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Um estudo das barreiras existentes para a aplicabilidade

de estratégias sustentáveis em projetos residenciais no


município de Esteio
Jóice da Rocha dos Santos (joicersantos@gmail.com)
Orientadora: Patrícia Nerbas

RESUMO

Sustentabilidade é um assunto que está cada vez mais em foco em todo o mundo. A
construção civil tem papel fundamental neste cenário e as iniciativas municipais podem ser
um diferencial neste sentido. O objetivo deste trabalho é identificar quais sãs as principais
barreiras existentes para a aplicabilidade de estratégias sustentáveis em projetos
residenciais no município de Esteio. A partir dos conceitos de sustentabilidade,
aproveitamento de água e uso da vegetação para drenagem natural foi elaborada uma
entrevista que embasou o estudo de caso realizado. Com as análises das entrevistas, foi
possível identificar que a inexistência de lei que normatize aplicações de estratégias
sustentáveis, a falta de profissionais com conhecimento em sustentabilidade, a falta de
incentivo público, a falta de conhecimento da população e a falta de conhecimento dos
profissionais públicos são as principais barreiras à aplicação de estratégias sustentáveis no
município estudado.

Palavras-chave: Sustentabilidade. Construção Civil. Município de Esteio.

ABSTRACT

Aa...

Keywords: Aa.
1. INTRODUÇÃO

Atualmente um dos principais assuntos discutidos em todo o mundo por diversas


autoridades e a sociedade em geral é o aquecimento global e suas conseqüências
para o planeta e humanidade. Com esta percepção e preocupação mundial alguns
grupos começam a desenvolver inúmeros estudos para minimizar ou até eliminar
processos que gerem algum impacto ao meio ambiente. Um dos principais setores
responsáveis por afetar o meio ambiente diretamente em todas as suas etapas é o
setor da construção civil, mas também é um dos setores que mais se desenvolve
com diversas inovações tecnológicas voltadas para a sustentabilidade. (MANO,
2004; ARCOWEB, 2009; REVISTA AU, 2009; FRAH e VITTORINO, 2009)

Com todas estas mudanças nos últimos tempos os arquitetos devem considerar
novos conceitos e condicionantes para os projetos desenvolvidos, que independem
de estilo e movimento arquitetônico tendo um principal objetivo que é a integração
entre homem, construção e natureza.

O conceito da sustentabilidade está relacionado diretamente com a integração entre


as necessidades humanas, ambiente natural e ambiente construído (NERBAS,
2008).

Neste contexto este artigo tem como objetivo identificar quais sãs as principais
barreiras existentes para a aplicabilidade de estratégias sustentáveis em projetos
residenciais no município de Esteio.

Para atingir o objetivo geral foram definidos os seguintes objetivos específicos:


• Realizar um levantamento bibliográfico sobre duas estratégias sustentáveis. A
minimização da água potável através da reutilização das águas precipitadas
sobre áreas impermeáveis para fins não potáveis e o sistema de drenagem
natural através da utilização da vegetação;
• Elaborar e aplicar uma entrevista com profissionais da prefeitura municipal de
Esteio, especificamente profissionais da secretária de planejamento urbano,
com o foco técnico sobre as estratégias sustentáveis citadas anteriormente;
• Analisar as resultados obtidos através das entrevistas a fim de identificar as
principais barreiras existentes para a aplicação de estratégias sustentáveis no
município de Esteio.

O estudo se justifica pelo fato do município em estudo não apresentar nenhuma lei
que regulamenta qualquer tipo de estratégia sustentável, fornecendo assim aos
profissionais da área informações básicas referentes para avaliações futuras e
servindo também como material de apoio para a elaboração de leis que poderão
complementar como o plano diretor e o código de obras municipal.

