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PARATI in HISTÓRIA

Dax Peres Goulart1

Este paper está principalmente baseado na obra do Capitão das três ordens
militares Mon Senhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, “Memórias Históricas do Rio de
Janeiro e das Provincias Annexas a Jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil dedicadas a El-
Rei nosso Senhor D. João VI” escrita em 1820 em função das suas viagens a Parati e a Angra
dos Reis.
A partir da obra de PIZARRO E ARAÚJO (1820) e alguns relatos de MILLIET (1863),
foi possível encontrar algumas conclusões com relação às implicações que decorrentes dos
acontecimentos históricos (principalmente ocorridos nos séculos XVII, XVIII e XIX),
contribuíram para o direcionamento da cidade de Parati no sentido do desenvolvimento da
atividade turística desde a segunda metade do século XX.
O território de Parati localiza-se ao sul do estado do Rio de Janeiro na mesma
latitude que a Ilha Grande e era habitado pela tribo indígena dos Goianás. O primeiro contato
dos portugueses com a região de Parati aconteceu no final do século XVI com o objetivo de
capturar os índios e introduzi-los como mão-de-obra na produção de açúcar realizada pela
Capitania de São Vicente.
Antes do final do século XVI, alguns viajantes portugueses utilizavam o único
caminho de ligação entre o litoral e o Vale do Paraíba (Trilha dos Goianás) anteriormente
traçada pelos índios. Por volta do ano de 1600 a nação indígena que povoava esta terra fora
substituída pelos portugueses devido a expansão da Capitania de São Vicente.
Com o assentamento do povoado (local hoje conhecido como Morro do Forte), os
novos moradores levantaram um templo católico dedicado a São Roque. Segundo PIZARRO E
ARAÚJO (1820), é factível de acerto que os portugueses logo que ali chegaram dedicaram-se
a construção da primeira igreja devido as atuais circunstâncias e necessidades da época, ou
seja, a não existência de sacerdotes dentre os habitantes, a distância, e o perigo de navegar
até a Ilha Grande e obter auxílio espiritual.
Em 1640 ocorreu a transferência de todo o povoado para uma baixada ao lado do rio
Perequeaçú, local onde deslocou-se também a igreja e sua construção tutelada por N. S. dos
Remédios. A data de fundação desta igreja não foi declarada. No entanto, a carta enviada pelo
vigário Collado ao Bispo Francisco Antônio de Guadalupe, datada de 2 de fevereiro de 1727
nos remete ao ano de fundação da igreja N. S. dos Remédios (Matriz) não mais à 1646, em

1
Economista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
que nesta ocasião Maria Jacome de Mello foi a doadora do terreno para a sua edificação. O
conteúdo da carta escrita pelo vigário era o seguinte:

“Senhor Esta Villa foi criada, e povoada há oitenta annos: os moradores; della
fizerão a Igreja com o título de N. Senhora dos Remédios, para, como catholicos,
adorarem o verdadeiro Deos (...)” (Livro de Registro das Ordens Regias -
Secretaria do Bispado, folha 95, 1727 apud PIZARRO E ARAÚJO, 1820, p. 28).

Assim como se desconhece a data específica da fundação da igreja, a data da


fundação da Vila pode ser atribuída à curiosidade do Governador do Rio de Janeiro, Luiz Vahia
Monteiro, pois o único documento autêntico encontrado contendo registros sobre o fato, nasceu
também de uma carta escrita pelo Bispo D. Francisco de S. Jerônimo datada de 4 de fevereiro
de 1707, arquivada na Câmara do Rei em péssimas condições de leitura.
