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CENTRO UNIVERSITÁRIO ÍTALO BRASILEIRO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA TOMISTA

O CONHECIMENTO DA ALMA SEPARADA DO CORPO

GUY GABRIEL DE RIDDER

SÃO PAULO
2007
CENTRO UNIVERSITÁRIO ÍTALO BRASILEIRO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA TOMISTA

1
O CONHECIMENTO DA ALMA SEPARADA DO CORPO

Projeto de pesquisa apresentado ao


curso de Pós-Graduação em Teologia
Tomista do Centro Universitário Ítalo
Brasileiro como pré-requisito para a
composição da avaliação na disciplina
Metodologia de Pesquisa Científica, sob
a orientação da Prof. Dra. Maria Carolina
Cascino da Cunha Carneiro

SÃO PAULO
2007

2
Dedicatória

Dedicamos este trabalho a todos os que queiram desfrutar do sabor


apresentado pelo estudo da Teologia, notadamente explicitada por um
de seus maiores próceres em toda a História, que foi São Tomás de
Aquino.
É nosso desejo, por meio destas considerações, tentar transmitir
algo do perfume que emana desta cadeira que – embora
paradoxalmente subestimada por alguns – é da maior, para não dizer a
maior entre todas as matérias que mereçam atenção por parte dos
viventes.

3
Ridder, Guy Gabriel de (2007). Conhecimento da alma separada do corpo e, por
conseguinte de seus sentidos. Monografia, São Paulo, Brasil, Centro Universitário
Ítalo-Brasileiro.

RESUMO

O homem é um composto de alma e corpo. Suas potências desenvolvem-se


naturalmente bem quando estão reunidos estes dois elementos constitutivos de seu
ser: matéria e espírito.Ora, o conhecimento do homem é feito pelos seus sentidos
corpóreos.Pela morte há uma separação ─ embora provisória, é verdade ─ entre
estes dois dados.Sendo isto assim, como fica então a captação de conhecimentos
da alma neste estágio provisório, mas importante, sem o corpo por meio do qual
passam todos os seus sentidos?É justamente esta questão que se visa tratar aqui.
O conhecimento do homem se faz por representações imaginárias. Os sentidos
estando impedidos pela morte da pessoa humana, portanto a imaginação também,
parece que a alma separada do corpo não pode aprender nada. A alma não tem
mais os sentidos através dos quais ela abstraía. Refutando Platão e apoiando-se em
Aristóteles, São Tomás afirma que pelo fato mesmo da alma se separar ela tem uma
operação própria, principalmente no que concerne ao conhecimento. Partindo do
pressuposto de que a alma, enquanto unida ao corpo, só pode conhecer algo
através da imaginação, lembra que o corpo é feito para a alma e não o contrário. A
alma tem um modo de existir diferente quando unida ao corpo, do que quando dele
separada, embora sua natureza permaneça a mesma. A união da alma ao corpo não
é acidental, mas sim, em função de sua natureza. Quando separada do corpo,
convém-lhe um conhecimento totalmente inteligível.Sendo a natureza humana
inferior à dos puros espíritos, se seu conhecimento fosse somente pela intelecção
das coisas (à maneira dos anjos), teria um conhecimento menos perfeito e mais
confuso. Entretanto, pode estar ─ excepcionalmente ─ separada do corpo e mesmo
assim conhecer, embora menos claramente e menos explicitamente do que em seu
corpo.São Tomás de Aquino, notadamente, tende a atribuir uma forma de
conhecimento à alma neste estado por “proveniência de um influxo da luz
divina”.Assim, demonstramos que há um modo próprio pelo qual a alma separada de
seu corpo toma conhecimento do que lhe é externo.Nisto consiste o objeto preciso
desta monografia.

Palavras-chave: Alma separada do corpo. Conhecimento. Morte. Abstração.


Sentidos do homem. Puros espíritos.

4
Ridder, Guy Gabriel de (2007). Connaissances de l´âme séparée de son corps
et, par conséquent, dépourvue de ses sens. Monographie, São Paulo, Brésil,
Centre Universitaire Italo-Brésilien.

RESUME

L´homme est un composé d´âme et de corps. Ses puissances se développent


naturellement bien quand ces deux éléments constitutifs de son être sont ensemble.
La connaissance de l´homme s´effectue par l´intermède de ses sens corporels. Par
la mort il y a une séparation qui s´opère – provisoirement, il est vrai – entre ces deux
composés. S´il en est ainsi, comment peut s´effectuer la captation de connaissances
par l´âme dans ce stage provisoire, mais important, sans avoir son corps par lequel
agissent tous ses sens ? C´est de cette question précise qu il s´agit dans ce travail.
La connaissance de l´être humain s´obtient par des représentations imaginaires. Ses
sens étant empêchés d´agir par la mort, et par conséquent son imagination aussi, il
semble que l´âme séparée du corps ne peut rien apprendre, car elle ne dispose plus
de ses sens par lesquels elle pouvait abstraire. Saint Thomas tout en réfutant Platon
et s´appuyant sur Aristote affirme que par le fait même de sa séparation de son
corps, l´âme développe une opération propre en ce qui concerne l´obtention des
connaissances. L´âme a une manière d´être différente quand elle est unie a son
corps que quand elle en est séparée, malgré que sa nature continue évidemment la
même. L´union de l´âme et du corps n´est pas accidentelle, mais est un fait en
fonction de sa nature même. Quand il y a séparation du corps de l´âme celle-ci a
besoin d´une forme de connaissance entièrement intelligible. La nature humaine
étant inférieur à celle des purs esprits, si l´obtention de connaissances se faisait
uniquement par l´intellection des choses – à la manière des anges – elle en
obtiendrait une connaissance moins parfaite et plus confuse. Cependant, l´âme peut
être – exceptionnellement – séparée de son corps et même ainsi connaître, quoique
de manière moins claire et moins explicite qu´avec son corps. Saint Thomas d´Aquin
attribue une forme de connaissance à l´âme en cet état qui est alors « pourvue d´un
flux divin » et explique comment elle se développe. Ainsi nous démontrons qu´il y a
une manière particulière par laquelle l´âme séparée de son corps prend
connaissance de ce qui est en dehors d´elle. C´est précisément l´objet de cette
dissertation.

Mots-clefs : âme séparée du corps, connaissance, mort, abstraction, sens de


l´homme, purs esprits.

5
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 9
1.1 Pressupostos ...............................................................................................9
1.2 Problema ..................................................................................................... 9
1.3 Hipótese ...................................................................................................... 9
1.4 Objetivo ....................................................................................................... 9
1.5 Metodologia ................................................................................................. 10

2 – Desenvolvimento - Argumentação ......................................................... 10

2.1 Conhecimento pela conversão aos “fantasmas” ......................................... 10


2.2 Não pode a alma separada conhecer as puras espécies ........................... 11
2.3 Por influxo divino também não seria natural ............................................... 11

3 – Refutação de São Tomás a Platão ........................................................... 11

3.1 Conhecimento pelo inteligível sem imaginário ? ........................................ 12


3.2 Alma unida ao corpo é mais perfeita .......................................................... 13
3.3 Natureza da inteligência humana ................................................................ 13
3.4 Provas da inteligência independer do corpo ............................................... 14
3.4.1 Pelo conceito ........................................................................................... 14
3.4.2 Pela reflexão ............................................................................................. 14
3.4.3 Inteligência não é um corpo ...................................................................... 15
3.5 Corolários .................................................................................................... .16
3.5.1 Teses aparentemente opostas quanto à inteligência ................................ 16
3.5.2 Cérebro, órgão do pensamento ? .............................................................. 16

