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JUAREZ DE JESUS SILVA

A saúde mental na organização do trabalho do policial – um estudo de


caso na PMMG

Belo Horizonte
Escola Superior Dom Helder Câmara
2007
JUAREZ DE JESUS SILVA

A saúde mental na organização do trabalho do policial – um estudo de


caso na PMMG

Aprovada na Comissão Examinadora

Professora Drª Maria Elizabeth Antunes Lima

Professor Jesus Trindade Barreto Júnior

Belo Horizonte
Escola Superior Dom Helder Câmara
2007
JUAREZ DE JESUS SILVA

A saúde mental na organização do trabalho do policial – um estudo de


caso na PMMG

Monografia apresentada ao Curso de Pós-


Graduação lato sensu em Segurança Pública
e Direitos Humanos promovido pela Escola
Superior Dom Helder Câmara como requisito
parcial para obtenção do título de Especialista
em Segurança Pública e Direitos Humanos
Orientadora: Profª. Maria Elizabeth Antunes
Lima

Belo Horizonte
Escola Superior Dom Helder Câmara
2007
AGRADECIMENTOS

Agradecimento fundamental: a Deus, por criar-me com razão,


liberdade e felicidade;
Agradecimento afetuoso: Este trabalho não seria possível sem a
colaboração da minha esposa: Regina Márcia, filhos: Bárbara Rafaella, Isabella
Fernanda, Guilherme Otávio que, nos seus menores gestos e, muitas vezes,
mesmo sem saber, ajudaram na sua realização.
Agradecimento especial: a Professora Maria Elizabeth Antunes
Lima, pela maestria com a qual me conduziu na realização deste trabalho.
“A função primordial da educação e da ciência não é
acrescentar mais anos à vida, mas acrescentar mais vida aos anos.”
Joan Osborn
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO 8
2. CASO CLÍNICO: A história de Paulo 11
2.1 A Infância 11
2.2 A Juventude 14
2.3 No Quinto Batalhão de Polícia Militar 15
2.4 O Namoro 15
2.5 O Casamento 16
2.6 O Trabalho na Polícia Militar do Estado de Minas Gerais 18
2.7 A Transferência para o Décimo Sexto Batalhão de Policia Militar 19
2.8 A Primeira Exclusão 21
2.9 O Vigésimo Segundo Batalhão de Polícia Militar 21
2.10 A Segunda Exclusão 22
2.11 O Período de Exclusão 24
2.12 A Reinclusão 25
2.13 Retorno ao Décimo Sexto Batalhão de Polícia Militar – Vigésima
Companhia 26
2.14 A TRANSFERÊNCIA PARA A 23ª COMPNHIA 29
2.15 Uma breve conclusão 35
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 36
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 41
5. ANEXO 42
RESUMO

Esta monografia trata da saúde mental em uma instituição militar. Ela se baseia
no estudo de caso de um policial militar, com um longo histórico de problemas
na sua atuação profissional. Baseado no Método Biográfico, proposto por Louis
Le Guillant, o autor realiza um estudo da trajetória desse policial, tentando
identificar e compreender os efeitos negativos da organização do trabalho na
sua saúde mental, bem como as medidas suscetíveis de minimizar tais efeitos,
permitindo uma melhor adequação homem/trabalho.

Palavras chave: Saúde Mental, Organização do trabalho.


Abstract
This monograph deals with mental health in a military establishment. It is based on the
case’s study of a military policeman with a long historical of problems in his
professional expertise. Based on the biographic method, proposed by Louis Le Guillant,
the author conducts a study about the policeman’s trajectory, trying to identify and
understand the negative effects of the organization of work in his mental health, as well
as susceptible ways to minimize such effects, allowing a more adequate relation man /
work.

Keywords: Mental Health-Organization of work


1. INTRODUÇÃO

“Este trabalho monográfico é resultado final do Curso de Pós-Graduação lato


sensu em Segurança Pública e Direitos Humanos, promovido pela Escola
Superior Dom Helder Câmara, integrando a Rede Nacional de Altos Estudos
em Segurança Pública - RENAESP, sob acompanhamento e financiamento da
Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP, Ministério da Justiça, a
partir de convênio celebrado em 2006”.

A Polícia Militar de Estado de Minas Gerais (PMMG) é uma Instituição com


função de Estado, na prestação de serviço de Segurança Pública, com a
missão de auxiliar na manutenção da ordem e da tranqüilidade sociais. Em
toda sua existência, tem passado pelas mais diversas fases, cada uma
traduzindo um problema a ser vencido e novos compromissos assumidos. A
população mineira, hoje, espera da Polícia Militar, serviços de Segurança
Pública que proporcionem uma melhor qualidade de vida, considerando a
grande complexidade dos centros urbanos. Para isso, necessita de ajustes em
toda sua organização e nos seus modos de atuação.

Para que isso aconteça, é necessário também, romper com barreiras


paradigmáticas, do histórico institucional de polícia que se serviu da lei de
Segurança Nacional e do sistema autoritário dominante, sobretudo, para
nortear a formação do Operador de Segurança Pública, nos pilares
sustentadores da hierarquia e disciplina.

A atividade policial militar exige, do Operador de Segurança Pública,


habilidades que não são inatas, e sim, desenvolvidas no ambiente de
aprendizagem. Constata-se que, no exercício de sua atividade, isto é, na sua
atuação operacional, o policial militar comete delitos de naturezas diversas, os
quais, ao serem analisados, denunciam o despreparo e, conseqüentemente, a
má atuação desse profissional.
Este trabalho reúne subsídios elucidativos, para compreendermos um pouco
mais a Saúde Mental na Organização do Trabalho do Policial Militar de Minas
Gerais, contribuindo para esclarecer as razões que levam à má atuação do
Operador de Segurança Pública, ao lidar com os conflitos inerentes à sua
atividade.

Ele visa também possibilitar ações de formação, necessárias à consolidação


dos princípios que fundamentam a convivência interpessoal no “meio”
gerencial, que sustentam a boa gestão profissional dos Operadores de
Segurança Pública.

Cabe também, fazer uma reflexão sobre a cultura construída ao longo da


história, em torno de como gerenciar o recurso humano, tomando como base a
hierarquia a disciplina, que visa muito mais garantir o poder dos gestores. No
entanto, cabe esclarecer que não foi possível mergulhar com mais
profundidade nesta reflexão, tendo em vista os limites de uma monografia de
especialização.

A pesquisa adota como fundamento, o campo da Saúde Mental e Trabalho,


tomando como base a teoria proposta por Louis Le Guillant (2006) autor que
contribuiu, consideravelmente, para esse campo, na fundação dessa disciplina,
ao estudar os impactos da atividade profissional na saúde física e mental dos
trabalhadores, através dos estudos e pesquisas em torno da “fadiga nervosa”,
através do método biográfico. .

O Método Biográfico proposto por ele possibilita fazer um estudo do indivíduo,


desde seu nascimento até a idade adulta, permite compreender como se dá o
processo de adoecimento no ambiente do trabalho e pode contribuir,
significativamente, para as intervenções na gestão de pessoal, ao oferecer
maior conhecimento a respeito do homem, porque consiste no resgate da
totalidade da história do indivíduo, visando identificar as causas que o conduz
ao momento presente.
Assim, esse método veio contribuir para nosso estudo monográfico,
proporcionando mudanças na percepção distorcida do mundo policial, pela
conscientização dos indivíduos e, nos ajudando a compreender as razões que
levam os indivíduos a serem capazes de agir, refletir, atuar, operar e
transformar.

Para a realização deste trabalho elegeu-se, do efetivo de 142 (cento e


quarenta) Policiais Militares, existentes na Vigésima Terceira Companhia do
Décimo Sexto Batalhão da Polícia Militar, situada na rua Conceição do Pará,
487, no bairro Santa Inês, em Belo Horizonte, um policial “censurado e/ou
rotulado” pela tropa, com fama de policial “problema”, até mesmo com histórico
de patologia mental, para que se possa extrair da sua trajetória de vida
particular e profissional, elementos que nos permitam compreendê-lo e
identificar quais a possibilidades de intervenção.

Portanto, o caso clínico que será apresentado a seguir, pode ser visto apenas
como o histórico biográfico de um Policial Militar, com 48 anos de idade e 29
anos de serviço prestados à PMMG. No entanto, se o analisarmos com
atenção, veremos que ele permite conhecer outros caminhos e aponta para
melhores maneiras de organizar o trabalho e gerenciar a vida profissional das
pessoas.

O Caso Paulo1 pode não ser mais um desafio para os estudiosos do autor
acima mencionado. O desafio agora é mostrar a outros teóricos da Psicologia e
da Psicopatologia do Trabalho, que as relações de trabalho podem interferir
positiva ou negativamente nos processos psíquicos.