Tendo em vista a importância do documento, tal circunstância levaria o Governador
a incumbência de revelar à coroa todas as informações procedentes da origem da Vila (data e
nome do fundador), agora por ordem real expedida no ano de 1722 às Capitanias do Brasil em
função da Academia Real de História Portuguesa. Nesta ocasião alguns oficiais foram
deslocados do Rio de Janeiro para a Vila a fim de levantar informações a respeito da sua
fundação. A resposta enviada ao Governador remonta em termos os quais apenas constam
das memórias e conservação de algumas anotações importantes guardadas em poder do
Capitão Mor Salvador Carvalho da Cunha Grugel. A parte mais importante de uma de suas
anotações confiadas ao historiador português possui o seguinte conteúdo:

“Senhor Governador, recebemos a de V.Sa em que nos manda, que façamos toda
a diligência por averiguar, se esta villa foi fundada por ordem do Conde da Ilha
do principe, Donatario da capitania de N. Senhora da Conceição de Itanhaem
(...) e neste Senado se não acha documento algum, por onde esta o seja, nem da
fórma, como foi fundada: á vista do que mandamos chamar alguns homens mais
antigos desta terra, para nos informarmos com elles do que soubessem. Estes nos
dizem que o principio desta povoação lho dera um capitão mór, que aqui veyo
nomeado pelo dito Conde Donatario, por nome de João Pimenta Carvalho, o qual
fora dando estas terras de Sesmarias a uns homens, que moravão em Angra dos
Reis, e que estes virão povoar esta terra, ficandos sujeitos á dita Villa de Angra
dos Reis; e que como lhes ficava longe o recurso para a dependencia de Justiça,
passados alguns annos levantáram Pelourinho, e fizerão Villa (...)” (PIZARRO E
ARAÚJO, 1820, p. 41 e 42).

Através de algumas pesquisas realizadas na Câmara da Ilha Grande, PIZARRO E


ARAÚJO (1820) revela a existência de uma carta de diligência enviada em 1661 pelo vereador
mais antigo da Vila de N. S. dos Remédios alegando que sob tutela do Capitão Domingos
Gonçalves de Abreu, o Capitão Mor da Capitania de São Vicente ou Itanhaem, Jorge
Fernandes da Fonseca, no ano de 1660 levantou Pelourinho a título de jurisdição para
prevalecer as leis civis e fazer executá-las.
A Câmara da Ilha Grande em resposta manifestou o seu total descontentamento
reprovando a iniciativa do Capitão Domingos Gonçalves de Abreu, pois o mesmo não poderia
respaldar a atitude do Capitão Mor Jorge Fernandes da Fonseca em fundar uma Vila de
qualquer qualidade, embora considerado por muitos como terra de sesmarias este território já
pertencia a Angra dos Reis há mais de cinqüenta anos e que de acordo com documentos
vigentes à jurisdição da Câmara da Ilha Grande, tal Capitão Mor havia cometido um grave
crime em levantar Pelourinho sem ao menos solicitar o consentimento e a autorização da
Câmara da Ilha Grande. No entanto, como a carta de diligência estava representada em nome
do Rei pelo Ouvidor Geral Pedro Mustre Portugal, a Câmara da Ilha Grande, mesmo
contrariando os seus interesses, sugeriu apenas que antes da posse da jurisdição da Câmara
de N. S. dos Remédios, o Donatário da Capitania de São Vicente e o Rei fossem comunicados
sobre o ocorrido.
Apesar do nítido descontentamento manifestado pela Câmara da Ilha Grande, era
impossível impedir a fundação de uma Vila, que por interesse do Governador do Rio de
Janeiro, tornar-se-ia um importante entreposto comercial, pois por ela passava a Estrada da
Serra do Facão (Trilha dos Goianás), único caminho de acesso ao Sertão e as Minas.
Por faltar a recém fundada Vila a característica decorrente de sua futura importância
para a Capitania do Rio de Janeiro, o até então Governador Martim Corrêa Vasques Annes
implorou ao Rei a permissão para nomear Vila de Parati e atribuir à localidade status com a
construção da Casa da Câmara e da Cadeia, cuja resposta veio através da carta regia de 28
de fevereiro de 1667, data hoje comemorada como aniversário da cidade e dia da
emancipação política devido à sua ruptura e independência jurídica em relação à legislação da
Câmara da Ilha Grande pertencente a Vila de Angra dos Reis. Esta data também foi contestada
por vários historiadores do século XIX, pois defendiam a teoria baseada na documentação
irrefutável de que em 1660 o Capitão Mor da Capitania de São Vicente Jorge Fernandes da
Fonseca, levantou a Vila e também o Pelourinho (símbolo de autonomia e autoridade). A
confusão torna-se ainda mais evidente quando identifica-se no brasão oficial da cidade a data
de 1660 ao invés de 1667.