4 – Como as almas separadas do corpo conhecem ? .................................. 16

4.1 Parece que a inteligência humana conhecerá sempre por imagens ............ 17
4.2 Funções e influências da alma separada ..................................................... 17

6
4.2.1 Funções ..................................................................................................... 18
4.2.2 Atividades sensitivas ................................................................................. 18
4.2.3 Atividades espirituais ................................................................................. 18

5 – Funções intelectivas da alma separada ................................................... 18

5.1 Conhecimentos já havidos ou acrescidos .....................................................18


5.2 Ciência adquirida permanece na alma separada ? ...................................... 19
5.3 Dificuldade levantada por São Tomás .......................................................... 20
5.4 Almas separadas conhecem o que se passa na terra? ................................ 20
5.4.1 Falecidos podem preocupar-se com coisas do mundo ............................. 20
5.4.2 Conhecimento por informações recebidas ................................................ 21
5.4.3 Conhecimento por aparições .................................................................... 21

6 – “Ciência preternatural” das almas separadas ........................................ 21

7 – Conhecimento da ciência sobrenatural pelas almas separadas .......... 21

7.1 Nos bem-aventurados ................................................................................. 22


7.2 Nas almas do purgatório ..............................................................................22
7.3 Nos condenados ao inferno ........................................................................ 22
7.4 Nas crianças não batizadas ........................................................................ 22

8 – Funções volitivas da alma separada ........................................................22.

8.1 Quanto à finalidade do homem ....................................................................22.


8.2 Quanto aos meios para alcançá-la ..............................................................23
8.3 Impossibilidade de revogar eleição feita ..................................................... 23
8.3.1 Razão teológica ........................................................................................ 23
8.3.2 Quanto aos meios .....................................................................................24

9 – Tipos de relacionamento das almas separadas ..................................... 25

7
9.1 Com Deus .................................................................................................... 25
9.2 Com os anjos ................................................................................................25.
9.3 Com as demais almas separadas .................................................................26
9.4 Com os homens ............................................................................................26
9.4.1 Impossibilidade própria aparecer a outros ................................................ 26
9.4.2 Aparição contradiria plano Divino ............................................................. 27
9.5 Com as coisas materiais ...............................................................................29

10. Precaução .................................................................................................... 29

11. Conclusão .................................................................................................... 30

– Referências Bibliográficas ............................................................................... 32

8
O conhecimento da alma separada do corpo

1. INTRODUÇÃO

1.1 PRESSUPOSTOS: O homem é um composto de alma e corpo. Suas


potências desenvolvem-se naturalmente bem quando estão reunidos estes dois
elementos constitutivos de seu ser: matéria e espírito.
O conhecimento do homem é feito pelos seus sentidos corpóreos.
Pela morte há uma separação ─ embora provisória é verdade ─ entre estes
dois elementos.

1.2 PROBLEMA: Como fica então a aquisição de conhecimentos pela alma


sem o corpo, através do qual se exercem todos os seus sentidos?

1.3 HIPÓTESE: O que visamos apresentar neste trabalho é uma


demonstração, baseada em assertivas teológicas comprovadas, de que há um modo
particular da alma separada de seu corpo tomar conhecimento do que está fora
dela..
São Tomás de Aquino, em suas duas principais obras (1) notadamente, tende a
atribuir uma forma de conhecimento à alma neste estado por “proveniência de um
influxo da luz divina”.
Igualmente o teólogo contemporâneo Frei Antonio Royo Marin (2) caminha na
mesma direção, chegando a afirmar que “a alma no estado de separação é mais
perfeita − em algum sentido – mas também menos perfeita em outro sentido”.

1.4 OBJETIVO: Tornar compreensível, a situação “extraordinária” em que se


encontra a alma separada do corpo. E, demonstrar que, apesar de não ser seu
estado habitual -- nem atual, nem futuro, na eternidade -- a pessoa humana desfruta
nesta precisa situação de uma vida inteiramente adequada à sua situação.

1
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, São Paulo: Loyola, 2002.
AQUINO, Tomás de. Suma contra os Gentios, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996
2
ROYO MARIN, O.P., Antonio. Teologia de la Salvación. Madri: BAC, 1965
9
Especialmente, temos em vista tornar acessível à inteligência, como pode a
alma, nestas condições extraordinárias tomar conhecimento das coisas, das
pessoas e do próprio Deus, já que não dispõe das condições normais com que foi
criada, para tanto.

1.5 METODOLOGIA

Exposição de caráter descritivo, resultante de pesquisa bibliográfica, tanto de


autor já consagrado no assunto, como de matérias publicadas por estudiosos
recentes a propósito do tema. É preciso notar que, devido à singularidade do tema, a
bibliografia existente sobre o tema – além daquela específica de São Tomás de
Aquino, teólogo princeps – é muito restrita. Daí não podermos citar elenco
abundante de autores.

2. Desenvolvimento - Argumentação

A alma humana, diz São Tomás de Aquino em sua “Suma Teológica” (3) fica
impossibilitada de conhecer quando o sentido se torna impedido, e quando a
imaginação está perturbada, pois tudo que é interior ao homem se corrompe com a
morte. Assim, o conhecer também se corrompe. Pela morte, os sentidos e a
imaginação estão totalmente corrompidos. Assim, pareceria que depois da morte a
alma nada conhece.

2.1. Conhecimento pela conversão aos “fantasmas”


O conhecimento do homem se faz pela “conversão aos „fantasmas‟”, isto é,
por representações imaginárias. Os sentidos estando impedidos de atuarem pela
morte e a imaginação, conseqüentemente também, parece que a alma separada do
corpo não pode aprender nada.

2.2. Não pode a alma separada conhecer as outras espécies

3
Ia. Parte, Questão 89
10
Também não pode mais conhecer as coisas em espécies, nem as inatas, nem
as abstratas, pois não tem mais os sentidos através dos quais se abstrai.

2.3. Por influxo divino também não seria natural


Por influxo divino também não, pois não seria conforme a natureza criada por Deus,
(4),mas sim, tratar-se-ia de uma graça infusa por Ele para que tanto se desse.

3. Refutação de São Tomás a Platão

Refutando Platão (“o conhecimento através da imaginação se dá pelo fato da


alma estar acidentalmente unida ao corpo”), e apoiando-se em Aristóteles (“Se não
há operação própria à alma, ela não pode separar-se de corpo”), S. Tomás afirma
que (5) pelo fato mesmo da alma se separar, ela tem uma operação própria,
principalmente no que concerne ao conhecimento. O conhecimento pela conversão
aos fantasmas (6) é devido à natureza mesma da alma e não ao fato dela estar
acidentalmente unida ao corpo, como era a opinião de Platão. Pois, senão, com a
libertação do corpo, ela ficaria mais livre para conhecer. Ora, é o que não se dá.
Se admitirmos, diz São Tomás, que é natural à alma conhecer voltando-se
para as representações imaginárias, parece que a natureza da alma, que não se
muda pela morte do corpo, também não possa mais conhecer coisa alguma de
maneira natural, uma vez que não tem mais à sua disposição representações
imaginárias às quais se voltar, ou referir.
A alma, enquanto unida ao corpo, só pode conhecer algo através da
imaginação.
O corpo é feito para a alma e não o contrário. A alma tem um modo de agir
diferente quando unida ao corpo, do que quando dele separada, embora sua
natureza permaneça a mesma. A união da alma ao corpo não é acidental, mas sim,
em função da própria natureza do homem. Assim, convém à alma o modo de
conhecimento pelas representações imaginárias dos corpos. Quando separada do

