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Público • Sexta-feira 28 Janeiro 2011 • 39

O número de brancos, de nulos e de votos em Coelho mostra que muitos eleitores estão mesmo furiosos

Reflexões a propósito de um dia de fúria

E
ADRIANO MIRANDA
stava frio e soprava um vento cortante
no dia das eleições. Mas não foi a fúria
dos elementos que provocou a fúria dos
eleitores. Ou de muitos eleitores.
A fúria não foi dos que ficaram em casa,
abstendo-se: apesar de tudo, foram votar no domin-
go passado mais portugueses do que nas eleições
José presidenciais de 2001. A fúria teve o seu epicentro
Manuel nos que, indo votar, votaram em branco, votaram
Fernandes nulo ou votaram (sobretudo no continente) José
Manuel Coelho. O resultado verdadeiramente ex-
Extremo traordinário de domingo passado foi, em primeiro
ocidental lugar, o do total de votos brancos e nulos (mais de
277 mil) e, depois, os quase 190 mil votos em José
Manuel Coelho. Ou seja, um equivalente a mais de
metade do número de eleitores que saíram de casa,
enfrentando o frio, o vento e o cartão de cidadão,
para votar em Manuel Alegre, o equivalente a mais
de 10 por cento do total de eleitores, incomodou-
se com o único propósito de depositar na urna um
voto contra todos os candidatos (os votos brancos
e nulos) ou então um voto no candidato que era
contra todos (contra Jardim, contra Sócrates, contra
Cavaco). É obra.
Por que é que isto sucedeu? Por que se bateram
todos os recordes no que respeita aos votos nulos
e votos em branco? E por que conseguiu Coelho a
sua extraordinária votação? Não possuo nenhum
estudo pós-eleitoral, mas arrisco uma resposta: não
ocorreu apenas um fenómeno de desinteresse ou
de não identificação com os candidatos, muitos des-
tes eleitores deram-se ao trabalho de ir votar por-
que estão furiosos e desorientados. Furiosos pelas serão menos seguros. Os salários cia das propostas”, escrevi na altura, escreveria de
promessas quebradas, furiosos por sentirem que a
Era importante, nestes não vão aumentar como aumen- novo hoje.
eleição de domingo pouca coisa ajudaria a resolver. anos que vão ser difíceis, taram. O número de horas de tra- Poderíamos continuar a recuar, mas quem segue
Desorientados porque não percebem para onde vai balho crescerá. O total de anos na a política portuguesa de perto sabe que, no rela-
o país e só vêem a sua vida a andar para trás. que metade de Portugal vida activa também. Acabaremos, cionamento entre as maiorias e as oposições, na