O Município de Esteio conta com aproximadamente 87.087 habitantes em 22 mil


domicílios (IBGE, 2006) distribuídos em cerca de 28km² de território. Está
totalmente inserido na Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos – um dos maiores
reservatórios de abastecimento de água para a região, que se encontra atualmente
em níveis críticos de contaminação por causa de grande quantidade de esgotos
lançados in natura em suas águas e na Sub-bacia do Arroio Sapucaia.

O município acompanha as mutações do Brasil urbano, marcado por diversidade de


situações e dinâmicas urbanas. A exclusão territorial (favelas, periferias,
loteamentos irregulares) e a excessiva densidade demográfica, provocam poluição
aos cursos d’água, ocupação inadequada e irregular das beiras dos arroios e áreas
verdes, gerando problemas ambientais que ultrapassam os limites territoriais.

Esteio é uma cidade com elevado índice de urbanização, predominantemente


horizontal. (PLANO DIRETOR, 2006). O Município é abastecido pelas águas do Rio
dos Sinos, onde ela é captada pela Companhia Riograndense de Saneamento
(CORSAN), tratada e, posteriormente distribuída.

Segundo dados do IBGE/Censos Demográficos o Município de Esteio em 2000


95,4% de moradores possuía em suas residências a rede geral de abastecimento de
água, 4,1% poços artesianos ou nascentes e 0,5% outra forma (PREFEITURA
MUNICIPAL DE ESTEIO, 2009).

O trabalho delimita-se ao município de Esteio e à apenas duas estratégias


sustentáveis, que são a utilização da água da chuva para fins não potáveis e a
utilização da vegetação complementando o sistema de drenagem do município.
Estas delimitações devem-se pelo fato do município de Esteio encontrar-se com
uma excessiva densidade demográfica e ocupações irregulares as beiras dos
arroios, ocasionando conseqüentemente poluições aos cursos d’água. A coleta da
água da chuva e sua utilização para fins não potáveis diminuem conseqüentemente
o consumo de água potável, assim como uma vegetação adequada, por sua vez,
auxilia a permeabilidade do solo facilitando para que água se dirija aos lençóis
freáticos, aumentando a disponibilidade de água potável. Outro fator importante que
complementa a delimitação do trabalho é que o município de Esteio possui apenas
uma lei, de maneira bem modesta, que regulamenta um percentual de 10% do lote
que deve ser preservado para a permeabilidade natural do solo, ou seja, sem
pavimentação.

2. SUSTENTABILIDADE

Nos últimos anos, diversas pesquisas e projetos têm sido implementados para
diminuir a distância conceitual e práticas mais sustentáveis. A preservação humana
depende da preservação da natureza, tudo aquilo que se aplica aos humanos deve
ser considerado como outras milhares de espécies que compartilhamos este planeta
(MENEGAT ett alli., 2004).

Agir de forma sustentável é atender as necessidades do presente sem comprometer


as possibilidades de as futuras gerações atenderem as suas próprias necessidades
(SATTLER, 2007).

Ainda Sattler (2007) diz que para ser sustentável qualquer empreendimento humano
deve ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e
culturalmente aceito.

Segundo Gauzin-Muller (2002) a publicação Our Common Future o desenvolvimento


sustentável se define como aquele que deve responder às necessidades do
presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer às
suas.

Neste trabalho o assunto estará direcionado para o aspecto ambiental da


sustentabilidade ainda mais especificamente o consumo de água no meio urbano.
Segundo Campos (2004) desde os primórdios da ocupação humana, a água é um
elemento de importância vital e econômica. Observa-se na História, que o
desenvolvimento das grandes civilizações foi baseado na maior ou menor facilidade
em se conseguir esse recurso natural e o homem sempre consumiu a água como se
fosse um bem infinito, passaram-se alguns séculos e percebesse que a situação
atual é bem diferente.