4
Devemos entender aqui por natural o estado em que então passou a existir a alma, isto é, separada de seu corpo
e não como o estado naturalmente em que existe ao ser criada de pessoa humana corpo e alma unidos.,mas sim,
tratar-se-ia de uma graça infusa por Deus
5
Cf S, I, 89, 3
6
Do grego phantasma, que corresponde em algo a imaginação, fantasia. A palavra por certo é um tanto
imprópria, mas ela é usada em filosofia à guisa de outro conceito mais preciso.
11
corpo, convém-lhe o conhecimento totalmente inteligível (isto é, conforme ao
intelecto).
Nada opera senão na medida em que está em ato; o modo de agir de toda
coisa é uma conseqüência de seu modo de existir. Ora, a alma tem um modo de
existir diferente quando está unida ao corpo, e quando dele está separada, embora
sua natureza permaneça a mesma. Isso não quer dizer que sua união ao corpo seja
acidental, mas é em razão de sua natureza que ela está unida a um corpo.
Convém, portanto à alma, segundo o modo de ser pelo qual está unida ao
corpo, um modo de conhecer pelo qual se volta para as representações imaginárias
dos corpos, que estão em órgãos corporais. Mas, quando, contudo, está separada
do corpo, convém-lhe o modo de conhecer pelo qual se volta para as coisas que são
totalmente inteligíveis, da mesma maneira que as outras substâncias separadas. Por
conseguinte, o modo de conhecer voltando-se para as representações imaginárias é
natural à alma, assim como estar unida a um corpo. Mas, ser separada do corpo
está além de sua natureza, da mesma forma que compreender sem se voltar para
as representações imaginárias. Se, portanto, está unida a um corpo é para existir e
agir conforme a esta sua natureza assim constituída.

3.1. Conhecimento pelo inteligível sem imaginário?


Deus poderia ter feito com que as almas conhecessem diretamente pelo
inteligível, em vez do imaginário. Seria um modo superior de conhecimento. É
verdade, mas se Ele fez que o modo conforme à natureza do homem fosse pela
imaginação, além do mais, é porque é mais perfeito e mais natural (considerando a
natureza humana) assim.
Na medida em que os seres se distanciam do primeiro princípio intelectual,
que é Deus, se dividem e se diversificam. Somente Deus conhece as coisas em sua
essência.
Sendo a natureza humana inferior à dos puros espíritos, se seu conhecimento
fosse somente pela intelecção das coisas (à maneira dos anjos), teria ela um
conhecimento menos perfeito e mais confuso (como, por exemplo, os homens
menos inteligentes em relação aos mais inteligentes).

12
Portanto, assevera São Tomás (7), para que as almas humanas pudessem ter
um conhecimento perfeito e direto das coisas foram constituídas de modo a se
unirem naturalmente aos corpos, e dessa forma terem das próprias coisas sensíveis
um conhecimento próprio, assim como, por exemplo, homens iletrados só podem ser
conduzidos ao saber com a ajuda de exemplos sensíveis.

3.2. Alma unida ao corpo é mais perfeita


Concluímos, assim, que é para sua maior perfeição que a alma está unida a
um corpo, e que ela conhece voltando-se para as representações imaginárias.
Entretanto, pode estar separada do corpo e mesmo assim conhecer −
excepcionalmente − embora menos claramente e menos explicitamente do que em
seu corpo.

3.3. Natureza da inteligência humana


Antes de procurarmos a solução ao nosso problema, convém ainda determos-
nos em algumas premissas. Para este efeito, recorramos à obra “Filosofia do
Homem” (8), que nos fornece uma interessante síntese sobre a natureza da
inteligência humana.
Ao estudarmos o objeto próprio da inteligência, percebemos que o corpo é
necessário para o seu exercício. A inteligência está originariamente em potência e
não passa ao ato a não ser que um objeto lhe seja apresentado. Mas, o único objeto
que lhe é apresentado é uma coisa material dada pelos sentidos e representada
pela imaginação. Ora, estas faculdades dependem intrinsecamente do corpo. Por
conseguinte a experiência da inteligência depende também do corpo: este é uma
condição necessária da inteligência.
Mas, este fato não quer dizer que a inteligência seja em si mesma
dependente do corpo. Ela depende dele extrinsecamente e objetivamente, mas é
possível mostrar que ela é independente dele intrínseca ou subjetivamente, isto é,
quanto a seu ser.
O cerne da prova é o chamado princípio da causalidade, segundo o qual se
age segundo aquilo que se é. A natureza de um ser se conhece por seus atos. Se,

7
Cf ST, I, 89, 1,1
8
Cfr. Roger Vernaux, Op. Cit., pp. 109 a 114
13
por conseguinte, a inteligência tem atos tais que excluam a participação direta de um
órgão, deve-se concluir legitimamente que ela é em si mesma inorgânica.
Não podemos tomar como ponto de partida a memória, que é uma faculdade
sensível, mas podemos tomar qualquer dos atos diretos do conhecimento
intelectual: o conceito, o juízo ou o raciocínio, o ato de reflexão ou ainda o fato de
que a inteligência pode conhecer todos os corpos. Este último argumento é o que
prefere São Tomás, embora seja o mais delicado.

3.4 Provas da inteligência independer do corpo:

3.4.1. Pelo conceito, a inteligência capta como objeto algo – um quid – de


modo abstrato e universal. Ora, um algo abstrato e universal não pode ser um corpo,
pois todo corpo é singular, segundo a fórmula “isto, aqui, agora” – hoc, hic, nunc.
Portanto, o ato que apreende a qüididade – o algo – é espiritual e o princípio do ato,
a inteligência, também o é (9).
O argumento que se poderia tirar do juízo e do raciocínio se resume nisto.
No juízo, a inteligência coloca ou capta uma relação. Ora, se uma relação não
é física, sensível, é, enquanto abstrata, colocada entre conceitos abstratos.
No raciocínio, o espírito capta um laço de dependência necessária entre
juízos. Ora, se há uma necessidade lógica, é ainda no abstrato, enquanto que o
raciocínio desenvolve as propriedades de uma essência.

3.4.2. Pela reflexão, a inteligência capta seu ato e a si mesma. Ora, um órgão
não pode voltar-se sobre si mesmo, pois está constituído de partes extensas, e duas
partes físicas não podem coincidir em virtude da impenetrabilidade da matéria.
Portanto, o ato de reflexão é espiritual e a inteligência que o exerce também o é (10).
Trata-se aqui, evidentemente, da reflexão propriamente dita pela qual um ser
volta-se sobre si mesmo e se conhece a si mesmo. No plano físico, a reflexão de um
raio de luz que encontra um espelho não é senão uma analogia longínqua da
verdadeira reflexão. No plano do conhecimento sensível, já se sabe que um sentido
não pode refletir: o olho vê as cores, mas não vê sua visão.

9
Cf SCG II, 50
10
Cf SCG II, 49 e 66
14
No plano intelectual a reflexão não consiste em examinar um problema,
refletir sobre qualquer coisa, o que vem a ser propriamente a cogitação. Mas
consiste em refletir sobre si, o que constitui um circuito completo.

