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Ano 7 • Número 14 • Fev-Mai 2000

Apoio: Fundação Ford

Abrindo a
caixa-preta
do orçamento
Págs. 3, 4 e 5

Crianças
dão lição
de cidadania
Pág. 11

Responsabilidade
social na rede
Pág. 12

Negros
Negros no mercado de trabalho:
500 anos de exclusão
Págs. 8, 9 e 10
Editorial Agenda
No caminho certo ✓ Março
18 – Inscrições para o Pré-Vestibular para
Alguém já disse que nada é mais perma-
Negros e Carentes do núcleo Solano Trin-
nente do que a mudança. Foi com essa idéia que
dade. Colégio Estadual Hélio Rangel –
empreendemos uma pesquisa de opinião nas úl- Rua Odessa, s/nº, Jardim Primavera, Du-
timas duas edições. Queríamos saber como es- que de Caxias, RJ. Informações: (21) 650-
távamos diante das necessidades dos leitores. As 5266, 678-7424, 676-2624
respostas vieram como um incentivo.
Além do expressivo número de retorno dos 30 – Reunião da Comissão Especial do Selo
questionários enviados, demonstrando fidelida- Empresa Cidadã. Câmara Municipal de
de e interesse do leitor pela publicação, obtive- São Paulo. Informações: (11) 3111-2902
mos informações preciosas. Na opinião da mai- ou aldaiza@uninet.com.br
oria, os temas selecionados são interessantes e ✓ Abril
pertinentes à realidade, o conteúdo dos artigos
5 – Inauguração do escritório da Fundação
é acessível e de tamanho adequado. A lingua-
Böll no Brasil. Debate sobre transgênicos
gem dos textos foi considerada de boa qualida-
com especialistas brasileiros e internacio-
de e recheada de informações importantes.
nais. Informações: (21) 553-0676, ramal
Quanto à apresentação gráfica, a publicação foi
230, ou boelltransgen@openlink.com.br
considerada agradável de ler.
Mas não foi só o lado positivo da avalia- 8 a 12 – A Riad (Rede Internacional de Agri-
ção que nos deixou entusiasmados. Recebemos cultura e Democracia) realiza sua 3º assem-
uma significativa quantidade de sugestões de bléia. Em Porto Alegre. Informações:
temas a serem tratados nas futuras publicações. www.sustain.org/RIAD/
O mais solicitado, “relatos de experiências de 10 a 14 – Encontro de organizações sociais
orçamento participativo”, passará a ter um es- para avaliação do seguimento da Cúpula
paço cativo no boletim – a coluna Aqui aconte- Mundial de Alimentação, realizado pela
ce (página 11). Para inaugurá-la, o Orçamento FAO (Food and Agriculture Organization
Participativo Mirim – um projeto pioneiro na of the United Nations). Na Cidade do Mé-
América Latina desenvolvido pela Prefeitura xico. Informações: www.fao.org
Municipal de Barra Mansa, no Rio de Janeiro.
Outro ponto a ser destacado é a indica-
✓ Junho
ção da home page do Balanço Social entre as 14, 15 e 16 – Conferência Nacional 2000 de
dez mais no Ibest 2000, o Oscar da Internet. A Responsabilidade Social Empresarial. Pro-
responsabilidade social das empresas, um tema movido pelo Instituto Ethos, o evento dis-
relativamente novo, tem merecido atenção es- cutirá os processos de implementação da res-
pecial na nossa publicação. Certamente, esse ponsabilidade social nas empresas. Hotel
reconhecimento nos ajudará a transformar a Intercontinental de São Paulo. Informações:
responsabilidade social em um compromisso (11) 3068-8539 ou ethos@ethos.org.br
de todos.

Projeto Gráfico: Regina Ribeiro


Editoração Eletrônica: Tipo Comunicação 541-9230
Impressão: Arte Maior Gráfica e Editora
Uma publicação quadrimestral do Ibase - Instituto Brasileiro Tiragem: 2.000 exemplares
de Análises Sociais e Econômicas Ibase: Rua Visconde de Ouro Preto, 5/7º andar - Botafogo
Apoio: Fundação Ford Rio de Janeiro - RJ - Brasil - CEP 22250-180
Equipe da Coord. Transparência e Responsabilidade Social: Tel: (21) 553-0676 Fax: (21) 551-3443
João Sucupira, Ciro Torres, Leonardo Méllo, Julia Ribeiro e Home page: www.ibase.br
Cláudia Mansur Endereço eletrônico: nde@ibase.br
Supervisão Editorial: Iracema Dantas O Ibase integra o Fórum Nacional de Participação

2 FEVEREIRO-MAIO 2000
Quando o rei perde a cabeça
Um passeio pelo Rio de Janeiro é tudo que se precisa para entender a dimensão dos
problemas que enfrentam os cidadãos que aqui moram, trabalham ou buscam lazer. Mas
será fácil melhorar o Estado do Rio em todos seus aspectos? E se o Estado for muito, só a cidade
já não seria mais viável? A intenção deste artigo é desvendar uma ferramenta imprescindível
– e pouco conhecida – para o bem-estar comum. Trata-se do orçamento municipal, uma
caixa-preta para a maioria dos cidadãos.

