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A vontade de Schopenhauer a Nietzsche: um impulso

para duas transcendências


Sandra Portella Montardo∗

Índice vontade para depois ser seguido pelas consi-


derações a respeito do mesmo tema por Ni-
1 Introdução 1 etzsche. Um cruzamento entre as idéias de
2 A vontade em Schopenhauer 1 ambos conclui o trabalho, apontando para a
3 A vontade em Nietzsche 5 questão da transcendência.
4 Conclusão 8
5 Bibliografia 10
2 A vontade em Schopenhauer
Em “O mundo como vontade e como re-
presentação”( Edições e Publicações Brasil,
“Pensamento é criação, não vontade de
1951), Arthur Shopenhauer, como não po-
verdade”
deria deixar de ser, vale-se de seus conheci-
Friedrich Nietzsche
mentos a respeito de ciências biológicas para
conceituar a vontade. Com base nesses co-
1 Introdução nhecimentos, o autor alemão estabelece as
diferenças entre a vontade animal e a vontade
Pensar a relação entre o conceito de vontade
do homem, introduzindo um discurso filosó-
em Schopenhauer e o conceito de vontade de
fico para tanto.
poder em Nietzsche é pensar nos pontos de
Schopenhauer, já nas suas “Explicações
encontro e de afastamento de um com rela-
preliminares”, expõe que aspira fazer uma
ção ao outro. O presente ensaio começará
filosofia prática, ainda que entenda que a
por esboçar as idéias de Schopenhauer sobre
mesma não pode ser senão teórica. Fica aqui,
∗ mais evidente a sua ligação com o determi-
Doutora pelo PPGCOM da PUCRS, Linha
de Pesquisa Comunicação e Tecnologias do Ima- nismo biológico que marca a sua obra, dei-
ginário (2004), fez Estágio de Doutorado na xando claro, também, que não pretende ditar
Paris V, Université René Descartes, Sorbonne
(dezembro2003-junho2004), participou das sessões preceitos a respeito da conduta humana, mas
do GRETECH/CeaQ. Professora e pesquisadora do apenas explicitar aspectos da mesma.
Curso de Comunicação Social do Centro Universitá- Para o filósofo alemão, o único tempo
rio Feevale, em Novo Hamburgo, RS, pesquisadora que existe de fato é o presente. De acordo
do Grupo Comunicação e Cultura, filiado à mesma
com essa noção, Schopenhauer nega a his-
instituição.
2 Sandra Portella Montardo

toricidade de modo geral na elaboração da presentação nessa análise, fator de diferenci-


