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EVOLUÇÃO E EVANGELHO

PREFÁCIO .................................................................................................................................................................. 3

I. DO PASSADO AO FUTURO ................................................................................................................................. 3

II. O EVANGELHO E O MUNDO ........................................................................................................................... 8

III. MATERIALIZAÇÃO OU ESPIRITUALIZAÇÃO ........................................................................................ 13

IV. AS RELIGIÕES E A VERDADE...................................................................................................................... 19

V. A IGREJA ............................................................................................................................................................. 24

VI. DINÂMICA DA EVOLUÇÃO .......................................................................................................................... 29

VII. O FUTURO DO HOMEM ............................................................................................................................... 34

VIII. O PROBLEMA DA MORAL - I .................................................................................................................... 40

IX. O PROBLEMA DA MORAL - II ...................................................................................................................... 46

X. REUNIFICAÇÃO UNIVERSAL ........................................................................................................................ 53

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)....................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 3
do um caso? Não permanece tudo como antes? Jamais nos con-
EVOLUÇÃO E EVANGELHO vencemos com a experiência alheia, só com a própria. Muitos
continuarão céticos, porque se acham mergulhados numa ver-
PREFÁCIO dade bem diferente, tangível e premente. Indicar-lhes a maneira
de se libertarem dela significa pretender que se afastem de seu
O presente livro é o 6o da II Obra. Ele segue o 5o volume, A próprio tipo biológico, de sua forma mental e personalidade,
Grande Batalha, do qual é uma continuação e ampliação, junto que constituem suas reais condições de vida. Os fatos em que
com ele constituindo o 1o termo da 2a Trilogia da II Obra. se baseia sua existência falam diversamente, mostrando-lhes
uma realidade diferente. Dessa forma, são coagidos a acreditar
Como expliquei no prefácio de A Grande Batalha, onde o
nesta realidade, na qual, portanto, têm de fundamentar-se na vi-
leitor poderá melhor conhecer o sentido da minha produção in-
da prática. Também acontece assim quando, mesmo a ciência
telectual neste período e encontrar mais pormenorizadas expli-
nos ensinando que a matéria seja apenas energia e velocidade, a
cações, estes dois volumes representam a fase de descida do
maioria continua, pelos usos do contingente, a considerá-la co-
terreno das grandes visões orientadoras à dura realidade da vida
mo sólida, inerte e resistente, pois este é o modo como ela se
na prática, feita de lutas e dificuldades, num mundo que deseja
comporta e é usada na prática. Então a noção científica da ver-
e quer realizar coisas bem longe de um ideal superior. No de-
dadeira estrutura da matéria permanece um fato teórico, do qual
senvolvimento da Obra estamos, então, numa fase de atuação,
não tomamos conhecimento em nossas ações.
porque os princípios gerais são agora levados ao contato com
Pode acontecer o mesmo com a verdade do Evangelho.
os fatos concretos, isto é, com o mundo não como deveria ou
Mesmo que alguns, por inteligência e raciocínio, possam reco-
poderia ser, mas como ele é na realidade.
nhecê-la, o homem comum – pelo fato de estar essa verdade si-
Disso nasceu um choque que, em A Grande Batalha, foi
tuada em outro plano de vida, numa posição mais avançada ao
analisado sob um ponto de vista individual, como consequência
longo da escala da evolução – pode considerar o Evangelho
de experiências pessoais, e, neste volume, Evolução e Evange-
como uma grande verdade de fato, mas tão superior, que não
lho, é observado sob um ponto de vista coletivo, isto é, como
lhe diz respeito, porque, encontrando-se fora de sua realidade, é
um choque entre os superiores princípios ideais do Evangelho e
impraticável para ele. Então, para que serve esta narração? Os
o nosso mundo, que, na realidade, vive segundo princípios
céticos, depois de tantas belas palavras, voltarão à realidade do
opostos. É assim que, no presente livro, o assunto de A Grande
mundo, que lhes dá razão a cada momento.
Batalha é transferido para além dos limites do caso particular,
Continuemos a ser práticos. O homem se encontra diante de
situando-se no mais vasto terreno social e religioso, ético e bio-
outra realidade, tão concreta e positiva, que não permite dúvidas
lógico. Desse modo, a visão desenvolvida neste 2o volume
a seu respeito. A luta pela vida é um fato. E, se cada um de nós
completa a do volume anterior e o fenômeno fica estudado nos
está vivo na Terra, deve isso ao fato de ter realizado e vencido
seus dois aspectos: o particular, da luta individual entre o evo-
essa batalha. O Evangelho poderá, sem dúvida, ser a lei do futu-
luído e o involuído, e o universal, da luta entre os ideais e a rea-
ro da humanidade, mas não é certamente a lei do seu passado. E
lidade da vida humana. Assim, de ambos os pontos de vista,
o homem, mesmo tendo de se tornar diferente para o seu futuro,
nos dois volumes, é analisado o problema da possibilidade da
é formado por aquele seu passado. A grandeza dos povos e das
realização do programa evangélico de Cristo em nosso mundo.
civilizações é feita através de lutas ferozes, e, se a humanidade
Tudo isto foi pessoalmente vivido e experimentalmente rea-
chegou até ao estado atual, deve isso ao fato de ter sabido, com
lizado, observando como o fenômeno, nas suas duas dimensões,
todos os meios, vencer os elementos, as feras e os inúmeros ini-
particular e universal, desenvolveu-se no meio da luta entre as
migos prontos a atacá-la. Assim se explica essa psicologia de lu-
forças materiais do Anti-Sistema e as espirituais do Sistema,
ta, pois só ficou vivo quem soube vencer. Esta foi a lição mais
princípios que aqui vemos funcionando nas suas aplicações prá-
importante que o homem teve de aprender no passado. E, se aca-
ticas. Esta é uma história cuja revelação se iniciou na introdu-
so foi alcançada alguma forma de civilização, esta teve de ser
ção do livro Profecias, “Gênese da II Obra”, continuou no vo-
imposta com a força a um ambiente hostil, já que todas as outras
lume seguinte, A Grande Batalha, universalizou-se neste, Evo-
formas de vida eram inimigas do homem e procuravam apenas
lução e Evangelho, e continuará nos demais, sempre e cada vez
esmagá-lo, para substituírem-se a ele na vida. O homem come-
mais em contato com a realidade da vida neste mundo, como
çou o seu caminho entre as feras, e não entre os braços do Pai
conclusão prática e positiva da II Obra e como controle racional
Celestial, que estava então bem longe de poder revelar-se, como
e confirmação experimental, que provam a verdade dos princí-
o fez depois, por meio de Cristo, no Evangelho e como sempre
pios sustentados em todos os volumes.
mais poderá fazer à medida que subimos com a evolução. Sem
dúvida, esse é o caminho e nesse sentido temos de nos transfor-
São Vicente, Páscoa de 1958. mar. Mas isto não anula o fato de que esse foi o nosso passado e
de que ele explica o nosso presente.
I. DO PASSADO AO FUTURO Eis que a uma tão longa história biológica vem sobrepor-se
o Evangelho, com a potência revolucionária das grandes coisas
A revolução evangélica. Do involuído ao evoluído, do pas- que descem do Alto, para obrigar o homem a avançar pelo ca-
sado ao futuro. Conhece-se o biótipo por sua reação. Sem minho da evolução. O passado resiste, forte em sua experiência
merecimento não há Providência. Cada um está no lugar que milenar. O futuro acossa, ansioso por vir à luz. Passado e futuro
lhe compete. Não se condena ninguém, mas urge civilizar-se. se encontram na luta presente, como dois inimigos irreconciliá-
veis, que disputam o campo. E o homem atual tem de viver no
A conclusão resultante da experiência narrada no volume meio desse terrível contraste.
precedente, A Grande Batalha, confirma que o Evangelho é de No volume precedente, A Grande Batalha, entramos, com a
fato verdadeiro. E isto não apenas como verdade teoricamente narração daquele caso vivido, no âmago dos maiores problemas
reconhecida e proclamada, mas também como verdade experi- da religião, da moral, da vida individual e social, bem como da
mental, comprovada pelos fatos. A prova deu resultado, e vi- evolução biológica. Demo-nos conta das dificuldades enfrenta-
mos quais as condições necessárias para que tivesse êxito. das e da necessidade de resolvê-las. Trata-se de pedir ao ho-
Agora perguntamos: bastará isso? Que desvio causará no mem que, seguindo o Evangelho, dê um grande salto a frente,
caminho humano o fato de termos narrado, demonstrado e vivi- ao longo da escala da evolução. Trata-se de aprender um novo
4 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
método de vida, que está nos antípodas do usual, substituindo o mundo: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou amará um e
sistema do involuído pelo do evoluído. Ao ensinar isto, é inevi- odiará o outro, ou se afeiçoará a este e desprezará aquele. Não
tável chocar-se contra a muralha das resistências biológicas, di- podeis servir a Deus e a Mamon”; “Procurai acima de tudo o
ante das quais até mesmo o Evangelho, tão poderoso pela sua reino de Deus e Sua justiça, e todo o resto vos será dado por
própria natureza, tantas vezes se acha defraudado. Como espe- acréscimo”; “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dê
rar um comportamento próprio de evoluídos, mesmo depois de aos pobres”; “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma
haver demonstrado todas as suas vantagens, num mundo em agulha do que um rico entrar no reino dos céus”; “Se alguém
que predomina outro tipo biológico? quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e me si-
Vimos que, no caso narrado, Cristo venceu. Muitos, porém, ga. Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem
poderão perguntar: mas Cristo vence sempre? O homem co- perder a sua vida por minha causa e do Evangelho, salvá-la-á”.
mum precisa calcular para garantir o resultado. Para ele, o jogo Todos nós sabemos bem quanto esses conceitos estão dis-
da vida está cheio de incógnitas e perigos, não lhe dando opor- tantes daqueles que regem a vida comum. Como pode o nosso
tunidade para fazer experiências evangélicas. Que garantias po- mundo conseguir viver nessa posição evangélica, se ela repre-
demos dar-lhe de que, mesmo no caso dele, homem comum, senta o seu mais completo emborcamento? Explica-se assim
Cristo vencerá sempre, se, para conseguir essa vitória, é neces- por que todas as religiões cristãs que adotaram o Evangelho
sário possuir tantos requisitos que ele não tem e satisfazer tan- possuem grandes riquezas e, embora professem o mandamento
tas condições que estão além de suas possibilidades? De que mosaico do “não matar”, não só tomam parte nas guerras como,
serve explicar-lhe uma arte, se ele não sabe praticá-la; ensinar- ainda por cima, benzem as armas. Assim, a descida do Evange-
lhe uma música, se ele não possui o instrumento para executá- lho à Terra se reduz a uma luta entre o ideal, que quer cortar as
la? Como pretender que uma criatura, obrigada a lutar pela sua garras à fera, e esta, que, para não morrer, não quer deixá-las
vida, sacrifique-a, pondo em perigo a própria vantagem materi- serem cortadas, considerando-as sua única defesa. Quem re-
al mais tangível, por amor de um ideal longínquo e hipotético? nuncia à vida? E como se lhe pode pedir tão extremo sacrifício?
Se não se pode exigir que o homem seja antiutilitário, como fa- Fazemos estas considerações porque devemos ter a coragem
zê-lo compreender um tipo de utilidade assim complexa e tão de penetrar completamente a realidade, até ao fundo. As nossas
diferente da que ele está habituado a realizar em forma imediata conclusões devem ser extraídas de uma observação imparcial
e concreta na vida cotidiana? Tanto mais é isto verdade, por- dos fatos, mesmo daqueles que possam depor contra a tese por
quanto o passado sobrevive e existe, garantido por longuíssima nós defendida até aqui. Sem dúvida, ela é extremamente ousa-
experiência, representando métodos diuturnamente comprova- da, no entanto trata-se apenas da velhíssima tese do Evangelho,
dos, ao passo que o novo cai no inexplorado, numa perigosa que, de tanto ser repetida, todos já conhecem de cor. O que a
aventura cheia de incógnitas. E quantos milênios de novas ex- torna ousada é tomar o Evangelho a sério, pretendendo não
periências serão necessários para sair das tentativas e poder pregá-lo, mas sim vivê-lo no mundo de hoje; é apresentar o
substituir, com segurança, o velho pelo novo! Evangelho pelo seu lado utilitário, demonstrando que ele dá
A revolução é grande e atinge até as raízes da própria vida. rendimento prático maior do que o obtido com os métodos usa-
Trata-se de substituir a força, pela justiça; a cupidez de possuir, dos pelo mundo, julgados melhores; é não mais fazer apelo à
pela honestidade; a luta desesperada para sobreviver, pelo amor bondade e à fé como sempre se fez – apelo inútil hoje, porque
evangélico; o poder da Terra, pelo do Céu. Trata-se de defender ninguém mais crê – mas apoiar-se na capacidade de raciocinar e
a vida e chegar à vitória unicamente com os recursos do im- calcular das pessoas inteligentes. Procuramos, assim, fazer
ponderável, abandonando todas as armas terrenas. Trata-se de compreensível ao homem moderno, que se vai civilizando, o
conseguir compreender e, depois, praticar um método que pare- funcionamento de tão maravilhosa máquina, que há dois milê-
ce emborcar todos os nossos recursos e defesas, levando-nos à nios o mundo tem entre as mãos, sem ter ainda compreendido o
morte. Quem não olhará para isso com medo, procurando pôr- fruto que ela pode dar, quando souber fazê-la funcionar.
se a salvo? Como pode alguém que, pela própria árdua experi- ◘ ◘ ◘
ência, conhece a realidade da vida confiar no Evangelho, se es- Apresentemos um caso prático. Fulano é bom, generoso e
te, em primeiro lugar, corta-lhe as garras, sua única arma dis- honesto, o biótipo que a luta pela seleção do mais forte e astuto
ponível para defesa? Explica-se assim porque tão poucos o le- vai cada vez mais fazendo desaparecer da face da Terra. Evan-
vem a sério e o vivam. Compreende-se também porque as reli- gelicamente, ele depôs as armas. Procurando só o bem e a justi-
giões que o têm por base tenham sido obrigadas a descer a tan- ça, está sempre pronto a sacrificar-se. Quer ser perfeito, como
tas adaptações. As experiências evangélicas que alcançam êxito diz o Evangelho: “Toma sua cruz e nega a si mesmo”.
na glória da santidade estão tão condicionadas a tantas circuns- Num regime de reciprocidade, numa sociedade organiza-
tâncias e requisitos, que o homem comum prefere não se arris- da, o próximo lhe retribuiria na mesma moeda. Mas, nas con-
car a tentá-lo. Quem possui no espírito tanto poder, que lhe dições atuais, o próximo, precisando pensar em primeiro lugar
permita dispensar qualquer outra defesa, jogando fora as armas em si mesmo, não retribui nada. As posses e a posição social
da força e das astúcias humanas? O Evangelho, sem dúvida, é alcançada constituem a base da estima e do valor de um indi-
uma máquina perfeita, mas quem possui todas as qualidades ap- víduo. O inimigo, ao ver que a vítima não só se deixa espoliar
tas a fazê-la funcionar? Quando isto se verifica, é certo que vem mas também o perdoa, aproveita-se largamente disso, sugan-
seguramente o milagre da salvação e do êxito. O mais difícil, do-a e pisando nela até fazê-la morrer. É próprio do homem
porém, é achar no homem essas qualidades, que são indispen- evangelicamente inerme ser o mais procurado pelos lobos vo-
sáveis para que aconteça o milagre. É como se entregássemos razes, que o farejam à distância e, uma vez em suas garras,
um belo avião a jato para um selvagem. Se este, por não saber não abandonam mais a presa. Para eles, este é o banquete da
usá-lo, não quiser se matar, voando, deve utilizá-lo para qual- vida, ao qual jamais renunciam.
quer outro fim, exceto aquele para o qual foi construído. Assim Nasce aqui então um problema. Tem a vítima o direito de se
também, em geral e na prática, acontece com o Evangelho. deixar devorar, só para engordar os lobos; de se deixar espoliar,
Até agora, nesta nossa narração, colocamo-nos no papel do só para enriquecer os ladrões? Não significa isto ajudar o mal a
homem evangélico. Coloquemo-nos agora na pele do tipo co- prosperar à custa dos melhores? Com essas considerações, o
mum, que vive no mundo, e adotemos sua psicologia e seus homem comum logo se sente autorizado à reação e põe-se a lu-
métodos. Com suas afirmações, o Evangelho estabelece de tar. Chama a isto de legítima defesa, direito à vida e coisas se-
imediato a mais nítida posição de inconciliabilidade com o melhantes, justificando assim a explosão de seu instinto, que
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 5
não esperava outra coisa para se manifestar e, com esta ação, admitir – dada a inteligência que a vida demonstra a cada passo
revela qual é a natureza do seu tipo biológico. Ora, a reação é – que não forneça meios defensivos para os seres superiores,
diversa segundo a natureza de cada um, e é a forma dessa rea- aos quais, justamente por isso, está confiada uma tarefa mais
ção que o revela. Quando o indivíduo reage dessa maneira, re- importante para a obtenção de seus fins. Eis a razão biológica
vela com isso seu biótipo normal involuído, sempre pronto a pela qual acontece aquele milagre que observamos no caso
imergir novamente na lei da animalidade, que representa o seu examinado no último volume1.
ambiente natural, ao qual são proporcionais os seus instintos. Se, nos planos mais baixos da vida, o ser é submetido à dura
Ora, para ele, vestir a roupagem do homem evangélico repre- escola da luta pela seleção do mais forte, isto tem sua boa razão
sentaria apenas um modo de enganar a si mesmo, porque suas de ser. Se não houvera essa premente necessidade de se manter
reais qualidades e instintos não correspondem à posição assu- sempre alerta para o ataque e a defesa, o que induziria o ser a
mida. Neste caso, teremos apenas um indivíduo deslocado, as- realizar experiências para aprender, desenvolver a inteligência e
sumindo uma posição falsa, que só pode levar à falência. Para assim evoluir? Devorar-se mutuamente constitui uma das maio-
voar e resistir ao voo, tirando proveito dele, é mister possuir as res ocupações do animal, tanto quanto fazer a guerra o é para o
qualidades do pássaro. Um réptil não pode fazer o mesmo. As- homem. Esta é a lei de quem vive nesse plano de vida. Mas isto
sim, para ser evoluído, é indispensável possuir suas qualidades, se torna absurdo tão logo se suba a planos mais evoluídos, on-
pertencer àquele determinado tipo biológico, porque nenhum de, para atingir os seus fins, a vida precisa realizar um trabalho
indivíduo pode achar-se em equilíbrio estável senão no seio da totalmente diferente. Para ela, conhecedora de tudo, não tem
lei de seu plano, que lhe corresponde aos instintos e à natureza. sentido um evoluído se exercitar no jogo de ataque e da defesa,
Ora, ao assalto supracitado só o evoluído pode responder porque é diferente a seleção que se deve fazer nos planos supe-
evangelicamente, porque só ele o sabe fazer, correspondendo riores. Então, para um evoluído, fazer semelhante trabalho é
isto às suas qualidades. Só ele sabe fazer funcionar a delicada perda de tempo, inútil dispêndio de energia, representando uma
máquina do Evangelho, só ele sabe pôr em movimento estas atividade atrasada e contraproducente. É natural então que a vi-
forças diferentes, inacessíveis aos outros, que não podem contar da, porquanto demonstra ser sábia e econômica, não dirija, com
com elas e, assim, desprezam-nas, porque são inutilizáveis. Só o mecanismo de suas forças, o ser para atividades que, neste ca-
esse tipo de homem pode permitir-se o luxo de viver um Evan- so, o fariam retroceder para planos evolutivos inferiores e pro-
gelho integral, abandonando as armas e abraçando o inimigo cure, ao contrário, impeli-lo para os mais adiantados, como su-
que o estrangula. Para o ser comum, isto não passa de loucura, premo fim da evolução, a lei fundamental da vida.
mas é nessa loucura que se revela a diferença do tipo biológico. Observando bem tudo, não se pode acusar a ninguém.
Cada um é o que é e, com o próprio comportamento, revela o Compreende-se que tudo apenas está em seu devido lugar, para
que seja. É inútil vestir-se como evoluído, quando não se é tal. realizar o trabalho que compete a cada um, de acordo com a sua
E cada um, de acordo consigo mesmo, vai situar-se no plano natureza. O involuído está confortável na Terra, com as duras
que lhe compete, porque, sendo este o seu próprio, encontra aí condições de luta encontradas aqui, porque estas são proporcio-
o ambiente adequado para viver. O homem comum está pro- nais a ele, sendo adequadas às qualidades instintivas que o re-
porcionado ao ambiente terrestre, onde encontra os elementos vestem e o tornam apto a esse ambiente. O evoluído aí está des-
correspondentes à sua natureza e está apto a poder neles reali- locado, numa posição de exilado, da qual deverá ser libertado e
zar-se. Isto lhe dá o direito de viver na Terra, fazendo dela natu- pela qual será recompensado logo que tiver cumprido sua fun-
ralmente sua própria pátria, onde ele se encontra à vontade e o ção civilizadora entre os mais atrasados. Desenvolve-se assim o
evoluído se acha constrangido. Isto, no entanto, também torna jogo da vida, que se protege em ambos os casos com recursos
mais difícil a sua saída daí, que para o evoluído é fácil e espon- próprios, embora diferentíssimos. Para o involuído, existem
tânea. O involuído encontra na Terra inimigos a cada passo, seus instintos belicosos e as armas da luta terrena. Para o evolu-
mas possui, instintivamente, como sua maior sabedoria, a habi- ído, vem a intervenção das forças do Alto, que realizam o que
lidade de fazer guerra contra eles, para não se deixar esmagar. aparece como prodígio no plano do primeiro. Colocar-se-á, en-
Dessa forma, todos passam a vida se agredindo. Para o evoluí- tão, a favor do Evangelho quem tem inteligência para compre-
do, isto é estúpido e bestial, mas, para eles, torna-se até alegre, endê-lo e um grau de evolução suficiente para poder praticá-lo.
porque vencer um inimigo representa a maior vitória da vida. O Os outros, totalmente convencidos, no segredo de seus cora-
evoluído encontra inimigos ainda maiores, mas repugna-lhe ções, de que se trata de loucura perigosa, evitarão vivê-lo seri-
guerreá-los, porque são o seu próximo. Estes agridem, mas ele amente e o deixarão no terreno teórico, limitando-se a uma glo-
perdoa e deixa-se espoliar, sendo tratado como louco por haver riosa exaltação verbal, sendo esta a única forma pela qual pode
perdoado e ter-se deixado roubar. Ele mesmo não se adapta a hoje o Evangelho existir na Terra, dado o grau de evolução
viver na Terra, onde tudo lhe sai errado, terminando por ser ex- humana. Mas é útil repeti-lo, embora sem eco, porque, fazendo
pulso dela. Ora, isto, que constitui a maior condenação para o isto durante milênios, alguma coisa se fixa na forma mental das
involuído, porque significa a expulsão do próprio ambiente e, massas e aí permanece. Assim, mesmo sem jamais pedir uma
portanto, a privação da única forma de vida de que é capaz, re- demonstração racional, inacessível à maioria, a pregação realiza
presenta um lucro, e não uma perda, para o evoluído, que se vê uma função educadora, utilizando apenas a sugestão.
assim expulso daquele ambiente e lançado para o seu próprio, Desta maneira, ninguém está errado e cada um tem o que
regressando com isto à sua própria forma de vida. lhe compete. O homem atual emerge de um recente estado de
Todavia há mais ainda. Se o evoluído se encontra na Terra, barbárie e, se pôde chegar até aqui, ele deve isto justamente às
ainda que seja como exceção, é para realizar alguma tarefa, e suas capacidades combativas. Sem a luta feroz, de que ainda
não por nada. Essa tarefa interessa à vida em sua fundamental conserva o instinto, como teria podido desenvolver a sua inte-
exigência, que é a evolução. Então a vida, sendo vivida por ele, ligência? O passado exigia tal aptidão, e assim se justifica a
não pode desinteressar-se de sua sorte e, com sua inteligência, presença atual dos resíduos. Por isso o involuído não merece
movimenta forças dinâmicas de tal forma que a existência bio- condenação alguma. Está tudo bem.
logicamente preciosa do inerme evangélico não seja desperdi- Todavia, se esta posição atual se explica e se justifica dian-
çada para apenas engordar os lobos vorazes, de que o mundo te do passado, o mesmo não acontece em relação ao futuro.
está cheio. A vida defende-se a si mesma em todos os seres que Aceitá-la para o futuro significa adaptar-se a viver naquele es-
a representam e, sobretudo, naqueles que constituem seus maio- tado de barbárie. O homem atual, em vez de condenação, me-
res valores. Se ela protege os seres inferiores, fornecendo-lhes
1
armas naturais, necessárias para resistir na luta, é impossível A Grande Batalha (N. do T.)
6 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
rece antes até admiração, por ter sabido emergir até aqui de es- humana do aproveitador. É indispensável possuir verdadeira-
tados tão selvagens. Se, diante destes, ele pode julgar-se civili- mente as qualidades necessárias, e não apenas julgar que as te-
zado, está bem longe de sê-lo perante o seu futuro. Eis por que mos, iludindo-nos. Na Terra, estamos habituados a falsificar tu-
pode considerar-se o homem atual como um ser ainda semis- do para tirar vantagens do engano. Essa psicologia, neste caso,
selvagem, que precisa urgentemente ser civilizado. Eis aí, en- paralisa a máquina, que então não funciona.
tão, a função do biótipo evoluído, para executar esse trabalho E não basta sermos bons, se formos inertes e preguiçosos.
necessário, ou seja, retirar da barbárie a massa involuída, que Precisamos possuir a fé e a atividade de trabalhadores vigoro-
ainda se encontra atrasada, vivendo no plano animal. Trata-se sos e honestos. Quantas vezes gostaríamos, ao revés, de usar o
de multiplicar cada vez mais o biótipo do evoluído, em substi- Evangelho como um refúgio para tolos e preguiçosos, que pre-
tuição ao tipo involuído, mais atrasado; de ajudar a vida neste tendem servir-se de Deus para fugir ao cumprimento do seu
seu laborioso processo de maturação dos espíritos, exigido pe- próprio dever. O Céu não pode funcionar como subterfúgio pa-
la lei de evolução; de secundar a história no grande trabalho ra nos livrarmos do cansaço de viver, necessário para evoluir,
deste seu parto doloroso de evoluídos, não mais como casos nem para fugirmos às duras condições que nos são impostas pe-
esporádicos excepcionais, mas sim em massa, pois só essa lo ambiente, ao qual não podemos deixar de pertencer, porque,
massa poderá formar a futura sociedade orgânica da humani- dada nossa natureza, é o que nos compete. Para quantos diver-
dade, na qual o Evangelho será finalmente vivido. sos e mais levianos empregos querem as religiões e os ideais
Tudo isto, segundo o princípio pelo qual a sociedade dos se- usar na Terra o Evangelho. É natural, então, que o Céu perma-
res que formam a vida é constituída por um sistema orgânico neça fechado e o Alto continue surdo aos nossos apelos.
hierárquico, em que todos os seres estão interligados e nenhum O evoluído que se acha vivendo na Terra em posição evan-
deles pode avançar sozinho, mas somente inclinando-se sobre gélica, exposto a todos os ataques, em condições humanamente
os irmãos menores, para fazê-los subir com ele. antivitais, sem defender-se, tem absoluta necessidade de ajuda,
◘ ◘ ◘ o que não se dá com o tipo comum, que sabe defender-se bem
Às belas exortações do Evangelho o tipo corrente, apegado por si próprio. Portanto não há razão nenhuma para que seja
às realidades da Terra, responde desconfiado. Irá depois a Divi- franqueado a este último tal auxílio. Além disso, o involuído
na Providência me salvar de fato? E se o milagre não se reali- não tem nenhuma missão a realizar, nenhuma função particular
zar? Que tenho de seguro nas mãos? Estando habituado a viver evolutiva que interesse à vida, exceto evoluir ele mesmo. É jus-
num mundo de traições, ele deve considerar a desconfiança co- to que ele não receba nenhum auxílio especial, o que, ao invés,
mo uma de suas principais virtudes. Mas são justamente estas é indispensável para quem precisa realizar um trabalho excep-
suas qualidades, com as quais ele se torna apto a viver na Terra, cional, que os outros não fazem, ou seja, ensiná-los a se libertar
que impedem o funcionamento daquela Providência. Esta é co- das mais baixas formas de vida e das dores a elas conexas. É
locada em movimento por qualidades opostas, exatamente aque- justo que o auxilio seja dado pelo Alto para quem trabalha sa-
las que tornam o homem menos apto a viver na Terra. Não se crificando-se pelos outros, e não para quem trabalha só para si
pode ganhar de ambos os lados. Para se ganhar na Terra, perde- mesmo. Sustentar gratuitamente o biótipo imerso no plano de
se no Céu, e vice-versa. Quem possui as qualidades que lhe vida animal, que lhe compete pelo seu nível de evolução, seria
permitem viver bem na Terra, contente-se com as vantagens al- tirá-lo da sua necessária escola, representada pela luta em prol
cançáveis aí e não peça as que descem do Alto. Mas quem não da seleção do mais forte; seria convidá-lo à preguiça, poupan-
sabe viver na Terra, porque pertence a planos mais altos da vida, do-lhe o indispensável esforço para subir, fazendo que ele, as-
é justo que seja salvo pelas forças do Céu. Se o homem astuto e sim, permanecesse estacionário, ao invés de evoluir. A vida de-
forte sabe defender-se sozinho, que necessidade tem ele dessas ve ser trabalho produtivo para todos. Por isso só pode subtrair-
intervenções superiores, para sua vida ser protegida e a justiça se a um trabalho quem está realizando outro. Aquele “todo o
ser feita? É lógico e justo, então, as forças da Providência não se resto vos será dado por acréscimo” prometido pelo Evangelho a
moverem para ele, que deverá conseguir tudo por si mesmo. Em quem procurar primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, presu-
seu instinto, ele sente isso e, por esse motivo, não confia no me que tenha sido feito primeiro este trabalho, que justificará o
Evangelho, mas só nas próprias forças, nada esperando do Alto, “a mais”, trabalho sem o qual aquele “a mais” não chega. E é
enquanto o evoluído sente instintivamente o contrário e, por is- isto que de fato acontece em geral, razão pela qual muitos acre-
so, confia no Evangelho, esperando tudo do Alto. ditam que o Evangelho contenha somente belas palavras e evi-
Sem dúvida, para acender a centelha que faz explodir a re- tam aplicá-lo. Porém a culpa não é do Evangelho, que diz a
ação da justiça de Deus, é indispensável que isto seja necessá- verdade, mas do fato de não serem satisfeitas as condições ne-
rio e merecido, pois, de outro modo, aquela justiça seria injus- cessárias para o Evangelho poder manifestar a sua verdade. Só
tiça. É lógico e justo não só que as forças do Alto não se mo- é dado de graça o que foi merecido por outros meios, o que é
vam para quem vive de prepotência e luta, mas também que necessário para fins mais alto. Mas não se pode dar nada por
este seja obrigado a se defender com tais meios, dos quais está nada, tanto mais que poderia ser prejudicial a quem recebe.
bem armado. Assim também é lógico e justo que o bom, por- Se quisermos aproveitar as vantagens que nos oferece o
que renuncia a se defender na Terra, para praticar o Evange- Evangelho, só nos resta viver nas condições que ele estabelece
lho e viver uma lei mais elevada, seja defendido por outras para nossa conduta, ou seja, transformarmo-nos em evoluídos,
forças, superiores, pois, de outro modo, ele seria rapidamente que é um caminho aberto a todos. Seria muito agradável ao ho-
devorado pelos lobos, o que significaria a vitória do mal sobre mem comum, segundo os seus cálculos, ver chover gratuitamen-
o bem e a falência da lei de Deus. te do céu todos os auxílios que lhe poupassem as fadigas da vi-
Dizemos isto para que os simples não se iludam. Sem méri- da, porém custa-lhe muito submeter-se às condições necessárias.
to e justiça, nada se recebe do Céu. Sem dúvida, seria agradável O homem sempre procura um atalho para chegar com menor es-
ao homem da Terra poder aproveitar também destas vantagens forço a um lucro maior. E é justamente isto que ele faz quando
e proteções de que goza o evoluído. Seu instinto é aferrar tudo se aproxima do Evangelho, bem como de todas as outras coisas,
o que pode ser útil. Mas é inútil fazer pressão com a força. A com essa psicologia toda humana. Mas, ao ver que não pode ti-
máquina não obedece a esses impulsos. A violência e a astúcia, rar dele nenhuma vantagem ou que precisa pagar com sacrifícios
que movem as coisas terrenas, não podem colocá-la em movi- muito grandes, então o rejeita como coisa inútil. Acontece que o
mento, mas somente a bondade e o merecimento. É inútil pre- Evangelho, se vivido de fato, pode representar o mais poderoso
tender o milagre, quando, inexistindo martírio e bondade, nos meio para superar o passado e evoluir, mas o homem, por não
aproximamos dos poderes do Alto com a corrente psicologia aplicá-lo, recai no seu baixo plano de vida e permanece aí estag-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 7
nado. Incapaz de compreender quão grande é o tesouro que re- finalidade deste livro não é estabelecer nenhuma superioridade,
cebeu, ele mesmo recusa a mão que lhe é estendida do Alto para mas apenas mostrar como funciona a vida, segundo as leis fei-
elevá-lo a melhores condições de vida. E assim continua o mal- tas por Deus, diante das quais nada mais nos resta senão obede-
entendido: o homem evangélico permanece um enigma e o cer. Nós as vamos descrevendo para vantagem de quem lê, a
Evangelho um sonho lindo, que continua no plano dos ideais. fim de que possa tirar delas o maior proveito para si mesmo. O
Desse modo, cada um continuará em seu lugar, em suas condi- universo é uma imensa máquina perfeita, inclusive nos métodos
ções de vida, de acordo com sua natureza, realizando o próprio com os quais vai procurando a perfeição nos pontos em que
tipo, utilizando os meios que possui e obtendo aquilo que lhe ainda não a possui. Chegar a conhecer como tudo isto funciona
compete. O ser inferior continuará a agredir o mais evoluído, pode representar uma preciosa orientação não só para evitar er-
acreditando que assim está vencendo, quando na verdade perde ros prejudiciais, pelos quais deveremos pagar depois, mas tam-
a melhor ocasião para subir; e o mais evoluído continuará a se bém para atingir o nosso bem, ensinando-nos como nos com-
sacrificar até que, com a bondade e o amor, tenha conseguido portarmos. Difundir esse conhecimento pareceu-nos coisa ur-
derrubar as portas do egoísmo e da ignorância e vencer a anima- gente num mundo que, a esse respeito, comporta-se loucamen-
lidade, fazendo o homem emergir de seu baixo plano de vida. te, mas que deverá depois, fatalmente, sofrer em proporção.
Assim, lentamente, o Evangelho vai caminhando através dos mi- 5) Em relação à meta final, Deus, todos estamos igualmen-
lênios para a sua realização. Mas entre os dois tipos, involuído e te a caminho. O que nos irmana é o fato de sermos todos vi-
evoluído, o mais forte é o segundo, porque está protegido pelas andantes ao longo do imenso caminho da evolução. Uns ca-
forças da vida, que quer ascender. A ele caberá a vitória final. Se minham mais depressa, outros mais devagar. Mas ninguém
ao outro pertence o passado, a ele pertence o futuro. pode permanecer imóvel. O grande impulso para frente impe-
Neste capítulo, procuramos definir melhor as duas posições le a todos. Assim, o involuído de hoje tende a tornar-se o evo-
fundamentais e antagônicas estabelecidas uma pelo evoluído e luído de amanhã. Trata-se de uma grande marcha, da qual to-
outra pelo involuído, que se poderiam chamar os dois extremos dos os seres participam.
do biótipo humano. Procuramos ver os direitos e deveres de ca- 6) Na evolução não há barreiras insuperáveis, compartimen-
da um, bem como as vantagens e desvantagens de estar situado tos estanques, portas fechadas. A estrada para evoluir está aber-
num ou noutro ponto. Antes de enfrentar outros aspectos do ta a todos, e qualquer um, desde que o queira, pode, subindo,
problema, resumamos, para esclarecer cada vez melhor este as- tornar-se um evoluído, caso ainda não o seja. Cada um, mere-
sunto, alguns de seus pontos fundamentais – vários já referidos cendo-o, pode sempre subir à posição do ser a ele superior, que
anteriormente – definindo com mais exatidão as respectivas po- considera um dever e uma alegria ajudá-lo nisto.
sições e condições de vida dos dois tipos: 7) Quanto mais avançadas são as posições, tanto menos
1) Neste estudo, quisemos apenas comprovar, com absoluta podem ser elas de egoísta vantagem para si e tanto mais se tor-
imparcialidade, alguns aspectos das leis da vida, explicando nam de altruísmo, inclinando-se sobre os inferiores para ajudá-
seus princípios e funcionamento, sem condenar ninguém. Ao los a subir. Evoluindo, não crescem os direitos, mas sim os de-
involuído cabe, antes, a compaixão, pois já se encontra conde- veres; não se ganha em comando, mas sim em obediência. A
nado pela própria involução, o que lhe dá, no entanto, o direito evolução representa uma demolição progressiva do egocen-
de ser ajudado por parte dos mais evoluídos. trismo separatista, substituindo o estado de caos pelo estado
2) Em substância, segundo suas relatividades, todos têm orgânico unitário. É natural que, progredindo para a ordem,
razão, porque cada coisa está em seu lugar. E isto é lógico. caminhe-se para a obediência, a confraternização e o altruís-
Nem poderia ser diferente, uma vez que tudo depende da sabe- mo, destruindo-se assim o separatismo.
doria de Deus e da Sua lei. Assim, na grande ordem do todo,
8) Em relação aos mais evoluídos, a correta posição psico-
cada elemento fica em sua verdade relativa, correspondente à
lógica dos menos evoluídos não deve ser de inveja e ciúme,
sua posição no seio da verdade universal, que abraça todas as
mas sim de alegria, pelo fato de possuir um amigo mais adian-
verdades relativas numa unidade orgânica. Assim, evoluído e
tado, que nos ajuda para vantagem nossa. A função dos que
involuído permanecem cada um com a sua verdade, relativa à
mais progrediram é trazer para frente, consigo, os que estão
sua posição, sendo este o lugar que compete a cada um segun-
mais atrás. Esta é a lei. Não se pode subir sozinho e só por si
do a sua natureza, da qual não podem deixar de sofrer as con-
sequências estabelecidas pela Lei. mesmo. É verdade que quanto mais se sobe, mais direitos e li-
berdades se conquistam. Mas, se tudo é equilibrado, quanto
3) As diferentes condições encontradas no evoluído e no
involuído representam apenas posições avançadas ou atrasadas mais se sobe, mais deveres e obediência à Lei nos esperam. Se
ao longo do caminho da evolução, que é percorrido por todos o evoluído não aceita isto, comete um erro tão grave, que o faz
os seres. Não significam, portanto, superioridade ou inferiori- retroceder ao grau de involuído. Tudo isto é lógico, dado que a
dade em sentido absoluto. O mais evoluído tem sempre, acima evolução avança para a unidade orgânica.
de si, um ser ainda mais evoluído; e o mais involuído tem 9) A consequência de tudo isto é que a ideia de inferiorida-
sempre, abaixo de si, um ser ainda mais involuído. Ao longo de e de inveja, de um lado, leva à suposição de que, do outro
da escala da evolução, todos se encontram em condições seme- lado, exista orgulho e desprezo. Tal concepção é inerente ape-
lhantes, ou seja, cada um está sempre situado entre um tipo su- nas ao plano do involuído e desaparece tão logo se supere este
perior e um inferior, de maneira que não há, de modo algum, nível. Ao evoluído, muitas coisas interessam, mas não gabar-se
um superior ou inferior em sentido absoluto. Cada evoluído é e muito menos aproveitar-se da própria superioridade. No
um involuído em relação ao que lhe é superior, e cada involuí- momento em que ele pensasse dessa maneira, cairia de seu
do é um evoluído em relação ao que lhe é inferior. Num mun- plano de vida, tornando-se parte de outro nível biológico. A
do assim, em que tudo é relativo, não existe, racionalmente, primeira qualidade espontânea do evoluído é ignorar a sua su-
lugar para orgulho ou acanhamento de ninguém. A palavra in- perioridade; a sua maior paixão é tornar evoluídos os outros
voluído não tem qualquer sentido depreciativo, apenas denota seres. Esta é a forma mental do biótipo do evoluído, que, se
o imaturo, que amanhã amadurecerá. não a possuísse, não mais seria evoluído.
4) Temos de esclarecer este último ponto porque, muitas Concluímos assim este capítulo, onde quisemos tornar cada
vezes, a primeira coisa que alguns leitores depreendem de uma vez mais compreensível o significado biológico do Evangelho,
teoria, não é se ela corresponde ou não à verdade, mas sim que isto é, não só como fenômeno religioso, mas como força da vi-
alguém está procurando se colocar em uma posição de superio- da, da qual representa um elemento básico para a maior finali-
ridade, com a qual consiga humilhá-los e ofendê-los. Ora, a dade dela, que é fazer evoluir.
8 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
II. O EVANGELHO E O MUNDO de todas essas coisas, contudo é um conhecimento que servirá
para Ele, e não para nós, que certamente não vemos chegar em
O Evangelho e os bens materiais. Ignorava Cristo a re- nossa casa, da parte Dele, aquilo de que precisamos todos os
alidade da vida? Quem tem razão, Cristo ou o mundo? dias. Sabemos, por dura experiência, que, se não procurarmos
Como entender o Evangelho? Os pobres de espírito. Os com o nosso esforço previdente, nada chegará em nossa casa.
deveres de quem possui. As acomodações. O Evangelho Ao contrário, poderemos contar com alguma coisa se acumu-
nos tira a preocupação do trabalho, mas não o trabalho. larmos um tesouro na terra, ao qual podemos recorrer para su-
Ócio é desonestidade. Os colaboradores de Deus. A psico- prir nossas necessidades e, dessa maneira, conseguir uma tré-
logia do dinheiro. O fator espiritual nas obras e o peso do gua na luta diária pela vida.
imponderável. Utilitarismo inteligente. Assim, aos olhos do mundo, que sabe como as coisas suce-
dem de fato, o Evangelho se apresenta como uma sublime ig-
É no terreno dos bens materiais que se torna mais vivo o norância das realidades da vida. Como se explica isso? Será
contraste irreconciliável entre o Evangelho e o mundo, entre o possível que Cristo não se tenha dado conta dessa realidade,
evoluído e o involuído. Como podem concordar dois tipos ignorando as verdadeiras condições em que se desenvolve a
humanos e dois métodos de vida, se o primeiro abandona com vida do homem? Sem dúvida, Ele fala de outro tipo de vida,
indiferença as coisas da Terra, considerando-as secundárias, e feita para outro tipo de homem, que não o atual. Este novo
o segundo faz seu principal trabalho na vida consistir em afer- homem é o evoluído, no qual o atual deverá transformar-se.
rá-las e mantê-las seguras? Parece que as coisas estejam sendo Cristo se refere ao luminoso futuro da humanidade, e não ao
olhadas de dois pontos diversos, com olhos diferentes. Olha- seu bestial passado. Provam-no suas palavras: “Dou-vos um
das do céu, as coisas da terra, porque estão longe, parecem novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como
pouco importantes, ao passo que são importantes as do céu, eu vos amei”. Não representa isto uma reviravolta completa na
porque estão mais próximas. Olhadas da terra, as coisas do fundamental lei biológica da luta pela seleção do mais forte?
céu, porque estão longe, parecem de somenos importância, Isto significa passar a um plano de existência onde predomi-
enquanto as da terra, porque próximas, são importantes. Pro- nam leis diferentes, que tornam possível a vida se proteger e se
curemos então compreender. desenvolver com base em outros princípios.
O Evangelho torna, logo de início, nítida e inexorável a sua Mas Cristo, mesmo ao preparar o homem de amanhã, sabia
posição, quando diz as palavras já citadas: “Ninguém pode ser- que estava falando ao homem de hoje. Como poderia pedir-lhe
vir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e a Mamom”. E, o impossível? Com efeito, o fato inegável de não ter o mundo
para atingir a perfeição, aconselha em seguida a dar tudo aos lhe dado ouvidos exprime isto, sem dúvida. Quando o homem
pobres, afirmando ser bem difícil que um rico entre no reino prático, que luta em sua vida árdua, ouve estas belas mensagens
dos céus. Acrescenta ainda que perderá sua vida quem quiser que descem do Alto, tem a impressão de que provém de um
salvá-la no sentido humano, e salvá-la-á quem perdê-la neste mundo cujos habitantes podem permitir-se o luxo de ter belos
aspecto para conquistar a vida mais alta que Cristo nos mostra. sonhos, porque suas condições de vida sem preocupações lhes
E o Evangelho continua explicando: “Não vos preocupeis permitem ignorar ou esquecer a nossa dura realidade humana.
pela vossa vida quanto ao que comereis, nem pelo vosso corpo Quem vive para si aquelas belas máximas evangélicas, ao invés
quanto ao que vestireis. Não vale a vida mais que o alimento, e de pregá-las aos outros? As próprias e várias religiões cristãs,
o corpo mais que a roupa? Olhai os pássaros do céu: eles não baseando-se no Evangelho, acusam-se mutuamente, em nome
semeiam, não ceifam e não armazenam em celeiros, no entanto dele, de possuírem bens terrenos, enquanto, na prática, todas
vosso Pai celeste os alimenta. E vós, não valeis mais do que os elas os possuem. Parece que, neste caso, a única forma de se
pássaros? Quem dentre vós, por mais ansioso que esteja, pode lembrar do Evangelho é cada um escandalizar-se daquilo que
acrescentar um cúbito sequer à própria estatura? E por que vos pratica somente quando o vê praticado pelos outros, ocasião em
preocupar tanto com a roupa? Considerai como crescem os lí- que se aproveita para acusar o próximo. Mas isto corresponde
rios do campo; eles não trabalham nem fiam. No entanto eu vos perfeitamente às leis da vida no plano humano, onde os meios
digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, jamais se ves- humanos são colocados no ápice da escala de valores e mesmo
tiu como um deles. Se Deus veste assim esta erva do campo, Deus só é respeitado por ser considerado poderoso e temível.