Pelo papel que ocupa na administração Em fatias


pública, o orçamento é sempre especial. Parece Em 2000 a prefeitura gastará metade de
adequar-se a todo tipo de problema, mas ao seus recursos com 20 ações apenas, de um total
mesmo tempo é insuficiente para resolver qual- de 828, como ilustra a Tabela 3. Claro que a
quer um deles. Não é explícito em seus objeti- maioria dos gastos apresentados é relativa ao
vos, uma vez que a maioria dos gastos apresenta pagamento de pessoal e da dívida. Mas há tam-
razoável grau de generalidade. Em 2000 o go- bém ações específicas, cujo acompanhamento
verno da cidade disporá de algo como 33 mi- mereceria a atenção de todos. Outro dado sur-
lhões de salários mínimos para gastar nos mais preendente é descobrir que a prefeitura tem a
diferentes programas de governo. Ações serão intenção de gastar R$1,00 em diversas ações.
realizadas no seu bairro ou no bairro de seu
vizinho. São R$ 4,47 bilhões que a prefeitura
terá para gastar. Para a Câmara Municipal e o Valores em Valores
Tabela 1 – Orçamento 2000
R$ 1.000,00 em %
Tribunal de Contas foram destinados R$ 168
milhões (ver tabela 1). Com todo esse dinheiro, Poder Legislativo 168.490 3.63%
Câmara Municipal 129.715 2.80%
seria possível fornecer um salário mínimo para
Tribunal de Contas 38.775 0.84%
2.842.689 famílias. Tendo em vista que o mu-
nicípio possui uma população de 5,5 milhões Poder Executivo 4.470.779 96,37%
de habitantes (PNAD 1996), não é pouco. Secretaria Municipal de Governo 17.476 0,38%
Gabinete do Prefeito 459.756 9,91%
É fácil entender a função de um orçamen-
Controladoria Geral do Município 15.788 0,34%
to público. Os governantes recolhem da socie-
Sec. Municipal de Administração 999.041 21,53%
dade uma determinada quantia de dinheiro para Sec. Municipal de Fazenda 92.713 2,00%
devolvê-lo na forma de bens e serviços públicos. Sec. Municipal de Obras e Serviços Públicos 290.699 6,27%
Trocando em miúdos é a garantia de que tere- Sec. Municipal de Educação 655.509 14,13%
mos professores na rede pública e médicos, en- Sec. Municipal de Desenvolvimento Social 117.170 2,53%
fermeiras e agentes de saúde nas unidades mu- Secretaria Municipal de Saúde 786.721 16,96%
nicipais, preservação das praças e áreas de lazer, Sec. Esp. de Des. Econ. Ciência e Tecnologia 1.928 0,04%
limpeza da cidade, fiscalização sanitária e cum- Procuradoria Geral do Município 44.386 0,96%
primento e observância das posturas municipais. Secretaria Municipal de Urbanismo 31.922 0,69%
Há diferentes formas de se entender o que Sec. Municipal de Meio Ambiente 47.261 1,02%
será feito com o dinheiro da prefeitura, mas um Sec. Municipal de Esporte e Lazer 37.631 0,81%
bom caminho é olhar para o gasto por Funções Secretaria Municipal do Trabalho 15.233 0,33%
Secretaria Especial de Transportes 663 0,01%
de Governo, uma forma de apresentar generi-
Sec. Especial de Projetos Especiais 389 0,01%
camente os objetivos que a prefeitura deverá
Secretaria Municipal de Trânsito 52.089 1,12%
alcançar, ou perseguir. Através da Tabela 2, veri-
Secretaria Municipal de Cultura 68.913 1,49%
ficamos que quase não há diferenças entre a Lei Encargos Gerais do Município 567.529 12,23%
Orçamentária Anual 2000 (LOA 2000) e a pro- Secretaria Municipal de Habitação 166.044 3,58%
posta elaborada pelo prefeito Luiz Paulo Con- Secretaria Especial de Turismo 234 0,01%
de (Proposta 2000). Simultaneamente, pode- Sec. Especial de Assuntos Estratégicos 1.019 0,02%
se ver que em relação a Lei Orçamentária Anu- Sec. Especial de Monumentos Públicos 564 0,01%
al de 1999 (LOA 99) as diferenças são também Reserva de Contingência 100 0,00%
pequenas, a não ser pelos itens Administração e Total 4.639.270 100%
Planejamento e Assistência e Previdência. Fonte: Lei Orçamentária Anual para 2000 (Lei nº 2973, de 10 de janeiro de 2000)

FEVEREIRO-MAIO 2000
3
Isso mesmo, um real! Tais ações são vulgarmen- Janeiro é incompatível com o retrato de uma
te chamadas de janelas orçamentárias – uma au- sociedade saudável, normal, ou para usar um
torização prévia do Poder Legislativo que ga- termo mais atual, sustentável. Por que então
rante uma negociação ao longo do ano. seguimos convivendo com tal situação? Certa-
Independentemente do montante de recur- mente não é por acaso.
sos, existirá sempre um limite para seu uso. Será
necessário que se tomem decisões, que se defi- Sem chances
nam entre um gasto aqui, ou acolá, nessa ou na- O exercício da democracia ainda é novi-
quela área. Com isso, teremos grupos beneficia- dade no Brasil. Mesmo que a Constituição de
dos e prejudicados por tais decisões. Alguém tem 1988 não seja mais tão recente, acabamos de
dúvidas sobre qual grupo receberá me- sair de uma ditadura militar. Antes disso, anos
nos? A sociedade é composta de pesso- de escravismo que deixaram raízes profundas.
A disseminação
as e grupos sociais com acesso diferen- Estamos falando de uma desigualdade institu-
de informações
ciado aos serviços públicos, e bastante cional em sua forma mais extremada, cujo fim
sobre a utilização distintos na sua capacidade de reagir ou não foi acompanhado de quaisquer ações espe-
dos recursos se defender de situações de carência. A cíficas no sentido de reverter essa condição ini-
públicos permitirá forma que essa discussão toma é a da cial. Antigos escravos, sem renda, patrimônio,
aos cidadãos busca por uma sociedade mais iguali- moradia, postos no serviço público e terra tor-
exercer plenamente tária. E a lógica de aplicação dos recur- naram-se os pobres e excluídos de hoje, sem
seu papel de fiscal sos – de prestação de serviços e bens renda, sem carteira assinada, morando em fa-
de um serviço públicos – só reforça essa desigualdade velas ou como sem-terra.
prometido e ao longo das últimas décadas. Assim, partindo de posições diametralmen-
necessário Um exemplo é que se hoje já é te opostas, esses grupos sociais disputaram o tra-
possível falar em investir em favelas, é balho, a renda e a cidadania ao longo dos anos.
porque houve um tempo em que par- Não impressiona, portanto, a situação que en-
celas politicamente dominantes da sociedade contramos nas cidades e no campo. São vergo-
achavam que tais espaços de assentamento eram nhas nacionais a desigualdade de renda e os pri-
o espaço da criminalidade. Deveriam, portanto, vilégios para classes específicas. Nessa disputa
ser extirpados ou distanciados da cidade e da so- desigual, parece que alguns grupos conseguiram
ciedade oficiais. Atualmente, a situação é tão gri- se apoderar de tudo o que podiam. A idéia de
tante que não fazer nada contra essa desigualda- que as políticas públicas deveriam ser universais,
de de condições de vida e oportunidades reve- ou de que o poder público deveria a todos ser-
lam puro preconceito, segregação e um atestado vir, tornou-se secundária. Essa situação foi ab-
de insensibilidade e desumanidade. sorvida de tal modo pela sociedade que se torna
Aparentemente qualquer cidadão concor- compreensível a desigualdade gritante ser toma-
da que a desigualdade que temos no Rio de da como natural. Parece plausível que o Estado

