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Lei preambular

(Decretó-Lei n.° 29 :637, de 28 de Maio de 1939)

Usando ~da faculdade co,n'ferida pela 2.g parte do n,.0 2. 0 do


artigo 109.11 da Constituição, o Governo decreta e eu promulgo,
para valer como lei, o seguinte :

ARTIGO 1 .°

(Promulgação)

É aprovado o Código de Processo Civil, que faz parte da


presente lei.

Sobre a história do Código, o seu sistema e as suas características


pode ver-se a Revista de Legislação, ano 72 .1 , págs. 2 17, 81, 97, 113, 161
e 193 . Pode ver-se ainda a Gazeta da Relação de Lisboa, ano 53 .0, n .°' 3~ e 4
e Prof . Barbosa de Magalhães, Estudos sobre o novo Código de Processo
Civil, pág . 179 .

ARTIGo 2 .°

(Começo da vigência do Código)

O Código começará a vigorar -em todo o continente e ilhas


adjacentes no dia 1 de Outubro do corrente ano.

ARTIGO 3 .°

(Revogação do direito anterior)

A partir do início da sua vigência fica revogada toda a legis-


lação anterior sobre processo civil e comercial, e designadamente
o Código de Processo Civil de 8 de Novembro de 1876, o Decreto
n.° 4 :618, de 13 de julho de 1918, o Decreto n.° 21 :287, de 26
Lei preambular

de Maio de 1932, o Decreto n° 21 :694, de 29 de Setembro de 1932,


o Código de . Processo Comercial de' '14 de 'Dezembro de 1905
e o Código de Falências, aprovado pelo Decreto in.° 25 :981,
de 26 de' Outubro de 19315 
§ único . Fica salva a legislação de processo contida no
Código do Trabalho e no Código da Estrada, bem como a legis-
lação especial de processo sobre liquidação de casas bancárias
e sobre expropriações por utilidade pública .

A disposição deste artigo tem dado lugar a várias dúvidas, umas


descabidas, outras fundadas. Pode ver-se a este respeito, a Gazeta da
Relação de Lisboa, ano 5~.°, n.°' 9, 1'1, 15 e 17 a 20, Prof. Barbosa de. Maga
lhães, Estados citados, págs. 191 a 2316 e Dr. 'Palma 'Carl'os, Código de
Processo Civil anotado, fasc. 1."; pág . 39.
É muito difícil formular um preceito que defina com todo o rigor a
repercussão ydum Código sobre a legislação anterior. Em principio um
Código, porque compendia e fixa todo o regime legal sobre determinada
matéria, deve revogar toda a legislação anterior relativa a. essa matéria .
Por isso se determinou que, a partir do inicio da vigência do novo Código,
ficava revogada toda a legislação anterior sobre processo civil e comercial,
semelhantemente ao que se prescrevera no artigo 4.o da Carta de Lei de 8
de Novembro de '187% e diferentemente do que se dispusera no artigo . E5 .°
da Carta de Lei de 1 de Julho de 1867 e na primeira parte do artigo 3.*
da Carta de Lei de 28 de Junho de 1888.
Mas não pode dar-se ao princípio de revogação do direito anterior
o carácter rígido cabsoluto que fica assinalado . Há sempre, dispersa por
vários diplomas, legislaçãq da natureza daquela que o Código contém e
que não pode varrer-se com uma penada, porque é necessária e útil a sua
conservação. Toda a dificuldade do problema dia revogação do direito
constituído anteafiormente está em fixar os limites do princípio geral,
isto é, em determinar com precisão qual a legislação anterior que deve
escapar à acção revogatória do novo Código.
O § único do artigo 3." ressalva a legislação de processo contida no
Código. do trabalho e no Código da estilada, bem como a legislação espe-
cial de processo sobre liquidação de casas bancárias e sobre expropriações
por utilidade pública. Parece, pois, que foi esta a única legislação de pro-
cesso civil e comercial, anterior ao Código, que este deixou de pé : toda
a restante legislação de processo civil e comercial, ou seja geral ou seja
especial, ou tenha no Código correspondência ou não tenha, deve consi-
derar-se revogada.
Assim deveria ser, numa interpretação apertada e severa do artigo 3.o
Mas o legislador não quis, com certeza, ir tão longe. Por exemplo, a legis-
lação de processo civil inserta no Código do Regisibo Civil, porque foi pro
vocada por necessidades especiais que a aplicação do processo comum
não lograria satisfazer, 9leve considerar-se em vigor .
DecretoLei ia.° . 29 :637, de 08 de Maio de 1939 3

ARTIGO 4.0

(Regime das alterações posteriores)

Todas as modificações que de futuro se fizerem sobre matéria


contida -no Código de Processo Civil serão consideradas como
fazenda parte dele -e inseridas 0o lugar próprio, devendo essas
modificações ser sempre efectuadas por meio de substituição
dos artigos alterados, supressão dos artigos inúteis ou pelo adi-
cioname, nto dos que forem necessários.

ARTioo 5.°
(Aperfeiçoamento do Código)

Compete à Procuradoria-Geral -da República receber todas


as exposições tendentes ao aperfeiçoamento do Código e propor
ao Gmrerno todas as providências que para esse fim entenda
convdnientes .
ARTiGo 6.°
(Extensão às Colónias)

Fica o Governo autorizado a tornar o Código de Processo


Civil extensivo ao Império Colonial, . com as modificações que as
circunstâncias especiais das colónias exigirem .
Publique-se e cumpra-s, e como nele se contém .
Paços do Governo da República, 28 de Maio de 1939. -
ANTóNIo VSCAR DE FRAGOSO CARMONA-- António de Oliveira
Salazar - Mário Pais de Sousa - Manuel Rodrigues júnior
-- Manuel Ortins de Bettencourt - Duarte Pacheco -Francisco
José ~Vicira Machado - António Faria Carneiro Pacheco - João
Pinto da Costa Leite - Rafael da Silva Neves Duque.

O Governo usou desta autorização publicando a Portaria n.o 9 :605,


de 20 de Julho de 1940, depois substituída pela Portaria n.° 9 :677', de 30
de Outubro de 1940, . cujo texto vai adiante inserto.
4 Decreto-Lei n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1939

Decreto-Lei n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1939

AwriGo 1 .°

, Os artigos 60 .°, 471 .°, 47'4 .°, 791 .°, 792 .°, 806 .0 e o § único
do artigo 93'3 .° do Código de Processo Civil passam a ter a
redacção seguinte :

ARTIGO 2.°

É inserto entre o artigo 1162 .° e o artigo 1'164.° do Código


de Processo Civi! um artigo do teor seguinte :
2

ARTiGO 3.°

A alçadá das Relações é de 20 .000$09 e a dos tribunais de


comarca de 6.000$00, qualquer que seja a natureza dos bens .
§ 1 .° Admitem sempre recurso até ao Supremo Tribunal de
justiça:
1 .° As decisões recorridas com fundamento na incompe-
tência absoluta do tribunal ou na ofensa do caso julgado ;
2.° 0 despacho que fixar à causa, aos incidentes ou aos
próeessos preventivos e conservatórios valor contido na alçada
do tribunal de .comarca ou da Relação, se o recurso for inter-
posto com o 'fundamento de que o valor excede a alçada ;
3.° Quaisquer outras 'acções ou incidentes em que por lei
especial seja admitido tal recurso.
§ 2.° A matéria de alçadas é regulada pela lei em vigor ao
tempo da propositura da acção.

Nas colónias a alçada das Relações passa a ser também de 20 .000$00;


mas a alçada do tribunal de comarca é fixada em 3.000$00 (Portaria
n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940, n.° 18 .°) .

O texto vai inserto nos lugares próprios .


Vai no lugar próprio.
Decreto-Lei n.' 29 :950, de 30 de Setembro de 1939 5

Os n .*' 11 .o e 2.* do § 1.° reproduzem o que se encontra no artigo 678 .*


do Código ; o n .o 3 .* e o § 2' repetem o que se lê no n.o 3 .° e no § 2 .° do
artigo 77 .° do Estatuto Judiciário .

ARTIGO 4 .°

'0 tribunal colectivo intervirá . n o julgamento das causas de


valor superior a 6..000$00, exceptuadas únicamente as causas de
processo especial cujos termos 'excluam a intervenção desse tri-
bunal .
Nos incidentes, nos processos preventivos e conservatórios
e nas execuções o tribunal 'colectivo só intervirá nos casos em
que se mandam seguir os termos do processo ordinário ou sumário
de declaração e quando o valor exceda o limite indicado .
§ único . As 'questões de facto da competência dos tribunal
colectivo são as que hajam de s-er julgadas a final .

Sobre a constituição do tribunal colectivo nada se dispôs e por isso


continua em vigor o que se achava estabelecido anteriormente (Decreto
n .° 21 :69'4, de '29 de Setembro de 1932, art . 13 . 0 ) .
Quanto à competência do mesmo tribunal alterou-se o que estava
legislado . As alterações dizem respeito ao valor, à natureza das causas
e à espécie das questões.
Valor. O tribunal colectivo só intervinha nas causas de valor supe-
rior a '7.0 .000$00 ; passou a intervir nas de valor superior a 6 .000$00 .
Causas . Há que distinguir entre acções de declaração pròpr~ame`nte
ditas, execuções, incidentes e processos preventivos e conservatórios .
a Acções. Se à acção oorresponde o processo comum o tribunal
colectivo intervém sempre, desde que o valor exceda 6 .000$00 ; passou,
portanto, a intervir nas acções de processo sumário de valor superior ao
quantitativo indicado .
Se à acção cabe processo especial, o tribunal colectivo intervirá ou
não, conforme os termos do processo respectivo comportem ou excluam
a sua intervenção .
De um modo geral pode dizer-se que o tribunal colectivo intervém
nas acções de processo especial em que, em certa altura e dadas certas
circunstâncias, se mandam seguir os termos do processo ordinário ou
sumário (arts. 952 .°, 953 .o, 9.60 .°, 958 .° o 961 o, 974 .o e 982 .', 1009 .o,
", 1015.',
1027.°, 102'8°, 1032 . 1 , 105'1 °, 1053f, 1057.0, 1060 .°, 1062 .0 9 1070 .° , 1109 .",
1'117 ", 1118 .°, 1121 ",112!6.°, 1132 ., 1541 .°) .
No processo de falência o tribunal colectivo intervém no julgamento
do pedido de declaração da falência (art . 1144.°) e no julgamento dos
embargos' opostos à sentença de declaração (art. 1150 .°) .
6 Decreto-Lei .n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1989

lÉ duvidoso se terá de intervir na verificação dos créditos ('art. 119U),


parecendo que o artigo 1194 .' quis reservar para o juiz a decilsão de todas
as questões .
No processo de inventário pròpriamente dito não há intervenção do
tribunal colectivo . Este tribunal só terá 'de intervir no julgamento das
contas do cabeça-de-casal quando hajam de ~ir4se, por aplicação do
artigo '1015 .o, aos termos do processo ordinário ou sumário (art. 1018.°), e
na acção ordinária ou sumária a que se referem o artigo 1426 .* e o n ° 2 .°
do artigo 1427.°
Excluem a intervenção do tribunal colectivo os termos dos seguintes
processos especiais : expurgação-8e hipotecas nos casos dos artigos 999"
e 1001 .°, contas do tutor, curador ou administrador e do deposiltár§o
(arts . 11019' e 1022 .1) embargos de terceiro (art . 1038 .'), posse judicial
(art . '1045:°, Rev. de Leg ., ano 73 .°, pág . 298), reforma de autos e de livros
(arte . 1076.0 e 1081'), recurso dos conservadores (arte . 1083', 1086.°
e 1088.°),acções de perdas e danos contra magistrados (art . revi-
são de sentenças (art. 1101 .°), abertura de testamento cerrado (art. 1113'),
cessação da curadoria (arte . 11164 .° a 611'16'), contas do administrador da
falência (art. 12365.°), incidentes do inventário (arts . 1489 .° a 1443 :°) e todos
os processos de jurisdição voluntáriã (arts. 1452.a e sega .), exceptuado o
de redução do capital social (1541 .o) .
b) Execuções. No processo de execução o tribunal colectivo só inter-
vém para o julgamento dos embargos de executado (art. 817 .°, último
período) e para a verificação dos créditos (art . 868.°) . Não intervém na
liquidação (Rev . dos Trib ., ano 58.°, pág . 300) .
c) Incidentes. Relativamente aos incidentes da instância, regulados
nos artigos 310' e seguintes o tribunal colectivo intervém unicamente no
julgamento da, falsidade e da liquidação quando estes incidentes surjam
em causa que exija a intervenção do referido tribunal (arts. 369:° e 385,°) .
d) Processos preventivos e conservatórios . Aqui a intervenção do
tribunal colectivo só tem lugar para o julgamento dos embargos opostos ao
arresto, ao embargo de obra nova e à imposição de selos e arrolamento
(arts . 41'5 .°, 425 .o, '§ 1', e 413 .5') .
Espécie das questões . Continua a ser restrita às questões de facto que
hajam de ser julgadas a final, a competência do tribunal, colectivo . Mas
além dos factos provados por confissão ou acordo das partes e por documeri
tos autênticos ou autenticados, excluem-se também os que se acharem
provados pelos documentos particulares a que se refere o artigo 542'
. 6563:°, alínea g) .
(art
Nas Colónias não há tribunal colectivo . 0 juiz julga de facto e de
direito (Port . ri .° 9 :677, n .° 14 .°) .

ARTIGO 5 .°

lEnquanto não é publicado o novo Estatuto judiciário conti-


nuam em vigor as disposições dos artigos 46 .° a 68 .°, inclusive,
Decreto-Lei n.° $9 :950, de 30 de Setembro de 1,939 7

do Código de Falências aprovado pelo Decreto n.° 25 :981, de 26


de Outubro de 1035, e respectiva tabela anexa.

ARTIGo 6.°

As multas a aplicar em .processos cíveis serão fixadas, salvo


disposição especial em contrário, elntre 50$00 e 1 .000$00 e do
seu montante reverterão 50 Jo para o Cofre do :tribunal e 'Ordem
dos Advogados, em partes iguais, constituindo os restantes 50 %
receita do !Estado.
único. As multas a impor aos litigantes de má fé serão
de 500$00 a 50.000$00e reverterão, em partes iguais, para o Estado,
Cofre do tribunal e Ordem dos Advogados.

Nas Colónias o produto das multas reverte para o Estado e, cofre


do juízo, em partes iguais (Portaria n.o 9 :677, n.° 13.°) .
V+aja-se o Código das Custas, artigos 14'5 .' e 146.'

ARTiGo 7 .0

São suprimidos, 'à medida que vagarem, um lugar de juiz-


-Conselheiro no quadro do Supremo Tribunal de justiça e dois
,de desembargador no de cada uma das Relações de Lisboa e
Porto.
ARTIGO 8.°

É extifnto o 10.° Tribunail CrimInal de Lisboa, passando o


circule, judicial n.° 48 a ser formado peias comarcas de Almada
e Montijo, e - os respectivos tribunais colectivos a ser compostos
pelo juiz - da comarca onde o processo correr, pelo seu substituto
.e pelo juiz da outra comarca.

ARTIGO 9.°

Os processos pendentes no 10." Tribunal Criminal, agora


extilnto, serão distribuídos entre os restantes tribunais criminais,
ficando os livros de registo na Repartição ida Distribuição-Geral
dos Tribunais Criminais .
único. Os processos 'findos entrarão no arquivo judicial.
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940

ARTIGO 1.0 .°

Os chefes de secretaria e de secção, seus ajudantes e os


oficiais do extinto X10.° Tribunal Criminal de Lisboa ficarão, como
adidos, percebendo cinco sextos dos seus vencimentos e serão
eol»cados em -lugares de correspondente categoria, nas vagas que
ocorrerem em comarca da respectiva classe, e preferentemente na
de Lisboa.
único. Os funcionários mencionados neste artigo, enquanto
se mantiverem na situação de adidos, poderão ser mandados
prestar serviço, pelo Ministro da justiça, na secretaria dos tri
bunais crimiriais de Lisboa, mediante proposta do presidente da
respectiva 'Relação .

ARTIGO I I .'

'Este decreto-lei entra em vigor no dia 1 de Outubro.

Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro


das Colónias, ouvido o Conselho Superior judiciário das Coló-
nias e nos termos ido artigo 911 .° da Carta Orgânica do Império
Colonial Português e artigo 6 .° do Decreto-Lei n.° 29 :637,, de 28
doe Maio de: 1939, que sejam publicados em -to-das as colónias,
para começarem a vigorar em, '1 de janeiro de 194,. o Código
de .Processo Civil, aprovado pelo mesmo decreto, e o Decreto-Lei
wQ 2!9,950, de 30 de 1Setembro de 1939, que alterou o referido
Código, devendo na sua aplicação observar-se o seguinte :

Sempre que nas comarcas não haja advogado nem solici-


tador e a lei exija a sua intervenção, o mandato judicial pode ser
exercido por procurador judicia4 ou por quem o juiz nomear para
este . fim .
Portaria n.° 9 :677, . de 30, de Outubro de '1940 9

Se a parte não dncontrar ~quem aceite voluntàriamente o seu


patrocínio, poderá requerer ao. juiz para lhe nomear representante,
-que o exercerá sem necessidade -de outra 'formalidade .
A nomeação será feita sem demora e, notificada ao nomeado,
,que pciderá alegar escusa dentro de quarenta e oito horas. Na
falta de escusa, ou quando esta não seja julgada legítima, deve
9 no-meado exercer o patrocínio, sob pena -de suspensão até seis
meses ou de multa se o nomeado não exercer funções de advocacia
,od procuradoria .

Em todas as disposições onde se encontrarem as -expressões


«Tribunal de Lisboa», «Diário do Governo» e «Caixa Geral' de
Depósitos» deverão entender-se e ser substituídas respectivamente
por «juízo (Ia comarca sede da .colónia», «Boletim Oficial» e «esta-
belecimento onde têm lugar os depósitos judiciais» .

A competência expressa no artigo 95 .° cabe apenas aos


juízes municipais especiais . Quanto aos juízes municipais não
especiais e aos juízes instrutores, essa competência é limitada
a 2.000$00.

Quando o Código se referir a «chefes de secretaria», «fun-


cionários de secretaria», «secretaria» e «secções», e se não trate
de actos praticados nas Relações, deve entender-se por «escrivães»,
«ajudante de escrivão», «contador» e «cartório», conforme os
casos.

,O disposto no artigo 139.° é aplicável a todos os que não


souberem a língua portuguesa .
10 ;Portaria n.° 9:677, de 30 de Outubro de 1940

Será -o juiz quem recebe os articulados e assina os mandados


depois de subscritos pelo escrivão .

8.0

A acção disciplinar da Ordem dos Advogados e da Câmara


dos Solicitadores será sempre exercida pelo juiz, na parte apli-
cável .

A expressão «regedor» deve entender-se sempre por «autori-


dade administrativa local» .

'10.°

,Os prazos de dilação a que se refere o artigo '180.° e todos


aqueles que tenham por fim a realização de diligências a que
a parte tenha de assistir pessoalmente podem ser alterados pelo
juiz, segundo o seu prudente arbítrio, tendo em atenção a dis-
tância, a facilidade ~de comuinicações e a natureza das diligências .

Não é aplicável o artigo 209.° e seu parágrafo, devendo a


distribuição ser feita na Relação pelos juízes e nas comarcas pelos
escrivães.

As expressões «continente ou ilhas adjacentes» e «-País .»


devem entender=se por «co-lónia» .

13 .°

O produto das multas a que se refere o artigo 6.° do Decreto-


Lei n.o 2!9,:9450 reverterá para o Estado e cofre do juizo, em
partes iguais .
;Portmria n .° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 11

14 .°

Não são aplicáveis ás disposições relativas ao tribunal colec-


tivo, cuja acção e função continuam a ser -da exclusiva compe-
t-ência do juiz, que julgará de direito e de facto.

15 .°

A espécie 7.8 do artigo 2.22.° terá a seguinte divisão :

1'1. Autos de pobreza e inventários até 1 .000$00


2.° Inventários de mais 'de 1 .000$00 até X5 .000$00
3.° Inventários de mais de '5 .000$00 até 10 .000$00
4.° Inventários de mais de 10 .000$00 até 50 .000$00
5.°' Inventários de mais de 50 .000$00 até 100.000$00
6.° Inventários de mais de 100.000$00 até 500.000$00
7.° Inventários de mais, de 500.000$00.

Os inventários abrangidos nos p .°" 1 .° e 2.° e os processos


de espólio até 10.000$00 são isentos de custas e selos ; e no n .° 3.°
haverá. direito à rasa na percentagem de 30 por cento e ao emolu-
mento único de 10$00 para o contador.

A acção atribuída à Tutoria da Infância é exercida pelo poder


do juiz e o conselho de tutela continua a ser constituído nos ter-
mos da legislação anterior .

117.'

As notificações ; citações e avisos só serão feitos pelo correio


quando houver distribuição domiciliária na localidade ; fora destes
casos terão 'lugar por meio de mandato.

As alçadas das Relações são de 2.0 .000$00 e as dos juízes


de direito de 3 .000$00, qualquer que seja a natureza dos bens .
lá Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940

Não têm aplicação as disposições relativas a síndicos, cujas


atribuições serão exercidas pelo juiz e curadores fiscais nos ter-
mas da legislação anterior .

20 .°

As publicações exigidas nos jornais serão feitas no Boletim


Oficial quando não houver jornal na colónia.

21 .°

Em processo sumário os depoimentos serão sempre escritos,


excepto quando prestados em, audiência e as partes tenham pres-
cindido de recurso.

22 .°

A -decisão -do Tribunal da Relação será tomada por três votos


conformes e, se não houver conformidade, o processo irá !com
vista a tantos juízes quantos os necessários para obter vencimento
e, se ainda não houver vencimento, o processo será remetido para
a Relação de Lisboa .

23 .°

-Nas colónias de Timor, Macau e índia os valores em escudos


serão convertidos na moeda local, ao câmbio do dia :
a) Da propositura da acção, execução ou outro -processo,
quando se trate de valores para efeitos de alçadas -e de custas ;
b) Do vencimento da obrigação nos casos em que deva,
por !lei, :ser considerado esse valor ;
c) Da distribuição, quanto aos inventários, heranças jacen-
tés e processos análogos ;
d) 'Da prática do acto, qua!n+do a lei a este mande atender .
Nas restantes colónias considerar-s-e-á o seu escudo equiva-
lente .a o da metrópole.
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 13

24.°

O disposto no artigo 140.° será aplicável aos documentos


escritos em língua ou dialecto falados na região que não consti-
tuam simples variante da língua portuguesa .

25.°

O preceito do artigo 180.° é aplicável às cartas que, expe-


didas pelas colónias mencionadas nas alíneas c), d) e e), hajam
de ser cumpridas na metrópole ou nas ilhas adjacentes, sendo
o prazo da dilação o que nas referidas alíneas está fixado para
a hipótese contrária .
26.°

A regra estabelecida no número antecedente aplicar-se-á


anàlogamente aos casos previstos no artigo 181 .°

27 .°

Na certidão a que se refere o artigo 232.° o oficial de dili-


géncias identificarg as testemunhas pelos seus nomes, -estado,
profissão e morada.
28.°

As informações que pelo referido Código são colhidas do


pároco e do regedor serão nas colónias obtidas do pároco ou do
missionirio ou da autoridade administrativa local.

29.°

Ao artigo 588.° -devem acrescentar-se :

Os governadores gerais ;
Os governadores -de colónia ;
Os governadores de província ;
Os governadores de distrito .
14 Portaría n.°, 9 :677, de 30 de Outubro de 1940

30 .'

Ao n.° 6;' do artigo 5'88,° devem ser aditadas as seguintes


palavras : «salvos - os casos prevenidos na 1 .8 -parte do artigo 595.0,
na 3.' parte !do -mesmo artigo e na segunda parte -do artigo 604.°x ..

31 .°

No n.° 2.° do,artigo X89 .° devem acrescentar-se as seguintes


palavras : «e os missïonários católicos portugueses» .

32 .°

-O disposto no artigo 6'31 .° é extensivo aos :

Governadores gerais ;
Governadores de colónia ;
Governadores de província;
Governadores de distrito ;
Presidentes das Relações ;
Procuradores da República.

Tratando-se do Presidente da República, a comunicação a


que se refere o § 1 .° será feita por intermédio do Ministério da
Colónias, que a transmitirá ao Ministério da justiça, seguindo-se-lhe
os demais trâmites .
Tratando-se de governadores ou de magistrados, aplicar-se-á
o determinado nos §§ 2.° e 3.° do citado artigo .

33 .'

As bolsas á que se referem os artigos 8'82 .°, 883.° e 884.°


serão as da metrópole, devendo para este efeito expedir-se as
cartas precatórias, que necessárias forem.

34 .°

Nos editais e anúncios exigidos pelo artigo 890.' serão os


móveis identificados por_'forma a determinar-se bem, a sua quali-
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 15

dade, natureza, substância, espécie e demais elemerrtos conve-


nientes à sua individuação ; e declarar-se-á também o valor em
que cada um vai à praça.

35 .°

~N2,s comarcas do Estado da índia, sempre que o executado


use da faculdade conferida pela 2.g parte do artigo 894.°, e bem
assim rios casos do artigo 904.°, deve o prétend-~.lte ou o arrema
tante depositar metade do preço oferecido, devendo o depósito
ser feito : quanto ao arrematante, no acto da praça, -e, quanto ao
pretend.ente, no prazo de cinco dias contados da data do ofereci-
mérito feito pelo executado.

36 .°

Nas comarcas do distrito judicial de Nova Goa ter-se-á em


consideração o seguinte, quanto às comunidades agrícolas :
a) A citação pessoal será feita na pessoa do administrador
ou de quem o substituir ;
b) As comunidades podem usar contra sacadores e terlos,
devedores e seus fiadores, ou contra aqueles que, por qualquer
modo, se constituírem depositários cie seus dinheiros, das acções
e privi6dgios que por lei competem à Fazenda Nacional para a
arrecadação dos seus créditos, nos termos do Código das Comu-
nidades, aprovado pelo diploma legislativo n.° 651, do Estado da
índia, de 30 de Março de 1933 ;
c) As comunidades serão representadas em juizo nos ter-
mos do artigo 12 .° do referido Código das Comunidades ;
.d) As penhoras por dívidas das comunidades poderão recair
nos seus créditos, rendimentos líquidos que constarem da folha
de receita e despesa e em quaisquer outros .'lucros, mas nunca
nos buas imobiliários ;
A penhora far-se-á sempre nas mãos do tesoureiro da comu-
nidade, com assistência do respectivo escrivão, que, sob sua
responsabilidade, dará dela conhecimento, dentro de vinte e qua
tro horas, ao administrador, para os fins convenientes ; o escrivão
do processei declarará no auto da penhora a quantia exequenda
e acessórios ;
16 Portaria n.° 9:677, de 30 de Outubro de 1940

e) Os proventos do jorro dos componentes das comunidades


e os direitos aos proventos futuros só podem ser arrestados ou
penhorados por dívidas dos mesmos às comunidades ou aos
sub-rogatários destas ;
Fora deste caso poderá arrestar-se ou penhorar-se ìmicamente
a importância vencida dos mesmos proventos à qual tenham direito
ao tempo da penhora.

37 .0

Nas comarcas de que trata o n .° 36 .° observar-se-á o seguinte,


quanto às famílias gentias :
a) A citação pessoal a qualquer membro de família gentia
será feita na pessoa do maioral ou do administrador dela, ou de
quem suas vezes fizer, conforme os usos e costumes mandados
observar pela lei civil ;
b) As famílias gentias que habitem a mesma casa e vivam
sob a mesma economia doméstica são consideradas, para ps efeitos
do Código de Processo, como sociedades familiares, regidas e
administradas, na conformidade dos respectivos usos e costumes,
pelo maioral ou administrador legitimamente constituído, o qual
será o competente para as representar em juízo.

38.°

Mantêm-se em pleno vigor os artigos 770.°, 771 .° e 772.° do


Código de Processo Civil aprovado por Carta de Lei- de 8 de
Novembro de 1876 .

Es'ta portaria substitui, para todos os efeitos, a Portaria


n.° 9 :605, publicada no Diário do Governo, de 20 de julho de 1940 .

Para ser publicada nos «Boletins Oficiais de todas


as colónias .

Ministério das Colónias, 30 de Outubro de '1940.-0 Ministro


das Colónias, Francisco José Vieira Machado.
Código de Processo Civil
LIVRO I
Da acção

TITULO I
Da acção em geral

CAPITULO I
Das disposições fundamentais

ARTIGO l .°
(Proibição da auto-(Iefesa)'

A ninguém é permitido restituir-se ao exercício do seu direito


por sua própria força e autoridade, salvo nos casos e dentro dos
limites declarados na lei .

Código Civil, artigo 2'53,5.°


A z.uto-defesa é excepcionalmente permitida, por exemplo, nos casos
e termos dos artigos 4'86.°, 2'354 .° e 2367.° do Código Civil.

ARmlco 2.0

(Correspondência entre o direito e a acção)

A todo o direito corresponde uma acção, destinada a fazê-lo


acautelar ou reconhecer em juízo e a 'torná-lo efectivo, excepto
quando a lei expressamente determinar o contrário .

` É, claro que estas epígrafes não são oficiais ; são da responsabili-


dade do autor desta publicação .
2-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
is Livro I, Título 1.-Da acção em geral

Como direitos desprovidgs de acção, porque a lei expressamente a


nega, podem citar-.se o direito à quantia emprestada a menor sem á devida
autorização (Cód . Civ., art . 1'535 .") e o direito à quantia ganha ao jogo
(Cód . Civ, art. 1,542°) .

ARTIGO 3 .°

(Necessidade do pedido e da contradição)

0 tribunal não pode resolver o conflito de interesses que a


acção pressupõe sem que a resolução' fhe seja pedida por uma
das partes e a outra seja devidamente chamada para deduzir
oposição . Mas em casos excepcionais previstos na lei podem
tomar-se providências contra determinada pessoa sem que esta
seja previam-ente ouvida .

Este artigo teve por fonte os artigos 1 .' e 3 .o do Projecto de Código


de Processo Civil italiano de CARNELUM . O Código italiano actual con-
sagra a mesma doutrina nos artigos 99 .° e '101 .'
Exemplos-de casos excepcionais em que podem tomar-se providências
contrá determinada pessoa sem. que esta seja ouvida : artigos 400 .° (resti-
tuição provisória de posse) 406 .° (providências cautelares), X410.° (arresto),
X4'23 .° (embargo de obra nova), 431 .°, § 3 .° (arrolamento), 94'7.0, combinado
com o 951^ (interdição por demência) , 960" (interdição por prodigalidade),
11412 ." (declaração da falência) .
Nos casos de arresto e de restituição provisória da posse o Código
proibe a audiência do arrestado e do esbulhados ; nos casos de providências
cautelares,'embargo de obra nova, arrolamento e falência permite a audiên
cia, mas não a exige. Pelo que respeita à interdição por demência e por
prodigalidade, - o arguido é ouvido, por si ou pelo seu representante ; mas
não lhe é facultada a oposição ao pedido como nos outros processos ou
s6 lhe é facultada depois de decretada a interdição .

ARTIGO 4 .°

(Espécies de acções e seu fim)

As acções são de simples apreciação ou declaração, de


condenação, . conservatórias, -constitutivas -e executivas . Têm
por fim :
a) As de simples apreciação, obter ìmicamente a declaração
da existência ou inexistência dum direito ou dum facto ;
b) As de condenação, exigir a prestação duma cousa ou
dum facto ;
Capítulo I-Das disposições fundamentais 19

,c) As cobservatórias, acautelar um prejuízo que se receia ;


d) As constitutivas, autorizar uma mudança na ordem juri-
dica existente ;
e) As executivas, dar realização efectiva ao direito
declarado .

A alínea a) pôs termo à dúvida que se levantava sobre a admissi-


bilidade, no nosso direito, de acções de simples apreciação . A tese da
admissibilidade foi sustentada brilhantemente pelo sr, Dr. Beleza dos
Santos (A simulação em direito civil, vol . 2.', págs. 1'4 e segs.) ; no mesmo
sentido me pronunciei no Processo ordinário, 2.' edição, pág. 240 . Mas
nos tribunais havia relutância em dar foros de legalidade a essa figura
judiciária ; era sobretudo na sua forma negativa que a acção de simples
apreciação encontrava resistências profundas . 'Tendo-se proposto uma
acção de negação de maternidade {acção de simples apreciação negativa),
a Relação de Coimbra não a considerou admissível (Veja-se o Proc. ord .
cit ., pág. 240) .
Hoje a questão está resolvida . Pode propor-se uma acção de simples
apreciação, quer sob a forma positiva (acção destinada a fazer declarar
a existência dum direito ou dum facto, como a acção de declaração'da
validade do casamento, a acção tendente a fazer reconhecer como verda-
deiro um título de crédito, etc .) quer sob a forma negativa (acção proposta
para se obter a declaração da inexistência dum direito ou dum facto, como
a acção de negação de paternidade ou maternidade, a acção de impugnação
da legitimidade dum filho) .
O Supremo Tribunal de Justiça decidiu recentemente que é lícito
ao pretenso pai propor acção destinada a convencer judicialmente
certo indivíduo de que não tem direito a arrogar,se a qualidade de
filho dele.
O que caracteriza a acção de simples apreciação e a distingue da
acção de condenação é a ausência de lesão ou violação do direito . A acção
de condenação pressupõe um facto ilícito, isto é, que o direito já foi vio
lado; a acção de simples apreciação é anterior à violação do direito ou
tudo se passa como se o fosse. Por outras palavras, a acção de condena-
ção representa uma reacção contra determinada violação da ordem jurí-
dica, contra a falta de cumprimento duma obrigação ; e como prata pode
consistir ou na- prestação duma coisa ou na prestação dum facto, a acção
tem por objecto exigir a prestação que deixou de ser satisfeita .
'Na acção de simples apreciação não ,oe exige do réu prestação alguma,
porque não se lhe imputa a falta de cumprimento de qualquer obrigação.
O autor tem simplesmente em vista pôr termo a uma incerteza que o
prejudica : incerteza sobre a existência dum direito ou dum facto.
A ;acção de condenação é também uma acção de apreciação ; antes
de condenar na prestação o juiz tem d(e apurar se o direito do autor
existe . Mas a apreciação aparece aqui como meio para se chegar a um
20 Livro I, Título I - Da acção em geral

fim último : a condenação ; ao passo que na acção de simples apreciaçãó,


o fim único da actividade jurisdicional é a apreciação .
Daí vem que a -sentença proferida na acção de simples apreciação
não é título executivo quanto ao objecto da acção ; visto que não condena
o réu a qualquer prestação, o autor não pode, com base nela ; promover
execução contra o ré1Y. Tal sentença só pode servir de base à execução
por custas, porque, quanto a estas, contém uma condenação.
Pelo contrário, a sentença proferida em acção de condenação, desde
que a julgue procedente, é título executivo contra o réu, porque há-de
condená-lo a prestar uma coisa ou um facto . E a significação clara desta
condenação é a ameaça da sanção executiva.
Quando o juiz diz «condeno o réu a pagar ao autor a quantia de . . . x,
nesta condenação vai implícita a seguinte cominação : «sob pena de, não
o fazendo, se proceder a execução sobre os seus bens> .
Exemplo característico da acção de condenação é a acção de dívida .
Não se suponha, porém, que só no domínio do direito das obrigações é que
surgem acções de condenação ; aparecem igualmente no domínio dos direi
tos reais, pois que o facto ilícito do réu tanto pode consistir na falta de
cumprimento duma abrigaçãa contraída, como na ofensa dum direito real .
A acção de reivindicação dum prédio é uma acção de condenação ; se
o juiz reconhecér que o réu está de posse doe prédio que pertence ao autor,
tem de condenar aquele a entregá-lo a este ; e caso o réu não obedeça à
condenação, o autor tens o direito de promover, com base na sentença, .
execução para a entrega do prédio.

A alínea c) define acções conservatórias as que têm por fim acau-


telar um prejuízo que se receia .
0 Código Civil contrapõe as acções conservatórias às persecutórias .
Com efeito, no n .° 9 .o do artigo 243 .o dá ao tutor legitimidade para propor-
acções conservatórias, sem necessidade de qualquer autorização, ao passo
que, tratando-se doe acções persecutórias, exige que o tutor obtenha auto-
rização do conselho de família ; e o n .' 17 .° do artigo 224 .° áonfirma esta
doutrina. Também o artigo 2083 .` confere ao cabeça-de-casal o exercício
de direitos conservatórios ; e o artigo 59 .° impele ao curador provisório dos
bens do ausente o dever de propor as acções conservatórias que não
possam retardar-se sem prejuízo do ausente, disposição que é aplicável
aos administradores dos bens do pródigo, por virtude do que se determina
no artigo 351 .o
Sobre estes textos se fez a seguinte construção : as pessoas investidas
de poderes de mera administração, como são efectivamente os tutores,
curadores e o cabeçarde-casal, podem propor acções conservatórias, mas
não podem propor acções persecutórias, salvo se obtiverem autorização
do conselho de família ou do juiz, conforme os casos, ou se for urgeprte
a proposição da acção .
Esta doutrina, cujo reflexo se encontra no artigo 12 .o do Código de
Processo, é que dá interesse à distinção entre acções conservatórias e
persecutórias  A alínea c) caracteriza as acções conservatórias desta
Capítulo I -Das disposições fundamentais 21

maneira : têm por fim acautelar um prejuízo que -se receia. Se a acção
visa, pois, a reagir contra um prejuízo já efectivado, é persecutória ;
se visa a precaver contra um prejuízo que ;ameaça pi+oduzir-se, é conser-
vatória.
Exemplo típico de acções conservatórias são as providências caute-
lares, a que se refere o artigo 405 .", assim como o ai-resto'(art : 4,09f),
o embargo de obra nova (art. 420:°) e a imposição de selas e arrolámento
(art . 4:.9 .°) . Estes processos têm' no Código a configuração de actos pre-
paratórios duma acção, podendo também apresentar-se sob a forma de
incidentes (art . 3!91 .o) .
Mas a acção conservatória pode ter carácter autónomo . É o que
sucede com ;a acção possessória de prevenção, provocada pelo justo receio
de turbação ou esbulho (Cód . Civ . a rt. 485 .o , Cód, de Proc ., art . 1032 "), com
os embargos de terceiro funcionando como meio preventivo (art . 1039:°),
com a acção de despejo por não convir a continuação do arrendamento
(art . 9`i0 .0) e com a acção de prevenção contra o dano (art . 1051 .°) .

As acções constitutivas têm por fim autorizar uma mudança na ordem


jurídica existente «alínea d) . Ao passo que a acção declarativa (de simples
apreciação ou de condenação) reconhece ou aprecia uma situação preexis
tente, a acção constitutiva cria uma situação nova . Daí vem que os efeitos
da sentença proferida na acção declarativa se produzem ex tune, enquanto
os da :,entença proferida na acção constitutiva se produzemn ex nunc .
A acção de divórcio, a acção de separação de pessoas e bens são
acções constitutivas, porque se d stinam a criar um estado jurídico novo :
o estado de divorciado, o estado de separado . A criação deste estado,
que importa uma mudança na ordem jurídica existente, . é obra da sentença
que julga procedente a acção .
Deve também considerar-se constitutiva a acção de investigação de
paternidade ilegítima, porque a sentença favorável ao autor constitui-o
Tio estado de filho ilegítimo de certo indivíddo.
Na esfera dos direitos reais são numerosos os exemplos de acções
<".onstitutivas . As acções de expropriação por utilidade particular para a
constituição -da ,servidão de aqueduto -de cessação ou mudança de servidão,
de destrinça de foros e censos, de divisão de águas, de divisão de coisa
,comum (art . 1051 .') j de constituição da servid'ã'o de passagem para prédios
encravados (Cód . 'Civ., art . '2309 .°), de aquisição de comunhão em parede
ou mui^o alheio (Cód . Civ, art . 2328f), etc ., são constitutivas.

As acções executivas visam a dar realização efectiva ao direito


declarado (alínea e) . Esta noção ajusta-se principalmente à acção exe-
cutiva que é precedida de acção declarativa, isto .é , à execução fundada
em sentença . Nesta o tribunal declarou o direito e condenou o réu a
satisfazer certa prestação ; se o condenado não cumpre voluntàriamente
:. obrigação, o autor, querendo obter a realização efectiva do seu direito
declarado na sentença, promove contra o réu a acção executiva. Promo-
vendo-a,, solicita os órgãos jurisdicionais do Estado para que desenvolvam
22 Livro I, Título I -Da acção em geral

a sua actividade no sentido de lhe conseguirem, contra ou sem a vontade


do devedor e à custa do património deste, o mesmo benefício que lhe
traria o cumprimento voluntário da obrigação, ou um benefício equi-
valente.
Mas a acção executiva nem sempre tem por base uma sentença ;
pode assentar sobre os outros títulos executivos de que se fala nos n .°' 2 .'
a 5 .° do artigo 46 .o Em tal caso o direito, cuja, satisfação vai pedir-se na
acção executiva, não foi prèviamente apreciado e declarado pelos órgãos
jurisdicionais ; entretanto, a circunstância de a lei atribuir eficácia exe-
cutiva a tais títulos significa que o direito neles exarado se considera .
declarado . Uma vez que a ordem jurídica consente que a execução se
promova com. base -em títulos extrajurisdicionais, segue-se que o direito
aí consignado apresenta aos olhos do legislador, aquele grau de certeza
e segurança necessária para se sujeitar o devedor à responsabilidade
executiva, isto é, para que o órgão da execução expropriti o património
do devedor e dê, ã. custa dele, satisfação ao direito do credor .
Tem-se, portanto, como declarado o direito constante dos títulos
executivos extrajudiciais.

~CAPÍTULO 11

Das partes

SECÇAO I

Personalidade e capacidade judiciária

ARTIGO 5 .°

('Conceito e medida da personalidade judiciária)

A personalidade judiciária consiste 1na susceptibilidade de


ser parte . Quem tiver personalidade jurídica tem personalidade
judiciária .

ARTIGO 6 .°

(Personalidade judiciária sem personalidade jurídica)

A herança cujo titular ainda não esteja determinado e patri-


mónios autónomos semelhantes, as associações legalmente exis-
tentes e as sociedades civis não familiares podem ser partes,
embora-não tenham personalidade jurïdiça .
Capítulo II - Das partes 23

Alrria0 7 .°

(Personalidade judiciária das sucursais)

As - sucursais, agências, filiais ou delegações podem demandar


e ser 'demandadas quando a acção proceder de acto ou facto
praticado por, elas .
Único . Se a administração principal tiver a sede ou o
domicilio em país estrangeiro, as sucursais, agências, filiais ou
delegações estabelecidas em Portugal podem demandar e ser
demaridas, ainda .que a acção derive - de acto ou facto praticado
por aquela, quando a obrigação tiver sido contraída com um
portugu.és .
Alrrifjo 8 .°

(Personalidade das sociedades irregulares)

As sociedades e associações que não se acharem legal-


mente constituídas, mas que procederem de facto como se o esti-
vessem, não poderão opor, quando demandadas, a irregularidade
da sua constituição ; mas pode também a acção ser proposta
contra as pessoas que, segundo a lei, tenham responsabilidade
pelo respectivo acto ou facto .
§ único . Sendo demandada a sociedades ou a associação,
é-lhe lícito deduzir recon.venção .

Aarmo 9 .0

(Conceito e medida da capacidade judiciária)

A. capacidade judiciária consiste na susceptibilidade de


estar, por si, em juizo -e tem por base e 'por inedida a capacidade
do exercício ; de direitos .

O Código distingue a personalidade judiciária da capacidade judiciária .


Faz consistira primeira na susceptibilidade de ser parte, como autor ou
como réu, e a segunda na susceptibilidade de estar, por si, em juizo como
autor (capacidade judiciária activa), ou como réu (capacidade judiciária
passiva) . --
Esta distinção é paralela à que o Código Civil estabelece entre a capa-
cidade de direitos ou personalidade jurídica (Cód . Civ., art. 1 .°)` e a capaci-
dade do exerc~cio de direitos (Cód . Civ., arIts . 5., 9'8' .0, 314.° 337 .°, 3'40.°) .
24 Livro 1, Título I -Da acção em geral

Em princípio há coincidência entre a,personalidade jurídica e a per-


scnalidade judiciária (art . õ :'), assim como entre a capacidade db exercício
de direitos e a capacidade judiciária (art. 9 .") . 0 menor e o interdito por
clemência têm personalidade ju=rídica e por isso têm personalidade judi-
ciária ; mas como não possuem a capacidade do exercício de direitos, estão
também privados de capacidade judiciária (art . 10.") .
0 principio da coincidência entre a personalidade jurídica e a judi-
ciária e entre a capacidade de exercício de direitos e a capacidade judiciária
não é absoluto . Há desvios ; há casos ekn que se reconhece personalidade
judiciária a entidades que não têm personalidade jurídica (arts . 6 .', 7." e 8 ."),
e em que se reconhece uma certa capacidade judiciária a pessoas incapa-
zes de exercer os seus direitos (art . 13 .") . 0 acórdão do Supremo Tribunal
de Justiça de 2.5-3 :'-91 27 (Rev . de Leg., ano 60 .0, pág . 165) atribuiu indivi-
dualidade jurídica às sucursais, agências e filiais ; mas a doutrina não é de
aceitar . Veja-se o artigo A sociedade e as agências, sucursais ou, ,filiais,
no Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, vol . 1'5 .", fase . 2:", págs . 3,58
e seguintes . As sucursais, agências, filiais ou delegações são meros órgãos
através dos quais se exerce a actividade da administração principal ; são
órgãos de administração local, inteiramente subordinados à superintendên-
cia da administração central . Não têm personalidade jurídica . Por se abrir
uma sucursal ou agência não se modifica nem se restringe a personalidade
jurídica da sociedade ; unicamente se facilita a sua acção, criando-se con-
dições favoráveis ao exercício da actividade social numa determinada
localidade.
Para levar mais longe a facilidade de moviméntos, a lei permite que
as sucursais, agências, etc ., posto que não tenham personalidade jurídica,
demandem e sejam demandadas ; quer dizer, atribuiu personalidade judi
ciária às sucursais e outras delegações da administração central, a fim
de se realizar mais completamente o objectivo a que obedece a criação
de tais órgãos .
Mas a sua personalidade judiciária é limitada : só podem demandar
e ser demandadas quando a acção proceder de acto ou facto praticado
por elas, Mesmo neste caso, a personalidade judiciária dos órgãos locais
não faz -dc;saparecer a da sociedade . A acção, em vez de ser proposta
pela sucursal ou contra a sucursal, pode ser proposta, em nome da socie-
dade, pela administração principal ou contra esta .
Não sucede o mesmo quando a acção emerge de acto ou facto pra-
ticado pela administração principal ; então só esta pode demandar ou ser
demandada . Exceptua-se o caso de a administração principal ter a sede
ou o domicílio em país estrangeiro (art . 7", § único) .
Confunde-se, por vezes, na prática o problema da personalidade ou
capacidade judiciária da administração principal e das sucursais com
o problema da competência do tribunal .
Nos termos do § '4 ." do artigo 85 .", o tribunal competente para a
acção contra uma sociedade é o da sede da administração principal ou
o da sede da sucursal conforme a acção for dirigida contra aquela ou
contra esta . Suponhamos que, em consequência dum acto praticado pela
Capítulo II-Das partes 25

administração principal do Banco dte Portugal, se propõe uma acção em


Coimbm contra a Agência dásse Banco. Já tem sido julgado que, em
casos como este, se verifica uma incompetência relativa em razão do
território : a acção devia ser proposta em Lisboa, sede do Banco, e não
em Coimbra, sede da Agência.
A solução é errada . Confunde-se a questão de competência com a
questão de personalidade judiciária . 0 tribunal de Coimbra "é competente
na hipótese figurada, em vista do que se dispõe no § 4 .° do artigo 85 .o :
desde que a acção foi dirigida contra a Agência de Coimbra, era no tri-
bunal da sede da agência que a acção tinha de ser proposta. 0 que
sucedia era que a Agência de Coimbra carecia de personalidade para ser
demandada ; derivando o pleito de acto praticado pela administração prin-
cipal, não podia a acção ser dirigida contras, agência, havia de ser dirigida
contra a administração principal do Banco.
0 artigo 8 .' resolve, no seu aspecto judiciário, o problema das socie-
dades irregulares . Estas não têm personalidade judiciária activa, a não
ser para formular pedidos reconvencionais ; mas têm personalidade judi
ciária passiva, porque podem ser directamente demandadas, sem que lhes
seja lícito opor a irregularidade da sua constituição . Quem haja de propor
a acção pode, conforme mais lhe convier, ou dirigi-lá contra a própria
sociedades ou contra aqueles que, em nome dela, praticaram o respectivo
acto ou facto .
Sobre o artigo 8 . 6 pode ver-se a Revista de Légisiação, ano 72 .°,
págs. 198, 209, 225 .
Ern vista do § único do artigo 7 .', se o dono dum navio abalroador
for o Estado ou uma pessoa jurídica estrangeira, pode a acção ser- pro-
posta contra o agente geral dessa entidade em Portugal, desde que o
lesado seja português (ac . do S . T, J ., de 27--5 .o-941, Rev. de Leg ., ano 74.°,
pág. 170) . Na hipótese o navio -abalroador pertencia ao Lloyd Brasileirio,
património do Estado do Brasil .

ARTIGO 10 .'

(Representação dos incapazes)

Os incapazes só podem estar em juizo por intermédio dos


seus representantes, excepto,nos actos que são admitidos a exer-
cer pessoalmente .
cínico : Se houver conflito de interesses iF,-rtre o inca-
paz e o seu representante ou o cônjuge, ascendentes ou descen-
dentes deste, será o incapaz representado na causa por um
curador especial . Sucederá o mesmo quando o conflito surgir
entre vários incapazes que Tenham o mesmo representante . Neste
26 Livro I, Título I- Da acção erra geral

caso a cada grupo de interessados em conflito será nomeado um


curador .
A nomeação do curador pertencerá ao juiz da causa, ouvido
o Ministério Público .

O corpo do artigo teve por fonte o § 1.^ do artigo 9.° do Código ante-
rior. O § único teve por fonte o artigo 1'5!3.° do Código Civil ; mas alargou
e completou a disposição deste artigo. Veja-se o § único do artigo imcy
disto.
0 menor é representado em juízo, como autor ou como réu, pelo
pai e, na falta, ausência ou impedimento deste, pela mãe (Cód. Civ .,
arts. 138.°, 1:39.o, 1515 .') ; tendo falecido ambos os pais ou estando impedidos
de exercer o poder paternal, a representação compete ao tutor (Cód. Civ .,
arFs. 185 .- e 243 .*) .
O interdito por demência ou por surdez-mudez é representado pelo
tutor (Cód. Civ., arts . 321 .0 e 339 .o)1 ; o interdito por prodigalidade, pelo
curador (Cód. Civ ., art. 349 .*) ; o -ausente, pelo curador provisório (Cód. Civ .,
art. v59 .') ou pelos curadores definitivos (Cód . Civ , art. 71.') ,; o falido, pelo
administrador da falência (Cód. de Proc. Civ ., art. 11'58 .") .
Mas se a lei, substantiva ou processual, admitir o incapaz a exercer
pessoalmente certos actos, pode ele estar em juízo por si no tocante
F esses actos ou às causas que deles derivem . É o que acontece : quanto
ao menor, por exemplo, que pode contrair obrigações sabre coisas de arte
ou profissão em que seja perito, contrair empréstimos quando tenha bens
com livre administração ou quando sejam para alimentos e se acharem
ausentes as pessoas a quem pertencia autorizá-los, etc . (Cód. Civ., arts. 299 .',
ri .* l.a, 11536 .', ri ." 2 .° e 3.`) ; quanto ao interdito por demência ou ;por
surdez-mudez, ~ a interdição for limitada a certos actos (Cód. Civ.,
arts. 314 .' e 318.,o) ; quanto -ao interdito por prodigalidade, relativamente
aos actos de carácter não patl-imonial, e mesmo em relação aos actos
patrimoniais que a sentença o não tenha inibido de praticar (Cód. Civ.,
arts. 344 .' e 345 .') ; quanto ao falido, relativamente ao exercício dos seus
direitos exclusivamente pessoais ou estranhos à falência (Cód. de Proc..
Civ., art. 1'15'8 .°, § 2.°) . (Veja-se Alberto dos Reis, Processo ordinário,
`L .' ed., pág. 332) .

ARTIGO 11 .°

(Nomeação de representante)

Quando o incapaz mão tiver representante, poderá reque-


rer-se a nomeação 'dele ao tribunal competente. Pode também
requerer-se ao tribunal da causa a nomeação de um curador
provisório, havendo urgência na proposição da acção. Neste
último caso, logo que a acção 'seja proposta, provocar-se-.á, no
Capítulo II- Das partes 27

tribunal competente, a nomeação de representante geral, que


virá ocupar no processo a posição do curador provisório .
único. As nomeações a que se referem . este artigo e o
único do artigo antecedente -devem ser requeridas pelo Minis-
tério Público ou por qualquer parente até ao sexto grau, quando
o incapaz tenha -de ser autor; quah-do haja de figurar como réu,
serão requeridas pelo autor.

É o desenvolvimento do que se dispunha 'no § 2 ." do artigo 9 ." do


Código anterior .
O tribunal competente a que o texto se refere é o seguinte :
a) Tratando-se de menor, como o seu representante, na falta de pais,
é o tutor e este há-de ,$er nomeado ou confirmado pelo conselho de família
(Cód . Civ ., arts. 203.0 e 224 .°, n ."" 2 ." e 3.o), deve aplicar-sre o disposto no
artigo por iriso, ou há inventário, ou não há : se há, pede-se a
nomeação de .tutor no juízo do inventário e por dependência do respectivo
processo (art . 1490.0, § único) ; se não há, pede-se a nomeação no juízo do
domicílio do menor (aplicação, por analogia, da regra gerai do art . 85 .") ;
b) 'Tratando-ise de interdito por demência surdez-mudez ou pródiga-
lidade, a nomeação de novo tutor ou curador há-de ser pedida no juízo da
interdição (arte . 9'54 .°,959 " e 960 .', § único) ;
c) Tratando-se de ausentes ou de falidos, a nomeação há-de ser
requerida 'ao tribunal da curadoria ou da falência .

ARTIGO 12 ."

(Poderes do tutor e do curador)

Para a proposição de acções carece o tutor de autorização


do conselho de família e o curador de autorização judicial, salvo
se a acção for meramente conservatória ou se da demora da
sua instauração puder resultar a extinção do direito ou de qual-
quer garantia.

