-a. Não foi um beijo leve, titubeante. Abriu-lhe os lábios como
se ela fosse posse sua há muito tempo, tomou aquela boca vermelha como se
toma um fruto doce, colhido com vagar e perícia.
Ela não podia recusar nada a esse homem. Derreteu-se toda contra seu
corpo rijo, deliciando-se com as mãos que lhe acariciavam as costas, queimando
a pele delicada sob a roupa, e que depois a seguraram pela nuca, para evitar que
fugisse dele.
Ele saboreou, experimentou aquela boca em movimentos lentos, respiração
ofegante, olhos brilhantes de desejo, e quando afinal a deixou, comentou,
encantado:
— Hum, você tem um gosto delicioso!
Natalie recuou, saiu de seus braços, alisou o vestido, desconcertada. No dia
anterior havia descoberto que não existia um homem que acendesse uma fogueira
dentro dela e, agora, ali estava um, bem perto dela. Adam Thornton, era seu
adversário, e o sujeito mais arrogante e sarcástico que jamais encontrara!
Seu coração estava aos pulos, o corpo tremia e a boca latejava. Não queria
pensar em nada, só em voltar aos braços dele e sentir ó prazer daquele beijo
outra vez.
— Mas pelo gosto de sua boca sei que não está usando o brilho para lábios
da Thornton — caçoou ele, quebrando o encanto.
Ela o fuzilou com os olhos, com vontade de bater naquele desconhecido que
a deixava tão confusa.
— Não gosto das cores.
Ele levantou as sobrancelhas.
— O que há de errado com elas?
Talvez não devesse ter sido tão franca, mas não resistira, ao pensar em
quantas mulheres ele havia beijado para conhecer seus produtos pelo gosto; sua
reação ao beijo dele pareceu-lhe completamente exagerada e fora de propósito.
Tinha vinte e cinco anos, e não era uma garotinha para se impressionar tanto
com a experiência de um homem mais velho, arrogante e prepotente, por sinal.
Ela deu de ombros e balançou a cabeça.
— Não ficam bem em mim.
Ele andou até à porta, impaciente e irritado com a crítica.
— Sugiro que retoque o batom pela segunda vez, enquanto aviso sua
secretária de que vai almoçar fora.
Natalie fez o que ele sugeria, distraída, contente pelo minuto de solidão em
que poderia tentar reordenar os pensamentos. Era verdade que o sujeito sabia
beijar... e daí? Reagira como nunca havia reagido antes. Tinha sido apanhada de
surpresa, e isto não ia acontecer mais.
— E Lester? — perguntou Dee, quando Natalie apareceu na recepção,
pouco depois, aparentemente muito calma. — Telefono para ele e digo que não
pode ir almoçar com ele?
— Ah, é mesmo! — Evitou o olhar curioso de Adam Thornton. — Por favor,
diga a ele que fui a um almoço de negócios — acrescentou, querendo que Adam
Thornton soubesse exatamente o que pretendia fazer. — Telefono para ele à tarde.
— Tudo bem. — Dee respondeu com toda a naturalidade, começando a
perceber que tipo de homem era esse Adam Thornton. — Até logo — disse,
contente.
— Até logo — respodeu Adam Thornton, pegando Natalie com firmeza pelo
braço.
Ela deixou que ele a conduzisse até o elevador, e sempre em silêncio
desceram ao térreo e depois se dirigiram a um Rolls-Royce cor de vinho, cuja
porta foi aberta por um motorista que os esperava. Adam sentou-se ao seu lado,
acenando com a cabeça para o rapaz. Natalie esperava ver o Porsche prateado e
ficou surpresa ao encontrar um Rolls.
— Quem é Lester? — perguntou Adam mansamente, enquanto o motorista
deslizava pelo tráfego, separado deles por um vidro, o que lhes dava maior
privacidade.
Natalie virou-se para ele, meio impressionada com a riqueza daquele
homem.
— É um amigo — respondeu, desconfiada do interesse dele.
— Ah! Sei...
Ela franziu a testa. O que é que ele sabia? Ficou sem resposta a essa
indagação porque ele não falou mais nada até chegarem ao famoso restaurante
Savoy, onde tinha uma mesa reservada. Natalie já tinha estado lá com Jason
Dillman, em almoços de negócios, e por isso não se impressionou com o
ambiente. Pediu uma salada verde e um bife, e nem se assustou com os quatro
pratos que Adam escolheu para si mesmo.
— Sobre o que quer falar comigo? — Olhou-o friamente, tentando não se
lembrar daquele beijo, como, aliás, parecia ser o que ele fazia.
Adam bebericou seu uísque, bem relaxado, e demorou para responder.
— Sobre uma garota fantasia — disse, afinal. Natalie abriu muito os olhos.
— Garota fantasia?... — Ele concordou.
— Posso ter lhe dado uma impressão errada sobre a minha opinião a
respeito de seu trabalho na garota símbolo...
— Acho que não.
— Dei, sim. — Ele sorriu, recostando-se na cadeira, quando o almoço
chegou. — Judith Grant pode ter sido escolhida por razões erradas, mas não
posso negar seu sucesso. Aquela linha está vendendo maravilhosamente bem. Foi
uma boa idéia pegar uma desconhecida e transformá-la em garota símbolo.
— Então Jason Dillman acertou em alguma coisa.
— Sinto desapontá-la, mas a idéia de pegar uma desconhecida foi minha.
Jason só executou. Lembra-se do novo perfume que lançamos ao mesmo tempo?
Eu me concentrei mais nesse lançamento.
Ela concordou.
— Você usou duas modelos minhas.
— Exato. Escolhidas por Jason. — Ele suspirou. — Já estou começando a
suspeitar daquelas duas, também.
— Não é preciso — zangou-se ela. — Gemma e Sheri são muito bem-
casadas.
— É um alívio saber disso.
— Garota fantasia? — provocou ela, muito interessada no que parecia um
novo projeto. A C.T. estava se expandindo e ela queria pegar uma carona nessa
expansão.
— Para uma nova linha de maquilagem em tons mais profundos e
brilhantes — explicou ele.
— Combinando com a moda atual.
— Exatamente. Quem sabe até você vai usá-la? — acrescentou ele,
zombeteiro. — Gostaria que você encontrasse a garota fantasia, a garota dos
meus sonhos. Não literalmente, é claro.
— Certo.
— Acha que pode consegui-la?
— Acho que sim — respondeu devagar. — Mas preciso saber mais detalhes
sobre essa nova linha.
— Naturalmente. Espero que compreenda que o que lhe disse até agora
sobre a garota fantasia é segredo.
Natalie empertigou-se.
— Não sou uma idiota, sr. Thornton!
— Nem um pouquinho. É por isso que gostaria de trabalhar com você nesse
projeto.
— Eu... e você? — Perdeu o apetite na hora. Adam levantou as
sobrancelhas escuras.
— Tem alguma objeção em trabalhar comigo? — desafiou.
Teria? Quanto menos se aproximasse desse homem em bases pessoais,
melhor, mas com relação à agência podia ser um alto negócio. Já era uma grande
coisa ter a garota símbolo. Com outros contratos desse tipo ela e a agência
estariam lançadas para sempre.
— Parece indecisa — comentou Adam Thornton. — Acredite, Natalie, se eu
soubesse que a srta. Faulkner, dona de agência, era uma mulher tão linda, já
teria substituído Jason há muito tempo. — Os olhos azuis a acariciavam
abertamente. — Por que fica atrás da escrivaninha e não em frente às câmeras?
— perguntou, de repente.
Ela permaneceu fria diante de seus elogios, para lembrá-lo de que era um
almoço de negócios, o mais estranho almoço de negócios a que já tinha
comparecido.
— Já fotografei muito. Mas não me satisfaz.
— Não? — disse ele, pensativo. — É, acho que não.
Ela o olhou, desconfiada.
— Por que acha que não?
Adam franziu a testa
— Você é sempre assim tão ouriçada?
— Sempre.
— Deve ser engraçado.
— O quê?
— Trabalhar com você. — Inclinou-se um pouco na cadeira e cobriu sua
mão com a dele. — Acho que vou me divertir muito.
Natalie corou até a raiz dos cabelos.
— E o que vai acontecer com a garota símbolo?
O rosto dele se endureceu e ele retirou a mão.
— Tentei argumentar com Jason, com você, e com Judith Grant. Não deu
certo. É possível que tenhamos que rescindir o contrato.
— Não!... Não pode esperar um pouco? — Ficou embaraçada ao ver que ele
a observava através dos olhos semi-cerrados. Era como se estivesse implorando
alguma coisa. E ficou danada com Judith por colocá-la nessa situação. — Talvez
o caso morra sozinho, com o decorrer do tempo — acrescentou, esperançosa.
Ele balançou a cabeça
— Pelo que sei, já vem se arrastando há nove meses.
Natalie mordeu o lábio, atônita com a burrice da irmã.
— A... a mulher dele sabe?
— Não! E não quero que isso aconteça.
— Eu não sabia que era sua irmã — disse, sentindo um pouco de culpa.
— Não costumo contar que Jason Dillman é meu cunhado.
Natalie olhou as próprias mãos.
— Eles têm filhos?
— Não, graças a Deus! — Seu modo brusco e selvagem reapareceu e ele
acenou para o garçom, pedindo a conta. — Judith Grant é a última em uma
comprida lista de mulheres que entra e sai da vida de Jason. Tracy parece amá-lo
tanto que jamais lhe ocorre que tenha casos com outras mulheres. Se não fosse
por Tracy, eu já teria esganado esse patife!
“Com certeza! E adoraria fazê-lo”, pensou ela.
— Do jeito que as coisas vão — continuou ele, — eu a protejo o quanto
posso. Nem sempre é fácil. Mas de agora em diante ele vai trabalhar sentado
atrás de uma escrivaninha.
Natalie se surpreendeu ao ver que Jason Dillman ousava desafiar esse
homem, apesar de entender que a felicidade da irmã de Adam restringia a um
mínimo as ações dele. Que vergonha! Sua própria irmã estava envolvida nesse
caso sórdido! Se Adam Thornton descobrisse o parentesco... Meu Deus, seria
capaz de virar contra ela toda aquela raiva selvagem! E se Judith tivesse um
mínimo de juízo, também teria medo. Mas a irmã vivia obedecendo aos ditames
do coração e não da cabeça.
O motorista de Adam Thornton levou-os de volta ao escritório. Adam saiu
do carro com ela, mas não subiu até a agência.
— Pense no novo contrato — encorajou. — Telefono para você.
— Hum... Quando? — perguntou Natalie.
Ele, que já estava entrando no carro, virou-se e sorriu.
— Logo. — Apertou o rosto dela com as duas mãos. — Logo, logo. — Beijou-
a de leve. — Vai ver seu amigo Lester hoje à noite?
Ela ficou desapontada com o beijo e com o motorista em pé, junto à porta
aberta. Olhou-o, embaraçada, e virou-se para Adam.
— Vou, sim — respondeu, trêmula, sabendo que não podia se envolver com
aquele homem.
— Que pena. — Largou-a de repente. — Telefono, então, Natalie. E dessa
vez espero encontrá-la.
Ela se empertigou ao notar a ameaça na voz.
— Tentarei estar presente — respondeu friamente. Ele sorriu, duro.
— Vai fazer mais do que tentar. — Levantou a cabeça em sinal de
despedida, entrou no carro e não olhou para trás.
Natalie se dirigiu ao escritório. Durante o almoço conseguira se convencer
de que tinha imaginado aquela reação imediata e calorosa aos beijos de Adam
Thornton, mas os últimos segundos em seus braços haviam mostrado que era
tudo verdade. Apesar de respeitá-lo como homem de negócios, não gostava dele, e
essa reação a amedrontava um pouco. Era preciso ter cuidado com Adam
Thornton, por várias razões.
— Estou casada há três anos e senti a mesma coisa! — caçoou Dee. Ela
levantou os olhos. Estava tão mergulhada em seus pensamentos, que ia passando
pela sala de entrada sem ao menos dizer alô.
— Desculpe. Ele é um pouco demais para o meu gosto.
— Um pouco? — Dee revirou os olhos para o céu. — Ele é lindo. Como será
sem aquelas roupas todas?
— Dee!
— Eu sei, eu sei — A outra sorriu. — Nós, mulheres, não devemos pensar
nessas coisas. Mas pensamos, não é?
— Eu...
— Não pensamos, Natalie? — Dee deu um sorriso malicioso.
Natalie ficou vermelha só de pensar naquele homenzarrão nu, perto dela.
Dee pusera em palavras o que sentia, mas, assim mesmo, ficou envergonhada por
perceber que tinha tais pensamentos e com um homem que mal conhecia. Saía
com Lester há meses e nunca tinha pensado em nada disso.
— Pode sair para almoçar, Dee. — Não respondeu à outra pergunta
diretamente. — E dê lembranças a Tom.
— Está bem. — Dee levantou-se. — Quem sabe se, da próxima vez que se
encontrar com o sr. Thornton, você se lembra de mandar todo o meu amor para
ele? — Riu, maliciosa.
— Não tenho idéia de quando vou encontrá-lo outra vez — retrucou Natalie.
— Falou com Lester? — perguntou, mudando de assunto.
— Ele disse para você telefonar à tarde, pois agora ele não vai estar no
escritório. Senão, ele telefona às oito e meia para a sua casa.
— Obrigada. — Natalie entrou no escritório.
Irritada, considerou que não tinha vontade de ver Lester naquela noite.
Aliás, tinha a impressão de que não queria nunca mais, depois que ele revelara
que a desejava como dona de casa, mãezinha e nada mais. Gostava dele, mas não
o bastante para se casar. Sua mãe podia achar que, com vinte e cinco anos e sem
se casar, ela era uma solteirona. Mas ela, Natalie, não pensava assim. Achava que
era muito cedo para se casar e se dedicar à conquista da eterna felicidade
conjugal! A agência tinha lhe custado muito esforço e não ia desistir, agora que
ela começava a engrenar, e ainda mais por Lester. Gostava dele, mas não o
amava.
Tanto a agência quanto ela alcançariam o sucesso se Adam Thornton
escolhesse a Garota Fantasia entre suas modelos. Se. Esse era o problema. Se
Judith estragasse tudo por causa daquele caso estúpido com Jason, ela... ela... Ia
fazer o quê? Judith era sua irmã e a lealdade familiar contava mais do que a
agência.

À noite, Lester estava o mesmo de sempre, simpático, amoroso, mas Natalie


evitou o costumeiro beijo de boa-noite com uma risada.
— Senti a sua falta na hora do almoço — sussurrou ele, roçando os lábios
pelo seu pescoço. — Tinha uma coisa importante para discutir com você.
Natalie se endireitou e saiu, com facilidade, de seus braços. Estava muito
bonita sob a luz pálida.
— Também tenho uma coisa para lhe dizer.
— É mesmo? — O rosto dele se abriu; estava sem casaco, a camisa
entreaberta no peito.
Foram jantar fora e voltaram para o café no apartamento dela. Tinham
acabado de tomar o café há dez minutos e Natalie procurava evitar qualquer
possibilidade de conversa mais íntima entre eles. Queria terminar o namoro do
jeito dela, devagar, dizendo-se ocupada quando ele telefonasse. Depois de umas
duas semanas, ele acabaria percebendo que ela não queria vê-lo mais. Era um
modo covarde, mas eficiente.
— Encontrei Adam Thornton hoje. — Foi a primeira coisa que lhe veio à
cabeça e se arrependeu no ato de ter tocado nesse assunto, que era o que mais
queria evitar.
Lester pareceu irritado com a interrupção. Pelo jeito planejava falar sobre
outra coisa completamente diferente, como, por exemplo, o futuro deles.
Natalie estremeceu.
— Ele está satisfeito com o que temos feito até agora — disse a Lester. —
Jogou até uma indireta de que poderíamos fazer mais alguns contratos.
— Muito bem — respondeu Lester, desinteressado. — Natalie, na verdade,
eu...
— Não acha maravilhoso? — teimou ela. — Nem acredito na minha sorte!
— Certo. Mas, Natalie...
— Amanhã vou ter um dia ocupadíssimo, Lester. — Fingiu um bocejo. —
Preciso mesmo descansar.
— Mas...
— Por favor, Lester. — Sorriu para ele, sonolenta. — Conversamos outra
hora, está bem?
Ele se levantou, impaciente, vestiu o casaco, nada contente com o fim
brusco daquela noite, mas era muito educado demais para insistir. — Amanhã,
então, na hora do almoço — disse ele, com firmeza.
— Hum... amanhã, não. Tenho um montão de coisas para fazer nos
próximos dias. Telefono para você quando estiver livre, está bom?
— Mas...
— Eu telefono, Lester, prometo. — Conservou a porta aberta, dando a
entender que ele devia sair.
— Muito bem — disse ele, beijando-a de leve na boca. — Mas preciso
mesmo falar com você, Natalie.
— Tudo bem. — Ela sorriu, em pé na porta, e ficou esperando que tomasse
o elevador.
Quando ele se foi, ela fechou a porta e caiu numa poltrona, exausta,
envergonhada por não ter dito a Lester que não queria mais vê-lo. Judith nunca
teria hesitado.
Judith. Tinha que falar com ela a respeito de Jason Dillman. E não estava
nada feliz com a perspectiva dessa conversa.

Entrar em contato com a irmã não foi nada fácil. Na manhã seguinte,
Judith não estava no apartamento dela, e também não apareceu no escritório
durante o dia. Talvez só a encontrasse à noite, quando talvez Judith tivesse
voltado para casa.
Nesse ínterim, teve que lidar com outras modelos, clientes, e a manhã
passou rapidamente. Não recebeu nenhum telefonema de Adam Thornton, e
percebeu que ele ia fazê-la esperar nessa história do contrato da garota fantasia.
Mas estaria preparada quando ele a procurasse, pois já tinha três modelos em
vista.
A garota fantasia precisava ter algo de dramático, mas também de sonho,
um pouco da fantasia de todo homem e de toda mulher. Uma garota que os
homens quisessem levar para a cama e que as mulheres tentassem imitar. Dizem
que os homens preferem as louras, mas Natalie sabia que as mulheres não
acreditam muito nessa história. Para ela, a garota fantasia devia ser morena,
exótica, com o tom de pele apropriado para o produto que a C.T. pretendia lançar.
Três das moças correspondiam a essa descrição, e ela já havia preparado suas
fichas para quando Adam Thornton entrasse em contato com ela. Quando...
Outra vez, ela não foi avisada de sua chegada. A porta se abriu de repente e
Adam entrou, parecendo bem mais zangado do que no dia anterior. O que teria
feito, dessa vez?
Dee fez uma careta preocupada atrás das costas dele e fechou a porta. A
raiva dele se espalhava por toda a sala.
Natalie levantou os olhos, nervosa, aflita, com medo do que ele ia falar.
Estava furioso demais para ser capaz de dizer alguma coisa, e a seriedade de sua
expressão calava, também, a voz da moça.
De repente, ele se aproximou da mesa, levantou-a bruscamente pelo braço,
os dedos fortes machucando-a através do vestido leve que usava, o olhar perigoso
e a boca se contraindo nos cantos, num rito selvagem antes de beijá-la.
Queria causar dor mesmo e estava conseguindo. Ela gemeu baixinho e ele a
esmagou contra seu corpo com violência. Ela chegou a pensar que seria quebrada
em dois pedaços, mas ele a largou tão bruscamente que ela caiu contra a mesa,
machucando a coxa. O que não era nada, comparado ao latejar dos lábios
inchados, da boca ferida.
— Agora que já me livrei disso — murmurou ele entre dentes, — talvez não
se importe de me explicar por que não me disse que Judith Grant é sua irmã?

CAPÍTULO IV

— Eu... eu... — Natalie gaguejou.


— E então? — rosnou ele.
Os olhos dela fuzilaram, ao sentir a irritação e a impaciência dele.
— Se você me der uma chance...
— Chance de quê? — perguntou ele, curvando-se sobre ela, perigoso. O
terno marrom-escuro e a camisa creme que usava enfatizavam a pele morena. —
Chance de pensar numa boa desculpa que explique a escolha de sua irmã como
garota símbolo? Chance de imaginar um bom motivo por ter ficado calada,
mesmo sabendo que aquela vagabundinha sem coração podia arruinar a vida da
minha irmã?
— Não! — exclamou, lívida.
— Não? — rosnou ele, outra vez, incrédulo.
— De uma vez por todas, não! — Olhou-o furiosa. — Sabe tanto quanto eu
como Judith foi escolhida. — Umedeceu os lábios, nervosa. — Na verdade, não
vai ser fácil explicar porque não lhe contei que Judith é minha irmã.
— Tenho certeza que não!
— Mas essa história de você ir entrando sem avisar e ir me atacando —
disse ela, agitada. — Não ajuda em nada a situação.
— Era bater ou beijar, e preferi a segunda alternativa.
— Não havia razão para nenhuma das duas...
— Não? — zombou ele. — Acabo de ter um encontro nada agradável com a
sua irmã.
— Judith? — Natalie engoliu em seco.
— Sim, senhora. E espero, por Deus, que não tenha um gênio parecido com
o dela. Por enquanto, não vejo semelhança e espero que não haja mesmo.
A antipatia pela irmã brilhava no fundo dos orgulhosos olhos azuis, e as
linhas duras do rosto pareciam talhadas em granito.
— Eu... o que foi que ela disse? — perguntou, hesitante.
— Você não tem nada a ver com esses detalhes. Sua irmã ainda tem seis
meses de contrato conosco. Quando acabar, ela sai de nossa companhia.
Era melhor do que esperava. Tinha pensado que Judith ia ser mandada
embora imediatamente, aliás, fora essa a ameaça de Adam Thornton. Por que
havia mudado de idéia?
— E... e a garota fantasia? — Olhou para ele, como se uma guilhotina
ameaçasse lhe cair no pescoço.
E caiu. Adam Thornton olhou-a do alto de toda a sua arrogância.
— Resolvi procurar a garota fantasia em outro lugar — afirmou friamente.
— Em uma agência mais respeitável e digna de confiança.
— Mas...
— Acho que fui bem claro, não, srta. Faulkner? — perguntou, irritado.
Ela odiava aquele jeito pretensioso que ele tinha, de levantar as
sobrancelhas, e ficou vermelha.
— Muito claro — murmurou.
— Ainda bem — disse ele, satisfeito, ajeitando os punhos da camisa. —
Passe bem, srta. Faulkner.
— Adeus — ecoou ela, desanimada e sozinha.
Adeus também para as suas esperanças e sonhos anteriores! Agora, Adam
Thornton estava mais do que zangado, estava furioso! E não tinha como se
redimir, nem à sua agência. Teria que esperar e ver se ele ia influenciar outros
clientes seus a desfazerem os contratos que tinham, o que era um direito dele,
sem dúvida nenhuma. O comportamento de Judith não era nada ético, para dizer
o mínimo.
— Más notícias? — Dee entrou, sem que Natalie percebesse. Ela fez uma
careta, sem querer demonstrar a gravidade do que acabava de acontecer. Mas sua
vontade era de chorar.
— Não posso dizer que sejam boas.
— Achei que ele ia bater em você, quando se meteu sala adentro!
Natalie ficou vermelha feito pimentão, ao se lembrar do castigo que
substituíra a surra. Sentia os lábios inchados. Pôs a mão na boca, acanhada.
Devia estar completamente sem batom.
— Ele não seria tão grosseiro, Dee — disse, desajeitada, apesar de saber
que por pouco não havia apanhado.
— Pois me parece muito pouco civilizado — murmurou Dee, sonhadora. —
Do tipo indomável. Daria um maravilhoso homem das cavernas!
— Não, é inteligente demais — replicou Natalie, surpresa por a outra ter
notado o lado selvagem de Adam Thornton, e corando por sentir que Dee a olhava
de um jeito especulativo. — Mas se fosse um troglodita, seria o chefe da turma.
— Sem dúvida — concordou a amiga. — Dá direitinho para imaginá-lo
dando uma cacetada na cabeça de uma mulher e arrastando-a pelos cabelos até
uma caverna! Só de pensar, fico arrepiada! — Natalie levantou as sobrancelhas,
maliciosa.
— Por falar em arrepio, como está Tom, hoje?
— Ótimo. Voltou ao trabalho, graças a Deus! — Ela riu. — Não se preocupe,
pensar não tira pedaço. Sou muito apaixonada por Tom. Ê uma pena que você
tenha começado com o pé esquerdo. — Fez uma careta engraçada.
— É... — murmurou Natalie. — Não... — corrigiu, quando viu que tinha
admitido a verdade. Mas não pôde deixar de pensar no efeito que ela e Adam
provocavam um sobre o outro em circunstâncias diferentes. — Não é meu tipo,
absolutamente, Dee — disse ela, evitando o olhar curioso da outra, caminhando
em direção à sua cadeira.
— Por quê?
— Muito mandão. — Dee sorriu mais ainda.
— Duvido que precise ser autoritário com as mulheres!
Natalie também duvidava. Dee não costumava se impressionar com
homens, tendo até mesmo uma atitude levemente cínica em relação a eles, o que,
em geral, divertia Natalie. As duas haviam concordado que Jason Dillman não
passava de um paquerador barato, e agora as duas concordavam de novo que
Adam Thornton era o oposto, um poço profundo, que poucas pessoas conseguiam
conhecer.
Mas não queria mais pensar em Adam Thornton, tinha coisas mais
importantes a fazer.
— Telefone para o apartamento de Judith outra vez — pediu, decidida. — E
se ela não estiver, continue tentando até encontrá-la.
— Certo, Eu...
Nesse instante uma pessoa bateu na porta do escritório e uma Judith
vermelha e zangada entrou.
— Besta convencida! — berrou, furiosa, jogando-se numa poltrona, sem
olhar para elas, rebelde.
Dee deu de ombros e olhou de esguelha para Natalie.
— Até mais tarde. Bom dia, Judith — brincou.
— Bom dia — murmurou ela. Dee achou-a mais bonita do que nunca, com
aquela expressão de raiva.
— E quem é a besta convencida? — perguntou Natalie, sabendo muito bem
a quem ela se referia.
— Adam Thornton — confirmou a irmã, os olhos azuis faiscando, a boca
contraída num ricto de ódio.
— Por quê? — perguntou com calma, querendo tirar mais de Judith, o que
não havia conseguido de Adam Thornton.
— Ele teve a ousadia de sugerir que eu desistisse de Jason!
— É?
— E até me ameaçou quando me neguei! — Judith parecia surpresa.
Natalie não se intrigou com a surpresa da irmã. Judith tinha sido mimada
desde pequena. Todo mundo fazia suas menores vontades, e Natalie sentia que a
culpa não era toda de seus pais. Todos gostavam dela demais, e a mimavam sem
intenção de lhe fazer mal. Por isso, Judith não conseguia entender como alguém
podia lhe negar alguma coisa, mesmo que fosse o marido de outra mulher.
— E qual foi a ameaça, Judith?
— Disse que ia me tirar o contrato de garota símbolo — revelou, indignada.
Natalie se empertigou. Sabia que Adam não tinha cumprido a ameaça. Mas
por que não?
— Mas eu respondi na hora — acrescentou Judith, satisfeita. — Ele está
tão decidido a proteger a irmãzinha, que quando ameacei ir até ela e contar tudo
sobre Jason e eu, ele recuou, morto de medo.
Deus do céu, como sua irmã era burra! Homens como Adam Thornton não
recuavam, só ganhavam tempo. Quando ele resolvesse, talvez no fim do contrato,
daria o troco. Com certeza, nunca mais na vida ela ia conseguir emprego como
modelo.
Suspirou, desesperada.
— Só até o contrato acabar.
— Aí, então, não terá mais importância. Jason já terá largado a mulher.
— Para fazer o quê?
— Casar-se comigo, é claro!
— E o emprego dele?
— Ele sempre quis ter sua própria companhia de propaganda nos Estados
Unidos, onde Adam Thornton não poderá prejudicá-lo.
Natalie conteve a raiva com dificuldade. Sabia que não havia lugar onde
alguém pudesse se esconder de Adam Thornton.
— Pretende levar você com ele?
— É claro!
— E o que acha que papai e mamãe vão pensar disso?
Judith ficou embaraçada por alguns instantes, mas logo a confiança voltou
e ela deu de ombros.
— Vão adorar Jason, tenho certeza.
— Pode ser — os pais gostariam de qualquer pessoa que Judith
apresentasse como sendo seu amigo, — mas não vão gostar do fato de ele ser
casado.
— Mas ele vai se divorciar...
— O que leva anos! — A raiva explodiu. — Você é completamente
irresponsável, Judith. Egoísta, mesquinha, maluca!
— Você está é com inveja! Porque Jason gosta de mim e não de você.
— Eu...
— Não vou escutar mais nada. — Judith estava furiosa. — Vou continuar a
me encontrar com Jason, digam e façam o que quiserem!
— Mesmo que magoe todo mundo? — Natalie quase gritou.
— Eu ficaria muito machucada sé tivesse que desistir dele.
As duas se fuzilavam com os olhos, e então Judith girou nos calcanhares e
foi embora, deixando um rastro de perfume atrás de si.
Natalie ficou sentada, perplexa, totalmente convencida de que não conhecia
mais a irmã. Desde Devon, que seus caminhos eram diferentes. Desde que
moravam na casa dos pais, no mesmo quarto, compartilhando segredos de
namoradinhos noite adentro. Não entendia mais a irmã, a quem nem mesmo a
possível mágoa dos pais conseguia tocar.
Como Judith podia ameaçar contar a Tracy Dillman o seu caso com o
marido dela? E como tinha coragem de ameaçar também Adam Thornton? Judith
podia não compreender, mas o castigo havia começado com a ruptura do contrato
da garota fantasia. Quando o contrato de Judith acabasse, Adam Thornton ia
mostrar sua real capacidade de vingança.