Tabela 2 - Despesas por Funções de Governo (Valores em R$ 1.000,00)


Funções LOA 2000 % Proposta 2000 % LOA 99 %
Legislativa 168.490 3,63 163.490 3,52 195.546 4,05
Judiciária 30.866 0,67 30.866 0,67 26.787 0,55
Administração e Planejamento 740.599 15,96 758.644 16,35 1.245.745 25,77
Defesa Nacional e Seg. Pública 88.505 1,91 89.495 1,93 81.665 1,69
Educação e Cultura 806.140 17,38 792.726 17,09 1.095.900 22,67
Habitação e Urbanismo 490.513 10,57 460.826 9,93 495.607 10,25
Indústria Comércio e Serviços 79.881.735 1,72 80.873 1,74 94.474 1,95
Saúde e Saneamento 888.861 19,16 920.387 19,84 661.931 13,69
Trabalho 14.982 0,32 12.382 0,27 13.744 0,28
Assistência e Previdência 1.237.573 26,68 1.232.422 26,57 793.051 16,41
Transporte 92.754 2,00 97.054 2,09 129.539 2,68
Reserva de contingência 100 0,00 100 0,00 50 0,00
Total 4.639.269 100 4.639.269 100 4.834.039 100
Fonte: Leis orçamentárias para 1999 e 2000 (Lei n.º 2973, de 10/01/2000, e Lei n.º 2737, de 29/12/1998), e proposta de Lei Orçamentária Anual para 2000
(publicado do Diário da Câmara Municipal – DCM)

4 FEVEREIRO-MAIO 2000
nada tenha feito nas últimas décadas para alterar a sociedade e entre grupos sociais? Um dia o Mais informações
esse perfil. Soa normal que as políticas públicas rei foi decapitado por não querer se submeter a sobre o orçamento
sejam direcionadas apenas e na medida exata da seus súditos. Em comparação, o que não pode- 2000 do Rio de
manutenção da ordem social. ria acontecer a um prefeito? As eleições estão janeiro podem
ser encontradas
Partindo de uma visão mais estrutural da aí, vamos aproveitar... na home page
formação do país e das relações de classe, con- Leonardo Méllo do Ibase
seguimos entender como os recursos públicos sociólogo, pesquisador do Ibase <www.ibase.br>
foram sempre direcionados para os atores polí-
ticos mais fortes. Acabam indo para os bairros Tabela 3 – Os 20 Mais do Orçamento 2000
mais ricos, para os serviços públicos acessíveis Valores em R$ 1.000,00
aos mais aquinhoados ou disponíveis aos mais Projetos e atividades Valores
bem relacionados. A Prefeitura do Rio tem Pagamento de servidores inativos da Rede de Ensino 365.538
muito dinheiro. E a única maneira de impedir Administração da Dívida Pública Interna 338.318
que forças sociais não-democráticas apropriem- Ações e serviços ambulatoriais especializados em
se dele é participando da escolha das priorida- internação – Rede credenciada ao SUS 216.001
des no seu uso. Pagamento de outros servidores inativos da
Administração Direta 166.749
Sempre os mesmos Pagamento de pessoal e encargos sociais – Comlurb 128.237
Concessão de empréstimos a servidores municipais 121.000
O Rio de Janeiro é um microcosmo da Operacionalização de unidades federais hospitalares
sociedade brasileira. E por isso mesmo não é e ambulatoriais municipalizadas 112.158
difícil localizar grupos sociais mais pobres e Constituição de reservas patrimoniais 93.000
mais ricos, habitando locais diferentes, com Pagamento de benefícios a segurados e dependentes 84.145
suas respectivas carências e problemas. Se po- Manutenção e revitalização das UUEE da AP-5 XVII RA 74.550
bres e ricos moram em locais diferentes, cer- Serviços contratados de coleta de lixo 71.287
tamente, poderão ser mais ou menos beneficia- Manutenção e revitalização das UUEE, da AP-3.2 70.945
dos com as ações que o poder público desen- Pagamento de servidores inativos da Rede de Saúde 65.029
volverá. Mas o bom senso diz que os mais ne- Manutenção e revitalização das UUEE, da AP-4 59.732
Atividades de assistência médica, na AP-3 58.372
cessitados deverão ter maior amparo do Esta-
Manutenção e revitalização das UUEE, da AP-2 57.517
do. Sejamos vigilantes a esse princípio, e exi-
Manutenção e revitalização das UUEE, da AP-3.3 XIV
jamos da autoridade pública seu cumprimen- e XV RA 57.310
to. A disseminação de informações sobre a Pagamento de pessoal do município a disposição de
utilização dos recursos públicos permitirá aos outros órgãos 54.173
cidadãos exercer plenamente seu papel de fis- Manutenção e revitalização das UUEE da AP-5 XVIII RA 54.103
cal de um serviço prometido e necessário. Afi- Manutenção e revitalização das UUEE, da AP-3.1 50.137
nal se do setor privado podemos reclamar dos Total 2.298.302
maus serviços, porque não aplicar a mesma Percentual sobre o total do orçamento 49,49%
lógica ao serviço público?
Para resgatar um espaço em que seria pos- Tabela 4 - Os 10 Menos do Orçamento 2000
sível reforçar a idéia de igualdade ou justiça Valores em R 1,00
social, é essencial o acesso às informações da Projetos e Atividades Valores
elaboração e execução dos orçamentos públi- Manutenção e reequipamento da frota municipal 1,00
cos. De onde pensa o leitor que saiu o dinheiro Contribuição ao Herbário Bradeanum 1,00
para as obras inacabadas do TRT de São Paulo? Proteção contra a formação de lixões em encostas 1,00
Como foram acertadas as concorrências públi- Pesquisas para desenvolvimento de novas tecnologias
cas superfaturadas ou os serviços de educação de contenção 1,00
que nunca foram prestados pelas entidades pi- Implantação de delimitadores de áreas de risco em
diversas comunidades do município 1,00
lantrópicas? Como será que o senador Luiz Es-
Contenção de encostas em unid.escolares do município 1,00
tevão (PMDB-DF) ficou tão rico? Abrir a cai-
Construção e pavimentação de rodovias do
xa-preta do orçamento dá algumas pistas... Sistema Viário Municipal nas AP’s 1 e 2 1,00
No passado até os reis prestavam contas Programa de aquisição de imóveis 2,00
do que gastavam. Hoje já não há reis ou deca- Obras para tratamento de efluentes em próprios municipais 2,00
pitação no Brasil. Então porque esconder as Manutenção do sistema de drenagem urbana
informações que permitirão o descortinamen- em todas as AP’s 2,00
to das desigualdades na relação do Estado com Fonte: Lei Orçamentária Anual para 2000 (Lei nº 2973, de 10 de janeiro de 2000)

