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TRIBUNAL DE JUSTIÇA MILITAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS

DECLARAÇÃO INCIDENTAL DE INCONSTITUCIONALIDADE Nº 4
Processo n. 0003067­65.2008.913.0003
Relator: Juiz Fernando Galvão da Rocha
Revisor: Juiz Cel PM James Ferreira Santos
Origem: Apelação Cível n. 553 – Processo n. 873/2008 – AC – 3ª AJME
Julgamento: 24/02/2010
Publicação: 16/03/2010
Decisão: majoritária: DECLARADA A INCONSTITUCIONALIDADE DO INCISO IX
DO ART. 203 E DO ART. 214 DA LEI ESTADUAL N. 5.301/69

EMENTA
DECLARAÇÃO INCIDENTAL DE INCONSTITUCIONALIDADE – ARTIGO 203,
INCISO   IX,   C/C   O   ARTIGO   214,   AMBOS   DA   LEI   ESTADUAL   N.   5.301/69   –
IMPEDIMENTO   À   PROGRESSÃO   NA   CARREIRA   DO   MILITAR   QUE   SE
ENCONTRA   SUBMETIDO   A   PROCESSO   CRIMINAL   –   OFENSA   AOS
PRINCÍPIOS   DA   PRESUNÇÃO   DE   INOCÊNCIA,   DO   DEVIDO   PROCESSO
LEGAL   E   DA   GARANTIA   DO   ACESSO   À   JUSTIÇA   –
INCONSTITUCIONALIDADE DECLARADA.
­   A   natureza   jurídica   da   restrição   à   promoção   do   militar   que   se   encontra
submetido a processo penal é sancionatória disciplinar. 
­ O impedimento à progressão na carreira do militar que se encontra submetido a
processo criminal, previsto na Lei Estadual  n. 5.301/69, ofende os princípios da
presunção de inocência e da garantia do acesso à Justiça. 
­ Ofende o princípio do devido processo legal a vedação à progressão na carreira
militar,   medida   eminentemente   sancionatória,   sem   a   prévia   instauração   de
processo administrativo­disciplinar no qual sejam respeitadas todas as garantias
constitucionais do acusado.
­ Declaração da inconstitucionalidade da restrição imposta pelo art. 214 c/c o art.
203, inciso IX, da Lei Estadual n. 5.301/69, que impede a progressão na carreira
do militar que se encontra submetido a processo criminal.

ACÓRDÃO

DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE N.4
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Vistos,   relatados   e   discutidos   os   presentes   autos   da   Declaração   Incidental   de


Inconstitucionalidade   n.   04,   sendo   requerente   a   Câmara   Cível   do   Tribunal   de
Justiça Militar, apelante o Estado de Minas Gerais, Procuradora do Estado a Dra.
Ana Paula Araújo Ribeiro Diniz, apelado Moacir Pereira da Costa e advogados o
Dr. Felisberto Egg de Resende e outros, acordam os Juízes do Tribunal Pleno,
por maioria de quatro votos a dois, em declarar a inconstitucionalidade do inciso
IX do art. 203 e do art. 214 da Lei Estadual n. 5.301/69. 
Vencidos   os   Juízes   Cel   PM   Sócrates   Edgard   dos   Anjos   e   Jadir   Silva,   que
declararam a constitucionalidade dos dispositivos legais.

RELATÓRIO
Cuida­se de incidente de declaração de inconstitucionalidade do artigo 203, inciso
IX, c/c o artigo 214, ambos da Lei Estadual n. 5.301/69, o qual foi suscitado por
este relator quando do julgamento da Apelação Cível n. 553.

No acórdão de folhas 97/104, a Egrégia Câmara Cível deste Tribunal de Justiça
Militar entendeu ser relevante a arguição de inconstitucionalidade e decidiu pela
instauração   do   presente   incidente   junto   ao   Tribunal   Pleno.   No   mencionado
acórdão, ficou registrado que: 

A arguição de inconstitucionalidade do art. 203, inciso IX, c/c art. 214, ambos da
Lei n. 5.301/69  é relevante, uma vez que é tormentosa a discussão acerca da
possibilidade de a referida lei impedir a progressão na carreira do militar que se
encontra   submetido   a   processo   criminal   face   ao   princípio   da   inocência,   a
inexistência de processo administrativo disciplinar para apurar o fato e o princípio
do acesso à Justiça. 