2. CASO CLÍNICO: A história de Paulo.

2.1 A Infância

1 Trata-se de um nome fictício


Paulo nasceu no Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais, na Avenida do
Contorno, nº 2787, bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, Minas Gerais, no
dia 22 de novembro de 1959. Sua família morava na Praça em frente ao
Batalhão de Guardas (BG). Seu pai era Policial Militar e participou da revolução
de 1964, sendo hoje, aposentado na graduação de Sub Ten. PM. Ele
trabalhava no extinto Centro de Serviço e Administração (CSA) e reside no
bairro Esplanada. Sua mãe, serventuária do Instituto de Educação de Minas
Gerais, aposentada, reside no bairro Pompéia. Paulo é o 5º, dentre os 13 filhos
que seus pais tiveram; sua irmã mais velha teve um filho, que seus pais
adotaram, sendo que hoje, são 8 filhos vivos: 3 homens e 5 mulheres. Quando
sua mãe aguardava seu nascimento, teve uma gravidez complicada, mesmo
porque não havia harmonia entre o casal, com muitas brigas. Atualmente, são
separados. Sua mãe relata:
“não tinha aquela harmonia dentro de casa, era briga e mais
briga, o pai brigava, depois eu vim a saber que uma criança
quando está gerando, que ouve aquelas coisas todas, tudo passa
para a criança. E assim foi a gravidez de todos os outros filhos.”

Quando criança, Paulo recebia muito carinho de sua mãe, mas por parte do pai
era muita rigidez e agressividade; apanhava do pai e foi educado em um
ambiente de família tradicional, tendo como referencial de família seus avós,
seus tios, pai, mãe e irmãos. Sua formação religiosa é Católica Apostólica
Romana e tem como referência moral e ética, seus pais e avós. Ele diz:
“são princípios básicos que meu pai me mostrou. É tanto que meu
pai, quanto minha mãe, minha avó era beata da Igreja Pompéia
ali, oh, dia de Santo Antônio eles faziam as festas lá e tal. Eu fui
criado na Igreja Católica.”

Paulo passou sua infância no bairro Santa Efigênia, brincando na Praça do BG


e nos Eucaliptos, onde hoje está instalado o Instituto Raul Soares. Jogava bola,
gostava de soltar papagaio, brincava muito com seus colegas.
Seu avô materno o Sr. A. P. T., ingressou na Polícia Militar em 1930 e
participou da Revolução daquele ano. Em 1932, novamente participou da
Revolução em São Paulo. Sua tia irmã da mãe relata:
nesse período teve a Revolução do 12 com a Polícia, isso em
outubro de 1930.

Seu avô aposentou-se na graduação de 3º Sargento da Polícia Militar, em


1967.
Quando Paulo estava com 8 anos, seu avô materno faleceu de reptura de
aneurisma, sendo que sua família foi morar com a avó no bairro Pompéia. Aos
9 anos de idade, no dia do seu aniversário, sofreu um acidente: sua mãe
estava grávida, já próximo do dia do nascimento de sua irmã C. O gás tinha
acabado e sua mãe cozinhava em um fogareiro a álcool. Paulo aguardava para
levar o almoço para seu pai, no CSA, onde é o Décimo Sexto Batalhão de
Polícia Militar (16º BPM), quando sua mãe, ao retirar a panela do fogo,
cambaleou, desmaiou e o fogareiro caiu. Paulo foi em direção da mãe, com a
intenção de auxiliá-la, e o álcool do fogareiro caiu no rosto dele vindo a pegar
fogo. Desesperado, ele colocou o rosto em chamas dentro de uma bacia com
água, até que o fogo apagou. Foi socorrido pelo irmão Hélio que o levou até o
Hospital da Polícia Militar/MG, onde foi atendido, tendo que permanecer com o
rosto todo enfaixado. O acidente o deixou com deformidades no rosto. À época,
teve que se alimentar de líquidos e doces.
“... mas eu fiquei feio demais, nossa mãe!... Ficou terrível”.

Após esse acidente, seus colegas de infância não brincavam com ele,
rejeitando-o por causa das seqüelas da queimadura. Fez o tratamento de pele
à base de azeite de dendê, mas, segundo ele, ficou sem amigos por algum
tempo.
“... eu fiquei um bom tempo, sem colega que ninguém queria
brincar comigo...”.

Apesar de tudo, sente-se bem ao pensar que aquele ato foi para socorrer sua
mãe.
Paulo começou a trabalhar muito cedo, aos 12 anos. Segundo sua mãe, desde
pequeno gostava de trabalhar e contribuir, dando-lhe alguns trocados:
Ele trabalhou cedo; ele gostava muito de trabalhar; ele vendia
cachorro-quente, picolé, uma porção de coisinha, que ele gostava
de fazer. Ele vendia, mas tinha o prazer de chegar e tirar um
pouquinho do trocado e me dar.

Quando recebia o dinheiro, dividia com a mãe, mesmo que o pai não
permitisse.
Paulo sonhava em entrar para a polícia. Sua mãe, diz que essa era sua
“doença”, devido ao avô ser da Polícia Militar.
Ah, rapaz era a doença dele. Queria entrar para a polícia, porque
meu pai era polícia!

Quando criança, ele guardou o retrato de seu avô materno, vestido de farda da
Polícia Militar. Seu desejo era o de defender a sociedade como fizeram seu avô
e seu pai:
“Quando eu comecei a entender que aquela pessoa que era meu
avô, que era polícia, não tive oportunidade de ver o trabalho dele,
porque eu era criança e quando eu comecei a apegar com meu
avô, ele faleceu. Então, eu via mais meu pai né, fardado. Via
aquela polícia, então eu pensei, né. Aí, eu vou ser um defensor da
sociedade”.

O pai é descrito como severo, corrigindo-o severamente, quando fazia algo


errado:
“Nossa, papai vinha, mas era um ‘couro’ e falava: ‘coisa dos
outros não se mexe’”.

Mas diz que sempre foi obediente e respeitou muito a seus pais, o que
permanece até hoje. O pai confirma isso, dizendo:
“Que Paulo cresceu, mas nunca respondeu aos pais e que, até
hoje, acata e obedece”.

O Paulo tem o seu pai como um grande exemplo de honestidade, embora


admitia que ele, às vezes, o castigava por casos sem maior importância. Ele
diz:
“Meu pai me bateu, às vezes, por qualquer coisinha. Se eu
respondesse, o ‘bicho pegava’ mesmo. Então, eu amo meu pai,
adoro meu pai, gosto de meu pai, eu acho que meu pai foi tudo
pra mim, inclusive, até de exemplo”.

2.2 A Juventude

Aos 12 anos, as cicatrizes no rosto de Paulo começaram a desaparecer, mas,


às vezes, ele não queria ir à aula. Perdeu um ano de escola. Aos 13 anos,
formou no 4º ano primário, mas nunca brigou na escola por causa da reação
dos colegas às suas cicatrizes.

Aos 14 anos, ainda era difícil arrumar namorada, porque as seqüelas do


acidente eram muito visíveis no seu rosto.

Em 1973, aos 14 anos, tirou a Carteira Profissional e foi trabalhar no


Hipermercado Jumbo Eletro, na função de empacotador.
“Trabalhei lá uns dois ou três meses”.

Mas como descobriram que ele tinha outro irmão que trabalhava no Jumbo,
teve de sair do emprego, porque não podia ter parente, na mesma empresa.
Após sair do Jumbo, Paulo trabalhou em diversos lugares: foi trocador de
ônibus, pela empresa Santa Inês. Trabalhou, também, como vendedor de
cachorro-quente no Xodó. Fez curso de vigilante ainda jovem. Ele gostava de
trabalhar, passear, ir ao cinema, coisas normais de jovens. Ele diz:
“Antes, minha vida era trabalhar, passear ir ao cinema, coisa de
jovem, normal. Naquela época de vigilância, eu viajava muito”.

Aos 18 anos, alistou-se para servir no Exército Brasileiro, mas foi classificado
como insuficiente físico temporário para o serviço Militar.
“No Exército me pôs com insuficiência física temporária para o
serviço militar”.

Foi quando resolveu ser vigilante e trabalhar na Central de Vigilância,


localizada na rua Santa Catarina. Posteriormente, essa empresa passou a ser
Arc Serviços de Vigilância. Viajava muito, nessa época, trabalhava no setor de
almoxarifado do Banco do Estado de Minas Gerais (BEMGE). Seu uniforme era
impecável e procurava desempenhar bem sua função.
“Sempre trabalhei impecável, o uniforme impecável”.

2.3 No Quinto Batalhão de Polícia Militar

Após um ano de trabalho na vigilância, Paulo resolveu entrar para a Polícia


Militar de Minas Gerais. Na época, as inscrições para ingresso na PM ficavam
abertas permanentemente e era exigida, em termos de escolaridade, apenas a
4ª série primária. Ingressou na Polícia Militar, em janeiro de 1979, no Batalhão
Escola, porém, ainda não tinha sido formado o pelotão para iniciar o Curso de
Formação. Continuou aguardando e trabalhando na Vigilância noite sim, noite
não. Em 27 de março, do mesmo ano, assinou o termo de inclusão na PM e foi
transferido para o 5º BPM, onde fez o Curso de Formação de Soldado. Em um
sábado à tarde, aproximadamente, às 13 horas do mês de agosto de 1979,
poucos dias antes de sua formatura de Soldado, na piscina, no interior do 5º
BPM, Paulo conheceu F., aquela que seria mãe de três dos seus filhos.
“Falei, essa aí é a mulher que eu quero”.