FEVEREIRO-MAIO 2000
5
Da história recente às
conquistas nas empresas
O debate sobre a responsabilidade social cor- apoio de muitas empresas e instituições. O número
porativa e o balanço social das empresas voltou a de empresas que realizam anualmente o balanço so-
figurar em seminários acadêmicos, no meio empre- cial tem crescido de maneira acelerada. Segundo um
sarial, na grande imprensa e no âmbito das organi- levantamento realizado pelo Ibase, no final de 1998
zações da sociedade civil, depois de recolocado na eram 36 as empresas que realizavam balanço social.
agenda nacional pelo sociólogo Hebert de Souza em Destas, apenas seis utilizavam o modelo Ibase. Os
1997. Esse processo intensificou-se a partir de um números de janeiro do ano 2000 registram que 76
evento realizado no Centro Cultural Banco do Bra- empresas já publicam anualmente balanço social no
sil, com a participação de diversas empresas que já Brasil, sendo 26 no modelo sugerido. E algumas já
atuavam em parceria com o Ibase desde o movimento estão utilizando o Selo Balanço Social Ibase/Beti-
da Ação de Cidadania. nho em seus relatórios e produtos.
Ainda em 1997 concluiu-se o primeiro O site do Balanço Social entrou no ar em no-
O número de modelo Ibase de balanço social. Em 1998 re- vembro do ano passado. E menos de três meses de-
empresas alizamos um seminário nacional e o modelo pois, já contava com 145 participantes na lista de
que realizam foi aperfeiçoado a partir de contribuições, par- discussão, que funciona por meio de correio eletrô-
anualmente o cerias e da própria experiência do trabalho de- nico. Nosso apoio tem sido solicitado por muitos
balanço social senvolvido. No mesmo ano, foi criado o Selo estudantes, pesquisadores e profissionais. Além dis-
tem crescido de Balanço Social Ibase/Betinho que está sendo so diversas empresas privadas e públicas têm procu-
maneira acelerada concedido às empresas que realizam seus ba- rado o Ibase na busca de informações, apoiando as
lanços no modelo sugerido pela instituição. questões do balanço social e da responsabilidade
Foto: André Telles
social das empresas.

Sucesso rápido
Um reconhecimento público importante ocor-
reu em janeiro deste ano, quando após apenas três
meses de sua criação, o site foi premiado com o Top
10 do Ibest, o Oscar da internet brasileira. Ou seja,
foi escolhido como um dos 10 melhores sites brasi-
leiros na categoria Ação Social.
Esse espaço, onde as empresas divulgam para
a sociedade suas ações na área social e ambiental,
está tornando-se um lugar – virtual, é claro – onde
pessoas e instituições encontram um meio para
debater e divulgar informações sobre o balanço
social e responsabilidade social das empresas. Lá
encontram-se notícias, reportagens e textos. Além
disso, o site divulga uma agenda de eventos, pes-
quisas, artigos, vasta bibliografia sobre o assunto,
João Sucupira, Mais uma etapa do último projeto lançado por diversos links para outras instituições e uma rela-
Cláudia Mansur Betinho foi concretizada no final de 1999. O Ibase ção das empresas que publicam anualmente o ba-
e Ciro Torres, implementou o site do Balanço Social. O ano termi- lanço social.
a equipe do
nou com a realização do segundo seminário sobre o Grande em sua abrangência, esse trabalho ocu-
projeto Balanço
Social do Ibase tema, na sua versão internacional, e o lançamento pa fisicamente apenas alguns centímetros dentro de
desse novo espaço virtual na rede mundial de com- um hard disk de computador. O espaço é virtual,
putadores. O principal objetivo desse site é tornar-se porém as conseqüências têm sido concretas. Entrem,
uma referência nacional neste assunto. aproveitem e, principalmente, participem. Afinal de
Desde então, o projeto passou a ter mais ade- contas o site do Balanço do Social não é só do Ibase,
sões, alcançando boa repercussão e conquistando o também é seu. E de toda a sociedade.