Aberta “vista” dos autos ao Ministério Público, este apenas manifestou ciência do
acórdão proferido pela Colenda Câmara Cível (fl. 105). Apesar de devidamente
intimado,   o   Estado   de   Minas   Gerais   não   apresentou   qualquer   manifestação,
conforme demonstra a certidão de folha 107.
É o relatório. 

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VOTOS
JUIZ FERNANDO GALVÃO DA ROCHA, RELATOR
Srs. Juízes, entendo que a restrição imposta pelo art. 214 c/c o art. 203, inciso IX,
da Lei Estadual n. 5.301/69 é inconstitucional.
É verdade que o § 1º do art. 203 da Lei n. 5.301/69 dispõe que “(...) o oficial que
for declarado sem culpa ou absolvido por sentença penal transitada em julgado
será promovido, a seu requerimento, com direito à retroação”. 
No entanto, entendo que a previsão legal de posterior reparação para os danos
causados  pela  restrição  não   é suficiente  para   compatibilizar  a  restrição  com  o
princípio da inocência, com a exigência de instauração de processo administrativo
para a imposição  de sanção  disciplinar e com o princípio  do amplo acesso ao
Poder Judiciário.
Em primeiro lugar, penso ser necessário caracterizar a restrição à promoção do
militar que se encontra submetido a processo penal como uma sanção disciplinar
antecipada, pois causa prejuízo relevante à sua situação funcional. 
Penso que tal sanção disciplinar confronta com a carta magna sob três aspectos:

VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA INOCÊNCIA
A Constituição Federal, no inciso LVII de seu art. 5°, dispõe que  ninguém será
considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
Resta   claro   que,   somente   após   o   reconhecimento   definitivo   da   culpa,   estará
autorizada   a   realização   de   qualquer   intervenção   punitiva.   Este   princípio
garantista, expressamente vinculado ao processo penal, também possui aplicação
na esfera administrativa, sendo certo que a sanção disciplinar somente pode ser
aplicada após o trânsito em julgado da decisão condenatória administrativa.
Importa   notar   que   o   dispositivo   constitucional   exige   o   trânsito   em   julgado   da
condenação para a aplicação da pena. Isso não significa que o acusado tenha
direito de somente sofrer a pena após o decurso de certo prazo. Não se trata de
mera  burocracia.  Substancialmente,   a   garantia   significa   que  todo   acusado   tem
direito   a   um   efetivo   julgamento   e   somente   se   for   definitivamente   considerado
culpado poderá sofrer a pena. O princípio constitucional da culpabilidade significa
que ninguém pode ser presumidamente considerado culpado. A todo cidadão é

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garantido o direito a ter um julgamento efetivo e a somente ser apenado após se
tornar definitiva a condenação decorrente de tal julgamento.
Com   base   no   referido   dispositivo   constitucional,   há   quem   vislumbre   a
consagração do  princípio da inocência. Segundo tal princípio, todos devem ser
considerados  inocentes  até   que   sejam   condenados   por   decisão   transitada   em
julgado.   O   raciocínio   não   é   preciso.   Na   verdade,   a   Constituição   não   impõe   a
consideração da inocência a todos que ainda não tenham sido condenados. Diz
apenas que não se pode considerar culpado quem ainda não foi definitivamente
condenado, impedindo sejam impostas ao acusado consequências jurídicas que
são possíveis apenas aos condenados. 
O  princípio   da   inocência  não   foi   introduzido   na   ordem   jurídica   brasileira   pela
Constituição,   mas   sim   pela   Convenção   Americana   sobre   Direitos   Humanos,
conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. O item 2 do art. 8º da referida
Convenção determina que é uma garantia judicial que  toda pessoa acusada de
delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove
legalmente sua culpa. A Convenção ingressou na ordem jurídica interna ao ser
promulgada   pelo   Decreto   n.   678,   de   06   de   novembro   de   1992,   e   deve   ser
aplicada como lei ordinária. Lamentavelmente, apesar da referência expressa no
§ 2° do art. 5° da CF/88, a cultura jurídica brasileira ainda não se familiarizou
com as disposições normativas dos Tratados Internacionais. 
Considerando que o Estatuto dos Militares do Estado de Minas Gerais foi editado
anteriormente   à   Constituição   da   República   e   à   Convenção   Americana   sobre
Direitos   Humanos,   suas   disposições   devem   ser   interpretadas   conforme   estas
novas   diretrizes   normativas.   Em   outras   palavras:   não   se   podem   justificar
restrições   à   progressão   da   carreira   dos   militares   com   base   na   ideia   da
antecipação de sanção disciplinar.