Naquele fim de semana, foi a vez de Natalie telefonar para os pais. A


situação não era nada agradável. Com certeza iam perguntar como ia Judith, e
ela, irritada com a irmã, só podia ter dificuldades em responder com
tranqüilidade.
— Sua mãe está tirando uma soneca — contou o pai. — Está meio
cansada, agora que a alta estação acabou.
Seus pais tomavam conta de um pequeno hotel à beira-mar, na mesma
cidade em que viviam há trinta anos, apesar de a mãe ter problemas de pressão
alta já há dez anos.
Natalie ficou preocupada. Sabia que a mãe raramente admitia a fraqueza e
cansaço. Tinha que tomar ainda mais cuidado, para não deixar transparecer aos
velhos os problemas com Judith. O pai já tinha bastante com que se preocupar.
— Judith não telefonou semana passada — disse o pai, meio tristonho.
— É que anda muito ocupada com a campanha da garota símbolo —
respondeu vagamente, zangada por Judith não ter telefonado na sua vez. Sabia
que os pais se preocupavam com elas.
— Vimos as fotos nos jornais e assistimos uma entrevista dela na televisão
— contou o pai, orgulhoso.
— Pois é — foi a resposta sem graça de Natalie.
— É tão bom saber que vocês estão bem — acrescentou ele, alegre.
Bem! Judith namorando um homem casado e arruinando a agência de
Natalie. Estavam bem! Meu Deus!
— Natalie? — O pai se preocupou com o silêncio dela.
— Não se preocupe, papai. Estamos ótimas.
— Que bom! Mas não fale nada sobre o cansaço de sua mãe para Judith,
para não preocupá-la.
A atitude da irmã andava tão egoísta nos últimos tempos, que Natalie
duvidava que ela fosse se incomodar com a mãe. Sabe-se lá, talvez estivesse
sendo injusta, Judith era muito apegada à mãe. Ela, Natalie, era mais grudada
no pai, Como gostaria de discutir seus problemas com ele, agora!
Mas não podia e não devia mencionar a confusão que Judith andava
aprontando. Com vinte e dois anos, ela já era bastante adulta para controlar e
decidir sua própria vida. Se pelo menos não tivesse escolhido um homem
casado!... Isso só ia causar problemas!

Lester telefonou no fim de semana, convidando-a para ir ao teatro. Ela


estava, tão desesperada que aceitou com prazer. Depois se arrependeu, pois era
uma dessas peças que detestava, com um punhado de atores debatendo crises
existenciais.
Havia concordado em sair com ele, para afastar da cabeça seus problemas,
mas, no fim do primeiro ato, já não agüentava mais a peça e começou a devanear.
Apesar de o pai ter pedido para ela não falar sobre o cansaço da mãe, ela chegou
a falar rapidamente sobre o fato com a irmã, que simplesmente respondeu que
precisava aparecer em casa “um dia desses” para ver a família. Como já fazia
mais de um mês que não aparecia lá, Natalie se perguntou quando chegaria “um
dia desses”.
— Natalie!
Lester estava em pé, junto dela.
— Hein? — Ela estava tão longe que se assustou.
— Perguntei se quer tomar um drinque no intervalo — repetiu, impaciente.
— Por favor, quero, sim. — Seguiu-o até o bar, feliz por ter uma razão para
parar de pensar.
— Eu pego nossos drinques — disse Lester, ao chegarem ao saguão
apinhado de gente. Perto do bar estava intransitável. — Você me espera aqui.
Ainda bem. Não tinha a menor vontade de ficar espremida no meio daquela
multidão. Mas ficar sozinha, fazia com que recomeçasse a pensar. Tinha sido uma
semana terrível, e ainda faltava a sexta-feira! Como havia suspeitado, Adam
Thornton não se contentara em desistir da garota fantasia. Diversos clientes
tinham rescindido seus contratos. Eram clientes que a tinham procurado depois
da campanha da garota símbolo. Outros clientes, também muito importantes,
simplesmente não estavam quando ela telefonava. Não tinha a menor dúvida de
que Adam Thornton andava por trás disso, e cada vez mais conhecia o poder
desse homem no mundo dos negócios.
Começou a ficar aflita, ali, sozinha, no meio do povo. Tinha a sensação de
estar sendo observada. Olhou em torno, devagar, e quase desmaiou quando viu
Adam Thornton bem perto, com uma ruiva, que parecia uma boneca,
dependurada em seu braço. Ele observava Natalie intensamente. Nervosa, ela
ficou preocupada com sua aparência, apesar de não haver motivos para isso. O
vestido cinza e preto que usava caía-lhe como uma luva, e a bolsa e os sapatos
cinzentos eram um complemento mais que adequado, dando-lhe uma elegância
sóbria e atraente. Sua única jóia, uma pulseira de ouro branco, não se compa-
rava ao colar de esmeraldas e diamantes que a outra moça usava.
Adam Thornton virou-se e disse alguma coisa à companheira, vindo depois
em sua direção, com um copo de uísque na mão. Claro, ele já tinha sua bebida,
nada de filas no bar, para ele!
— Srta. Faulkner... — Estava em pé, na sua frente.
— Sr. Thornton... — Enfrentou-o, sem pestanejar.
— Está gostando da peça? — perguntou amigavelmente, como se não a
tivesse ameaçado da última vez em que se encontraram.
— Estou, muito... Quer dizer... Não, não estou gostando.
— Horrorosa, não é? — Concordou ele, surpreendendo-a.
— É, mas se não está gostando...
— Minha amiga é amante das artes! — Deu um suspiro profundo. — Uma
mecenas. Ajudou a produzir a peça.
Natalie olhou a moça miúda e linda, vestida de seda verde, muito fina.
— É a princesa? — adivinhou, lembrando-se do que Judith lhe dissera
sobre a última namorada dele.
— Quem contou? Sua irmã, aposto — caçoou. — É, Maria é uma princesa
italiana.
Ela abriu os olhos.
— Não sabia que ainda existiam.
— Pois existem — disse ele, divertindo-se. — Mas ela quase não usa o seu
título.
— Deve ser útil para reservar hotéis e restaurantes. — Natalie sorriu.
— Sem dúvida — concordou ele, sorrindo também. — Há dias que quero
lhe telefonar, srta. Faulkner.
Ela enrijeceu o corpo imediatamente, apreensiva.
— Ah, é? — Lester abanou a mão para ela, lá do bar, onde esperava os
drinques. Ela respondeu com um sorriso. Lester franziu a testa ao ver Adam
Thornton ao seu lado, mas o barman chamou sua atenção e ele foi obrigado a se
virar.
— Lester? — perguntou Adam Thornton suavemente, seguindo o seu olhar.
— É... — confirmou Natalie. — O que queria me dizer, sr. Thornton?
Ele deu de ombros, lindo no terno escuro e formal, que lhe dava um ar de
distinção.
— Não me parece um lugar apropriado para se conversar de negócios —
caçoou, mostrando as pessoas que falavam alto e se espremiam, barulhentas, à
volta deles. — Não pode ligar para mim amanhã de manhã?
Ela engoliu em seco.
— Se preferir assim...
— Prefiro. Agora, dê-me licença, por favor. — Caminhou em direção à prin-
cesa Maria, que já estava fazendo um beicinho, que desapareceu assim que ele
pousou os lábios rapidamente sobre os dela.
Natalie virou-se, desapontada por estar presenciando um ato tão íntimo.
Felizmente Lester voltou, e quando ela tomou o primeiro gole, Adam Thornton e a
princesa já haviam sumido.
— Quem era aquele homem? — perguntou Lester.
— Adam Thornton. — Ela não mentiu. Estava preocupada com o telefone-
ma que teria que fazer no dia seguinte pela manhã. O que será que Adam
Thornton queria? Será que Judith havia aprontado mais alguma? Mas ele não
parecia nem zangado nem chateado, parecia bem contente. Contente demais!
Dava até para preocupar.
— Ele falou alguma coisa sobre o novo contrato? — perguntou Lester
distraído, querendo acabar a bebida, antes de entrarem para o segundo ato.
— Não. — Para seu alívio, a campainha anunciando o fim do intervalo
tocou.
Não resistiu. Assim que se sentaram, começou a procurar Adam Thornton
pela platéia. Não demorou muito para achá-lo: ele e a princesa estavam sentados
no camarote principal. Os olhos de aço interceptaram os seus, zombeteiros, e ela
virou o rosto. Diabos! O que ele queria com ela, afinal de contas?

Fez essa pergunta muitas vezes durante a noite, pois não dormiu, e chegou
no escritório um pouco depois das oito. Ocupou-se com seu trabalho até o relógio
chegar nas nove... nove e quinze... nove e meia... Será que já dava para telefonar
sem parecer muito aflita? Achava que sim.
Dee tentou a ligação.
— Ele não está no momento, Natalie — disse ela. — Devo continuar
tentando?
Natalie mordeu o lábio inferior, nervosa.
— É, daqui a pouco ligue de novo. — Esperou por uma hora, impaciente, e
chamou Dee: — Você...
— Já telefonei mais duas vezes, Natalie — confirmou a outra. — Não está
mesmo.
Para o diabo com ele! Estava fazendo aquilo de propósito, como havia feito
com ele. Gostava de se vingar até o fim. — Ligue mais uma vez, Dee — decidiu-se.
— E se ele não aparecer, diga à secretária que estarei lá às onze e meia.
— Mas...
— Diga só isso, Dee.
Alguns minutos depois Dee entrou no seu escritório.
— Ele ainda não chegou. Dei seu recado.
— E daí? — Apertou com força a caneta que segurava.
— A secretária disse que ele tinha outra hora marcada...
— Não me importo que ele tenha cinqüenta horas marcadas. — Os olhos
azul-esverdeados faiscavam. — Chame de volta, Dee, e...
— Mas ele pode vê-la ao meio-dia e quinze — atalhou a moça.
— Ah! — Ficou vermelha.
— Tudo bem? — perguntou Dee suavemente.
— Tudo ótimo.
— Foi o que eu disse a ela. Posso fazer alguma coisa, Natalie? — Via-se que
estava preocupada.
— Absolutamente nada. — Natalie sacudiu a cabeça. — Esse é um assunto
que Adam Thornton e eu temos que resolver sozinhos.
— Boa sorte!
Bem que ia precisar. Mas parecia a calma em pessoa, frente à sofisticada
secretária de Adam Thornton, quando chegou ao escritório dele, ao meio-dia e
quinze. Não ia ficar esperando, desta vez.
Estava calma o bastante para observar até o nome da moça, na agenda
sobre a mesa: Cara Shaw. Viu também o pôster mais recente da campanha, de
Judith como garota símbolo. Ah, como Thornton devia estar arrependido e com
ódio!
— O sr. Thornton vai vê-la já — anunciou Cara Shaw, com sua voz rouca.
Ela não demonstrava seu nervosismo ao entrar no escritório, e enfrentou o
olhar que passeou pelo rosto pálido, os seios rijos, a cintura fina e as coxas
esguias, fazendo-a sentir-se nua, apesar do terninho cor de ferrugem, que lhe
dava uma aparência de executiva eficiente.
— Entre e sente-se, Natalie — convidou ele gentilmente, inclinando-se para
acender um charuto com um isqueiro dourado, que estava no bolso do colete
cinzento, que combinava com o terno.
Ah, então hoje era Natalie, percebeu ela, sentindo-se um pouco como uma
mosca recebendo convite de uma aranha. Mas entrou e se sentou na poltrona em
frente a dele.
— E então? — perguntou Thornton, depois de alguns segundos. Ela piscou,
tonta.
— Então, o quê?
— Você disse que queria me ver, ou melhor, sua secretária disse... — Ele
riu.
— Eu... não. Eu... — Bom, já estava começando em desvantagem, ora essa!
— Você é que quer falar comigo — respondeu, decidida.
Ele sacudiu a cabeça devagar.
— Pedi que me telefonasse.
— E telefonei — disse impaciente. — Um montão de vezes e você não
estava.
— Mesmo?
Ela fuzilou-o com os olhos, sabendo que a estava fazendo de boba, apesar
da expressão inocente. Inocente demais. “Tenha paciência”, remoeu, sentindo-se
mais ainda como a mosca caindo na teia.
— Tive uma reunião de diretoria hoje — explicou.
— Ah, sei. Então por que a secretária não me disse? — Adam levantou as
sobrancelhas grossas.
— Nunca digo o que estou fazendo pelo telefone. E não ia abrir uma
exceção para você.
O insulto vinha nas entrelinhas, e Natalie corou, sem jeito.
— Tenho certeza de que não. Agora, pode me dizer o que queria falar
comigo?
— Se insiste... É sobre minha irmã.
— Já lhe disse que não posso fazer nada, sr. Thornton — disse ela,
impaciente.
— Eu disse minha irmã, Natalie. — A voz dele estava perigosamente mansa.
Ela corou mais uma vez, e cruzou as mãos, olhando-o, ressentida. Adam
Thornton recostou-se na cadeira, envolto pela fumaça.
— Gostou da peça de ontem?
— Sabe que não — explodiu, impaciente. Tinha certeza de que ele a tinha
visto junto com Lester e muita gente mais, saindo antes do fim. — Sua irmã...
— Maria tem um gosto terrível para peças — comentou ele, ignorando a
menção à irmã. — Felizmente, nem todas as suas preferências são absurdas.
Natalie suspirou, impaciente, entendendo a piada.
— Sua irmã, sr. Thornton — lembrou ela, querendo parar com aquele jogo
de gato e rato.
— Sim? — Olhou-a no fundo dos olhos. — Minha irmã. Acho que tem tido
algumas dificuldades com sua agência nos últimos tempos, não é? — Levantou as
sobrancelhas.
— Tenho...
— Sabe o motivo das dificuldades? — continuou ele, naquela voz tão
educada que dava vontade de esganá-lo.
— Sei — respondeu, muito tensa.
— Pois acho que descobri um jeito de afastar essas dificuldades. — Ela
engoliu em seco, desconfiada.
— Como?
Adam sorriu, o sorriso olímpico dos vencedores. Esse homem ganhava
sempre! — Quero a sua ajuda.
— Minha ajuda? — repetiu, sem acreditar. Esse homem dava a impressão
de nunca precisar de ajuda. A não ser que...
— Não — caçoou ele. — Não preciso usar de tantos artifícios para ir para a
cama com uma mulher.
— Sei que não — respondeu confusa. Onde andaria a segurança que tinha
antes de encontrar Adam Thornton? Tinha certeza de que poderia controlá-lo com
seu sorriso e com seus olhos azul-esverdeados! Nunca sabia a quantas andava
quando estava perto dele! — Então o que posso fazer para ajudá-lo? —
perguntou, friamente.
— Quer dizer que tem objeções em ir para a cama comigo? — zombou ele.
— Sr. Thornton! — Ficou tão indignada que quase perdeu o fôlego.
— Muito bem. — Sentou-se mais para a frente, já sem sorrir. — Quero que
ajude Tracy.
Natalie não pôde esconder sua confusão.
— E como eu poderia ajudar sua irmã?
— Vai ser fácil — levantou-se, — se você realmente estiver preocupada com
o caso de Jason e sua irmã.
— Claro que estou.
Adam olhou-a por segundos intermináveis, varando sua alma.
— Acredito em você — disse com muito peso, afinal.
— Muito obrigada!
Os olhos azuis gelaram, a boca se contraiu.
— Acho tudo isso desagradável demais para ter que agüentar ainda seu
maldito sarcasmo! — atalhou, prestes a explodir de raiva, e envolver Natalie nas
suas chamas.
— Sinto muito...
— Duvido. Mas vai sentir, se minha irmã não gostar de você. Quero que se
torne amiga dela, Natalie. Quero que mostre a ela que há mais coisas na vida do
que Jason Dillman.
— Mas...
— Tracy se casou com Jason aos dezoito anos, e contra a minha vontade,
devo esclarecer. — Olhou pela janela, sem ver nada, voltado para dentro de si. —
Mas ela já era maior e não pude fazer nada para impedir. Depois que não havia
mais jeito, tentei ajudá-los. Dei emprego para Jason na Thornton por causa de
Tracy. Devo confessar que é um bom funcionário, pois nem por Tracy eu colocaria
um débil mental no departamento de publicidade.
— Claro que não.
Ele apertou os olhos ao sentir o sarcasmo de sua voz, mas não a
repreendeu.
— Estavam casados há poucos meses quando descobri que Jason estava
tendo um caso com a moça que trabalhava com ele. Consegui acabar com tudo
antes que Tracy descobrisse. Na vez seguinte, não tive tanta sorte. Tracy ficou
histérica quando descobriu o que estava acontecendo. Eu queria que ela o
deixasse, que voltasse para casa, mas a bobinha... — Respirou fundo para se
controlar. — Ela o perdoou, quando ele jurou que não aconteceria outra vez. E
para Tracy, nunca mais houve nada.
Natalie sentiu uma pena profunda da irmã dele, pelo amor que sentia pelo
infiel Jason.
— E na realidade? — Adam apertou as mãos.
— Ele volta e meia está de caso novo, o que eu escondo dela.
— Como posso ajudar?
— Quer ajudar? — Olhou-a, procurando descobrir se estava sendo sincera.
— Quero.
— Tracy é muito bonita — disse, naturalmente. — Uma beleza doce. É
inteligente. Mas, casada desde os dezoito anos, é muito inexperiente. Jason a
limita muito, e quer que ela continue assim. Eu, não. Acho que se ela for forçada
a enfrentar o mundo vai ver Jason como ele é ou, pelo menos, vai adquirir uma
certa sofisticação para prendê-lo.
Natalie franziu a testa.
— E por que não lhe diz isso?
— E perder seu amor? — disse ele, com a voz magoada. — Tracy é a única
pessoa que amo na vida.
— Como eu amo minha irmã.
— Sei disso. Tenho certeza. Mas ela vai acabar ferindo você.
— Eu sei — murmurou.
— Jason se aproveita desse amor para me fazer ficar em silêncio. Sabe que
não quero fazer nada que deixe Tracy magoada. — Sacudiu a cabeça. — Mas isso
não pode continuar.
— O que vai fazer?
— Eu? Nada.
Os olhos de Natalie se arregalaram.
— Você não espera que eu...
— Não. Só quero que fique amiga dela. Você tem uma carreira de sucesso e
independência. Quero que Tracy perceba que também pode ter tudo isso, como
mulher de Jason ou não — terminou ele.
Não era demais comentar, sobretudo sabendo do papel de sua irmã no
caso...
— Judith acha que Jason vai deixar sua irmã — contou, de mansinho.
Ele curvou a boca, com desprezo.
— Então é tão boba quanto Tracy. Se esse casamento se acabar, vai ser por
iniciativa de Tracy. Jason está se sentindo muito bem nessa situação e não quer
saber de discutir o assunto.
Era o que Natalie pensava. Tentara convencer Judith, mas a teimosa da
irmã ia acabar descobrindo por si mesma, e com mais sofrimento.
— Vai fazer isso para mim? — Adam observava-a de perto. — É só ser
amiga dela e mostrar o que está perdendo.
— Tem certeza de que sou a pessoa indicada para isso? Afinal de contas,
Judith é minha irmã.
— Mas, como já disse, são o oposto uma da outra. Já me informei sobre a
sua agência e sobre você, Natalie. Tem boa reputação como mulher e como
empresária. Aliás, é exatamente o tipo de pessoa com quem a C.T. gosta de
trabalhar. Acho que lhe falei sobre a garota fantasia, não?
— Está tentando fazer chantagem comigo, sr. Thornton?
— Não. Só estou incentivando. Os negócios hoje em dia são cheios de
incentivos — brincou. — De repente, todo aquele pessoal que sumiu da agência
pode reaparecer.
Ela ficou vermelha de raiva e levantou-se furiosa.
— É melhor pedir à sua amiga princesa para ajudar. Acho que não vou
poder fazer nada.
— Quero uma mulher de sucesso. Maria só se interessa pelo teatro e é um
grande fracasso, como você viu. Além do mais, Tracy não gosta dela. É você ou
ninguém, Natalie.
— E se eu recusar? — Ele deu de ombros.
— Acho que já sabe a resposta.
Natalie tremia de raiva, tinha vontade de avançar nele. Só que ele era do
tipo que revidava, portanto, não queria se arriscar.
— Então não tenho escolha?
— Nenhuma.
— E se o plano falhar?
— Nunca penso em fracasso — respondeu, orgulhoso. — Deve fazer o
mesmo.
— Muito bem — ela murmurou, capitulando, sabendo que não tinha saída
desde o começo. — Vou tentar.
Ele não demonstrou absolutamente nada, só inclinou a cabeça, como se a
resposta dela não pudesse ser outra.
— Vou dar um jeito para que vocês duas se encontrem — disse, assumindo
de novo o executivo no comando da estratégia. — Vai gostar de Tracy —
acrescentou confiante.
Era melhor que gostasse, pensou ela.