Sabe-se que a terra é um planeta que 2/3 de sua superfície é coberta por água, mas
menos de 0,06% é de água potável apropriada para consumo. No Brasil existe cerca
de 170 milhões de habitantes e 12 % de água potável e na região Sul existe
aproximadamente um pouco mais de 25.107.610 habitantes para 6,5 % de água
doce. (TOMAZ, 2001).

Pode-se dizer, portanto que o aumento da demanda de água ocorreu por dois
motivos: o primeiro ligado ao aumento da população, e o segundo por conseqüência,
a necessidade de água per capita que aumentou à medida que novos hábitos foram
incrementados á vida destas. (CAMPOS, 2004).

Ainda (Campos, 2004) o aproveitamento de águas pluviais surge com uma fonte
bastante interessante, principalmente, quando se trata do uso desse tipo de água
em atividades domésticas eu não necessitam de água potável, como, por exemplo:
descargas de bacias sanitárias, irrigação de jardim, lavagem de carros e calçadas,
etc. Desta maneira a água poderá ser suficiente para suprir as necessidades dos
usuários, além de reduzir o consumo de água potável o aproveitamento destas
águas também traz como vantagens a retirada desse volume do sistema de
drenagem urbana, colaborando, portanto com a prevenção de enchentes.

Não se pode afirmar que existam ações mais sustentáveis que outras, tudo
dependerá do cenário onde as mesmas serão utilizadas e das problemáticas a
serem resolvidas. Neste artigo, as duas estratégias sustentáveis que estão sendo
propostas devido às características do município são a reutilização das águas
pluviais para fins não potáveis em residências do município de Esteio e em conjunto
a contribuição da vegetação para a conversação da água potável através do
sistema de drenagem natural.

2.1. A economia da água quando coletada e utilizada


A preocupação com a escassez de água potável é um aspecto de suma importância
na discussão entre diversas áreas, como: sociedade, gestões púbicas, técnicos,
ambientalistas, construção civil. Então, pode-se considerar que a água potável está
se tornando um artigo de luxo. Pessoas mais carentes já não têm acesso a este
direito (água potável), e em muitos casos nunca tiveram. O saneamento público
sempre foi um desafio para os gestores dos municípios, devido aos altos
investimentos necessários para a solução deste problema social que se agrava.
(BARCELOS, 2004)

Recentemente, embora abundantemente, a água passa a ser considerada escassa,


à medida que sua qualidade é comprometida e o seu tratamento torna-se cada vez
mais oneroso (NERBAS, 2008). Segundo Roaf (2006) quatro fatores estão
conspirando para tornar a água fresca em um dos produtos primários mais
valorizados do século XXI: o crescimento das populações mundiais, as mudanças
climáticas, a interferência crescente do homem com os fluxos naturais de água e a
poluição.

Segundo Fewkes e Butler (1999) apud Mano (2004) afirma que a coleta,
armazenagem e utilização da água da chuva proveniente dos telhados é uma forma
simples de redução das demandas municipais, para suprimento de água e
tratamento de esgotos.
Figura 1 – Proporções de água potável no mundo.
Fonte: MANO, 2004

A Figura 1 mostra a proporção de água potável disponível no mundo em relação a


um reservatório de 1000 litros.

Segundo Roaf (2006), a economia da água existe um enorme número de medidas


disponível, para que a economia seja efetiva, muitas pessoas terão que mudar seus
hábitos Para esclarecer, pode ser interessante dividir as medidas em categorias
como economia de água, eficiência da água, suficiência da água, substituição da
água e reaproveitamento da água, reciclando a água usada e colhendo a água da
chuva.

Alguns impactos devem ser considerados se o objetivo for de melhoria ambiental e


não somente a economia de água. Um aspecto importante refere-se às águas
residuais, que são águas usadas que podem conter várias sustâncias como
excrementos humanos, restos de comidas, óleos, sabonetes e produtos químicos,
nas residências, as águas residuais podem incluir as águas de lavatórios, chuveiros,
banheiras, vasos sanitários, máquinas de lavar roupa e louças, mas as empresas
também usam água para diversos outros usos (ERCOLE, 2003). As águas pluviais
também podem ser chamadas de águas residuais, elas possuem contaminantes
como hidrocarbonos (ROAF, 2006).