EXIGÊNCIA DE INSTAURAÇÃO DE PROCESSO  ADMINISTRATIVO PARA A
IMPOSIÇÃO DE SANÇÃO DISCIPLINAR
A restrição imposta pela Lei n. 5.301/69 à progressão na carreira dos militares
ainda se confronta com a Constituição da República por instituir sanção disciplinar
sem o devido processo legal administrativo.
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O art. 5º, inciso  LV, da  Constituição  da República  assegura  aos litigantes,  em


processo judicial ou administrativo, e aos acusados, em geral, o contraditório e a
ampla defesa, com os meios e recursos a eles inerentes.
No   caso   dos   autos,   com   base   na   simples   notícia   da   instauração   do   processo
judicial, a Administração Militar prejudica os direitos do militar de prosseguir na
carreira.
Contudo, não se pode conceber que a instauração do processo judicial, em que o
processado  sequer  foi considerado  culpado,   possa  produzir  reflexos diretos  na
esfera administrativa.
Para   a   imposição   de   sanção   disciplinar,   a   Administração   deve   instaurar
previamente   processo   administrativo­disciplinar   no   qual   sejam   oferecidas   ao
militar   todas   as   oportunidades   necessárias   para   o   exercício   de   seu   direito   de
defesa.   Certamente,   sem   processo   administrativo­disciplinar,   não   pode   haver
sanção disciplinar.

ACESSO À JUSTIÇA
A restrição imposta pela Lei n. 5.301/69 à progressão na carreira dos militares
ainda importa em restrição indireta ao direito ao acesso à justiça. Sabendo que o
prolongamento   das   discussões   no   âmbito   do   processo   judicial   acarreta   em
postergação à progressão na carreira militar, o militar é estimulado a aceitar uma
transação   penal   ou   a   não   recorrer   de   decisão   condenatória   que   lhe   seja
desfavorável.
Na prática, a restrição à progressão  na carreira se transforma em restrição ao
acesso à Justiça e ao exercício dos direitos de defesa dos acusados em processo
judicial,   garantidos   pelos   incisos   XXXV   e   LV   do   art.   5º   da   Constituição   da
República. O militar pode, em muitos casos, deixar de recorrer de uma decisão
condenatória   para   não   prolongar   a   discussão   judicial   da   matéria   e,   com   isso,
prejudicar sua carreira funcional. 
Diante do exposto, reconheço a inconstitucionalidade da restrição imposta pelo
art.   214   c/c   o   art.   203,   inciso   IX,   da   Lei   Estadual   n.   5.301/69,   que  impede   a
progressão na carreira do militar que se encontra submetido a processo criminal.
Também entendo ser conveniente que este Tribunal Pleno edite uma súmula para
pôr fim a qualquer dúvida a respeito do tema. 
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JUIZ CEL PM JAMES FERREIRA SANTOS
Acompanho, integralmente, o voto do eminente Juiz relator.

JUIZ CEL PM SÓCRATES EDGARD DOS ANJOS, VENCIDO
Discordo do posicionamento externado pelo e. Juiz Relator, por entender que a
matéria   se   encontra   em   conformidade   com   os   preceitos   constitucionais,   não
havendo   que   se   falar   em   violação   aos   princípios   da   não   culpabilidade   ou   da
presunção de inocência.
Assim, reconheço a constitucionalidade do inciso IX do art. 203 combinado com o
art. 214, ambos da Lei n. 5.301, de 16 de outubro de 1969.
Ademais, insta ressaltar que a própria lei em questão já prevê em seu art. 203,
§§1º, 2º, 3º e 4º, o ressarcimento no caso de absolvição, com a devida promoção
com efeitos retroativos.
É como voto.