6 FEVEREIRO-MAIO 2000
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
O que você encontra no site
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

O Balanço Social: os balanços das empresas que utili-


zam o modelo Ibase
Histórico: um texto contando um pouco da história do
balanço social
Agenda: eventos, reuniões e seminários relacionados com
o tema
Biblioteca virtual: textos, artigos e pesquisas, além de
uma bibliografia sobre o assunto
Mailing list: lista de discussão moderada sobre balanço
social e temas afins
Livraria virtual: espaço para compra de livros sobre o tema
Balanço Social na internet: links para sites e instituições
que atuam nesta área
Empresas que já publicam seu BS: lista das empresas
que publicam balanço social
Legislação: uma relação das leis e projetos relacionados Fórum: espaço do Fórum Permanente do Balanço Social
Modelo: o modelo Ibase de balanço social, para visuali- e da campanha Empresa Cidadã da Câmara Municipal de
zação e para download São Paulo
Na mídia: notícias dos principais veículos do país sobre Site do Balanço Social do Ibase: www.balancosocial.org.br
balanço e responsabilidade social das empresas Site do Ibase: www.ibase.br

Empresas que já realizam o Balanço Social


1. Acesita – Cia. Aços Especiais Itabira 27. Copene 53. Light Serviços de Eletricidade*
2. Alternex* 28. Cosern – Companhia Energética do Rio 54. Mills do Brasil Estruturas e Serviços
3. Aracruz Celulose Grande do Norte* 55. Odebrecht
4. Azaléia* 29. CSN – Companhia Siderúrgica Nacional 56. Paranapanema
5. Banco do Brasil* 30. Dataprev 57. Parks Comunicação Digital
6. Banco do Nordeste do Brasil 31. DPaschoal 58. Perdigão
7. Banco Itaú 32. Editora Abril 59. Petrobras
8. Banco Santos 33. Eletrobras 60. Petros – Fundação Petrobras de
9. Banespa 34. Eletronorte – Centrais Elétricas do Norte Seguridade Social*
10. BioBrás do Brasil S/A* 61. Previ – Caixa de Previdência dos
11. Caiuá Serviços de Eletricidade* 35. Eletropaulo* Funcionários do Banco do Brasil*
12. CBMM – Cia. Brasileira de Metalurgia e 36. Embrapa - Empresa Brasileira de 62. Rede Globo de Televisão
Mineração Pesquisa Agropecuária* 63. RBS
13. CEB – Companhia Energética de Brasília* 37. Empresa de Eletricidade Vale 64. RGE – Rio Grande Energia
Paranapanema* 65. Rio Tinto Brasil
14. CEF – Caixa Econômica Federal
38. Empresa Elétrica Bragantina* 66. Sabesp – Companhia de Saneamento
15. Celg – Centrais Elétricas de Goiás*
39. Empresas Belgo-Mineira Básico do Estado de São Paulo
16. Celpa – Centrais Elétricas do Pará*
40. Febraban 67. Samitri Mineração da Trindade
17. Celtins – Cia. de Energia Elétrica do
Estado do Tocantins* 41. Fronape 68. Serasa – Centralização de Serviços dos
18. Cemat – Centrais Elétricas 42. Furnas Centrais Elétricas Bancos S/A
Matogrossenses* 43. Gelre – Trabalho Temporário 69. Serpro – Serviço Federal de
19. Cemig – Centrais Elétricas de Minas Gerais 44. GlaxoWellcome Processamentode Dados
20. Cesp – Companhia Energética de 45. Grupo Brasmotor S/A 70. Souza Cruz
São Paulo* 46. Grupo Gerdau 71. Springer/Carrier
21. Coelba – Cia. de Energia Elétrica da Bahia* 47. Grupo J. Macêdo 72. Tele Centro Sul*
22. Companhia Carris Porto-Alegrense* 48. Grupo Randon 73. Telepar – Telecomunicações do Paraná S/A
23. Companhia Força e Luz do Oeste* 49. Indústrias e Comércio Chapecó 74. TUPY
24. Cia. Nacional de Energia Elétrica* 50. Indústrias Klabin de Papel e Celulose 75. Usiminas – Usinas Sid. de Minas Gerais*
25. Confab 51. Inepar* 76. WEG
26. Copel – Companhia Paranaense de 52. Infraero – Empresa Brasileira de
Energia Elétrica Infra-Estrutura Aeroportuária * Balanço Social realizado no modelo Ibase

FEVEREIRO-MAIO 2000
7
Injustiça secular no
mercado de trabalho
Voltemos ao tempo. Há 450 anos, mais precisamente no período colonial. Entre 1550 e
1850, cerca de 10 milhões de pessoas foram seqüestradas da África e trazidas à força para o
Brasil a fim de exercerem o trabalho gratuito, escravo. A sujeição de um ser humano pelo outro
propiciou durante longo tempo a exploração total dos trabalhadores negros. Submetidos a uma
jornada de trabalho de 14 a 16 horas diárias, aliada a condições desumanas de trabalho e à
alimentação precária, o índice de mortalidade era alto. Muitas vidas foram perdidas.