Vejam-se os artigos 224 .", n." 17 .', '59 ." e 351 .0 do Código Civil .
Veja-se também o § '5 ." do artigo 2 ." do Código anterior, que se
ampliou . Veja-se a nota ao artigo 4 ."
A noção dé acções conservatórias encontra-se na alínea c) do artigo 4 :'
A autorização do conselho de família obtém-se pelo processo do
artigo 14'90." Não há, neste caso, que donstituir' o cónselho, pois já está.
constituído ; só há que pedir a autorização .
28 Livro I, Titulo I-Da aeçãn em geral

Para a obtenção de autorização judicial por parte do curador é que


não há no Código processo especial regulado . Não vá daqui concluir-se
que se hão-de seguir os termos do processo comum . Basta um simples
requerimento no processo de interdiçãó . 0 juiz coTicederá ou denegará
a autorização, depois de colher as informações que reputar necessárias .

ARTMO 1'3 .°

(Capacidade judiciária, dos menores com azais de 1,.4 anos


e dos interditos por prodigalidade)

Os menores não emancipados com mais de catorze


anos
e, os interditos por prodigalidade serão admitidos a intervir nas
acções em que sejam partes e devem ser citados quando tiverem
a posição de réus .
único . Se o menor perfizer os catorze anos no decurso
ela causa e depois da citação do seu representante, não tem
ele ser citado, embora seja réu, mas pode intervir por sua
iJniciativa .

Teve por fonte o § 3 .° do artigo 9 .0 do Código anterior . Mas regu-


lou-se também a capacidade judiciária activa dos menores púberos e dos
interditos por prodigalidade e resolveu-se, no § único, uma dúvida da
jurisprudência.
Veja-se o artigo 563 .o
A intervenção dos menores ou dos interditos, admitida por este
artigo, é uma figura sui generis. Nada tem que ver com a assistência
(art. 340 .°), nem com a intervenção prinçipal (art . 35U) . Por outro lado,
o incapaz não está para com o seu representante na mesma posiçíio em que
um litisconsorte está para com outro ou em que a parte está para com
o seu mandatário judicial . 0 incapaz coopera com o seu representante :
deve auxiliá-lo e não embaraçá-lo .

ARTico 14 .°

(Representação das pessoas impossibilitadas de receber a citação)

As pessoas que por qualquer das circunstancias indicadas


nos §§ 1 .°, 2 .° e 3 .° do artigo 236 .° se encontrarem de facto
impossibilitadas de receber a citação para a causa serão repre
sentadas nesta por um curador nomeado nos termos do mesmo
artigo
1 .<> Cessará esta representação quando for julgada des-
necessária ou quando se juntar documento que prove ter sido
Capítulo II - Das partes 29,

declarada a interdição. A desnecessidade da curadoria será apre-


ciada sumariamente, a requerimento do curatelado, que pode
produziu quais-quer provas .
§ :2 .° Terrdo - sido decretada a interdição, será imediata-
,mente citado o tutor para vir ocupar no processo ò lugar do
curador..

Está em relação com o artigo 236 .o Os dois textos tiveram por fonte
os artigos 1'2 .° e do Código anterior. Mas este Código referia~
unicamente à impossibilidade proveniente de demência ; agora prevêem-se
outros casos : qualquer impossibilidade derivada de causa permanente,
como surdez-nudez, paralisia, cegueira, e a que provier de doença grave
e aguda que ponha em risca a viria do citando .
Dis3utiu-se recentemente se o indivíduo declarado demente nos ter-
mos do § 1 " do artigo 236 .° podia usar de acção de simples apreciação ou
declaração, admitida pela -alínea a) do artigo 4 .0, para fazer verificar a sua
sanidade men'ta'l .
Os factos apresentavam-se assim : requerera-se inventário por morte
de dois cônjuges e o cabeça-de-casal declarara que o único filho dos
inventariados, Manuel da Costa se achava notòriamente demente. Orde
nada a citação dele, o oficial de diligências certificou que o citando apa-
rentava desarranjo mental ; foram produzidas e inquiridas testemunhas
para prova da notoriedade da demência . Nesta altura -o pretenso demente-
tentou demonstrar que se achava em seu perfeito juízo : requereu que
fossem ouvidas testemunhas por ele oferecidas e declarou que estava .
pronto a submeter-se a qualquer exame . Mas o juiz não o admitiu a fazer
a prova e julgou justificada a demência notória, pelo que lhe nomeou
curador que o representasse no inventário .
Tendo este seguido os seus termos, foi proferida sentença que adju-
dicou ao filho dos inventariados como único herdeiro, todos os bens des-
critos. A, sentença transitou em julgado e o inventário findou .
Mwi ficou a pesar sobre o Costa o estigma da demência . O § 4 .° do
antigo 220 .* esclarece que a nomeação de curador é restrita a cauda e sem
outíos efeitos . Não obstante, Manuel da Costa sentia, em volta de si, as
consequências do despacho que no inventário o declarara demente ; este
despacho criara para ele um estado de desconfiança e incerteza que
o prejudicava económica e moralmente na sua vida privada e social .
Couto libertar-se de tal situação?
Entendeu que tinha o direito de propor uma seção ordinária de
sihiples apreciação, nos termos da alínea a) do artigo 4 .*, para fazer
declarar judicialmente que se achava no pleno gozo das suas faculdadës
mentais,; e assim o fez, indicando como réus todos os que haviam contri-
buído parra a declaração 'da demência : cabeça-de-casal, oficial de diligên-
cias, testemunhas, Ministério Público.
Os réus alegaram que o meio empregado era impróprio, pois devia
ter-se 14nçado mão do processo facultado pelo § 1.° do artigo, 1'4:°
:3 0 Livro I, Título I -Da acção em geral

O Supremo 'Tribunal de dustiçp, em acórdão de 23 de Março de 1943


,(Boi. Of., ano 3.°, 73), confirmando as decisões de 1.* e 2.' instáápcia,
julgou a acçãa meio idóneo e os réus partes legítimas .
Do processo estabelecido pelo § 1.° do artigo 14' não .podia o -finte .
xessado socorrer-se, diz o acórdão, por ter findado o inventário. Com o
termo deste extinguira-se a curadoria ; ora o meio organizado pelo . § 1.*
do artigo 14.° destina-se 'a fazer julgar desnecessária uma curadoria que
.ainda existe e funciona.
Assim é, na verdade,
Não podendo o Costa fazer uso do meio facultado pelo dito parágrafo,
,só lhe restava o recurso â acção ordinária. Fr o emprego desta acção
estava perfeitamente justificado, em vista do prejuízo que lhe -causara e
continuava a causar a declaração de demência proferida no inventário.
Bem se compreende que a sua actividade fosse, a cada passo, embaraçada
pelo atestado de demência lavradio contra ele . Convinha-lhe afastar esse
obstáculo posto no seu caminho, provocando uma sentença que procla-
masse a sua sanidade de espírito e portanto a inexistência do facto que
o estava prejudicando .
O acórdão aflora, mas não resolve, este ponto : poderá fazer-se uso
do meio regulado no § 1.* do artigo 14' quando o interessado alega e pre-
tende demonstrar que nunca esteve demente ou que nunca existiu a inca-
pacidade áeclarada?
No caso sobre que recaiu o acórdão o pretenso demente quis, antes
de proferido o despacho de nomdação do curador, fazer a prova de que
<éstava em seu perfeito juízo ; não lhe foi admitida a contradição. Deci
diu-4se mal, a nosso ver . 0 artigo 236 " não manda ouvir o arguido,; mas
também não proíbe que seja ouvido . Se ele vem espontâneamente ao
processo e se propõe convencer o juiz de que é vitima duma argufçao
infundada, não se vê razão para que não seja admitido a produzir as suas
provas, dentro dos limites apertados do meio sumário estabelecido
nos §§ 1.' a 3.° do artigo 236'
0 que a lei quer certamente é que triunfe a verdade, que se instale
a curadoria sòmente quando seja necessária; não' deve, por isso, o juiz
repelir uma pirava, que se lhe oferece, tendente a demonstrar a desneees-
.szdade da providência .
Para indeferir o requerimento do Manuel Costa o que fez o juiz?
Julgou-o :primeiro em estado de demência, com base ílnicamente nas
provas produzidas pela parte contrária, e depois z+ecusou-se a ouvi-lo, por
já estar declarado incapaz!
Surgia agora a questão : seria lícito ao Costa, enquanto o inventário
esteve pendente, servir-se do meio regulado no- § 1' do . artigo 14.° para
fazer cessar a curadoria? Em termos mais gerais : poderá o curátelado
socorrer-se desse meio quando alegue que nunca esteve em condições de
lhe ser instituída a curadoria, porque nunca existiu a impossibilidade de
receber a citação?
0 acórdão não chega a pronunciar-se sobire -este ponto ; mas, com
fundamento nas palavras <cessará esta representação>, parece inclinar-se
Capítulo II - Das partes 31

para a opinião de que o meio posto pelo parágrafo à disposição do cura-


telado se destina a obter, não a justificação de quo nunca existiu, mas
a de qu, já acabou a incapacidade reconhecida e declarada .
Mas a verdade é que nem a letra nem o espírito do § 1 .1 do artigo 14.°
conduzen a tal solução . 0 que o texto diz é que a representação cessará
quando for julgada desnecessária a requerimento do curatelado . Ora
a desnew,,essidade tanto pode provir dp facto de ter cessado 'a causa da
,curadoria, como do facto de nunca ter existido tal causa.
Não se objecte que a alegação de nunca ter existido a incapacidade
ofende o que, nos termos do artigo 236 .«, foi reconhecido e declarado por
despacho judicial. A objecção não procede , 'pela razão simples de que,
não tendo o curatelado sido ouvido nem convencido, o despacho não o
vincula .
Es1:a consideração reforça a doutrina acima exposta. Há toda a
vantagem em admitir o arguido a produzir, antes da decisão, a prova da
desnecessidade da curadoria, porque se lhe tira a possibilidade de vir,
mais tarde, requerer o levantamento com o fundamento de nunca ter
existido a incapacidade declarada . Se ele foi admitido a produzir provas
e -apesar disso se julgou necessária a curadoria, então é que só pode
requerer a cessação com o fundamento de ter desaparecido a causa da
provídência .
O que importa é que o meio sumário dos §§ 1 .° a 3 .° do artigo 236 .°
oenão converta num longo e complicado debate contencioso . O juiz deve
admitir o interessado a defender-se e produzir provas, contanto que se
não ultrapassem es limites impostos pela índole sumária da investigação
organizada pela lei, isto é, que o incidente se não arraste e tudo se apure'
dentro de prazo curto .

Alrrloo 15 .0

(.Defesa do ausente e do incapaz pelo Ministério Público)

Se o ausente em parte incerta ou o seu represeintante ou


o representante do incapaz não deduzir qualquer oposição,
incumbirá ao Ministério Público a defesa dos direitos do inca
paz ou ausente, para o que será devidamente. citado, correndo
novamente o prazo para a contestação . Quando o Ministério
Público representar o autor, será nomeado um defensor
oficioso .
§ único . Cessará a representação do Ministério Público
ou do delmsor oficioso logo que o ausente compareça ou
o seu representante ou o do incapaz constitua mandatário
judicial..
32 Livro I, Título I -Da acção em geral

ARTiGo 16 . 0

(Representação dos incertos)

Quando a acção seja proposta únicamente contra incertos,


serão estes representados pelo Ministério Público . Se o Minis-
tério Público representar o autor, será Inomeado defensor oficioso
para servir como agente especial do Ministério Público na
representação dos incertos .
único . Cessará esta representação logo que se apresente,
para intervir como réu, alguma pessoa cuja legitimidade seja
reconhecida por sentenca .

Este artigo e o anterior tiveram por fonte os artigos 13 .o e 14 .' do


Código de 1876 e o artigo 1. .° do Decreto n .' 21 :287.
A intervenção do Ministério Público no caso deste artigo e do ante-
rior é a titulo e na qualidade de parte principal.
Se o Ministério Público não for citado no caso previsto pelo
artigo 15 .°, verifica-ase a nulidade a que se refere o artigo 1951

ARTiGo 17 .°
(Capacidade judiciária activa do marido)

O marido pode, sem outorga da mulher, propor quaisquer


acções, excepto as que tenham por fim fazer recdnhecer a pro-
priedade perfeita ou imperfeita de bens imobiliários comuns ou
próprios da m~u!l'her .

ARTIGO 18 .°

(Capacidade judiciária activa da mulher)

A mulher casada tem a mesma capacidade judiciária activa


que o marido, quando, por ausência ou impedimento deste, lhe
pertença a administração dos bens do casal .
Enquanto o marido exercer a administração, a mulher só
poderá propor acções destinadas a fazer valer os seus direitos
próprios e -exclusivos de natureza extra-patrimonial, para o que
não carece de autorização marital .
§ único . Nos casos previstos no artigo anterior e na pri-
meira parte deste artigo a outorga da mulher ou a autorização
cio marido, quando necessária, será suprida judicialmente se for
recusada sem justo motivo ou não puder ser pedida .
Capítulo II-Das partes 33

ARTIGO 19 .°

(Capacidade judiciária passiva dos cônjuges)

Serão propostas contra o marido e contra. a mulher :


1 .° As acções emergentes de actos ou factos praticados
por ambos os cdnjúges ;
2.° As acções emergentes de acto ou facto praticado por
um dos cônjuges, em que pretenda obter-se sentença que venha
a executar-se sobre bens comuns ou sobre bens próprios do
outro cônjuge ;
3.° As acções reais imobiliárias e todas aquelas que tenham
por fim fazer reconhecer ou constituir qualquer ónus sobre bens
imobiliários de um ou de ambos os cônjuges ou extinguir ónus
constituídos em 'benefício -dos mesmos bens.

ARTIGO 24 .°
i!Capacidade judiciária dos cônjuges depois da separação)

Autorizada a separação de pessoas e bens, cada um dos


cônjuges adquire plena capacidade judiciária, como se o casa-
mento estivesse dissolvido .
,No caso de simples separação judicial de bens, a mulher
pode demandar e ser demandada, sem autorização nem ilnter-
vençao do marido, desde que se trate de acções relacionadas
com o exercício da sua administração . Em tudo o mais se obser-
vará o disposto nos artigos 17 .° a 19.°
Os artigos lt<.° a 20.° regulam a capacidade judiciária do marido e
da mulher.
Alterou-se profundamente o regime do Código Civil, que aliás já tinha
sido modificado, no tocante à mulher, pelo artigo X44.° do Decreto n.o 2,
de 25 de Dezembro de 1910. Vejam-se os artigos 1191.o e 1192.° do
Código Civil.
No domínio do Código anterior era questão muito agitada a de saber
se a comunicabilidade das dívidas entre os cônjuges podia ser discutida
e resolvida no processo de execução, mediante o mecanismo dos embargos
de terceiro . Havia quem entendesse que, embora a dívida tivesse sido
contraída sômente par um dos cônjuges ou só um deles tivesse sido
demandado e condenado, era lícito ao credor fazer penhorar bens comuns,
desde que a dívida fosse comunicável ; isto é, desde que tivesse sido con-
traída em benefício comum do casal. Penhorados os bens comuns, o
outro cônjuge podia dedilzir embargos de terceiro, ou para ilidir a pre-
3 - OÓDI00 DE PEOC&880 CIVIL
84 Livro I, Título I -Da acção em geral

sunç,ão de comunicabilidade estabelecida no artigo 15 .° do Código Comer-


cial, ou para alegar que não tinha responsabilidade na dívida.
A questão foi largamente. tratada no meu escrito Execução por dívi-
das dos cônjuges .
O Código põe termo à controvérsia . O princípio a que obedeceu foi
este : a questão da comunicabilidade das dívidas tem de ser d'erimida e
julgada na acção declarativa, não o podendo ser na acção executiva . Por
isso é que o n .° 2 .° db artigb 19 .° exige que se proponha a acção contra
ambos os cônjuges quando pretenda obter-se sentença que venha a exe-
cutar-se sobre bens comuns ou sobre bens próprios do outro cônjuge.
Com o preceito do n .o 2 .o do artigo 19.° se conjuga . o disposto nos
artigos 824 .° e 1041 .° Se o título executivo obriga sòmente o marido, por-
que é uma sentença de condenação proferida em acção proposta única
mente contra o marido ou é uma escritura pública ou um título particular
em que sòmente o marido se constituiu devedor, é claro que a acção exe-
cutiva não pode ser dirigida contra a mulher : só o pode ser contra o
marido . E então não é lícito ao credor fazer penhorar bens comuns, a não
ser que se trate de dívida comercial, caso em que, nos termos do artigo 10.°
do Código Comercial, pode a penhora recair sobre bens comuns, contanto
que seja citada a mulher para requerer, no decêndio posterior à penhora,
a separação judicial de bens.
Neste caso o penhora - de bens comuns vem a converter-se, em con-
sequência da separação, em penhora de bens próprios do marido (Cód .
Com ., art . 10 .°, § 1 .°) .
Sendo a dívida de natureza civil, o que ó credor pode penhorar é o
direito do marido à meação nos bens comuns, suspendendo-se, depois da
penhora, a execução desse direito até que se dissolva o matrimónio ou
seja decretada judicialmente a separação de bens (art . 8'24 .° e § único ;
Cód . Civ ., art . 1114 .°, § 1 .o) .
Se se penhorarem bens comuns fora do caso e termos do artigo 10 .° do
Código Comercial, a mulher tem o direito de deduzir embargos de terceiro'
contra a penhora (art. 1041 .') ; e os embargos procedem, isto é, a penhora
tem de ser levantada, uma vez. que a mulher alegue e prove : 1 :° que é
terceiro, quer dizer, que a execução não foi promovida contra ela ; 2 .° que
tem a posse dos bens . Se o exequente alegar, na contestação sós embar-
gos, que a dívida foi contraída em benefício-comum do casal, o juiz não
pode tomar em consideração esse facto, nem mesmo na hipótese de o
marido ser comerciante e a dívida comercial, isto é, nem mesmo na
'hipótese de o credor ter a seu favor, nos termos do artigo L5 .° do Código
Comercial, a presunção de comunicabilidade da dívida .
Daqui se vê que a alegação da comunicabilidade é irrelevante na
acção executiva ; tem de ser deduzida na acção declarativa. Por isso, é a
bata acção que o credor tem de recorrer quando esteja munido de um
título com força executiva contra o marido (escritura, pública, auto de con-
ciliação, letra, livrança, cheque, etc .), mas queira fazer-se pagar pelos . bens
comuns. Há-de então propor a acção contra o marido e contra a mulher, para
convencer esta da comunicabilidade da dívida ; e ainda que a mulher não con-
Capítulo II - Das partes $5

teste, não deverá o autor ser condenado nas custas, porque não se verifica o
caso do :a.° 4.° do artigo 458 .o O credor tem necessidade de usar dó processo
de declaração para obter sentença que faça `executar sobre oo bens comuns .
O marido pode estár em juízo ; sem intervenção nem outorga da
mulher, na acção destinada a exercer o direito de preferencia (se , da Rel.
d e Lisboa de 25-1f-941, Rev . de Just., ano 26 .0, pág . 138) .
Feita uma promessa de arrendamento por prazo superior a quatro
anos, o . promitente-arrendatário pode, por si só, sendo casado, demandar
o promi~ènte-senhorio para o cumprimento . da promessa ou indemnização .
O disposto no artigo 10 .° do Decreto n .o '5 :411 não prejudica a legitimidade
e apenas poderá, porventura, obstar à procedência de acção (ac. do. S . T . J .,
der 30-1 :'-942, Rev . de Leg., ano 75 .*, pág. 13'4) .
A mulher pode, sem intervenção do marido, investigar a sua pater-
nidade ilegítima (ac . da Rel . d o Porto dé 2-5 .°-942, Rev . dos Trib ., ano 60.',
pág. 155) .
Proposta acção contra marido e mulher, pode esta tomar no processo
uma atitude diferente da do marido (Rev. de Leg, ano 70 .*, pág . 20) .

ARTIGO 21 .°

(Representação do Estado)

O Estado é representado pelo magistrado do Ministério


Público que funcionar junto do tribunal competente para a causa .
§ único . Se a causa tiver por objecto bens ou direitos do
Estado, mas que estejam na administração ou fruição de enti-
dades autónomas, podem estas constituir advogado que inter-
venha no processo juntamente com o Ministério Público, para
o que serão citadas quando o Estado seja réu . Havendo diver-
gência entre o Ministério Público e o advogado prevalecerá a
opinião do primeiro .

A fonte do corpo do artigo é o artigo 10 .* do Código anterior ; a fonte


do parágrafo é o § 2.* do artigo 192.° do Estatuto Judiciário e o artigo 2 .°
do Decreretó n .° 21 :287 .
A .;alta de citação das entidades autónomas dará lugar à nulidade
prevista no artigo 195 .°

ARTIGO 2 .2 .°

(Representação das outras pessoas colectivas)

A representação das outras pessoas colectivas será exer-


cida par intermédio dos órgãos designados na lei ou no pacto
36 Livro I, Título I -Da acção em geral

3oéial . Na falta de disposição, a representação pertencerá


àqueles a -quem incumbir a administração da pessoa colectiva.
único. Se 'houver conflito de interesses entre a pessoa
colectiva e o seu representante, ou se a pessoa colectiva não
tiver representante, quem substituir este nas suas faltas e impe-
dimentos poderá demandar ou ser demandado em nome da
pessoa colectiva. Não havendo substituto, o juiz Nomeará, de
entre os membros da pessoa colectiva, um representante espe-
cial, cujas funções cessarão logo que a representação seja
assumida por quem for designado pela pessoa colectiva.
A nomeação dar-se-á logo publicidade pela afixação de
um aviso na porta do tribunal e na porta da sede da adminis-
tração da pessoa colectiva, quando seja conhecida, e pela inser
ção de anúncio em dois números do jornal mais lido na locali-
dade a que a mesma sede pertencer.

Veja-se o artigo Representação das pessoas cotectivas em juízo, no


Boletirm da Faculdade de Direito de Coimbra, vol. 1'5.0, fase . 2.°, 1?ágs. 339
e seguintes .
Contra a opinião do sr . Dr . Palma Carlos (Cód . de Proc. anot , vol. 1.°,
pág . 116) entendemos que não é de aplicar o disposto no artigo 239 :° ;
, se na localidade não . houver jornal, o anúncio não se publica, dando-se ,
conhecimento da nomeação sòmente pela afixação do aviso .

ARTIGO 23 .°

(Representação das entidades-que não têm personalidade jurídica)

Os patrimónios autónomos serão representados pelos seus


administradores, salvo se a lei dispuser de modo diverso .
As sociedades e associações que não tiverem personalidade
jurídica, as sucursais, ageincias, filiais ou delegações serão repre-
sentadas pelas -pessoas que procederem como directores, gerentes
-ou administradores .

Os artigos 22 .° e 23 .o tiveram por fonte, em parte, o artigo 11 .° do,


Código anterior.
A regra do corpo db artigo 11 .o do Código de 1876 substituiu-se uma
outra mais correcta e compreensiva . As dispoisições do artigo 23 .o estão
em correspondência com os artigos -6 .0, 7 .° e 8 .1
O § único do artigo 22.° nsd figurava no Projecto primitivo ; foi:
acreàcentado por sugestão da Comissão revisora.
Capitulo ÌI-Das partes 37

ARTIGO 24 .°

(Efeito da falta de personalidade e dè capacidade e da representação


irregular. Suprimento)

A falta de personalidade, a incapacidade judiciária e a


irregul!;aridade da representação têm o mesmo efeito que a ilegi-
timidade da parte ; mas as duas últimas podem ser supridas
pela intervenção ou citação do representante legítimo ou do
cônjuge.
-Se estes ratificarem os actos anteriorme=nte praticados, o
processo seguirá como se o vício não existisse ; no caso con-
tráriq, ficará sem efeito tudo quanto se tenha processado a partir
do momento em que a falta ou a irregularidade se cometeu.
§ único. O juiz -pode, oficiosamente ou a requerimento da
parte, fixar o prazo dentro do qual hão-de ser supridas a inca-
pacidade ou a irregularidade . Se o não fixar, o suprimento pode
ter lugar a todo o tempo.

ARTIGO 25 .°
(Regime da falta de autorização ou deliberação)

Se a parte estiver devidamente representada, mas faltar


alguma autorização ou deliberação exigida por lei, designar-se-á
o prazo dentro do qual o representante deve obter a respectiva
autorização ou deliberação, suspendendo-se entretanto os termos
da causa.
Não sendo a falta sanada dentro do prazo, o processo ficará
sem efeito= quando a autorização ou deliberação devesse ser
obtida pelo representante ;do autor ; se era ao representante do
réu que incumbia prover, o processo seguirá como se o réu não
deduzisse oposição .

ARTmo 2fi.°
(Regime da falta de outorga conjugal)

C, disposto no artigo anterior é aplicável ao caso cie um


dos cônjuges carecer da outorga ou da autorização do outro,
38 Livro I, Título I-Da acção em geral

ou do respectivo suprimento judicial, para estar em juízo como


autor .

Os artigos 24 ." a 26 ." não têm correspondência no Código anterior.


Regula-se, em primeiro lugar, o efeito da falta de personalidade judi-
ciária, da incapacidade e da irregularidade de representação . 0 efeito é
o da ilegitimidade da parte, que se acha definido no artigo 293.° (n ." 4.°)
absolvição do réu da instância. O que se dispõe no artigo 24 ." está
em perfeita concordiânc.ia com o que se lê no n.' 3.° do artigo 293.
e respectivo § único e relaciona-se também com a alínea c) o § 1." do
artigo '499 .°
A falta de personalidade judiciária é uma excepção dilatória que tem
como consequência a absolvição do réu da instância; a incapacidade judi-
ciária e a irregularidade da representação são também excepções dilatórias
com a mesma consequência, mas sómente no caso de não serem devida-
mente sanadas ou supridas (art. 499.°, § 1.') .
Como se suprem? Nos termos do artigo 24 ." e respectivo § único .
0 regime de suprimento que se estabeleceu foi inspirado no artigo 99 ° do
Decreto n., 21 :287, reprodução do artigo 26 ." do Decreto n." 13 :979, e nas
aplicações e desenvolvimentos que a jurisprudência deu ao princípio ali
consignado.
Regula-se, em segundo lugar, o efeito da falta de autorização, delibe-
ração ou outorga exigida por lei (arts. 215 .o e 26 .°) .
Falta de autorização : um tutor, por exemplo, propõe uma acção sem
ter sido autorizado, como devia ser, pelo conselho de família, nos termos
do n." 17: do artigo 224 .° do Código Civil e do artigo 12.0 do Código de
P1^occaso .
Falta de deliberação : o presidente duma câmara municipal vai a juízo
propor uma arção em nome da câmara ou defendê-la numa acção contra
ela proposta, sem que tenha precedido deliberação sobre o pleito, como
exige o n." 11." do artigo 77." combinado com o n.* 14." do artigo 51.0 d(>,
,Código Administrativo .
Falta de outorga: o marido propõe, sem outorga da mulher e sem
o respectivo suprimento judicial, uma acção de reivindicação dum prédio
comum ou próprio da mulher, contra o disposto no artigo 17°
Em qualquer dos casos que ficam mencionados, a parte está devida-
mente representada em juízo ; o que sucede é que falta, no primeiro, a
autorização do conselho de família, no segundo, a deliberação da câmara,
:; no terceiro, a outorga da mulher . Qual é a consequência ,dia falta?
Logo que o juiz se aperceba do facto ou ele lhe seja denunciado, deve
;,uspender os termos da causa e marcar prazo para a falta ser sanada, isto é,
;para se obter a autorização, deliberação ou outorga respectiva . Se a falta.
~.i sanada dentro do prazo, o processo segue depois como se nenhuma.
i.xaegularidade tivesse ocorrido ; se não é, há que distinguir :
a) Ou é o autor que está em juízo desprovido de autorização ou
cleliberagão ;
,Capítulo II -Das partes 39

b) Ou é o réu, . como no caso de o presidente da câmara assumir a


defesa desta num pleito contra ela proposto, sem ter prèviamente provo-
cado uma deliberação sobre o assunto .
N:> 1 .1 caso estamos em presença duma excepção dilatória (art . 499 .°,
alínea d) ; o juiz deve absolver o réu da instância, declarar o processo
sem efeito e condenar o autor nas custas (arts . 25 ."~ e 29'3.", n . , 0:.`) .
No 2 .° caso não se toma em consideração a defesa deduzida pelo réu :
o processo segue como se este fosse revel (art. 25 .°) . Mas convém acen-
tuar crie o regime estabelecido para este segundo caso não se aplica à
falta d, autorização ou outorga conjugal . O artigo 26 .' só manda aplicar
o disposto no artigo '25 .1 ao caso de um dos cônjuges carecer da outorga
eu autorização do outro para estar em juízo como autor. É que não pode-
falar-se -de falta de autorização ou outorga conjugal no caso de ser réu
o marido ou a mulher ; os princípios a aplicar, em tal . caso, são outros.
O artigo 19 .o diz-nos quais são as acções que têm de ser propostas
contra o marido e contra a mulher . Se o texto é observado, demandando-se
o marido e a mulher e sendo ambos citados, não há falta a suprir : a lei
foi cuxr,prida .
Aparece a defender-se sòmente o marido? Pouco importa. A defesa
há-de ser tomada em consideração . A mulher é revel, mas a sua revelia
não prejudica o marido, porque ela foi colocada em condições de intervir
no processo e era isso o que a lei pretendia .
Se o artigo 19 .o foi infringido, propondo-se a acção sòmente contra
um dos cônjuges, a consequência é a seguinte :
a) Tratando-se da infracção do n .° 1 ." ou do n .° 3 .", o réu deve ser
conside "ado parte ilegítima ; estamos então em presença dum caso de
litisconsórcio necessário, a que é aplicável a alínea a) do artigo 28 ." ;
b) 'Tratando-se da infracção do n .° 2 . ,, , se o autor obtiver sentença
favorável, não poderá executa-la sobre bens comuns nem sobre bens pró-
prios do cônjuge que não foi chamado à acção .
Uma coisa é o suprimento da incapacidade judiciária, outra a falta de
individualização e identificação das pessoas que se pretendem representar .
Se os autores se dizem representantes de seus filhos nascidos e por nascer,
sem designarem aqueles nem esclarecerem se são maiores ou menores,
verifica .-se a ilegitimidade de representantes e regresentados (ac . do S . T . J .
de 8-5 . 942, Rev . de Leg ., ano 75 .°, pág .. 177) .

SECÇAO II

Legitimidade das partes

ARTIGO 27 .'

(Conceito de legitimidadé)

O autor é parte legítima quando tem interesse directo em


demandar ; o réu é parte legítima quando tem interesse direto
em contradizer.
40 Livro I, Título I -Da acçdo em geral

O interesse em demandar exprime-se pela utilidade deri-


vada da procedência do pedido ; o interesse em contradizer pelo
prejuízo causado por essa mesma procedência .

ARTIco 28 .0
(Litiseonsórcio voluntário e necessário)

Quando o interesse disser respeito a mais de duas pessoás,


a questão da legitimidade das partes será resolvida em confor-
midade das regras seguintes :
a) Se a lei ou o contrato exigirem expressamente a inter-
venção de todos os interessados, a falta de qualquer deles será
motivo de ilegitimidade ;
b) Se a lei ou o contrato permitirem que o direito comum
:seja exercido por um só ou que a obrigação comum seja exigida
de uni só dos interessados, basta que um deles intervenha ;
C) Se a -lei ou o contrato nada declararem, pode a acção
ser proposta por um só ou contra um só dos vários interessados,
devendo porém o tribunal conhecer unicamente da quota parte
do interesse ou da responsabilidade dos respectivos interessados,
ainda que o pedido abranja a totalidade .
Cessa o disposto na primeira parte desta alínea quando,
pela própria natureza da relação jurídica, for necessária a inter-
venção de todos os interessados para que a decisão a obter
produza o seu efeito útil normal .
único . Qualquer sócio, herdeiro ou comparte em cousa
comum ou indivisa pode pedir a totalidade dessa cousa em po-der
de terceiro, sem que este possa opor-lhe, que ela não fhe per-
i;ence por inteiro .

No artigo 27 .1 estabelece-se o conceito legal de legitimidade das partes


e no artigo 28.° fixam-se as regras da legitimidade no caso de pluralidade
de interessados.
O artigo 2'7 .° é novo ; não tem correspondência no Código anterior.
Faz depender a legitimidade sòmente do requisito interesse e diz em que
este consiste .
Discutia-se quais eram os requisitos da legitimidade. Todos esta-
vam de acordo em que, para haver legitimidade, era necessário o interesse ;
mas a este acrescentavam-se outros requisitos, como a capacidade, o
patrocínio judiciário, a exigibilidade do-direito, etc . Agora depurou-se
o conceito, reduzindo-o ao elemento «interesse», posto que a incapacidade
Capítulo II-Das partes 41

judiciária, a falta de personalidade judiciária e a falta de constituição de


advogado tenham consequências semelhantes . à da ilegitimidade da parte
(arts. 293 .o e 499 .o) .
0 acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15-;5 .1-928 (Rev . de Leg .,
ano 61 .`, pág . 216) diz que a legitimidade das partes no tocante ao requisito
interesse deve ser referida à relação jurídica, objecto do pleito, e de t,r
mina-se averiguando quais são os fundamentosda acção e qual é a posição
das partes em relação a esses fundamentos . É assim mesmo.
Urna coisa é o interesse em demandar ou contradizer, outra o direito
a uma sentença favorável (a c . do S. T . J . de 23-1 "-942, Rev. de Leg ., ano 75.°,
pág. 121) . Na verdade, o interesse em demandar ou contradizer única
mente assegura a legitimidade para a acção, ao passo que o direito a uma
sentença favorável é uma condição de procedência do pedido do 'autor ou
da defesa do réu .
Com serem legítimas .as partes, não se segue que a sua pretensão
seja fundada, que tenham razão -sob o ponto de vista substancial.
A questão de legitimidade é simplesmente uma questão de posição
quanto à relação jurídica substancial . As partes são legítimas quando
ocupam na relação jurídica controvertida uma posição tal que têm inter"se
em que sobre ela recaia uma sentença que defina o direito .
Pode dizer-se que ter legitimidade equivale a ter o direto concreto de
acção, porque na verdade o interesse em demandar e em contradizer tra-
duz-se ~no direito a que a relação jurídica seja objecto duma apreciação
jurisdicional .
Chamo que o interesse tem de ser jurídico . Não basta um interesse
meramente moral . :Se para os assistentes, partes acessórias, a lei exige
que o interesse seja jurídico (art . 240 .0, com maioria de razão se há-de
considerar 'necessária essa característica do interesse para o autor e réu,
partes principais .
E também se tornará necessário que o interesse seja actual?
O acórdão da Relação do Porto de .1 de Outubro de 19'41 (Rev. de
Just ., ano 27 .0, pág. 131) pronunciou-se em sentido afirmativo. Um inte-
resse dEpendente de acontecimento futuro, por mais certo que se apresente,
não dá legitimidade como réu ; o interesse há-de ter actualidade, isto é,
há-de verificar-se à data da propositura da acção.
Não é inteiramente exacta esta doutrina. Em primeiro lugar a actua-
lidade do interesse deve reportar-se, não à data da propositura da acção,
mas à data do julgamento da legitimidade, ou pelo menos à data do encer
ramento da discussão, por argumento de analogia derivado do artigo 6'83 .°
Ern segundo lugar vê-se pelo artigo 682 .* do Código Civil que, ainda
antes de se verificar o evento futuro e incerto o interessado pode exercer
os actós lícitos, necessários à conservação do seu direito, e entre esses
actos não pode deixar de se incluir a proposição de acções.
O Supremo Tribunal de Jhrstiça, em acórdão de 28-3 .°-941 (Rev . de
Leg ., arfo 59 .% pág. 1'50), considerou partes ilegítimas como réus, em acção
de anulação de contratos simulados, as pessoas que não intervieram nesses
contratos, embora se alegue que colaboraram neles para daí tirarem pro-
42 Livro I, Título I =Da acção em geral

veito e se formule contra eles o pedido de indemnização de perdas e danos .


A doutrina do acórdão merece reparos . Veja-se a anotação publicada na
Revista.
Tendo um homem casado feito uma promessa de venda de bens
imobiliários sem outorga da mulher, esta é parte ilegítima cromo ré na
acção proposta por falta de cumprimento da promessa (ac . do ~S'. T, J-
de 25-11 .'-941, Rev. de Leg ., ano 74:°, pág . 398) .
0 artigo 28 .° teve por fonte, em parte, o artigo 8" do Códígo , de 1876 ;
,mas esta disposição era muito deficiente e incompleta : procurou.~se com-
pletá-la.
A regra que está na base do artigo 28 .o é a seguinte : havendo vários
interessados, qualquer deles pode demandar ou ser demandado, devendo a .
acção considerar-se restrita à quota paute do interesse do autor ou da
responsabilidade do réu.
Mas esta regra sofre excepções de duas ordens :
a) 'Há casos em que é indispensável, sob pena de ilegitimidade, que
estejam em juízo todos os interessados. É o que sucede, nos termos da
alínea a), quando o contrato de que a acção emerge, o exigir, ou quando
o exigira lei., como no caso do quinhão (Cód . Civ., art . 2,193 .1 ) e nos casos
dos n .°° 1 .* e 3 .' do artigo 19 .° ; é o que sucede ainda, nos termos da última
parte do corpo do artigo 28.*, quando pela própria natureza da relação jurí-
dica for necessária a intervençião de todos os interessados para que * a deci-
são a obter produza o seu efeito útil normal, como na acção de divisão de
águas de correntes não navegáveis nem flutuáveis, acórdão da Relação de
Çoimbra de 4-6 .°-927, Revista de Legislação, ano 60 .o, pág . 191 . É nestes
casos que se verifica o litisconsórció necessário, a que alude o artigo 31 .°
b) Há casos em que a totalidade da coisa pode ser pedida só por
um (são os casos do § único -do art . 28 .o) e em que a obrigação pode, poi-a
sua própria natureza, ser exigida só de um (é o caso de solidariedade
passiva) .

ARTIGO 29 .°

(Coligação de autores e de réus)

É permitida a coligação de autores contra um ou vários


réus e é `tpermi'tido a . um autor demandar conjwntamente vários
réus, por pedi-dos diferentes, quando a causa de pedir seja a
mesma e única ou quando os pedidos estejam entre si numa
relação de dependência,
único . Cessa o disposto neste artigo quando aos pedi--
dos correspondam formas de processo diferentes ou a cumulação
possa ofender regras de competência em razão da matéria ou
da hierarquia ; mas não impedirá a cumulação a diversidade da
forma de processo que derive únicam~ente do valor .
Capítulo 11- Das partes 43

ARTiGO 30 .°

Podem também autores ou . demandar-se


coligar-se vários
conjuntamente vários réus, embora a causa de pedir seja dife-
rente, quando a procedência dos pedidos principais dependa
essencialmente da apreciação dos mesmos factos ou da interpre-
tação ;~ aplicação das mesmas regras de direito ou de cláusulas
de contratos perfeitamente análogas .
§ único . Se o tribunal, oficiosamente ou a requerimento
de algum dos réus, entender que, não obstante a verificação de:
qualquer dos requisitos indicados, é preferível que as causas
sejam instruídas, discutidas e julgadas em processos separados,
assim o declarará no despacho saneador, ficando o processa
sem efeito . Neste caso, se as novas acções forem propostas den-
tro de trinta dias a contar do trânsito em julgado do despacha
que ordenar a separação, os efeitos civis da proposição da acção
e da citação do réu retrotaem-se à data em que estes factos se
produziram no primeiro .processo .

O artigo 29 .° teve por fonte o artigo 6 .° do Código anterior ; mas


em vez do se dizer «com relação a direitos e obrigações que tiverem
a mesrr:a origem», adoptou-se a fórmula «quando a causa de pedir seja
a mesma, e única», pondo-se termo à controvérsia que se agitava em volta
da frase «mesma origem» . Agora está bem vincado que não basta que os
pedidos procedam de actos ou factos semelhantes ; é necessário que pro-
cedam do mesmo e único acto ou facto .
Por outro lado, em vez da fórmula aquando um dos pedidos for con-
sequência do outro», empregou-se esta «quando os pedidos estiverem entre
si nume. relação de dependência» .
Vê!-se, pois, que para -a legalidade da coligação se exige um certo
nexo entre os pedidos ; esse nexo é o que resulta :
a) Ou de ser a mesma e única a causa de pedir ;
b) Ou de os pedidos estarem entre si numa relação de dependência .
MEL não basta . É necessário ainda :
1) Que aos pedidos corresponda a mesma forma de processo, salvo
se a diversidade de forma derivar únicamente do valor (art . 29 .° ; § único) .
Quer dizer, a coligação é ilegal se a um dos pedidos corresponder pro
-cesso especial e a outro algumas -das formas de processo comum (ordinário,
sumário ou sumaríssimo) ; mas se a um dos pedidos corresponder processo
ordinário e a outro corresponder processo sumário ou sumaríssimo, a,
coligação é lícita, devendo então empregar-se a forma de processo corres-
pondente ao valor total dos pedidos (art . 312 .°) ;
-4a4 Livro I, Título I -Da acção em geral

2) Que a cumulação não ofenda regras de competência em razão da


matéria ou da hierarquia (art . 29 .°, § único) . Quer dizer, é necessário que
em razão da matéria e da hierarquia seja competente para todos os pedi
dos o mesmo tribunal, pouco importando que, em razão do valor ou do
território, os pedidos pertençam a juízos diferentes .
É claro que se para algum dos pedidos os tribunais portugueses não
tiverem competência internacional, nos termos do artigo 65.0, a cumulação
também não pode fazer-se : obsta a ela a incompetência absoluta definida
no artigo 101 .°
0 artigo 30 .o permite a coligação, embora seja diferente a causa de
pedir ; mas exige então que a procedência dos pedidos principais dependa
essencialmente :
a) Ou da apreciação dos mesmos factos ;
b) Ou da interpretação e aplicação dos mesmas regras de direito ou
de cláusulas de contratos perfeitamente análogas .
Este texto é novo e !inspirou-se no § 60:° do Código alemão., sobretudo
no texto que começou a vigorar em 1 de Janeiro de 1934 . No artigo 10 .° do
Projecto primitivo dizia-se aquando haja questões idênticas a resolver, de
facto ou de direito» ; a redacção actual resultou dos trabalhos da Comissão
revisora.
Não se lêem no artigo 30.o as palavras ae não exista nenhum das
,obstáculos mencionados no § único do artigo 8 .°», que se encontravam no
artigo 10 .1 do Projecto primitivo . É que se consideraram desnecessárias .
Não pode deixar de entender-se que os obstáculos opostos â coligação pelo
§ único do artigo 29 . 1 tanto -funcionam no caso previsto neste artigo como
no caso previsto no artigo 30 .° O artigo 30 .o não fez senão isto : substituiu
a exigência de ser a mesma e única a causa de pedir por esta outra-depen-
der a procedência dos pedidas da apreciação dos mesmos factos ou da
interpretação e aplicação das mesmas regras de direito ou de cláusulas
contratuais análogas . Quanto ao mais, ficou de pé o estatuído no artigo 29 .°
0 disposto no § único do artigo 30 .o é que se aplica unicamente ,ao caso
previsto no corpo do artigo . Fala-se neste parágrafo dos efeitos civis da
proposição da acção e da citação do réu . Os efeitos civis da citação do
réu são os designados nas alíneas a), b) e c) do artigo 485 .° ; o efeito civil
<ia proposição da acção é o de se considerar exercido o direito dê accionar
no momento em que a petição inicial é recebida na secretaria (az+t . 267.°)
e portanto considerar-se a acção proposta em tempo desde que o recebi-
mento tenha lugar dentro do prazo fixado pela lei, quando esta fixe prazo
para a proposição .
A coligação é um direito, não é uma obrigação do autor . Pode, por
isso, suceder que se proponham separadamente acções que, nos termos
dos artigos 29 . e 30.°, poderiam ser reunidas num único processo . Em tal
caso o artigo 280 .1 permite a junção .
São figuras distintas a. mera cumulação de pedidos, a simples plurali-
dade de autores e réus e a coligação. Na mera cumulação de pedidos há
um só autor e um só réu, mas mais do que um pedido : o mesmo autor
deduz contra o mesmo réu vários pedidos na mesma acção . Na simples
Capítulo II-Das partes 45,

pluralida,1e o pedido é só um, formulado por vários autores ou contra


vários réus. A coligação tem de comum com a cumulação a circunstância .
de os pedidos serem múltiplos, e com a pluralidade a circunstância de os
autores ou os réus serem mais do que um .
Na mera cumulação de pedidos, precisamente porque 'há um único
autor e um único réu, a lei não exige que entre o5 pedidos haja conexãw,
ao contrário do que sucede na coligação ; contenta-se com a circunstância
de os . pedidos serem compatíveis (art . 274 .'), estabelecendo como sanção
deste requisito a nulidade do processo por ineptidão da petição inicial
(art . 193:", alínea d)) .
Quanto à competência do tribunal e à forma do processo, coincidem
os requisitos da coligação e da mera cumulação (art . 274 .') .
Visto que a lei permite a coligação e a simples cumulação mesmo
quando para cada um dos pedidos sejam competentes tribunais diversos
sob o ponto de vista do valor e do território, pode perguntar-se como se
resolve, em tal hipótese, a questão de competência .
Não há dificuldades no tocante à determinação do tribunal compe-
tente em relação ao valor . Cumulou-se um pedido para o qual é compe-
tente o tribunal municipal com outro para. o qual é competente o tribunal
da comarca ; como o valor da acção é condicionado pela soma dos pedidos
(art. 312,"), é claro que o tribunal competente passa a ser o da comarca .
Mas suscita embaraços a questão de saber em que circunscrição
judicial deve ser proposta a acção . Cumulou-se um pedido para o qual é
competente, por exemplo, o juízo de direito de Coimbra com outro para
o qual é competente o juizo de direito de Anadia e ainda com outro para
o qual é competente o juízo de direito -da Figueira da Foz . Em que juizo
deve correr o processo?
A lei não estabelece, para- o caso de coligação ou mera cumulação,
qualquer disposição especial de competência territorial . E assim :
a) 'Tratando-se de mera cumulação, o autor poderá escolher qual-
quer dos juizos singularmente competentes : na hipótese figurada poderia
propor a acção em Coimbra, na Figueira ou em Anádia ;
b) Tratando-se de coligação, a solução é a mesma salvo se puder
funcionar a regra do artigo 86 .', isto é, se os vários pedidos estiverem
sujeitos ao preceito de competência do artigo 85 .°
No verdade, desde que a lei admite acumulação ou coligação, por
um lado, e, por outro, não formula uma norma especial de competência .
territorial'., a situação é nitidamente esta : o autor encontra-se perante.
vários tribunais igualmente competentes . Sendo assim, o caso não com-
porta outra solução que não seja a que, em idênticas circunstâncias, se
enuncif, nn. última parte do § 1 " do artigo 85 .° e no 2, .0. período do
artigo &i .° : o autor tem o direito de escolher qualquer dos tribunais
competentes.
O a<, órdão do S. T, J . de 26-3 ."-940 (Rev . de Leg ., ano 73 .o, pág. 187)
considere t, ilegal a coligação de autores em acção de investigação de
paternidade ilegítima quando sejam filhos dê mães diferentes e entendeu
que a consequência da ilegalidade era a nulidade do processo .
d,6 Livro I, Título I -Da acção em geral

Esta última parte não está certa, em vista do que se lê na alínea i)


do artigo 499 . 1 A ilegalidade da coligação, por não existir entre os pedidos
a conexão exigida pelos artigos 29 .' e 30 .°, constitui uma excepção dilatória
diferente da nulidade de todo o processo, mencionada na alínea a) do
.artigo 499 .°
Quanto à primeira parte da decisão, é exacta . Não podem dois filhos
ilegítimos coligar-se para investigar a paternidade, posto que seja o
mesmo o pretenso pai ; e a coligação é ilegal não só no caso de os autores
serem filhos - de mães diferentes, mas até quando sejam filhos da mesma
mãe, ao contrário do que recentemente decidiu o Supremo.
Só no caso de os filhos serem gémeos é que pode sustentar-se, em
face do artigo 29 .o, que a coligação é admissível porque a causa de pedir
é o mesmo e único facto de procriação. Fora deste caso a coligação nem
satisfaz ao requisito do artigo 29 .°-ser a mesma e única a causa de
pedir-nem ao do artigo 30.° : depender a procedência do pedido da
.apreciação dos mesmos factos .

ARTIGO 3'1 .°

(O litisconsórcio nas suas relações com a acção)

No caso de 'litisconsórcio necessário, deve entender-se que


'há uma única acção com pluralidade de sujeitos .
No caso de litisconsórcio voluntário, deve entender-se que
há uma acumulação de acções, conservando cada litigante a sua
independência em relação aos seus compartes .

0 artigo 31 .° fala de litisconsórcio necessário e de litisconsórcio volun-


rário . Há litisconsórcio necessário quando, por força da lei, do contrato
ou da própria natureza da relação jurídica, a acção tem de ser proposta
por todos os interessados ou contra todos os interessados ; há litiscon-
sórcio voluntário quando a associação dos litigantes é facultativa .

'SECÇAO III

Patrocínio judiciário

ARTIGO 32 .°

(Quem pode exercer a mandato judicial)

0 mandato judicial só pode ser exercido por advogados


,e solicitadores . Quando seja conferido a pessoas que mão per-
tençam a alguma destas categorias, envolve neeessãriamente o
poder e a obrigação de substabelecer o encargo em advogado
ou solicitador .
Capítulo II - Das partes 47

Alrrlco 33 .°
I'Caus&s em que é obrigatória. a canabituição de advogado)

É obrigatória a constituição de advogado nas. causas em


que seja admissivel recurso . Mas os solicitadores e as próprias
partes são admitidos a fazer requerimentos em que sé não
levaíntern questões de direito .
Se a parte não constituir advogado, não será recebido o
primeiro articulado e, sendo-o, o tribunal, oficiosamente ou a
requerimento da parte contrária, fará notificar a parte para, den
tro ;de prazo certo, constituir advogado, sob pena de ficar sem
efeito a. acção ou a defesa .
.§ l .° Nos inventários, seja qual for a sua natureza e valor,
só é indispensável a intervenção de advogados para se suscita-
rem ou discutirem questões de direito .
§ 2 .° Quando na comarca não haja advogado, pode o patro-
cíinio ser exercido por solicitador .

Veja-se o artigo 60,°


Nestes processos a instância suspende-se quando o advogado morre
ou se impossibilita de exercer o mandato (arts. 281 .-, n .* 2 .°, 283:°, 289 .*,
alínea b), e § 2 .o) .
Quanto às colónias veja-se o n .O 1 .° da Portaria n .* 9 :677 .
A intervenção de advogados e solicitadores nos processos estava
regulada no artigo 93 .1 do Código anterior, que havia sido remodelado
pelo Decreto n' 21 :287. Depois o artigo 703 .* do Estatuto Judiciário, na
forma nova que lhe deu o Decreto n .* 22 :779, alterou o que se achava esta-
belecido no artigo 93 .° do Código, segundo a redacção do Decreto n .* 21 :887.
Agora é pelos artigos 33.0, 34 .° e 60.° do Código actual que se há-de deter-
minar a actividade forense dos advogados é solicitadores, devendo consi-
derar-se inteiramente revogado o artigo 703' do 'Estatuto (Rev . de Leg .,
ario 73 .°, pág . 107) .
No projecto primitivo (art . 48 .Q) dispunha-se que cada uma das partes
grão podia ser representada por mais do que um advogado e um solici-
tador ; e que, sendo vários os autores ou réus, recorrentes ou recorridos,
todos deviam ser representados pelo mesmo advogado e solicitador, salvo
o caso cie incompatibilidade de defesas . Esta doutrina foi vivamente
impugnada na Comissão Revisora e posta de parte em consequência disso
de; sorte que -continua a sér lícita a representação da parte por mais do que
um advol;ado . É também isto o que dispõe o artigo 87.° no novo Código
de -Processo Civil italiano.
0`disposto no § 2 .° deve aplicar-se também ao caso de haver advo-
gado oú advogados, mas estarem eles impedidos de aceitar o mandato .
Veja-se a. nota ao artigo 41.<'
48 Livro I, Título I - Da acção em geral

ARTIGo 34 .0
(Causas em que não é necessária a intervenção de advogado)

Nas causas em que não seja admissivel recurso podem as,


próprias partes pleitear por si e ser representadas por solici-
tadores.
ARTiao 35.°
(Como se confere o mandato judicial)

O mandato judicial pode ser conferido :


1 .° Por meio de procuração pública ou havida por pública ;
2.° Pela assinatura da parte, em seguida à assinatura do
mandatário, na petição inicial ou no articulado de defesa .
Neste caso a assinatura da parte tem de ser feita perante
notário que assim o certifique e reconheça a identidade do ,
mandante .

A procuração pública está definida no artigo 1320.' do Código Civil;


a havida por pública, no artigo 1322 .° do mesmo Código.

ARTiGo 36 .°
(Conteúdo e alcance do mandato judicial)

Quando a parte assinar o primeiro articulado nos termos


do artigo anterior, entender-se-á que confere poderes ao man-
datário para, a representar em todos os actos -e termos do pro
cesso principal e respectivos incidentes, mesmo perante os tri-
bunais superiores .
§ único. Nos poderes a que se refere este artigo inclui-&e
o de substabelecer.
ARTIGO 37 .°

Quando a parte declarar na procuração que dá poderes:


forenses ou para ser representada em qualquer acção, o. man-
dato terá a extensão definida mo artigo anterior.