JUIZ CEL BM OSMAR DUARTE MARCELINO
Acompanho o voto do eminente Juiz relator.

JUIZ JADIR SILVA, VENCIDO
Trata­se de incidente de declaração de inconstitucionalidade do artigo 203, inciso
IX, c/c o artigo 214, ambos da Lei Complementar Estadual n. 5.301/69, o qual foi
suscitado pelo eminente Juiz Relator quando do julgamento da Apelação Cível n.
553.
Os   fundamentos   apresentados   pelo   eminente   Juiz   Relator   encontram­se
explicitados no v. acórdão de fls. 97 “usque” 104, o primeiro no tocante à violação
ao  princípio  da  inocência, expresso no inciso LVII do art. 5º da Constituição da
República;   o   segundo  na  exigência  de  instauração  de  processo  administrativo
para a imposição de sanção disciplinar; e o terceiro no direito ao acesso à justiça.
O inciso IX do art. 203 e o  caput do art. 214 da Lei 5.301, de 16 de outubro de
1969, alterados pela Lei Complementar n. 95, de 17 de janeiro de 2007, traziam a
seguinte redação:
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Art. 203 – Não concorrerá à promoção nem será promovido, embora incluído no
quadro de acesso, o Oficial que:
(...omissis...)
IX ­ estiver sub judice, denunciado por crime doloso previsto:
a)   em   lei   que   comine   pena   máxima   de   reclusão   superior   a   dois   anos,
desconsideradas as situações de aumento ou diminuição de pena;
b) nos Títulos I e II, nos Capítulos II e III do Título III e nos Títulos IV, V, VII e VIII
do Livro I da Parte Especial do Código Penal Militar;
c) no Livro II da Parte Especial do Código Penal Militar;
d) no Capítulo I do Título I e nos Títulos II, VI e XI da Parte Especial do Código
Penal;
e) na Lei de Segurança Nacional.

§ 1º O Oficial incluído no quadro de acesso que for alcançado pelas restrições
dos incisos III e IX e, posteriormente, for declarado sem culpa ou absolvido por
sentença penal transitada em julgado será promovido, a seu requerimento, com
direito a retroação.

§   2º   O   Oficial   enquadrado   nas     restrições     previstas     nos   incisos   III   e   IX


concorrerá   à   promoção,   podendo   ser   incluído   no   quadro   de   acesso,   sendo
promovido se for declarado sem culpa ou absolvido  por  sentença  transitada  em
julgado,  que  produzirá efeitos retroativos.

§ 3º Não ocorrerá a retroação prevista no § 1º, salvo na promoção pelo critério de
antigüidade, quando a declaração de ausência de  culpa ou a absolvição ocorrer
por   inexistência   de   prova   suficiente   para   a   aplicação   de   sanção   ou   para
condenação ou por prescrição.

§ 4º As restrições do inciso IX não se aplicam a Oficial, nos crimes dolosos contra
a pessoa, quando  decorrentes de ação  militar legítima, verificada em inquérito
regular.

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Art. 214 ­ A promoção por tempo de serviço é devida ao Soldado de 1ª Classe e
ao   Cabo   que   tiverem,   no   mínimo,   dez   anos   de   efetivo   serviço   na   mesma
graduação, observado o previsto nos incisos I, II e IV do caput do art. 186, nos
arts. 187, 194, 198  e nos incisos I, II, III, IV, V, VI, VII e IX do "caput"  e nos
parágrafos do art. 203 desta lei.
 