Com o fim do período escravista, razões gros e negras no mercado de trabalho. Insti-
de natureza econômica e ideológica excluíram tuições como Dieese (Departamento Intersin-
quase totalmente ex-escravos do processo pro- dical de Estatística e Estudos Socioeconômi-
dutivo. Com as mudanças econômi- cos), Seade (Sistema Estadual de Análise de
cas e as oportunidades surgidas pela Dados) e Unicamp (Universidade de Campi-
A industrialização
industrialização, construiu-se a ideo- nas) são exemplos.
não transformou
logia do embranquecimento da soci-
trabalhadores – edade brasileira. A imigração foi a Ciclo vicioso
homens e solução encontrada pelos nacionalis- Em 1990 foi publicada pelo IBGE uma
mulheres, negros tas para concretizar essa exclusão. pesquisa que reuniu um conjunto de indica-
e brancos – A ironia é que propagaram a dores sobre a situação socioeconomica de
em operários idéia de que negros eram incapazes brancos, amarelos e negros nas regiões me-
com as mesmas para o trabalho livre. Justamente tropolitanas. Mas somente em 1994 o Mapa
igualdades de aqueles que durante quase 400 anos do Trabalho, feito pelo instituto a pedido de
oportunidades haviam sido os produtores da rique- nosso saudoso Betinho, trouxe dados atuali-
e tratamento za nacional. Desta forma, negros e zados sobre a situação do povo negro.
negras foram jogados nas ruas, sem Podemos constatar que a produção esta-
indenização por tantos anos de ser- tística sobre o mundo do trabalho com enfo-
viço gratuito. Tiveram uma inclusão diferen- que na raça tem sido insuficiente. O Instituto
ciada no processo produtivo capitalista. Sem Sindical Interamericano pela Igualdade Raci-
condições de igualdade para enfrentar os al (Inspir) teve como meta em 1998 atualizar
novos desafios do mercado de trabalho, fo- os dados de forma a subsidiar ONGs, movi-
ram obrigados a aceitar os postos mais vul- mentos sociais, sindicalistas e a sociedade, com
neráveis e nas piores condições. A industria- o propósito de criar políticas públicas e soci-
lização não transformou trabalhadores – ho- ais que busquem a eliminação do racismo.
mens e mulheres, negros e brancos – em ope- Finalmente em outubro de 1999, lança-
rários com as mesmas oportunidades e tra- mos o Mapa da População Negra no Merca-
tamento. Muito menos o Estado procurou do de Trabalho. A pesquisa, feita em convê-
investir na inserção de negros e negras. Ao nio com o Dieese, teve como princípio uma
contrário, sempre pareceu não ter nada a ver indagação básica: como e em que condições
com a marginalização econômica e social que a população negra está inserida no mercado
até hoje persiste para 44,7% da população. de trabalho brasileiro?
Durante muito tempo, poucos foram os O período estudado foi o ano de 1998 e
dados acerca do racismo brasileiro. Somente os dados são as médias anuais relativas a esse
a partir de 1980, o IBGE (Instituto Brasilei- ano. Isto possibilitou uma comparação entre
ro de Geografia e Estatística) demonstrou todos os indicadores apresentados. A pesqui-
preocupação em cruzar o quesito cor em seus sa demonstrou uma situação de desigualda-
mapeamentos. Na metade dos anos 80, pes- des para os trabalhadores negros que se repe-
quisas passam a demonstrar a situação de ne- te em um ciclo vicioso.

8 FEVEREIRO-MAIO 2000
fotomontagem de Samuel Tavares sobre fotos de J. R. Ripper
“A coerência dos resultados em nível na-
cional demonstra, sem sombra de dúvida, que
a discriminação racial é um fato presente, co-
tidiano, interferindo em todos os espaços do
mercado de trabalho brasileiro. Nenhum ou-
tro fato, que não a utilização de critérios dis-
criminatórios baseados na cor dos indivíduos,
pode explicar os indicadores sistematicamen-
te desfavoráveis aos trabalhadores negros, seja
qual for o aspecto considerado.” (Mapa da Po-
pulação Negra no Mercado de Trabalho,
pág.117)
Segmentação assustadora
A distribuição dos grupos raciais em
nosso território é diferenciada. Enquanto a
população branca concentra-se principalmente
nas regiões desenvolvidas do país, pelo me-
nos 59% da população negra vive na Região Os efeitos da modernização no
Nordeste, onde predominam as piores condi- mundo do trabalho geram impactos A taxa de
ções econômicas e sociais. Mesmo na Região que prejudicam a todos. No entan- participação
Sudeste, a mais desenvolvida do Brasil, as to, a população negra é a mais atin- da população
práticas discriminatórias caracterizam as rela- gida, principalmente pelo desempre-
negra no
ções raciais no trabalho. go. Conforme conclui Maria Apare-
mercado de
Raça é sem dúvida elemento diferencial cida Silva Bento, que desenvolveu
um projeto para o Inspir, “a raciona-
trabalho é
de direitos no Brasil. Se controlarmos o fa-
tor escolaridade vai se evidenciar a existên- lização do trabalho” andou de braços maior que a
cia de uma discriminação específica contra o com uma outra característica: a in- da população
segmento negro da população brasileira, tensa seletividade das políticas de pes- branca
mesmo quando negros e brancos possuem soal. Tal enxugamento seletivo tem
formação escolar idêntica, as desigualdades tido efeitos diversos entre segmen-
persistem. tos sociais, que se diferenciam não
A segmentação racial no mercado de tra- apenas por características aquisitivas (grau
balho é assustadora. Isso fica evidente quan- de escolaridade e experiência, por exemplo),
do postos de trabalho que impliquem conta- mas também por características adscritas
to com o público ou usuários são veladamen- (condição de gênero, geracional e racial)”.
te proibidos para negros, mesmo que não exi-
jam qualificação especial.
Queda de um mito
No setor público, cujo acesso é mais de- Com tudo isso os mais violados em sua
mocrático por conta dos concursos, temos dignidade e cidadania são as mulheres negras
uma boa representação da população negra. e os homens negros, nesta ordem, devido o
Entretanto, a participação laboral está limi- déficit cumulativo gerado pela discriminação
tada a funções manuais, com pouquíssimas estrutural. O Mapa derrubou o mito de que
chances de ascensão profissional. A concen- negros são indolentes, não afeitos ao trabalho.
tração de mão-de-obra branca nos setores e A taxa de participação da população negra no
ocupações considerados nobres pela socie- mercado de trabalho é maior que a da popula-
dade é outro fator que mostra essa divisão ção branca. Em São Paulo a taxa é de 63,2%
racial. para negros contra 60,9% para brancos.
O rendimento de brancos e negros no Os negros ingressam mais cedo no mer-
mercado de trabalho tornou flagrante a dis- cado de trabalho e permanecem mais tem-
criminação. É um dado assustador, principal- po, conforme a pesquisa. Entretanto, ao lon-
mente quando se compara os homens bran- go do tempo, o ingresso precoce de jovens
cos com as mulheres negras. tem significado prejuízos à formação educa-