Em 10 de setembro de 1979, formou-se Soldado.

2.4 O Namoro

Em setembro de 1979, às vésperas de sua formatura, Paulo iniciou o namoro


com aquela que seria sua primeira esposa, na piscina do quartel. Ele estava
alojado no próprio quartel e, ao ser liberada a tropa, correu no alojamento,
trocou de roupa e foi para piscina. Lá, convidou-a para irem a um barzinho,
próximo ao quartel. No bar conversaram, tomaram cervejas, mas até essa
época, Paulo dificilmente bebia, começou a beber mesmo, foi depois do
namoro.
“Aí, lá nos conversamos, tomamos uma cerveja, aliás, nessa
época eu não bebia nada, dificilmente eu bebia, mais vou falar
para o senhor eu comecei a beber mesmo, que tive problema com
bebida foi dois ou três anos depois que eu comecei a beber”.

Nesse dia, Paulo foi embora, porque achou que a futura esposa dava mais
atenção para um colega, que os acompanhava, mas no outro dia, domingo à
tarde, foram ao cinema e lá, começaram a namorar.

Durante o namoro, Paulo teve muitos problemas de relacionamento com a


namorada, pois era um amor possessivo, com muito ciúme de ambas as
partes. Ele era muito apaixonado e considera que isso acabou lhe causando
problemas, inclusive, com a bebida.
“Mas nesse namoro eu tive uma dor de cabeça! Quando eu
comecei a namorar, foi amor, amor mesmo, aquele amor, não
vamos falar de amor perfeito, que o amor perfeito é o de Deus, e
o amor de mãe né, tudo é separado e, aí, tem o amor da pessoa.
Realmente, eu fui louco, apaixonado por ela e tive muitos
problemas, devido eu ter esses problemas lá, eu comecei a ter
problema de bebida dentro da polícia”.

2.5 O Casamento

Paulo casou-se poucos dias após a formatura no Curso de Soldado da Polícia


Militar. Essa união foi muito sofrida para ele, em decorrência do ciúme e do
medo de perder a mulher amada, o que lhe deixava constantemente ansioso.
Para tentar fugir dos problemas familiares, recorreu a bebidas alcoólicas:
“foi a mulher que eu mais sofri na minha vida, por amor, por
gostar.”

Com essa esposa, eles tiveram muitos problemas, tantos que o levaram a
separação.
Ele é pai de quatro filhos, sendo três homens e uma mulher. P. A., foi o
primeiro filho e nasceu em janeiro de 1982. Em 1985, nasceu M. Em 1988,
estava em processo de separação da esposa, quando conheceu M. Os dois
namoraram e ela engravidou. A ex-esposa ficou sabendo e decidiu
reconquistá-lo. Nessa nova tentativa, ela também engravidou. Em julho de
1989, nasceu o seu terceiro filho, R., mas desta vez, com a namorada, seis
meses depois, em janeiro de 1990, nasceu F., seu quarto filho, mas o terceiro
com a esposa.

Depois do nascimento dos filhos, Paulo decidiu continuar apenas com primeira
mulher. Novamente, vieram as incompreensões, as brigas e as solicitações de
intervenções policiais para solucionar os problemas que tinha, sobretudo com a
esposa. Apesar de tudo isso, Paulo procurava não deixar a sua vida particular
interferir na sua vida profissional. Ele diz:
“Ela é uma pessoa muito difícil e eu comecei a ter problema. Ela
brigar comigo e eu ficar desorientado... eu nunca misturei uma
coisa com a outra”.

O que acontecia, na realidade, era que a esposa estava sempre demonstrando


duplicidade de comportamentos e de sentimentos, uma vez que, às vezes o
tratava com desinteresse, descaso e, em outras, alimentava suas esperanças e
ilusões. Ele descreveu assim, seu relacionamento com ela:
“Meu problema com ela, até vou falar um pouco dela pelo
seguinte: não só com ela como com qualquer mulher, eu não sou
dono de ninguém e ninguém é dono de ninguém e não existe isso.
Acho que existe é chegar e ser sincero com a pessoa: ‘- Oh! Eu
não gosto de você, vou partir para outra, vou arrumar outra
pessoa e vou viver minha vida. Eu quero outra pessoa, não te
quero mais’, beleza. Eu morreria seco, esturricado por dentro,
com meu amor, com meu amargo e tudo, mas ela sempre
sustentava esperança e, ao mesmo tempo,...”.

A situação emocional de Paulo chegou a tal ponto, que ele perdeu totalmente o
equilíbrio, adotando atitudes violentas e, até certo ponto, perigosas tais como a
intenção de atear fogo em sua casa e até arremessar objetos pela janela e
quebrar tudo dentro de casa, à exceção das camas de seus filhos, conforme
sua própria narrativa:
“Teve uma vez que eu quebrei tudo dentro de casa. Eu destruí
tudo; eu pegava a televisão 20 polegadas igual está ali, e jogava
pela janela, quebrava tudo. Eu destruí a casa toda. Eu só não
destruí as camas dos meus filhos, mas eu joguei álcool dentro da
casa e queria pôr fogo na casa”.

Ele pensou até mesmo em matar sua esposa e suicidar-se, tendo havido
momentos de intervenções policiais:
“Pus o revólver na cabeça dela duas vezes para matar ela, Deus
que não deixou. Pus revólver na minha cabeça para me matar,
cheguei no limite”.

Hoje, ele se considera numa situação de normalidade e equilíbrio, dizendo ter


superado tudo isso.
“Eu também não estava no meu normal, igual estou hoje. Hoje,
jamais faria uma coisa dessas, por ninguém nessa vida e minha
vida é preciosa demais. Nossa Mãe do Céu!”.

2.6 O trabalho na Polícia Militar do Estado de Minas Gerais

Após a Formatura na Polícia Militar, Paulo foi lotado, em setembro de 1979, na


Companhia de Polícia no bairro Eldorado, no posto policial do bairro Água
Branca e com uma semana que ali estava, foi convidado pelo Sargenteante
(Gerente de Pessoal) para trabalhar em viatura policial. Ele diz:
“o teante, ele virou para mim e disse assim: ‘ô Paulo, cê gosta de
trabalhar de viatura?’ Eu disse, ‘nossa!!!! É o que eu mais quero’.
Então ele falou: ‘você tem boina?’ Falei: não tem, não, mais pode
deixar que eu compro uma’.”

A partir daí, ele se envolveu, completamente, com o trabalho, porque passou a


fazer o que, realmente sonhava, fato que relata com muito entusiasmo. Em
1980, foi convidado pelo oficial que comandava a Companhia para efetuar a
prisão de um infrator que dava muito trabalho para a polícia na época. Ele diz:
“Ten. D., na época falou assim: Paulo, hoje eu preciso de você na
minha equipe.
Foi o primeiro confronto em ocorrência policial do qual participou, juntamente
com os colegas, inclusive, com troca de tiros e prisão do autor. Ele descreve,
assim, a experiência:
“Eu estava encostado atrás do mourão, aí, na hora que eles
bateram na frente da casa, ‘polícia, polícia, polícia’, o cara sai de
dentro pelos fundos da casa, correndo. Eu gritei: ‘polícia pára,
pára’. o cara já saiu dando tiro em nós, só vi quando a bala
pegou no mourão assim, e arrancou aquela lasca no mourão”.

2.7 A Transferência para o Décimo Sexto Batalhão de Polícia Militar

Paulo foi transferido para o 16º BPM, ocasião em que recebeu a fama de
policial “pegador de ladrão”. Casos como o descrito acima, foram muitos, sendo
que ele fazia jus ao apelido.
“E foi muita gente que eu prendi”.

Ele abraçou a profissão com muita dedicação e entusiasmo, passando a


trabalhar por prazer. Se necessário fosse, abriria mão do seu salário.
“Se a Polícia não me pagar eu trabalho para ela de graça, porque
eu gosto de fazer o que eu faço, é proteger a sociedade”.

Às vezes, na ânsia de efetuar a prisão de infratores da lei, adentrava em


aglomerados, sozinho, sem a cobertura dos colegas. Assim, efetuou
patrulhamento no Morro das Pedras, Pedreira Prado Lopes e Cafezal. Em
fevereiro de 1981, participou de uma Ocorrência no bairro Pompéia, que
culminou em homicídio, sendo absolvido quatro anos depois.
“Fevereiro de 81 teve o problema do homicídio na Pompéia, nós
ficamos processados”.