3.4.3. Inteligência não é um corpo


Enfim, o fato de que a inteligência é capaz de conhecer todos os corpos basta
para provar que ela mesma não é um corpo (11). Com efeito, uma faculdade não
pode conhecer um objeto se ela tem em si mesma a natureza deste objeto: o que
existe no interior impede o que está de fora. Se, por conseguinte, a inteligência
conhece os corpos, ela não é da mesma natureza que o corpo. Aliás, ela é capaz de
conhecer todos os corpos; de alguma maneira ela torna-se todas as coisas. Ora, um
corpo tem uma natureza determinada; ele não pode, por conseguinte, vir a ser um
outro, sem deixar de ser ele mesmo. Portanto, a inteligência não é um corpo (12).
A dificuldade deste argumento está toda no princípio de que o que existe no
interior impede o que está de fora. No entanto, este princípio é evidente: “Aquele que
pode conhecer algumas coisas não deve ter nada delas na sua natureza, pois aquilo
que estivesse nele naturalmente impediria o conhecimento de outras coisas”, diz
São Tomás (13). E complementa: “O que está em potência para alguma coisa e é
receptivo tem falta disto para o qual está em potência e ao qual é receptivo” (14).
Se uma faculdade de conhecimento tem em si mesma, e por natureza, tal
forma, não poderá mais recebê-la e ela será, por conseguinte, incapaz de conhecer
as coisas da mesma espécie. Conhecerá sem dúvida esta forma, mas por
consciência, como subjetiva, não como objetiva, como si mesma, não como outra.
Bem entendido este argumento aparece como o mais profundo, o mais
metafísico. Ele mostra porque a matéria não pensa: é que um corpo está fechado
sobre si mesmo, fechado em uma natureza completamente determinada. E, sem
dúvida, a inteligência tem também uma natureza determinada em um sentido, mas
não determinada em todos os sentidos: ela é, ao contrário, “aberta” para todas as
formas.
O argumento mostra também em que consiste a superioridade da inteligência
sobre os sentidos. Pois os sentidos já são mais “abertos” do que a matéria bruta,

11
Cf ST, I, 65,2
12
Cf De Anima, III, 7, 680-681
13
Cf ST, I, 75, 2
14
Cf De Anima, 680
15
mas apenas em relação às qualidades sensíveis, cada um deles é aberto para uma
qualidade determinada. Enquanto que a inteligência é aberta para todos os corpos.

3.5. Corolários:

3.5.1 Teses aparentemente opostas quanto à inteligência


Necessitamos admitir conjuntamente duas teses aparentemente opostas. A
primeira, de que a inteligência depende do corpo, e a segunda de que ela não
depende do corpo. Mas, tal antinomia é fictícia. Os dois membros são verdadeiros
ao mesmo tempo. O corpo é condição de exercício da inteligência; ele é necessário
para que um objeto lhe seja apresentado e para que ele passe ao ato. Mas o ato em
si mesmo não é material e a faculdade também não o é em si mesma. Diz São
Tomas (15) que o corpo é requerido para a ação da inteligência, não a título de órgão
pelo qual este ato se exerceria, mas em razão do objeto.

3.5.2 Cérebro, órgão do pensamento?


Por conseguinte – consideremos de passagem – o que se deve pensar da
fórmula segundo a qual o cérebro seria o órgão do pensamento?
Se entendermos por pensamento o trabalho total que termina na idéia, é
verdade que o cérebro, e de modo mais lato todo o sistema nervoso e todo o corpo é
o órgão do pensamento. Ele é o órgão propriamente dito de todas as operações
sensíveis que são a condição do pensamento. Mas, se entendemos por pensamento
os atos intelectuais estritamente considerados, é falso que ele seja feito por um
órgão.

4. Como as almas separadas do corpo conhecem?

Aqui propriamente entramos na questão que nos propusemos estudar em São


Tomás, para solucionar este interessante problema filosófico.
Após a morte, a inteligência subsiste e passa a ter um modo de se exercer
bastante diferente daqui na terra, pois que ela é chamada a contemplar em sua
essência as realidades imateriais como Deus. Convém-lhe assim conhecer vendo o

15
Cf ST, I, 75, 2 e 3
16
que de si é inteligível, da mesma maneira que as substâncias separadas. Deus
infunde espécies na alma da mesma maneira que o faz com os anjos. A alma tem
parte nelas, embora de modo menos elevado. Por meio destas espécies a alma
conhece o que lhe convém de maneira direta e intuitiva. Este conhecimento
ultrapassa em qualidade e em segurança tudo que existe na terra, tanto por causa
da superioridade da luz divina, quanto por causa da ausência de possibilidade de
erro oriunda dos fantasmas da imaginação.
À guisa de ilustração, imaginemos alguém que, em virtude de acidente, perde
os olhos. Deixará imediatamente de enxergar. No entanto, a capacidade virtual de
poder ver, nele subsiste. E subsiste na alma, não no corpo, obviamente. Se por
algum prodígio da medicina, puder ser-lhe restaurada a vista, passará novamente a
enxergar, pois a potência virtual da vista reencontrará o elemento corporal que lhe
permite exercer-se, que são os olhos.

4.1 Parece que a inteligência humana conhecerá sempre por imagens


Uma dificuldade surge, entretanto a este respeito.
É próprio da inteligência humana conhecer as realidades espirituais a partir de
suas imagens sensíveis. Não é esta inteligência, entretanto da mesma natureza que
a inteligência dos anjos, os quais não estando unidos naturalmente a um corpo,
conhecem diretamente a essência das coisas por meio das formas inteligíveis
infusas no momento em que são criados. Ora, Deus move cada natureza segundo
seu próprio modo de ser. Assim sendo, parece que a inteligência humana conhecerá
sempre com base em imagens.
Contudo, quando se fala da visão do Criador, ao menos no que concerne esta
visão direta e face a face que chamamos de visão beatífica, é preciso render-se à
evidência de que nenhuma imagem sensível pode permitir ao homem conhecer sua
inteligibilidade. Deus se torna inteligível, sem o concurso de qualquer ser
intermediário criado. Trata-se de um modo novo de conhecer onde parece que o
intelecto não tem lugar.

4.2 Funções e influências da alma separada


Quais as funções que a alma neste estado de separação pode, portanto,
exercer e que influências pode sofrer?

17
4.2.1 Funções que pode exercer.
A alma continua viva. A Igreja já condenou a hipótese da inconsciência da
alma após a morte (16).
Na outra vida, antes da ressurreição a vida da alma é parecida com a do Anjo,
embora com diferenças. O anjo, por exemplo, se move “instantaneamente”; o
homem, não. O homem não pode seguir o vôo de seu pensamento, nem de sua
vontade, como o faz o espírito angélico. Algo disso, no entanto pode fazer. Por
concessão de Deus também.

4.2.2 Atividades sensitivas


Atividades que requeiram as potências sensitivas externas (corpo), não as
pode ter a alma separada do corpo. Com a morte, a alma só conserva em raiz,
virtualmente (17) as potências sensitivas, pois que operam a partir de seu corpo
(sentidos). Por exemplo, não poderá mais conhecer uma árvore concreta já vista em
sua peregrinação terrena ou ainda a conhecer depois. Só pode ter noção da idéia
universal de árvore (aplicável, portanto, a todas as árvores do mundo).

4.2.3 Atividades espirituais


Outro aspecto entretanto é no tocante à atividade espiritual, ou funcionamento
psicológico, que veremos a seguir.