No artigo 83.' do Códigó de Processo Civil italiano declarasse que


a procuração forense pode ser geral ou especial -e que esta se presume,
salva estipulação 'em contrário, conferida únicamente para um determinado
grau do processo, entendendo-se por grau o que entrq nóR se exprime poá
'Cap£tulo II-Das partes 49

instânció ou tribunal . 'É, portanto, diversa a doutrina desse Código da


que está consignada nos . artigos 36 .0 e 37.* do nosso..
Claro que a parte pode, na procuração, restringir os poderes confe-
ridos ao advogado ; o que se prescreve no artigo 3'7" só vale para o caso
de o mandante se limitar a conceder poderes forenses ou a autorizar o
nmndatário a representa-la em «quaisquer acções» ou em «tenta e deter-
minada acção» . Fora destes casos, o mandato terá a extensão que o
mandante lhe tiver assinado ; quando se levantarem dúvidas a tal respeito,
estamos em face do problema da interpretação do negócio jurídico .
Convém advertir de que, não podendo a parte deixar de estar assis-
tida de advogado nos processos a que se refere o artigo 33 .°, a restrição
do mandato conferido a um advogado importa a necessidade de constituir
outro para os actos que aquele fica inibido de praticar .
No artigo 37.° figura-se o caso de a parte outorgar poderes para ser
representada em qualquer acção . Há que entender esta fórmula em termos
hábeis . A parte pode exprimir-se de duas maneiras :
a) Outorgar poderes ao advogado para a representar em qual-
quer ao,ão ;
b) Outorgar poderes para ser representada em certa e determinada
acção, devidamente identificada ou individualizada .
Num e noutro caso estamos em presença duma procuração especial,
visto que procuração geral é 'a que não especifica acto algum (Cód . Civ .,
art. 1324 .°) . Quem dá poderes forenses ou passa procuração para ser
representado em qualquer acção, não confere mandato para «todos e
crzaisquer actos», mas únicamente para uma certa espécie de actos :
o exercício de mandato judicial .
É evidente que tem maior extensão o mandato judicial conferido
para «qualquer acção» do que o conferido para «certa e determinada
a<,,ção» ; aquele habilita a representar o mandante em qualquer acção e
por isso não se esgota pelo facto de ser exercido a propósito duma acção ;
deste nz.o pode fazer-se uso senão na acção para que foi concedido, extin-
guindo-se com o termo dela .
Na última alínea do artigo 39 .' do Projecto primitivo determinava-se :
«a procuração que não individualizar a causa só pode ser utilizada uma
vez e dentro do prazo de seis meses a contar da data em que foi passada» .
Não vingou esta doutrina na Comissão Revisora. Deve -entender-se, por-
tanto, que o tipo de procuração desenhado no artigo 37.° habilita o manda-
tário a :representar o mandante numa série indefinida de acções, sem
lim'itaçã'o de natureza nem -de tempo . 0 mandato judicial que aí se des-
creve, não se esgota por ser exercido uma ou mais vezes .
Aparte esta diferença, nenhuma outra existe entre o mandato outor-
gado para «qualquer acção» e o outorgado «para certa e determinada
acção», devidamente individualizada . Em relação a esta, o mandato tem
o conteúdo e alcance marcados no artigo 36 .°
0 aa-tigo 108 .° do Código de Processo Civil brasileiro define a extensão
do mandato que tiver a cláusula ad juditia, nestes termos : habilitará
o procurador a praticar todos os actos do processo, dispensada a menção
4 - CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
,50 Livro], Título I - Da acçân em geral

especial de outros poderes, salvo para receber a citação inicial, confessar,


desistir e transigir, receber e dar quitação, e firmar compromisso .
Por sua vez o Código dé Proceaso Civil italiano, . no artigo 84 :°,
exprime-se assim : quando a parte estiver representada por advogado,
pode este realizar e receber, no interesse dela, todos os actos do processo
que a lei não reservou expressamente para a própria parte ; mas não podé
praticar actos que importem disposição do direito em litígio, a não ser
que esse poder lhe tenha sido conferido expressamente.
Não obstante a diversidade de forma, pode dizer-se que, na essência,
6 a mesma a doutrina doa três Códigos : português, brasileiro e italiano.
Os actos que importam disposição do direito controvertido são a
confissão e desistência do pedido e a transacção (art . 298 .°) ; ora estes
actos não pode o advogado pratica-dos, em nome da parte senão quando
esteja munido de procuração que expressamente lhe confira tais poderes
(art. 38') e o mesmo sucede em face do artigo 108 .° do Código brasileiro .
O mandato conferido nos termos dos artigos 36:° e 37.° não habilita a
praticar esses actos .
E também 'é po itivo, em face do que se 16 no artigo 233 .*, que,
tal como sucede pelo artigo 108.° do Código do Brasil, a procuração
passada em conformidade com o artigo 37 .° não habilita o advogado do
réu a receber, em nome deste, a citação .

ARTIGO 38 .°
(Requisitos neceesdrios para que os mandatários possam confessar
a acção, desistir ou transigir)

Os mandatários judiciais só podem confessar a acção, tran-


sigir sobre o seu objecto e desistir dela ou da instância quando
estejam munidos de procuração que, individualizándo a causa,
os autorize expressamente a praticar qualquer desses actos.
Veja-se o artigo 305.0
O artigo 1328 .° do Código Civil diz que a. procuraçãà pode ser geral
ou especial ; e o artigo 1$24 .° define cada uma destas modalidades. Depois
o artigo 1325' avisa de que a procuração geral eó pode autorizar actos de
mera administração. Como as pessoas investidas 'de poderes de simples
administração 96 podem propor acções conservatórias (Cód. Civ., art. 243 .0,
n .° 9 .° art. 2083 .°), é de concluir que a proposição duma acção conserva-
tória constitui um acto de mera administração e a proposição duma acção
persecutória excede os limites da mera administração. De sorte que uma
procuração geral s6 pode habilitar a propor acções conservatôriás.
Deve considerar-se especial a procuração em que se concedem poderes
-forenses ou que autoriza a propor quaisquer acções .
A procuração exigida no artigo 38.° pode classificar-se de especia-
Afima.
Veja-se a anotação ao artigo 37 .°
Capítulo II-Das partes. ól

Awriao 39 .°
(Regime da confissão de factos feita pelo mandatário)

As afirmações e confissões expressas de factos, feitas pelo


mandatário, vinculam a parte, salvo se forem rectificadas ou
retiradas dentro de cinco dias .
Não podem -ser retiradas as confissões feitas na audiência
de discussão e julgamento, mas podem ser rectificadas até ao
encerramento da discussão .

Vejam-se os artigos 562',°°, 151%.?, § único e 570 .°


A primeira vista parece haver contradição entre o artigo 39 .* e o
artigo 570.° : o primeiro fixa o prazo de cinco dias para se rectificarem ou
retirarem as confissões de factos, e o segundo permite que as confissões
de factos, feitas nos articulados, sejam retiradas enquanto a parte con-
trária se; não tiver aceitado especificadamente . Não existe contradição,
porque o domínio dos dois textos é diferente. O artigo 5'70.° estabelece
o regime especial da confissão de factos feita nos articulados . E assim,
a doutrina é a seguinte :
a) As confissões de factos feitas na audiência de discussão e julga-
mento não podem ser retiradas, podendo porém ser rectificadas até ao
encerramento da audiência ;
b) As confissões feitas nos articulados podem ser retiradas enquanto
a parte contrária as não tiver aceitado especificadamente ;
c) As confissões feitas em qualquer outro momento padem ser reti-
radas dentro de cinco dias.

ARTiGO 40 .°

(Revogação e renúncia do mandato)

A revogação e a renúncia do mandato devem ser requeridas


no próprio processo e nótificadas, tanto ao mandatário ou ao
mandante, como à parte contrária .
Os efeitos da revogação e da renúncia produzem-se a partir
da data dá notificação, salvo nos processos em que é obriga-
tória a cons, tituição de advogado, porque nestes a renúncia só
produz deito depois de constituído novo mandatário .
único . Se a parte, depois de notificada da renúncia, se
demorar a constituir novo advogado nos processos em que a
constituição é necessária, pode o mandatário requerer que se
fixe prazo para esse fim . Findo o prazo sem aparte ter provido,
62 Livro I, Título I - Da aeçdo em geral

considerar-se-á extinto o mandato e a parte ficara fna situação


de revelia.

Veja-se o artigo 263 .°


Trata-se, é claro, neste artigo 40.° da revogação e renúncia do man-
dato judicial.
Assim como o mandante pode revogar, quando e como lhe
aprouver, o mandato conferido (Cód. Civ.; art . 13f4 .°), ao mandatário
é igualmente lícito renunciar ao mandato quando não lhe convier conti
nuar a exercê-lo. A revogação tem de ser notificada ao mandátárioo
e à parte contrária ; a renúncia tem de ser notificada ao mandante e à
outra parte.
Enquanto a notificação se não fizer, o acto não produz efeitos . Mas
estes nem sempre se produzem a partir do momento da notificação .
Há que atender ao disposto na última parte da 2 .` alínea do artigo e no
§ 2.' do artigo 263 . 1
Se o mandato consta de procuração já èncorporada no processo, o
efeito ~da revogação .s6 se produz a partir da junção, ao processo, do reque-
rimento e da certidão da notificação ; pelo que respeita à renúncia, há que
distinguir : a) ou se trata de processos em que, nos termos dos artigos 33"
e 60 .o, é obrigatória a constituição de advogado ; b) ou de processos ein que
a constituição de advogado é facultativa . No 2 . 1 caso a doutrina é a mesma
que para a revogação : o efeito produz-se a partir da junção do requeri-
mento e certidão da notificação ; no 1 .1 caso o advogado tem de continuar
a 'exercer o mandato enquanto o mandante não constituir outro man-
datário . Esta obrigação é consequência da regra geral formulada no
artigo 1368.° do Código Civil .
Pode ,suceder,, porém, que o mandante não seja solícito em constituir
novo advogado ; logo que o mandatário entenda que há demqra, pode
requerer ao juiz que fixe prazo para a constituição ; o juiz pode ouvir
a parte sobre o prazo necessário, wsim como pode, a requerimento do
mandante, prorrogar o prazo primitivamente fixado . Se o prazo expirar
sem que o mandante haja constituído novo advogado, o mandato consi-
dera-se extinto pela renúncia e a parte respectiva fica na situação de
revelia .
Visto que o mandato judicial pode ser conferido por meio de pro-
curação ou pela assinatura da parte (art . 35 .*), pode perguntar-se se o dis-
posto nos artigos 40 .' e 263:° se aplica a uma e outra forma de constituição
do mandato.
Parece-nos evidente que o § .2 .o do artigo 263 .° só tem aplicação ao
caso do n.° 1 .' do artigo 35.° e que o artigo 40.° se aplica tanto a este como
ao caso do n .° 2' do mesmo artigo.
O artigo 85.°, do novo Código de Processo Civil italiano declara que
a revogação e a renúncia hão produzem efeito em relação à parte contrária
enquanto não for constituído novo advogado .
Capítulo II- Das partes 53

ARTIGO 41 .°

(Falta, insuficiêência e irregularidade do mandato)

A falta, a insuficiência e a irregularidade ~do mandato


podem, em qualquer altura, ser arguidas pela parte contrária
e suscitadas oficiosamente pelo tribunal . O juiz marcará b
prazo dentro do qual deve ser suprida a falta ou corrigido
o vício e ratificado o processado . Findo este prazo sem que
esteja regularizada -a situação, ficará sem efeito o que tiver sido
praticado pelo mandatário, devendo este ser candenádo nas
cu's'tas respectivas e na indemnização dos prejuízos a que tiver
dado causa.

O artigo ocupa-se de três anomalias diferentes :


a,l Falta de mandato;
bJí Insuficiência de mandato ;
c,! Irregularidade de mandato .
A. falta de mandato dá-se quando um advogado está em juízo a
praticar actos . em nome da parte, sem que esta o tenha autorizado
a praticá-los, nos termos dos n. 1.o e 2.° do artigo 35.o
A. insuficiência de mandato pressupõe que o advogado está munido
procuração passada pela parte, mas a procuração rião contém os
poderes necessários, não habilita o mandante a praticar os actos que está
praticando . É o caso de a procuração ser geral e o advogado tê-la apro-
veitado para propor uma acção persecutória, salvo se da demora da sua
inÉtaut"açãq puder resultar a extinção do direito ou de qualquer garantia
(argumento derivado do art. 12.o) ; é o caso ainda de a procuração ser
especial, .mas não conferir poderes para propor acções ou representar
a parte em juízo, etc .
A, irregularidade do mandato diz respeito à forma : a procuração
não sfktisfaz aos requisitos necessários para ser pública ou havida por
pública.
Ctinvém aproximar o artigo X41.° da .2' alínea do artigo 33" Os dois
textos- :vi$am casos diferentes : a 2.° 'alínea do artigo 33.° prevê a hipótese
de a parte se apresentar em juízo por si, quando devia estar representada
por advogado, o artigo 41.° prevê a hipótese de o advogado se apresentar
em juízo em nome da parte, sem estar munido de mándato que o habilite
a rep:resentá=la, ou estando munido de procuração insuficiente ou irre-
ghlar.
Poderia parecer que a 2.a alínea do artigo 32.o abrange também os
casos previstos no artigo 41.*
Sé o advogado propõe, em nome da parte, uma causa sujeita a patro-
cínio ;iudiciário obrigatório, sem lhe ter sido conferido mandato ou fazendo
uso de. mandato insuficiente ou irregular, é como se a parte não houvesse
94 Livro 1, Título 1- Da acção em geral

constituído advogado. Mas a verdade é que estamos nitidamente -em


presença dos vícios previstos no artigo 41 .° e por isso deve aplicar-se
o que neste artigo se prescreve, quer se trate de causas para que sèja
facultativa a constituição de advogado, quer das causas para que tal cons-
tituição seja obrigatória, pois que o artigo não distingue .
O que fica então para campo de aplicação do artigo 334?
Fica este caso: num processo em que é obrigatória a constituição
de advogado a parte está por si só em juízo .
Quando oe verifique este caso, a primeira sanção que o artigo '33 .11
comina é ,severa : o juiz não deve receber o primeiro articulado (á petição
inicial, quando a falta seja cometida pelo autor, a contestação, quando a
falta seja do réu) . A sanção é severa, porque pode ter como consequência
a perda do direito de acção ou de defesa ; é o que sucede se na altura .da
aplicação da sanção já tiver expirado o prazo para a proposição da acção
ou para o oferecimento da contestação .
Nesta parte é que o regime estabelecido na 2 .` alínea do artigo 33 .°
se diferencia do adoptado no artigo 41°
Pode acontecer que o juiz, par inadvertência, receba o articulado .
Daí por diante é sensivelmente igual o regime dos dois artigos : a parte
contrária pode requerer que se fixe prazo para a constituição de -advo
gado, para o suprimento da falta, da insuficiência ou da irregularidade de
mandato, e .o próprio juiz- pode, por s!ua iniciativa, fixar esse prazo, logo
que se aperceba da ilegalidade :
Se a parte não providenciar, dentro do prazo , fixado, . 'fica sem
efeito a acção ou a defesa (art . 33 .°), ou ò que tiver sido praticado
pelo mandatário, (art. 41') . No caso do artigo 33.° é claro que; cessando
a acção, paga as custas o autor ; se ficar sem efeito a defesa, desentra-
nha-se do processo a contestação, mas não há lugar a condenação ime-
-diata em custas .
No caso do artigo X41 .° é condenado o mandatário nas custas res-
1?eetivas e na :indemnização dos .prejuízos .a que tiver. dado causa .
Não é tudo . Pode ir mais longe a reacção contra a inobservância
da lei . O.,Rue se determina nos artigos 33 .1 e 41' completa-se ainda com
o que está prescrito na alínea e) e § 1 .o do artigo 499 .° Suponhamos que
não ae tomam as providências ordenadas nós artigos 33 .* a 41.° : a falta
de constituição de advogado, a falta, insuficiência oq irregularidade doe
mandato não se sanam, nem por iniciativa do tribunal, nem em conse-
quência de arguição da parte contrária ; o processo continua a correr,
sem que a falta ou o vício tenham, sido notadob e supridos eu corri-
gidos .
Entra então em jogo a alínea e) do artigo 499 .* `Tratando-se da falta
de c~ituição de advogada par parte do autos, ou da falta, insuficiência
ou irregularidade de mandáto, por parte da niandatário que haja proposto
a acção, a 5.legalidadc passa a constituir uma ex~ão dilatória; de que
o juiz deve conhecer no despacho saneador (art . n .° 1f), ou oficiosa
mente, ou mediante arguição do réu (art . 499 ",;, § tendo como conse-
quência a absolvição de réu da instancia (art. 293'.o, n:" 5..*) .
Capítulo II - Das partes 65

E 3e se tratar da falta de constituição de advogado por parte do réu,


ox da ^.falda, insuficiência ou irregularidade de mandato por parte db
mandat¬trio que haja actuado em nome do réu?
A alínea e) do artigo 499 .° exclui esta hipótese . A anomalia não
pode então converter-se em excepção dilatória, visto que esta é um meio
de defesa do réu e quem está em falta é precisamente o réu ou o manda-
tário que em nome dele agiu .
Não quer isto dizer que a anomalia deva considerar-se sanada pelo
facto de o processo ter' chegado ao despacho saneador sem qualquer
espécie de reacção contra ela . Continua de pé a sanção organizada no
artigo 41 .° O texto diz expressamente que em qualquer altura podem os
vícios de que aí se fala ser arguidos nela parte contrária ou suscitados
oficiosamente pelo tribunal .
Dai vem que, mesmo no tocante à falta, insuficiência ou irregulari-
dade de mandato por parte do mandatário que haja procedido em nome
do autor, o preceito db artigo 4'1 :° não perde a sua eficácia pelo facto
de a ilegalidade ter assumido o carácter de excepção dilatória . Se a
excepção não for alegada ou o Juiz não conhecer dela no despacho sanes=
dor, pode o réu, ã. sombra do artigo 41 . 1 , deduzir posteriormente a sua
arguição. As palavras cem qualquer altura> são peremptórias.
No artigo 33' não se lê esta frase. Más não pode deixar de enten-
der-se que o pensamento da lei é o mesmo . Em primeiro lugar, não se
sujeita ~s prazo a reacção contra a falta ; diz-se que o tribunal, oficiosa
mente ou a requerimento da parte contrária, fará notificar a parte para
a constituição de advogádo, sem ae eubord'inár este procedimento a 'qual-
quer limite de tempo .
Em, segundo lugar, é manifesto que a lei reputa mais grave a falta
de que se ocupa o artigo 33.o Não faria, por isso, sentido que pudesse,
em qualquer altura, reagir-se contra faltas menos graves e não se pudesse
,reagir contra uma falta de maior gravidade.

ARTiGo 42 .0
(Patrocínio 4udi~ a titulo de gestão de neoócios)

IEm . casos de urgência, pode um advogado ou um solicitador


exercer o patrocínio judiciário como gestor de negócios da parte .
Mas se esta não ratificar a gestão dentro do prazo que for assi
nado, será o gestor condenado nas custas a que deu causa e na
indemnização das perdas e danos que tiver eito sofrer à parte
contrária ou :à parte cuja gestão assumiu .

nova esta disposição. Não se encontra texto idêntico noCÓdigo de


Processo Civi4 italiano ; no Código brasileiro o artigo llo' exprime-se assim :
«Sem a apresentação do instrumento de mandato, ninguém será
admitido em juízo para tratar de causa em nome de outrem, salvo, em
&8 Livro I,, Titulo I -Da, acção em geral

caso de urgência, quem se obrigue, mediante caução, a concordar com


ó que for julgado e a exibir procuração . regular dentro em prazo fixado
pelo juiz.
§ único . Os, actos praticados ad referendum serão havidos. como
inexistentes, se-a ratificação não se realizar no prazo marcados
Estamos em presença dum caso nítido de gestão de negócios . Se o
advogado ou o solicitador se apresenta voluntàriamente a propor uma
açção em nome de pessoa que o não autorizou a fazê-lo, ou a tomar, sem
autorização do réu, a defesa dele, o acto reveste ò aspecto duma verda-
deira gestão de negócios, tal como a configura o artigo 1723.° do Código
civil.
0 Código brasileiro, 'do mesmo modo que o nosso, exige ~,haja
urgência na intervenção ; mas exige mais alguma coisa: que o gestor se
abrigue, mediante caução, a concordar com o que 'for julgado e a exibir
procuração no prazo que o juiz fixar. A primeira obrigação não tem
justificação plausível, a nosso ver ; a segunda não se torna necessária.
Em face do artigo 42.* o gestor é condenado nas custas e na indemnização
de perdas e danos, desde que a parte não ratifique a gestão dentro do
prazo que for assinado.
Em que consiste a ratificação da gestão? Em a parte aprovar o que,
em seu nome, foi praticado pelo advogado ou solicitador. A parte pode
fazer isto de duas maneiras
a) Ou por meio de procuração passada ao gestor, dando-lhe poderes
para a representar e ratificando o que até aí ele praticou;
b) Ou por meio de termo lavrado no processo.
Não há, pois, necessidade de exigir antecipadamente do gestor o
compromisso de exibir mais tarde procuração. O que importa 'é colocar
o advogado ou o solicitador perante o dilema : ou obtém a ratificação da
parte, ou responde pelo que fez .
Claro que, se a parte, não ratificar a gestão, os actos praticados
nenhum valor têm como actos praticados em nome dela : ficam, por isso,
sem efeito e seguem-se as consequências naturais . Se a gestão consistiu
em o advogado ou solicitador propor uma acção, esta tem-se .como não
proposta e o processo finda ; se consistiu em o gestor assumir a defesa,
considera-se o réu em situação de revelia.
Como se distingue o caso previsto no artigo X42.° do caso de falta de
mandato a que se refere o artigo 4LO?
Parece que as duas situações são idênticas, visto que a gestão de
negócios se caracteriza precisamente pela falta de autorização e portanto
de mandato .
E todavia há diferença. No caso do artigo 41.o o advogado ou soli-
citador -procede como mandatário; no caso do artigo 42" procede como
gestor . Por outras palavras : o acto de vontade praticado pelo interveniente
tem alcance e significação diferente num e noutro caso. Uma coisa é o
advogado ou solicitador querer agir a titulo de mandatário e apresentar-se
como tal, embora, de facto, por esquecimento ou inadvertência, -não exiba
mandato, outra coisa é querer actuar a titulo de gestor de negócios e assu-
Capítulo II - Das partes 57

mir declaradamente essa posição . Quando se verifique a . primeira hipó-


tesé, rege o artigo i4'1.° ; quando se verifique a segunda, rege o artigo 42 .*
O gestor tem de alegar a urgência ; e deve procurar convencer
dela o juiz.
A urgência consistirá naturalmente em a . parte se encontrar, por
qualquer circunstância, impossibilitada de providenciar e sofrer prejuízo
sie não irar exercida a gestão. Não deverá o juiz ser demasiado exigente
na apreciação da urgência ; mas é claro que lhe cumpre repelir a inter- .
venção, se lhe parecer manifesto que não se justifica a tentativa de intro-
missão . ,do advogado ou. do solicitador . Importa evitar que à sombra do
artigo 42 .* medre o processei desonesto da caça à procuração .
Admitida a gestão judiciária, o juiz., ou oficiosamente ou a requeri-
mento da parte contrária, fixará o prazo dentro do qual há-de ser rati-
ficada.
ARTIGO 43 .°

(Assistência técnica aos advogados)

Quando no processo se suscitarem questões de natureza


técnica para as quais o advogado não tenha a necessária prepa-
ração, pode este fazer-se assistir, durante a produção da prova
e a discussão da causa, de pessoa que possua competência espe-
cial para se ocupar das referidas questões .
Até oito dias antes da audiência de discussão e julgamento
o advogado indicará no processo a pessoa que escolheu e a
questão ou questões para que reputa conveniente a sua assis
tência ; dar-se-á 'logo coidhecimento do facto ao advogado da
parte contrária, que poderá, dentro de cinco dias, usar de igual
direito .
A intervenção pode ser recusada quando se julgue des-
necessària .
único . Em questões para que tiver sido
relação às
designado, o técnico terá os mesmos direitos e deveres que os
mandatários judiciais, mas deve prestar o seu concurso sob a
direcção -do respectivo advogado .

Este artigo teve por fonte o artigo 22 .° do Projecto CARNELUM .


0 Código admite duas espécies de assistência técnica : a) aos advo-
gados das partes ; b) ao tribunal. Aqui trata-se da primeira ; da segunda
ocupam-se os artigos 618", 650.° e 652 .°, alínea f) .
Também o Código italiano se refere, nos artigos 87 .' e 201 .°, ao con-
sulente técnico da parte e nog artigos 6.1 .* a 64 .° e 191 .' a 198' ao consu-
lente técnico do tribunal. 0 Código brasileiro só fala de assistente técnico
às partes (art . 132 .') .
58 Livro I, Título I -Da acção em geral

Nos termos do artigo 43.° a designação de assistente técnico em


benefício da parte só -pode ser feita através de advogado . Sie a parte não
constituiu advogado, não pode fazer-se assistir de um técnico.
A intervenção deste é limitada aos períodos da produção da prova
e da discussão da causa. Na fase dos articulados não é admitida tal inter-
venção.
Quando no artigo 43.° se fala da discussão da causa, deve entender-se
abrangida tanto a discussão final regulada no artigo 1653.o, como a discussão
preparatória de que se trata no artigo 513"
O direito à assistência técnica exerce-se do seguinte modo : o advo-
gado indica, no processo, até oito dias antes da audiência de discussão e
julgamento do artigo 653 .°, a pessoa que escolheu e a questão ou questões
para que reputa conveniente a sua assistência ; o juiz ou admite a inter-
venção ou a recusa, conforme a julgar ou não necessária; se a admite,
manda notificar imediatamente do facto o advogado da parte contrária,
que, dentro de cinco dias, pode igualmente designar um assistente! técnico .
Algumas dúvidas se suscitam. Poderá o advogado fazer-se assistir
de mais do que um técnico? O artigo diz : indicará a, pessoa ; parece; pois,
que não é lícito escolher mais do que uma . Mas não deve interpretar-se
assim o texto legal.
O advogado tem de mencionar a questão ou questões para que reputa
conveniente a assistência do técnico ; e bem se compreende que, havendo
várias questões de natureza técnica, a mesma pessoa não seja porventura
idónea para prestar a sua colaboração especial em todas elas ; se as ques-
tões técnicas forem de natureza diferente e exigirem determinada- espe-
cialização, a assistência só se torna perfeita quando para- cada uma delas
for possível escolher um técnico . Portanto a lei deverá entender-se neste
sentido :, para cada questão não poderá o advogado designar mais do que
um assistente, mas pode designar assistentes diversos para as várias
questões.
A designação está sujeita à fiscalização do juiz. Este pode recusar
a intervenção no todo ou em parte ; pode julga-la desnecessária em relação
a determinada questão e' necessária ou conveniente quanto a outra ou
outras.
Mas o que o juiz não pode é exercer censura sobre a escolha feita
pelo advogado . 'Se admitir a' assistência ; esta há-de realizar-se por inter-
médio da .pessoa designada.. E também não é licito à: parte coiitráxia
deduzir quaisquer suspeições, impedimentos ou recusas contra o técnico
indicado .
>r' que o técnico funciona, não como um perito, semelhante àqudq#
a que se referem os'artigos 5-86.° e seguintes ; mas como um mamdatário.
(art. 43.o, § único)'e a base do mandato é a confiança do mandante .
A mesma índole tem, segundo cremos, o cpnsulente técnico das
partes admitido pelo Código italiano, visto que se fala dele a propósitq
dos defensores das partes e se coloca no mesmo plano que os advogados
(art 87.°) . 'Pelo'cont~o, no Código, brasileiro o assistente técnico das
partes reveste a figura dum perito (art. 132 .*) . ,
Capítulo II-Das partes 59

Quanto à,actividade a exercer pelo técnico, o § único do'artigo 43 .°


delimita-a assim : em relação às questões para que tiver sido designado,
o técnico terá os mesmos direitos e deveres que os mandatários judiciais,
mas de-, ,e prestar o seu concurso sob a direcção do respectivo advogado.
A intervenção do técnico é circunscrita à questão ou questões «para
que tiver sido designado» . Esta fase há-de entender-se em termos conve-
nientes . O advogado é que inflita inicialmente a questão ou questões
para que deseja a assistência técnica ; mias a indicação está sujeita, como
dissemos, à cènsura do juiz . Portanto onde se diz «para que tiver sido
designado» deve ler-se «para que tiver sido requisitado pelo advogado
e admitido pelo juiz» .
Dentro da questão ou questões respectivas, o técnico desenvolve a
sua acção em .dois momentos diferentes : no acto da produção da prova
e no acto da discussão. Em cada um,destes momentos competem-lhe os
mesmos direitos e incumbem-lhe os mesmos deveres que ao advogado
da parte . E assim o técnico tem, como o advogado,, o direito de formular
quesitos aos peritos, de fazer a estes as observações que entender, de
apresentar reclamações sobre as respostas (arts. 585.°, 597 .°, 600.'), de
esclarecer o juiz e chamar a sua atenção para determinados factos . na
inspecção judicial (art. de interrogar as testemunhas ou de requerer
que sejam esclarecidas é completadas as suas respostas (art . 641 .o) ; pode
usar da palavra na audiência preparatória (art . 513 .°) , assim como na
audiência final de discussão e julgamento (art . 653 .°, alínea e) .
Como o técnico exerce a sua função ao lado do advogado e paralela-
mente com ele, convinha evitar que da intervenção dos dois resultassem
atritos, divergências, atitudes e actuações, contraditórias . No § 2 .o do
artigo X16' do Projecto primitivo impunha-se ao técnico o dever de «pres-
tar a sua colaboração em perfeita concordância com o respectivo advo-
gado» ; ma Comissão Revisora reconheceu-se a conveniência de empregar
uma fórmula que inculcasse uma disciplina mais severa e por isso . se disse :
«deve prestar .o seu concurso sob a direcção do respectivo advogado» .
0 técnico tem, pois, de submeter-se à orientação, às indicações e às
directrizes que lhe forem traçadas pelo advogado com quem trabalha .

ARTIGO 44 .°

(Nomeação oficiosa de advogado)

Se a parte não encontrar quem aceite voluntàriamente o seu


patrocínio, poderá dirigir-se ou ao presidente do conselho dis-
trital da Ordem dos Advogados ou à respectiva delegação para
que lhe nomeiem advogado .
A nomeação será feita sem demora e notificada ao
nomeado, que poderá alegar escusa dentro de quarenta e
oito ~hctras . Na falta de escusa ou quando esta não seja jul-
60 Livro I, Título I -Da acção em geral

gada legítima por quem fez a nomeação, deve o advo-


gado exercer o patrocínio, sob pena de procedimento dhci-
plinar .
!§ único. O que fica disposto neste 'artigo aplicar-se-á à
nomeação de solicitador, sendo porém exercidas pelo juiz as
atribuições cometidas ao presidente do conselho distrital e à
delegação. Ao juiz. pertencerá também a nomeação de advogado
quando o presidente o não faça dentro de cinco dias ou nos casos
cie urgência .

Nas colónias a nomeação compete sempre ao juiz, nos termos do


n .* 2 .° da Portaria n.° 9 :677 .
"Pode suceder que o autor ou o réu não encontre quem aceite volun-
tàriamente o seu patrocínio. O facto é frequente nas comarcas que têm
a sede em vilas ou cidades pouco populosas, em que haja um quadro
reduzido de advogados inscritos " Ordem. São, em regra, de duas
espécies as razões da recusa dos advogadas em aceitar o patrocínio :
a) razões atinentes àí pessoa do adversário ; b) razões atinentes à matéria
da causa . Na maior parte dos casos o advogado recusa-se, porque tem
relações de amizade ou parentesco com o adversário da parte que lhe
oferece o mandato, ou este adversário é credor, .para com o advogado,
de atenções, favores ou consideração especial .
Outras vezes a recusa filia-se em considerações relacionadas com
o objecto da causa : o advogado entende que a parte não tem razão, ou já
foi ouvido pela parte contrária, ou não se sente à vontade, por qualquer
circunstância particular, para defender a pretensão ou o ponto de vista
da parte .
Convém definir com precisão o facto previsto no artigo . A lei des-
creve-o assim
«Se a parte não encontrar quem aceite voluntàriamente o seu patro-
cínio . . .».
Em primeiro lugar deve {) texto interpretar-se como se nele figu-
rassem as palavras anã comarca ou julgado» . Para que ;a parte tenha
o direito de pedir a nomeação oficiosa de advogado, não é necessário que
o patrocínio tenha sido recusado não só pelos advogados do auditório,
isto é, da comarca ou julgado em que a causa corre ou há-de correr,
senão também pelos das comarcas vizinhas . Não se pode ir tão longe ;
a lei não quis impor ao autor ou ao réu o encargo de ir procurar advogado
em comarca estranha, quando o possa obter na própria comarca.
Verifica-se, pois, o evento visado pelo artigo quando a parte não
encontrar, na comarca ou julgado respectivo, quem aceite voluntàriamente
o seu patrocínio . Mesmo em relação à comarca ou julgado da cansa,
a disposição legal deve executar-ase sem rigor demasiado .
Para que obtenha deferimento ao seu pedido, não é indispensável
que o requerente faça. a prova cabal e convincente de que bateu à porta
Capítulo II - Das partes 61

de todos os advogados e a encontrou fechada ; exigir semelhante demons-


tração é sujeitar a parte a diligências deprimentes e vexatórias. Para
que há-d.e obrigar-se o interessado a andar de porta em porta, de escri-
tório em escritório, a solicitar, um patrocínio que de antemão sabe lhe
será recusado?
Na prática, basta que a parte alegue não encontrar patrono ; .não
se exige a prova de que ofereceu em vão o mandato a todos ou a alguns
dos advogados .
Muitas vezes a parte limita-se a dirigir-se ao seu advogado habitual
oú àquele que lhe merece mais confiança e requer a nomeação oficiosa
pelo simples facto de ele não aceitar o patrocínio, encaminhando as coisas
no sentido de a nomeação recair nessa pessoa, por ter a segurança de
que, embora se haja recusado a aceitar o mandato oferecido, não alegará
escusa, se for nomeado oficiosamente:
Pelo artigo 15.1 do Código anterior e pelo artigo 47.o do Projecto
primitivo a nomeação de advogado oficioso competia ao juiz ; pelo
artigo X44.° do Código actual compete ou ao presidente do conselho dis
trital da Ordem dos Advogados ou à respectiva délegação, e só subsi-
diàriamente ao juiz.
Pode perguntar-se se o presidente do conselho distrital tem sempre
competência para fazer a nomeação ou se o presidente e a delegação têm,
cada um,, a sua esfera de acção própria.
Parece-nos que a competência do presidente do conselho distrital
não é cumulativa com a da delegação ; se a causa correr ou houver de
ser proposta em comarca em que haja, delegação, é a esta que cabe
nomear o advogado ; se o facto se der na comarca sede do conselho dis-
trital, a nomeação pertence ao presidente dó conselho .
Duas razões nos determinam : uma razão de urgência e uma razão
de! competência . Razão de urgência : o artigo quer que a nomeação seja
feita sein demora e consequentemente quer também que sem demora
se aprecie a escusa e se faça a nova nomeação, no caso de ser julgada
legítima a escusa apresentada ; ora mais depressa se conseguirá tudo isto,
se a atribuição pertencer, fora da comarca sede do conselho distrital,
à respectiva delegação .
Razão de competência : nas comarcas afastadas da sede do conselho
a delegação, conhecendo as pessoas e os factos da localidade, está em
melhor pasição do que o presidente, do conselho para fazer a nomeação
e para julgar a escusa .
No segundo período do § único comete-se ao juiz a nomeação em
duas circunstâncias : . a) quando o presidente a não faça dentro de cinco
dias ; b) nos casos de urgência . fe a nomeação, em vez de pertencer ao
presidente do conselho distrital, pertencer a,delegação e esta a não fizer
dentro ci.e cinco dias, não pode deixar de entender-se que se devolve tam-
bém ao juiz .
Os casos de urgência dizem naturalmente respeito ao patrocínio para
a proposïção de acções que seja necessário instaurar ou para o requeri-
mento de providências que seja necessário pedir dentro de prazo de tal
62 Livro I, Titulo II- Da acção executiva

modo curto que não se compadeça com 'as delongas do recurso aos orga-
nismos da Ordem .
Importa advertir que a :nomeação oficiosa tanto pode ser requerida
para ~as causas em que é obrigatória a constituição de advogado, como
para aquelas em que a constituição é facultativa . 0 artigo 44 .* não dis
tingue ; e não há razão para distinguir. A parte tem direito a patrocínio
judiciário, mesmo quando possa pleitear por si .
Feita a nomeação, notifica-se ao advogado nomeado . Este pode,
dentro de 48 horas, pedir escusa ; da legitimidade desta conhecerá a enti-
dade que houver feito a nomeação . 'Se a escusa for admitida, deve ime
diatamente nomear-se outro advogado, seguindo-se os mesmos trâmites.
Não especifica a lei os motivos de escusa que devam considerar-se
legítimos. Por isso, a apreciação fica ao prudente arbítrio de quem haja
de julgar . Mas é natural que se considerem sobretudo legítimas as escusas
fundadas em inibições morais e de consciência, como as de o advogado ter
aconselhado a parte contrária ou entender que o litigante não tem razão.
Claro que a nomeação não pode recair em advogado estranho à
comarca respectiva. Não pode impor-se a um advogado o encargo de
exercer o patrocínio fora da sua comarca .
Daí vem que, se na comarca houver um único advogad&e este já
tiver aceitado o patrocínio da ;parte contrária, ou se, havendo mais do que
um, todos eles estiverem .inibidos de aceitar o mandato ou obtiverem
escusa, a nomeação oficiosa .não pode ter lugar. Em tais circunstâncias
a parte, ou se faz representar por solicitador, nos termos do § 2 . 11 do
artigo M .°, oq constitui um advogado de comarca estranha, ou pleiteia
por si, caso possa faz&3b, more termos do artigo 34 .°

TITULO II
Da acção executiva
Depois de tratar da acção em geral no titulo 1 .°, o Código ocupa-se
~cial~te, no título 2 .°, da acção executiva. Quer isto dizer que as
disposições do titulo 1.0, como disposições de carácter,geral, são também
aplicáveis i3 acção executiva, naquilo em que o puderem ser e não esteja
em oposição com o que neste titulo 2 .° se prescreve.

CAPITULO 1

Do título executivo

,ARTiao 45 .°

(Função do título executivo)

Toda a execução terá por base um título, pelo qual se


determinarão o fim e os limites afia acção executiva. A exe-
Capítulo I-po título executivo 63

sução pode ter por fim ou o pagamento de quantia certa, ou a


-entrega de cousa certa, ou a prestação dum facto .

A acção executiva supõe um título executivo, isto é, um título com


força legal suficiente para servir de base à execução .
É pelo título que se determina o fim da acçião executiva, isto é, con-
forme o título consigna a obrigação de pagar uma quantia, de entregar uma
coisa ou de prestar um facto, assim terá de promover-se ou a execução
para pagamelito de quantia certa (arts. 811.0 a 927 .*), ou` a execução para
entrega de-coisa certa (arte . 928 .° a 932 .") , ou a execução para prestação
de facto <arts. 933 .° a 943f) .
É gelo título que se determinam os limitas da acção éxecutiva, isto é,
a exten,9.ão e o conteúdo da obrigação do devedor e consequentemente até
onde pode ir a acção do credor .
Podem dar-se várias hipóteses :
1' Promoveu-se uma execução sem título ;
2.' PPromoveu-se uma execução com base num título que não tem
força executiva ;
3.' Promoveu-se uma execução que está em desconformidade com
o titulo, ou no tocante ao fim, ou no tocante aos limites ;
4.' O credor, apesar de~ estar munido de titulo executivo, fez uso
do proce"aso de declaração
.
Os dois primeiros casos são equivalentes. Em qualquer deles o exe-
cutado pode lançar mão dum destes meios : a) agravar do despacho que
ordenou a sua citação ; b) deduzir oposição por simples requerimento
(arte. 81.2 .*, 813.°, n.o 3" e 815.°) . Pode também arguir a falta ou a inexe-
quibilidade do titulo nos embargos; mas só lhe convém usar deste meio,
se houver de opor os embargos por outro motivo (art. 812 .°, § 2.') .
O Código não se refere expressamente à falta absoluta de título ; só
alude, no n.* 3:° do artigo 813:°, à inexequibilidade do título . Mas é evidente
que se a oposição é lícita quando o título é inexequível com maioria de
razão o é quando não há titulo algum. Acresce que só são taxativos os
fundamentos de oposição quando a execução se baseia em sentença; ora,
se não há título algum, o caso cai sob o domínio do artigo 815.', e não sob
o domínio do artigo 813 .o
Pelo artigo 173:° do Decreto n' 21 :287, reprodução do artigo 72.° do
Decreto n.° 12 :3'53, a,inexe'quibilidade do título devia ser alegada, em reque-
rimento, dentro de cinco diás a contar da citação ; e era esta a doutrina do
artigo 11!52` do Projecto primitivo. Mas entendeu-se, afinal, que não havia
necessidade nem vantagem em destacar a oposição fundada na inexequi-
bilidade do título ; ficou, pois, a oposição fundada neste motivo integrada
no regime geral da oposição regulado nos artigos 812.° e seguintes.
O terceiro, caso assemelha-se ao primeiro. Desde que a execução não
é conforme ao título, na parte em que existe a divergência tudo se passa
como se não houvesse título : nessa parte a execução não .encontra apoio
no título .
64 Livro I, Título II -Da acção executiva

O quarto caso está previsto no n .° 4 .° do artigo 4'58.° Se o réu não


contestar, é o autor quem paga as custas do processo de declaração . Mas
convém notar que as custas só ficam a cargo do autor quando ele tenha
usado, sem necessidade, do processo de declaração. Pode suceder que,
apesar de possuir um título executivo, o autor tenha necessidade de
recorrer ao processo de- declaração. Veja-se o artigo 458 . 1
O sr . Dr. Palma Carlos (Cód . de Proc . Civ . anot ., pág. 176) entende que
o juiz deve indeferir in limine a petição quando se proponha acção decla-
rativa, havendo título executivo . O sr . Dr . Lopes Cardoso (Manual da
acção executiva, pág. 21) sustenta, com razão, que o facto está unicamente
sujeito à sanção do artigo 458 .°-responsabilidade pelas custas-, salvo
so o título executivo for uma sentença, porque neste caso pode o réu
alegar a excepção de caso julgado. Veja-se Alberto dos Reis, Processo de
execução, vol. LO, pág. 201 .

ARTioo 46 .0
(Espécies de títulos executivos)

Podem servir de base à execução :


1 .° As sentenças -de condenação ;
2 .°Os autos de conciliação ;
3 .°As escrituras públicas ;
4 .°As letras, livranças, cheques, extractos -de factura, vales,
facturas conferidas -e quaisquer outros escritos particulares, assi-
nados pelo devedor, dos quais conste a obrigação de pagamento
de quantias determinadas ;
5 .° Os títulos a que por disposição especial for atribuída
força executiva .

Enumeram-se os títulos executivos. O artigo teve por fonte o


artigo 798 .0 do Código anterior e os artigos 172 .o e 197 .o, n.° ;2 .0, do Decreto
n .° 21 :287. É claro que a enumeração é taxativa.
a) Sentenças. Só as sentenças de condenação é que podem servir de
base à execução . Não deve cónfundir-se a frase «sentenças de condenação»
com esta outra «sentenças proferidas em acções de condenação» . A alínea b)i
do artigo 4° define as acções de condenação . Se numa acçaso de condena-
ção o autor obtém sentença favorável, é claro que esta sentença constitui
título executivo . Mas é também título executivo, no tocante e. custas, e
porventura a multa e indemnização, a sentença que julga improcedente a
acção de condenação e a proferidá . em acção de simples apreciação ou em
- acção constitutiva . As sentenças proferidas em acções conservatórias ou
em acções constitutivas são também títulos executivos quanto aos actos ou
providências que ordenam e quanto à mudança que deteraninam. Veja-se
Alberto dos Reis, Processo de execução, vol. 1 .°, pág. 126 .
Os artigos 47.0 a 50.o completam o n .o 1 .° do artigo 46 .o
Capítulo I -Do título executivo 6,5

b) Autos de aoncilidção. -São, em primeiro . lugar, os autos a que


se referf!xn os artigos 418:° e 479:° Mas a conciliação, em vez de ter lugar
perante o juiz de paz antes, de proposta á acção, pode ser levada a cabo
pelo juiz municipal, ou de direito no decurso do processo contencioso
(art . 1518 .° § único, in fine). Há mesmo um momento em que o juiz
deve esforçar-,se por conciliar as partes : no começo da audiência pre-
paratória '(art . '513 .°) e no princípio da audiência de discussão e julga-
mento em processo sumaríssimo (art . 800 .°) . Se o juiz conseguir a
conciliação, é claro que o resultado obtido fica a constar da acta da
audiência . Suponhamos que as partes não cumprem aquilo a que na
conciliação se abrigaram . Como há-de o respectivo credor promover a
execução?
O sr . Dr . Lopes Cardoso (Manual cit ., pág. 29)'é de parecer que a
conciliação obtida pelo juiz no decurso do processo contencioso deve ser
homologada por . sentença, nos termos dia artigo 305.0, tal qual como a
transacção, a que a conciliação equivale . Desde que a conciliação põe
termo à instância, são de aplicar as disposições dos artigos 292 .° e seguin-
tes ; é a única maneira de as aplicar é considerar a conciliação como uma
verdadeira transacção . De sorte qre a acta da audiência da qual fica a
constar a conciliação, exerce o função do termo a . que se refere o
artigo i:05 °, seguindo-se depois a sentença de homologação. Em con-
clusão : se ás obrigações assumidas na conciliação não forem cumpridas,
o título executivo com base no qual o credor há-de promover a execução,
é, a sentença de homologação e não a acta da audiência .
. Não nos parece inteiramente exacta esta doutrina. Estamos de acordo
em que a conciliação apresenta a fisionomia jurídica duma transacção ;
julgamos;, porém, desnecessária a sentença de homologação .
que entre a transacção celebrada por 'termo no processo ou por
documento autêntico extraprocessual e a conciliação de que nos estamos
ocupando há a seguinte diferença fundamental : aquela realiza-se sem
intervenção do juiz, esta é obra do próprio juiz. Tal diferença explica a
necessidade da homologação no primeiro caso e a inutilidade dela no
segundo .
As partes chegaram a uma transacção, a que o juiz foi estranho ;
a transacção consta de termo lavrado no processo ou de escritura pública
junta. aos autos. Então compreende-se que o acto seja submetido à! fis
ealizaçdcr do juiz, que este seja chamado a verificar se 'a transacção é
válida; quer em atenção ao objecto, quer em atenção à qualidade das
pessoas que nela intervieram . A sentença de homologação destina-se
precisamente a esse fim : verificar a legalidade do acto .
FiFmremos agora o caso de o juiz, em audiência, levar as partes a
uma conciliação. Então a sentença de homologação não faz sentido, não.
tem razão de 'ser : seria o juiz a fiscalizar-se a si mesmo, a verificar a
legalidade do seu próprio acto. 'Quando o juiz faz a tentativa de conci-
liação, é claro que se certifica pnèviamente da correcção e regularidade
dó acto 'que empreende, se emprega esforços para conciliar as partes,
á porque está seguro de que, quer sob o ponto de vista do objecto, quer
5 - C6DIGO DR PROCESSO CIVIA
66 Livro I, Título II- Da acção executiva, .

sob o ponto de vista das pessoas, a conciliação é legalmente admissível .


A sentença de homologação seria, pois, uma excrecência .
Qual é então o titulo sobre que há-de assentar a execução no caso
de inobservância -dos compromissos tomados?
É a acta da audiência, que funciona como verdadeiro auto de eonci-
liação. A acta tem efectivamente o valor, a significação e o alcance dum
auto judicial. E se o auto levado perante o juiz de paz é, por si só, titulo
executivo, não se compreende que o não seja o auto lavrado perante .o. juiz
de direito ou o juiz municipal .
Entendemos, pois, que a expressão «autos de conciliação> do n .° 2 .o
do artigo 46 .° abrange tapto os autos celebrados perante o juiz de paz,
como os celebrados perante o juiz municipal ou de direito .
Claro que a conciliação põe termo não só à instância, mas à própria
acção ; esta finda por um acto de vontade das partes, que apresenta a con-
figuração jurídica duma transacção ; o que sucede é que, dadas as circuns
tâncias em que a transacção se realiza, a sentença de homologação não
tem cabimento .
A única sentença, a proferir será sobre o pagamento das custas, que
o juiz pronunciará verbalmente para ser inserta na acta .
c) Escrituras públicas. O artigo 51 .* . define os termos em que a
escritura pública tem força executiva. A redacção do corpo do artigo é
diferente da que tinha o n.' 3 . 0 do artigo 798.° do Código anterior, Em vez
de se falar de créditq, palavra que deu lugar à dúvida de saber se as escri-á
turas públicas podiam servir de base à execução por coisa-certa e à exe-
cução para prestação de facto, ou sòmente à execução para pagamento de
quantia certa, empregou-se a fórniula «qualquer obrigação>, que abrange
manifestamente, além da obrigação de pagar uma quantia, a de entregar
uma coisa e a de prestar um facto .
Dizia-~se no n.° 3.* do artigo 798.° que o crédito devia mostrar-se ven-
cido . Não se reproduziu esta exigência no artigo 51,° porque está declarado
no artigo M2 . 0, de um modo geral, que não pode promover~Lqe a execução
enquanto a obrigação se não tornar exigível, se em face do titulo não apre-
sentar esse carácter.
Também se não aproveitaram as palavras «em ambos os casos sòmente
com relação às pessoas que nela se obrigarem>, que se Liam no n .I 8 .* do
artigo 798.0 do Código de 1876, porque se formulou a regra geral do
artigo 55 .°, com as excepções mencionadas nos artigos 56 .° e 57 .°
O § único do artigo 51 .° resolve a questão, tantas vezes suscitadas, de
saber se as escrituras de abertura de crédito e de contratos de fornecimento
podem ser base de execução e em que termos. Este parágrafo, que no l?ro
jecto primitivo tinha uma redacção mais limitada (art. 1145 .1), foi ampliado
por intervenção da Comissão revisora .
Não pode deixar de entender-se que têm força executiva os instru-
mentos lavrados pelos notários fora das notas, (Albexxo dos Reis, Proc . de
exéc., vol . 1.", pág. 150 ; Dr . Andrade, Rev . de Leg., ano 73:°, pág. 202 ;
Dr . Lopes Cardoso, Manual, pág. 30) . 'Se os escritos particulares são
títulos executivos quando satisfaçam aos req'uisitgs do n.° 4.° do artigo 46 .°,
Capítulo I-Do título executivo 67

combinado com o artigo ;52 .0, por maioria de razão o devem ser os instru-
mentos notariais lavrados fora das notas . _Tudo está em saber se estas
instrumentos devem incluir-se no n .° 3 :' ou no n'0 4 .° do artigo 46
Cremos que entram no n .' 3 .* A escritura pública aí vale o mesmo que
.documento autêntico extra-oficial .
d) Letras e outros ' escritos pai~ticulaires . O artigo 52 .* completa
o n' 4.° do artigo 46 .* Manteve-se a doutrina dos artigos 172 .° e 197.°,
n .° 2', do Decreta n .° 21 :287.
Aos títulos mencignados no artigo 172' do Decreto n.o 211 :287 acrescen-
-tou-se o * extracto de factura, criado. pelo Decreto n.° 19 :490, .de 21-3 .'- .931-
Nos tCrrrios dos4e decreto
à o extracto de factura já era . título exequível, por
que servia de base acção executiva regulada no artigo 6115 .° do Códfgg
anterior (art. 12 .° do "Dec . n ° 19 :490) ; e não precisava, paria o ser, de qué
a assinatura do comprador estivesse reconhecida por notário. Assim se
-declarou também no artigo 62.°
É caro que o Decreto n .° 19 :490 continua - em vigor na parte em que
fixa o regime jurídico do extracto de factura (arts . 1 .° a 11 .°), assim como
na parte em que indica os meios, de que pode ;servir-~se o vendedor quando
o comprador não tenha devolvido o extracto 'ou o tenha devolvido sem a
Bua, assinatura (art . 14 . 1 ), -devendo acrescentar-se aos dois meios indicados
{acção ordinária ou, sumária) a acção sumaríssima .
Do Decreto n .° 19 :490 só deve Considerar-se revogado, por força do
:artigo 2 .° do Decreto n .° 29 :637, o artigo :12 .° Este artigo mandava seguir
os termos da acção executiva do artigo 615 ",do Código anterior . Mas essa
acção . não existe no novo Código. Segundo este a acção executiva começa
.sempre por citação do executado, salvo se -se tratar¡ de execução sumarís-
~(art. 474.*), em que se começa pela penhora e só depois é- admissivel
a oposição (art. 27 o) .
Erri ; face do Código de 1929 o credor de foros, censos, pensões, qui-
nhões ou rendas de quaisquer bens imobiliários está sujeito ao regime geral
e comum dos outros credores, ainda que possua título autêntico ou auten
ticado que demonstre a constituição do ónus ou do direito' real ; se o título
tem força executiva nos termos dos-nartigos 46.° e seguintes, pode- pro-
mover e, execução, mas esta há-de seguir os trâmites normais, não lhe
senda lícito obter a penhora afites da citação do executado, a não ser
no cano de execução oemarf~a, loto é, no caso em que qualquer cre-
dor a pode obter. O mesma sucedé ao credor munido de extracto de
,factura devidamente passado e aceite : há-de promover execução nas ternos
comuns .
-e) Outros títulos. 6 n:° 4.* do artigo 798 .o mencionava os docuánen-
tos de-cobrança de impostos, ou de outros créditos da Fazenda .Nacional,
a que as leis derem . força de -sentença, mandando-éé observar, na parte
~aplicáve,l, o disposto no ,artigo 3, ,da Lei 'de -4-6.°-1859 .
Esta -última, determinação tinha sido acrescèntada, -para resolver
-dúvidas de jurisprudência, pelo Decreto .n .° 4 ;618, de 1a-7"-918 . ,
O n .' *5 .o do artigo 1140,° do-Projecto primitivo, Mepois de,falar dós
títulos a que por disposição especial . for atribuída fgr~ja executiva, acx~
68 Livro 1, Título II -Da acção executiva

centava : ae entre eles os conhecimentos de impostos ou de outros créditos


da Fazenda Nacional . . .x, reproduzindo o que se achava no n.° 4.° do
artigo 798,° do Código anterior . E assim se manteve o texto até à última
revisão ministerial . Nesta resolveu-se eliminar toda a segunda parte do
n.° 5.°, porque se entendeu que nenhuma necessidade havia de fazer refe-
rência especial aos conhecimentos de créditos da Fazenda Nacional, abran-
gidos indubitàvelmente pela primeira parte ; também se considerou des-
necessário acentuar.'que o artigo 3.* da Lei de 4 de Junho de 1859 ainda tem
de ser observado . (Alberto dos Reis, Pme. da exec., vol. 1 .0, págs. 180-184) .
O artigo 6.° do Decreto n:° 15 :076, de 14-2.°-928, permitia que os
estabelecimentos de beneficência e caridade promovessem acção exe-
cutiva para pagamento de foros e outras prestações, com base em deter
minadas certidões. Suscitou-se a dúvida sobre se estas certidões ainda
hoje podem servir doe base à execução comum. O sr . Dr. Lopes Cardoso
(Manual, pág. 20) considera revogado o. artigo ; não nos parece aceitável
esta opinião, pelas razões expositas na Revista de Legislação, ano 7U,
. pág. 389, e no Processo de execução, vol . 1.°, pág. 1'87.