obra em questão, afirmando que “não va- ação primeiro entre a vontade nos reinos ve-
mos contar histórias para fazel-as ( sic!) getal e animal para com o homem. E isso
passar por philosophia ( sic!)”( SCHOPE- porque, dado que a vontade é insconsciente
NHAUER, 1951, p. 19). O próximo pará- em si mesma, ela prescinde da ação do ho-
grafo revela o que o autor alemão pretende mem para tornar-se consciente de seu querer
ao fazer filosofia: e do seu objeto.
Com isso, tem-se que a vontade é a coisa
“A única maneira verdadeiramente phi-
em si, enquanto o mundo é fenômeno, es-
losophica ( sic!) de considerar as cou-
pelho da vontade. O que equivale a dizer
sas, a maneira que nos ensina a conhecer-
que o indivíduo também é fenômeno, que
lhes a essencia ( sic!) e que nos conduz
do nada veio e para o nada voltará, uma
para alem do phenomeno ( sic!), é pre-
vez que nascimento e morte equilibram-se na
cisamente aquela que não se preoccupa
vida. Schopenhauer atribui as preocupações
( sic!) com saber d’onde vem o mundo,
acerca da morte no homem devido a indivi-
para onde vae ( sic!) e porque existe, mas
duação que ocorre em virtude deste com re-
examina unicamente aquillo ( sic!) que
lação à espécie. Ao que o autor complementa
é, sem olhar as cousas do ponto de vista
dizendo que a natureza se preocupa com a
das suas relações, dos seus principios (
espécie e não com o indivíduo, visto que a
sic!) ou dos seus fins, n’uma palavra sem
natureza permanece independentemente da
estudal-as ( sic!) sob qualquer cathegoria
morte deste indívíduo.
( sic!) do princípio de razão, - antes ao
Ainda neste sentido, a forma da vida ou da
contrario, tomando por objecto ( sic!) da
realidade enquanto fenômenos da vontade é
sua investigação, aquillo ( sic!) mesmo
o presente, tempo que assegura que nada po-
que sobra das cousas que foram estuda-
derá jamais subtrair-lhe. O presente é, en-
das segundo este principio, suas idéias, a
tão, um ponto de contato entre o objeto, de
essencia ( sic!) do mundo que apparece (
que o tempo é forma, e o sujeito, que não
sic!) nas relações sem lhes estar subjeita
tem por forma nenhum dos modos de prin-
( sic!) e que permanece sempre identica
cípio da razão, de forma que o primeiro é a
( sic!) a si propria ( sic!)” (SCHOPE-
vontade tornada representação e o segundo,
NHAUER, 1951, p. 20).
o correlativo necessário do primeiro.
Alguns aspectos a respeito da vontade já Tais objetos só figuram como reais no pre-
aparecem em ocasião dessas notas prelimi- sente, sendo que passado ou futuro não são
nares. Schopenhauer coloca que a vontade é mais do que abstrações e fantasias do espí-
livre, autônoma e onipresente, de modo que rito, ao que se associa o medo da morte, por
tanto a ação e o seu mundo constituem von- exemplo. Na medida em que para Schope-
tade consciente de si própria, determinando nhauer, “a vida é assegurada á vontade e o
tal ação e tal mundo. Tudo o mais não existe presente á vida” (SCHOPENHAUER, 1951,
sem que exista a vontade. p. 21), temer a morte como destruição se-
Ao falar que o mundo é o espelho da von- ria como se o sol se lamentasse em perder-se
tade, Schopenhauer introduz a questão da re- numa noite eterna assim que se pousesse.

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A vontade de Schopenhauer a Nietzsche 3

A natureza continua, o presente de cada quer ação; é apenas depois de ter realizado a
um continua, mesmo a partir da morte de ação, ao meditar sobre ela, é que o homem
outrem, do mesmo modo que com a morte apercebe-se de que os seus atos resultam ne-
da cada um de nós. O que orbita em meio cessariamente do seu caráter combinado com
a isso são apenas abstrações, tanto relativas motivos.
ao passado quanto ao futuro, quando falta Ao classificar os tipos de caráter no ho-
a consciência de que permanência e destrui- mem, que incorrerão nas atitudes tomadas
ção são condições temporâneas. Tais abstra- por este, Schopenhauer faz alusão a Kant
ções são igualmente responsáveis pela nega- como revelando a compatibilidade que a ne-
ção da vontade de viver, intenção observável cessidade tem com relação à liberdade da
quando o conhecimento despoja o seu que- vontade em si, isto é, fora do fenômeno, dife-
rer. renciando o caráter inteligível do caráter em-
A vontade por constituir a coisa em si é pírico, sendo o primeiro a vontade em si no
livre. Já o fenômeno, submisso às catego- homem e o segundo, a sua corporização no
rias da razão, está envolvido com a questão espaço e no tempo, por meio da sua conduta.
da necessidade. Começa a esboçar-se, aqui, Partindo desse ponto, Schopenhauer com-
uma contradição: o mundo, como objetivi- pleta afirmando que o intelecto só é infor-
dade da vontade é fenômeno, portanto ligado mado das decisões por parte da vontade a
à questão da necessidade, enquanto que a posteriori e empiricamente. O que equivale
vontade é livre por ser a coisa em si e por dizer que quaisquer resoluções a respeito de
não ter relação qualquer com a necessidade. uma decisão a ser tomada são possíveis para
A partir desse quadro verifica-se que tal a vontade, mesmo que sejam antagônicas en-
qual a vontade o homem é livre, sendo este tre si.
último o fenômeno mais perfeito da vontade, Posto isso, o filósofo alemão acrescenta
dado que a sua inteligência é capaz de fazê- que chega ao fim uma ilusão referente a
lo tornar-se na representação uma repetição uma liberdade empírica da vontade, já que,
adequada da essência do mundo, sendo este por mais que a decisão chegue ao intelecto
espelho que reflete o mundo é a concepção por meio da experiência, “ela nasce da na-
das idéias. Tudo isso, de o homem dispor da tureza intima ( sic!), do caracter intelligivel
liberdade inerentemente à vontade, o distin- ( sic!), da vontade individual no seu con-
gue dos demais seres. flicto ( sic!), com os motivos estabelecidos
No homem, os motivos lhe provocam os e por conseguinte com uma absoluta neces-
atos de vontade por meio de um caráter. E sidade”( SCHOPENHAUER, 1951, p. 47).
isso porque a conduta de um indivíduo está Um ponto bastante intrigante na obra de
relacionada primeiramente à necessidade, ao Schopenhauer, no momento em que este fala
poder de um motivo, uma vez que a liber- de vontade, é a questão do livre arbítrio. Para
dade da vontade não se apresenta como tal ao ele, antes do homem atribuir a alguma coisa
fenômeno. Ou seja, a pessoa não é livre, mas que ela é boa, primeiro ele vai a querer para
sua ação no mundo, que refere-se à vontade depois classificá-la de boa. Frente a isso,
é. Nesse ponto, Schopenhauer diz que o ho- livre-arbítrio, para Schopenhauer resume-se
mem considera-se, a priori, livre para qual- a reflexão acerca do que seria bom.