5. Funções intelectivas da alma separada

5.1. Conhecimentos já havidos ou acrescidos


a) A alma separada do corpo conserva todos os conhecimentos intelectuais
adquiridos anteriormente durante sua vida neste mundo (18)
b) Vê-se e conhece-se a si mesma de modo perfeito (19). Conhecimento com
alegria superabundante para as almas justas.
c) Conhece perfeitamente as demais almas separadas, o que lhe era vedado
enquanto unida a seu corpo. Tudo por conhecimento natural (20).

16
Cf Denz.,1913
17
Cf ST, I,77,7 – 89,5 e Suplemento 70,I-2
18
Cf. ST, I,89-5-6
19
Cf. ST, I,88,I c e I,89,2; contra gent. III,42-46; De anima, a.16
20
Cf. ST, I,89,2
18
Conhece também aos anjos, no entanto, não por conhecê-los por alguma
espécie inteligível abstrata, pois que eles são superiores (mais “simples”). O
conhecimento que a alma tem dos anjos lhe advém, sim, do conhecimento de
semelhanças impressas na alma por Deus, acessíveis às almas separadas (21).
d) Em virtude das espécies inteligíveis infundidas naturalmente por Deus, têm
as almas separadas um conhecimento natural, embora imperfeito e geral, de todas
as coisas naturais. Isto traz um aumento enorme do que se poderia chamar das
ciências naturais da alma separada (22).
e) Em virtude destas mesmas espécies naturais infundidas por Deus, pode a
alma separada conhecer um enorme número de coisas. Não todas, mas aquelas
com as quais tiver determinado relacionamento, por algum modo, seja por ter delas
conhecimento anterior (ciência), por afeto (amigo, parente), seja por inclinação
natural (semelhança de vocação) etc. Tudo, por determinação divina ( 23).
f) O conjunto todo destes conhecimentos proporciona à alma separada, além
das idéias infundidas por Deus uma altíssima idéia de Deus enquanto Autor da
ordem natural, pois grande número de perfeições divinas reflete-se na própria
substância das almas separadas, além das demais coisas que conhece
naturalmente por infusão divina.
─ Todos estes conhecimentos dizem respeito tanto às almas dos justos,
quanto à dos precitos. Nenhum deles transcende a ordem puramente natural
(naquele estado), sendo algo que pede e exige psicologicamente o estado próprio
da separação. Para as almas boas será motivo de regozijo; para as outras, ocasiões
suplementares de tormentos e decepções.

5.2. Ciência adquirida permanece na alma separada?


Baseando-se em São Jerônimo: “Aprendamos na terra aquilo cujo
conhecimento persevere em nós até o céu” (24), S. Tomás declara que a ciência, na
medida em que está no intelecto (e ele demonstra que está principalmente nele),
permanece na alma separada.

21
Cf. ST, I,89,1,3; 2,2;3
22
Cf. ST, I,89,3,c e 4
23
Cf. ST, I,89,4; 57,2
24
Cf Epístolas, 53, al.103, citado na Suma Teológica 89, 5, 2
19
5.3. Dificuldade levantada por S. Tomás: se assim for, um homem não tão
bom poderá saber mais do que um mais virtuoso. Responde (25): Pode ser, assim
como poderá haver maus de estatura maiores que bons; mas, diz ele, isso quase
não tem importância, em comparação com as outras prerrogativas que os mais
virtuosos terão.

5.4. Almas separadas conhecem o que se passa na terra?


Podem as almas separadas do corpo conhecer o que se passa na terra?
São Tomás começa, a priori, negando esta hipótese. Cita S. Gregório: “Os
mortos não sabem como está organizada a vida daqueles que, depois deles, vivem
na carne; a vida do espírito é bem diferente da vida da carne. Assim como as coisas
corpóreas e as incorpóreas diferem em gênero, também se distinguem pelo
conhecimento (26)”.
No tocante aos bem-aventurados, no entanto, S. Gregório realça (27) que “Não
se deve pensar a mesma coisa a respeito da alma dos santos. Para aquelas, com
efeito, que vêem por dentro a claridade de Deus todo-poderoso, não se deve
absolutamente acreditar que reste fora alguma coisa que ignorem”.
Opinião também contestada por Santo Agostinho [“Minha mãe que tanto fez
por mim na terra, depois não me apareceu nunca mais”], reproduzida por São
Tomás (28).
São Tomás, no entanto, acaba concluindo que “parece mais provável que as
almas dos santos, que vêem Deus, conheçam tudo o que aqui acontece”.
Ele enuncia três observações que enriquecem o tema (29):

5.4.1 Falecidos podem preocupar-se com coisas do mundo?


Os mortos podem preocupar-se das coisas do mundo, ainda que as ignorem
concretamente. Da mesma maneira que quando rezamos pela alma de um falecido,
sem saber se está efetivamente no purgatório ou não;

5.4.2. Conhecimento por informações recebidas

25
Cf ST, I, 89,6,2
26
Cf ST, I,89,8
27
Cf ST, I, 89,8,3
28
Cf ST, I, 89,8,3
29
Cf ST, I,89,8,3
20
Podem tomar conhecimento das coisas deste mundo por informações que
lhes cheguem seja pelos anjos, seja pelos demônios ou ainda por divina revelação,
especialmente por algum fato que lhes diga mais especialmente respeito
(conhecidos, familiares);

5.4.3. Conhecimento por aparições


Por especial permissão divina podem auferir conhecimento por outras almas,
diretamente ou por meio de anjos.

6. “Ciência preternatural” das almas separadas.


− O tomista Frei Antonio Royo Marin levanta esta questão e define a ciência
preternatural (30) como aquela que, embora natural enquanto tal, é recebida pela
alma de maneira transcendente a seu estado atual de separação, seja por revelação
divina, seja por iluminação angélica. Todas as idéias infusas acima, que são
recebidas pelas almas separadas são de ordem puramente natural, porque assim as
reclamam e exigem naturalmente o novo estado psicológico em que se encontram.
Porém, estas mesmas idéias infundidas aos que vivem na terra seriam para nós
preternaturais, isto é, acima da natureza. Em suma: naturais para o novo estado em
que se encontram, mas preternaturais se − por hipótese − aqui na terra, ainda
unidas ao corpo. Nosso atual estado de conhecimento não as exige, nem reclama,
pois nós o obtemos pela “conversão aos fantasmas”, da imaginação. Assim, por
exemplo, uma revelação feita por um anjo a alguém na terra sobre determinado ato
ou fato passaria a ser um conhecimento natural adquirido sobrenaturalmente. É o
que se chama em teologia conhecimento preternatural.
Assim, perguntamos: Recebem as almas separadas notícias preternaturais,
isto é, notícias naturais não exigidas por seu estado de separação?
São Tomás não trata desta questão, mas a aborda somente de passagem
(31). Entretanto, com base no exposto por ele, a possibilidade desta comunicação ao
menos não é negável.

7. Conhecimento da ciência sobrenatural pelas almas separadas:

30
Cf Obra citada, item 137, 2ª.
31
Cf ST, III,52,2; 6,I
21
O Frei A. Royo Marin esclarece (32) ser necessário distinguir as almas que
saíram deste mundo em estado de graça e as que saíram em estado de pecado
mortal e ainda as que ficaram tão só com o pecado original.

7.1. Nos bem-aventurados


Para os bem-aventurados não há a menor sombra de dúvida que são
esclarecidas pelo que há de mais central e importante na vida sobrenatural: a vida
íntima de Deus.

7.2. Nas almas do purgatório


Para as almas do purgatório não consta que recebam depois de separadas do
corpo, novas iluminações sobrenaturais, pois estas seriam um prêmio para elas, o
que não lhes é mais dado naquele estado.