O reaproveitamento destas águas reduz consideravelmente a necessidade da


utilização da água potável em aplicações não-potáveis, água pode ser usada duas
vezes antes de ser lançada ao sistema de esgoto. O principal uso em potencial é
para as descargas de vasos sanitários, rega de jardins e lavagem de carros.
Sistemas de águas servidas podem resultar na conservação dos recursos de água e
reduzir a demanda do fornecimento de água pública, bem como de coleta de esgoto
e estações de tratamento (ROAF, 2006).

Em uma residência, considerando somente o reaproveitamento da água da chuva na


substituição da água tratada em diversas aplicações, representa em média 50% do
consumo físico. Esta economia é facilmente atingida em vários setores da cidade, na
área pública, por exemplo, os investimentos em infra-estrutura e saneamento podem
ser reduzidos, de forma que a população perceba uma economia financeira,
proporcionando ao meio ambiente este recurso natural de maneira limpa e natural,
como deve ser. (BARCELOS, 2004)

Segundo Siqueira apud Campos (2004) existe uma residência na cidade de Ribeirão
Preto, onde a água pluvial é usada para fins não potáveis, esta edificação apresenta
um volume total de armazenagem de 14,70m³, sendo deste volume total, 10m³ da
cisterna, 3,45m³ para contenção no momento de chuvas intensas, podendo se tornar
água para consumo em momento de estiagem, 1m³ do reservatório superior e
0,25m³ em um reservatório exclusivo para as descargas dos sanitários.

A mudança no cenário sócio humano torna a água potável no principal elemento


natural em escassez. Isto acontece devido ao aumento do consumo e a poluição da
água. Pode-se afirmar que é de extrema importância a necessidade da utilização de
formas alternativas para a resolução ou minimização do problema urbano/social. A
coleta e utilização de águas pluviais juntamente com a drenagem natural auxiliam
na diminuição da demanda de água potável e podem ser consideradas estratégias
sustentáveis que mereçam atenção para futuras avaliações e normatizações
municipais.

2.2. Contribuições da vegetação para drenagem natural


A utilização da uma vegetação adequada para uma drenagem natural objetiva a
recarga de aqüíferos, diminuindo a necessidade de investimentos na infra-estrutura
pública; melhorando a qualidade do solo e o auxiliando o ciclo hidrológico natural.

Segundo Mano (2004). As enchentes são decorrentes da urbanização, à exceção


das grandes áreas metropolitanas, ocorrem normalmente em bacias de pequeno
porte. Mano apud Tucci (1995) afirma que a impermeabilização do solo, através de
telhados, ruas, calçadas e pátios, impedem a infiltração da água ampliando muito o
escoamento superficial, alterando significativamente o hidrograma da bacia natural.

A infiltração das águas através da precipitação diminui conforme o aumento da


densidade urbana o mesmo pode ser observado de maneira mais clara na Figura 2
(MANO, 2004)

Figura 2 – Permeabilidade do solo versus ocupação do solo


Fonte: Nerbas (2008)

A Figura 2 apresenta a através de percentuais a relação entre densidade


demográfica, permeabilidade do solo e escoamento superficial.
A vegetação é um importante elemento no desenvolvimento urbano das cidades. A
arborização deve ser feita sempre que necessário, tornando locais hostis em locais
agradáveis de permanecer. A utilização da vegetação apresenta várias vantagens
em sua utilização, como: minimizar problemas de erosão do solo, amenização de
ruídos, amenização da poluição atmosférica, estimulação dos sentidos, auxilia a
biodiversidade, iluminação natural, proporciona maior conforto visual, auxilia a
estabilizar a umidade relativa do ar, auxilio no sombreamento, servir também como
complemento alimentar, na redução das temperaturas e ventilação e além destas
características elas podem e devem também para a contribuição da qualidade da
água, (NERBAS, 2006; LENGEN, 2008)

Figura 3 – XXX Falta Outra


Fonte: Nerbas (2008)

Na Figura 3 percebe-se a diminuição da quantidade de água permeável ao solo. Isto


ocorre devido ao grande número de áreas pavimentas, principalmente e
conseqüentemente nos centros urbanos.