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Decorrente desta visão a respeito do livre- sia, a partir do que aprendemos com respeito
arbítrio, o autor dispensa uma relação ne- ao que queremos e o que podemos, a partir
cessária entre caráter e conduta. E isso na da experiência.
medida em que se pode agir de maneira di- Para Schopenhauer a grande questão da
ferente em determinadas situações, a partir vida consiste no querer e no não- querer-
de motivos específicos os quais já estão alo- viver, mesma questão da qual o autor se
jados no intelecto. No entanto, a vontade, ocupa na obra em questão. Frente a isso,
imóvel e indivisível, permanece sempre pri- tem-se que a vontade não se exaure nunca,
meira, ao que o pensador alemão adiciona, estando sempre em aspiração permanente.
perfazendo um dos momentos mais brilhan- Os obstáculos que surgem só podem produ-
tes da obra em questão, citando Seneca, que zir suspensão dessa vontade, sendo denomi-
não se aprende a querer. nados por sofrimento. Por outro lado, dado
Mais uma vez, os motivos só podem agir que a vontade é infinita, não haverá jamais
sobre a vontade exteriormente a esta, sem uma satisfação final, ainda que a superação
jamais tocar o seu cerne. Dessa forma, o de um obstáculo seja chamada de satisfação.
conhecimento, tanto enquanto experiência Quanto a esse tema, Schopenhauer coloca
quanto em termos de imaginário, podem im- que viver é sofrer, pois a vontade é infinita
pedir a concretização da vontade em atos, e jamais saciada, ao que se acrescenta que a
donde vem o arrependimento, que só se re- base de todo querer é uma falta, uma indi-
laciona com o conhecimento e nunca com a gência. Desse modo, o homem sendo a mais
vontade. perfeita objetivação da vontade, é também o
À determinação eletiva no homem, que mais necessitante, sendo que sua vida oscila
faz deste um campo de batalhas, o pensa- entre a dor e o fastio. Nesse sentido, é o de-
dor alemão compara o instinto no animal en- sejo de viver que mantém o homem ocupado,
quanto formas de reconhecer a vontade. Ao para matar o tempo, de modo que o tédio se
que Schopenhauer contrapõe as dores no ho- transforma em fator de sociabilidade.
mem, enquanto abstrações que o torturam, Frente a isso, Schopenhauer coloca que
da invejável quietude animal, que só sente a por necessitar da dor para viver, cada ser pos-
dor física no presente. Seneca, novamente é sui o sofrimento de que precisa para tanto,
evocado para ilustrar tal fato: “Dão-se mui- ainda que não reconheça este fato. Esse
tas cousas as quaes ( sic!) mais do que nos não reconhecimento faz com que o homem
opprimem ( sic!), nos espantam, e mais fre- aponte para motivos ou para circunstâncias
quentemente somos angustiados mais pela exteriores a si para justificar o seu sofrer.
idea ( sic!), do que pela realidade” ( Seneca Pelo mesmo motivo, o homem elege ídolos
apud Schopenhauer, 1951, p. 60). de toda a espécie a quem possa servir. E
Ao lado do caráter inteligível e do caráter ilude-se, pela última vez, na medida em que
empírico há um terceiro tipo, diferente dos atribui a suspensão da sua dor por uma ale-
anteriores: trata-se do caráter adquirido, que gria que lhe seja exterior.
se forma a partir das relações do homem com Por fim, o pensador alemão adjetiva como
o mundo. E isso de tal forma que tal caráter mais nobre que o homem aceite a sua con-
torna um indivíduo, único na sua idiossincra- dição de portador de uma disposição para a