A partir do documento expresso pela coroa em 28 de fevereiro de 1667, a Vila de N.
S. dos Remédios passa a ser conhecida por Vila de Parati. Assim, com a edificação da igreja
de N. S. dos Remédios e a homologação efetivada pela coroa, o terreno que abrigava os
primeiros povoadores portugueses e a construção do antigo templo de São Roque erguido a
50m ao norte do rio Perequeaçu (Morro do Forte), passa a ser chamado de Vila Velha e suas
ruínas se perderiam com o tempo, bem como os sete anos de intensa atividade política vividos
por nossos antepassados.
Nos limites da Vila de Parati, em direção a serra, nas planícies do Bananal, Parati-
Mirim e Mambucaba, a fertilidade do solo permitia o cultivo de hortaliças, alguns frutos
semelhantes aos europeus, mandioca, arroz, leguminosas, milho, café e cana-de-açúcar, cuja
lavoura era a mais abundante em toda a extensão de terra, onde doze engenhos de açúcar e
mais de cem engenhocas produtoras de aguardente (pinga) representavam o montante
principal de toda produção agrícola da Vila. O comércio local realizava-se basicamente através
do escambo de mercadorias trazidas de Minas Gerais, Santos e São Paulo.
Como o único caminho até as Minas e região de São Paulo era através da Estrada
da Serra do facão (hoje Estrada Parati-Cunha), foi fundada pela coroa no ano de 1703 a Casa
de Registro do Ouro, responsável pela fiscalização de todo o minério oriundo das Minas. Por
esta mesma estrada passavam também diversos comerciantes de São Paulo trazendo suas
lavouras e produtos de origem animal, os quais após o abastecimento da Vila eram destinados
aos portos e enviados através das embarcações para o norte e sul do país. Assim, tanto os
produtos que chegavam pela serra e os produzidos pela Vila, eram distribuídos em todo o
litoral brasileiro.
De modo geral, todo o comércio dava-se através do embarque (produtos da lavoura
e outras mercadorias) e desembarque nos portos localizados ao longo da costa brasileira.
De acordo com PIZARRO E ARAÚJO (1820), o açúcar e a aguardente configuravam
como os dois produtos mais importantes da produção comercial da Vila. Desde o início do
século XVIII a aguardente representava 80% de todas as transações comerciais. Apesar da
intensa atividade comercial praticada pela Vila, pode-se constatar uma concentração de
riqueza nas mãos daqueles que participavam dos negócios mais rentáveis da economia local,
ou seja, os proprietários dos engenhos e engenhocas. Em 1722 levantou-se o Porto Principal
(hoje Cais) e neste mesmo período foi construída na Vila uma trincheira para protegê-lo (hoje
Praça da Bandeira), vis-à-vis com o balizamento da cidade ocorrido entre os anos de 1719 e
1726. Todo esse conjunto de medidas foi proporcionado pelo aumento do fluxo comercial e
principalmente em função do escoamento do ouro, impulsionando economicamente a Vila e
permitindo o empenho para novas construções e benfeitorias em quase todos os aspectos, não
só relativos à segurança, mas também foram considerados os aspectos inerentes ao transporte
(em 1728 a antiga Trilha dos Goianás, agora Caminho do Ouro, é ampliada permitindo a
passagem de animais de carga) e a religião (reforma e construção de novas igrejas nos
primeiros anos do século XVIII: de 1703 a 1712 foram realizadas as primeiras reformas da
igreja N. S. dos Remédios e em 1787 iniciou-se a ampliação e construção de um grande
templo, em 1722 tem-se a fundação da Igreja Santa Rita e em 1750 a construção da igreja de
N. S. do Rosário).
Com o progresso da mineração em Minas Gerais, a Vila de Parati alcança a posição
de entreposto regional. A população da região de São Paulo e Minas Gerais descia a serra
carregando o ouro e comprava na Vila produtos europeus e principalmente o sal que vinha de
Pernambuco. Com o aumento da população de Minas Gerais, os produtos alimentícios
tornaram-se raros e caros em toda esta região, levando a Vila de Parati a aumentar a produção
agrícola. Com o aumento da produção a Vila de Parati passa da condição de entreposto para
centro distribuidor e exportador de gêneros alimentícios para as Minas e mais tarde para o Rio
de Janeiro.