CAPÍTULO V

Natalie passou a semana seguinte num estado de tensão permanente,


esperando ter notícias de Adam Thornton e do encontro com a irmã dele a
qualquer minuto.
Ele não telefonou, mas falou a verdade sobre os outros clientes, que
telefonaram para ela pessoalmente, marcando reuniões, as quais a mantiveram
bastante ocupada.
Mas não tanto que não pensasse em Adam Thornton. Tinha se
comprometido não só a vê-lo muito mais, como a se envolver com sua família
também. E Judith continuava intransigente!
Durante a semana, apareceu no apartamento de Natalie.
— Jason foi jantar com Tracy na casa da tia — explicou, justificando a
noite livre, — então, achei que seria bom vir visitá-la.
— Obrigada!
— Você não vai sair, vai? — Judith se acomodou numa das poltronas, de
jeans e camiseta justíssimos.
— Não — respondeu Natalie secamente. Tinha acabado de jantar e
pretendia passar o tempo lendo um livro. Judith queria conversar, de modo que a
leitura ficou para outra ocasião.
— Nada de Lester? — zombou a irmã.
— Não. E também não gosto que você me visite só porque não tem nada
melhor a fazer. — Há anos, os pitos de Natalie não tinham mais efeito sobre
Judith.
— Telefonei para mamãe ontem.
— Ah, é?
— Ela parece cansada mesmo, como você disse. — Franziu a testa. — Disse
a eles que vou passar o fim de semana lá.
— Aposto que eles adoraram a idéia. — Natalie não sentia rancor. Aceitava,
depois de todos esses anos, que a irmã, como caçula da família, tivesse um lugar
especial no coração dos pais.
— Hum... — Judith fez uma careta. — Vou morrer de tédio. Mas assim fico
livre por alguns meses. Jason vai estar ocupado no fim de semana, também.
Natalie suspirou, impaciente com o egoísmo da irmã.
— Você não se aborrece nunca por ter que dividi-lo com outra, Judith?
Ela se surpreendeu com a pergunta.
— Eu não o divido. Ele é meu. É só uma questão de tempo.
— É o que estou dizendo. — Natalie se levantou, impaciente, muito esguia
na sua calça preta e blusa vermelha. — Se ele tem boas intenções, Judith, por
que não larga a mulher?
— Já disse, ele...
— ...vai largá-la — continuou Natalie. — E por que a demora, Judith? Por
que não a deixa já?
A irmã deu de ombros.
— Porque a hora certa ainda não chegou.
— Para quem?
Judith se mexeu na cadeira, embaraçada.
— Se você vai ficar me amolando...
— Estou tentando agir como uma irmã — interrompeu Natalie, calma. —
Mostrar o erro que está fazendo. Tenho certeza de que se Jason quisesse se casar
com você, já o teria feito, sem se importar com o que ia perder.
— O amor compensa tudo e... aquelas besteiras todas que as pessoas
dizem, não é? — caçoou Judith.
Natalie corou com a ironia da irmã, sentindo-se como a mais moça das
duas. Judith tinha muito mais experiência do que ela.
— É, é mais ou menos isso — murmurou.
— A vida não é assim, Natalie — brincou Judith. — Jason tem que esperar
a hora certa, até que esteja tudo arranjado para irmos para os Estados Unidos,
sem a menor confusão. Além disso, eu também tenho essa droga de contrato de
garota símbolo que me prende.
— Não era o que você achava no começo.
— Não — a irmã deu de ombros, — mas é que eu não estava tão segura
sobre Jason.
— E agora está?
— Estou. — Judith suspirou, cada vez mais impaciente. — Por Deus, pare
de implicar, Natalie. Não vai mudar nada, apesar de tudo o que me diga.
Não ia mesmo, já havia percebido. Judith tinha que ir nesse caso até o fim,
como fizera com Kenny Richards, mesmo que se magoasse mais do que antes.
— Só lhe peço é que não conte nada ainda a papai e mamãe, Judith. Eles
não entenderiam.
— Mas vão ficar sabendo, a qualquer hora.
— Não, já — pediu com firmeza. — Por favor, Judith.
A irmã fez uma cara contrariada e depois cedeu.
— Está bem — concordou, fazendo beicinho. — Aliás, estou mais é com
vontade de ser mimada nesse fim de semana.
Os pais não compreenderiam, como a própria Natalie não compreendia!
Podia ter passado momentos de prazer nos braços de Adam Thornton, mas não
tinha a menor idéia de como Judith podia gostar tanto de um homem, a ponto de
querer destruir sua vida por ele. Principalmente em se tratando de Jason
Dillman.

A visita de Judith tinha sido há dois dias. Já era quinta-feira e ela não
recebera nenhum recado de Adam Thornton. Pensou em telefonar para ele, mas
considerou que, nas circunstâncias, nenhuma notícia era sinal de boas notícias.
Morria de medo de Tracy Dillman não gostar dela, como não gostava da
princesa. Se isso acontecesse, ela ia cair no buraco mais fundo do mundo.
Quando a campainha tocou, à noite, interrompendo a leitura do livro,
pensou que talvez fosse Judith. Não tinha vontade de ver nem Judith nem Lester,
e só podia ser um dos dois.
Estatelou os olhos, surpresa, quando abriu a porta para Adam Thornton.
Um Adam que quase não dava para reconhecer, de calça preta de brim muito
justa nas coxas e pernas, uma camisa também preta, e as mãos enfiadas nos
bolsos de um casaco militar.
Ele riu ao ver sua surpresa.
— Posso entrar?
— Claro — respondeu Natalie, consciente de que ele a observava, enquanto
o conduzia até à sala de visitas. Olhou em volta, ansiosa, e ficou aliviada ao ver
que estava tudo em ordem como sempre, a casa limpa e acolhedora. Não tinha
que se envergonhar de sua casa, apesar de ter certeza de que esse homem se
cercava de muito luxo, completamente fora de seu padrão simples e modesto.
Mas bem que podia estar com uma roupinha melhor. A calça velha e
desbotada, muito justa, uma camisa de flanela xadrez de homem, desabotoada no
peito, onde faltava um botão. Mas como não esperava ninguém, estava à vontade,
o rosto lavado, sem um pingo de maquilagem.
Pelo jeito, Adam Thornton não notou nada de errado em sua aparência.
Olhou-a dos pés descalços à cabeça, até com certo ar de aprovação. Natalie é que
se sentiu envergonhada, como se fosse uma menina de doze anos.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, preocupada.
— Não, que eu saiba — disse ele com naturalidade. — Posso sentar?
— Ora, é claro. Desculpe-me. — Umedeceu os lábios. — Estou sendo a pior
anfitriã do mundo — afligiu-se. — Sente-se, sente. Quer um drinque?
— Uísque? — Adam reclinou-se na poltrona, esticou as pernas compridas,
perfeitamente à vontade, apesar de não perder nunca a aura de poder que o
rodeava sempre.
— Está bem. Com gelo, água?
— Não. Puro.
Claro! Ela só bebia uísque misturado com água e limão, mas esse homem
tinha que beber puro, e nem faria careta quando o líquido de fogo passasse por
sua garganta.
Na cozinha, preparando um uísque para ele e um martini para si, Natalie
se sentia num caos. Bem que precisava de um drinque. Por que Adam Thornton
tinha ido lá? O que ia lhe dizer?
Continuava sentado quando ela voltou e, ao pegar a bebida, roçou os dedos
nos dela, levantando as sobrancelhas ao perceber o rápido recuo de Natalie.
Ficou sentada sobre as pernas cruzadas, na frente dele, os pés descalços
escondidos. Fez-se um silêncio estranho e elétrico. Aquele homem sentado na
intimidade do seu apartamento, e ela sabendo que fora o único a quebrar a
barreira de sua frigidez, o único a acender uma fogueira dentro dela. Tinha pavor
daquele fogo, medo de ser tocada de novo e explodir em chamas. Não era uma
emoção agradável, quando o- outro era seu inimigo...
— Fica nervosa perto de mim, Natalie? — perguntou ele, interrompendo
seus pensamentos confusos.
Ela piscou rapidamente.
— Por que acha isso? — Deu de ombros.
— Tive a impressão de que ficava.
— E acertou — admitiu ela suavemente. — Devo lembrá-lo de que me
ameaçou da última vez em que conversamos?
— Ameacei, não, Natalie. Usei de algumas vantagens para conseguir que
ajudasse minha irmã. Mas sua agência vai se beneficiar também.
— É verdade — concordou.
— Vim aqui para lhe contar as providências que tomei. — Ela ficou com um
pé atrás.
— Sim?
Ele achou graça na desconfiança dela.
— Você está convidada para jantar, sábado, em meu apartamento. —
Natalie se endireitou e abriu muito os olhos.
— Mas eu não posso...
— Jason e Tracy também foram convidados — acrescentou, bebericando o
seu uísque.
— Ah! — Era por isso que Jason ia estar ocupado no fim de semana.
— Desapontada?
— Não, é claro que não. — Para desconsolo seu, corou, coisa que fazia a
toda hora perto desse homem, e coisa que não fazia nunca, longe dele.
Os olhos azuis a examinaram profundamente, o que só fez aumentar a sua
vermelhidão. Adam se levantou devagar, pôs o copo na mesa, andou até ela, e
abriu as pernas, esticando o braço para levantá-la.
— Pois eu — murmurou ele, que era bem mais alto do que ela descalça —
estou muito desapontado.
— Adam...!
— Natalie! — caçoou ele, segurando sua coluna com firmeza e puxando-a
de encontro ao seu corpo. — Você tem idéia de como está bonita?
— Adam! — Ela até engasgou ao ouvir o tom agressivo.
— Bonita demais para a minha paz de espírito! — explodiu ele, inclinando-
se para beijá-la.
As brasas do desejo se tornaram chamas e, com um macio gemido de
capitulação, ela passou os braços por sua nuca, encostando-se nele, ao sentir a
paixão daquela boca. As mãos corriam ternas por seu corpo, acordando o que
tocavam, os dedos explorando o pescoço, o decote ousado, insinuando-se por sob
o tecido para segurar um seio dolorido, acariciando a ponta sensível com extrema
habilidade.
O gemido de prazer dela se perdeu sob a boca que a beijava. Coxas firmes e
duras apertaram as suas, causando dor e prazer ao mesmo tempo.
Adam mexeu com o que sobrava de botões em sua blusa, tirando-a devagar
e capturando os seios com mãos surpreendentemente gentis, tocando as pontas
rijas com carícias que deixaram Natalie de pernas bambas de tanto desejo.
Eram só dois passos até o sofá, e ela sentiu o tecido frio nas suas costas
nuas, quando Adam a recostou nas almofadas, a cabeça inclinada sobre seus
seios, em adoração e reverência.
O pescoço de Natalie se curvou para trás, ao primeiro toque de sua língua
úmida nos bicos duros. Um prazer quente a envolveu toda quando ele chupou a
ponta sensível, um enorme prazer por sentir aqueles lábios, dentes, língua,
provocando-lhe um frenesi de emoções que a faziam estremecer até a ponta dos
dedos.
Ele havia tirado o casaco e a camisa, e ela choveu beijos febris sobre a pele
úmida e salgada, sentindo os músculos fortes e tensos de seu corpo.
Não sentia vergonha, só prazer, quando ele tirou sua calça desbotada e a
calcinha, deixando-a nua sob seu corpo pesado. O latejar daquele corpo quente
que a amassava no sofá, o calor dos lábios contra sua pele úmida faziam correr
arrepios de êxtase por sua espinha.
— Adam! — sussurrou ela, sentindo a paixão aumentar. — Adam! Ah, meu
Deus! — estava inteiramente perdida, à mercê dele, sem vontade própria e sem
querer uma vontade própria. Só buscava saber o que ficava no fim dessa louca
espiral de desejo, e conhecer a sensação plena de êxtase junto a ele.
— Está tudo bem, querida — acalmou ele, beijando sua boca molhada,
apaziguando a tensão que sentia, amainando com ternura sua paixão, até que ela
ficou tremendo em seus braços, olhos intrigados e magoados, fixos nele.
— Ainda não chegou nossa hora, Natalie. — Acariciou-lhe o rosto, tirou o
cabelo da sua testa, beijou-a, aninhando-a no colo, como se fosse um bebê.
Ela respirou com dificuldade, ofegante. Esperou o desejo diminuir, mas o
peito nu sobre seu rosto fazia com que estivesse prestes a se afundar num
turbilhão de prazer irracional e imediato.
— É isso, meu amor! — disse ele, rouco, as mãos trêmulas. — Continue
assim, juntinho de mim. Entende porque eu parei, não é? — O olhar azul tomou
todo o seu rosto inflamado de desejo e frustração.
Ela descansou as mãos no seu peito e foi se acalmando. O mundo, devagar,
voltou ao lugar, aumentando seu embaraço por estar nua. Como pôde ele parar?
Como qualquer homem podia parar, depois de pronto a fazer amor com ela, ali,
nua a seu lado?
— Não me olhe assim, Natalie — gemeu ele. — Não é nada fácil para mim,
também.
— Então, por quê...
— Porque quando eu fizer amor com você quero lhe dar toda a minha
atenção, toda a consideração que uma mulher como você deve ter. Se
começarmos um caso agora, vou me esquecer de todo o resto, inclusive da
confusão que a minha irmã está provocando em sua vida. — Ele balançou a
cabeça. — Aquilo não pode continuar, Natalie. Você entende?
Ela estava tentando entender, tentando reprimir o desapontamento com
muito esforço.
— Eu... eu... — Escondeu o rosto no peito dele. — Não, eu não entendo,
Adam, não entendo! — Bateu os punhos nele, descarregando seu ódio em cada
soco.
— Natalie, não faça isso! Por favor, meu amor... — Segurou-lhe as mãos e
reclamou sua boca com um gemido que a silenciou, tirando seu fôlego de novo.
Quando levantou a cabeça, os dois arfavam pesadamente. — Meu Deus, quando
estou com você, desse jeito, esqueço tudo. Só penso em possuí-la, em conhecer
cada milímetro desse corpo de seda — gemeu ele.
— Você já o conhece — caçoou ela rouca e tonta, os sentidos à deriva.
A boca dele se contraiu num sorriso. O homem bruto que encontrara há
uma semana havia sumido, e ela duvidava que lhe aparecesse de novo.
— Conheço, não é? — concordou, abraçando-a pelos ombros. — Você
espera por mim, Natalie? Até resolvermos esse caso de Judith e Jason? Até nos
livrarmos desse problema?
— Aí começamos um caso só nosso. — Os olhos dela brilharam para ele, as
pernas trançadas nas dele, o brim duro machucando sua pele.
— Concorda?
— Concordo. — Ela não recusaria nada a esse homem. Não entendia como
Adam Thornton podia ser o homem de seus sonhos, o homem que a desinibia
completamente. Mas era, e ela não ia lutar contra a atração que tinham um pelo
outro. Queria viver essa situação, boiar ao sabor do desejo, e até abençoar a dor
que viria no fim. Adam havia dito que seria um caso, deixando patente que não a
amava, assim como ela não o amava. Era só um desejo inexplicável e pronto. Ela
o queria.
— Mulher linda! — Abraçou-a com mais força.
— No momento, sou apenas uma mulher gelada — disse ela calmamente.
— Querida! Eu sabia que você ia entrar na minha vida desde a primeira vez
em que a vi. — Ajudou-a a vestir a camisa xadrez e depois puxou-a para o seu
peito novamente.
— Por quê? — Ela se aninhou mais.
— Você foi uma surpresa completa. Não tinha a menor idéia de que a
Natalie Faulkner que eu ia encontrar se parecia com você — murmurou ele.
— Não?
— Procurando elogios?
— E se estiver?
— Você merece. — Alisou sua coxa num carinho. — Você me desequilibrou
no minuto em que a vi.
— Você me fez a mesma coisa, mas por uma razão diferente.
— E qual foi?
— Se comportou de um jeito arrogante, duro, rude...
— Cale a boca! — Adam gemeu, fingindo dor. — Você não era quem eu
esperava. Quando foi ao meu escritório, eu pretendia ter a maior briga com uma
bruxa de cabeça dura, e me deparei com você, feminina, doce e ótima para ir para
a cama.
— Adam! — Deu outro soco de brincadeira no seu peito.
— Mas você é demais mesmo. Quando acabarmos com essa história de
Jason e Judith, vamos nos concentrar em nós.
Natalie fez uma careta de horror, ficou de joelhos aos seus pés, braços em
volta do seu pescoço, a blusa até às coxas.
— Judith ainda tem seis meses de contrato!
— Não vou esperar tanto tempo. Tracy vai saber a verdade antes disso.
— É o que você pensa... — acrescentou ela, lamurienta.
— Vai saber, sim. — Adam puxou-a para o seu peito. — Nunca esperei seis
meses por mulher nenhuma, e não vou começar por você.
Natalie retribuiu ao beijo, abriu os lábios, dependurada no pescoço dele, e
só pensou nas outras mulheres quando ele se levantou para pôr a camisa. Adam
estava com trinta e tantos anos, e não havia se casado. Com certeza tivera muitas
mulheres, centenas delas.
— Em que está pensando?
Olhou para cima e viu-o de testa franzida. — Nada de importante — disse,
alegre.
— Natalie! — avisou ele.
Era impossível disfarçar suas emoções para aquele homem que destruíra
todas as defesas que ela havia construído com tanta dificuldade.
— Você tem muita experiência em fazer amor? — perguntou. Ele parou o
gesto de enfiar a camisa para dentro da calça.
— Tenho. — Continuou a se vestir. — E você?
— Eu... bem... — Ficou sem saber o que dizer. Como contar que era virgem
aos vinte e cinco anos? Ninguém era virgem nessa idade. — Nem tanto quanto
você — disfarçou de leve. — Quem sabe pode me dar umas aulas? — acrescentou,
irônica, as pernas compridas e bem-torneadas sobre o sofá, olhando-o, marota.
— Você apanhou quando era criança?
Ela sorriu, sabendo que ele não estava mais zangado.
— Não muito.
— Pois devia ter apanhado. — Sentou-se ao lado dela, passou o braço por
seus ombros e puxou-a para si. — Talvez eu possa passar um pito — caçoou,
dando-lhe beijinhos no rosto.
— O que foi que eu fiz? — Natalie perguntou, inocente.
— Você fica aí sentada como uma menininha, se gabando de sua
experiência com outros homens — disse, com uma severidade fingida.
Sua experiência! Adam ia levar um susto quando o caso deles começasse!
— O que está se passando atrás desses olhos misteriosos agora? —
brincou, vendo as emoções que sombreavam seu rosto bonito, a aura de
contentamento dela, depois dos carinhos trocados.
Ela o olhou por debaixo dos cílios.
— Não vou lhe contar todos os meus segredos.
— Pois vou conhecê-los todos, Natalie — ameaçou Adam, manso, dando-lhe
um beliscão no queixo. — No tempo certo. — Beijou-a demoradamente na boca.
— Vem jantar no sábado?
Ela escondeu o desapontamento, por ele não querer vê-la no dia seguinte, e
fez que sim com a cabeça.
— Espero que sua irmã goste de mim — disse, preocupada.
— Vai gostar — afirmou ele, confiante, levantando-se para vestir o casaco.
— Jamieson vem pegar você. Meu motorista — explicou, ao vê-la intrigada.
— Ah, mas você não pode...
— Sou o dono da casa, Natalie.
— Claro. Jamieson substitue você muito bem.
— Não. Não é isso. — Adam levantou-a. — Mas prometo recompensá-la no
meu apartamento. — Curvou-a contra seu corpo, beijou-a profundamente,
suspirando de frustração. — Vou mais do que recompensá-la. — Empurrou-a,
decidido. — Jamieson chega às sete e quinze.
— Estarei prontinha a essa hora.
— E eu estarei à espera de rever você.
Natalie queria perguntar porque ele não dava um jeito de encontrá-la no dia
seguinte, se a queria tanto, mas o orgulho a impediu, e ele se despediu, beijando-
a de leve nos lábios.
Natalie foi para a cama devagar, perdida num sonho de euforia, querendo
não estar sozinha, mas com ele. Talvez logo, logo, quem sabe...

— Você está me evitando? — quis saber Lester.


Natalie nem pôde acreditar, quando, às sete horas da noite no sábado, ele
apareceu no seu apartamento. Estava prontinha para o jantar de Adam, vestida
de rosa e dourado, brilhante como uma sereia, a maquilagem muito bem feita, o
cabelo sedoso sobre os ombros.
Quando a campainha tocou às sete horas, pensou que era Jamieson,
chegando mais cedo. Não conseguiu esconder sua surpresa ou susto quando viu
que era Lester. Mandou-o entrar, meio tonta. Não o tinha visto desde a noite do
teatro, apesar de ter recebido muitos telefonemas e convites dele. Não esperava
vê-lo justamente agora. Jamieson devia estar chegando.
— Vou sair, Lester — disse, embaraçada.
— Estou vendo. — Olhou-a com os olhos castanhos apertados. — Alguém
que eu conheço?
— Não. — Ela sacudiu a cabeça.
— Por que, Natalie? Achei que gostava de mim.
— Eu gosto...
— Então por quê? — repetiu, zangado. — Achei que tínhamos algo de bom
para compartilhar. Ia pedi-la em casamento, Natalie.
Ela sabia disso.
— Não pretendo me casar agora, Lester. Nem com você, nem com ninguém.
— Esse homem...
— É um amigo e nada mais. — Sabia que estava mentindo. Adam nunca
seria amigo dela, pois ela o queria como amante! Haviam se falado ao telefone no
dia anterior, e só isso a havia deixado tonta, louca de vontade de vê-lo. Naquele
momento mesmo, sentia a excitação que chegava e lhe adentrava os poros, só de
pensar em estar perto dele de novo.
Lester franziu a testa, desconfiado, muito vermelho.
— Tem certeza disso? — perguntou, magoado.
— Lester, você não tem o direito... — A campainha da porta interrompeu.
Desta vez devia ser Jamieson.
Lester levantou as sobrancelhas.
— Seu namorado?
— Ah... é.
— Não vai atender a porta? — Ela fechou a cara.
— É claro! — Passou por ele, abriu a porta e ficou roxa de vergonha ao ver
o olhar curioso do motorista indo dela até Lester.
— O sr. Thornton me mandou aqui, srta. Faulkner. — Ficou mais vermelha
ainda.
— Já vou. Pode descer.
Jamieson pareceu censurá-la com o olhar.
— Espero lá embaixo, srta. Faulkner.
— Muito obrigada. — Fechou a porta e foi pegar o casaco e a bolsa, olhando
Lester de esguelha.
— Adam Thornton? — perguntou ele suavemente. Ela suspirou.
— É.
— Trabalho ou divertimento, Natalie? — Ela jogou a cabeça para trás,
irritada.
— Um pouquinho de cada coisa.
— Ah, entendo! Não quero atrasá-la.
Dirigiu-se à porta e sumiu, antes que ela fizesse outro comentário. Que
inferno! Lester tinha conseguido empanar o brilho da noite, fazendo com que se
sentisse culpada por querer ver Adam. Mas por que se sentir culpada? Ele a fazia
viva, feliz. Ia aproveitar aquela noite de todo jeito, com ou sem a interferência de
Lester.
Jamieson saiu do carro para abrir a porta de trás na hora em que ela
desceu a escada, acomodou-a e se sentou ao volante. O interior do carro cheirava
a charuto, e a imagem de Adam surgiu vivida em sua mente. Esperava que Jason
e Tracy não tivessem chegado. Gostaria de ficar, pelo menos, uns minutos
sozinha com ele. O tempo suficiente para ser beijada.
Ao chegarem, Jamieson abriu a porta do Rolls para ela, e Natalie olhou o
edifício até com medo, tantos andares tinha.
— O sr. Thornton mora na cobertura, srta. Faulkner — informou o
motorista.
— Obrigada. — Ficou imaginando como chegar lá sem parecer uma tonta.
Não tinha idéia de onde ele morava.
O porteiro lhe indicou o elevador. O interior do prédio era de uma elegância
sóbria, mas opulenta. As portas do elevador abriam-se diretamente para o
apartamento de Adam, e ele a esperava na entrada. Lindo, num smoking de
veludo azul-escuro, que realçava os olhos azuis e valorizava o corpo alto e forte.
Natalie nem percebeu o aconchego e o estilo da sala, pois continuava a
olhar para ele, sem ver o carpete peludo, os tapetes jogados naturalmente, os
quadros nas paredes, as belas cortinas de veludo, o bar, o estéreo de mogno com
música baixinha. Só tinha olhos para Adam, nem percebeu quando o mordomo
pegou seu casaco e deu um passo para a frente.
— O que ele estava fazendo lá, Natalie? — perguntou Adam em pé, na
frente dela.
Ela estava tão confusa com sua proximidade que não soube responder.
— Quem? Onde?
— Lester. — Comprimiu os olhos. — O que ele estava fazendo no seu
apartamento?
Ela franziu a testa.
— Como sabe?
— Jamieson usou o telefone do carro para me contar que ia se atrasar
porque você tinha uma visita. Era Lester, não era?
— Era, mas... você está me machucando, Adam! — explodiu ela, ao sentir a
dor no braço que ele apertava com os dedos.
— Ainda é namorada dele?
— Não.
— E, então, o que ele estava fazendo lá?
— Foi saber por que eu não saía mais com ele. Adam, você está me
machucando! — repetiu, com um gemido.
Ele pareceu não ouvi-la, fuzilando-a com os olhos.
— Teria ódio se descobrisse que, no final das contas, você é como sua irmã.
Natalie rebelou-se, magoada, contra essa acusação sem fundamento.
— O que está sugerindo?
— Acho que já sabe.
Ela suspirou fundo, o prazer de vê-lo se dissolvendo diante das acusações.
— Não pensa que...
— Meu Deus, para que estamos pensando? — gemeu ele, puxando-a contra
si, exigindo sua boca numa urgência que a deixou sem ar.
Ela não gostou de ser agarrada assim, pois estava zangada com ele, mas,
aos poucos, aquele calor foi entrando por seu corpo, tomando cada pedaço de sua
pele, e ela se abandonou, enlaçando seu pescoço com os braços.
— Hum, como foi gostoso! — Adam respirou, satisfeito, alguns minutos
depois. — Acho que íamos ter nossa primeira briga — murmurou, ainda com ela
nos braços.
— Primeira? — caçoou, coração descompassado.
— As outras foram diferentes. Não sabia o que você significava para mim.
Ela ainda não sabia, e não ia descobrir naquele momento, pois o elevador
subindo mostrava que Tracy e Jason estavam chegando.
— Não fique nervosa. — Adam beijou-a de leve, ao senti-la tensa. — Vai dar
tudo certo.
Ela se virou para as portas do elevador, para cumprimentar o casal. Jason
Dillman, muito bonito para ser real, estava confiante. Pareceu surpreso ao vê-la,
o que dava a entender que Adam não tinha lhe contado nada. A forma de Adam
apresentá-la ao casal deixou-a assustada.
— Jason, você já conhece Natalie, não? E essa é minha irmã, Tracy. Tracy,
esta é minha convidada e amiga, Natalie Faulkner.
Natalie olhou-o, atônita, ao sentir o braço passado por sobre seu ombro, a
atitude possessiva, exibindo um relacionamento que ele não aceitara dois dias
atrás... o de ser seu amante!
CAPÍTULO VI