“Sub judice”, o Paulo não podia freqüentar os Cursos de Formação de Cabo,


Sargento. Trabalhou nas Lojas Americanas, como segurança de loja e, mais
uma vez, afirma seu caráter e sua honestidade, dizendo assim:
“O bem mais precioso da minha vida é minha honestidade, meu
caráter. Nunca fiz maldade com ninguém”.
Em 1982, Paulo, habilitou-se com a Carteira de Motorista e passou a trabalhar
com táxi nos dias de folga da Polícia Militar, permanecendo nesta atividade por
um período de 11 anos.
“Em 82, eu tirei minha carteira, comecei trabalhar com táxi,
trabalhando com táxi e trabalhando na Polícia”.

Em 1988, surgiram os problemas psiquiátricos, ocasião em que estava em


processo de separação conjugal. Naquele momento, não conseguiu conciliar
sua vida profissional com sua vida particular e vieram as internações no
Hospital André Luiz. Paulo sentiu-se desamparado, dizendo que não teve apoio
da Polícia Militar e nem da sua esposa:
“Aquele negócio todo, tive as internações no André Luiz. Minha
ex-mulher queria separar de mim. Ela não me apoiou, me deixou
a deus-dará. Olha, eles me internaram, o negócio é internar, me
internava, internava, internar, internar... Mas eles assim, o senhor
está com um problema como é que o senhor sozinho vai, o
senhor sozinho ir para o médico, não tinha ninguém para me
pegar, eu acho assim, quando a gente tá com problema, igual eu,
por exemplo, se eu tenho um cara com problema psiquiátrico e
ele precisa ir ao médico, eu vou levar ele no médico, vou pegar
como se fosse uma criança e vou levar, porque por ele mesmo
não vai, vai? Aí, não tem como”.

Ele passou a cometer transgressões disciplinares, em decorrência dos


distúrbios, passando a ficar completamente desorientado, devido aos
problemas profissionais e particulares. Continuou sem receber qualquer apoio
da instituição ou da família.
“Eu ouvia é, é, é, tipo assim, aí você vai se, você vai levar ferro,
cê muda. No 16º, muitos me deram apoio no sentido assim, de
que realmente eu tava doente e alguma coisa eles passaram por
cima para não me prejudicar, mas tomei muita cadeia, fiquei muito
preso lá no quartel, às vezes, muito por sacanagem”.

Ele se sentiu apoiado por alguns comandantes, mas como não conheciam sua
história de vida profissional e particular, não compreendiam que estava doente,
necessitando tratamento.
“Então, tinha um coronel M. Ele foi comandante de papai,
conhecia papai, não é que ele passou a mão na minha cabeça,
ele me ajudou. O coronel C. também, era o carrasco, eles falavam
que ele era o carrasco, também me deu a mão mais assim, igual,
por exemplo, ele não me prejudicou e nem me ajudou, tipo assim:
‘é ordem que eu estou te dando, você vai no médico’. Cê
entendeu? Eles apoiavam, mas não dava aquele suporte”.

Paulo relata que teve uma época, ocasião das internações, que não se
lembrava das coisas que aconteciam. Ele acordava no hospital e não entendia
porque estava ali:
“Às vezes, eu acordava amarrado na cama, que o sossega leão
não fazia efeito, eu amarrado na cama, eu falava assim: ‘gente o
que, que estou fazendo aqui?’ ‘Onde que estou aqui agora?’”.

Buscando amenizar seu sofrimento, envolveu-se com mulheres o que


aumentou ainda mais seus conflitos emocionais, culminando na separação
definitiva de sua primeira esposa.
“Teve uma época na minha vida que estava procurando a
felicidade. É felicidade, e acho que foi nesse período que eu me
estrumbiquei todo, porque envolvi com outras mulheres, inclusive,
uma mulher que mexia com centro espírita”.

2.8 A Primeira Exclusão da PMMG.

Em 1988, Paulo foi excluído da PMMG, por pequenas faltas disciplinares, mas
no mesmo Boletim Interno que publicou sua exclusão, o comandante a
revogou. Na ocasião, a Polícia Militar estava passando por uma evasão de
efetivo, então, algumas exclusões estavam sendo revogadas por força da
necessidade de policiais. Paulo não se recorda nem mesmo porque foi
excluído. Sabe apenas que o comandante revogou sua exclusão por ser um
bom policial e pelos bons serviços prestados.
“Sei que em 88 eu fui excluído da PM. Eu não sei nem porque fui
excluído da PM. Eu sei que é coisa boba, eu nem lembro
Comandante pôs no Boletim lá que: revogo a exclusão do
Soldado Paulo pelos bons serviços prestados pela Corporação”.

Ele continuou trabalhando no 16º BPM até a fundação do 22º Batalhão de


Polícia no bairro Santa Lúcia, ocasião em que foi transferido para a nova
unidade.
2.9 O Vigésimo Segundo Batalhão de Polícia Militar

O 22º Batalhão de Polícia foi fundado 1992, no bairro Santa Lúcia. Recebeu o
nome de Batalhão Favela, pela tropa, porque se localiza em um dos maiores
aglomerados urbanos da época, sendo destinados para servir nesta Unidade
Operacional, todos aqueles policiais que tinham um histórico disciplinar não
muito positivo.

Há uma cultura nos quartéis, que todos os policiais alterados, desequilibrados,


são Afir. Afir é a codificação de Doente Mental, que é denominado A01000.
Então, como o Paulo já tinha histórico inclusive, de exclusão e acabado de sair
do Hospital André Luiz, foi designado para servir nesta unidade, desde sua
fundação. Ele diz:
“Aí, em 92 e fui pro 22, me mandaram para o 22, disseram:
fundaram o Batalhão dos mais Afir. Pegou tudo quanto é pirado e
mandou para o 22. Do recruta ao Coronel era tudo pirado, é tanto
que o Cel, Comandante de lá, o Cel J. C., pro senhor ter uma
idéia, esse Comandante, esse Coronel lá deve ter excluído uns
500 camaradas lá. Excluiu um monte de gente. Excluiu um
camarada internado no André Luiz. Eu tinha acabado de sair da
internação”.

No período em que esteve no Vigésimo Segundo Batalhão entre 92 a 96, Paulo


teve vários problemas: familiares, disciplinares, inclusive com prisões
disciplinares, que o levaram a ser internado diversas vezes no Hospital André
Luiz. Ele relata:
De 92 até 96 eu tive uma serie de problemas, tanto de internação como
problema familiar, É sim, aí, eu tive uns problemas, que na época
morava minha sobrinha, morava eu a mãe de meus meninos, meus dois
filhos minha sobrinha e minha cunhada, moravam todo mundo no mesmo
lote, e eu se chegasse em casa meio desorientado, chamava viatura,
falava que eu estava doido que eu estava ameaçando, falava que eu
queria por fogo na casa, se eu falava eu não lembro, pode ser eu não vou
mentir, de repente eu falava mesmo e não sabia que estava falando, é
tanto para o Sr. ter uma idéia, dentro do André Luiz, eu tomava 11 tipos
de remédio controlado, eu dava cabeçada na parede, o horário de
remédio lá era, tipo assim, sê tomava 7 horas da manhã tomava uma
carga era quatro, quando era 1 hora da tarde tomava mais uma
‘porrada’ de comprimido, quando era 8 hora da noite tomava mais um
tanto, quando não dava insônia, só podia tomar remédio depois das 11
horas da noite, quando era 10 horas eu já estava caçando comprimido,
eu dava cabeçada na parede, sossega leão, eu tomei umas quatro ou
cinco vezes.

2.10 A Segunda Exclusão

Em março de 1996, Paulo encontrava-se de férias, por aproximadamente, dez


dias. À época morava sozinho na rua Além Paraíba, no bairro Lagoinha já que
estava separado da mulher. Ele recebeu a visita de uma viatura policial, que
lhe convidou para ir ao quartel e levar todos seus uniformes e carteira
funcional.
“Aí, eles não queriam falar não, mais eu sabia. Quando cheguei
lá me mandou apresentar na secretaria, aí, o mundo desabou na
minha cabeça”.

No dia seguinte, após a exclusão, Paulo procurou auxílio advocatício e acionou


o Estado judicialmente. Ficou um mês sem sair de casa, não tinha fome, sentia
que seu sonho havia acabado ali, mas ainda tinha muita esperança de retornar
à Polícia Militar. Passou a trabalhar como motorista de táxi e a fazer uso de
bebida alcoólica. Todos os dias tomava Martini. Mas era sempre zeloso com o
que fazia, cuidando bem dos seus instrumentos de trabalho.

Ele considera que a segunda esposa, foi uma pessoa que lhe deu muito auxílio
para organizar sua vida, Além disso, refere-se as suas dificuldades, mas
sempre ressaltando o fato de não ter deixado de ser honesto:
“Caindo e levantando, mas graças a Deus, igual eu falo: não tirei
um nada de ninguém, isso aí eu morro satisfeito. Deus sabe disso
aí, sempre fui honesto nesta vida, sempre fui honesto, a vida
inteira de polícia, desde quando eu entrei, quando eu comecei a
ser gente”.