PIZARRO E ARAÚJO (1820) identifica nos acontecimentos com relação à questão
de posse e jurisdição da Vila de Parati, a alternância de poderes. Para o autor, a Vila de Angra
dos Reis e a Vila de Parati, ambas pertenciam ao território da capitania de São Vicente. A
diferença encontrava-se em termos de administração, pois a primeira estava sob a orientação
Governo do Rio de Janeiro e a segunda aos cuidados do Governo de São Paulo.
Entretanto, no ano de 1720 é criada a Capitania de São Paulo e através da carta
regia de 8 de setembro de 1721, a Vila de Parati passa a pertencer a nova Capitania e
obedecer a jurisdição do Governo de São Paulo, sendo agora esta Vila a linha divisória e limite
entre o território de São Paulo e Rio de Janeiro.
Apesar da decisão tomada designando a Vila de Parati à jurisdição da Capitania de
São Paulo, tornou-se incômodo o descontentamento gerado em todo o povoado que recorreu
inúmeras vezes à Câmara do Rei devido aos grandes empreendimentos realizados pelos
Governadores do Rio de Janeiro, até que por ordem real, no dia 8 de janeiro de 1727 a Vila de
Parati não só passou a pertencer a Capitania do Rio de Janeiro, bem como ficou incorporada à
jurisdição deste Governo.
Com o fortalecimento das autoridades eclesiásticas do povoado e a implantação do
1o Cartório de Registros de Matrimônios, no século XIX uma nova igreja passa a ser construída
às margens da baía e dedicada a N. S. das Dores.
A Vila de Parati torna-se promissora e sua povoação já ostentava 400 casas
construídas com paredes de pedra e cal e outras de pau-a-pique (estuque). Dentre todas as
casas, 40 eram grandes sobrados. As casas comerciais somavam um total de 60
estabelecimentos os quais transacionavam principalmente aguardente, secos e molhados,
entre outras mercadorias trazidas de Minas Gerais, região de São Paulo e até mesmo da
Europa. Em 1750, a Vila de Parati já possuía o segundo porto da Colônia Portuguesa.
Segundo MILLIET (1863), as ruas da cidade foram todas calçadas de pedra
(calçamento pé-de-moleque) e suas estradas eram muito bem conservadas. Em 1851 existiam
na Vila de Parati sete ruas no sentido leste/oeste: da Capela, da Cadeia, do Rosário, da Direita,
da Lapa, da Santa Rita e do Couto; e seis ruas no sentido norte/sul: Fresca, da Praia, do
Mercado, da Matriz, do Comércio e do Graguatá. A população neste ano era praticamente de
16.000 habitantes.
Para MILLIET (1863), a Vila de Parati começa entrar em decadência na segunda
metade do século XVIII quando as estradas da Vila de Ubatuba e principalmente Mangaratiba
que ligam o litoral ao sertão, tornam-se pavimentadas e livres para acesso de animais de
carga, ocasionando uma grande queda no volume das transações comerciais na Vila de Parati.
Com a abertura de novas estradas, não só os produtos de outras regiões do país e
da Europa foram em quase a sua totalidade deslocados da Vila, mas também toda a riqueza
expressa em ouro foi conduzida à capital do Rio de Janeiro sem correr o risco de extravios por
navegar pela baía através do longo percurso marinho que se dava entre o porto da Vila de
Parati e o porto de Sepetiba no Rio de Janeiro.