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A vontade de Schopenhauer a Nietzsche 5

melancolia, do que invente perseguições de com a sua ilusão. Quisera que todos es-
fantasmas imaginários para justificar o seu ses próximos e seus vizinhos se vos tor-
estar no mundo, o que equivale ao seu sofrer. nassem insuportáveis; assim teríeis que
Feitas tais considerações a respeito da criar para vós mesmos o vosso amigo e
vontade em Schopenhauer, bem como às no- o seu coração fervoroso” ( NIETZSCHE,
ções adjacentes a essa questão, é chegada a 1999, p. 60).
hora de verificar os contornos que esse con-
ceito assume em Nietzsche. Em seguida, que Com isso, Nietzsche aproxima-se de
se passe às comparações entre os dois con- Schopenhauer quando este último fala que o
ceitos. homem, ao precisar da dor enquanto falta ne-
cessária à vontade para viver e, no entanto,
sem reconhecer em si tal condição, atribui a
3 A vontade em Nietzsche causas exteriores tanto o seu bem quanto o
Muitos pontos em “Assim falou Zaratustra” ( seu mal. Essas causas exteriores podem apa-
Martin Claret, 1999) de Friedrich Nietzsche, recer como questões imaginárias do passado
relativos direta ou indiretamente ao conceito e do futuro, bem como ídolos que, de algum
de vontade, encontram um ponto de apoio modo, o homem cria para que tenha a quem
em Schopenhauer. No entanto, Nietzsche vai servir.
além, sempre apontando um caminho parti- Frente a isso, Schopenhauer aponta como
cular para a transcendência do homem. Para sendo mais digno o reconhecimento dessa si-
que se verifique essa questão, serão coloca- tuação tal como ela se apresenta do que as
das referências do texto de Nietzsche citado lamentações que o homem cristaliza sob a
acima, para que, em seguida, seja feita a rela- forma de fatalismo. Já Nietzsche, por meio
ção com o texto de Schopenhauer, frente aos de Zaratustra, aconselha o amor ao mais
objetivos já expostos. afastado ao invés do amor ao próximo. No
Um exemplo pode ser encontrado em “Do entanto, esse afastado surge como possibili-
amor ao próximo”, quando Zaratustra justi- dade nas mãos do homem que faz valer a sua
fica o fato de o homem andar sempre às vol- vontade, fazendo as vezes de um porvir e de
tas do próximo pelo fato de não reconhecer um remoto que podem vir a ser concretiza-
em si mesmos as suas coisas e seus fantas- dos no plano terrestre. Trata-se da transcen-
mas. O medo em dar carne a essas coisas e dência do homem pelo próprio homem aqui
a esses fantasmas, que são ainda mais belos na Terra. Ao que Nietzsche acresenta: “Não
do que o próprio homem, o impele a procu- falo do próximo; falo só do amigo. Seja o
rar o próximo, não por amor a ele, mas por amigo para vós a festa na terra e um pressen-
falta de amor a si mesmo. Afinal, “O Tu é timento do Super-homem” ( NIETZSCHE,
mais velho que o Eu” ( NIETZSCHE, 1999, 1999, p. 60).
p. 59). Nas palavras de Nietzsche: Em “Da virtude dadivosa”, Nietzsche fala
mais especificamente de vontade, continu-
“Não vos suportai a vós mesmos e não ando a linha de pensamento colocada acima.
vos quereis bastante; desejareis seduzir Nesses termos, o autor alia a necessidade do
o próximo por vosso amor e dourar-vos, homem em se tornar oferendas e presentes à