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, com quanto maior Nesse plano, onde vencer é a coisa mais importante, é natural
razão vos vestirá a vós, homens de pouca fé? Não vos preocu- cada um querer tudo para si e ter inveja das riquezas alheias,
peis dizendo: o que comeremos, o que beberemos, ou o que que exprimem as vitórias dos outros.
vestiremos? Por tudo isto se preocupam os gentios. Vosso Pai O contraste entre as duas leis que querem dirigir o mundo, a
celeste sabe que precisais dessas coisas. Vós, portanto, procurai animalidade do passado e o Evangelho do futuro, apresenta nos
sobretudo o reino de Deus e Sua justiça, e todo o resto vos será fatos estranhas contradições entre o que se é o que se deveria
dado por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, pelo ama- ser, entre o que se diz e o que se faz. Acontece então que as pró-
nhã, porque o amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada prias ordens franciscanas, baseadas na pobreza, têm posses.
dia basta o seu cuidado” (Mateus, VI: 24-34). Como se resolve esse conflito? Diante das claras palavras do
Não se poderia imaginar reviravolta maior nos mais fun- Evangelho e da irrefutabilidade dos fatos, temos apenas três so-
damentais instintos da vida, que o homem teve de aprender em luções. A primeira conclui que o Evangelho é um belo sonho,
longa e dura experiência num ambiente hostil, onde só vive porém irrealizável hoje na Terra, portanto não pode ser tomado
quem sabe surrupiar do meio o necessário e impor-lhe suas em consideração. Neste caso, o mundo tem razão em não aplicá-
próprias exigências. Depois, o Evangelho ainda acrescenta: lo. A segunda infere que o Evangelho é feito para ser vivido na
“Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os Terra, tendo Cristo dado ordens para que fossem cumpridas.
consomem e os ladrões os desenterram e roubam...”. Infeliz- Neste caso, o mundo está mentindo, porque não pratica o que
mente é verdade que a ferrugem e a traça consomem e os la- prega. No primeiro caso, o mundo tem razão e Cristo está erra-
drões roubam, mas isto representa apenas o esforço indispen- do. No segundo caso, Cristo tem razão e o mundo está errado.
sável para defender o que é necessário à vida. É fácil dizer pa- De qualquer forma, um dos dois deve ter errado, e este é o fato
ra não pensar no amanhã – poderia responder o mundo – mas, que pode justificar o conflito, que, sem a culpa de ninguém, não
se o amanhã chegar e não estivermos providos, faltará até o se explica. Qual dos dois está errado? O Evangelho, porque re-
necessário. É belo saber que o Pai celeste sabe que precisamos presenta um extremismo espiritual que não pode ser aplicado à
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 9
vida prática material, ou esta, porque representa um extremismo acumular sempre mais, como em geral ocorre, antes colocando o
material que a vida espiritual não tolera? É possível, então, que a supérfluo a serviço do bem alheio, agindo como um dono que,
obra de Cristo se resolva num antagonismo insanável? centralizando tudo em si mesmo, como administrador, fecunda
Pode haver, no entanto, uma terceira solução, que podere- com o seu trabalho a sua propriedade, tornando-a mais produti-
mos chamar de conciliadora. Consiste ela em adaptar os dois va, só a cedendo aos outros quando estes dão prova de serem
extremismos, um ao outro, escolhendo um caminho intermediá- bastante competentes e trabalhadores, para que os bens não se-
rio, uma posição de compromisso. Isto significa aplicar o jam destruídos ou tornados improdutivos. Cristo não pode que-
Evangelho não integralmente, mas em doses percentuais, que rer o desperdício e a destruição, não pode querer o ganho sem
sejam suportáveis pela atual natureza humana, sem lesar as de- merecimento. Cristo quer levar-nos ao mais modernos conceitos
mais necessidades materiais da vida terrena. Tal ideia é conce- que o mundo está começando a compreender, segundo os quais
bível, se pensarmos que a realidade prática resulta do passado conserva-se o direito de propriedade, mas abrindo sempre mais
animal da natureza humana e que o Evangelho quer sobrepor-se espaço aos deveres inerentes à obrigação de realizar sua função
a essa natureza, para transformar essa realidade em novas for- social. O Evangelho dirige-se contra os ricos, e não contra os
mas de vida, que entrarão em ação no futuro. No alvorecer, por bens em si mesmos, que também são obra de Deus, para serem
exemplo, a luz e as trevas travam entre si um grande conflito, colocados a serviço da vida. O mal começa quando essas posi-
vivendo misturadas numa posição de compromisso, até desapa- ções são invertidas e a vida é posta a serviço deles, isto é, quan-
recer a noite e despontar o dia. Embora se elidindo mutuamen- do se sacrifica o bem do próximo por egoísmo. Antes de qual-
te, atravessam um processo de transformação que garante, no quer coisa, o Evangelho vê o lado espiritual do problema, onde
fim, a vitória da luz, neste caso o Evangelho. Só assim é possí- está situada a raiz de tudo, e dirige-se, portanto, contra o estado
vel solucionar o problema sem atribuir a Cristo ou ao mundo de alma comum aos possuidores, contra a psicologia do rico,
um erro que eles não têm. Dessa conclusão resulta a grandeza combatendo-a por causa dos danos que ela produz.
do Evangelho, tão grande, que o homem ainda não pode nem O Evangelho nos quer pobres de espírito, homens despren-
mesmo compreendê-la e muito menos realizá-la. Entretanto didos, que aprendam a possuir com outro espírito, totalmente
conclui-se também que o homem ainda vive numa fase de vida diverso daquele próprio ao tipo biológico humano comum, es-
animal, da qual seria urgente sair, civilizando-se. pírito que pode permanecer intacto em qualquer regime econô-
mico. Só a revolução de Cristo chegou à substância para reno-
Pode-se então conceber o Evangelho como uma meta a al-
var a fundo o homem, única maneira de resolver o problema
cançar, como um estado de perfeição que o homem ainda atin-
econômico. Com todas as outras inovações, exteriores e for-
giu, mas que deverá alcançar fatalmente. De outra forma, que
mais, o homem permanece sempre o mesmo, fazendo as mes-
sentido teria a pregação de Cristo? É tão grande a sabedoria
mas coisas. Pertencer a este ou aquele regime econômico, pos-
demonstrada em Suas palavras, que se torna muito difícil admi-
suir ou não possuir, tem sempre uma importância relativa dian-
tir a hipótese de que Ele não soubesse o que fazia.
te da íntima psicologia de que somos dotados. Por isso não se
Descendo agora em maiores particularidades, como devere- iludam aqueles que possuem, pensando achar em nossas pala-
mos entender aquelas palavras acima citadas? Elas nos dão a vras uma justificativa ou autorização para possuir com sua pró-
impressão de que o Evangelho vai contra a vida e que esta se re- pria maneira. Se não possuírem com esse espírito novo, como
trai espantada com tão absolutas renúncias. Procurar somente o quer o Evangelho, continuarão sendo condenados por ele, que
reino de Deus, ter de dar tudo aos pobres, estar excluído do Céu respeita a propriedade e também as riquezas, mas já vimos em
só pelo fato de ser rico, negar-se a si mesmo e não poder salvar a quais condições. Ele não admite que o indivíduo possa ter, em
própria vida senão com a condição de perdê-la em relação ao relação à coletividade, fins negativos ou maléficos, mas apenas
mundo, tudo isto imposto sem possibilidade de adaptações que positivos e benéficos. O Evangelho, que é justo, não pode ad-
tornem possível uma conciliação entre os dois extremos opostos, mitir nenhum direito sem os correlativos deveres.
não permitindo salvar nada daquilo que mais satisfaz e mais se Eis o que significa “procurar o reino de Deus e Sua justiça”.
julga indispensável, trunca profundamente a vida humana, que, É natural, então, que o resto nos possa ser dado por acréscimo.
por instinto, reage para não se deixar destruir. Quando for eliminada toda a destruição de bens que deriva das
Isto levaria a outra conclusão, que temos, no entanto, de guerras e de todos os atritos das rivalidades sociais; quando a
considerar inadmissível, porque absurda, segundo a qual o vida não for uma corrida desesperada ao dinheiro, mas sim uma
Evangelho, sempre afirmativo e construtivo, pertenceria, ao in- colaboração honesta de gente de boa-vontade, é fácil imaginar
vés, às forças negativas da destruição. Seria isto possível? Ve- como também o problema das necessidades será automatica-
mos, contudo, que existe uma Providência defendendo a vida. mente resolvido, sendo nos dado, verdadeiramente por acrésci-
Esta possui uma sabedoria sua íntima, muito acima de nossa mo, todo o resto de que fala o Evangelho.
vontade e conhecimento, sabedoria da qual somos grandemente O Evangelho não é destrutivo e antivital, como pode pare-
devedores por termos chegado até aqui e por conseguirmos so- cer. Ao contrário, ele representa um novo modo de conceber a
breviver a cada minuto. Seria possível que Cristo se tivesse co- vida, para nos ajudar a enfrentar e resolver com sabedoria os
locado contra essa vontade de viver, que é irresistivelmente, nossos problemas. Existem alguns que se revoltam contra o
por instinto, obedecida pelo ser e constitui um impulso funda- Evangelho porque acreditam na riqueza, pois ele condena a
mental determinado por Deus, indispensável para que se cum- cupidez. Há outros que se apoiam no Evangelho porque pre-
pram os destinos do universo? Não, não é possível! Mas que sumem que a Providência esteja a seu serviço, poupando-lhes
sentido, então, devemos dar às palavras de Cristo? todo trabalho. Há os heróis da santidade, que têm a força de
◘ ◘ ◘ vivê-lo cem por cento, e há os que, depois de pensar bem, o
Diz o Evangelho que procuremos “acima de tudo” o reino de adaptam às próprias comodidades, vivendo-o na medida em
Deus e Sua justiça, ou seja, em primeiro lugar, e não por último que ele não perturbe os próprios interesses. O fato positivo que
ou absolutamente nunca, como desejaria o mundo. Aconselha- existe e se antepõe a tudo é o tipo individual, o temperamento
nos a dar tudo aos pobres, mas como um caminho de perfeição, de cada um, que transforma todas as coisas que encontra – leis,
que, como tal, só pode ser excepcional. Sem dúvida, será neces- usos sociais, moral, religiões e também o Evangelho – para
sário que alguém possua bens na Terra, mas não os deve possuir adaptá-las a si mesmo. Todas essas normas surgem, querendo
como rico, com egoísmo e avareza, acumulando-os para si e, vergar o indivíduo. Depois, é o indivíduo que procura vergar
nesse intuito, subtraindo-os aos outros, e sim com espírito de essas normas a seu gosto, adaptando-as para vivê-las a seu
pobreza, sem egoísmo nem avareza, sem querer insaciavelmente modo. Antes de tudo, cada um diz “eu”. Mesmo a autoridade,
10 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
que deveria coordenar esses diferentes tipos para deles fazer com insistência: “Não vos preocupeis, dizendo: O que come-
uma unidade, é apenas outro “eu” maior e mais forte, que pro- remos, o que beberemos ou o que vestiremos?... Vosso Pai Ce-
cura impor-se a todos os outros, e estes, por sua vez, se lhes leste sabe que tendes necessidade de todas essas coisas... Não
convém, concordam com ele, se são fracos, suportam-no, se vos preocupeis com o amanhã...”.
são astutos, fogem e, se são fortes, rebelam-se. Parece que Cristo, falando assim, quer primeiramente nos
O próprio Evangelho não podia escapar desse processo ge- colocar em estado de calma, de confiante tranquilidade, liber-
ral de adaptação, necessário na Terra para poder alcançar sua tando-nos da ambição, que nos faz maus, assim como da ânsia
realização, processo no qual ele é, na prática, transformado, da preocupação, que paralisa, duas condições perigosas, das
entendido e aplicado em função dos vários tipos de personali- quais está cheio o mundo. Para ajudar a nos libertarmos desta
dade, cada um destes procurando fazer dele o uso que mais desapiedada psicologia das exigências do contingente, o Evan-
lhe convêm. A verdade que existe antes de tudo e se antepõe a gelho nos mostra horizontes bem mais amplos, que nos perten-
todas as outras é o próprio tipo de personalidade, com seus cem sem dúvida, mas nossos olhos não veem; recorda-nos que
instintos e qualidades, que luta a cada momento contra as ou- Deus fez tudo e não pode, como Pai, abandonar suas criaturas.
tras verdades coletivas, secundárias em relação a ela, com um Com estas palavras, parece que Cristo tornou seu o sacrifício
objetivo diferente, buscando afirmar-se. Mas, como a natureza humano de viver em tão duras condições e, para nos aliviar,
tende à construção de biótipos em série, eles podem, em certo quis explicar-nos que, no fim das contas, a vida não está toda
número, aproximar-se por semelhança e, assim, formar grupos aqui, sendo inútil lutar por ela além de certa medida, porque
e correntes nas quais podem concordar e permanecer unidos. depois virá coisa bem diferente. Com isto, o Evangelho quer
Desta maneira, podem existir ideias aceitas pela psicologia colocar cada coisa no seu devido lugar, libertando-nos de uma
coletiva, desde que correspondam a um nível médio e expri- equivocada superestima da vida presente, que, em última análi-
mam um fundo comum na forma mental da maioria. Mas o se, é o que é e merece o que merece. Certamente, se o homem é
ponto de partida, mesmo para estas verdades mais gerais – pe- ansioso, não é pelo gosto de sê-lo, mas porque isto constitui a
lo menos como aplicação vivida – é o biótipo individual e seu última consequência do longo passado de lutas terríveis para
grau de maturação evolutiva. São estes, antes de tudo, os fato- sobreviver em ambiente hostil. Porém, agora, é preciso subir
res que estabelecem o que o indivíduo pode compreender e mais e, para isto, corrigir os instintos que ficaram como resí-
realizar dos ideais a ele propostos ou ensinados. Sem isto, as duos desse triste passado. Neste sentido, o Evangelho vem ao
ideias mais sublimes permanecem adequadas apenas para o nosso encontro e nos ajuda, sendo altamente afirmativo e cons-
Céu, de onde descem, e jamais poderão tornar-se verdades vi- trutivo, benéfico no bem mais real e duradouro.
vidas pelo homem na prática de sua vida, resultando então em Agora, precisamos observar que, em muitos casos, é justa-
algo estéril e inútil a sua descida à Terra. mente neste ponto do “não vos preocupeis” que costumam
Por isso o Evangelho achou muitos sequazes. Mas que se- nascer mal-entendidos. Entre tantos usos que se pode fazer do
quazes! Será que o Evangelho os transformou, ou foram eles Evangelho, é possível também, quando ele cai nas mãos de
que transformaram o Evangelho? Não seria possível, na luta pa- quem procura não se preocupar, utilizá-lo para descarregar os
ra se transformarem um ao outro, adaptaram-se num compro- próprios trabalhos e deveres nas costas dos outros. Estas pes-
misso a meio-caminho, que permitisse a ambos sobreviver? soas podem gostar muito desse trecho do Evangelho, porque
Mas, se o tipo humano predominante não sabe fazer mais do lhes parece inacreditável que tenham encontrado alguém que
que isto, por que se escandalizar com a história, se este era o os tranquilizasse ainda mais na sua inerte indolência, encarre-
único meio possível para que ao menos a letra do Evangelho gando-se de substituí-los em seu trabalho. Então eles bendizem
chegasse até nós? Além disso, o que se pode pretender do ho- o Pai Celeste e O imaginam transformado em servo deles, en-
mem com um passado selvagem tão recente? Por que não nos carregado de lhes prover gratuitamente as coisas da vida. As-
escandalizarmos conosco mesmos, que nos julgamos mais civi- sim, conservam sempre o Evangelho entre as mãos, esperando
lizados, no entanto agimos pior? sentados o maná do céu. Contudo iludem-se, porque o Evange-
É o homem que quer trazer tudo ao seu nível, adaptar tudo lho nos foi dado para realizarmos todos os nossos deveres com
aos seus instintos, utilizar tudo para vantagem própria. Destru- o nosso esforço pessoal, e não para nos apropriarmos de direi-
tivo é o homem, e não o Evangelho. Este, se entendemos por tos ou receber serviços. O Evangelho nos acompanha, ajuda-
vida aquela do nível animal, pode parecer antivital, mas, se, ao nos e santifica-nos, mas não nos tira o trabalho, não nos exime
invés, entendemos por vida aquela do nível espiritual, é extre- do esforço que nos compete. O Evangelho quer tirar-nos a ân-
mamente vital. Ele só é inimigo das formas inferiores de exis- sia do trabalho, mas não o trabalho; quer que o façamos com
tência, e isto porque quer realizar, em lugar delas, as superiores. ânimo tranquilo, o que significa menos esforço e maior rendi-
Ele se contrapõe ao mundo só porque quer substituí-lo pelo rei- mento; quer que o realizemos com inteligência e amor, o que o
no de Deus. Por isso o Evangelho pode parecer destrutivo aos torna interessante e útil, inclusive para o espírito. Cristo vem
olhos míopes do mundo, que, como tal, considera destruidores ao nosso encontro para nos ajudar na dureza desse trabalho.
todos os que, para fazê-lo progredir, querem sua renovação. Ele não o ignora, tanto que o lembra no fim do trecho supraci-
Sem dúvida, o Evangelho representa a mais enérgica negação tado, comentado por nós aqui: “Não vos preocupeis com o
dos princípios em que se baseia a vida do mundo, e contra essa amanhã, porque o amanhã se preocupará consigo mesmo. A
negação rebelam-se aqueles para os quais essa vida é tudo. No cada dia basta o seu cuidado”. O Evangelho, que é sempre
entanto, quão suprema afirmação constitui o Evangelho! Afir- afirmativo e construtivo, quer eliminar de nossa atividade a sua
mação de uma vida muito mais alta e poderosa, que o mundo parte negativa de preocupação e ânsia – qualidades que nada
não leva em consideração porque não a vê. criam, pelo contrário, são contraproducentes, porque paralisam
Então, quando o Evangelho nos diz aquelas estranhas pala- – e substituir essas condições negativas por nossa confiança
vras: “Não vos angustieis pela vossa vida...”, não devemos ce- em Deus, uma atitude positiva, que torna mais fecundo nosso
ticamente voltar as costas àquilo que em nosso mundo – do trabalho e menos pesado nosso esforço. Isto é o que podemos
qual bem se conhecem as duras necessidades – pode parecer honestamente pretender do Evangelho. Nada mais. É inútil que
uma zombaria. Ao contrário, devemos procurar compreender o se refugiem em algumas palavras do Evangelho os que não
verdadeiro sentido dessas palavras, seu bom-senso, útil para têm vontade de trabalhar. Poderão dizer talvez que foram en-
nós, que vem ao nosso encontro para nos ajudar inclusive na ganados, mas isto não os ajudará. O Evangelho nos quer ho-
vida deste mundo. Essas palavras não foram ditas ao acaso e, nestos, e a preguiça é uma forma de desonestidade.
no trecho citado nas páginas precedentes, elas são repetidas ◘ ◘ ◘
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 11
O irreconciliável contraste que verificamos existir entre o Ora, qual é o estado espiritual que está geralmente ligado
Evangelho e o mundo no terreno dos bens materiais, apresenta- aos meios materiais? Qual é a psicologia do dinheiro? Com cer-
se-nos também sob outros aspectos. Sem dúvida, o trabalho é teza não é uma psicologia de amor fraterno, mas sim de rivali-
uma necessidade inderrogável da vida humana. Mas, nas duas dade e luta feroz, de egoísmo e de avidez. Trata-se de elemen-
posições opostas – Evangelho e mundo, ou seja, evoluído e in- tos que poderão interessar ao indivíduo, mas que são estrita-
voluído – o trabalho se nos apresenta em duas formas bem dife- mente desagregantes em qualquer atividade coletiva, onde é ne-
rentes. O trabalho do primeiro é inteligente, fecundo, confiante cessário organizar-se, colaborando para chegar à realização.
e satisfatório, ao passo que o do involuído é forçado, penoso, Todavia, isolados, esses elementos tendem a transformar um
desconfiado e incompleto. O Evangelho desejaria transformar campo de trabalho num campo de batalha. Então o objetivo
este segundo tipo de trabalho naquele do evoluído. Com efeito, principal, que deveria ser construir bem uma obra, transforma-
o primeiro tipo nos faz colaboradores de Deus, enquanto ins- se, tornando-se desejo de enriquecer cada um por si, tirando
trumentos de Sua vontade, numa obra que, tendo finalidade em desse trabalho a maior vantagem individual possível. Teremos,
si mesma, já representa por si uma graça. O outro tipo de traba- então, apenas uma atividade de exploração da obra, que se tor-
lho, como se usa na Terra, é geralmente instrumento de interes- na um pretexto, uma mentira, para encobrir outros fins, bem di-
ses e função de egoísmos, tanto do empregador como do em- ferentes. Todo trabalho de construção fica assim minado interi-
pregado, dois impulsos egocêntricos opostos, que lutam como ormente, corroído por esta vontade que se encaminha para ou-
rivais, para cada um deles se apoderar de tudo. Deriva daí um tras finalidades, muito diferentes de produzir bem e seriamente.
atrito desgastante, que gera desperdício de valores, inclusive O fator espiritual, que os homens práticos se acham no direito
econômicos. Daí não surge colaboração, mas sim inimizade, de não levar em conta, como se este fosse de fato desprezível,
que constitui uma perda comum, resultando um sistema errado, sem importância, pode, ao contrário, assumir uma tão grande
porque se torna contraproducente justamente onde devia ser importância, que, quando estiver desgastado, é capaz de minar
produtivo; um sistema em que o empregador procura aprovei- e levar à falência toda a obra. Explica-se, assim, como tal coisa
tar-se do operário e este busca enganar o patrão, substituindo o aconteça no meio de tanto progresso técnico.
princípio fecundo da colaboração pelo desagregante da luta. Isto não quer dizer, absolutamente, que devamos suprimir
É com estes dois tipos de trabalho que o homem procura os meios materiais e o dinheiro. Desejamos apenas colocar cada
construir suas mais diversas obras. No entanto existe entre os coisa em seu lugar, dando-lhe o que lhe compete, segundo sua
dois uma diferença de rendimento, e seria lógico escolher o própria importância, sem supervalorizar uma nem subestimar a
que custa menos cansaço e produz maior vantagem. Há res- outra. Ora, o mundo de hoje é levado a basear-se quase total-
pectivamente dois métodos para construir: um com os pode- mente nos meios materiais, acreditando que eles sejam tudo. E
res materiais do mundo e outro com os poderes espirituais do aí reside seu erro. Com isto, não queremos dizer que não preci-
céu. Veremos, agora, como merece mais confiança o segun- samos deles. Certamente precisamos, mas não apenas deles. É
do, que, com maior segurança, pode garantir-nos a vitória, necessário algo mais, ou seja, saber usá-los com outro espírito,
enquanto no primeiro acreditam os simples, deixando-se en- que os complete, coordenando-os para um fim, colocando-os,
ganar pelas miragens do mundo. em relação a este, na posição de instrumentos ou meios, cimen-
O que faz este segundo método, quando quer construir tando-os num estado orgânico que os torne construtivos. Se as-
qualquer obra? Começa por recolher os meios materiais, vai à sim não for, aqueles meios ficarão dispostos de modo errado, e
procura deles e os acumula na maior quantidade possível. Mas sua quantidade se tornará contraproducente para a obra. Trata-
bastarão apenas eles para construir? Se fizermos uma monta- se de elementos em si mesmos inertes, que são postos em fun-
nha de matéria prima e de dinheiro, teremos com isto recolhido cionamento através do trabalho. Este, por sua vez, é uma ativi-
meios, mas ainda nada teremos criado. Também participam do dade do homem, na qual, portanto, não pode deixar de influir o
processo outros elementos, especialmente o trabalho do ho- fator psicológico, que, assim, assume a sua importância no êxi-
mem e, portanto, os fatores psicológicos e espirituais, justa- to da obra. Onde quer que apareça a mão do homem, não se po-
mente aqueles que, em última análise, constroem com aqueles de ignorar a presença do espírito. Daí a necessidade de levá-lo
meios. Os meios, sozinhos, continuam inertes, se não houver em conta. É verdade que, sem os meios materiais, não se pode
intervenção do pensamento, da vontade e da ação do homem, construir, mas é também verdade que, se não soubermos utilizá-
para movimentá-los e utilizá-los, transformando-os, de materi- los, eles, sozinhos, poderão levar à falência.
ais de construção, na obra construída. Nesta, portanto, entram Por isso é grande o perigo quando a eles se atribui demasi-
outros elementos, tornando-se essencial, para consegui-la, le- ada importância, fazendo-os assumirem uma função preponde-
var em conta também as forças do imponderável. Portanto, se rante, condição em que a obra toda fica dependendo exclusi-
quisermos construir solidamente, sem arriscar a falência da vamente deles e da psicologia que lhes é inerente. A ideia de
obra, teremos de considerar também as coisas espirituais da lhes dar valor absoluto ou principal, como se eles fossem oni-
alma e do Céu. E se não soubermos levá-las na devida conta, potentes, é o caminho mais curto para chegar à falência da
nossa ignorância ou negligência poderão fazer-nos cometer er- obra, pelo menos se ela for nosso verdadeiro objetivo. Se a fi-
ros que, mais tarde, teremos de pagar. nalidade, no entanto, for de fato outra – como por exemplo
Sem sombra de dúvida, o motor íntimo que dá impulso à produzir dinheiro – pode-se até atingi-la, mas entende-se então
obra, dirige e leva a termo o seu desenvolvimento, dando o seu que a obra seja apenas uma mentira, preparada para outros
cunho à execução do trabalho e, portanto, a toda a construção, é fins, bem diferentes. E tal atitude não é honesta, sendo neces-
de natureza espiritual, e não material. Os homens práticos pode- sário pagar por isto mais tarde.
rão rir ceticamente destas afirmações, deixando de levar em con- A presença do dinheiro numa obra, mesmo que seja indis-
ta esses elementos. No entanto a forma substancial que, em úl- pensável, tende, por sua natureza, a levar-nos – se não for corri-
tima análise, sustenta uma obra está toda aí. Os meios materiais gida e disciplinada – pelo caminho dos enganos, num terreno
e o dinheiro são a matéria-prima e o impulso para movimentar o mal seguro de areias movediças, prontas para engolir tudo. É
homem, elementos indispensáveis sem dúvida, que constituem bom estarmos prevenidos de tudo isto e tratarmos o dinheiro
uma poderosa mola. Mas de que forma e em que direção essa com as devidas cautelas, com certa desconfiança, não lhe dando
mola os movimenta? Se ela, sozinha, os movimenta mal, não se- um valor maior do que o merecido por ele e tendo em conta que,
ria então igualmente indispensável ao menos um fator corretivo, em última análise, a causa primeira do êxito não está nos meios
que melhore a ação, tornando verdadeiramente produtivo um materiais, mas nas forças espirituais que os movimentam. Não
impulso que, sozinho, pode até mesmo ser destrutivo? devemos jamais esquecer que a vida obedece muito mais às cau-
12 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
sas profundas, invisíveis para nós, do que às superficiais, com as quer atingir a vitória com verdadeiro êxito, deve possuir essa
quais tanto contamos. A história e a vida nos mostram que obras esperteza superior a todas as outras, que alcança a honestidade
muito bem armadas dos mais poderosos meios faliram misera- e o desinteresse. No entanto o mundo crê cegamente num poder
velmente, apesar da existência desses meios. Isto quer dizer que absoluto do dinheiro. O jogo da vida não é assim tão simples a
eles, sozinhos, não bastam e que, escondido no imponderável, ponto de permitir resolver todos os problemas só com esse
existe algo tão poderoso quanto eles, um fator que é mister levar meio. O que se pode comprar com o dinheiro? Existe alguma
em grande conta e sem o qual pouco podem aqueles. loja em que se possa comprar inteligência, vontade de traba-
Qual a obra que pode ser realizada sem o elemento fé, ou lhar, desinteresse, honestidade, sinceridade, bondade, espírito
pelo menos convicção? O que pode levar a cabo tantos interes- de sacrifício? Pode o dinheiro nos dar esses elementos para
ses separados, aos quais importa apenas o que serve à vantagem construir bem? Ou, ao contrário, ele atrai sobre nós exatamente
individual, e não à realização da obra? Quando o egoísmo e o o oposto? E como construir sobre as areias movediças do orgu-
interesse são o estado de alma dominante e a única finalidade é lho, da avidez, do egoísmo? Faz parte da sabedoria do enge-
satisfazê-los, o que se pode alcançar, senão a satisfação deles? nheiro construtor de qualquer obra – ao fazer o projeto – colo-
Que poderão produzir os maiores meios materiais, quando in- car cada coisa em seu lugar, prevendo o que se pode aprovei-
fectados por essa psicologia? As próprias coisas ficam permea- tar. Para tanto, é necessário conhecer e calcular o poder de re-
das pelas sutis vibrações das causas que as geraram e das forças sistência do dinheiro e o peso que ele pode suportar, apoiando
que as movimentam. Que se pode obter quando, exatamente na a outra parte do peso em bases psicológicas e espirituais, que
raiz da ação, a obra está corroída por esses impulsos interiores? permitam o suporte completo. Cada coisa em seu lugar. Tam-
Por isso o dinheiro pode ser perigoso, pelos sentimentos ne- bém o sal, na comida, é muito útil, mas, se passa da medida
gativos e desagregantes que atrai e traz consigo, introduzindo- exata, estraga-lhe o sabor. O fogo é indispensável para cozi-
os na obra. Por isso, quando é necessário recorrer a ele, é preci- nhar, mas, se for demasiado, queima tudo. Assim o dinheiro é
so usá-lo como são usados os venenos nas farmácias. Eles são uma força que precisa ser contida e dirigida pelos valores subs-
úteis e, às vezes, até indispensáveis na medicina, mas ficam tanciais, que estabelecerão os limites e o uso para ele.
bem fechados em seus recipientes, com uma etiqueta por fora, É este o segredo para se alcançar a vitória, sabendo ser in-
onde está escrito: “veneno”, para avisar do perigo. Por que ve- teligentemente utilitário. É tolice desprezar o imponderável,
neno? Em si mesmos, os meios materiais não são maus. São porque, de fato, ele pesa muito. É ingenuidade ignorar o poder
obra de Deus, úteis à vida, que, sem dúvida, deve ser vivida. das forças do espírito. Não estamos moralizando em nome de
Mas tornam-se veneno, quando o homem, por causa deles, é ideais. Estamos falando de nossa própria vantagem. E aos que
tomado pela avidez e agride o próximo, explora, esmaga e es- acreditam nos atalhos não-honestos, esperando chegar primei-
craviza os fracos. Para conquistar o poder do dinheiro, fazem-se ro, dizemos que as leis da vida estão construídas de uma tal
as guerras e enche-se o mundo de sofrimentos. Não nos rebe- forma, que eles, mesmo se conseguirem momentaneamente
lamos contra o dinheiro honesto, fruto do trabalho, abençoado surrupiar essa vantagem à justiça de Deus, pela qual tudo é re-
por Deus, mas contra o dinheiro ensanguentado, que gera tantas gido, pagarão caro mais tarde, o que não lhes convém, pois se
dores, amaldiçoado por Deus. É este o dinheiro que foi chama- trata de um péssimo negócio para eles. Tudo isto vimos no ca-
do de esterco do demônio, enquanto o Evangelho elogia aquele so narrado no volume anterior.
o da esmola da viúva. O erro consiste no dinheiro demasiado, Fala-se muito de Deus e de Cristo, utilizando-os como capa
não honesto, não fruto do trabalho, não meio para coisas boas, para encobrir os próprios interesses e, à sombra Deles, fazer
mas fim em si mesmo. Em vista disso, é preciso utilizá-lo com melhores negócios. O atalho para chegar parece o mais breve,
cuidado nas próprias coisas, porque ele é como uma arma, que dando a impressão de um jogo fácil, e o mundo é facilmente le-
pode defender, mas também matar; é como um veneno, que po- vado a isso, sem imaginar o quanto seja perigoso, ignorando
de curar-nos de uma doença, mas também levar-nos à morte. com quão poderosas forças está lidando. Cristo não é uma pala-
O perigo não reside no uso do dinheiro, mas em querer ba- vra vazia, que possa ser usada levianamente ou explorada e uti-
sear-se exclusivamente nele. Qual a obra que se pode construir lizada para outros fins, sem grave dano próprio. Fala-se muito
sobre o fundamento que nos oferece a psicologia do dinheiro? da presença de Deus. Mas o fato é que Deus está verdadeira-
Logo que seu cheiro se espalha no ar, qual é o tipo de homem mente presente, o que significa que Sua lei está continuamente
que imediatamente chega correndo? Certamente não é o ho- funcionando, com as devidas sanções aos que dela zombam.
mem trabalhador, honesto, sincero e desinteressado, que é o Ela defende os que trabalham em seu âmbito, mas golpeia os
elemento mais adequado para construir, mas sim o indivíduo à que a querem violar. Então quem sinceramente obedece à Lei é
procura de realizar sobretudo os seus negócios, apto a construir de fato o mais forte, aquele a quem compete a vitória, e não
para si, mas destruindo para os outros. Quem quiser, portanto, quem se julga valente porque a desobedece com astúcia. Com
realizar uma obra, principalmente se for espiritual, precisa em os meios e métodos do mundo poderão ser feitos edifícios ma-
primeiro lugar afastar esses elementos e se proteger contra o terialmente grandes, mas nada se constrói nas almas. No meio
dinheiro, que os atrai. Quem procura, em primeiro lugar, acu- das mais colossais construções, como hoje ocorre, vemos que
mular dinheiro acaba ficando cercado por essas forças negati- os homens se tornam cada vez piores, e até mesmo suas pró-
vas, ansiosas por destruir tudo. Desse modo, o dinheiro pode prias obras gigantescas – filhas da matéria, e não do espírito –
transformar-se de auxílio em obstáculo. não sustentadas pelo poder deste, desabam e viram pó. Torna-se
E assim voltamos sempre à causa primeira de tudo, causa inútil escorá-las, quando falta a união espiritual com Deus, sen-
que está no espírito. As coisas em si mesmas não são nem boas do a obra, portanto, fruto apenas das forças do mundo.
nem más. Tudo depende da intenção e do objetivo com que são Se quisermos ser os mais fortes para vencer, coloquemo-nos
feitas. Elas só entram no mundo moral com o uso que delas faz do lado das forças espirituais, que são as mais poderosas, e não
o homem. Tudo é bom, quando bem usado; tudo se torna ruim, exclusivamente do lado das forças materiais, que nos podem
quando mal utilizado. É o substrato espiritual que valoriza ou trair. Se nos basearmos orgulhosamente apenas em nossos re-
desvaloriza tudo, servindo de apoio e constituindo o funda- cursos pessoais, teremos somente estes para nossa defesa. Mas,
mento em que tudo se baseia. se humildemente nos coordenarmos no âmbito da lei de Deus,
Não se deixando enganar pelas miragens que a avidez lhe poderemos contar com o poder dela e a teremos como defesa
oferece – nas quais os simples acreditam e caem – o homem in- nossa. Voltamos, assim, a confirmar as conclusões dos capítu-
teligentemente utilitário leva em conta também, para construir los precedentes: a vitória do espírito sobre a matéria e do Evan-
solidamente, o fator psicológico e espiritual. Quem realmente gelho sobre o mundo. Cristo vence!
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 13
III. MATERIALIZAÇÃO OU ESPIRITUALIZAÇÃO humana. Explica-se, assim, por que as primeiras virtudes a apa-
recer são negativas, impondo o “não-fazer”, ao invés de positi-
O materialismo religioso. Espiritualizar a matéria, e vas, buscando o “fazer”. Desse modo, o que o homem deve
não materializar o espírito. O Evangelho, em vez de negar, aprender primeiro não é a espiritualizar-se, mas a libertar-se da
afirma e expande a vida. A rebelião dos instintos atávicos. materialidade; não é a tornar-se anjo, mas a deixar de ser ani-
O passado revive. Crucificação. A reabsorção do mal e a mal. A espiritualidade verdadeira só poderá chegar depois que
sua eliminação. A míope psicologia do involuído e suas du- se tenha varrido do terreno os instintos inferiores da animalida-
ras experiências. Os novos horizontes do Evangelho. O de. Tudo isto nos mostra o quanto ainda estamos longe da espi-
método da não-resistência. A defesa do justo. A evolução ritualidade, porque, sendo ela positiva e ativa, não perde mais
caminha para Deus, que é vida; o egocentrismo a contrai tempo com esse trabalho negativo para demolir a parte inferior,
no limite. A fustigação da dor nos impele a subir. As di- já superada e inexistente naquele nível.
versas reações à dor. O que interessa ao homem, mesmo quando ele quer ocupar-
se de coisas ideais, é sempre o que se refere ao corpo e à maté-
Continuemos a realizar, sob outros aspectos, o nosso exame ria. Os mandamentos de Moisés dizem sobretudo “não-fazer”.
do contraste entre evoluído e involuído, entre espírito e matéria, Na vida de Cristo, o ponto culminante em que o homem mais
entre o Evangelho e o mundo. Saindo do caso narrado, que o atentou, demorando-se em cada particular, foi a sua paixão físi-
simboliza, o problema se torna cada vez mais universal. Procu- ca, feita de maceração do corpo, sempre visto em primeiro lugar,
remos compreender cada vez melhor o significado da luta entre ao passo que a paixão do espírito, tão maior em Cristo, quase
esses dois extremos opostos, entre os quais se debate a natureza desaparece num fundo longínquo. Na eucaristia, que é união es-
humana. De um lado o evoluído, que vive, no plano do espírito, piritual, fala-se de corpo e de sangue. Sem a presença de algo
a lei do Evangelho; do outro o involuído, que vive, no plano da material e sem a intervenção do corpo, parece que o homem não
matéria, a lei do mundo. O choque ocorre entre esses dois dife- sabe fazer nem imaginar nada, enquanto a primeira qualidade do
rentíssimos tipos biológicos, situados em dois planos opostos homem espiritual é eliminar o corpo e a matéria das funções
da vida, espírito e matéria, expressos por duas leis irreconciliá- próprias do espírito. Para tornar possível o mundo compreender
veis: a do Evangelho e a do mundo. que Cristo não morrera, pois Seu espírito sobrevivera, era neces-
Cada um dos dois tipos não pode deixar de reduzir tudo ao sária uma sobrevivência física, com a ressurreição do corpo,
nível de seu plano de vida, de conceber tudo com a própria porque, para o homem, a vida está no corpo e este constitui a
forma mental e de tudo viver segundo sua própria natureza. O pessoa. Se não sobreviver algo que se veja e se toque (Tomé,
evoluído tende a espiritualizar tudo, o involuído a tudo materia- quando Cristo apareceu-lhe, exigiu como prova colocar o dedo
lizar; o primeiro, elevando tudo a seu plano de vida, o segundo, em Suas chagas), se o indivíduo permanecer vivo só no espírito,
tudo reduzindo ao seu próprio nível. Este último, sendo feito justamente a parte que verdadeiramente o constitui, isto continua
primordialmente de carne, portanto das necessidades e instintos um fato sem importância, porque não é percebido. Mas, então,
inerentes a ela – um verdadeiro filho da Terra – é levado a con- quando aprenderemos a nos espiritualizar?
ceber tudo materialistamente, pensando e resolvendo todos os Vemos assim como os dois biótipos – evoluído e involuído,
seus problemas com essa psicologia. Em qualquer circunstân- ou seja, espírito e matéria – são distantes e opostos. Enquanto o
cia, não se pode sair do próprio estado mental, nem se pode agir primeiro está colocado no plano espiritual, em função do qual
diversamente daquilo que se é. vive e concebe tudo, dá-se o oposto com o involuído. Ora, onde
Por isso ocorre que a maioria, mesmo no terreno das coi- esse biótipo representa a maioria, as próprias religiões são con-
sas religiosas, espirituais e ideais, comporta-se materialista- cebidas materialistamente, havendo então um materialismo reli-
mente, porque essa é a sua psicologia, com a qual concebe tu- gioso, o qual, em substância, é um materialismo recoberto de
do e da qual não pode fugir, dado o seu tipo biológico. Quan- formas religiosas, o que é ainda pior. O trabalho que dever ser
do o próprio centro vital está situado no plano biológico da realizado não é fazer o espírito descer, trazendo-o ao nível da
animalidade, qualquer coisa que se pense ou se faça manifesta matéria, mas sim, ao contrário, transformar nossa natureza mate-
a tendência de levar tudo para ele, porque ninguém sabe viver rial até torná-la espiritual. Ao invés de reduzir as coisas espiritu-
fora do próprio plano. Não é questão de uma ou de outra reli- ais à forma mental humana, abaixando tudo a este nível, seria
gião ou filosofia, nem do grupo a que se pertence ou da fé que necessário procurar subir, assumindo a forma mental do homem
se professa. Não se trata do verniz externo das posições for- espiritual. Em outros termos, quando se entra neste terreno, não
mais, que podem modificar apenas a aparência, dificilmente se costuma fazê-lo para espiritualizar a matéria, como se deve-
conseguindo, numa só vida, transformar a substância, ou seja, ria, mas para materializar o espírito. Executa-se, assim, um tra-
tornar um biótipo em outro. Quando o ponto de referência é o balho às avessas, pelo qual se procura pôr o céu a serviço da ter-
corpo e a terra, em função dos quais se pensa e se vive, tudo ra. Assim como, em vez de uma função social para o bem cole-
permanece nesse plano. Assim como um peixe, ainda que pu- tivo, tende-se a fazer do poder dos governantes um meio de
desse aprender a teoria e as leis do voo, jamais poderia voar, usufruir vantagens pessoais, também se utilizam as coisas do es-
pois referir-se-ia sempre ao seu mundo, permanecendo em seu pírito para tirar delas vantagens no plano material. Ora, para a
ambiente aquático, um involuído também poderá aprender as evolução e para quem quer subir o que interessa não é abaixar as
coisas espirituais, sem contudo tornar-se um evoluído, pois, coisas superiores, mas sim afinar-se com elas, subindo a planos
em vez de vivê-las, referir-se-ia sempre ao seu mundo materi- superiores, a fim de aprender a perceber, pensar e viver neles,
al, vivendo apenas em função deste. nas formas que lhes são próprias. Infelizmente, porém, cada um
Dado o seu tipo biológico, o ponto de partida e de referência tende a transformar e reduzir tudo às medidas do próprio plano e
para o homem, que é sempre matéria, é o corpo, em função do aos limites da própria natureza. Para muitos, portanto, estas ob-
qual ele pensa e age. Por isso, mesmo quando quer penetrar na servações não serão compreensíveis ou até mesmo admissíveis.
estrada da espiritualidade e da santidade, tem de começar agre- Já assinalamos o quanto é perigoso não usar corretamente as
dindo a própria animalidade, para destruí-la. Logo de inicio, coisas espirituais, brincando com essas tremendas forças. As
acha-se engolfado num trabalho negativo, constituído pela de- astúcias e enganos, ainda que possam dar fruto na luta pela vida
molição da barreira formada pela própria natureza inferior, que no plano humano, não podem ser utilizadas diante de Deus –
o impede de avançar para formas superiores de vida. Trabalho posição que requer sinceridade – e se tornam prejudiciais. Por
indispensável sem dúvida, mas que revela a verdadeira natureza isso, nestas páginas, quisemos decididamente enfrentar o pro-
14 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
blema, para resolvê-lo com toda a sinceridade e de alguma for- vamos contra os próprios princípios do funcionamento da má-
ma, menos com o engano. Assim, quando nos perguntamos se quina. Como podemos, então, pretender que ela funcione?
Cristo deve realmente ser levado a sério e concluímos que sim, Assim, a animalidade humana continua a se enfeitar com
temos de levá-lo verdadeiramente a sério, vivendo Sua lei a esse belo chapéu e a vestir-se com esse maravilhoso manto, o
qualquer custo, enquanto, no caso contrário, devemos abando- Evangelho, acreditando que lhe baste isto para conseguir civili-
ná-la por completo. Porém jamais mentir. O que está acima de zar-se sem esforço. Mas a realidade está nos fatos. É mais fácil
qualquer discussão é que, qualquer coisa que se faça, deve-se transformar uma montanha, fazendo-a ir pelos ares com a di-
fazê-la honestamente e com sinceridade, sem enganar-se a si namite, do que transformar um tipo de personalidade. A anima-
mesmo e aos outros. Diante de Deus, nas coisas do espírito, é lidade está bem assentada com os quatro pés no terreno sólido
necessária uma sinceridade verdadeira, e não a humana, que da matéria, onde se apoia há milhões de anos. Só conhece ele e
muitas vezes se usa para esconder a mentira. só nele confia. É lógico que desconfie e se rebele contra quem
Assim caminha o nosso mundo. Dada a sua posição ao lon- queira, de um só golpe, fazê-la voar até ao céu. Na ordem uni-
go da escala evolutiva, as coisas do espírito, situadas em outro versal, nada ocorre por acaso, nada é inútil, tudo está em seu
plano de vida, além daquele do nosso mundo, aparecem neste justo lugar. A animalidade existe, é involuída e atrasada, mas
em seu aspecto negativo, como renúncia e mutilação da vida, e não está fora da ordem universal. Ela realizou suas importantes
não em seu aspecto positivo, como expansão vital, de afirmação funções evolutivas e tem suas razões de existir. O primeiro de-
e conquista. Em nosso mundo, as virtudes aparecem como um ver do pensador moralista que quer fazê-la progredir, é compre-
freio que oprime, como uma sufocação da natureza humana. É endê-la, para saber dobrá-la e plasmá-la sem quebrá-la, como
natural, então, que sejam evitadas como coisa triste. Colocado pode acontecer quando se usa o Evangelho com o espírito
diante do impulso da evolução, o homem sente mais a pena da agressivo do involuído, para domar com a força. Assim, ne-
renúncia ao seu mundo e da separação da própria materialidade nhuma moral é tão contraproducente – mesmo se usada por sua
do que a alegria de crescer num mundo maior, ligando-se a uma fácil atuação – quanto a moral estandardizada, segundo a qual
forma mais alta de vida, dada pelo espírito. É inútil fazê-lo todos devem entrar nas mesmas medidas e ter o mesmo com-
compreender que não se trata de caminhar com pesar, mas sim primento no mesmo leito. Os que não se enquadram são estica-
com alegria de viver. Se, ao invés da primeira parte, que é ne- dos até aquele comprimento, se forem menores, ou então, se
gativa, fosse percebida a segunda, que é positiva, invertida seria forem maiores, lhes é cortado um pedaço.
a sensação provocada pelo esforço de evoluir. A evolução não É necessário conhecer as reações da animalidade e levá-las
nos pode impelir a caminhar contra a vida, mutilando-a na dor, em conta. Ela é uma forma de vida inferior, mas é vida e, como
mas só nos levar para a vida. Se isto fosse bem compreendido, tal, pelo mesmo divino princípio da vida, não quer e não pode
o esforço deste desenvolvimento daria uma alegre sensação. renunciar a existir. Ao contrário, quanto mais se é involuído,
Quanto mais iniciais são os degraus da subida espiritual, maior mais se é apegado à vida, isto porque o ser, quanto mais é invo-
é o cansaço para nos afastarmos da matéria e mais dura é a dor luído, menos possui e, em sua pobreza, mais apegado está à sua
da separação. Porém, quanto mais se sobe, mais diminui esse existência limitada e precária. A plenitude da vida está em
cansaço que nos afasta da matéria e menor é a dor da separação, Deus, e o ser a conquista com a evolução, subindo para Ele, en-
porque o ser acha outra e mais alta vida à qual ligar-se. quanto perde-a com a involução, afastando-se de Deus. Eis
◘ ◘ ◘ porque o ser inferior luta tão desesperadamente pela sua vida,
Assim, o homem não pode deixar de se revelar como é, se- pois precisa e quer lutar para sobreviver.
gundo o seu tipo biológico, mostrando-nos, com os fatos, o que Ora, o Evangelho, negando a animalidade do involuído,
ele é. Dado esse seu tipo, mais vizinho do Anti-Sistema que do aparece-lhe como uma negação de toda vida, dado que este só a
Sistema, é inevitável que apareça – mesmo quando ele entra no conhece nesta sua forma e acredita que, se abandoná-la, morre-
terreno das religiões e da moral – o seu inato negativismo, qua- rá. É natural, então, que ele se rebele contra um Evangelho que
lidade do involuído, diante dos problemas do espírito. Esse bió- se lhe apresenta em forma negativa, ou seja, como negação e
tipo está emergindo penosamente dos mais baixos níveis da vi- sufocação daquela vida. Ele não compreende, nem os divulga-
da, em que tudo é vivido e sentido em função da matéria, e o dores do Evangelho o fazem compreender, que, ao contrário, o
Evangelho, avançadíssima lei de espiritualidade, em função da Evangelho é uma afirmação para a expansão da vida e que acei-
qual tudo é invertido, pretende enxertar-se na carne viva desse tá-lo é uma alegria de conquista, e não uma dor de renúncia.
ser, para transformá-lo em sua mais profunda substância. Se Mas como pode a natureza humana deixar de inverter tudo na
nos convencermos da imensa distância que, ao longo da escala Terra? Assim, o Evangelho foi apresentado mais como uma du-
da evolução, existe entre o plano de vida do homem atual e o ra lei, carregada de sanções, com as quais se agride a vida para
nível do Evangelho, compreenderemos como, em 2.000 anos, mutilar sua expansão, do que como uma arte sabia para alcan-
tenha sido feito tão pouco e como o resultado, mais do que o çar uma vida cada vez maior. Mas, dado o ambiente humano
levantamento do homem, tenha sido a inversão do Evangelho. em que o Evangelho caiu, como poderia ocorrer de outra for-
Assim, a ação permaneceu no exterior, nas formas, nas prá- ma? Só os santos e as grandes almas souberam escapar desse
ticas religiosas e nos sermões, tendo o Evangelho permanecido erro, mas eles são muito poucos para arrastar a massa humana.
na superfície. Todos, assim, verificam que ele não funciona, o Se o involuído resiste ao evoluído e revolta-se contra a psi-
que é verdade. Esse fato, porém, os leva a concluir, erradamen- cologia evangélica do santo, é porque defende seu tipo biológi-
te, que o Evangelho é uma utopia irrealizável na prática. Lança- co, no qual vê a própria conservação. Ele sente, por instinto,
se a culpa na máquina porque não funciona, ao invés de se atri- que o outro tipo quer substituí-lo na vida, tomando-lhe o lugar.
buí-la ao maquinista, que não a sabe movimentar. Continua-se a Sem dúvida, o direito à vida cabe ao novo, mas isto não impede
repetir que a fé remove as montanhas, mas de fato não a vemos que o velho resista para não morrer. Eles são rivais no mesmo
remover nem mesmo uma pedrinha. Mas qual é a nossa fé? E terreno da vida, por isso se combatem. Se o involuído é o tipo
de que fé fala o Evangelho? Da fé de um momento, de um dia, do passado e, por isso, sente-se com maior direito de continuar
de uma vida ou de um milênio? De uma fé calculista e interes- a viver, o evoluído é o tipo do futuro e, por isso, sente-se com
sada, ou de uma fé profunda, pronta a tudo? É lógico, mesmo direito ainda maior de se apoderar da vida. O involuído, saben-
sendo mais cômodo e se buscando justamente o contrário, que do que, amanhã, terá o seu lugar tomado pelo evoluído, expe-
não se possa obter um grande resultado com um pequeno esfor- rimenta imenso ciúme dele, pois não entende que será ele mes-
ço, pois há necessidade de proporção entre causa e efeito. Nós mo, após ressuscitar de uma forma velha em uma nova, aquele
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 15
evoluído que o substituíra depois. Não compreende que o vencedor, quantas ruínas, contorções e revoltas naqueles que ti-
exemplo dos evoluídos é um convite à conquista de uma vida veram de se adaptar a viver como vencidos! Todas as prepotên-
maior e que esta é apenas a continuação de sua própria vida. cias que os fracos tiveram de engolir à força estão prontas a re-
Contudo, entre os dois, o mais forte é o elemento jovem, gurgitar à procura de uma desforra que lhes dê satisfação. To-
que a vida defende porque confia a ele a continuação de seu das as experiências vividas permanecem escritas em nossa car-
caminho. As velhas células resistem, mas, tão logo se forma ne e reclamam compensação. Os delinquentes natos são assim
uma célula de tipo superior, mais avançado, esta procura con- porque querem ser maus ou porque se tornaram assim como re-
solidar-se como tipo biológico, tornando-se centro de atração ação ao esmagamento que sofreram dos fortes? A humanidade
para as outras células do mesmo tipo que se vão formando. viveu até agora de delitos, e isto não pode ser cancelado de um
Estas, por sua vez, sentem-se atraídas e se aglutinam em redor só golpe. Cada causa deve ter o seu efeito.
daquela primeira célula, até que a vida possa firmar-se e fixar- Então, quando o Evangelho se nos apresenta inerme e aca-
se num plano evolutivo mais alto, na forma do novo biótipo riciador, que podem fazer esses seres carregados de revolta,
do evoluído. É assim que, por lentas maturações, o Evangelho acumulada durante séculos de opressão? Explicam-se assim,
consegue fixar-se na Terra. Hoje, ainda estamos na fase dos embora não se justifiquem, os extermínios da revolução fran-
raros exemplares esporádicos do novo tipo em formação. Mas cesa e a brutalidade de tantas revoluções. Mas o mundo conti-
esses exemplares, com o tempo, deverão tornar-se cada vez nua a cometer injustiças, julgando que lhe baste a força para
mais frequentes, mais normais, até que, seguindo as pegadas fazer calar e anular as reações, o que, momentaneamente, pa-
do Evangelho, toda a humanidade terá de passar a viver num rece até ser verdade. No entanto o fogo viceja sob as cinzas,
plano mas alto de evolução, que já não será mais o da anima- formam-se rancores profundos, ódios seculares de nações, ra-
lidade atual, e sim o da espiritualidade. Isto poderá parecer ças e classes sociais; ódios que permanecem escondidos nas
fantasia. Porém, além de não haver como contestar que a evo- vísceras da vida – tal como um homem pode trazer, imersa du-
lução é um fenômeno inegável, reconhecido por todos, tam- rante anos nas profundidades de sua carne, uma série de vírus
bém já não se pode mais agora admitir que ela continue sendo – até que um dia, de forma semelhante à doença, a vingança da
compreendida, como propuseram Darwin e Haeckel, apenas revolta explode e tudo vem à luz.
como desenvolvimento de órgãos, sem levar em conta o de- O Evangelho não desce para trabalhar num terreno virgem,
senvolvimento nervoso, psíquico e espiritual. mas sim num já poluído por mil delitos. É necessário enfrentar
Assim, através desse contraste de forças, a evolução se reali- um trabalho imenso, porque se trata de corrigir, reeducar e ree-
za. Os obstáculos que os involuídos costumam colocar para fe- dificar o que está mal construído. É preciso desentrançar este
char o caminho aos pioneiros do ideal são bem conhecidos. Do emaranhado de explosivos que quer estourar e ter a força de
caso de Cristo até todos os outros menores, a história está cheia engolir esse triste passado, neutralizando esse tanto de mal com
deles. Trata-se da história de mártires. Se o Sistema atrai para o outro tanto de bem, que é indispensável cada um possuir, para
Alto, o Anti-Sistema, por sua vez, possui uma atração sua para poder expandi-lo em torno de si.
baixo. A evolução caminha deste para aquele. Em períodos de A justiça do mundo atual se apoia em compromissos, onde
descida, pode haver o desenvolvimento semelhante ao do cân- os impulsos contrários encontraram um equilíbrio apenas tem-
cer, em sentido involutivo, com uma atividade retrógrada e des- porário, cada um permanecendo sempre pronto a explodir con-
trutiva. Enquanto o evoluído tende a se desenvolver ordenada- tra o outro, tão logo a pressão de um se relaxe. Isto em todas as
mente, em sentido orgânico e construtivo, o involuído só sabe posições sociais onde haja alguém que mande e alguém que de-
fazer o contrário. Cada um, já o dissemos, não pode deixar de va obedecer-lhe. Como pode o Evangelho enxertar-se de um só
revelar a si mesmo em tudo. O involuído só sabe agir como tal, golpe nesse sistema de forças e, em curto prazo, desviá-lo de
porque, se agisse diversamente, já não seria mais involuído, e suas primeiras aproximações da justiça para um nível no qual
sim evoluído. Até as células inferiores, involuídas, atraem para a esta é definitiva e completa? Quando, no estado atual, o Evan-
própria órbita os elementos a elas semelhantes. Enquanto, no ca- gelho intervém entre um patrão armado de força e um depen-
so do evoluído, forma-se a fraternidade pacífica e construtiva, dente armado de revolta, ensinando que a ambos convém muito
tendendo à unidade orgânica, no caso do involuído forma-se o mais colaborar pela compreensão, assim que uma das partes re-
bando de malfeitores, para guerrear contra quem quer que seja e, laxe a pressão contra a parte oposta, esta lhe salta ao pescoço
no fim, também entre si, destruindo e desagregando tudo, por- para apoderar-se de todo o campo, que, antes, só o equilíbrio
que a única finalidade é a vitória do próprio egoísmo individual. entre as duas prepotências opostas mantinha dividido, cabendo
◘ ◘ ◘ um bocado a cada parte.