Da leitura da brilhante argumentação do eminente Juiz Relator, ouso dela divergir
porque os dispositivos estão em conformidade com os preceitos constitucionais,
porque   eles   não   ferem   o   princípio   da   não   culpabilidade   ou   da   inocência,   isto
porque no âmbito administrativo, quanto aos critérios de avaliação de servidores
públicos   para   fins   de   progressão   ou   promoção   na   carreira,   os   princípios
norteadores são os estampados no caput do art. 37 da Constituição Federal, que
prevê:

Art. 37.  A administração  pública  direta  e  indireta  de  qualquer  dos Poderes  da


União,   dos   Estados,   do   Distrito   Federal   e   dos   Municípios   obedecerá   aos
princípios de legalidade, impessoalidade,  moralidade, publicidade e eficiência e,
também, ao seguinte:
(...)  

A   presente   questão   foi   apreciada   pelas   1ª   e   2ª   Turmas   do   Excelso   Supremo


Tribunal Federal, em uma interpretação sistêmica da Carta Magna, tendo assim
decidido:

EMENTA ­ Policial militar. Promoção. Alegação de ofensa ao artigo 5º, LVII, da
Constituição.   ­   Esta   Primeira   Turma,   ao   julgar   o   RE   210.363,   que   tratava   de
questão análoga à presente (era relativa a não poder ser incluído no quadro de
acesso   a   promoção   por   estar   o   militar   "sub   judice"),   decidiu   que   inexistia   a
alegada   ofensa   ao   artigo   5º,   LVII,   da   Constituição,   por   se   circunscrever   essa
norma ao âmbito penal, não impedindo, portanto, que a legislação ordinária não
admita   a   inclusão   do   militar   no   quadro   de   acesso   a   promoção   por   ter   sido
denunciado   em   processo   crime,   enquanto   a   sentença   final   não   transitar   em
julgado.   Dessa   orientação,   que   foi   reiterada   no   julgamento   do   RE   141.787,
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divergiu   o   acórdão   recorrido.   Recurso   extraordinário   conhecido   e   provido.   (RE


245332/CE, 1ª Turma, Ministro relator Moreira Alves, julgamento realizado em 09
de outubro de 2001, publicado no dia 16 de novembro de 2001).

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. OFICIAL DA POLÍCIA MILITAR. EXCLUSÃO DA
LISTA   DE   PROMOÇÃO.   OFENSA   AO   ART.   5º,   LVII   DA   CONSTITUIÇÃO.
INEXISTÊNCIA.   1.   Pacificou­se,   no   âmbito   da   Primeira   Turma   do   Supremo
Tribunal Federal, o entendimento segundo o qual inexiste violação ao princípio da
presunção de inocência (CF/88, art. 5º, LVII) no fato de a legislação ordinária não
permitir a inclusão de oficial militar no quadro de acesso à promoção em face de
denúncia em processo criminal, desde que previsto o ressarcimento em caso de
absolvição. 2. Precedentes. 3. Recurso extraordinário conhecido e provido. (RE n.
356119   Agr/Piauí,   Primeira   Turma,   Ministro   relator   Ellen   Gracie,   julgamento
realizado em 03 de dezembro de 2002, publicado em 07 de fevereiro de 2003).
 
EMENTA:   AGRAVO   REGIMENTAL   NO   RECURSO   EXTRAORDINÁRIO.
PROMOÇÃO  DE OFICIAL  DA POLÍCIA  MILITAR. EXCLUSÃO.  ABSOLVIÇÃO.
RESSARCIMENTO. PRECEDENTE. 1. A jurisprudência do Supremo é no sentido
da inexistência de violação do princípio da presunção de inocência [CB/88, artigo
5º, LVII] no fato de a lei não permitir a inclusão de oficial militar no quadro de
acesso à promoção em razão de denúncia em processo criminal. 2. É necessária
a previsão legal do ressarcimento em caso de absolvição. Precedentes. Agravo
regimental a que se nega provimento. (RE 459320 AgR/RN,  2ª Turma, Ag. Reg.
no Recurso Extraordinário, ministro relator Eros Grau, julgamento realizado em 22
de abril de 2008, acórdão publicado em 23 de maio de 2008).