ARTiGo 47.0
(Requisito da exequibilidade da se-ntença)

Para que a sentença seja título executivo é necessário qbe


tenha passado em julgado ou que o recurso interposto tenha
efeito meramente devolutivo .
§ Único. A execução iniciada na pendência de recurso extin-
gue-se ou modifica-se em conformidade com a decisão definctiva
comprovada por certidão. Enquanto a sentença estiver pendente
de recurso, não pode o :exequente ou qualquer credor ser pago
sem prestar caução.
Os requisitos de exequibilidade podem classificar-se em formais e
substanciais.
Não se trata aqui dos requisitos de forma a que há-de satisfazer uma
sentença para ser exequível ; esses requisitos são precisamente os mesmos
a que há-de satisfazer um acto judicial para valer como sentença. Eistão
designados no artigo 1'57.°, combinado com o n.° 1.° do artigo 668.°
Quanto aos requisitos de catácter substancial, reduzem-se a dois :
a) )Que a . sentença contenha uma condenação (art. 46:0, n.O 1.o) ;
b) Que tenha passado em julgado ou que o recurso dela interposto
haja sido recebido no efeito meramente devolutivo (art. 47.°) .
O conceito legal de trânsito em julgado encontra-se no § único do
artigo 677 .'
Se o recurso teve efeito meramente devolutivo e a execução se pro-
moveu antes da decisão definitiva dele, é claro que o resultado do recurso
pode exercer influência sobre a execução . 0 que há-de afinal prevalecer
Capítulo I-Do título executivo 69

como titulo executivo é a decisão definitiva do tribunal superior e não


a sentença de 1.' ou de 2. instância.
Consideremos as duas hipóteses :
1' A sentença que serve de base à execução foi definitivamente
confirmada pelo tribunal de recurso;
2.' A sentença exequenda foi definitivamente revogada ou modificada .
No 1.1 caso a execução não é afectada pelo julgamento do recurso ;
no 2f, a execução extingue-se ou modifica-se em conformidade com a
decisão do recurso.
Pcde, porém, suceder que, revogada ou modificada a sentença na
Relação, obtenha provimento o recurso interposto para o Supremo Tri-
bunal de Justiça. Que influência exerce na execução o julgamento pro-
ferio pelo tribunal de 2.' instância?
Influência definitiva não a pode exercer, visto que a decisão do
Suprezrio é que há-de executar-se ; mas pode temporàriamente fazer
sustar ou modificar a execução pendente, se o recurso para o Supremo
tiver efeito meramente devolutivo (Alberto dbs eis, Proc. d e exec.,
vol. 1.°, pág. 131) . O ar. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 54) acha que
a referência expressa a «decisão definitiva» e a ausência de preceito seme-
lhante ao da 2' parte do artigo 803 ." do Código de 76 indicam que hoje
a acção executiva baseada em sentença pendente de recurso ordinário só
pode se r alterada uma vez, pela última decisão, e depois de esgotada toda
a hierarquia jurisdicional .
Não podemos aceitar este ponto de vista. Quando se diz, no § único
do artigo 47.1, que a execução se extingue ou modifica em conformidade
com a decisão definitiva, não se exclui a possibilidade de, transitòria
inente, se sustar ou modificar .a acção executiva em consequência de
julgado de 2." instância. A ideia que aí se exprime é a de que, para
efeitos decisivas e finais, o que interessa é a decisão definitiva, a que
transitar em julgado . Tanto foi este o pensamento, que se fala de extin-
ção e esta só pode ter lugar em consequência de julgamento definitivo .
Não se aludiu, nem tinha que aludir-se, às repercussões transitórias
produzidas pelo julgamento de 2.' instância pendente de recurso . Isso é
matéria concernente aos efeitos dos recursos, a que não havia necessidade
de fazer referência neste lugar .
E a verdade é que, como o ar. Dr. Lopes Cardoso observa o artigo .724 .'
mostra que o acórdão da Relação pode executar-se imediatamente, uma
vez que o recurso interposto para o Supremo tenha efeito meramente
devolutivo .
Pode dar-se um outro casc. : iniciar-se a execução por o recurso ter
subido à Relação com efeito meramente devolutivo e este tribunal, nos
termos do artigo 703f, atribuir ao recurso efeito suspensivo . Em tal
hipótese pode o apelante requerer que se expeça ofício para ser suspensa
a execução.

Consideremos agora o caso de a sentença ser' revogada ou alterada


em consequência dos recursos extraordinários de revisão ou de oposição
70 Livro I, Título II -Da acção executiva

de . terceiro (arte: 771 .o e 778 .o) . Não pode haver dúvida de que a execução
tem de ser éxtinta ou modificada em conformidade com a decisão defini-
tiva proferida no recurso .
0 disposto no § único do artigo 47" ajusta-se perfeitamente ao caso.
Só há que completar o texto legal, estendendo-o ã. hipótese de a execução
se promover antes de interposto o recurso extraordinário .
Resta saber qual é a influência que têm sobre a execução as decisões
anteriores à -definitiva, proferidas no recurso . 0 sr. Dr. Lopes Cardoso
distingue: tratando-se da oposição de terceiro, as decisões anteriores
nenhuma influência exercem ; tratando-se da revisão, como a procedência
do recurso importa á imediata anulação da sentença exequenda (art. 775 .1),
e respectiva execução deve extinguir-ase logo (Manual, pág. 55) .
Não estamos de acordo .
Em primeiro lugar convém ter presente o disposto no artigo 777 .o,
aplicável à oposição de terceiro por força do § único do artigo 782.11-
0 artigo 77:7.1 contém um preceito paralelo ao do último período do
§ único do artigo 47' e ao da 1 .' alínea do artigo 8191.°: proíbe que o
exequente ou qualquer credor seja pago, enquanto pender o recurso,
sem prestar caução . Isto mostra que a execução não se suspende pelo
simples facto de ter sido interposto o recurso extraordinário .
Agora quanto ao efeito da decisão do recurso .
0 artigo 775 .° não formula o princípio de que a procedência do recurso
em qualquer grau ou instância produz a imediata anulação da sentença exe-
quenda. Limita-se a dizer, na alínea a), que no caso do n.° 7 .o do artigo 771 .°
o juiz ordenará que fique sem efeito a sentença exequenda . Segue-se daí
que, mesmo neste caso especial a. ordem tem execução- imediata?
De modo nenhum . Suponhamos que a sentença a rever é de um
tribunal de comarca ; o juiz de direito declara sem efeito a sentença, mas
a parte vencida apela para a Relação e o recurso é recebido no efeito
suspensivo .
Como é que se há-de cumprir imediatamente a decisão do juiz de
direito e extinguir-se logo a execução, se a decisão está pendente de
recursos e este tem efeito suspensivo?
0 exemplo figurado põe-nos em face da doutrina exacta. As deci-
sões proferidas no recurso extraordinário antes da decisão definitiva
exercerão na execução a mesma influência que as decisões proferidas nos
recuvsos ordinários. Tudo depende do efeito que for atribuído ao recurso
interposto dessas decisões .
Pode dar-se o caso de a execução chegar à altura do pagamento sem
haver decisão definitiva no recurso ordinário ou extraordinária . A lei
prescreve então: o exequende ou qualquer outro credor não pode obter
]:)agaimento sem prestar caução. A exigência compreende-se : a caução
destina-se a garantir o reembolso do executado para a hipótese de a sen-
tença exequenda ser revogada ou modificada .
Mas há discrepância entre o '§ único do artigo 47.° e o artigo 777 .1
Este só exige caução no caso de o pagamento . ser feito em dinheiro ou em
bens mobiliários : aquele não distingue.
Capítulo I -Do título executivo 71

Cosmo a adjudicação de bens imobiliários é também uma forma de


pagamento (arts . 8'72 .° e 87'4:°), e por optro lado o artigo 819 .°, para o caso
de pendência de embargos opostos 'à execução, considera necessária a
caução mesmo no caso de o credor receber e?n pagamento bens imobiliários,
deve entender-se que, estando pendente recurso ordinário ; o credor tem
de . prestar caução para obter pagamento mediante a adjudicação de bens
imobiliários .
Quanto ao critério segundo o qual 'há-de ser fixada a caução, deve
aplicar-se, por analogia, o que está estal>elecido no artigo 819 .°
O processo para a prestaç4o da caução é o dos artigos '443 .° e 444'
Nos termós -do artigo 475.° do Código de Priocesso Civil italiano, as
sentenças e as outras providências da autoridade judiciária, assim como
os actos, notariais ou recebidos por outro oficial público, para valerem
como título executivo hão-de estar munidos da fórmula executiva, salvo
se a lei. dispuser o contrário. A fórmula executiva consiste na oposição
das seguintes palavras, em nome do Rei :
«C, rdenamos a todos os oficiais judiciários a quem for requerido, e a
quem competir, que dêem execução a este título, ao Ministério Público que
lhes dispense assistência, e a todos os agentes da força pública que lhes
prestem o seu concurso, desde que para isso sejam legalmente solicitados» .
Esta fórmula é inserta, no original ou na cópia do título, pelo secrè-+
tário do tribunal ou pelo notário -ou oficial público a requerimento da
parte a favor de quem foi proferida a sentença ou estipulada a obrigação,
ou dos :-,,pus sucessores ; e não pode, sem justo motivo, entregar-se à mesma
parte mais do que uma cópia em forma executiva.
Aeisim era já em face dos artigos 555 .° e seguintes do Código italiano
de 1865 . Entre nós nem pelo Código velho, nem pelo Código novo se exige
a aposição da fórmula executiva. Os títulos designados no artigo 4'6 .°
têm força executiva por si, independentemente da inserção de qualquer
comando ou ordem executiva . A eficácia executiva deriva da lei, e . não
de qualquer fórmula administrativa ; desde que os títulos satisfaçam aos
requisitos especificados nos artigos 46 .° e seguintes, podem servir de base
à execução, sem necessidade de que, lhes seja aposto qualquer comando
especial e solene .

ARTIGO 48 .Q

(Exequibilídade dos despachos)

São equiparados ,às .sentenças, sob o ponto de vista da força


executiva, os despachos e quaisquer outras decisões ou actos da
autoridade judicial que condenem no pagamento de uma quantia,
na prática de um acto ou no cumprimento de qualquer outra
obrigação .

Que a condenação conste de uma sentença ou de um despacho, é


indiferente. 0 despacho que profere uma condenação tem a mesma efi-
72 Livro I, Título II -Da acção executiva,

cácia executiva que a sentença ; e o mesmo sucede quanto aos outros


actos ou decisões da autoridade judicial. A força executiva não deriva
do nome ou da forma extex ;na do acto ; deriva, do poder jurisdicional de
que está investido o órgão.
Veja-se ,Alberto dos Reis, Processo de execução, vol . L?, pág. 13-5 .

ARTIGO 49 .°

(Exequibilidade das decisões arbitrais)

,As decisões proferidas pelo tribunal arbitra] são exequíveis


nos mesmos termos em que o são as decisões dos tribunais
comuns .

O disposto neste artigo é consequência do que se lê no artigo 1574 .°


Ao contrário do que se dispunha no artigo 2'30 .0 da Novíssima Reforma
Judiciária e do que ~se determina na maior parte das legislações estran-
geiras (Cód. brasileiro, art . 1041 .°, Cód . italiano, art . 825 .°), a decisão arbi-
trál não carece -de homologação do juiz de direito ou de qualquer outro
juiz para ter força executiva ; e já assim era pelo artigo 54 .' do Código
d e 76,
A execução não corre perante o tribunal arbitral ; há-de correr
perante o tribunal de comarca (Alberto dos Reis, Proc . d e exec., vol . 1 .°,
pág . 140) .

ARTIGO 50 .°

(Exequibilidade das sentenças estrangeiras)

,As sentenças proferidas por tribunais ou por árbitros em


país estrangeiro só podem servir de base à execução depois de
revistas -e confirmadas pe-la Relação .
§ Único . Não carecem de revisão para ser exequíveis os
títulos exarados em país estrangeiro .

0 processo para a revisão e confirmação das sentenças estrangeiras


eétá regulado nos artigos 1100 .0 a 1106:°
Se a decisão a executar foi proferida por tribunal estrangeiro, para
que tenha eficácia executiva é necessário que se mc5stre revista e confir-
mada pelo tribunal português competente . No artigo diz-se : pela Relação .
Mas há que entender isto em termas hábeis . É à Relação que compete
realmente a revisão e confirmação das sentenças estrangeiras (art . 71 .o,
alínea d), art . 1101 .1) . Mas a Rélação não conhece desta matéria em última
instância . 0 artigo 1106 .°. expressamente admita recurso de revista da
decisão da Relação . Pode, portanto, suceder que, revista e confirmada a
sentença pela Relação, o Supremo revogue o acórdão e negue á confir-
Capítulo I -Do título executivo 78

reação, assim como pode dar-se o inverso ; e é evidente que a decisão do


Supremo prevalece sobre' a da Relação .
Confirmada a sentença pela Relação e interposto recurso de revista,
pode entretanto promover-se a execução, desde que o recurso seja rece-
bido no efeito meramente devolutivo .
Parece estranhar o sr. Dr . Lopes Cardoso que no artigo 150 .' se não
tenha ressalvado o disposto .nos tratados, como se fazia no artigo 1087 .°
do Código anterior (Manual, pág . 61, nota 1) ; mas é sem razão a estra-
nheza, porque a ressalva está onde devia estar : no artigo 1100 .°
Também estão sujeitas a revisão e confirmação as sentenças profe-
r-idas por árbitros em, país estrangeiro . No Projecto primitivo (art . 912.°)
falava-se de «árbitros estrangeiros» ; a redacção foi alterada pela Comissão
Revisora e obedeceu ao pensamento de significar que a revisão e confir-
mação são necessárias ainda que os árbitros sejam cidadãos portugueses,
desde que funcionem em país estrangeiro .
Se'. a lei deste país exigir, como condição de exequibilidade da sen-
tença firbitral, que seja homologada pelo tribunal comum não pode a
sentença executar-se em Portugal sem tal requisito, posto que a nossa lei
o dispense no que respeita às decisões arbitrais aqui proferidas (Alberto
dos Reis, Proc. de exec .; vol. 1.", pág. 141) .
A :revisão e confirmação expressamente se dispensa para os títulos
exarados em país estrangeiro (§ único) . Pós-se assim termo a uma con-
trovérsia suscitada no domínio do Código anterior .
O sr. Dr. Palma Carlos faz o reparo de não se ter exigidb, ao menos,
que os títulos se achem exarados por oficial público do país de origem
e em ce.rnformidade com os preceitos legais aí mandados observar (úód .
de Proc . Civ. anot ., pág . 183) . Não tem razão o douto advogado. Como nota
o sr. Dr . Lopes Cardoso (Manual, pág . 62), a estruturá interna do título
(e não só interna corno também a externa) é regulada pela lei do * país
da emissão ; o título, para ter existência jurídica, há-de satisfazer aos
requisitos de formação exigidos pela lei do 'lugar da celebração (locus
regit a~ .tum). Veja-se Alberto dos Reis, Processo de execução, vol. 1.°,
pág. 179 .

ARTIGO 5 1 .'

(Exequibilidade das escrituras)

As, escrituras públicas têm força executiva quando sejam


o instrumento de constituição d.e qualquer obrigação .
único . As escrituras de abertura de crédito, de contrato
de fornecimento e quaisquer outras em que se convencionem
prestações futuras podem servir de base à execução, desde que
se mostre, por documento passado em conformidade. co m a escri-
tura ou revestido de força probatória segundo a lei, que em
74 Livro I, Título II-Da acção executiva

cumprimento do contrato foi efectivamente emprestada alguma


quantia, realizado algum 'fornecimento ou feita alguma pres-
tação .
Os requisitos formais da escritura pública estão designados no
Código do notariado (arts. 168 .o, 169.o, 171 .' a 173.° 177 .0) . Nenhum requi-
sito especial, relativo à forma, exigiu a lei de processo para que as escri
turas públicas, além de válidas, sejam exequíveis. Mas exigiu um requisito
substancial de exequibilidade : que sejam o instrumento de constituição de
qualquer obrigação . Que a obrigação seja de dar (prestação de loisas) ou
de fazer (prestação de factos), é indiferente.
Nisto se distingue o título executivo mencionado no n.' 3.' do
artigo 4'6 .' do descrito no n.° 4.' As letras livranças, etc ., só funcionam
como títulos executivos no que respeita a obrigações pecuniárias, como se
infere das palavras «das quais conste a obrigação de pagaonento de, quan-
tias detenninadasx . Foi para assinalar esta diferença que no artigo 51.'
se escreveram as palavras «qualquer obrigação».
O n' 3.* do artigo 4'M .° do Código de Processo Civil italiano só
reconhece eficácia executiva aos actos notariais relativamente às obriga-
ções de somas de dinheiro neles contidas .
Para que a escritura pública possa servir de base à execução não é
necessário, como no direito germânico (Cód. de Proc. Civ . alemão, § 794,
n.o 5.0, lei austríaca de 26-7.0-1871, § 3 .'), que contenha a cláusula executiva,
isto é, que dela conste ter-se sujeitado o devedor à execução forçada
imediata.
Pode perguntar-se se no n.* 3.° do artigo 46.°', combinado com
o artigo 51.o, está incluído o testamento. Afigura-senos que sim .
Se o testamento é público, tem manifestamente o valor duma escri-
tura pública, sob o ponto de vista formal; se é cerrado, pode, sqm esforço
nem artificio, equiparar-se à escritura, depois de aberto e registado.
Considerada a questão sob o aspecto substancial, não há dúvida de
que o testamento satisfaz ao requisito do artigo 5'11' quando o testador se
confesse devedor a alguém de determinada quantia ou se reconheça
sujeito passivo de qualquer obrigação . Mas mesmo fora deste caso espe-
cial, o testamento pode valer como título executivo quando imponha obri-
gações ao herdeiro ou ao -legatário e se mostre ter sido aceita a hexlança
ou o legado. Veja-se Alberto dos Reis, Processo de execução, vol . 1.',
págs. 1'50 e 1.458.
A escritura de abertura de crédito é título executivo, diz o § único,
desde que se mostre, por documento passado em conformidade com a
escritura ou revestido de força probatória segundo a lei, que em cumpri-
mento do contrato foi efectivamente emprestada alguma quantia .
A abre a B, por escritura pública, um crédito até ao montante de
100 contos, por exemplo. Qual é a fisionomia jurídica deste contrato?
É um mero contrato preliminar, um contrato de promessa de emprés-
timo. Com a celebração de tal escritura, nos termos simples que ficam
Capitulo I-Do título executivo 75

expostos, nenhum empréstimo sie efectuou, na realidade : B não recebeu


de A qualquer quantia; unicamente recebeu a promessa de lhe serem
entregues, a título de empréstimo, somas sucessivas até ao limite de
1.00 contos .
P+ :irtanto a escritura, só por si, não pode ser título executivo a favor
de A contra B, visto que por ela B não se constituíu em obrigação para
com A . 0 que pode é ser título executivo de B contra A, se este não
cumprir a promessa . Com eleita, se A não puser à disposição de B, nas
épocas e condições ajustadas, as quantias que prometeu abonar-lhe,
B pode exigir indemnização de perdas e danos ; e a escritura funciona
então como titulo executivo, visto que exprime a obrigação em que A se
constituiu, de entregar a B determinadas somas .
0 § único do artigo 51 .' não considera a escritura sob este aspecto ;
teve unicamente em vista definir a exequibilidade da escritura como título
a favor_ do creditante contra o creditado . E encarando-a por este lado,
exige que à escritura se junte prova documental de que foi efectivamente
emprestada pelo creditante ao creditado alguma quantia .
Bem se compreende esta exigência . Se a escritura, vista através do
prisma indicado, é uma mera promessa de empréstimo futuro, não pode
evidenl;emente funcionar como título executivo enquanto se não mostrar
que a promessa foi cumprida .
Gc>mo há-de fazer-se esta prova complementar?
Diz o parágrafo :
a,l Ou por documento passado em conformidade com a escritura ;
b) Ou por documento revestido de força probatória , segundo a lei .
Se a escritura previu e especificou a forma por que devem ser
documentados os empréstimos ou levantamentos sucessivos, observa-se
a estipulação : basta que à escritura se juntem documentos passados em
conformidade com o que as partes convencionaram . Assim, tendo-se
declarado que os levantamentos por conta do crédito aberto serão feitos
por meio de letras ou cheques ou vales ou simples recibos, etc, a prova
há-de fazer-se por aquele, destes meios, que tiver sido -fixado . Claro
que nem a letra nem o cheque, nem o vale carecerá de satisfazer ao dis-
posto no artigo 52 .*
Se a escritura nada disse a respeito da prova adminicular, tem de
observa-se a lei. Os documentos complementargg hão-de satisfazer à
forma exigida pela lei para prova do empréstimo . Que prova haverá de
produzir-+se, pergunta o sr . Dr. Palma Carlos, se cada levantamento exce-
der 8.000$00? Por dura que pareça a solução, responde, entendemos que,
por virtude do artigo 1,534 .o do Código Civil, serão necessárias escrituras
públicas sucessivas (Cód . de Proc . anot, vol . Lo, pág. 187) .
Sem dúvida, a não ser que, como é natural, as partes se tenham
servi&,) de letras, ou, se o creditante é um banco, de cheques, com refe-
rência ao crédito aberto .
O sr. Dr. Lopes Cardoso é de parecer que, no silêncio da ~esc)Itura,
a prova complementar há-de ser feita com documento que tenha eficácia
executava, nos termos dos artigos X46 ." e seguintes (Manual, pág. 68) .
76 Livro I, Titulo .II-Da acção executiva .

Não podemos aceitar esta doutrina . O § único do artigo 'vil ° é expresso :


só exige que o documento iseja revestido de força probatória segundo
a lei ; ora força probatória é coisa diferente de força executiva .
Acha o distinto magistrado que é vaga e imprecisa a fórmula «reves-
tido de força probatória segundo a 'lei» ; qualifica-a assim, porque a não
relaciona com o resto do texto ; se a puser em correlação com a parte
final do parágrafo o -sentido aparece-lhe claro e preciso . Assim, tratando-s~
de abertura de crédito, o documento há-de revestir a forma exigida pela
lei para prova do empréstimo da quantia levantada .
Observa ainda o sr. Dr. Lopes Cardoso que o parágrafo atribui tam-
bém força executiva aos documentos cofplemetares e que, bem consi-
deradas as coisas, a execução tanto assenta na escritura como nos referidos
documentos .
Se assim fosse, a lógica devia levar o sr . Dr. Lopes Cardoso a sus-
tentar que seria nula a estipulação da escritura pela qual se elevasse
à categoria de prova complementar um documento que não estivesse nas
condições dos artigos 46 ." e seguintes . Na verdade, se as partes não
podem, por convenção, criar títulos exequíveis, se essa criação é função
única da lei, é claro que os interessados teriam de limitar-se, na escri-
tura a escolher, de entre os tíulos exequíveis, aquele que para o caso
havia de ser utilizado como prova complementar .
Não é esta a opinião do ilustre magistrado . Pelo que respeita aos
documentos passados em conformidade com a escritura, acha que não
se torna necessário o requisito da exequibilidade . É o que se depreende
das suas palavras : asno silêncio da escritura exequenda» .
A construção que a análise cuidada do § único do artigo 51 .° permite
fazer é a seguinte : a verdadeira base da execução é a escritura ; esta é
que funciona como 'título executivo . A prova adminicular integra-se, por
assim dizer, na escritura, recebe dela a força executiva.
Mais delicada é a questão de saber se poderá considerar-se válida a
cláusula da escritura por virtude 'da qual se admita, cano prova comple-
mentar, um documento insuficiente, segundo a lei, para a demonstração
do empréstimo parcial .
No Processo de execução, pág. 162, escrevi :
Como a lei de forma tem carácter imperativo, parece que não é lícito
às partes derroga-la por meio de convenção e que portanto deve conside-
rar-se nula a cláusula figurada ; as partes podem, na escritura, mostrar-se
mais exigentes do que a lei, mas não podem contentar-se com menos do
que a lei prescreve .
Reflectindo de novo sobre o assunto, inclino-me agrara para a opinião
contraria . A prova complementar integra-se na escritura, recebe dela a
sua força probatória, e por isso tudo ase passa como se a própria escritura
titulasse os empréstimos parciais e sucessivos .
Tudo o que acabamos de expor em relaçaó à escritura de abertura
de crédito tem aplicação, mutatis mutandis, à escritura de contrato de
fornecimento e àquela em que se cónvencionem prestações futuras .
Capítulo I -Do título executivo 77

Arrrioo 52 .°
(Exequibilidade das letras e doa .outros escritos particulares)

Assinatura do devedor nas letras, livranças, cheques e


nos outros escritos particulares, ~xoeptuado o extracto de factura,
deve estar reconhecida por notário.
Basta o reconhecime-nto simples se o montante da dívida não
exceder 10.000$00 ; quando for superior a este quantitativo, é
necessário que o notário certifique que a assinatura foi feita n á
sua presença e que- reconheça a identidade do signatário. J
Nãe, vamos analisar aqui os requisitos farmais a que hão-de satis-
fazer ais letras, as livranças, os cheques e o extracto die factura para vale-
iwn com,> tais ; é matéria de direito substantivo . 0 que interessa, neste
lugar, s¬io os requisitos formais de que depende a exequibilidade dos
títulos mencionados no n.° '4" -do artigo 46.o, e que se resumem na assinar
tura ;do devedor e no reconhecimento, por notário, dessa assinatura.
Aludiremos, entretanto, a duas questaes que se têm levantado a pro-
pósito das letras
1.' Se, não 'reunindo o título tgdoís os requisitos exigidos para as
letras pela Lei Uniforme, pode, apesar disso, servir de base à execução ;
2" Se, estando prescrita a acção cambiaria, a letra perdi a categoria
de título executivo.
A primeira dúvida é de fácil solução . O escrito, pasto que não valha
como letra, será título executivo, uma vez que possa enquadrar-se na
última espécie designada no n.° 4.o do artigo 46.°, isto é, desde que apre-
sente a configuração dum documento particulaz+ de obrigação pecuniária,
assinado pelo devedor, e core o reconhecimento de que fala o artigo '52 .°
(Dr . Tapes Cardoao, Manual, pág. 32 ; Dr. Palma Carlos, Cód. d e Proc.
Civ. anot., vol. LI, pág. 1'89) .
Quanto à segunda, o ar. Dr. Palma Carlos entende que a letra, apesar
de prescïita, conserva a eficácia de título executivo para o efeito de ser
exigida a obrigação subjacente (Cód. cit ., voo . 1.°, págs. 189 e 190) ; pelo
contrário, o, sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, págs. 42 a 47) sustenta a dou-
trina de que, em consequência da prescrição, a letra perdé a qualidade
de título -executivo.
Esta questão prende-se com a de saber se o Assento de 8-5 .°-930
ainda deve considerar-se em vigor . 0 Assento foi proferido sobre o
artigo 339 ." . do Código Comercial ; proclamou-se nele a sobrevivência da
obrigação causal depois de extinta, por prescrição, a obrigação cartular e
coilcluíu--e daqui que as letras podiam continuar a servir -de base à exe-
cução. 0 sr. Dr. Lopes Cardoso desenvolve uma argumentação cerrada
e viva, tendente a demonstrar : a) que o Assento deixou de ter. força obri-
gatória, *desde que o artigo 339 .0 do Código, norma interpretada, foi subs-
tituído pelo artigo 70° da Lei Uniforme ; b) que em face da teoria-da acção
78 Livro I, Título II- Da acção executiva

executiva não pode admitir-se que a letra continue a valer como título
executivo depois de extinta a obrigação nela incorporada, a obrigação
cartular.
Salvo o devido respeito, parece-nos que a questão está mal posta.
O primeiro ponto a averiguar é este : quando a lei (art. 339 .' do Cód .
Comercial ou art . 70 .° da Lei Uniforme) fixa um prazo pãxa a prescrição
da acção cambiária, no fundo trata-se de prazo para a proposição da acçdo
ou de prazo para a prescrição da obrigação constante da letra  isto é, de
caducidade ou de prescrição propriamente dita?
Cremos que o prazo aí estabelecido é um verdadeiro prazo de pres-
crição, e não um prazo de caducidade ; não se quis dizer que a acção' -de
letra tem de ser proposta dentro de cinco anos ou dentro de um alvo ; o que
se teve em vista determinar, é que a obrigação cartularchá-de ser . exigida
dentro do referido prazo, sob pena de o devedor poder invocar a prescrição.
Por isso é que a questão levantada pelo sr. Dr. Palma Carlos-se
o juiz deve indeferir in limine a petição' inicial ou deixar seguir a execução
-- não oferece dificuldades nem embaraços, não tem mesmo razão do ser.
A questão a pôr era a que enunciámos : se o caso é de caducidade ou de
prescrição propriamente . dita . Reso'Ivida, esta, aquela desaparece . Com
efeito, tratando-sé de prescrição propriamente dita, o juiz não' pode inde-
ferir in lvmine a petição, já porque lho veda o artigo 5115 .1 do Código Civil,
já porque não tem em tal .caso aplicação o n.° 3 .* do artigo 481 . 0 da Código
de Processo .
Pela mesma razão não é de aceitar o ponto de vista, do sr, Dr. Lopes
Cardoso . Não estamos em presença dum caso de título inexequível ;
Estamos em presença dum caso de prescrição da obrigação cartular.
A letra continua a ser título executivo, porque continua a reunir os requi-
sitos exigidos para a sua exequibilidade ; o que sucede é que o executado
pode deduzir oposição à execução, nos termos do artigo 812 .*, com funda-
mento na prescrição. Se a letra houvesse 'perdido, em consequência do
decurso do prazo, a eficácia de título executivo, o juiz teria o direito e
o dever de indeferir in limine a petição, porque não pode dar seguimento
ã uma execução baseada em título que não tenha, força executiva ; isso
equivaleria a, conhecer oficiosamente da prescrição, contra o preceito
categórico d.o artigo 15'1'5 .° do Código Civil .
Promovi-da a execução e oposta pelo executado á excepção de pres-
crição da obrigação cartular, poderá a acção executiva seguir para a
exigência da obrigação causal, ou deverá ficar sem efeito o processo exe
eutivo, cumprindo ao credor fazer uso da, acção declarativa, se ^ quiser
obter o cumprimento da obrigação subjacënte?
Extinta a obrigação cambiária por virtude da prescrição, surgem as
questões de saber se subsiste a obrigação causaQ ~e se, nas relèções entre
o exequ'ente -e o executado,' o escrito está <" 'condições de valer como
titulo particular de obrigação a que deva atribui-r~ força executiva . Tais
questões podem discutir-se e resolver-se na oposição à execução ; da
solução que lhes for dada dependerá o termo pur'.o,_seguimento da acção
executiva .
Capítulo I -Do título executivo 79

Assinatura. Há várias formas de assinatura:


a) Autógrafa, isto é, aquela em que o devedor, pelo próprio punho,
zscreve o seu nome;
b) Por procuração (escrito assinado, em nome do devedor, por
mandatário seu) ;
c) ,A rogo (escrito assinado por terceiro, a pedido do devedor) ;
d) De crua (escrito em que o devedor, em vez de apor o seu nome,
se limita, a traçar uma cruz) ;
e) De chancela (escrito a que o devedor apõe um carimbo ou qual-
quer outra assinatura mecânica) .
0 aio 4.° do artigo 46.° exige que os títulos aí designados estejam
assinados pelo devedor ; mas não especifica a forma que a assinatura
há-de re:vestik . Duas coisas têm de considerar-se certas :
1.` Que nenhum valor pode atribuir-se à assinatura de cruz e de
chancela ;
2.' -Que são indiscutivelmente válidas a assinatura autógrafa e a
assinatura por procuração.
A primeira proposição assenta em duas razões : a) não há disposição
actual de lei que reconheça qualquer eficácia ã1 assinatura de cruz ou de
chancela ; b) a assinatura tem de. ser reconhecida por notário e nenhum
notário está autorizado a reconhecer uma assinatura nas condições
referidaw.
A segunda proposição é evidente por si mesma. A assinatura autó-
grafa é a assinatura por excelência, a que tem mais valor e oferece maior
segurança . A assinatura por procurador vale o mesmo que a assinatura
autógrafa, desde que o signatário esteja efectivamente autorizado a assinar
em nome do mandante . Nos termos do artigo 1332:° do Código Civil, pode
qualquer mandar fazer por outrem todos os actos jurídicos que por si
pode praticar, e que não forem meramente pessoais ; claro que a assina-
tura dum título de obrigação não é um acto pessoal.
0 que importa é que o exequ'ente, ao promover a execução, junte ao
título a procuração que autorizou o mandatário a assina=lo (gr. Dr. Lopes
Cardoso, Manual, pág. 39) .
Resta a assinatura a rogo. Mas, quanto s esta, a questão de saber
se pode servir de base à execução um escrito assinado a rogo do devedor
resolve-se numa questão de reconhecimnto .
Reconhecimento. 0 artigo 52.* declara suficiente o reconhecimento
simples quando o montante da dívida não exceda 10.000$00 ; quer que
o notário certifique ter sido feita na sua presença a assinatura e que
reconheça a identidade do signatário, quando o montante seja superior
àquele quantitativo .
0 reconhecimento simples equivale ao reconhecimento por seme-
lhança : o notário limita-se a afirmar, -explícita ou implicitamente, que a
assinatura é semelhante à que o signatário escreveu nos livros e papéis
existentes no cartório (Cód. do Notariado, art. 2G4 .o, § 3.o) . Às outras formas
de reconhecimento são : a) o reconhecimento circunstanciado, em que, a
80 Livro I, Título II =Pa acçdo executiva

pedido dos interessados ou por exigência da lei, o notário faz menção de


qualquer facto ou circunstância que aos signatários ou aos interessados
se refira (C6d . do Notariado, art. 204*°, § 2.°) ; b) o reconhecimento autên-
tico, feito -nos termos do § 1 .° do artigo 2f4 .° e do -artigo 205 .° do Código
do Notariado .
0 reconhecimento descrito na 2 .` alínea do artigo 52.o para, os títulos
de montante superior a 10 .000$00 é um reconhecimento circunstanciado,
visto que, por exigência da lei, o notário, além de reconhecer a assinatura,
tem de mencionar duas circunstâncias : 1) que a assinatura foi feita na sua
presença ; 2) que reconhece a identidade do signatário. Como uma das
circunstâncias é a de a assinatura ter sido feita na presença do notário,
o reconhecimento pode denominar-se presencial ; como, por outro lado, este
reconhecimento tem maior valor que o reconhecimento simples ou por
semelhança, pode ainda dar-se-lhe a designação de qualificado.
Por mais elevado que seja o montante do titulo, a lei não exige reco-
nhecimento autêntico ; basta o simples até 10 .000$00 e o circunstanciado
dai para cima .
Para se saber ~se basta o reconhecimento simples ou é necessário o
reconhecimento circunstanciada deve atender-se, não ao pedido formulado
na execução, mas 'ao montante inicial do titulo (Rev . de Leg., ano 73 ", pág . 38) .
'Para o extracto de factura nenhum reconhecimento se exige (1.' alí-
nea do artigo '52 .o) ; ou tenha a assinatura autógrafa- do comprador ou
esteja assinado por outrem a seu rogo, pode servir de base ià' execução,
independentemente de qualquer espécie de reconhecimento .
Resta saber, quanto aos outros títulos de que fala o n.° 4 .' do
artigo 4'6 .°, que forma deve revestir o reconhecimento quando estejam
assinados a rogo do devedor.
Como acima ao disse, a questão da exequibilidade dos títulos partï-
culares assinados a rogo é uma questão de reconhecimento . Destle que o
n.o 4:° do artigo 46 .o não exige a assinatura autógrafa do devedor e desde
que, por outro lado, a assinatura a rogo é unia forma admitidla e consa-
grada pela lei, impõe-se a conclusão de que o título não deixa de ser exe-
quível pelo simples facto de se achar assinado a rogo. Esta conclusão
adquire maior realce e torna-se mesmo irrecusável, uma vez que o extracto
de factura, compreendido na enumeração do dito n .o 4 .*, goza de eficácia
executiva., mesmo quando assinado a rogo .
Tudo está, pois, em saber que espécie de .reconhecimento notarial é
necessária para .a exequibilidade dos títulos particulares assinados a rogo,
excepção feita do extracto de factura .
0 artigo 540.° considera verdadeira a assinatura a rogo quando esteja
reconhecida por notário com a declaração de que o rogo foi dado na sua
presença, ou quando a parte a quem for oposto o documento reconheça
que o rogo foi dado, ou quando for acompanhada da impressão digital do
rogante . Mas o artigo 52 ..° põe, como requisito de exeqúibilidade, o reco-
nhecimento da assinatura por notário ; daqui já se infere que é, pelo menos,
necessário o reconhecimento notarial feito rios termos da primeira parte
do artigo '540 .° : não basta o reconhecimento simples, poeto que o montante
Capítulo I -Do titulo executivo 81

não exceda 10.000$00, nem mesmo o reconhecimento circunstanciado, tal


como o artigo b2.° o apresenta assim como d.e nada serve, para efeitos
de ~ixibilidade, quê ao lado da aissinatura haja sido aposta a impressão
digital do rogaste ; o mínimo que pode exigir-se ,é que o notário reconheça
a assinatura e a identidade de rogado e certifique que na sua presença foi
dado o :rogo e feita a assinatura.
Mas será suficiente este mínima?
A questão surge em consequência do que se lê na segunda alínea do
artigo '.540" : da veracidade da assinatura a rogo dzriva a veracidade do
documento, quando se provar que sabia e podia ler a pessoa por (conta de)
quem ou em nome de quem o documento foi assinado (rogaste) . A razão
desta exigência-prova de que o rogaste sabia e podia ler -é fàcilmente
compreensível ; se o rogante podia e sabia ler, deve presumir-se que antes
de dar o rogo tomou conhecimento, pela leitura pessoal, do conteúdo d:)
documento, e ~se deu o rogo foi por se ter assim certificado de que o con-
teúdo exprimia a sua vontade.
Conhecida a razão de wa'r do pre~ceintb inserto na 2.' alínea do
artigo X540.", a questão da exequibilidade dos -documentos assinados a
rogo avança mais um passo : todas as vezes que o reconhecimento notaíial
der a seguranca de que o conteúdo do documento corresponde ã vontade
real do rogaste, a exequibilidade é incontestável . Por isso, ficam fora de
d' scussã,o ala sleguintes hipóte~,e'a : a) ter 'a documento rieccinhécisn!en'to
autêntico ; b) certificar o notário que o rogante leu o documento, ou que
o documento lhe foi lido e o achou conforme à sua vontade ; c) certificar
que o rogante podia e sabia ler .
A dúvida surge verdadeiramente quando só existe -o mínimo a que
nos referimos : o notário reconhece a identidade e a assinatura do rogado,
certifica que a assinatura foi feita e o rogo foi dado na sua presença.
Neste caso o reconhecimento -só assegura a veracidade dia assinatura ;
não garante a veracidade do conteúd, do documento e esta é que em
última análise interessa .
Não obstante isto o ar. Professor Manuel Andrade sustenta que
o -documento é exequível, incumbindo porém ao exequente fazer a prova
de que o rogante podia e sabia ler, caso o executado deduza oposição
(Rev. de Leg., ano 73:, págs. 306 e'207, 401 e 403) . Pelas razões que expus
no Processo de execução, vol . 1.", págs. 174 a 176, não me parece segura
esta doutrina ; inclino-me antes para a opinião de que, no caso figurada,
o título não tem força executiva .

Requisitos substanciais . São dois :


a) Que o título contenha uma obrigação, isto é, que por meio dele
alguém se tenha constituído em obrigação para com outrem ;
b) Que a obrigação se traduza no pagamento de quantia determinada
(art. 46.Q, n .I 4.') .
Daqui se v© que, ao contrário do que, nos termos do artigo õ1.",
sucede !em relação à escritura pública, os títulos particulares só pdssuem
eficácia executiva no tocante a obrigações pecúniárias líquidas.
6 --CÓDIO0 DE PROCESSO CIVIL
82 Livro I, Título II- Da acção executiva

O sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 33) não aceita este ponto
de vista; é de parecer que a palavra «detextrninad'as>, escrita no n' 4.° 'do
artigo 4'6.°, ~ifiea o mio que «certa>, empregada m a~ 45.' Que
«determinadas» não é equivalente a «líquidas», moátra-o o artigo 58.°,
pois =que o segundo período do artigo prevê expressamente 'a hipótese de
alguma das quantias determinadas ser ilíquida. De resto, conclui, seria
absurdo que uma letra deixasse de ser exequível só por vencer juros .
Não tem -razão o distinto escritor. Na linguagem jurídica «quantia
determinada» exprime o mesmo que «quantia líquida> . O § 1.° do
artigo 765 .° do Código Civil dá a seguinte definição : dívida líquida diz-se
aquela cuja importância se acha determinada ou pode determinar-se
dentro de nove dias. Para efeitos de compensação tanto importa que a
llmporbânaila da 'dívida já esteja liquidada ou determinada, como que possa
liquidar~ ou determinar-ise dentro do curto prazo de nove dias.
Realmente o adjectivo «determinadas do n.° 4.o do artigo 466' vale
o mesmo que o adjectivo «certa» do artigo 45.° ; mas «quantia» corta quer
dizer precisamente «quantia» líquida. A execução regulada nos artigos 811 .°
a 92?.° destina-se a obter o pagamento de quantia cujo montante já está
fixado ou liquidado, uma vez que não pode promover-se a execução enquanto
a obrigação se não, tornar líquida (art. 802 .o), e se se promover, pode
o executado opor-se com o fundamento da -liquidez (art. 813.°, n.° 6.°) .
0 artigo 806.' mostra, sem sombra de dúvida, que são rigorosamente
equivalentes as expressões squantia líquida» e «quantia certa> . Regulando
o processo a seguir para converter a obrigação ilíquida em liquida, o artigo
exige que o exequente, depois de especificar as verbas que considera
compreendidas na obrigação genérica, conclua pedindo quantia certa.
A mesma ideia se enebntra expressa nb artigo 384.°
Quanto ao argumento derivado do artigo 68.°, é contraproducente.
Na primeira alínea do artigo requere-se para a coligação de eaequentes
que as execuções tenham por fixa o pagamento de quantia determinada.;
que esta expressão áignifica o mesmo que líquida, confirma-o o segundo
período, onde se determina que, sendo ilíquida alguma das quantias, a
coligação :só pode ter lugar depois da liquidação. De maneira que as
duas alíneas do artigo exprimem exactamente a mesma doutrina. Para
quê a coligação seja admissível, diz a 1' alínea., é necessárib que a quantia
a exigir em cada uma das execuções esteja determinada, isto é, texiha
o carácter de líquida; se alguma delas for ilíquida, acreÊCenta a 2.' alínea,
a coligação só pode ter lugar depois da liquidação, isto é, depois de se
tornar determinada ou líquida a quantia que era ilíquida.
Finalmente, a interpretação que damos ao n.° 4' do artigo 46 .° não
conduz necessà:riamente ã consequência de que m títulos aí especificados
deixam de ter força executiva quando a- quantia neles indicada vencer
juros. É que, como observa o sr. Dr. Manuel Andrade, não obsta ú liqui-
dez da quantia devida o facto de ela vencer juras (Rev. de Leg., ano 73.°,
pág. 202, nota) .
0 que importa essencialmente é que o capital esteja apurado ou
liquidado ; conhecido o montante exacto do capital e a taxa dois juros,
Capítulo I-Do título executivo 83

é fácil, em cada momento, determinar a importância devida a titulo de


juros:- basta fazer uma operação aritmética.
De resto, ao promover a execução, o exequente, se o capital vence
juros e quer obter o pagamnto dos já vencidos, deve liquidá-los no
requerianento inicial (art. 805:°) .
A exigência de liquidez do crédito como condição de exequibilidade
das letras, livrança, chexlues e extractos de factura nada acrescenta ao
que se acha prescrito na lei reguladora destes títulos . Com efeito, pelo
n.° 2.° do artigo 1.* e pelo n' '2.° do artigo 75.o da Lei Uniforme sbbrig
letras e livranças, pelo n.O 2.o do artigo 1.° da Lei Uniforme sobre cheques
e pela alínea-e) do artigo 3,° do Decreto n' 19:490, a quantia 'a pagar por
algum destes títulos de crédito há-de estar determinada no título respec-
tivo; e determinada não pode deixar de significar o mesmo que fixada
ou indicada com precisão, e portanto líquida.

Vales, facturas conferidas e outros escritos particulares . Nem o


Código de Processo nem qualquer outro texto legal indica os requisitos
externos a que hão-de satisfazer estes títulos para serem válidos ; nãd
estão sujeitos, pois, a quaisquer condições de iorma preestabelecidas.
Basta que reunam os requisitos dê exequibilidade já examinados.
Há entretanto algumas restrições a fazer. 0 título não pode deixar
de conter os elementos indispensáveis para dar a conhecer a natureza
do acto jurídico nele contido. Como se trata, porém, de títulos que não
têm carácter formal, emes elementos podem ser exproslsas de qualquer
maneira .
Por outro lado, quando a validade do acto jurídico dependa de for-
malidades especiais a partir de certo valor, é claro que essas formalidades
são imprescindíveis.
Assim, o vale representa, em regra, um empréstimo, um adiantamento
ou abono feito a alguém por conta de vencimentos, ordenados ou salários
que o mutuário tem direito a receber . Contém geralmente a designação
«Valei, a indicação -da quantia abonada, a data e a assinatura do devedor.
Exemplo: «Vale 100$00 . 8-3 .°-943 . Jacinto Rodrigues> .
Passando e assinando um escrito deste teor, o signatário confessa-se
devedor, por empréstimo, dia quantia de 100$00 e obriga-se a pagá-la
à pessoa a quem entregou o vale, ou autoriza essa pessoa a, descontar a
importância respectiva no vencimento ou salário que o devedor há-de
receber no fim da semana ou do mês.
Suponhamos, porém, que o credor não chegou, por qualquer circuns-
tância, a embolsar-se da quantia expressa no vale e quer obter pagamento
pelos meios judiciais . Em que casos e termos poderá promover a execução
com base no vale?
Em primeiro lugar, desde que o vale corresponde no fundo, salva
inklicaçãra em contrário, a um título doe empréstimo, é nle~rib que a
quantia designada nele não ultrapasse o limite de 4.000$00, fixado no
artigo 1534.1 do Código Civil, pois que daí para cima o mútuo está sujeito
a determinadas exigências de forma.
84 Livro 1, Título II-Da acção executiva

Em segundo lugar, há que atender a que o título . executivo tem . de


designar a pessoa do credor, como -se vê pelo artigo 55.o A simples ins-
pecção do título -há-de habilitar o órgão juri§dicional a determinar ,quem é
o portador da acção executiva ou quem é o sujeilto activo da execução.
Ora se o vale contiver únicamente os dizeres usuais acima exemplificados,
não pode servir de base à execução, porque não declara quem é o titular
do direito de crédito. 0 bêneficiário do vale terá então de propor acção
declarativa, em que alegue e prove que o vale foi expedido a seu favor.
Para que o vale sirva de título executivo, é necessário, pois, que às
menções indicadas acresça a designação da pessoa do credor, por exemplo
nestes termos : «Vale 100$00 a favor de Ricardo da Piedade» .

Facturas conferidas. A factura conferida é, pela sua natureza, o,


documento comprovativo duma venda feita por comerciante (Cód. Com.,
art. 4'76.°) . É passada pelo vendedor ou por quem o representar, com
indicação especificada da quantidade e qualidade dos objectos vendidos e
respectivo preço .
Se este fica em dívida, pode o vendedor exigir que o comprador
lance na factura a nota de conferência, que é, afinal, a declaração feita pelo
comprador de que a factura exprime a verdade, istmo é, de que comprou
e recebeu os objectos especificados nela e deve ao vendedor ò preço aí
indicado. Ordiniàriamente o comprador diz «Conferi» ou «Conferida» e
assina . Escrevendo estas palavras, o comprador afirma que examinou a
factura e a achou exacta ; isto equivale a declarar que recebeu realmente
per compra os objectos mencionados na factura e se obriga a pagar o
preço nela fixado.
Se não pagar, pode o vendedor, com base na factura, promover exe-
cução para o pagamento, salvo se o comprador for comerciante, porque
neste caso a execução só pode fundar-se no extracto de factura, em vista
do que se dispõe no Decreto n, 19 :490 .
Podem suscitar-se duas dúvidas, uma relativa à exigibilidade da
dívida, outra à designação da pessoa do credor.
Quanto à exigibilidade hão-de . aplicar-se as regras gerais. Ou a fac-
tura declara a data ou o prazo dentro do qual o pagamento há-de ser feito,
ou nada diz a tal respeito. No 1.° caso, é claro que não pode promover-se
a execução enquanto não chegar. o dia ou não expirar o prazo fixado
~art. 802.o) ; no 2 .° caso, têm de observar-se as disposições legais relativas
às obrigações sem prazo certo de vencimento-(Cód
. Civ., arts. 711 .", n." 2.o,
e 732 °).
Quanto à pessoa da credor, não nos parece necessário que esteja
indicada pelo punho do develor ; desde que a . factura designe, em carac-
teres impressos, como é costume, o nome ou firma do vendedor ou identi
fique o. respectivo estabelecimento comercial, é quanto basta para que se
possa considerar satisfeito o disposto no artigo 5'5
0 ar, Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 49) observa que nada impede=
que a nota.de conferência, em vende ser lançada-na'própria factura,conste,
doe diocumdnlto separado, uma, carta po+r exemplo, com referência expressa
.
Capítulo I-Do título executivo 85

ao conteúdo da factura ; mas neste caso terão de exibir-se em juízo, para


base da acção executiva, os dois documentos. Estamog de acordo.

Outros escritos particulares . O que dissemos quanto aos vales e às


facturas conferida9 tem aplicação aos outros escritos, na parte respectiva .

Alrrioo 153.°
(Cumulação de execuções)

Contra o mesmo devedor pode o credor cumular execuções


fundadas em títulos diferentes, seja qual for o valor excepto :
1 .° Se o tribunal competente para todas as execuções não
for o mesma ;
2 .° Se as execuções tiverem fins diferentes ;
3,° Se a alguma das execuções corresponder processo espe-
cial d :ifeÈente do que deva ser empregado quanto às outras .
1 .° Quando a alguma ou algumas execuções corres-
ponder processo sumário ou sumaríssimo e a outra ou outras
processo ordinário, empregar=se-á, quanto a todas, o processo
ordinário . Cumulando-se várias execuções sumárias ou suma-
ríssimas, a forma de processo a observar será determinada pela
soma dos pedidos .
§ 2 .° Se todas as execuções forem fundadas em sentenças,
a acção executiva será promovida no processo de maior valor,
ao qual se apensarão os outros processos .
Se houver outros títulos executivos, encorporar-se-ão no
processo em que haja de ser promovida a execução, segundo a
regra da alínea anterior . Mas se algum dos títulos 'for de valor
superior, os processos em que tenham sido proferidas as sen-
tenças apensar-se-ão ao processo formado com base no título de
maior Valor .
3 .° IE,nquanto uma execução não for julgada extinta, pode
o exequente requerer no respectivo processo . a execução de
outro título, desde que não existam os obstáculos mencionados
nos n .°" 1 .° a 3 .° e à nova execução corresponda, sob o ponto
de vista do valor, a forma de processo empregada na execução
pendente .