Com o deslocamento do principal eixo de ligação, a Vila de Parati deixa de
intermediar o fluxo de escoamento do ouro, restringindo-se apenas a atividade portuária com o
comércio de açúcar e aguardente para o Rio de Janeiro, ou seja, os caminhos terrestre e
marítimo deixam de ser importantes no âmbito de todo o trajeto do ouro e se intensificam as
ligações marítimas apenas para escoamento de alimentos.
Para esta Vila restabelecer a posição de supremacia comercial entre suas
concorrentes vizinhas, tornar-se-ia necessária a abertura de novas estradas e a transformação
de toda extensão hidrográfica em canais navegáveis. Para isto, no ano de 1813 a Vila de Parati
recebe o título de Condado e Dom Miguel Antônio de Noronha Abranches Castelo Branco é
dado como o primeiro Conde. Mesmo com esta elevação, toda a riqueza continuou sendo
desviada para outros pontos e ao longo de quase todo século XIX a única fonte de riqueza
ficou apenas baseada na produção de alimentos, aguardente e no cultivo de cana-de-açúcar,
caracterizando o título registrado mais pela pompa e retórica dos governantes da época do que
pela realização dos objetivos propostos por estes.
Com o ciclo do café (início do século XIX) e com a chegada da Família Real e a
Corte no Brasil em 1803, a Vila de Parati torna-se uma região principalmente produtora de
gêneros alimentícios que abastecia o Rio de Janeiro. Nesta época a Vila detinha apenas na
cidade mais de cinco mil escravos para trabalharem nas casas e no porto.
Em 1830, o café passa a ser o principal produto da economia da Vila. O café
produzido em larga escala nas fazendas de São Paulo no Vale do Paraíba substitui o ouro
vindo das Minas utilizando o mesmo trajeto do século passado. Isto ocorre devido a grande
distância entre o Vale do Paraíba e o Rio de Janeiro, onde eram preferidos portos de embarque
mais pertos tais como o de Parati, Ubatuba e Angra dos Reis. Pelo antigo Caminho do Ouro,
descia o café e subia produtos agrícolas da região e da Europa que abasteciam as suntuosas
fazendas dos Barões do Café.
Com a modernização das estradas ao longo do século XIX e com a criação da
ferrovia em 1863 que ligaria o interior de São Paulo ao Rio de Janeiro, assim como o ouro, o
café passa a ser escoado pela estrada férrea, pois era mais rápido, seguro e muito mais
barato. A abolição da escravatura em 1888 agravou ainda mais a situação de toda economia
baseada na produção agrícola, principalmente as lavouras de cana-de-açúcar e café.
A Vila de Parati resiste ao processo de esvaziamento econômico devido às
pequenas transações portuárias de gêneros alimentícios com o Rio de Janeiro, o que tornava o
porto da cidade ainda viável.
A falência total acontece no final do século XIX, quando as cidades ao longo da
ferrovia passam a produzir os mesmos gêneros alimentícios até então produzidos apenas pela
a Vila. Com a facilidade de transporte proporcionada pela ferrovia, a produção do interior de
São Paulo tem destino certo: Rio de Janeiro. O porto é abandonado e a produção da Vila
começa apodrecer por falta de transporte. A população na cidade cai para quatro mil habitantes
que vivem basicamente do comércio de aguardente, produto de ótima aceitação na Capital.
Assim, a grande produção dá lugar à agricultura de subsistência, onde o transporte precário
apenas embarca com destino ao Rio de Janeiro a aguardente. É importante deixar claro, que o
abandono, o isolamento involuntário e a decadência econômica, estes foram os principais
fatores que permitiram a preservação da cidade, deixando praticamente intacto todo o conjunto
arquitetônico construído no século XVIII e contribuindo para a preservação do modo de vida
que evoluiu somente até o século XIX. Com isso, a cultura, o folclore e toda a tradição caiçara
não foram influenciados pelas mudanças ocorridas ao longo do século XX. Portanto, todo o
conjunto arquitetônico, todas as festas religiosas, danças folclóricas, bem como todas as
tradições, permaneceram inalteradas não sofrendo nenhum tipo de descaracterização,
contribuindo decisivamente para o futuro turístico da cidade no século XX. Em 1844, a Vila
ganha foros de cidade.