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pertinência de abandonar valores de maneira para que se forme, com isso, o povo que dará
geral, o que se converteria num são e sagrado a luz ao Super-homem.
egoísmo, já que o outro egoísmo, de roubar e Ao final da primeira parte desta obra que
de invejar, por exemplo, desenvolve-se numa é formada por mais três, Zaratustra pede
esfera de valor. que os seus seguidores o abandonem para
Quanto a isso, o Zaratustra de Nietzsche, que cada um possa encontrar a si mesmo
relativizando ainda essa esfera de valor, co- para que, então, Zaratustra os ame com um
loca que “Todos os nomes do bem e do mal novo amor. Assim, ele parece querer rever-
são símbolos; não falam, limitam-se a fazer ter a questão da vontade primeira de cada
sinais”. No entanto, um homem, segundo o um cristalizar-se em ações através de proje-
personagem conceitual em questão, desco- ções nos outros, em ídolos. “Todos os deuses
bre a sua verdadeira virtude enquanto ouve morreram; agora viva o Super-homem! Seja
o seu corpo falar em símbolos. Assim, Zara- esta, chegado o grande meio-dia, a vossa úl-
tustra ainda fala: “Quando vos elevais acima tima vontade!”. ( Niestzsche, 1999, p. 72).
do louvor e da censura, e quando a vossa Em “Da vitória sobre Si mesmo”, Nietzs-
vontade, como vontade de um homem que che relaciona a vontade de poder com o de-
ama e quer mandar em todas as coisas, então sejo de verdade, levantando mais uma vez a
assistis à origem da vossa virtude”( NIETZS- questão do bem e do mal, sendo um dos pon-
CHE, 1999, p. 70), não deixando de reco- tos do livro em que se tornam mais explícitas
nhecer que se trata de novos valores, mesmo tais questões. Mais uma vez o autor fala da
que acima do bem e do mal. vontade dos homens em querer tornar ima-
Adiante, Zaratustra persuade os homens ginável tudo quanto existe devido ao fato de
que estão ao seu redor a permanecerem fiéis desconfiarem do que possa ser imaginável,
a terra, com todo o poder de sua virtude. Por ou, por outras palavras, da sua vontade en-
outras palavras, já que é para servir a algo ou quanto fantasmas.
a alguém, que seja à terra, com toda a tran- Nietzsche fala da vontade de poder en-
sitoriedade que lhe é inerente. Mais uma vez quanto a vontade de que tudo se curve pe-
pode-se ouvir a voz de Schopenhauer, ao ex- rante o homem. Por outro lado, o filósofo
plicitar o presente como único tempo real, o alemão pontua como sendo a última espe-
aqui como único lugar a ser considerado. rança e a última embriaguez do homem que
Na seqüência, Nietzsche alia a questão da este possa criar um mundo perante o qual
vontade à da virtude. Assim, “A inteligên- possa ajoelhar-se. Adiante, tem-se que os
cia e a virtude têm-se extraviado e enganado mais sábios colocaram sua vontade e os seus
de mil maneiras diferentes. Ainda agora re- valores no rio do porvir, sendo que, aos olhos
sidem no nosso corpo essa loucura e esse de Zaratustra, ao que o povo rotula de bom
engano: tornaram-se corpo e vontade” ( NI- e mau esconde-se uma antiga vontade de
ETZSCHE, 1999, p. 71). Para este pensador, domínio. No entanto, Zaratustra esclarece:
o fato de o homem dedicar a sua inteligência “Não é o rio o vosso perigo e o fim do vosso
e a sua virtude ao que é terreno constitui con- bem e do vosso mal, sapientíssimos, mas
dição para que os valores sejam renovados e essa mesma vontade, a vontade do poder” (
NIETZSCHE, 1999, p. 71).