O artigo ocupa-se da cumulação de execuções . Convém ap.roximá-lo


do artigo õ8 .", que trata da coligação de exequentes. Os elementos com-
ponent:!s da cumulação de execuções são : unidade de exequente, unidade
86 Livro I, Títúlo II- Da acção executiva

de escutado, unidade de processo e pluralidade de execuções . A coligação


tem de comum com a simples cumulação a unidade de executado e de
processo e a pluralidade de execuções ; o traço diferencial é a pluralidade
de exequentes, contraposta,à unidade de exequente na cumulação . Há que
distinguir acumulação inicial da cumulação sucessiva ; a esta se refere
especialmente o § 3 .°

a) Cumulação inicial.
Permite-se a cumulação de execuções entre o mesmo credor e o ,
mesmo devedor, mesmo quando os títulos executivos sejam vários e de
diferente natureza, e seja qual for o valor de cada uma delas . Pode cumu
lar-se uma execução fundada em sentença com uma execução fundada
numa letra ou numa escritura pública ou num auto de conciliação ; pode
cumular-ase uma execução de valor -superior a 20 .000$00, sujeita portanto à .
forma ordinária (art . 474 .°), com uma execução de valor inferior, sujeita
à forma sumária ou sum'áríssima .
Quando cada uma das execuções esteja sujeita a forma diversa de
processo comum, emprega-se para todas a forma de processo mais
solene : cumulando-se uma execução de processo sumário com outra de
piso ordinárib, há-dto empregar-sie o proceboo ordinário ; cumulandü-se~
uma execução de processo sumário com outra de processo sumaríssimo,
há-de empregar-IsL o procosso gumárib (§ 1 .° do art . 53..o) .
Quando as várias execuções estejam sujeitas à mesma forma de pro-
cesso, !se a soma Nas valores ultr~iar o lïhnite restabelecido para essa
forma, há-de empregar-se a forma de processo correspondente à soma dos
valores (segunda parte do § 1.o) . E assim, cumulando-se-uma execução do,
valor de 6 contos com outra do valor de 8 contos e outra do valor de 10 con-
tos, isto é, cumulando-se três execuções que, processadas isoladamente,
seguiriam a forma sumária (art . (474 .°) o processo a empregar há-de ser-
o ordinário, visto que o valor total das execuções é de 24 contos e excede,
portanto, a limite do. processo sumário .
O disposto no começo do artigo e no seu § 1 .' está em perfeita har-
monia com o disposto no § único do artigo 29 .° e no artigo 3,12 . o
Quando as várias execuções sejam fundadas em sentenças, a cumu-
lação dá .lugar à' apensação dos processos em que as sentenças foram pro-
feridas . Quer dizer, não se extraem certidões das várias sentenças para
servirem de base à execução : apensam-se os próprios processos. E a apen-
sação faz-~se, tomando-se por base o valor . A execução promove-se no
processo de maior valor e a esse se apensam os outros (§ 2 .°) .
Os títulos diversos de sentenças encorporam-se no processo . Se a
execução de maior valor for fundada em título diverso de sentença, é com-
base nesse título que ,se organiza o processo, ao qual se hão-de apensar
os processos em que tenham sido proferidas m sentenças a executar (§ 2 ,)
Nem a diversidade do título nem a desigualdade de valor constituem
obstáculo à cumulação das execuções . Mas há três obstáculos legais à
cumulação, um derivado da competência do tribunal, outro do fim da exe-
cução, outro da forma do processo.
Capítulo I -Do título executivo 87

Não é lícita a cumulação se o tribunal competente para todas as exe-


cuções não for o mesmo (art . 53 .°, n .° 1 .1) . Exige-se, pois, a identidade de
eompet4,ncia, considerada esta-sob todos os seus aspectos . Não pode cumu
lar-se uma execução para a qual seja competente um tribunal especial com
outra para a qual seja competente o tribunal comum ; não pode cumular-se
uma execução que haja de ser promovida no juízo de direito com outra
que haja de ser promovida no juízo municipal ; não pode cumular-se uma
execução que haja de correr em certa comarca com outra que haja de
correr em comarca diversa. Nesta parte é diverso o regime da cumulação
no processo de declaração e no processo de execução . Ao passo que a
diversidade de negras de corìnpetência em razão do território não constituí
obstáculo legal à cumulação de pedidos no processo de declaração (art . 29 .°,
único e art . 274.'), no processo de execução é necessário que para todas
as execuções seja competente o mesmo tribunal sob o ponto -de vista do
território para que a cumulação seja legal.
Exige-se, em segundo lugar, identidade de fim (art- 53'.°, n.° 2 .') . Não
pode cumular-se uma execução para pagamento de quantia certa com
uma execução para entrega de coisa certa ou para prestação de facto .
Exige-se, em terceiro lugar, uma certa identidade de forma de pro-
cesso (n.° 3 .°) . Dentro dos tipos de processo comum não há embaraços
formais à cumulação, como vimas ; mas desde que a alguma das execuções
corresponda processo especial, a cumulação só é permitida se às outras
corresponder o mesmo-processo especial . Não pode cumular-se, pnis,'uina
execução de processo especial com outra de processo especial diferente
nem uma execução de proesso especial com outra de processo ordinário,
sumário ou sumaríssimo .
No Código só há uma execução de processo especial : a execução por
alimentos (arts . 1119 .* a 1121 .°) . Mas há execuções de processo especial
fora .de. Código, como as execuções fiscais .
O sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág . 69) considera evidente que
não pode cumular-se uma execução hipotecária com uma execução para
a cobrança de um crédito comum, embora reconheça que, segundo o
Código ;, o processo de execução hipotecária não é especial . A razão que
produz é a de que o possuidor dos bens hipotecados só responde pela
obrigação até 'ab val'or das dÍitas bens ; não é, por iggo, admilssívfll que,
conjuntamente com a obrigação hipotecária, de soa natureza limitada
quanto a ele, se lhe exija outra própria .
Estamos longe de reputar evidente esta doutrina ; e o que se nos afi-
gura, se não evidente, pelo menos exacta e rigorosamente legal, é a dou-
trina oposta . Assente que o processo de execução hipotecária não é um
processo especial, o único obstáculo legal que pode encontrar a cumulação
de uma execução por crédito hipotecário com 'a de uma execução por
crédito comum é o -do n .' 1 o do -artigo -53 .° Se este obstáculo não existir
se para ambas as execuções foi compf~tente o mesmo tribunal, nada há
na lei que se oponha à cumulação .
A razão invocada pelo sr. Dr. Lopes Cardoso não procede . Em pri-
meiro lugar, nem sempre a execução hipotecária corre contra pessoa
88 Livro I, Título II -Da acedo executiva

diversa do devedor ; a hipoteca pode ter sido constituída pelo próprio


devedor-é a hipótese normal-e os bens hipotecados podem não ter
saído da sua mão . Em segundo lugar, mesmo quando o possuidor dos
bens hipotecados não seja a pessoa que se constituiu em obrigação, a cir
cunstância de o credor só poder penhorar e excutir os bens hipotecados
para se fazer pagar do crédito garantido pela hipoteca não cria dificuldade
alguma iì cumulação com execução destinada a obter o pagamento dum
crédito comum . Não se vê onde esteja a repugnância ou a incompatibi-
lidade entre as duas execuções . Tudo se resolve numa simples questão
de responsabilidade patrimonial : em relação ao crédito hipotecário só
estão sujeitos à acção executiva, sendo o executado pessoa diversa do
devedor, os bens hipotecados, em relação ao crédito comum a responsa-
bilidade executiva incide sobre todo o património . Daqui não resulta
nem confusão, nem desordem, nem atropelo de quaisquer regras ou
garantias ; o executado não é vítima de nenhuma violência. A cada passo
sucede que, em consequência do concurso de credores no mesmo pro-
cesso de execução se dá pagamento a credores hipotecários em concor-
rência com credores comuns, sem que isto crie perturbações nem emba-
raços . Tudo se passa, no fundo como se a personalidade do exequente
se 'd'esdobrassie 'em credor hipotecário e credor comum e o primeiro con-
corresse com o segundo .

b) Cumulação sucessiva. Enquanto uma execução não for julgada


extinta, nos termos dos artigos 916 .' e seguintes, pode-o exequente requerer
no processo a execução de outro título . E pode fazê-lo, qualquer Que
seja a altura em que se encontre a primeira execução, pois que a § 3 .° não
põe limites . O que importa é que :
1) Não existam os obstáculos mencionados nos n .°" 1' a 3,' ;
2) A :nova execução corresponde a forma de processo empregada
na execução pendente .
Vê-se, pois, que para a cumulação sucessiva se exigem os mesmos
requisitos que para a cumulação inicial e, além desses um requisito espe-
cífico . A diversidade de forma de processo dentro do tipo de processo
comum não obsta à cumulação inicial, mas obsta à cumulação sucessiva .
A razão é fácil de compreender . Na cumulação inicial adopta-se para
todas as execuções a forma de processo correspondente à soma dos
valores ; na cumulação sucessiva não pode fazer-se o mesmo, porque
a nova execução vai enxertar-se numa outra já instaurada e que está
seguindo os trâmites próprios duma certa forma de processo . Se fosse
lícito requerer, numa execução ordinária pendente, uma execução
sumária ou sumaríssima, estabelecer-se-ia. o tumulto e a desordem den-
tro do processo executivo ((Alberto dos Reis, Proc . de exec., vol . 1 .',
págs . 268 e 269) .

A cumulação indevida, inicial ou sucessiva, é fundamento de oposi-


ção, nos termos do n .° 2 .o do artigo 813 .' E será motivo de indeferimento,
in limine, da petição?
Capítulo I -Do Título executiw 89

0 sr. Dr . Lopes Cãrdoso .(Manual, pág. 73) responde afirmativamente,


com baeré m n .' 3.° do artigo 481 .° Não pode aceitar-se soem reservas esta
opinião. As palavras do n' 3' «quando for evidente-que a pretensão do
autor n;, ~o pode proceder» não se ajustam ao caso de ilegalidade de cumu-
lação . Admitimos, --ntretanto, que o juiz indefira in limine, se a ilegali-
dade cometida implicar violação de que o tribunal possa conhecer oficiosa-
mente, : ;omo a incompetência absoluta (aTt. 102') e o erro na foi ;rna do
processo (art. 202 .1) ; mas se a infracção for da natureza daquelas que têm
de ser arguidas pela parte, como a incompetência relativa (art . 109 ."), não
parece admissível o indeferimento liminar.

AR-riao 54 .°
(Exequibilidade das certidões extraídas dos inventários)

As certidões extraídas dos inventários valerão como - título


executivo, desde que contenham :
a) A identificação do inventário pela designação do inven-
tariado e do inventariante ;
b) A indicação de que o respectivo interessado teve !no
processo a posição de herdeiro ou legatário ;
C) 0 teor do mapa da partilha na parte que disser respeito
ao mesmo interessado, com a declaração de que a partilha foi
julgada. por sentença ;
d) A descrição dos bens que forem apontados, de entre os
que tiverem cabido- ao requerente,
Se a sentença de partilhas de l .a instância tiver sido
modificada em recurso e a modificação afectar a quota do inte-
ressado, a certidão reproduzirá a decisão definitiva, na parte
respeitanrte à mesma quota .
§ 2 .° Se a certidão for destinada a demonstrar a existência
de uni crédito, só conterá, além do requisito da alin,'t-a a), o que
do processo constar a respeito da aprovação ou verificação do
crédito e forma do seu pagamento .

As execuções fundadas em sentenças de partilhas, ou tenham por fim


exigir a entrega dos bens adjudicados, ou o pagamento das dívidas apro-
ve}ilas, estão sujeitas à regra do artigo 90:0 : correm nos próprios autos .
Meus pode haver necessidade de demonstrar, fora do processo de
inventário, para efeitos de registo, por exemplo, que a um herdeiro foram
afòrmalados certos bens, que a um credor foi reconhecido certo crédito .
O artigo '6'4 :° indica os requisitos a que devem satisfazer as certidões
extraídas do inventário para: valerem como títulos executivos .
90 Livro I, Título II -Da acção executiva

, CAPÍTULO II

Das partes

ARTico 55.°
(Legitimidade do exequente e do executado)

,A execução tem de ser promovida pela pessoa qúe no título


executivo figurar como credor, e deve. s~ê-1o contra a pessoa que
no mesmo titulo tiver aposição de devedor, salvo o que vai dis-
posto nos dois artigos seguintes .

No processo de execução ocupam o primeiro lugar, como partes,.


o exequente e -o executado, cuja posição corresponde, respectivamente,
à do autor e do réu no processo de declaração.
0 'artigo formula os critérios segundo os quais há-de determinar-se
a legitimidade do exequente e do executado .
É parte legítima coma exequente, em regra, a pessoa que no título
executivo figura como credor, é parte legítima como executado a pessoa
que no título tiver a posição de 'devedor . Note-'se que o texto não diz é,
parto egítimla comia ~uente o credor e como executado o develd!ar ; não
diz e não devia dizer, sob pena de confundir a questão de legitimidade
com a de procedência . É que o exequente e o executado podem ser partes.
legítimas, apesar -de não serem credor e devedor.
A legitimidade deriva, em princípio, da posição que as pessoas têm
no título executivo. A inspecção 'deste deve, em regra, habilitar a resol-
ver o problema da legitimidade . Se o título é uma sentença, é parte legí
tima como exequente a pessoa a favor de quem foi'próferida a condenação ;
é parte legítima como executado a pessoa que foi condenada (argumento
derivado do § ún. do af. 8'13 .°)  Se o título é negocial, é parte legítima
como exequente a pessoa que nele figura como credor, isto é, a pessoa
a favom de quem foi constituída a obrigação, e como executado a pessoa
que figura como devedor, isto é, a que seobrigou .
Mas pode bem acontecer que à atribuição do crédito e da obrigação,
resultante do título, já não corresponda ou nunca correspondesse à: reali-
dade. Imagine-se que a sentença condenou alguém a pagar a outrem uma
quantia ; promove-se a execução, estando -a sentença pendente de recurso
com efeito meramnte devolutivo ; a sentença é revogada. Se a execução.
foi promovida pelo beneficiário da sentença e, ,contra o condenado nela,
exequente e executado são partes legítimas, e _todavia vem a apurar-se
mais tarde que o primeiro era credor aparentè ,e o segundo devedor
suposto : na realidade nunca o primeiro. fora titular do direito de crédito
:nunca o segundo fgra verdadeiro devedor.
Capítulo II - Das partes 91

Suponha-se que a execução tem por base um título negocial ; o exe-


quente é parte legítima, porque é a pessoa que no título figura como
credor ; o executado é igualmente parte legítima, porque tem no título a
posição de devedor. Mas, iniciada a execução, o executado deduz oposição
por emb~ e vem a apurar-se que houve na formiação do título um vício
de consentimento, ou que a dívida já eptá paga ; a acção executiva cai,
porque numa existiu ou já não existe o direito de, crédito.
Convém notar que as palavras «credora e «devedora são emprega-
das em sentido amplo, para abranger tanto a relação jurídica de obrigação
como a relação derivada de direitos, reais.
Ne processo de execução podem intervir, como partes, outras pessoas,
além do exequente e do executado, tais como os credores (árts . 61 .° e 864,°),
o cônjuiye do executado (art. 864 . 0), os preferentes- (art . 892 .°), os remi
dores (art. 912 .0), os terceiros responsáveis (arte. 825 .0, 827.°, 856.°), o com-
prador ou arrematante e o licitante (arts . 887 .*, 888 .*, 893 .°, 894.°, 897 .°, 904 .*) .
Sobre a. posição dessas pessoas veja-se Alberto, das Reis, Processo de
exeeuçãa, vol . LI, págs. 204 e seguintes.
A ilegitimidade do exequente ou do executado é fundamento de
oposição à execução (art. 813 .°, n .o 1 .o) ; pode também ser causa de inde-
ferimento in limine (art. 481 .°, n.° 2.1, aplicável por força do art . 801 .') .

ARTIGO H .°

(Habilitação do exequente. e do executado)

Tendo havido sucessão no direito ou na obrigação, no,


requerimento para a execução deduzir-se-á a habilitação do
sucessor . A pessoa ou pessoas citadas podem contestar a habi
litação, observando-se em tudo o mais o disposto no artigo 378 .°
Se a habilitação for contestada, ficarão suspensos, até à
decisão definitiva -do incidente, todos os prazos e termos do
processa) de execução,
§ l .° A execução hipotecária seguirá sempre contra o pos-
suidor pios bens hipotecados, qualquer que ele seja, sem neces-
sidade de habilitação.
2.° A execução fundada em sentença não pode ser
promovida contra o adquirente se a acção estava sujeita a
registo e a transmissão foi registada antes -de feito o registo da
acção.

Nem sempre é parte legítima como exequente ou como executado a


pessoa a quem o título executivo atribui a posição de credor ou de deve-
dor. O artigo 56 .o, depois de enunciar a regra, ressalva. o disposto nos
artigos 56 .° e 57'
92 Livro I, Título II -Da acção executiva

0 caso do artigo 5'5 .° é o de' ter havido sucessão no direito ou na


obrigação . A palavra sucessão está empregada aqui em sentido genérico,
para designar qualquer espécie de transmissão e não únicamente a trans-
missão por morte.
As palavras atendo havido sucessão no direito ou na obrigação»
devem considerar-se equivalentes a estas : atendo havido sucessão na posi-
ção activa ou passiva expressa no título» . É o que resulta da combinação
com o artigo antecedente e das consideraçoes que acabamos de fazer a
propósito desse artigo .
Se a posição constante do título se transmitiu, bem se compreende
que a acção executiva haja doe ser promovida, por quem ou contra quem
foi posto no lugar que ocupava o originário credor aparente ou o primitivo
pretenso devedor.
0 que se torna então necessário provar é o facto da sucessão . Como
se pirava? Por meio de habilítcáç4, -diz o artigo 5S .° Através da habili-
tação vai demonstrar-se que o exequente é o legítimo sucessor da pessoa
que no título tinha a posição de credor, ou que o executado é o legítimo
sucessor do inculcado devedor segundo o título ; feita tal demonstração,
fica estabelecida a legitimidade do exequente e do executado .
Por isso é que o § único do artigo 813 ;°, ao dar a noção dia ilegitimi-
dade do exequente ou do executado, 'a propósito de execução fundada em
sentença, diz que a ilegitimidade do exequente consiste em não ser a
própria pessoa ou o legítimo sucessor da pessoa a favor de quem foi pro-
ferida a sentença, e a do executado consiste em não ser a pessoa ou o
legítimo sucessor da pessoa contra quem a sentença foi proferida ou para
quem ela tem força de caso julga-do .
Tendo-se produzido o fenómenó da sucessão, o título executivo já
não é suficiente para, por si só, apontar o exequente ou o executado ; mas
há-de sempre partir-se do titulo, isto é, da posição nele criada ou definida,
e estabelecer-se em seguida a mutação que nela se tenha operado por
virtude da transmissão:
A habilitação de que se fala no artigo distingue-se claramente da
habilitação regulada nos artigos 376 .0 e seguintes ; aquela é uma habilitação
preliminar ou inicial, tendente a estabelecer a legitimidade das partes
(habilitação-legitimidade), esta é uma habilitação incidental, provocada
pela morte de alguma das partes na pendência da causa (habilitação-inci-
-dente) .
Os termas dia habilitaçãb-legiitimida+de são, ~em eisquema, CI3, Seguintes :
- Dedução ;
- Contestação ;
- Produção de prova ;
- Sentença ;
- Recursos .

Dedução. 0 exequente tem de deduzir a sua habilitação ou á do


executado no requerimento para a execução, isto é, na petição inicial da
acção executiva (art. i56.°) . Alegará naturalmente que em face do titulo
Capítulo II-Das partes 93

executivo a posição de credor ou de devedor pertencia a determinada


pessoa, mas que essa posição se transmitiu, por virtude de tal e tal facto,
para ele, (sucessão no crédito) ou para o executado (sucessão na dívida) .
A dedução não carece de ser articulada (arts. 36 .', 378 .", 307 .o) .

Contestação. Citado o executado nos termos do artigo 811 ." ou dos


artigos 924 .', 928.", 933 .", pode ele contestar a habilitação . Se não can-
testar, consideram-se confessados os factos alegados pelo exequente
(argufento do art. 488:") . e o juiz proferirá imediatamente santença sobre
a questão de direito, julgando demonstrada ou não a habilitação .
Querendo o citado contestar, há-de oferecer a contestação, também
sem dependência de artigos, dentro do prazo de oito dias (art . 308 . 0 ) .
O sr. Dr . Palma Carlos (Cód. de Proc . anot ., vol . Lo, pág. 203) sustenta que
o prazo para a contestação da habilitação é o mesmo que para a oposição
à execução (cinco ou dez dias, conforme a execução for sumária ou ordi-
nária, arts . 816 ." e 929 .') . Julgo ter demonstrado no Processo cle execução,
vcP . 1 .", págs . 224 a 226, que esta opinião não é aceitável . O artigo ã6 ."
manda observar o disposto no artigo 378 .", no qual tem de considerar-se
integrado o artigo 308 .* ; e remete para o artigo 378 .", não em tudo o que se
seguir à contestação, como pretende o sr. Dr. Palma Carlos, mas em, tudo
o azais, isto é, em tudo quanto não está regulado no mesmo artigo 'S6 ."
Oferecida a contestação, ficam suspensos, até à decisão definitiva do
incidente, todos os prazos e termos do processo de execução (2 ." alínea do
art. &6 .o) . A suspensão produz-se a partir da contestação '(Alberto dos
Reis, Proc . de exec., vol . LI, pág . 227) e só cessa quando sobre a habilitação
hajz, decisão com trânsito em julgado (decisão definitiva, como diz o texto
legal) .
Já se observou que a 2 ." alínea do artigo 56 .o emprega indevidamente
a palavra «incidente» . A habilitação -de que se trata não é um incidente,
mas um meio destinado a estabelecer a legitimidade das partes .
Não há dúvida de que, como já acentuámos, uma coisa é a habili-
tação-legitimidade regulada no artigo 56 ..", outra a habilitação-incidente
de que sc ocupam os artigos 376 ." e seguintes . Simplesmente, a habili
tação-legitimidade vem a converter-se, caso seja contestada, num verda-
deiro incidente, visto que suspende os termos do processo de execução
até que .reja julgada definitivamente .
Senio sumaríssima a execução, o executado não é citado para pagar,
nomear b,ens à penhora ou deduzir oposição (art . 9'27 .") . Surge, por isso,
a questão de saber desde quandb se conta o prazo para a contestação da
habilitação . O sr. Dr . Lopes Cardoso (Manual, pág. 83) entende, a nosso
ver bem, que o ponto doe partida para a contagem dó prazo é o que
a 2 .° alínea dó artigo 927." fixa para a contagem do prazo de oposição
à execução : a penhora .

Produção de prova. Só podem produz ir-se, duas espécies de prava : por-


documenbos e por testemunhas (art. 37.8r .o) . Os .-documentos e o rol de tes-
temunhas têm de ser juntos com a petição e contestação (arts. 30?." e 308 .0) .
94 Livro 1, Título II-Da acção executiva

Não podem ser inquiridas mais de 3 testemunhas a cada facto nem


mais de 8 por cada parte (art . 3f9 °) . A inquirição deve ter lugar nos
5 dias seguintes ao termo do prazo da contestação (art. 378.°). Os depoi
mentos são escritos, visto que não intervém o tribunal colectivo (arts. 642.*
e '579 .°, combinados com o art. 4 .o do Dec . n .° 29 :950) .

Sentença . A produção da prova segue=se imediatamente a sentença.


0 sr . Dr. Lopes Cardoso dá -ao juiz o prazo de 15 dias para proferir
a sentença, aplicando o preceito do § único do artigo 658.o Temos dúvida
em aderir a esta doutrina . 0 artigo 378.° determina que, produzida a
prova, logo depois se decida o incidente . A frase «logo depois» tem um
duplo sentido : significa, por um lado, que nenhum ; acto deve interpor-se
entre ~a produção de prova e o julgamento, isto é, que não há a fase da
discussão da causa ; exprime, por outro lado, a ideia de que a decisão
deve ser proferida sem demora, no mais curto prazo de tempo . Esta
interpretação é a que ase coaduna com o espírito da lei, revelado nos
trâmites abreviados e rápidos do }ncidente .
Reconhecemos, em todo o caso, que, não se tendo fixado um prazo
especial para ~a sentença e não sendb lícito exigir que o juiz decida acto
contínuo, fica sem sanção prática a determinação constante das palavras
«logo depois». Exprime-se o voto de que a decisão seja rápida.

Recursos . Da sentença cabe recurso de agravo, coar efeito suspensivo,


que sobe imediatamente nos próprios autos . É o que resulta da alínea c)
do artigo 923.0, como muito bem lembra o sr, Dr. Lopes Cardoso (Manual,
pás . 84) .
Não é exacto, pois, o que escrevi a pás, 230 do Processo cle execução .
Socorrendo-me do n .o 2.° do artigo 691.°, que considerei aplicável pelo
facto de o artigo 516 .° mandar observar o disposto no artigo 378.*, afirmei
que o recurso a interpor era a apelação e que db acórdão proferido. sobro
o objecto desta cabia recurso de revista. Há que corrigir a afirmação,
em vista do que se encontra na alínea c) do artigo 923:°

0 § único do artigo 376.° determina que, certificado o falecimento


do réu por parte do funcionário incumbido . dá citação, podierú o autor
promover a habilitação dos seus sucessores em conformidade do que na
secção se dispõe, ainda que o óbito seja anterior à pro~ção da acção.
0 caso é este : prop6s-se acção contra determinada pessoa, partindo-se do
pressuposto de que ainda está viva ; o oficial de justiça procura o réu para
o citar e obtém a infomação de que faleceu ; apura-se que o falecimento
é anterior à data da* proposição da acção ; não obstante isto, a habilitação
dos sucessores do réu pode .fazer-se mediante o incidente .da habilitação
regulado nos artigos 376.° é seguintes .
É claro que, em rigor, devia ficar sem efeito o processo e o autor
propor de novo a acção contra os herdeiros ou representantes do falecido,
deduzindo a habilitação deles na petição inicial . Para evitar que se inu
tilize o processado em consequência dum evento que o autor pode deoco-
Capítulo II-Das partes 9.)

nhecer, mesmo sem haver negligência da sua parte, inseriu-se a disposição


do § único do -artigo 376'
Tentos domo certo que esta disposição é aplicável ao processo de
execução, já por força do artigo 801', já porque se trata de disposição
geral. Portanto, promovida execução contra, o devedor, se o funcionário
lavrar cerbidãb de que não pôde citá-lo por ter falecido, tanto importa jluie
o fal~ec'ihnento seja poiaterior à proposição da acção executiva, como que
seja anterior. Num e noutro caso a habilitação dos sucessores for-se-á
nas térmos dos artigos 376 .' e seguintes .

Há casos em que a execução pode ser promovida, independente~


mente .ch! habilitação, contra pessoa diversa da que tem no títnlo a posição
de devedor . São os indicados no § 1 ." do artigo :536 . ~ e no ~artigo 5'7,'
Tratando-se de execução hipotecária (execução para cobrança de
crédito garantido por hipoteca), é pane legítima como executada, não o
devedor segundo o título, mas o possuidor dos bens hipotecados, qualquer'
que ele seja . Por !siso é que, em perfeita concordância com o § 1 .' do
artigo 56 .°, o § único do artigo 81 :53 .' declara que a ilegitimidade do, exe-
cutado na execução hipotecária só pode consistir em ser outro o possuidor
dos bens hipotecados . 0 que inteaessa é a pessoa do possuidor e não a
do devedor ; pelo; facto de estar de, posse dos bens hipotecados, a pessoa
é investida na qualidade de parte legítima corroo executado .
O fundamento desta .doutrina é o artigo 892 .' do Código Civil . 0 § 1 .'
do artigo 156 .o é consequência lógica do chamado direito de secpiela. Claro
que a pessoa há-de ser possuidor em nome próprio (Alberto dos: Reis,
Proc . de exec ., vol. 1.°, pág . 236 ; Lopes Cardoso, Manual, pág. &5) .
O preceito do § 1' do artigo '56.o completa-se com o disposto no § 2 .'
do artigo 1036 .1 , onde se diz que os embargos de terceiro opostos à penhora
de beras hipdtzcadás para pagamento do crédito hipotecário só podem
fundar-sr~ em acto ou facto anterior ao registo da hipoteca . Promoveu-se
execução contra o possuidor dos bens hipotecados ; penhorados estes bens,
pode o possuidor deduzir com êxito embargos de terceiro ciontra a penhora,
se tiver meio de provar que adquiriu os bens ou entrou na posse deles
antes da data do registo da hipoteca .
É que, estando a hipoteca sujeita a registo (Cód . Civ., art . 949 .', n .'2 .'
e § 2 .', alínea a), não produz efeito em relação ao possuidor dos bens,
quando este deva considerar-+se terceiroo, senão desde a data do registo
(Cód . Civ ., art . 9151 .') . Por isso, sie o possuidor nem é a própria pessoa que
constituía a hipoteca, nem herdeiro ou representante dessa pessoa, - e
se os bens hipotecados vieram à: sua mão por virtude dum acto ou
facto anterior ao registo d'a hipoteca, pode ele obter o levantamento da
penhora mediante embargos de terceiro . Não obsta ao uso de~ meio
a circunshância de ser executado, corno se vê pela 2.' alínea -do § 1 ." do
artigo 1036."
Temos assim que, no caso figuradb, o possuidorr é_ parte legítima
como executado ; mas o exequente não conseguirá obter pagamento à custa
dos bens .hipotecados, a n.ãb ser que possa socorrer-se do artigo 10+40 .0
91 ; Livro I, Título II -Da acção executíva

(Alberto dos Reis, Proc . d e exee ., vo'l . 1 .", pág . 239) . E se não puder fazer
subsistir a penhora sobre os bens hipotecadas, é claro que menos pode
fazer-se pagar à custa doo i°estante património do possuidor, quando este
seja pessoa diversa do devedor . A execução terá, em tal caso, -de ser
dirigida depois contra o devedor .
Pode perguntar-se se o possuidor, para fazer vingar os embargos de
terceiro deduzidos :à . sombra, do § 2 ." do artigo 1036.", terá de mostrar que
o acto ou facto, em que funda os seus embargas, além de ser anterior ao
registo da hipoteca, foi registado antes desta . Como d'emonstr'ei no Pro-
cesso de execução, vol . 1 .", págs. 237 e 238, e na Revista de Legislação,
ano 73 .", pág. 141, -a solução depende de estar ou nao sujeito a registo
o acto ou facto que serve doe fundamento aos embargos ; se o embargante
invoca, por exemplo, uma compra, uma troca, uma doação, como estes
actos estão sujeitos a registo (Cód . Civ ., art . 949 .", n ." 4 :'), os embargos não
têm viabilidade, desde que o embargante não prove ter registado ess8
acto 'da aquisição antes do regista da hipoteca ; se o embargante alega o
facto da meara posse, como este facto não está sujeito a registo (Cód . Civ.,
art . 952 .< , ), basta que 'o ~embarganta prove que a pese é anterior ao registo
(Ia hipoteca . Assim como a hipoteca não produz efeito em relação ao
possuidor, sendo este terceiro, senão a partir do registo, também o acto
de transmissão em que o possuidor funde os seus embargos não produz
efeito em relaçã:a ao credor hipotecário, sendo ele terceiro, senão desde
o momento do registo.

0 § 2 ." db 'artigo 56 ." constitui uma limitação ao princípie,> que está


na base do artigo . 0 princípio é que, no casa de sucessão, -a execução
pod-e ser promovida pelo sucessor ou contra o sucessor . 0 § 2 ." , esta
belece uma. restrição, : quando a execução se funde em sentença proferida
em acção sujeita a registo, não pode promover-se contra o adqu'irent'e se
a transmissão fz>i registada antes de feito o registo da acção .
Exemplifiquemos . A propõe contra B acção de reivindíicação duro
prédio ; esta acção está sujeita a registo, visto que é uma acção real sobre
bens imobiliários deteiminados (Cód . Civ ., art . 949.", n ." 3 .", Cód . do, reg .
preá., art . 180 .", n ." 3 .") . Suponhamos que o autor não tem o cuidado de
registar a acção e que, no decurso dela, B vende o prédio a C ; este regista
a transmissão a seu favor . Ainda que A obtenha sentença favorável, não
poderá executá-la contra C, 'o adquirente do prédio . Obsta a isso o registo
da compra do prédio, feito numa data em que não se achava registada
a acção .
Pelo contrário, se A registar a acção antes de C consaguir o regista
da tran'smiss'ão, a sentença *quie condenar o réu a entregar o prédio é título
executivo contra C (art . 271 .o, § 2 .") .
Qual a razão disto?
São as ragras relativas ao registo predial que impõem estas soluções .
Desde que o acto sujeito a registo só produz feito em relação a terceiro
no caso -de :ser registado e a partir da datado registo., segue-se que a acção
real sobre bens imobiliários determinados não produz efeito em relação
Capitulo II-Das parte .c 9T

ao adquirente da coisa litigiosa, que é terceiro senão quando for registada


e a conta . da data do registo ; a çornsequência natural e lógica de o acto
dr, proposição da acção não pro'du'zir efeito relaitivam~ente ao adquirente
desde que não seja registado antes do registo da transmissão, é não poder
executai-se contra o adquirente a sentença favorável que o autor obtiver.

ARTIGO 57 ."

(Exequihilidade da sentença contra terceiros)

Se a sentença de condenação tiver força de caso julgado,


não só contra o vencido, mas ainda contra outra pessoa, pode
a execução ser promovida contra esta, independentemente de
habilitação .

Há. casos em que a sentença de condenação tem força de caso julgado


não só contra o vencido, mas ainda contra outras p'esisoas (aras, 328 :', 333 .0,
3 ,16 .", etc .) . Então pode a execução ser promovia çcntr'a essas pessoas,
independentemente de habilitação.
0 sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág . 87) escreve que o § 2 ." do
artigo ;ï6 .° parece ter queri,db e,stab'eDecer uma excepção à regra do
artigo 57 .1 ; mas, bem consideradas as coisas, não faz tal excepção, sendo
puramente redundante. 0 que está messe parágrafo é a repetição des-
necessária do que se prescreve no artigo 57.", combinado com o § 2.^ do
artigo 271 .°
Salvo o devido respeito, não é assim . São diversos os domínios de
aplicação do § 2 .0 do * artigo '56 .° e dal artigo 57 .° O pri~neimo estabelece,
como dissemos, uma limitação -ao princípio que o artigo '5 ,6" pressupõe,
isto é, e.o princípio de que a sentença pode ser; execwtada não só contra
'o originário devedor, senão t'aanbénn contra o seu sucessor. 0 adquirente
sucede aro transmitente ; e 'todavia a sentença não pode, ser executada
contra ele, nem mesmo mediante habilitaé;ão, se a acção não for rggistada
nas circunstâncias já expost"~.
O artigo 57.° nada tem que ver cora o fenómeno de sucessão, pr ,2ve-
nido no arrogo t56 .1 ; refere-se a casas em que certas pessoas estão sujeitas
à eficácia executiva da sentença, apesar de não terem a posição de suces-
sores -do originário devedor .

ARTIGO 58 .°

(Coligação de exequentes)

,Podem vários credores comuns coligar-se contra o mesmo


devedor quando as execuções tçnham por fim o pagamento de
quantia determinada e não se verifiquem as excepções previstas
nos n .°' 1 .° e 3 .° do artigo 53 .*
7-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
9'8 Livro I, Título II- Da acção executiva.

Se alguma das quantias for ilíquida ; a coligação só pode ter


lugar depois da liquidação.
único . É aplicável a este caso o disposto no § 2 .° do
artigo 53 .°

Como já dissemos, a figura & coligação, tratada neste 'artigo, distin-


gue-se .da figura da simples cumulação, prevista no artigo 53 .°, em que
naquela o exequente é só um, ,3 nesta os exequentes sãó vários .
Para chie seja válida 'a coligação de exequentes é necessário :
'Que 1 .' todos eles sejam credores comuns (não pude um credor comum
col'igar~se com um credor privilegïad'o ou preferente, não podem coligar-se
vários credores preferentes ou privilegiados) ;
Que 2.* todas as execuções sejam destinadas a obter o pagamento de
quantia determinada (não pode um credor por quantia certa coligar-se com
um credor ipor coisa certa ou com um credor de prestação de farit», assim
corno não podem coligar-sevários credores por coisas certas ou, vários cre-
doreside prestação de factos) ;
3, .° Que concorraM os mquiaitos de identidade de. competência e de
identidade de forma de processo que se exigem parara validade -da cumu-
)ação, nos termos que já explicámos, s. propósito db artigo, 53 . 1
O sr . :Ur. Lopes Cardoso (Manual, págs. 92' e 93) põe a questão de
saber se será admissível a coligação do e executados ; pana a resolver dis-
tingue entre :
a) Coligação de executados baseada em títulos diferentes ;
b) 'Coligação ba'sea'da no mesmo título .
0 artigo '53 .° repele a primeira. Quanto à segunda, tem de consi-
derar-se 'adm'issivel em face db 'artigo 29 .o, pois que, aendo uso ®ó o titulo
executivo a causa de pedir da 'acção executiva é a mesma e única..
Estamos de acyowdo com o ilustre magistrado. E neste sentido se
deve enetender o que se acha escrito a pás . 269 . do Processo de execução ;
quando aí se diz que a lei não consente que o mesmo ou vários credores
promovam, no mesmo processa, mais do que uma execução contra diversos
devedores, tem-se em vista a coligação fundeada em títulos diferentes.
0 artigo 58 .o, aplicável ã coligação baseada em títulos diferentes,
exige, como requisito, a unridmde de devedor . Mas esta unidade deve
encamarrse sob o aspecto jurídico, e não 'sob o aspecto materílal. 0 que
importa, como frisa o sr . Dr . Lopeis Cardoso, é guie haja unidade de obri-
gação (Alberto dos Reis, Proc, de exec., vbl . 1 .°, pás . 270) .

Atrrroo 59 .°

(Legitimidade do Ministério Público como exequente)

0 Ministério 'Público tem legitimidade para promover a


execução por multas impostas -em qualquer processo, bem como
a -execução por custas ou quaisquer importâncias devidas ao
Capítulo II-Das partes 99

Estado, cofres, Ordem dos Advogados ou Câmara -dos Solici-


tadores .

Atribui-se neste artigo legitimidade especial ao Ministério Público


para prunover execução destinada à ; cobrança de certas quantias .
Que quantias? Em primeiro lugar as devidas a título de multas
impostas em processos cíveis, ou em consequência da má fé dos litigantes
(art . 465 ."), ou ãrn consequência da falta de observância de determin'a'dos
preceitos, já por pare 'do autor ou do réu (arts. lõ5^ e '550 .'), já por p'árte
dos seus advogados (art . 170f), já por parte dos funcionários judiciais
(arts. 17'i .", 658f), já por parte de terceiros (art. 524 .") .
Em segundo lugar as quantias devidas a título de custas .
Finalmente as importâncias devidas ao Estado, Cofres, Ordem dos
Advogadas ou Câmara dos Sdlicitadores . Não obstante a frase «quaisquer
importâncias», não pode supor-se que o pensamento da lei fosse conceder
legitimidade ao Ministério Público, para, como representante da Ordem
dos Advogados ou da Câmara dbG Solicitadores, promover acções por
dívidas a. estas entidades, qualquer que seja a sua proveniência. A,expres-
sãrr «quaisquer importâncias» há-de relacionar-se dom a palavra «custasx,
de que é o seguimento ; não são todas e quaisquer importâncias devidas
à Ordem dos Ad'vogad'os e à Gamara dos Solic4tadoros, mas 'aquelas
importâncias que têm, mais ou menos, o carácter de custais ou que cos-
tuinam entrar em regra de custas, como são as percentagens que, segundo
o artigo 70 .0 do Código das Custas, cabem à Ordem e à Câmara nas impor-
tâncias arbitradas a título de procuradoria e nas remunerlações atribuídas
aos defensores, curadores, advogados e solicitadores nomeados oficiosa-
mente e aos agentes especiais 'do Ministério Público .

ARTIGO 60 .°

(Intervenção obrigatória de advogado)

As partes têm de fazer-se representar por advogado nas


execuçõ,ws de valor superior ,à alçada da Relação ; e nas de valor
inferior a esta quantia, mas excedente à alçada do tribunal de
comarca, quando sejam opostos embargos ou haja lugar à veri-
ficação de créditos .

0 patrocínio judiciário nas execuções está sujeito às regras seguintes :


a) Se o valor da execução não excede a alçada do tribunal de
comarca (6 .000$00), não é necessária, para acto algum, ~a intervenção de
advogado ; as partes podem, por si ou por intermédio de solicitador;
iaquerer e praticar !todos os actos e termos ;
100 Livro I, Título II =Da acção executiva

b) Se o valor excede a alçada da Relação (20 .000$00), é indispensável


a constituição de advogado 'desde o início da intervenção da parte ;
e) Se o val'o'r está compreendido entre 'os dois limites indicados,
a intervenção de advogado Èó é necessária quando sejam opostos embargos
ou haja lugar à verificação, de créditos .
No caso 'd'a alínea b) o exequente tem de constituir a3Vogado, ao
apreselntar a petição inicial, ou passando procuração, ou fazendo assinar
por ~aidvogad'o a petição nos termos do n." 2.o do artigo 35." ; o executado
tem igualmente de constituir .a~d~vogado, se quiser deduzir oposição ou
levantar qualqu'el-questão de direito (art . 33 .") .
No caso da alínea c) a constituição de advogado é necessária, por
parte do exequ'ente, para contestar os embargos da executado e pura os
actos. d o respectivo processo ; por parte do executado, para deduzir
oposição por enrbargcls e para os restantes actos do processo de
oposição .
Além disso, se qualqueN ci°edor quiser reclamar o seu crédito há-, d,e
constituir advogado para esse efeito ; e o ex'equ~ente e executado têm
igualmente de c'onsÚtuir advogado, não o tendo já constituí, db, se quiserem
impugnar os créditos reclarnadfos .
0 si-. Dr . Lopes Ca'rdo'so (Manual, pág. 103) entende que não é neces-
sárca a eorr,stituição de advogado para a reclamação dos cr-é .d~t!os por, parte
doe credores. Funda-se em que o artigo 60 ." exige a intervenção de advo
gado quando houver lugar à verificação de créditos, e não quando haja
reciaru.ação de c1r!éd4tas ; 'ara a verificação só surge sie os créditos são
impugnados, pois os que o não forem, considerarn-n~e- reconhecidos
(art . 868.") .
Afigura-se-no's que o distinto magistrado se cinge demasiadamente
à lc)tra da lei . 0 artigo 60." tear, na redacção actual, resultante do 1?eci!eto
n." 29 :9':10, o mesmo pensamento e o mesmo alcance que tinha no- texto
primitivo ; as altercações que se fizeram foram não de substância, mas da
fornia (Alber't'o dos Reis, Proc . de exee ., vol. 1.", pág. 256) . A frase «quando
sejam 'opostos embargos eu haja lugar à verificação ~de créditos» c'orr--s-
pcnde precisamente à' fórmula inicial «desde que !s!ejam opo'stos embargos
ou surja algum incidente que siga termos semelhantes aos ;do processo
do declaração» .
0 processo organizado nos artigos 865.1 a 868.' é um processe para
a verificação 'de créditos ; 'de;~de que a reclamação -do crédito é já um acto
desse proc~e:J~~o, acto que corresponde 'precisam'ent'e à petição inicial para
uma acção de dívida, não polir 'deixam de entender-'se que a ci~nstituição
de advogado é necessária paria esse acto . Reclamar o crüdito é r(-clamar,
a verificação ~dele, coma se vê pelo artigo 1180 .' ; que, no decurso do. pro-
cesso, o crédito seja ou nã'o impugnaido, é indiferente para o efeito da
significação e valor do 'acto da reclamação .
De gesto, ~a palavra «reconhecii ,dbs», que se lê na parte final lio
artigo 868.', equivale precisamente a «verificados» . Para não se r!epetir-
o vocábulo, é que s!d escreveu reconhecidos, em-vez de veri'ficad'os .
Capítulo II - Das partes 101

ARTIGO 61 .°

(Poderes do credor privilegiado ou preferente)

0 credor que sobre os bens penhorados tiver privilégio


ou preferência, mesmo baseada em penhora ou hipoteca judi-
ciária, pode promover o andamento da execução quando o exe
quente não seja diligente em a fazer seguir os termos res-
pectivos .

Dá-se ao credor privilegiado ou preferente o poder de promover


o andam'en'to da execução, 'quando o exequente sla mostra inactivo .
Esitamos em presença 'dum caso de acção executiva sub-rogatória :
a cr'ed'or substitui-sie o,3 exequeinte e actua Em n'em-e dEi3te . Há aqui dis-
cordância entre a legitimidade formal e a legitimi'dã9,e substancial. Sob
aspecta formal, o exequente paissa 'a rar o credor privilegiado eni pnafe-
rente ; sob o aspecto substancial, continua a ser a piesfa'c,a que promoveu
inicti'alrnznte a execução (Alberto -dos Reis, Proc. de exec ., v'1,, 1 .", págs . 217
e 218) .
Como se justifica esta substituição?
«Justifica-se pelo facto dia que pode suceder virem es créditos pre-
ferentes a absorver todo o paltr!imónio executadìo, com inteiro prEijuízb do
ex"u,ente, o qual neste casso deixará de se interessar pelo prossegui
mento da acção executiva» (Dr. Lopes Cardoso, Manual, pág. 108) . Lrto
responde à crítiica feita polo sr . Dr. Palma Cartas (Cód . de Proc . anot .,
vos . 1 .", págs . 204 e 20 .3) . Eeltranha o ilustre 'advogado que a faculdade can-
cedida prelo artigo 61 .^ não se çesoten'desse a todos as cr'e'dores, mesmo
comuns, cujos créditos já estivess~am verificados, tanto macia que o artigo
manda atendler à preferência baseada em penhora ou hipatec'a judiciária
e os credores que têm a seu favor edta preferência, são afinal cr'édoiies
comuns.
O artigo 61 ." foi escrito principalmente para assegurar b andamento
de, execução no intervalo quia decorre desde a p-enhiorla até à verificação
dos créd"vtos, quando o exequente não cuide dia 'o promovei . A negigên
cia do exequente nesta fase 'do pilocesiso não podia ser suprida pela acção
dos credores comuns, pela razão simples de que estes ainda não têm os
seus credifois rec'onhecidos .ou verificados .
Chega-se à sentença de verificação e graduação de créditos. Daí por
diante 'todos os credores cujos créditos tenham sido reconhecidos. ou veri-
ficados, sejam preferentes, sejam comuns, ficam no mesmo plano sob
o ponto de vistia *s padeces meramente processuais. Podem fazer penhorar
outiros bens (ai+t. 870.") e têm voz em todos os actos, posteriorlasi do pro-
ceg'o, '-tal qual como o exequente (arts. 886 .', 888 .", 894 .", 906 ." ; 875 .', 878 .°,
879 .", 880 . ,, , 895f, 897 .", 899 :", 9014 .', 917 .", 919 .')
Só há um acto r'eserva'do ao 'exequente : a fixação ~do valor em quo
os bens hão-de ir à praça (art . 896 .") .
:1102 Livro I, Título II- Da acção exeçutiva

Daqui se conclui quie, por força do reconhecimento e verificação dos~


ci~i&dk;os, os credores, mesmo, comunis, ficam tendo no processo pooição
idêntica à do exequerite ; ia e~ução convei~~sie de singular em colectiva,
ou concursual (Albeito dbs .Itêis, PLroc. de exec, vol . Lo, págs. 209 e 210) .
~ a pienhora até à verificação dos créditos é que a inactividade
dia exequente só podie -ser suprlidia pelos crediores privilegiados ou pre-
fkxrentês,
Eiai face do artigo, 61 .* o credor que se propõe exercer a acção
oub-riogaMAia há-& m~ar :
1 .' Quie tmn privilégio ou preferência ssobre os bens penhorados ;
2 .' Que o e~ente não é diligente em promover os t~os da
~Cução.
Quanto ao 1 .* reqiri~, a prova há-de fazeir-sei pior documentos.
AL prova da preferência ~tará natwralknente, da certidãb dos, ónut3 ins-

<-ritos sobre os bens penhorados .


Quanto -aio 2.o, o ~r tratará de demon~r que a atituide e conduta .
do êxequente no procêsso revelwn negligência e de«interesse ; o juiz deci-
dirá m seu prudente arbítrlib, se as~dm é (Dr. "pes Cardoso, Manual,
pág. 109) . Queria o ará Dr. Palma Carloi~ (ob . cit ., pág. 205) que a lei
descesise até à .fixação do critério dia negligência . 0 único critério que se
poderia .estabelecer era o do tempo : considerar-se negqÍgente~ por e~lo,
o ex~nte que diéixasse de promover o -andamento da execução durante
um detembrado per"b dê tempo (um mês, três meses, ' iseis m~s ,, .
um ano) .
Mae pareceu preferíviel, deixar ao juiz maior liberdade de apre-
ciação, o que lhe ~iW" atender iNs circunstâncias que em cada caso
e.brw~ podem verifioar-se, tanto mais que o exercício do prudente
ar.bítirio do juiz n&o oferece peirigos, tr*bando-se, ccbno si,- trata, de substi~
tüir a ~ duin credor pela d-e outro <lue se mostra mais inheresbado .
Manifeista, o 9r . Dr. Palma Carlos a sua surpresa por -si-- tonial~ em
consideiraçÃo -a prefeiriênciia bas" em penhora ou hipoteca judiciária .
Argumenta assim : ou os bens chegam para pagamento a "os os cTedores,,
e --neste ~ é indffer~ ter ou não penhora ou hipoteca judiciária, ou
não chegam, e n~ c~ tem de decreWr-se a insolvência, que faz desa-
parecer a preferência derivada da penhora ou da hipotecia judiciái -dia .
0 raciocínio parece impecável. Mas &squece-~e este facto, certo e
positivo : enquanto ãe não chega ao de~cretamento ~da insolvência a posição
do credor com penhoraou hipoteca judiciáris, não é igual à -do credor que
n@D tem a seu favor ~quer de%sas garantias . Tal qual ciomo o credor
hipoteca
priv~legiodo ou prerferente porr vi-Aude de negocial, o credor com
penhúra ou hipoteca judic-iár~a tem o -direito de se fazer pagar pelos bens
penhor«dos ou hi~adeis, de prefeTência ao credar despilovildo de qual-
juer garantia. Se antes ,da declailaçã1o -de insolvência a situação do ciiedor
<-Iyrn 1)referêhicla de origem proces-suM é igual, à do credIar com prefe-
riência de origem extraprocessual, não fa~ia sentido que a acção sub-roga-
tória "se concedida a este e negada àquele .
LIVRO II
Da cempeténcia e das garantias da imparcialidade

CAPITULO I

Das disposições gerais sobre competência

Arrrioo 62 .0
(Competência internacional e competência interna.
Elementos que as condicionam)

Os tribunais (portugueses têm competência internacional


quando se verifique alguma das circunstâncias mencionadas no-
artigo 65.°
Na ordem interna o poder jurisdicional distribui-se pelos
diferentes tribunais, em regra, segundo a matéria e o valor da
causa, a hierarquia judiciária e o território. Em casos excepcionais,
atende-se também à qualidade do réu.
No Pr~ primitivo o livro 2.° tinha por epígrafe Da jurisdição
e competência, compreendendo cinco oaipítulo$, o primeiro, doa quais dizia
respeito à «jurisdição» 'e o segundo à «competência» .
Sob a -rubrica «Da juriod`içfãb» colocava-ise a matéria que hoje se
encontra no artigo 65:°, a matéria actualmente subordtiarada à inscrição
«Da cornpetênc~a internacional» ; o capítulo relativo à «competência» abran-
gia o que o Código ,,insere sob a designação «Da competência interna.».
A sistematização do Projecto assentava sobre determinados conceitos
doutrinais de «jurisdição» e «competência» ; visava, sob~ldoi a estabelecer
distinção entre a falta absoluta de jurisdição e -a incompetência . Se a acção
não pode ser proposta perante tribunais portugueses, ou por outras pala-
vras, se nenhum txi'bunal português tem poder jurisdicional para conhecer
da causa, estamos em presença dum caso de falta absoluta. de jurisdição,
que é 'ilntrìnsecamente diferente do caso doe incompetência, do caso de ~o
tribunal ter jurisdição, mas não poder exercê-la em relação a determinado
104 Livro II-Da''competência e das garantias dia imparcialidade

litígio, por o seu poder jurisdickon'a1 estar limitado pelo -de outro tribunal,
competente para a acção .
Que os conccilGos em que sie inspirava o Projecto eram exactos,
prova-o o seguinte passo, transcrito da RiviRta di diritto processuale
civile, :194'1, parte LI, pág. 82 :
«0 terrnb «competência» em sentido técnico designa a repartição do
poder j~cional pelos diversos tribunais do E'stadb . Teríamos, pois,
uma questão de competência quando se tratasse de determinar se o poder
de julgar uma certa causa peTtence, não ao tribunal a que ela está afecta,
mas a rum outro tribunal do Estado ; pelo con'trári'o, quando PPz tratasse de
verificar sa e.ss!e poder não peitence nem ao tr'ibuna'l a que a causa está
sujeita nem a nenhum outro ido Estádo, teríamos, não uma questão de com-
petência, nuas uma questão de jurisdição . Na verdade, decidir se exislbe ou
não um juiz que possa conhecer 'do ped.ido equ'iva'le a decidir £~e pode ou
mão 5nv'ocar-se a tutela jurd'sdicional db Estado .»
A orientação doutrinal doo Projceto, tendenhe a introduzir ordem e
diséipliina no uso dois termos «jurisdição» e «competência», foi 'impugnada
na Comissão, Revisora ; pareceu ousada e revoluciomária a inovação que
pretend'i'a eistabeleeer-se . Por assiso, em vez de se adoptarem, para ~a distri-
buição dia3 matérias dIos priméih~ois capítulos do livros 2 .', as epígrafes
a:Da jurisdição.» e «Da coTnpetêncma», julgaram-se preferíveis . estas :
,s;Da competência internacional» e «Da competência `interna» .
Mas isto 'não quer dizer que não 'se tomasse posição quanto aio sen-
tido das palavras «jurisdição» e «competência» . No Código de 1876 não
era poaível -disc~!irar e que 1&vila entender-se por um e bu,tro vocá
buTo ; parece que se empregavam inddstintamente para exprimiu a mesma
ideia .
0 Código factual dá-nos, no artigo 11'5 .', elementos que permitem
construir o conceito de jurisdição e o conceito '6e . competência. Há, conflito
d: : jurhdição, düz-se saí, quanidb duas ou mais autoridades, p~ertencentàs
a diversas actividades do Estado, ou dois ou mais trÍbuna;i ,s , d!e, espécie dife-
rente, e axrogam ou d~ec1-unam o poder èe conhecer 'd'a mesma questão ;
há conflitb de c'ompetênci'a quando dois ou mai;S tribunais da mesma espécie
se consideram competentes ou incompetentes para conhecer da mesma
questão .
Exemplas caracteristicos dz conflitos de jurisdição, :
a) O governador civil de Coimbra atribui-se o poder de conhecer
duma questão para a qual se julga também competente o juiz! de ddmito
de Coimbra ; o comandiante da polícia de segurança pública de IAsbaa
arroga-.s;e o po , d-ride decretar um despejo, para o 'qual o tribunal civil de
Lisbaa se declara igualmente competente (duas autori4ad'es' pertencentes
a, diversas actividades do Estado, uma à actividadie administrativa, outra
à ~actinvidade judicial, atribuem-se simultâneamente o poder -de conhecer
da mesma quéstão) ;
h) O auditor administrativo do Porto julga-se competente para
conhecer duma causa guie pen'd'e também no tribunal civil da comarca de
Aveiro e para a qual este se armogou também pader-jurisdic'ional ; o tri-
Capítulo 1-Das disposições gerais sobre competência 105

burmi do trabalho de Coimbra declara-se competente pana julgar uma


questão que está também afecta ao juízo de dirsito de Cofimbrla e para
a qual este 'se considera competente (dais tribunais de espécie°diferente
arrogam-se simultâneamente o poder de conhecer da mesma causa) .
Exemplos ~de conflito -de competência : o tribunal municipal de Con-
de'ixa e o tribunal ida comarca de Coimbra julgam-se competentes paro
derimir o mesmo pleito ; o tribunal -dh ecmarc'a de Scure e o tribunal da
comarca, da Figue'ir'a (ia Foz, o tribunal da trabalho de Ave'ir'o e o tribunal
do trabalho ido Poa-to déclaram~se competentes par'a utecidir a mesma causa
(dois tribunais da mesma espécie jurisdic'io'nal arrogam-se o poder de
apreciar e resolver a mesma causa) .
Destas definições legais de conflito de jux-is.d, içã,o e conflito de com-
petênciia extraem-sie os seguintes conceitos : a jurisdição significa o poder
de julgar atrfuído, em conjunto, 'a uma actlividade ido Estad+o ou a uma
determinada espécie de tribunais ; a competência idesigna o modo como
a jurisdição Ise acha d'istribuíd'a dentro da mesma actividia~da ou da mesma
espécie de tribunais. Noutros termus, a junisd~ição exprima uma relação
da «ctivïid'a+de ou do aparelho jurilsdc'ional eim globo com as oultras activi-
dades ou os outros aparelhos ju.risdicionais (relação com o mundo exte-
rior) ; 2Y compe;tênci!a 'expr'imie uma relação, entre si, dias. ~au;toili; ±a.des -ou
tribunais pertencenteis à -me~_-rna iactividade ou à: meesma espécie (ralação
interna) .
São exa'ctamenta as noções que ncs dá Goldschmidit neste trecho :
«ao passo que o âmbito de 'adulação dbs tribunais civis ,mias suas relações
com o exterior, especialmente perante as demais autoridades, re-cebe o
nome de «jurisdição» ou «via processual, quando !se refere às relações
-idos diferentes tribunails entre si toma o nome espzcífica d'z competência» .
(Derecho procesal civil, trad . d e Pietró Castro, pág. 163) .