Natalie cumprimentou a todos como se estivesse dentro de um sonho, e


ficou sozinha enquanto Adam preparava as bebidas. O mordomo já levara embora
o casaco de Tracy, e Natalie corou ao notar os olhares curiosos do casal, o de
Jason mais zombeteiro do que curioso, bastante sarcástico, olhar que ela
procurou evitar.
Adam, de propósito, havia dado a impressão de que ela era sua última
conquista, o que seria verdade se, há duas noites, ele não tivesse resolvido o
contrário. E agora a apresentava como se ela fosse um caso seu...
Natalie aceitou o drinque, ignorou-o, e virou-se para Tracy Dillman. Irmã e
irmão se pareciam muito, a mesma cor de pele, os mesmos olhos azuis. Apenas o
cabelo era um pouco diferente, pois o de Tracy era preto. A dureza e o cinismo de
Adam se abrandavam na irmã, dando-lhe uma beleza inacreditável. Os traços de
Tracy eram tão frágeis e delicados que ela parecia irreal.
Natalie lidava com mulheres bonitas e sofisticadas todo dia, mulheres que
podiam ser comparadas às mais bonitas do mundo; os traços perfeitos de Judith
eram um bom exemplo disso. Mas Tracy Dillman era de uma beleza etérea, de
madona de altar ou anjo de coro.
Natalie observou-a enquanto falava com Adam, admirando a graça natural
de cada movimento. Seu riso, ao ouvir um comentário engraçado do irmão, era
como o soar melodioso de um sino. Tracy lhe parecia perfeita, meio infantil às
vezes, com uma vitalidade e vivacidade que lhe davam um intenso brilho interior,
uma expressão cheia de inteligência, que demonstrava interesse por tudo. Parecia
uma menina deslumbrada, que ainda acreditava no encanto que a vida pode
oferecer, com uma beleza magnética que atraía as pessoas, às vezes uma menina,
e outras uma mulher sensual e excitante, ao flertar inconscientemente com os
olhos azuis profundos, de cílios compridos.
Olhando-a, testemunhando sua felicidade borbulhante que encantava a
todos que se aproximavam dela, Natalie achou difícil entender por que Jason
precisava de outra mulher, por que precisava de Judith. Ela o tocava a toda hora
com dedos carinhosos. Por que a necessidade dele de manter casos fora do
casamento?
Pelo ódio com que Adam olhava o cunhado, ela achou que ele estava
pensando a mesma coisa, apesar de Jason não perceber absolutamente a
desaprovação de nenhum dos dois, como não notava, também, o olhar carinhoso
da mulher. Estava empenhado unicamente em beber bastante do uísque que o
mordomo servia, enchendo seu copo cada vez que ele o esvaziava. Natalie
bebericava ainda seu primeiro cálice de xerez, e Jason já devia estar no quarto
copo de uísque.
Os irmãos conversavam. Pelo menos Tracy conversava, sem perceber o
clima tenso à sua volta, e Natalie se ressentiu da apresentação possessiva de
Adam, do jeito como a segurar, como se fosse dono dela. Jason estava perdido no
seu pequeno mundo, sem nenhum interesse pelo que o rodeava.
— Não sabia que você tinha fisgado o presidente da companhia. — Ela se
virou imediatamente, ao ouvir as palavras sussurradas com desprezo. Jason se
aproveitava do fato de os irmãos estarem distraídos, apreciando a coleção de
discos de Adam, deixando-a nas garras afiadas de Jason.
Ela o olhou, alegre por seu treino como modelo ajudá-la a enfrentar o olhar
de familiaridade que a percorreu dos pés à cabeça, parando um momento no
decote ousado.
— O que foi que disse? — perguntou friamente.
— Adam — caçoou ele. — O poderoso chefe da C.T. Você teria ido mais
longe comigo, Natalie. — Ele sorriu, balançando a cabeça. — Adam não troca
favores por privilégios.
— Não? — Ela arqueou as sobrancelhas.
A confiança dele não se abalou nem um pouco diante da calma da moça.
— Não, enquanto que eu...
Ela o encarou com todo o desprezo.
— Conheço muito bem suas técnicas... e Adam também — acrescentou,
firme.
Ele continuava com a mesma cara, e olhou para a mulher que ria contente,
com o irmão, o cabelo preto caindo em ondas suaves pelos ombros, bem solto, o
penteado enfatizando o brilho e a vida dos fios muito negros. Mas Jason não se
sentia atraído pelo magnetismo da mulher, e, observando o cunhado, repetiu o
que ela havia dito.
— ...e Adam também. — Ela quase engasgou.
— Você não se importa?
Jason sorriu.
— Adam já conhece minha... técnica há sete anos. Por que devo começar a
me preocupar agora?
— Seu idiota sem sentimentos!
— E Judith me disse que você era calma, eficiente e prática! Imagino!
Meu Deus, como odiava esse homem! Não ligava para ninguém, só se
preocupava consigo mesmo, nem com a mulher e muito menos com a confiante
Judith. Ia usar sua irmã, e quando se enjoasse dela, quando ela se tornasse um
trambolho, ele a deixaria de lado, como já teria feito com Tracy há muito tempo,
se ela não lhe fosse tão útil com seu amor leal.
Ela contraiu a boca, com desprezo.
— Sou calma e prática o bastante para enxergar o que se passa dentro de
você!
— E de Adam?
Natalie se odiou por ter corado, mas poucas mulheres conseguiriam
controlar tanta raiva. Se Tracy Dillman não estivesse presente, se não fosse à
mulher doce e inocente que parecia não enxergar o lado negro do marido, não
hesitaria em dizer esse homem exatamente o que pensava dele.
Mas naquelas circunstâncias só podia fuzilá-lo com os olhos.
— Você não tem absolutamente nada a ver com meu relacionamento com
Adam.
— Talvez não. Mas tenho certeza de que Judith vai se interessar em saber
que sua irmã moralista não tem o mínimo direito de lhe passar sermões.
Natalie se endireitou e apertou os olhos.
— O que quer dizer com isso?
Ele deu uma risada zombeteira, o rosto bonito contraído pelo desprezo.
— Judith me contou as conversinhas que vocês vem tendo ultimamente,
sua reprovação e seus sermões. Está até começando a se sentir culpada por se
encontrar comigo, mas isso vai acabar quando eu contar a ela sobre você e Adam.
Ela cerrou os dentes.
— Contar o quê?
Ele continuou a sorrir, com uma expressão insolente nos olhos.
— Não estou preso a nenhum respeito fraternal, como Judith. Enxergo você
muito bem e vejo claramente porque resolveu dormir com Adam.
— Verdade? — O tom dela cortava como gelo. Jason inclinou a cabeça,
numa afirmação.
— Adam, desta vez, está zangado mesmo. Deve estar, pois até ameaçou
Judith. Fiquei orgulhoso por ver a reação dela! — acrescentou, satisfeito.
E Natalie teria dado uma surra na irmã, com todo o prazer, por ter contado
isso a ele. Judith tinha que estar completamente apaixonada para ser tão boba.
— Mesmo que sua mulher ficasse magoada com a ameaça dela? —
explodiu.
— Tracy? — Olhou-a de relance. — Não acreditaria. Deve ter percebido que
ela me ama.
— Percebi — murmurou a moça.
— Não fique tão desapontada, Natalie — caçoou ele. — Na vida, o que é
preciso é sobreviver. Preciso de outras mulheres, assim como você precisa da
agência. E você faz qualquer coisa para alcançar o sucesso que merece.
Ela ficou roxa de raiva outra vez, os olhos brilhantes de fúria reprimida.
— Não estou gostando do que está sugerindo — sussurrou, entre dentes.
— Não? — Jason levantou uma sobrancelha. — Devia ter pensado nisso
antes de se tornar amante de Adam.
— Eu...
— Vocês dois não ouviram Morton avisar que está na mesa? — Adam se
aproximou deles sem que percebessem, os olhos pequenos de desconfiança.
Jason sorriu para ele, irônico.
— Não se preocupe. Sua... amiga e eu só estávamos discutindo amizades
comuns de negócios.
— Mesmo? — Pareceu não acreditar muito.
— Verdade, não é, Natalie?
Ela o olhou com todo o ódio que sentia. Sua conversa podia ter sido
insultante, mas era verdade que Judith e Adam, os tópicos principais, estavam
envolvidos em negócios com eles dois.
— Verdade — confirmou.
— Mas que interessante — caçoou Adam, sarcástico. — Você nos dá
licença, Jason... — disse, com o objetivo claro de ser deixado a sós.
O outro deu de ombros e se juntou a Tracy. Natalie se aproximou de Adam,
olhando para a frente, mas sentindo que os olhos dele a interrogavam, pousados
no seu perfil.
— Jason insultou você — respondeu Adam, diante do seu silêncio total.
Ela continuou a não olhá-lo.
— Não era o que devia fazer? — Ele apertou seu braço com força.
— O que quer dizer com isso?
Natalie dessa vez o olhou, furiosa e amarga.
— Esperava que seu cunhado respeitasse sua “amiga”? — explodiu, furiosa.
— Quer dizer que não a respeitou?
— É claro que não!
— Ah, entendo. — Os olhos dele estavam gelados ao puxar a cadeira para
que ela se sentasse. Ele se sentou na frente dela na mesa oval, Jason de um lado
e Tracy do outro.
“Como se ele fosse o patrão, o chefe”, pensou Natalie amargamente,
aceitando o melão gelado que colocaram à sua frente. A conversa passava por ela
sem que participasse. Percebia que Adam estava muito tenso ao se dirigir a
Jason, que aceitava a situação com um sorriso divertido e triunfante.
— Natalie?
Levantou os olhos e viu Tracy observando-a curiosamente. Ficou vermelha,
vendo que a outra estava falando com ela há algum tempo e que não escutara
uma única palavra! Essa noite estava fadada a ser um desastre, desde o momento
em que Lester havia chegado no apartamento sem avisar. Só podia piorar, depois
disso.
— Desculpe-me. — Deu um sorriso e forçou um olhar interessado e
inteligente.
Tracy retribuiu o sorriso, sem ligar para a desatenção.
— Estava comentando como deve ser agradável ter uma agência como a
sua — repetiu, com sinceridade.
— Ah, Natalie trabalha muito — disse Jason.
Natalie respirou fundo e afundou as unhas nas palmas das mãos.
— Eu...
— Ela é muito importante para a companhia — acrescentou Adam, intenso
mas calmo. Só Tracy não percebia a tensão no ar, e continuava a conversa,
totalmente inocente de tudo.
Jason sentiu alguma coisa no ar, e pela primeira vez ficou desconcertado.
Franziu a testa, olhou para Adam, e baixou os olhos ao encontrar um desafio
arrogante.
— Deve ser uma delícia ser modelo! — O rosto de Tracy brilhava.
— Muito trabalho. — Natalie riu do entusiasmo da outra.
— Já foi modelo?
— Já.
— Gostava?
— Gostava. Mas prefiro a agência.
— Acho...
— Ora, querida — caçoou Jason, — não amole Natalie com tantas
perguntas!
Natalie teve vontade de esganá-lo, por ver Tracy perder a graça na hora,
ficando meio triste e pensativa, uma linda mulher transformada em uma criança
tímida.
Adam contraiu a boca, e começou a brincar com a irmã para afastar a
súbita melancolia causada pela interrupção rude do marido.
De vez em quando, Natalie entrava na conversa. Jason ficou triun-
fantemente em silêncio, enquanto a mulher tentava, em vão, apaziguá-lo. O ódio
de Natalie por ele crescia com o correr da noite, e não entendia como Adam
conseguia não bater nele. Jason Dillman era o homem mais chato e inoportuno
que já tinha visto, e Tracy uma das criaturas mais doces. Meu Deus, que
confusão! Se Tracy não gostasse tanto do marido, Jason e Judith bem que se
mereciam. Os dois eram egoístas ao extremo, e destruiriam um ao outro com o
tempo.
Mas como Adam temia, Jason era capaz de destruir Tracy antes de largá-la.
Agora entendia porque ele se preocupava tanto com a irmã. Ela mesma também
se sentia aflita, depois de conhecê-la.
Ao se despedir, Tracy sorriu para ela.
— Espero vê-la de novo — disse, sincera.
Ao ficarem de pé na porta, a mão de Adam tomou-a pela cintura.
Despediram-se do casal, e Natalie sabia, pela boca tensa de Adam, que ele havia
percebido a tática que ela usara para evitar conversar com ele durante toda a
noite. Ainda estava furiosa por ele tê-la transformado em sua amante aos olhos
dos outros, e não ia deixar que ele se safasse tão depressa.
— E vai vê-la, garanto — respondeu Adam à irmã. Os olhos de Tracy se
abriram muito, compreendendo.
— Não querem ir jantar conosco uma noite dessas?
— Eu...
— Adoraríamos, não é, Natalie? — Nos olhos dele havia um aviso. Ela
concordou sem falar nada, com ódio, sabendo que ele notara seu ressentimento.
— Telefono para você, está bem? — sugeriu ao irmão.
— É melhor assim — concordou ele.
Logo que o outro casal se foi, Natalie se desvencilhou dos braços de Adam.
— Por favor, peça meu casaco a Morton — disse, fria. Adam foi se servir de
uísque e olhou-a por cima do copo.
— Você não vai embora — afirmou calmamente, desafiador.
— Vou.
— Não. — Ele sacudiu a cabeça e bateu o copo sobre a mesa. — Não
acabamos nossa conversa.
Ele era muito mais alto do que ela, imponente, perigoso, mas ela não se
intimidou.
— Que conversa? — Encarou-o sem pestanejar. — Sobre eu ser sua mulher
e todo mundo vir a saber disso? — Voz e corpo tremeram de raiva.
— Natalie...
— Mas nem começamos a conversa, Adam — explodiu ela. — Eu nunca
concordei com essa idéia.
— Ah, não? — zombou ele. — Pois tive a impressão, outro dia, que a única
coisa com que concordava era em ser minha mulher!
Ela respirou fundo.
— Isso é injusto!
— Mas o que eu deveria dizer a eles, Natalie? Que é uma conhecida de
negócios?
— E por que não? É a verdade!
— É?
— É. — Corou com a ironia dele. Adam balançou a cabeça, desesperado.
— Quem foi a mulher que me implorou que fizesse amor com ela há dois
dias? Tenho certeza de que era a mesma que me beijou apaixonadamente há
menos de três horas.
— Isso foi antes.
— Antes...? — Ele esperou.
— Antes que me apresentasse com tanta “intimidade” à sua irmã e Jason
— murmurou.
— Eu a apresentei como amiga!
— Todos nós sabemos o que isso significa!
— Sabemos?
— Não seja tão burro, Adam. Homens como você não têm amigas.
— Homens como eu? — repetiu maciamente, mas de forma perigosa.
Ela engoliu em seco, sabendo, pelo seu queixo contraído, que Adam já
estava muito zangado. Suspirou.
— Não era isso o que eu queria dizer...
— Então o que era? Apresentei-a como amiga e não gostou. É uma mulher
ou uma criança, Natalie?
— Sou uma mulher!
— Então, trate de agir como uma. Está com vergonha da atração que
sentimos um pelo outro, não é? Ou você prefere homens como Lester, que acham
que têm sorte só de tocar em você?
— E não se vangloriam disso em público, não é? — acusou arduamente.
Adam ficou quieto e varou-a com olhos gelados.
— Está dizendo que foi o que fiz? — Natalie suspirou.
— Você deixou claro o que represento em sua vida!
— Está ficando histérica!
— E você arrogante, convencido! — Natalie estava ofegante e agitada. —
Agora, gostaria de ir embora.
— Não se preocupe. Vou pegar seu casaco. — Tocou a campainha chaman-
do o mordomo. — Há uma coisa a respeito de “homens como eu” que se esqueceu
de mencionar. Não prendemos nenhuma mulher, contra a vontade delas.
Ela corou pelo tom ferino que ele usava, e desviou o olhar, quando ele pediu
ao mordomo para lhe trazer o casaco.
Que noite desastrosa! Tinha esperado aquela data desde quinta-feira, e,
agora, se separavam como estranhos.
Adam despediu o criado, segurou seu casaco, ajudou-a a vesti-lo e se
moveu devagar, ficando na sua frente para ajeitar a lapela.
Natalie engoliu em seco, levantou os olhos cheios d’água e viu que a
expressão dele se abrandava.
— Meu Deus, mulher! Não vamos começar nossa segunda briga!
— Acho que já começamos — respondeu ela, triste.
— Quer mesmo ir embora? — Segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Não.
— Acho que o único meio de fazer você parar de discutir é beijando-a.
Natalie adorou o calor de sua boca, e se derreteu contra ele, sentindo que
ele a desejava tanto quanto antes.
Ele descansou os lábios na veia que latejava no seu pescoço.
— Você ainda se importa que pensem que é minha mulher? — caçoou,
carinhoso.
Desde o minuto em que ele havia encostado nela, sentira-se fraca e se
perguntou se, no final das contas, não estaria um pouquinho apaixonada por
esse homem. O tom de brincadeira não eliminava a verdade das palavras. Se
fizesse amor com Adam, seria apenas mais uma de suas mulheres, e seria posta
de lado quando não mais lhe prendesse a atenção. Com certeza era o que tinha
acontecido com a princesa...
— O que foi, querida? — Adam franziu a testa.
— Deixe-me ir.
— Natalie...
— Quero ir agora.
— Mas o que é que eu fiz ou disse desta vez? — explodiu, impaciente.
— Nada. — Arrumou melhor o casaco. — É tarde, preciso ir.
— Peste de mulher! — rosnou, dando de ombros. — Está bem, vamos. Não
estou com vontade de brincar.
— Tenho certeza de que as outras mulheres nunca brincam.
— Ah, então é isso — murmurou ele. — Vou responder à pergunta que eu
lhe fiz há pouco. Você é uma criança, Natalie. Já está na hora de ir para a
caminha, cheia de virtudes — pegou as chaves no saguão, para levá-la para casa.
— Mas... e Jamieson? — Franziu o cenho, consternada, não querendo ficar
a sós com ele até seu apartamento.
— Já está em casa há muito tempo, com a família. Levo você.
Desta vez não foi o Rolls, mas o Porsche prateado que ela vira na primeira
visita ao escritório de Adam, e que engoliu a distância até sua casa num instante.
Natalie se sentou o mais longe dele que pôde, sabendo que todas as
acusações que ele lhe tinha feito eram verdadeiras. A mulher liberada de dois dias
atrás tinha levado um soco, ao perceber que ser sua amiga significava ser sua
amante, e que gente como Jason Dillman sabia disso. Seus insultos fizeram-na
entender a precariedade desse relacionamento. Não queria discutir se isso
significava que era ainda uma criança, aceitava ser uma covarde. Não estava
preparada para ser amante de ninguém, nem de um homem que desejava tanto
como Adam Thornton.
E ela o desejava. Só não podia se jogar numa aventura sem compromisso.
Nem tinha percebido que haviam chegado em casa, até que Adam se
inclinou para lhe abrir a porta, do interior do carro mesmo. Natalie recuou ao
sentir o braço que roçava seus seios, e baixou os olhos, ao ver o desprezo dele.
Adam se recostou no assento e disse:
— Boa noite, Natalie. Qualquer hora apareço ou telefono.
— Nosso negócio ainda está de pé? — umedeceu os lábios nervosamente
com a ponta da língua.
— Claro. — Apertou o acelerador, impaciente, e o motor roncou.
— Adam.
— Vá embora, Natalie — murmurou. — Conversaremos quando você tiver
mais juízo.
Quando for mais adulta, era o que ele queria dizer, e ela sabia disso. Ah,
por que não podia ser um pouco mais parecida com Judith, por que se
dependurar na sua virgindade, como se fosse um tesouro? A irmã perdera a
virgindade com um conhecido de verão, aos dezessete anos, e nem se importara.
Como era ridículo exigir tanto de um homem... Mas exigia.

Esperou o telefonema de Adam no dia seguinte. Esperou a campainha


tocar. Nada disso aconteceu, e não podia culpar Adam. Talvez fosse melhor assim.
Talvez...
Aproveitou-se do dia de folga para trabalhar na pasta da garota fantasia,
reavaliando as três moças que tinha escolhido. De repente viu que não estava
satisfeita com nenhuma delas. Uma garota fantasia tinha que ser uma mulher de
sonho e, apesar de as modelos serem bonitas, nenhuma delas se adequava
completamente ao papel.
Bem, mas não ia tomar essa decisão tão importante sozinha. O que tinha a
fazer era submeter à apreciação de Adam suas melhores modelos. A parte mais
difícil era com ele.
Dee já estava no escritório quando Natalie chegou no dia seguinte.
— Como foi seu fim de semana? — perguntou, curiosa.
— Foi ótimo — respondeu, distraída, sabendo que nunca tinha passado um
fim de semana tão horrível, na vida.
Dee franziu a testa, mas não disse mais nada. Só que não se enganou com
o jeito displicente de Natalie, vendo que o brilho mágico do seu olhar na sexta-
feira não existia mais! Será que Adam Thornton havia sumido também?
Natalie pensava na mesma coisa, sentada atrás da escrivaninha. Adam lhe
havia dito que o negócio estava de pé, mas ela sabia que a amizade deles estava
acabada.
E se sentia tão triste! Era virgem aos vinte e cinco anos, coisa tão
antiquada quanto uma anágua de renda, e ia ficar assim para sempre. Se tivesse
coragem de dizer a Adam que estava arrependida! Mas ele havia mostrado muito
bem seu desapontamento, e com certeza tinha ido se consolar nos braços da
princesa. O orgulho a impedia de ligar para ele.
Lá pelas onze horas, ele telefonou.
Dee veio avisar.
— É ele, Natalie. Vai atender? Quer falar com ele? — Natalie ficou tensa.
— Ele quem, Dee? — disfarçou, sabendo muito bem, mas precisando de
tempo para se recompor.
A amiga riu.
— Só pode ser uma pessoa: Adam Thornton!
Era o que ela temia, e a demora em atender não devia ter abrandado seu
gênio. Não tinha.
— Quero ver você, Natalie — disse rudemente, logo que Dee a colocou na
linha.
— Bem, eu...
— São negócios, Natalie. — A raiva reprimida aparecia através do telefone,
como se ele estivesse ao lado dela.
Empertigou-se, tensa.
— Não disse que era outra coisa.
— Não?
— Não!
— Gostaria que tivesse dito!
— Adam...
— Pode vir até aqui? E traga-me algumas garotas fantasia com você. As
fotos, e não as próprias — caçoou. — Talvez tenhamos que acelerar essa
publicidade.
Ela se interessou.
— Posso saber por quê?
— Não, não pode. Venha já. Estou esperando você dentro de vinte minutos.
— Mas eu...
— Vinte minutos, Natalie. — E desligou.
Que homem arrogante! Podia ter um montão de compromissos naquela
manhã, e ele queria que ela cancelasse todos para vê-lo. E não tinha esse direito?
É claro que tinha.
Ficou com mais raiva ao ver o brilho nos olhos de Dee, quando disse aonde
ia. Dee era muito esperta para não ter percebido que Natalie se sentia atraída
pelo cliente mais importante que tinham.
Desta vez não fizeram Natalie esperar. Assim que chegou levaram-na ao
escritório de Adam. Adam cumprimentou-a brevemente, pediu-lhe a pasta e
mergulhou nela. Graças a Deus, aprontara tudo a tempo.
Enquanto Adam estudava cada moça com atenção, Natalie teve tempo de
observá-lo, vendo seus sentidos reagirem outra vez frente a esse homem vibrante
e vivo. Queria passar os dedos naqueles cabelos grossos, no queixo duro, sentir o
corpo rijo contra o seu.
De repente ele levantou os olhos, e pegou-a com aquela expressão doce. Ela
ficou vermelha na hora. Desviou o olhar, antes que ele pudesse ler o desejo que
sentia.
Ele fechou a pasta com força.
— Nenhuma dessas mulheres serve.
— Nenhuma? — perguntou desconsolada, por ver que ele pensava como
ela. Se nenhuma de suas modelos servisse, perderia o contrato da garota
fantasia. Foi até ele, depressa, inclinando-se para abrir a pasta. — E Joanna?
Achei... — Fez a bobagem de olhar para ele muito de perto, e sua mão, sem
querer, alisou o rosto duro, com a barba por fazer.
Ele não a tocou.
— O que é que achou?
— Achei... ah, Adam. Eu... Adam...
— Meu Deus, encontrei minha garota fantasia! — Tomou-a nos braços,
apertou-a contra si, exigiu sua boca, acabou com as últimas barreiras, e o
suspiro de rendição dela sumiu na força de seu beijo.
Natalie escondeu o rosto no seu pescoço.
— Tenho sido tão burra! — murmurou, contra a sua pele quente. — Você
me desculpa?
— Qualquer coisa! — Beijou-a de novo, até não poder mais. — Você devia
levar uma surra pelo que me fez sofrer nos últimos dois dias! — Descansou a
testa úmida na dela, que estava inclinada sobre seu peito.
— Achei que a princesa o tinha consolado.
— Acho que vou lhe dar a tal surra! — rosnou ele Ficou aliviada.
— Quer dizer que ela não o consolou?
— Claro que não. Não a vejo desde o dia em que nos viu juntos no teatro.
Agora peça desculpas de modo adequado.
— Adequado? — caçoou ela, tão feliz que sentia a cabeça oca.
— Vamos, mulher!
Ela lhe deu os lábios sem negar nada e sentiu a reação de desejo do corpo
dele, ao trazê-la para muito junto de si.
— Hoje à noite, Natalie — murmurou, junto à sua boca. — Não agüento
esperar mais.
— Venha jantar comigo — convidou ela, sem ar, não duvidando de sua
resposta nem da dela. Todas as dúvidas e argumentos de sábado desapareceram.
Só Adam importava, porque era o único compromisso de sua vida. Ela o amava.