Este capítulo demonstra a importância das estratégias de utilização da água da


chuva e da vegetação como drenagem natural, conforme exposto e sustentado
pelas teorias apresentas. A seguir apresenta-se a metodologia de pesquisa a fim de
atingir os objetivos propostos.

3. METODOLOGIA

Delinear o método de pesquisa de forma adequada é fundamental para que os


resultados sejam confiáveis. “A pesquisa científica é a realização de um estudo
planejado, sendo o método de abordagem do problema o que caracteriza o aspecto
científico da investigação.” (PRODANOV e FREITAS, 2009, pg.52).

Segundo Silva e Menezes (2001) “pesquisar significa, de forma bem simples, buscar
respostas para indagações propostas”. A pesquisa pode ser classificada segundo
sua natureza, abordagem, objetivos e procedimentos técnicos.

A pesquisa é de natureza aplicada, pois objetiva a geração de conhecimento dirigida


a solução de um problema específico. Quanto à abordagem trata-se uma pesquisa
qualitativa devido às características interpretativas dos resultados do estudo. O
método qualitativo justifica-se pelo fato da pesquisa buscar responder à questão
proposta através de uma revisão da literatura e entrevistas com pessoas dos setores
envolvidos com o estudo (SILVA e MENEZES, 2001).

O estudo é de natureza exploratória, que visa prover o pesquisador de um maior


conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em perspectiva. Este tipo de
pesquisa possibilitará uma melhor abordagem do problema, com o objetivo de torná-
lo explícito (SILVA e MENEZES, 2001).

A pesquisa tem como procedimento técnico o estudo de caso, que segundo Silva e
Menezes (2001) é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de
poucos objetos de maneira que permita o seu amplo e detalhado conhecimento.
Para Yin (2005) o estudo de caso é a estratégia escolhida ao se analisarem
acontecimentos contemporâneos.

Como coleta de dados será utilizada a observação direta assistemática e entrevistas


não estruturadas. Conforme Gil (2001), a utilização de múltiplas fontes de evidência
constitui o principal recurso de que se vale o Estudo de Caso para conferir
significância aos resultados obtidos.

Os entrevistados foram definidos de forma não probabilística. Segundo Prodanov e


Freitas (2009), neste tipo de amostragem, o pesquisador seleciona os entrevistados
a que tem acesso, admitindo que esses, de alguma forma, possam representar o
universo pesquisado. O roteiro das entrevistas encontra-se no Anexo 1.

Analisar os dados em uma pesquisa é uma tarefa fundamental para que as


conclusões obtidas acerca das análises sejam confiáveis. Para Yin (2005) a análise
de dados consiste em examinar, classificar, categorizar ou recombinar as evidências
para tratar as proposições iniciais de um estudo. Neste estudo a análise dos dados
foi realizada de forma qualitativa.

4. BARREIRAS ÀS ESTRATÉGIAS SUSTENTÁVEIS

Este capítulo tem por objetivo apresentar os dados obtidos no estudo de caso,
caracterizando os entrevistados e relatando a coleta de dados, como as entrevistas
realizadas e as observações assistemáticas realizadas.

Os dados coletados foram sistematizados para verificar as percepções dos


entrevistados a fim de atingir os objetivos desta pesquisa, relacionando as
proposições teóricas sobre o assunto com as evidências empíricas levantadas.