Não devemos esconder a realidade e ignorar as dificuldades É esse estado armado de todos contra todos que paralisa logo
que encontra na Terra a aplicação do Evangelho. O passado de início quem se dispõe a querer viver o Evangelho na Terra, a
animal está muito próximo ainda para que não seja ressentida menos que se tenha o estofo de um herói, ou então que o seu ato
toda sua tremenda influência. Transformar o próprio tipo e não seja isolado, mas acompanhado por outros, de tal forma que
forma mental, transportando-se para viver num plano biológico se possa encontrar algum sustento pela reciprocidade da bonda-
mais alto, representa um trabalho profundo, que não se pode de do próximo. Quem quisesse sozinho, no mundo de hoje, con-
improvisar. Sem dúvida, o Evangelho quer ensinar ao homem tra todos, viver integralmente o Evangelho só poderia ser um
coisas nobres e grandes para o futuro. Mas, se perguntarmos a mártir. Mas precisamos também admitir que só ele poderia ser
esse homem o que lhe ensinou o passado, ele responderá que considerado verdadeiramente civilizado. Todavia, aos que não
foram as virtudes da prepotência, do egoísmo e, principalmente, souberem chegar a tanto, só resta continuar a esmagar-se uns aos
da mentira. As tão declamadas civilizações da história só pude- outros, cada um por sua vez, e a sofrer as reações vingativas dos
ram aplicar ligeiros vernizes por cima da originária ferocidade outros, até que, à força de atritos, sejam aparadas todas as ares-
dos animais. E, no trabalho de educá-los, voltamos sempre ao tas e se chegue a descobrir a fórmula da convivência. Assim,
início, porque educá-los significa refazê-los totalmente. com um esforço muito mais diluído, longo e lento, o homem
Teremos já pensado de quantas dezenas ou centenas de mi- acabará, da mesma forma, por chegar à aplicação do Evangelho.
lênios são fruto os instintos atuais? E foi imprescindível adqui- Todo o sofrimento resultante deste enorme atrito – a ponto
ri-los para sobreviver, porque só vivia quem os possuísse. Eles de quase paralisar a vida social – poderia ser poupado apenas
constituem o nosso sangue, fazem parte de nossa carne. A luta com um pouco de inteligência. Mas é justamente esta que falta,
pela vida pode ter selecionado o mais forte, mas, em redor do apesar de se empregar tanto trabalho para adquiri-la. Querendo
16 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
ou não, é mister que a obra da civilização seja feita por todos, co, pois esse biótipo, tendo conseguido evoluir, pertencerá a
cada um colaborando com a parte que lhe compete. Por maior uma raça desaparecida. Com ele terminarão todas as tentativas
que seja a vontade de ser separatista e, portanto, permanecer de civilizar-se o homem, que recairá no fundo da barbárie. A
fechado no próprio egoísmo, a vida é um fenômeno coletivo, presente proposta para se levar a sério o Evangelho é um apelo
no qual a reciprocidade nas relações funciona em cheio. Nin- desesperado para a salvação do mundo.
guém quer ser o primeiro a fazer o esforço e espera isto da vir- O homem é livre, e Deus lhe deixa a liberdade de retroce-
tude alheia, mas os outros fazem a mesma coisa. Assim, todos der. Mas o homem não compreende que, retrocedendo, afasta-
ficam imersos no mesmo pântano. Que batalha poderá vencer se de Deus e, portanto, da vida, caminhando para a própria des-
um exército em que cada soldado só quer mandar, conservan- truição. Este é o maior prejuízo com o qual os negadores rebel-
do-se à frente dos outros? Forma-se então, entre os elementos des se autocastigam. Com a involução, cada vez mais se acen-
componentes da mesma máquina, um atrito que a paralisa ou a tua o espírito de domínio e de agressão. Não há necessidade al-
faz funcionar mal e com esforço. E o mal que cada um queria guma da intervenção divina direta, nem da realização, por parte
lançar sobre o vizinho continua para cada um e para todos, das forças do Evangelho, de uma guerra para destruí-los. Basta
como também de cada um e de todos é a culpa. Quanto mais deixá-los abandonados a si mesmos, pois, assim como são, es-
veneno lançarmos na panela comum, mais deveremos bebê-lo tarão perdidos. Os involuídos são ferozes demais para deixar de
nós mesmos. Assim avançam com grande fadiga os nossos se guerrearem e, com isto, destruírem-se mutuamente. Ninguém
destinos dentro desta mal construída máquina social, cada um pode escapar à lei do próprio plano, muito menos quem a prefe-
sofrendo a sua parte. E os que se acreditam mais fortes e astu- re e nela procura imergir cada vez mais. E, assim, os elementos
tos procuram escapar, firmando-se no egoísmo e lutando para inferiores, que desejariam deter a lei do progresso, são automa-
ganhar espaço à custa do vizinho, sem compreender que este é ticamente lançados fora e eliminados.
um soldado do mesmo exército, com o qual é seu interesse co- ◘ ◘ ◘
laborar para vencer. Desse modo, os mais fortes e astutos Dado o seu ponto de vista, o involuído, no fundo, não está
põem-se à frente de um ataque às avessas, em direção a um errado. Ele julga e age conforme o ângulo de sua visão. O pro-
abismo, procurando arrastar todos com eles. blema é que seus olhos só enxergam de perto, num panorama
Eis ai o mundo que o Evangelho tem de enfrentar para rea- pequeno e limitado no tempo e no espaço. São essas as dimen-
lizar-se. Como pode uma Boa Nova de paz arrasar, de um só sões da vida nesse plano biológico, no qual uma inteligência
golpe, montanhas de veneno acumuladas durante os séculos? ampla e de longo alcance, que tenha compreendido o comple-
Embora seja proibido o crime, o gosto tão difundido pelos dra- xo funcionamento da grande máquina do universo e saiba fun-
mas criminais demonstra como é grande o desejo de dilacerar, cionar com ela, ainda não apareceu. Forma mental toda fecha-
matar e destruir, que se acha aninhado no fundo da alma huma- da no próprio eu, além do qual só aparece a névoa do mistério
na. O passado não está absolutamente morto e se encontra sem- e a incontrolável desordem do caos. Psicologia simplista, mo-
pre pronto a vir à tona. Todos, mais ou menos, trocaram entre vida pelos instintos, não controlada pelo conhecimento. Ema-
si, no passado, um pouco dessa mercadoria da qual o mundo es- ranhados esboços de astúcia primitiva, formando uma rede na
tá cheio, chamada de mal. Todos estamos mais ou menos pre- qual fica preso quem primeiro a utiliza. Método de vida enga-
sos numa rede de débitos e créditos recíprocos. Todos comete- nador, que só pode colher ilusões.
mos alguma injustiça, sendo culpados contra o próximo, e rece- A vida do involuído é um jogo curto, que só mira os resul-
bemos algum prejuízo. Para chegar ao Evangelho, é imprescin- tados imediatos, no breve prazo e ao alcance da mão, porque
dível acertar o saldo de todas essas contas, acertar todos os dé- lhe escapa todo o resto, que ele não conhece e, portanto, não
bitos e créditos, o que significa paixão cruenta e crucificação pode levar em conta nos seus cálculos. Que matemática poderia
desta natureza humana, ainda feita de animalidade. Cristo, em- fazer um cientista ao lado de um selvagem, se este só consegue
bora nada tivesse de pagar, quis ser o primeiro nessa estrada de contar com os dedos da mão e, além desse número, sabe apenas
paixão e crucificação, apenas para nos dar o exemplo. Mas que há mais, porém fica perdido no mundo vago do incomensu-
quem quer segui-Lo neste caminho de redenção, que é o único? rável. Que mais poderemos esperar do homem de hoje, se ele
A humanidade está verdadeiramente onerada por uma carga de nada sabe ainda quanto aos problemas fundamentais da vida e
iniquidades que lhe paralisa a subida. Este fardo precisa ser limita-se a resolvê-los com crenças antagônicas, atentas a con-
anulado de qualquer forma, seguindo a estrada oposta, substi- denarem-se mutuamente? Com uma psicologia filha de seu am-
tuindo a guerra pela paz, o ódio pelo amor, pois não há outro biente material, ele se limita ao trabalho analítico da pequena
meio de anular o passado e libertar-se dele. E, enquanto não luta cotidiana, onde tem valor o que se pode agarrar de imedia-
soubermos vencê-lo, este passado nos perseguirá e esmagará. to. Para realizar um trabalho mais vasto, visando resultados
São, de fato, ridículos os sonhos do homem evangélico? maiores e vantagens longínquas, seria preciso saber conceber
Constitui mesmo uma ingenuidade ser sincero e honesto? Os com maior amplitude e em longo prazo os fenômenos. Mas pa-
homens práticos e astutos têm realmente o direito de rir-se de ra chegar a isso, é indispensável haver desenvolvido qualidades
tudo isso? Então deixemos o mundo nos preparar o suicídio intelectuais e morais, e não apenas instintos vorazes.
com a corrida armamentista, deixemos a vida, que se tornou Assim se alcança a vantagem imediata, mas e depois? Pro-
um desencadeamento de rapacidade e uma babel de mentiras, curando aferrar essa vantagem imediata, que forças tocamos e
tornar-se insuportável para todos, até ficarmos submersos em movimentamos no grande mecanismo do universo? Ignorá-las
nosso próprio veneno. É mesmo uma utopia o Evangelho? En- não nos exime das consequências. E só quando estas chegam,
tão que o homem bom e justo seja liquidado, lançado fora da começa-se a compreender alguma coisa. Diz-se, então, que a
vida como um ser inútil, sem direito a viver, e permaneça iso- vida é uma ilusão, mas isso significa que nos iludimos, acredi-
lado para que não contagie os outros com a sua doença. Não há tando seguir o caminho certo, enquanto seguíamos o errado. E
lei nem costume que o diga explicitamente, mas tudo isto está isto já é uma experiência vivida, uma lição útil, que nos evitará
implícito e subentendido nas leis e costumes. Continuemos, repetir o erro mais tarde. Como aprender de outra forma? Com
então, com esta seleção em descida, com essa evolução às o seu respeito à liberdade individual, a Lei não pode tirar de
avessas, com essa inversão de valores. Mas quem caminha de ninguém o seu direito de errar. Para aprender, permanecendo
cabeça para baixo somos nós, e no fundo do abismo está a dura livre, é necessário pagar de seu próprio bolso as consequên-
rocha das leis de Deus, contra a qual rebentará nossa cabeça. cias, experimentando-as na própria pele. Se construirmos mal a
Então, não permanecerão na Terra traços do homem evangéli- casa, ela depois nos cairá sobre a cabeça. Só assim aprendere-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 17
mos a construí-la bem. É necessário que a prepotência e a as- seu ambiente, existe outro mundo em que tudo se inverte, no
túcia do mundo terminem mal, para aprendermos a agir segun- qual o vencido da Terra pode ser um vencedor e o vencedor da
do princípios diversos. O mundo está pagando e não acabará Terra um vencido. Um abismo o separa daquele ser superior. O
de pagar tão cedo. Isto parece duro, mas é uma estrada salutar, homem agride; e ele perdoa, é um justo e sabe sofrer. Este ser
pois não existe outra melhor para se aprender. Ao correr atrás está aí para indicar-vos, com sua vida, a meta a ser atingida, pa-
de todas as suas miragens, o homem, em vez de realizá-las, ra indicar-vos o caminho, ao acompanhá-lo na realização da
acaba fazendo, na realidade, uma coisa completamente diferen- mais alta e fecunda lei social: o amor evangélico”.
te, seguindo uma escola de experiências, que lhe está ensinan- Mais ou menos no meio do Cap. XC, “A guerra – A ética
do a viver num plano de vida mais alto. internacional”, A Grande Síntese confirma: “(...) A luta do
Que faz uma fera ou um selvagem logo que lhe apareça um evoluído é feita de justiça e mobiliza o dinamismo das forças
desconhecido? A primeira mostra-lhe as garras, o segundo cósmicas. Neste sentido ele é o mais poderoso, embora huma-
prepara as armas. Essa é sua maior sabedoria, que todos, mes- namente inerme”.
mo os mais estúpidos, devem conhecer naquele plano, sabedo- Quando essas palavras foram escritas há uns vinte e cinco
ria que precisam aprender em primeiro lugar e constitui o pa- anos, ninguém poderia pensar que hoje, a um quarto de século
trimônio de seu conhecimento. Isto se justifica pela necessida- de distância, em outro hemisfério do mundo, quase nos antípo-
de da alimentação, pela defesa da própria vida e dos haveres das, poderia nascer um livro como este, no qual a ocorrência
etc. Mas será que isto é tudo, esgotando todas as possibilidades de uma série de fatos positivos objetivamente tomados em
de nossa vida? Esse mesmo conhecimento se manifesta no atu- exame, daria provas para demonstrar a verdade das teorias que,
al mundo, dito civilizado, na luta pela conquista do dinheiro. até este momento, podiam ser relegadas por alguns ao reino
Mas será só isto suficiente para nos fazer crescer em inteligên- dos belos sonhos e dos desejos nobres. Então eis que, com o
cia, bondade e conhecimento, levando-nos a progredir até aos desenrolar-se da vida do instrumento, A Grande Síntese passou
mais altos planos da vida? Apenas a riqueza ou o poder mate- à sua fase experimental, para ser comprovada pelos fatos. E já
rial já terão sido suficientes para criar um gênio, um herói ou recordamos, no princípio do Cap. IX do volume precedente,
um santo? O que produz, então, de substancial e definitivo esta das outras palavras de A Grande Síntese, Cap. XLII: “(...), há
tão grande e febril avidez humana? Que fim tiveram e o que apenas uma defesa extrema: o abandono de todas as armas.
restou do poder de tantos grandes da história? Mais tarde veremos como”. Esse conceito foi aí confirmado no
Com a visão do mundo espiritual abrem-se horizontes mais Cap. XC: “Disse-vos, mais atrás, que (...), só há uma defesa
vastos. Se olharmos para além do estreito mundo da matéria, ou- extrema: o abandono de todas as armas”.
tras finalidades podem ser dadas à vida, novos poderes e defesas Só no curso da presente obra, podemos dizer que explica-
podem ser conquistados. Quantos problemas que agora angusti- mos o mistério daquelas palavras, acessíveis agora não apenas
am o mundo poderiam ser resolvidos! No presente volume, qui- pela fé, mas também por uma demonstração racional e experi-
semos desenvolver e demonstrar conceitos que, em A Grande mental. Os fatos confirmaram a intuição, e agora, como expli-
Síntese, foram rapidamente resumidos, para serem desenvolvi- camos neste livro, compreendemos aquele “como”. Pudemos
dos mais tarde, como o estamos fazendo agora. No Cap. XCI tocar com a mão o modo pelo qual o abandono de todas as ar-
desse livro, “A Lei social do Evangelho”, está escrito assim: mas representa a suprema defesa; pudemos compreender a ra-
“O absurdo está na vossa involução. No Evangelho (...), a zão da imensa superioridade do método evangélico da não-
justiça é automática, perfeita, substancial (...). Aí não é mais resistência na luta pela vida. Agora conhecemos os segredos
necessário ser forte, basta ser justo (...). Torna-se então possí- do especial sistema defensivo de quem segue o Evangelho,
vel a lei do perdão, porque o espírito sente e movimenta outras que, em última análise, torna quem o segue mais forte que os
forças, e não apenas vossos pobres braços, e essas forças acor- fortes da Terra. E pensar que a ignorância do mundo é tão
rem a defender o justo, mesmo se inerme (...). Então, aquele grande, a ponto de acreditar que, quando o ser evoluí, a vida o
que parece um vencido da vida, torna-se um gigante (...). A ló- deixa indefeso. Por isso foge-se do Evangelho como de um pe-
gica do Evangelho leva a uma seleção de super-homens, en- rigo para a própria segurança, quando, pelo contrário, ele é a
quanto a lógica de vossa luta cotidiana leva a uma seleção de nossa salvação. E isto não pode deixar de ser percebido por
prepotentes. Os princípios do Evangelho organizam o mundo e quem consiga penetrar na órbita de influência das forças da lei
criam as civilizações; os princípios que viveis desagregam e que o Evangelho representa, pois será logo integrado nesse sis-
desperdiçam tudo em atritos inúteis. Onde passa o Evangelho e tema de forças. Trata-se de continentes inexplorados, com no-
o seu amor, nasce uma flor; onde passais vós, morrem as flores vas e estranhas possibilidades, nas quais o mundo não acredita,
e nasce um espinho. O Evangelho é lei de paraíso, transplanta- considerando-as teorias fantásticas. No entanto tais teorias re-
da no inferno terrestre; só os anjos no exílio sabem viver aí a sistiram à comprovação séria da razão e dos fatos, como vi-
lei divina, ensinada por Cristo na cruz. mos. Tudo para chegar à mais revolucionária das conclusões,
“Quem renuncia, no vosso mundo, a agredir e a defender-se, afirmando que ninguém está mais defendido, embora desarma-
oferecendo a outra face; quem renuncia a afundar as garras nas do, do que o justo, e precisamente porque é justo.
carnes alheias para a própria vantagem e não quer, por princí- Assim, vimos o Evangelho sob novos aspectos, em seus
pio, usurpar com a força todas as infinitas alegrias da vida, significados mais profundos, colocando-o, como jamais se fez,
permanece subjugado, é um vencido fora da lei, um expulso, diretamente em contato com a realidade biológica, não mais
um não-valor que se anula. Este, olhado pelo reino da força, é apenas como fenômeno histórico, religioso e moral, mas como
um inerme, indefeso, ridículo. No entanto, nessa derrota, nessa uma nova posição da vida, posição já assinalada ao longo da
fraqueza aparente, existe o mistério de uma força maior, que, escala da evolução e à qual se deverá fatalmente chegar ama-
trovejando, chega de longe, acordando nas profundidades da nhã. Demonstra-se, desse modo, o lugar lógico do Evangelho
alma o pressentimento de realizações mais vastas. Então o ven- no desenvolvimento do plano do universo e a sua função no
cedor, no próprio momento da vitória, tem a sensação de uma seio do transformismo evolutivo, ficando demonstrado também
derrota. E o vencido olha do alto, como um vencedor, porque seu imenso valor do ponto de vista racional e científico. Visto
descobriu e viveu formas mais altas de vida. sob este prisma, não apenas como fruto de um tempo ou de uma
“O homem permanece mudo e desorientado diante desse es- religião, mas em relação às leis da vida, o Evangelho torna-se
tranho ser sem armas, que proclama uma assombrosa lei nova e universal, torna-se fenômeno biológico, que a ciência não pode
parece de outro mundo. O homem sente que, se tem razão em mais ignorar, enxerta-se de forma tão profunda e substancial no
18 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
processo evolutivo, que lhe demarca o telefinalismo e, com is- sumidas anteriormente, impedindo-o de alcançar a libertação e
to, a linha de desenvolvimento. O que buscamos esclarecer expandir-se. Para subir é necessário vencer esse instinto de in-
nesta obra não se encontra nas explicações comuns, perdidas volução, que tenta resistir ao de evolução, porque quer que tudo
nas minúcias de pormenores concretos. Trata-se da ideia central desça, ao invés de subir. O homem oscila entre essas duas for-
dominante no Evangelho, que estabelece sua função fundamen- ças que o disputam. Gostaria de abandonar-se à alegria de dar,
tal em relação ao fenômeno universal do desenvolvimento da mas depois tem medo, para, faz calar o coração e retrocede para
vida, concepção que leva o Evangelho a uma atuação necessária o terreno aparentemente positivo e seguro da avidez, que acu-
em todos os tempos e lugares, como lei de progresso de toda a mula egoisticamente para si. Gostaria de conquistar a vida, mas
humanidade. Só assim podíamos conseguir um Evangelho im- ao mesmo tempo se retrai, e isto lhe impede de conquistá-la. É
parcial e universal, como o queria Cristo, um Evangelho fora da vítima da atração da matéria, que o puxa e retém embaixo. O
luta, acima dos partidos religiosos e de seus antagonismos, ex- homem está próximo ao espaço ilimitado dos céus, onde cada
clusivismos e condenações. Só assim pode compreender-se o movimento é livre e a energia para realizá-lo é gratuita, no en-
imenso alcance do Evangelho, a necessidade de vivê-lo e a fata- tanto prefere a imobilidade da Terra, sua prisão. Penetra-o a ân-
lidade de sua atuação futura. sia de evadir-se dela, mas comporta-se como quem, ao querer
◘ ◘ ◘ sair de um quarto cuja porta se abre para dentro, tentasse lan-
O objetivo da evolução é a conquista da vida. Essa conquis- çar-se contra ela, empurrando-a, sem compreender que, para sa-
ta é a maior paixão do ser, que tanto mais se debate para subir ir, deveria, ao contrário, afastar-se para trás, porque só assim
quanto mais baixo é o plano em que está imerso. poderia abrir a porta. O amor dá, e só o amor cria, enquanto o
Mas trata-se de uma agitação cega, impelida pelo instinto, egoísmo, que acumula para si, subtraindo aos outros, destrói.
que explora o caminho por tentativas, sem a orientação e o mé- Só quem cria enriquece, enquanto quem destrói empobrece.
todo encontrados no Evangelho. O próprio Cristo qualificou-se O homem gostaria de conquistar a vida, mas, com seu ego-
como vida. No ápice da evolução está Deus, que representa a ísmo, estabelece primeiro um deserto em redor de si, pretenden-
plenitude da vida, enquanto no polo oposto está a plenitude da do depois provê-lo com água tirada dos outros, embora pudesse
morte, ou seja, a ausência da vida. Quanto mais se involui, ca- encontrá-la grátis e abundante, desde que não secasse tudo no
minhando-se nessa direção, tanto mais vem a faltar a vida, por- local em que se encontra. Assim, ao civilizar-se num período de
que ela se torna cada vez mais contraída, restrita, limitada no paz e progresso, depois de fazer novas conquistas, como as utili-
egocentrismo separatista do eu. Dado que viver é a aspiração za o homem? Logo que tem forças, ele guerreia para crescer
máxima do ser, é natural que, quando a vida venha a faltar, ela ainda mais e engordar, destruindo assim todos os bens e valores
se torne cada vez mais preciosa e o ser fique cada vez mais acumulados. A expansão do princípio egocêntrico, como acon-
apegado a ela. Crescem, assim, sempre mais a avidez e o ciúme tece no imperialismo, tem funções muito mais criadoras para os
no indivíduo, que busca então se tornar um lutador cada vez povos absorvidos e, assim, civilizados no processo do que para o
mais feroz, para conservar a única forma de vida a ele acessí- dominador, que, uma vez realizada sua função, acaba perdendo
vel, dada pelo seu plano de evolução. Por isso a luta se torna tudo. Por mais que na guerra se queira ver o heroísmo e se sonhe
tanto mais árdua, quanto mais se involui para longe de Deus, com a conquista, nela está a morte e encontra-se a destruição.
pois, quanto mais o ser se afasta do centro da vida, que é Deus, Quando um perde, seja quem for, isto representa uma perda para
e avizinha-se da morte no polo oposto, que é a negação de Deus todos; a derrota do vencido é também a derrota do vencedor.
e da vida, mais difícil se torna salvar a vida da morte. Aludire- Ninguém pode permanecer isolado de qualquer outra criatura
mos a estes conceitos brevemente neste mesmo capítulo, por is- que viva no mesmo ambiente terrestre. Assim, o homem cai
so era mister desenvolvê-los e esclarecê-los aqui. sempre no mesmo erro, pois, procurando expandir-se na vida,
Nós mesmos somos feitos desta luta contínua entre a vida e a ele se contrai para trás na morte; querendo enriquecer, empobre-
morte, que disputam o campo. O princípio egocêntrico separatis- ce; tentando construir, destrói. Que mais se pode pedir a este
ta (limitada vida individual) representa o estado de contração nosso mundo, onde tudo está quebrado, despedaçado no particu-
desta; o princípio orgânico unitário (ilimitada vida universal) re- lar e no relativo? Como pretender outra coisa, se, em lugar da
presenta seu estado de expansão. Ao evoluir, o indivíduo passa verdade una, não conseguimos possuir senão fragmentos, verda-
de um princípio ao outro. Do infinito incêndio de vida que está des relativas em luta entre si, num conhecimento pulverizado
em Deus, permaneceu no homem apenas a centelha do próprio nas análises, incapaz de alcançar uma síntese unitária?
eu. São miríades de centelhas que, pelo fato de estarem não só Como, então, a vida consegue nos fazer evoluir? De que
divididas mas também em luta entre si, para se destruírem mutu- meios dispõe ela para realizar esse seu objetivo fundamental?
amente, perderam luz, força e calor, havendo introduzido, com o Ninguém mais do que o homem quer viver e conquistar a vida.
próprio separatismo e rivalidade, o princípio da morte no princí- No entanto ele o faz sem conhecimento e sem juízo, muitas ve-
pio da vida. Essa forma de vida mutilada é devida ao estado de zes às avessas, conseguindo resultados opostos. Pode, então, a
involução; não é a verdadeira vida, mas apenas um fragmento vida ficar desiludida em sua primeira necessidade, que é evolu-
dela, asperamente disputado à morte. Assim se explica e se ir? Mas eis que aparece um elemento de funcionamento auto-
compreende nossa vida sufocada pelos limites, aprisionada pela mático. Ao procurar ascender, o homem tenta diversos cami-
forma, continuamente partida entre nascimentos e mortes. É pa- nhos ao acaso, mas erra a escolha, sendo muitas vezes arrastado
ra nos fazer viver verdadeiramente em dimensões cada vez mais para trás pelos instintos do passado, o que resulta na sua desci-
amplas que a evolução nos transforma para o Alto. É a fim de da. No entanto é fato inevitável que, quanto mais baixo se des-
recuperarmos para nós mesmos uma vida cada vez mais comple- ce, tanto mais se encontra dor, sob a compressão da qual o ho-
ta que temos de romper a casca do egocentrismo, expandindo- mem é esmagado. A dor queima, sufoca, comprime a vida, que
nos para além da prisão da matéria, na vida maior do espírito. não quer morrer e, portanto, reage. Eis então que a evolução,
Assim se explica por que o homem tem tão grande medo da para ascender, quando o instinto para subir não funciona, firma-
morte (tanto maior quanto mais involuído for). Este medo, po- se nessas reações. Quando não é suficiente a atração para o alto,
rém, cessa com a evolução, que nos liberta da morte. entra em ação a repulsão contra o baixo.
Em sua ignorância, o homem segue um caminho errado. Observemos a mecânica desse sistema de reações. Um ob-
Tão logo ele venha a dar com amor, o egocentrismo lhe deixa jetivo pode ser atingido através do funcionamento de forças
com a sensação de perda e o impele a retrair-se e negar-se, fa- tanto positivas, que nos atraem para ele, como negativas, que
zendo que ele, dessa forma, feche as portas à expansão da vida. nos repelem do polo oposto. A vida possui ambos os tipos de
Assim, o passado vivido tende a levá-lo de novo às posições as- força, positiva e negativa, e as utiliza para suas finalidades prá-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 19
ticas. Em outras palavras, para construir, Deus pode utilizar coisas nobres e grandes, a vida se tornará um escrínio precioso.
tanto o método da construção como o da destruição, o que sig- Se lhe colocarmos dentro podridão, tornar-se-á um vaso de
nifica que o bem domina tanto as forças do bem como as do imundícies. A vida é uma estrada feita para caminhar, é um
mal, podendo utilizar estas últimas quando quiser, para os pró- meio para atingir um objetivo. Se a fizermos fim de si mesma,
prios fins do bem. Assim o organismo universal é tão bem querendo nos conservar demais e nos recusando a caminhar
construído, que, não importa o que aconteça, tudo termina para renovar-nos, deteremos o movimento da vida e a matare-
bem. Qualquer erro que o ser cometa servirá para instruí-lo e, mos. Então tudo terá caminhado menos nós, e permanecere-
por fim, fazê-lo progredir. Por isso, apesar de tudo, é o impul- mos atrás. Então teremos vivido no vazio, e poderão escrever
so da evolução que sempre acaba vencendo. em nosso túmulo: “tempo perdido”.
A dor acorda o instinto de vida, que adormece no bem-estar. A grandeza da vida consiste em fazer dela um meio para
São os climas ásperos e duros, e não os doces e cálidos, que cri- transformar o mal em bem, tornando um inimigo que nos ator-
am homens fortes e lutadores. As desventuras e a necessidade da menta, como é a dor, em um mestre amigo que nos ensina; uma
luta ensinam coisas que só aqueles submetidos a elas podem condenação tormentosa, em uma escola para aprender. Ora, a
aprender. A vida jamais se resigna a morrer, e, muitas vezes, em vida está cheia de sofrimentos e insatisfações aptos a provocar
vez de matá-la, as dificuldades a tornam forte e sábia, quando nossa reação. O segredo da sabedoria está em saber reagir. A
esta é a condição indispensável para sobreviver. Os obstáculos solução do problema está na forma que nossa reação assume. A
são duros de superar, mas quem aprendeu a superá-los possui, vida nos espicaça com esses estimulantes, que esfolam a chaga
para sua defesa, um conhecimento e uma força que estão bem e põem a nu a carne viva. A operação é dura, mas é para nosso
longe de ser possuídos por quem encontrou uma vida fácil. Nas bem, porque somente depois da raspagem e da limpeza, com a
sábias mãos da vida, tudo se resolve em construção e progresso. podridão removida, a carne nova e sã, crescendo, pode cicatri-
Quando a evolução não se realiza pela alegria de progredir, a vi- zar a chaga. Assim, diante da dor, deveremos ter muito mais do
da a realiza com o chicote da dor, para que se cumpra, de qual- que a simples apatia passiva e cega do burro chicoteado; deve-
quer forma, o progresso, que é o maior bem para o ser. mos ter a inteligência iluminada e a bondade operante de quem
As atitudes que o indivíduo assume diante das dificuldades compreendeu o mecanismo da dor e quer tirar dela toda a van-
variam para cada pessoa. Mas estar submetido à dor produz um tagem possível, colaborando com a inteligência da vida, que
efeito mais ou menos comum para todos, que é pôr a nu e reve- no-la manda para nosso bem. O sistema usado por alguns, de
lar a verdadeira natureza do indivíduo. Ele, então, é reconheci- revoltar-se contra a dor, sofrendo-a com a alma envenenada,
do pelo seu tipo de reação, pois parece que, colocado diante das não resolve o problema e, ao invés de melhorar, piora nossas
mais profundas realidades da vida, como a dor e a morte, o ser condições. Quanto mais nos agitarmos com o nó da forca à gar-
não sabe mais mentir. No entanto a sua reação é dirigida e tem ganta, mais esse nó se apertará. A posição de maior vantagem e
a forma definida pela natureza do seu biótipo. É lógico que, de menor prejuízo em relação à dor é aceitá-la, mas não passi-
quando o ser é constrangido a usar todos os seus recursos a vamente, e sim colocando-nos a seu lado construtivamente, co-
qualquer custo, a sua reação não pode revelar um ser novo, mas laborando com ela para nosso benefício.
apenas mostrar-nos quem ele é verdadeiramente. O ponto de
partida do novo passo adiante, como valor e qualidade, não po- IV. AS RELIGIÕES E A VERDADE
de ser dado senão a partir da posição precedente do ser. Tere-
mos então uma reação e um esforço proporcionados a essa po- O catolicismo na grande batalha A involução das mas-
sição. Assim o biótipo involuído reagirá com baixeza, e o evo- sas e sua incapacidade de autodirigir-se. O princípio da
luído, porque superior, de forma elevada. Desse modo, diante autoridade. Disciplina e obediência. Fé e ortodoxia. Pode
de uma dor desesperada, quem não possui nenhum recurso no dar-se liberdade aos imaturos? As adaptações da Igreja e
bem ou no mal, irá abandonar-se nas tenazes da correnteza, até as escapatórias do mundo.
à morte, aprendendo o pouco que pode da lição. Quem possui
tendência para a mentira e para o mal, reagirá com a traição e o Não podemos deixar de observar o contraste e o êxito da
crime, vingando-se do próximo e involuindo cada vez mais em luta entre os dois elementos opostos: espírito e matéria, Evan-
descida, porque sua natureza é baixa. Quem é violento e não es- gelho e mundo, e isto justamente no próprio seio do órgão so-
tá habituado ao controle, pode reagir com o suicídio. Quem cial historicamente especializado em realizar a grande função
possui tendência para os gozos inferiores reagirá com excessos de estabelecer contatos entre o céu e a terra, com o objetivo de
e vícios, procurando esquecer, naquelas efêmeras alegrias em espiritualizar o homem, o que, em termos científicos, significa
que ele acredita, as próprias dores. Mas existem também os que fazê-lo progredir ao longo da estrada da evolução, cuja meta
reagem com a santidade, com o amor operante para o bem do final, como já mencionamos e mais tarde demonstraremos, é a
próximo. Esta é a reação dos fortes e dos grandes. espiritualidade. Esse órgão é representado pelo cristianismo,
A insatisfação com as adversidades na vida pode excitar que constituiu uma religião. Naturalmente, nos referiremos ao
diversas reações, e é delas que nascerão muitos santos. Quan- nosso mundo ocidental, onde esse fenômeno ocorreu e está
tas vezes o santo não é apenas um obstinado que se recusa a funcionando há dois mil anos.
adaptar-se ao ambiente e aceitar suas condições; um rebelde Desde o inicio, e até agora ainda, o cristianismo se acha en-
que explode, criando novos e revolucionários conceitos de vi- volvido na resolução do tremendo problema da descida dos ide-
da. O grande valor de sua reação, porém, está justamente no ais à Terra. Pode interessar-nos ver como, neste caso, foi resol-
fato de ser ela dirigida para o bem, no sentido construtivo, vido esse problema, que procuramos resolver nestas páginas.
constituindo uma revolta para subir, e não para descer. Eis o Desde o início, a Igreja de Roma achou-se diante da necessida-
que pode ocorrer quando, no indivíduo, existe o estofo do ser de de aceitar, como código de vida, o Evangelho, que era a lei
superior. Sem este traço essencial, não há dor, por mais deses- estabelecida pelo seu fundador. Vimos que o Evangelho signi-
perada que seja, capaz de improvisar esse tipo de homem. Se fica a lei do evoluído, um tipo raro na Terra, e vimos qual a re-
bastasse a dor para criar um santo, o mundo, que está cheio de volução que essa lei quer operar. O que fez, então, essa institui-
dores, deveria estar cheio de santos. No entanto vemos, ao ção, para resolver o conflito de ter que sobreviver e permanecer
contrário, manifestarem-se reações bem diferentes. coerente com seus princípios, estando ao mesmo tempo cons-
A vida é um recipiente que, em si mesmo, vale pouco. Tu- trangida a viver no mundo e, como não podia deixar de ser, a
do depende do valor do conteúdo que lhe derramamos dentro. também se apoiar nele como coisa humana, tendo, por isso, de
Podemos colocar dentro dela o que quisermos. Se pusermos sofrer inevitavelmente a influência dele? Que aconteceu nesse
20 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
ponto de conexão de maior aproximação entre o céu e a terra, mente é a natureza humana torna-se possível compreendê-los,
e por que nesse ponto devia ocorrer o enxerto do espírito na em vez de nos escandalizarmos e condenarmos.
matéria? Que ações e reações foram produzidas nesse contato O ser espiritualmente maduro baseia-se na substância, dan-
entre os dois extremos opostos, especialmente no órgão encar- do à forma apenas o valor que ela merece. Quanto mais o ser
regado de realizar essa função? E como, neste caso, foi dirigida está adiantado, mais livremente aceita por convicção e maior
e quem venceu a grande batalha que estamos estudando? Foi o conhecimento possui para poder guiar-se. Diante de que ele-
Evangelho que transformou o mundo, ou foi o mundo que mentos se achou e, em grande parte, ainda se acha o cristianis-
transformou o Evangelho? O resultado obtido até agora foi a mo desde o seu primeiro aparecimento? Uma religião não se
espiritualização da matéria, ou a materialização do espírito? apoia em pequenos grupos de eleitos, mas nas grandes massas
Sem dúvida, os dois elementos têm de coexistir no cristianismo, de fiéis, e não deve, portanto, tratar com poucos escolhidos de
que não pode eliminar de si a ideia de Cristo, nem o fato de que exceção, e sim com o tipo biológico comum, que já vimos o
precisa viver na Terra. Como foi possível realizar tão difícil que é. Multiplicando esse tipo pela massa imensa das multidões
convivência, que de per si já é um problema árduo de resolver, que formam as religiões, poderemos perceber o peso da in-
esperando que, assim, o tempo possa solucionar o conflito, com fluência dos seus instintos em todas as manifestações da vida.
a vitória definitiva de um dos dois antagonistas sobre o outro? Ora, é um fato positivo que o cristianismo, em seu nascimento,
Já aludimos, no meio do Cap. II do volume precedente, A encontrou-se diante da forma mental primitiva dominante, ma-
Grande Batalha, à função que têm na Terra as igrejas constituí- terialista, apta a perceber mais a forma do que a substância;
das, para aqui transplantarem seus ideais. Elas são, ou deveriam uma forma mental involuída, que, sem saber aceitar livremente,
ser, o ponto de encontro de dois planos de vida. Como organi- por convicção, só obedece por temor, tal como ocorre no plano
zação humana, representam, ou deveriam representar, o vaso animal; uma forma mental que nada mais conhece além dos li-
material que recebe do céu e conserva na Terra o conteúdo es- mites da luta pela vida e é, portanto, absolutamente incapaz de
piritual que as religiões difundem no mundo para o progresso poder autodirigir-se no terreno das coisas espirituais.
dele. Em suas doutrinas, instituições, formas e até mesmo tem- Tratar um primitivo como homem civilizado é um erro que
plos, o ideal imaterial toma corpo em construções de pedra e logo aparece nas suas tristes consequências. Não se pode dar
organizações de homens. Ora, evidentemente o valor e o poder pérolas aos porcos; não se pode dar alimento espiritual puro,
das religiões residem em seu conteúdo espiritual, que é a alma sem revestimento de formas, a quem apenas sabe conceber
que as sustenta. Assim, se o vaso está vazio, ele se torna uma coisas materiais; não se pode dar liberdade a quem está habitu-
mentira, um corpo sem alma, isto é, um cadáver. Pode aconte- ado a funcionar apenas debaixo do aguilhão do mando; não se
cer então que o vaso se torne esplêndido e imenso, mas sem pode dar direito de decisão a quem não possui nenhum conhe-
conteúdo algum, em razão de todo o precioso líquido contido cimento para se autodirigir. Não estamos aqui para aprovar ou
inicialmente dentro dele ter sido deixado evaporar por quem re- condenar, mas apenas para observar e compreender. Assim nos
alizou tal trabalho. Nas religiões, como em nosso organismo, é explicamos porque a direção tomada pelo cristianismo, desde
necessário haver equilíbrio entre espírito e corpo. O espírito seu nascimento, teve de ser primeiramente a disciplina. Disci-
somente, sem corpo, passa despercebido. O corpo somente, sem plina, e não liberdade. Isto significa autoridade em quem man-
espírito, torna-se um cadáver putrefato. Vimos, no princípio do da e obediência para as massas.
capítulo precedente, como as religiões, hoje, tendem a ser con- Sem dúvida, esta não é a idílica atmosfera do Evangelho,
cebidas materialistamente, ou seja, com a mesma forma mental mas ele é constrangido a se tornar assim, quando desce à Ter-
dominante em todos os campos: o materialismo, que permanece ra. Diante da imensa multidão, que representa a psicologia
inalterado, mesmo quando se cobre de formas religiosas, dando dominante, nada pode funcionar senão com a forma mental
lugar ao materialismo religioso, condição ainda pior. Isto, en- egoisticamente pessoal, sensível apenas ao prejuízo e à vanta-
tão, seria um triste indício de decadência. Se o cristianismo ti- gem próprios. Teve, assim, o Evangelho de haver-se com o du-
vesse sido realmente transformado num corpo sem alma, só lhe ríssimo egocentrismo individual. Sem o terror do inferno, de
restaria a sorte reservada aos cadáveres. um lado, e a cobiça de ganhar um paraíso, do outro, nada se
Vimos como o indivíduo pode conduzir a grande batalha poderia ter obtido do ser humano. E, dado que o cristianismo,
por si mesmo, em casos isolados. Vejamos agora como a cos- como maioria, representava a maior força, só lhe restou aceitar
tumam conduzir na Terra, no reino de Satanás, os homens en- as exigências psicológicas da massa. Trabalho, alias, nada difí-
carregados de tratar dos negócios do espírito e de Deus. Veja- cil, porque a afirmação do princípio de autoridade nos chefes e
mos quais são as atitudes assumidas e os expedientes usados de obediência nos fiéis representava não só o único e indispen-
neste trabalho de cristianização do mundo ocidental, observan- sável meio para manter a disciplina – condição que tornava
do que distorções terá de suportar uma lei feita para os anjos, a possível realizar a própria função espiritual – mas correspondia
fim poder tornar-se realizável num mundo feito para as feras. ao instinto natural de domínio dos chefes e ao estado de servi-
No esforço da autoridade espiritual em aplicar essa nova roupa- dão a que estavam habituados os fiéis. Este era justamente o
gem à humanidade, para fazê-la ao menos parecer civilizada, processo vivido por todos na vida social, dirigida por esses
até que ponto se conseguiu colocar a mordaça na animalidade princípios, que correspondiam exatamente ao tipo biológico
rebelde? Logo que nos afastamos do caso excepcional, a grande predominante em todos os lugares. Não se pode esperar que os
massa das multidões, que constitui o rebanho a guiar, só nos dirigentes de uma religião representem, em vez da raça co-
pode oferecer, no máximo, as primeiras aproximações elemen- mum, uma diferente, guiada por outros instintos.
tares do ideal. Seria absurdo pretender mais. Não se trata tanto ◘ ◘ ◘
de ter realizado o Evangelho, mas sim de saber o que pôde so- Assim, imposto pelas exigências do ambiente humano e ge-
breviver dele nesse ambiente, o que permaneceu do choque en- rado pelo instinto de luta para a seleção do mais forte, o prin-
tre o encarniçamento dos pregadores de virtude, armados de cípio de autoridade nasceu no cristianismo, tal como nasce em
terrores e sanções para domar a animalidade humana, e o en- qualquer agrupamento humano. Da mesma forma que Cristo,
carniçamento do rebanho, cuja animalidade não aceita de ma- quando quis descer à Terra, teve de tomar um corpo físico, o
neira nenhuma se deixar sufocar pelos ideais. Seria interessante Evangelho também teve de aceitar os métodos e as leis do
ver também como, debaixo do nobre manto dos ideais, muitas mundo, quando quis aí realizar-se. Esse sistema está em vigor
vezes não é possível deixar de continuar a conduzir a desespe- até hoje. Alguns, mais amadurecidos, sentem que deveria ser
rada luta para viver, que é patrimônio de nosso mundo. Talvez, diferente, mas se acham constrangidos dentro de uma discipli-
em muitos casos, somente levando em conta o que verdadeira- na na qual só se admite a posição do crente que aceita em obe-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 21
diência. Eles são apenas uma exígua minoria, e as minorias administração. Desponta então o instinto humano expansionis-
nunca têm razão. A Igreja não pode ocupar-se deles, mas ape- ta, que, se nos estados fortes assume a forma de imperialismo,
nas da massa, que é bem diferente. Para favorecê-los, seria realizado com a guerra, nas religiões tem o aspecto de proseli-
mister conceder uma liberdade da qual os outros, não estando tismo, para aumentar o rebanho. Rebanho significa criação de
de maneira alguma maduros, prontamente fariam péssimo uso. ovelhas em série, ou seja, produção de um dado tipo de fiéis,
Esta solução, então, mesmo sendo útil em alguns casos – tal para os quais já está estabelecido como devem pensar, em que
como ocorre com o divórcio – não é ideal. precisam crer e o que é mister fazer. Só assim é possível obter a
Desta forma, a Igreja continua a tratar os seus súditos como disciplina indispensável para que o soldado possa ser enqua-
crianças, não lhes permitindo indagar a respeito de mistérios drado e o exército seja capaz de começar a marchar organiza-
nem resolver sozinhos os problemas, porque tudo que se deve damente. Para quem lê o Evangelho, pode parecer absurdo que
saber e crer já é oferecido confeccionado, pronto para o uso, dele se possa tirar estas consequências. Mas a culpa não é do
como os remédios que engolimos sem questionar o diagnóstico Evangelho, e sim do mundo, que impõe suas leis a quem quiser
do médico que no-los prescreveu, nem a análise química do entrar em seu terreno. Certamente, para ser vivido como ele de
laboratório que os confeccionou. Resolveu-se, assim, o pro- fato é, o Evangelho exigiria um mundo de santos. Mas isto não
blema da maneira que o ambiente humano permitia. Os diri- existe na Terra, e mesmo que, no mundo religioso, um governo
gentes assumiram a responsabilidade de guiar, e aos discípulos de santos pudesse ser formado, ele seria logo liquidado pelos
menores de idade só restou crer, ouvir e aprender. Não se usa métodos humanos. Assim se explica por que as religiões ten-
diariamente esse método nas escolas? Se este é o método im- dem a tomar tal forma, que lhes é imposta pela natureza huma-
posto pelas condições humanas, como mudá-lo, enquanto essas na e pelas condições do ambiente terrestre.
condições não mudarem? Poderemos escandalizar-nos com o Formou-se, então, o modelo estandardizado do crente disci-
fato de que a Igreja demonstra não acreditar no amadurecimen- plinado e obediente, nos pensamentos e nas obras, o tipo orto-
to espiritual de seus filhos. Mas como acreditar nisso, se esse doxo perfeito, que aceita tudo sem discutir, não importando se
amadurecimento não existe de fato na maioria? Se a humani- não entende. Para ele, a compreensão é um fato interior, pesso-
dade estivesse verdadeiramente amadurecida, não haveria ne- al, difícil de controlar, ao passo que discutir tem sabor de revol-
cessidade de autoridade, coações ou sanções em campo algum, ta e semeia escândalo. Mas o indivíduo comum foge de qual-
principalmente no social. Ora, existe algum estado que não te- quer esforço. Seus instintos e objetivos são outros. Sua psicolo-
nha exército e polícia, ou alguma lei que não prescreva penali- gia é utilitária e simples. Todos querem viver depois da morte e
dade para quem não cumpri-la? Não é esta a forma mental do- da melhor forma possível, como procuraram fazer na Terra.
minante? Como poderiam as religiões abrir uma exceção, se Ora, as religiões ensinam ao indivíduo que, se ele fizer certas
não operavam num mundo diferente? E como dizer toda a ver- coisas, vai depois ao paraíso, mas, se fizer outras, vai sofrer no
dade a um tal tipo de homem, pronto a reduzir tudo em função inferno ou alhures. O raciocínio da alegria ou dor próprias é
de seus instintos e interesses materiais? Nem mesmo Cristo compreendido por todos. Faz-se então aquelas coisas que nos
pôde dizer tudo às multidões. Assim, a verdade esotérica, ple- trarão vantagem, mesmo se custam um pouco de esforço, e não
na e completa, só pode ser patrimônio de uma pequena parte se faz as que nos trarão prejuízo, embora isto custe um sacrifí-
da humanidade, enquanto à massa pode ser dado como alimen- cio. A opinião corrente é que esse cálculo, afirmado por gran-
to apenas a parte exotérica, limitada e pública. des autoridades e, por isso, aceito, corresponde depois aos fa-
Tal como a capacidade criadora de um chefe é medida pela tos. Além disso, ninguém sabe de fato, com segurança, por ex-
correspondente capacidade de seus súditos, o campo de ação de periência própria, como se passam realmente as coisas. Seguro
uma religião também é constituído pelo grau de compreensão e mesmo é só aquilo que temos hoje em mãos. Este é o raciocínio
nível de evolução de seus prosélitos. Como pretender que al- do homem prático, apto a viver na Terra. Já falamos desse ma-
guém possa compreender, se não sabe pensar? Explicar tudo, terialismo religioso, pelo qual, na Terra, tudo é concebida mate-
então, significa apenas gerar dúvidas sem fim e uma confusão rialistamente e tende a ser transformado nesse sentido.
geral. Daí a necessidade da fé. Cristo não podia dizer: olhai, as E o que pedem, no fundo, as religiões? Algumas práticas
coisas são assim, porque vo-las explico e demonstro; mas teve exteriores, alguns possíveis sacrifícios e deveres, crer ou não
de dizer: acreditai, porque vo-lo digo eu e, como prova, faço- crer em algumas proposições (cuja veracidade é bem difícil
vos milagres, já que isto é o que mais vos convence. Além dis- afirmar ou negar), coisas estas longínquas e que pouco tocam a
so, nas coisas humanas, aparece logo a questão prática de obter realidade da vida. Feitas as contas, conclui-se pela conveniên-
o máximo resultado com o mínimo esforço. Portanto, mesmo cia de se fazer esses pequenos esforços, em vista de uma utili-
que o homem comum tivesse inteligência para enfrentar e re- dade futura, que também pode ser verdadeira. Por que, então,
solver os problemas do conhecimento, ele preferiria poupar não fazer tudo isso, quando, além do mais, é possível obter com
tempo e esforço, aceitando as soluções que já se encontram isso, se não até poderes e honras, a estima e a confiança conce-
prontas, feitas por outros mais competentes e especializados. didas às respeitáveis criaturas que pensam bem? Por que não
Um dos maiores problemas humanos é poupar trabalho, bus- agir assim, quando isto pode salvar-nos a alma na outra vida e
cando satisfazer a todas as necessidades próprias, inclusive às encher-nos de bênçãos nesta, além do que agir assim não faz
espirituais, com o menor dispêndio possível de energia física e mal a ninguém, pelo contrário, é um bom exemplo, louvado
mental. Onde há necessidade de realizar um esforço muito como virtude? Assim surgiu a acomodação, estabelecendo-se
grande, o homem para. O que ele procura em primeiro lugar é um acordo completo entre os dois lados: as religiões mantêm a
cansar-se pouco e ser provido. E, nisto, a construção em série o sua unidade na disciplina e obediência dos fiéis, e estes, com
ajuda. Assim, já que é cansativo e difícil achar a verdade por si pouco incômodo, calculam obter uma boa vantagem.
mesmo, o mundo vive em qualquer dos terrenos de verdades já As dificuldades surgem quando aparece um indivíduo que-
feitas, oferecidos no mercado das ideias por aqueles que, por rendo agir seriamente, que exige, portanto, chegar ao fundo dos
outras razões, acharam útil especializar-se nesse trabalho. Na problemas, porque ele quer pensar e compreender, para final-
prática, não se acha o grande pensador, mas sim o manual que, mente resolvê-los, porquanto tenciona depois viver a sua fé. Ser
para nosso uso, esmiúça o pensamento em ordem alfabética. ortodoxo no caso comum é fácil. Trata-se de dizer que se crê,
Estabelecido o princípio de autoridade, de disciplina e de dizê-lo com a boca e também com toda a boa-vontade do cora-
obediência a um governo central, a religião tende assim a trans- ção e da mente, sem dúvida de boa-fé, mas sem saber o que sig-
formar-se numa grande máquina burocrática, constituída de nifica crer e sem compreender o significado das coisas em que
homens que disciplinam o seu trabalho na forma regular de se diz acreditar. Para um indivíduo imaturo, é equivalente e indi-
22 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
ferente aceitar esta ou aquela ideia, pois logo que se sai do terre- – porque é honesto e sincero – sente-se autorizado a sindicar,
no das coisas materiais, tudo se perde para ele num oceano de perturbando assim as soluções já alcançadas e confirmadas pela
pensamentos impalpáveis. Mesmo para ser herege, é indispen- autoridade, ameaçando, mesmo sem o querer, a deslocação das
sável certa inteligência e interesse pelos problemas que estão pilastras em que se apoia todo o edifício. Tais seres, rebeldes às
além da materialidade da vida. Mas, à grande maioria, só impor- mentiras convencionais da sociedade, gostam de dizer a verda-
tam, ao invés, os que estão próximos e são tangíveis. Daí se de, o que constitui grave escândalo em nosso mundo. Assim eles
conclui que a perfeita ortodoxia pode ser efeito não de uma fé são condenados por todas as religiões, ou seja, pelo mesmo tipo
mais viva, mas da falta de interesse, consequência implícita do de homem que se encontra em todas as religiões.
estado mental que explicamos: o materialismo religioso. Então a ◘ ◘ ◘
aceitação cega e completa não só liberta o crente de entrar em Diante do princípio da autoridade, façamos a seguinte per-
questões espinhosas – inúteis, porque insolúveis para ele – mas gunta: pode dar-se plena liberdade a um ser, quando ele não
também, ao sepultá-las sob o belo manto da fé, representa muito possui o conhecimento necessário para se autodirigir? Deve ti-
menor esforço, permitindo que ele se ocupe, em lugar disso, rar-se a liberdade daquele que não sabe usá-la bem, mas só em
com as coisas deste mundo, que interessam muito mais. Quem prejuízo próprio?
não escolhe o caminho que oferece menor resistência e menos Dominar o próximo, impondo-lhe a própria vontade, é coisa
cansaço? Por que não acreditar em tudo o que as autoridades en- normal e natural na Terra, no plano biológico animal do involu-
sinam, quando isto custa tão pouco e não traz consequências no ído. Aí, a autoridade é patrimônio do mais forte, que venceu os
terreno prático, onde está o nosso tesouro? Esse também é um mais fracos, em relação aos quais, portanto, só por esse fato,
modo de enfrentar e resolver os grandes problemas do espírito. têm direito à obediência. Sem um comando, uma disciplina –
Por isso é fácil ser ortodoxo, quando esses problemas pouco nos portanto uma diminuição de liberdade – não se pode construir
atingem, pois sabe-se que a vida prática é outra coisa e interessa- um organismo na Terra. Se o desejo era fazer do cristianismo
nos de fato os negócios da matéria e do mundo. uma instituição neste mundo, tornava-se mister obedecer às
Mas existem, embora excepcionalmente, indivíduos madu- exigências desse ambiente. Eis por que, neste ponto, ele não
ros, para os quais as coisas espirituais têm suma importância. pôde manter-se divino, mas teve de tornar-se completamente
Eles sabem o que significa acreditar e, para crer seriamente, humano. Constituirá isto um defeito ou uma culpa sua?
precisam compreender, porque de sua fé dependem a sua ori- Podem apresentar-se dois argumentos em sua defesa. 1 o) A
entação e a sua conduta, que trazem consequências importan- impossibilidade prática de se fazer obedecer, se não fosse usa-
tes em sua vida. Para poder agir de acordo com a própria fé, é da a autoridade, fato necessário, portanto, para poder realizar o
preciso compreender bem aquilo em que se crê. Sem esta con- dever de cumprir a própria missão na Terra. Mesmo para o es-
dição, a fé não pode ser considerada um conhecimento preciso, pírito, não há outro meio de se realizar neste plano biológico.
apto a guiar-nos, mas apenas um vago nevoeiro que permanece 2o) A parte divina da instituição permanece inativa apenas
nos céus, sem interessar nem atingir a nossa vida. Estes indiví- momentaneamente, à espera de manifestar-se cada vez mais,
duos amadurecidos não têm medo de pensar e se esforçar, con- gradativamente, conforme o permita a civilização do ambiente.
tanto que cheguem à verdade e a uma profunda convicção pró- Ela se conserva escondida no íntimo, em potência, como uma
pria. Eles não podem desinteressar-se dos problemas do espíri- árvore está na semente, mas para revelar-se depois, cada vez
to e fazer calar a sua fome de conhecimento em relação às coi- mais. Então o princípio divino permanece invariável. O que
sas supremas. Não lhes sendo possível deixar de ser honestos muda é o grau de sua manifestação e realização na Terra, per-
diante de Deus e da própria consciência, não podem acreditar mitido pelas condições desta. O uso do princípio da autorida-
firmemente naquilo que não compreenderam ou que não lhes de, ou seja, desse método de tratar com as massas humanas na
interessa absolutamente compreender. prática das coisas do espírito, seria apenas transitório, como
Ora, acontece que, para as religiões oficiais – baseadas, co- uma flor que se conserva ainda fechada para defender-se, mas
mo vimos, na disciplina e na obediência – esses elementos, que pronta a abrir-se para a liberdade do ar e do sol, logo que a te-
deveriam ser aceitos os melhores espiritualmente, são conside- pidez de um ambiente mais civilizado o permita. Não é o divi-
rados os mais perigosos, como naturalmente o seria, num exérci- no que evolui, mas a capacidade humana de compreendê-lo e
to organizado, um soldado que, por ter muito zelo e inteligência, realizá-lo. Só o absoluto pode permanecer imóvel em sua per-
quisesse examinar os planos do próprio general. Essas qualida- feição. Todo o resto, inclusive as religiões que o representam,
des que trazem desordem não são admitidas tanto no soldado não pode deixar de evoluir para a perfeição.
como no fiel. No seio da ordem constituída, tudo o que é insu- Isto significa que as instituições do cristianismo, em primei-
bordinação traz desordem e semeia escândalo. Tais indivíduos ro lugar a Igreja, deverão, com a evolução do homem, afastar-
podem estar animados das melhores intenções, mas, no orga- se cada vez mais dos métodos do passado, para introduzir no-
nismo constituído, não há lugar para eles. A grande máquina es- vos, mais adequados. Assim, será mister afastar-se cada vez
tá construída para funcionar por meio da aceitação cega de uma mais do princípio da autoridade e caminhar para o princípio da
doutrina já feita, e não para elaborar a cada passo uma nova. Os liberdade. E isto porque o primeiro corresponde ao estado invo-
reformadores serão úteis, sem dúvida, para fazer progredir o luído da matéria e ao plano biológico da animalidade, enquanto
pensamento humano, porém o que mais interessa aos organis- o segundo corresponde ao estado evoluído do espírito e ao pla-
mos constituídos é, sobretudo, conservar a ordem em que eles se no biológico da humanidade futura.