CAPÍTULO VII

Natalie não tentou analisar nada. Sabia que não adiantava. Estava
apaixonada, completamente apaixonada por Adam Thornton, independente de
qualquer compromisso da parte dele. Aceitaria o pouco que ele estava preparado
para dar, e por quanto tempo ele quisesse dar.
À tarde, chegaram três dúzias de rosas brancas no escritório, e ela nem
precisou ler o cartão para saber quem as tinha mandado. Não conseguiu conter o
riso ao ler o bilhete, em letra grande e ousada, e telefonou imediatamente para
ele.
— Não mudei de idéia — disse, assim que ele atendeu. — Logo, você não
está maluco.
— Ótimo.
— Gosta de bife? — perguntou, feliz.
— Qualquer coisa serve.
— Eu posso ser a sobremesa. — Era gostoso brincar.
— Ótimo.
Só então ela percebeu que ele não reagia à brincadeira dela. — Adam, tem
alguém aí com você?
— Tem — respondeu, aliviado.
Ela riu, marota, a cabeça leve de tanta felicidade.
— Que interessante! Pretendo usar aquele vestido preto, lindo, sem costas,
quase nenhuma frente e um corte até...
— Natalie! — avisou ele, numa voz agoniada.
— É demais para você, querido? — caçoou ela.
— Neste momento, é. — Ele retomou o tom de negócios.
— E depois?
— Mal posso esperar — ameaçou, com voz rouca.
— Eu também. — Ela riu antes de desligar, e ainda estava rindo quando
Dee entrou na sala.
A outra olhou as rosas, pensativa. Cada botão delicado queria explodir em
flor, como a própria Natalie. E Adam seria sua primavera.
— Está tudo bem agora? — perguntou Dee. Natalie corou.
— Está.
A amiga sacudiu a cabeça, duvidando.
— Quando a gente se apaixona, dizem que as dúvidas se acabam, mas eu
acho que é justamente o começo de todas elas. Depois de três anos, ainda não
conheço Tom direito. Mas é gostoso tentar descobri-lo.
E era mesmo. Ia demorar a vida inteira para conhecer um homem como
Adam. Ela não ia ter tanto tempo, mas faria o possível para aproveitar ao máximo
aquele que tinha.

Adam chegou pontualmente às sete e meia, carregado de rosas, dúzias e


dúzias.
— Já não tenho mais vasos. — Ela riu feliz, os olhos brilhando.
— Então coloque-as no banheiro. Queria me garantir, caso você tivesse
mudado de idéia hoje à tarde. Achei que não ia pôr na rua um homem que lhe
mandasse flores.
Ela se acomodou nos seus braços.
— Não sou tão mercenária. É que...
— Fui arrogante demais sábado à noite — interrompeu ele, com firmeza. —
Não me ocorreu que você poderia não gostar do modo que a apresentei a Tracy e
Jason.
— Talvez porque a maioria das mulheres se orgulharia disso, não? —
caçoou ela.
— Natalie!
Ela morreu de rir.
— Banquei a boba naquela noite e...
Ele colocou os dedos sobre seus lábios, parando o assunto.
— Você foi autêntica, ainda bem. Eu a respeito mais do que a qualquer
mulher que já conheci — disse, carinhoso.
Ela segurou as lágrimas. Num homem cínico como Adam, o respeito era
uma emoção rara. Sentiu-se honrada.
— Fico muito feliz. — E sorriu, trêmula.
Ele recuou, rindo, para quebrar o momento muito carregado de emoção.
— Mas onde está o vestido preto que me torturou o dia inteiro?
Ela sorriu. O vestido azul que usava não chegava nem perto da criação
ousada que lhe descrevera ao telefone.
— Você não esperava que eu usasse um vestido como aquele, não é, Adam?
— Pois estava esperando.
— Mas não tenho uma roupa assim!
— Vou lhe comprar uma, então. Mas só para meus olhos.
Ela sorria ainda, mas havia uma sombra em seu rosto.
— Não quero atrapalhar esta noite — disse devagar, — e não quero que
fique zangado. — Passou a mão na testa dele, tirando a ruga que começara a se
formar. — Gosto de flores. Nem tantas, talvez — ela sorriu, — mas não preciso de
mais nada, Adam.
— Não estou tentando comprar você, mas coisas para você.
— Sei disso e fico encantada. Mas...
— ...não faça isso — completou ele.
— Exatamente.
— Você é uma mulher difícil de ser agradada.
— Difícil, não. — Sacudiu a cabeça. — Só quero você, Adam. Só. — Uma
expressão de dor passou rapidamente pelos olhos dele.
— Não entendo você.
— Mas vai entender — prometeu. — Vai entender!
O resto da noite passou como um sonho para ela. A comida estava perfeita,
assim como o vinho trazido por Adam. A música suave do estéreo ajudava a criar
um clima romântico.
Ficaram sentados lado a lado no sofá. Adam fumando um charuto e
tomando um conhaque, e Natalie enroscada a seu lado.
De repente, ele se virou para ela.
— Por que você parou de ver Lester? — Ela franziu a testa, intrigada.
— Adam...?
Ele apertou o charuto no cinzeiro e segurou seus ombros com força.
— Eu preciso saber, Natalie. Estou tentando conhecê-la.
— Você não me conhece?
— Infelizmente, não. Por que não quis mais vê-lo, Natalie? — Ela deu de
ombros.
— Porque ele queria que eu fosse o tipo de mulher que você quer evitar que
Tracy seja. Não importa quanto eu ame um homem — abaixou a voz, séria, —
nunca poderia ser uma mulher caseira. Preciso de minha carreira. Adoro o que
faço.
— Amava Lester?
Ela o encarou firmemente, demonstrando pelo brilho do olhar o amor que
tinha por ele, Adam, que quase perdeu a respiração com a resposta.
— Não. — Não era preciso responder, já que tinha deixado claro o que
sentia.
— Meu Deus, Natalie! — Encostou-se nas almofadas, abriu seus lábios,
procurou o calor de dentro de sua boca. — Meu Deus, quando estou com você
esqueço até se é de noite ou de dia. Esqueço-me de tudo, menos de você! —
gemeu.
— Querido. — Ela acariciou sua nuca. — Vou ajudar você com Tracy. Se me
deixar...
— Tracy... ? — Pela expressão dele viu que tinha se esquecido da própria
irmã. — Nós dois a ajudaremos — concordou ele. — Mas, agora, você tem que me
ajudar!
— Ajudá-lo?
— Faça amor comigo, Natalie — implorou ele, trêmulo, completamente
diferente do homem seguro que chegara ao apartamento há três horas, a camisa
de seda preta desabotoada no peito, sem casaco. — Faça parar esse desejo de
possuí-la que dói tanto dentro de mim!
A partir desse momento, foi um tempo só de descobertas e deslum-
bramento para Natalie. O amor de Adam não conhecia fronteiras ou limites, e ele
a levou à mesma intensidade do desejo dele, não escondendo nada, excitando-a
tão profundamente que quando seus corpos se fundiram ela não sentiu nenhuma
dor, só prazer.
Imediatamente o corpo de Adam se tornou mais manso e delicado, como se
adivinhasse sua inexperiência, construindo as sensações devagar, para não
amedrontá-la nem alarmá-la, controlando o desejo dos dois, para que
alcançassem o clímax juntos, numa espiral que transcendia as coisas terrenas.
Pelo menos, foi essa a impressão de Natalie.
Um cansaço enorme invadiu seu corpo, um desejo de dormir diferente.
— Eu amo você — murmurou, sonolenta, antes de se aninhar junto ao seu
pescoço e cair num sono satisfeito e sem sonhos.
De madrugada, quando acordou, ainda estava nos braços de Adam, e a
força de seu abraço dizia que ele não tinha a mínima intenção de soltá-la, apesar
de estar dormindo. Com um suspiro de contentamento, Natalie voltou a cochilar
nos braços dele.

Ao acordar de novo já era manhã, e o sol brilhante de um dia de outono


entrava pela janela. Estava sozinha na cama e só o calor dos lençóis ao seu lado
lhe dizia que Adam tinha saído há pouco.
Sentou-se para procurar por ele. Nesse momento, Adam entrou no quarto,
só de calça, o peito moreno descoberto, deixando ver as marcas que lhe havia
feito com as unhas ao alcançar a dor e o prazer do clímax total. Corou ao ver a
evidência do seu abandono, e olhou o rosto dele, percebendo, pelo rosto limpo e
pelo cabelo úmido, que já tinha tomado banho e feito a barba.
— O seu banho a espera, minha senhora — caçoou, mas meio preocupado.
— Meu banho?
— Sim, madame. — Puxou o lençol, que fora a única coberta deles durante
a noite, e pegou-a nos braços, observando-a, ansioso. — Fui delicado com você?
— perguntou, ao carregá-la até o banheiro.
Era esse, então, o motivo da preocupação dele. Adam havia percebido que
ela era virgem.
— Não tenho vergonha, Adam. — Olhou-o, sem medo.
— E nem tem razão para isso. — Ela desviou os olhos.
— E não precisa se sentir responsável, também. Por nada, nada, entendeu?
Adam sorriu ao colocá-la na água morna que havia deixado preparada para
ela, e, ajoelhando-se, começou a ensaboá-la.
— Ah, mas sou responsável, sim — murmurou ele. — Tenho uma profunda
e intensa responsabilidade para com o seu corpo. — As mãos dele, cheias de
sabão, lhe acariciavam os seios, e os bicos se enrijeceram, convidativos. — E
espero continuar responsável por ele. — Olhou-a, sério, de repente. — Você se
importa?
Ela sorriu, envergonhada. Ele não estava arrependido de ter feito amor e
não ligava por ela ser virgem.
— Não me importo nem um pouquinho.
— Ainda bem. Está sentindo alguma dor?
— Não. Mas...
— Preciso de você outra vez. — Pegou-a de novo nos braços, sem se
importar com a água que escorria.
Embora fosse difícil, foi melhor ainda que na vez anterior. Natalie já sabia
um pouco mais como lhe provocar prazer, sem inibições, querendo lhe dar tudo
em troça da imensa paixão que ele mostrava por ela.

Estava no Porsche de Adam, lá pelas dez horas, e nenhum dos dois se


preocupava com o fato de que deveriam ter chegado aos respectivos escritórios há
mais de uma hora.
— Venho pegar você às cinco e meia — disse Adam, depois que ela recusou
almoçar com ele, alegando que era impossível arranjar tempo para o almoço,
tendo chegado tão tarde. — E depois nós podemos... Diabos, me esqueci do
convite de Tracy. Ela nos convidou para jantar na casa dela hoje, e eu aceitei,
mas me esqueci de lhe dizer, ontem.
Natalie escondeu muito bem seu desapontamento, pois não queria
compartilhá-lo com ninguém; no momento ela o queria só para si. Mas tinha
prometido ajudá-lo com Tracy e cumpriria a promessa.
— Está perdendo a memória, querido? — caçoou, vendo o desejo acender
no rosto dele quando lhe acariciou a nuca.
Ele se inclinou para a frente e beijou-a na boca, ardentemente.
— O que foi que disse? — murmurou rouco, alguns minutos depois.
— Está vendo? — Deu uma risada. — Pobre Adam!
— Pobre Adam mesmo! — Fingiu raiva. — Você pode me arruinar em uma
semana.
— Tanto tempo assim?
— Já estou arruinado — gemeu ele, o rosto dentro de seus cabelos. — Só
tenho vontade de passar o dia inteiro na cama com você, nada mais.
Ela sentia o mesmo, mas ambos tinham seus negócios e responsabilidades.
— Podemos ficar juntos hoje à noite.
— E todas as noites. São todas minhas, Natalie — avisou. — E você é toda
minha.
Até que aparecesse alguém que o atraísse mais. Mas ela havia aceitado
aquilo, e não podia começar a esperar por outras coisas. Nenhum dos dois
comentou o fato de ela ter confessado que o amava. Ela porque não queria ser um
fardo para Adam, e ele, ela presumia, porque não queria se envolver em emoções
parecidas com o amor. Desejo e querer eram sentimentos que ele conhecia, e não
pretendia ir mais fundo. Não podia culpá-lo por isso, pois desde o começo sabia
como ele era. Não podia dizer que só isso não bastava.
— Natalie? — Ele franziu a testa, preocupado com seu silêncio. Ela lhe
sorriu alegre, decidida a aproveitar o tempo que passassem juntos.
— Sou toda sua.
— E você se importa de irmos jantar com Tracy hoje?
— Não — mentiu ela.
— Pois eu me importo — disse, rabugento.
— Adam! — Foi gostoso ver o jeito sincero dele ao manifestar seu desejo por
ela.
Adam tocou no cabelo dela.
— Cinco e meia?
— Ótimo. — Beijou-o.
Adam aprofundou o beijo, e uma leve camada de suor cobria sua testa ao
lutar contra o impulso de fazer amor com ela.
— Volto para casa com você...
— Está bem. — Ela entendeu o que ele queria dizer. — Adam, tem certeza
que está vestido para ir trabalhar? — caçoou, olhando para ele todo enfarpelado,
com roupa para a noite.
— Não era essa a minha intenção. — Sorriu para ela. — Vou passar antes
no meu apartamento. Mas esse problema vai se resolver logo, assim que formos
morar juntos.
Natalie engoliu em seco.
— Morar juntos? — repetiu, devagar. Adam franziu a testa.
— Você não quer?
— Bem, não tinha pensado nisso.
— Então pense, e depressa. Não vou deixar você fugir, Natalie.
Ela manteve o brilho de felicidade o dia inteiro. Dee, se desconfiava do
motivo, não disse nada. Adam telefonou três vezes durante o dia e chegaram mais
rosas à tarde.

Natalie estava esperando lá embaixo quando ele chegou, louca para vê-lo de
novo, estar com ele. Foram até o apartamento de mãos dadas. A tensão entre eles
era tão grande que nem conversar conseguiam.
— Meu Deus! — Adam sussurrou junto de sua orelha, meia hora depois, as
roupas deles espalhadas pelo chão, deixando um rastro da sala até o quarto. —
Nunca me senti assim antes — gemeu ele! — Não posso parar de pensar em você,
de ver você! É uma espécie de loucura, mas é delicioso!
Natalie sentia a mesma coisa. Pertencia de corpo e alma a esse homem, e
essa última vez em que estivera nos seus braços sobrepujara tudo o que havia
acontecido antes, o que ela acreditara não ser possível.
— Então estamos os dois loucos, porque também não consigo parar de
pensar em você.
Dormiram nos braços um do outro por algum tempo. Adam foi o primeiro a
se mexer.
— Que horrível acabar com essa noite tão agradável, mas Tracy está nos
esperando às oito, e já são sete e meia.
— Jura? — Natalie se sentou. Já não tinha mais vergonha de sua nudez
diante dele e saiu da cama para o banheiro.
Tomou um banho rápido, vestiu-se, e se sabia bonita no vestido de seda
verde quando Adam a olhou, encantado. Apesar de terem passado no
apartamento de Adam para ele se trocar, chegaram só quinze minutos atrasados
na casa dos Dillman, um bangalô ultra-moderno nos subúrbios de Londres.
Mas ele a avisou: — Não tenho intenção de continuar assim por muito
tempo!
Os Dillman moravam em uma ruazinha sem saída. A casa era bem no fim,
afastada da rua por muitas árvores frondosas. O Mercedes de Jason estava na
entrada, junto de uma caminhonete marrom.
— Tracy geralmente anda com o cachorro dela por toda parte — explicou
Adam.
Uma empregada abriu a porta para eles, e se ficou curiosa ao ver Natalie
com Adam não o demonstrou, levando-os até o saguão. Tracy veio cumprimentá-
los, muito graciosa e elegante num conjunto de linho branco, um sorriso de boas-
vindas nos lábios.
— Jason já vem, já, já. Está no telefone — explicou.
— Sua casa é deliciosa — disse Natalie, sincera, sentindo amor a primeira
vista pela sala quente e confortável, em tons de creme e verde.
— Obrigada.
Estavam todos sentados tomando um drinque, quando Jason chegou,
esportivo, calça e camisa marrom. Imediatamente Adam ficou tenso, e Natalie,
por estar sentada muito perto dele, o sentiu. Sabia que se não fosse o amor pela
irmã, Adam arrebentaria Jason com requintes de maldade.
Foi uma refeição difícil, pois os dois homens mal conversavam. Tracy
continuava imune à tensão que havia à sua volta. Quando dispensou a
empregada e ela própria foi fazer o café, Natalie foi junto, e o velho buldogue as
seguiu. Era uma cadela amiga, chamada Sophia, que adorava Tracy.
— Você e Adam são muito amigos. — Era uma afirmativa e não uma
pergunta.
— É verdade. — Natalie corou.
— Dá para ver como são felizes juntos.
— A sua felicidade também aparece.
A irmã de Adam arrumou as xícaras na bandeja.
— Você acha? — Natalie franziu a testa.
— Não são felizes?
— É claro — disse Tracy de leve. — O que acha que aqueles dois estão
fazendo? — caçoou. — Será que já se agarraram pela garganta? — Seus olhos
brilharam, maliciosos.
— Provavelmente. — Ela riu. — Você não liga? — vTracy deu de ombros.
— Já parei de me importar há anos. Você não é o tipo de mulher que Adam
costuma transar — disse, pensativa. — Não estou falando isso por maldade.
Natalie sabia disso. Tracy dava a impressão de nunca ter feito nada com
maldade na vida. Cada vez gostava mais dela, e a raiva por Jason e a irmã au-
mentava. Tracy confiava no marido, coisa de que ele se aproveitava para traí-la.
— Então Adam tem um tipo predileto?
— Não, não quero dizer que goste só de louras ou ruivas ou qualquer coisa
parecida. — E Tracy riu. — Mas a mulheres dele são do tipo grudento, gênero
gatinhas.
— Como a princesa? — Natalie se lembrava do dengo da ruiva, no teatro.
— Maria? — Tracy arregalou os olhos. — Você a conheceu?
— Não exatamente. Mas eu a vi.
Tracy deu uma risada, mais bonita do que nunca, tendo sua própria casa
como pano de fundo. — Então você sabe o que quero dizer. Maria é o protótipo do
grude. Faz disso sua arte. Você é muito diferente.
Natalie sorriu.
— Sou?
— Sabe que é. Para começar, é mais moça do que as outras, e tem um ar de
independência. Toma conta de seu próprio negócio — acrescentou Tracy, para
esclarecer seu ponto de vista.
Natalie tinha percebido que a outra se interessava muito pela sua carreira.
Talvez os projetos de Adam a respeito da irmã não fossem nada maus.
— Você já trabalhou? — perguntou. Tracy corou.
— Não. Saí da escola quando conheci Jason, e depois que casamos ele não
me encorajou a trabalhar.
Tinha certeza que não. Jason Dillman não gostaria de ver a mulher
independente, com uma carreira própria.
— E não há necessidade — acrescentou Tracy, na defensiva.
— Duvido que Adam precise trabalhar, também.
— Não. — A outra corou. — Mas ele não é do tipo rico e playboy...
— E você é do tipo rica e playgirl? — espicaçou Natalie.
— Não — sussurrou Tracy, — mas Jason nunca me deixou trabalhar fora.
— Hum! — Natalie apertou os lábios. — Bem, talvez você gostasse de dar
um pulo na agência um dia desses e ver como funciona? — Fez o convite da
forma mais de leve que pôde, mas o interesse de Tracy foi enorme.
— Quando? — perguntou, excitadíssima. Natalie deu de ombros.
— Quando você quiser, quando não tiver nada para fazer.
— Amanhã já marquei cabeleireiro e dentista, mas que tal quinta-feira?
— Quinta-feira, o quê, meu bem? — Jason entrou na cozinha, olhou as
duas, curioso, e passou o braço no ombro da mulher: — Adam e eu achamos que
tinham se afogado no café.
Tracy fez cara de culpada.
— Natalie me convidou para conhecer a agência dela na quinta-feira —
informou, firme.
Ele apertou os olhos em direção a Natalie, que nem pestanejou.
— É mesmo? — Natalie concordou.
— Achei que Tracy podia gostar.
— Acho uma ótima idéia — disse Adam, chegando, para alívio de Natalie. —
Vai achar muito interessante, Tracy. — Passou o braço na cintura de Natalie.
— Eu também acho — concordou ela, olhando hesitante para Jason.
— Bem, se você insiste em ir... — Jason deixou as palavras no ar,
desaprovador.
Natalie achou difícil ficar quieta ao ver a luta que se travava dentro de
Tracy, que percebeu a desaprovação do marido, mas a tentação de ver a agência
era maior.
— Depois levo vocês duas para almoçar — ofereceu Adam.
— Ah, seria tão bom! — a irmã aceitou, feliz.
Jason não achou graça nenhuma e ficou calado o resto da noite.
Chantagem emocional, concluiu Natalie, mas Tracy não deu o braço a torcer.
— Foi uma ótima idéia sua, querida. — Adam guiava o Porsche sem esforço
nenhum, e tirou uma das mãos do volante para apertar a dela. — Jason não
gostou nem um pouquinho — acrescentou, satisfeito.
— Felizmente Tracy adorou.
— Só porque admira você, meu anjo — disse, orgulhoso. — Como eu
admiro.
— Não foi o que Tracy me falou. — Adam franziu a testa.
— O quê? Tracy nunca magoou ninguém na vida!
— Ainda não! — tranqüilizou-o. — Mas me disse que você gosta de gatinhas
pegajosas e não de mulheres como eu.
— Ela falou isso?
— Hum, hum. Gatas como a princesa.
— Eu disse a você que Tracy não gostava dela. — Ele riu.
— Nem eu. — E Natalie também riu.
Ele estacionou o carro atrás do M.G., fora do prédio, e veio abrir a porta
para ela.
— Você é muito grudenta também, querida — disse, ao entrarem de braço
no corredor. — Só que nas horas certas — murmurou no seu ouvido.
— Adam! — Ela ficou vermelha.
Ele trancou a porta do apartamento, aliviado, isolando-os do resto do
mundo para tomá-la nos braços.
— Achei que nunca mais ia tê-la só para mim — gemeu ele, distribuindo
beijos febris no seu pescoço.
Natalie sentia a mesma coisa, e não perderam tempo para mostrar um ao
outro o quanto se queriam.

Ficaram sozinhos a noite toda e o dia inteiro. De manhã, Adam não a


deixou sair da cama, e quando pensaram em coisas mundanas, tais como o
tempo, já era meio-dia, e muito tarde para irem aos respectivos escritórios. Ao
invés disso, almoçaram juntos na pequena cozinha de Natalie, pequena
comparada ao que Adam estava acostumado, mas suficiente para ela. Tomaram o
café da manhã, vestiram-se, e foram passear no parque, ao sol, de mãos dadas,
como dois adolescentes apaixonados.
Para Natalie tudo parecia um sonho, do qual não queria acordar nunca.
Mas logo a realidade se intrometeu. Adam tinha que sair na quinta-feira cedo
para um compromisso, às nove horas, que não podia adiar.
— Eu também não posso faltar. — E segurou-o quando ele se inclinou para
beijá-la, ainda debaixo dos lençóis e ele completamente vestido. — Dee não me
pareceu muito bem-disposta quando falei com ela ontem. Além disso, não posso
telefonar para Tracy e cancelar a visita, dizendo que estou na cama com o irmão
dela. — Riu. — Acho que não ia entender nada.
— Talvez entendesse. — Adam sorriu, sentando-se ao seu lado na cama. —
Mas meu cliente, não. Vejo vocês duas no almoço, então.
— Vou sentir saudade. — Dependurou-se no pescoço dele.
— Eu também. Vou tomar as providências para ficarmos juntos o tempo
todo, o mais breve possível, está bem?
Sua felicidade diminuiu um pouco e desviou o olhar dele.
— Vamos deixar as coisas como estão por algum tempo, está bem?
— Por que, pode me explicar?
— Aconteceu tudo tão depressa, Adam. Não vamos forçar nada, certo?
Ele queria discutir, mas afinal cedeu.
— Por enquanto está bem. Vou atacar você num momento mais propício.
Ela riu.
— Isso não é justo.
— Eu nunca disse que sou justo. — Ele sorriu, olhando o relógio. — Mas
estou atrasado. Detesto ter que ir embora, meu amor. — Ficou de pé. — Pego você
e Tracy à uma hora.

Natalie ficou deitada na cama depois que ele se foi, feliz demais para se
mexer. Os dois últimos dias tinham sido maravilhosos e já sentia falta de Adam.
Fisicamente, eram um par perfeito. Apesar de sua inexperiência, dava tanto
prazer a Adam quanto ele lhe dava, e um simples toque dele a arrepiava toda de
desejo. Nas últimas trinta e seis horas não se cansara dele, e naquele momento
ainda queimava de vontade de vê-lo de novo.
Quando a campainha tocou ela mordiscava, distraída, uma torrada. Devia
ser Adam, que não conseguira deixá-la também!
O sorriso desapareceu de seus lábios ao abrir a porta. Era sua irmã.
Natalie fechou o roupão, apertando-o mais ao sentir o olhar irônico de Judith,
que avaliava seu aspecto sonolento, o cabelo despenteado e nenhuma
maquilagem. Era assim que Adam gostava dela, mas Judith olhou-a, sarcástica.
— Dá para entrar? — perguntou à irmã.
— Mas é claro. — Natalie corou, feliz por Adam já ter ido embora.
Judith observou a sala, interessada, e foi para a cozinha onde se sentou
numa banqueta.
— Ainda tem café? — Olhou o bule. Natalie serviu uma xícara, com a mão
trêmula.
— Açúcar?
— Sabe que nem chego perto. Você parece nervosa, Natalie.
— Não seja boba. — Sentou-se, evitando o olhar da irmã. — Por que eu
estaria nervosa?
— Não sei. Talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de que se eu
chegasse dez minutos antes encontraria Adam Thornton na escada.
— Não seja boba, Judith.
— Boba? — ironizou a irmã. — A única coisa boba que fiz ultimamente foi
achar que minha irmã mais velha era pura e doce, e, enquanto isso, ela estava
dormindo com Adam Thornton!
— Eu...
— Papai e mamãe falaram tão bem de você a semana inteira, que até
acreditei neles. Sabe, nenhum de nós sequer sonhou que você estava transando
com Thornton. — Seu rosto endureceu. — Até briguei com Jason quando ele me
contou.
— Jason! — disse Natalie, nauseada. Os olhos de Judith brilharam,
furiosos.
— Não seja tão dona da verdade, Natalie. Agora sei que não é nada melhor
do que nós.
— O que quer dizer com isso?
— Jason me contou por que você está indo para a cama com Adam. Sei que
têm saído sempre juntos. Estava falando no telefone com Jason, na quinta-feira,
quando você chegou na casa dela para jantar.
— Na própria casa dele!
— E por que não?
— Se não sabe, não vou lhe dizer! — Tracy podia ter escutado aquela
ligação. Era só pegar o telefone por acaso, mas Judith nem se importava.
— Deixe de bancar a santinha, Natalie! Você está dormindo com esse
homem só para melhorar os negócios de sua agência e...
— O que foi que disse?
— Cresça, Natalie — caçoou Judith, levantando-se. — Está transando com
Adam só para ele não arruinar sua adorada agência. Eu sei, você sabe, e aposto
que ele também sabe.
— Saia daqui! — ordenou Natalie, trêmula. — Saia e nunca mais ponha os
pés aqui.
— Ah, já vou indo! Só queria que soubesse que não está enganando
ninguém com esse seu comportamento de duas caras. Nós todos sabemos quem é
você.
— Saia já!
A irmã saiu, sem que ela notasse uma dor que nunca sentira antes
rasgando seu corpo. Não se importava com que Judith pensava, com o que Jason
Dillman pensava, mas será que Adam podia imaginar que... Meu Deus, preferia
morrer se ele também achasse que ela tinha ido para a cama com ele só para não
perder os contratos de sua agência.

