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Público • Sexta-feira 4 Fevereiro 2011 • 39

Para uns terem “direitos adquiridos” para sempre, outros ficaram sem direitos nenhuns: os mais novos, os nossos filhos

Tudo o que espoliámos à “geração sem remuneração”

Q
NUNO FERREIRA SANTOS
uando o FMI chegou pela segunda vez quando têm muito mais formação, ficam à porta
a Portugal, em 1983, eu tinha 26 anos. porque há demasiada gente instalada em empregos
Num daqueles dias de ambiente pe- que tomaram para a vida. Andaram pelas univer-
sado, quando havia bandeiras pretas sidades, mas sabem que, nelas, os quadros estão
hasteadas nos portões das fábricas da praticamente fechados. Quando têm oportunidade
periferia de Lisboa, quando nos ad- num instituto de investigação, dão logo nas vistas,
mirávamos com ser possível continuar a viver e a mas são poucas as oportunidades para tanta pro-
José trabalhar com meses e meses de salários em atraso, cura. Pensaram ser professores mas foram traídos
Manuel almocei com um incorrigível optimista no Martinho pela dinâmica demográfica e pela diminuição do
Fernandes da Arcada. Nunca mais me esqueci de uma sua número de alunos. Sonharam com um carreira
observação singela: “Já reparaste como, apesar de na advocacia, mas agora até a sua Ordem se lhes
Extremo todos os actuais problemas, a nossa geração vive fecha. Que lhes sobra? As noites de sexta-feira e
ocidental melhor do que as dos nossos pais? Tenta lembrar- pensarem que amanhã é outro dia…
te de como era quando eras miúdo…” E observe-se como lhes roubámos as pensões a
Era verdade: a minha geração viveu e vive muito que, teoricamente, um dia teriam direito: a reforma
melhor do que a dos seus pais. E eles já viveram me- Vieira da Silva manteve com poucas alterações o
lhor do que os pais deles. Mas quando olho para a valor das reformas para os que estão quase a refor-
geração dos meus filhos, e dos que são mais novos do mar-se ao mesmo tempo que estabelecia fórmulas
que eles, sinto, sei, que já não vai ser assim. E não vai de cálculo que darão aos jovens de hoje reformas
ser assim porque nós estragámos tudo – ou ajudámos que corresponderão, na melhor das hipóteses, a
a estragar tudo. Talvez aqueles que são um bocadi- metade daquelas a que a geração mais velha ainda
nho mais velhos do que eu, os verdadeiros herdeiros tem direito. Eles nem deram por isso. Afinal, como
da “geração de 60”, os que ocuparam o grosso dos poderia a “geração ‘casinha dos pais’” pensar hoje
lugares do poder nas últimas três décadas, tenham no que lhe acontecerá daqui a 30 ou 40 anos?

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um bocado mais de responsabilidade. Mas ninguém nossas dívidas, a pública e a priva-
duvide que o futuro que estamos a deixar aos mais
A geração dos que têm da, já correspondem a três vezes sta geração nunca se revoltará, como a
novos é muito pouco apetecível. E que o seu presente hoje menos de 30/35 anos o produto nacional – e não vamos geração de 60, por estar “aborrecida”,
já é, em muitos aspectos, insuportável. ser nós a pagá-las, vamos deixá-las ou “entediada”, com o progresso “bur-