0 que . nos interessa, neste m'om'ento, é conhecer o sistema de cxn-


petêncila organiza-do pelo Código, isto é, os crïtério1sl segundo os quais se
atribuía competêndia aos tribun'avs portugueses em confronto com as juris
dições estrangeiras (competência internacional) e o modo corno o podei
juris'dicional -se repartiu e distribuía, dentro ~do Estado português, pelos
diferentes órgãos -da jurisdição c.ivi1 (competência interna) .
As' disposições legais sobre competência das tribunais destinam-,s ,--
a este fim : habilitar a pessoa que pretende propor uma, acção a deter-
minar em que tribunal há-d,a pr-opô-'la para 'ter a ségurança de obter Uma
sentença de mérito .
A maior" parte das vezes o autor não carece de resolver o problema
da competência internacional, qued dizer não carece de averiguar se
os tribunais portugueses, considerados no seu,conjunto, são competentes
para conhecer ida acção que vai prerpor, sz a causa pode ser sujeita à
jurisdição portuguesa ou terá de -ser submetida a uma jurisdição estran-
geira . A questão da competên&a internacional, da 'posição da jurisdição
portuguesa perante as jurisdiçdeis- estrangeiras só surge quiando a acção,
petos seus elementos essenciais-as pessoas, os bens, a causa de ped'ir,
106 Livro II-Da competência e das .garantias da imparcialidade

o lugar de cumprimento da obrigação, i.tc . -está em conexão com as


jurisdições de vários Estados .
Imagine-se que um doa litigantes ou ambos são estrangeiros, que
a arção diz respeito abens situados fona de Portugal, que emerge de noto
ou facto praticado em território estrangeiro, qua se refere a obrigações
a cumprir em país estrangeiro, . 0 autor terá então doe verificar, antes de
reais nada, se lhe será lícito propor a acção em Portugal ou pe-rante
tribunais portugueses .
0 autor é português, mais o réu é espanhol ; as partes são ambas por-
tuguesas, mas ia acção tem ,por' objecto bens imóveis situados na Itália ;
o réu é português, mas o atito jurídico de que a causa emerge, foi praticado
na França . Em qualquer -deJtes casas a acção está em conexão, pelos .
seus elementos, com as jurisdições de dois Estados diferentes : com a
j urisdrição portuguesa e a espanhola no 1 .° caso, com a jurisdição portu-
guesa e a italiana no 2.', com a jurisdição portuguesa e a francesa, no 3 .-
Quer dizer, estamos em presença dum possível conflito de jurisdi-
ções . O Código de Processo Civil português resolve o conflito, indicando,
no artigo 65 .°, as circunstâncias de que depende a competência interna
cional dos tribunais portugueses, isto é traçando a órbita dentro da qual
se move a jurisdição portuguelya em confronito com as jurisdições estran-
geiras.

Quando não haja razões para duvidar da competência internacional


dos tribunais portugueses ou apurado que, nos terirnois do artigo 65 .0, esse.
competência, se verifica, surgem depois os problemas de competência,
interna . Pretende saber~se qual, dentre os tribunais po-ftugueoes, é com-
petente para a acção . Ora este quesito demanda uma averiguação muito.
complexa, atendendo a que a competência se acha distribuída por muitos
órgãos e a que a porção de jurisdição atribuída a ciada um deles implica
necessàriamente um limite à competência dos outros.
Lógica e cronálógicamente a primeira questão ,de competêncio interna.
que sie põe é a da determinação dia espécie do tribunal. Os tribunais
portugueses arrumam.s e em duas classes : a) tribunais comuns ; b) tri
bunais especiais . 0 problema dia de't'erminação da espie consiste em
saber, se a acção deve ser proposta perante o 'tribunal comum ou perante :
allgum tribunal especial .
Corno se resolve o problema?
Q artigo 66 .° fornece-nos o critério : as cousas que não forem atribuí-
das pela lei a alguma jurisdição especial são da competência do tribunal
comum . Vê-,se, por este texto, que 'a competência dos tribunais especiais
se fixa e conhece directamente, mediante a análise dos diplomas legais
que lhes marcam a esfera de acção, ao passo que a competência dosa tri-
bunais comuns só se determina por via indirecta ou por exclusão de, partes .
Quando a lei cria e organiza um tribunal especial, tem o cuidado de
rlh-limitar a Isua competência, isto é, de designar a massa de causas de que
ele pode conhecer : essas, e só essas, ficam dentro do seu poder jurisdi
cional . Portanto, basta examinar com atenção a lei orgânica do tribunal
Capítulo I- Das disposições gerais sobre competência 10 7

para M! verificaM se uma certa causa está compreendida, na zona da sua,


competência .
Percorrido o quadro dos tribunais especiais, se se apura que 'a acção
a propor não é da competência . de nenhum desses tribunais, não pode
haver hesitação no corolário a tirar : a causa terce de sem proposta no
tribunal. comum .
Eis o que nos diz o artigo 66 .° do Código ; e o que está expresso, pdr
outras palav~, nos n.0 * 1 .' e 2." da alínea a) do artigo 58 .' -do Estatuto
Judiciário : em matéria. civil compete aos juízes de direito preparar e
julgar, em 1.' i~nei'a, todas as cocções e conhecer das execuçõos que não
pertencerem a tribunúl especial. Por isso é que o artigo 67 .° do Código
acrescenta : o tribunal comum é o civil ; a plenitude da jurisdição civil
pertences, ean primeira instância, ao tribunal de comarca .
As regras de competência que nos habilitam o msalver o pro'blem'a
da espécie ou a determinar se. a; acção há-de ser proposta no juízo comum
ou nalgum juízo especial, são regras de competência em razão da matéria,
como se deprkende da epígrafe dla secção 1 .' do capítulo 3 ." É que, ao
distribuir as -acções pelos vários triibun'ais especiais e pelo tribunal comum,
a lei toma em consideração a matéria da causa: para a audtoria adminis-
trativa vão -as causas de natureza administrativa, para o tribunal do con-
tencioso dias corntrtibuições e impostas as questões de natureza tributária,
para os tribunas do trabalho as causas'emergentes . de contratos de tra-
balho etc . ; o que 'fica, para o tribunal comum, tlue é o tribunal civil, é a
nible imensa das causas a que, péla sua natureza ou matéria, cabe a
designação de causas cíveis .
Que fim sie procura atingir com a repartição da competência entre
os tribunais especiais e o foro comum?
Procura-se adaptar o órgão à função, procura-se assegurar a idonei-
dade do juiz ; ~pretend" que aa gusas sejam decididas por quem tenha
uma formação jurídica adiequada . Põe~ assim a matéria da causa em
correlação dose a preparação técnica dos magistrados que 'a hão-de julgar,
de modo a obter-se um julgamento mais perfeito .

Resolveu~ o problema ~da determinação da espécie do ' tribunal .


Aves'iguou-se, por exemplo, que a ~aausa pertence ao `foro comum, ao
tribunal civil .
Surge, a seguTr, um outro problema : "a qual, -dos vários tribunais
civis, deve a acção ser submetida?
Se olharmos para a estrutura de. jurisdição civil, verificamos que ela
á formada por uma esoala hierá'rquicla de tribunais, desde o juízo muni-
cipal até 'ao Supremo Tribunal de Justiça . Destes órgãos jurisdicionais,
uns julkam normalmente em primeira instância : tribunais municipais e
a tríbu?cmis de comarca; outros julgam normalmente por via ~de recurso :
Relações e Supremo. Más sucede, por um lado, que o tribunal doe
comarca pode também funcionar domo tribunal de recurso, e por outro,
que a Relação e o Supremo funcionam, excepcionalmente, como tribunais
de primeira io~cia.
1.08 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

Nestas circunstâncias, é be~n -de ver que, resolvida o problema da


+_,spécie do tribunal no sentido de que ia causa é da competência do trí-
buna~l comum, apõe-s12 imediatamente ~F_!ste quesito : ateve -a acção ser pro
posta no tribunal municipal, no tribunal de comarca, na Relação ou no
Suprema Tribunal de Justiça?
É o pr ,obl,rmà da determinação da categoria do tribunal, viste que
os referidos tribunais estão dispostos em escala hierárquica, , tendo por
isso cada um deles categoria diversa, mais elevada à medida que se sobe
na escalfa.
O problema da -determinação da categoria do tribunal civil perante
o qual a 'acção há-de ser proposta resolve-se desta maneira :
,a) Primeiro averigua-se se para o caso de que se trata a lei alterou
as regras normais -da hierarquia, isto é, se a causa deverá ser proposta
perante tribunais que ordinàri'amente funcionam como tribunais da
recurso ou deverá ser proposta perante os tribunais de primeira instân-
cia própriamente dito ,,$ ;
b) Quando s.e dê esta última hipótese, há que verificar, em seguida,
se a causa terá de s°r instaurada no juízo municipal ou no juízo de
-direito .
Trata-se, por exemplo, duma acção de perdas e danos 'contra um
juiz -de direito ou da revisão duma sentença estrangeira, ou dum conflito
de competência entre dois tribunais de comarca pertencentes ao mesmo
distilto judicial : a causa tem de ser proposta na Relação (art . 71 .°) . Nãd
se verifica nenhum -dos casos previstos nos artigos 71 .°, alíneas b), c) e d),
e: 72 .", alíneas b) e c) : a causa tem de ser intentada no tribunal municipal
,ou no tribunal de comarca.
As regras de que nos socorremos para decidir o primeiro ponto, são
regras de conipetência em razão da hierarquia, como se mostra pela
epígrafe da secção 3 ." ; as regras que nos dão a solução do segundo aponto,
são regras de competência em razão do valor (secção it), porque, na ver-
dade, é ao valor da causa que a lei wten5e para repartir a competênda
entre o tribunal municipal e o tribunal de comarca (arts. 68 .0, e 69 .°) .
As regras de competência em razão da hierarquia têm, como factor
determimntc, 'ou a qualidade do réu (acção -de perdas e danos contra
magistrados e funcionários de tribunais inferiores, art. 70 .° contra magis
trados dos tribunais de comarca, art., 71 .", alínea b) ., contra magistrados da
Relação e do Supremo Tribunal de Justi~a, larft . 72 .^, alínea b) . ; ou a
natureza da função, da actividade que o órgão jurisdicional é chamado
a exercer (julgamento de recursos, resoluções de conflitos de competência,
revisão de sentenças estrangeiras, art. 70 .°, art . 71 .°, alíneas a), c) e d),
art . 72 .0, alíneas a) e c) . Pqr isso é que alguns autores, como Carnelutti
e Chiwenda, dão a estas últimas a denominação de regrai;- de competência
.
funciona-1

Determinada a categoria :do tribunal, o problema de competência


está, esgotado sie há um único tribunal dessa categoria. É o caso excepcio-
nal de ser competente o Supremo Tribunal de Justiça (art. 72 .') .
Capítulo I-Das disposições gerais sobre competência 10 9

Mas se há mais do que um tribunal da categoria fixada, a solução


conipleta do problema de comotêncis, demandh ainda uma última averi-
guação : saber qual dos tribunais da referida categoria é competente para
a causa.
Ora quando o Estado institui mais do que um tribunal de certa cata-
goria, o que sucede é que os diferentes tribunais da mesma categoria têm
a sua jurisdição confinada a uma certa área territorial . Para facilitar o
exerc£c o da actividade jurisdiciicinal e tornar a justiça mais acessível aos
cidadãos, criam-se várias Relações, várikl3 tribunais de comarca, vários
tribunais municipais e de'l'imita-se a zona do território em que cada um
deles há-de administrar justiça.
Desta maneira, ~apuradb que 'a questão há-de ser submetida a uma
das Relações, a um dos tribunais de comarca, a um dos tribunais munici-
pais, resta determinar qual idas Relações, qual dcis tribuna:i3 de comarca,
qual dos tribunais municipais há-de conhecer dela ; e como cada um desses
tribunais 'funciónla cm k-er!ta circunscrição territorial, a averiguação con-
si~§te, afinal, em saber em que circunscrição territoriaal há-die correr a causa :
em que distrito judicial, em que comarca, em que julgado municipal .
Estamos assim em face da última indagafã.o carítida no problema
complexo dIa fixação ~da competência a determinação da circunscrição
territorial  Ais regr013 a ap!1'icair para esta determinação são regr+a~, tira dom~
petência em razão do território ou regras de competência territorial
(arts . 73 .° e seguintes) .

Do eLS~em« que acabamos -de traçar resulta que as regras de com-


petência si? classificam, -segundo o Código actual, em :
a) Regras de competência internacional ;
b) Regras da competência interna .
Est&i últimas agrupam-se em : 1) 1egras de competência em razão
da matéria ; 2) regras de competência em razão da hierarquia ; 3) regras
d~; competência em razão do vedor ; !4) regras de competência territorial
ou em razão do território.
As regras de competência internacional destinam-se a resolver' os
possíveis conflitos entre a jurisdição portuguesa e as jurisdições estran-
geiras ou s, determinara naciio-rcalidadc db tribunal, isto é, dado o casso de
a acção, pelos seus elementos característicos, estar em contacto com a
jurisdição portuguesa e com jurisdições estrangeiras, habilitam-nos a
resolver o problema de saber se pode ou não ser proposta perante tri-
bunais portugueses.
As regras de competência em razão cia matéria exercem esta função
servem para determinar ~a éapéc'ie do tribunal . Por outras palavras,
dão-nos a. conhecer se a acção h"e ser proposta. nalgum tribunal especial
ou no tribunal comum .
As regras de competência, em razão da hierarquia e do valor permi-
tem-nos resolver o prdblema da d'e"inação da categoria do tribunal :
as primeiras indl~nos o grmu h~quico do tribunal a que a questão
há-db sem afecta, ou em la!tenção à qualidade db réu, ou em atenção à natu-
11 0 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

reza da função a exercer ; as segundas (regras de competência em razão


do valor) dizem-nos se a causa há-4de ser proposta no tribunal de comarca
ou no tribunal municipal.
Finalmente as regras de competência territorial servem para deter-
m'inar, dentre os tribunais duma certa espécie e categoria, qual deles é
competente para a causa ; ou noutros termos, servem para determinar a
,circunscriç«o territorial a que a causa deve ser afecta .

A classificação das regras !de competência segundo o -Código por-


tuguês não coincide nem com a classificação adoptada por outros códigos,
nem com qualquer classificação organizada por processualistas estran-
geiros .
O novo Código de Processo Civil italiano, depois de regular a juris-
dição dos tribunais italianos em relação aos réus estrangeiros (art. 4 .°),
formula as regras de competência em razão da matéria e do. valor (arts. 7.°
a 9 .°) e por fim as regras de competência em razão do território (arts . 18 .°
a 30 .') .
O Código alemão só alude a duas espécies de competência : objectiva
(§fi 1 .' a 11 .°) e territorial (§§ 12 .o a 37 .°) .
O Código brasüleiro não cuidou de estabelecer qualquer class'ificaç'ão
ou arrumação de regras de competência . Mistura no mesmo capítulo
regras de competência de carácter terr'iborial (arts. 133 .* a 136 .° e 141 .°
a 143.") com regras de competência determinadas pela continência (art.138'.°)
e pela natureza especial da função (arta. 144 . 0 e 145:°) .
Não nos propümeei dar conta dla (sistematização das ~as de compe-
tência organizada pelos principais escritores . Limitar-nos-emos a apre-
sentar a mais completa e aparatosa, que é a de Carnelutti .
No Sistema di diritto processuale, vol . Lo, págs. 584 e seguintes,
Carnelutti começa por distinguir a competência externa da'competência
,interna, entendendo pela primeira a distribuição da massa das lides pelos
diferentes tribunais, e pela segunda a distribuição idas lides pelos magis-
trados e funcionários que compõem o mesmo tribunal.
Pelo que rfLspeita à competência externa., Carnelutti observa que os
.factores que 'a determinam podem ser constantes ou eventuais, donde a
distinção entre competência necessária ou principal e competência eventual.
Gs 'factores constantes da competência necessária podem referir,-se
ou ao modo de ser da lide ou ao modo de ser do processo ; daá duas eapé-
cies de competência : material (respeitante ao apodo de ser da lide), fun-
cional (respeitante ao modo de ser do processo) .
A compeitência material apresenta três modalidades : competência
era razão da matéria (d'eterminadIa pelo ~teúdo d)a lide), competência
em razão do valor, competência em razão do território (determinada pela
;sede da lide) .
A competência em razão do território pode tomar por critério ou
o foro pessoal, ou o foro real ou o foro instrumental .
Se pusermos de parte a competência e~tual, que não oferece inte-
xesse, vê-seque a classificação da competência exposta no Sistema apro-
Capítulo I -Das disposições gerais sobre competência 11 1

xima-se muito da que o nosso Código consagra ; pode mesmo dizer-se que
coincide se à competência em razão da hierarquia fizermos corresponder
a competência funcional .
Mas o que se lê no Sistema não é a última palavra de CarneluttL
No volume 1.o das Istituzioni del nuovo processo civile italiano, a, págs. 123
e seguintes, já a sistematização é um pouco diferente. Aqui a primeira
distinção dia compeitênicia externa é em competência hierárquica e compo"
tência territorial, aetuando a primeira em sentidb vertical, visto que se
destina a determinar o grau do tribunal, e a segunda em sentido horizon-
tal, em ordem à. determinação da sede.
A competência hierárquica, distingue-se em funcional e material,
conforme é condicionada pela função que se trata de exercer ou pela
matéria sabre que a função há-de ser exercida .
Por -sua vez a competência material pode ser influenciada ou pelo
aspecto qualitativo (sujeitos, objecto e causa da lide), ou pelo aspecto
quantitativo .(valor), donde -a distinção entre competência em razão da
qualidade e competência em razão do valor .
Pelo que respeita à competência territorial, tendente à determinação
da sede ou à fix~, dentre os t'ribunai's dum certo tipo e dum certo grau,
do tribunal competente para a acção, a sua influência exerce-se em sientido
horizontal, porque os tribunais do mesmo tipo e do mesmo grau estão no
mesmo plano e acham-se distribuídos pelas várias regiões do território .
A sede da lide designa o ponto do território em que a lide deve con-
siderar-se localizada ; umas vezes a localização é determinada pelos sujei-
tos (forro pessoal), nutrias vezes pelo objecto dia lide (foro real), outras
vezes pelo elemento causal (foro causal) . Há ainda, o foro instrumental,
determinado pelo lugar em que rse encontram os instrumentos (provas ou
bens) necessários para a composição da lide.

ARTioo 63.°
(Lei reguladora da competência)

A competência fixa-se -no momento -em que a acção se pro-


põe . São irrelevantes as modificações -de facto que ocorrerem
posteriormente a esse momento ; são igualmente irrelevantes as
modificações de direito, excepto se for suprimido o órgão judi-
ciário a que a causa estava afecta ou se deixar de ser competente
em razão da matéria e dá hierarquia.

O artigo enuncia o princípio de que a competência se fixa no


momento em que a acção se propõe.. É a consagração da velha regra :
ubi acaeptum est semel judicium, ibi et finem aacipere debet.
Entre o momento da proposição da acção e o momento da sentença
pddimn acorrer modl'ficaçõeg mams ou menos profundas no, que respeita a
11 2 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

competência : modificações no estado de facto e modificações no estado


de direito. Pois bem, uma vez que a competênc',ia se fixa no momento em
que a acção .se propõe, segue-se que as modificações posteriores são,
em princípio, irrelevantes.
Se rna data da proposição da ,acção o tribunal era competente, atentas
as circunstâncias de facto e de direito que então ase verificavam, continua
sê-lo, embora
P. se tenham produzido alterações no estado de facto 'ou de
d41 ,eito que, se fossem tomadas em co.n:eii, deração, determinariam ;a incom-
petência do tribunal .
A regra do artigo 63 .' está inserta entre as disposições gerais sobre
competência ; aplica-se, portanto, a todas as espécies -de competência : à
internacional e à interna, e nesta tanto à competência em razão da maté
ria e (Ia, hi, erarquia, como à competência em razão ido valor e do terri-
tório .
Ao artigo 63 ." do nosso Código corresponde, no Código italiano, o
artigo -4 ." e, no Código brasileiro, artigo 151 .° Texto italiano : a jurisdição
e a competência determinam-se em atenção ao estado de facto existente
no momento da proposição do pedido ; são irrelevantes, quanto a elas, as
modificações posteriores do mesmo estado . Texto brasileira : não influirão
na competência do juízo as transformações posteriores à proposituria da
denmunda e relativas ao domicílio, c'i.dlad'ania das partel3, ao objecto da causa
c)'u ao seu valor.
Entre a lei portuguesa e as leis italiana e brasileira notam-4se dife-
renças . A. principal é a seguinte : a nossa 'lei proclama a irrelevancia
não só das modificações de facto, senão também das modificações de
direito que 'unicamente respeitam à competência em razão do valor e do
território ; as leis italiana e brasille'ira nada dizem quanto à influência das
tnodificaçõeis de'direito .
Se, o silêncio destas 'lcïs significa, como parece, que as'modificações
ecorridas no estado de direito são relevantes, afigura-,se-nos preferível a
doutr-ï'na 'd'o artigo 63':" Suponhamos que, propda't'a uma ucçaoi de valor até
cinco contos perante um juiz municipal, competente para ela segundo a lei
enteio vigente, antes de ser julgada essa acção entra em vigor uma lei nova
que restringe a. c'ompetênc'ia dos juízes municipais às acções de valor
até 3 .000$00 . Segundo o disposto no artigo -63 .' esta modficação no estado
dc direito é 'i .rrelevante ; quer dizer, o tribunal municipal a que a causa
estava afecta continua a ser competente para a julgar, posto que já não
ten'im compi~tência para cau£ias nyvas die valoz superior a 3 .000$00 .
Se a modificação operada pela lei nova fosse relevante, a causa
tinha de ser remetida imediatamente para o tribunal de comarca, a fim de
seguir aí os- termos ulteriores.
Mais impressionante é o caso de se alterar uma regra de competência
territorial . Tehnas uni exemplo 'elucidatlvó a respeito das acções de
investigação de paterrnidade ilegítima .
Pelo artigo 43 .o do Decreto n .' 2, de 25 de Dezembro de 19'10, o tri-
bunal cohnpetente para usas a!cçõels èra o do lugar do nascimento do filho ;
vaio o Decreto n .' 12 :353, de 22-9f-926, e no ortiga 4 .' declarou que as
Capítulo I-Das disposições gerais sobre competência 11 3

acções de investigação de paternidade ilegítima deviam ser propostas no


juízo do domicílio do réu. Qual era a consequência, em relação 4s acções
pendentes, desta mudança do foro territorialmente competente para a
investigação da paternidade ilegítima?
A seguir-se a doutrina expressa no artigo 63 .', a mudança era irrele-
vanYie : os tribunais perante os quais pendl1am as acções, contihluavam, a
soer competentes. A seguir-oe a doutrina 'que, a contrario sensg; parece
resultar da Sei Italiana e da lei brasileira, a mudança seria relevante :
os processus pendentes nos tribunais do lugar do nascimento tinham de
passar para o tribunal do domicílio db réu, ainda mesmo que eis'tivessem
na fase final .
,Que as modificações operadas nas regras de competência em razão
da matéria e da hierarquia 'sejam de observância imediata e devam,
consequentemente, aplicar-se às causas pendentes, está bem, porque, ao
decretá-las, o legislador terá em vista dar satisfação a interesses supe-
rlbres de ordkem pública ; tratando-oe de alterações ela regras doe cómpe-
tência em razão do valor ou do território, as perturbações causadas pela
deslocação dos processos são de maior -peso do que a realização im'edi'ata
dos interesses que a alteração se propõe proteger.
0 artigo 1'51 .° do Cód'i'go brasileiro teve certamente -por 'fonte o
artigo 97,° do Projecto defin tivo elaborado na I't'ália por Sblmi. Mas é
inanifesta a superíoridadg da disposição inserta no artigo 63 .o db nosso
Código, que coincide, na parte relativa às modificações de facto, com o
artigo 4 . 1 do Código italiano .
C'dfn efeito, neste artigo e no artigo 63..° afirma-se, de um modo geral,
a irreilevância dão modificações ide 'facto ; no artigo 15'1' do Código brasi-
leiro, em vez de se enunciar o mesmo princípio, declara-se sòmente que
são irrelevantes as transformações relativas ao domicílio, à cidadania das
partes, ao objecto da causa ou ao seu valor.
Que transformaçães : únicamente 'as operadas no estado de facto, ou
também as operadas no estado de direito?
Pode ainda estranhar-se que não se faça alusão . à residência, uma vez
que, na falta de domicílio, o réu tem de ser demandado no foro da sua
residência (Cód . brasileiro, art. 1314 .*) .

Modificações de facto. As modificações de facto que poderiam exer-


cer influência sobre a competência -do tribunal seriam a mudança de
domicílio ou residência, a alteração do valor dos bens sobre que versa a
acção e a deslocação da coisa que se pretende obter .
Pi+~de na comarca de Coimbra uma acção sujeita. ao foro db
domicílio do réu (are. 8W) ; ao tempo era que a acção foi proposta, o réu
tinha efectivamente o seu domicílio, em Coimbra ; mas na pendência da
causa transferiu-o para Aveiro, por exemplo . Este facto é irrelevante
sob -o ponto de vista da competência do tribunal: Quer dilzer, o tribu-
nal de Cimbra, que era competente pe4o facto de o réu estar domíci-
1iado em Coimbra, à data da proposição da acção, não deixa de o ser
pelo facto de ele estabelecer posteriormente o seu domicílio na comarca
8 - CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
1 .14 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

de Aveiro . A competência do tribunal de Coimbra, uma vez que se


fixou, I+ersiste .
Sucede exactamente o mesmo quando o autor mudar de domicílio,
n+:> caso de o domicílio do autor ser o factor determinante da competência
territorial .(art. T5 .°), ou quando deva atender-se à residência ou ao lugar
da estada (aras. 7'5,o e 85 .°, §§ 1 .° e - 3 .°) e eles variam posteriormente à
proposição dia acção ; sucede ainda o miesino quando o réu seja um corpo
colectivo e 'a sede da sua, administração passar a ser em comarca diferente
da que era à data -da propositura da causa (art . 85 .°, § 4 .°) .
A alínea b) do artigo 94 .0 declara competente para 'a execução desti-
nada à entrega de coisa certa, quando se funde em sentença estrangeira
,ou em título diverso de .sentença, o tribunal do lugar onde a coisa se
encontrar . Suponhamos que, posteriormente à instauração da execução,
a coisa muda de lugar : passa duma comarca para outra . Esta mudança é
: o tribunal da comarca em que a coisa se encontrava à data
irrelevante
em que foi recebida na scoretaria judicial a petição inicial para a execução,
continua 'a ser competente.
Pelo que respeita àls modificações respeitantes ao valor dos bens, já
vimos que, tratando-se de modificações de direito, são irrelevantes ; s~ãp-no
igual~m~entle as modificações de ,facto . Suponhamos que se propôs perante
um tribunal municipal uma acção sobrie bens que valiam 4 .000$00 mais
tarde, na pendência da causa, esses bens subiram consideràvelmente de
valor : -passaram a valer oito ou dez contos . O tribunal municipal não
deixa de ser competente para a acção .
Com o exemplo que acaba de ser figurado, não deve confundir-se
a caso previsto no artigo 3214 .°
Quamdo pela decisão do incidente da verificação do valor da acção
se reconheça que o tribunal é incompetente, os autos têm de ser
remetidos para o tribunal competente, diz o artigo 324 .° Não se
trata aqui de mudança de valor ~dos bens ; trata-se de atribuição, aos
bens, do seu verdiadoiro valor, diferente do declarado ou pmssuposto
pelo autor.
O artigo 313 .° formula o princípio de que para a determinação do
valor ida Facção, deve atender-ise ao momento 'em que é proposta. Sapo
nhamos que 'se propõe no tribunal municipal uma acção de reivindicação
<1~,í imóvel, a que o autor atribui o valor de '5 .000$00 ; o réu impugna o
valor da acção, afirmando que o imóvel vale 10 .000$00 ; apura-se, pela
decisão üb incidente, que é exacta ~a allegação do réu e fixa-se o valor da
acção em 10 .000$00 ; a consequência desta decisão é que o processo tem
de ser remetido para b tribunal da comarca .
Como se vê, na hipótese agora apresentada o imóvel, objecto da acção,
não subiu ide valor posteriormente à proposição da causa ; o que se averi-
guou foi que esse imóvel tinha Is data em que a acção foi proposta, valor
superior as que o autor lhe atribuíra. Não estamos, portanto, em pre-
sença de caso abrangido pelo preceito do artigo 63 . : alteração de valor
ocorrida depois do momento em que 'se fixou a competência -db tri-
bunal.
Capítulo I -Das disposições gerais sobre competência 11 5

Modificações de direito . Já vimos que são irrelevantes as modifi-


cações de direito quando we produz= na esfera da competência em Vazão
do valor ou db territóri'o. Sã» relevar}teo :
1 .° Quandb for suprimido o órgão ju4'iciário a que a causa estava
afecta ;
2 .o Quando . .o tribunal da causa deixar de ser competente em razão
da matbrIa ;
3 .° Quando deixar de ser competente em razão da hierarquia .
Suponhamos que em determinada conjuntura são extintos os tribu-
nais mund .cipais ou são suprimidas "as auditorias administrativas ; a conse-
quência imediata da supx~o é que os processos pendentes hão-de ser
remetidos para 'o tribunal que piassar a ter cbrcnpeItência para as acções
respectivas
Imagine-se que, proposta uma acção no tribunal civil, se criou pos-
teriormente um titibunalespecial para o conhecimento das acções dessa
natureza ; o tribunal civil deixou de ter competência, em razão ,da matéria,
para o julgamento dia 'acção ; o processo tem, por isso, de transitar para
o tribuna especial . Esta hipótese verificou~, na realidade, em 1930, ao
serem estabelecidas 'as auditorias administrativas para o julgamento das
questões do contencioso ~administrativo, que nessa altura eram da compe-
tência dos tribunais comuns (Dec . n .I 18 :017, de 27-2 .'-930, art .
As causas administrativas pendentes nos tribunais comuns, competentes
à data da proposição, tiveram de passar para as auditorias, visto ter-se
operado uma modlYicaç'ão relevante no estado de direito, uma modificação
de competência em razão da matéria .
Sucede coisa semelhante quando se dá uma modificação de direito que
fornia incompetente o tribunal isbb o ponto de vista da hierarquia . Supo-
nha-ice que 'a revisão de sentenças estrangeiras, em vez de pertencer as Rela
ções, passa a pertencer ao Suiprem'o Tribunal de Justiça ; é claro que os
processos de revisão pendentes na Relação à data da alteração do regime
jurídico teriam de ser remetidos ao Supremo para serem julgados por este .
Convém advertir que a disposição inserta no artigo 63 .° no tocante
às modificações de direito só é de observar quando a lei que produz a
modificação. não haja estatuído em sentido contrário . Suprimem-se os tri
bunais municipais, por exemplo ; mas a lei que os suprime expressamente
determina que as causas pendentes continuem a seguir aí os seus termos
e sejam ainda julgadas por eles ; ~é evidente que tal determinação preva-
Iece "re o que, como prindipib geral, está estabelecido, n'b artigo 63 .°

As modificações de direito que se produzam na esfera da competên-


cia internacional são tão irrelevantes como as que se produzam na esfera
da competência interna em razão do valor e do terrïtório . Desde que
o caso não cabe nas excepções previstas no artigo 63 .°, entra necessària-
mente na regra .
Pode, isto parecer estranho atendendo a que a tutela das regras rela-
tivas à competência internacional tem 'a mesma energia que a das regras
11{i Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

ix4ativas à competência em razão -da matéria e da hierarquia (arts . 101 ."


e segs .) . Mas entérndeu=se 'que, fixada a competência da jurisdição portu-
guesa para uma cgrta causa, não devia ela desaparecer, em benefício
duma jurisdição estrangeira, pela circunstância de se alterar posterior-
mente o regime jurídico da competência internacional .
E assim, proposta em tribunais portugueses, por força da alínea b)
do artigo 65 . 0, por exemplo, uma acção em que são partes dois estrangei-
x+c:~s, se no decurso do processo a circunstância de o acto ou facto de que
a causa emerge ter sido ipraticado em Portugal deixar de ser factor atri-
butivo de competência internacional dos tribunais portugueses nem por
isso cessa a competência do tribunal a que a acção estiver afecta .

Até aqui considerámos o caso de o tribunal ser competente à data da


proposição ela acção, mas deixar de o ser por virtude de modificações
prasteiliores operadas ou no estado doe facto ou no estado de direito .
Examinemos agora a hipótese inversa. O tribunal era incompetente
para a acção no momento em que foi proposta ; mas na altura em que a
questão de competência tem de ser julgada, a s'i:tuação é outra : o tribunal
tornou-se competente, em consequência duma alteração no estado de facto
ou 'no estado de -direito . Deverá, não obstante. isso, ser dec'larad'a a incom-
petência?
Há que distinguir entre modificações de facto e modificações de
direito. Sie o tribunal se tornou competente por virtude duma modificação
de fasto, a modificação é irrelevante. Levantada a questão da incompe
tência, há-de atender-se ao estado de facto que se verificava no momento
da proposição 'da causa e por isso o tribunal trem de ser julgado incom-
petente, ase nesse momento o era.
Suponhamos que à data da proposição da acção o réu, sem residên-
cia fixa, se encontrava em Pombal e que portanto era o tribunal de Pom-
bal o competente, em vista -do disposto no § 1 .* do artigo 85 .' ; mas a acção
foi proposta em 'Soure e o réu encontra-se nesta vila no momento em que
a excepção de incompetência vai soer julgada . Não obstante isto, a excepção
terá de -ser atendida e o processo remetido para a comarca d2 Pombal .
Se o tribunal inicialmente incompetente, se tornou competente em
consequência duma modificação no estado de :direito, há ainda que fazer
uma distinção :
a:) A 'incompetência inicial era relativa (em razão -do valor ou do
território) ;
b) A incompetência inicial era absoluta (em razão da nacionalidade,
da matéria ou da hierarquia) .
No 1 ." caso a incompetência subsiste ; a modificação doe direito é
irrelevante . Nb 2 .o caso a modificação é iIellevante : faz desaparecer a
incompetência.
Poderá parecer arbitrária esta diversidade de soluções, em -vista do
preceito categórico do artigo 63 .o, que declara irrelevantes as, modificações
de direito, salvas as excepções aí mencionadas, nenhuma das quais se
verifica na hipótese da alínea b) .
Capítulo I ---Das' disposições gerais sobre competência 11lí

Mas a distinção que fizemos, tem razão de ser na lei . Atente-~se em


que a 'incompetência absoluta tem como resultado a absolvição e portanto
a extinção da instância (arts . 292.° e 293 .°, n .° 1 .°), ao passo que a incompe
tência relativa não produz a extinção da instância : o processo tem de ser
remetido para o tribunal competente (art . 111 .°), continuando aí a mesma
instância, a que se iniciara com a proposição da acção (art . 293 .°, § único) .
Tomada em consideração esta circunstância, vejamos as conse-
.
;,
quência
a) Incompetênia relativa . Propôs-se em Coimbra uma acção de
investigação de paternidade ilegítima ; ao tempo da proposição o tribunal
era incompetente, porque o réu tem o domicílio no Porto ; mas pouco
depois entra em vigor uma lei que declara competente para a investigação
de paternidade o juízo do lugar do nascimento do filho ; dá-se o caso que
o filho nasceu em Coimbra . Arguida a incompetência do tribunal de
Coimbra, como ~deverá ser julgada a questão?
Deve o tribunal de Coimbra declarar-se incompetente e ordenar a
remessa dos autos para o. tribunal do Forte. O tribunal inicialYnenfe com-
petente era o do Porto ; essa competência não cessa pelo facto de se
promulgar uma lei que lhe retira a eompetencia territorial (art . 63 .°) .
Se, proposta a acção no tribunal do Porto, este tribunal continuaria a ser
competente, apesar da modificação operada pela lei nova, também não
pode considerar-se prejudicada a competência do tribunal do Porto pelo
facto de a acção ter sido erradamente proposta no tribunal de Coimbra .
Remetidos os autos para a comarca do Porto, a instância que aí vai 'pros-
seguir é a que foi instaurada em Coimbra ; e para tal instância o juízo
competente é o do Porto .
As considerações que acabamos de fazer aplicam-,se, mutatis mutanr
dia, ao caso -de se propor uma acção num tribunal incompetente em razão
do valor e de entrar em vigor, antes do julgamento da excepção de incom
petência, uma lei por virtude -da qu'a'l o tri'bun(al já teria competência para
a acção proposta .
b) Incompetência absoluta . Propôs-se uma acção no tribunal comum,
incompetente para ela, em razão dla matéria, nesse momento ; veio uma
lei nova sujeitar ao foro comum as acções da natureza daquel=a de que se
trata. 'Sendo este o estado ~de direito no momento em que a excepção de
incompetência tem de ser julgada, quid juris?
A excepção não pode proceder. Veja-se o que sucederia se o tribu-
nal comum fosse julgado incompetente . Absolvido o réu da instância,
o autor teria de propor outra acção ; e havia de propô-la necessàriamente
no tribunal comum, pois era esse o tribunal competente segundo a lei em
vigor cà data da proposição da nova acção . Seria absurdo que sé decla-
rasse, , incompetente o tribunal comum para, a seguir, o autor ter de propor
nova acção perante o tribunal comum .
Deve suceder o mesmo quando se propõe uma acção perante tribu-
nal ;português incompetente em razão da nacionalidade ou da hierarquia
e depois o tribunal se torna competente por virtude de entrada em vigor
duma lei nova .
118 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

ARTIGO 64 ."

(Proibição do desaforamento)

Nenhuma causa pode ser deslocada do tribunal compe-


lente para outro, a não ser nos casos especialmente previstos
na lei .

Proi'be-se, em princípio, o desaforamento : o desvio da causa do tri-


bunal competente para outro .
Esta proibição constitui uma garantia para os litigantes . Dá-se-lhes
a segurança de que a lide será decidida pelo tribunal que, segundo a lei,
te:m competência para isso, quer dizer, pelo tribunal com que eles deviam
contar . Nem o juiz da causa nem a autoridade judiciária superior pode
surpreender as partes com um despacho que afaste o processo do tribunal
competente e o mande submeter a outro qualquer.
Em matéria criminal pode suceder que, por determinação do Supremo
Tribunal de Justiça, o feito seja julgado em comarca diversa :da que seria
competente. O n :' 7 ." da alínea b) do artigo '53 ." do Estatuto Judiciário
autoriza o Supremo a decretar esse desaforamento . Trata-se de uma
medida de excepção, que há-de ser justificada pelas circunstâncias e a
solicitação do juiz da causa, do Ministério Público, da parte acusadora ou
do réu .
Mas em processo cível o Supremo não goza de prerrogativa seme-
lhante. Nem ele nem qualquer outro tribunal, órgão ou poder do Estado
tem a faculdade de mandar julgara causa em tribunal diverso do compe-
tente segunda a lei.
E em tanto apreço tem a lei a garantia do foro competente que no
artigo 113 .° ex .press$mente se admite como fundamento de incompetência
relativa a tentativa de desaforamento territorial, isto é, o facto de se ter
demandado um indivíduo estranho à causa para se desviar o verdadeiro
réu -do tribunal territorialmente competente .
Só nos casos especialmente previstos, na lei, diz o artigo 64 .", é que
a causa pode passar do tribunal competente para o' outro .
De &saforamento facultado ou imposto pela lei temos exemplos nos
artigos 280'.°, 869 .o e 1165."
A eampetência normal sobrepõe-se, nos termos do artigo 280 .°, a
competência por conexã{> . Duas causas conexas, que poderiam ser reuni-
das num único processo, pendem em tribunais diferentes ; qualquer das
partes pOdb requerer ~a junção . Ordenada ela, uma das causas, posto que
afecta ao tribunal competente, é desviada deste tribunal para ser apensada
à outra . Há aqui uma razão superior a justificar a deslocação : a conve-
niência de assegurar a un%dade de julgamento .
Em todos os outros casos de desaforamento autorizado ou prescrito
pela lei a garantia do, foro competente cede também perante interesses
mais altos de boa administração da Justiça .
Capítulo II-Da competência internacional 11 9

, CAPITULO 11

Da competência internacional

AR-rioo 65 .1,
(Factores de atribuição da competência internacional)

As circunstâncias de que depende a competência interna-


cional dos tribunais portugueses são as seguintes :
,a) Dever á acção ser proposta em Portugal segundo a's
regras de competência territorial estabelecidas pela -lei portu-
guesa ;
b) Ter sido praticado em território português o acto ou
facto de que a acção directamente emerge ;
C) Pretender realizar-se, em benefício de algum português,
o princípio da reciprocidade ;
d) Não poder o direito tornar-se efectivo senão por meio
de acção proposta em tribunais portugueses.
1 .° Quando para a acção seja competente, segundo a
lei portuguesa, o tribunal do domicílio do réu, os tribunais
portugueses podem exercer a sua jurisdição desde que o réu
resida em Portugal há mais de seis meses ou se encontre
acidentalmente em território português, contanto que, neste
último caso, a obrigação 'tenha sido contraída com um por-
tuguês .
2 .° As pessoas colectivas estrangeiras consideram-se
domiciliadas em Portugal desde que tenham aqui, sucursal, agên-
cia, filial ou delegação.
Fixam-se os critérios legais da competência internacional dos tribu-
nais portugueses, isto é, as circunstâncias de que depende o poder juris-
dnciofal do Estado português em confxrointo core o dos' Estados ~tx+angeiros .
Andes dás reformas 'iniciadas em 192,6 a matéria achava-~se regtrladsa
nos artigos 28.' e 29 ." do Código Civil, 5.° do Código Comercial, 20 ." do
Código de Processo Civil e 8.° do Código de Processo Comercial.
E~n face destes textos era, objecto de dúvida 'se ora tribunais portu-
gueses tënham competência internacional quando todos os litigantes fossem
estrangeiros e a ilide diásesse respeito a obrigações contraídas em pais
e4rangeiro, posto qule o réu tivesse domicfli`o ou ~dência M Portugal
ou houvesse uma razão justificativa da competência territorial da juris-
dição , portuguesa.
120 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

O artigo '5 .° do Decreto n ." 12 :353, de 22 cie Setembro de 1926, veio


resolver a dúvida ; mas a isso se limitou .
Foi o Decreto n.o 13 :979, ~de 25 de Julho de 1927, que, ampliando a
órbita do artigo 5.1 do Decreto n," 12 :353, organizou um sistema completo
do competência internacional . O artigo 17 ." do Decreto n ." 21 :287 rspro
duziu o disposto no artigo 5 ." do Decreto n ." 13 :979 e serviu de fonte ime-
diata ao artigo 80.o do Projecto primitivo, que se tr'ansfo'rmou no ar-tl^go 65 ."
do Código .
São quatro os títulos atributivos de competência internacional :
a) Dever a acção ser proposta em Portugal segundo as regras de
competência territorial estabelecidas pela lei portuguesa (princípio de
coincidência da competência internacional com a competência territorial) ;
b) Ter sido praticado em território português o acto ou facto de
que a acção directamente emerge (princípio da causalidade) ;
c) PretendeY realizar-sie, em benefício dalgum português, o prin-
cipio da reciprocidade (princípio da reciprocidade) ;
d) Não poder o direito tornar-se efectivo senão por meio de acção
proposta em tribunais portugueses (princípio da necessidade) .
Como se vê, as regras de competência internacional rias alíneas a),
b) e dl são independentes da nacionalidade das partes ; aplicam-se quer
sejam estrangeiros ambos os litigantes, quer algum deles seja português .
A nacionalidade só é tomada em consideração na alíena c) e na parte final
do § 1 .
Não sucedia o mesmo na legislação anterior ao Decreto n .o 13' :979 ;
nem sucede o mesmo em face do artigo 4 ." do Código de Processo italiano .
Estie artigo determina os casos em que o estrangeiro pode ser demandado
perante os tribunais italianos donde se conclui que o cidadão italiano
pode sempre ser demandado perante a justiça do seu país (Morelli, 1 limiti
della giurisdizione italiana nel nuovo Codice de procedura civile, Rivista
di diritto processuale civile, vol. 18 .", 1." parte, pás . 105) .
Não pode aceitar-se esta doutrina entre nós, dados os termos em que
se acha redigido o artigo 65 .' Suponha=se que um português contrai em
Madrid uma obrigação com um espanhol e que a obrigação devia ser
cumprida na Espanha ; se o português não cumprir, h espanhol não poderá
demandá-lo perante os tribunais portugueses, ainda que o réu tenha o seu
domicílio em Portugal ou aqui se encontre, a não ser que sé verifique
o caso excepcional previlsta na, alíri rm d) .
Podemos, pois, assentar nisto : em princípio, as regras de compe-
tência internacional tanto funcionam em relação a estrangeiros como em
relação 'a portugueses  (Veja-se o estudo do ar. Dr . Machado Vilela, Com
petência internacional no novo Código de Processo Civil, no Boletim da
1!aculdade de Direito de Coimbra, ano M I , págs . 6 e 7) .
Examinemos cada uma das circunstâncias mencionadas no artigo 65 .°

a) Coincidência da competênctia internacional com a competência terri-


torial. Se pela aplicação das regras de competência territorial formuladas
rios artigos 73 . a 89 .° ou em disposições equivalentes da lei portuguesa
Capitulo II - Ira competência internacional 12 1

a acção deva ser proposta em Portugal, isso basta para que a jurisdição
portuguesa seja competente ou para que os tribunais portugueses tenham
competência internacional ; quer dizer, as circunstâncias ou factos que,
na órbita da competência interna, -determinam a competência territorial
do tribunal português, determinam também, na esfera internacional, a
competência da jurisdição portug'uIesa em confronto com as jurisdições
estrangeiras .
Nos artigos 73 .° a 84 .' o Código estabelece uma série de preceitos
particulares sobre competência territorial e no artigo 85 . ,, 'enuncia a
regra geral .
Preceitos particulares . Se a acção tem por objecto fazer valer direi-
tos reais sobre imóveis, se é uma acção possessória, de despejo, para
arbitramento, de preferência, etc . pode ser proposta em Portugal, desde
que o imóvel respectivo esteja situado em território português (art. 73 .') ;
se a acção se destina 'a exigir o cumprimenta de obrigações, os tribunais
portugueses te ;ão competência internacional uma vez que, por lei ou
convenção escrita, a obrigação deva ser cumprida em Portugal (art . 74 .') ;
a competência internacional para a acção de divórcio ou de separação de
pessolass e bens depende da fatty doe o autor ter domicílio ou i!eeIsidência
em Portugal (art. 75 .o) ; para o inventário a referida competência depen-
derá da circunstância de a herança se abrir em território português
(art . 77.°, n .o LI, etc .
Desde que se localize em território português qualquer dos factos ou
circunstâncias que, nos te~s dois artigos 73 .° a 84 .', condi ciloanam a
competência territo2-i'al, os tribunais par~tugueses têm competência inter
nacional, pouco importando então que o réu tenha o domicílio ou a resi-
dência em país estrangeiro e se encontre fora de Portugal no momento
da proposição da acção.
Regra geral . Suponhamos agora que a acção está sujeita, sob o
ponto de vista da competêncU terx~itomial, não a qualquer duos preceitos
dos artigos 73 .° a 84 .0 , mas à regra geral do artigo 8'5 .° : foro do domicílio
do réu. Em tal casa a jurisdição portuguesa poderá exercer-se, uma vez
que se verifique um destes factos :
1) Ou o réu tenha o seu domicílio em Portugal ;
2) Ou resida, há mais de sieis mesura, sem território português ;
3) Ou 'ao menos se encontre, embora acidentalmente, em território
português no momeento da proposição da acção, contanto que a obrigação
te`dha sido eoitraída com nm português (art . 65 .", § 1 .°) .
0. domicilio é um conceito jurídico e por isso pode suscitar-se a
questão de saber a que lei deve atender-se para se apurar se o réu tem
ou não ean Portugal o seu domicílio-se à lei portuguesa, cromo lex fcri,
se à liei estrangeira, como lei regul'ad'ora da relação jurídica, se ao direito
comparado, como quer Rabel (Prof. Machado Vilela, Boletim cit ., vol. 18 .°,
pág. 22) . Pode realmente suceder que o conceito de domicílio segundo a
lei portuguesa não coincida com o -d'a'rei estrangeira ou com o do direito
comum ILegislativo' ; dai o prbblema, que _se traduz no chamado, conflito de
qualificaq7ão .
12'2 Livro II-Da co ;)zpetênt~ia e das tlarantias da imparcialidade

0 sr. Dr . Vilela, depois de pôr a questão, resolve-a no sentido de


que, para o efeito da aplicação dás regras de competência jurisdicional do
novo Código de Processo, a qualificação das noções que nelas se empre
gam deve ser a que resulta da lei portuguesa (Boletim, vol. 18 :', pág. 24) .
É a doutrina que consideramos exacta.
De modo que quando a competência internacional seja comandada
pelo foro -do domicílio do réu, os tribunais portugueses serão , competentes
se, nos termos idas artigo% 40 ." e seguin't'es do Código Civil, o réu dever
considerar-se -domiciliado em Portugal .
Pelo que respeita à residência por mais de seis meses, o sr . Dr. Vilela
suscita esta dúvida : será necessário que a residência seja fixa ou ao menos
com certa estabilidade em determinada localidade, ou bastará a presença
do réu em Portugal por mais de seis meses, pouco importando que ele
mude constantemente de lugar?
0 sr . Dr. Vilela pronuncia-se neste último sentido, pela consideração
de que, se se exigisse a 'fixação, em determinado local, a presença do réu
em Portugal por mais doe seis meses, quando ele ase d~-s'Ibcasae a cada
momento, ficaria a valer o mesmo que a presença acidental a que se refere,
por fim, o § '1 .° do artigo 6'5.° (Boletim, vol. 17:", págis . 323 e 324) .
Concordamos com o ponto de vista do ilustre professor . Para o
efeito da atribuição de competência internacional aos tribunais portu-
gueses no caso de funcionamento da regra de competência territorial do
artigo 85 .1 o que interessa sobretudio 'é a lição do réu ao território por-
tuguês 'em geral, e não a ligação a este ou aquele ponto do território .
Desde que o réu vive em Portugal há mais de seis meses, o seu contacto
com o território português não pode deixar de considerar-se miais quali-
ficado e relevante do que se estivesse em Portugal, de passagem, com
demora de poucos dias .
Porque o vínculo é mais force naquela hipótese, os tribunais portu-
gueses têm competência, aihda que a obYigação tenha )sidb contraída com
um estrangeiro. Mas nada importa que a residência por mais de seis meses
seja na mesma localidade ou em localidades diversas e variáveis a cada
momento, visto que o facto decisivo, para efeitos internacionais, é a per-
manência do réu em território português, e não a permanência neste ou
naquele 'lugar de~ território ; esta ú'ltimà permanência pode flnteres~sar à
solução da' quiestão de sabei! en que circunscrição terrvibarial pbrtugüesa
há-de ser proposta a acção, não interessa à questão de saber se os tri-
bunais portugueses em geral têm competência internacional .
Acresaentaremos adnd'a, que a opiniãb contrária incorreria no vício
de confundira residência com o domicílio. Se para a nossa lei o domi-
cílio é o lugar .em. que o cidadão tem ra suia residência permanente (Cód .
Civ., art. 41 .') e se, no caso de residências alternadas, o cidadão se consi-
dera domiciliado naquela onde se achar (art, 43 ."), a entender-se que a
residência por mais de seis meses havia de ser no mesmo lugar ou em
dois -lugares diferentes, mas alternàdos, seguir-,se-ia que o caso previsto
na primeiTa parte do § 1 .o do urtigh 6'5 .° não se dIstinguiria, afinal, do
caso ~de o réu ter o domicílio em Portugal .
Capitulo 77-Da co)npetência internacional 123

É claro que a residência há-de subsistir na data em que a acção se


propõe, em vista do que se prescreve no artigo 63 ." Se, a essa data, o réu
já não está em Portugal, a jurisdição portuguesa não pode exercer-se,
embora o réu vivesse em território português durante mais de seis meses
e saísse, de Portugal no dia anterior àquele em que a petição inicial deu
entrada na secretaria .
Sob este aspecto é - que o domicílio se diferencia da residência. Desde
que o réu tenha o,~seu domicílio em Portugal, a jurisdição portuguesa é
competente, pouco importando que ele não se encontre em território por
tuguês no momento da propositura da acção ; enquanto o réu mantiver,
segundo a dei portuguesa, o seu d'omicíl'io em território n~acian!al, enquanto
não puder entender-se que perdeu o domicílio português-e para isso não
basta, é claro, a passagem acidental para além da fronteira portuguesa-
os tiibunia5's portugueses donitinuam 'investidos, quanto ia ele, de poder
jurisdicional para as acções sujeitas à regra do artigo 85 .'

Presença acidental do réu em território português . Se o réu nem tem


domicílio em Portugal nem aqui reside há mais de seis meses mas se
encontra em Portugal no momento da propositura da acção, ainda os tri
bunais portugueses têm poder jurisdicional no tocante às acções sujeitas
à regra do artigo 85 ." ; mas então, além da presença acidental do réu em
território português, exige-se um outro requisito : ter sido contraída com
um português a obrigação que pela acção se pretende exigir .
Em que sentido deve tomar-se a palavra obrigação : no sentido gené-
rico, ou no sentido específico, no sentido de vínculo correspondente a
qualquer direito, ou no sentido d-e vínculo correspondente a um direito de
crédito?
Como pondera o sr. Dr. Machado Vilela, sempre se entendeu que a
palavra «obrigação», empregada nos artigos 28 .o e 29 .° do Código Civil e no
artigo 20 .o do Código de Processo de 1876, tinha alcance genérico ; não há
razão para lhe atribuir 'significado diferente no § 1 .* do artigo 65 .° do
Código actual (Boletim, vol . 17.o, págs . 325 e 326) .
O sr . professor Machado Vilela não concorda com a exigência cons-
tante das palavras finais do § 1 ° do artigo 65.°, isto é, com a exigência de
a obrigação ter sido contraída com um português . Esta disposição observa
ele, está em desarmonia com o princípio da igualdade entre nacionais
e estrangeiros perante a justiça e, por isso, devia ser eliminada (Boletim,
vol. 18 :°, págs . 63, e 04) .
Salvo o devido respeito, entendemos que não tem razão o ilustre
professor. Em primeiro lugar, não há quebra do princípio da igualdade
entre 'racionais e estrangeiros ; se um português contrair uma obrigação
com estrangeiro fora de Portugal e não cumprir, o estrangeiro, querendo
demandá-lo em tribunais portugueses, só o poderá fazer, caso a acção
esteja sob o domínüo da regra do atrigo 85 .°, se o réu tiver o gau domicílio
em Portugal ou aqui residir há mais de seis meses .
Em segundo 'lugar, não é razoüvel equiparar ao domicílio e à resi-
dência por mais de 6 meses em Portugal o simples contacto acidental
124 Livro II-Da coinpétïsnritt e,, da ., yara.tttias tira hn]tarc-ia!idcade

e :passageiro com o território português . Como já se notou acima, este


nexo é, muito mais ténue e apagado do que aqueles ; bem se compreende,
pois, que não se eleve a factor determinante da competência internacio-
nal rios mesmos termos em que o domicílio e a residência exercem a sua
influência .
Nos casos de domicílio e residência, porque o 'laço é mais forte a
jurisdição portuguesa pode exercer-se independentemente da nacionali-
dade do autor ; no casa de presença acidental, porque o laço é muito mais
frouxo, a jurisdição portuguesa só tem razão de ser em benefício de
nacionais .