fundamentam, e não procurar novas ideias que a perturbem. En- Só assim é possível resolver o conflito entre o espírito do
tão o tipo do pesquisador que, em vez de pensa com a cabeça Evangelho, que se baseia na livre e espontânea adesão à subs-
dos chefes, quer pensar com a própria, sem acreditar cegamente, tância, e os sistemas autoritários e formais, que tiveram de ser
mas querendo antes compreender e discutir, ameaça com isto adotados na prática. Como poderia conceder-se o direito de li-
tornar-se um inovador e é olhado com suspeita, como um perigo vre exame ao homem ainda primitivo, quando a Igreja ansiava
para a integridade da doutrina, como um rebelde, que é o mais encontrar solução urgente para outro problema, bem diverso,
difícil entre todos para ser enquadrado na perfeita ortodoxia. Por que era sobreviver, salvando a própria unidade? Diante dessa
isso os inovadores, mesmo que sejam santos, são inicialmente necessidade premente, qualquer ideia de liberdade significa
olhados com desconfiança, apesar de mais tarde – desde que, uma revolução perigosa, para a qual os ânimos, por si mesmos,
após severo controle, sua utilidade haja sido compreendida – su- já tendiam exageradamente. Ao invés de encorajá-los, era pre-
as ideias serem aceitas. Ninguém é tão perigoso e importuno ciso freá-los, porque outras tarefas bem mais urgentes se impu-
quanto aquele que, em nome dos próprios princípios da religião nham de momento. É verdade que o Evangelho se levantara
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 23
justamente contra o formalismo farisaico, mas é também verda- respeito às consciências e à personalidade individual, ou seja, a
de que permanecíamos no mesmo mundo, onde impera a mes- posição que está nos antípodas do absolutismo dogmático, feito
ma psicologia humana, a qual, se não quisermos cair no caos, de autoridade e disciplina. Mas é também verdade que não se
exige uma disciplina rígida sob o comando de uma autoridade. pode respeitar a liberdade de um selvagem, porque, se o fizer-
Sem dúvida, para ser perfeita, a Igreja deveria ser constituída só mos, ele se aproveita disso para nos matar. Então quem realiza-
de santos. Só então o Evangelho poderia ter realização comple- rá a missão de civilizá-lo? Demonstramos, neste volume, que
ta. E, certamente, uma Igreja assim, formada só de santos, sabe- existem as armas do Evangelho. Mas será que tão grandes for-
ria tratar muito bem das coisas do Céu. Mas será que saberia ças se adaptam aos pequeninos usos comuns, para que, depois,
tratar das coisas da Terra? Os santos, em geral, não se ocupam todos cheguem a possuí-las e manejá-las? Se elas não estão ao
com estas coisas, pois lhe são contrários, no entanto elas são alcance de todos, como contar com elas? Como pode, então, o
necessárias para quem desejar construir neste mundo, mesmo homem comum deixar de recorrer às forças que lhe são acessí-
no sentido espiritual. E é este precisamente o trabalho da Igreja veis, oferecidas pelos sistemas do mundo?
na Terra, tratar das coisas do Céu, adaptando a este ambiente as Como pretender que todo um grupo de homens, como é o
verdades eternas, para torná-las assimiláveis a ele. Assim se organismo que dirige na Terra uma religião, pudesse apoiar-se
justifica a presença de práticos e administradores na Igreja. Eles apenas em meios sobre-humanos, acreditando poder ir para
se acham situados no polo da matéria, enquanto os santos estão frente somente à força de prodígios? Não poderiam pensar eles
no polo do espírito. A dificuldade está em se manter o equilí- que, diante de Deus, isso constituiria a maior das presunções e
brio entre os dois extremos opostos, sem que um tome comple- que justamente essa falta de humildade paralisaria a ajuda,
tamente o lugar do outro. Uma igreja apenas de santos, sem os sendo, portanto, mais positivo não contar com elas, mas apoi-
homens do mundo, permanece no Céu e não trabalha na Terra. ar-se, ao contrário, em base mais sólidas, dadas pelas próprias
Uma Igreja só de homens práticos, feitos para a matéria, estaria forças, poucas, mas seguras? Era mais prático recorrer aos mé-
falida em sua substância espiritual e seria uma mentira. todos já experimentados no mundo, cujas técnicas e resultados
Estas são as condições que a realidade impõe. Pode-se, as- já se conheciam, sendo tanto mais acessíveis quanto mais cor-
sim, explicar como isto tenha de fato ocorrido. Então, no seio respondentes à própria forma mental, e tanto mais espontâneos
de uma religião, ao lado dos que vivem os problemas longín- quanto mais radicados nos próprios impulsos e instintos. Não é
quos do espírito, é indispensável haver lugar também para os fácil que homens comuns encontrem prontamente a força e a
que vivem aqueles próximos da matéria. Mas eis que surge uma coragem de se abandonar, como quer o Evangelho, à Divina
consequência gravíssima, pois assim, na própria casa de uma Providência! Como vencer a tentação de tomar a estrada de to-
religião, que deveria ser coisa espiritual, tem direito de ingresso dos, se este era o caminho imposto pela própria natureza dos
– em posição legítima, com suas leis e métodos, justamente aí, alunos, como único meio para conseguir realizar a própria mis-
onde jamais deveria comparecer – esse mesmo mundo que o são, que era mantê-los disciplinados e obedientes à lei, para fa-
Evangelho condena tão explícita e energicamente. Desse modo, zê-los ascender e, assim, salvá-los?
se quisermos ser coerentes, temos de pelo menos reconhecer Não era possível, nem com a melhor boa-vontade, satisfa-
que, por enquanto, o Evangelho não precisa ser aplicado, por- zer a todas as exigências opostas. Se quisermos ser práticos,
que, nas atuais condições humanas, ele é inaplicável. Mas, en- usando os sistemas do mundo para atingir a realização dos
tão, o reconhecimento dessa sua inaplicabilidade não tornará o princípios, acabamos por limitar a liberdade do ser. É verdade
Evangelho uma utopia e a sua descida na Terra uma falência? que não se pode dar-lhe essa liberdade, porque ele faria mal
As religiões, que deveriam ser coisa espiritual, acima das uso dela, com prejuízo para si. Mas, assim, tende-se a fazer do
lutas terrenas, estão imersas no mesmo conflito, inerente a to- ser um autômato, privando-o da experiência feita à sua custa,
das as formas de vida no planeta, e têm que albergar em seu único processo que verdadeiramente ensina. Então, como pode
seio os que lutam pela supremacia material, comandam e se fa- ele aprender? É verdade que, conhecendo os perigos, o pai
zem obedecer, impondo-se às consciências. Os que deveriam amoroso deveria impedir o filho de cair neles, mas é também
ser banidos deste terreno não são apenas tolerados como mal e verdade que os filhos protegidos demais crescem sem a indis-
erro, mas incorporados como úteis e indispensáveis. Estes, que pensável experiência para não cair nesses perigos. Se, para en-
ao menos deveriam reconhecer sua posição ínfima, subordinada sinar, tirarmos a livre experimentação, substituindo-nos à esco-
à do espírito, muitas vezes assumiram e fixaram sua posição na la da vida, então impediremos a aprendizagem e, ao invés de
história como predominantes, à custa da posição espiritual, di- ajudar a evolução, nós a deteremos.
ante da qual eles deveriam ser no máximo suportados como um Como se vê, a liberdade é fundamental e tem uma função
meio. Então as posições são invertidas, e, no próprio centro do própria importante, devendo ser respeitada como tal. Retirando-
terreno do reino do espírito, entra, vence e governa justamente a, são criados escravos ou rebeldes. É mister, ao contrário, en-
o condenadíssimo inimigo: o mundo. Que significa isto? Será, sinar a saber usar bem a liberdade, para que se possa concedê-la
então, que a lei de Deus, para conseguir realizar-se na Terra, sem prejuízo. A disciplina só pode ser imposta aos menos ama-
tem de inclinar-se diante da lei dos homens? durecidos para seu bem. Logo que eles progridam um pouco
O conflito entre Evangelho e mundo, se neste mesmo mun- mais, a liberdade será um direito deles. A lei da vida é a evolu-
do parece mais calmo, pois aí é o inferior que vence, torna-se ção, que leva ao Sistema, a Deus, e a Ele não se pode chegar
vivíssimo no seio das religiões, porque lá nos encontramos no senão livres, e jamais como autômatos. Admitindo-se, então, a
terreno em que o espírito se sente mais em casa e mais faz valer disciplina, que tende a fabricar o escravo autômato, é indispen-
seus direitos. Porém quer fazê-los valer na Terra, que é justa- sável reconhecer que isto seja tolerado somente de momento,
mente a pátria de seu adversário, o mundo. Portanto é natural porque o objetivo último é construir o homem consciente, que
que este resista, pois não quer ser destronado, mas sim continu- sabe livremente autodirigir-se. Então a restrição da liberdade
ar dono do campo, com os próprios sistemas. Neste mundo des- constitui apenas um fato transitório, destinado a ser gradual-
ceu o Evangelho. Que acontece então? mente eliminado, concedendo-se liberdade progressivamente,
Numa escola, sem dúvida, o mestre tem de ensinar. Como em proporção ao conhecimento adquirido e na medida mereci-
seria belo se pudesse fazê-lo com amor, munido apenas de bon- da, para garantir o bom uso dela, tornando-a útil, e não prejudi-
dade e amizade, como ensina o Evangelho! Mas, se os alunos cial. Quem dirige as almas deve estar do lado das forças do
são rebeldes, como poderá ele agir no interesse do próprio ensi- bem, que, se tiram, só o fazem para dar; se limitam, é para de-
no e mesmo deles, senão com autoridade e sanções que lhe pois conceder liberdade; forças que, mesmo quando parecem
permitam manter a disciplina? Sem dúvida que o ideal seria o fazer o mal, fazem substancialmente o bem.
24 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
V. A IGREJA que predomina um biótipo bem diferente, possa surgir uma or-
ganização de santos, só porque são santos o fundador e o pro-
Exigências ideais e exigências práticas da Igreja. Na grama? A perfeição para o homem é um estado a ser atingido no
Terra, ela venceu, ou foi vencida? O inferno, triunfo defini- futuro, e não uma condição já atingida no passado. Toda a massa
tivo das potências do mal, e a lógica da salvação. O comu- humana está sujeita ao mesmo processo de evolução, e a maioria
nismo, perigo externo. A justiça social não realizada em está agrupada próxima de um certo nível, do qual está procuran-
dois mil anos, ponto vulnerável em que o inimigo ataca. O do lentamente subir para outro mais alto. São imensos e penosos
maquiavelismo, perigo interno. Os dois padrões e as duas movimentos biológicos, que comprometem todos os aspectos da
lógicas. Simbioses com o inimigo. Os perigos do jogo duplo. vida humana em nosso planeta. Dentro dessa massa enorme, só
A gravidade da hora. Perder a batalha da Terra, para ven- pouquíssimos indivíduos se diferenciam como raras exceções,
cer a do Céu. A dura operação do salvamento forçado. que não podem pesar nos movimentos da vida. Governantes e
governados, juízes e julgados, senhores e servos, acusadores e
Procuremos agora localizar mais exatamente o problema, acusados, todos pertencem mais ou menos ao mesmo grau de
para ver como a organização eclesiástica do catolicismo o en- evolução, que, para todos, vai-se deslocando com o tempo. Des-
frentou e resolveu, ou seja, como realizou e resolveu com a sa maneira, julgando os outros, nós nos julgamos a nós mesmos
sua conduta a grande batalha, tema que este volume, continu- e, condenando os erros e a ferocidade do passado, condenamos
ando o precedente, vem tratando. Este choque entre evoluído os nossos erros e nossa ferocidade no passado.
e involuído, entre Evangelho e mundo, é fenômeno de alcance Em seus dois mil anos, a vida da Igreja seguiu, no mesmo
biológico, do qual ninguém pode escapar, muito menos uma passo de todas as outras instituições humanas, a evolução da
religião que se fundamenta no Evangelho e que se propõe im- vida, que é a grande estrada em que tudo caminha. A Igreja,
plantá-lo no mundo. como organismo terreno, acompanhou os tempos, aceitou o que
Entramos num terreno controvertido, propenso a polêmicas e eles ofereciam e, na prática, permaneceu no plano humano,
condenações. Já dissemos que se reconhece o biótipo do involu- comportando-se como se comportavam os outros, no mesmo
ído por seu espírito de agressividade, enquanto o evoluído é re- nível de evolução. Trata-se sempre do mesmo pensamento hu-
conhecido por seu instinto de compreensão e conciliação. Procu- mano, que, depois de atravessar a civilização grega e romana,
remos, pois, imitar o segundo. Assim, o leitor que busca ver esta atravessa agora a civilização cristã, enriquecendo-se cada vez
obra enquadrada numa opinião ou num partido, ficará desiludi- mais de elementos diversos. Esse pensamento, na Idade Média,
do. Aqui não se combate nem se condena nenhum grupo huma- foi preponderantemente cristão, porém não o é mais agora. É
no em particular, mas prefere-se observar o que o homem cos- como se aquela forma mental tivesse esgotado a sua função. A
tuma fazer. Verifica-se que tudo permanece igual, pois o homem mente do mundo pôs-se, então, a pensar de outra maneira e,
em geral faz as mesmas coisas em todos os grupos. É inútil, por- com a ciência, o pensamento humano caminhou para a frente
tanto, escandalizar-se do que se faz nas casas alheias, quando os por sua conta, deixando para trás a orientação cristã, que dantes
mesmos homens fazem, em todas as casas, mais ou menos as estava na vanguarda. E se esta tiver que voltar, só será possível
mesmas coisas. Não se justifica que se culpe uma instituição por em outra forma, totalmente diferente. Sem dúvida que, depois
ter feito no passado o que, na época, era tão normal que todos fi- de séculos de positivismo científico e após os brilhantes resul-
zessem, exigindo-se dela que seu grupo de homens tivesse atin- tados práticos atingidos, a fé, se tiver de voltar, só poderá fazê-
gido, isoladamente, um grau de evolução mais adiantado do que lo com uma mentalidade diferente daquela do passado.
o atingido pela vida no planeta, o que é absurdo e impossível. Tudo evolui, e nem sequer as religiões podem parar. Assim
Para se lançar a pedra, seria necessário estar sem culpa. E o cristianismo, emergindo do plano da força (religião mosaica
quem pode pretendê-lo na Terra? Aqui procuramos, pois, ape- do Deus rei de exércitos, egoísta e vingativo), tornou-se a reli-
nas observar os problemas por todos os lados, usando a inteli- gião da bondade e do amor (Evangelho universal), para tornar-
gência, e isto para ver e compreender, mais do que para julgar se mais tarde a religião da inteligência e da liberdade (Cristia-
e condenar. A satisfação de saber onde está o erro ou a razão, nismo do futuro, em que os mistérios serão demonstrados não
segundo o mundo – coisa difícil e sempre controvertida no re- mais com base no medo das sanções, mas sim na livre adesão
lativo – deixamo-la ao leitor, para que tenha a alegria de des- de quem compreendeu a vantagem de obedecer).
cobri-lo, conforme o seu gosto. Nestes dois mil anos, o princípio da bondade e do amor lu-
É fácil criticar, e todas as formas de governo são criticadas, tou para se substituir ao princípio da força, e o impulso da evo-
inclusive no terreno religioso. Mas o que constitui a bondade de lução procurou, do plano da lei mosaica, elevar o homem ao
um governo é a bondade do homem ou dos homens que o com- plano mais elevado da lei do Evangelho. Essa forma religiosa
põem, e não a sua forma. Na Terra, contudo, faz-se muita ques- foi apenas uma expressão do fenômeno da ascensão da vida. A
tão da forma. De que serve, então, usar uma ou outra, quando luta entre as duas fases de evolução foi dura, e, ao menos até
os homens continuam a fazer as mesmas coisas, apenas de for- agora, não se pode dizer de maneira alguma que o Evangelho
ma diferente? Se o chefe fosse bom e inteligente, a melhor for- tenha vencido. Isto não é um julgamento e muito menos uma
ma de governo seria o absoluto. Mas parece que o homem, tão condenação, mas simplesmente uma constatação de fato.
logo o possa, tende imediatamente a se transformar em tirano. Dadas as condições do ambiente e um conjunto de fatos
Provam-no os sistemas representativos, criados quando se sen- históricos, o Evangelho teve de permanecer, em grande parte,
tiu a necessidade de corrigir os possíveis abusos de um só, me- apenas como uma teoria. O primeiro impulso de Cristo teve de
diante o controle de muitos. Diz Gorer Geoffreey, em The Ame- ser substituído, mediante adaptações sucessivas, por outro im-
ricans, que “a atitude americana para com a autoridade foi pulso totalmente humano, imposto pelas necessidades do con-
sempre a mesma: a autoridade é intrinsecamente má e perigosa, tingente, pelo qual o princípio de autoridade e disciplina dete-
e quem ocupa posições de autoridade precisa ser submetido a ve a explosão do amor evangélico. Por isso não foi possível a
um controle constante”. De tal forma é a natureza humana, que, emersão imediata, permanecendo todos no nível da maioria.
até mesmo no desempenho de uma função para o bem coletivo, Nas lutas entre os dois princípios opostos, a necessidade práti-
tende a se transformar em um perigo para a coletividade, do ca de julgar e condenar levou vantagem sobre a necessidade
qual é necessário, pelo contrário, defendermo-nos. ideal, que era de compreender e perdoar.
Como pretender, num mundo assim, um comportamento de Entrando numa ordem de ideias, não se pode mais sair de-
evoluídos? Como esperar que, no seio de uma humanidade em la, e sua concatenação lógica nos arrastará até ao fundo. So-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 25
mos livres ao colocar as premissas, mas, depois, ficamos ine- princípios do mundo e pôs-se a lutar com os métodos deste,
xoravelmente ligados a elas. Assim, salvou-se a unidade e a descendo até ao nível dele. Acabou, assim, achando-se despro-
integridade, mas estabeleceu-se uma insanável cisão entre vida daquelas armas do espírito que estudamos nos capítulos
bons e maus, entre julgadores e julgados, entre quem condena precedentes. E que vitória final pode esperar uma Igreja que,
e quem é condenado. Recaímos no método humano, próprio reduzindo-se a contar com as normas humanas, não se apoia
das instituições terrenas, baseadas na força, método que, utili- sobretudo no espírito, que é a sua alma?
zando uma lei que pune, tende, pela autoridade, à imposição e Existe uma única solução que oferece possibilidade de sal-
coação com sanções, embora, neste caso, espirituais. Tal ati- vação. Uma solução que deveria ser escolhida por obra de inte-
tude se explica sem dúvida, como dissemos, pela natureza do ligência, ou aceita espontaneamente das mãos da história, antes
ambiente terreno e da psicologia dominante em nosso mundo. que esta seja constrangida a impô-la. Trata-se de fazer marcha a
Mas isto não impede que as consequências lógicas desse fato ré, repudiando os métodos do mundo e seguindo plenamente os
não devam ser suportadas até ao âmago. do Evangelho. Se a lógica daqueles leva à perdição, só a lógica
Foi assim que a psicologia do plano humano, justamente destes pode levar à salvação. Embora o Evangelho ensinasse o
aquela que o Evangelho queria refazer, aninhou-se no centro da contrário, isto é, a reabsorção do mal pelo bem, o que é árduo,
Igreja. Foi aceita e quase que fixada na instituição a figura do preferiu-se no passado, em vez de curá-lo com a redenção, se-
malvado, reconhecendo-se o mal como potência rival que ame- guir o caminho mais fácil, que é livrar-se do mal, lançando-o to-
aça a de Deus. Assim, por instinto de conservação, o estado de do fora, dentro do inferno, revigorando-o com uma sede e orga-
integridade e pureza do preceito evangélico, que tende a se nização próprias. Assim a infecção, ao invés de ser eliminada
aproximar do malvado para realizar sua redenção e salvação, por reabsorção, constituiu um centro seu, de onde lhe é possível
inverteu-se num afastamento dele, para condená-lo à sua perdi- guerrear. Caminho perigoso, porque, depois, a infecção poderá
ção eterna no inferno. Com o sistema do juiz e do castigo, é tornar-se epidêmica. Contra ela não mais se dispõe de armas no
possível a classe social dominante defender seus interesses e a Céu, porque foram escolhidas aquelas armas enganosas do
sociedade afastar os elementos que a perturbam. Mas estamos mundo e, agora, ficou-se preso dentro de sua lógica. Iniciado es-
sempre no plano humano da luta para a defesa da própria vida, se caminho, é necessário grande esforço para voltar atrás e de-
travada entre juiz e julgado, na qual vence o mais forte. Isto não pois tomar outro. Iniciado o método das condenações, só se po-
aproxima os dois termos, antes acentua as cisões e a inimizade. de insistir nelas renunciando-se a compreender que, quanto mais
O sistema do juiz que condena está nos antípodas daquele que são usadas, mais perdem seu efeito. Quanto mais se é obrigado a
ama para remir. Assim, o mal não é absorvido pela não- condenar, tanto mais se dá prova de que a religião do amor faliu.
resistência, pois, quanto mais se procura eliminá-lo com o es- Mas a evolução não pode deixar de impor o árduo esforço,
magamento, mais ele é excitado, reforçando a reação e induzin- necessário para a salvação, de se voltar ao Evangelho, ou seja,
do a uma resposta proporcional ao mesmo nível, no plano da aos métodos do amor e do Céu, ao invés dos métodos das con-
força, com a rebeldia. Recaímos no sistema do mundo, do jul- denações e da Terra. O homem não pode deter o caminho do
gamento que divide e afasta, e não do amor que aproxima e Evangelho. Se esse caminho de regresso a ele não for escolhido
une. Ao invés de chegar à confraternização, o pecador é repeli- por obra de inteligência ou aceito espontaneamente das mãos da
do pelos bons, que deveriam ajudá-lo, e permanece um rejeita- história, será imposto pelos próximos cataclismos sociais, encar-
do. Eis que, na luta entre Evangelho e mundo, venceu o mundo,
regados de purificar o ambiente das escórias do passado. Reco-
e o Evangelho falhou em sua finalidade.
nhecer-se-á então que o fato de se ter seguido o caminho do
Ficamos presos dentro de uma lógica desapiedada, que não
mundo foi aceito apenas como condição transitória, imposta pe-
nos permite parar no meio, constrangendo-nos a percorrê-la até
lo grau de involução do elemento humano, com o qual era preci-
o fim. E a conclusão é que, com o inferno e o paraíso, bons e
so trabalhar. Com sua forma mental, o homem só teria respondi-
maus se separam definitivamente, para sempre. Assim, em lugar
do aos terrores do inferno, que já não são mais úteis à evolução,
da união, triunfa a cisão, que recebe sua eterna confirmação.
pois neles já ninguém crê agora, e devem, portanto, ser abando-
Desta forma, Deus coloca a assinatura na Sua falência. O poder
nados como expediente psicológico superado. Assim, sem tu-
do mal permanece de pé para demonstrá-lo. Restará sempre uma
parte do universo em que Deus foi derrotado, em que o Seu ini- multos, será alijado da vida, que avança, todo o terrorismo me-
migo reina, em que o ódio, e não o amor, venceu e impera. dieval do inferno, ficando abandonado aos museus de história
O inferno eterno representa a vitória dos métodos do mun- como coisa desnecessária. Desta forma, tudo fica explicado e
do, baseados na punição, sobre os métodos do céu, baseados no justificado. Sem condenar ninguém, obtém-se a desobstrução do
amor. Admitir um castigo eterno, que detém a evolução e ex- caminho para a função civilizadora do Evangelho, que é de fato
clui definitivamente a salvação, supremo fim do Evangelho; a coisa mais importante. Se a história permitiu alguns erros no
uma condição de imobilidade num estado de dor que não tem passado, nenhum homem está isento de culpa, e a perfeição não
mais finalidade de bem, porque não educa mais, constituindo pode ser atingida no início do caminho, mas apenas no fim. Se o
somente condenação pela condenação, inútil para a salvação; homem não teve de imediato a força de usar os métodos do Céu,
um Deus que celebra a Sua vitória final apoiando-se nessa ine- preferindo os do mundo, não pode eximir-se de pagar as conse-
xorável condenação, e não no amor, que é Sua essência; admitir quências. Mas, depois de ter aprendido a lição à própria custa,
tudo isto pode ser explicado como uma temporária necessidade não pode deixar de se colocar no caminho da salvação.
para que uma instituição fosse respeitada e, portanto, pudesse Desta maneira, com a bondade e o amor, será sempre mais
ter sobrevivido até hoje, no feroz ambiente terrestre. Mas, se is- aliviado o peso da dor, que, embora permanecendo, não será
to for admitido como verdade definitiva, então significa que, na uma condenação eterna, como vingança e falência da obra de
Igreja, deve vencer a lei do mundo, e não a do Evangelho. Deus, mas um instrumento bendito de redenção, uma escola
No inferno, o amor morreu e foi sepultado para sempre. Isto transitória de evolução, para levar todos à salvação. O inferno é
constitui a derrota do Evangelho e a falência do plano divino. fruto da psicologia terrorista de luta, ditada pela lei de bestiali-
Quanto mais gente entra no inferno, tanto mais a Igreja falha na dade ainda vigente no mundo. E, no choque entre Céu e Terra,
sua finalidade, que é a salvação. Com tal sistema, essa institui- entre Evangelho e mundo, enquanto essa psicologia não for su-
ção poderá ter vencido sua batalha terrena, sobrevivendo até perada e não se chegar a viver no plano mais alto do amor, o
hoje, mas perdeu sua batalha no Céu, com as consequências Evangelho será sempre o derrotado e o mundo o vencedor.
inevitáveis. Isto porque, para resistir na Terra, aceitou os ◘ ◘ ◘
26 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
A crise atual do mundo é uma crise profunda de todos os programa do Evangelho não era a justiça social? E o que se fez
seus valores. Saindo de sua menoridade, o homem começa a ra- em dois mil anos para consegui-la? Foi preciso que a revolução
ciocinar e pede aos chefes dirigentes que lhe prestem contas do francesa interviesse para corrigir, justamente na direção oposta,
que fazem, assim como se cobra aos professores a justificação os abusos a que se chegara, fruto da aliança do clero com a aris-
das teorias que ensinam. Não são mais possíveis as escapatórias tocracia. Por que deixar, com esse sistema, escapar um grande
do passado, nas quais o homem de ontem, feroz mas ingênuo, programa, que deveria ter permanecido para ser aplicado? Des-
acreditava, mas que o homem moderno, habituado a todas as sa forma, ele caiu em outras mãos, nas mãos de quem, pelo me-
astúcias, não acredita mais. Muitas ilusões psicológicas caíram nos teoricamente, o professa e, com isto, faz prosélitos, utili-
após serem analisadas. A crítica revelou o verdadeiro conteúdo zando-o como ideologia de propaganda. Assim, um dos pontos
dos produtos da explosão de nossos instintos. O mundo quer fundamentais do programa de amor e justiça do Evangelho vol-
saber como são preparados os alimentos que lhe são oferecidos. ta agora, em forma invertida, como uma espécie de reação puni-
O positivismo científico despiu a verdade de todos aqueles tiva, ao lugar de onde deveria ter partido, mas para destruir
mantos barrocos extravagantes e nos fez tocar algo de sólido. É aquele órgão, que deu provas de ter sido muito fraco e não ter
pouco, mas o progresso científico já é hoje a única coisa em sabido executar a sua função. O que não foi feito espontanea-
que a humanidade acredita seriamente. A conquista da energia mente por si mesmo, é agora imposto à força pelos outros.
movimentou tudo, até a concepção estática de outrora se dina- Se a Igreja não tivesse pactuado com o mundo e não tives-
mizou. Prevalece hoje o conceito de uma verdade relativa em se aceitado o seu poder terreno, hoje o comunismo nada teria
evolução, que é também uma transformação, fruto de uma con- para falar nem para atacar, porque a justiça social já teria sido
quista progressiva. A pretensão do homem de atingir a verdade realizada. Aceitar as ofertas do mundo e possuir o seu poder
por meios próprios, através dos resultados obtidos com as des- pode parecer uma vantagem, mas quem assim procede envol-
cobertas científicas, autorizou-o a desinteressar-se da verdade ve-se com o sistema correspondente, de que mais tarde preci-
transcendente revelada, que, parece, já secou há séculos, não sará fatalmente suportar a lógica e as consequências até o
dando mais novos frutos. A vida, que não pode morrer, parece fundo, como vimos. E é isto justamente que está acontecendo
ter-se transferido para outra árvore. O homem tem fé em outras hoje. Descobrir os defeitos do inimigo, para acusá-lo e lançar-
coisas. Quem se entrincheira no definido e no definitivo per- lhe em cima culpas que ele tem, não nos liberta das nossas
manece aí congelado, abandonado ao passado da vida, que ca- culpas nem da necessidade de pagá-las, pois cada um assume
minha. A lógica do imóvel absoluto foi substituída pelo relati- a própria responsabilidade.
vismo em movimento. Na crise profunda que sacode e renova Será que um católico, ao se defender do comunismo, jamais
os alicerces do velho pensamento humano, não podem deixar pensou no que tenha feito a Igreja em dois mil anos para impe-
de ser arrastadas também as religiões. dir que ele nascesse? E, em vez de reclamar e condenar, não
Nada resolve lançar a culpa uns nos outros. Devemos ape- pensa que, para vencer o comunismo, o verdadeiro modo de
nas procurar todos juntos a porta de saída para todos. É preciso combatê-lo seria já ter realizado o seu programa ou, pelo me-
ter a coragem de nos erguermos por nós mesmos, se não qui- nos, arrancá-lo das mãos comunistas e realizá-lo em seguida?
sermos ser erguidos por força das leis da vida. É indispensável Para vencer um inimigo na parte errada, é preciso não ser vul-
deixar as espertezas e acomodações e falar claro, com sinceri- nerável na parte em que ele tem razão, a fim de não oferecer o
dade e honestidade, reconhecendo onde se pode estar errado, flanco às suas acusações. Para repreender as culpas dos outros,
para não continuar a errar e, depois, ter de pagar. Encobrindo, é preciso não as possuir no mesmo terreno. Para poder pregar
nada se salva, porque o erro, se escondido, continua a piorar. Se um dever, seria preciso primeiro cumpri-lo. Como se pode lan-
continuarmos a pôr estuque e pintar a casa do lado de fora para çar a pedra, quando não se está sem pecado? Ter-se-ia o direito
que pareça bela, enquanto por dentro está caindo, ela terminará de condenar, desde que já se tivesse feito alguma coisa para re-
ruindo sobre nós. Encontrar-se-ia talvez nessas condições a alizar a justiça social. Condenam-se os métodos de violência
Igreja católica? Observemos o que está acontecendo, não para que constituem a culpa da parte oposta, enquanto se poderia
condenar, mas para achar um caminho de salvação. responder que a história, para atingir um estado de mais justa
Dois grande inimigos ameaçam hoje a Igreja: 1) Do lado de distribuição econômica, teve de confiá-lo aos piores elementos,
fora, o comunismo, que avança agressivo e contra o qual ela es- para que executassem com a força aquele mesmo programa,
tá em posição de defesa. 2) Do lado de dentro, um secular ma- que era destinado aos melhores elementos e que deveria ter sido
quiavelismo, que constitui a sua fraqueza e representa aquela executado com a bondade, por força do amor.
derrota do Evangelho e vitória do mundo de que acima falamos. Assim ambas as partes lutam no mesmo plano humano,
Deste modo, estão agora amadurecendo as consequências. Ob- como seres do mesmo tipo e plano biológico, cada um acusan-
servemos os dois pontos, começando pelo primeiro. do e condenando as culpas do outro, em vez de procurar liber-
Quando a inteligência da história permite que as forças do tar-se das próprias. O método é igual: procurar mostrar os er-
mal tomem um desenvolvimento excepcionalmente agressivo, ros alheios e esconder os próprios. Mas qual a verdadeira razão
isto significa que a evolução, para poder avançar, precisa do de a Igreja tão energicamente combater o comunismo? Será
trabalho de destruição que elas realizam, a fim de limpar o ter- por que – conforme diz – este é irreligioso e ateu, insincero e
reno de todas as construções velhas e erradas. Essas forças, es- violento, ou por que ele é anticapitalista? Por outro lado, se o
pecializadas nesse trabalho a serviço do bem, demonstram-se comunismo assalta a Igreja, assim o faz por que ela é espiritu-
bem hábeis em descobrir o ponto fraco, pelo qual é mais atraído al, crente, idealista e pacífica, ou por que, com o pretexto da
o seu instinto de destruição, assim como os micróbios das do- justiça social e do anticapitalismo, quer apossar-se de seus ca-
enças agridem de preferência no ponto mais fraco os organis- pitais? No caso do choque entre comunismo e democracia, pa-
mos macilentos. Seria preciso não ser fraco e, assim, não ofere- rece, e até mesmo se afirma, que se trata de um choque de ide-
cer ao inimigo pontos vulneráveis. Estes pontos representam o ologias. Mas, como nos achamos diante do mesmo tipo huma-
nosso débito, pelo qual temos de pagar e do qual as forças des- no, é muito mais verossímil que o verdadeiro móvel de todos
trutivas se encarregam de nos cobrar. seja o interesse, a avidez, o espírito de domínio, o desejo de
Ora, o comunismo descobriu qual é o calcanhar de Aquiles poder. Não agem todos da mesma forma? Cada um não se co-
da Igreja, ao verificar que ela, colocando-se no nível deste, pac- loca, naturalmente, do lado do ideal e da justiça, para condenar
tuou com o mundo, deixando escapar de suas mãos o poder das em seu nome todos os outros? O mesmo tipo de homem não
armas espirituais. Mesmo sem compreendê-la, essa fraqueza é faz em todos os lugares, com os mesmos métodos, o mesmo
sentida por parte dos agressores, e eles querem aproveitar. O jogo? Em vez de exigirem primeiro de si mesmos o cumpri-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 27
mento dos próprios deveres, acusam os outros de não cumpri- uma convivência tranquila. Escolhia-se o caminho do menor es-
rem os seus e exigem deles sua realização, alegando para si o forço, já que era mais difícil resolver o caso com a vitória de um
direito de lhes impor a execução. A verdade é que todos vivem dos inimigos. Fazer o mundo vencer abertamente, seria colocar-
imersos no mesmo plano da luta, da força e da astúcia, à caça se em contradição flagrante com os próprios princípios. Fazer
dos bens e poderes materiais, que constituem o único ideal em vencer o espírito requeria esforço impossível e inatingíveis qua-
que o mundo hoje efetivamente dá provas de acreditar. lidades de santos. Assim, ao contrário, cada um dos dois inimi-
◘ ◘ ◘ gos cedia um pequeno espaço ao outro, conseguindo viver ao la-
Observemos agora o segundo ponto. Se o comunismo repre- do do Evangelho e neste mundo, duas necessidades imprescin-
senta o inimigo exterior, outro inimigo também ameaça a Igreja díveis. Desta forma era até possível acreditar que se domesticara
e ainda mais temível, porque interno: o maquiavelismo. Temos um pouco o mundo, para glória de Deus. Diante dessas conces-
procurado explicar fatos cuja existência não se pode negar. E sões, a consciência sentia-se justificada pela finalidade do bem
procuremos agora explicar ainda outros fatos. que parecia poder ser obtido assim. E a infiltração continua, es-
Já falamos do maquiavelismo no Cap. II do nosso volume cudada na teoria do fim que justifica os meios.
Problemas Atuais, fazendo a crítica desse método. Vejamos ago- Chegamos deste modo ao seguinte impasse: para atingir os
ra a posição da Igreja a esse respeito. É neste ponto que vemos supremos objetivos do espírito, a Igreja usa os métodos do
chegar até às suas últimas consequências práticas o nítido anta- mundo e, assim, detendo bens e posses, torna-se Estado e po-
gonismo colocado pelo Evangelho entre ele mesmo e o mundo. tência política, econômica e bélica, chegando a fazer guerras, a
Trata-se de dois inimigos irredutíveis, entre os quais não é possí- abençoar as armas, a instituir tribunais, a construir para si um
vel pactuar: “Ninguém pode servir a dois senhores; ou amará um direito canônico próprio e a executar legítimas condenações à
e odiará o outro; ou se afeiçoará a este e desprezará aquele. Não morte (fogueira). É lícito então perguntar por onde se perdeu o
podeis servir a Deus e a Mamon”. O pensamento é bastante ex- Evangelho? Estaremos diante de uma contradição necessária,
plícito para que se possa torcê-lo e achar escapatórias. que trará bons frutos? Teremos sabido achar, na acomodação,
A Igreja não podia deixar de se encontrar diante da necessi- uma nova virtude mais sutil, que o Céu possa aprovar? Ou tra-
dade de resolver esse quesito, que pertence a todos – o que nós ta-se verdadeiramente de uma traição ao Evangelho, enganado
mesmos fizemos neste volume e em A Grande Batalha. Se qui- e emborcado pelo inimigo, que, com a mais diabólica das astú-
sermos realmente viver o Evangelho, temos de depor as nossas cias, sentou-se na Igreja para comandar como senhor? Essa
armas terrenas e, cumprindo todo o nosso dever, deixar que acomodação, que permite a convivência, não será uma derrota,
Deus nos defenda com a Sua Providência. Nosso dever não de- ao invés de uma vitória? Não terá acontecido uma espécie de
ve basear-se na força nem na astúcia, mas sim na justiça e no simbiose, como aquela à qual se reduz um organismo quando
fato de haver merecido a Sua ajuda e proteção, por ter obedeci- se adapta a suportar a vida dos micróbios – fortes demais para
do à Sua lei. O mundo admite apenas os próprios meios, únicos ele conseguir expulsá-los – que assim se fixam dentro dele, ge-
nos quais acredita. Maquiavel leva até às últimas e mais sutis rando a doença crônica? O maquiavelismo não se terá tornado
consequências esse método. O cristão que segue o Evangelho a secular doença crônica da Igreja?
deveria colocar-se nos antípodas e seguir o método oposto: Começando esse caminho, é fácil escorregar até ao fundo.
“Procurai sobretudo o reino de Deus e Sua justiça, e todo o res- E “fundo” significa que o micróbio, no fim, mata o doente, ou
to vos será dado por acréscimo”. A conclusão a que não se pode seja, que o mundo vence o Evangelho. Perigo mortal, portan-
fugir é que a Igreja e o cristão, se quiserem ser coerentes, ob- to. Talvez os primeiros que se encaminharam nessa direção
servando os princípios fundamentais de seu código, devem ser não tivessem compreendido aonde se poderia chegar. Mas, re-
irredutivelmente antimaquiavélicos, afastando de si, como dia- petimos, quando se entra na lógica de um sistema, fica-se pre-
bólico, um método de vida que representa a quintessência desti- so a ele até o fundo. Sem dúvida, não se poderia pretender que
lada da patifaria do mundo. os homens formadores da Igreja nos séculos passados fossem
Se perguntarmos a qualquer cristão que professe o Evange- tão clarividentes a ponto de prever consequências tão distan-
lho qual das opções é a mais segura: ter merecimento da parte tes, ou que fossem santos, capazes do heroísmo necessário pa-
de Deus ou ter dinheiro no banco e possuir bens, poderemos es- ra viver o Evangelho. Mas o fato permanece, e as consequên-
tar certos de que, mesmo protestando o contrário nas palavras, cias são inevitáveis. Preparam-se grandes choques dolorosos
dará nos fatos provas de que sua fé e confiança são todas base- mas purificadores, e não será nesta sua forma atual que a Igre-
adas nos bens, e não nos méritos. Se o mundo fosse sincero, ja poderá sobreviver. O problema atual não é buscar culpados
deveria dizer: este é o meu método e, por isso, o sigo. Então a para condenar, mas salvar o que pode ser salvo. Se no fim
separação seria nítida e visível. Mas o maquiavelismo louva conseguirem fazer marcha à ré, regressando ao Evangelho, en-
com palavras o sistema evangélico, para seguir nos fatos, sem tão tratar-se-á apenas de um parênteses de adaptação, talvez
declará-lo, o sistema do mundo. E é assim que, com o maquia- necessário ao longo do caminho ascensional do Evangelho, e
velismo, o método do mundo consegue, sob falsas aparências, a enfermidade será curada.
escorregar dentro do campo oposto, que pouco a pouco, por pe- Com o princípio de que o fim justifica os meios, pode che-
quenas e gradativas concessões, engodando-se pelas vantagens gar-se ao uso da violência para estabelecer a paz, da astúcia
imediatas e justificando-as pela sua finalidade de bem, acaba, para defender a verdade, dos expedientes humanos para fazer
quase sem percebê-lo, adotando o método do inimigo. Foi dessa descer à Terra o divino. Podemos, assim, medir todas as gra-
forma que o maquiavelismo pôde entrar na Igreja. dações do progressivo emborcamento do Evangelho nos méto-
Ela não tardou a compreender que maquiavelismo e cristia- dos do mundo. É um lento e inadvertido corrompimento, que
nismo eram inconciliáveis e teve, depois, de condená-lo, pro- só pode acabar revelando-se numa crise. A contaminação é su-
clamando-se antimaquiavélica, talvez até mesmo por uma ne- til. O mal permanece sempre escondido, como indevassável ví-
cessidade de purificação imposta pela reforma protestante. Mas rus no fundo dos tecidos orgânicos. Não se sabe até que ponto
nem por isso a infiltração do maquiavelismo cessou. Oferecia se cedeu e até que ponto se resistiu, não se sabe onde se está
ele a grande vantagem tangível e imediata de resolver – ao me- doente e onde se está são, se somos maquiavélicos ou antima-
nos aparentemente – o penoso conflito entre o Evangelho, códi- quiavélicos, tanto mais que uma das normas do maquiavelismo
go que a Igreja devia seguir, e o mundo, onde, no entanto, ela ti- é não parecer seguidor dessa escola, declarando-se antimaqui-
nha de viver. Embora não incentivado pelo Evangelho, tratava- avélico. Assim, passa-se da tolerância à acomodação, depois à
se de um modo prático e astuto de resolver o difícil problema. astúcia, a seguir à mentira e, uma vez aceito o método de lan-
Através de um compromisso, chegava-se à paz que permitia çar as redes, nelas mesmas se fica preso. Não se sabe mais se o
28 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
mal que se pratica é ou não uma vitória do bem, se é justo ou guém. Estamos olhando a tempestade que se aproxima como
não favorecer injustiças necessárias, perdidas no particular e conclusão fatal das premissas que foram colocadas voluntaria-
justificadas pela vitória de uma justiça maior. mente. A borrasca nos dá, infelizmente, a prova de que estas
O fato é que tanto o Evangelho como o mundo têm cada um considerações são verdadeiras. Que fará a Igreja diante do co-
a sua lógica. São tão opostas, que resultam inconciliáveis. Quem munismo? Deus a salvará? De que forma? Que ficará dela após
tentar fundir as duas lógicas achar-se-á como quem quisesse co- o cataclismo? Esses problemas estão nas mãos de Deus.
locar-se entre dois campos inimigos, recebendo os golpes dos Como poderá uma Igreja que já se colocou no terreno eco-
dois lados, sem possuir, para defesa própria, nem as armas de nômico-político de todos deixar de usar as armas deste plano
um lado nem as do outro. O Evangelho explicou bem claramen- humano e, quanto mais forte for o ataque, insistir nelas cada
te que não se pode servir a dois senhores. Isto quer dizer que é vez mais? Mas o seu maior perigo são justamente elas, que a
preciso se decidir na escolha entre as duas lógicas, rumando por impedem de salvar-se! E como pretender que uma avalanche
um determinado caminho, para segui-lo até ao fim. Parar no que está rolando desde séculos possa deter-se repentinamente,
meio do caminho, procurar a solução nas escapatórias por ata- para fazer marcha à ré? Poder-se-á justificar tudo como uma
lhos e estradas laterais, engolfar-se na via das sutilezas e das necessidade de legítima defesa. Ao maquiavelismo jamais fal-
discriminações, abandonando a estrada reta, acaba nos lançando tam razões para legitimar suas obras. Assim o mundo, com seus
num caos em que, à força de querer distinguir sutilmente entre métodos, irá assenhoreando-se sempre mais da fortaleza do es-
honesto e desonesto, uma só coisa se sabe com segurança: que pírito, até chegar à meta cobiçada, que é desmantelá-la por
não se é de maneira nenhuma honesto. Chega-se, então, a uma meio do inimigo interno, justamente quando o externo, o co-
moral em que, à força de destilações filosóficas, pode-se ir aon- munismo, estiver lançando o ataque.
de se quiser, e a lógica férrea de um sistema reduz-se a uma O momento é gravíssimo, porque a Igreja tem de lutar con-
simples opinião, sobre a qual sempre se pode discutir. Eis que o tra dois inimigos, o interno e o externo. O primeiro é produzi-
mutável e o relativo do mundo assumem a supremacia sobre do pelo fato de que ela, há séculos, funciona maquiavelica-
aquela proclamada verdade revelada, absoluta. mente e agora, como consequência, pôs-se a lutar contra o se-
Os caminhos do mundo são traidores e nos engodam, ofere- gundo, o comunismo, no mesmo plano humano dele. Isto sig-
cendo vantagens imediatas que depois nos fazem pagar, pois nifica não permanecer no plano espiritual, acima dos comba-
nos levam por uma estrada escorregadia e cheia de armadilhas. tes, mas ficar, como coisa humana, mergulhada dentro da luta
Assim, consegue-se mentir, acreditando que não se mente; con- humana. Então, para defender-se e não ficar inferior em armas,
segue-se imaginar que se está fazendo o bem, enquanto se faz o surge a necessidade de aceitar e usar sem outros escrúpulos to-
mal. Mas o veneno sutil e doce não pode deixar de produzir os das as armas do mundo, já que agora é difícil demais voltar
seus efeitos. No fim, nós mesmos ficamos divididos entre um atrás. Mas, se é justamente esse o caminho que leva à derrota,
antimaquiavelismo professado e um maquiavelismo praticado, como impedi-la? Se é muito difícil, de um só golpe, renovar
assumindo uma posição ambígua, na qual não mais sabemos o um hábito para achar a lógica da fé pura e absoluta, sem os
que somos e, para poder usufruir das armas dos dois sistemas compromissos do maquiavelismo, se o organismo do enfermo
opostos, acabamos, como dizíamos acima, não tendo à nossa não pode suportar o remédio, como se poderá curá-lo?
disposição nem as armas de um nem as do outro. A astúcia do No entanto as duas lógicas antitéticas continuam a corroer-se
jogo duplo é a mais perigosa e enganadora das astúcias e, de tal mutuamente. A lógica da fé quer eliminar a do mundo, e a do
forma complica a defesa, que, a certo ponto, torna-se impossí- mundo deseja destruir a da fé. Só no primeiro caso, mesmo à
vel. Nascem então uma moral e uma conduta divididas no dua- custa de perseguições, espoliações e destruição de toda a supe-
lismo entre o que se pode e o que não se pode declarar, entre as restrutura terrena, é que a Igreja poderá vencer da única maneira
normas de domínio público e as secretas, entre o explícito e o possível, fortalecendo-se pelo poder espiritual, aquele que lhe
implícito. Uma discussão franca, visando ao entendimento, tor- compete, para reentrar num terreno que é seu e no qual ninguém
na-se impossível, pelo fato de que uma parte da verdade será pode vencê-la. Assim, a Igreja poderá perder a batalha na Terra,
sempre calada e subentendida. mas a vencerá no Céu, o que reforçará a sua missão na Terra.
Nessa psicologia mergulhou particularmente a Companhia Mas, se para vencer a batalha na Terra, chegar a perdê-la no
de Jesus, tanto que, na linguagem comum, costuma-se dar à Céu, a Igreja a perderá em ambas as frentes, porque, numa, terá
palavra jesuíta o sentido de maquiavélico. Tendência da Igreja traído a sua missão e, na outra, será liquidada, como é de justiça
a mundanizar-se e tornar-se política, sempre com a finalidade fazer-se com os fracos e vencidos no plano humano. Esta é a
do bem. Em vez de uma posição nítida do limite entre lícito e força lógica das coisas, e não há poder humano que permita sair
ilícito, de acordo com uma lógica única, tem-se a oscilação do disso. Portanto existe um único método com o qual pode a Igreja
limite segundo os casos, sobrepondo-se à retilínea lógica do combater e vencer a atual batalha, e já vimos qual é.
Evangelho a contorcida lógica do mundo, sem compreender Mas, no fundo, se olharmos o que aconteceu no passado, o
que assim não se chega a um acordo, mas à contradição. Aca- que acontece agora e o que deverá acontecer, só podemos admi-
ba-se em luta consigo mesmo, o que constitui a maior fraque- rar a sabedoria de Deus, que tudo dirige e salva, utilizando os
za. Fraqueza perigosa, porque situada nos alicerces do edifício, elementos que se acham disponíveis no mundo. Assim tudo se
ameaçando fazê-lo ruir; fraqueza no ponto mais vital do orga- explica a seu tempo e no devido lugar. A imperfeição humana
nismo, que, por isso, adoece; fraqueza na coluna central da provoca erros, e a história lhes traz remédios, impondo a corre-
Igreja, que é a fé em Deus e no poder do espírito. Então o na- ção necessária para executar a dolorosa operação salvadora.
vio perde o leme, o exército perde as armas e a Igreja fica à de- Bem ou mal, a Igreja conseguiu chegar até hoje, através do
riva das forças da matéria e do mundo. tempestuoso oceano da Idade Média. Para isto, interessou-se
O verdadeiro cristão aceita uma única lógica: a do Evange- antes de tudo em salvar-se como instituição e como unidade,
lho. Não sobrepõe uma lógica à outra, para delas fazer um com- exigindo para isso disciplina e obediência como autoridade,
posto híbrido; não desconjunta a solidez de um processo lógico, mais do que cuidando do aprofundamento dos princípios e da
que significa, na prática, solidez no desenvolvimento das forças solução dos problemas do conhecimento, da evolução do pen-
nas quais adquirem forma as proposições desse processo. A samento e das consciências. Achou, assim, que talvez fosse me-
Igreja colocou-se nessa contradição e, assim, ofereceu o flanco lhor não tocar na casa de marimbondos de problemas tão espi-
vulnerável. E agora, para golpeá-la nesse ponto, correm os infi- nhosos, difíceis, sempre controvertidos, de solução própria ina-
éis sem Deus, e essa vulnerabilidade facilita-lhes a vitória. Não tingível, enquanto permanecia mais acessível e agradável ao
estamos condenando, repetimos, pois isto não adianta a nin- povo a faustosa encenação do rito, da arte, da suntuosidade dos
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 29
grandes templos. Desta forma, as massas, mais satisfeitas, ade- bém pode usá-las e com elas sabe tornar-se bastante forte. Po-
riam com maior facilidade. Mas a exterioridade e a forma, qua- demos assim explicar tudo, entendendo como a Igreja se tenha
lidades do mundo, também venceram, substituindo-se à interio- enfraquecido tanto hoje, pelo menos como potência espiritual,
ridade e à substância, e a Igreja se foi esvaziando de seu mais e porque, diante do inimigo que se movimenta para o ataque,
precioso conteúdo, que é o espiritual. No barroco, encontrou o ela se acha numa posição negativa, em atitude de defesa, que
seu estilo, aceitando-o sem ao menos suspeitar o verdadeiro pode, a qualquer momento, como num exército que não esteja
significado dele, que é ser a mais ofensiva expressão da vitória bem armado, transformar-se numa fuga.
da exterioridade mundana e do vazio interior. Com o barroco, Mas, conforme dissemos, não se pode pretender que os ho-
fixou-se na Igreja e ainda aí permanece o teatral e o fantástico mens sejam todos gênios e saibam prever a séculos de distancia,
em vez do simples, o confuso em vez da sinceridade, o artifício ou que sejam todos heróis e queiram escolher para si mesmos os
no lugar da verdade, a ficção em vez do superamento, e, no es- caminhos mais árduos e difíceis. Mas ficaria então, com isso,
pírito, a materialidade da vida dos sentidos. Estilo que exprime detido o progresso, concedendo-se à insipiência humana um tal
uma época e sua forma mental. Assim, a arte religiosa se torna poder, que paralisasse a evolução da vida? Como resolver o pro-
humanamente esplêndida, pagãmente grandiosa e espetacular, blema neste caso? Quando a imperfeição humana chega a com-
em vez de humilde e crente. E tudo isso ocorre com tanta con- prometer o fatal desenvolvimento dos planos da história, entra
vicção, que nem sequer se percebe a contradição, indicando que em jogo a inteligência desta, que, com acontecimentos apropria-
a Igreja não percebeu o descaminho pelo qual a fé se tornou dos, constrange a passar pela estrada estreita e espinhosa, aquela
uma exterioridade. De tal forma o mundo venceu o espírito, que que o comodismo nos fez antes evitar, mas que é necessário per-
ninguém mais vê que tudo está extraviado, e todos, mesmo fora correr para chegar à salvação. Então, Deus abre as portas do in-
dele, estão persuadidos de continuar no caminho certo, crendo ferno, permitindo que todos os diabos desencadeados saiam para
ser esta uma ótima expressão do pensamento do catolicismo. agredir quem errou, ou seja, deixa livres para explodirem as for-
Dessa maneira, a psicologia do mundo e do paganismo entra e ças do mal, que se tornam instrumento da justiça divina, a fim
fica nas igrejas, funde-se com a religião e adormece o espírito, de que se realize a operação cirúrgica de limpeza e cura. O mal
envolvendo-o na magnificência de seus planejamentos. funciona a serviço do bem, e chegam a destruição e a dor para
Assim foi a Igreja navegando pelo mar do tempo. Sacudida nos recolocar na posição devida, fazendo triunfar o espírito. As-
pelo assalto da reforma, organizou a contrarreforma, levada por sim, aqueles diabos desencadeados e cegos trabalham intensa-
um só instinto: sobreviver de qualquer modo. O trabalho mais mente para que Cristo triunfe. A salvação, que poderia ter sido
urgente e a maior preocupação foram para salvar a instituição, feita por obra de inteligência e boa-vontade, mas não foi feita,
mais do que a fé, que se tornou instrumento para salvar a insti- agora se faz pela força. Trata-se apenas de um caminho mais do-
tuição. Ocorreu então que o meio terreno se tornou meta, e a loroso e mais longo. Mas o objetivo é alcançado do mesmo mo-
meta celeste se tornou meio. do. Ninguém pode deter a história e o progresso. Apesar de to-
Dessa inversão derivou um fato grave. A Igreja teve de as- das as coisas que o homem possa fazer, tudo continua a funcio-
sumir uma posição negativa, de defesa – que ainda mantém – nar exatamente na perfeição de Deus.
colocando-se assim numa posição de grande desvantagem,
pois é fato inegável que a posição positiva pertence hoje ao VI. DINÂMICA DA EVOLUÇÃO
inimigo, que passou ao ataque. Como se explica isto? Tudo é
lógico. A Igreja só pode ser afirmativa em seu terreno, ou seja, O telefinalismo da evolução. Não mais materialismo evo-
no espírito. Tornando-se potência terrena, desviou o seu centro lucionista, mas evolucionismo espiritualista. Da matéria à
vital para o lado oposto, constituído pelo mundo, que ela assim vida. A técnica construtiva da evolução. Uma inteligência
reconheceu e aceitou; transplantou-se para o campo do inimi- dirige o fenômeno, que é o regresso à perfeição perdida, me-
go, colocando-se assim no rol das coisas humanas. Se, com is- ta preestabelecida e fatal. Objeções. A técnica da tentativa,
to, conseguiu a vantagem imediata de se tornar presente e ao invés de desmentir, comprova o telefinalismo. A entro-
afirmativa naquele plano de vida, que não é o seu, tornou-se, pia. Dinamismo cósmico e dinamismo biológico. A vida na
contudo, ausente e negativa no seu próprio plano, o do espíri- conquista do movimento para domínio da dimensão espaço.
to. Enquanto a Igreja julgava conquistar novos poderes, este
fato a privava de sua força maior, porque a reduziu ao nível Até aqui estudamos, a propósito de um caso vivido, o fe-
das instituições terrenas, que, desta maneira, podem tratá-la de nômeno do choque entre involuído e evoluído, explicando seu
igual para igual, como potência do mundo, nada mais. Pode ter significado com teorias gerais. Observamos depois o mesmo
parecido vantajosa a astúcia de querer colocar-se também nes- fenômeno, mas em dimensões maiores, na luta entre o cristia-
se outro terreno, o do mundo, mas, no fim, tudo se reduziu a nismo, como representante do Evangelho, e o mundo. Até
uma traição, e desse lado não se podia esperar outra coisa, co- agora permanecemos num terreno prático, como a realidade
mo bem avisa o Evangelho. Essa posição negativa significa o da vida se nos apresenta na Terra. Nesta última parte do pre-
esvaziamento espiritual da Igreja, o que significa a perda de sente volume, dilataremos ainda mais os nossos horizontes,
seus maiores poderes, isto é, achar-se em posição de fraqueza e ampliando a nossa visão, para considerar outro aspecto dife-
vulnerabilidade justamente na luta em que procurava vencer. A rente de A Grande Batalha.
troca foi de fato muito desvantajosa, pois a reduziu de um or- Ele nos revelará o vasto e profundo significado biológico do
ganismo espiritual superior a uma instituição humana, para as- fenômeno dessa batalha, a sua importância para o desenvolvi-
sumir uma posição terrena, que, não sendo a sua é, portanto, de mento da vida e os maravilhosos resultados a que tende o fenô-
inferioridade, enquanto a posição da Igreja, como espiritual, meno, levando com ele o ser. Isto nos erguerá acima deste mun-
deveria ser de superioridade diante de qualquer organização do, do qual tivemos que nos ocupar até agora, e nos colocará em
humana. Ao Sair do próprio terreno e transportar-se para o do contato com os princípios universais, que estão na raiz mais pro-
mundo, aceitando as armas do inimigo, a Igreja se iludiu, acre- funda desse fenômeno, do qual traçam o caminho e impõe as
ditando poder afirmar-se melhor com isto. Por haver renuncia- conclusões. Esses são os princípios teológicos, demonstrados
do, porém, à própria superioridade espiritual e às armas do es- nos dois volumes: Deus e Universo e O Sistema, princípios que
pírito, em que residia toda a sua força, desceu ao nível das coi- aqui voltam, aplicados e confirmados em contato com a realida-
sas terrenas, perdendo aquelas armas e ficando com outras, de da vida, onde são observadas as suas consequências práticas.
que, não sendo as suas, não pode usar, achando-se numa luta Esta subida nos permitirá unir a realidade do relativo aos princí-
desigual com quem não só as possui como próprias, mas tam- pios que o dirigem no plano das causas primeiras, e isto com ab-
30 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
soluto sentido unitário, que liga e funde tudo monisticamente, da queda, para dirigir e salvar tudo. Os primeiros biólogos que
levando a encontrar a causa no efeito e o efeito na causa. descobriram a evolução nem sequer sonhavam com tudo isto.