FEVEREIRO-MAIO 2000
9
Principais Indicadores da Inserção dos Negros no Mercado de Trabalho
Brasil – Regiões Metropolitanas – 1998
Indicadores São Paulo Salvador Recife DF Belo Porto
Horizonte Alegre
Taxas de participação 63,2% 60,8% 54,2% 62,6% 58,5% 56%
Taxas de desemprego 22,7% 25,7% 23% 20,5% 17,8% 20,6%
Ocupados em
situações vulneráveis 42,4% 46,2% 44,7% 35,4% 40,3% 38,25%1
Rendimento médio mensal
dos ocupados (R$) 512,00 403,00 363,00 776,00 444,00 409,00
Salário por hora (R$) 2,94 2,88 2,46 5,06 2,88 2,43
Assalariados com jornada
superior à legal 45,3% 41,7% 50,0% 28,0% 43,5% 38,9%
Fonte: Dieese/Seade e entidades regionais. PED – Pesquisa de Emprego e Desemprego Elaboração: Dieese
1 Inclui os assalariados sem carteira de trabalho assinada, os autônomos que trabalham para o público, os trabalhadores familiares não-remunerados
e os empregados domésticos

cional. É alto o número de jovens negros que chefes de família, as mulheres e os jovens dessa
abandonam os estudos para se dedicar so- população são mais penalizados.
mente ao trabalho, conforme aumenta sua A instituição do escravismo e do colonia-
faixa etária. lismo construiu um novo mundo, calcado na
Quanto ao desemprego, tomemos como destruição dos povos nativos e na escravidão
exemplo Salvador, com a maior concentra- dos povos africanos negros. Forjaram uma su-
ção de negros (81,1% da população), e Por- premacia racial branca sedimentada em idéias
to Alegre, com 11,8% de negros na popula- e filosofias racistas. A pergunta que se faz é: o
ção. Em Salvador a diferença entre negros e que fazer para reverter esse quadro de exclu-
brancos na taxa de desemprego é de 45% são? Qual o papel do Estado, dos empresários,
(25,7% negros contra 17,7% brancos). Em do movimento social e sindical, enfim de bra-
Porto Alegre tem-se uma diferença na taxa sileiros e brasileiras, brancos e negros?
de desemprego de 35% (20,6% negros con- Vendar os olhos, negar obstinadamente
tra 15,2% brancos). a dimensão dessas desigualdades e não inves-
É preciso dizer que as mulheres negras tir em sua superação só perpetua uma situa-
são as mais atingidas pelo racismo e pela dis- ção indigna de um país que se diz democráti-
criminação. Basta analisar os rendimentos mé- co. Como disse o próprio presidente da Repú-
dios mensais em seis metrópoles. Tomando blica, em discurso em 20/11/98: “O governo
como base 100% para os homens brancos, as precisa honrar seu compromisso de ter uma
mulheres negras recebem: 33,6% em São Pau- posição mais afirmativa a favor dos negros”.
lo; 28,3% em Salvador; 36,8% em Recife; Não nos basta mais discursos em datas
47% no Distrito Federal; 36,1% em Belo Ho- específicas, queremos ações que de fato re-
rizonte; e 46,7% em Porto Alegre. vertam a situação em que vive o povo negro.
A seguir, um quadro (acima) que de- A luta da população negra não é isolada, de
monstra a extrema gravidade da inserção da minoria. É uma luta de todos que pretendem
população negra no mercado de trabalho. uma sociedade mais igualitária e justa.

Mundo nada admirável Neide Aparecida Fonseca


Embora se vão quase 112 anos do tér- Diretora do Inspir (Instituto Sindical
mino da escravidão, a população negra ainda Interamericano pela Igualdade Racial),
apresenta as piores condições de vida. Tem do Sindicato dos Bancários de São Paulo,
salários inferiores, ocupa os piores postos e Osasco e Região e da Fetec-CUT
apresenta baixo nível de escolaridade (mes- Exemplares do Mapa da População Negra no
mo quando o nível é igual, a discriminação Mercado de Trabalho podem ser pedidos
prevalece). A jornada de trabalho é maior, os através do e-mail inspir-acao@uol.com.br

10 FEVEREIRO-MAIO 2000
AQUI ACONTECE Barra Mansa

Igual a gente grande


A partir deste número, o Orçamento e Democracia traz uma novidade. Estamos dedican-
do este espaço a experiências de orçamento participativo. A idéia é divulgar e criar o debate
sobre a participação da sociedade na utilização dos recursos públicos. Nesta primeira experiên-
cia, uma iniciativa que orgulha a cidade de Barra Mansa, no sul do estado do Rio de Janeiro.