Já se decidiu que o § 3 .'> do artigo pode ser invocado para o


enfeito de se determinar a competência internacional dos tribunais portu
g;ueses . O caso era o seguinte : dois portugueses propuseram, em' Lisboa,
acção de investigação de paternidade ilegítima contra diversos cidadãos
brasileiros ; os réus nem estavam domiciliados em Portugal, nem tinham
aqui residência, nem I5e encontravam no país à data da : proposição da
acção ; levantada a questão de incompetência dos tribunais portugueses, a
Relação de Lisboa entendeu que a jurisdição portuguesa era competente,
por força da alínea a) do artigo 65 .", combinada com o § 3 ." do artigo 85 .o,
pois (luxe 'ojs autores tinham o xseu dom'icíl'io em Lisxbou (acórdão da, Rél, d.e
;de '.16 de Janeiro de 1943, Rev . de Leg ., ano 76 .", pág . 1'58) .
A solução é errada, como mostrei na Revista de Legislação, ano 76 .",
pág . .1 ,16 . O § 3 .° do artigo 8'5 ." não funciona no domínio da competência
inte'rn!ac'íonal para o efeito -de ase averiguar se a acção, podo siar proposta
em tribunais portugueses, isto é, não funciona como preceito complemen-
tar ou como desenvolvimento da aliena a) do artigo 65 ." A regra db '§ 3 .°
do artigo 85 .o destina-se a resolver, não o problema de competência inter-
nacional, mas o problema de competência interna, como a sua colocação
inculca .
'o domínio da competência internacional o factor «domicílio do réu»
só pode ser substituído pelo factor «residência do réu há mais de seis
nrebes» ou pelo factor «encontro acidental do réu em território português»,
conjugado este último factor com a circunstância de a obrigação ter sido
contraída, com um português . O § 1 ." do artigo 65 ." é expresso .
Se pudéssemos lançar mão do § 3." do artigo 85 .° para o efeito de
apurarmos se os tribunais portugueses têm competência inter'n'acional,
chegaríamos à conclusão de que qualquer acção poderia ser proposta em
til>unais portugueses, embora nenhuma conexão tivesse, por algum dos
seus xelementos, com a jurisdição portuguesa . Na verdade, o parágrafo
declara competente, em última extremidade, o tribunal de Lisboa ; portanto,
a aplicar-se esta disposição legal em correlação com a alínea a) da
artigo 65°, os tribunais portugueses teriani .sempre competência internar
ciional, fossem quais fossem as circunstâncias .
() § 3 .' do artigo 85.' supõe já resolvido o problema da competência
internacional -dos tribunais portugueses. Resolvido o problema no sen-
tido de que estes tribunais têm efectivamente competência internacional,
'Capítulo 11-Da competência internacional 125

a função k3,o refertidb parágrafo, é 'dizer-nos qual é, sob b ponto de vista


territorial, o tribunal português competente . Apìrrou-se em face do
,artigo '65 .", que 'a acção pode :ser proposta em tribunais portugueses ; quer
agora saber-se em que circunscrição territorial há-de ser proposta : para
este efeito é que se recorre ao § 3 .' do artigo 8-5 .0 ,
Conforme já acentuámos, deste .§ não pode fazer-se uso quando a
competência internacional seja consequência da aplicação da alínea a) do
artigo 6'5 :'
Em tal caso, uma de duas :
a) Ou os tribunais portugueses são competentes por virtude da com-
binação da alínea; a) do artigo 6'5 ." com algum dos preceitos particulares
dos artigos 73 .° a 84' ;
b) Ou são competentes por virtude da coordenação da mesma alí-
nea a) com a regra geral do corpo do artigo 8&5.'
Na ]..' hipótese o tribunal português territorialmente competente é
o da circunscrição em que se localizar o facto ou a circunstância deter-
minativa da competência territorial . E assim, tratando-se de acção real
sobre imóVeis,'será competente o tribunal (Ia situação doas beni3 (art . 74 ."),
tratando-se de acção destinada a exigir o cumprimento de obrigações será
competente o tribunal cio lugar em que a obrigação devia ser cumprida
(art. 74 .°), tratando-se de acção de divórcio ou separação de pessoas e
bens, será competente o tribunal do domicílio ou da residência do autor
(art. 75 .o), etc .
Na 2 ." hipótese a acção deve ser proposta :

1) na comarca do domicílio do réu, se este tiver domicílio em


Portugal
;
2) na comarca da sua residência, se tiver o domicílio em país
estrangeiro, mas residir em Portugal há mais -de seis meses ;
3) na comarca em que se encontrar, se não tiver domicílio nem
residência em Portugal, mas estiver aqui acidentalmente à data da
propositura da acção, uma vez que a obrigação tenha sido contraída
com um português (art . 65 .o, § 1 .") .

Quando entra então em actividade a regra formulada no § 3 ." do


artigo 85 .°?
Entra em actividade quando a competência internacional dos tribu-
nais portugueses deriva da aplicação das alíneas b), c) e d) do artigo 65 .°
A jurisdição portuguesa não é competente por forçada alínea a) e do § 1 ."
do artigo mas é-o por 'força da alínea b), ou da alínea c), ou da alí-
nea d) . Então é que a circunscrição territorial em que a acção há-de ser
proposta, se determina em conformidade com o disposto no § 3 ." do
artigo 85 .'

Pessoas colectivas . O § 2 ." do artigo 65.Q considera domiciliadas em


Portugal as pessoas colectivas estrangeiras que aqui tenham sucursal,
agência, `filial ou representação .
t26 Livro II- Da competência e das garantias da imparcialidade

0 que quer isto dizer?


Tomadas em consideração quer a letra do parágrafo, quer a sua colo-
cação, o sentido que imediatamente se apresenta ao espírito é este : quando
para a acção seja competente, segundo a lei portuguesa, o tribunal do
d ;nnicíl'io do réu, ais p~eisisbas c'ollectivas eÊst-range iras podem ~sw demanda-
das perante tribunais poituguese-s, desdb que itènham em Portugal agência,
sucursal, filial ou delegação .
Na verdade, se a lei, para o efeito da determinação da competência
irrterirnadional dos tribunais portugueses, considera domiciliadas em Por-
tugal as pessoas colectivas estrangeiras quando aqui tenham sucursal,
agência, filial ou d'e'legação, segue-se lógicamente que, até onde o :domicílio
do réu seja factor determinante da competência internacional, a circuns-
tância de as ,peissoas colectivas estrangeiras terem em Portugal sucursal
eu outra representação equivale inteiramente ao facto de estarem real-
mente domiciliadas em território português, ou por outras palavras, ao
facto de terem em Portugal a sede da sua administração principal (Cód .
Civ., art. 41 .°, § único) .
É claro que o -disposto no § 1 ." do artigo 65 .' não funciona em relação
a pessoas colectivas, visto estas não poderem residir nem èncontrar-.se em
determinado lugar . Pode residir ou encontrar-se em Portugal a pessoa
singUar ou fí~sic1a à qual incumbe a representação da pessoa colectiva ;
mas isso não importa á residência ou presença, em Portugal, da própria
pessoa colectiva (sr. Dr . Machado Vilela, Boletim cit ., vol . 17.", págs . 342
e 343) .
No que respeita, pois, a pessoas colectivas a alínea a) do artigo óã .°
actua desta maneira :
1) Se a acção houver de ser proposta em Portugal por força daque-
las regras dos artigos i~3 .° a 8'4 ." que são susceptíveis de se aplicar a
pessoas colectivas,, como são as dos artigos 73 .", 74 .o, 76 .", 78 ." a 81.'.°, os
tribunais portugueses serão competentes nos mesmos casos e termos em
que o são relativamente a pessoas singulares, isto é, se os imóveia esti-
vererri situ~adus em Portugal, ~se a obrdglação houver de sea- cumprida em
território português, etc . ;
2) Se a acção estiver sujeita ao foro do domicílio do réu, a juris-
dição portuguesa poderá exercer-se quando a pessoa colectiva, ré na
acção, tiver em Portugal o seu domicílio, quer se trate de domicílio real
(sede da administração), quer do domicílio legal ou fictício, resultante
do facto de ter em Portugal agência, sucursal, delegação ou filial (art. 66 .o,

As pessoas colectivas estrangeiras, sendo estrangeiras precisamente


por terem a sede da sua administração fora de Portugal, só aqui' podem
ter o domicílio legal ou fictício a que alude o § 2 .° do artigo 6ô .° Mas,
quando o tenham, ficam colocadas, sob o ponto de vista da competência
internacional dos tribunais portugueses, exactamente na mesma situa-
ção das pessoas colectivas nacionais : podem ser demandadas perante
os tribunais portugueses para as acções sujeitas ao foro do domicílio
do réu .
Capítulo II-Da competência internacional 12 7

Eis, a meu ver, o alcance do .§ 2.o do artigo 65 .° É certo que o § único


do artigo 7.° se exprime nestes termos :
«Se a administração principal tiver a sede ou o domicílio em país
estrangeiro, as sucursais, agências, filiais ou delegações estabelecidas em
Portugal podem demandar e ser demandadas, ainda que a acção derive
de acto ou facto praticado por aquela, quando a obrigação tiver, sido con-
traída com um português.»
Neste § exige-se que a obrigação tenha sido contraída com um por-
tuguês ; no § 2.° do artigo 65..° não ,se faz tal ex'igênci'a . Mas nenhuma difi-
culdade existe em conciliar os dois textos ; basta 'que cada um deles se
aplique cÌentro da esfera de acção que lhe é própria .
Com efeito, o § único do artigo 7.° visa a resolver o problema da
personalidade judiciária das sucursais, agências, etc . ; o § 2.° do artigo B5,°
tem finalidade diferente : resolve o problema da competência 'internacional
dos tribunais portugueses para acções em que sejam rés pessoas colectivas
estrangeiras. Se fizermos funcionar cada um dos textos dentro -do domínio
que lhe é próprio, obtemos o resultado seguinte :
a) 'Pretende propor-,se uma acção contra determinada pessoa colec-
tiva ~~Pa ie quer 'saber-!se, em primeira liagarr, Fie os tribunais por-
tuguesea têm competência internacional para ela . A acção pertence à
categoria daquelas para as quais o foro competente, sob o ponto de vista
territorial, é, segundo a lei portuguesa, o do domicílio do réu . . Averi-
guado isto, o problema da competência internacional dos tribunais portu-
gueses we-solve~ pela aplicação do § 2.o do artigo 6'5.° : a jurisdição
portuguesa será competente se a ré tiver em Portugal alguma agência,
sucursal  filial ou delegação ; não o será, na hipótese inversa ;
b) Apurado que os tribunais portugueses são competentes, porque
a ré tem. uma agência -em Portugal, a acção terá de ser proposta no juízo
da sede da agência, parque é aí que a pessoa colectiva s-z~ considera domi
cíliada (art . 85', !§ 4.*) . Surge agora o problema da personalidade judi-
ciária, a questão :de saber contra quem há-ide ser dirigida a acção : entra
então em movimento o artigo 7.°
Se ,a acção deriva de acto ou facto praticado pela administração prin-
cipal, o problema da personalidade judiciária resolve-se nestes termos :
a acção pode ser dirigida contra a sucursal, dado o caso de a obrigação
ter sido contraída com um português ; terá de ser dirigida contra a admi-
nistração principal, quando a gbrigação haja sido contraída com um
estrangeiro .
O ar. Dr. Álvaro Vilela não aceita esta interpretação. No seu enten-
der, não basta que a pessoa colectiva estrangeira tenha em Portugal
agência, sucursal, delegação ou filial para poder ser demandada em tribu
nais portugueses : é necessário que a acção, por algum dos seus elementos,
esteja em conexão com ajurisdição portuguesa . «É preciso que exista um
elemento :de conexão, independentemente da ficção do domicílio em
Portugal, e esse elemento de conexão deve ser um elemento objectivo
que, posto de parte o domicílio do réu, justifica a competência dos tribu-
nais portugueses, tal como a localização em Portugal das circunstâncias
12 8 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

que determinam a competência territorial previstas por disposição espa-


cial da lei, noas `De~s dos artigos 73 .° e seguintes, enquanto eistes arti-
gos podem ser aplicáveis às pes-soas colectivas, e à prática em Portugal
do acto ou facto de que a acção dir"ectamenttl emerge .»' (Boletim, vol. 17 .",
pág. 342) .
Não pòclemos dar o nosso assentimento ao ponto de vista do abali-
sadc:, professor. 0 § 2." do artigo 65 .", embora exprima uma ficção legal,
lrá--de ter algum conteúdo e alcance ; na doutrina do sr . Dr . Vilela fica
ria desprovido de qualquár significaçãkb, s'er'ia uma fórmula vazia de
sentida.
Com efeito, se a competência internacional dos tribunais portu-
gueses em relação a pessoas colectivas estrangeiras dependesse ou do
facto dé: a acção se localizar em Portugal por aqui se verificar alguma dás
circunstâncias determinativas (Ia competência territorial nos termos dos
artigos 73 .° a 84 .", ou de ter sido praticado em Portugal o acto ou facto de
que a acção directamente emerge, o § 2.o do artigo 65 ." nenhuma 'influên-
cia exerceria na esfera da competência internacional . Que a pessoa colec-
tiva estrangeira tivesse ou não agência ou outra representação em ter-
ritório português, era absolutamente indiferente : a jurisdição portuguesa
exercer-se-ia, não por a pessoa colectiva. ter cá a sia representação,
ruas por o acto ou facto ter ocorrido em Portugal, por os imóvei!3 -estarem
aqui situados, por a obrigação dever cumprir-se em território portu-
g-ues, etc.
Desta maneira, a declaração legal de que se consideram domiciliadas
em Poii;ugal as pessoas colectivas estrangeiras que tenham cá sucursal,
ü._,, êrrcia, filial ou delegação nunca seria factor determinativo da compe;

tência internacional dos tribunais portugueses . Desde que ao texto legal


:'e não atribua alcance idêntico ao que tem, em relação às pessoas singu-
lares, o § 1.° db mesmo artigo, isfto é desde que a disposição não signi~
fique que para as acções sujeitas ao foro do domicílio do réu segundo a lei
portuguesa a competência internacional da jurisdição portuguesa, quanto
a pessoas colectivas estrangeiras, depende únicament.e do facto de elas
terem em Portugal agência sucursal, delegação ou filial, o § 2." fica sem
valor nem eficácia no domínio da competência internacional .
Que devam interpretar-se restritivamente as regras de direito em
que se enuncia uma ficção legal, está certo ; mas que a compressão inter-
pretwA;iva vá até ao ponto de flsvasiar -todo o conteúdo e to,dlo o sentido-da
norrria, não é doe admiitir.
Disse-á porventura : a função do § 2 .° do artigo 65 .° é indicar que,
no caso de os tribunais portugueses terem competência internacional, a
acção deverá seT proposta na comarca em que estiver a sede da agência,
aicursal, etc.
A explicação não satisfaz . Para designar a circunscrição territorial
errr que a causa há-de ser proposta, não era necessário o § 2.° do artigo 65 .°,
porque existe o § 4.11 ~do artigo 85 :° Além de que, colocado comia está no
artigo 65 .*, o § só pode ter por fim apontar uma circunstância de que
depende a competência internacional dos tribunais portugueses .
Capítulo II -Da competência internacional 12 9

Falência . 0 § único do artigo 82 .° atribui competência aos tribunais


portugueses para a declaração da falência de comerciante ou sociedade
estrangeira que tenha em Portugal qualquer estabelecimento, sucursal ou
representação.
Discute o sr. Dr . Palma Carlos se a palavra «comerciante> abrange
o comerciante estrangeiro ; pronuncia-se em sentido afirmativo, observando
gele o § único do artigo 82:° fala expressamente em comerciante ou socie-
dade estrangeira . E a seguir acrescenta
«Mas ainda que o não fizesse, a solução do problema teria, de ser
afirmativa, pois do próprio artigo 65 .° resulta que os tribunais portugue-
ses podem, no uso da sua competência internacional declarar a falência
de eaatra~los, quando eles tenham o oeu domicílio em Portugal, aqui
residam há mais de seis meses, ou aqui se encontrem acidentalmente,
tendo contraído com portugueses as suas obrigações vencidas e -não pagas ;
quando ;a falência tenha origem em obrigações contraídas em território
português ; e quando a aplicação do princípio da reciprocidade imponha
tal, solução .» (Cód . de Proc. Cir . anbt, voo . 1.°, pág. 227) .
Há neste passo uma afirmação que nos parece inexacta, salvo o
devido respeito ; é aquela em que se reconhece competência internaéicnal
aos tribunais portugueses para -a' declaração de falência de estrangeiros
que tenham o seu domicílio em Portugal, aqui residam há mais de seis
meses, ou se encontrem acidentalmente em território português, tendo-
contraído as obrigações com um português .
É fora doe dúvida. que o dbrn'icíl'ia do réu tem, no campo da compe-
tência internacional, a mesma extensão que no campo da competência
interna ; quer dizer, o domicílio do réu é factor atributivo de competência
internacional precisamente nos mesmos casos ' e termos em que é factor
atributivo adie !dompetêricia berritarial interna . Ora, o artilgri 85 . 0 é termi-
n"te : «em todbs os outros casos não previstos nos artigos anteriores . . .
é competente o tribunal do domicílio do réus .
Para a declaração da falência há um preceito particular de compe-
tência territorial, o do artigo 82 .' Tanto basta para dever concluir-se que,
em relação ao ipmocessd de falência, a regra do artigo 85 .0 não funciona ;
e se não funciona na . 'esfera da competência territorial interna, também não
funciona na esfera da competência internacional .
Assente este ponltb, vejamos o' que se prescreve no artigo 82 .° Para
a declaração de falência, diz o artigo, é competente o tribunal da situação
do principal estabelecimento e, na falta deste, o do domicílio ou da sede
do arguido. Daqui se vê que a competência do juí2o do domicílio é res-
trita ao caso de o falido não ter estabelecimento. Desde que o tenha a
falência há-de ser requerida no tribunal da situação ; e se tiver mais ido
que um, nb tribunal da situação do esta'belec'iinenth principal .
0 § único manda aplicar o preceito ao caso de um comerciante ou
sod~e estrangeira ter em Portugal qualquer estabelecimento, sucursal
ou representação ; mas o tribunal português sóipode declarar a falência
em consequência de obrigações contl-4ídas em Portugal e que aqui deves-
9-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
13 0 Livro II -Da competência e das garantias da imparcialidade

sem ser cumpridas, sendo também a liquidação restrita aos bens èxistentes
em território português .
O que se lê hoje no artigo 82 .° era fúndamentalmente o que se
achava estabelecido nos artigos 12 .° e 13 .° do -Código dê Processo
Oornercia1 A doutrina que resuMa do corpo do . amigo ie do iseu § único
é a seguinte
a) Se o comerciante ou a sociedade estrangeira temem Portugal
o seu principal estabelecimento, 'o tribunal da situação 'dèate é competente
para a declaração da falência e para a liquidação de todos os bens, ainda
que as obriglações tenham sido cbntraíàaa fora de Portugal ;
b) ;Se o principal estabelecimento está situado no estrangeiro, mas
o comerciante ou a sociedade tem em Portugal um estabelecimento, sucur-
sal ou representação, o tribunal português da situação do estabelecimento
ou da sede da sucursal ou da represèntação é competente para declarar
a falência em consequência de obrigações contraídas em Portugal e que
aqui devessem ser cumpridas, sendo a liquidação restrita aos bens exis-
tentes em território português ;
c) ;Se o comerciante ou a sociedade não tem em Portugal estabeleci-
mento, nem sucumsa'1, nem 1lepresenlbação 'algguma, -tendoo porém estabe-
lecimento em pais !estrangeiro, não pode a falência ser declarada em
Portugal, embora o arguido tenha cá o seu domicílio ou residência, ou
se encontre acidentalmente em território português e haja contraído a
obrigação com um português .
A competência internacional tem de coincidir com a competência
territorial interna .

Casos concretos . Apresentemos algumas hipóteses concretas para


aplicação da alínea a) do artigo 6,5f
Um português compra um automóvel a um . fabricante alemão que se
obriga poT conVênção escriba, 'a entregar ei carro em Coipnbna ; ge o ven-
cìedor irão ~pMir, pode o comprador exigir,, em tribunai~s~ portugueses,
a entrega, do carro, embora o contrato haja sido feito na Alemanha, o réu
t~E .í o seu domicilio e resIidênci'a e não ~se' encontre em Portugal rio
imàm"to dia pTop'asição da 'alcção . Os tr~'bun[a'is . portugúeses têm compe-
tênc'ia internacional por força da aliena a) do artigo 65 .°, combinada com
o artigo 74 .°
Um proprietário de Setúbal vende a um comerciante de Liverpool
a laqanSa dos seus pomarels ; o comprador recebe a laranja em Setúbal
e obriga-se a pagar o preço daí a 90 dias ; se não efectuar o pagamento,
grade o vendedor demandá-lo em tribunais portugueses, ainda que o com-
[rradar não tenha domicílio nem residência em Portugal nem se encon-
tre cá . A competência da jurisdição portuguesa deriva da alínea a) do
artigo 65 .°, combinada com o artigo 74,° ~dwGódigo de Processo e com o
1 o do artigo 1'583 .° do Código Civil . Supomos, é claro, que, o contrato
se celebrou em Portugal e que por isso tem aplicação o § 1 .* do artigo 1583 .°
do Código Civil, que manda pagar o . preço- da venda no lugar da entrega
cia coisa vendida .
Capítulo 77-Da competência internacional 13 1

Neste caso os tribunais portugueses seriam competentes não só por


força da alínea a) do artigo 65 .°, como também por força da alínea b)
do mesmo artigo .
Já se discutiu se os tribunais portugueses eram competentes para
uma acção de divórcio proposta por uma portuguesa que casara com um
belga . A Relação de Lisboa, em acórdão de 1 de Fevereiro de M8 (Rev .
de Leg ., ano 61 .', pág . 47) decidiu em sentido afirmativo, com os funda-
mentos de o réu ter o domicílio em Portugal e de o casamento, origem
da obrigação, ter sido celebrado em território português.
A decisão foi confirmada pelo Supremo em acórdão de 8 de Outubro
de 1929 (Colecção Oficial, ano 28.°, pág . 269) .
Dec1diw-se bem ; mas fumdi~entelu-se mal a decisão . A esse tempo
vigorava o artigo '5 .' do Decreto n .o 13' :979 ; mas a doutrina do decreto era,
nesta parte, a mesma do Código .
Os tribunais portugueses eram competentes para a acção de divórcio,
não por o réu ter o áomicí'lno em Portugal, mas por a autora estar domi-
ciliada e residir em território português (alínea a) do art. 6:5 .°, combinada
cone o art . T5.o) . A circunstância de o casamento, ter sido celebrado em
Portugal também era irrelevante para o efeito da competência internacio-
nal dos tribunais portugueses ; o que interessaria era que a causa ale pedir,
o facto alegado pela autora para justificar o pedido . de divórcio houvesse
ocorrido em Portugal . A autora pedia o divórcio com o fundamento de
adultério do marido e cie sevícias e injúrias .graves ; pouco importava o
lugar em que o casamento houvesse sido celebrado, o que importava, nos
termos 'da alínea b) do artigo 65 .', era que o adultério, as sevícias e as
injúrias tivessem sido praticados em Portugal .

b) Prática, em território português, do acto ou facto de que a acção


directamente emerge . Passemqs à análise da alínea b) do artigo 6 .5 .o
O n .' 2 .° do artigo '5 . 1 do Decreto n .° 13 :979 e o n .° 2 .° do artigo 17 .0
do Decreto n" 2'1 :287 exprimiam-se de outra maneira . A redacção era :
<Quando a obrigação tenha origem em acto ou facto praticado em
território português.
Não obstante a diversidade de forma, a ideia é a. mesma. Declarasse
competente a jurisdição portuguesa. quando a causa de pedir tenha conexão
com o território português, conexão que se traduz na circunstância de ter
sido praticado em Portugal o acto ou facto que se invoca como causa de pedir.
A causa de pedir é um contrato? Serão competentes os tribunais
portugueses, se o contrato tiver sido celebrado em Portugal .
A causa de pedir é pm acto jurídico unilateral, como por exemplo
um testamento? A competência da jurisdição portuguesa derivará da
circunstância de o testamento ter sido feito em Portugal .
A causa de pedir é um facto ilícito? A acção pode ser proposta em
tribunais :portugueses, uma vez que esse facto ilícito tenha ocorrido em
território ;português.
A alínea b) do artigo 65 .' deve aproximar-se do disposto no §,3 .o do
artigo 502.0, onde se define a causa de pedir, porque, nà verdade, o que se
13 2 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

quis significar com a alínea b) do artigo 65 .° foi que os tribunais portu-


gueses são competentes quando tiver sido praticado em Portugal o acto
ou facto - causei de pedir.
As várias alíneas do artigo 65.' são autónomas ; funcionam em com-
pleta independêncila umas dais outras. Quer isto dizer que se a acção
não puder ser proposta em Portugal por força da alínea a), isso não obsta
a que o seja !par força da alínea b) ; e ~se nem pela alínea a) nem pela
alínea, b) a jurisdição portuguesa for competente, sê-lo-á por força da alí-
nea-c) ou da alínea d), desde que se verifique a circunstância aí prevista .
17m exemplo esclarecerá o nosso pensamento.
lmagine-se que um português vende a um espanhol determinadas
mercadorias ; o contrato é celebrado no Porto e o vendedor entrega' ao
comprador as mercadorias em Vigo ; o, comprador não paga o preço .
Poderá o vendedor exigir o pagamento em tribunais portugueses?
A resposta é nitidamente afirmativa . A causa de pedir, o acto de
que a acção directamente emerge é o contrato de compra e venda . Desde
que este acto foi praticado em Portugal, a jurisdição portuguesa é compe
tente, por virtude da alínea b) do artigo 65 .° Pouco importa que o réu
tenha o domicílio e a residência em Espanha e não se encontre acidental-
mente me Portugal ; pouco importa também que a obrigação do paga-
mento do preço devesse, segundo a lei portuguesa, ser cumprida na
Espanha, por ter sido entregue aí a coisa vendida (Cód . Civ, art . 1583 .',
§ 1 .'), e consequentemente que a acção devesse ser proposta na Espanha,
segundo as regras de competência territorial da lei portuguesa (Cód . de
Proc.,, art . 74.°) ; numa palavra, pouco importa que, nos termos da alí-
nea a), os tribunais portugueses fossem incompetentes .
Uma vez que são competentes por força da alínea b), é quanto basta .

0 ar. Dr . Machado Vileta, ao ocupar-se da alínea b) do artigo 65 .°,


procura esclarecer dois pontos :
1 .° (Quando 'deverão considerar-se celebrados em Portugal os con-
braftod feitas entre ausentes, dois quais um se encontre em Portugal e o
nutro em país estrangeiro . ;
2 .° Qual é o alcance da fórmula «directamente , emergeu.
Quando ao 1 .o ponto, o ilustre professor entende que o Código Civil
português seguiu, não o sistema da informação, mas o sistema da declara-
ção, como se vê pelo artigo 649 ." ; por isso conclui que o contrato entre
ausentes deve considerar-se celebrado em Portugal, para os efeitos da
alínea b) do artigo 65 .°, quando a aceitação se der em território português .
E é iavdife~, acrescenta, que ~a lei do lugar donde partiu a proposta
siga o sistema da informação, visto que a regra da alínea b) do artigo 65:°
é de competência internacional ou jurisdicional e as regras de compe-
tência desta categoria sido leis de ordem pública internacional, como normas
que delimitam a esfera de acção do poder jurisdicional do Estado em
relação aos outros Estados (Boletim cit. vol. 17 .°_págs. 327 e 328) .
Concordamos inteiramente com esta doutrina .
0 Supremo Tribunal de Justiça teve, há pouco, ensejo -de se pro-
Capítado 11---Da competência internacional 13c,

nunciar sobre a aplicação dá alínea b) do artigo (i5 .° a um contrato que!


parecia ter sido celebrado entre ausentes . Um comerciante do Porto,
Ernesto de Oliveira  firmou um contrato com a Société Tunisienne de
1'Hiperphosfate Reno, com sede em Paris, por virtude do qual esta se
comprometia a fornecer àquele determinado número de toneladas de
hiperfe.sfato da sua produção .
Em determinada altura a Sociedade não forneceu as quantidades
pedidas pelo Oliveira ; este propôs contra aquela, no 'Porto, acção de
'indemnização por falta de cumprimento do contrato .
Levantou-se a questão da competência internacional dos tribunais
portugueses .
Sustentava-se que a jurisdição portuguesa era competente : a) por
força da alínea b) do artigo ~6'W, visto que o contrato devia considerar-se
celebrado no Porto ; b) por 'força da alínea a) do mesmo artigo, combi-
náda com o ar'biga 79: .°, pois que a sociedade parisions,e se obrigara a fazer
a .entrega do hiperfosfato no Porto .
0 Supremo Tribunal de Justiça, em acórdão de 9 de Outubro de 1942
(Rev . de Leg, ano 75 .°, pág. 377), afastou a aplicação tanto da alínea b)
como cia alínea. a) e decidiu que os tribunais portugueses não tinham
competência internacional . A decisão suscita-nos alguns reparos .
Quanto à aplicação da alínea b) . 0 contrato fora reduzido a escrito
desta maneira : a sociedade francesa redigiu e assinou em Paris dois exem-
plares 'do contrato, remeteu-os para o Porto ao Oliveira, este ficou com uai.
deles em seu poder, aiss:nou o outro e enviou-o para, Paris à dita sociedade .
Em face disto, e admitido que a lei portuguesa segue o sistema da
declaração, como o acórdão reconhece, de acordo com os professores José
Tavares, 'Guilherme Moreira e Machado Vilela, parece que devia ter-se
como certo o seguinte : o contrato fora celebra-do no Porto; lugar da acei-
tação cia proposta feita pela sociedade francesa .
Não obstante isto, o acórdão decidiu que o contrato havia sido con-
cluído em Paris. Justifica assim a sua decisão :
«17 exame atenú~o do assunto convence, porém, doe que o título ores--
supõe a existência do contrato anteriormente celebrado, contrato que, .por
não ser de natureza formal, ficou válido e perfeito antes de reduzido a
escrito . Como o título do contrato foi escrito em Paris, lá se deve ter
real~ o en;dontirb de vontadíes dois pactuantes e tornado pierffeito o dou-,
trato . 'Tem-se, por isso, como assente que o contrato foi realizado em
Paris, ou, ao menos, que não há nos autos elementos para o considerar feito
em Portugal.>
Não sabemos se nos autos havia prova segura de que o Oliveira esti-
vera em Paris e aí fechara oacordo com -a ,sociedade, a que depois, se dera.
forma escrita, redigindo-se e assinando-se os dois exemplares . Anão existir
tal prova-e parece que não existia, em vista da passagem que sublinhá-
mos - não podemos deixar de acentuar que nos causa estranheza a decisão .
O tribunal encontrava-se perante -um fato certo e positivo : o cor-
trato, na sua forma escrita, fora concluído em Portugal, pois que a acei-
tação, por parte do Oliveira, tivera lugar no Porto .
1.34 Livro 17 -Da competência e das garantias da imparcialidade

Para arredar este facto inequívoco, do qual derivava a competência


dos tribunais portugueses, o que fez o Supremo? . Entrou no caminho das
presunções ou das conjecturas . presumiu, em primeiro lugar, que por
trás do contrato escrito estava um contrato verbal ; presumiu, em segundo
lugar, que esse contrato verbal se fechara e~ concluíra em Paris .
Para se verificar a fragilidade desta segunda conjectura basta atender
à razão em que o acórdão a filia : como o título foi escrito em Paris, lá se
deve ter realizado o encontro de vontades e tornado perfeito o contrato!
Mas então, se o Oliveira esteve em Paris e aí fechou o contrato com
a Société Tunisienne, como se compreende que não fossem logo redigidos
e assinados os exemplares do contrato? Parece que a reconstituição mais
natural doe factos seria esta : houve negociações preliminares entre o Oli-
veira e a Sociedade, houve troca de correspondência para se chegar a um
entendimento e por fim, como resultado definitivo, celebrou-se por escrito
p contrato de fornecimento .
A ser assim, é claro que o contrato devia considerar-se concluído
no Porto .
Qzuznto à aplicação da alíena a) . No § 2 .0 da cláusula 6 .` do contrato
tinha-se estipulado que «salvo cláusula contrária expressa, os preços
entender-se-Ao C . I . F . Lisboa ou Porto, mercadoria posta nas embalagens
usuais da Soc. Tun ., e a entregar em porto> ; e na cláusula 10.' d'etesmi-
n)ava~ que «ás encomendas da ~ Oliveira dleverão chegar à Soe . Tun.,
en Parvws, do'í~9 meses antes da data previsto para entrega C. 1. F . Lisboa
OU, P~> .
Em vista destas estipulações a Relação do Porto deu como assente
que a sociedade francesa se obrigara a fazer a entrega do hiperfosfato em
1,1~ ou P~ e que, por isso, os tribunais portugu . eram compe
tentes, nos termos da alínea ,a) do artigo 65.°, conjugada com o artigo 74 .°
0 Supremo interpretou as cláusulas transcritas no sentido de que
por elas se teve em vista fixar o preço das mercadorias, e não o lugar da
sua entrega.
I?ulas observações nos permi~bimoe fazer . A primeira é que a deter-
minação da vontade das partes nos negócios jurídicos é matéria de facto,
da competência exclusiva dos tribunais de instância (Rev. de Leg, ano 74 .o,
. 289 e sega. ; lac'órdãás do S. 'T, J., de 28-11 .'441, 17-3 . 942, 30-10
,figa
.°_942
e 2'6-2'-948, Rev. de Just, ano 27.°, pág. '103, Rev. de Leg, ano 75 .o, pág. A1,
Boletim Oficial, ano 2 .°, pág. 291, Rev. dos Trib., ano 61 .1 , pág 136),1 'Sle
a Relação decidira que os contratantes, ao estipularem a cláusula 10' e
o § 2 .* da cláusula 6.`, tinham querido fixar Lisboa e Porto como lugar"
de entrega da mercadoria, não era lícito ao Supremo atribuir às partes
unia intenção diversa..
A segunda é que as cláusulas referidas dificilmente comportam a
interpetação do 'Supremo . As partes não se limitaram a declarar que os
preços deviam entender-se C . I . F. Lisboa ou Porto ; foram mais longe :
estipularam, ao que parece, que a mercadoria devia ser posta nas emba-
lagens usuais da Société Tunisienne, e que a entrega devia fazer-se em
Lisboa ou Porto.
Capítulo II-Da competência internacional 13 5

Admitidb que se fixaram estas d!u'as cidades como lugares da entrega


do hiperfodato, tinha de concluir-se, que os tribunais portugueses eram
oompetentes . É certo que a acção não se destinava a exigir a entrega ;
o que se pedia era a indemnização de perdas e danos por falta da entrega
da mercadoria . Mas quando se diz, no artigo 74 .", que a acção destinada
a exigir o cumprimento db obrigação será prbiposta nó lugar em que a res-
pectiva obrigação devia ser cumprida, deve entender-se que o juízo desse
lugar é competentg não só para a acção 'em que se pede o cumprimento
específico, como também para aquela em que se pede a indemnização de
danos
perdas e por falta dó cumprimemfib, visto que a obrigação de inde-
mnizar é o substitutivo legal da obrigação específica que deixou de ser
cumprida (ae . do S . T . J . de 9-10 .o-942, Rev. de Leg, ano T5 .°, pág. 37E7 ;
Alberto dos Reis, Processo ordinário, 2." edição, págs . 701 e '702, nota) .

Vejamos agora qual é o alcance das palvaras «directamente emerge" .


Com estas palavras quis certamente significar-", escreve o
sr. Dr. Vilela, que a pretensão do autor deve ter por fonte o próprio acta
ou facto praticado em território português . Se, pois, entre esse acto ou
facto e e, litígio se interpuser outro acto, que modifique ou regule os efeitos
do acto ou'facto primitivo, como uma transacção entre as partes, já a
regra se: não pode aplicar . Pode dizer-se que o sentido da lei é este :
a acção deve ter como fonte imediata o acto ou facto praticado em Portugal
(Boletim cit ., vol . 17 .o, págs . 328 e 329) .
É fora de dúvida que no exemplo figurado pelo sr. Dr . Vilela-ter-se
celebrado um contrato em Portugal e mais tarde os contratantes haverem
realizado, fora do território português, uma transacção destinada a regular
as consequências da inexecução do contrato inicial - à acção em que se
peça o cumprimento da transacção não é aplicável a regra da alínea b)
do artigo 65 .°
Mas para afastar a competência das tribunais portugueses na hipó-
tese apresentada não seria, a meu ver, necessário inserir na alínea b)
o advérbio directamente ; ainda que lá não estivesse tal palavra, os tri
bunais portugueses não teriam competência internacional . Desde que o
objecto da acção é exigir o cumprimento da transacção, é claro que é do
acto juridcao transacção quis ela emerge, e não dó acto juríd" contrato
.
primitivo
Entretanto, é perfeitamente exacto o sentido que o sr . Dr. Vilela
atribui à alínea b) do artigo 65 .° : a acção deve ter como fonte imediata
o acto ou facto praticado em Portugal . Por outras palavras, conforme já
frisámos, a acção deve ter como causa de pedir o acto ou facto praticado
em Portugal.
A acção de divórcio ou de separação de pessoas e bens permite-nos
pôr em relevo o alcance do termo «directamente» . Dois espanhóis casa-
ram na Espanha ; em certa altura vêm viver para Portugal ; o marido
comete aqui adultério ; a mulher pode propor contra ele acção de divórcio
ou de separação nos tribunais portugueses, embora ao tempo da propo-
sição da acção tenha o domicílio e a residência na Espanha, uma vez que
13 6 ~Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

invoque, como fundamento do divórcio ou da separação, o adultério come-


ti'd'o em Portugal . A causa de pedir é o facto do adultério ; é deste facto
que a acção directamente emerge, e não do acto jurídico casamento, se bem
que o adultério constitua infracção de um dos deveres contraídos mediante
o matrimónio .

Já se discutiu em que termos deve a alínea b) aplicar-se às acções


de investigação de patern'id'ade ilegítima . Entendeu-se que os tri-
bunais portugueses são competentes, por força dessa alínea, quando o
filho ilegítimo haja nascido em território português (ac . da Rei . d e Lx .",
de 16-1. .°-9'43, e ae . do S . T . J ., de 27-7 .°-943, Rev. de Leg., ano 76,°, págs . 155
e 2'52) .
Como procurei demonstrar na Revista de Legislação, aho 76 .o,
págs. 1!4'7 e 2 .43, não pode aceitar-se semelhante doutrina . Não é do facto
do nascimento que emerge directamente a acção de investigação de pater
nidade ilegítima ; a causa de pedir nesta acção não é esse facto . Claro
que ase o fãho não nascer com vida e figura humana, não pode investigar
a paternidade ; mas, ao investigá-la não é no simples facto do nascimento
que se funda para afirmar o seu direito a ser declarado filho de determi-
nado indivíduo . A verdadeira causa de pedir na investigação da pater-
nicllade iilegítima é o facto da procriação : piar ter -sido procriá,do au gerado
por certo homem é que o autor se julga no direito de ser havido como
filho ilegítimo dele.
Mas como o facto da procriação não pode ser apurado directamente,
há-de tomar-se o facto jurídico através do qual, segundo a lei, se pode
chegar ã determinação da paternidade : posse de estado, sedução, convivên
cria mmrital, etc . (Dei . n .* 2, de 25-121.°-910, art . 34 .') . Para os efeitos da
alínea b) do artigo 65 .° deve entender-se que o facto de que emerge directa-
mente a .acção de investigação de paternidade é qualquer dos factos espe-
cificados no artigo 34." -do Decreto de 2'5 de Dezembro de 1910 : aquele que,
no caso concreto, se invocar para investigar a paternidade . 0 que importa,
pois, para que os tribunais portugueses tenham competência internacional,
é que esse facto haja sido praticado em Portugal .
Alguns dos factos jurídicos designados no citado artigo 34 .° prçs-
supõem uma; certa. continuidade, uma série sucessiva de actos e factos mate-
riais . É o que se dá com a posse de estado, a sedução e a convivência
notória como marido e mulher . Surge, por isso, a questão : para que os
tribunais portugueses tenham competência internacional, será necessário
que ocorram em Portugal todos os factos materiais necessários para cons-
tituir o facto jurídico, ou bastará que ocorram alguns?
Basta que ocorram alguns, contanto que sejam relevantes e caracte-
rísticos do facto jurídico (Rev . de Leg., ano' 76 0, pág . 147) . É claro que, ao
examinar-se e decidir--se a questão de competência, não vai averiguar-sa
se realmente os factos ocorridos em Portugal são suficientes para constituir
a pio~ de estado, a dedução, a convivência ; isso equflValeria a conhecer
cio mérito da causa a propósito da questão de competência . 0 que o tri-
bunal tem de verificar, para se certificar da sua competência, é se, dentre
Capítulo II-Da competência internacional 13 7

a massa dos factos materiais alegados pelo autor, foram praticados em


Portugal factos suficientes :para justificar a conexão da acçao corte a
jurisdição portuguesa.

c) Princípio da reciprocidade. Os tribunais portugueses são compe-


tentes quando se 'pretende realizar, em benefício dalgum português, o
princípio da reciprocidade (alínea c) .
0 sentido desta :regra de competência é exactamente o mesmo que
tinha o § 2 .o do artigo '5 .° do Decreto n .o 13 :979 e o § 2 .° do artigo 17 .° do
Decreto :n .* 21 :'287 : «o estrangeiro pode ainda ser demandado por um por
tuguês era Portugal nos mesmos casos em que o português o poderia ser
perante aos tribunais dia Estada a que pertence o réu .»
Disposição semelhante se lê uo n .° 4 .o do artigo 4 .° do novo Código
de: Processo Civil italiano, assim redigido :
«O estrangeiro pode ser demandado perante os tribunais do Reino
se, no caso recíproco, e, juiz do Estado a que pertence o réu pode conhecer
de acções propostas contra um cidadão italiano .»
Tratarse die um critério geral, escreve N'appi, inspirado num princípio
de defesa., senão propriamente -de retorsão . Todas as vezes que um-juiz
estrangeiro possa exercer a sua jurisdição sobre um cidadão italiano, o
magistrado 'italiano pode considerar-se jurisdicionalmente competente em
relação ao réu estrangeiro (Nappi, Comanentario al Codice di procedura
civile, vol . 1 .°, pág . 77) .
É claro que, no ponto de vista estritamente jurídico, a disposição da
alínea c,) n.ão tear justificação plausível . 0 Estado deve estatuir o seu
regime de competência jurisdicional sobre a base dos princípios que jul
gue razoáveis, sem se preocupar com a atitude que os Estados estrangeiros
tomem em tal mâtéria,; por outras palavras, definidos e assentes por cada
Estado os critérios de conexão que hão-de orientar o seu sistema da
competência internacional, só quando algum -desses critérios se verifique
é que a 'l5'dle deve ser 'sujeita à jurisdição rrac'ional . Que um Esitado estran-
geiro adopte critérios diferentes, pouco importa ; o . Estado não pode abdi-
car da sua própria doutrina das suas concepções, para se subordinar ao
ponto de vista dum Estado estrangeiro .
Este o aspecto ju~r&ico do problema . Tem razão, pois, o sr . Dr . Machado
Vilela, quando escreve :
«A disposição da alínea c) do artigo 65 .* do Código é, em verdade,
mais urna regra de retorsão do que uma regra 'de competência interna-
cional juridicamente defensável . Deixa dependente de uma lei estrangeira,
que pode ser má, e por uma espécie de devolução que se não justifica, o
exercício da jurisdição dos tribunais portugueses.» (Boletim cit, vol . 17 .°,
pág. f&2) .
Mas há o aspecto político . Como observa : Morelli a respeito do n .o 3 .o
do artigo 105 .° do Código italiano de 1865, por considerações de ordem
política e no intuito de proteger os interesses dos seus nacionais, o Estado
italiano, perante o facto de que o Estado a que o estrangeiro pertence
eoerceri~r, em situâção anáÊoga, â Êuia jurisdção sobre um italiano, afirma
13 8 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade

a sua própria jurisdiçao relativamente ao estrangeiros (Morelli, Il direito


proeessuale civile italiano, pág. 112) .
Não é uma doutrina juridicamente recomendável, mas é uma atitude
politicamente compreensível esta de o Estado velar pela protecção dos
seus nacionais e não os deixar em situação de inferioridade em face dos
estrangeiros. Choca, na verdade, o sentimento nacional que um estran-
geiro não possa ser demandado por um português em Portugal nós casos
em que o português o poderia ser pelo estrangeiro nos tribunais do seu país.
Há aqui, de facto, uma, m~a de retorsão uma forma velada doe
represália; mas sob o ponto de vista político não pode condenar-se tal
procedimento.
0 § 2.° do artigo 5,.° do Decreto n.° 13 :979, fonte da alínea c) do
artigo 65.', foi influenciado por uma ocorrência que causou uma certa
emoção nos meios jurídicos portugueses . Um navio francês abalroou nas
águas da Terra Nova,' onde se entregava à pesca do bacgIhau, um navio
;pertencente a uma sociedade portuguesa, que pescava nas mesmas águas;
;propôs-.se em Portugal. acção de indemnização de perdas e danos contra
o francês, db~'db navio abal'roador; o réu arguiu a incompetênci~a .inter-
nacional dos tribunais portugueses .
E, na verdade, em face das normas de competência então vigentes,
ia jurilbidhção pbx+tuguesa não eira compet3nte pára -a causa. 0 artigo 10.°
do Código de Processo Comercial dava competência para conhecer da
acção por perdas e danos resultantes da abalroação ao juízo do lugar onde
se desse o facto, ao domicilio do dono do navio abalroador e ao do lugar
a que pertencesse ou em que fosse encontrado esse navio ; de modo que,
nos termos do § 1.o do artigo 5 .1 do Decreto n' 12 :3'53, os tribunais portu-
gueses só seriam competentes se o navio abalroados se encontrasse em
Portugal, pois que o evento ocorrera em -águas estrangeiras, o dono dó
navio abalroador tinha o seu domicílio na França e esse navio estava
matriculado num porto francês . Como 'o navio abalroador também se não
encontrava em Portugal, os tribunais portugueses eram incompetentes .
E todavia, se as situaçoes se invertessem ; lato é, se um navio por-
tuguês abalroasse na Terra Nova um navio francês, o dono deste navio
~ria demandar perante os tribunais ,db seu pais o cidadão português,
dono do navio abalroador.
Entendeu-se que convinha colocar, em Portugal, o autor português
perante o réu francês na mesma, situação,,jurisdici'onal em que, em igual-
dade de circunstâncias, o autor francês, estaria, na França, perante o réu
;português .

d) Principio de necessidade . Os tribunais portugueses têm compe-


tência internacional quando o direito não possa tornar-se efectivo senão
por meio de acção proposta em tribunais portugueses (alínea d)) .
Também esta regra de competência; vem do artigo 5 . do Decreto
n..° 13 :979. Formulava-a o n.* 4.° deste artigo ; dai-passou para o n.o 4.*
do artigo 17.* do Decreto n.' 21 :287.
Como se justifica?
Capítulo II-Da competência internacional 139

Procurando dar a razão do n .* 4 .' do artigo 17 .o do Decreto n .° 21 :287,


escrevi em tempo :
«f um caso excepcional e subsidiário de competência, por meio do
qual se tem em vista evitar que o direito fique sem garantia judiciária .
Suponhamos que um português quer propor contra outro, domici-
liado em Portugal, uma acção -de reivindicação dum prédio situado num
pais cuja lei declara competente para essa acção .o juizo do domicílio do
réu . A. acção não ipbderia nbrmlalmente ser proposta em Portugal, juízo
do domicilio do réu, porque, segundo, a lei portuguesa de competência
interna as acções destinadas a fazer' valer qualquer direito real sobre
imóveis têm de ser intentadas no juizo da situaçãodo prédio (Dec . n.° 21 :287,
art. 10 .°), e tanto basta para que, sob o ponto de vista internacional, ao
;juízo do domicílio do réu se substitua o juízo da situação do imóvel (Dec .
cit ., art . 17.°, § 1 .1) ; também não poderia ser proposta no juízo da situação
cio prédio, visto este estar situado no território dum Estado cuja lei declara
competente a jurisdição do domicílio do réu . 0 autor corria, pois, o risco
cie não poder tornar efectivo o seu direito, por falta de jurisdição interna-
cionalmente competente.»
E mais abaixo
«Vê-se que o n :' 4 .o do artigo 17 .° contém ; como dissemos, uma dis-
posição excepcional e subsidiária de competência . Pela aplicação das
regras normais de competência a acção não poderia ser proposta en1 tri
bunais portugueses ; é a necessidade extrema de não deixar o direito des-
protegido e desprovido de acção que faz capitular o legislador e o leva
a consentir que a acção seja submetida à jurisdição nacional .» (Breve
Estudo, 2 ` edição, págs . 40 a 4-2) .
0 sr. Dr. Machado Vilela, reconhecendo que a regra da alínea d) do
artigo 65 .° tem certa beleza moral, pois obedece ao pensamento de evitar
a denegação de justiça, considera-a juridicamente injustificável, nos ter
mos em que está formulada. Injustificável, porque a competência juris-
dicionall dos tribunais dum Estado só pode reputar-se legítima quando,
por um elemento de facto ou de direito, a relação jurídica de que emerge
a acção tem conexão com a jurisdição desse Estado . Não se compreende
que seja internacionalmente competente para julgar uma acção o tribunal
dum país, se a acção não emerge de relação jurídica que esteja em cone-
xão com a jurisdição desse país. Ora a regrada alínea d) não indica ele-
merrbo algum que ~si'rva de base à competência dos tri'bun'ais portugueses
e, portanto, nos termos em que está formulada, não é juridicamente
admissível .
Por outro lado, acha o eminente professor que a regra é 'desnecessár
ria. As bases da competência in~erniaciom'al adoptadias pelo Cód'i'go são
tão .'largas, que dificilmente poderá conceber-se que o sistema conduza a
uma denegação de justiça (Boletim cit . vol . 17.°, págs . 3'33 a 335) .
Que pode haver casos de denegação de justiça, já o mostrámos com
o exemplo acima figurado . A divergência de critérios em que assentam
os diferentes regimes legislativos de competência internacional pode, em
determinadas circunstâncias, coldcar os litigantes perante um beco sem
1.40 Livro II - Da competência e das garantia s da imparcialidade

saída, perante a situação anómala de não ser internacionalmente compe-


tente para a acção nenhuma das jurisdições com as quais ela se adia em
contacto.
É um caso extremo, em,que se compreende perfeitamente uma tran-
sigência legislativa . Não fica mal ao legislador abrir então uma brecha
nh seu sistema, a fim de permitir que por ela entrem os 'litigantes acossa-
dos e atribulados.
É inteiramente exacto como nota o sr . Dr. Vilela : a) que não faz
sentido admitir-se a competência internacional dos tribunais portugueses
quando a acção não tenha qualquer ponto, de contacto com a jurisdição
portuguesa ; b) que a alínea d) não indica qual deva ser esse ponto de
contacto. Mas se o não indica, pressupõe em todo o caso que ele exista .
Na verdade, quando se diz que o direito não pode tornar-se efectivo senão
1" meio de acção proposta- em tribunais portugueses, implicitamente se
ínculda que há-die existir qualquer razão para que a jurisdição portuguesa
seja posta em causa e essa razão não pode senão a circunstância de a
acção, por alguns dos seus elementos constitutivas, estar em conexão com
a. jurisdição portuguesa .
0 que sucede é que normalmente essa conexão não seria suficiente
para justificar a competência dos tribunais portugueses ; justifica-a, no
caso particular, pelo estado de necessidade, pela consideração de que o
direito :não há-de ficar sem garantia judiciária .
0 exemplo que apresentámos é suficientemente elucidativo . A acção
de reivindicação está em contacto com a jurisdição portuguesa por um
elemento subjectivo-serem portugueses os litigantes -e por um elemento
obj&,tivo-achar-se o réu :domiciliado em Portugal ; não obstante esta
conexão os tribunais portugueses seriam incompetentes, nos termos das
alíneas a) e b), visto que se trata de acção real sobre imóvel situado em
país estrangeiro . Intervém o princípio de necessidade para erigir a refe"
rida conexão em factor determinante da competência internacional .
A lei não driz qual deva ser a conexão existente entre ~a lide e a juris-
dição portuguesa? A conclusão a tirar é que qualquer conexdo'é suficiente,
uma vez que se mostra existir a razão de necessidade. Desde que a acção,
por algum dos seus el'e'men!tos constitutivos (subjectivos ou objectivos),
e boja em contacto com 'a jurisdição portuguesa e 'se verifique o princípio
de necessidade, a alínea d) funciona legalmente.
É esta também, afinal, a opinião do sr. Dr . Vilela, como se vê deste
passo :
<Sendo assim, somos de parecer que, mesmo na sua forma actual,
a dis~ição da -alínea d) dd a*igb 6'5 .° não deverá ser aplicada pelos tri-
lbunais se, no caso ocorrente, não existir algum elemento de facto ou de
direito pelo qual a causa esteja em conexão com a juridição portuguesa :
(jgo,letim, vol . 17.°, pág. 336) .
Que saibamos, a alínea d) já foi invocada três vezes nos tribunais
para fundamentar a competência internacional da jurisdição portuguesa .
Um cios casos foi aquele a que já nos referimos, a propósito da alínea b) :
o caso sobre que incidiu o acórdão do 'Supremo Tribunal de Justiça, já
Capítulo I3-Da competência internacional 14 1

citado, de 9 de Outubro de 194'2 . Para se demonstrar que a acção era da


competência dos tribunais portugueses, além de se al?'irmar que ó contrato,
base da acção, fora celebrado no Porto, alegava-se que, dada a situação
especial da França ocupada, o Fautor não tinha pos'sibil'idade de demandar
a ré perante a justiça francesa e que por isso se verificava o caso previsto
na alínea, d) do artigo 65 .° 0 acórdão repeliu, e bem, a aplicação desta
alínea, por constar oficialmente das 'autos ser possível promover a activi-
dade dos tribunais franceses da zona ocupada .
Outro caso foi decidido pelo acórdão do Supremo Tribunal de Jus-
tiça, de 30 de Junho de 1942 (Rev . de Leg., ano 75 .', pág . 286) . Tratava-se
também de uma acção de indemnização de perdas e danos proposta por
uma sociedade portuguesa contra urna sociedade comercial japonesa, por
falta de cumprimento de um contrato . Intentada a acção em Lisboa, a
ré arguiu a incompetência internacional dos tribunais portugueses, ale-
gando que não se verificava qualquer das circunstâncias previstas no
artigo 65 .o
Por parte da autora respondeu-se que os tribunais portugueses
tinham competência internacional :
1 .' Nos termos da alínea a) do artigo 65 .', porque, tendo a ré asse-
gurado à autora o exclusivo da venda dos seus produtos em Portugal,
infringira o contrato, vendendo a um outro comerciante português redes
da sua fabricação, e assim praticara em Portugal um facto ilícito, que a
constituía em responsabilidade para com a autora, responsabilidade que
podia ser exigida em tribunais portugueses, em vista da 2 .' parte do
6rtigo 74 ..° conjugada com a alínea a) do artigo 65 .' ;
2 .° Nos termos da alínea b) do mesmo artigo, porque a acção de
indemnização ideriv'ava directamente de factos praticados em berriteório
português, como 'eram o ~atrasd na entrega das mercadorias e serem os
produtos de qualidade 'inferior aos tipos ajustados ;
3 .° Nos termos da alínea d), porque o Japão se encontra em guerra
com vários Estados e não tinha, por isso a autora possibilidade de tornar
efectivos os seus direitos perante os tribunais japoneses .
0 acórdão afasta estas razões e considera . incompetentes os tribunais
portugueses. Afasta a 1 .', por não se mostrar que o facto ilícito-venda
das redes a outro comerciante -tenha sido praticado em Portugal'; afasta
a 2; .', porque o contrato, base da acção, fora celebrado no Japão e os factos
de que a autora se queixava- atraso no embarque das mercadorias e
inferior fabricação- a serem exactos, teri(am ~indo nh Japão ; afasta
finalmente a ,3 .', porque o estado de guerra entre o Japão e algumas potên-
cias estrangeiras, se poderia acarretar embaraços e dificuldades na pro-
posição de uma acção em tribunais japoneses, não tornava impossível
o exercício, no Japão, do direito de accionar, e seria necessário que tal
impossibilidade se verificasse para que pudesse invocar-se a alínea d) do
artigo 65 .o
Cremos que a decisão do lacórd'ão é correcta, em todas as suas partes.
Canvém frisar que a sociedade japonesa, ré nsa acção, não tinha em Por-
tugal agência nem qualquer espécie de representação ; e além disso que
142 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade

não se provou, nem sequer alegou, que a entrega das mercadorias devesse
ser feita pela vendedora em território português.
0 terceiro caso é o do acórdão da Relação de Lisboa, de 16 de Janeiro
de 1943, e do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 27 de Julho
de 1943, a que já nos referimos anteriormente : acção de investigação de
paternidade ilegítima, proposta. por dois filhos ilegítimos portugueses con-
tra réus brasileiros domiciliados no Brasil. Os acórdãos julgaram com-
petentes os tribunais portugueses, por força da alínea d) do artigo 65 .'
Argurnentaram assim : a acção não seria viável no Brasil, já porque se
fundava na ,pus'se de est'adb e a lei brasileira nãa. admite a investigação
de paternidade com tal fundamento, já porque os investigantes eram filhos
adulterinos e o Código Civil brasileiro nega a estes filhos o direito de
investigar a paternidade.
Aqui é mánifes~b que se fez errada aplicação da alínea d) : confun-
diu-se a questão de fundo ou mérito da causa com a questão de competên-
cia, . A. alínea d) nada tem com a questão de fundo, com a questão de saber
se o autor tem ou não o direito material que se arroga ; só entra em fun-
ção quando, supondo que o autor tem o direito substancial que se atribui,
precisa de recorrer aos tribunais portugueses para o tornar efectivo, isto
é, para o fazer r~hecer judicialmente, porque não encontra, à sus, dis-
posição, nenhuma jurisdição competente .
Pilão era evidentemente o caso . Se a lei- brasileira não admitia a
'investigação no caso particular de que se tratava, seguia ise que, perante
essa lei, os autores não tinham o direito substantivo que se arrogavam,
e não que a jurisdição brasileira não fosse competente para a acção de
nvestigação referida (Rev . de Leg ., ano 76.', págs. 148 e 244) . São coisas
completamente diferentes : não ter direita, ou tê-lo mas não poder torná-lo
efectivo em juízo . A impossibilidade de efectivação pode resultar : a) ou
ele a própria lei substancial negar a acção judiciária ; b) ou de não haver
tribunal competente para a acção respectiva . A alínea d) do artigo 65 .°
relaciona-se com esta última hipótese.