7.3. Nos condenados ao inferno


Os condenados ao inferno não conservam nenhum conhecimento
sobrenatural, pois este é uma virtude sobrenatural e ao morrer perdem todo e
qualquer resquício de fé. Conservam tão-somente os conhecimentos da antiga fé,
mas como conhecimentos estritamente materiais (memória).

7.4. Nas crianças não batizadas


As almas das crianças não batizadas, do Limbo ignoram por completo a
ordem sobrenatural (embora não lhes provocando nenhuma sensação de dor).

8. Funções volitivas da alma separada (33)

8.1. Quanto à finalidade do homem: a felicidade


O homem não é livre relativamente a ela. Não pode prescindir dela, e de sua
procura, consciente ou inconscientemente (34). Em vista de sua natureza decaída
pode equivocar-se relativamente ao que supõe ser a felicidade. Renunciar a ela é
psicologicamente impossível.

32
Cf Obra citada, item 138, 3ª.
33
Cf De hominis beatitudinis, P. Santiago Ramírez, Madri, em “Teologia de la Salvación”, Op cit
34
Cf. ST. I-II,1,6
22
8.2. Quanto aos meios para alcançá-la: variam quase ao infinito, cada um
escolhendo os meios que lhe forem surgindo e lhe parecerem adequados.
No próprio momento da separação alma-corpo aquela se conserva imutável
no tocante ao fim escolhido, embora continue livre com relação aos meios.

8.3. Impossibilidade de revogar a eleição feita


Conclusão: a alma separada do corpo adere de maneira tão imutável ao
objeto escolhido como fim último, no momento da morte, que não pode nem jamais
quererá revogar sua eleição.
Isto vem confirmado:
– Pela Sagrada Escritura
– Pela Tradição Cristã
– Pelo magistério infalível da Igreja
(Estes três primeiros pontos não serão desenvolvidos, por não estarem
relacionados diretamente com o estudo filosófico que estamos avaliando).

8.3.1. Razão Teológica


Pela razão teológica: ao separar-se de seu corpo a alma adquire a maneira
de ser e de entender dos espíritos puros, os quais não estão sujeitos ao vai-e-vem
da imaginação e da sensibilidade. Assim, aprende pelo entendimento o objeto
elegido de maneira absolutamente imutável, do mesmo modo que estando unida ao
corpo aprende os primeiros princípios inatos do ser. Passa-se um fenômeno
parecido com a escolha dos anjos na hora da prova (35).
Após sua morte, a vontade do homem se fixa no objeto de sua escolha de
modo inteiro e definitivo. Encontramos a causa desta estabilidade na condição do
estado que segue a separação da alma de seu corpo físico. A inteligência apreende
infalivelmente o objeto de sua escolha da mesma maneira que cada homem apanha
imediatamente os primeiros princípios do ser e deles tem um conhecimento intuitivo.
O conhecimento é perfeitamente adaptado ao homem. E torna-se límpido e despido
de erro no tocante ao bem e ao mal. A vontade, por sua vez se comporta em relação
à inteligência que a move como o móvel em relação ao motor. Ela segue, assim, a

35
Cf. ST, I,64,2; Suplemento, 98,I-2
23
inteligência e é levada imutavelmente rumo àquilo que esta lhe apresenta como
bem, do mesmo modo que esta adere imutavelmente à verdade.
Se considerarmos, portanto, a alma separada antes de sua adesão, pode ela
fixar-se livremente sobre determinado objeto ou que lhe for contrário (exceção feita
quando se tratar de objetos desejados naturalmente como a felicidade). Mas, após
esta adesão, ela se fixa definitivamente sobre o objeto de sua escolha. É com base
nesta assertiva que se costuma dizer que o livre arbítrio do homem, enquanto ele
estiver na terra é capaz de fixar-se sobre objetos opostos tanto antes da escolha
como após ela. Enquanto que o livre arbítrio do homem após sua morte é capaz tão
somente de fixar-se sobre objetos opostos antes da escolha e não após ela.
É com plena liberdade que nossa vontade se fixa sobre determinado objeto e
não muda mais. Ela não quer mais voltar atrás em sua escolha, por causa do
conhecimento perfeito que a orienta e que não pode mais, em vista de sua
perfeição, variar com o correr do tempo. Se a vontade humana varia em suas
escolhas enquanto está submissa às condições da terra, é por causa do modo de
conhecimento de nossa inteligência que está ligado aos sentidos, que é progressiva
e aberta de modo instável às escolhas contrárias.
Quando a alma escolhe separar-se de Deus, ela o faz em função de um certo
bem que lhe parece suficientemente absoluto para poder relativizar o mal das penas
do inferno. Este bem consiste na exaltação de si mesmo. Uma determinação tal da
inteligência apresenta-se suficientemente lúcida e madura para não variar no
inferno, donde a obstinação dos condenados e a eternidade do inferno.
Ressalta o Cardeal Louis Billot (36) − expoente da teologia especulativa − que,
para os réprobos, esta escolha significa não aquilo a que apeteciam
desordenadamente na terra, mas ao eu, a si, ao ego, por cima de absolutamente
qualquer coisa (37). Convém lembrar também a este respeito, da tese dos “Dois
amores” de Santo Agostinho: a Deus e a si, exclusivamente. O resultado da escolha
final é fruto da bondade ou da malícia da vontade de cada um.

8.3.2. Quanto aos meios

36
Diocese de Metz, França, 1846-1931
37
In « La Providence de Dieu » , in Op cit “Teologia de la Salvación”
24
Tanto para os bem-aventurados, como para os condenados a possibilidade
de escolha dos meios continua aberta, desde que dentro da linha (imutável) que
escolheram livremente antes de morrer.

9. Tipos de relacionamento das almas separadas:

9.1. Com Deus – relacionamento mais íntimo e perfeito através da visão


beatífica.

9.1.a. Almas do purgatório: Contemplação infusa, pela influência dos dons do


Espírito Santo. Nada impede que recebam iluminações preternaturais, embora não
se possa afirmá-lo com certeza.

9.1.b. Crianças do limbo: Conhecem a Deus como autor da ordem natural e


recebem todo conhecimento por infusão divina. Têm uma atuação psicológica
parecida com a dos anjos, pelo menos até a ressurreição, quando poderiam receber
conhecimentos sensíveis proporcionais aos sentidos corporais.

9.1.c. Condenados do inferno. Só tem conhecimento natural de Deus e


enquanto restos de conhecimento tidos na vida terrestre. Odeiam-no
irredutivelmente (38).

9.2. Com os anjos – por locução intelectual à maneira angélica, por uma
espécie de irradiação ou transmissão direta do pensamento, por intuição (39).
O anjo sendo de uma natureza intelectual superiora à da alma separada
concebe pensamentos de uma inteligibilidade superiora à alma separada, que esta
não pode apanhar em vista de sua fraqueza. Assim, aparentemente se poderia
pensar que não pode haver comunicação entre os anjos e as almas separadas.
Entretanto, a linguagem exterior que comunicamos por meio da voz somente
nos é necessária em vista de nosso corpo. É a razão pela qual não convém nem aos
anjos, nem às almas separadas, que só conhecem a linguagem interior. Ora, esta
linguagem não consiste somente a falar consigo mesmo através da formação de

38
Cf. ST, II-II,13,4,2.
39
Cf. ST, I,89,2 a 2
25
conceitos, mas também em ordenar – através da vontade para os anjos e da
sensibilidade para os homens – este conceito em vista de poder transmití-lo a
outros. Ou seja, é tão somente por metáfora que se usa o termo de linguagem dos
puros espíritos para significar o poder que têm de manifestar seu pensamento.