No período em que ficou excluído da polícia, Paulo passou por momentos de


dificuldades. Sentiu-se abandonado pela segunda esposa. Alugou um pequeno
quarto e foi morar sozinho. Passou noites sem conseguir dormir, com o aluguel
atrasado, muitas dívidas e sem dinheiro.
“Quando foi assim em 98, eu estava passando uma fase difícil, eu
já estava desesperado não estava agüentando mais, agonizando.
Eu, sozinho em casa sem conseguir dormir, tinha dia que não
estava trabalhando de táxi, não saía de casa, ficava dentro do
quarto, aluguel atrasado. Tinha vez que eu ficava assim,
desesperado: como vou pagar água, luz”.

Quando estava no ápice do desespero, estava assistindo um filme na televisão


e no fim do filme o Pastor RR Soares disse algumas palavras que o tocaram.
“Eu tenho essa mania de dormir sempre com uma coisa ligada,
não consigo dormir no silêncio. Aquele Pastor R R Soares, eu
estava assistindo o filme, aí, o filme acabou e ele entrou, aí, ele
falando sobre, umas coisas assim. Eu, numa madorna. Aí, eu falei
assim: isso é comigo”.

Ele foi procurar ajuda na Igreja Evangélica, onde foi ouvido e aceito.
“Aí, eu peguei e comecei a freqüentar a Igreja Batista da
Lagoinha, e um dia eu estava lá na Igreja, uma das primeira vezes
que fui freqüentar, aí, pedi a Deus, falei: meu Deus, num tô
agüentando mais. Ali, eu chorava e chorava, eu quero uma
resposta, o Senhor sabe da minha agonia; o Senhor sabe o que
eu estou passando.
Uma semana depois, veio a resposta. Papai ligou pra mim,
Nossa, você ganhou na primeira instância e tal. Eles vão até te
reformar. Aí, eu comecei a animar. Aí, a minha vida já começou a
melhorar, tive aquela injeção de ânimo.”

Ele passou a acreditar que tudo na vida tem um sentido e que tudo que
aconteceu no período de exclusão foi para leva-lo a refletir sobre sua vida.
“Esses anos que eu fiquei de 96 a 99, eu refleti muito sobre muita
coisa na minha vida, acontece que nesse intervalo, em pensei
muito na minha vida sobre muitas coisas que eu fiz, aí, eu caí
numa coisa. Deus tá me dando um tempo para refletir. De
repente, se eu tivesse na PM ainda, eu tinha, ou talvez eu tinha
morrido ou talvez eu tinha matado”.

2.11 O Período de Exclusão.

Paulo, mesmo excluído das fileiras da Polícia Militar, ainda colaborava com
seus ex-colegas de farda, efetuando prisões de cidadãos infratores.
“Eu ainda ajudava muito a PM ainda, porque eu prendia muito
vagabundo aí na rua. Pegava e entregava prôs polícia”.
Muitas vezes, sentia-se injustiçado, porque alguns colegas não lhe davam
atenção, virando as costas para o ex-soldado Paulo.
“E, muitas das vezes, o próprio colega meu, hoje, na época,
virava as costas pra mim. Quer dizer: ao excluído aí; ao excluído
aí, né? Às vezes, você queria conversar com o cara, queria que o
cara te cumprimentasse. O cara te via e virava as costas, com
coisa assim: não é ninguém mais, né?”.

2.12 A Reinclusão

Em dezembro 1999, teve o ato Exclusão disciplinar nulo em sentença proferida


pelo Egrégio Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Por unanimidade de votos
dos Desembargadores, o tribunal deu-lhe, o direito de retornar à Polícia Militar
do Estado de Minas Gerais.
“Sem direito ao Estado recorrer. Aí, só alegria. Aí, eu ajoelhei no
chão e agradeci tanto a Deus. Aí, eu tinha a reforma, mas disse,
não. Não quero reformar não. Eu quero voltar, eu quero trabalhar
mais”.

Paulo superou todos as questões que lhe afligiam, de relacionamento


profissional e, ao retornar à polícia, fez questão de mostrar aos colegas que
estava de volta.
“Mas eu superei isso e fiz questão de quando eu voltei, ir na
companhia de uns dois aí, só para eles verem que eu estava na
polícia de novo e ainda fiz questão de cumprimentar eles. A vida
não é isso aí não gente, a vida tem muita coisa”.

Em 04 de janeiro de 2000, o Comandante Geral da PMMG, cumprindo


determinação judicial reintegrou Paulo. Ele se apresentou no CAP (Centro de
Administração de Pessoal), no Setor de Identificação, onde são confeccionados
documentos funcionais dos Policiais Militares. O comando autorizou que
pudesse ficar sem o fardamento, temporariamente, mas ele preferiu adquirir o
fardamento com recursos próprios.
“Aí, eu estava sem farda, né, aí, o coronel perguntou pra
mim assim: ‘você pode ir ficando aí, tranqüilo aí, a paisano
mesmo’. ‘Não, o senhor pode ficar tranqüilo que amanhã
mesmo eu estou fardado’. Aí, corri lá na Citerol, comprei o
fardamento todo e cheguei lá impecável”.

O Identificador 2 não queria confeccionar a Carteira Especial de Polícia para ele


e sim o documento funcional comum, mas Paulo não concordou e exigiu que
fosse tratado com dignidade.
“Aí, eles não queriam fazer minha carteira de Polícia, essa
carteira especial de Polícia, queria fazer aquela carteira
comum. Aí, falei: ‘não, não aceito não, uai, uai, eu não sou
doido!’ Acabou fazendo”.

O comandante do CAP perguntou para Paulo, onde ele queria trabalhar, tendo
como resposta que ele queria voltar para o 16º BPM. No Comando do Batalhão
estava o Tenente Coronel H. Sem passar por qualquer qualificação ou
atualização profissional, Paulo foi designado para trabalhar na 20ª Cia., para
atuar no serviço operacional.

2.13 Retorno ao Décimo Sexto Batalhão de Polícia Militar – Vigésima


Companhia.

Na 20ª Cia, Paulo passou a ter, novamente, problemas com seus


administradores. Não só com os administradores, mas também com colegas.
Sentia-se perseguido e mal tratado.
“Fui para a 20ª companhia, aí, tinha muita gente que começou
me, tipo assim, querendo me perseguir. Quando o senhor é
excluído e volta, os cara quer achar que você, tipo assim, é como
é que fala? Parece que não acredita, ou tem raiva, ou tem inveja,
sei lá o que, que acontece”.

O que mais o deixava inconformado é que, cada dia, era escalado para um
local e horários diferentes.
“O que me deixava chateado é que cada dia eu estava num
lugar. Eu queria trabalhar num lugar certo. Eu adoro trabalhar de
viatura. Sinceramente, eu gosto demais de viatura”.

2
Chefe da Seção de Identificação do Departamento de Pessoal da PMMG
Ele recebeu a sugestão de solicitar e reformar, ou seja, de que saísse do
serviço ativo, mas resistiu.
“Queria que eu reformasse, mandaram reformar o você, quer
dizer as pessoas ficam questionando a vida da gente, ao invés de
dizer assim: ‘que bom que você voltou e tal, vamos trabalhar, vê
se muda um pouco.’ E, por outro lado, vou falar para o senhor um
negócio, na verdade, na verdade, a vontade de Deus é tremenda.”

Paulo não estava mais suportando a pressão de seus administradores, por não
lhe dar oportunidade, sequer de expor seus problemas. Por outro lado, já
vigorava a Lei nº 14.210, de 19 de junho de 2002, que dispõe sobre o Código
de Ética e Disciplina dos Militares do Estado de Minas Gerais (CEDM), que não
era tão rigoroso quanto o Regulamento Disciplinar da Policial Militar (RDPM),
que não lhe propiciava o direito de defesa e no qual, as punições eram
baseadas no cerceio da liberdade, como prisões, detenções, reclusões e
exclusões. O Contraditório e a Ampla Defesa já eram preconizados no Código
de Ética, entretanto, não observados para o seu caso. Seu comandante parecia
não estar interessado em ouvi-lo e conhecê-lo
“Ouvia nada, ficava querendo ferrar a gente. Voltei, já era Código
de Ética, aí você já tinha uma força maior, que antigamente,
quando era RDPM eu deixei muita coisa passar, era direito que eu
tinha e não corria atrás, coisa que tava me prejudicando e eu
nunca corri atrás, eu podia tomar atitude contra determinadas
pessoas eu não tomava”.

Houve uma mudança no comando da 20ª Cia, mas o problema permaneceu.


Mesmo assim, o profissionalismo de Paulo o impedia de ficar com
ressentimentos dos companheiros de farda. Profissionalmente, os defendia em
qualquer Ocorrência Policial na qual os encontrasse.
“Se eles tiverem em uma dificuldade e eu tiver passando, eu vou
ajudar eles, entendeu? Não como uma pessoa de ser humano
que eles não são, mas como pessoas, policiais, meus irmãos de
farda,
“O Capitão C. é o seguinte: ele é aquele cara bitolado, é aquele
cara que não admite ajudar ninguém; ele precisa de ajuda, acho
que todos os dois precisam de ajuda”.
“A pessoa tem que saber que poder que ele tem, não é aquele
poder que eles acham que tem, que tem cara que é Coronel,
Major, Capitão, que eles acham que é igual Deus, que acha que
pode julgar todo mundo”,

Um outro Comandante assumiu o Comando do 16º BPM e passou a


compreender Paulo como um policial que poderia ser útil à sociedade,
acompanhando-o mais de perto.