CAPÍTULO VIII

Natalie ficou sentada, quieta, entorpecida, pensando que ele prova-


velmente tinha a mesma opinião que sua irmã. Não a havia criticado uma vez por
ela não perguntar como os trabalhos vinham parar na sua agência? Na época,
falavam do envolvimento de Judith com Jason, mas agora poderia fazer
comparações.
Ela o amava, e tinha confessado esse amor! Mas ele não prestara atenção,
não tinha comentado nada, só mostrara seu desejo. Meu Deus, ele pensava que
ela tinha se entregado a ele por causa de sua agência, por causa da garota
fantasia!
E por que não? Tinha sacrificado seu orgulho para ajudá-lo com a irmã,
quando ele ameaçara arruinar a agência. Por que ele não a acharia capaz de
sacrificar seu corpo pelo mesmo motivo?
A felicidade que conhecera em seus braços há uma hora atrás tinha se
evaporado. A beleza e a ternura do tempo que passaram juntos eram fruto de sua
imaginação: para Adam, ela não devia passar de mais uma mulher que se
entregava a ele, uma mulher ambiciosa e nada mais. Era isso o que a feria; saber
que Adam podia acreditar que tinha sido movida pela ambição.
Vestiu-se maquinalmente e foi para o escritório. Sem se dar conta,
destrancou a porta da agência, acendendo as luzes, fez café, tudo o que
costumava fazer quando chegava.
O telefone tocou e ela deixou cair no chão a xícara de café quente. Atendeu,
olhando sem ver o café encharcar o tapete preto. Se fosse Adam...!
— Natalie!
Gelou ao escutar uma voz de homem.
— Sim? — murmurou, engasgada.
— Aqui é Tom. Eu...
— Tom? — respondeu aliviada.
— Não quis assustar você.
— Não assustou — assegurou imediatamente. — O que é que há? Algum
problema com Dee?
— Não posso telefonar só para dizer como você é linda? — caçoou. Natalie
deu risada.
— Não, se você não quiser levar uma surra de Dee.
— Já percebeu o lado violento de minha mulher, hein?
— Espero que Dee não esteja escutando, Tom. — Essa brincadeira era
exatamente do que estava precisando para se sentir normal outra vez, se é que
algum dia voltaria ao normal! Seu orgulho estava ferido, o coração mais duro, e
não sabia se ia se recuperar.
E o que fazer com Adam? Não podia continuar o caso com ele, agora que
sabia o que ele pensava dela. Era doloroso demais, muito degradante e triste para
o amor que sentia por ele.
— Ela não pode me escutar — confirmou Tom. — Está de cama. Já não
estava se sentindo bem quando chegou em casa ontem. Levei-a para jantar fora e
passou mal a noite inteira. Desperdiçou um bom jantar.
— Agora tenho certeza de que ela não está mesmo escutando você. Já
chamou o médico?
— Ele acha que é uma infecção intestinal. Duvido que a veja aí antes de
segunda-feira.
Natalie já tinha desconfiado.
— Dê-lhe minhas lembranças e diga a ela para não se preocupar com coisa
alguma.
— Tudo bem. Está se sentindo melhor agora?
— Melhor? Ah... — respondeu, hesitante e corando, o que, graças a Deus,
Tom não podia ver. — Bem melhor. Até qualquer hora, Tom.
— Até qualquer hora. Um beijo.
Natalie se recostou na escrivaninha. Havia se perdido no amor por Adam.
Nunca faltava ao trabalho, e sempre fora muito responsável com as pessoas que
trabalhavam com ela. Mas no dia anterior havia se esquecido de tudo, menos de
Adam e de fazer amor com ele.
Trabalhar. Era o que precisava fazer agora, trabalhar como nunca. Só assim
conseguiria tirar Adam da cabeça.
Limpar a sujeira do café não era bem o que queria, mas tinha que começar
por ali!
Estava de joelhos, esfregando o tapete, quando a porta se abriu e Tracy
Dillman entrou. Natalie fechou os olhos por um momento. Havia esquecido
completamente de dizer a Judith que a outra vinha à agência.
— Então é esse o charme de uma agência de modelos! — Riu Tracy.
Natalie se sentou nos calcanhares.
— É que às vezes é preciso começar por baixo. — Era difícil fazer graça,
pois Tracy se parecia demais com o irmão, o que a machucava e entristecia.
— Ah! — Tracy continuou rindo, muito jovem e bonita, num vestido de
linho puro, que caía maravilhosamente bem no seu corpo de curvas perfeitas.
Natalie levantou-se e jogou fora os cacos da xícara.
— Um pequeno acidente, por falta de jeito. Estou sozinha hoje, Tracy... — O
telefone a interrompeu.
Na meia hora seguinte foi um telefonema atrás do outro. Cada vez que
começava a conversar com Tracy o telefone tocava. Desse jeito, a hora do almoço
ia chegar antes que tivessem podido se dizer qualquer coisa. Que falta Dee estava
fazendo!
— Deixe que eu atendo — ofereceu-se Tracy, quando o telefone tocou outra
vez.
Encantada, Natalie viu Tracy lidar com um cliente complicado, tão bem ou
melhor do que Dee o faria, e a pessoa do outro lado pareceu pedir desculpas
antes que Tracy desligasse.
— Onde você aprendeu a fazer essas coisas, Tracy?
— Fiz curso de secretariado — explicou ela, orgulhosa. — Observei você
manejar esse telefone algumas vezes e não me pareceu complicado. E também
não foi difícil dobrar o cliente. Aprendi a lidar com pessoas geniosas no tempo que
vivi com Adam. Ele se recusava a atender as mulheres que telefonavam para ele
dia e noite.
Natalie fez uma careta de dor. Logo seria mais uma das “rejeitadas” de
Adam.
Tracy percebeu sua tristeza.
— Sinto muito... quero dizer... Isso foi há muito tempo. Nunca vai acontecer
com você.
Natalie sorriu de um jeito amargo.
— Tenho certeza que vai, quando chegar a hora.
— Não, eu...
— Não tenho ilusões sobre Adam — mentiu Natalie friamente. — Quando
acabar, estarei preparada para o que der e vier.
Naquelas circunstâncias, ela própria teria que pôr um fim no caso, se
quisesse recuperar o auto-respeito. Tracy franziu a testa.
— Achei que você e Adam...
— Somos adultos, Tracy.
— Mas... — O telefone começou a tocar de novo. — Deixe que eu atendo. Vá
para seu escritório, que eu me encarrego disso aqui.
— Você bate à máquina também? — perguntou Natalie, embasbacada.
— Claro! — Tracy sorriu, confiante.
— Quer trabalho por um dia? — perguntou meio séria, meio brincalhona.
— Adoraria. — Tracy se sentou à mesa de Dee. — Não se preocupe. Está
tudo sob controle.
O telefone insistia. Tracy piscou para Natalie e atendeu aquele cliente com a
mesma eficiência. Depois de alguns segundos, Natalie deixou-a. Não devia ser
isso o que Adam queria ao lhe pedir que ajudasse a irmã. Imagine, um emprego
de secretária!
Tracy era capaz de mais, e podia muito bem construir uma carreira em
qualquer campo que tentasse, longe de Jason ou perto dele.
Nesse momento, uma idéia começou a se pintar na cabeça de Natalie, e,
aos poucos, foi tomando forma. Era uma idéia fantástica, inacreditável. Quanto
mais pensava nela mais excitada ficava. Discutiria com Adam quando o visse
outra vez. Se ele dissesse que não, ela entenderia, mas a idéia era perfeita. Aliás,
Tracy seria perfeita.
A manhã passou rapidamente, com todo o serviço do dia anterior para ser
feito. Tracy provou que batia muito bem à máquina e que lidava às maravilhas
com clientes difíceis.
Para Natalie foi ótimo a manhã ser corrida.
Pôde se esquecer de Adam e, quando Tracy a colocou na linha, no meio da
manhã, não pensou que fosse ele. Quando escutou sua voz, começou a tremer.
— Como vai você? — perguntou, rouco.
— Muito bem.
— E Tracy? Apareceu aí?
— Apareceu...
— Ela gostou?
— Acho que sim. — Estava meio receosa com a reação dele ao saber que a
irmã estava bancando a secretária.
— Você não tem certeza? — caçoou ele.
Natalie mastigou o lábio inferior, sem saber como iria viver sem esse
homem.
— Por que não pergunta a ela? — sugeriu.
— Liguei para a casa dela, mas ela não estava. Deve ter ido fazer compras
ou qualquer coisa assim. Vocês, mulheres...
— Adam...
— Sim?
— Tracy ainda está aqui.
— É mesmo?
— Pois é. Ela...
— Espero que não a esteja amolando. Deve ter madrugado aí. Achei que
chegaria uma meia hora antes do almoço. Deve estar se divertindo à grande. —
Ele parecia contente.
— Está, sim.
— Posso falar com ela?
— Acabou de falar.
— Não! Aquela era Tracy? — perguntou, incrédulo. — Foi Tracy quem
atendeu o telefone?
Natalie explicou rapidamente como e porque Tracy estava substituindo a
secretária, e ficou esperando a bronca.
— Ela me pareceu ótima — disse Adam, orgulhoso. — Muito calma,
eficiente e segura de si.
Natalie sentiu-se mais segura.
— Ela é ótima. Mas não vai dar para almoçarmos juntos. Não posso deixar
o escritório agora.
— Eu entendo. Pego você aí, à noite.
— Não! Tenho tanto trabalho e...
— Preciso de você, Natalie.
Ela estremeceu de prazer ao escutar a paixão que havia na voz dele. Tinha
que vê-lo, estar com ele pelo menos mais uma vez.
— Natalie!
— Muito bem. Pegue-me aqui às seis, mais ou menos.
— Certo. Mas agora quero falar com Tracy.
— Adam, tenho algo a lhe dizer, a respeito dela. Ê muito importante.
— Não pode esperar até hoje à noite?
— Pode.
— Eu é que não posso esperar. Meu Deus, como sinto sua falta! Nunca vi
um dia tão comprido!
Natalie não duvidava do desejo de Adam por ela.
Nem duvidava do seu próprio desejo. Seu corpo ardia por antecipação.
Precisava dele tanto quanto ele dela, pelo menos por mais uma noite.
— Querida, você está bem? — Adam parecia preocupado. — Está longe de
mim...
— Não, estou aqui. — Sacudiu a cabeça para se livrar daquela tortura. —
Estou bem junto de você.
— Espero que sim. Não posso nem começar o dia sem você — brincou ele.
— Ah, Adam! — Relaxou-se um pouco e sorriu. “Hoje à noite, só hoje”,
pensou.

Escutou o riso de Tracy na recepção, enquanto falava com o irmão ao


telefone, e sentiu vontade de poder rir assim, sem problema, sem que lhe
tivessem jogado a verdade na cara, de modo tão cruel.
Alguns minutos depois, Tracy entrou, corada, mais bonita do que nunca. O
branco lhe ficava muito bem, dando-lhe um ar extraterreno e delicado, e os olhos
brilhavam com a mesma sensualidade que os do irmão. Foi essa mistura rara e
única que convenceu Natalie de que Tracy seria a garota fantasia perfeita. Não
tinha a menor idéia se Adam aprovaria tal carreira para a irmã, mas, para ela,
Tracy era perfeita para o papel. Ia falar com Adam hoje à noite.
— Ele acha que estou me saindo muito bem — contou Tracy, sem fôlego.
— E está mesmo. Estas cartas estão perfeitas. — Conferiu uma meia dúzia
de cartas que Tracy tinha batido, enquanto ela falava no telefone com Adam.
Tracy corou de prazer.
— Ando um pouco enferrujada, mas no fim já estava batendo mais
depressa.
— Está ótimo — assegurou Natalie, vendo como a moça precisava de apoio
para levantar o moral. — Sinto muito ter desmarcado o almoço.
— Tudo bem. Estou gostando de ficar aqui.
— Não ia achar graça se tivesse que ficar o tempo todo.
— Talvez eu possa vir ajudá-la amanhã, se sua secretária não vier —
sugeriu Tracy, hesitante.
Seria ótimo para ela, mas era preciso ter cautela.
— Melhor você falar com Jason primeiro. — A moça corou, rebelde.
— Não vai afetá-lo em nada. Trabalha o dia inteiro.
— Mas assim mesmo...
— Muito bem — disse Tracy. — Vou telefonar e dizer a ele.
Natalie teve que rir do jeito dela. Parece que quando queria uma coisa tinha
a mesma determinação de Adam.
Pouco depois, Tracy voltou. Pelos olhos marejados da moça, Natalie
percebeu que a conversa com Jason não tinha sido das melhores. Apesar disso,
Tracy a informou de que viria ajudá-la no dia seguinte. Jason Dillman não ia
gostar nada da rebelião da mulher.

Quando Adam chegou, Tracy já tinha ido embora, e Natalie estava


trabalhando em sua mesa. Ele entrou sem fazer barulho, às cinco e meia. Natalie
olhou-o, faminta, comendo-o com os olhos. Adorava aquele cabelo castanho
grosso, a boca bonita, o corpo rijo.
— Sei que cheguei cedo — disse ele. — Mas não agüentei esperar mais
tempo.
Ela se levantou como num sonho, aninhando-se nos seus braços com um
suspiro satisfeito.
— Fico feliz — respondeu.
Ele curvou o corpo sobre o dela.
— Vamos para casa, hein?
— Está bem — concordou, feliz, querendo estar com ele mais do que
qualquer coisa na vida.
O próprio Adam notou um ardor desesperado nela ao fazer amor com ele,
uma necessidade de se tornar parte dele, de um modo que ninguém nem nada
pudesse arrancá-lo dela.
— Querida! — Adam estremeceu sob suas mãos e seus lábios, e ficou
deitado na cama, deixando-se acarinhar.
Ele já estava quase perdendo o controle. Ela sentiu seu corpo estremecer
com o desejo doce que em breve os elevaria ao êxtase total.
— Natalie! — Ele se virou, apertou-a na cama, deitado sobre ela, abriu seus
lábios, encorajando-a a retribuir o carinho.
Natalie não precisava de mais coragem. Louca de amor, abandonou-se ao
sentir o prazer morno que lhe subia pelo corpo, a excitação chegando a um pico
doloroso, e quando as coxas dele se fundiram com as suas, ela se dissolveu em
ondas de prazer.
Mas Adam não tinha acabado ainda. Com o corpo imóvel sobre o seu,
começou a lhe acariciar os seios com os lábios e a língua, chupando os bicos;
com as mãos, curvou as pernas dela, fazendo movimentos vagarosos de quadris,
buscando de novo o êxtase final dos corpos unidos.
Segurou-a ao seu lado, protetor e quente, esperando que as respirações
voltassem ao normal, os corpos ainda sensíveis se tocando.
— Não posso acreditar que isto esteja acontecendo. — O peito dele vibrava
junto a seu corpo ao falar. — Tenho trinta e nove anos, Natalie, e, para ser franco,
devo admitir que dormi com mais mulheres do que consigo me lembrar. Mas é a
primeira vez que conheço uma paixão tão completa, uma certeza de que cada
carícia, cada beijo está certo.
Natalie também sentia isso. Sabia que o primeiro relacionamento físico de
uma mulher costuma ser decepcionante, que, muitas vezes, é preciso tempo e
paciência para alcançar o ponto de fusão ao qual eles chegaram desde o começo.
Adam se virou para olhá-la.
— Tudo em você é certo.
Ela segurou as lágrimas, aconchegou-se nele, sentindo a pele firme e
macia. Curvou o corpo para se ajustar ao dele, muito ansiosa para conseguir
falar. Mais uma vez, não duvidava de suas palavras. Sabia que Adam jamais
mentiria para ela, que sempre seria franco e honesto. Assim como nunca havia
manchado o relacionamento deles com falsas declarações de amor.
— Cansada? — perguntou baixinho, ao vê-la tão quieta.
— Um pouco — inventou.
— Quer que eu faça o jantar?
— Você sabe cozinhar também?
Ele riu para ela, parecendo um meninão.
— Sou muito prendado, desde que você goste de ovos. — Ela riu.
— Por incrível que pareça, acho que só temos ovos. — Não andava
pensando muito em comida, ultimamente.
— Graças a Deus! — Saiu da cama e enfiou a calça. — Vou fazer uma
omelete. Será que nunca vou conseguir fazer amor com você, tendo tempo de
primeiro dependurar a roupa num cabide? Será possível?
Natalie apoiou-se no cotovelo para olhá-lo, os bicos dos seios rijos e
tentadores.
— Eu não sei. Será?
— Duvido. — Ele se levantou. — Vista-se, mulher, antes que eu mude de
idéia e, ao invés de cozinhar, volte para a cama outra vez.
— Eu não me importaria — encorajou ela.
— Sei que não. — Tocou no seu rosto com ternura. — Gosto do jeito que
você me curte também, sem negociar. Tantas mulheres acham que seu corpo tem
um preço, mas você não. Quer se dar e o faz muito bem. Mas quero alimentá-la
por uma razão muito egoísta, quero que tenha forças para fazer amor o resto da
noite. — Passou o dedo, numa carícia erótica, no bico do seu seio.
Ela estava usando a camisa branca dele quando chegou na cozinha logo
depois, adorando a textura sensual do tecido contra seu corpo. A camisa lhe
chegava até às coxas, deixando ver as pernas longas e bem-torneadas. Adam
olhou-a cobiçoso.
— De repente não estou mais com fome de comida, — murmurou ele.
Natalie sentou-se em uma das banquetas, as pernas nuas sob o balcão do bar.
— Mas eu estou. — Fez uma careta marota.
— Diabinha — murmurou ele.
— Temos que ser sensatos e armazenar forças para mais tarde — brincou
ela.
— Verdade. — Pôs o prato de comida à sua frente, sentou-se ao seu lado, e
lhe acariciou a coxa.
— Adam! — Contorceu-se quando seus carinhos foram ficando tão íntimos
que não dava para pensar em comer.
Ele levantou as duas mãos, na defensiva.
— Está bem. Vou me comportar.
Natalie comeu um pouquinho da omelete e da salada que ele preparara.
Não estava com muita fome, mas Adam honrou a própria comida.
— Como já foi prometido, você será a sobremesa! — Observou-a com os
risonhos olhos azuis.
— Acho que já paguei essa promessa.
— E então?
— Então vamos falar sobre Tracy primeiro? — Adam fez uma careta.
— Se for preciso!
— É preciso. — Ele suspirou.
— Eu sabia que tinha de resolver esse problema antes de fazer amor. Mas
estava ficando louco.
— E agora...
— Agora nem quero pensar em Tracy. Nem ela, mas...
— Acho que descobri o serviço mais adequado para ela.
— Como sua secretária? Mas achei que Dee....
— Não, que bobagem, secretária coisa nenhuma. Apesar de ela poder ser
uma ótima secretária. Não. É algo mais charmoso.
— Modelo.
— Mais ou menos. — Esperou uma reação dele. Não viu nenhuma.
— Ela não tem prática...
— Tracy é a garota fantasia ideal, com prática ou sem prática — explicou,
aflita, vendo a incredulidade, a rejeição e depois a incerteza passarem por seu
rosto. — Ela é perfeita, Adam. Tem uma beleza natural, é uma criança e ao
mesmo tempo uma mulher sensual. Nunca vi ninguém assim — terminou,
excitada, só de pensar no sucesso. Não tinha dúvidas de que Tracy seria um
estouro como garota fantasia.
— Tracy... — repetiu, sem acreditar.
— É. Pense nela, Adam, não como sua irmã, mas como uma mulher. Não
sei o que acha desse tipo de carreira para ela, quanto a mim, acho que ninguém
faria melhor.
— Tracy — disse ele, com mais firmeza. — Tenho que admitir que nunca
pensei nela como garota fantasia.
— E agora que pensou? — Ele balançou a cabeça.
— Você pode ter razão — murmurou, devagar.
— Sei que tenho. — Adam sorriu para ela.
— Minha eficiente mulher de negócios! Pode ter matado dois coelhos de
uma só cajadada e resolvido o problema.
Três. Se ela descobrisse para ele uma garota fantasia com quem não tivesse
nada a ver, que não estivesse ligada à agência, ele perceberia que se dera a ele por
amor e não por ambição. Era uma esperança tênue, mas alimentava sua fé de
não perdê-lo para sempre.

Na manhã seguinte, Natalie foi trabalhar com seu próprio carro, pois tinha
um encontro marcado. A noite nos braços de Adam tinha passado depressa
demais e, apesar de terem dormido pouco, não se sentia cansada. O amor dele a
revitalizava. Separaram-se com pesar e, como sempre, Natalie foi incapaz de
recusar quando ele disse que viria para seu apartamento à noite.
— Você consegue se virar sozinha? — perguntou, preocupada, a Tracy,
antes de ir para a reunião. — Não vou demorar mais do que uma hora.
— Não se apresse por minha causa — disse ela, tranqüila. — Dou conta do
recado.
— Dee vai ficar furiosa quando descobrir que não fez tanta falta. — Natalie
riu.
A outra sorriu.
— Mas ela não precisa se preocupar comigo. Não pretendo trabalhar o dia
inteiro fora.
— Mas está se divertindo?
— Muito.
— Já pensou em trabalhar outra vez?
— Sempre penso. Mas Jason não quer.
— Mas, como você mesma disse, isso não traria inconveniente a ele.
Natalie procurou falar tudo com bastante calma, mas sua vontade real era
esganar Jason Dillman pelas restrições que impunha à sua jovem mulher. Não
era de admirar que Adam tentasse ajudar a irmã.
Assistia a essa chantagem emocional há sete anos! Um casamento devia se
construir na base de uma troca e respeito recíprocos, e os dois parceiros deviam
dar opinião nas decisões que pudessem afetar o casamento.
Nenhum homem tinha o direito de abafar a personalidade da mulher,
impedindo-a de exercer uma profissão, ainda mais não havendo crianças que
necessitassem de cuidados.
— Ele trabalha o dia inteiro. — Tracy mastigou o lábio inferior. — Ainda
estou pensando no assunto.
— Então pense mais — encorajou Natalie. — Nunca se sabe quando a sorte
vai bater na nossa porta.
— Puxa! Está ficando parecida com Adam! — A outra fez uma careta.
— Jura?
— Está mesmo.
— Tenho que ir andando — olhou o relógio, — senão chego tarde.
— Vejo você depois — concordou Tracy.
Foi uma longa reunião, onde se discutiu um de seus modelos masculinos,
que aparecia em uma série de anúncios de loção após-barba. O homem em
questão pedia uma quantia, o cliente se recusava a chegar ao preço, e ficaram
nesse impasse. Já estavam há uma hora nessa lenga-lenga, mas Natalie sabia
que no final o cliente concordaria. Daniel Jerome era o tipo ideal para esses
anúncios: alto, moreno, bonito, um corpo que todo homem sonha ter. Daniel
sabia o quanto valia; felizmente, o cliente também, de modo que chegaram a um
acordo. Natalie voltou para o escritório com a sensação de ter sido passado numa
máquina de torcer roupa... duas vezes.
Foi com certo alívio que chegou na agência. Mas, para seu espanto, Tracy
não estava na recepção. Estava um pouco atrasada para o almoço da outra, mas
sabia que ela não deixaria o escritório sozinho.
Quando entrou na sua sala descobriu a razão da ausência de Tracy. Judith
estava sentada numa cadeira, fazendo espirais de fumaça, que soprava para o
teto com a cara mais entediada do mundo.
Natalie bateu a porta com força.
— O que está fazendo aqui? — Judith virou-se para ela devagar.
— Bons modos para cumprimentar sua irmãzinha, querida! Papai e mamãe
estão chocados.
— Não vamos falar em papai e mamãe agora — explodiu Natalie.
— Não?
— Não! — Estava ficando cada vez mais zangada com o comportamento de
Judith. — Onde está Tracy? — perguntou, aflita.
— Foi embora — informou Judith calmamente.
— Foi para onde?
A irmã sacudiu os ombros, desinteressada.
— Para casa. Para a casa de uma amiga. Como é que eu vou saber para
onde foi?
— Mas você sabe, Judith. — Inclinou-se sobre a mesa, os olhos faiscando
de raiva. — O que disse a ela? O que disse para que ela se fosse tão de repente?
— Natalie!
— Vá para o inferno, diga onde ela está!
— Muito bem. — Judith se levantou. — Disse a verdade a ela. A pura
verdade.
— Qual? — explodiu Natalie.
— Que Jason e eu somos amantes há meses. Que ele me ama e que não
gosta dela.
Natalie achou que ia desmaiar.
— Falou isso... para ela?
— Falei! Estava na hora de ela saber e dessa charada chegar ao fim. Quero
Jason o tempo todo e não só quando...
— Onde Tracy está agora? — Não estava interessada em conhecer as
vontades de Judith.
Judith deu de ombros, ao ver que a irmã não a compreendia.
— Foi embora.
— Disse para onde ia?
— Não. Olhe, eu não quero...
— Não me interessa o que você quer ou não — disse Natalie, enojada. —
Você é uma sem-vergonha, egoísta, que merece toda a infelicidade que vai lhe
chegar com o tempo. Mas Tracy não. Se ela fizer qualquer besteira...
— Besteira? — a irmã repetiu, tonta. — Quer dizer... suicídio?
— É possível. Você acabou de lhe dizer que ela está vivendo com um marido
infiel. Se acontecer qualquer coisa a Tracy, Adam Thornton vai pegar você pelo
pescoço!
Sem falar no pescoço dela, Natalie. Meu Deus, onde estaria Tracy?