A fim de evidenciar as características dos envolvidos com este estudo foi elaborado
o Quadro 1 que apresenta o perfil dos entrevistados.

Entre- Ramo de Tempo de


Cargo Sexo Idade Escolaridade
vistados Atuação Experiência
Secretária de
1 Eng. Civil F 38 15 anos 3º grau completo
Habitação
3º grau completo e
Secretária
especialização em
2 Planejamento Eng. Civil M 50 25 anos
Ambientes da
Urbano
Saúde.
Secretária
Arquiteta e
3 Planejamento F 37 14 anos 3º grau completo
Urbanista
Urbano
3º grau completo e
Secretária
Arquiteta e especialização e
4 Planejamento F 59 35 anos
Urbanista mestrado em Eng.
Urbano
Ambiental
Quadro 1: Perfil dos Entrevistados
Fonte: Elaboração da autora.

As entrevistas foram realizadas no mês de novembro de 2009. As mesmas foram


gravadas pela autora para posterior análise. Todas as perguntas aplicadas para os
profissionais foram direcionadas para a Sustentabilidade na Construção Civil no
Município de Esteio, tendo como enfoque a água e a vegetação.
4.1. Descrição e análises das barreiras identificadas

Todos os profissionais que participaram da entrevista se mostraram bem


interessados em iniciar um trabalho mais sustentável ainda com poucas informações
técnicas e muitas dúvidas sobre as suas diversas maneiras de aplicação, mas o
único foco da sustentabilidade citado por todos como benefício foi a economia
financeira que a residência geraria em se manter como: economia de energia de luz
e água.

Alguns já fizerem alguns poucos projetos com algumas estratégias sustentáveis de


maneira bem modesta, mas muito preocupados tecnicamente com sua aplicação e
sua manutenção como, por exemplo, a aplicação de painéis fotovoltaicos e
cisternas, mas confessam que não é usual propor estas ou qualquer outra estratégia
sustentável seja em projetos públicos ou projetos elaborados fora da prefeitura.

A água e a vegetação foram os dois elementos naturais mais comentados pelos


entrevistados como estratégias sustentáveis e suas diferentes maneiras de
aplicação. Os mesmos mostraram um bom conhecimento sobre estes dois itens,
com a citação de exemplos de edificações existentes e materiais bibliográficos sobre
estas duas estratégias.

Em todos os casos se falou em reaproveitamento das águas, cisternas para coleta


da água da chuva e sua utilização em atividades domésticas como lavagem de
calçadas e rega de jardins, a drenagem urbana com a utilização de pavimentação
em blocos de concreto, alguns comentaram das expectativas para a implantação da
sustentabilidade na área pública, como fonte de recursos financeiros para o
município.

Foram identificadas como principais barreiras a inexistência de lei que normatize


aplicações de estratégias sustentáveis, a falta de profissionais com conhecimento
em sustentabilidade, a falta de incentivo público, a falta de conhecimento da
população e a falta de conhecimento dos profissionais públicos. A seguir são
detalhadas estas análises.
4.1.1. Inexistência de lei que normatize aplicações de estratégias sustentáveis

O Município em estudo apresenta apenas uma única lei no plano diretor do


município que regulamenta a permeabilidade do solo, reservando um percentual do
lote de 10 % para a vegetação. Os profissionais ressaltam que este item é
fiscalizado até a liberação do habite-se e após esta certidão não existe nenhum tipo
de controle para se manter esta lei efetiva.

A secretária de planejamento está em etapa de reformulação do código de obras


onde existem diversas intenções e ansiedades por parte dos profissionais para que
muitas estratégias sustentáveis estejam presentes neste documento. Algumas
citadas foram: a coleta da água da chuva para a sua utilização em atividades
domésticas com consumo não potável, o aumento de área verde no lote, seja em
forma de pavimentação ou telhados verdes e a separação e reutilização de resíduos
da construção civil.