Mas como Paulo sempre foi um policial destemido, sem medo, de muita
coragem e com boa vontade para trabalhar, às vezes, extrapolava nos
atendimentos de Ocorrências Policiais, abordando cidadãos em atitude
suspeita e colocando em risco sua própria vida. Em uma abordagem policial,
ele sozinho abordou oito indivíduos suspeitos, causando preocupação ao
comandante do policiamento da companhia que estava de serviço no momento
e levou o fato ao conhecimento do comando do Batalhão.
“O Coronel G, foi o cara que mais me apoiou na Polícia Militar, o
cara que mais me deu apoio. Vê como é as coisas. Eu tava
trabalhando de moto e teve um dia, que lançaram 8 suspeitos,
T01000 (Código de Ocorrência de Indivíduo Suspeito), lá no
bairro Floresta. Nesse dia o Sub Ten. A. estava de CPCia,
(Comandante de Policiamento da Companhia). Aí, eu cheguei e
fiquei monitorando os caras. Quando eu vi que os caras estavam
indo embora e não chegava ninguém, eu fui e abordei os caras.
Aí, depois chegou a viatura do Sub Ten. A. e outras viaturas”.

O Comandante do Batalhão convidou Paulo para comparecer ao seu gabinete


para uma conversa amiga e aconselhá-lo.
“Comandante queria falar comigo. Cheguei lá no gabinete dele, já
estava lá a Psicóloga, tava P1 (Chefe de Pessoal do Batalhão),
tava o Advogado Assessor Jurídico da Unidade, o Comandante
da Companhia. Sentei, ele pegou e falou para mim assim: ô
Paulo, o que está acontecendo? Eu falei, não sei não Sr.
Comandante, o Sr. me chamou aqui e eu vim. Ele falou assim,
você está querendo morrer? Aí, eu falei assim, não Sr.
Comandante, por quê? ‘Não, porque chegou ao meu
conhecimento que você aborda 8 caras sozinho, você aborda as
pessoas sozinho’. Aí, falou assim: ‘oh, está aqui todo mundo à
sua disposição, para te ajudar no que você precisar,
financeiramente, psicologicamente’.”
Paulo aproveitou a oportunidade e solicitou ao Ten. Cel G., sua transferência
para a 23ª Cia, mas não foi atendido por aquele comandante no momento.

Passou-se alguns meses e o comanda da 20ª Cia foi substituído novamente.


Nessa mudança, assumiu o Maj. G. um Comandante mais sensato e
compreensivo. Assim, Paulo não queria mais sair da companhia.
“Nisso, houve aquela mudança de comando, quando foi mudado
o comando da 20ª, eu já não queria sair da 20ª mais”.

“O Comandante lembrou que eu tinha pedido ele para ir para a


23ª. Aí, passou o tempo, naquela movimentação, ele me
movimentou para a 23ª. Eu já havia pedido ele, mas não queria
mais, porque pela mudança de Comando, já estava melhorando
com a 20ª”.

2.14 A TRANSFERÊNCIA PARA A 23ª COMPNHIA

Na 23ª Cia PM, sob o Comando do Maj N., Paulo foi trabalhar na área
operacional, no atendimento de Ocorrências Policiais. Ele acreditava que o
Sargenteante da 23ª Cia, por ter trabalhado junto com ele e, pelo tempo de
serviço prestado, poderia ter algum tipo de consideração para com ele, mesmo
porque já era Cabo e poderia estar sendo escalando nos postos de
policiamento onde gostava de trabalhar e melhor lhe atendia.
“Aí, cheguei na 23, era o Sub M., e como nós trabalhamos juntos
como soldado, e pelo tempo de policia que tenho, eu achei que
ele ia ter um pouco de consideração comigo. Antiguidade, então,
eu não estava sentindo isso”.

Novamente, Paulo sentiu-se incompreendido e passou a ter problemas com


sua nova administração profissional.
“O Sub M., ele teve um dia lá, que ele quase me prendeu, eu
desconheci ele”.

Ele teve vontade de sair da companhia porque, como já disse, via outros
militares mais recentemente incorporados à PM, em serviços que ele gostava
muito de fazer, como motorista de Rádio Patrulha, sendo que e ele estava, em
cada dia em um horário e local diferentes. Tudo isso o incomodava:
“Eu senti com o Sub M., eu pelejei para sair da Companhia, e já
queria sair da Companhia, porque eu não tinha horário. Eu vejo
gente mais novo que eu, fazendo serviço que eu gosto.”
“Aquilo foi me irritando, eu já tava em tempo de perder a
paciência.”

O Sargenteante foi substituído em julho de 2006, assumindo a função o 1º Sgt


Juarez, autor desta monografia. Até então, este novo Sargenteante não
conhecia o Paulo, mas ouvia dizer que esse militar era muito problemático e
quando assumiu a função recebeu algumas recomendações da Sargenteação
anterior de que ele era problemático, “criador de caso” e ninguém queria
trabalhar com ele.

Ao assumir a Administração da 23ª Cia, o Sargento Juarez procurou conhecer


todos os militares da Companhia. Na época, o efetivo era de 138 policiais
militares. Sem que eles percebessem, todos foram ouvidos pelo novo
Sargenteante, para que pudesse identificar a preferência profissional de cada
um, procurando conhecer também um pouco da vida particular de cada policial.
O Paulo foi um deles. Logo, foi identificado que Paulo gostava de trabalhar no
serviço operacional motorizado, mas isso não foi possível, mesmo porque
Paulo é Cabo e o Comando de Viaturas é realizado pelos Sargentos. O quadro
estava completo e o Paulo não era indicado pelos Sargentos para ser
motorista, pelo estigma de “Afir 01000” que seu histórico lhe cravou. A
Sargenteação continuou tentando outras alternativas para atender às
necessidades do Paulo, embora sua Carteira de Habilitação estivesse vencida,
portanto, impedido de conduzir viatura policial. Assim, foram realizados
algumas tentativas, escalando-o com outros militares em diversas modalidades
de policiamento, tais como: policiamento a pé, policiamento motorizado e
postos fixos de policiamento. Em pouco tempo, aquele que fazia dupla com
Paulo, solicitava a substituição de sua companhia, sob alegações diversas.

Diante da dificuldade de encontrar um lugar adequado para ele no setor


operacional, o Sargenteante decidiu escala-lo para uma nova atividade
administrativa. O último evento em que o Paulo foi escalado foi em outubro de
2006, para auxiliar de Redação de Ocorrência Policial, um tipo de atividade
administrativa. Este foi o momento em que ele chegou ao limite. Procurou a
Sargenteação para tirar satisfação. Ele relatou assim seus sentimentos,
naquele momento:
“Eu vou falar para o senhor seu Sub, acho que não ia chegar a
esse ponto de fazer uma besteira contra o senhor, não, mas que
eu estava nervoso, eu estava, chateado, estava invocado, tava
‘puto’ de raiva, né, eu ia, se o sr. não desse um jeito. Eu vi um
papo que era para eu trabalhar na administração.
Sinceramente, eu pensava em querer sair dali, nó eu tenho que
dá um jeito”.

Paulo nunca gostou de trabalhar em serviço administrativo, sempre


trabalhando em serviço operacional e de preferência motorizado e, como já
mencionado, muito pró-ativo.
“O senhor sabe por causa de que, a minha vida inteira eu não sou
homem de gabinete, eu não sou homem de sentar atrás da mesa,
eu sou homem de linha de frente”.

Assim, ficou inconformado quando chegou para o trabalho, para o qual estava
escalado. Recusava-se a conversar, manifestando muito nervosismo,
gesticulando muito, gritando palavrões e dizendo que iria falar com o
Comandante do Policiamento da Capital, com o Comando Geral da Polícia,
mas não queria mais conversa com a Administração da Companhia. Foi
quando o Sargenteante chamou-o para uma conversa. De inicio ele não
acreditou, mas percebeu que havia realmente disposição para conversar da
parte do seu superior.
“Quando o senhor me deu a xícara de café, eu falei assim: ‘uai,
seu Sub tá querendo é conversar mesmo, vamos conversar’”.