O programa Cidadania não Tem Tama-


nho, desenvolvido pela Prefeitura Municipal
de Barra Mansa, tem como objetivos promo-
ver a participação de crianças e adolescentes
no exercício da cidadania e valorizar o papel
desses jovens como integrantes de sua comu-
nidade. E mais: contribuir para a formação
de um novo tipo de líder para a participação
democrática e desenvolver temas importan-
tes entre crianças e adolescentes, como cida-
dania, democracia e orçamento público
O projeto é pioneiro na América Latina
e teve início em 1998. A experiência faz parte
de um conjunto de projetos inovadores e par- Fotos de Cidinha Campos/Prefeitura de Barra Mansa
ticipativos, entre eles o Conselho do Orça-
mento Participativo Mirim apoiado pelo Pro- adultos voluntários e o apoio de vá-
A proposta é
grama de Gestão Urbana da América Latina rias entidades, a iniciativa tem servi-
que crianças e
e Caribe das Nações Unidas (PGU–ALC). A do também como um exercício edu-
adolescentes
proposta é que crianças e adolescentes tomem cativo-pedagógico. Para muitos dos
tomem decisões
decisões sobre o Orçamento Público Munici- voluntários, esse acompanhamento
pal, similar ao que ocorre no processo parti- tem se transformado em uma opor-
sobre o Orçamento
cipativo do Conselho adulto. tunidade de reflexão e ampliação da Público Municipal,
prática cidadã. similar ao que
Exemplo A idéia é também promover a ocorre no processo
Meninos e meninas adolescentes partici- equidade de gênero na eleição dos re- participativo do
pam da escolha de seus representantes no con- presentantes e nos espaços de repre- Conselho adulto
selho. De acordo com necessidades e interes- sentação e decisão do Conselho Mi-
ses do grupo, os eleitos decidem o destino de rim. A experiência tem garantido um meio
R$ 150 mil do Orçamento Público Munici- de divulgar os conhecimentos sobre as técni-
pal. O processo tem mobilizado um grande cas da gestão pública e de aumentar a auto-
número de crianças, a maioria estudantes da estima dos participantes.
rede pública de ensino. Com a presença de O Conselho Mirim hoje está caracteri-
zado como um mecanismo de gestão da pre-
feitura. Até o momento, 20 projetos já foram
beneficiados pelos representantes através de
um investimento total de R$ 300 mil. No ano
passado, a iniciativa foi uma das 27 premia-
das no concurso Prefeito Criança, organiza-
do pela Fundação Abrinq.

Maria Aparecida Damião Freire


Coordenadora do Orçamento Participativo
Mirim em Barra Mansa/RJ

FEVEREIRO-MAIO 2000
11
Navegar é preciso
A agilidade e o caráter prático da rede mantém uma lista de discussão sobre Tercei-
mundial de computadores abrem inúmeras ro Setor, por correio eletrônico do participan-
possibilidades para quem busca informações te. Para se inscrever basta ir até o site do Gife
sobre responsabilidade social das empresas e http://www.gife.org.br. A primeira organiza-
balanço social. Mesmo considerando que este ção a tratar do tema da responsabilidade so-
é um tema relativamente novo. O hábito de cial das empresas no Brasil foi a Associação
navegar na internet e de utilizar o correio ele- de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE),
trônico tem permitido o contato direto com em meados da década de 60. Seu site é: http://
empresas e instituições que atuam nesse cam- www.puc-rio.br/parcerias/adce.
po, facilitando desde a simples troca de infor- Em matéria de Terceiro Setor, o espaço
mações até pesquisas acadêmicas. virtual da Rede de Informações do Terceiro
Por acreditar nessa mídia, o Ibase man- Setor (Rits) http://www.rits.org.br é uma re-
tém em seu site http://www.ibase.br informa- ferência. Porém, o Clipping Terceiro Setor, da
ções sobre cidadania, participação no orça- Academia de Desenvolvimento Social http://
mento público e meio ambiente. A partir do www.voluntario.org.br/academia/ traz infor-
desenvolvimento de projetos em cidadania mações relevantes diariamente. O site do Insti-
empresarial, resolveu criar um site exclusivo tuto Ethos de Responsabilidade Social é mais
http://balancosocial.org.br. Além de dados, uma opção para se manter bem-informado
artigos e vasta bibliografia sobre o assunto, http://www.ethos.org.br. Atua no Brasil em
pode-se encontrar links para outras institui- parceria com o americano Business for Social
ções e uma relação das empresas que publi- Responsibility (BSR). http://www.bsr.org
cam anualmente o balanço social. Para além das fronteiras nacionais, en-
Outras instituições também já colocaram contramos os sites do Institute of Social end
seus acervos na rede. O Grupo de Institutos, Ethical Accountability, da Inglaterra, http://
Fundações e Empresas (Gife), por exemplo, www.accountability.org.uk e o do The Prin-
ce of Wales Business Leaders Forum. http://
www.pwblf.org. A recente norma de certifi-
cação social, a Social Accountability 8000
(SA 8000), uma espécie de ISO 9000 social,
pode ser conhecida através do site do Coun-
cil on Economic Priorities Accreditation Agen-
Outras instituições e sites cy (Cepaa). http://www.cepaa.org
relacionados com o tema Além dos sites institucionais, pode-se
Responsabilidade Social encontrar home pages individuais sobre o
das Empresas e Balanço Social tema. Indicamos aqui o da acadêmica Patrí-
cia Almeida Ashley, que realiza o seu douto-
ramento na PUC/RJ http://www.alternex.
com.br/~patiagpucrio e o da assistente so-
Instituto PNBE de cial Adelaide Consoni http://www.terravista.
Desenvolvimento Social ------------------------ http://www.pnbe.org.br pt/BaiaGatas/2932/Terceiro%20Setor.html
Federação Nacional de Estudantes O importante agora é apontar o browse e
de Administração --------------------------------- http://fenead.org.br
Fund. Inst. de Desenvolvimento
navegar. Se navegar é preciso, pesquisar, es-
Empresarial e Social (Fides) ------------------ http://www.fides.org.br tudar e trocar informações tornou-se impres-
Fundação Abrinq ---------------------------------- http://www.fundabrinq.org.br cindível. Mãos à obra e boa pesquisa.
Centro de Integração Empresa
Escola (CIEE) --------------------------------------- http://www.ciee.org.br Ciro Torres
O Mundo Social ------------------------------------ http://www.terravista.pt/BaiaGatas/ sociólogo, pesquisador do Ibase
2932/Terceiro%20Setor.html ciro@ibase.br

12 FEVEREIRO-MAIO 2000

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