Para a concreta efetivação destas estratégias é de plena consciência pelos


profissionais que a sociedade terá que receber algum incentivo para a sua utilização
e esta etapa é considera a mais difícil pelos mesmos, não se sabe ao certo qual será
a maneira que o município conseguira o total envolvimento da população e adesão
as práticas sustentáveis.

4.1.2. Falta de profissionais com conhecimento em sustentabilidade

Alguns dos profissionais da Secretaria de Planejamento Urbano afirmam que o


motivo pela ausência de projetos mais sustentáveis no município é a falta de
profissionais atuantes com capacidade e conhecimento deste assunto. Aliado a isso
ainda existe o fato dos clientes desconhecerem os benefícios da sustentabilidade
em uma edificação e por conseqüência não solicitam aos arquitetos e engenheiros.
Conforme afirma o entrevistado 3: “Os profissionais que trabalham no município são
provincianos e a população do município não possuem interesse sobre o assunto”.

Muitos concluíram que se existisse algum prédio público, destacando as vantagens


economias em aplicar à sustentabilidade na construção civil, a demanda aumentaria
e por sua vez a quantidade de edificações mais sustentáveis no município também
aumentaria.
4.1.3. Falta de incentivo público

As ações sustentáveis que são aplicadas no município ocorrem de maneira isolada.


O único incentivo do governo para o município acontece apenas para a abertura e
pavimentação de ruas novas onde os profissionais da prefeitura especificam a
utilização de blocos de concreto e não mais asfalto, aumentando a permeabilidade
do solo.

Para os contribuintes ainda não se definiu como fazer com que a sustentabilidade
seja incorporada no programa de necessidade para a elaboração de projetos, mas
se sabe que não é possível legalmente elaborar leis que estabeleçam descontos no
IPTU, devido a uma lei federal que afirma que o prefeito não pode deixar de receber
recursos financeiros dos contribuintes para qualquer tipo de benefício do município.
O entrevistado 3 relata que “existe uma lei federal que diz que o prefeito não pode
deixar que receber recursos financeiros para benefício do município, independente
do objetivo e ou maneira que este processo será elaborado”.

Outro entrevistado afirmou que estão em estudo algumas formas de incentivo


financeiro através de programas sustentáveis do ministério das cidades. Este órgão
elaborou alguns manuais sustentáveis onde os municípios interessados se
inscrevem solicitando recursos para o saneamento público, por exemplo. Porém,
para que o município tenha o direito de receber estes recursos o mesmo deve
cumprir todas as regras sustentáveis que estão descritas no manual. Seguindo por
esta linha existem algumas atividades em andamento no município, uma delas é o
programa chamado “Beira Arroio”, onde será criado um Dick que terá a função de
barreira evitando os alagamentos na periferia do município, conforme comenta o
entrevistado 2.

4.1.4. Falta de conhecimento da população

Outro motivo pela falta de residências mais sustentáveis no município de Esteio,


segundo um dos entrevistados é a baixa renda da maioria dos moradores do
município. Devido a este fato, na percepção do entrevistado, os mesmos não
possuem conhecimento dos benefícios, ambientais e econômicos, que tais práticas
sustentáveis proporcionam quando aplicados de maneira correta.
O entrevistado 4 comenta que “O município de Esteio e formado basicamente por
moradores com uma baixa renda per capta isto é um motivo forte para a falta de
residências sustentáveis, os empresários que residem no município são formados,
informatizados e informados sobre o assunto e compreendem a importância da
sustentabilidade, mas a grande maioria não possui condições financeiras de utilizar
estratégias sustentáveis, devido ao custo para tal aplicação”.

4.1.5. Falta de conhecimento dos profissionais públicos

Percebe-se que mesmo que os relatos dos entrevistados tenham sido em pró das
aplicações de estratégias sustentáveis, falta conhecimento técnico aos profissionais
da prefeitura municipal.