Poderemos justificar assim, racionalmente, a concepção de O conceito de telefinalismo está implícito nessa concepção.
involuído e evoluído na qual se baseia este tratado, dando a esta Ainda que o particular seja deixado ao livre-arbítrio individual,
ideia um fundamento cientificamente positivo, de acordo com o à mercê das tentativas e do erro, o fenômeno da evolução, em
que a biologia admite. Poderemos explicar e provar nossa afir- suas grandes linhas, é fatal e amarrado a um caminho próprio
mação de que o Evangelho representa a lei da humanidade futu- preestabelecido. Pode-se evoluir de várias maneiras, mas so-
ra. Mesmo pelas teorias da ciência, poderemos sustentar que a mente caminhando para Deus.
evolução leva o homem à sua própria espiritualização, pois a vi- Já está, portanto, estabelecida a forma que deverá assumir no
da progride em direção à espiritualização, que constitui verda- futuro a evolução humana, que só poderá consistir na sua espiri-
deiramente o telefinalismo da evolução. Assim, por outros ca- tualização. Seu profundo trabalho criador se realiza no terreno
minhos positivos, poderemos dar plena confirmação às afirmati- das causas primeiras, que está no íntimo do ser, mesmo que se
vas em que nos baseamos no desenvolvimento desta obra, uma trate, como no passado, de construções morfológicas, que expli-
confirmação lógica, enquadrada no seio da Lei, ou seja, no seio camos como produto ideoplástico. O regresso a Deus só pode
do plano que dirige o funcionamento e a evolução do universo. significar o despertar, no ser, de todas as qualidades espirituais
Que existe um telefinalismo na evolução e que ele é repre- que aproximam de Deus. Assim se explica por que a evolução,
sentado pela espiritualização, já o afirmamos várias vezes neste quanto mais se sobe, mais se deve verificar no íntimo, no pro-
volume, em rápidas referências. Desenvolvamos agora esses fundo, onde Deus está em nós. Explica-se, também, por que o
pontos, explicando o que isto significa e analisando o fenômeno caminho da evolução para a raça humana, que já se tornou ma-
e as razões pelas quais acontece. A explicação lógica desse fato dura, só pode continuar na forma de sua espiritualização. Isto
reside numa razão profunda. significa o ser despertar pela conquista de conhecimento e cons-
No volume O Sistema, foi demonstrado que a evolução ciência, desenvolver a vida interior, compreender e viver o espí-
representa o trabalho de reconstrução do Sistema, a partir das rito do Evangelho e, com isto, realizar na Terra o reino de Deus;
ruínas do Anti-Sistema, no qual aquele decaíra. Trata-se, em significa espiritualização, porque a evolução vai da matéria para
relação ao fenômeno da evolução, de uma concepção cujas Deus, que é o espírito; significa desenvolvimento da vida interi-
bases e implicações são mais profundas e exaustivas do que or, porque Deus é interior, e não exterior ao ser e ao universo.
as oferecidas pela ciência, que, segundo a teoria materialista Aqui se vão delineando os argumentos racionais, positivos e
de Darwin e Haeckel, sem penetrar no mundo das causas, de- científicos que demonstram a exatidão de nossa precedente co-
tém-se na superfície dos efeitos, onde aparece apenas o de- locação do problema em A Grande Batalha, provando-nos que
senvolvimento morfológico dos órgãos. A ideia de um mate- nosso ponto de vista não foi uma criação arbitrária de teorias,
rialismo evolucionista pode ser agora substituída por uma de apenas para nos dar razão, mas que elas justificam e confirmam
evolucionismo espiritualista. verdadeiramente a nossa interpretação dos fatos que narramos e
Podemos assim penetrar o significado íntimo do fenômeno dos fenômenos trazidos a exame.
da evolução, verificando que se trata do processo de reconstru- Assim, também obteremos confirmação da ciência para a
ção de um sistema destruído. Este fato nos impõe consequên- nossa tese do valor universal do Evangelho como fator biológico
cias importantes. Com efeito, o modelo a reconstruir preexiste de evolução. O Evangelho insere-se na evolução, acompanhan-
ao processo evolutivo e estabelece a sua meta, que constitui jus- do o seu telefinalismo, com o qual coincide, porquanto é espiri-
tamente o telefinalismo. Como esse modelo já existe e o atual tualização. Que mais podemos fazer? Mais não podemos dar,
estágio de evolução ainda está distante dele, então ela já possui porque mais não temos. Em nossos livros oferecemos todos os
um objetivo determinado, que deverá atingir ao identificar-se meios que o sentimento, o pensamento e a palavra podem ofere-
com o modelo. As fases sucessivas do progresso e aperfeiçoa- cer para orientar, e também os dados positivos da ciência. Fa-
mento da vida são gradativas aproximações a este estado final. zemos isso para cumprir nosso sagrado dever. Aproveite quem
Este é estabelecido pelo sistema perfeito, não decaído, que re- quiser, como um salva-vidas, na hora do “salve-se quem puder”.
presenta a primeira criação operada por Deus. Eis então que a A Lei, que é a vontade de Deus, ordena que seja dado este passo
evolução não caminha ao acaso, abandonada a si mesma, mas é à frente na realização do Evangelho, ou seja, na evolução da vi-
guiada pela atração de uma meta longínqua, para a qual tende a da. A hora está madura, porque o mundo de hoje está espiritu-
se dirigir, como sobre um binário marcado por um raio de luz. almente em diluição, assim como, no tempo do imperador Cons-
Há mais, porém. Se conhecemos o ponto de chegada, sabe- tantino, estava o mundo romano, de cujas ruínas nascia o cristi-
mos também qual é o ponto de partida da nossa evolução: a ma- anismo. Repitamo-lo para o Evangelho: “In hoc signo vinces2”,
téria. Em A Grande Síntese, traçamos todo o caminho ao qual a para que do desfazimento do mundo de hoje nasça o novo cristi-
evolução submete o ser, da matéria ao espírito. Chegamos a sa- anismo do Evangelho, vencendo a grande batalha.
ber, assim, mais do que pode dizer-nos a ciência, porque, co- Estes livros querem salvar o que pode ser salvo. Mas que
nhecidos o ponto de partida e o ponto de chegada da evolução, podemos oferecer senão conceitos e avisos? Sozinhos, eles não
é possível estabelecer também todo o traçado do seu caminho. podem ter poder decisivo para refazer o mundo. Seria loucura
É verdade que, no relativo, as estradas pela quais se pode evo- imaginá-lo. Então a sua maior força não reside apenas nos ar-
luir são muitas, mas, se são diferentes na forma, são iguais na gumentos escritos, porque o mundo está habituado a zombar
substância, porque todas levam ao mesmo objetivo e, partindo dos sermões há muito tempo, como zomba de todas as religi-
da matéria, vão ao espírito, ou seja, ao Sistema e a Deus, que é ões, do Evangelho e de Deus. A força destes livros, então, ba-
o seu centro. Tudo parte de um polo onde tudo se encontra no seia-se nos acontecimentos que Deus prepara, aos quais o ho-
negativo (mal, trevas, dor, morte etc.) e caminha para um polo mem não poderá resistir e dos quais não poderá escapar; acon-
onde tudo se encontra no positivo (bem, luz, alegria, vida etc.). tecimentos históricos que liquidarão o nosso mundo apodreci-
Eis então que, em seu mais profundo significado, a evolu- do, como foi liquidado o império romano. Quando isto tiver
ção se nos revela como um fenômeno não casual e isolado, ocorrido, os elementos negativos da humanidade, contraprodu-
mas sim como um processo fundamental, enquadrado na or- centes para a evolução, terão sido todos afastados, assim como,
dem universal, fazendo parte integrante do sistema, em função pela mesma lei, ocorreu no pequeno episódio narrado3. Então
do objetivo supremo desta ordem; um fenômeno guiado por
2
uma inteligência e poder que o disciplinam, determinado por “Com este sinal venceremos”. (N. do T.)
3
Deus e sujeito à Sua lei, que permaneceu de pé mesmo depois Fato narrado no livro A Grande Batalha.
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 31
estes escritos adquirirão um valor que o homem de hoje – dis- do pela evolução? Olhando desde a matéria inorgânica até o
posto a aceitá-los ou condená-los apenas conforme sirvam ou homem que pensa, podemos compreender o tremendo trabalho
não para o seu partido religioso – não pode, com tal forma men- criador que a evolução deu provas de saber realizar.
tal, compreender e demonstra de fato, com tudo isso, não ter Para fazer compreender melhor, quisemos aqui recordar qual
compreendido ainda. Se eles fossem apenas obra humana, não é a estrutura íntima da matéria. Perguntamos, agora, como pode,
se explicaria a sua linguagem. Mas, paralelamente a eles, estão de um mundo dirigido pelo acaso, derivar, sem a intervenção de
amadurecendo grandes acontecimentos históricos (V. volume qualquer outro fator, o mundo biológico, onde uma série imensa
Profecias), e a mão de Deus é tremenda, se for necessária a de fatores, seguindo funcionamentos próprios bem diferentes,
destruição, que é executada sem piedade, quando a operação do aparece não só disciplinada no estado orgânico, mas também
corte cirúrgico é imprescindível para salvar a vida do enfermo. orientada segundo um transformismo que arrasta tudo na direção
◘ ◘ ◘ evolutiva, capaz de levar a vida da primeira célula até à comple-
A sua velha concepção mecanicista do mundo, segundo a fí- xidade do organismo humano, no qual o cérebro atua em ordem
sica clássica, a ciência substitui hoje pela física quântica e esta- ainda mais complexa, no mundo psíquico e espiritual? As causas
tística, em que não mais dominam leis dinâmicas, mas leis esta- desses efeitos não as achamos na matéria. Ela é insuficiente para
tísticas ou de probabilidade, reguladoras não mais de um caso determiná-los. Onde estão, pois, essas causas? Como pode, de
singular, mas de inumeráveis processos individuais; leis que go- um sistema constituído por movimentos livres dos indivíduos
vernam uma multidão de acontecimentos, nos quais o indivíduo componentes, baseados em leis estatísticas ou de probabilidades,
desaparece (V. Problemas do Futuro, Cap. XVII – “As ultimas desenvolver-se aquele maravilhoso edifício biológico, em que
orientações da ciência”). Eis o que nos diz a estrutura atômica vemos, no fim, aparecer o pensamento e o espírito?
da matéria hoje, quando a velha visão do conjunto-observação, Dado o ponto de partida, estatisticamente falando, o fenô-
que poderia chamar-se macroscópica ou de síntese, é substituída meno do surgimento da vida é estranhamente improvável, e o
por uma visão analítica da matéria, cuja estrutura foi penetrada seu desenvolvimento até ao homem é inexplicável. Usando o
com uma observação submicroscópica e intuitivo-matemática. cálculo das probabilidades, pode-se demonstrar matematica-
Compreendeu-se então que a concepção estática da matéria, co- mente a impossibilidade de explicar, apenas com o acaso, o
mo um sólido imutável, era devida apenas à escala de observa- aparecimento espontâneo da vida na Terra. As primeiras célu-
ção usada pelo homem no passado. Verificou-se que, mudando las não podiam nascer de uma desordem caótica por uma com-
as dimensões da escala de observação, o fenômeno se revela binação fortuita de elementos atômicos, mesmo que, dispondo
constituído segundo uma natureza diversa. Assim, a física se ba- de um tempo ilimitado, fosse possível teoricamente qualquer
seia hoje em resultados gerais de massa, segundo os quais, de combinação. Antes de tudo, para a Terra, há limites de tempo,
uma desordem básica, pode derivar, todavia, uma ordem de con- imensamente inferior ao necessário para que tal combinação
junto, que nos revela a escala normal de observação, obtida com pudesse ter ocorrido em larga escala. Além disso, as proprie-
os meios de nossos sentidos limitados. E é assim que, no grande dades da célula, muito mais do que uma simples combinação
número, desaparecem as irregularidades individuais em uma re- de elementos, implicam uma coordenação de complexidade
gularidade coletiva de conjunto, nas quais se fundamentam as que jamais poderá resultar do acaso, mas somente de uma di-
leis vistas pela física clássica. Mas eis que a ciência admite hoje, reção inteligente. Sem dúvida, foi utilizada matéria prima me-
para a matéria, leis que se baseiam no acaso e na desordem. nos evoluída. Mas isto não significa absolutamente que ela seja
Mesmo que depois haja compensação, pela revelação das carac- a causa do fenômeno. Devemos admitir, ao invés, que a vida
terísticas dominantes de massa, permanece o fato de que, na di- não é uma criação da matéria, mas apenas uma manifestação e
mensão submicroscópica da escala de observação, verifica-se a revelação através da matéria. Igualmente temos de aceitar que
irregularidade de inumeráveis liberdades individuais. o espírito não é uma criação da vida, mas somente uma mani-
Ora, em nosso grande mundo, vemos as formas de existên- festação e revelação através dela. É inevitável, então, concluir
cia escalonadas segundo vários planos de desenvolvimento, que nem o mundo biológico é o produto gerado pelo mundo fí-
unidas por um contínuo transformismo no mesmo caminho sico e dinâmico, nem o mundo psíquico espiritual é um efeito
traçado pelo processo evolutivo, que estabelece sua parentela e determinado pelo mundo biológico, mas ambos são a expres-
lhe mantém a unidade. Assim, partindo do mundo inorgânico são de um princípio superior, que utiliza as construções prece-
da matéria, através do dinâmico da energia, chega-se ao mun- dentes para delas realizar outras sempre mais complexas e per-
do orgânico da vida vegetal e animal, no cume da qual, com o feitas, coordenando seus elementos em combinações cada vez
homem, desponta o mundo imaterial das ideias e do espírito. mais sábias. Se nada se cria e nada se destrói, e se, do nada,
Cada um desses mundos, evoluindo, transforma-se por imper- nada se produz, não nos resta senão buscar uma causa para es-
ceptíveis gradações, infiltrando-se no seguinte. Achamo-nos ses efeitos naquele princípio superior.
como que diante da construção de um grande edifício, cujas Passando, com a evolução, do mundo físico ao dinâmico,
qualidades e complexidade de estrutura revelam uma sabedoria deste ao biológico e, mais acima, ao psíquico e espiritual, assis-
que aumenta a cada plano. Se a evolução fosse um processo timos em cada degrau a uma inovação radical, semelhante a
isolado, abandonado a si mesmo, sem os grandes bastidores de uma revolução, onde se manifestam efeitos que as causas exis-
forças e de inteligência que a guiam, não se poderia explicar tentes nos planos inferiores não contêm e não explicam. A cada
como da pedra se chegou ao gênio. E o fato de que o pensa- salto para frente nasce um mundo novo, dirigido por novos
mento faça parte de nosso universo, tanto quanto a matéria e a princípios, que são muito mais do que uma simples consequên-
energia, é algo que não se pode negar e que a ciência não pode cia dos precedentes. Nada se destrói, o velho continua a existir
deixar de reconhecer cada dia mais. no novo, mas apenas em posição subordinada, como meio e su-
Não basta comprovar o fenômeno da evolução. É indispen- porte de algo que ele não conhece.
sável explicar-se as forças determinantes e a sabedoria que a di- Além disso, podemos observar um fato estranho. O plano
rige. Aqui está a incógnita que escapa à ciência e que é necessá- da vida e do pensamento constituem, em termos de matéria e
rio conhecer, porque ela, sendo a causa de tudo, é a chave do energia, um mundo de grandeza desprezível, diante daquela
fenômeno da evolução. Matéria e energia sozinhas não são su- grandeza imensa dos astros e planetas e da quantidade e potên-
ficientes para explicar a derivação da vida, pois não possuem cia das energias cósmicas. Trata-se de um mundo quantitati-
diante dela o poder de causa determinante. O complexo não po- vamente menor, mas qualitativamente superior. A que causa
de ser gerado pelo simples, nem o mais pelo menos. Onde estão atribuir essa superação qualitativa? Não, de certo, aos planos
as causas determinantes do maravilhoso florescimento produzi- inferiores, dos quais ela é justamente uma superação. Nenhu-
32 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
ma unidade sozinha pode conter os elementos aptos a produzir um plano superior. Vemos assim qual a força que preside ao
a própria superação, que lhe permitam sair das próprias dimen- fenômeno, defendendo e salvando, num ambiente ciumento e
sões e elevar-se acima delas. É verdade que, nos planos inferi- inimigo, esses tipos biológicos fora da série, assim como todas
ores, encontramos maior riqueza de quantidade. Mas poderá a as exceções isoladas e contrastadas pela massa diferente dos
quantidade sozinha produzir a qualidade? menos evoluídos, contrária a elas. Explica-se dessa maneira
A evolução parece proceder através de construções em for- como é possível o mais adiantado – portanto mais complexo e
ma de pirâmide, selecionando cada vez mais, quanto mais sobe, com mais dificuldade para sobreviver – vencer a batalha da vi-
os seus elementos e mandando em frente apenas os mais esco- da e fixar-se como novo tipo biológico, dando-se desse modo o
lhidos. Dessa forma, a evolução consegue fazer qualidade com progresso da evolução. Assim, tudo se explica, mas só por obra
a quantidade, extraindo-a da massa. Mas, para que isto seja de um conceito metafísico que já agora se torna indispensável
possível, seria necessário que a quantidade contivesse, embora até mesmo à ciência, pois, enquanto esta não descobrir o lado
em medida reduzida, a qualidade. Ora, como pode um plano in- imponderável do fenômeno, poderá atingir apenas uma visão
ferior conter as características, completamente diferentes, que parcial, insuficiente para compreender o processo evolutivo,
individualizam um plano superior? que permanecerá um mistério cheio de incógnitas. Ainda que
Eis que, quanto mais observamos e raciocinamos, mais so- metafísico, trata-se, no entanto, de um conceito tão íntimo aos
mos arrastados para o mesmo ponto. Os fatos e a lógica nos seres – inclusive a nós, humanos – que em todos grita e sabe
constrangem a aceitar, como explicação de tudo isto, a presença realmente se fazer compreender e obedecer muito bem, por
de uma inteligência e poder diretores que preexistem ao fenô- meio de um instinto irrefreável de melhoria e ascensão, no qual
meno da evolução e a ele impõem determinado caminho e tele- se exprime a grande chamada de Deus a todas as criaturas.
finalismo. Torna-se então explicável essa transformação de po- ◘ ◘ ◘
tência criadora, compreendendo-a não como uma absurda deri- Não faltam, todavia, as objeções a essa concepção telefina-
vação do mais advinda do menos, mas sim como uma destila- lística. Mas o fato é que, mesmo parecendo que elas a possam
ção progressiva de valores substanciais, já contidos potencial- abalar nos pormenores, terminam por confirmá-la nas linhas ge-
mente – como uma semente que depois gera a árvore – naquilo rais. Observa-se que, na evolução da vida, a natureza procede
que, porque ainda não se desenvolveu, apenas parece menor, por tentativas, e não com a segurança de um plano pré-
mas não é. De onde derivam, então, esses valores substanciais e organizado. A técnica da tentativa contrasta completamente
como podem existir no estado latente, não-manifestado, à espe- com o conceito de telefinalismo e o desmente. Se fosse verda-
ra de desenvolvimento, mesmo nos mais baixos planos da evo- deiro aquele conceito, a evolução deveria caminhar retilínea e
lução? Para responder, é indispensável ter compreendido a teo- segura. Ao invés, ela avança incerta, como quem não conhece
ria da queda, explicada em nossos dois volumes, Deus e Uni- absolutamente o caminho a seguir. Sua tendência a progredir é
verso e O Sistema, e o desenvolvimento evolutivo traçado em A incerta, como de quem não sabe aonde quer chegar. Ela tende a
Grande Síntese, que se pode definir como a teoria do reergui- subir, mas erra, corrige-se, para, toma outra estrada, retrocede,
mento. Nesses livros, está explicada tanto a origem da matéria, depois recomeça e continua a subir. Muitas formas, inúteis co-
devida à queda, corrupção ou involução do espírito, como o seu mo resultado final, permanecem abandonadas, mortas, nas
regresso àquele estado perfeito originário, através do caminho margens do grande caminho. Por que esses erros, essas tentati-
da evolução, que é o processo de reerguimento ou reconstrução vas sem êxito? Naufraga com isto o poder do telefinalismo?
do Sistema a partir do Anti-Sistema, sob a direção daquele Mas, se ele vem de Deus, como pode falir em tantos pontos?
mesmo Deus que, tirando de si, tinha criado tudo. Vemos que sua sabedoria não está absolutamente presente na
O fenômeno da evolução torna-se, então, bem compreensí- evolução, que não conhece nenhum telefinalismo.
vel, como um caminho de volta, paralelo e inverso ao de ida. Ao invés de uma consciência organizadora, dá-nos tudo is-
Pode-se ver a sua trajetória completa, equilibrada em suas duas to a sensação de um cego à procura de luz, apalpando as pare-
fases opostas, uma de descida e outra de subida, saindo do des de sua prisão para achar a porta de saída em direção a for-
ponto de partida até ao polo oposto e retornando deste, com a mas de vida menos duras e mais livres. Por que esse esforço de
recuperação de tudo o que perdeu, até ao ponto de partida. As- evoluir com risco próprio, expondo-nos a todos os perigos? E
sim, esse estranho fenômeno do “mais” que nasce do “menos”, o poder diretivo dirige o quê, se fica impassível a olhar? Pare-
pelo qual a qualidade emerge da quantidade e o complexo nas- ce ser fraco, incerto, quase ausente ou, no máximo, presente
ce do mais simples, pode ser explicado, uma vez que esse apenas como um vago e longínquo chamamento, sentida pelo
“mais” não é gerado do “menos” e, assim, a qualidade não o é ser como uma ânsia confusa, que só pode realizar-se através de
da quantidade, nem o complexo do simples. A precedente po- seu esforço mais árduo.
sição de “menos”, como quantidade e simplicidade, não repre- No entanto também podemos perguntar quantas coisas já
senta a causa do “mais”, como qualidade e complexidade, mas não conseguiu a evolução construir com essa sua precária téc-
apenas uma fase de diverso grau de desenvolvimento do mes- nica da tentativa? Em última análise, com suas maravilhosas
mo processo, que consiste na restituição ao estado atual daqui- construções, a vida demonstrou que sabe responder a esse ínti-
lo que se reduzira ao estado latente. Restituição, ou seja, re- mo chamamento telefinalístico. O esforço árduo nos trouxe até
gresso e reerguimento, porque a involução é uma queda do es- aqui, onde nos achamos hoje no caminho da evolução. As difi-
pírito na matéria, da substância na forma, ao passo que, com a culdades foram superadas, e a vida triunfou sobre todos os erros
evolução, da matéria reaparece o espírito, da forma emerge e e obstáculos, atingindo seus objetivos. Somos levados pelo nos-
revela-se a substância. Com efeito, esse é o processo evolutivo, so comodismo a conceber a presença de Deus fazendo tudo
cujo significado é subir para retornar a Deus, que é, ao mesmo com seu infinito poder (aliás, isto nada lhe custa), poupan-
tempo, ponto de partida e de chegada. do-nos um cansaço que nos custa muito. Mas, ao contrário, a
Leva-nos tudo isto, fatalmente, ao conceito de telefinalismo, presença de Deus em nós é uma conquista que temos de fazer
pois ele se torna agora indispensável para podermos compreen- com esforço próprio, merecendo-a pelo fato de saber subir até
der e explicar o processo evolutivo, que, como não podemos Ele. Então esse imperativo telefinalístico não é um elevador
deixar de admitir, é orientado na direção dessa meta preestabe- dentro do qual nos sentamos para sermos levados para o alto,
lecida e fatal. Assim, podemos agora explicar, finalmente, o mas sim uma escada que precisamos subir com as próprias per-
significado e as causas da distinção entre involuído e evoluído, nas. Não se trata de nos deixarmos arrastar preguiçosamente
na qual se baseia este volume. Sabemos agora qual é o poder pela vontade de Deus, mas sim de reconstruir, por meio de nos-
que faz nascer, num plano inferior, os primeiros exemplares de so trabalho e de acordo com a vontade de Deus, uma perfeição
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 33
perdida que permaneceu impressa, como recordação e nostal- O que não se pode negar é o fato de ter havido uma tendên-
gia, na profundidade do ser, para ser reconquistada. cia prévia a evoluir em dado sentido, em obediência a um forte
Apesar de toda a miséria da fraqueza e da ignorância dessas chamamento. Evidentemente era necessária a ação de um poder
tentativas cegas, também vemos nelas a mais profunda sabedo- bem grande, embora escondido e latente, para, das estradas do
ria, que sabe erguer-se e ressurgir de todas as quedas, transfor- mundo inorgânico da matéria, conduzir a nossa existência aos
mando cada erro e falência numa lição para aprender a subir. tão diferentes caminhos do mundo orgânico da vida. O primeiro
Na evolução, vemos agirem as duas forças opostas, a do Anti- não possuía os elementos que o tornassem capaz de fazer, sozi-
Sistema e a do Sistema, que disputam o terreno. A primeira, nho, um salto tão grande. A revolução a realizar era grande de-
negativa, para corromper e paralisar a subida; a segunda, posi- mais, a ponte sobre o abismo era muito longa e a encosta a su-
tiva, para curar e fazer progredir. A miséria da fraqueza e da ig- bir era muito íngreme, para que o milagre pudesse ocorrer ape-
norância pertence ao ser, que deve subir desde o fundo. A ri- nas com as leis e os recursos do mundo inorgânico.
queza do poder e da sabedoria pertence a Deus, que o chama e Mas outros fatos existem ainda. Em A Grande Síntese
ajuda a subir. Explica-se assim como a técnica da tentativa não (Cap. XLVIII – “Série Evolutiva das Espécies Dinâmicas”) e
destrói absolutamente a presença do telefinalismo na evolução. também no volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio
Se tentativa significa incerteza, também quer dizer tendên- (Cap. XXV – “O Dualismo Universal Fenomênico”), já fala-
cia para uma finalidade. A presença dessa técnica poderá indi- mos do fenômeno da entropia, pelo qual se verifica, no univer-
car-nos a imperfeição do método, mas não a ausência de um so dinâmico, a tendência à quietude final no nivelamento. A
fim; poderá ligar-se a um telefinalismo difícil de se realizar, entropia se manifesta como um fenômeno de cansaço no dina-
porque cheio de obstáculos, mas não à ausência de uma meta. mismo universal, que culmina na uniformidade, pela completa
Se caminhamos até aqui, isto significa que existe uma estrada exaustão atingida por todas as diferenças. Este deveria ser o
na qual se caminha. A tentativa exprime justamente o esforço fim natural do universo inorgânico, segundo suas leis, se ele
para alcançar qualquer coisa. O acaso não tende a nenhum pon- fosse somente isso. Com a entropia, ele tende a nivelar as de-
to particular, nem faz esforços para atingi-lo. Ele não tem fina- sigualdades, a cancelar os valores, caminhando para uma dis-
lidades, não luta por alguma coisa, é imparcial e indiferente. Ao tribuição cada vez mais simétrica da energia, ou seja, para a
contrário, a evolução manifesta-se – além das paradas e desvios diminuição e a supressão das dessimetrias.
– como o efeito de uma atração lenta e sistemática, que faz mo- No entanto eis que, neste ponto da evolução, aparece um
vimentar em determinada direção. Apesar da técnica da tentati- mundo novo, dado pelo plano orgânico da vida vegetal e ani-
va, o fenômeno está intimamente auto-orientado por um seu mal, orientado em outras direções, regido por outras leis e por
impulso animador, que tenazmente o solicita sempre na mesma outro tipo de dinamismo. Este, de forma diferente da entropia, é
direção. E eis que as objeções contra a concepção telefinalística constituído por um princípio segundo o qual, no fenômeno vi-
a reforçam, ao invés de destruí-la, obrigando-nos a observá-la da, ao invés de uma diminuição, verificamos um incremento
com exatidão cada vez maior. Continuemos a observar esse das dessimetrias; ao invés de uma tendência a nivelar as desi-
grande fenômeno da evolução, para compreender-lhe cada vez gualdades e cancelar valores, verificamos uma tendência a
mais o significado profundo. acentuar as desigualdades, criando valores, diferenças e com-
Já notamos que seu ponto de partida é um mundo de inume- plicações. Eis que a evolução se coloca numa estrada diversa,
ráveis irregularidades individuais, que desaparecem numa regu- que leva não ao nivelamento dinâmico, mas ao surgimento de
laridade coletiva de conjunto, revelada por leis estatísticas ou de individuações autônomas, que se tornam senhoras do movimen-
probabilidade. Ora, sozinha, essa ordem de massa, que deriva de to e o utilizam livremente para as próprias finalidades.
uma desordem de base, só pode levar ao nivelamento das dife- Assistimos, assim, a um fato rico de profunda significação.
renças individuais, eliminando o individualismo. No entanto, a Acima do universo físico, que tende à sua liquidação, aparece,
evolução tende, ao contrário, à diferenciação, ao assimétrico, à quase como uma compensação e com seu desenvolvimento ten-
distinção por formas definidas e à coordenação dos elementos dendo a uma direção e forma diferentes, o universo da vida. Os
componentes. Eis que o princípio de base é invertido. Então o dois fenômenos parecem ligados por complementaridade, além
cálculo das probabilidades prova a impossibilidade prática de de sê-lo por continuação. A vida, como dizíamos acima, pode
atingir, com aquele sistema de desordem básica e de ordem de parecer um acontecimento quantitativamente secundário, des-
massa, uma sucessão de fatos cada vez mais assimétricos e irre- prezível em razão da pequena quantidade de matéria e energia
gulares. E, na biologia, os tipos conservados são exatamente que usa, no entanto se nos apresenta como a herdeira da degra-
aqueles constituídos pela maior complexidade e assimetria, jus- dação do mundo físico e dinâmico, que ela vence por uma supe-
tamente aqueles que, apesar de mais improváveis estatisticamen- rioridade qualitativa. Paralelamente ao seu desaparecimento nos
te, são, em contrapartida, os mais avançados em direção à meta. planos inferiores, parece que o universo quer reconstruir-se em
É verdade que, nas sociedades de unidades biológicas, as outra forma, mais acima. Então, cada plano de existência seria
leis estatísticas tornam a regular os maiores acontecimentos da primeiro utilizado para derivar-se dele, por evolução, o plano
coletividade. Mas isto é um efeito resultante de outros impulsos superior e, após, como suporte deste, para fazê-lo desenvolver-
determinantes, a serviço da evolução, e não uma causa suficien- se, sendo depois abandonado e eliminado, logo que o ser mais
te para determinar desde o início e nos explicar sua constante avançado se tenha tornado independente. Este é o modo pelo
direção progressiva, tão tenazmente orientada, que, apesar de qual todo o Anti-Sistema acaba transformando-se em Sistema.
todas as falências, chega ao homem e ao mundo do espírito. Do É assim que o dinamismo, partindo de sua imensa massa
ponto de partida ao de chegada, da monera ao homem, existe de energias cósmicas, torna-se mais exíguo, embora de quali-
um crescimento sistemático de complexidade e uma contínua dade superior, pois ele, nesse ponto da evolução, não regula
conquista de qualidades superiores. Se isto acontece por tenta- mais os astros, mas sim a vida, que, pela complexidade de
tivas, não se pode negar que estas se movimentaram sempre em movimentos, é fenômeno muito mais evoluído. Dirigido agora
uma direção determinada, para um objetivo determinado, sem o pela inteligência, coordenado com os objetivos desta e domi-
que não se explicam os resultados finais, obtidos com a forma- nado por ela, este dinamismo liberta-se, assim, do determi-
ção do homem pensante. Se aceitarmos como procedente o nismo que lhe era próprio nos planos inferiores. Com essa
princípio do acaso, ou seja, a ação dos fatores da adaptação e conquista de autonomia de movimento, livra-se cada vez mais
seleção, jamais poderemos explicar como esses fatores se orien- da escravidão daquela constrição e, conquistando sempre mais
taram, em média, justamente para a construção de uma forma liberdade e consciência, torna-se apto ao trabalho – agora bem
que é a mais improvável estatisticamente. diferente – de construir a vida.
34 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
Dos átomos aos astros, a matéria e a energia representam que, por ter o caminho evolutivo de desmaterialização levado o
movimentos poderosos e velozes. Mas átomos e astros não os ser até ao plano espiritual, a vida não terá mais necessidade do
dirigem, e sim os sofrem. Manifesta-se a evolução como uma suporte físico para existir. Ela perderá então as carências e im-
conquista individual de independência de movimento, como perfeições devidas ao seu estado involuído, libertando-se dos
uma libertação do determinismo das leis dinâmicas e daquilo males inerentes à matéria, inclusive a morte, e o ser poderá con-
que aparece como imobilidade da matéria. tinuar a existir sem necessitar mais do sustento dos corpos pla-
Na passagem da matéria à energia, assistimos a uma primeira netários em que se apoia, tornando-se assim independente das
libertação do movimento fechado nas trajetórias circulares do sortes do mundo físico, mesmo se essa forma da substância não
átomo, que assim se expandem por transmissão ondulatória. Nes- tiver sido ainda eliminada de todo pela evolução.
te ponto da evolução, o mundo inorgânico da matéria, alcançan- Então a entropia, que parece nutrir-se como um parasita do
do a fase energia, abriu e quebrou, impelido pelo íntimo impulso esgotamento do universo, só destrói deste, de fato, um modo de
ascensional, os sistemas atômicos fechados em si mesmos, deles existir, e não a substância, que continua indestrutível para evoluir
lançando – livre nos espaços e em forma de onda – o dinamismo. em outras formas. Em outros termos, com a entropia, o movi-
Trata-se, contudo, apenas de libertar-se da trajetória fechada, pro- mento tende a extinguir-se apenas em sua forma inferior, passiva
jetando-se em todas direções, e não de superar o determinismo e determinística – na qual ele é aceito fatalmente e seguido in-
das leis da matéria, porque a energia ainda não conquistou ne- conscientemente – para transformar-se num movimento de forma
nhum domínio sobre o próprio movimento, nem possui liberdade superior, ativa e livre, em que ele é desejado e guiado pelo ser. É
para dirigi-lo. Tal como a matéria, a energia deve obedecer ce- bem evidente a imensa distância que separa os dois fenômenos.
gamente à sua lei, mesmo que isto se passe de forma diversa, já O primeiro tipo de movimento pode ser representado por um me-
que o movimento não está mais fechado em si mesmo. teorito, planeta ou astro lançado no espaço, submetido cegamente
É nessa altura da subida que intervém o impulso telefinalís- às leis determinísticas do mundo físico e dinâmico, enquanto o
tico. Como já o dissemos, abandonado a si mesmo e seguindo o segundo tipo de movimento pode ser realizado por uma espaço-
seu caminho, o mundo dinâmico chegaria a uma ordem final nave, dirigida pela vontade de um ser inteligente. Quanto dina-
sua, na qual, atingido o completo nivelamento das diferenças mismo existe também no primeiro caso, muito mais poderoso
energéticas, seria alcançado o zero absoluto dinâmico, que é a quantitativamente, mas quão inferior é ele em qualidade! Pode
anulação do movimento numa estase final, onde, no equilíbrio compreender-se, assim, por que os modernos progressos científi-
atingido pela entropia, cessam todas as manifestações energéti- cos e técnicos têm um significado biológico. Com o domínio do
cas de nosso universo. Mas a evolução não se deixa arrastar por movimento, eles levam a vida à superação das dimensões de es-
essa estrada, que seria a consequência lógica das causas presen- paço e tempo, inerentes ao mundo físico. E ao levá-la a transpor
tes no fenômeno. Ao contrário, introduz nele outras novas, iné- aquele estágio evolutivo, libertando-a desses limites, permitem
ditas, desviando-o para seus fins, que são completamente dife- que ela possa entrar numa fase mais adiantada, a do espírito.
rentes. Assim, a vida se inicia, e a subida toma outra direção.
Aquele movimento, que tende a anular-se de um lado, reapare- VII. O FUTURO DO HOMEM
ce sob forma diversa do outro.
Na irritabilidade da célula, primeira forma de vida, aparece Comprova-se que a evolução vai para a espiritualiza-
um início de conquista do movimento de forma autônoma. Tra- ção. O espírito não é criação da vida, mas revelação através
ta-se de movimentos mínimos e lentos (se comparados àqueles da vida. Tudo caminha para Deus, que é Espírito. A escada
de um meteorito), mas que já dependem da vontade do sujeito. de Jacó. As construções psíquico-espirituais da biologia do
Os movimentos precedentes continuam a girar cegos no íntimo futuro. Do inferno ao paraíso (passado e futuro). A moral e
dos átomos componentes, mas são tomados numa escala maior, a evolução. A vida dirigida pela Providência. O esforço do
em movimentos dos quais o ser não é mais efeito, como na ma- homem e a ajuda de Deus. A evolução, por uma atração ín-
téria, mas sim a causa, como na vida. Começa então, com a evo- tima, caminha para Ele, como o rio para o mar. O futuro
lução, uma espécie de luta para libertar-se das leis físicas. As ár- do homem e da vida. Os sistemas planetários, seu apoio.
vores se erguem, vencendo as leis da gravidade; os animais con- Matéria, energia e vida, para o mesmo telefinalismo. A vi-
quistam, por terra, água e ar, meios independentes de locomo-
da desmaterializada, sem mais sustento planetário.
ção, adaptando à sua vontade as leis físicas, para utilidade pró-
pria. Assim como antes se pensava na descoberta das Américas,
agora se pensa nas viagens interplanetárias. Deste modo, em rea- Até aqui, quisemos penetrar nas causas e na estrutura do
lizações cada vez mais poderosas, manifesta-se aquele impulso fenômeno da evolução, para compreender sua substância. Foi-
de libertação, que leva o ser a se apoderar do movimento para a nos assim revelado que, guiando todo o processo, existe um
conquista do espaço. Este é assim cada vez mais dominado, até telefinalismo que o dirige. Parece-nos agora suficientemente
que, chegando a evolução à fase pensamento e espírito, a dimen- provado que a evolução é um fenômeno pré-ordenado, nunca
são espacial será superada definitivamente pela dimensão tem- abandonado ao acaso, mas sempre dirigido por uma inteligên-
po, e, além delas, outras superiores serão atingidas. Então, livre cia e vontade para determinados fins preestabelecidos. Faz-se
da matéria, o espírito poderá gozar, sem esforço, de um movi- necessário agora esclarecer qual é esta direção, provando o
mento próprio gratuito e ilimitado, semelhante ao dos corpos ce- que já afirmamos muitas vezes, ou seja, que ela é dada pela
lestes, mas com a diferença de não ser, como estes, apenas um espiritualização do ser.
escravo cego do movimento, mas sim senhor consciente. E como poderia ser de outra forma, se o processo da evolu-
Assim, nada sucumbe ao natural cansaço e envelhecimento ção é – como o demonstramos em outros volumes – justamente
do fenômeno, pois, continuamente regenerado por novos im- o regresso do Anti-Sistema ao Sistema, o que significa cami-
pulsos evolutivos, tudo sobrevive, mas de forma qualitativa- nhar da matéria para o espírito? Esse é o sentido de desenvol-
mente destilada, em que se manifesta a evolução. O velho é su- vimento do fenômeno da evolução, que é uma superação con-
perado, mas só para dar lugar a um novo melhor. Com isto, não tínua de dimensões, consistindo num processo de desmateriali-
só a inferioridade do passado é vencida, mas sua fraqueza tam- zação e espiritualização. Se tudo, em seu caminho ascensional,
bém se fortifica cada vez mais, garantindo a sobrevivência do caminha na direção de Deus, única meta universal, e se Deus
ser ao defendê-lo e torná-lo mais poderoso em relação à cadu- só pode ser espírito, o telefinalismo da evolução só pode signi-
cidade, tanto mais quanto mais avançada for sua posição na es- ficar espiritualização. Uma vez que Deus é espírito e o Anti-
cala da evolução. Será possível assim chegar a um estado em Sistema – no qual ruiu o Sistema – é dado pela matéria, então a
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 35
evolução, que vai deste àquele estado da substância, não pode vel fixar-se na raça humana um novo biótipo, que será o evolu-
caminhar senão para o espírito. ído sensibilizado, psicológica e espiritualmente desenvolvido.
Ora, a biologia concebe, até hoje, a evolução num sentido Tudo isto é lógico, sem dúvida. Mas estas afirmações estão
materialista, compreendendo-a como um processo de transfor- em contraste estridente com a realidade do mundo de hoje, di-
mismo morfológico, sem ver suas causas profundas nem o tele- ante das quais elas podem parecer otimismo leviano. A huma-
finalismo para o qual estas fazem o fenômeno caminhar. Na nidade parece caminhar precisamente pela estrada oposta.
verdade, apresentar para esta ciência uma continuação da evo- Àquelas afirmações caberia objetar-se que não se pode impedir
lução no sentido da espiritualização representa uma novidade que a luta pela vida, num sistema livre, leve a inteligência a se
tão grande, que parece uma revolução biológica dificilmente desenvolver – pelo contrário – no sentido da esperteza e do
admissível. Mas a própria evolução só caminhou até hoje por abuso. E é justamente isto que, hoje, está acontecendo no
meio de revoluções. Assim sendo, não farão elas também parte mundo. O homem é livre para desenvolver a inteligência,
de seu método de transformismo? Não é novidade que este, mesmo na direção do mal, tanto mais porque isto lhe poderá
após longas e lentas maturações, chegando em curvas decisivas, aparecer falsamente como um vantajoso atalho para chegar
precipita-se para novos estados, cuja natureza parece distante primeiro à vitória. Mas como, então, vai o homem para a espi-
demais dos precedentes para se poder aceitar que aqueles sejam ritualização, que inicialmente deve ser consciência da Lei, para
a continuação destes. Não é a primeira vez que a evolução dá disciplinadamente enquadrar-se em sua ordem?
saltos semelhantes para frente. E, em cada um deles, vemos Em primeiro lugar, o momento atual é apenas um encres-
nascer um mundo regido por novos princípios. Por que não de- pamento na superfície de uma das grandes ondas da evolução, e
veria agora a evolução, chegando a este ponto, realizar esta no- poderá desaparecer entre os movimentos de alcance muito mais
va transformação, que, relativamente, não representa um desvio amplo. Virão reações e corretivos para tornar a pôr a vida hu-
maior do que os já realizados no passado? Por que justamente mana em seu justo caminho.
agora, ao chegar diante da espiritualização do homem, deveria a Em segundo lugar, justifica-se o fenômeno com a técnica da
evolução mudar de método e fazer uma exceção, detendo a sua tentativa, que a evolução costuma usar, como vimos. Isto signi-
marcha? Já observamos a técnica íntima com que se desenvol- fica que a humanidade é totalmente livre para seguir esse cami-
vem essas revoluções. E elas agora, após termos visto o princí- nho, ou seja, desenvolver a inteligência em direção ao mal, em
pio determinante da evolução, que a anima e a guia, ficam logi- vez de dirigi-la para o bem. Pode fazê-lo, mas a seu risco e pe-
camente explicadas e compreensíveis. Não é necessário que, no rigo. Contudo o passado da evolução nos mostra que ela, de-
estágio inferior da evolução, sejam visíveis as causas de seu fu- pois, abandonou ao extermínio essas tentativas erradas, que não
turo desenvolvimento, porque estão sempre em ato causas mais correspondem ao telefinalismo que ela quer atingir. Ao homem
profundas, suficientes para provocar o deslocamento para um pertencerá um futuro mais elevado, quando se mostrar digno
plano superior. São elas que impelem todo o processo evolutivo dele. Mas não é impossível o caso de uma humanidade que,
para frente, em direção ao seu fatal telefinalismo. teimosamente querendo desenvolver-se às avessas, descendo
Assim como da matéria e da energia nasceu a vida, mesmo pelas estradas do mal, ao invés de subir pelas do bem, seja li-
que elas sozinhas sejam insuficientes para gerá-la, também da quidada, justamente pelo fato de se rebelar contra o princípio
vida poderá nascer o espírito, ainda que ela sozinha seja insu- fundamental da evolução, que é subir para Deus, e não descer
ficiente para produzi-lo. E a lógica disso fica ainda mais evi- ao polo oposto. Neste caso, não faltam outras formas de vida e
dente, quando se sabe que o caminho de toda a evolução vai da modelos biológicos atualmente concorrentes, prontos a substi-
matéria ao espírito, ou seja, que a meta final a ser fatalmente tuir o homem em sua posição biológica, se este quisesse obsti-
atingida por todo o processo da evolução é o espírito. Assim nadamente engolfar-se num erro decisivo. E o pior seria exata-
como a evolução utilizou as precedentes construções de maté- mente isto: querer revoltar-se, tentando derrubar a Lei, queren-
ria e energia para chegar à vida, é lógico que também aconteça do ir em sentido contrário ao estabelecido por ela. Renovar-se-
de forma semelhante com o espírito, e a evolução, para alcan- ia assim o processo da queda, filha da revolta, da qual só pode
çá-lo, utilize as precedentes construções de matéria, energia e nascer involução. A raça humana regrediria automaticamente,
vida. Não há outra forma de se construir um edifício, senão por em proporção à revolta desejada por ela. O desenvolvimento da
sucessivos planos superpostos. inteligência, se não for torcido por má vontade, deve levar, pelo
Já explicamos como se verifica esse estranho fenômeno do contrário, à consciência da Lei e à obediência na ordem, e não,
“mais” que nasce do “menos” e, agora, podemos compreender portanto, à revolta. O desastre ocorreria se a humanidade inteira
como se realiza, por evolução, esse processo de espiritualização estivesse estragada. Mas não o está totalmente. Assim é mais
da vida. O espírito, repetimos, não é uma criação da vida, mas fácil que a vida resolva o problema por meio de uma separação
uma revelação através dela daquilo que já existia no Sistema ou depuração, afastando do ambiente terrestre só a parte que,
antes da queda e agora simplesmente reaparece. Não é a vida com a revolta, gerou as causas de seu retrocesso.
que cria o espírito, mas é o viver que, através da experiência, O certo é que o impulso fundamental da vida para atingir
permite despertá-lo do seu estado latente, ainda não revelado o seu telefinalismo cedo ou tarde, por um caminho ou por ou-
naquela fase de evolução e, muito menos, nos planos abaixo de- tro, imporá a sua vitória. E se esse telefinalismo significa es-
la. Portanto a vida não é um trabalho inútil, sem objetivo, fim piritualização, a fase vida terá fatalmente que desembocar na
de si mesma, que se esgota apenas com seu funcionamento, fase espírito.
sem nada produzir, mas sim um meio para atingir conquistas A evolução tem um caminho traçado e não pode sair dele.
mais altas, como acontece sempre a cada passo do processo E a humanidade, mesmo que possa permitir-se temporárias
evolutivo. Assim como o plano da matéria gerou e sustenta o da digressões, terá de seguir, nas linhas gerais, a direção própria
energia e como o plano da energia gerou e sustenta o da vida, da evolução, assumindo estados cada vez mais dinâmicos, li-
também o plano da vida gera e sustenta o do espírito. vres da forma e do determinismo da matéria. Isto também é
Vemos verificar-se aqui o mesmo fenômeno que compro- imposto pela necessidade lógica, implícita no transformismo,
vamos nos casos precedentes, na passagem de um plano inferi- de substituir aquela sua contínua decadência que lhe é própria
or ao superior, pelo qual a quantidade se destila na qualidade. com a continuação da existência em uma nova forma, pela
Assim, neste caso, o poder diretor da evolução consegue extrair qual o inferior deve ser abandonado e o passado superado. Se
da vida os valores substanciais do funcionamento biológico, não quisermos que tudo acabe, é necessário que essa caduci-
que estão na inteligência e no espírito. Desse modo será possí- dade universal do ser seja compensada com uma correspon-
36 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
dente criação contínua reconstrutora. Só o equilíbrio entre os ve o nosso corpo. O funcionamento e a evolução do universo
dois impulsos opostos, o destruidor e o reconstrutor, pode nos provam a presença do pensamento nele.
permitir que eles sejam canalizados no caminho do transfor- Ora, o nosso futuro é representado justamente pelo desen-
mismo e, assim, disciplinados como instrumentos da evolu- volvimento desse pensamento. Hoje o homem está apenas nos
ção. Se o primeiro impulso não fosse continuamente corrigido primeiros passos nesse caminho, tanto que não lhe é fácil con-
pelo segundo, a vitória seria do poder negativo, que leva à ceber quais serão os seus futuros desenvolvimentos nesse senti-
dissolução, e isto, além da absurda destruição da substância, do. A biologia do futuro compreenderá uma nova forma de evo-
cujas formas se sucedem subindo, constituiria, com o fim de lução, que substituirá essa fisiológico-morfológica, para se tor-
tudo, a falência da obra de Deus. nar cada vez mais nervosa, psíquica, espiritual. Então, a vida se
Eis então, que, automaticamente, pelo princípio da indestru- concentrará em uma construção sua diferente, que se dirigirá
tibilidade da substância, a destruição do universo, manifestada para a conquista do conhecimento e da ética, dos valores espiri-
na forma do plano físico, implica a gênese do universo no plano tuais e sociais, das grandes ideias abstratas e sintéticas. O tipo
espiritual. Não há razão para que não continue verdadeiro, tam- precedente de evolução tendia a uma perfeição mecânica do
bém neste nível, o princípio geral que vemos dominar em toda corpo. Mas, para cada perfeição, existe um limite natural de de-
a evolução, pelo qual, se nada se cria e nada se destrói, mas tu- senvolvimento, que é atingido quando se chega ao rendimento
do se transforma, a cada morte só pode seguir-se outra forma de máximo e ao resultado melhor, utilizando o meio mínimo. En-
existência. E o que estabelece a natureza dessa forma só pode tão aquela perfeição mecânica se detém, porque não é mais sus-
ser no sentido em que caminha toda a evolução, direção que ceptível de progresso como tal, e, para continuar avançando,
agora conhecemos. Tudo morre e tudo renasce. Desse modo, deve transformar-se em qualquer outra coisa.