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A vontade de Schopenhauer a Nietzsche 7

Para explicar a pertinência da questão dos O autor estende a vontade de domínio ao


valores, Nietzsche vale-se de Zaratustra para fato de ter que se criar o adversário para
explicar a condição de ser vivo enquanto o próprio amor, pois assim quer a vontade.
obediência. E isso porque, segundo o per- Nessa mesma direção, o filósofo alemão co-
sonagem em questão, manda-se ao que não loca que a sua vontade de domínio, a partir
sabe obedecer a si mesmo. Ao que o pen- de suas investigações, encontra em seus lei-
sador acrescenta que mandar é mais difícil tores a vontade de verdade.
do que obedecer visto que deve-se suportar Ao apontar a contradição inerente à von-
o peso de todos os que obedecem e, assim, tade de existir, visto que só o que existe goza
tornar-se frágil. de vontade, Nietzsche complementa: “Só
Porém, mandar a si próprio também não onde há vida há vontade; não vontade de
constitui tarefa fácil, uma vez que cada um vida, mas como eu predico, vontade de do-
deve converter-se em juiz, vingador e vítima mínio. Há muitas coisas que o vivente apre-
de suas próprias leis. Assim, pode-se fazer o cia mais do que a vida; mas nas próximas
paralelo com Schopenhauer, em termos de o apreciações fala a ‘vontade de domínio”’ (
caráter inteligível aperceber-se do que quis a NIETZSCHE, 1999, p. 97).
sua vontade encarnada na experiência. Nas Para finalizar esta parte do trabalho, Ni-
palavras de Nietzsche: etzsche coloca que para que haja qualquer
criatividade relacionado a um novo bem ou
“Onde quer que encontrasse o que é vivo a um novo mal, deve, antes, haver uma des-
encontrei a vontade de domínio, até na truição e quebra de valores. Com isso, a
vontade do que obedece encontrei a von- maior malignidade estaria na maior benigni-
tade de ser senhor. Sirva o mais fraco ao dade, mas esta última seria criadora.
mais forte: eis o que lhe incita a vontade, Em “Dos homens sublimes”, surgem refe-
que quer ser senhora do mais fraco. É rências ao que Schopenhauer relaciona com
essa a única alegria que não se quer pri- a condição de sofrimento que é a vida, uma
var. E como o menor se entrega ao maior, vez que esta é a vontade. Isso porque a
para gozar do menor e dominá-lo, assim vontade toma por base a falta que deve ser
o maior se entrega também e arrisca a suprida, para que haja espaço a uma nova
vida pelo poder” ( NIETZSCHE, 1999, forma de supri-la, já que a vontade é insa-
p. 71). ciável. Quanto a isso, Nietzsche fala que
somente quando o homem enfastiasse-se de
Frente a isso, Nietzsche insiste de que sua sublimidade principiaria a sua beleza. O
onde há amor de qualquer tipo, também há a autor também coloca como condição para a
vontade de ser senhor. E tudo porque, ao que visualização desta beleza, que o homem de-
parece, para esse autor a vida é o que deve ser veria ser como o touro que canta com louvor
superior a si mesma. A isso que se asseme- tudo o que é terrestre. Assim, poder-se-ia ver
lha a vontade de criar ou impulso para o fim, além da força do touro, de olhar sombrio, o
para o mais sublime, para o mais longínquo, olhar de um anjo. “Quando o poder se torna
para o mais múltiplo, Nietzsche somente vis- clemente e desce ao visível, a essa clemên-
lumbra a vontade de poder.