CAPÍTULO IX

A incredulidade e ansiedade de Judith não duraram muito; contraiu a


boca com escárnio.
— Você está histérica, Natalie.
— Você é que não conhece Adam Thornton!
— Não tão bem quanto você, isso é verdade! — respondeu a outra com
ironia, ficando muito satisfeita ao ver que Natalie ficava sem jeito. — E nem
quero. Ele é o tipo de homem que engole a alma da gente. Essa intensidade não é
comigo. E não duvido que seja capaz de se vingar. Só acho que está sendo
histérica na sua preocupação por Tracy Dillman. Aquela mocinha tem mais
controle e segurança do que imaginam.
Natalie franziu a testa.
— Quer dizer que Jason não queria que a mulher soubesse do caso de
vocês?
— Ainda não. Mas estou cansada de esperar. E não me chame mais nem de
sem-vergonha nem de egoísta — ordenou, numa voz chateada. — Sei exatamente
o que sou e o que quero.
Natalie até fungou de desgosto.
— Bem, agora Jason é seu.
— É. — Judith sorriu, feliz como um gato lambendo um pires de leite.
— A não ser que Tracy o perdoe outra vez!
O sorriso de Judith se apagou.
— Outra vez?
— Ela já soube de outros casos dele no passado — Natalie exagerou um
pouco — e sempre o aceitou de volta.
Judith fechou a cara e se dirigiu para a porta de saída.
— Dessa vez, não. Vou cuidar para que isso não aconteça.
Natalie mergulhou numa cadeira, morta de aflição, querendo saber o
paradeiro de Tracy. Depois do que Judith lhe contara, como se fosse a coisa mais
natural do mundo, tinha vontade de fugir para qualquer lugar. Se fosse ela,
Natalie, o que faria, se lhe contassem que seu marido era infiel, que Adam era
infiel?
Mas ele não era seu marido, nunca seria, era apenas seu amante. Mas no
fundo do coração, ela era sua mulher para sempre. Nunca se entregaria a outro
homem durante toda a vida.
Naquelas circunstâncias, não se entregaria mais a Adam, também. Ficou
ali, sentada, sofrendo, sabendo que Adam nunca a perdoaria por causar tanta
dor à irmã.
Pobre Tracy! Não merecia aquilo, pois era doce e terna com o marido. Que
raiva de Judith por acabar com a felicidade, mesmo que falsa, da outra.
— O que há de errado, querida?
Ela se assustou. Levantou a cabeça e ficou branca.
— Adam!... — gemeu.
Adam se aproximou dela, preocupado.
— O que é que há? Algo errado?
Natalie umedeceu os lábios, nervosa. Adam a mataria se lhe contasse a
verdade, se soubesse como Tracy estava magoada.
— O que é que há, querida? — Ficou de cócoras perto dela, todo
preocupado.
Apertou as mãos dele, olhou-o bem de perto, tentando guardar para
sempre cada traço daquele rosto. Não queria se esquecer de nenhuma daquelas
feições arrogantes, nem dos olhos azuis, do nariz perfeito, da boca firme e do
queixo quadrado. Como o amava! Seus olhos se encheram de lágrimas.
Adam pegou-a pelos braços e sacudiu-a.
— Pelo amor de Deus, fale comigo! O que foi que aconteceu? Está se
sentindo mal? — Olhou seu corpo todo, avidamente, procurando qualquer sinal.
— Quero que me abrace, Adam. — Jogou-se nos braços dele. — Abrace-me,
por favor.
— Com todo prazer. — Apertou-a junto a si, beijando-a com um ardor
apaixonado. Os dois tremiam quando se separaram, e Adam sorriu,
desconcertado, para ela. — Achei que faltava um pedaço de mim a manhã inteira.
Agora já sei qual era.
— Sabe?
— A melhor parte — respondeu ternamente.
Sorriu, trêmula.
— Sentiu falta de mim, então?
— Demais! — Os braços dele a prendiam como cordas de aço. — Você é
como um fogo no meu coração, que acelera as batidas de meu peito. Se me
deixasse, acho que morreria.
Foi o mais perto de uma declaração de amor que ele chegou, coisa difícil
para um homem como Adam, que não gostava de depender de ninguém. Mas não
era amor; não podia deixá-la naquele momento. Quem sabe como se sentiria dali
a um mês, uma semana, quando se cansasse do seu corpo e de seu rosto?
— Não acredita em mim, Natalie? — Franziu a testa, ao ver sua expressão
de dúvida.
— Acredito. — Estava sem fôlego. — Sinto a mesma coisa, por isso é que
estava meio chorosa, há pouco, Mas por que está aqui, Adam? Achei que não o
veria mais, hoje. — Precisava descobrir o paradeiro de Tracy, ajudá-la no que
fosse possível, e tinha que se livrar de Adam sem que ele suspeitasse de nada. Ele
percebia todos os seus sentimentos, apesar de ter aceitado sua explicação sobre
as lágrimas sem suspeitar de nada.
Ele sorriu, maroto, encostou-se na escrivaninha, encaixou-a no meio das
pernas, apertando com as mãos a base de sua coluna.
— Não queria me ver?
— Queria. É que... — Adam interrompeu-a.
— Na verdade, vim ver Tracy. Não que não seja gostoso abraçá-la assim,
mas...
— Tracy? — Empertigou-se.
— É, onde está ela? Já foi almoçar?
— Hum, já — respondeu rapidamente. — Falou qualquer coisa sobre
compras.
Ele sorriu com indulgência.
— Com certeza! Eu a convidei para almoçar e ia sondá-la sobre a garota
fantasia. Mas não importa. Temos tempo. Não quer ir almoçar comigo?
— Não posso. — Saiu de seus braços. — Não dá para sair daqui agora.
— Feche. Por uma ou duas horas — sugeriu, tentador.
Natalie queria concordar, ficar com ele, mas precisava procurar Tracy.
Tinha que encontrar a moça de todo jeito.
— Não posso, meu amor. Tem que ficar alguém aqui e tenho muito
trabalho.
Adam curvou-se para beijá-la, demorando-se nos lábios trêmulos.
— Minha coisinha dedicada — sussurrou, terno. — Deixo você, então. Não
quero que me acuse de perturbar seu trabalho.
Já a tinha perturbado e muito, e sabia disso. Deixou-a com um sorriso de
satisfação e a promessa de mais perturbações à noite.
Logo que ele saiu, Natalie telefonou para a casa de Tracy. Pela empregada,
soube que a sra. Dillman não estava. Devia estar falando a verdade. O jeito era
procurar Jason Dillman. Será que Tracy fora até ele para desmascará-lo? Era o
que ela própria teria feito. Mas Jason não estava na C.T. Desesperada, tentou a
casa, de novo.
— A sra. Dillman acabou de chegar — informou a empregada. — Mas não
pode atender o telefone.
Aliviada, pediu à mulher que avisasse Tracy de que ia para lá
imediatamente e que precisava vê-la. Pela primeira vez a agência fechou num dia
útil.
Quando viu o Porsche prateado em frente à casa, seu coração parou. Mas
tinha que entrar e ver se Tracy estava bem.
A criada estava muito agitada. Levou-a até o vestíbulo, onde Natalie ficou
andando de cá para lá. De repente a porta bateu com força atrás dela.
Virou-se, devagar, sabendo quem encontraria. Fora-se o amante delicado de
há pouco. No seu lugar, estava o homem cruel do primeiro encontro, de olhos
gelados, boca contraída e queixo duro.
— Eu...
— Antes que fale qualquer coisa — Adam disse furioso, por entre os dentes
cerrados, — deixe que lhe diga que sua parte na história me enche de desgosto.
Natalie empalideceu.
— Minha parte? Mas, Adam, por favor...
— “Por favor” — repetiu, sarcástico. — Tem coragem de me pedir qualquer
coisa depois do que aquela sem-vergonha fez com a minha irmã?
Ela se encolheu sob o ódio dele.
— Mas eu...
— Enquanto eu estava no seu escritório, abraçando-a, namorando, você
sabia muito bem o que tinha acontecido com Tracy. Mentiu para mim com o
corpo e com os olhos. Como tem mentido desde o começo, deliberadamente.
Sabia que eu não queria ir para a cama com você até resolver a situação de Tracy.
Mas não podia esperar para começar nosso caso, não é? Não, tinha que me
enfeitiçar, me dominar com seu encanto, antes que Tracy e Jason se separassem.
— Contraiu a boca num ricto de desgosto e os olhos faiscaram, perigosamente. —
Não é pingo melhor do que a irmã, afinal de contas! — Natalie recuou, como se
tivesse levado uma bofetada.
— Adam, não!
— O que esperava conseguir dormindo comigo? Esperava que quando sua
irmã jogasse essa bomba, eu estivesse tão louco por seu corpo a ponto de não me
importar com a desgraça de Tracy? — Seu queixo estava duro, saliente.
A cabeça dela doía, o coração doía, o corpo doía.
— Adam!
— Mas não estou tão louco — explodiu, sem deixar que ela respondesse às
acusações. — Eu me diverti com você, mas nenhuma mulher, nenhuma, há de
significar mais para mim do que minha irmã. Você mentiu e me enganou, e não
vou me esquecer disso tão cedo.
Ela estendeu as mãos para ele, implorando.
— Eu não sabia que Judith ia falar com Tracy.
— Não? Pelo que Tracy me disse, sua irmã sabia que ela estava na agência
de manhã. Foi lá decidida a causar problema, e causou.
Natalie engoliu em seco.
— Não fui eu quem disse a ela que Tracy estaria lá.
— Não?
— Não! Por que iria fazer uma coisa dessas? Além disso, passei a tarde e a
noite com você.
— Foi. E não conseguiu nada. Concordou em ajudar Tracy, por causa da
reputação e do sucesso que isso podia trazer à sua agência, e dormiu comigo pelo
mesmo motivo.
— Não! — Ela sacudiu a cabeça. Seus piores sonhos se realizavam.
— Então — continuou Adam — tem o mesmo código de honra que sua
irmã. Quando tudo falha, pula na cama!
— Eu era virgem! — Duas manchas vermelhas apareceram no seu rosto.
Ele contraiu a boca.
— O que prova a importância que você dava a isso. Vendeu a quem deu
mais, querida — explicou, com desprezo.
Natalie nem percebeu que estava se mexendo, não percebeu nada, até a
hora em que as marcas vermelhas de seus dedos apareceram no rosto do rapaz. A
raiva tomou conta dele e, com uma frieza calculada, Adam levantou a mão e a
esbofeteou no rosto. Natalie fechou os olhos, não sentia dor, seu corpo estava
entorpecido. O desprezo. O desprezo de Adam era mais difícil de suportar do que
imaginava.
Abriu os olhos baços, enevoados; na expressão dele, havia dor, gostava dela
mesmo que não a amasse. Ela o havia magoado, e seu orgulho e raiva eram ainda
mais fortes por ter se permitido gostar dela. Até então, só Tracy importava na sua
vida, e não podia perdoar Natalie por tê-lo feito gostar dela também, mesmo que
por poucos dias.
Natalie levantou a cabeça, orgulhosa.
— Preciso ver Tracy.
— Nunca.
— Tenho que explicar a ela.
— Qualquer explicação será dada por mim. — Ela corou.
— Mas do seu ponto de vista.
— Claro que é do meu ponto de vista. Eu subestimei você, Natalie. Acreditei
que a fria mulher de negócios e a amante ardente existiam dentro de você. Mas
estava errado. É uma amante fria e calculista, também.
— Como pode? — engasgou ela. — Como pode pensar uma coisa dessas?
— Não só penso como me arrependo de muita coisa.
— E não vai me deixar ver Tracy?
— Não!
A negativa brutal fez com que ela tremesse.
— Pelo menos diga-me se está bem...
— Você estaria?
— Não — admitiu, trêmula.
— Nem Tracy. Por sete anos dedicou todo o seu amor e confiança àquele
porco. E ele permite que uma de suas mulheres conte a Tracy seu caso!
— Judith...
— Sua diabólica irmã! Tracy está no quarto, chorando de cortar o coração.
Eu devia saber que isso iria acontecer, quando Judith me ameaçou, mas logo
depois conheci você e a desejei de todo o meu coração.
— Você, você sempre planejou fazer amor comigo? — A boca dele se
contraiu, irônica.
— Não está pensando que a idéia foi só sua, não é, Natalie?
— Eu... eu...
— Meu desejo por você me fez subestimar sua irmã, e, na última semana,
só consegui pensar em você, não pude agir.
Ela sabia que admitir isso lhe custava muito, e, apesar de todos os insultos
e acusações dele, o coração de Natalie se abrandou.
— Adam, querido... — Ele repeliu a mão dela.
— Mas já acabou tudo. Tracy é a coisa mais importante para mim, agora.
— É importante para mim também! Adam, eu não sabia o que fazer quando
Judith me contou o que havia feito. — Olhou para ele, suplicante. — Aí você
chegou e...
— E você decidiu fingir que não sabia de nada — terminou ele. — Tracy
estava esperando por mim quando voltei ao escritório, quase morta. Mas pode
dizer à sua irmã que ela perdeu a parada. Tracy ainda quer aquele idiota, e dessa
vez vou mantê-lo na linha. Ele não vai poder nem respirar sem minha ordem, no
futuro!
Natalie umedeceu os lábios, nervosa, sabendo que Adam falava a verdade.
Judith estava fora da vida de Jason de agora em diante, assim como toda e
qualquer mulher, menos Tracy.
— E nós?
— Nós? Nunca houve um “nós”, Natalie. Cheguei a pensar nisso, mas
qualquer um pode fazer papel de bobo quando quer uma coisa. E eu queria você.
Queria tanto o seu corpo, que faria qualquer negócio para possuí-la.
— E agora que me possuiu não me quer mais — disse ela, amarga.
— Exatamente — explodiu. — Agora não a quero mais.
— É melhor eu ir embora — disse ela, sentindo-se mal, enjoada.
— É.
— Dê um beijo em Tracy por mim, e diga a ela que estou muito triste.
— Está mesmo? — Ele riu, rudemente.
— Como pode duvidar?
— Posso duvidar de tudo o que venha de você. Infelizmente fiquei cego
quando a conheci.
— Então é adeus? — Os olhos dela estavam enormes no rosto pálido.
— Acho que nunca nos dissemos um alô.
Não, tinham sido inimigos desde a primeira palavra. E, agora, como no
começo, iam se separar, também dizendo palavras duras.
Adam se movimentou com rapidez e puxou-a com força para si, beijando-a
brutalmente, um beijo que continha todo o desprezo que sentia por ela, mais
esclarecedor do que quaisquer palavras que dissesse. Então, empurrou-a.
— Adeus, Natalie. Espero não ver esse rosto bonito nunca mais.
Ela piscou, encolheu-se como se tivesse sido atingida outra vez, foi até à
porta aos trambolhões, sempre olhando para ele, cega pelas lágrimas.
— Dê meu recado a Tracy — falou, ofegante. Ele não respondeu e Natalie foi
embora.

O resto da tarde e à noite, ficou no maior silêncio, a cabeça fazendo tudo


maquinalmente: preparou o jantar, ligou a televisão, que quase nunca assistia.
Durante um bom tempo não pensou em Adam. Tinha medo também, pois,
quando se quebrasse o gelo, a torrente de lágrimas se precipitaria para nunca
mais parar.
Não se permitiu nem a lembrança de toda a amargura pelo que havia se
passado entre ela e Adam. Dormiu um sono pesado, que não a descansou.
Acordou exausta de tanto lutar contra as ondas de sono e pesadelo.
Quando a campainha tocou, ela ficou tensa. Seria Adam? Se fosse, seria
vítima de seu ódio. E não podia suportar mais. Seu autocontrole se quebraria em
mil pedaços, se ele começasse a acusá-la outra vez. E se fosse ele, não ia desistir
enquanto ela não abrisse a porta. Apertava a campainha sem parar, e o barulho
irritou seus nervos, que estavam fracos demais para suportar qualquer agressão,
por pequena que fosse, por mais de alguns segundos. Foi até a porta e abriu-a
com força.
— Onde está ela? — perguntou Jason, com ódio, empurrando-a e entrando
no apartamento. — Está aqui? — Foi até a sala, abrindo as portas que
encontrava pelo caminho.
Natalie o seguiu, tonta, enquanto ele inspecionava cada aposento.
— Tracy?...
— Não, não é Tracy — rugiu. — Judith! Ela está aqui?
Natalie deu de ombros.
— Você mesmo já viu que não está.
— É — suspirou, impaciente. — Sabe por onde ela anda?
— Em casa, com certeza.
— Já tentei. Foi o primeiro lugar em que fui. Não está e não passou a noite
lá.
Natalie franziu a testa.
— Como sabe?
— Tenho uma chave — disse, irônico.
— Ah! — ela corou. — E não está aqui, também.
— Como você disse, estou vendo — repetiu ele, sarcástico. — Mas. é irmã
dela e deve saber onde está.
— E você que é o amante, sabe?
Ele apertou o braço dela com força e desafiou-a com o olhar.
— Não banque a engraçadinha comigo, Natalie! Não tenho tempo a perder.
Não posso ficar muito tempo fora de casa. Aproveitei que Tracy estava dormindo,
e que Adam foi até em casa mudar de roupa. Se eu não estiver em casa quando
ele voltar!...
— Ele mata você — afirmou ela, sem emoção.
— Se eu tiver sorte! Então, diga-me onde ela está.
— Não tenho a menor idéia. Achei que estava na casa dela.
— Já disse que não está!
— Então não sei. E não é provável que venha aqui.
— Continua se dando ares de moralista, hein? — zombou.
— Tire essas mãos de cima de mim — ordenou friamente. Jason largou-a
tão depressa que ela quase caiu.
— Eu sabia que não devia ter me envolvido com Judith. Sabia que ia dar
galho.
— E por que se envolveu? — explodiu Natalie.
— Porque não consigo ficar longe dela! — berrou ele, furioso. — Tenho uma
obsessão por ela!
— E sua mulher?
— Eu a amo.
— Belo jeito de amar! — disse Natalie, irônica. Se esse homem conseguia
justificar tanto suas ações para si mesmo, imagine para os outros.
— E não se meta onde não é chamada. Isso é assunto meu.
— E meu também. Judith e você se encarregaram de fazer com que fosse
meu!
— E Adam? — caçoou. Ela corou.
— Meu relacionamento com Adam não tem nada a ver com vocês.
— Aliás, duvido que exista qualquer relacionamento a essa altura. A língua
de Adam fere como um punhal, quando ele quer.
— Você deve saber disso!
— Você também já deve saber, Natalie. — Ela contraiu a boca.
— O que quer com Judith?
— Adivinhe!
Natalie sacudiu a cabeça.
— Não tenho a menor idéia. — O rosto dele estava carregado.
— A idiota quase arruinou minha vida, contando tudo para Tracy daquele
jeito.
— Vai ficar com Tracy, então?
— Até que Judith possa me dar o conforto ao qual estou acostumado —
gozou ele. — Por enquanto, ela não pode.
Natalie teve pena de Tracy Dillman, mas tinha dó da irmã, também. Jason
Dillman era completamente egoísta, não tinha a menor intenção de deixar a
mulher, se isso implicasse em perder seu estilo de vida. Era difícil entender como
uma mulher podia amar um homem daqueles, quanto mais duas!
Jason sorriu, sem graça.
— Não fique tão chocada, Natalie. Você não é melhor do que eu, apesar
desse seu jeitinho doce. Pobre Adam! — caçoou. — Que choque para ele descobrir
que você não passava de uma oportunista. Como deve odiar você!
Ela empalideceu ainda mais a essas palavras. Queria apagar o riso da cara
daquele homem. Mas não ia sujar suas mãos e virou-lhe as costas.
— Por favor, vá embora — disse secamente.
— Não se preocupe. Já estou indo. Já fiquei até demais. E se, por acaso,
encontrar Judith...
— Digo que está procurando por ela — concordou, distante.
— Pode dizer mais do que isso. Diga que fique longe de mim, que tudo se
acabou entre nós.
Natalie olhou para ele, enojada.
— Não tenho a menor intenção de fazer o trabalho sujo para você.
— Está bem, não se incomode. Eu próprio digo a ela — bateu a porta e
saiu.
Onde estaria sua irmã? Não era costume dela sair assim, sem dizer nada a
ninguém, e Jason estava furioso com seu desaparecimento.
Quando a campainha tocou outra vez, achou que era Judith, ou, pelo
menos, esperava que fosse. A situação já estava bastante preta para que Judith
sumisse sem deixar traços.
Era Judith, que entrou toda segura em sua casa.
— Você está com uma aparência horrível, Natalie. Espero que não seja por
causa dessa história toda, é?
— Essa história? — repetiu Natalie, muito confusa e tonta para entender o
que a outra queria dizer.
— Esse negócio com Tracy.
— Acontece que “esse negócio” com Tracy é um caso que você está tendo
com o marido dela — explodiu Natalie, sem poder acreditar na calma da irmã. —
Ou já se esqueceu?
— É claro que não, querida — Judith se esparramou no sofá. — Tenho
pensado muito no assunto.
— Então foi por causa disso...
—...que dormi na casa de umas amigas na noite passada — disse,
suavemente, alisando o cabelo. — Para dar tempo a Jason de se acalmar. Ele deve
ter ficado uma fúria por eu ter acabado com a farsa dele.
— Tenho novidades para você. Ele ainda está muito zangado.
— Como é que sabe? — perguntou a irmã, ansiosa. — Você o viu?
— Esteve aqui — confirmou ela, sem se surpreender com o fato de Judith
nem pensar mesmo de leve em Tracy. Jason e Judith eram pessoas da mesma
espécie.
— Quando?
— Há pouco.
— E ainda está zangado?
— Zangado é pouco!
— Graças a Deus não me encontrei com ele — suspirou Judith, distraída,
mordendo uma unha.
— Você não ganhou, Judith, e sabe disso — disse Natalie, com delicadeza.
Os olhos azuis duros se apertaram.
— O que está querendo dizer?
— Vai ficar com a mulher.
— Não! — negou Judith, veemente, ficando de pé, com as mãos apertadas
ao lado do corpo.
— Ê, sim senhora. — Os olhos dela faiscaram.
— Pois vamos ver.
— Ele próprio me disse — murmurou Natalie. A irmã concordou com a
cabeça.
— Pode ter dito, mas Jason não sabe o que é bom para ele.
— E você sabe, suponho? — Levantou as sobrancelhas, irônica.
— Ah, sei! Sei exatamente o que é bom para ele e para mim — afirmou,
enfática.
Podia ter razão, mas era a única que achava isso. Adam ia dar um jeito
para que o cunhado nunca mais saísse do bom caminho.
— Judith — tentou dissuadi-la. — Deixe-o ir. Ele não é livre e nunca será.
Adam é um homem poderoso...
— Ah, pois é Adam, seu amante — escarneceu a irmã.
— Não é mais — murmurou Natalie.
— Não conseguiu engolir nosso parentesco, hein? Que homem burro!
— Judith...
— Meu Deus!— Os olhos da irmã se estatelaram ao ver a agonia no rosto
pálido de Natalie. — Você ama aquele homem!
Ela corou.
— E por que não? Se você pode amar alguém como Jason Dillman, é claro
que posso amar um homem honesto como Adam.
— É claro. — A irmã fez um muxoxo desinteressado. — O poder de Adam
Thornton não me amedronta. Jason não vai agüentar a vida inteira essa
interferência. Vou ficar esperando até quando ele der o fora.
— Não foi por estar cansada de esperar que você resolveu contar tudo à
mulher dele? — perguntou Natalie, com amargura.
Judith sorriu.
— Não se preocupe. Não vai durar muito.
Era difícil duvidar da segurança da irmã e da convicção de suas palavras.
Judith amava mesmo Jason Dillman, mesmo conhecendo seus defeitos. Mas essa
situação nunca teria um fim feliz.
— Papai e mamãe sabem de tudo — acrescentou Judith, displicente. —
Telefonei ontem e contei.
— Por Deus, não! — gemeu Natalie.
— Verdade. — A irmã sorriu. Ela engoliu em seco.
— E o que foi que disseram?
— Foram maravilhosos, muito compreensivos. Anime-se, Natalie, quando
Adam se acalmar, vai ver o bobo que foi.
Natalie se jogou numa poltrona, depois que Judith saiu, perplexa com a
calma da irmã. Duvidava que ela tivesse contado tudo direitinho aos pais.

— Posso entrar? — perguntou uma voz tímida. — A porta estava aberta e...
— Tracy! — exclamou, com a voz presa na garganta, ao ver como a moça
tinha mudado desde o dia anterior. Sempre fragilmente bela, Tracy parecia,
naquele momento, de porcelana, o rosto lívido, os olhos enormes e fundos. De
repente, Natalie se lembrou. — Meu Deus, Judith...
— Escutei a conversa de vocês duas e não entrei para não atrapalhar.
Ela engoliu em seco.
— Escutou o que dissemos?
— Escutei. Escutei tudo sobre Jason.
Natalie umedeceu os lábios, nervosa, e se levantou.
— Judith falou por falar. Não vai mais dar trabalho. Jason nunca vai deixar
você.
— Acha que não?
— Não — disse com segurança, certa de que Adam tomaria as providências
para que isso não acontecesse.
— Espero que esteja enganada, Natalie. Espero, sinceramente, que esteja
enganada.
Natalie pestanejou.
— Por quê?
— Porque se eu tiver que passar mais um dia de minha vida com Jason,
fico louca!

CAPÍTULO X

Natalie não disfarçou o espanto.