tudo se transforma, mas não ao acaso, e sim seguindo um cami- Fisicamente, pouco mais tem o homem a construir. Não é
nho preestabelecido por uma inteligência que bem sabe aonde nesta forma, na qual progrediu bastante, que sua evolução po-
vai. Sobe-se, dessa forma, por uma escada em que cada degrau derá encontrar um futuro. Não é no plano físico, do qual já foi
é um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um ponto de parti- percorrida e superada a amplitude total e se esgotaram todas as
da. Os seres que estão ao longo da escada podem ocupar níveis possibilidades, que o homem pode continuar a avançar. Com o
diferentes, adiantar-se, deter-se e até retroceder, mas não po- Evangelho e a ciência, já se iniciou nas religiões e no desenvol-
dem mudar o traçado estabelecido por ela. vimento do pensamento essa nova forma de evolução. Ela gera-
Assim, podemos compreender a imagem bíblica da escada rá um novo biótipo: o homem moral, dotado de instinto ético. A
de Jacó como uma intuição do processo evolutivo. Os seres se nova construção está apenas iniciando. O sentido moral – que
encontram escalonados em varias alturas, enquanto Deus os disciplina a própria conduta, em função de princípios mais altos
aguarda em cima. Isto corresponde perfeitamente à concepção do que a imediata satisfação da utilidade individual – é comple-
da existência em planos superpostos, sendo que a inferior de- tamente desconhecido nos planos inferiores de existência, nos
semboca na superior. Cada plano representa uma etapa do quais a vida ainda não chegou ao estado orgânico social huma-
transformismo na qual a evolução faz uma parada. Esta é a ra- no. Desse novo sentido, a humanidade está esboçando as pri-
zão pela qual cada plano é dirigido por uma lei diferente, que meiras formações. Ele é indispensável para se poder atingir,
lhe é própria, justamente porque representa uma forma diversa substituindo-se o caos pela ordem, a pacífica convivência nas
de existência, na medida em que se acha situada a maior ou grandes coletividades sociais do futuro.
menor distância da meta final: Deus. Ao subir cada novo de- Se a evolução quiser continuar através de seu mais alto pro-
grau, acontece como se o ser saísse do sistema precedente para duto, que é o homem, terá de continuar justamente através das
entrar em outro, assumindo um novo endereço no processo mais altas qualidades dele, que são as psíquico-espirituais. Para
evolutivo, mas sempre seguindo a mesma estrada, que o leva à uma evolução que, conforme vimos, já se encaminhou pela es-
meta. Podemos agora explicar tudo o que dissemos nesta obra. trada da especialização psíquica, é absurdo que o progresso bio-
Compreendemos então como, por evolução, a lei da luta pela lógico se volte exclusivamente ao sistema do passado, dedican-
seleção do mais forte, própria ao plano animal-humano, desa- do-se à construção de órgãos que revolucionem a estrutura ana-
parecerá e será substituída pela lei que leva à seleção do mais tômica no plano físico. O homem físico representa, como aper-
justo e inteligente. Entende-se desta maneira a razão pela qual feiçoamento da forma, um ponto de chegada da evolução orgâ-
podemos ver no Evangelho a verdade biológica que dirigirá a nica em nosso planeta. Porém, agora, não é mais anatomica-
vida do homem civilizado do futuro. Se o poder do impulso te- mente que os mais evoluídos diferem dos menos, e sim por suas
lefinalístico da evolução soube guiá-la até aqui, operando a qualidades intelectuais e morais. O médico vê e cura o mesmo
transformação da matéria em energia e desta em vida, não lhe corpo no delinquente ou no selvagem, como no gênio ou no
faltará certamente um modo de continuar o mesmo trabalho, santo. Os homens hoje se diferenciam, mais do que pelo corpo,
transformando o mundo biológico no espiritual. O Evangelho é pela personalidade, que é agora a verdadeira base das distinções
apenas a lei deste plano superior da vida. sociais. Embora apenas teoricamente, as qualidades mentais e
◘ ◘ ◘ morais já começam a ser mais valorizadas que as físicas. O
Que nos reserva o ilimitado futuro? Já tendo caminhado tan- homem, na verdade, é o resultado muito mais de outras finali-
to no passado, até onde poderá a evolução levar o homem? dades do que as estabelecidas apenas pelo seu organismo cor-
Agora, após termos esclarecido suficientemente que a direção póreo. O homem futuro não será um animal forte, nem um astu-
imposta à evolução pelo telefinalismo é precisamente a espiri- to lutador, mas um cidadão consciente do universo.
tualização, possuímos elementos para responder a essas pergun- A humanidade já procurou responder as perguntas que ago-
tas e concluir este assunto, explicando cada vez mais e confir- ra fizemos a nós mesmos. Ela possui de formas diversas, nas
mando tudo o que acima dissemos. várias religiões, a ideia do inferno e do paraíso. Ora, conceitos
Que existe no universo também o elemento pensamento é tão universais como essas ideias, predominantes no mundo, não
fato que não se pode negar. Os astros e planetas constituem o podem ter nascido do nada, sem corresponder a uma realidade
corpo físico deste universo, enquanto a alma é representada profunda, que as tenha gerado. Se essas ideias existem de forma
por Deus, assim como o esqueleto e a carne constituem nosso tão difundida, devem exprimir algo de fundamental na vida.
corpo físico, cuja alma é o nosso eu. E o dinamismo radiante Não podemos explicar a sua presença impressa na alma huma-
move o universo físico, dirigido pela Lei, que representa o na, quase como um instinto, senão como uma lembrança do
pensamento e a vontade de Deus, assim como o sistema nervo- passado e um pressentimento do futuro. Referimos acima, rapi-
so, que é dirigido pelo pensamento e vontade do nosso eu, mo- damente, esses conceitos que aqui desenvolvemos. Estas ideias
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 37
não apareceram no mundo por acaso, fruto de fantasia ou por caminha nessa direção pode dar bom e justo significado à dor,
vontade de chefes religiosos, mas fazem parte do desenvolvi- conforto a tanta luta e um amanhã melhor à vida.
mento da vida, assumindo um significado biológico. Somente assim podem ser dadas à moral sólidas bases bio-
A ideia de paraíso exprime justamente o estado para o qual lógicas, estabelecidas pelas normas que regem a vida, nas quais
a evolução levará o homem no futuro. Isto confirma tudo o que se exprime a Lei, representando o pensamento de Deus na dire-
dissemos, porque já vemos existir nas religiões o conceito do ção do funcionamento do universo. Se seguirmos essas normas,
telefinalismo, que, segundo elas nos mostram, consiste exata- obedecendo àquela Lei, evoluiremos, ou seja, nos redimiremos
mente na espiritualização. Se o inferno é matéria, o paraíso é do horrível passado em que caímos e, num maravilhoso futuro,
espírito, e o atingimos fazendo da vida um processo evolutivo reencontraremos a felicidade. Assim, o conceito de dever e as
de purificação, que consiste em nos espiritualizarmos. Isto nos normas de conduta humana passam a fazer parte integrante do
é ensinado pelas religiões, que demonstram assim admitir, elas processo evolutivo, assumindo um valor biológico positivo.
também, a nossa tese do telefinalismo no processo evolutivo. Desse modo, podem ser dadas bases racionais à moral, de for-
A evolução se dirige do inferno, que exprime o passado in- ma que ela seja reconhecida pela ciência como fator que se en-
voluído e bestial, cujo limite extremo é o Anti-Sistema, ao pa- xerta no fenômeno da vida e é determinante de sua evolução.
raíso, que exprime o futuro evoluído e angélico, cujo limite ex- Então, a revolta contra a ordem, a desobediência às normas da
tremo é o Sistema. Inferno e paraíso indicam os dois polos do ética, significa caminho de descida, com todas as dolorosas
processo involutivo-evolutivo, ou seja, Satanás e Deus. Por isso consequências que a involução implica. Disto deriva o reconhe-
o inferno é situado em baixo, na fase de maior involução (maté- cimento da importância positiva das religiões como guia da
ria) e o paraíso no céu, na fase de maior evolução (espírito). O conduta humana, importância que, assim, nem sequer a ciência
inferno é constituído, então, pela aterradora lembrança, que fi- pode desconhecer. As concepções da fé e da ciência, ao invés
cou impressa no subconsciente, daquele nosso estado feroz de se chocarem, fundem-se, explicam-se e se sustentam mutu-
animal e dos sofrimentos a ele ligados, sendo os demônios ape- amente. Fazer o bem ou o mal significa sintonizar com deter-
nas as forças e criaturas inimigas que nos fizeram sofrer. minados ambientes, que por isso se tornam nossos, e deles aca-
O mesmo que pudemos dizer do Evangelho, considerando-o baremos participando para gozar ou sofrer, consoante nossas
como antecipação da lei que regulará a humanidade civilizada obras. Chega-se a uma moral biológica positiva, racionalmente
do futuro, podemos agora dizer destas ideias de inferno e paraí- demonstrada, solidamente baseada nos princípios que regem a
so, ou seja, que isto não tem apenas um sentido religioso, puro vida. Já explicamos bastante o sentido e a importância da evo-
objeto de fé, mas também um outro, mais profundo, constituin- lução. Ora, é essa moral positiva que nos dita as normas para
do um fato biológico positivo, que se impõe racionalmente à ci- realizarmos o nosso trabalho, ensinando-nos a arte de evoluir,
ência. O subconsciente humano registrou este passado, tão du- para atingir aquele radioso futuro que nos aguarda. Procurare-
ramente vivido, e agora no-lo restitui com as impressões que mos, nas páginas seguintes, delinear brevemente o conteúdo
ele gerou, nesta forma de instintivo terror. De fato, é nesse pas- dessa moral, que representa o caminho para atingir aquele tele-
sado biológico involuído que são buscadas as figuras demonía- finalismo da evolução: a espiritualização.
cas, das quais se julga povoado o inferno, reconstruindo-se o ◘ ◘ ◘
ambiente em que elas se movem. Os diabos são, com efeito, se- Dirigida pelas forças superiores, mas, ao mesmo tempo,
res extremamente involuídos, monstros pré-humanos, com pelo, permanecendo como que abandonada a si mesma, a evolução é
rabo, garras, chifres e presas, tal como os animais – seres fero- um fenômeno complexo. Se os destinos da vida tivessem sido
zes, capazes de todas as crueldades. O ambiente, por sua vez, é confiados apenas aos próprios recursos, ela, uma vez iniciada,
de natureza vulcânica, com fogo e enxofre, agitado por contur- só teria sabido realizar uma multiplicação de seres, e não sua
bações telúricas e atormentado por chuvas incandescentes. Mas transformação no sentido do aperfeiçoamento. Sem a interven-
este era apenas o estado do homem primitivo, indefeso, a mercê ção de outros impulsos, que a vida por si mesma não possui,
das feras e dos fenômenos naturais, num planeta que ainda era não se explica como ela pôde ter realizado um caminho ascen-
teatro de desencadeamento caótico de forças primitivas. sional. E não se pode negar que, embora partindo do caos, nos
A Terra, situada em baixo, campo de tantas lutas, continha achamos diante do milagre – mas fato consumado – da constru-
muitos perigos de morte. Do céu, no alto, vinham luz e calor, tra- ção já alcançada pela vida até agora, culminando no homem.
zendo a vida. Em baixo, dor; em cima, alegria. A passagem do Não se pode ignorar que isto é igualmente produto de um
primeiro ao segundo nível de altura forneceu a imagem, forman- grande esforço do ser, cuja subida não podia ser gratuita. Mas
do a ideia da subida que se eleva do inferno ao paraíso. Assim a também não podemos esquecer que esse esforço realizado, ne-
evolução foi concebida como um processo de redenção, que sig- cessário para o ser evoluir, teria sido vão, se não tivesse encon-
nifica libertação da matéria baixa e suas dores, para conquistar a trado preparados os pontos para os quais se dirigir e todos os
felicidade do céu. Pensou-se no inferno como em algo que deve elementos necessários para alcançar a meta estabelecida, e se
estar situado em baixo, fechado nas tenebrosas e incendiadas vís- perderia no caos, em vez de se canalizar ao longo desse proces-
ceras da terra, enquanto se concebeu o paraíso situado no alto, so particular que chamamos evolução. Assim, ao lado do esfor-
povoado de seres livres e alados, nos luminosos espaços do céu. ço necessário para subir, é mister reconhecer a presença de uma
Quisemos compreender a gênese dessas formas mentais e providência que, paralelamente, forneceu todos os elementos
seu significado diante da realidade biológica, não para diminuir indispensáveis para possibilitar a realização da subida, prepa-
sua importância no terreno religioso, mas, ao contrário, para rando-os com antecedência e disponibilizando-os no ambiente,
lhes dar, de forma racional positiva, uma confirmação de signi- para poderem ser utilizados pelo ser através do esforço dele.
ficado e valor científico. Assim, uma fase de desenvolvimento O acaso não pode ter pré-organizado tantas condições ne-
ou plano de vida se liga ao outro como uma consequência lógi- cessárias para o desenvolvimento da vida: formação de plane-
ca. O paraíso pressupõe o inferno como seu ponto de partida; o tas, irradiação solar, presença e adequada composição química
inferno pressupõe o paraíso como o seu ponto de chegada. Tu- de uma atmosfera, umidade, oceanos, terras emersas, calor, luz,
do isto corresponde exatamente à teoria da queda e da subida, substâncias utilizáveis prontas no ambiente, tudo dosado para
segundo a visão expressa nos volumes Deus e Universo e O que a vida fosse aí possível, dado que qualquer excesso ou de-
Sistema. O paraíso representa o estado futuro, que constitui, de ficiência a teria destruído. No princípio, tudo era um caos, e de-
tantas formas diferentes, a grande esperança do homem, estado le nasceu uma ordem maravilhosa, sendo construído, por pla-
no qual se realizarão todas as aspirações que fervem na profun- nos, o edifício biológico que agora vemos funcionar e ao mes-
didade de seu irresistível instinto de subir. Só o fato de que tudo mo tempo evoluir, formando um organismo composto de partes
38 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
comunicantes, todas vivendo através da troca entre si do mate- técnica da tentativa. Aqui podemos ver-lhe uma razão ainda
rial de nutrição, combinando-se e fundindo-se numa só vida. O mais profunda. Essa técnica é a consequência lógica do estado
acaso não pode ter, de maneira alguma, pré-organizado tudo is- de ignorância em que o ser caiu com a revolta, cegueira que o
so, e muito menos tornado possível sua utilização para chegar a impede de ver o caminho a seguir. A técnica da tentativa re-
saber como produzir o milagre da inteligência humana. Sem presenta justamente a sua condenação, que consiste em ter de
dúvida, era necessário o esforço do ser, mas também era neces- realizar sozinho, como que abandonado a si mesmo, todo o es-
sário encontrar pronto e acessível tudo quanto fosse indispen- forço de reencontrar aquele caminho. Assim o ser, como cego
sável para realizar seu trabalho. Se tivesse faltado uma só con- perdido nas trevas, deve tornar a achar a luz; como ignorante
dição, seu esforço teria falido. Comprovamos, na evolução, não perdido na ignorância, deve reconstruir o conhecimento. Não
apenas o telefinalismo, constituído pelo alvo a atingir, mas é este o caminho da evolução e do progresso da humanidade?
também uma previdência que torna disponível tudo quanto é E que são as descobertas científicas e todas as grandes cons-
necessário para se chegar à meta estabelecida. truções do pensamento, senão pedaços reconquistados do co-
Por outro lado, o ser permanece como que abandonado a si nhecimento? A evolução representa verdadeiramente, para a
mesmo, para que a evolução represente o fruto merecido de to- criatura, um grande esforço e uma aventura perigosa, cheia de
do o seu esforço. Este é deixado totalmente para ele, porque incógnitas, de lutas e de dores. Mas é justo que seja assim,
sem o seu esforço, o ser não poderia verdadeiramente aprender. porque isto significa também redenção, e no alto está o reen-
Eis então que Deus se comporta como um pai que assiste aos contro da felicidade perdida. No entanto Deus ajuda a evolu-
primeiros passos da criança, ajudando-o indiretamente, deixan- ção, embora se fazendo ver tanto menos quanto menos a cria-
do-o cair para que aprenda a não cair mais e, ao mesmo tempo, tura o merece, nos planos mais baixos da vida, e tanto mais
vigiando-o e sustentando-o para que a criança não se perca. quanto mais o merece a criatura, por ter realizado o esforço de
Quando esta cresce, então Deus lhe dá liberdade, para que redimir-se, subindo a planos mais altos.
aprenda a guiar-se por si mesma, assumindo as suas responsabi- Assim a evolução caminha como um rio, que, mesmo sen-
lidades. Assim, se, de um lado, a criatura caminha com dificul- do livre, tem, no entanto, de chegar necessariamente ao mar.
dade, tentando o futuro, do outro lado o auxílio que dirige a Em ambos os casos, a coação não é exterior, mas devida ao
evolução nunca deixa de estar presente. Vemos, com efeito, que poder dos impulsos interiores, como a gravitação, que é física,
um poder interior levantou o ser a cada queda sua, repondo-o para a Terra, no caso do rio, e espiritual, para Deus, no caso da
sobre o caminho devido, para fazê-lo dirigir-se, de um modo ou evolução. Em ambos os casos, a corrente é livre, no entanto
de outro, para a sua meta. É assim que a vida pôde dar prova de deve obedecer a esse princípio de atração, que a leva, num ca-
saber vencer tantos obstáculos. so, a descer materialmente para baixo e, no outro, a subir espi-
Explica-se dessa forma a técnica da tentativa. Eis por que, ritualmente para o Alto. Tudo resulta livremente constrangido
apesar do auxílio, aparecem erros e quedas ao longo da vida, por esse íntimo e irresistível chamamento. O rio, como a evo-
ramos extintos, linhas desviadas ou congeladas, parados às lução, não sabe o que encontrará em seu caminho. Ele deve
margens da grande estrada da evolução. Esta é uma corrida em cavar seu próprio leito, adaptar-se ao terreno e superar as difi-
que alguns tipos perecem, eliminados pela porfia, ou são supe- culdades, ora correndo rapidamente, ora precipitando-se em
rados, e outros, no fim, como o homem, passam a frente de to- cascatas, ora repousando em lagos ou pauis. Mas seu ponto de
dos. Para cada candidato à futura vitória, há milhares de rivais chegada está fixado: o mar. A corrente do rio não pode escapar
que com ele competem. O homem, ao menos até agora, ven- ao impulso que lhe imprime aquela atração. Também a evolu-
ceu-os todos. Mas isto não basta para garantir-lhe que vencerá ção sente o chamamento poderoso que a movimenta e não po-
sempre. Se ele se desviar do caminho – afastando-se do telefi- de deixar de responder-lhe, obedecendo. Ora, tão certo como,
nalismo fixado para a evolução – e utilizar os poderes de sua cedo ou tarde, o rio terá de chegar ao mar, também é certo que,
inteligência para rebelar-se às diretivas da Lei, ao invés de cedo ou tarde, de um modo ou de outro, a evolução deverá le-
obedecê-las, então também o homem poderá perder-se, e neste var o universo ao estado perfeito do Sistema. Assim como, no
caso, como já dissemos, não faltam outras espécies para substi- rio, cada gota d'água chegará ao mar, o grande pai de todas as
tuí-lo na primazia sobre o planeta. Isto significa que as diretri- águas, igualmente, com a evolução, cada ser chegará ao grande
zes do fenômeno da evolução exigem, em primeiro lugar, que pai de tudo o que existe: Deus. Como o rio, a evolução é livre
o biótipo vencedor seja digno da vitória, correspondendo a ela de escolher o caminho que quiser, mas está fechada nos limites
como valor real. Quando um modelo de vida se demonstra ina- de sua lei, que a constrange a caminhar sempre para o seu pon-
dequado à posição que pretende ocupar, então a inteligência to final. O caminho do rio não está traçado, e as águas devem
diretora o lança fora, substituindo-o por outro melhor. Trata- procurá-lo, mas sempre seguindo o telefinalismo preestabele-
se, realmente, de pormenores formalísticos, cuja mudança não cido. Também assim acontece com a evolução.
impede, de modo algum, que os fins gerais da evolução sejam Esta aproximação de exemplos nos faz compreender melhor
substancialmente alcançados. A vida caminhará de outra for- a estrutura do fenômeno da evolução. Nela encontramos liber-
ma, atingirá o alvo com outras espécies, mas chegará de qual- dade de escolha e independência de ação, como se ela estivesse
quer maneira aonde quer chegar. abandonada a si mesma, à semelhança do que sucede com a
Concluindo este assunto, podemos agora dizer que temos corrente do rio. Daí, tentativas, erros, adaptações e também fa-
diante dos olhos os principais elementos que constituem o fe- lências, mas, ao mesmo tempo, repetições, salvamentos e triun-
nômeno da evolução. fos. Este contínuo chamamento da meta final, impresso e senti-
De um lado, temos a sabedoria de uma inteligência que di- do nas mais profundas vísceras do fenômeno, põe freios, dirige
rige. Revela-se ela em três momentos: 1) Imposição de um tele- e guia a bom porto aquela liberdade, que, se fosse abandonada a
finalismo como meta final do processo evolutivo, que, por um si mesma, sozinha, acabaria naufragando desvairada na falên-
caminho ou por outro, tem de ser atingido; 2) Pré-organização cia. Se vemos que, ao contrário, mesmo não possuindo conhe-
das condições indispensáveis ao desenvolvimento desse proces- cimento próprio, a liberdade atinge perfeitamente a meta deter-
so (providência previdente); 3) Guia do desenvolvimento do minada, tornando-se sábia, este fato só se explica pela direção
ser, acompanhando-o e orientando-lhe o esforço na direção de- daquela inteligência, que somente a sabedoria possui. No fenô-
sejada, estabelecida pelo telefinalismo. meno da evolução, vemos oscilando, em equilíbrio, um impulso
Do outro lado, temos o ser, que luta para subir, debate-se independente e livre e um impulso oposto, determinístico. No
na tentativa, cai, levanta-se, sofre, aprende, vence ou perde, rio, como na evolução, não interessa muito que se siga esta ou
experimentando a grande aventura da evolução. Já falamos da aquela estrada (zona de livre escolha, deixada ao arbítrio do ser),
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 39
mas sim que se atinja a meta (zona determinística). À evolução nuar a existir sem ter mais necessidade de suporte material.
não importa se vai sobreviver este ou aquele biótipo, desde que Portanto o homem nada tem de temer quanto à destruição de
sobreviva o melhor e, por meio dele, triunfe a vida. seu planeta e do sistema solar.
Assim, através de muita luta, realiza-se a ilimitada aventura O problema é vasto e diz respeito a todas espécies da vida,
da evolução, incerta e falaz no particular, mas segura e vitoriosa que não podem, como sabemos, existir sem apoiar-se no supor-
em seu conjunto, dirigida pela lógica de seu telefinalismo. te material, oferecido pela superfície de um planeta. Deduz-se
De um lado, ignorância e liberdade do ser, que segue a evo- que a vida está sob a dependência do fenômeno da formação e
lução; do outro, sabedoria e telefinalismo determinístico da inte- existência dos planetas no universo. Segundo a velha concep-
ligência que dirige a evolução. Duas qualidades opostas e com- ção antropomórfica-egocêntrica, seguida pelos teólogos, a Ter-
plementares, que harmonicamente se compensam, equilibrando- ra teria sido o único ponto habitado do universo, o centro e o
se. Deus se debruça para o ser, a fim de ajudá-lo a subir, e o ser fim da criação. Embora isto fosse aceito porque, sendo muito
estende os braços para Deus em busca de ajuda. Assim os dois honroso, podia satisfazer ao míope orgulho humano e também
extremos se casam, e a grande obra se realiza pela colaboração ao natural instinto egocêntrico da maioria pouco evoluída, con-
entre eles, resultado de um amplexo entre Criador e criatura. tinuava o absurdo de um tão ilimitado universo existir apenas
Deus atrai, convida, guia e dirige a criatura em seu penoso ca- em função de um tão minúsculo homem, que mal o conhece,
minho. A criatura corresponde com o seu esforço para superar as perdido sobre um ínfimo grão de poeira que gira nos espaços.
dificuldades, suportando as dores que sucedem ao erro e execu- Então todo o resto existiria para nada.
tando o duro trabalho de reconstruir-se, renovando-se. Uma necessidade lógica nos força a admitir que as formas
◘ ◘ ◘ planetárias necessárias à evolução da vida estejam bastante es-
Nesta imensa perspectiva da marcha cósmica da evolução, palhadas, a fim de que esse importantíssimo fenômeno possa re-
desenvolve-se o trajeto da maturação da vida do homem para alizar-se nas devidas proporções. Mas vejamos o que a ciência
sua espiritualização. O que estudamos no volume anterior é ape- diz a respeito. Até há pouco tempo, os astrônomos geralmente
nas um episódio, um caso da grande batalha no plano humano. acreditavam que os sistemas planetários do universo fossem
Existe uma batalha ainda maior do que aquela descrita ali. É a muito raros e, portanto, também a vida neles. Isto porque se su-
batalha entre Sistema e Anti-Sistema na evolução do universo, punha, como no caso de nosso sistema solar, que a série dos
para que este possa regressar a Deus. No presente volume, esta- planetas nascesse de uma colisão de estrelas. A matéria tirada da
mos dilatando cada vez mais a visão do caso narrado, até chegar massa de nosso sol, assim, ter-se-ia destacado do corpo central e
a uma visão muito maior, de caráter universal, que nos mostra os ficado concentrada nos planetas em torno dele. Com efeito, eles
erros da conduta humana diante da lógica da vida. Assim, su- continuam a girar em redor do Sol na mesma direção em que ele
bindo sempre e ampliando os horizontes, chegamos a harmoni- gira em torno de si mesmo e quase no mesmo plano. Neste
zar a realidade dos fatos que todos vivemos na Terra com as teo- mesmo sentido também continuam os planetas a rodar em torno
rias expostas nos dois volumes Deus e Universo e O Sistema. de seu eixo polar e os seus satélites a girar em redor deles. Isto é
Em contato com aquela realidade, pudemos verificar que elas verdade até agora, exceto no caso de Urano e do movimento re-
receberam plena confirmação, demonstrando novamente, depois trógrado dos satélites mais externos de Júpiter e Saturno.
da análise racional, a sua verdade sob controle experimental. Há, porém, o fato de que as estrelas encontram-se muitíssi-
Chegando a este ponto, podemos responder melhor as per- mo distantes uma das outras. Então esse método de gênese este-
guntas que fizemos um pouco acima. Que acontecerá ao ho- lar torna a formação de sistemas semelhantes ao nosso extre-
mem no futuro? Aonde o levará a evolução? A isto já respon- mamente improvável. Dessa forma, pensava-se que menos de
demos em parte. Podemos agora caminhar mais à frente, per- um caso sobre um milhão pudesse dar lugar a essas formações,
guntando a que estado chegará o homem na conclusão dessa in- concluindo-se que a nossa Terra habitada devia classificar-se
terminável viagem da evolução? Este ainda é um momento entre os acidentes raríssimos.
muitíssimo distante, mas certamente deverá chegar um dia. O Os astrônomos modernos acreditam, ao invés, que as estre-
ambiente terrestre não é eterno e não pode conter todas as pos- las se formam por condensação de levíssima matéria cósmica,
sibilidades para os futuros desenvolvimentos da vida. Onde e antes difusa, a qual, concentrando-se, começa a esquentar até o
como poderá continuar a viver e evoluir o homem, quando o ponto de gerar uma reação nuclear e, assim, brilhar e irradiar
Sol se extinguir e a Terra morrer? Mesmo que a raça humana energia, à maneira da bomba de hidrogênio. Durante esse pro-
tivesse de perecer, onde e como a vida, que não pode extinguir- cesso formam-se correntes interiores turbinosas e espiraladas,
se, continuará sua evolução? Já dissemos pouco atrás que o que lançam à periferia massas rotativas menores, com as quais
universo tende à sua destruição como forma material, por de- os planetas, continuando a girar em redor da estrela, são forma-
sintegração atômica, e como forma dinâmica, por entropia. Que dos. Sua matéria se condensará cada vez mais em torno de seu
acontecerá, então, com a vida que se desenvolve na superfície centro de rotação, e eles formarão corpos separados.
dos planetas? Como poderá ela continuar a evoluir sem um su- Eliminada assim a hipótese do choque, coisa improvável,
porte físico, ao qual estamos hoje habituados a vê-la ligada? preside então á gênese planetária uma causa mais comum, que
Se bem observarmos, veremos que o processo da liquidação pode facilmente verificar-se em muitos momentos e pontos do
do universo físico e dinâmico não é um fenômeno isolado, pois, universo. Então pode aceitar-se que as formas planetárias não
paralelo a ele, verifica-se um correspondente processo genético sejam de modo algum raras. Pode-se supor, com razão, que
de um universo espiritual. Nada se cria e nada se destrói. O que em redor de muitíssimas estrelas existam planetas nos quais é
morre tem de renascer sob outra forma. A substância que desa- possível a vida, embora em forma diferente, mas sempre regi-
parece como manifestação no plano físico e dinâmico reaparece da pelos mesmos princípios fundamentais e orientada na dire-
em diferente manifestação no plano espiritual. Os dois fenôme- ção dos mesmos objetivos finais para os quais caminha a nos-
nos, destruição e reconstrução, são equilibrados, e a transfor- sa. Esses planetas não são visíveis, porque não possuem luz
mação de um no outro é apenas um processo criativo de reinte- própria e estão muito próximos de seus respectivos sóis, com
gração através da mudança de forma. os quais se confundem ao serem observados da Terra. Mas a
Diz-nos esse paralelismo que, quando o universo físico e oscilação da luz de muitas estrelas faz pensar que outro corpo
dinâmico for liquidado e desaparecer nesta sua forma, então a se mova diante delas, interceptando-lhes a luz intermitente-
vida humana terá superado sua atual forma física e, por se ha- mente. Hoje, a ciência aceita que uma galáxia possa conter
ver espiritualizado completamente, terá sido transferida ao pla- desde o máximo de um milhão até um mínimo que não seria
no do imponderável. Ser-lhe-á possível, dessa maneira, conti- inferior a cem mil sistemas planetários.
40 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
A hipótese da pluralidade dos mundos habitados, sustentada VIII. O PROBLEMA DA MORAL - I
por Flammarion, tornou-se mais aceitável, porquanto os astrô-
nomos julgam que a composição do universo seja resultante A moral biológica positiva. Convicção, e não terror.
mais ou menos dos mesmos elementos fundamentais. Deduz-se Andar a favor, e não contra a vida. Moral positiva de cons-
daí que os outros planetas devem ser constituídos pelo mesmo trução. Se surge um conflito entre a ética e a vida, é esta
material encontrado na Terra, sendo possível, assim, terem sido que vence. Moral mais livre, porém consciente e responsá-
produzidas lá condições de ambiente semelhantes às nossas, o vel. Moral é tudo o que faz evoluir para Deus. Utilitarismo
que implica a possibilidade da manifestação e desenvolvimento superior. Definição de moral. Na evolução, a moral é rela-
da vida neles, tal como ocorreu na Terra. Não é, portanto, con- tiva. Conceito de ética progressiva, em várias dimensões.
trário às conclusões da ciência admitir que exista, espalhada pe- Respeitar os direitos da vida. Suas três exigências funda-
lo universo, uma infinidade desses berços da vida. Isto significa mentais, os três maiores instintos humanos e as obrigações
que a vida se encontra em todo o universo e que a evolução da ética. A moral atual é moral de guerra, e não de justiça.
possui, desta maneira, uma vastíssima base de operações para Garantir: 1) A conservação do indivíduo (bens e proprie-
desenvolver a consciência e despertar o espírito, avançando de dades); 2) A conservação da espécie (amor e família); 3) A
fato para o seu telefinalismo, como acima explicamos. evolução (defesa do evoluído). A dor é desarmonia. Renún-
A ciência nos confirma também aquela exigência lógica, re- cia e castidade. As virtudes positivas. Triste sorte do gênio.
ferida por nós acima, pela qual seria muito estranho que o nosso
planeta ou sistema planetário se tenha achado em condições tão Referimo-nos, no capítulo precedente, a uma moral biológi-
felizmente excepcionais e superiores, que pôde ter o privilégio, ca positiva, racionalmente demonstrada, baseada nos princípios
só ele ou poucos mais, de hospedar um fenômeno de tal eleva- que regem a vida, e prometemos que delinearíamos o seu con-
ção como é a vida e o desenvolvimento de consciência que ela teúdo. Podemos agora, ao concluir o presente volume, desen-
tende a produzir. E este fato é ainda mais difícil de se admitir, volver este assunto.
quando se pensa que todo o processo reconstrutivo da evolução As normas da ética tiveram, no passado, a função de disci-
teria ficado sustentado por este único e tênue fio, constituído pe- plinar a vida do homem, refreando-lhe e guiando-lhe os instintos
la vida na Terra, enquanto todo o resto do universo teria ficado animais, para que adquirisse outros mais evoluídos. Porém essa
sem significação nem objetivo em relação aos fins supremos, moral, dirigida ao grande objetivo de refazer o homem, melho-
que devem, como já demonstramos suficientemente, ser atingi- rando-o, foi aplicada por ele segundo a forma mental e instinto
dos. Não se compreende como a evolução poderia permanecer dominantes, ou seja, com espírito de ataque e defesa, que cor-
operando, concentrada apenas num ponto, no meio de um deser-
responde à lei de seu plano animal, da luta pela seleção do mais
to sem limites, que seria qualificado como inútil. Como admitir
forte. Como consequência, a execução das normas dessa moral é
tão flagrante absurdo no meio de uma logicidade constante, que
confiada em grande parte ao terror de sanções punitivas, apoia-
vemos aparecer a cada momento no funcionamento e na evolu-
das no cálculo do próprio prejuízo, e isto introduz no utilitaris-
ção do universo? Como se explicaria uma tão excepcional viola-
mo criador, próprio da vida, um elemento negativo, que tende a
ção do universal método de utilitarismo e economia que dirigem
invertê-lo, dando-lhe um aspecto de agressão e destruição.
o transformismo evolutivo? Não se consegue imaginar um uni-
verso com tamanha ausência de finalidade; não se concebe sua A nova moral é, ao contrário, concebida em função da vida,
existência sem uma razão que a justifique; não se admite tanta e não contra ela. Permanece sempre e totalmente positiva e
sabedoria e poder para nada. Da mesma forma, também não se construtiva, jamais se tornando algo negativo, destrutivo ou
pode aceitar o absurdo de que a sabedoria e o poder de Deus, pa- agressivo, pois, mesmo visando ao bem, jamais poderá posicio-
ra atingir seus fins mais altos, tenham dirigido somente para este nar-se contra as leis da vida. Trata-se de uma moral mais evolu-
ponto – esta nossa invisível Terra – escolhida entre todo os infi- ída, que, em vez de destruir, respeita toda a moral precedente e
nitos mundos, com a finalidade de fazer do homem o mais alto atual, mas que, justamente por ser mais evoluída, não pode dei-
modelo dos produtos da vida. xar de perder algumas das características negativas daquelas,
Só com a teoria acima exposta tudo se explica, inclusive as feitas de luta e imposição, atributos necessários nos planos infe-
estrelas e as galáxias. Deste modo, a existência no plano físico riores de vida, porque se destinam a conquistar, a partir daí,
e dinâmico adquirem um significado e assumem uma tarefa que planos superiores, positivos, feitos de amor e compreensão,
se realiza em função do telefinalismo de toda a evolução. A in- qualidades possíveis apenas nos níveis mais elevados da exis-
finita multiplicidade do transformismo fenomênico é recondu- tência. Tudo o que evolui – e a moral também não pode deixar
zida a um conceito unitário, e compreende-se a razão última de de evoluir, procedendo do Anti-Sistema ao Sistema – tem de
tanto esforço para subir. Só assim tudo o que existe – seja na perder cada vez mais os caracteres do primeiro, para substituí-
forma de matéria, de energia ou de espírito – tem sua função a los pelos do segundo. Feita para um ser mais evoluído, a nova
realizar e sua lógica razão de ser, para atingir a meta final de moral perderá os opressores e antivitais recursos da culpa, do
tudo: Deus. No ilimitado universo, não gira em vão tanta maté- pecado e da condenação – que significam esmagamento através
ria morta inútil, mas caminham muitos mundos que servem de da vitória do mal infligido pelo mais forte com sua sanção puni-
suporte à vida, onde ela pode desenvolver-se, para tornar possí- tiva – para basear-se não na coação pelo medo do prejuízo, mas
vel depois, por meio dela, a reconstrução do estado espiritual na convicção de ir ao encontro da vantagem própria. É um re-
original, única condição que pode conter perfeição e felicidade. erguimento de posições, pelo qual se trabalha não mediante re-
Assim o trabalho da evolução está distribuído no universo. pulsão, mas sim por atração, sendo movido não pela fuga de um
No plano da matéria, ele se realiza nas estrelas e galáxias; no mal que nos ameaça, mas sim pela consciência da utilidade de
plano dinâmico, na energia e nos espaços interestelares; no pla- obedecer às normas da ética. Porém só é possível chegar a essa
no da vida, na superfície dos planetas. Aí o universo amadurece nova moral, quando a evolução tiver amadurecido bem o ho-
e evolui, através da vida, para um nível superior, que é a fase mem, para que este novo modo de concebê-la possa ser usado
do espírito. O ser subirá de forma em forma, de ambiente em sem prejuízo, ou seja, somente quando o homem tiver atingido
ambiente, de planeta em planeta, evoluindo e desmaterializan- um desenvolvimento em inteligência e sensibilidade que, para
do-se até assumir formas tão espirituais, que para elas não será alcançar os objetivos educacionais propostos pela moral, torne
necessário suporte planetário, e a vida poderá existir sem o dispensáveis o chicote dos terrores infernais. Então bastará o
concurso da matéria, sobrevivendo ao fim do universo físico, fato de compreender que a obediência à lei de Deus não está em
como produto final de sua transformação. contraste com o nosso instinto de subir, mas sim concorda com
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 41
ele perfeitamente. Esse é o próprio instinto da vida, isto é, atin- qual as religiões se assemelham. Mas achamos que será inade-
gir a maior vantagem, utilitarismo que se justifica pelo fato de quado aos novos tempos o método de coação forçada, outrora
ser um meio para subir, avizinhando-se assim, cada vez mais, necessário para aplicar aquela moral à dura cerviz e aos instin-
da realização dos supremos fins da evolução. tos de agressão e revolta do antigo povo hebreu bem como do
Deduz-se daí que, quando dizemos nova moral, não quere- feroz homem medieval, nosso mais próximo antepassado. Não
mos com isso condenar ou, muito menos, refazer a atual, mas são os princípios da velha ética que mudarão, mas sim o espíri-
apenas compreender sua razão de ser e suas funções, para usá- to com o qual ela foi entendida e ainda é aplicada. Este nos le-
la cada vez mais com inteligência e bondade, como convém a varia a crer que não se pode alcançar a evolução senão através
um evoluído, e cada vez menos para o inconsciente desafogo de da sufocação da vida. Mas por que, ao invés de alegria, a virtu-
instintos, como tende a fazê-lo o involuído. Não se trata, aqui, de deve consistir apenas de sofrimento, se dele fugimos instin-
de anular o passado, mas apenas de fazê-lo ascender a um plano tivamente? Por que a vida espiritual deve ser concebida só co-
mais alto, como o impõe a evolução. Como se vê, damos aqui à mo renúncia, e não como conquista; só como destruição, e não
palavra moral o sentido amplo de norma ética, anteposta a to- como construção? Porque deve ser só morte, e não ressurrei-
dos os campos da conduta humana. ção? Como se pode admitir que a vida goze com a morte e não
A qualidade da nova moral, pelo fato de ser mais evoluída, se rebele contra a sufocação? Assim, se não quisermos que a
deve apoiar-se sempre mais nas forças positivas e construtivas, vida se rebele, não se deve oferecer-lhe a morte, mas sim uma
do que nas negativas e destrutivas; deve funcionar mais pela vida melhor e maior, a qual então todos procurarão.
convicção de que a disciplina leva a uma vida melhor, do que O estado involuído do homem fez com que, até hoje, as re-
pelo medo de que a desobediência leva a uma vida pior. No ligiões entendessem a subida moral como uma ação negativa de
primeiro caso, as normas, livremente aceitas em adesão con- destruição da animalidade, ao invés de uma ação positiva de
victa, são seguidas por amor. No segundo caso, as normas, im- construção da espiritualidade. O progresso deve afastar-nos da
postas pelo medo, são obedecidas à força. A consequência da primeira forma e aproximar-nos da segunda. Neste terreno, o
primeira atitude é o espontâneo e pacífico cumprimento da avanço reside em compreender que é lógico e justo a vida resis-
norma. A segunda, ao invés, leva a uma obediência coagida, tir e se rebelar contra os assaltos que procuram diminuí-la. En-
contra a qual o ser luta, procurando todas as evasões e aceitan- contra-se assim a origem da luta, tanto mais pelo fato de estar-
do-a somente à força, até que consiga rebelar-se. O fato de se mos num plano no qual esta é a lei da vida, lei que vemos apa-
encontrar, em nosso mundo, ao lado de cada norma a sua san- recer também no campo da ética. Acontece então que a própria
ção punitiva, demonstra que esta é a fase na qual ele está situ- ética, por si mesma, torna-se um instrumento daquela luta, em
ado atualmente. Se é verdade que a moral coativa, apoiada no defesa dos direitos adquiridos com a força do vencedor. Chega-
terror, é uma necessidade para os tempos menos adiantados, já se assim a uma ética que, em vez de trazer justiça e imparciali-
que não há outro meio para induzir o involuído a obedecer e, dade, serve para defender os interesses da classe, levando os
assim, melhorar, também é verdade que esse método, logo que deserdados a se rebelarem, como na Revolução Francesa. Não
o homem se civiliza, torna-se supérfluo e até contraproducente, se pode deter o impulso da lei biológica que, em todos, exige
porque, feito de luta e cheio de atritos, embora seja para fazer a sempre a luta pela vida, para sobreviver.
vida subir à espiritualidade, tenta matá-la em sua animalidade, Já nos referimos em vários lugares ao longo do presente vo-
o que excita as suas reações, colocando assim em ação o espí- lume a estes conceitos, orientando-os diversamente em relação
rito de agressividade, que a atrai para o seu terreno, em baixo, a outros problemas. Quisemos aqui retomá-los, coordenando-os
em vez de conduzi-la para o Alto. dentro do tema da ética, que agora desenvolvemos. Onde tudo
A nova moral é justamente o Evangelho, e a novidade con- evolui, também a moral não pode deixar de evoluir. Isto signi-
siste em levá-lo a sério e começar a vivê-lo. Superlativamente fica tornar-se mais luz de conhecimento e menos trevas de ig-
positivo e operando pelo caminho do amor, ele representa a éti- norância, mais paraíso e menos inferno, mais triunfo do que su-
ca do futuro, a moral do evoluído. Corresponderá às exigências focação da vida, mais amor que terror, mais inteligente e livre
dos tempos novos, mais amadurecidos, que o compreenderão e aceitação que coação forçada. Com a ascensão, tudo tende a se
praticarão. Então a nova moral, sem destruir a antiga, irá levá-la libertar da ignorância, da imposição escravizadora, do terror
a um nível mais alto, mais livre, mais criador, em que serão das ameaças de um inimigo desconhecido. Torna-se tudo mais
demonstradas a lógica e a utilidade de segui-la. Não haverá límpido, livre, convicto. Compreende-se então, cada vez mais,
mais em primeiro plano, como sendo a coisa mais importante, o que Deus é um amigo nosso e que obedecer a Sua lei é nosso
trabalho de matar, no homem, o animal. Esse trabalho, sozinho, interesse. Ele nos governa para nosso bem, e não para nos im-
produz apenas um cadáver, e só isto permanecerá, se não ti- por, como senhor, uma vontade Sua egoísta. Esta última ideia
vermos feito, ao mesmo tempo, ressuscitar o anjo. O objetivo deriva da forma mental humana que o homem, possuindo-a e
da evolução é subir, e o que mais importa é construir o novo. não sabendo dela fugir, aplicou a tudo, inclusive ao comporta-
Destruir o velho não tem, em si mesmo, valor algum, a não ser mento de Deus, não conseguindo imaginar outro diferente do
que sirva para nos deslocarmos a mais altos níveis de vida. O seu próprio. Porém, tão logo a inteligência se abre um pouco,
objetivo de tudo é subir, e tudo só se justifica quando leva à re- seu modo de conceber a vida muda completamente, dando lu-
alização do supremo telefinalismo da vida, que é a sua espiritu- gar à nova moral, que, embora ditando as mesmas normas, o
alização. Tudo que é destruição antivital pertence aos poderes faz com base em um princípio totalmente diferente, não como
negativos do mal, enquanto tudo que representa construção vi- um senhor que se impõe egoisticamente ao escravo, mas sim
tal pertence aos poderes positivos do bem. como um bom pai, que não exige obediência para vantagem
A nova moral se distingue da velha por haver superado a própria, mas somente porque ela representa o bem de seus fi-
necessidade de usar impulsos negativos opressores antivitais. lhos. O nível evolutivo superior alcançado pela nova moral
Não há razão para que deva ser tão penoso e exija tanto esforço consiste no fato de, nele, desaparecer o atrito da luta gerada pe-
viver-se espiritualmente, fazendo que se procure fugir disto e se lo conflito entre o imperativo ético e a utilidade do indivíduo,
considere agradável e desejável viver bestialmente. Basta evo- utilidade esta que deve ser entendida não no sentido do gozo
luir um pouco para conseguir compreender que é justamente o imediato das coisas terrenas ilusórias – aquele que mais se pro-
contrário. Basta civilizar-se um pouco para sentir náuseas das cura e que, pelo contrário, pode constituir um prejuízo – mas
satisfações que formam a alegria de quem vive no plano ani- sim no seu verdadeiro significado de vantagem permanente.
mal. Aqui, não condenamos a moral da revelação mosaica, na ◘ ◘ ◘
42 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
Chega-se assim a delinear as características fundamentais tipo biológico também está preso à lei que merece e que lhe es-
desta moral. Estabelecido o conceito desse utilitarismo superi- tá proporcionada. Quanto mais involuído é o ser, mais a Lei se
or, poderemos dizer, então, que é moral tudo o que leva a al- manifesta dura e inflexível, porque esta forma, sendo a única
cançá-lo, e imoral tudo o que dele se afasta. Trata-se, pois, de que a sua inferioridade lhe permite ver, é a melhor para ele. Ao
uma moral utilitária não no sentido pequeno, egoísta e desagre- contrário, quanto mais evoluído é o ser, mais a Lei se manifesta
gante em que é geralmente compreendido o utilitarismo, mas benévola e livre, porque isto, uma vez que ele não abusa, não o
em sentido superiormente afirmativo, verdadeiramente vantajo- prejudica, sendo esta a forma pela qual o olhar mais agudo de
so em plena lógica, que caminha para a vida, obra de Deus, e quem está mais adiantado a vê. Eis então que, segundo a nova
não contra ela. Podemos então definir como moral tudo o que é moral, pode-se fazer tudo, desde que seja honestamente feito.
útil à vida, tendo em mente que nada é tão vantajoso quanto o Mas o que se entende por honestamente? Significa que o resul-
espiritualizar-se, que a conduz ao fim supremo: Deus. tado não traz prejuízo – isto é, mal em qualquer sentido – nem
Encontramos então, no princípio de jamais provocar conflito para si nem para outros. Podemos então definir o conceito de
entre moral e vida, a direção fundamental que nos permite reco- culpa ou pecado como tudo o que traz prejuízo ou mal em
nhecer o que é moral e imoral, no mais amplo sentido de ético e qualquer sentido a si ou a outros. Como se vê, trata-se de um
antiético. No plano biológico humano, onde costuma nascer esse sistema não opressivo, mas livre e utilitário, fato que o torna
conflito, acontece que, na prática, a vida – como ninguém pode menos penoso e mais facilmente aceitável. Vemos também que
torcê-la – vence e a lei ética, perdendo, fica como teoria não a norma, subindo, torna-se sempre mais simples e sintética.
aplicada, constituindo em substância uma forma de hipocrisia. Mas perguntamos, então, em que exatamente consiste esse
Dado que a evolução traz harmonização, deve desaparecer todo prejuízo que se deve evitar? Se, como explicamos, o objetivo
traço de luta no plano de vida em que funciona a nova moral. da vida é evoluir, a tarefa da moral é dirigir, com normas opor-
Foi suficientemente demonstrado em nossos volumes anteri- tunas, a conduta humana para a realização desse objetivo. Se-
ores qual é o conteúdo desta maior utilidade. A nova moral, por gue-se daí que o conceito de moralidade coincide com o de su-
ser mais evoluída, é adaptada a uma humanidade mais civilizada bida evolutiva, e o conceito de imoralidade com o de descida
e presume que já esteja realizado, em grande parte, o trabalho involutiva. Paralelamente, o conceito de bem e de vantagem
inferior de superação do animal no homem, para poder dedicar- correspondem ao de evolução, por meio da qual estes são obti-
se sobretudo à construção do anjo. Com o progresso da evolução dos, e o conceito de mal e prejuízo correspondem ao de invo-
começa-se a chegar aos planos superiores, onde a atividade lução, que conduz a eles.
construtiva deve assumir formas diversas, aptas a alcançar fina- A norma supracitada poderá então ser enunciada assim: tu-
lidades diferentes. Trata-se de uma moral cada vez mais de subs- do pode ser feito, desde que seja honestamente feito, sem que
tância e cada vez menos de forma; sempre mais sentida e menos provenha mal ou prejuízo para si ou para outrem, sem que leve
imposta; mais livre e espontânea e menos constrangida à força ninguém a uma descida involutiva. Então a escala que mede o
de sanções; baseada na aceitação pacífica, e não na luta que pro- valor da nossa obra coincide com a escala da evolução, e nela
cura todos os meios de evasão. A penalidade para cada violação temos três posições possíveis: 1) uma positiva, em ascensão,
reside, então, nas inevitáveis conseqüências das causas que cada que leva ao bem, à nossa utilidade, constituindo a moral; 2)
um estabelece como quer, com a própria conduta. Nesse plano uma negativa, em descida, que leva ao mal, ao nosso prejuízo,
de vida, o ser sabe que essas consequências são apenas fatais re- consistindo na antimoral; 3) uma neutra, estacionária, que não
ações da Lei, já conhecida por ele, reação lógica e merecida, de sobe nem desce, não leva ao bem nem ao mal, à nossa vanta-
acordo com a justiça de Deus, da qual não se pode escapar, tor- gem ou ao nosso dano, uma zona de atos indiferentes, sem va-
nando ignorância pueril as tentativas nesse sentido, como as que lor, nem moral nem imoral, sem importância diante da evolu-
se costumam fazer na Terra, com as astúcias humanas. ção, definindo uma zona amoral, que resulta apenas em perda
Nesta moral, que parece mais livre ao involuído, o ser é tempo para quem se detém nela.
obrigado à obediência e mantido na ordem por uma força mais Eis que, assim, sem códigos, regulamentos, juízes ou san-
sutil, porém mais poderosa que a prepotência humana: a persu- ções humanas, com um princípio simplicíssimo, podemos nos
asão. Mas só se pode chegar à persuasão por meio da inteligên- autodirigir. Saberemos então que é moral, uma virtude e um
cia que atinge a consciência da Lei. Geralmente, porém, o ho- dever fazer tudo o que nos leve a Deus. Ao contrário, fazer
mem atual não possui essa forma de inteligência. Assim, sem qualquer coisa que nos afaste de Deus é imoral e, constituin-
qualquer consciência da ordem que regula o universo, ele co- do culpa nossa, temos o dever de não fazê-lo. Este princípio
mete, a cada passo, o erro de se rebelar contra essa ordem, sen- ainda mais sinteticamente pode exprimir-se com a mesma
do obrigado depois a suportar as duras consequências. Para po- fórmula única e livre que um santo seguiu: “Ama a Deus e
der tirar desse tipo biológico algo de bom, a fim de fazê-lo evo- faze tudo o que queres”.
luir, é necessária a atual moral armada, carregada de castigos e Esse princípio é susceptível de muitas explicações e pode
ameaças, porque, se nem estas são suficientes hoje, ele zomba- exprimir-se de muitas formas. Moral é o nosso bem, a nossa
ria integralmente de uma moral desarmada, que pedisse obedi- utilidade, ou seja, tudo o que vai para Deus. Imoral é o nosso
ência só por convicção e por amor. mal, o nosso prejuízo, ou seja, tudo o que nos afasta de Deus.