Com muita calma, o Sargenteante conseguiu oferecer café e água, na tentativa


de acalmá-lo e fazê-lo assentar, para uma conversa amiga e transparente.
Paulo, ainda muito nervoso, sentou-se e o Sargenteante perguntou pela sua
Carteira de Habilitação, nas categorias A/B, sendo apresentada e com data de
renovação recente. Imediatamente, o Sargenteante levantou, convidou-o para
ir ao estacionamento de viaturas, onde estavam as motocicletas e solicitou que
escolhesse uma daquelas cinco motos que ali estavam. Paulo reagiu como se
não acreditasse no que estava acontecendo. Escolheu uma e o Sargenteante
lhe disse que a moto iria ficar com ele enquanto permanecesse na Companhia.
Paulo foi designado para patrulhar o bairro Santa Inês e só fez uma exigência.
Não ser escalado antes das 11:00 horas da manhã, porque faz uso de remédio
controlado para dormir e, para sentir bem o resto do dia é necessário esgotar
todo efeito do medicamento. Ele avaliou assim a mudança.
“Foi onde eu queria, que o senhor me pusesse. Queria voltar para
a rua e trabalhar naquilo que eu gosto”.

O bairro Santa Inês foi indicado por ser um bairro com o índice de criminalidade
elevado.

Nos meses subseqüentes, percebeu-se que ninguém mais reclamava de


Paulo. Ocorreu inclusive, um telefonema do CRA (Centro de Recuperação dos
Alcoólatras), solicitando informação, sobre as razões que levaram Paulo a se
ausentar do Centro. Tudo indica que ele não necessita mais desse tratamento.

Ele parou também de freqüentar a CLIPS (Clínica de Psicologia), deixando de


ir ver a Psicóloga do Batalhão.
”Estava freqüentando, a CLIPS, tava freqüentando a Dra B. Nunca mais
voltei, nem na Dra B., nem na CLIPS”.

A produtividade de Paulo aumentou, significativamente. O índice de


criminalidade do bairro Santa Inês caiu e a comunidade do bairro elogiou o seu
trabalho. Em 2006, o Comando do Batalhão, o indicou para receber o Prêmio
de Guardião Belorizontino, pela sua produtividade e desempenho profissional.
Foi o primeiro prêmio que Paulo recebeu. Seu entusiasmo com o
reconhecimento pelo seu trabalho, é evidente:
“Esse é o primeiro. Já recebi nota meritória, elogio individual, e
tudo. É a primeira vez, e eu falo com o senhor um negócio, isso é
bom para o ego da gente, é bom para a auto-estima da gente”.

Além disso, ele se sente também realizado na sua vida pessoal.


“Felicidade é tudo né? A gente quer, conciliar tudo, a família, o
trabalho e tudo. Hoje, eu tô feliz com meu trabalho e tô feliz com
minha vida”.

Mesmo com todos problemas enfrentados na sua vida profissional e particular,


Paulo acredita que é possível reconstruir uma vida melhor, mas ressalta que os
superiores têm que acreditar no profissional que está sob seu comando,
reconhecendo aquilo que fez de negativo, mas dando-lhe oportunidade para
melhorar. Ele diz:
“Só vê o lado bom do senhor enquanto o senhor não erra, que se
o senhor errar, eles só olham o erro. Eles esquecem aquilo que o
senhor fez de bom ali. Na maioria das vezes, na polícia eles
olham mais o lado ruim, mais o lado ruim. Eles não pensam que
você pode ter o lado bom, que você pode melhorar”.

Hoje, ele está tentando reconstruir sua vida familiar, aproximando-se dos filhos
e dos pais. Está com uma nova namorada e tenta reestruturar e construir uma
nova família.
“Feliz!!! E tô feliz com minha família também que meus filhos já tá
criados, já tá independente, é trabalhando né? Meu, é tipo assim,
eu tô melhor com minha família, não brigo mais. Se a mulher
brigar lá, encher o saco, eu não tô nem aí pra ela. O senhor sabe
por causa de que, se ela briga comigo lá, eu tenho meu refugio
com meu trabalho, o senhor está entendendo?”

Ao encontrar a possibilidade de fazer o que gosta, Paulo sentiu-se mais forte e


capaz de lidar com as dificuldades. Inclusive hoje o trabalho o tranqüiliza.
“Não hoje, assim, eu tô fazendo o que eu gosto né? O que
acontece se eu tivesse fazendo o que eu não gosto, eu já ficaria
chateado, já aqui no trabalho, já com a mulher”.

“Estou bem hoje, se minha mulher ficar nervosa lá, eu saio, venho
trabalhar. Aí, eu fico tranqüilo aqui depois eu volto e a gente
conversa, né?”

Paulo percebeu que há um fosso entre os Oficiais e os Praças da Polícia


Militar, distanciando essas duas classes profissionais, mesmo pertencendo à
mesma Instituição. Isso é fruto da hierarquia rígida, onde o Oficial não pode ser
amigo do Praça, ou seja, o Gerente de Recursos Humanos não pode conhecer
o histórico de vida dos seus gerenciados. Mas, na verdade, não é necessário
ser amigo, e sim conhecer sua história de vida particular e profissional. Paulo
percebe que foi muito em função desse distanciamento, que foi mal
compreendido e, até mesmo, excluído e humilhado.

“Igual eu falo, eu penso, o pessoal fala assim. Ah, que praça ser
amigo de oficiais, não existe isso não. E aquele negócio, oh, eu
passo perto do senhor e só faço a continência e vai embora, o
senhor entendeu? O senhor nunca vai me conhecer, mas se eu
passo perto do senhor, e falo: ‘o seu sub como vai o senhor, tá
tranqüilo?’ Como vai, a família do senhor tá tranqüila? E tal, dá
licença, entendeu, a continência”.

Ele acredita que os subordinados hierarquicamente têm que aproximar dos


seus superiores hierárquicos e vice e versa, não só para fazer a continência
regulamentar (saudação militar), mas para um melhor conhecimento do outro e
relacionamento profissional.
“Tem que conversar com o cara, tem aquele cara que fala assim:
ah, fez a continência tá bom. Então, é o que eu costumo falar
com o cara: oh, porque, se não cumprimenta o cara, não pergunta
da família do cara, não bate um papo com o cara, amanhã ou
depois, chega uma comunicação na mão do Ten. ou Comandante
ou do Sub, ele vai falar que cara é esse, não sei que cara é esse,
e despacha,”.

Como já mencionado, Paulo, tinha um sonho de ser Sargento da Polícia Militar,


mesmo porque seu avô, seu espelho de inspiração profissional foi sargento.
Hoje, ele sente renovada essa esperança de um dia colocar a divisa de
sargento na sua farda:
“Através de apoio moral, do apoio físico, sei lá, é muita coisa que
realmente a gente fica pensando, né, eu fiz e o outro é que levou.
Mas igual eu falei pro senhor, eu sempre entreguei na mão de
Deus. Talvez, eu acho que agora é que o meu prêmio está
chegando. Graças a Deus!”.

Está previsto para Paulo passar para o serviço inativo, em 24 de julho de 2008,
vide ficha de instrução de contagem previa de tempo de serviço, anexo IX. Ele
pensa em sair da instituição com reconhecimento e dignidade, pois ao passar
para inatividade receberá promoção imediata de 3º Sargento. Isso é tudo o que
sonhou em toda sua vida profissional e espera da Polícia Militar do Estado de
Minas Gerais. Ele diz:
Ter minha família, emprego, ter meus amigos, sair com dignidade.
Aliás, que eu sempre tive, né? Honestidade, dignidade, eu falo
assim: ‘Deus tarda, mas não falta’, não é que Deus tarda não.
Tudo no seu tempo certo. É igual eu falei para o senhor, eu acho
que estes três anos foi para mim refletir e muitas coisas que eu
fazia antes, que era subir numa favela sozinho, e hoje com a
mudança né,

Deus falou, eu acredito que ele falou: deixa eu barrar este filho
meu aqui, que ele está muito afoito. Tinha sargento que não
queria trabalhar comigo, eu parava a viatura, o cara corria, eu
nem pedia cobertura, nada, saía correndo atrás, pelo beco afora,
tal e coisa, em tempo de tomar um tiro”.

2. 15 Uma breve conclusão.

Atualmente, Paulo está com aparência saudável e mostra-se sempre alegre


com os colegas, demonstrando satisfação com as atividades que está
exercendo no serviço operacional. Ele não cansa de dizer que agora está
curado dos problemas que o afligiam.

Ele está matriculado no Programa de Preparação para a Inatividade, uma vez


que, em julho de 2008, será transferido para a inatividade quando poderá ser
promovido a Terceiro Sargento, um sonho que cultiva há muito tempo. Ele
pretende ser reconvocado para o serviço ativo.

O que preocupa no momento, é seu histórico profissional que dificulta sua


aceitação por alguns administradores. Isso, reduz a possibilidade de ser
chamado de volta.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A razão que nos levou à realização deste trabalho foi a percepção dos
problemas na atuação dos policiais militares, no local do atendimento de
ocorrências, levando-os, muitas vezes, a se descontrolar emocionalmente, o
que dificulta a resolução dos conflitos.

Assim, elegemos o sujeito estudado porque seu caso contém pontos


importantes, relativos à atuação do policial, além de permitir um melhor
entendimento dos efeitos negativos e positivos da situação do trabalho sobre
os indivíduos.