Na primeira metade do século XX a cidade amarga um completo abandono e seus
habitantes vivem uma situação econômica baseada praticamente no escambo de mercadorias.
No campo, as famílias produzem apenas o necessário para subsistência.
Através do Decreto Lei no 1.450 de 18 de setembro de 1945 baixado pelo Palácio do
Governo, todo o conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade de Parati seria agora erigido a
condição de Monumento Histórico do Estado do Rio de Janeiro, e logo em seguida, a Prefeitura
de Parati através do Decreto Lei no 51 de 27 de maio de 1947 realizaria o zoneamento da
cidade, destinando à zona urbana a subdivisão entre dois bairros: o Histórico e o Industrial.
Com o tombamento do conjunto arquitetônico e a preservação das tradições locais
aliada com a conservação de todos recursos naturais, diversos paulistas chegariam a Parati a
partir da década de 50 trazidos pela estrada Parati-Cunha (construída seguindo basicamente o
antigo Caminho do Ouro) a procura de lazer e em sua grande maioria trazidos pela
curiosidade. Inicia-se de forma ainda que de abrangência muito reduzida à atividade turística.
Apesar da implantação de decretos com o objetivo de preservar o patrimônio histórico, todo o
conjunto arquitetônico estava ameaçado por alguns surtos de evolução detectados no início da
segunda metade do século XX. Para conter estes avanços que com o tempo
descaracterizariam toda a arquitetura do século XVIII, a Diretoria do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), conseguiu a implantação do Decreto Presidencial no
58.077 de 24 de março de 1966, declarando a cidade de Parati a condição de Monumento
Histórico Nacional.
Com a construção da estrada Rio-Santos (BR 101) na década de 70 devido à
necessidade de escoamento da população em caso de vazamento radioativo na Usina Angra I,
a atividade turística na cidade é impulsionada fazendo com que surgissem os primeiros
estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços. Novos empregos foram gerados
atraindo mão-de-obra de cidades vizinhas e do campo, o que contribuiu para o processo
conhecido como êxodo rural2. A população da cidade aumenta significativamente e especializa-
se exclusivamente no comércio e na prestação de serviços turísticos. Assim, o setor primário
(produção de gêneros alimentícios) e o setor secundário (produção de aguardente) são
substituídos quase que completamente pelas atividades do setor terciário. Os antigos sobrados
foram transformados em hotéis, as pequenas casas em restaurantes, bares, lojas de
artesanato e casas apenas para veraneio e as fazendas que antes abrigavam a produção de
alimentos e aguardente, muitas foram abandonadas e entraram em ruínas. Outras fazendas
foram vendidas aos turistas que descaracterizaram completamente a arquitetura do imóvel. A
fazenda ainda remanescente, como, por exemplo, a Fazenda Boa Vista, não produz em grande
escala, voltando-se apenas para produção de subsistência em função de algumas famílias que
vivem nos limites da propriedade. Outras, como a Fazenda Bananal, conseguiram adaptar a
antiga produção de aguardente ao turismo e implementar toda a infra-estrutura necessária, tais
como a abertura de um restaurante com comidas típicas, lojas de artesanato local, piscina
natural e até mesmo um mini-zoológico.
Referências
MILLIET, J.C.R. Dicionário geográfico histórico e descritivo do Império do Brasil. Paris, 1863. 3
v. p. 242.
PIZARRO E ARAÚJO, José de Souza Azevedo. Memórias históricas do Rio de Janeiro e das
Provincias annexas a jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil dedicadas a El-Rei nosso
Senhor D. João VI. Rio de Janeiro: Gráfica da Coroa, 1820.

2
De certa forma, pode-se definir o êxodo rural em Parati, não apenas como um processo local, mas sim de abrangência regional que envolveu
ao longo da década de 70 várias localidades rurais do sul do estado do Rio de Janeiro e algumas do sudeste do estado de São Paulo.