— Mas como, Tracy?...
— Posso me sentar? — Ela parecia estar meio tonta.
— É claro. — Levou-a até uma cadeira, Tracy tremia. — Vou fechar a porta.
— Tracy olhou para Natalie, mas em seus olhos azuis havia uma grande
determinação, apesar de sua aparência mais etérea do que nunca, e de uma
beleza dolorosamente trágica.
— Estou falando a verdade, Natalie — disse, com firmeza. — Não posso
mais viver com Jason.
Natalie cruzou as mãos, desorientada, sem saber o que fazer para ajudar
Tracy.
— Adam acha que eu devia ficar com ele...
— Adam acha? — Não era possível. Pelo que Adam lhe dissera, sua vontade
era de que Jason não ficasse nem no mesmo país que Tracy.
— É — disse a outra, pesadamente. — Tive que esperar que ele saísse lá de
casa para vir até aqui.
Pobre Adam, todo mundo fugiu, depois que ele virou as costas.
— Tenho certeza de que o que Adam quer é que você seja feliz.
— Com Jason? Como uma mulher pode ser feliz com ele? É cruel, egoísta, e
eu o odeio! — Tracy terminou, engasgada, o rosto escondido nas mãos. — Eu
tentei, Natalie, tentei tanto! Mas não agüento mais. Se Adam me forçar a voltar
para ele, eu morro!
— Mas ele não vai fazer isso — afirmou Natalie, segura. — Se você não quer
voltar, não vai ser ele quem vai obrigá-la. Ele só quer que você seja feliz, Tracy.
— Mas ontem... — sacudiu a cabeça — ontem ele me disse que ia obrigar
Jason a ficar comigo.
— Porque ele acha que é isso o que você quer! — Tracy estremeceu.
— Não quero mais. Nunca mais.
Natalie sentou-se no chão, pertinho da moça.
— Conte-me, Tracy — encorajou mansamente. — Converse comigo. —
Tinha certeza de que Tracy, desde que se casara com Jason, nunca havia
conversado sobre seus sentimentos com ninguém.
Tracy ficou parada, voltada para dentro de si.
— Eu era tão feliz no começo, estava apaixonada, acho eu. Adorava ser a
mulher dele. Mas Jason não gostava nada de ser um marido. — Havia em sua voz
amargura. — Para começar, odiava as restrições que um casamento impõe. Mas
eu não sabia disso, estava tão presa aos meus próprios sentimentos que nem
percebia que Jason não sentia a mesma coisa. Estávamos casados a seis meses
quando ele teve seu primeiro caso.
— Primeiro?... — Natalie repetiu, lembrando-se que Adam tinha lhe dito
que Tracy não sabia dos outros.
— Jason sempre teve outras mulheres — contou Tracy. — Na primeira vez
pensei muito, e assumi metade da culpa pela traição dele. Estava tão embevecida
em ser a sra. Jason Dillman, que até me esqueci do sr. Jason Dillman. Fiz tudo o
que pude para remediar isso, para mostrar o quanto eu o amava e desejava. —
Estremeceu.
— Três meses depois teve outra mulher. Durou dois meses. O caso seguinte
durou seis meses. O outro, quatro. O outro...
— Chega, Tracy — Natalie apertou a mão dela, consolando-a. Entendia a
sua dor.
Tracy engoliu em seco.
— Sei quanto tempo durou cada um deles, ao longo desses sete anos. Uma
mulher sabe, descobre essas coisas. Mas nunca havia uma amante dele antes,
sabendo que era a amante. Só agora. Qualquer uma de nossas conhecidas podia
ser seu último caso.
— Minha irmã é uma sem-vergonha! — Tracy sorriu, amarga.
— Não a culpe. Jason é muito sedutor, quando quer.
— Por que não o largou há anos?
Tracy suspirou e deu de ombros.
— Casei-me com Jason contra a vontade de Adam. Ele sempre tomou conta
de mim, me protegeu, desde que nossos pais morreram, quando eu tinha
dezessete anos. Apaixonei-me por Jason numas férias, sem perceber que ele
estava atraído pelo meu dinheiro.
— Você subestima sua beleza...
— Não. Jason tem gostos caros e, como meu marido, podia satisfazê-los.
— Você ainda não explicou porque não o deixou.
— Por causa de Adam.
— Adam?
— Não queria magoá-lo. Já tinha feito isso ao me casar com Jason e não
queria repetir a dose. Ele ia ficar machucado.
— Não!
— É sim — suspirou a outra.
Natalie sacudiu a cabeça. Que situação irônica! Como podiam, irmão e
irmã, que se amavam tanto, se enganar assim, a respeito de suas emoções mais
verdadeiras?
— Fiz o possível para salvar meu casamento — continuou Tracy. — Tentei
ser a mulherzinha obediente que Jason queria. Às vezes não era nada fácil, era
quase impossível.
— Mas ninguém podia adivinhar o que estava sentindo.
— Ninguém devia adivinhar!
— Principalmente Adam.
— Principalmente Adam — concordou Tracy. — Mas não agüento mais.
Escutei o que sua irmã disse sobre você e Adam e sinto muito que vocês tenham
brigado. Mas posso ficar aqui enquanto resolvo o que fazer com o resto da minha
vida?
Natalie não hesitou.
— Fico contente que tenha me procurado. — Apertou a mão da outra. —
Tentei vê-la, ontem à noite.
— Adam me disse. Foi por isso que achei que podia me ajudar, e me deixar
ficar aqui por uns dias. Estou tão cansada! — Pôs a mão na testa, como se
doesse. — Tão cansada!
— Então, vá dormir. — Natalie levantou-se. — Vá para o meu quarto e
durma. Quando você acordar, continuaremos a conversa.
— Obrigada. — Tracy pegou a mão dela, agradecida. — Não tinha para
onde ir, e você tem sido tão boa para mim.
— Estou feliz por ter vindo para cá. Venha, vou lhe mostrar o quarto, vá
descansar. Vai ser mais fácil pensar quando estiver menos cansada. — Levou-a
até o quarto e preparou a cama. — Durma o mais que puder. Ninguém vai
incomodá-la.
— Preciso dormir mesmo. — Tracy afundou na cama, exausta, tirou os
sapatos, fechou os olhos e dormiu imediatamente.
Natalie ficou olhando para ela, para a boca vulnerável de menina, a ruga na
testa. Pobre Tracy, quanta infelicidade na vida! Mas não havia razão para
prolongar o sofrimento. Adam a amava, faria tudo por ela, e a ajudaria a se
recuperar das ruínas do seu casamento.
Natalie voltou à sala e ligou para o apartamento de Adam. Foi com alívio
que escutou sua voz.
— Você podia vir até aqui, Adam?
— Natalie? — rugiu ele, impaciente.
— É.
— Não tenho tempo para conversar com você agora, Natalie, não posso ir aí
de jeito nenhum. A empregada de Tracy me telefonou, dizendo que ela
desapareceu.
— Ela está aqui, Adam.
— Aí? — explodiu, incrédulo.
— É. Veja você... — A linha caiu.
Passaram-se poucos minutos e ele chegou. Natalie deixou-o entrar, sem
falar nada, e ele a seguiu até a sala. Observou-o enquanto ele olhava em torno,
impaciente. Estava abatidíssimo, mais cansado ainda do que Tracy. Natalie queria
alisar as rugas daquela testa, amaciar a dureza daquele rosto. Mas sabia que ele
rejeitaria qualquer gesto seu de ternura.
Finalmente seus olhos se fixaram nela, duros, gelados, mostrando todo o
seu desprezo.
— Disse que Tracy estava aqui. — Era uma acusação.
— Está dormindo. Não, Adam — ordenou, ao ver que ele ia para o quarto.
— Não a perturbe — disse, rude. — Ela precisa dormir.
— Aqui?
Ela corou com o sarcasmo da voz dele.
— Veio aqui porque precisava falar com alguém.
— Com você? — Contraiu a boca.
— É, comigo! Sinto muito por você ter que “ver meu rosto bonito outra vez”!
— Lembrava-se bem das amargas palavras de despedida da noite.anterior. — Mas
sua irmã não me culpa de nada. Na verdade...
— Sim? — Esperou que ela continuasse. Natalie evitou seus olhos.
— Acho melhor que a própria Tracy conte para você.
— Contar o quê?
— Eu não devo....
— Conte-me já, Natalie! — Virou-se, machucando-a de propósito. Não
pestanejou ao enfrentá-lo.
— Se Tracy quiser falar com você, ela fala. E se o fizer — umedeceu os
lábios, nervosa, — escute-a, Adam.
— O que quer dizer com isso? Sempre escutei Tracy. Ela... — Natalie
suspirou.
— Não seja tão sensível. Adam! Não estou criticando ninguém. Sei como
gosta de sua irmã e sei também que só quer ajudá-la.
— E daí?
Ela deu de ombros.
— Vocês não estão se entendendo.
— Como?
— Vai ter que esperar que Tracy acorde para discutir esse assunto com ela.
— E quando vai ser isso?
— Não tenho idéia. Pelo jeito, daqui a algumas horas.
— Meu Deus! — Afundou numa poltrona, passando a mão pela testa
franzida.
— Parece cansado, também. — Natalie ficou na frente dele. — O quarto
está ocupado, mas você pode dormir naquela poltrona.
Ele a olhou, desconfiado.
— Por que está fazendo isso?
— Organizando um hotel para a família?
— É.
— Porque fui bandeirante quando menina — caçoou, — sempre pronta a
ajudar. Ou talvez porque goste de ser acusada e castigada. — Deu de ombros. —
Quer a cadeira ou não?
Adam relaxou um pouco.
— Prefiro o sofá.
— Fique à vontade.
Ele era comprido demais para o sofá, os pés ficavam para fora e teve que
mudar de posição várias vezes, antes de se acomodar.
— Inferno! — murmurou ele, levantando-se para tirar o casaco, e colocando
umas almofadas no assento, antes de se esticar outra vez.
— Está melhor assim?
— Muito — murmurou. — Mas não tinha percebido como esse sofá é
desconfortável, da outra vez que me deitei nele. Acho que era porque você estava
comigo. — Seus olhos se encheram de calor, contra a sua vontade. — Quer ficar
junto de mim?
Ela engoliu em seco, mas se acomodou na cadeira em frente a ele, sentada
sobre as pernas.
— Dessa vez, não. — Balançou a cabeça.
— Era o que pensava que você ia responder. — Fechou os olhos. Alguns
minutos depois, pela sua respiração ritmada, Natalie viu que ele dormia. Pegou
um cobertor no armário e cobriu-o com cuidado.
Os minutos passaram em silêncio e até Natalie tirou uma soneca na
cadeira, apesar de consciente de cada barulhinho. Acordou sobressaltada,
quando Adam gemeu e esticou as pernas entorpecidas.
Depois disso, ela continuou acordada, memorizando todos os detalhes de
seu rosto e de seu corpo.
Não teria outra oportunidade de vê-lo assim, tão vulnerável.
Finalmente, uma hora depois, ele começou a acordar, espreguiçando-se,
cansado ainda, com cãibras por causa da posição forçada. Olhou meio assustado.
— Dormi muito?
— Mais de uma hora. — Pôs os pés no chão. — Quer uma xícara de café?
Adam se sentou, passou a mão pelo cabelo despenteado, afastando-o do
rosto.
— Não se importa de pôr um pouco de uísque nele?
— De jeito nenhum. — Sorriu. — Já comeu, hoje?
— Não, que eu me lembre. Não seja muito bondosa, Natalie, se não começo
a me sentir um estúpido.
Ela contraiu os lábios.
— Isto quer dizer que ainda não se sente? — Interpelou duramente, e foi
para a cozinha.
Tremia ao chegar lá, e recostou-se no fogão. Também estava cansada e com
fome.
Mas já tinha se controlado quando levou o café para Adam, tendo o cuidado
de evitar qualquer contato com ele. Voltou à cozinha para preparar um pequeno
almoço. Ao lhe contar que Tracy estava lá, não sabia que teria que passar tanto
tempo sozinha com ele. A tensão já estava demais.
— Natalie...!
Girou nos calcanhares e viu que Adam a tinha seguido, e que estava ali,
junto dela, na cozinha apertada.
— Vou cozinhar alguma coisa. — Recuou, desajeitada.
— Isso pode esperar. — Sacudiu a cabeça, olhos muito intensos. — Acho
que precisamos conversar.
— Já conversamos — lembrou ela amargamente.
— Eu falei, mas não deixei que você dissesse nada. Acho que posso ter me
enganado sobre você.
— Só acha? — zombou.
— Que diabo, Natalie, não sei mais o que pensar. Você...
— Adam!
Os dois se viraram, e lá estava Tracy, pálida, na soleira da porta. Lançou
um olhar acusador para Natalie e correu para o quarto, para pegar seus sapatos,
disposta a fugir dos dois.
— Vá atrás dela — encorajou Natalie. — Faça com que fale com você.
— Está bem. — Segurou-a pelo braço. — Mas depois quero conversar com
você.
— É isso mesmo o que quer? — perguntou, cansada.
— É. — Ela corou.
— Depois que falar com Tracy.
Ele se virou depressa e foi atrás da irmã, fechando a porta do quarto para
maior privacidade. Natalie ficou na cozinha, pois não queria ouvir a conversa dos
dois.
Não ia nem pensar no que poderia conversar com Adam, pois não queria
alimentar esperanças tolas. Nunca mais iam voltar ao antigo relacionamento,
mesmo que quisessem. Havia acontecido muita coisa.
Meia hora depois, Adam entrou na cozinha, branco, e Natalie lhe entregou
uma xícara de café.
Ele tomou um gole, nem percebendo a quantidade de uísque que ela havia
posto.
— Não tinha a menor idéia — murmurou ele, pesado.
Ela pôs a mão no seu braço, consolando-o, percebendo a confusão dele.
— Não dava para saber, ninguém sabia.
Ele se sentou numa das banquetas do bar e escondeu o rosto nas mãos.
— Nem posso acreditar. Sete anos — gemeu. — Sete anos de uma bela vida
desperdiçados! — Olhou Natalie, torturado. — Bem, ela já viveu bastante nesse
erro. Agora chega. Nunca mais vai ver Jason.
— Ela pode ficar aqui.
— Obrigada, Natalie. Mas acho que seria melhor ela sair de Londres por
algum tempo. Jason não vai desistir sem luta, e Tracy já sofreu o bastante em
suas mãos. Vou levá-la para casa de uma tia, fora da cidade. E, quando voltar,
quero falar com você. — Levantou-se e pegou-a nos braços, tremendo. — Eu...
— Adam? — Tracy chamou da sala. — Ah, desculpe-me. — Foi andando,
desconcertada, para a porta.
— Tudo bem. — Natalie saiu dos braços de Adam e foi até a outra, pálida,
mas recomposta, já mais segura de si. — Você me perdoa?
— Estou é muito grata! — Tracy a abraçou, sorrindo. — E tenho certeza de
que Adam também. — Olhou o irmão com indulgência.
O sorriso de Natalie parecia grudado no rosto, ao se despedir dos dois. Mas
quando sumiram, ela deixou cair a máscara.
Gratidão! Desde o começo o relacionamento deles estava baseado em
emoções erradas — necessidade, desejo, carência, ódio e, finalmente, gratidão.
Não queria a gratidão dele, queria o seu amor. E não queria aceitar nada menos
do que ser sua mulher.

Já eram quase dez horas quando a campainha tocou, avisando-a que ele
tinha voltado. Já tinha até desistido da idéia de vê-lo ainda naquela noite.
Ele tinha passado em casa e vestido uma calça de brim e uma camisa
justa, marron. O cabelo estava lavado e brilhante, a barba bem-feita. Natalie se
sentiu desarrumada perto dele, com aquela calça amarrotada, o rosto limpo, o
cabelo despenteado.
— Como está Tracy? — perguntou, quando se sentaram.
— Em frangalhos, mas serena. Vai levar muito tempo para se recuperar
desse casamento com Jason, mas, no fim, acho que vai dar tudo certo.
— Tenho certeza disso — concordou Natalie, muito confiante na força de
caráter da outra.
— Eu pensava mesmo que ela o amava. Não entendia como, mas...
— Eu sei.
— Nunca teria feito que vivessem juntos, se não estivesse tão enganado. Vi
Jason — acrescentou, pesadamente.
— E daí?
— Está desestruturado. Ele também pensava que Tracy o amava. Mas não
pensa mais. Não sei o que deu em mim, mas tive um enorme prazer em lhe dizer
com detalhes o que Tracy acha dele.
— Lógico, você é irmão dela — disse Natalie. — Nem sei como agüentou
tantos anos.
— Por incrível que pareça, no fim tive pena dele.
— Não precisa ter pena. Acha que ele vai voltar para Judith? — Era o que,
sua irmã esperava.
— É possível. O que é que você acha? De certo modo são parecidos.
— Eles se merecem. É o que você quer dizer, não é?
— E você e eu? — Sentou-se na ponta da cadeira. — Nós dois nos
merecemos?
Ela ficou tensa, por ele falar neles como se fossem um casal. Não eram,
nunca tinham sido. Partilhavam de um desejo que nenhum dos dois podia negar.
— Acho que não. — Desviou os olhos.
— Não faça isso. — Sentou-se à sua frente, no chão. — Não me dê o fora
outra vez, Natalie — implorou.
Ela endureceu o coração.
— Por que não? Você se afastou de mim primeiro.
— Ah, meu Deus! — gemeu ele, com os olhos faiscantes. — É, eu me afastei
de você — admitiu, vencido. — Porque, pela primeira vez na minha vida, eu
estava apaixonado e não sabia como lidar com essa emoção. Nunca uma mulher
se entregou a mim como você. Não sabia como aceitar esse amor que me chegava.
Quando o caso de Tracy estourou, senti-me traído por você.
Natalie estava sufocada.
— Apaixonado? — Só aquilo importava, no momento.
— É — admitiu ele, sardônico. — Amo-a tanto que nem consigo pensar
direito, o tempo todo.
— Mas você nunca disse...
— Não. É verdade. Sabe, nunca tive certeza de seus sentimentos. Quando
fizemos amor e descobri que era o primeiro, achei que devia significar alguma
coisa para você. Você falou que me amava e...
— Então, escutou! — Ela ficou vermelha.
— Escutei — disse, mansamente. — Mas não sabia se você queria mesmo
dizer que me amava ou se era uma manifestação do prazer que sentíamos ao fazer
amor. Você nunca repetiu.
— E você nunca me disse!
— Estou dizendo agora — afirmou, calmo. — Amo-a tanto, Natalie, que não
posso viver sem você. Nunca me apaixonei antes, e não confio muito nessa
emoção...
— Como não confia em mim — lembrou ela, amarga. Adam se levantou, os
ombros caídos, pronto para sair.
— Feri você demais, não foi? — murmurou.
— Desconfiou demais — corrigiu ela, rouca. — Como pode amar alguém, se
não acredita em uma palavra do que essa pessoa diz?
— Não sei — respondeu ele, inexpressivo, o rosto marcado. — Mas eu amo
você e preciso de você.
— Já sou sua, Adam. Você é que não me quer mais.
— Disse aquilo num momento louco, de raiva!
— Mas disse.
— Você também me disse coisas de que se arrependeu depois. Sempre
acreditei que nunca é tarde demais para pedir desculpas a alguém. E estou
arrependido, Natalie. Por que não acredita em mim?
Ela acreditava, ele jamais se humilharia daquela maneira se seus
sentimentos não fossem verdadeiros. Mas amar não era o suficiente. Era gulosa, e
o queria todo, inteiro.
Adam achou que o silêncio dela dizia tudo.
— É melhor eu ir embora, então — murmurou.
— Está certo — sussurrou ela, sem saber como agüentar a partida dele.
— Eu daria um bom marido, Natalie. Você é a única mulher que amei. E se
não posso tê-la, não vou querer mais ninguém.
Natalie ficou atônita com a palavra usada por Adam. Marido... Ele queria
que ela fosse sua mulher!
— Eu a amo — disse ele, do fundo da alma. — Eu a amo de ver dade. —
Virou-se para ir embora.
— Adam! — Pulou da cadeira e correu para ele. — Você disse a palavra
marido?
Ele franziu a testa.
— Disse.
— Mas para ser marido é preciso casar. — Ele concordou.
— É o costume, não é?
— E para ser meu marido tem que se casar comigo — teimou ela,
impaciente.
— Não consigo imaginar outro jeito.
— Nem eu!
A expressão dele se desanuviou.
— Está me pedindo em casamento, srta. Faulkner?
— Não, eu...
— Ora essa! — A tensão foi-se embora e ele começou a rir. Abraçou-a,
puxando-a para junto de si. — Está bem, Natalie. Vou pedi-la. Quer se casar
comigo? — Ficou sério, de repente.
— Quero! — Enlaçou seu pescoço com os braços. — Ah, eu quero muito! —
Faiscava de amor. — Eu o amo, eu o amo, eu o amo! — Cobriu seu rosto e seu
pescoço de beijos.
Adam riu, exultante.
— Acho que gosta mesmo de mim.
— Ah, se gosto!
— O bastante para se casar na semana que vem?
— O bastante para me casar a qualquer hora. — Ele apertou-a mais.
— Seria já, se desse. Infelizmente não dá.
— Não tem importância. — Olhou-o, amorosa. — Fique comigo até que nos
casemos.
Ele sacudiu a cabeça, antes que ela parasse de falar.
— Devo a você uma noite de núpcias digna, uma noite de núpcias legal —
beijou-a de leve na boca, — e vai ter uma, prometo. Fui tão bobo, você é
exatamente o que eu pensava: bonita, inteligente...
— Calculista... — caçoou ela.
— Não faça isso! Detesto ser idiota, e foi o que mais fui para você.
Natalie acariciou seu queixo.
— Lembro-me de várias ocasiões em que foi até muito esperto.
— Não me tente. — Empurrou-a, decidido. — Da próxima vez em que fizer
amor com você, será com uma aliança no seu dedo para o resto da vida.

Natalie atendeu o telefone, distraída e preocupada com as contas que


estava fazendo, e jurando, pela centésima vez, que ia arranjar um contador para
ajudá-la.
— Srta. Faulkner? — perguntou uma voz de homem.
— Sim.
— Srta. Faulkner, temos uma reunião dentro de meia hora — informou a
voz autoritária. — Mas já estou livre.
Natalie sorriu.
— Mas eu preciso conferir minha agenda.
— Então faça isso. — E desligou.
Com movimentos calmos, serenos, fechou o fichário, pegou a bolsa e
passou na recepção.
— Tenho que sair, Dee. Pode telefonar para Tracy e pedir a ela para vir hoje
à tarde ao invés de amanhã?
— Pois não — concordou a amiga, rindo.
Natalie saiu cantarolando ao sol de verão e entrou no carro.
O elevador parecia uma tartaruga e demorou a chegar ao último andar.
Entrou direto no hall. Morton pegou seu casaco e desapareceu quando Adam
entrou, vindo do banheiro.
— Quero que saiba que tive de cancelar um encontro com Tracy — disse,
ofegante, tonta só de vê-lo.
— Tenho certeza de que ela não vai se importar. — Andou até ela, olhando-
a firmemente.
— Está indo muito bem como garota fantasia, não é?
— Muito bem. — Adam abraçou-a.
O mundo todo tinha aceitado Tracy como garota fantasia. Sua imagem era
perfeita e o toque de tristeza nos olhos aumentava o ar de mistério.
— Meus pais telefonaram hoje de manhã. Jason e Judith vão se casar.
— É mesmo? — Não estava muito interessado.
— Hum, hum — confirmou. — Acho que eles se amam.
— Talvez. — Beijou seu pescoço.
Jason e Judith tinham ido embora para os Estados Unidos poucas
semanas depois do casamento de Jason se dissolver. O fato de se casarem
provava que realmente gostavam um do outro. Natalie se lembrava da expressão
intensa de Jason, ao dizer que tinha uma obsessão por Judith. Mas duvidava que
o casamento deles fosse tranqüilo e cheio de paz!
— Sabe porque precisava vê-la? — Adam interrompeu seus pensamentos.
Ela sorriu, esquecendo-se da irmã e de Jason. Seus pais estavam felizes
por eles terem legalizado a união, depois do choque com o comportamento da
caçula.
— Faço uma idéia — respondeu Natalie, e deu risada.
— Pensei em você a manhã inteira, querida.
— Mas são só onze horas!
— Já faz horas que fizemos amor — gemeu Adam. — Já para a cama!
— Com todo o prazer.

Mais tarde, pôs a cabeça no ombro dele, fazendo desenhos no seu peito
com a unha, apreciando o calor de sua pele. Morton havia se tornado muito hábil
em desaparecer nos últimos dez meses, e Natalie corou, ao pensar que grande
parte desse tempo ela e Adam tinham passado juntos, na cama.
— É melhor aproveitar bem. — Riu para ele. — Logo, logo, não vamos poder
passar a hora de almoço na cama.
— Não. — Adam contornou a barriga dela com a mão, acariciando a
gravidez de cinco meses, que já aparecia no corpo esguio. — Tem só uma coisa. —
Levantou a sobrancelha.
Ela estava satisfeita, relaxada, sorrindo. — O quê?
— Acho que está na hora de mudar o nome dessa agência. Se eu a chamo
de srta. Faulkner e responde, o que vão pensar quando virem essa barriga?
— Que tenho um amante muito viril! — Adam riu.
— Na verdade tem é um marido obcecado por sexo!
— É isso mesmo. — Riu com ele. — Além disso, Adam Thornton já tem o
monopólio de muita coisa por aqui, e não precisa controlar minha agência.
Ele rolou na cama e segurou-a.
— Tenho monopólio sobre você?
— Não, não tem mais. Logo seu filho ou sua filha terão um bom pedaço de
mim.
— Se for a única competição, não me importo. — E começou a beijá-la.
Natalie se deslumbrava com o amor apaixonado que ainda sentiam um pelo
outro, depois de quase um ano de casamento. Logo teriam uma criança, como
resultado daquele amor. Talvez estivesse mesmo na hora de mudar o nome da
agência para Thornton. Ia continuar dirigindo a agência como consultora, mesmo
depois que o bebê nascesse. Dee passaria a administrar tudo, com o auxílio de
uma secretária.
Adam lhe tinha dado tudo: o orgulho de ser sua mulher, e a honra de lhe
dar um filho. E tudo isso sem acabar com a sua independência, o que a ligava
ainda mais a ele. É... Adam era um homem inteligente, que a conhecia mais do
que ela própria, prendendo-a com um amor que crescia a cada dia que passava.

Fim