Formalmente, a nova moral é muito mais livre, embora o se- Bem é evoluir, subindo para o Sistema; mal é involuir, descen-
ja muito menos na substância. A norma e a obediência aprofun- do para o Anti-Sistema. Temos assim, de um lado, uma série de
dam-se cada vez mais conforme se progride, procedendo do ex- conceitos positivos e, de outro lado, uma série de conceitos ne-
terior para o interior. À medida que a evolução avança, tudo se gativos. Subida, evolução, utilidade, bem, Sistema, Deus, cons-
desmaterializa, espiritualizando-se em potência e, ao mesmo tituem o campo da moral. Descida, involução, prejuízo, mal,
tempo, ganhando em amplitude de concepção. Então o ser liber- Anti-Sistema, Satanás, constituem o campo da antimoral. Ao
ta-se da opressão da regulamentação mecânica, miúda, pedante, primeiro grupo de conceitos estão conexos os de vida, luz,
necessária para o involuído nos planos inferiores de vida. Mas, consciência, felicidade etc. Ao segundo grupo estão conexos os
tão logo ele se liberta, a Lei o retoma sob seu poder numa forma de morte, trevas, ignorância, dor etc.
mais alta – agora que pode fazê-lo, porque ele se tornou mais Assim, o problema ético é resolvido de forma lógica, sim-
consciente – tornando-o mais livre, porém mais responsável. ples e cabal. O instinto fundamental da vida e seu sadio utilita-
Assim, aquilo que seria absurdo no plano do involuído, por- rismo não são negados nem sufocados. Logo que o ser torna-se
que aí geraria completa anarquia, pode ser agora enunciado pela bastante inteligente para chegar a compreender que se trata de
nova moral. Como cada povo tem os chefes que merece, cada seu próprio interesse, ele é, por isso mesmo, levado à adesão
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 43
espontânea. Desaparece dessa forma, automaticamente, o regi- ções do ser ao longo da escala evolutiva; uma ética que não diz
me do terror das sanções punitivas e todos os males a ele liga- respeito apenas ao homem, mas a todas as formas de existên-
dos. O mundo da ética recebe assim nova luz. Então, resumin- cia, dos movimentos atômicos ao espírito. Ética que natural-
do, moral é tudo o que é elevado; e imoral, o contrário. O mes- mente, do determinismo da matéria ao livre arbítrio do nível
mo pensamento ou o mesmo ato podem assumir sentido e valor humano, manifesta-se de diversas formas nos vários planos. O
diferentes conforme o plano de vida em que se realizam e pelo estudo da ética, compreendida em tão vasto sentido, deveria
qual são julgados. Assim, para um evoluído, pode ser imoral o enfrentar o fenômeno de sua evolução, ou seja, examinar os
que, ao involuído, pode parecer lícito. A maior moralidade para princípios normativos de todas as formas de existência e a
o involuído é comportar-se como evoluído, ou seja, a besta transformação destes, uns nos outros. Chegar-se-ia desta ma-
comportar-se como anjo, e a maior imoralidade é, ao contrário, neira ao conceito de uma só ética ascendente, a qual, mesmo
o anjo comportar-se como animal. Subindo aos planos superio- transformando-se, permanece idêntica a si mesma, porque, em
res de vida, tudo se enobrece e purifica, espiritualizando-se. cada ponto de seu transformismo, está sempre condicionada ao
Mudam os critérios com que se julga. As palavras verdade, mesmo telefinalismo. Desse conceito deriva, então, a relativi-
bondade, justiça assumem sentido diferente. É a natureza dife- dade do valor de cada posição, incluindo a humana atual. Che-
rente do biótipo que transforma e adapta tudo ao próprio nível, ga-se também a uma confirmação de tudo aquilo até aqui sus-
segundo as leis do qual ele realiza tudo. tentado, isto é, que, assim como a moral de hoje não é a de
Damos aqui – como acima referimos – às palavras moral e nossos antepassados selvagens, ela também não poderá ser a
imoral o amplo sentido de bem ou mal, de justo ou injusto, de de nossos descendentes mais civilizados.
lícito ou ilícito etc., e não o sentido restrito em que são usadas Compreende-se, então, que a moral deve ser concebida em
na linguagem comum. Podemos, assim, chegar a uma “defini- função da evolução. O melhor índice da natureza e grau de de-
ção de moral”, dizendo que ela é “o conjunto das normas de senvolvimento de um determinado tipo biológico será a moral
conduta que guiam o homem para atingir o maior objetivo da por ele seguida. “Mostra-me como ages, e dir-te-ei quem és”.
vida: reencontrar Deus, subindo com a evolução o caminho que Assim, na mesma humanidade, acharemos vários níveis evoluti-
conduz todos os seres a Ele”. O modelo da moral perfeita é, en- vos e éticos, em que indivíduos sentem e agem com base em
tão, dado pela Lei, ou seja, pelo pensamento de Deus, que diri- morais diferentes. Teremos então, no evoluído e no involuído,
ge tudo. Desta perfeição ética o ser, ao progredir, conquista va- morais tão diferentes quanto o próprio tipo biológico. Assim, de
rias aproximações sucessivas, que constituem as morais relati- acordo com o plano evolutivo, a forma mental e a moral relativa
vas em evolução, dadas pelo patrimônio ético próprio a cada do indivíduo que os formula, os julgamentos sobre tudo e sobre
plano de existência. Falamos, pois, de uma moral de proporções todos serão diferentes e não terão valor superior a esta sua rela-
cósmicas, que aparece em todas as dimensões e níveis evoluti- tividade. A mesma unidade de medida ética, estandardizada para
vos, assumindo o amplíssimo sentido de norma para orientação uso prático, será, deste modo, diversamente interpretada e apli-
da subida de qualquer forma de existência em direção a contí- cada para cada um dos numerosos elementos que constituem a
nuas superações, até levar toda a substância, do estado de Anti- sociedade humana, numa rede de julgamentos dos quais cada
Sistema, ao estado de Sistema. Trata-se de uma moral univer- um, em sua relatividade, pretende ser absoluto e definitivo. Mas
sal, cujos princípios se realizam progressivamente, através do é óbvio que tudo isto tem valor relativo. O julgamento último,
transformismo do relativo, em varias alturas, e cujas raízes e completo e perfeito, não pode provir desse relativo, mas somen-
justificação se acham no absoluto, de onde parte e para onde te de uma fonte que está fora e acima de todos os seres, no abso-
volta o ciclo do ser. Dadas as dimensões cósmicas dessa moral, luto, em Deus. Todos os demais julgamentos exprimem, em
que abarca todas as formas do ser, não podia deixar de aparecer primeiro lugar, a pessoa que os profere, seu tipo, sua evolução,
nela o princípio do dualismo universal. Achamo-lo, aqui, sob a sua posição na vida, seu interesse, sua forma mental etc. Assim,
forma do binário moral e imoral, que são os dois aspectos – o por coisa alguma uma pessoa é tão bem julgada quanto por seus
lado luz, positivo, e o lado sombra, negativo, ou seja, o direito e próprios julgamentos. O único que pode julgar sem expor-se
o avesso – do mesmo fenômeno, chamado moral. Estende-se com isso a julgamento não pertence a este mundo, está acima de
ele, assim, desde o Anti-Sistema, onde se encontra todo inverti- todos os julgamentos, é o único verdadeiro juiz, que julga a to-
do, ou seja, em seu aspecto imoral, até ao Sistema, onde se en- dos, juízes e julgados, é o supremo juiz: Deus.
contra todo positivo, ou seja, em seu aspecto moral. ◘ ◘ ◘
Pelo fato da realização destes princípios ocorrer através de Observemos agora o problema ético mais de perto, em rela-
um processo de transformação evolutiva, a lei ética muda de ção ao homem em nosso mundo atual. Nesse ambiente domina
plano em plano, oferecendo-nos assim, de acordo com os diver- a lei da luta pela seleção do mais forte, impregnando a conduta
sos níveis, uma série de morais relativas diferentes, que são humana e gerando, ao menos na prática, uma ética que lhe é
aproximações diversas da mesma moral perfeita do evoluído. correspondente, embora seja diferente em teoria. Segue-se que,
Desta forma, podemos não só chegar ao conceito de uma varie- na Terra, o campo da moral não é nada pacífico. Ora, como dis-
dade de morais sucessivas, escalonadas em varias alturas da as- semos acima, a moral tem a função de guiar o homem no cum-
censão evolutiva, mas também admitir a maturação de uma mo- primento dos objetivos da vida e não deve, portanto, conflitar
ral relativa em evolução, ou seja, não apenas uma moral (apa- com eles. Negando-se a satisfação das suas sadias exigências,
rentemente) estática e definitiva, para uso da forma mental hu- deve-se esperar, logicamente, as respectivas reações da vida, e,
mana, mas também uma moral progressiva muito mais vasta, se quisermos ser justos, teremos de reconhecer que elas consti-
que lhe garante um amanhã. Isto nos é confirmado pelo fato de tuem seu pleno direito de viver. Tudo que busca diminuir ou
que, em cada coisa, encontramos esse fenômeno de relativismo matar a vida só pode provir das forças negativas, inimigas de
em evolução. A própria verdade, para o ser, é relativa e está em Deus. Assim, nascendo um conflito entre ética e vida, estas rea-
evolução, sendo proporcionada ao grau de consciência conquis- ções contra a ética formal estabelecida geram o antiético, fa-
tada por ele. É lógico, aliás, que a norma de conduta para guiar zendo o indivíduo ser julgado culpado por uma moral que co-
o ser em seu regresso a Deus deva ser proporcional à posição meteu a culpa maior de ter agredido a vida em seus direitos
conquistada por ele na subida evolutiva e, portanto, diferente de fundamentais. Nesse caso, qual dos dois é o culpado? O mora-
acordo com a maior ou menor proximidade do ápice. lista, que não respeita os direitos da vida, ou esta, que se defen-
Pode chegar-se, assim, ao conceito de uma ética especial, de? Apenas e tão-somente quando for dada legítima e suficiente
que não está numa só dimensão, como a comum humana, mas satisfação a essas exigências, poderemos dizer que a culpa é do
se encontra em tantas dimensões quantas são as possíveis posi- indivíduo, porque ele desobedeceu. Só quando forem respeita-
44 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
das por ambas as partes – a sociedade, que faz as leis, e o indi- preventiva que repressiva; será mais uma ajuda para levantar,
víduo, que deve obedecer – as recíprocas posições de direitos e educando, que uma opressão provocadora de revolta; ocupar-
deveres, será justa a condenação do não-cumpridor. Porém, en- se-á sobretudo de criar condições de defesa em favor da vida,
quanto a vida da sociedade humana se basear no egoísmo e na em vez de agredi-la. Só assim é possível evitar que a vida, para
luta, as reações defensivas encontrarão justificativa, invertendo atingir seus objetivos, seja obrigada a se desviar por aqueles
a moral em sua zona negativa, cheia de abusos e males. No ca- atalhos tortos e oblíquos que constituem o mal.
so menos grave sobressairá a tão difundida mentira, com o No mundo atual, infelizmente, o respeito a essas exigências
compromisso pela elasticidade da consciência, bem como ou- fundamentais da vida não é obtido por um sentido de disciplina,
tras semelhantes formas híbridas de acomodação, das quais o derivado da consciência da utilidade para todos de um estado
mundo está cheio, e tudo isto somente será justificado pelo na- de ordem, mas é dado pela força, que impõe esse respeito, e pe-
tural e inevitável efeito das condições em que a vida humana se lo interesse egoísta, que gera e movimenta essa força. Assim, o
acha agora. Neste caso, fingir seria um recurso usado pela vida respeito à propriedade alheia, como à mulher do próximo, exis-
como um lubrificante indispensável para permitir, com menor te sobretudo porque há alguém que, no interesse próprio, sabe
atrito, a coexistência pacífica dos egoísmos inimigos. Não há movimentar uma reação punitiva, logo que venha a faltar esse
efeito sem causa, e, na economia da vida, cada fato realiza sua respeito. Explica-se, desse modo, porque a ética humana, no
função que o justifica. Só assim poderemos explicar porque a atual plano de evolução, só pode ser uma ética de luta, ou seja,
mentira é tão difundida no ambiente humano. à base de sanções por parte de quem a impõe, para obter obedi-
Mas precisemos em suas particularidades os elementos do ência forçada, e, reciprocamente, à base de revoltas, para não
problema. Explicamos em outros volumes que as exigências ser obedecida, por parte de quem deve suportá-la. Essa é a ética
fundamentais da vida são três: 1) A conservação do indivíduo; que vigora nos fatos, ou seja, não uma ética de paz, na qual ca-
2) A conservação da espécie; 3) A evolução. Essas exigências, da impulso vai por si ao seu lugar, seguindo espontaneamente o
que se verificam objetivamente na realidade, explicam-se co- caminho exato, mas uma ética de guerra, decidida a sobrepujar
mo efeito dos princípios que regem a vida, mostrando-nos seu de todos os lados os limites devidos, para usurpar o mais que se
funcionamento, sua razão de ser e seu telefinalismo num qua- puder em benefício próprio e com prejuízo alheio. A tarefa da
dro lógico completo. A vida impõe a satisfação dessas suas evolução será de levar o homem desta ética de guerra, com base
três exigências por meio de três fortíssimos instintos: 1) A fo- na luta (imposição de um lado e revolta do outro), a uma ética
me, 2) O amor, 3) A ânsia de melhorar. À ética reserva-se a ta- de justiça, com base na compreensão (de um lado, respeito das
refa de disciplinar esses três instintos, para guiá-los no cum- exigências da vida e, do outro, obediência espontânea à ordem).
primento dessas três exigências. É por isso, pois, que ela se Examinemos o problema em cada um de seus três pontos.
ocupa: 1) Da aquisição e uso dos bens, propriedades, trabalho 1) Segundo a nova moral, para que a sociedade possa adju-
etc.; 2) Das relações de sexo, formação da família, deveres dos dicar-se o direito de impor respeito à propriedade dos que a ob-
pais e dos filhos etc.; 3) Da tarefa de fazer evoluir, confiada a tiveram, por parte dos que a não obtiveram, ela deveria, em
poucos indivíduos, embora o desejo de subir seja comum a to- primeiro lugar, cumprir o dever de garantir a estes últimos um
dos. Quanto a estes raros indivíduos, a ética comum não os mínimo indispensável para viver: moradia, alimentação, roupa,
protegerá, porque eles se encontram fora dela, situados no seio educação etc., embora exigindo o trabalho correspondente, se
de seu mais alto plano de vida. não se tratar de incapazes. Enquanto aos deserdados faltar esse
Esses três instintos – apesar de, em redor deles, girarem ou- mínimo indispensável, a vida, que não quer renunciar a si
tros menores, conexos com eles – representam os impulsos mesma, os impelirá à revolta contra a ordem social, com assal-
principais que movimentam o homem, todos visando a defesa tos organizados pelos partidos políticos, com o furto ilegal, que
da vida: 1) Como indivíduo; 2) Como espécie; 3) Como evolu- viola a lei, com o furto legalmente realizado, enganando a lei,
ção. É a sabedoria da vida, e não o capricho do homem, que os bem como todos os delitos que ameaçam a propriedade e a vi-
quer como meios para alcançar seus objetivos. Portanto eles fa- da. Nada disso deixará de aparecer todas as vezes que não for
zem parte da lei, do pensamento e da vontade de Deus no plano satisfeita a primeira das três exigências fundamentais da vida,
humano. Qualquer ética poderá, então, e até deverá disciplinar ou seja, quando esta se sentir ameaçada na conservação do in-
esses impulsos, a fim de que melhor alcancem seu objetivo, divíduo. A fera assalta a presa quando necessita de alimento pa-
mas jamais deverá opor-se a eles, pois isto significaria opor-se ra viver. Com a nova moral, a culpa para o indivíduo começa
à Lei, tal como ela quer manifestar-se nesse nível. Portanto a quando ele exige o supérfluo, que está além do indispensável
ética tem pleno direito de impor a disciplina de sua lei, mas de- para as necessidades da vida. Isto é confirmado pelo Evange-
ve cumprir também o dever sagrado de respeitar a vida nestas lho, quando diz que devemos dar o supérfluo aos pobres. Então,
suas exigências fundamentais. Em outros termos, a sociedade, o que nos sobra não nos pertence, mas sim àqueles a quem falta
para poder exigir obediência à sua moral, deve antes permitir a o necessário, e não temos direito de possuir o que lhes cabe. Is-
qualquer um o mínimo indispensável para que sejam satisfeitas to porque os bens não são um meio para satisfazer a cobiça de
aquelas exigências da vida. Se esse mínimo for negado, o res- poucos, mas um instrumento a serviço da vida de todos, para
ponsável, mais do que o violador da lei, será aquele que a faz, que ela possa levar todos a obtenção de seus objetivos. Assim o
porque ele, e não o transgressor, é a maior causa do mal e, as- supérfluo, quanto maior for, torna-se cada vez mais antimoral,
sim, torna-se em primeiro lugar antimoral. porque, aumentando, diminui a necessidade de possuí-lo e cres-
Mas, desgraçadamente, dado o regime humano de luta, a ce o dever de fazer dele bom uso, útil à vida e a seus fins.
moral que vigora é mais repressiva do que preventiva, mais “a Se esse princípio do Evangelho tivesse sido seguido no pas-
posteriori” do que “a priori”, mais atenta a perseguir os efeitos sado e se hoje ainda o fosse, não teria havido nem surgiria hoje
do que a eliminar as causas. Intervir só depois do fato consu- a possibilidade de revoluções sociais. Com isto, a vida tenta por
mado pode significar não apenas a culpa do violador, mas sua conta uma primeira aproximação de justiça econômica, co-
também a falta de sabedoria de quem, tendo o poder em mãos, locando então as várias classes sociais, cada uma a seu turno,
não soube impedir que se formasse o mal e apareceu só depois na posição privilegiada. Sistema nada perfeito, porque são ne-
que o prejuízo se verificou, acreditando cancelá-lo com a re- cessárias desordens e extorsões para que os bens passem das
pressão. Desta forma, em vez de se cancelar o mal, ele é agra- mãos de quem tem muito às de quem tem pouco. Com o mesmo
vado, como no exemplo, que se acreditava salutar, dos patíbu- fito, a vida tende também ao desgaste interior dos favorecidos,
los públicos medievais, que habituava o povo espectador ao uma vez que o bem-estar os enfraquece e assim, automatica-
prazer, e não ao terror do delito. A moral do futuro será mais mente, coloca-os em condições de inferioridade na luta pela vi-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 45
da, fazendo que percam rapidamente sua posição de vantagem. do não é função deles, fazendo da própria satisfação egoística o
Depois, o próprio fato de se achar, apenas em razão de seu nas- único fim, que se substitui ao da vida. O mal começa logo que
cimento, com uma riqueza já feita, não adquirida pelo próprio se sai da disciplina da ordem, com o abuso, com o excesso, com
esforço, parece diminuir o valor dela aos olhos de seu possui- a busca do supérfluo, com a falta de respeito aos direitos alhei-
dor, de modo que, embora tenha a força, ele se sente menos os, sacrificados no altar do próprio egoísmo. Este representa
disposto que o normal a lutar para não deixar que a riqueza lhe uma força separatista e destrutiva do amor, que só pode ser al-
escape. Paralelamente, enquanto este se torna cada vez mais truísta, dirigido para dar, e não para desfrutar; para harmonizar
inábil para mantê-la, a necessidade estimula as forças e aguça a e fundir as almas, e não para dividi-las, sem preocupar-se com
inteligência dos deserdados, que, proporcionalmente, tornam-se as ruínas semeadas ao longo de seu caminho.
cada vez mais espertos e audaciosos na luta de conquista. As Então começa o erro, e dele somos logo advertidos, não em
duas tendências levam ao mesmo resultado, dado pelo deslo- teoria, mas com fatos bem percebidos. Como prova que erra-
camento das classes, com uma distribuição diferente da riqueza. mos, a Lei, com sua reação, impõe-nos a dor. A ordem da Lei é
Isto prova que a vida, por si só, tende ao equilíbrio, à justiça, alegria. Tão logo se aproveite de uma alegria que esteja fora dos
que, neste caso, é uma equitativa distribuição econômica, atin- limites fixados por essa ordem, entra-se na desordem, na anti-
gida por meio da instabilidade das posições. O homem gostaria, Lei. Verifica-se, então, fatalmente, a automática inversão da
porém, da estabilidade hereditária, a qual ele sustenta com leis, alegria, que se torna dor. Entra-se no terreno negativo, em que a
defesas e estacas de toda a espécie. E ela permaneceria, se fosse saúde se torna enfermidade, a paz se torna guerra, o amor gera o
equilibrada, ou seja, de acordo com a justiça, como quer a lei de ódio. Também o alimento é útil e agradável. Experimentemos,
Deus; permaneceria automaticamente, sem a necessidade, para porém, ao invés de ganhá-lo, roubá-lo ou comer demais e, inevi-
sustentá-la, dos artificiais armamentos que, se não bastam para tavelmente, nos acharemos diante da reação da Lei, que nos ex-
isso, é porque esse sistema está contra a Lei. Acontece então pulsa de sua alegria e nos lança fora, no terreno da anti-Lei, on-
que a sagacidade humana não consegue paralisar essa tendência de essa alegria se inverterá em dor. É lógico e justo que assim
à justiça, tendência que os mina por dentro e os faz ruir por fim, aconteça, porque, se nós invertemos as posições nas causas, co-
como de fato se observa na história. Sistema penoso e doloroso, mo podem elas não aparecer invertidas também nos efeitos?
o qual poderia ser evitado pela aplicação do Evangelho, que Insistimos neste ponto porque, no terreno da ética, ele é
elimina as causas. Mas o homem não atingiu ainda um grau de fundamental. A dor não é uma reação punitiva da Lei nem mui-
inteligência que lhe permita compreender isso e, visto não ser to menos uma sanção vingativa por parte da justiça divina, por-
possível obter-se nada além disso no plano de evolução no qual que a violamos. Pode-se até definir a dor como “um estado de
ele está situado, deve sofrer então o prejuízo desse sistema. desarmonia, motivado por termos querido, livremente, assumir
No futuro estado organizado da humanidade nada disso uma posição de desordem em relação à ordem da Lei”. A dor
acontecerá, porque terão sido eliminadas as causas. A sociedade depende de uma posição errada que o homem assume. Inevita-
será então dirigida por esta nova moral, que, respeitando a pro- velmente, tão logo saia da harmonia da Lei, que é alegria, ele
priedade, irá destiná-la cada vez menos ao fim individual egoísta penetra na desarmonia da anti-Lei, que é dor. Esta é a campai-
e cada vez mais, com espírito altruísta, subordiná-la aos fins de nha de alarme para nos avisar, com notas bem claras, que esta-
utilidade social. O primeiro a tirar vantagem desta condição, que mos fora da estrada, impelindo-nos a retomar o caminho certo,
parece uma limitação, será o indivíduo, pois encontrará, nesta a fim de nos livrar dos sofrimentos. É desta maneira que, mes-
sociedade orgânica, uma proteção que hoje lhe é desconhecida, mo respeitando nosso livre-arbítrio, a vida nos coage a buscar-
porque tal sociedade lhe reconhecerá e garantirá o direito de vi- mos seus objetivos superiores.
ver, direito que antes o indivíduo só podia fazer valer no caso Mesmo neste terreno do amor, a nova moral é moral de or-
em que suas forças pudessem impor-se a todos os outros. dem, de paz, de respeito. Superando o atual nível humano, esta
2) O amor é uma função fundamental do ser, porque neces- ética faz parte de um plano superior, no qual a vida não quer
sária para a conservação da espécie, sendo meio indispensável mais selecionar o ser egoísta, forte e astuto, que vive só para si
para que os indivíduos possam reencarnar-se, voltando e tor- e domina tudo, mas sim o homem social, que aprendeu a coor-
nando a voltar à Terra, para fazer experiências e, assim, evoluir denar-se no futuro estado orgânico da humanidade, não causa
para os supremos objetivos da vida. Se, como dissemos, é mo- dano a ninguém e protege a vida primeiramente em sua compa-
ral tudo o que leva a alcançar esses fins, também o amor é mo- nheira e em seus filhos, tornando-se guia da elevação deles. A
ral, se dirigido à procriação, fazendo disto um meio para que evolução nos levará cada vez mais para longe dos tempos em
esses objetivos sejam alcançados. O amor não se detém apenas que o macho roubava a mulher e em que o amor se realizava
na geração, mas também implica que ela seja completada com a numa atmosfera de destruição e violência, forma mental ainda
proteção e a educação dos filhos, ajudando-os em tudo, para viva nos menos evoluídos, a qual vemos reaparecer nos tão di-
que a experiência da vida produza neles evolução e se resolva fundidos romances onde o amor, ao invés de afeto e bondade,
em melhoria espiritual. Quando, porém, por motivos fisiológi- torna-se crime e morte. Mesmo neste campo, a moral atualmen-
cos, a procriação não seja possível, o amor pode ainda ser ne- te vivida nos fatos é substancialmente de guerra, fazendo que o
cessário como conforto, para manter a vida individual dos côn- maior grau de ordem atingível seja aquele que se obtém dentro
juges, devendo eles, nesse caso, procurar, embora no campo do castelo fechado e armado da família, dirigida por um chefe
mais restrito de sua existência e do auxílio recíproco, a obten- que saiba defendê-la contra todas as outras. Mais não se pode
ção dos supramencionados fins da vida. Recordemos que o conseguir num plano biológico onde tudo se realiza em função
amor é a maior potência criadora, enquanto o ódio representa o da luta, que é sua lei. Toda a psicologia daí derivada terá de ser
poder destruidor. O amor deve ser apenas disciplinado, para superada pela evolução. A prepotência do homem, considerada
que se desenvolva de acordo com a Lei, deve ser guiado, para hoje como valor, será amanhã julgada defeito, porque antisso-
que se harmonize na ordem e nos leve para o Alto, como é sua cial. Sua prova de força não consistirá em submeter ao próprio
função, mas jamais combatido nem destruído, porque, se o des- egoísmo um ser fraco, necessitado de proteção, como a mulher,
truirmos, destruiremos a vida. E, quando ele não puder ser ma- mas em defendê-la, elevando-a ao estado de companheira e co-
ternalmente gerador de filhos, poderá ser espiritualmente cria- laboradora na construção do edifício da família e na obra da as-
dor, tornando-se fecundo de bondade e elevação. censão espiritual desta.
Neste sentido, amar é moral quando ocupa seu lugar justo Antes de terminar este assunto, temos de nos ocupar de uma
na ordem da Lei, ou seja, quando é usado como meio para atin- classe à parte, representada pelos que renunciam. A renúncia ao
gir os supremos objetivos da vida. Amar torna-se imoral quan- amor, isto é, a castidade, é moral ou antimoral? Se, como acima
46 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
dissemos, é moral tudo o que, no mais amplo sentido, é útil a vi- da média, que tudo estabelece e faz para o próprio uso e costu-
da, porque leva à obtenção de seus fins supremos, a renúncia só me, segundo as medidas de sua forma mental.
poderá ser moral se pudermos descobrir nela algum elemento Qual é a sorte desses indivíduos? Naturalmente eles não es-
que satisfaça a essas condições. À primeira vista, se a vida quer tão totalmente presos neste trabalho, que representa sua princi-
a procriação, como indispensável meio para evoluir, a renúncia pal função biológica e o objetivo de sua vida. Mas isto não mo-
que nega essa procriação parece imoral. E, verdadeiramente, na difica absolutamente as condições do ambiente em que devem
renúncia existe algo de negativo, que se limita a dizer “não”, e operar, nem impede que a luta de ataque e defesa – a principal
jamais uma afirmação positiva. Ora, dado que a moral faz parte lei dos seres entre os quais eles têm de viver – acometa-os com
da Lei, que é toda positiva e construtiva, dirigida ao ser, e jamais sua agressividade, enquanto eles estão absorvidos num trabalho
ao não-ser, a renúncia pode ser julgada como imoral, se olhada totalmente diverso, no qual são especializados, tanto quanto, ao
segundo a lógica estreita do plano de vida animal. contrário, o tipo comum é especializado na luta. Se o evoluído
O problema agora é ver se a renúncia pode conter também não sabe e não pode lutar, nem por isso os outros deixam de
um lado de afirmação positiva, que justifique e compense o agredi-lo, tanto mais que eles se sentem mais fortes nesse terre-
seu negativismo, porque só assim a sua imoralidade poderá no, e nada os atrai tanto quanto a facilidade da vitória. Parece,
transformar-se em moralidade. Mas, se, no plano animal, a re- então, que o habitual destino do gênio na Terra é ficar abando-
núncia é simplesmente negativa, não é nesse plano que pode- nado e despojado, enquanto a riqueza tende a superabundar nas
remos encontrar compensações e substituições. Resta-nos en- mãos dos especializados em sabê-la acumular. O ser encarrega-
tão procurá-las num plano mais alto, no mundo espiritual. Po- do da função biológica superior de fazer evoluir é um pioneiro
deremos dizer, então, que o negativismo da renúncia, imoral lançado para o futuro, provido das qualidades próprias ao plano
pela própria natureza, porque antivital, encontra plena justifi- superior que deverá ser atingido, em detrimento daquelas pos-
cação e se torna moral, quando esse negativismo é neutralizado suídas pela maioria que vive na Terra. Condenado a viver neste
por uma conquista num plano mais alto, ou seja, no espiritual. ambiente, que não é o seu, enquanto está atento a realizar sua
Tudo o que é destrutivo pertence às forças do mal. Mas o que é missão de ensinar formas superiores de vida, é facilmente supe-
destrutivo num plano pode ser construtivo em outro, e cada rado pelos que, sabendo lutar, podem explorá-lo, roubando tudo
destruição, que, por própria natureza, é negativa e, portanto, o que é dele. Para vergonha da humanidade, a história está
imoral, pode tornar-se meio de construção, transformando-se cheia de casos de grandes músicos, artistas, pensadores, cientis-
assim em positiva e moral. Então uma mutilação de vida, que tas etc. – em todos os sentidos, grandes benfeitores – que vive-
por sua natureza é imoral, pode ser moral quando, em outro ram e morreram na miséria, enquanto se esbanjam riquezas por
sentido, é criadora e produz um acréscimo de vida. A renúncia inúteis luxos e se gastam fabulosas somas para matar o próximo
é moral quando não vai contra a vida, mas, no sentido que ago- na guerra e para, na paz, aperfeiçoar a arte de matar. Isto de-
ra expusemos, caminha para a vida. monstra em que estado de involução se acha ainda o homem e
Conclui-se de tudo isto que, se a renúncia não for condição como a vida do evoluído, na Terra, para fazê-la progredir, só
de conquistas espirituais, se não for usada em função destas, ela pode ser uma vida de martírio. Dizê-lo pode parecer ofensivo
perde sua razão de ser e permanece injustificável. Isto porque para as grandes almas, mas, certamente, uma humanidade que
destruir por destruir, sem reconstruir, é imoral, como o é tudo não sabe defender o mais alto produto da raça, incumbido da
que permanece estéril em relação aos supremos fins da vida. função de fazê-la evoluir, não pode considerar-se civilizada.
Pela mesma razão, todas as virtudes que se detém apenas em
seu lado negativo, sem produzir nenhum fruto vital, contraindo IX. O PROBLEMA DA MORAL - II
o eu, ao invés de fazê-lo crescer e desenvolvê-lo em direção a
Deus, como quer a lei da evolução, são, quando não prejudici- Como age a nova moral? Mundo de luta. Evolução por
ais, pelo menos inúteis à vida e, portanto, mais imorais que mo- ação e reação entre dirigentes e súditos, por comum abran-
rais. A verdadeira virtude não se afoga no paul do “não fazer”, damento de costumes. Progressiva eliminação da luta e da
mas se dirige sempre a um “fazer”, embora às vezes tenha de
dureza das leis. Em direção a uma moral cada vez mais
escolher o caminho inverso do “não fazer”.
amiga. A vida, estado de guerra. A ética que se vive nos fa-
Com isto, não quisemos desvalorizar nem condenar a re- tos e suas consequências. A função biológica da mentira. A
núncia, mas apenas definir seu significado e valor em função da virtude como astúcia. A liquidação do simples e honesto.
Lei e dos supremos fins da vida. Esta tem de evoluir e, portan-
Ética emborcada. A psicologia do selvagem e do civilizado.
to, não pode admitir nenhuma compressão, senão em vista de
Inteligência prática, para a luta, e não indagativa, para o
uma correspondente expansão; nenhuma renúncia ao amor ma-
conhecimento. A moral da nova civilização do espírito.
terial, senão como condição de uma conquista maior como
amor espiritual. A castidade é útil quando serve para criar um
amor maior, e não quando serve para matá-lo, atrofiando na fri- Dadas as atuais condições do mundo, como fazê-lo evoluir
eza e na indiferença os nobres impulsos do coração. além, levando-o a viver a nova moral? Aplicando-a ao real es-
3) As exigências fundamentais da vida não se esgotam ape- tado de fato, que reações excitará e receberá em resposta, quan-
nas com a conservação do indivíduo e da espécie, mas consistem do se trata de passar seriamente de uma ética pregada a uma
também numa terceira, a evolução, sem a qual as duas primeiras ética realmente vivida? Não podemos esquecer que se trata de
não teriam objetivo. De fato, tanto trabalho para conservar em um mundo em que tudo se baseia na luta, um mundo em que a
pé a vida não pode ser explicado como um fenômeno fechado, norma ética teve de aparecer até agora como imposição armada
que eternamente gira sobre si mesmo, sem desembocar numa fi- de sanções, resultando como consequência o desenvolvimento
nalidade que o justifique e um dia o resolva. E eis que, para nos da arte de escapar delas. Há luta entre o evoluído, que quer su-
dar a chave de todo o jogo, aparece o conceito de evolução. A bir, e o involuído, que não quer subir, luta entre duas leis dife-
maioria – formada pelas grandes massas e movida pelos instin- rentes, que aspiram ao domínio absoluto sobre o homem.
tos da fome e do amor – está encarregada pela vida de prover o Ora, é lógico que, nesse ambiente, qualquer inovação tem
cumprimento das duas primeiras exigências: a conservação do de ser iniciada de cima, isto é, por parte dos vencedores, que
indivíduo e a conservação da espécie. A tarefa de fazer evoluir são os únicos que têm o direito de mando nesse plano. Se aí
essa massa é, porém, confiada a poucos indivíduos, biologica- tudo funciona assim e se esses são os princípios que estabele-
mente fora de série, especializados nesse trabalho de exceção, cem a conduta dos que vivem aí, não podemos sair deles, nem
no qual ficam, ainda que por cima, isolados da maioria, expulsos mesmo quando queremos estabelecer uma norma ética, embo-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 47
ra ela desça de planos superiores, regidos por princípios dife- te, abolição da escravidão, melhora no sistema de prisões, mi-
rentes. As normas concebidas nos ambientes mais elevados tigação da pena, justiça econômica, previdência social etc.).
constituem o que se chama a teoria. O modo com que são re- Essa iniciativa deverá ser levada até ao limite máximo possí-
cebidas, adaptadas e até invertidas no ambiente humano ter- vel, conforme o grau de bondade que o estado de civilização
restre constitui o que se chama a prática. A teoria é bela, res- atingido permite. Dentro desses limites, as classes menos evo-
plandecente, mas a tendência é que seja deturpada e corrom- luídas da sociedade poderão restituir à classe superior o bem
pida logo que desce à prática. que recebem, na forma de um abrandamento de costumes. A
A realidade apresenta-nos, então, um espetáculo bem dife- finalidade da lei imposta é sobretudo educar, ensinando, à for-
rente do que se poderia imaginar. Quem faz as leis é a camada ça de sanções, a viver mais civilizadamente, porém deve estar
social superior, que tem o direito de mandar porque venceu a ba- pronta a abandonar esse sistema logo que os súditos aprendam
talha da vida. Se essa camada não faz a lei ética, porque só pou- a lição e demonstrem não mais necessitar desses métodos. Na
cos e excepcionais evoluídos conseguem intuí-la, pode, no en- feroz Idade Média realizavam-se as execuções capitais e as
tanto, formulá-la em artigos de lei, dosá-la e sobretudo enchê-la punições físicas nas praças, à vista de todos, usando o sistema
de sanções, que são, na Terra, as coisas mais importantes, se não do terror, julgando-se educar o povo a respeitar os detentores
quisermos permanecer no campo teórico. Então a ética, que no do poder. Mas isto também educava o povo no gosto pelo cri-
Alto é outra coisa – isto é, norma espontânea de convicção – me, nunca dominado com esse sistema, o qual, no fundo, só
também se torna luta para adaptar-se à lei do plano em que des- demonstrava o medo que os dominadores tinham de ser derro-
ceu. É sob esse aspecto que a moral aparece em nosso mundo, tados. Com o tempo, o trabalho subterrâneo da evolução
fato que pode parecer estranho e contraditório, mas do qual abrandou tudo, tanto que esses espetáculos, aos quais a multi-
compreendemos as razões. A ética se resolve assim, na prática, a dão acorria com satisfação, gerariam agora nojo e condenação.
uma luta entre a classe superior, que impõe as leis, e as classes Assim, por golpes e contragolpes, realiza-se a evolução, e a
inferiores, que devem aceitá-las, a um conflito entre a classe dos humanidade progride para formas de vida que contêm cada vez
juízes, que estabelecem a culpabilidade e condenam, e a dos jul- menos o mal e cada vez mais o bem. As massas, educando-se
gados culpados, que são condenados, se não obedecem. cada dia mais no bem, permitem aos dirigentes e às leis que se-
Podemos perguntar-nos, agora, como a vida consegue evo- jam melhores, e estes, melhorando, educam as massas cada vez
luir, se a descida dos ideais á Terra está submetida a esse siste- mais no bem. Esse é o sistema utilizado pelo progresso num
ma que os converte em luta e, assim, paralisa-lhes o efeito mais mundo de luta, onde isto pareceria impossível precisamente por
importante, que é provocar uma melhoria? Eis como isto acon- causa da luta. O progresso, paradoxalmente, realiza-se por meio
tece. O progresso é um impulso íntimo, que age, de dentro, in- da luta, isso nos mostra como é profunda a sabedoria da vida.
distintamente sobre todos, tanto em quem manda como em Nos tempos involuídos, a repressão forçada é um mal ne-
quem obedece. Então, uma vez que não pode submeter-se ao cessário, que se destina, porém, a ser superado. Não é a re-
conflito entre os dois impulsos opostos em luta, a evolução, ao pressão que liberta a sociedade de seus males, mas sim esta
invés de ficar dominada por ele, domina-o e o utiliza. Não po- mecânica progressiva que acabamos de ver. Pelo contrário, a
dendo caminhar em linha reta, avança tortuosa como um rio, repressão aumenta a reação, a violência gera a violência e, em
por impulso e contraimpulso, por ação e reação entre as duas última análise, o mal só pode ser combatido com o sistema da
partes contrárias, que, assim, acreditando eliminar uma a outra, não-reação, somente pode ser verdadeiramente vencido, se o
colaboram substancialmente na mesma direção, que é dada pela neutralizamos com igual medida de bem. Muitos abusos e de-
evolução. Os dois grupos opostos influenciam-se mutuamente. litos nascem, frequentemente, de um abuso e delito maior, da-
Logo que um progrida um pouco, o outro recebe e assimila os do por não reconhecer nos dominados os direitos que os do-
benefícios, civiliza-se, abranda seus costumes, obedece com um minadores reconhecem para si mesmos. Os princípios superio-
pouco mais de consciência e conhecimento, mais espontanea- res da ética são tão mais difíceis de serem aplicados quanto
mente convencido, porque experimentou as vantagens de viver mais poderoso e ativo é o sistema de luta que vigora no ambi-
na ordem. São a luz e a bondade que começam a chegar, des- ente ao qual eles são trazidos.
mantelando aos poucos o castelo das coações e sanções, duro A humanidade futura será mais inteligente e compreenderá
ônus que pesa sobre todos e do qual agora é possível começar a a enorme vantagem de se comportar de modo diferente. No
libertar-se, porque cada vez se torna menos necessário. Isto fundo, os conceitos de moral e evolução coincidem, assim co-
permite aos dirigentes a mitigação das penas – o que antes não mo os de antimoral e involução. Ao evoluir, o indivíduo se tor-
se podia fazer sem prejuízo destes, que teriam qualquer ato de na espontaneamente moral, assim como, ao involuir, ele se tor-
bondade interpretado como sinal de fraqueza e autorização à na antimoral. Por natureza, o evoluído é mais moral que o invo-
devassidão – e o abandono cada vez maior do método psicoló- luído. Moral é evoluir. Antimoral é involuir, assim como tam-
gico de imposição pelo terror, indispensável para disciplinar se- bém é antimoral viver uma vida estéril, que nada produz de
res rebeldes e ferozes. A ideia do inferno não foi criação de um bom nem para si nem para os outros. Moral lógica e utilitária,
grupo sacerdotal, mas uma necessidade psicológica, imposta baseada no utilitarismo da vida, que não é superficial nem mío-
pelo estado de involução em que se achava o homem no passa- pe para buscar efeitos imediatos, mas sim profundo e de longo
do. Sem esse terror, hoje inaceitável, o edifício ético, em virtu- alcance, substancialmente frutífero. Definimos a dor como um
de de sua estrutura mental, teria caído na anarquia. Mas é lógi- estado de desarmonia, devido à própria posição de desordem.
co que tudo isso deva ir desaparecendo automaticamente, sem Com efeito, a dor deriva da desordem, que leva os indivíduos à
danos, logo que o homem, civilizando-se mais, o permita. luta, fazendo-os chocar-se uns contra os outros. É lógico, pois,
Caminho lento, gradual e difícil, mas fatal. Sem dúvida, os que a dor tenda a desaparecer com a evolução, porquanto a evo-
dirigentes, por causa da natureza de seus súditos, têm necessi- lução leva à ordem e a ordem, por sua vez, pacifica os indiví-
dade de se defender e não podem abandonar-se a excessivos duos, fazendo-os caminhar disciplinadamente, cada um seguin-
atos de bondade, sem que haja inversão da ordem desejada pe- do seu trajeto, sem se chocar com o vizinho, ofendendo-o.
la lei ética, o que se tornaria antiético, porque impediria a vida Assim como a fera que, ao evoluir, torna-se menos feroz e
de atingir seus objetivos. Para o involuído, a ética precisa estar perde as garras, ou seja, assim como a evolução realiza uma
armada de chicote, pois só assim pode levá-lo ao bem. Mas progressiva eliminação da luta pela vida, também a moral, à
não restam dúvidas de que o dever da iniciativa dos melhora- proporção que evolui, torna-se menos opressora, menos aterra-
mentos cabe à classe dos dirigentes (extinção da pena de mor- dora, menos armada de duros castigos. Com a evolução, tudo
48 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
tende à harmonia, à alegria, à bondade. O homem torna-se mais de um consentimento instintivo do subconsciente, que represen-
livre e, ao mesmo tempo, adquire maior sentido de responsabi- ta a parte mais involuída, o lado animal do ser humano. São es-
lidade. Quem quiser subir aproveitará depois as vantagens. tas as forças que, através dos fatos, tendem a dirigir a atividade
Quem não quiser subir permanecerá em seu nível de vida, com humana e com as quais a ética tem de contar, pagando o seu
todos os males inerentes a ela. Em substância, a nova moral diz tributo, ainda que, na teoria, ela pretenda justificar-se, procla-
apenas: civilizai-vos e vivereis muito melhor. E, se agrada a to- mando-se consequência e aplicação de princípios absolutos e
dos viver melhor, é lógico que, descoberta a estrada para atingir afirmando ser praticada em nome de Deus e dos mais altos ide-
esta condição, seja considerado conveniente submeter-se ao es- ais. A realidade positiva que aparece nos fatos é a satisfação do
forço indispensável para percorrê-la. A ética atualmente em vi- imperativo dos interesses da vida, que quer atingir sua finalida-
gor na prática, embora teoricamente bela, é torcida pelos instin- de. Constrói-se, assim, o castelo da ética sobre bases escusas,
tos elementares, cheia de trasbordamentos do subconsciente e que se enterram nas vísceras do mundo biológico e que pouca
de ilusões psicológicas devidas a perspectivas erradas, produzi- afinidade tem com abstrações lógicas e teológicas, onde a ética
das pela forma mental que dirige o homem em seu atual plano pretende fundamentar-se para assumir valor absoluto, acima de
de vida. Moral em que reaparece a cada passo, nos fatos, o cál- nosso contingente. Assim como o homem construiu para si uma
culo do próprio interesse, o medo do patrão, o desejo de evitá- ideia toda antropomórfica da Divindade, para seu uso e consu-
lo, enganando-o com escapatórias, o contínuo sentido de luta mo, e assim como se colocou na posição de único objetivo da
para tornar-se o mais forte e assim vencer a todos. criação, num planeta que estava no centro do universo, em fun-
Esse triste estado deve ser abandonado e superado com ção de valores considerados absolutos – como, por exemplo, a
formas de vida mais altas e felizes. Não mais tantas condena- imobilidade da Terra e a solidez da matéria – do mesmo modo
ções, que sufocam a vida, mas esforços inteligentes para me- o homem também construiu para si uma ética com base em ilu-
lhorar, andando ao encontro dela. Uma moral amiga, que nos sões psicológicas, que a observação acurada das mentes mais
levará ao bem, querendo-nos bem, e não uma moral inimiga, adiantadas vai gradualmente desfazendo através da análise, à
em que o instinto humano de luta e agressão encontra desafo- proporção que, evoluindo, a inteligência humana se abre.
go. É preciso afastar-se cada vez mais dos grandes absurdos e Justifica-se essa forma mental, responsável pelo conceito
aberrações do passado, como as guerras santas, as inquisições, de verdade absoluta, através do desejo instintivo de atingir a
os infernos eternos, a benção das armas e as condenações em última meta do conhecimento. Acredita-se assim atingi-la e
nome de Deus, bem como de toda coação espiritual que leva à possuí-la, enquanto, para o homem situado no futuro, só são
aceitação forçada, como substituto da aceitação espontânea, possíveis verdades relativas e em evolução. E, de fato, é isto o
por convicção. Uma moral fraterna e pacífica, de onde desapa- que a realidade nos mostra, apesar das mais absolutas e dog-
receu a luta. Moral em que, sendo tudo lógico e claro, não po- máticas afirmações em contrário. Diante do transformismo
de aparecer a mentira, porque é contraproducente. Para elimi- universal, a que nenhum ser pode escapar, porque está imerso
nar todos esses efeitos ruins, é mister eliminar as causas. Não no fenômeno da evolução, o absoluto imutável só é admissível
se trata de uma moral para uso dos vencedores, em detrimento como distante meta final, ainda não tocada e só atingível no
dos vencidos, mas de uma moral de justiça, em que há lugar término do processo evolutivo. Até que seja alcançado esse
para os direitos e a vida de todos. Então a classe dos rebeldes à ponto – tão distante, que escapa à avaliação de nosso concebí-
ordem social não tem mais razão de existir, desaparecendo es- vel – só podemos admitir para o ser uma progressiva sucessão
sa praga, essa luta e esse perigo. Mas, enquanto dominar uma de diversas aproximações da verdade, como etapas da contínua
moral de classe, ao invés de uma moral biológica imparcial, a conquista do conhecimento. A ética é apenas um dos aspectos
humanidade terá de continuar a luta e não poderá purificar-se dessa verdade e, como tal, também só pode ser relativa e em
de seus elementos mais daninhos. evolução. Eis então que a ética, como o conhecimento e tudo o
Estas são as regras do jogo, e não podemos sair delas. Se mais, é dada pela posição que o homem atingiu ao longo da
semearmos justiça, colheremos ordem e paz, mas, se semearmos escala da evolução e existe em função desta, ou seja, do grau
injustiça, só poderemos colher revolta e mentira. Se, no próxi- de desenvolvimento alcançado, o que estabelece, em todos os
mo, quisermos enganar a vida, a vida, através do próximo, nos campos, os limites do concebível humano.
enganará. Esta é uma realidade à qual não podemos escapar, Surge então, na Terra, a possibilidade de existirem diversas
mesmo se fizermos tudo em nome de Deus, da pátria, de um éticas, relativas ao grau de evolução atingido. É verdade que a
ideal ou do bem da humanidade. Esta é a verdade a que tudo se maioria estabelece um nível médio proporcional à sua sensibi-
reduz, para além dos esquemas filosóficos, religiosos, ideais e lidade e compreensão, adaptado às massas, que nele se encon-
sociais. As aparências não contam. Se não formos sinceros, te- tram à vontade. Mas é também verdade que os mais evoluídos
remos mentira; se oprimirmos, teremos revolta; se não souber- podem considerar essa ética como altamente imoral, já que ela
mos mandar para o bem alheio, não obteremos obediência. encara como lícito e natural o que a eles pode parecer até
◘ ◘ ◘ mesmo um crime. A moral dos selvagens atinge a antropofa-
O ponto fraco da moral vigente é sempre permanecer imersa gia. A moral do homem civilizado admitiu, até há pouco tem-
no plano da luta, ser uma expressão dela e existir em função de- po, a escravidão e ainda admite, em vários casos, o direito de
la, permanecendo assim moral de involuídos. A causa primeira matar o seu semelhante. Quanto mais civilizado é o ser, mais
dos males daí derivados é o princípio do mais forte, que domina ilícitas são muitas coisas permitidas pela moral comum, e
nesse plano e gera fatalmente à derrota. Segundo esse princípio, quanto mais evoluído é, mais horrorizado ele fica com os atos
a verdade é estabelecida pela maioria, com suas ideias, para sa- que seus semelhantes, sem nenhum sentimento de culpa, prati-
tisfazer a seus instintos e interesses. Cabe-lhe esse direito, por- cam, mas que, para ele, seriam inadmissíveis. Em relação a es-
que ela é numericamente mais forte. Mas quais são as ideias da se tipo biológico evoluído, poderia então ser feita uma lista de
maioria, que certamente não pode representar uma elite seleci- crimes que a ética comum, tanto religiosa como civil, admite
onada? São aquelas correspondentes aos impulsos mais elemen- tranquilamente, sem perceber a sua atrocidade, com a mesma
tares da vida. E é a essa altura, própria dos involuídos, que os ingenuidade – em proporção – que o antropófago devora o seu
evoluídos são constrangidos a se nivelar. Então, mesmo que a inimigo. Vejamos alguns desses casos.
verdade possa descer do Alto pela revelação, o que a humani- 1) Julgarmos não em função da justiça, imparcialmente,
dade aceita, aplica e vive é estabelecido pelos limites impostos mas em função da força de que o julgado dispõe, seja em posi-
pela capacidade de compreensão das massas, incapaz de ir além ção social, poder econômico, capacidades bélicas etc., chegan-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 49
do assim a uma justiça que funciona de modo exemplar apenas quiser e não percebe que a cada movimento seu corresponde
para o faminto e inerme ladrão de pão ou de galinhas. uma inexorável reação. Assim, o homem faz o que bem enten-
2) Julgarmos e condenarmos o próximo sem conhecer suas de, mas a Lei é um sensibilíssimo organismo de forças que, à
condições reais e só em função deles mesmos. Sermos toleran- mínima violação de sua ordem, responde com um proporciona-
tes quando encontramos nos outros os nossos próprios defeitos, do e adequado contragolpe, colocando assim cada coisa em seu
pelos quais também nós poderíamos ser condenados primeiro, lugar, de acordo com a justiça. Essas forças são como tentácu-
se os condenássemos. Tornarmo-nos impiedosamente intransi- los que atingem quem errou contra a Lei, sem possibilidade de
gentes e modelos de virtude, quando nos outros podemos apon- fuga, em qualquer tempo ou lugar que ele se encontre. O ho-
tar defeitos que não temos, pelos quais, portanto, não podemos mem, acreditando-se totalmente livre, está imerso nessa atmos-
ser alvo do retorno da acusação. fera de ordem imposta pela Lei. Ele faz parte desse organismo
3) Servirmo-nos das altas coisas do espírito e de Deus co- de forças que o vincula de todos os lados e, nele, precisa saber
mo meio para alcançar vantagens materiais, a fim de vencer manobrar com sábia retidão, se não quiser depois ser coagido a
na vida e nos afirmarmos no mundo, prostituindo-as até fazer suportar tremendos contragolpes como reação da Lei.
delas instrumento de astúcia de guerra. Em outros termos, É justamente nesse ambiente – de cuja verdadeira natureza o
servirmo-nos da política para satisfazer o próprio orgulho ou homem não pode tomar conhecimento devido à sua ignorância –
para nos tornarmos uma potência social e econômica, e não que o homem gosta de se mover segundo seus loucos caprichos,
para ajudar a nação; servirmo-nos da religião para assegurar perseguindo as miragens do dominador que pretende impor-se a
uma posição, e não para cumprir a missão de levar o bem às tudo. É fácil imaginar que dilúvio de dores daí resulte. E é isso
almas; trairmos os princípios que dizemos professar, usando- que de fato vemos acontecer no mundo. É como se um aviador
os para outros fins, enganando a respeito dos verdadeiros mé- quisesse voar sem conhecer nem respeitar as leis da aerodinâmi-
todos de vida, bem camuflados sob um belo manto de hipocri- ca, pretendendo, ao contrário, impor-se a elas, para dobrá-las,
sia, e praticando na realidade, sob tão belas aparências, o jogo obrigando-as a funcionar segundo a sua vontade. O resultado ló-
duplo do Maquiavelismo. gico seria, ao invés de mudar estas leis, o aviador cair ao solo,
4) Segundo a moral em vigor, é lícito vivermos no desper- pagando as consequências fatais de sua louca pretensão. Qual-
dício do supérfluo, enquanto outros nossos semelhantes care- quer técnico que conheça aquelas leis poderia matematicamente
cem do estritamente necessário, assim como é lícito entrarmos explicar-lhe a lógica das necessárias consequências.
na posse de bens que não foram ganhos com o próprio trabalho. As primeiras características do involuído são a sua ignorân-
5) É lícito roubarmos, quando damos com isto prova de cia e o seu instinto de revolta, de modo que, aumentando essas
uma inteligência que sabe enganar a justiça estabelecida pelas qualidades com a involução, aumenta proporcionalmente a for-
leis. Saber escapar astuciosamente aos castigos, pode até mere- ça dos golpes recebidos. Mas é justamente desses golpes maio-
cer como prêmio a velada estima da opinião pública, que não a res que a insensibilidade maior do involuído precisa para
regateia a quem saiba vencer e tornar-se poderoso. Este, então, aprender a conhecer a Lei e, assim, não ofendê-la com a própria
passa a ser incondicionalmente admirado só por isso, sendo re- revolta. Os meios para educar são enérgicos na medida adapta-
legados ao esquecimento os meios utilizados, uma vez que os da à capacidade perceptiva dos alunos. Estes podem semear a
resultados atingidos são tão brilhantes e invejados. desordem que quiserem, mas só para si, tendo depois de pagar
6) É lícito, com a benção de Deus e as honras da pátria, ma- os prejuízos à própria custa. Ninguém pode impedir que tudo
tarmos, quando isto corresponde aos interesses do próprio país esteja proporcionado e em perfeita ordem na Lei.
ou dos detentores do poder. Aos maiores carrascos da humani- O objetivo da escola da dor é ensinar o ser a obedecer a Lei e
dade, que realizaram as maiores matanças bélicas, foram tribu- a saber movimentar-se seguindo sua ordem, para não se chocar
tadas as maiores honras da história. com ela, provocando suas reações. Todavia o homem é um re-
A lista poderia continuar. Estes são alguns dos delitos que, belde por natureza. Julga-se honrado e sábio, quando sabe im-
na realidade, a ética humana atual reconhece como lícitos, em- por-se a todos, e se gaba da arte de violar as leis, conseguindo
bora os condene teoricamente. São delitos que qualquer um po- depois escapar às suas reações. Entre o involuído e a Lei estabe-
de tranquilamente cometer, continuando pessoa de bem e cida- lece-se assim, em vez de um regime de consentimento e harmo-
dão estimado na sociedade, como bom cristão, a quem as reli- nia, uma espécie de duelo, onde o homem desejaria superar a
giões prometem o paraíso. Assim, a maioria cria a própria ética, Lei, a qual lhe aparece não como uma norma para sua felicidade,
satisfazendo seus instintos, aos quais obedece de boa fé, acredi- mas sim como um inimigo que deva ser dobrado e enganado.
tando permanecer na verdade e na justiça. Não tendo atingido Acredita que, desta forma, dá prova de inteligência, usando de
ainda um nível evolutivo suficiente para perceber o que está fa- astúcia ao querer, nas barbas de Deus, lograr os homens. Trágico
zendo, a pessoa se julga honesta e sincera. Nada mais se pode mal-entendido, que escancara as portas à dor, reação necessária
fazer, então, senão repetir com Cristo: “Perdoa-lhes, porque não para corrigir esse erro. A Lei não é um obstáculo que valha a
sabem o que fazem”. E, para compreender o comportamento pena superar com bravura, mas um guia amigo, cuja vontade é
desses seres, temos de raciocinar com a inteligência da vida, nos levar à felicidade, a qual procuramos destruir quando nos
que os faz movimentarem-se por meio desses instintos, sem que rebelamos contra a Lei. Com a desobediência, semeamos dor
eles saibam o porquê. Eis que aparece então, além da ética pre- onde a Lei, se fosse obedecida, faria nascer alegria.
gada e teoricamente professada – artificiosa construção do pen- É assim que, através dos oceanos de todos os sofrimentos,
samento – esta outra moral biológica e realística, em que a vida o homem aprende a conhecer os artigos da Lei. É assim que,
impõe as férreas leis de seu plano de evolução. pagando pela desobediência, aprende-se a arte de obedecer.