Embora   existam   decisões   divergentes   proferidas   pelos   Colendos   Tribunais


Superiores, filio­me ao posicionamento referenciado porque, a meu ver, inexiste
ofensa ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, LVII, da Constituição da
República de 1988) no fato de a Lei 5.301, de 1969, não permitir a concorrência à
promoção de militar, oficial (art. 203, IX) e praça (art. 214), integrante do quadro
de   acesso,   em  virtude  de   estar  sub   judice  denunciado  por   crimes dolosos,  ali

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discriminados, uma vez que a própria legislação já prevê o ressarcimento no caso
de absolvição, com a promoção com efeito retroativo (art. 203, §§1º, 2º, 3º e 4º).
Destaca­se que o referido inciso IX do art. 203 e o art. 214 foram alterados pela
Lei   Complementar   n.   109,   de   22   de   dezembro   de   2009,   fazendo   constar   a
redação seguinte a partir de 1º de dezembro de 2009 (art. 20 da Lei 109, de 22
de dezembro de 2009):
 
Art. 203 ­ Não concorrerá à promoção nem será promovido, embora incluído no
quadro de acesso, o Oficial que:
IX ­ estiver preso à disposição da justiça ou sendo processado por crime doloso
previsto:
a)   em   lei   que   comine   pena   máxima   de   reclusão   superior   a   dois   anos,
desconsideradas as situações de aumento ou diminuição de pena;
b) nos Títulos I e II, nos Capítulos II e III do Título III e nos Títulos IV, V, VII e VIII
do Livro I da Parte Especial do Código Penal Militar;
c) no Livro II da Parte Especial do Código Penal Militar;
d) no Capítulo I do Título I e nos Títulos II, VI e XI da Parte Especial do Código
Penal;
e) na Lei de Segurança Nacional.
§ 1º O Oficial incluído no quadro de acesso que for alcançado pelas restrições
dos incisos III e IX e, posteriormente, for declarado sem culpa ou absolvido por
sentença penal transitada em julgado será promovido, a seu requerimento, com
direito a retroação.
§ 2º O Oficial enquadrado nas restrições previstas nos incisos III e IX concorrerá
à promoção, podendo ser incluído no quadro de acesso, sendo promovido se for
declarado   sem   culpa   ou   absolvido   por   sentença   transitada   em   julgado,   que
produzirá efeitos retroativos.
§ 3º Não ocorrerá a retroação prevista no § 1º, salvo na promoção pelo critério de
antigüidade, quando a declaração de ausência de  culpa ou a absolvição ocorrer
por   inexistência   de   prova   suficiente   para   a   aplicação   de   sanção   ou   para
condenação ou por prescrição.

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§   4º   As   restrições   previstas   no   inciso   IX   não   se   aplicam   a   militar   quando


decorrentes de ação militar legítima, verificada em inquérito ou auto de prisão em
flagrante.

Art. 214. A promoção por tempo de serviço é devida ao Soldado de 1ª Classe que
tenha, no mínimo, dez anos de efetivo serviço  e ao Cabo que tenha, no mínimo,
dez   anos   de   efetivo   serviço   na   mesma   graduação,   observado   o   previsto   nos
incisos I, II e IV do caput do art.  186, nos arts. 187, 194, 198 e nos incisos I a VII
e IX do caput e nos parágrafos do art. 203.

Desta forma, o inciso IX do art. 203, combinado com o art. 214 da lei ordinária
número   5.301,   de   16   de   outubro   de   1969,   coaduna   com   os   preceitos
constitucionais, sendo certo que os critérios estabelecidos para as promoções de
militares não ferem o princípio da não culpabilidade e presunção de inocência,
contido   no   inciso   LVII   do   art.   5º   da   Constituição   da   República,   uma   vez   que
preservam   os   princípios   constitucionais   aplicáveis   aos   servidores   públicos   no
tocante à moralidade e probidade de sua atuação.
Assim, reconheço a constitucionalidade do inciso IX do art. 203 combinado com o
art. 214, ambos da Lei n. 5.301, de 16 de outubro de 1969.
É como voto.

JUIZ CEL PM RÚBIO PAULINO COELHO
Acompanho, integralmente, o voto do eminente Juiz relator.

Belo Horizonte, sala das sessões do Tribunal de Justiça Militar do Estado de
Minas Gerais, aos 24 de fevereiro de 2010.

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