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cia chamo eu beleza” ( NIETZSCHE, 1999, no que se refere aos seus pontos de encontro
p. 99). quanto distanciamentos possíveis.
Por fim, Nietzsche expõe que cada ho-
mem deve exigir mais do que a ninguém de
4 Conclusão
mesmo tal beleza, de modo que essa bon-
dade seria a última vitória de cada um so- Ao falar que a vontade de existir é impossível
bre si mesmo. Aqui, Zaratustra diferencia dado que a vontade já pressupõe ela própria a
esta bondade da dos que se consideram bons existência, Nietzsche repete um ponto expli-
por servirem aos outros ao invés de servirem citado à exaustão na obra de Schopenhauer.
a si mesmos. Na medida em que cada ho- Para este último, a vontade é livre, autônoma
mem reconhecesse em si essa beleza, have- e estando ela própria em condição de inerên-
ria adoração na vaidade de cada um, sendo cia com relação à vida. Por exemplo, quando
que dessa forma, o herói teria abandonado a Schopenhauer afirma que “onde houver von-
alma do homem, dando espaço para que se tade, haverá tambem ( sic!) vida, mundo”
aproximasse em sonhos o super-herói. ( SCHOPENHAUER, 1951, p. 22). Ao que
Aliada à questão da quebra dos valores, Nietzsche emenda: “Só onde há vida há von-
em “Dos três males”, Nietzsche tece elogios tade; não vontade de vida, mas como a pre-
a três das coisas que, em sua opinião, foram dico, vontade de domínio”. ( NIETZSCHE,
desde sempre por demais difamadas e calu- 1999, p. 97).
niadas: a voluptuosidade, o desejo de domi- No entanto, Schopenhauer também fala
nar e o egoísmo. Enquanto voluptuosidade, que o mundo é a representação da vontade,
o autor coloca, basicamente, que é o maior espelho desta, na medida que é onde o ho-
pecado e o maior veneno para os que despre- mem pode reconhecê-la. E isto porque a
zam o corpo e para os que vivem de melan- vontade como essência, como coisa em si,
colia. Já para quem tem “vontade de leão”, a é insconsciente em si mesma, necessitando
voluptuosidade surge como o mais doce sa- da ação do homem para tornar-se consciente.
bor, como a maior felicidade simbólica para Vale dizer que este, por sua vez, só tomará
a ventura e para a esperança superior. consciência da própria vontade a partir da
Ao desejo de dominar, Nietzsche associa a concretização desta em atos. Ou seja, seu
idéia de virtude dadivosa, em nome da qual caráter empírico informará ao seu caráter in-
se destrói e duvida-se de tudo o quanto é teligível a sua vontade após a sua concretiza-
dado como legítimo. Já o egoísmo, o mesmo ção. Eis o mundo como representação.
autor sugere para os falsos sábios, aos sacer- Associada à idéia do mundo como repre-
dotes, aos enfastiados do mundo, aos efemi- sentação, ou seja, como algo que já foge
nados e aos servis, como meio de se alcançar da esfera de realidade, ligado ao fato de
e seguir a sua própria vontade, como pretexto que o homem recorre ao caráter inteligível
para que se olhe para dentro de cada um. para agir ou não de uma determinada forma,
Adiante, segue uma série de comentários compreende-se porque o homem cria fantas-
considerados pertinentes quando se pensa mas imaginários, resgatando-os do passado
em vontade para esses dois autores. Tanto ou projetando-os para o futuro. Para Schope-
nhauer, só existe o tempo presente enquanto

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A vontade de Schopenhauer a Nietzsche 9