C
já vai viver pior do que de herança. guês”. Esta geração também não se mobi-
omeçámos por lhes chamar a “geração a geração dos seus pais Quisemos tudo: bons salários, lizará porque… “talvez foder”. Mas esta
500 euros”, pois eram licenciados e mui- sempre a subir, e segurança no geração, que foi perdendo as ilusões no Estado
tos não conseguiam empregos senão no porque gastámos numa emprego; casa própria e casa de fé- protector – ela sabe muito bem como está desprote-
limiar do salário mínimo. Agora é ainda rias; um automóvel para todos os gida no desemprego, por exemplo… –, habituou-se
pior. Quase um em cada quatro pura e
geração o rendimento membros da família; o telemóvel e também a mudar, a testar, a arriscar e, sobretudo,
simplesmente não encontra emprego (mais de 30 de duas gerações. E tudo o o plasma; menos horas de trabalho a desconfiar dos “instalados”.
por cento se tiverem um curso superior). Dos que e a reforma o mais cedo possível. Esta geração talvez já tenha percebido que não
encontram, muitos estão em call centers, em caixas que for feito para resistir Pensámos que tudo isso era pos- terá uma vida melhor do que a dos seus pais, pelo
de supermercados, ao volante de táxis, até com uma a mudanças que abram a sível e, quando nos avisaram que menos na escala que eles tiveram relativamente aos
esfregona e um balde nas mãos, apesar de terem não era, fizemos como as lapas seus avós. Por isso esta geração não segue discursos
andado pela universidade e terem um “canudo”. sociedade e a economia só numa rocha batida pelas ondas: políticos gastos, nem se deixa encantar com retó-
Pagam-lhes contra recibos verdes e, agora, o Estado enquistámos nas posições que tí- ricas repetitivas, nem acredita nos que há muito
ainda lhes vai aplicar uma taxa maior sobre esse
os prejudicará ainda mais nhamos alcançado. Começámos prometem o paraíso.
muito pouco que recebem. Vão ficando por casa a falar de “direitos adquiridos”. Por isso esta geração pode ser mobilizada para o
dos pais, adiando vidas, saltitando por aqui e por Exigimos cada vez mais o impossível sem muita gigantesco processo de mudança por que Portugal
ali com medo de compromissos. disposição para darmos qualquer contrapartida. tem de passar – mais do que um processo de mu-
Há 30 anos, quando Rui Veloso fixou um este- Eram as “conquistas de Abril”. dança, um processo de reinvenção. Portugal tem de
reótipo da minha geração em A rapariguinha do Veja-se agora o país que deixamos aos mais no- deixar de ser uma sociedade fechada e espartilhada
shopping, a letra do Carlos Tê glosava a vaidade vos. Se quiserem casa, têm de comprá-la, pois por interesses e capelinhas, tem de se abrir aos seus
de gente humilde em ascensão social, fosse lá isso passaram-se décadas sem sermos capazes de ter e, entre estes, aos que têm mais ambição, mais ima-
o que fosse: “Bem vestida e petulante/Desce pela uma lei das rendas decente: continuamos com os ginação e mais vontade. E esses são os da geração
escada rolante/Com uma revista de bordados/Com centros das cidades cheios de velhos e atiramos “qualquer coisa” que só quer ser “alguma coisa”.
um olhar rutilante/E os sovacos perfumados/…/Nos os mais novos para as periferias. Se quiserem em- Até porque parvoíce verdadeira é não mudar, e isso
lábios um bom batom/Sempre muito bem pentea- prego, mesmo quando são mais capazes, mesmo eles também já perceberam… Jornalista
da/Cheia de rimel e crayon…”
Hoje, quando os Deolinda entusiasmam os Coli-
seus de Lisboa e do Porto, o registo não podia ser
mais diferente: “Sou da geração sem remuneração/E
Horror à concorrência
não me incomoda esta condição/Que parva que eu
sou/Porque isto está mal e vai continuar/Já é uma a Cada novo episódio da campanha racional utilização dos recursos de turmas subsidiadas na escola
sorte eu poder estagiar…” Exacto: “Já é uma sorte do Ministério da Educação públicos recomendaria que se de Arruda dos Vinhos (uma escola
eu poder estagiar”, ou mesmo trabalhar só pelo contra as escolas com contrato de fechassem turmas nas escolas tão má, tão má, que conseguiu a
subsídio de refeição, ou tentar a bolsa para o pós- associação é mais lamentável do com piores resultados, fossem proeza de fazer com que aquele
doc depois de ter tido bolsa para o doutoramento e que o anterior. Agora começou públicas ou privadas. Mas não, concelho tivesse a melhor média
para o mestrado e nenhuma hipótese de emprego. uma cruzada contra as escolas isso não cabe nas cabecinhas nas provas de Matemática a nível
Sim, “Que mundo tão parvo/Onde para ser escravo privadas que farão concorrência estatistas e controleiras dos nossos nacional) porque há pais malandros
é preciso estudar…” às escolas públicas. Estranho: se governantes. dos concelhos de Vila Franca e do
É a geração espoliada. A geração que espoliá- as escolas do Estado são melhores, Vai daí, encomenda-se, à pressa, um Sobral que andam a matricular
mos. como proclama a ortodoxia, estudo à Universidade de Coimbra, lá os filhos, o que parece ser um

S
porque haviam elas de temer a coloca-se a dirigi-lo um quadro do escândalo inominável.
em pieguices, sejamos honestos: na loucu- “concorrência”. Porque parece que PS, António Rochette, homem com Em Portugal, pais que não
ra revolucionária do pós-25 de Abril, pri- não são melhores e, nos poucos provas dadas na concelhia e na obedeçam ao Ministério da
meiro, depois na euforia da adesão à CEE, locais onde haverá sobreposição, Câmara de Coimbra, e o resultado Educação, única entidade com
por fim na corrida suicida ao consumo de- os pais parecem preferir as de sai à medida. Aquela sumidade capacidade para dizer onde podem
sencadeada pela adesão à moeda única e gestão privada. Que fazer então? acaba a propor o que o ministério colocar os seus filhos a estudar,
pelos juros baixos, desbaratámos numa geração Uma lógica que conciliasse a queria ouvir, incluindo uma estão à beira de ser tratados como
o rendimento de duas gerações. Talvez mais. As optimização da qualidade e uma proposta de diminuir o número perigosos delinquentes.

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