Em um primeiro momento, é preciso considerar que Paulo, antes mesmo de


ser um policial, já estava inserido no mundo do trabalho. É preciso considerar
também, a bateria de exames médicos, psicológicos e físicos que o considerou
apto para a formação especializada, ao ingressar na instituição, antes de iniciar
suas atividades laborais nos serviços policiais operacionais.

A Certidão de Inteiro Teor (CIT) de 22 de julho de 1996, vide anexo I, comprova


que Paulo “concluiu o Curso de Formação de Soldado PM, com a média 7,10,
ocupando o 19º lugar”, entre um total de 50 formandos, sugerindo que, ao
entrar para a PMMG, ele estava em condições de exercer seu trabalho.

Não se pode deixar de ressaltar também, que o trabalho policial coloca o


Operador de Segurança Pública em situações de constante tensão. A cultura e
a filosofia da Polícia Militar de Minas Gerais são alicerçadas na hierarquia e na
disciplina, através de estímulos voltados para os mecanismos de punição e
recompensas, que também, não deixam de interferir no psiquismo do policial.

A história de Paulo nos obriga a refletir sobre a saúde mental na organização


do trabalho do Policial Militar. O que conseguimos identificar em seus
depoimentos e nos relatos das pessoas próximas a ele, além de documentos e
mesmo das observações diretas do seu trabalho, é que é possível dizer que o
trabalho tem um papel fundamental na vida do indivíduo, podendo interferir na
sua saúde física e mental.
Quando conhecemos Paulo, vimos, um homem nervoso, agitado, afoito,
estigmatizado como doente mental, que não conseguia se manter saudável,
nem no ambiente de trabalho, nem no contexto familiar.

A partir dessas observações, tentamos buscar alternativas para que, todas


essas qualidades negativas, se transformassem em potencialidades positivas.
Como Fazer? Eis uma indagação inevitável, ao nos defrontarmos com esse
profissional e com a forma insatisfeita que se apresentava no trabalho. Excluí-
lo novamente do convívio profissional? Eis outra indagação possível, mas para
a qual, preferimos responder negativamente.

De forma quase intuitiva, tentamos descobrir a melhor alternativa para suas


inadaptações.

Primeiros, tentamos conhecê-lo melhor. Em seguida, ouvimos suas queixas. E


foi aí, que apareceram algumas possibilidades de melhor atendê-lo e de
corresponder às suas expectativas.

Na realidade, não foi preciso muito trabalho, apenas ouvir o que ele tinha a
dizer e de posse das informações, identificar algumas possibilidades mais
próximas do que almejava e, ao mesmo tempo, estava preparado para realizar.

Identificamos de imediato, através de sua história, que sua maior ambição


sempre foi a de ser um Policial Militar e que ele gosta de trabalhar no
policiamento comunitário para defender a sociedade. Mas não foi agora que
esse desejo foi expresso por ele, mas sim lá nos seus primeiros dias de serviço
operacional, ao ser questionado pelo seu primeiro administrador. Naquele
momento, ele já revelou seu prazer em trabalhar no atendimento à
comunidade, no serviço de viatura policial. No entanto, conforme deixou claro
no seu relato, não houve um esforço serio no sentido de satisfazer sua
expectativa.
De posse dessas informações, buscamos mais, dados a seu respeito só que
agora na sua vida particular. E foi através das entrevistas com amigos, colegas
e parentes, é que, então, compreendemos melhor o universo de Paulo.
Conhecemos, então, sua infância, adolescência, juventude, fase adulta e sua
trajetória familiar e profissional.

Um ponto muito importante que encontramos no histórico de Paulo foi sua


educação familiar, pautada em princípios de valores morais que o tornaram
uma pessoa leal e honesta. Como ele próprio diz:
“O bem mais precioso da minha vida é minha honestidade, meu
caráter. Nunca fiz maldade com ninguém”.

Os valores que alicerçaram sua educação familiar, principalmente, o rigor ao


qual foi submetido, nos faz compreender o que contribuiu para que suportasse
todas as dificuldades impostas pela rigorosa hierarquia e disciplina da PMMG.

Diante desse universo de informações, surgiram novas indagações. Os


problemas psicológicos, as internações de Paulo, foram frutos de suas
atividades operacionais ou da rigidez hierárquica e disciplinar a que foi
submetido? Poderiam ser atribuídas também aos seus problemas pessoais?
Como essas duas instancias teriam se articulado para dar origem ao seu
transtorno?

Nos seus relatos ele deixa claro que, muitas vezes, não foi ouvido, dando a
entender que a rigidez hierárquica e disciplinar pode ter contribuído para o seu
adoecimento. Suas internações ocorreram no período compreendido entre
1992 e 1996, época em que esteve sob o comando de maior rigidez disciplinar,
o que reforça nossa hipótese. Portanto, ainda que seus problemas conjugais
tenham exercido um papel fundamental nos seus transtornos, não podemos
negligenciar a influência do trabalho, cuja rigidez, provavelmente, contribuiu
para o seu agravamento. Vale a pena retomar um trecho do seu depoimento:
“Ouvia nada, ficava querendo ferrar a gente. Voltei, já era Código
de Ética, aí, você já tinha uma força maior, que antigamente,
quando era RDPM eu deixei muita coisa passar, era direito que eu
tinha e não corria atrás, coisa que tava me prejudicando e eu
nunca corri atrás, eu podia tomar atitude contra determinadas
pessoas eu não tomava”.

No entanto, se não podemos afirmar com certeza, qual o lugar do trabalho no


desencadeamento dos sintomas de Paulo, acreditamos ter demonstrado, no
decorrer deste estudo, que as mudanças introduzidas no seu contexto laboral,
foram decisivas na sua recuperação. Isso reforça a tese que serviu de base
para a elaboração dessa monografia, a respeito da importância da organização
do trabalho na promoção da saúde mental, sem nos esquecer de que, sob
certas circunstâncias, ela pode gerar transtornos mentais graves.

Em sendo assim, após as considerações aqui apresentadas, tanto quanto as


ações aplicadas, conclui-se que é possível transformar insatisfações e até
mesmo transtornos psicológicos, considerados como sofrimentos patológicos,
em habilidades e qualidades positivas.

Portanto, é possível dizer que após as medidas administrativas adotadas com


Paulo e também com todo o universo de policiais da Vigésima Terceira
Companhia, temos obtido resultados satisfatórios refletidos na organização do
trabalho, com vários casos de reversão de adoecimento e no aumento da
produtividade e da qualidade do trabalho, além da melhora da auto-estima de
toda a tropa.

Merece dizer também, que se hoje Paulo está afastado do centro de


recuperação de alcoólatras e do acompanhamento psicológico, foram as
intervenções realizadas na sua organização do seu trabalho que contribuíram
significativamente para isso.

Todas essas considerações nos permitem afirmar que o simples fato de


conhecer o histórico biográfico do indivíduo, nos remete a várias possibilidades
de melhorar suas condições de vida e de trabalho, com claras repercussões
positivas na sua saúde física e mental.
4. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1. BRASIL. Decreto Lei nº 667 – 02 jul. 1969. Reorganiza as Polícias Militares e
os Corpos de Bombeiros Militares dos Estados dos Territórios e do Distrito
Federal

3. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do


trabalho cientifico. 6.ed. São Paulo: Atlas. 2001.

4. LIMA, Maria Elizabeth Antunes, Escritos de Louis Le Guillant: da ergoterapia


à psicopatologia do trabalho. Petrópolis, RJ: Vezes, 2006.

5. MINAS GERAIS. Lei nº 6.624 – 18 jul. 1975. Dispõe sobre a organização


básica da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. Minas Gerais: Belo
Horizonte, 19 jul. 1975

6. MINAS GERAIS, Lei estadual n.º 14.310, de 19Jun02, que dispõe sobre o
Código de Ética e Disciplina Militares do Estado de Minas Gerais (CEDM).

7. __________. Decreto nº23.985 – 10 out. 1983. Aprova o Regulamento


Disciplinar da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (R-116): Belo
Horizonte, 10 out. 1983.

8. __________. Decreto 39.652 – 16 jun. 1998. Aprova o quadro de


organização e distribuição da Polícia Militar de Minas Gerais. Minas Gerais:
Belo Horizonte, 17 jun. 1998.

9. __________. Lei nº 5.301 de 16 de outubro de 1969, Estatuto do Pessoal da


Polícia Militar de Minas Gerais (EPPM). Belo Horizonte: ALEMG. Disponível em
www.almg.gov.br/legislação. Acesso em 10 jun 2003.
5. ANEXOS

- Obs: os anexos não acompanham o trabalho, haja vista a preservação do


nome do sujeito estudado.

I – Certidão de Inteiro Teor (CIT)

II – Notas de Prêmios e Castigos (NPC)

III – Ficha de Alterações

IV – Ato de exclusão

V – Fichas médicas.

VI – Atestado de Origem

VII – Conselho de Disciplina Portaria nº 06/92

VIII – Conselho de Disciplina Portaria nº 53/94

IX - Ficha de Instrução de Contagem de Tempo de Serviço para fins de


transferência para a inatividade.