realidade e lugar de atualização da vontade tado refere-se ao possível indicado pela de-
latente no homem. dicação do homem, em termos de sua inte-
Para este autor, quando se perde a consci- ligência e da sua virtude ao que é terreno,
ência de que o presente é o único tempo real, no que culminaria um encontro consigo mes-
do qual nada jamais vai subtrair-lhe, o ho- mos através da realização de sua vontade.
mem torna-se inibido pelo que a sua experi- “Quando o poder se torna clemente e
ência informou ao seu intelecto, perdendo de desce ao visível, a essa clemência chamo eu
foco a sua vontade enquanto potência para o beleza”( NIETZSCHE, 1999, p. 99), a par-
hoje. Por outro lado, Schopenhauer diz que tir do que pode-se associar esse visível que
viver é sofrer dado que a vontade é insaciá- passa-se a chamar de beleza enquanto reali-
vel, colocando-se sempre em como reação a zação da vontade.
uma falta. Nisso, a vida do homem oscila Com isso fica clara a posição do autor em
entre a satisfação de uma vontade e o fastio propor que cada homem deve exigir mais do
referente a esta. que a ninguém de si mesmo tal beleza, de
Ainda com relação a esse ponto, Schope- modo que essa bondade seria a última vitória
nhauer afirma que cada um dispõe do so- de cada um sobre si mesmo. Nota-se, no en-
frimento que se faz necessário para a sua tanto, que Nietzsche diferencia esta bondade
própria vida. Porém, a dose de sofrimento da dos que se consideram bons por servirem
solicitada por um homem parece ser dire- aos outros ao invés de servirem a si mesmos,
tamente proporcional à sua incapacidade de sem darem-se conta, ao menos, de que estão
reconhecê-la„ reportando-o para inexistên- satisfazendo a própria vontade de serem re-
cias presas ao passado e ao futuro. Nes- banhos ou vassalos do que quer que seja.
ses casos, este homem não consegue nem Quanto a estes, este pensador expõe que
admitir o que o faz viver, tampouco conse- eles colocam a sua vida no rio do porvir,
gue enxergar no presente oportunidade para acreditando em algo longe e exterior a si pró-
desviar-se dessa condição. Afinal, não se prios, submetendo-se a deuses e ao futuro de
aprende a querer. maneira passiva, onde a única vontade que se
Na medida em que o homem pensa-se manifesta é a de se realizar pela projeção em
como exterior à sua vontade, dado que não algo externo e independentes de sua existên-
a reconhece pois não a age, decorre que este cia, ainda que quem pinta os contornos dessa
homem atribui tanto o seu sofrimento quanto inconsistência brumosa seja cada um deles.
a sua suspensão a fatores também externos. “Não é o rio o vosso perigo e o fim do
Donde, ídolos, deuses, fantasmas do pas- vosso bem e do vosso mal, sapientíssimos,
sado, projeções para o futuro que o homem mas essa mesma vontade, a vontade do po-
elege para que tenha a quem servir, na falta der” ( NIETZSCHE, 1999, p. 71), escla-
de coragem para ouvir e prover de existência rece, mais tarde Nietzsche. Aqui, o pensa-
os seus próprios fantasmas. dor alemão introduz a questão da destruição
Pelo mesmo motivo, Nietzsche aconselha de todo o bem e de todo o mal como força
não o amor ao próximo, enquanto falta de criadora resultante da vontade. Eis, assim, a
amor a si mesmo, mas o amor ao mais afas- condição para que o homem ultrapasse a si
tado. E ele ainda acrescenta que este afas- mesmo, dando forma à nação que daria a luz

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10 Sandra Portella Montardo

ao Super-homem. É a esse afastado possível gredo : “eu sou o que deve ser superior a si
e terreno que assume a consistência do afas- mesmo” ( NIETZSCHE, 1999, 97).
tado ao que Nietzsche refere-se, tratando-se
de uma transcendência do homem pelo pró-
5 Bibliografia
prio homem.
Desse modo, transparece tanto na obra de NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra.
Schopenhauer quanto na de Nietzsche ques- São Paulo: Martin Claret, 1999.
tões que atrelam a vontade à questão da
transcendência. No entanto, para Schope- SCHOPENHAUER, A. O mundo como von-
nhauer tal transcendência revela-se na me- tade e como representação. São Paulo:
dida em que a vontade converte-se em ação Edições e Publicações Brasil, 1951.
projetada em um outro, como válvula de
escape dos medos imaginários apresentados
pelo caráter inteligível a partir da experiên-
cia. Nietzsche aproxima-se desta noção ao
falar do homem na condição de colocar sua
vida num porvir que parece ser descolado da
própria vontade deste homem, ainda que este
porvir não poderia ser concebido sem que
houvesse uma vontade, mesmo não reconhe-
cida, para tanto.
Contudo, a questão de transcendência em
Nietzsche não pára por aqui. Ele vai além ao
propor que o homem deve realizar a sua von-
tade aqui na terra, na medida em que afirma
que somente quando o homem enfastiar-se
de sua sublimidade ( o que ainda não é mas
que pode vir a ser) principiaria a sua beleza.
Nisso que envolve a destruição do que é dado
para que haja a proposição do que pode vir a
ser, Nietzsche enxerga a vontade de poder.
Vale ressaltar que ligada a essa vontade de
poder vem o peso que o homem que obedece
a si mesmo carrega, de ser o juíz, a vítima e
a testemunha do que há de mais alto e mais
baixo em seus sonhos.
Superação de si a partir de si aqui na Terra.
Amor ao afastado como condição de realiza-
ção da vontade mais íntima. Vontade de po-
der. Parece ser isso que Nietzsche ouve da
vida quando diz que ela lhe confiara um se-

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