Ao serem questionados sobre o entendimento deles quanto à sustentabilidade na


construção civil, as respostas não apresentaram o cunho sistêmico, e sim ações
pontuais. O entrevistado 1 respondeu que “durante a elaboração do projeto deve ser
levado em conta a economia para se viver na edificação”. O entrevistado 2 afirmou
que “ trata-se de otimização de energias, tudo que se relaciona com economia na
edificação”. O entrevistado 4, por sua vez, disse que “ toda a construção que tem o
mínimo de gastos para se manter, diminuindo o custo de manutenção”.

Fica evidente que falta conhecimento e visão do todo por parte destes profissionais,
onde só é visto a questão econômica, contradizendo o conceito de Sattler (2007),
que afirma que para ser sustentável qualquer empreendimento humano deve ser
ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente
aceito.

O entrevistado 3 admite a falta de conhecimento dizendo “não tenho conhecimento


técnico sustentável, acredito que seja uma edificação que possui economia de
energias e dos elementos renováveis”.

No sentido da visão sistêmica da sustentabilidade, pode-se dizer que as barreiras à


implementação de estratégias sustentáveis no município de Esteio também são
sistêmicas. A inexistência de lei que normatize aplicações de estratégias
sustentáveis acomoda os profissionais públicos na busca por este conhecimento.
Esta falta de conhecimento do poder público dificulta ainda mais a criação de
incentivos por parte do município que não faz por não despertar a iniciativa dos
profissionais da região. Uma vez que os profissionais não se empenham neste
sentido, a população não tem acesso a estas informações, e projetos assim não são
demandados às secretarias do município.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo desta pesquisa foi identificar quais sãs as principais barreiras existentes
para a aplicabilidade de estratégias sustentáveis em projetos residenciais no
município de Esteio. As barreiras identificadas foram a inexistência de lei que
normatize aplicações de estratégias sustentáveis, a falta de profissionais com
conhecimento em sustentabilidade, a falta de incentivo público, a falta de
conhecimento da população e a falta de conhecimento dos profissionais públicos.

As barreiras foram identificadas através de uma entrevista elaborada a partir do


referencial teórico e as análises foram realizadas de forma interpretativa atingindo
assim os objetivos específicos.

Conclui-se com esta pesquisa que o município de Esteio tem muito que evoluir no
sentido de ações sustentáveis, pois tanto os profissionais públicos, quanto os
profissionais da área e a população do município desconhecem o que realmente é
sustentabilidade.

Em termos pessoais, esta pesquisa agregou importantes conhecimentos para a


autora do trabalho, visto que esta se trata de uma profissional de Arquitetura, com
interesses sustentáveis, que atua no município em estudo.

Como limitação da pesquisa pode-se citar a dificuldade em conseguir mais


profissionais para a realização das entrevistas.

Para trabalhos futuros, sugere-se que, a partir destas barreiras identificadas, sejam
propostas estratégias que contribuam para aumentar e tornar mais usual a
sustentabilidade na construção civil no município de Esteio.
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NERBAS, Patrícia Freitas. Planejamento das cidades e a sustentabilidade.


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Canoas, 2008. Material de aula.
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YIN, Robert K. Estudo de Caso: Planejamento e Método. 3. ed.São Paulo:


Bookmam, 2005
ANEXO 1

Roteiro de entrevistas

1- O que você entende por sustentabilidade na construção civil?

2- Quais são as estratégias sustentáveis que você conhece/julga mais


importante para a utilização na construção civil?

3- Você já utilizou alguma estratégia sustentável em algum projeto?

4- Qual estratégia sustentável você aplicaria para a água em algum projeto seu,
seja para algum cliente direto ou aqui no município?

5- Qual estratégia sustentável você aplicaria para a água em algum projeto seu,
seja para algum cliente direto ou aqui no município?

6- Como você acha que as estratégias sustentáveis, na construção civil no


município, podem ser disseminadas da melhor maneira?