A
não estivesse contra de uma forma ou de outra, a com- transformação de todo o problema numa batalha e
eleição de domingo reforçou a percepção participar as despesas de saúde, numa gritaria, na utilização dos processos próprios
de um país adiado à espera de um outro a outra metade. Que não talvez até as de educação. da dirty politics, há um antes e um depois de José
ciclo. Não apenas de novas eleições: de Era importante que, para reali- Sócrates. Mesmo Santana Lopes faz apenas figura
um ciclo novo.
chegássemos ao ponto zar estas mudanças, metade de Por- de aprendiz de feiticeiro nesta deriva.
Nos próximos meses, o país estará sus- de ter desempregados tugal não estivesse contra a outra A maneira como hoje se debatem ideias ou se
penso dos resultados da execução orçamental – ou metade. Que não chegássemos ao procura chegar a plataformas de entendimento
do que se fizer apresentar como resultado do de- contra empregados, ponto de ter desempregados contra sofreu muito, muitíssimo, com os novos hábitos
ve e haver do Estado. Curto objectivo. Do lado do ou jovens contra velhos. empregados, ou jovens contra ve- políticos dos últimos cinco anos. Não há elogio à
Governo, trata-se de navegar à vista e de assegurar lhos. Ou toda a direita contra toda “combatividade” ou à “coragem” que possa iludir
que a seguir a um dia no poder se segue outro dia Ou toda a direita contra a esquerda. uma tendência para fazer política como um general
no poder. Tudo servirá para que cumpra esse de- Era importante que não se falas- que ordena uma estratégia de “terra queimada” ou
siderato. Do lado do Presidente, Cavaco não apro-
toda a esquerda se apenas de amanhã – cumprir o manda dinamitar todas as pontes. De resto, não se-
veitou a campanha eleitoral para dizer ao país o Orçamento –, mas também do de- rá fácil reaproximar os agentes políticos enquanto
que achava que devia ser feito, pelo que tem um pois de amanhã – retomar o crescimento, um cres- continuar a haver – como denunciou o director de
país tão desorientado agora como tinha antes de cimento que não poderá depender das linhas de um jornal – quem entregue envelopes nas redacções
a campanha começar. Mais: fez o pior discurso de crédito do Governo ou de activismos ministeriais, (várias ao mesmo tempo) para conseguir efeitos
vitória de que há memória, e isso não ajudará a antes radicar num empreendedorismo livre e com eleitorais imediatos.
unir um país que, como a votação comprovou, está gosto pelo risco. Que os entendimentos – entre os É como se houvesse qualquer coisa do ambiente
profundamente dividido. Só do lado da oposição, parceiros sociais ou na Assembleia – tivessem uma corrompido e arruinado de Blade Runner em todos
sobretudo da oposição que pode ser alternativa, não base muito mais ampla do que a imposta pelos ta- os cenários do debate político. Tudo são escom-
há pressa, o que é um bom sinal, parecendo haver ticismos do costume. bros à nossa volta, pelo que será árdua a tarefa de
a preocupação de preparar o caminho. Possa isso Infelizmente, a campanha mostrou que estamos reconstrução.

A
acontecer, mas não será fácil. mais longe do que mais perto de cumprir qualquer

O
destes objectivos. melhor notícia da eleição de domingo

E
s anos que temos pela frente não serão foi a do desastroso resultado de Manuel
fáceis. Embriagámo-nos com o euro e o m política, tudo tem um preço, e às vezes Alegre. Não pelo candidato, que mere-
dinheiro fácil e temos hoje um país que bastante elevado. ce respeito, mas pelo que significou.
não só não é competitivo, como tem vin- Assistimos, nesta campanha, a um co- Primeiro, porque provou, de novo, que
do a escavar, ano atrás de ano, o buraco ro quase unânime: como sentenciou Má- os eleitores portugueses são moderados. Depois,
em que está metido. rio Soares, a campanha decorreu “sem porque enterrou, de vez, o discurso “antifascista”.
De certa forma, é indiferente que o FMI venha ou chama”, já que “os debates não trouxeram ideias Finalmente porque, apesar de pouca gente o ter
não. Se não vier, alguém tomará por ele as medidas. novas”. É verdade. Mas não foi a primeira vez que dito, representou uma derrota pesada, talvez defi-
Se vier, talvez só ganhemos em disciplina e veloci- tal aconteceu. A nossa memória é que é curta. As nitiva, para a estratégia do Bloco de dividir o Partido
dade, mas nunca nos trará a pílula da salvação. O últimas eleições legislativas, há pouco mais de um Socialista. Louçã não saiu derrotado apenas porque
que é difícil de fazer tem de ser feito pelos portu- ano, não foram muito diferentes: “quase tudo foi o seu candidato não foi à segunda volta, como quis
gueses: mudar de hábitos. Para reconquistarmos a ruído, ‘casos’ e um ‘pingue-pongue’ orquestrado fazer crer: saiu derrotado porque não há no PS outro
competitividade, teremos de alterar quase tudo no pelos especialistas em marketing que, infelizmente, Alegre que possa utilizar para pressionar um partido
Estado e muita coisa nas empresas. Os empregos cativou muito mais os jornalistas do que a substân- com tradição de moderação. Jornalista

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