9.3. Com as demais almas separadas ─ É o modo de comunicação mais


natural das almas neste estado. É feito à maneira do relacionamento com os anjos,
mas de maneira mais co-natural e perfeita: “por semelhanças impressas por Deus,
que não chegam a representar perfeitamente aos anjos, porque a natureza da alma
é inferior à do anjo” (40).

9.4. Com os homens ─ Ordinária e normalmente, por seu estado natural de


então, não. Entretanto, por especial disposição de Deus, pode dar-se este
relacionamento.

9.4.1. Impossibilidade própria de aparecer a outros


Convém ressaltar que a alma humana separada de seu corpo não pode (por
si) aparecer aos homens, pelo menos no tocante a suas potências naturais naquele
estado. Explica muito bem Arnaud Dumouch (41) que a razão desta incapacidade
está ligada ao fato de que, entre as naturezas espirituais existentes ela é a menos
perfeita delas. Quanto mais uma natureza espiritual é perfeita, mais o conhecimento
que ela tem das realidades é universal e simples. E, constitui um princípio em toda a
criação que a capacidade de agir é decorrente da universalidade do conhecimento.
Assim, Deus, que é a essência da perfeição conhece todas as coisas por meio de
um só conceito, que é a sua própria essência. O poder de sua ação é proporcionado
à perfeição de seu espírito: assim, Deus pode fazer tudo aquilo que é factível.
Os anjos, que são seres intermediários entre Deus e os homens conhecem
por meio de diversas espécies inteligíveis. Quanto mais estiverem próximos de Deus
pela sua essência, mais seu conhecimento natural é simples e concomitantemente
profundo. Pelo simples poder intelectual, e sem necessidade da faculdade de
conhecimentos sensíveis, são aptos a conhecer todos os singulares materiais. São
assim capazes, por natureza, de moverem todos os corpos materiais pelo simples

40
Cf. ST, I,89,2
41
Cf. obra citada na bibliografia
26
poder de seu espírito. Assim é que podem aparecer aos homens plasmando
“corpos” modelados por eles. O caso narrado no livro de Tobias (42) é bem ilustrativo
desta hipótese. Com efeito, disse o anjo que lhe apareceu: “Parecia-vos que eu
comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível, e minha bebida
não pode ser vista pelos homens”. Da mesma forma podem os anjos influenciar os
homens, seja agindo sobre sua imaginação, seja movendo de fora sua faculdade
motora, o que pode ser comprovado, com os anjos decaídos, por exemplo, nos
casos de possessão demoníaca.
Finalmente, o homem – o mais fraco dos espíritos – só conhece as realidades
de modo progressivo, por meio das sensações através das quais abstrai o inteligível.
Seu conhecimento parte, pois, daquilo que é singular. Também, pela sua natureza,
só é levado a mover um único corpo, que é o seu. É-lhe impossível, por sua própria
vontade imprimir auto-movimento a outra coisa senão seu próprio corpo.

9.4.2. Aparição contradiria plano Divino


É importante lembrar também que, antes da morte, Deus quer que cada um
siga uma via de purificação, em que o homem deve suplantar as conseqüências de
seus pecados. Deus como que se esconde e ordena aos que estão na eternidade
que também o façam. Só intervém nos acontecimentos raramente e de modo direto
em ocasiões excepcionais, como por milagres, aparições, profecias. Após a morte
cada homem vê de modo claro os desígnios de Deus. Entretanto, enquanto dura sua
caminhada terrestre e não penetra nas vias da eternidade o homem tem dificuldade
em compreender as razões deste aparente distanciamento. Sua tendência natural o
levaria – imaginando-se já na eternidade – a se mostrar e a testemunhar junto aos
vivos do estado de coisas após a morte. Mas, se assim agisse, ele comprometeria o
plano divino e tornar-se-ia altamente nocivo à preparação espiritual dos homens.
Esta é a razão precisa pela qual Deus proíbe a prática da invocação dos mortos
conforme está escrito no Deuteronômio (Dt 18, 10-11):
“Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha,
nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao
espiritismo, à adivinhação ou à invocação dos mortos”.

42
Cf Tb 12, 19
27
Após a entrada da alma na visão beatífica, entretanto, dá-se uma situação
totalmente diferente. Pela contemplação de Deus os justos vêem tudo que desejam
em Deus, mas podem também se dirigir aonde queiram. Possuem esta liberdade,
porque sua vontade está inteiramente em conformidade com a de Deus. Se
tomarem alguma iniciativa somente será também por vontade de Deus, pois que sua
vontade só faz uma com a Dele.
“Os mortos assim podem aparecer, por exemplo, aos vivos, desta ou daquela
maneira. Quando se dá, é por especial disposição de Deus, que quer que as almas
dos mortos intervenham nas coisas dos vivos”. Serão milagres divinos. Ou, ainda,
pela ação de anjos bons ou maus, mesmo sem o próprio conhecimento dos mortos,
da mesma maneira, que quando certos vivos “aparecem” sem o saber a outros
vivos, no sono, como sustenta Santo Agostinho (43).
“Depois da morte a alma vai ao céu, ao purgatório ou ao inferno. Se estiver no
céu, pode aparecer e pôr-se em relação com os vivos quando queira, conformando-
se às leis gerais da Providência. Se estiver no purgatório ou no inferno, não poderá
fazê-lo, sem permissão especial de Deus, que a concede, talvez, para solicitar
nossos sufrágios ou para inspirar o temor de seus castigos” (44).
A comunicação destas almas pode ser, além da aparição propriamente dita,
por inspiração, pressentimento, moções internas etc. Também é certo que estes
espíritos sabem qual o modo de poderem agir sobre nossa fantasia, paixões e
emoções (45).
Determinados fatos estranhos ocorridos em nossa vida só encontram
explicação nesse relacionamento. Por exemplo: certa idéia que impressiona nossa
inteligência durante uma conversa; um bom conselho; uma sábia inspiração, tudo
isto pode ser fruto da atuação de uma alma que deseja nos fazer bem. Ou ainda
grandes perigos que evitamos por uma ação totalmente imprevisível: a morte nos
rondou e acabamos escapando naquele momento! (46).
As almas podem, todavia ainda pôr-se em contato conosco através de
rumores, sons, vozes, gemidos etc., além da própria aparição com corpo semelhante
ao que tinham em vida (não é o mesmo que tenha ressuscitado). Mas, como
poderão as almas assumir e aparecerem com um corpo? São Tomás responde que

43
Cf. ST, I,89,8,2
44
Cf. ST Suplemento, 69,3
45
Cf Card Lepicier, De angelis, I,1 in Teologia de la Salvación, F. Antonio Royo Marin, Op cit
46
Cf J.A. Chollet, I nostri difunti, appende, in Teologia de la Salvación, F. Antonio Royo Marin, Op cit
28
podem tomar parte de matéria, do mesmo modo que os anjos formam um corpo
tomado de elementos materiais, com permissão do poder divino, para plasmar um
corpo que pretendam assumir (47). Assim como grandes artistas podem formar
reproduções esplendorosas, também as almas dos justos podem fazer o mesmo,
conclui o Frei Antonio Royo Marin (48).
Em síntese, pode acontecer que certos defuntos apareçam aos homens, mas
estas aparições não são devidas às capacidades de suas potências naturais.
Poderão ser provocadas pelo ministério dos anjos, que as ordenam ao bem do
homem. Assim será, por exemplo, a miséria de uma alma do inferno que lembrará –
por determinação divina, pois que aquele seu estado não a levaria nunca a ajudar
alguém, pelo contrário – a algum tíbio na terra, a gravidade extrema do pecado
mortal; a aflição de uma alma do purgatório que aparece será evidentemente um
convite a oferecer-lhe nossas orações. Quanto aos santos do paraíso, podem eles
aparecer à vontade, pois que foram sobrelevados pelo poder de Deus que pode
torná-los mais poderosos que os próprios anjos. Sua aparição será sempre uma
ocasião para manifestar aos homens a possibilidade próxima de seu auxílio.