Esta moral biológica pode parecer mais livre, pois permite Desse modo, a Lei, duplamente sábia, compensa a loucura do
muitas coisas que são proibidas, como as citadas acima, mas homem, impelindo-o, apesar de tudo, a realizar a própria evo-
nem por isso é menos dura. Justamente porque mais involuída, lução. E, quanto mais o homem, na sua luta contra a Lei, pro-
está armada com reações férreas, para manter na linha o involu- cura escapatórias para fugir de seu castigo, tanto mais esta o
ído, menos sensibilizado. O homem comum se sente livre e, por chicoteia, para trazê-lo à sua ordem. O jogo que vale para as
isso, acredita que lhe seja permitido realizar impunemente leis humanas, as quais é possível enganar, não vale para a lei
qualquer desejo, não imaginando que vive constrangido nas de Deus, que não se pode lograr. Nossa ignorância pode ser
malhas de uma rede de ferro, estabelecida pela Lei. Como esta grande o bastante para nos fazer crer que isto seja possível,
lhe deixa liberdade de ação, ele acredita que possa fazer o que mas não muda a realidade dos fatos. Quando julgamos que fo-
50 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
mos mesmo sabidos, conseguindo burlar a Lei e escapar de su- funcionar de forma mais adiantada. Na realidade, não há ne-
as sanções, explode a sua reação maior, com a tempestade cor- nhuma vantagem em ser involuído, e quem não sabe viver me-
retiva. Aprende-se, então, a lição mais salutar, na qual se ensi- lhor merece compaixão pela sua desgraça. Ninguém mais do
na que o erro maior, pelo qual se paga mais caro, é justamente que o ignorante é vítima, pois, acreditando mandar, é obrigado
julgar ser possível, com a força, impor-se à Lei e, com a astú- a obedecer a leis que não conhece. Não é a eles mas apenas ao
cia, escapar das consequências da desobediência. evoluído consciente que se pode pedir para compreender o me-
As estradas de fuga abrem-se diante de nossos olhos, am- canismo de seus instintos e reações, que são a chave de seu
plas e convidativas. Os ingênuos acreditam que fizeram a comportamento e constituem a sua íntima e verdadeira moral.
grande descoberta e encontraram os atalhos da felicidade. Lan- Esta é a moral que o ser percebe e é levado a viver, não lhe im-
çam-se a eles aos montões, como moscas ao mel. Que convite: portando qual seja a moral oficial que, por outros motivos so-
ganhar a bom preço e com pequeno esforço! Como resistir a brepostos, teve de aprender a representar, formalmente, na prá-
isso? Mas a Lei é justa e não admite a possibilidade de se obter tica. Só assim é possível compreender o verdadeiro jogo da vi-
uma vantagem que não seja conquistada e merecida. Essas so- da, que, de modo geral, é duplo, pois a primeira coisa ensinada
luções cômodas são pura ilusão. Esses caminhos fáceis, que pelo instinto ao involuído – obrigado a viver sempre em regime
parecem conduzir à felicidade, são labirintos sem saída, becos de guerra – é a necessidade de esconder suas próprias e verda-
cheios de dor, e, para sair deles, é mister caminhar para trás, deiras intenções, como ensina o Maquiavelismo, a fim de pare-
engolindo o erro e tornando a percorrer a íngreme subida por cer sincero e honesto, mas sem o ser de fato.
todo o caminho percorrido na descida fácil. Assim, o sistema da luta – índice que estabelece segura-
Há uma estrada que não engana e verdadeiramente resolve o mente a inferioridade do plano evolutivo humano – em vez de
problema, sem nos trazer sofrimentos. Mas, por ser pequena, ser eliminado pela ética, para dar lugar a um regime de justiça,
estreita e lateral, ninguém lhe dá importância. Não atrai os ca- como se presume, é apenas escondido nos subterrâneos da vi-
çadores de vitórias fáceis, porque é íngreme e incômoda. Ter- da, onde a luta continua mais exacerbada que nunca, em forma
mina numa passagem muito estreita, e, para atravessá-la, é pre- mais sutil e astuta, mas nem por isso menos feroz. Esta é a
ciso estar nu, sem nenhuma roupagem de mentiras, despido dos verdadeira ética com a qual é preciso, em última análise, fazer
enfeites das coisas terrenas, sutil e leve, espiritualizado e livre as contas. É ela que rege o mundo e constitui a substância de
do peso da matéria. Esta estrada é a honestidade. Só passam por todos os problemas. Enquanto a ética pregada permanece no
ela os justos, os sinceros, os obedientes à Lei. Por aí, seria pos- campo teórico e, ainda que elevada, não lesa interesses concre-
sível seguir sem se chocar com as reações da Lei, mas é difícil, tos, causando aborrecimentos e implicando em custos, ela é
e ninguém pensa nisso. Para consegui-lo, são necessárias quali- respeitada. Por isso pôde formar-se e dominar uma ética feita
dades que não se tem e que são duras de conquistar, requerendo de altas teorias e belas práticas, sem tocar, porém, na substân-
esforços que não são agradáveis fazer. Por isso ninguém olha cia da vida, porque aí a coisa muda de figura e a luta recrudes-
para esse lado, onde, no entanto, está o caminho para se livrar ce. Tão logo a ética queira tocar na realidade dos interesses
de todos os sofrimentos. Então são preferidas as outras estradas, tangíveis, sentidos por todos, afloram então aqueles instintos,
amplas e convidativas, mesmo que depois não conduzam, como que são na prática, acima das belas aparências, as verdadeiras
é lógico, senão ao engano. Está de acordo com a Lei e é justo verdades da vida. Acaba então o jogo das belas palavras e che-
que seja enganado quem quer enganar e seja logrado quem se ga-se aos fatos. Se aparece um interesse ou um prejuízo con-
vanglorie de saber lograr. Fala-se depois que a vida é ilusão. creto, toca-se na realidade da vida, que reage, fazendo surgir o
Mas esta foi desejada pela psicologia da astúcia, que ilude pri- verdadeiro jogo. O outro jogo, de belas teorias e exterioridades
meiro quem acreditou poder iludir a Lei. formais, pode continuar imperturbável, pois todos sabem que
Quando, depois, por obra de seres mais adiantados, desce do não é o verdadeiro. Mas, se tocarem no ventre e no sexo, nos
Alto uma ética com uma norma de conduta que nos leva a evi- bens e nas satisfações materiais, todos compreenderão que se
tar esses males, mesmo assim o homem, como fazia com a Lei, age seriamente. São estes, e não os do conhecimento, os gran-
procura todas as escapatórias para lográ-la. O involuído primi- des problemas do subconsciente das massas, aqueles segundo
tivo não sabe responder de outra forma. Quando, por imaturi- os quais caminham as correntes da psicologia coletiva e dos
dade evolutiva, falta a consciência das próprias ações, a ética quais mais se ocupa o pensamento da maioria, que estabelece a
poderá impor normas mecânicas e exteriores, mas não poderá verdade dominante. Só quando, além das palavras e práticas
improvisar essa consciência. Nesse nível, a ética se reduz, en- convencionais, soubermos ver esse outro recôndito pensamen-
tão, à prática formal daquelas normas, e o indivíduo, realizan- to escondido entre as dobras da aparência, poderemos então
do-as, sente-se tranquilo em sua consciência, convencido de compreender a verdadeira natureza do jogo da vida e da ética,
que nada mais se deva nem se possa fazer. Não se pode exigir enxergando assim a real razão das ações humanas.
nesta condição mais que esse cumprimento formal, porquanto A ética do mundo faz muita questão de diferenciar um gru-
falta a sensibilidade necessária para se perceber o peso das coi- po do outro, seja por fé, religião, partido etc., mas sem distin-
sas espirituais, que os imaturos, para chegar a percebê-las, re- guir honestos de desonestos, onde quer que estejam. Isto justa-
vestem de formas materiais, para tentar segurá-las nesta forma, mente porque o maior interesse destes últimos, que são os mais
dando-lhes corpo concreto, porque de outro modo ficariam ina- espertos, é permanecer misturados em todos os grupos com os
tingíveis, perdidas no mundo do superconcebível. É assim que honestos, que são os mais fáceis de serem subjugados.
se pode chegar a uma ética formal exterior, que os involuídos Assim, sob outras aparências, pode-se fazer o verdadeiro
praticam de perfeita boa-fé, julgando-a uma ética de substância, jogo da vida, que é vencer na luta, e aplicar a verdadeira ética
que não pode, no entanto, deixar de aparecer aos olhos do evo- vivida, a ética de guerra, pela qual os mais fortes e astutos po-
luído como uma mentira e uma traição de princípios. Não se dem atingir os altos postos, dominando os mais fracos e sim-
pode, porém, culpar ninguém, porque ninguém pode dar o que ples. Eis a verdadeira ética que vigora sob as aparências da mo-
não tem, nem ser mais do que é. Não se pode exprobrar a planta ral oficial, ética que oferece a palma do vencedor a quem sou-
de ser planta, o animal de ser animal, nem qualquer outra cria- ber fazer o jogo da vida às expensas de quem não sabe fazê-lo.
tura de só saber existir conforme as qualidades que possui. A Essa é a verdadeira face da verdade na Terra. O honesto pa-
condenação ou o prêmio cada um o traz em si, com a própria ga todas as despesas, o que parece injustiça. Mas nem tudo aca-
inferioridade ou com a própria superioridade. Não se pode cul- ba aí. Os melhores são expulsos do ambiente da Terra, o que
par os involuídos pelo fato de, no seu nível, a vida não saber constitui, em última análise, uma grande vantagem para eles,
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 51
pois lhes permite tornarem-se cidadãos de mundos mais evoluí- como se presume que sejam na realidade – isto é, se forem ver-
dos, enquanto os piores, que se acreditam vencedores, continu- dadeiramente bons e honestos – são rapidamente liquidados.
am empilhados no pântano terrestre, para agredir-se mutuamen- Quaisquer que sejam os princípios teoricamente proclamados, a
te, segundo seu instinto de luta, fazendo assim, com as próprias lei em vigor, na prática, é dada pela luta de ataque e defesa, se-
mãos, o seu inferno. Saber triunfar no mundo, pela força ou pe- gundo a qual a reação do indivíduo contra qualquer autoridade
la astúcia, é, na verdade, o maior prejuízo, porque significa fa- pode ser explicada pelo instinto de legítima defesa, provocada
zer parte de planos inferiores de vida e ser condenado a perma- pela ação de quem, tendo em mãos o poder, costuma usá-lo pa-
necer aí, suportando todos os seus males Eis que, em última ra vantagem própria ou da classe, e não como uma função soci-
análise, quem vence na vida é a justiça de Deus, pela qual cada al para o bem de todos. Jamais se poderá impedir que a vida
um volta segundo o seu lugar e merecimento. Quem acredita reaja em defesa própria ao sentir-se atacada em qualquer ser.
que alcançará uma situação melhor por seguir vias transversas, Reaparecem aqui os conceitos, já desenvolvidos, da reciproci-
na realidade atinge uma condição pior. Quem pratica o mal, dade das posições entre autoridade e dependentes, que não po-
acreditando com isso vencer, faz na realidade mal a si mesmo e dem deixar de influenciar-se mutuamente, e o da impossibili-
perde, devendo ainda por cima pagar o próprio dano. Só a igno- dade de se alegar direitos, sem se ter antes cumprido todos os
rância pode levá-lo a acreditar que seja possível o tamanho ab- próprios deveres em relação àqueles de quem se reclama. Mas
surdo de Deus ser derrotado, fazendo o involuído julgar débil se estes conceitos pertencem à nova moral, a atual ainda se
Sua lei de justiça e concluir que Ele possa ser vencido pela pre- move num terreno de luta. Então as condenadas acomodações,
potência e pela astúcia da criatura. que escandalizam porque propiciam o não-cumprimento dos
◘ ◘ ◘ deveres, podem aparecer-nos sob uma luz diferente e ser justi-
A pior moral é não acreditar no que se prega e, consequen- ficadas diante da sabedoria da vida, que as permite. Isto acon-
temente, não o praticar. Com isto tentamos enganar a Deus, in- tece, então, porque elas cumprem biologicamente uma função
correndo em culpa e acarretando prejuízo para nós mesmos. A útil, isto é, tornar possível uma convivência relativamente pa-
hipocrisia é a pior conclusão de todas as morais. Então os mes- cífica num ambiente de lutas, condição utilíssima, com a qual
tres ensinam e os discípulos ouvem, mas, na realidade, tudo se se dá tempo para que o novo seja assimilado e a evolução pos-
faz por outras razões. Pode-se formar um acordo tácito, porque sa amadurecer, a fim de subir mais um pouco.
ambas as partes sabem que a vida é outra coisa. Os primeiros Contra todas as morais, persiste o fato de que a vida humana
partem o pão da verdade, os segundos o aceitam conforme as é um contínuo estado de guerra. Este é o estado normal, ao pas-
regras estabelecidas, e tudo fica na mesma. Respeita-se a tradi- so que a paz constituí os intervalos necessários para preparar
ção e acredita-se no que se deve, cumprindo-se as práticas re- outra guerra. O que mais liga os homens na amizade, a força de
gulamentares. Que mais se pode exigir? Todos sabem, por ex- coesão que mais os une, é o ódio contra um inimigo comum.
periência própria, que a vida, na realidade, é bem diferente da Então os inimigos se abraçam, mas só para que, unidos, possam
teoria pregada e que, na prática, domina outra verdade, pela vencer o outro. Se a mentira floresce, é porque, na guerra, ela é
qual quem vence não é o melhor, e sim o mais forte. E desta útil. Pode convir mostrar-se bom, porque assim, atraindo a es-
verdade não se fala, porque é muito mais honroso aparentar-se tima e a confiança, torna-se mais fácil, com a veste do cordeiro,
um ser superior, cheio de qualidades nobres. Assim, na Terra, desarmar o próximo, para se obter mais. As virtudes podem
os ideais podem oferecer uma utilidade prática, permitindo tornar-se ótima astúcia de guerra, para enganar e assim vencer o
conciliar as duas exigências opostas, ou seja, salvar o espírito, inimigo. Desse estado, em vez de nascer uma ética única, que
mas continuar a praticar a lei do mundo. irmana e une, surgem duas: uma de agressão e outra de defesa,
A culpa não cabe toda aos dirigentes. Sendo eles a minoria, conforme se pertença à classe dos deserdados ou à dos já pode-
tiveram de se adaptar à maioria, que representa o maior impul- rosos. Cada grupo forja para si a própria moral, segundo seus
so. A massa suporta de má vontade os moralistas, procurando interesses e posição social, mudando essa moral ao mudar sua
expulsá-los, e não os toleraria de modo algum, se eles quises- posição. Há a moral dos vencedores e a dos vencidos, a moral
sem agir de verdade. Durante séculos realizou-se, assim, a se- dos ricos e a dos pobres. Mas estes, quando se tornam ricos e
leção dos que perturbam menos, por terem achado a fórmula penetram nas altas classes sociais, assumem a psicologia delas,
da convivência, resolvendo o difícil problema por meio de seus costumes e a ética respectiva.
acomodações. Mas, ainda assim, isto não constitui toda a cul- Esta luta se desenrola sub-reptícia, escondida sob as aparên-
pa. Mesmo podendo parecer traição de princípios, este é o úni- cias obrigatórias de paz e amor, e é a substância da vida humana
co modo que torna possível certa dose percentual de sua apli- na Terra. A moral, em sentido lato, torna-se um meio para enga-
cação, a qual, em sua totalidade, seria impossível num mundo nar os simples, que acreditam nas aparências. Infelizmente, dado
assim. Desta forma, uma parte da conduta humana está entre- que, no plano humano, a vida tende à seleção do mais forte e as-
gue à hipocrisia. Mas que fazer, se a realidade da vida na Terra tuto, isto não poderá terminar enquanto o biótipo do ingênuo não
está nos antípodas dos ideais? for eliminado. Se, psicologicamente, ele é um fraco, então o que
As próprias religiões partem do princípio de que o mundo é pode fazer a vida – segundo a lógica da lei vigente no nível ter-
composto de pecadores. As leis civis também partem do pres- reno – senão procurar liquidar esse biótipo, já que ele não soube
suposto de desonestidade do cidadão e, ao lado de cada norma, evoluir, conquistando inteligência? Aqui estamos ainda nos pri-
colocam de imediato o castigo pelo não-cumprimento. O ponto meiros degraus desta, e tudo consiste em astúcias de guerra. No
de partida é sempre a presunção de que se trata de um rebelde, entanto é necessário percorrê-los para chegar aos superiores, nos
cuja vontade de desobediência é admitida implicitamente e pre- quais se compreenderá a estupidez da guerra e de suas astúcias.
sumida. Tudo isto é a consequência lógica da lei que vigora no Assim, enquanto os ingênuos não aprenderem, nada mais lhe
plano biológico humano, dada pela luta de todos contra todos, resta senão servir de pedestal aos astutos, que sabem emergir,
com base no ataque e na defesa. Se existem essas pressuposi- escapando às sanções das leis humanas, reservadas apenas aos
ções, é porque a maioria dos indivíduos se constitui efetiva- simples, pois não sabem defender-se. Isto é injusto e horrível.
mente de pecadores e de cidadãos que gostariam de não obede- Mas, dados os princípios segundo os quais funciona a vida no
cer. Estes são, portanto, proporcionais a estes pressupostos e ao plano animal-humano, não podemos ter resultados diferentes.
tratamento decorrente, sendo adequados a tal mundo e selecio- Não se pode negar que seja bela a moral apresentada pelo
nados na arte de defender-se, o que é indispensável à sua so- mundo na vitrine. Em teoria tudo é excelente. Mas seria mis-
brevivência. Isto é provado pelo fato de que estes, se não forem ter que ela conseguisse fazer o homem subir a um plano supe-
52 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
rior de vida, onde essa teoria se tornasse prática. Resta assim O homem se acha numa fase de transição entre a animali-
a realidade biológica, pela qual o homem vive num nível que dade e a espiritualidade. É natural, portanto, que, em seu mun-
não satisfaz o seu ideal. Então, num ambiente de luta, é natu- do, a moral pregada pela teoria, de bondade e justiça, encontre-
ral que os princípios superiores fiquem torcidos e invertidos, se em contraste com a moral praticada de fato, de força e astú-
uma vez que tudo, ou quase tudo, existe nesse ambiente em cia. Com efeito, o que mais se pune é o erro de se deixar apa-
função da luta. Fala-se muito de bens espirituais, mas o que nhar em erro. As leis humanas não punem quem seja hábil o
vale na Terra são os bens materiais, tanto que, para ser com- bastante para não se deixe apanhar. Somente da justiça de
preendido o valor espiritual do homem superior, é necessário Deus, a única verdadeira, não se pode fugir. A justiça humana
que ele seja demonstrado exteriormente pela riqueza de um é uma luta entre legislador e réu, entre acusador e acusado, en-
monumento ou de um templo, se ele morreu, ou pela alta po- tre juiz e julgado e vice-versa, na qual vence o mais forte e o
sição social, se está vivo. Se Cristo aparecesse hoje na Terra, mais hábil. Na prática, o maior valor do indivíduo não consiste
sem nenhum apanágio terreno, talvez ninguém o percebesse. naquilo que é proclamado em teoria, ou seja, em obedecer à
O homem comum carece de um sentido próprio para julgar as lei, mas na habilidade de saber escapar dela. É lógico que, num
coisas superiores e só adquire por imitação o julgamento que ambiente de luta, onde reina o culto da força, a obediência seja
o mandam repetir e que circula pela maioria. fraqueza e a rebeldia constitua valor.
Encerremos este assunto com uma anedota significativa, Como pode uma moral ideal, feita para um mundo orgânico
que resume vários conceitos já expostos. Um missionário que de ordem, ao qual ela quer levar o nosso mundo humano por
se achava na África, para civilizar os selvagens, explicara com meio da evolução, não ser invertida neste, que é um mundo
cuidado a um grupo deles o sentido do bem e do mal, para fazer caótico, feito de competições? Em nosso ambiente humano,
nascer neles o senso moral, base do cristianismo. Para assegu- como no caso do selvagem acima narrado, o bem e o mal são
rar-se de que havia ensinado bem e que tudo tinha sido compre- concebidos apenas em função do próprio eu, ignorando o pró-
endido, tomou à parte um dos mais inteligentes e perguntou- ximo (o bem é a utilidade própria, e o mal o prejuízo próprio),
lhe: “diga-me então o que é o bem e o mal”. enquanto, no plano superior, ao qual pertence a moral oficial, o
O selvagem pensou algum tempo e, depois, formulou cla- bem e o mal são concebidos em função de toda a coletividade,
ramente a sua resposta: “mal é quando o vizinho rouba a minha levando-se em conta o próximo (o bem alheio é a utilidade pró-
vaca”. O missionário aprovou. Sem dúvida, roubar é mal, e o pria, e o prejuízo alheio é o prejuízo próprio). Também o de-
ato é moralmente reprovável. E acrescentou: “E o bem, o que senvolvimento mental, nos dois planos, ocorre em sentido di-
é?”. O selvagem respondeu muito depressa, convictamente: verso. Em nosso mundo, a inteligência mais apreciada é aquela
“Bem é quando eu consigo roubar a vaca do meu vizinho”. que dá fruto imediato na luta, servindo para vencer, e não a es-
Essa resposta seria considerada estupidez pelo homem civi- peculativa, que procura o conhecimento e leva à consciência da
lizado, que certamente não teria respondido assim, porque co- Lei. Quem possui tal consciência é considerado em geral um
nhece o conceito de bem e de mal. Mas por que o civilizado homem simplório, que vive nas nuvens e não conhece a reali-
não a teria dado? Certamente não seria por não estar convenci- dade prática da vida. Esta exige astúcias para resolver os pro-
do, do ponto de vista individual, da completa razão do selva- blemas imediatos, e não a inteligência apta a solucionar os pro-
gem, que assim respondeu apenas porque era um simples e fa- blemas altos e distantes, conhecimento que não oferece nenhu-
lava com a ingenuidade do primitivo, sem saber ainda esconder ma utilidade imediata para a defesa da vida.
o próprio pensamento. A diferença, então, está apenas no fato O estudo de uma moral positiva, racionalmente demonstra-
de que o homem civilizado – a quem agradaria muito fazer co- da, presa aos princípios da vida, não podia deixar de nos reve-
mo o selvagem – já aprendeu a não revelar nada que possa atra- lar também esses seus lados negativos. Tínhamos que analisá-
ir as sanções da lei e a condenação do próximo. Existe uma di- los imparcialmente, para compreender a realidade em toda a
ferença, mas não porque o civilizado pense diversamente do sua amplitude. Fizemos isto para explicar o nosso mundo e
selvagem, tanto que o imitaria de boa-vontade, lesando o pró- compreendê-lo em muitos de seus aspectos, e não para conde-
ximo, se este, organizado em sociedade, não o fizesse pagar por nar, o que é inútil, porquanto não modifica nada e não é útil a
isso, anulando a indiscutível vantagem dessa ação. ninguém, gerando apenas reações. A condenação está em nos-
O utilitarista mais refinado compreendeu que é muito mais sas dores. Neste livro, ao invés dos problemas altos e distantes
fácil buscar o próprio interesse sem mostrá-lo, isto é, encobrindo que tratamos nos outros, estudamos a realidade de nosso mun-
os próprios planos, para não revelar a sua estratégia de guerra. do tal qual é. Não devemos escandalizar-nos com essa realida-
Então a habilidade pode consistir em esconder, e a virtude em de, que tem suas razões biológicas para existir sob essa forma.
falsear, ao invés de dizer a verdade. Nesse caso, a culpa do sel- Cobrir tudo com belas aparências é o que menos serve para cu-
vagem seria a sua ingenuidade, que o civilizado, por não possuí- rar o mal. Ter visto claramente tanto as razões pelas quais tudo
la, não lhe perdoaria, porquanto sempre se está mais pronto a isto existe como a grande vantagem de nos melhorarmos, pode
condenar as culpas que não se tem, do que as que se tem. Esta- ser um meio para nos levar ao bem. Os fatos são fatos. Não
mos num ambiente de luta, e não se pode impedir que tudo exis- podem ser mudados e, mesmo se forem escondidos, não se po-
ta em função dela. É natural que os ideais também sejam utiliza- de impedir que produzam os seus efeitos.
dos para esse fim, sendo transformados num manto de hipocri- Não é esta hora de nos sentarmos à beira da estrada, dan-
sia, para melhor enganar o próximo. Se, na Terra, encontra-se do-nos por vencidos. Certamente a salvação está nas mãos de
tão espalhada a hipocrisia, deve haver uma razão para isto. É Deus, mas o homem deve contribuir com todo o esforço para
que, nesse plano de vida, ela pode ser vantajosa, enquanto, nos a sua salvação. Não devemos concluir com o desencoraja-
planos mais evoluídos, ela não é praticada, porque é contrapro- mento e o pessimismo. Assim como o presente superou o
ducente. Assim, na Terra, a sinceridade pode ser julgada inge- passado, que era pior, também assim um futuro melhor supe-
nuidade de tolo, inábil para a luta. Acontece então que, na práti- rará o presente. Vimos que ninguém jamais poderá deter a
ca, a culpa mais condenada não é a mentira, mas a ingenuidade, grande marcha ascensional da evolução, dirigida aos objeti-
que permite descobrir a mentira; não é ter defeitos, mas não sa- vos supremos. Onde tudo evolui, também a moral não pode
ber escondê-los, mostrando assim o ponto vulnerável, onde se deixar de evoluir. Desse modo, teremos de chegar um dia à
pode ser derrotado. Dado o involuído plano biológico em que is- realização vivida da ética ideal, que hoje luta na Terra para
to ocorre, não se trata de maldade, mas apenas de afloramentos levar o homem a um plano superior de vida, no qual triunfará
do subconsciente animal na luta para sobreviver. a nova civilização do espírito.
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 53
X. REUNIFICAÇÃO UNIVERSAL tante completo, pela vastidão e quantidade dos problemas que
resolve, pela concordância das partes, sempre subordinadas à
O trabalho realizado. Controle e confirmação dos escri- unidade, e também por suas conclusões, que satisfazem as
tos precedentes. Completa-se a visão. Ela satisfaz à mente e exigências da mente e do coração.
ao coração, explicando tudo e apresentando nova finalidade Agora a visão está toda diante de nossos olhos. Respon-
para a vida. A grande marcha da evolução. A reconstrução dendo a uma necessidade lógica, ela nos explica tudo, conven-
da ordem elimina a luta e a dor. A evolução faz do caos um cendo-nos porque está de acordo com os fatos que podemos
sistema orgânico. Paraíso pelo reencontro da harmoniza- observar, mostrando-nos a razão deles. Essa visão não só ilu-
ção. Reunificação universal. A vida em expansão. Muitas mina, satisfazendo o desejo de conhecer, como também reani-
verdades relativas, aspectos de uma só verdade. A visão que ma e conforta, porque é boa e bela. Ela sacia a instintiva ânsia
domina tudo. Termina a grande viagem no seio de Deus. de ordem e justiça e nos dá de Deus um conceito altíssimo, fa-
zendo triunfar a Sua perfeição numa obra perfeita. O grande
Eis que chegamos ao fim deste novo trabalho, de caráter impulso telefinalístico triunfa definitivamente sobre todos os
realístico, tão diferente dos precedentes. Estudamos no volu- esforços e dores do ser, sobre todos os erros e obstáculos, e
me anterior, A Grande Batalha, a propósito de um caso vivi- Deus permanece o eterno imóvel, o princípio e o fim, em torno
do, o significado do Evangelho levado à realidade prática, do qual gira o grande ciclo, que, embora se tenha afastado, vol-
analisando as armas, a estratégia e a vitória de quem o segue, ta a Ele, seu único e supremo fim.
bem como as consequências desse modo de conceber e viver a Não apenas o filósofo ou o teólogo, mas também o biólogo,
vida. Depois, no presente volume, examinamos a posição atu- o geólogo, o paleontólogo, o matemático e o físico nuclear po-
al do catolicismo em relação a tais problemas, os perigos des- derão ver nesta visão um princípio orientador para dirigir suas
sa posição e a possibilidade de salvação. Enfrentamos a seguir pesquisas, embora aceitando-a de início apenas como hipótese
o problema do telefinalismo da evolução. Após haver obser- de trabalho. Eles próprios, fundindo e aprofundando seus estu-
vado a grande batalha entre o Evangelho e o mundo, no caso dos, poderão chegar às mesmas conclusões, revalidando-as. É
particular ali narrado e, em seguida, no caso da Igreja, iremos preciso resolver os enigmas do conhecimento. A mente huma-
vê-la agora em sua última finalidade e conclusão, para a qual na quer saber qual é a meta final de tão longo caminho, qual é
a humanidade, que está caminhando, será conduzida: a espiri- o objetivo último de tanta luta e sofrimento. Se a vida não ca-
tualização. Agora, no fim, traçamos as linhas de uma nova minhasse em direção à espiritualização, para onde iria? Que
moral, que segue os princípios expostos. existe uma meta final, todas as religiões o ensinam, e isto cor-
Com isto, completa-se o quadro e está terminado o assun- responde a um desejo instintivo, além de ser o único fato que
to de A Grande Batalha. Este volume, Evolução e Evangelho, pode justificar o longo trabalho da evolução. Essa visão satis-
quis ser prático, concreto, positivo, para tratar sobretudo dos faz essa nossa ânsia. Ela nos dá do fenômeno vida uma inter-
problemas da Terra, mais próximos a nós. Aqui, predominam pretação que faz, de uma existência miserável, dura, incerta e
pontos de referência diferentes daqueles da maior parte dos insatisfeita, uma experiência criadora, útil e cheia de esperan-
outros volumes. Neste último, os problemas são vistos mais ça. Seria atroz se todo o trabalho terminasse numa ilusão e tan-
em função da realidade vivida por todos do que em relação ta dor fosse uma zombaria. Ao contrário, ela nos garante que
aos princípios gerais, que tudo dirigem; mais em relação aos não estamos mais sozinhos, abandonados nos infinitos espaços
efeitos reais, do que às causas distantes, de onde eles deri- do universo. Assim, nosso apelo de seres vivos e pensantes não
vam. A perspectiva é diferente, mas a visão, embora contem- se perde no silêncio morto do incomensurável vazio, mas é
plada de um ponto de vista diferente, é a mesma. Ao invés de respondido pela voz de infinitas criaturas irmãs, feitas da
olhar as coisas do céu para a Terra, nós as olhamos a partir mesma vida e orientadas para o mesmo Deus. Então, ao nosso
da Terra, em meio às exigências do mundo, imersos em suas apelo responde o amplexo de um Pai que nos ama e nos ajuda
leis, olhando daqui debaixo o céu, como uma coisa distante, a subir, para chegarmos a ser felizes com Ele.
que alcançaremos um dia com a evolução. Assim pudemos A alegria que esta concepção nos traz à alma, a paz que aí
ver os pequenos problemas da Terra, iluminados e justifica- nos deixa, a fé e a esperança com que nos reanima, são provas
dos pelos princípios gerais, e achamos a aplicação lógica des- de sua verdade, que não podemos deixar de sentir. Se o presen-
tes princípios naqueles problemas. Contemplando com uma te é tão baixo e triste, ao longe resplende um radioso futuro,
perspectiva diferente a mesma visão dos princípios gerais que deverá um dia ser alcançado. A consciência desse fato, so-
demonstrados nos outros volumes, fizemos aqui uma aplica- bre o qual tanto insistimos, dá-nos a força de suportar confian-
ção que nos permitiu realizar um novo controle e nos fez temente todas as dores atuais e de realizar o esforço de atraves-
achar, na prática, uma nova confirmação da sua verdade, que sar o deserto de todas as provas, para chegar à terra da promis-
antes podia parecer apenas teórica. Os que ainda duvidavam são, da libertação e da felicidade.
dos conceitos expostos nos volumes A Grande Síntese, Deus O presente é árduo, mas estamos a caminho. Avança sem
e Universo e O Sistema, poderão achar no presente texto uma deter-se a grande marcha da evolução. Adiante, adiante, sempre
espécie de prova experimental das causas que explicam a mais para o Alto. O universo, mais do que apenas um grande
conduta humana e as diretrizes impostas à vida – questões organismo que funciona, é um organismo que se transforma a
nem sempre possíveis de serem explicadas de outra forma – e cada momento, para aperfeiçoar esse seu funcionamento. Atra-
tudo isto num quadro lógico, onde aparecem repostas a mui- vés da presença imanente nele de Deus, o universo é animado
tas perguntas e soluções a muitos problemas. por um contínuo movimento, não apenas espacial mas muito
Este livro também constitui controle e confirmação para a mais profundo, de maturação evolutiva, dirigido com suprema
demonstração prática das teorias já expostas, revalidadas aqui sabedoria para a meta final de salvação.
pelos fatos, que provam corresponder a elas. Assim a visão Tudo o que existe faz parte desse fenômeno e é arrastado
dos volumes A Grande Síntese, Deus e Universo e O Sistema pela sua corrente. Todos estamos aí dentro, sem possibilidade
se completa, enriquecendo-se de pormenores e de provas, em- de evasão. Mas é justamente essa necessidade, esse determi-
bora permanecendo substancialmente a mesma, porque a ver- nismo, que nos obriga a subir, mesmo quando não queremos. E
dade é uma só e não pode mudar. Os três volumes acima cita- isto constitui a nossa salvação, porque desse modo, embora in-
dos mais o presente formam um conjunto que, embora com- diretamente, Deus nos constrange a nos redimirmos, impelindo-
plexo, parece-nos agora (salvo novos desdobramentos) bas- nos a evolver para alcançar nossa própria redenção. Em sua lei,
54 EVOLUÇÃO E EVANGELHO Pietro Ubaldi
que parece desapiedada, a vida é supremamente justa e boa, possui como consequência do próprio grau de evolução, traz,
porque, exigindo nosso esforço, quer tornar-nos fortes para ao dirigir a nossa conduta, consequências importantes sob
vencer, e vencer significa subir, tornar a achar em Deus a feli- forma de alegria ou de dor. Aliás, é lógico e justo que cada um
cidade perdida. Áspero é o caminho em baixo, tanto mais peno- sofra e goze em relação ao grau de evolução que, com os pró-
so quanto mais próximo estamos do Anti-Sistema. Mas ele se prios sofrimentos e esforços, conseguiu atingir.
torna cada vez mais suave, quanto mais o ser se aproxima do Assim avança a grande marcha da evolução. A visão que
Sistema. Então a força que o mantinha em baixo desaparece, nos sustentou através de nossos volumes mostra-nos a mecâ-
vencida pela atração que o eleva para o Alto. Esse é o esforço e nica de seu transformismo e a natureza do último telefinalis-
a sorte de cada um e de todos. Assim caminha a gloriosa epo- mo que dirige todo o vir-a-ser. Essa visão nos diz que tudo é
peia da vida dos mundos, guiada pelo chamado de Deus. disciplinado por uma lei única, dada por um pensamento que,
Na meta final, espera-nos a perfeita harmonia, reconstituí- como luz central, fraciona-se em miríades de reflexos ou as-
da na lei de Deus, que se constitui na relação harmoniosa en- pectos menores, os quais regem as particularidades. Daí as
tre todas as coisas. O ser caiu na dor porque desobedeceu a inumeráveis formas de existência, que, apesar de suas diversi-
essa lei, que é ordem, de onde derivam paz e alegria. Quem dades, não só estão unidas na mesma lei e orientadas ao longo
sai da Lei cai no caos, de onde provém a luta e, portanto, a do mesmo caminho, convergindo para o mesmo centro, Deus,
dor. Mas eis que a evolução nos salva, permitindo-nos, embo- mas também são parentes, porque se constituem da mesma
ra através de provas e esforços, reconstruir a ordem violada substância divina fundamental.
Assim, eliminando aos poucos a desordem, elimina-se tam- É difícil fazer uma representação mental das vertiginosas
bém a luta e a dor. A evolução é um processo de reordena- dimensões do fenômeno, que se estende de galáxia em galáxia
mento e restauração de harmonia das partes que, por se terem e para mais além. Os infinitos momentos em que o todo se
deslocado da posição justa onde estavam colocadas, passaram pulveriza, decompondo-se nas minúcias do pormenor, não
a se chocar dolorosamente umas com as outras. A evolução as fraciona nem lesa a unidade do conjunto, dirigido por uma só
recoloca em seu lugar, sendo um processo de pacificação de lei, impelido por uma só vontade e orientado para o mesmo e
elementos que, antes amigos, tornaram-se depois inimigos. De único fim. Maravilhoso universo, onde os dois polos opostos
um amontoado deles, que caoticamente se agitam e se chocam – o absoluto e o relativo, a imobilidade e o transformismo, a
porque não se entendem, a evolução faz um sistema orgânico, substância espiritual da Lei e a aparência material da forma –
onde eles funcionam concordes em colaboração. O paraíso ainda que pareçam estar em contradição, colaboram. Os dois
perdido a que temos de regressar é constituído pela harmonia extremos estão em antítese, no entanto se compensam, abra-
entre seres que se compreendem e se amam. A evolução tem çados na mesma luta pela redenção.
de realizar esse trabalho de liquidar o separatismo egoísta, a Este universo é todo vivo, todo animado por um princípio
luta, o instinto de agressividade, a desordem, que constituem espiritual, e olha para si mesmo com infinitos olhos, de infi-
o inferno dos planos mais baixos. nitos pontos e de diferentes modos, obtendo várias sensações
Em nosso plano humano, o processo de harmonização e julgamentos, que formam as diferentes verdades relativas,
chegou a criar não só o organismo fisiológico do indivíduo, compondo os infinitos aspectos da mesma e única verdade.
em que as células colaboram na ordem, mas também o grupo Cada um vê apenas o que o cerca, até onde pode, e só com
família e algumas aproximações de grupo, como a cidade, a os olhos que possui. Não apenas pelo que olhamos, mas
nação e a humanidade. O resto, além desses pequenos centros também de acordo com o que somos, tudo pode nos parecer
de reunificação, é caos, desordem e luta. Mas a meta é uma de um modo ou de outro. Então podemos ver o universo co-
reunificação bem mais vasta, envolvendo todos os seres de mo matéria ou como espírito, como forma ou como substân-
todo o universo, até que todos venham a entender-se e a cola- cia, como princípio diretivo ou como atuação concreta. Po-
borar organicamente. A evolução consiste na expansão contí- demos vê-lo como análise, na complexidade de um porme-
nua desses grupos ou centros de ordem, dentro dos quais a lu- nor que se multiplica sem limites, ou como síntese, na sim-
ta – que é a característica do mundo anti-Lei – está eliminada. plicidade de um lampejo instantâneo. Cada um vê tudo se-
Com o crescimento deles, amplia-se também o terreno domi- gundo a forma mental que possui, dada pelo grau de consci-
nado pela ordem, restringindo-se o campo dominado pela de- ência conquistado, e isto até às formas de existência mais
sordem, que é assim, cada vez mais, expulsa dos confins em involuídas, que talvez, por não terem conquistado nada, se-
expansão dos grupos da ordem. E isto até se dar a completa jam totalmente cegas, obedecendo sem saber nada.
eliminação da luta e da dor, portanto da própria desordem, Nenhum ser – só Deus – pode ter a visão total. Esta contém
que as traz consigo. A evolução, assim, realiza a cura mila- todos os extremos, todas as contradições, todas as formas, todas
grosa de todos os males, invertendo-os em bem, para reabsor- as possibilidades. Só ela abarca tudo: o presente, o passado e o
vê-los e levá-los do Anti-Sistema ao Sistema. futuro, a expansão do espaço e a contração do tempo, o nasci-
Desta grande marcha da evolução observamos, especial- mento e a morte das dimensões. Só ela domina a gênese dos
mente na primeira parte, o tratamento que o involuído dá ao mundos, as metas da vida e toda a série dos planos de existên-
evoluído. Estamos hoje numa grande curva do caminho da vi- cia ao longo dos quais o ser, evoluindo, realiza sua grande via-
da. Assim como outrora ela saiu de seu berço das quentes gem de regresso ao ponto de partida, Deus.
águas do mar e se expandiu nas terras emersas, também agora Tudo caminha sem repouso. De forma em forma, o ser via-
ela se expande da Terra, conquistando os espaços estelares. É ja de superação em superação, através de eras milenares, su-
um processo de expansão da vida e dos princípios que a diri- bindo a grande escada da evolução, como peregrino cansado,
gem, pelos quais se dilata também a concepção do ser, que não vergado sob o peso da queda, carga que, no entanto, torna-se
mais vive em função do momento e de seu pequenino eu, mas mais leve a cada degrau galgado. Os gênios criadores, com
em função da eternidade e do universo. O jogo da vida se torna seu tormento, que os outros desconhecem, arrombam as portas
cada vez mais amplo, complexo e de maior alcance, deixando do futuro e abrem sozinhos o novo caminho. As grandes mas-
de abarcar apenas a existência terrena, para estender sua previ- sas, que, devido ao seu estado de involução, não sabem fazer
dência a toda a vida futura. Cada um faz o jogo segundo a am- outra coisa senão imitar, seguem atrás. A cada passo, os olhos
plitude que seus olhos conseguem dominar, mas, quanto maior se abrem para ver melhor, novos horizontes aparecem e as
é a amplitude dominada, mais o ser torna-se livre e feliz. O forças para conquistá-los tornam-se mais poderosas. Das cin-
modo de conceber a vida, derivado da forma mental que se zas das velhas construções sempre surgem novas. O ser apro-
Pietro Ubaldi EVOLUÇÃO E EVANGELHO 55
xima-se cada vez mais de Deus, que sempre mais o penetra e início. O milagre da redenção da queda estará realizado. O es-
sustenta com Sua radiação. forço da subida terá terminado. O relativo, a ilusão e a dor terão
Subir, subir, sempre subir mais em direção à meta! No fim, acabado. O ser terá sofrido e caminhado bastante, mas terá che-
o transformismo cessará, porque a evolução atingirá seu termo. gado. E poderá então, fora do tempo que conta as horas, repou-
Então o tempo não terá passado, porque terá sido apenas uma sar feliz para sempre, no seio de Deus.
variante da eternidade; a morte não terá matado, porque tudo te-
rá ressurgido; a caducidade de todas as coisas nada terá destruí- FIM
do, porque tudo terá voltado a ser indestrutível, como o era no
O MISSIONÁRIO
Vida e Obra de Na primeira semana de setembro de 1931, depois da grande decisão fran-
ciscana, Cristo novamente lhe apareceu e, desta vez, acompanhado de São

Pietro Ubaldi Francisco de Assis. Um à direita e outro à esquerda, fizeram companhia a Pie-
tro Ubaldi durante vinte minutos, em sua caminhada matinal, na estrada de
Colle Umberto. Estava, portanto, confirmada sua posição.
Em 25 de dezembro de 1931, chegou-lhe de improviso a primeira mensa-
(Sinopse) gem, a Mensagem de Natal. Por intuição ele sentiu: estava aí o início de sua
missão. Outras Mensagens surgiram em novas oportunidades. Todas com a
mesma linguagem e conteúdo divino.
O HOMEM No verão de 1932, começou a escrever A Grande Síntese, a qual só termi-
nou em 23 de agosto de 1935, às 23h00min horas (local). Esse livro, com cem
Pietro Ubaldi, filho de Sante Ubaldi e Lavínia Alleori Ubaldi, nasceu em capítulos, escrito em quatro verões sucessivos, foi traduzido para vários idio-
18 de agosto de 1886, às 20:30 horas (local). Ele escolheu os pais e a cidade mas. Somente no Brasil, já alcançou quinze edições. Grandes escritores do
onde iria nascer, Foligno, Província de Perúgia (capital da Úmbria). Foligno fi- mundo inteiro opinaram favoravelmente sobre A Grande Síntese. Ainda outros
ca situada a 18 km de Assis, cidade natal de São Francisco de Assis. Até hoje, compêndios, verdadeiros mananciais de sabedoria cristã, surgiram nos anos se-
as cidades franciscanas guardam o mesmo misticismo legado à Terra pelo guintes, completando os dez volumes escritos na Itália:
grande poverelo de Assis, que viveu para Cristo, renunciando os bens materiais 01) Grandes Mensagens
e os prazeres deste mundo. 02) A Grande Síntese - Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito
Pietro Ubaldi sentiu desde a sua infância uma poderosa inclinação pelo
03) As Noúres - Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento
franciscanismo e pela Boa Nova de Cristo. Não foi compreendido, nem poderia
sê-lo, porque seus pais viviam felizes com a riqueza e com o conforto proporci- 04) Ascese Mística
onado por ela. A Sra. Lavínia era descendente da nobreza italiana, única herdei- 05) História de Um Homem
ra do título e de uma enorme fortuna, inclusive do Palácio Alleori Ubaldi. As- 06) Fragmentos de Pensamento e de Paixão
sim, Pietro Alleori Ubaldi foi educado com os rigores de uma vida palaciana. 07) A Nova Civilização do Terceiro Milênio
Não pode ser fácil a um legítimo franciscano viver num palácio. Naturalmen- 08) Problemas do Futuro
te, ele sentiu-se deslocado naquele ambiente, expatriado de seu mundo espiritual. 09) Ascensões Humanas
A disciplina no palácio, ele aceitou-a facilmente. Todos deveriam seguir a orien- 10) Deus e Universo
tação dos pais e obedecer-lhes em tudo, até na religião. Tinham de ser católicos
Com este último livro, Pietro Ubaldi completou sua visão teológica, além
praticantes dos atos religiosos, realizados na capela da Imaculada Conceição, no
de profundos ensinamentos no campo da ciência e da filosofia. A Grande Sínte-
interior do palácio. Pietro Ubaldi foi sempre obediente aos pais, aos professores, à
se e Deus e Universo formam um tratado teológico completo, que se encontra
família e, em sua vida missionária, a Cristo. Nem todas as obrigações palacianas
ampliado, esclarecido mais pormenorizadamente, em outros volumes escritos
lhe agradavam, mas ele as cumpriu até à sua total libertação. A primeira liberdade
na Itália e no Brasil, a segunda pátria de Ubaldi.
se deu aos cinco anos, quando solicitou de sua mãe que o mandasse à escola, e
O Brasil é a terra escolhida para ser o berço espiritual da nova civiliza-
aquela bondosa senhora atendeu o pedido do filho. A segunda liberdade, verdadei-
ção do Terceiro Milênio. Aqui vivem diferentes povos, irmanados, indepen-
ro desabrochamento espiritual, aconteceu no ginásio, ao ouvir do professor de ci-
dentes de raças ou religiões que professem. Ora, Pietro Ubaldi exerceu um
ência a palavra “evolução”. Outra grande liberdade para o seu espírito foi com a
ministério imparcial e universal, e nenhum país seria tão adaptado à sua mis-
leitura de livros sobre a imortalidade da alma e reencarnação, tornando-se reen-
são quanto a nossa pátria. Por isso o destino quis trazê-lo para cá e aqui com-
carnacionista aos vinte e seis anos. Daí por diante, os dois mundos, material e es-
pletar sua tarefa missionária.
piritual, começaram a fundir-se num só. A vida na Terra não poderia ter outra fi-
Nesta terra do Cruzeiro do Sul, ele esteve em 1951 e realizou dezenas de
nalidade, além daquelas de servir a Cristo e ser útil aos homens.
conferências de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Em oito de dezembro do ano se-
Pietro Ubaldi formou-se em Direito (profissão escolhida pelos pais, mas ja-
guinte, desembarcaram, no porto de Santos, Pietro Ubaldi acompanhado da es-
mais exercida por ele) e Música (oferecimento, também, de seus genitores), fez-se
posa, filha e duas netas (Maria Antonieta e Maria Adelaide), atendendo a um
poliglota, autodidata, falando fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, por-
convite de amigos de São Paulo para vir morar neste imenso país. É oportuno
tuguês e conhecendo bem o latim; mergulhou nas diferentes correntes filosóficas e
lembrar que Ubaldi renunciou aos bens materiais, mas não aos deveres para
religiosas, destacando-se como um grande pensador cristão em pleno Século XX.
com a família, que se tornou pobre porque o administrador, primo de sua espo-
Ele era um homem de uma cultura invejável, o que muito lhe facilitou o cumpri-
sa, dilapidou toda a riqueza entregue a ele para gerencia-la.
mento da missão. A sua tese de formatura na Universidade de Roma foi sobre A
Em 1953, Pietro Ubaldi retornou à sua missão apostolar, continuou a re-
Emigração Transatlântica, Especialmente para o Brasil, muito elogiada pela ban-
cepção dos livros e recebeu a última Mensagem, Mensagem da Nova Era, em
ca examinadora e publicada num volume de 266 páginas pela Editora Ermano
São Vicente, no edifício “Iguaçu”, na Av. Manoel de Nóbrega, 686 – apto. 92.
Loescher Cia. Logo após a defesa dessa tese, o Sr. Sante Ubaldi lhe deu como
Dois anos depois, transferiu-se com a família para o Edifício “Nova Era” (coin-
prêmio uma viagem aos Estados Unidos, durante seis meses.
cidência, nada tem haver com a Mensagem escrita no edifício anterior), Praça
Pietro Ubaldi casou-se com vinte e cinco anos, a conselho dos pais, que es-
22 de janeiro, 531 – apto. 90. Em seu quarto, naquele apartamento, ele comple-
colheram para ele uma jovem rica e bonita, possuidora de muitas virtudes e fina
tou a sua missão. Escreveu em São Vicente a segunda parte da Obra, chamada
educação. Como recompensa pela aceitação da escolha, seu pai transferiu para
brasileira, porque escrita no Brasil, composta por:
o casal um patrimônio igual àquele trazido pela Senhora Maria Antonieta Sol-
11) Profecias
fanelli Ubaldi. Este era, agora, o nome da jovem esposa. O casamento não esta-
va nos planos de Ubaldi, somente justificável porque fazia parte de seu destino. 12) Comentários
Ele girava em torno de outros objetivos: o Evangelho e os ideais franciscanos. 13) Problemas Atuais
Mesmo assim, do casal Maria Antonieta e Pietro Ubaldi nasceram três filhos: 14) O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo
Vicenzina (desencarnada aos dois anos de idade, em 1919), Franco (morto em 15) A Grande Batalha
1942, na Segunda Guerra Mundial) e Agnese (falecida em S. Paulo - 1975). 16) Evolução e Evangelho
Aos poucos, Pietro Ubaldi foi abandonando a riqueza, deixando-a por con- 17) A Lei de Deus
ta do administrador de confiança da família. Após dezesseis anos de enlace ma- 18) A Técnica Funcional da Lei de Deus
trimonial, em 1927, por ocasião da desencarnação de seu pai, ele fez o voto de
19) Queda e Salvação
pobreza, transferindo à família a parte dos bens que lhe pertencia. Aprovando
aquele gesto de amor ao Evangelho, Cristo lhe apareceu. Isso para ele foi a 20) Princípios de Uma Nova Ética
maior confirmação à atitude tão acertada. Em 1931, com 45 anos, Pietro Ubaldi 21) A Descida dos Ideais
assumiu uma nova postura, estarrecedora para seus familiares: a renúncia fran- 22) Um Destino Seguindo Cristo
ciscana. Daquele ano em diante, iria viver com o suor do seu rosto e renunciava 23) Pensamentos
todo o conforto proporcionado pela família e pela riqueza material existente. 24) Cristo
Fez concurso para professor de inglês, foi aprovado e nomeado para o Liceu São Vicente (SP), célula mater. do Brasil, foi a terceira cidade natal de Pie-
Tomaso Campailla, em Módica, Sicilia – região situada no extremo sul da Itália tro Ubaldi. Aquela cidade praiana tem um longo passado na história de nossa
– onde trabalhou somente um ano letivo. Em 1932 fez outro concurso e foi pátria, desde José de Anchieta e Manoel da Nóbrega até o autor de A Grande
transferido para a Escola Média Estadual Otaviano Nelli, em Gúbio, ao norte da Síntese, que viveu ali o seu último período de vinte anos. Pietro Ubaldi, o Men-
Itália, mais próximo da família. Nessa urbe, também franciscana, ele trabalhou sageiro de Cristo, previu o dia e o ano do término de sua Obra, Natal de 1971,
durante vinte anos e fez dela a sua segunda cidade natal, vivendo num quarto com dezesseis anos de antecedência. Ainda profetizou que sua morte acontece-
humilde de uma casa pequena e pobre (pensão do casal Norina-Alfredo Pagani ria logo depois dessa data. Tudo confirmado. Ele desencarnou no hospital São
– Rua del Flurne, 4), situada na encosta da montanha. José, quarto No 5, às 00h30min horas, em 29 de fevereiro de 1972. Saber quan-
A vida de Pietro teve quatro períodos distintos (v. livro Profecias – “Gêne- do vai morrer e esperar com alegria a chegada da irmã morte, é privilégio de
se da II Obra”): dos 5 aos 25 anos  formação; 25 aos 45 anos  maturação in- poucos... O arauto da nova civilização do espírito foi um homem privilegiado.
terior, espiritual, na dor; dos 45 aos 65 anos  Obra Italiana (produção concep- A leitura das obras de Pietro Ubaldi descortina outros horizontes para uma
tual); dos 65 aos 85 anos  Obra Brasileira (realização concreta da missão). nova concepção de vida.