9.5. Com as coisas materiais ─ Não podem as almas separadas


relacionarem-se com as coisas materiais; só lhes seria possível isto por meio de seu
corpo, do qual já estão separados. Por meio do poder Divino, sim, sem dúvida. E,
por esta mesma força podem sentir os efeitos do que seria a atuação ou os efeitos
de uma criatura corporal, como o calor, o frio etc. (49).

10. PRECAUÇÃO:

A fim de não dar margem de aprovação a certa moda divulgada em alguns


meios contemporâneos, mas proveniente já da mais remota antiguidade, convém
lembrar que a prática da invocação (entenda-se com o objetivo de que apareçam)
dos espíritos (almas separadas do corpo) é estritamente condenada por Deus. Haja
visto o Livro do Levítico: “Se alguém se dirigir aos espíritas ou aos adivinhos para
fornicar com eles, voltarei meu rosto contra esse homem e o cortarei do meio de seu

47
Cf ST, I,51,2 e 3
48
Cf “Teologia de la Salvación”, No. 145
49
Cf ST Suplemento, 70, 3
29
povo” (Lev, 20,6). Da mesma forma, a Igreja tem renovado constantemente esta
condenação.
A razão deste interdito está em que aquele que se dedica a tais práticas
acaba chegando irredutivelmente – em vista do fascínio e da atração provocados
pela transmissão de conhecimentos por parte de espíritos – a perder a fé em Deus,
para se consagrar tão somente ao culto dos “deuses” do além, que é o significado
atribuído à ação de fornicar no trecho acima citado do Levítico (50).
Por outro lado, é certo que os espíritos que se manifestam aos espíritas que
os invocam não fazem parte dos anjos bons, pois que estes, obviamente, seguem
em tud‟o a Deus, inclusive no que está escrito na Escritura e nas recomendações da
Igreja, que proíbem estas práticas.
Tais aparições de espíritos só poderão sê-lo de mortos que estão
incapacitados, por natureza, de tais fenômenos e que só podem realizá-los pela
força dos anjos – espíritos superiores, ou diretamente de Deus. Mas, note-se bem,
no que diz respeito aos que aparecem porque são “invocados” abusivamente, só
poderá tratar-se de anjos rebeldes, isto é, de demônios que não hesitam em
disfarçar-se tomando a aparência de pessoas mortas para melhor prejudicarem os
homens.
Com efeito, seu poder sobre os homens é circunscrito ao da tentação, que
consiste em inclinar nossos pendores sensíveis para ações más. No Espiritismo, o
poder de tais aparições visa atingir diretamente a inteligência do homem, que
compreende um campo ilimitado de atuação, de conhecimento.

11. CONCLUSÃO

O homem é um composto natural de dois elementos: corpo e alma. É


também um ser racional, isto é, tem consciência plena de existir. Sua racionalidade
lhe provém da alma, que está unida a um corpo. Note-se que este não está preso
àquela, mas sim vinculado a ela. Nesta vida o homem conhece pelos seus sentidos.
Ora, com a morte dá-se a separação destes dois elementos constitutivos de sua
unidade. Assim sendo, como pode continuar a conhecer?

50
Ver especialmente Arnaud Dumouch, obra citada.
30
Como vimos acima, São Tomás, o príncipe dos filósofos, demonstra que é
possível à alma continuar a conhecer – embora segundo certas condições que não
possui enquanto dura sua peregrinação terrena – estando neste estado
intermediário. Intermediário, convém lembrá-lo, pois que após a ressurreição final,
cada pessoa humana recobrará seu corpo, através do qual voltará a conhecer pelos
seus sentidos, como o fazia na terra, glorificados estes embora pelo estado
sobrenatural em que estiverem.
Neste estado intermediário, o Divino Criador – conforme demonstra São
Tomás, e um de seus fiéis comentaristas o Frei Antonio Royo Marin – supre a
ausência dos sentidos com outras formas de conhecimento, que, para nós na terra,
não são possíveis.
Como demonstramos neste trabalho, tais são a visão beatífica de Deus, a
locução intelectual com os puros espíritos, o conhecimento por semelhanças
impressas por Deus, o relacionamento com outras almas separadas, as aparições
autorizadas por Deus com o mundo terreno.
Não podemos, aliás, deixar de reconhecer que impossível seria que Deus não
permitisse às almas separadas de seus corpos continuarem a conhecer, pois que,
embora a morte seja fruto do pecado original, o destino eterno de cada um não pode
passar por um processo – embora provisório – como que de “amnésia” ou
inconsciência, teses condenadas, como afirmamos, pela Igreja. Deus não seria a
própria Bondade se nos submetesse a igual condição, que mais bem seria um
rebaixamento na ordem ontológica. Mesmo porque, todas as almas na eternidade já
foram julgadas e parte delas favoravelmente, com direito ao pleno conhecimento da
Causa das causas. Não teria sentido privar almas justas – que já deram provas,
portanto, de seu amor para com o Criador – do conhecimento d´Ele, enquanto não
ressuscitassem seus corpos.
É o que pretendíamos demonstrar e levar ao conhecimento dos estudiosos no
assunto, ou simplesmente apaixonados pela temática, para ajudar futuras pesquisas
e trabalhos, e também para servir em geral de algum auxílio com vistas a
proporcionar uma vida espiritual mais intensa, que reverta numa dedicação vigorosa
e dinâmica à Nova Evangelização, e, ipso facto, aos interesses da Igreja em geral.

31
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, São Paulo: Loyola, 2002.


AQUINO, Tomás de. Suma contra os Gentios, Porto Alegre, RS: EDIPUCRS, 1996
DUMOUCH, Arnaud. Le retour du Christ en gloire à l´heure de la mort. Traité des
Fins Dernières, 1992, 780 páginas. (Tese de doutorado. Universidade de Toulouse,
França).
HUGON, Edouard. Os Princípios da filosofia de São Tomás de Aquino. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 1998.
ROYO MARIN, O.P., Antonio. Teologia de la Salvación. Madri: BAC, 1965.
TÉLLEZ, Ezequiel & CRUZ, Juan. Cuestiones disputadas sobre el alma en
Tomás de Aquino, Ediciones Universidad de Navarra, 2ª. ed., 2001
VERNAUX, Roger. Filosofia do Homem. São Paulo: Duas Cidades, 1969.

Abreviações e citações:

SCG = Suma contra os Gentios, de São Tomás de Aquino


De Anima = Tratado sobre a Alma, de São Tomás de Aquino
Denz = Enchiridion Symbolorum, de Heinrich Denzinger
ST = Suma Teológica, de São Tomás de Aquino
ST Suplemento = Suplemento à Suma Teológica de São Tomás de Aquino
compilado por Frei Reginaldo

32