No Instituto da Conferência da Ordem -dos Advogados pôs-se a ques-


tão de saber se, em face da alínea d), os tribunais portugueses seriam
competentes para decretar, a requerimento duma firma inglesá, o arresto
de dois navios duma companhia alemã, surtos num porto de Angola .
A 'firma 'ingles'a era credora 'dia c'ompanh'ia alemã, dona dos navios ; não
podia propor a iacção doe divida na Alemanha, dado o estado de guerra ; se
a propusesse na Inglaterra e obtivesse sentença favorável, não a podia
executar na Alemanha ; logo, concluía-se .verificava-se o caso da alínea a) :
o direito só poderia tornar-se efectivo por meio de acção proposta em tri-
bunais portugueses, uma vez que se encontravam em território português
bens -da companhia devedora sobre os quais a sentença podia ser dada
à execução .
Não foi esta, porém, a opinião que prevaleceu . A maioria foi de
parecer que a competência internacional dos tribunais portugueses não
podia, no caso concreto, justificar-se mediante a aplicação da alínea d) .
Capítulo II-Da competência internacional 143

Para que fosse legítima a invocação desta disposição seria necessário :


á) que existisse um laço,de conexão entre o direito do Autor e um ele-
mento jurídico português ; b) que se verificasse a impossibilidade jurídica,
e não só prática, de propor a acção noutro país (Relatório do sr, Dr. Gentil
na Rev. da, Ordem dos Advogados, ano 1 .", n ." 1, pág. 30) .
Aplhudimos a solução. Quãnto aos fundamentas em que se baseou,
algumáb observações nos ocorrem .
É claro que os tribunais portugueses não seriam, em circunstâncias
normais, competentes para o arresto dos navios alemães, visto que a
competência para o arresto determina-se pela competência para a acção
de: que o arresto é , acto preparatório (art . 83:°, alínea d) e nem por virtude .
da :alíneas a) do artigo f5 .°, nem por virtude da alínea b) do mesmo artigo
a acção de dívidá confra a companhia alemã, por parte dá firma inglesa,
-poderia ser proposta em Portugal, certo que a dívida não tinha sido con-
traída ena Portugal nem a devedora tinha aqui qualquer agência ou repre-
sentação social.
Resta saber se o estado de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha
seria suficiente para fazer funcionar a alínea d) do artigo 65 .°
Cremos que não.
Para que a disposição se aplique, diz o relatório, são necessários
dois requfisi'tas :
1 .* Que exista um laço de conexão entre o direito do autor e um
elemento jurídico português, ou melhor, como -já explicámos, que a acção,
por algum dos seus elementos constitutivos, esteja em conexão com a
jurisdição portuguesa ;
2 .' !Que se verifique a impossibilidade jurídica, e não ìznicamente
a impossibilidade prática, de propor a acção noutro país .
Podemos condensar os dois requisitos numa fórmula : é necessário
que, das várias jurisdições com, as quais a. acção está, pelos seus elementos,
em, contacto, só haja acesso à jurisdição portuguesa.
0 que sucedia na hipótese? 'Sucedia : a) que a acção não tinha
conexão alguma com a jurisdição portuguesa ; b) que ao autor não estava
vedado o acesso à~ outras jurisdições com as quais a acção estava em
contacto .
Com efeito, não se mostrava que, por qualquer dos seus elementos,
subjectivos ou objectivos, a lide tivesse qualquer ponto de contacto com
ia ju~ção p'ortu'guesa. AW pa*es eram estrangeiras ; o acto jurídico de
que 'a acção emergia, fora praticado fora de Portugal ; a obrigação não
tinha de aer'cumprida em território português ; 'a acçãõ não dizia. respeito
a bens existentes em Portugal. A simples circunstância de se encontra~
rera em porto português dois navios pertencentes à devedora não era sufi-
ciente para estabelecer um traço .de união entre a acção de dívida e a jurisdi-
ção portuguesa, pois que a acção, em si, nada tinha que ver com os navios .
Tanto quanto nos é dado conjecturar, a lide estava, pelos seus ele-
mentos, subjectivos e objectivos, em conexão com duas jurisdições-
a inglesa e ia mleRnã.. :Fede lasseverar-se que à au$dra. estava fechadiv o
acesso a essas duas jurisdições?
14 "l Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

A alemã talvez ; à inglesa não, segundo parece. 0 que se ponderava


era que a instauração dum processo na Inglaterra daria satisfação pura-
mente platónica, visto a devedora não possuir aí bens e não se poder
obter a execução, na Alemanha, de sentença inglesa favorável à autora .
É claro* que isto não era suficiente para justificar a invocação da alínea d') .
O que esta alínea exige é que se mostre a impossibilidade de propor a
acção noutro país ; o que se alegava era a impossibilidade de obter a exe-
cução de sentença que .s e obtivesse na Inglaterra .
Portanto, dos dois requisitos apontados no relatório nenhuns se vexi-
ficava. . Se realmente a acção podia ser proposta na Inglaterra, faltava
o segunde requisito ; ~,se não tainha ; conexão al'gum'a com a jurisdição pbrtu-
gueaa, como parece, faltava o primeiro,
0 caminho que estava naturalmente indicado era este : a firma inglesa
propunha a acção na Inglaterra, se a lei inglesa a isso a autorizava, justi-
ficava aí a necessidade do arresto dos navios surtos em porto português,
obtinha sentença que o declarasse e executava essa sentença em Portugal,
depois de revista e confirmada.
Resta frisar um ponto. Observou-se, no Instituto da Conferência,
que não basta a impossibilidade prática de propor a acção noutro país, é
necessária a impossibilidade jurídica. Parece-no$ preferível a doutrina
do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 30 de Junho de 1942, a
que fizemos referência . Não basta que haja grande dificuldade em propor
a acção .no país coma jurisdição doo qual a lide esto em conexão ; é necès-
sário que haja verdadeira impossibilidade. Que esta seja jurídica ou
prática., pouco Importa .

Como já assinalámos, as alíneas a) e b) do artigo 65 .*, completada


a primeira com os §§ 1 .° e 2 . 0 , é que estabelecem o regime normal de
competência'internacional dos tribunais portugueses ; as alíneas c) e d)
formulam princípios subszdiámios e extraordinários de competência, um
em homenagem ao conceito de reciprocidade, outro em obediência à razão
de necessidade.

Pode dar-se o caso de para uma determinada acção ser competente


a jurisdição portuguesa e ser, ao mesmo tempo, competente uma juris-
dição estrangeira, segundo a lei do respectivo país.
Obstará essa circunstância a que os tribunais portugueses exerçam
o seu poder jurisdicional? Poderá o tribunal português abster=se de jul-
gar se o - -réu alegar e demonstrar a competência do tribunal estrangeiro?
0 sr . Dr. Machado Vilela, que põe a questão, resolve-a em sentido
negaitivo. Concordamos inteiramente com o p~cer db ilustre professor ;
julgamos absolutamente decisivas as suas razões (Boletim, vol . 1'S .°, pág. 27) .

Execuções. Pode perguntar-se se o disposto no artigo 65 . 1 é aplicável


às execuções e em que termos .
0 problema s6 tem interesse no que respeita às execuções baseadas
em título diverso de sentença . Se o título executivo é uma sentença, não
Capítulo II-Da competência internacional 1'45

há dificuldade de solução . Ou a sentença foi proferida por tribunal por-


tuguês ou . por árbitros em Portugal, bu foi proferida por tribunal estran-
geiro ou por árbitros em país estrangeiro . No 1 .° caso não pode por-se
em dúvida a competência internacional dos tribunais portugueses para
a execuçã(> ; no 2 .° caso a decisão só pode ser .executada depois de revista
e confirmada (arts. 50 .° 'e 11 .00 .°), mas desde que obtenha a confirmação,
é claro que pode ser dada à execução em Portugal.
Quando a execução se funde em título extrajurisdicional, surge a ques-
tão : em que casos têm os tribunais portugueses competência internacional?
Uma coils'a nos parece certa : que os tribunais portugueses são compe-
tentes se a execução dever ser promovida em Portugal segundo as regras
de competência territorial do artigo 9'4.°, isto é, se o executado tiver o domi-
cílio em Portugal, tratando-se -de execução para pagamento de quantia certa,
se! a coisa se encontrar em Portugal, tratando-sé de execução para entrega
de coisa certa, se o facto houver de ser prestado em território português,
tratando--se de execução para prestação de facto, devendo ainda ter-se em
conta, subsidilàriam'ente, as disposições dos §§ 1 .° e 2 .° do artigo 94 .°
A alínea a) do artigo 6'5.°, embora fale de «acção proposta» e esta
terminologia se ajuste com mais propriedade à acção declarativa, não pode
deixar de considerar-se como uma regra comum às acções pròpriamente
ditas e às execuções (sr. Dr. Machado Vilela, Boletim cit, vol . 17'.°, pás. 517,
nota) . 'Com efeito, o artigo 65 .° é o desenvolvimento da 1 .° parte do
artigo 62.0 e este texto irysere uma disposição geral sobre competência,
o que equivale a dizer uma disposição aplicável tanto àls acções como às
execuções .
Resta saber se as outras alíneas do artigo 65 .° terão o mesmo canepo
de aplicação .
A resposta está contida no que acabamos de expor. Se o ;artigo 65 .°
formula regras de carácter geral e comum, tem de concluir~se que é lícito
aplica-las às execuções, até onde a aplicação seja possível . A alínea b)
poderá ser invocada quando a execução se basear em título exarado em
Portugal. ; 'a alínea e), quando a execução seja promovida por um portu-
guês çontra um estra:ngeirro e, em circunstâncias idênticas, o português
pudesse ser executado pelo estrangeiro nos tribunais do seu país ; a alí-
nea d), quando a execução só seja possível em Portugal .
Bera consideradas as coisas, a instauração da execução perante as
tribunais; portugueses só oferece verdadeira utilidade, só dá garantias com-
pletas quando o executado tenha em Portugal bens suficientes para, à
custa del-es, se dar satisfação ao direito do exequente . Se todo o patri-
mónio do executado estiver em país estrangeiro e não se tratar dei dívida
garantida por hipoteca constituída por terceiro sobre bens situados em
Portugal, a execução só dará resultado se o executado quiser cumprir a
obrigação ou se as jurisdições estrangeiras do''lugar da situação dos bens
derem cumprimento à;", cartas rogatórias expedidas pelo tribunal portu-
guês para -a penhora e venda dos béns do devedor . Mais prático será
então promover a execução, sendo possível, nos tribunais do país em que
se encontrem os bens .
10 = CÓDIGO DE PROCR9f30 CIVIL
14 6 Livro .l1- Da competência e das garantias cla impa~rcialídade

CAPÍTULO 111

Da competência interna

SECÇÃO I

Competência em razão da matéria

Awrioo 66 .°

(Competência do tribunal comum)

As causas que não forem atribuídas pela lei a alguma juris-


ddição especial 'são da competência do tribunal comum .

Os artigos 66 .° a 72 .° não fixam, de modo completo, a competência


interna dos tribunais comuns sob o ponto de vista da matéria, do valor e da
hierarquia . Entendeu-se que era ao Estatuto Judiciário que cumpria regu
lar esse assun o, .como de facto regula nos artigos '53 .° (Supr!e¢no Tribunal
de Justiça), 56.° (Relações), ~58 ." (juízes de direito), 76 .o (juízes¡-municipais)
e 80 .° (juízes de paz) .
No que respeita à competência interna o que se tem considê~rado
pertença do Código de Processo Civil é a fixação da competência territorial,
de que o novo Código se ocupa desenvolvidamente nos artigos 73'.° e seguin
tbes. 0 resto - competência em razão da matéria, do valor e da hieraT-
quia - é objecto próprio das leis de organização judicial, e por isso está
bem colocado no Estatuto Judiciário .
0 que se quis, com os artigos 66 .° a 72 .°, foi: traçar as linhas funda-
mentais do novo sistema de competência, em que os oonc<èito ' e .a termi-
nologia aparecem sensivelmente alterados . 0 quadro da competência
interna não ficaria compreensível se, além das disposições sobre compe-
tência territorial, o Código não inserisse algumas regras essenciais sobre
competência em razão da matéria, do valor e da hierarquia, que dessem a
conhecer o lugar que cada uma dessas espécies ocupa no novo plano -legis-
lativo.
Segundo o Código de 1876 todo o sistema de competência assentava
na distinção entre regras de competência , em razão da matéria e regras , de
competência em razão das pessoas ; era o que se depreendia do n .° 1° do
artigo 3 .° E a competência em razão da matéria abrangia não só as dis-
posições ditadas pela matéria ou objecto da . acção, como também as dita-
das pelo valor da causa e perla +hierarquia judiciária, ficando para a
competência em razão das pessoas sòmente as regras de competência
territorial.
Capítulo III- Da competência interna 147

É outro o novo sistema de competência . Do artigo 101.o se conclui


que a distinção fundamental a estabelecer agora é entre competência abso-
luta e competência relativa. A competência absoluta é a que deriva da
observância das regras de competência internacional e das regras de com-
petência interna em razão da matéria e da hierarquia ; a competência rela-
tiva é a que deriva das regras de competência em razão do valor e do
território . O tribunal tem competência absoluta se pode conhecer da
cau§a por força do artigo 6ã .o e em atenção à matéria da acção e à hierar-
quia judicial; posto que não possa conhecer dela em razão do valor ou do
território ; se o tribunal pode conhecer da causa, mesmo em atenção ao
valor e ao território, além de competência absoluta terá competência
relativa.
Adoptou-se, nas últimas revisões do Projecto, a designação «tribu-
nal de comarca», em vez de ajuízo de direito», que lhe, corresponde, por
se entender que aquela. é mais expressiva e menos equívoca.

ARTiGO 67.0
(Qual é o tribunal comum. Plenitude de jurisdição
do tribunal de comarca)

O tribunal comum é o civil. A plenitude da jurisdição civil


pertence, em primeira instância, ao tribunal de comarca,

Veja-se a anotação ao artigo 62.°


Na averiguação da competência interna aparece-nos em primeiro
lugar, como vimos, o ;problema -da determinação da espécie do tribunal,
problema que pràticamente se apresenta, assim : saber se a acção há-de
ser proposta 'no tribunal comum ou perante algum tribunal especial.
As regras de competência que nos permitem resolver este problema são
regras de competência em razão da matéria, porque é em atenção à¡ maté-
ria da lide, aio acto cu facto jurídico de que a acção emerge, que a lei
manda sujeitá-la 'ao tribunal comum ou a determinado tribunal especial .
O artigo 66.° dá-nos o critério geral de orientação para a solução do
problema. Se pertencem ao tribunal comum as causas que não forrem
atribuídas pela lei a alguma jurisdição especial segue-se que, em face
de determinada acção, o quensito a formular, por parte de quem pretenda
averiguar a espécie do tribunal, é este : haverá disposição de lei que
submeta ;a acção de que se trata à competência dalgum tribunal especial?
Se há, a acção terá de ser levada para esse tribunal ; no caso contrá-
mio, é da competência do tribunal comum . De modo que, como já notámos,
a competência do foro comum determina-se por exclusão de .partes .
São muitos e variados os tribunais especiais existentes em Portugal.
Não nos propomos apresentar o quadro completo e muito menos estudar
-a competência de cada um deles. Limitamo-nos a mencionar os seguintes :
tribunais criminais, ttibunais do contencioso administrativo, tribunais do
14 8 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade

trabalho, tribunais da infância, tribunais do contencioso das contribui(c~es


e impostos, tribunais das execuções fiscais, capitanias dos portos, direcção
geral do comércio e indústria (propriedade industrial), contencioso técnico
aduaneiro .
O tribunal comum é o tribunal civil, constituído pelos seguintes graus
hierárquicos de- jurisdição :
a) Supremo Tribunal de Justiça ;
b) Relações ;
c,) , Tribunais de comarca ;
d) Tribunais municipais.
Veja-se a anotação ao artigo 115 .°
G artigo 116 .° da Constituição Política classifica os tribunais em
ordinários e especiais ; e depois de mencionar os três graus normais de
jurisdição (Supremo Tribunal de Justiça, tribunais de 2 ." instância tri
bunais de 1 ." instância nas comarcas) acrescenta que pode a lei admitir
juízas municipais de competência limitada, em julgados compreendidos nas
comarcas, e que são mantidos os juízos de paz .
Como se vê, os tribunais ordinários, de que fala a Constituição,
correspondem ao's tribunais comuns a que se referem os artigos 66 .° e'67 ."
cio Código . A expressão. «tribunal comum» pareceu preferível à expressão
«tribunais ordinários» . Desde que esta classe de tribunais se contrapõe à
dos tribunais especiais, a designação «tribunal comum» tem a vantagem
de exprimir com mais nitidez a ideia de jurisdição-regra, destinada a
operar em confronto com as jurisdições-excepcionais, isto é, a conhecer
da massa geral das causas, de todas aquelas que, por disposição expressa.
d e lei, não entrem na esfera de competência dalgum tribunal especial .

Chiovenda, seguindo na esteira de alguns escritores alemães, como


Wach Kohler e Hellwig, sustentou na Itália a doutrina'de que o poder
jurisdicional do tribunal comum é de natureza diversa do dos tribunais
especiais : a capacidade jurisdicional dos tribunais comuns é plena e ilimi,
tada, o que sofre limites é a sua capacidade de exercício ; pelo contrário, .
os limites postos pela lei à actividade dos tribunais especiais não . são
únicamente limites de exercício, são limites de poder ou de capacidade
potencial .
Quer dizer, o tribunal comum, . considerado no conjunto, dos seus
órgãos, tem a plenitude da jurisdição, tem capacidade de gozo ou capaci-
dade potencial para conhecer de todas as causas, embora a sua capacidade
de exercício sofra restrições e limiteis, em consequência da instituição de
tribunais especiais ; quanto aos tribunais especiais, a capacidade de gozo
ou potencial coincide com a capacidade de exercício, a sua jurisdição con-
fundese com a 5ua competência : não têm poder jurisdicional senão a
respeito das causas que a lei submete ao seu conhecimento .
Esta diversidade de poder jurisdicional traduz~ numa consequência
prática importante : se o tribunal comum exorbitar, conhecendo de causa
que está fora da sua competência, porque é atribuída por lei ~a um tribu
nal especial, estamos em presença dpma incompetência em razão da mate-
Capitulo III -Da competência interna 14'9

ria; se o excesso for cometido por um tribunal especial, isto é, se- este
conhecer , de causa que pertence a outro tribunal especial ou ao tribunal
comum, estamos em face duma falta absoluta, de jurisdição . Daí vem geie
no 1 .° caso, se a incompetência não for suscitada e declarada enquanto a
acção estiver pendente, e o tribunal comum proferir sentença sobre o mérito
da causa, esta sentença, uma vez transitada em julgado, tem o,, mesmo
valor e eficácia que se fosse proferida pelo tribunal competente ; ao -passo
,que no 2 .° caso* a .sentença proferida sobre o mérito da causa pelo tribunal
especial incompetente não tem que ser acatada fora do processo : ainda
que transite em julgado, não obsta a que a lide seja novamente proposta
perante, o tribunal competente nem a que o executado deduza embargos à
execução que nela se fundar .
Já noutro lugar manifestámos a nossa discordância de tal doutrina
("Processo ordinário, 2.' ed ., págs . 563 e 564) . Aqui limitar-nos-emos a
apreciar se pode aceitar-se, em face do sistema do Código, a diversidade
de consequências -da sentença transitada em julgado quando proferida . por
tribunal incompetente, conforme emana do tribunal comum ou do tribunal
especial .
Parece-nos que não . Quando um tribunal conhece de causa que, pela
,sua natureza ou matéria, é dá competência de outro tribunal, o que, segundo
L disciplina do Código, sé verifica sempre é uma incompetência, em razão
da matéria . Que o excesso seja cometido pelo tribunal comum, ou pelo
tribuna especial, é indiferente ; a consequência é a mesma : incompetência
absoluta, por infracção de regras de competência em razão da matéria
(art . 10 .1 .", conjugado com os arts. 62 .° e ,06 .o) . Ora a incompetência absoluta
pode ser arguida pelas partes e deve ser suscitada oficiosamente pelo tri-
bunal enquanto não .se formàr o caso julgado (art. 102 .*) ; logo que haja
sentença, com trânsito em julgado, sobre o fundo da causa, a incompe-
tência absoluta perde a sua nocividade : nem pode ser alegada como funda-
raento de embargos à execução fundada na ; sentença (art . 813.°), nem é
motivo legítimo do recurso de revisão (art. 771 .°) .
Por outro lado, a incompetência absoluta do, tribunal que proferiu a
sentença ., não obsta a que ela, depois de transitarem julgado, produza os
efeitos que lhe são atribuídos nos artigos 671 .° e seguintes .
Dir-se-á : o Código teve presente, não o caso de sentença proferida
por tribunal especial fora dos limites da sua competência, mas o caso
de aentença proferida por tribunal civil incompetente em razão da
matéria .
A objecção não procede . Se a falta absoluta de jurisdição devesse
produzir as consequências apontadas 'por Chiovenda, essas consequências
haviam de sentir-se banto no caso de um tribunal especial conhecer de
matéria estranha à sua competência, como no caso de a jurisdição nacio-
nal se exercer sobre causas pertencentes a uma jurisdição estrangeira .
A incompetência absoluta por infracção das regras de competência inter-
nacional não é menos grave -do que a incompetência absoluta. por infrac-
ção das regras de competência em razão da matéria, mesmo quando
,esta infracção é cometida. por um tribunal especial ; e o que acabamos de
150 Livro II- Da competênezca e das garantias da imparcialidade

expor a respeito do regime da incompetência absoluta ;segundo o Código.


aplica-se, sem dúvida alguma, aio caso de sentença proferida por tribunas
portugueses com viollação das regras de competência internacional.

Tribunais comuns. Como dissemos, no juízo comum há três, graus.


normais de jurisdição : a) Supremo Tribunal de Justiça ; b) Relações ;
(!) tribunais de comarca. A plenitude da jurisdição civil- p~ce, em-
L« instância, ao tribunal de. comarca (art. 67.1) .
Podre parecer, à primeira vista, que há colisão entre o artigo 67.0 e
os artigos 66.° e 69.*; mas não há, ná realidade. Não se atri~trui ao tribu--
na] db carnarca a plenitude da jurisdição em 1.1 instância ; atribui-se-lhe
a plenitude da jurisdição civil, isto é, competência paria. julgar todas as
causas civis, e nesta expressão se abrangem todas as causas que não , são
da competência de tribunais especiais . Fica, assim salvaguardada a regra-
do artigo 66.°
Por outro lado, embora o artigo 69.° dê a entender que, havendo tri-
bunais inferiores, o tribunal de comarca só conhece das causas de valor
superior ao limite marcado à competência daqueles tribunais, a verdade
é que todos os tribunais de comarca têm competência em razão da matéria
para conhecer -das causas cíveis, 'seja qual for o valor delas. O que sucede
e que, havendo tribunais municipais, as causas até certo valor que se
locallizen na área dois julgados municipais, hão-de olor prIopostas perante-
o tribunal municipal, como se explicará em nata ao artigo 69.'

Algumas decisões sobre delimitação . entre a competência dos tri-


bunais comuns e a dos_ tribunais especiais :
- É no tribunal comum, e não no tribunal especial das execuções
fiscais, que deve promover-se ias execução por dívida proveniente da arre-
rnatação de impostos municipais, acórdão do Supremo Tribunal de Jus-
tirça, de 4 de Fevereiro de 1941, Revista de Justiça, ano 26.°, pág .. 110-;
- São da competência do foro administrativo as acções em que se
pede ao Estado indemnização de prejuízos, causados pelos factos ilícitos
dos seus funcionários no exercício da fúnção, acórdão do Supremo Tri
bímal de Justiça, de 24 de Outubro de -1941; Revista de Legislação, ano 74.',
pág . 345 ;
-- ÉE no tribunal comum que deve propor-se a acção -destinada a decla-
ra :r sem efeito o acta pelo qual o chefe de lima Secção de Finanças
reconheceu, numa arrematação feita segundo 'as leis de desamortização, o
direito de preferência a determinada pessoa, acórdão, da Relação do Porto,
de 9 de Julho de 1941, Revista dos Tribunais, ano 59°, pág . 220 . Este acór-
dão foi revogado pelo Supremo. TribunIal de Justiça, em acórdão de 22
de Abril de 1942, no qual se decidiu que os- tribunais comuns, são absoluta-
mente incompetentes para conhecer do direito de preferência na hipótese
referida e que do acto do funcionário cabe, recurso hierárquico para o
Ministro das Finanças (Rev. dos Trib., ano 60.°, pág. 108) ;
--Se em consequência do desabamento de um prédio morreu um,
trabalhador que prestava serviço a duas empresas instaladas no pavimenta
Capítulo III- Da competência interna 151

inferior, trata-se de acidente de trabalho, da competência dos tribunais db


trabalho ; mas o tribunal comum tem competência para aprreciar a respon-
sabilidade de terceiros estranhos ao contrato de trabalho, visto não se,
tratar de homicídio voluntário, caso em que a competência pertenceria ao
juízo criminal, acórdão do Skapremo Tribunal de Justiça, de 5 de Jiunho.
de 1941, Revista das Srribunais, ano 6'1 .°, pág. 85 ;
- :É: ao juiz do processo em que foi arrematado um prédo, e não ao,
tribunal das execuções fiscais, que compete apreciar se está prescrita a.
sisa devida pela arrematação, desde que o arrematante alegue a pres
crição e requeira que ela se declare, acórdão,da Relação do Porto, de 31
de Outubro do 1942, Revista dos Tribunais, ano 6U.°, pág . 351 ;
- 0 artigo 2273.° do Código Civil, na nova redacção do De~
n.° 19 :12,6, não alterou o disposto nos artigos 29.0 e seguintes do Código
de Processo Penal ; e 'assim o tribunal civil é incompetente pára conhecer
da respon'sab'ilidade civil emergente de um crime pelo qual se promoveu
procedimento criminal, acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 14
de Maio de 1943, Revista de Legislação, ano 76.°, pág . 134 ;
- 0 tribunal comum é competente para a acção em que se pede a
anulação de arrematação realizada no juízo Idas execuções fiscais, acórdão
da Relação de Lisboa, de 22 de Maio de 194'3, Revista de Justiça, ano 28.',
pág. 263 .
SE:CÇA0. II

Competência em razão do valor

ARTIGo 68 .°

(Competência dos tribunais inferiores)

,Os tribunais inferiores conhecem das causas que a lei


submete à sua jurisdição, até ao limite de valor expressamente
esignado .
ARTIGO 69 .°

;(Competência do tribunal de comarca em razão do valor)

O tribunal de comarca connece de todas as causas, seja


qual 'for o valor, quando não haja tribunais inferiores, e das que
excederem o valor marcado como limite à competência destes,
quando os haja.
O § 1.° do artigo 116.° da Constituição declara que a lei pode admitir
juízes ariunicipaiá de competência limitada, em julgados compreendidos
nas comarcas . Ao tempo em que a Constituição foi promulgada, existiam
152 Livro II --Da competência e das garantias da imparcialidade

efectivamente, nalgumas comarcas, juizes municipais, de competência


limitada quer quanto ao valor, quer quanto à matéria das causas . Foram
criados pelo Decreto n .° .19 :578, de 11 de Abril de 1931, substituído, depois
pelo Decreto n .° 19 :900, -de 1'f7 de Junho de 1931, em todas os concelhos,
sedes das comarcas extintas pelo Decreto n.o 13 :917, podendo ser criados
noutros onde as necessidades de serviço o exigissem (art . 1 .° do Dec .
n .° 19 :100) . Ficaram existindo assim 48 tribunais municipais.
A organização e competência dos tribunais municipais acham-se
actualmente reguladas no Estatuto Judiciário (Dec . n .° 33 :547) .
Sob o ponto de vista do valor, a competência do tribunal municipal
é limitada pela quantia de 6 .000,$00 : preparam e julgam, em matéria cível,
todas as acções e seus incidentes de valor não, excedente a 6 :000$00,
conhecem das execuções fundadas em sentença do tribunal municipal e,
além destas, idas fundadas nos outros títulos quando o valor não exce-
der 6 .00'0$00, intervêm em todos os actos e termos dois processos de
inventário quando o valor deste não seja superior ~a 6 .0001$00 (Estatuto
Jud ., art . 76 .0, alínea a), n .°s 1 .°, 2 .° e Os inventários de valor superior
a 6 .000$00 correm no tribunal municipal até ,ao fim da licitação, devendo
em seguida ser remetidos ao respectivo tribunal -da comarca para aí segui-
rem os termos ulteriores '(Estatuto art, 76'.°, § 2 .°) .
Sob o ponto de vista da matéria, a lei exclui da competência dos
juízes municipais várias causas, tais como 'a cuY/adoria definitiva dos bens
dos ausentes a interdição, as acções sobre o estado das ~soas, etc .
QEs~atuto, art. 76.°, § 1 .°) .
Além dos juízes municipais há ~ainda, no continente e ilhas adia-
centejs, os juízes, de paz, mantidos pelo 1 § 2 .° do artigo, 116 .° da Constituição,
e cujas atribuições se acham designadas no artigo 8'0.° do Estatuto Judi
ciário . Mas a existência lie juízes de paz não limita a competência dos
tribunais de comarca, porque aqueles juízes não têm hoje competência
contenciosa, :poder jurisdicional pròpriamente dito .

Nas comarcas em que haja julgados municipais, o tribunal de comarca


Iscí conhece das causas que excied~erem o valor marcado, como limite 'à com-
petência ido tribunal municipal (art. 6'9 .°) . Há que entender esta afirmação
em termos convenientes .
A área territorial dois julgados nunca absorve nem coincide com a
área territorial das comarcas. Mesmo nas comarcas em que há vários
julgados municipais, algum, ou alguns concelhos ficam sempre fora do
âmbito doas julgados, o que significa que há na comarca uma cera zona
de território onde não chega a jurisdição de qualquer tribunal municipal .
Sendo assim, é claro que, em relação às causas que se localizem nessa
zcna,, a competência do tribunal da comarca não está limitada pela com-
petência. da tribunal municipal .
Exemplifiquemos . Na área da comarca -de Coimbra existem três julga-
dos municipais : Condeixa, Penacova ~e Montemor-o-Velho . O 1 .' abrange
as freguesias de Anobra, Belide Bendafé, Condeixa-a-Nova, Condeixa-a
-Velha, Ega, Furadouro, S'ebal, Vila Seca e Zambujal ; o 2 .o compreende
Capítulo III-Da competência interna 15 3

as freguesias de Carvalho, Figueira de Lorvão, Friumes, Lorvão, Oliveira


do Mondego, Paradela,, Penacova, S . Paio de Farinha Podre, S . Pedro de'
Alva, Sazes de Lorvão e Travanca ; o 3 .°, as freguesias de Carapinheira,
Meãs, Pereira, Santo Varão, Tentúga~l, etc . Mas ficam fora da zona dos
três julgados as freguesias de Almálaguez, Ameal Antanhol, Antuzede,
Arzila, Assafarge, Botão, Brasfemes C' astelo Viegas, Ceira, Cernache,
Eiras, Lamarosa, Rffiei'ra de'Frades, Santa Clara, Santa Cruz, Santo Antó-
nio dos Olivais, S . Bartolomeeu, S . João do Campo, S . Martinho de Arvore,
S . Martinho ,do Bispo, S, Paulo de Frade,, S . Silvestre, Sé Nova, Sé Velha,
Sous!elas, Taveiro, Torre de Vilela, Torres do Mondego, Trouxemil e Vil
de Matos .
De modo que, quanto às freguesias abrangidas pelos três julgados,
o poder jurisdicional reparte-+se entre o tribunal de comarca e o tribunal
municipal 'e reparte-se segundo a valor das causas ; quanta às freguesias
gize ficam fora doas árelas dos j'ulgado's, só o tribunial da comarca exerce
jurisdição, por mais pequeno que seja o valor da cauisa .
Que concluir daqui?
A conclusão a tirar é a seguinte : se se propuser perante o tribunal
municipal de Condeixa, de Denacova ou de Montemos uma acção do valor
d", mais de (seis contos, verificas° uma incompetência em razão do valor,
visto que e~si tribunais só podem conhecer de causais até ao valor
de 6 .000$00 ; mas se se propuser, perante o tribunal da comarca de Coim-
bra, uma acção de valor inferior a 6 .000'$0,0, que devia propor-se perante
o tribunal municipal de Condi por exemplo, á incompetência não é
era razão -do valor, só pode ser em razão do território .
Com efeito, desde que o tribunal da cormaca de Coimbra tara dompe-
tência, como vimos, para conhecer de -acções civis, seja qual for o valor,
a competência do tribunal municipal die Cdndeixa' e! a incompetência do
tribunal da comarca de Coimbra só podem provir da circunstância de a
acção se achar localizada nalguma das fr'eguesi'as do julgado, em vez de
se sachar localizada numa freguesia da comarca não compreendida nas
áreas dos julgados. Se para a causa é competente o tribunal municipal
de C'ondeixa, e não o tribunal 'da comarca de Cloimbra, a razão há-de ser
nocessàr eamente deste teor : o réu tem o seu dbmicílio em Ço,ndeixa ou
nalguma das fre--rlasias do julgado e a acção está sujeita à regra de com-
petência do artigo 8'5 .°, os cens esta". -situados' na freguesia de, Anobra,
por! exemplo, e 'a rega -de competência a aplicar é a -do 'artigo, 73 .°, a
horança abriu-se na freguesia de Bendafé e trata-se de causa sujeita alo
preceito do, 'artigo 77 .", etc .
quer dizer, se o tribunal da comarca de Coimbra pretere o' tri-
bunall mu.nicipa'1 de Condeixa o fundamento há-de ser forçosamente de
carácter territorial, há-de estar nalguma das disposições dos artigos 73 .°
:e seguintes .
Se assim é, a proposição da acção perante o tribunal' 'de ciomarca,-
dUvendo sê-lo perante o tribunal municipal, traduz-se na infracção, 'de uma
regra de competência territorial, pelo que a incompetência cometida é
em razão do território e não em razão do valor .
15 4 Livro II - Da oompetêncià e das garantias da imparcialidade

Sob o ponto de vista prático o erro de classificação da incompetência


a que aludimos, não bem consequências ; que :se, considere em razão do
valor ou em razão do território, o resultado é ó -mesmo, visto que o regime
é igual : traba.se sempre de incompetência relativa, a que ce aplicam ask
regras dos artigos 108 .° e seguintes .
Há que ter em conta; agora o dibposto no § 3 .° do artigo 76 .° do novo
Estatuto Judiciário . Determina-se aí que as causas com processo sumário
ou sumarí&simo de valor não excedente á 6 .000$00 poderão ser também
preparadús e julgiada; pelo juiz de direáto da respectiva comarca sie o réu,
na contestação, se não opuser ; no caso contrário, a ~'sa será remetida
ao tribunal municipal para este a preparar e julgar .
Esta disposíção vem confirmar o que fica exposto : os juízes de direito.
podem conhecer de acções do valor de 6 .000$00 e de valor inferior a esta
quantia, mesmo quando a acção devesse correr no tribunal municipal ;
para tanto bata que (a causa seja proposta no tribunal de comarca e que
o réu se não oponha.

Nas colónias há duas magistraturas inferiomes : a) os juízes muni-


cipais oiu juízes inistrutones, que funcionam nos julgados que não forrem
sede de comarca ; b) e os juízes populares, que funcionam nas freguesias
(Organização judiciária das colónias, aprovada pelo Dec . n .° 14 :453,
de 20-10 .-927, arts. 44 .° e',50.°) . Os primeiros preparam e julgam as acções:
até ao valor de' 1 .000$00, ou 20 libras, ou 300 rupiias ou patacas, que não
:forem da competência dos juízes populares (Oxg . jud . cit ., art. 77,°,i n .° 5 .°),
podendo porém criar-se juízes municipais de mais lata competência,
quando ias circunstâncias 'sociais e económicas o justifiquem (Org . jud .
cit ., art ;. M °)' . Os 'segundos julgam ex aequo et boro e sumà'ri'am~ente as.
causas cíveis sobre bens mobiliários ou sabre dano até o valor de 100$00,
4$'50 (ouro) e 15 rup'ias ou patacas (Dec . n.° 17 :880, de 15-1,°-930, are . 8 .°) . .

SECÇAO III

Competência em razão da hierarquia

AltTiao 70 .°

,'Competência do tribunal de comarca em razão da hierarquia)

Os tribunais de comarca conhecem dos. recursos interpos-


tos dos tribunais inferiores, dos notários, dos conservadores do
registo e de outros que por lei devam ser para eles interpostos ;
julgam as acções de perdas :e danos propos'tas, por virtude do
exercício das suas funções, contra os tribunais inferiores e
magistrados do Ministério Público junto deles e contra os
Capítulo III-Da competência interna 1'55

funcionários judiciais da respectiva comarca ; e resolvem


os conflitos de competência entre as autoridades judiciais da
comarca .

Regula-se a competência do tribunal de comaroa em razão da hierar-


quia. Tal competência, diz respeito a recursos acções contra magistrados
ou funcionários fie tribunais inferiores, e conflitos de competência.
Re<-ursos . Os 'tribunais de comarca conhecem dos recursos interpos-
tcosdos tribunais inferiorels, dos- notários, dos conservadores do registo e
de outros que -por lei d:évam ser parra eles interpostas (Est. Jud ., art. 58.°,.
alínea a), n.°s '5. , e 7.°) .
Há `aqui duas espécies distintas de recursos : a) o recurso de deci-
sêée proferidas por tribunais inferioiies ; b) b recurso de recusa -de actos
por parte de dcterrnihadós 'funcionários . O primeiro é que tear verdadeira
m~ o carácter de um acto juriãdicional, de um acto de jurisdição con-
tencib= ;; o segundo al)roxianarise mais dos actos de jurisdição voluntária.
No continente e ilhas adjacentel3 os únicos recursos de tribunais infe-
riores que sobem ao trribunal de comarca são os recursos interpo~ dos
juízas municipais, E nem todos. O artigo 9.° do Decreto n., 19:900, de 18
de Junho de 1931, depois de afirmar que os juízos municipais não têm
alçada, acrescentava: «dias suas decisões recorre-se para o juiz de direito,
se a causa cabe na alçada deste juizo, e para a Relação em ,casa contrário».
P<irritm.nto o recurso do tribuná1 municipal tinha de ser,' interposto para
o tribunal de comarca ou para a Relação, conforme o valer da causa fosse
até- 5.000$00 ou excedesse esta quantia.
Discutiu-se, há pouco, se devia ser interposto para a Relação ou para
o tribunal de comarca o recurso de apelação de uma sentença de tribunal
municipal que decretara o despejo de prédio urbano em acção de valor
arte '5.000$00. O Supremo Tribunal de Justiça decidiu, em acórdãos de 4
de Dezeaxibro de 1942 e 19 de F'everei'ro de 194'3 (Boletim Oficial, ano 2.°,.
pág. 347, amo 3.0, pág. 41), que o recurso. era da competência da Relação ;
e ~ sentido se pronunciaram também a Revista de Justiça, ano 28f,
págs. 52 e 114, e a Revista de Legislação, ano, 75.°, pág. 40'8. O juiz da
2." vara de Coimbra, sr . Dr. Campos de Carvalho, sustentou - vigorosa-
mente a tese oposta : que o recurso era da competência do tribunal de
comarca (Rev. de Leg, ano 7'5 .°, pág. 405) . Parece-nos que a solução exacta
era a primeira . Deãda que, por força do artigo 5.° do Decreto n, 10 :774,.
cabe recurèo até ao Supremo, 'seja qual for o valor da causa, das decisões
que decrkvtar&n io despejo de prédio urbano, nada importa que o valor da
acção não exceda 5.000$00 : para o efeito de recursos tudo se passa como
se a acção fosse de valor su~ibr a 20.000$00 .
0 artigo 9.1 do Decreto n.° 19:900 devia ser interpretado como se; ent
vez de dizer ase a causa éabe na 'alçada deste juízo, di's,sesse «se a maté-
ria, ou o objecto do recurso cabe na alçada deste juízo». O que importa
considerar é a, questão especial sobre que vema o recurso e-não o valor dia.
causa em que essa questão surge. E assim, se numa causa do valor
L )6 Lauro II- Da competência e das garantias (Ia imparcialidade

de 6.000$00 proposta no tribunal municipal se quiser interpor um recurso


com o fundamento de incompetência absoluta do tribunal ou de ofensa de
caso julgado, o recurso há-de ser interposto para a Relação, e nãoì para
e, tribunal de comarca visto que qualquer dessas questões excede a alc;ada
do tribunal de comarca (art . 678.°) .
É o que exprestsamente se declara hoje no artigo 77 .° do Estatuto
.Judiciário .
0 artigo 129.° do Decreto n." 21 :287 tinha determinado que não havia
recurs.o algum da decisão do juiz proferida em acção de processo suma-
ríssimo; parece que esta terminante disposição abrangia o juiz municipal,
,constituindo portanto; nesta
parte, uma modificação ao artigo 9." do
D-ctcreto n.° 19 :900. Mais o Decreto .n." 21 :287 está revogado, doe sorte que
hoje há recurso mesmo em processo suma'ríssimo, das decisões proferidas
polo tribunal municipal.

Recursos dos notários 'e, outros funcionários. Os notários são obri-


gados a prestar a sua intervenção em todos os acitds legais da sua compe-
tínèia para que forem rogados, iras devem recusá-la quando se verificar
algum dos easos previgto's no artigo '220 .,, do Código do Notariado (Dec .
n..° 26 :118, doe 24-11 .'-935) .
Se o notário se recusar a praticar acto para que seja solicitado, deve
dar ao interessado, dentro -de 4'8 horas, sendo-lhe pedida, exposição espe-
cificada dos motivos da recusa (Cód, do Notariado, art. 221.°, Cód, de Proc .
Civ., art. 1082 .°) ; com base nesdia exposição pode o. interessado recorrer,
ni,,s 20 dias seguintes, para o tribunal -da respectiva comarca ou vara cível,
observando os termas cios artigos 108'2:° e 1083 .° do Código de Processo
Civil. 0 juiz, se entender que as motivos alegados pelo notário procedem,
mantém a recusa ; se entender o contrário , manda praticar o acto . Da 5en-
tença do tribunal de comarca cabe recurso de agravo para a Relação e do
acórdão desta cabe sempre agravo para o Supremo (art, 1084 .°) .
0 que acaba de dizer-se a respeito da recusa dos notários tem apli-
cacção à recusa dos conservadores do registo predial, do registo comercial
e do registo civil e do ~director do arquivo die identificação. Se o- conser
vador recusar o registo ou o director do arquivo recusar o acto, da sua
recusa, cabe recurso para o respectivo tribunal de comarca, nos termos
artigo 253.° do Código do Regisba Predial, dos artigos 68 .° ~a 70L' do reg.
do registo comercial e do artigo 439.° do Código do Registo Civil.
0 recurso segue igualmente os trâmites dos artigos 1082 .o e 1083 .0 do
fadigo de Processo Civil.
Pelo que respeita 'aos co'n'servadores do registo predial, o tribunal
de comarca item competência para conhecer dos recursos interpostos não
só das suas recusas, mas também dias suas dúvidas em fazer o registos
definitiva ou 'em rectificar amas -db registo (arts. 1086 .° e 1088.°) .

0 tribunal dia. comarca, ~de Lisboa tem também competência para


<,"onhecer dos recu,rsds interpostos em matéria de propriedade industrial .
])os despachos ~do direc'bar geral do comércio que concedam ou recusem
Capítulo III-Do, coinpetência .interna 15 7

as patentes, depósitos e registos, cabe recurso para aquele tribunal ;


da sentença deste cabe apelação paia a Relação de Lisboa e do acórdão,
da Relação compete recurso palia o Supremo Tribunal de Justiça (Cód. da
Propriedade Industrial aprovado pelo Dec . n .° 30 :679, de 24-8.-9'40,
arts. 203 ." e 209 .°) .
A estes recursos não são aplicáveis os artigos 1082 .° e seguintes
do Código de Processo Civil ; os seus trâmites estão - regulados nos arti-
gos 205 .' 'e seguintes do Código dia Propriedade Industrial .

Acções de perdas e danos. Compete aos tribunais ,cLe comarca julgar-


as acções de perdas e danos propostas, por virtude do exercício das suas
funções, contra os tribunais inferiores e magistrados do Ministério Público
junto deleis e contra os funcionários jud'iciafis da respectiva comarca (Est .
Jud ., art. 58 .°, 'alínea a), n .° 4 .°) .
É requisito essencial desta regra de competência em razão da hierar-
quia, que a indemnização -de perdas e danos pedida na acção tenha por
causa o exercício da função, isto é, que o pedido proceda de acto ou facto
praticado pelo réu no exercício das * suas funções ; só neiste caso é que
opera o princípio da hic>.rarlquia . Se as per'd'as e danos derivarem de acto
ou facto estranho à função, hão-d.e observar-se as disposições ordinárias
de competência . E assiro, se um juiz municipal, um agente da Ministério, .
um chefe de -secção ;atropelar alguém com automóvel e lhe causar prejuízos,.
a vitima, querendo propor acção de indemnização há-de propô-l .o, perante
o juiz cível da comarca em que o desastre ocorreu (Cód . da Estrada,
art . 113.°),isto é, perante o tribunal normalmente competente .
Poderá suscitar-se esta dúvida : e se o condutor do carro ia praticar-
qualquer acto ou diligência judicial? Suponhamos que o atropçl'amento
teve lugar quando o magistrado ia inspeccionar o 'local da questão ou pre
sidi.r a uma vistoria, ou quando o chefe de secção ia efectuar uma citação,.
um arresto, etc. ; poderá entender-se que a acção tem por origem um facto
praticado no exercício da função?
Cremais que não . A lei quer que . entre o dano e a função ~aj'a.
relação de: causalidade, ou por outras palavras, que o acto de que emerge-
o dano seja auto próprio dla função, acto praticado no exercício ~;
na hipótese figurada o facto 'ilícito teria sido praticado 'fora do exercício
dia função, posto que tivesse alguma relação com esse exercício, relação de
mera cont,qu~ : o nexo entre o dano e a função não é causal, é ocasional.
A expressào «tribunais inferiores» vale aqui -o mesmo que «magis-
trados judiciais inferiores» ; e estes magistradas são, no continente 'e ilhas, os
juízes mualicip'ais e os juízes de paz . Os magistrados do Ministério Público
a que o artigb se refere são .os sub-d'ekgados do Procurador da República..
que funcionara junto do tribunna1 munici'pa1 .(Dec. n .° 19 :900, art. 3 .*) .
A responsabilidade civil par perdas e danos. em consequência do exer-
cício, dia função achasse definida, quanto-aos juízes e magistrados do M,inis.-
tér'io Público, no 'artigo 1089 .° Respondem por perdas e danos, diz o artigo,-.
1 : Quando tiverem sido condenados por crime de peita-, suborno,.
concuèaão ou prevaricação;
1,38 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

2 .° Nos casos de dolo ;


3 .° Quando a lei lhes impuser expressamente essa responsabilidade ;
4.° Quando denegarem justiça .
Em princípio, os juízes são irresponsáveis nos seus julgamentos
(Constituição, art . 1'20 .° ; Cód . Civ., art . 2401 . 1 ) . Esta irresponsabilidade
funda-se numa razão psicológica e numa razão jurídica. Razão psicoló
gica : a nece'ssidad'e de garanltir o exercício tranquilo da função, de libertar
o magistrado da inquietaçã+a a que o sujeitaria o receio de perseguições
judiciaits p .rovbcadas pelos julgamentos proferidos. Razão jurídica : o prin-
cípio de que o juiz julga segundo a sua consciência .
Mas a regra da irresponsabilidade admite excepções, como o
artigo 120 .° da Constituição reconhece. Essas excepções estão hoje espe-
cifi'cad'as no artigo 1089 .° do Código de Processo .
O processo a aplicar no julgamento destas acções de perdas e -danos
é o estaMecïdo nos artigos 7 .091 .° e seguintes.

Os funcionários judiciais da comarca 'abrangidos pelo artigo 70 .0 são


não ~só as que exercem o cargo junto do tribunal de comarca, como tam-
bém ~os que o exercem junto dois tribunais municipais e junto dos juízes
de paz que pertencerem à comarca. Convém frisar que só ficam sujeitos
à jurisdiçãr> hierárquica do tribunal de comarca os funcionários do tribunal
municipal cuja sede esteja compreendida na área da comarca ; e a mesma
observação tem cabimento a respeito dos juízes municipais.
Expliquemos o nosso pensamento . Dentro 'd'a área. da. comarca de
Coimbra há, como já notámos freguesias que pertencem ao julgado muni-
cipal de Montemor-o-Velho, outras ao julgado de Condeixa e outras ao
julgado de Penacova ; não 'se segue daí que o tribunal da comarca de
Coimbra exerça a jurisdição hierárquica do artigo 70.° sobre os magis-
tradois e funcionários desses três julgados. Exerce-a na verdade, sobre
os magistrados e funcionários dos julgados -de Condeixa e Penacova, por-
que estes julgados, tendo a sede em Condeixa e Penacova, freguesias com-
preendidas na área da comarca de Coimbra, pertencem 'a esta comarca ;
não a exerce sobre os funcionários e magistrados, db julgado de Monteihor,
porque este julgado pertence, trela sua sede, à comarca da. Figueira da Foz .

Nas colónias os juízes de direito conhecem das acções de perdas, e


danas contra os juízes inferiores (juízes municipais ou instrutores e juízes
populares), representantes do Mirüstério Público junto deles e contra os
oficiais de justiça e outros empregadbis ,da comarca (Org. Jud. das colónias,
art. 71 .°, n .° 7 . 1 ) .

Conflitos de competência. Os tribunais de comarca resolvem os con-


flitos de competência entre as autoridades judiciais da comarca. Isto equi-
vale a dizer, quanto ao continente e ilhas : os conflitos de competência
entre tribunais municipais pertencentes à comarca, visto, que os juízes de
paz não atêm hoje competência contenciosa . Nas colónias é que os juízes
de direito resolvem os conflitos de jurisdição e competência não só entre
Capítulo III-Da competência interna 15 9

juízes municipais ou instrutores, mas ainda entre qualquer destes e os


juízes populares, assim como os que se levantarem somente entre juízes
populares (Org. Jud . das colónias, aft. 71.°, n.° 12.°) .
O adligo 115.° estabelece o conceito de conflito- de competência.
Dá-se quando dois qu mais tribunais da mesma espécie se consideram
competentes (conflito positivo) ou incompetentes (conflito negativo) para
conhecer da mesma questão . A espécie que nos interessa considerar é
a civil.
Qu'ando dois ou mais tribunais civis estão em conflito sobre uma
questão de competência, o confllito é resolvi-do pelo tribunal de menor
categoria que exercer jurisdição sobre todas ais autoridades cai conflito
(art. 116.') . Os artigos 70.0, 71.' e 72.° fazem a aplicação deste princípio .
Assim é. que para. a solução do conflito ser deferida ao tribunal doe cromares
é condâcão essencial que o.s juízes municipais em conflito pertençam à
-mesma comarca ; se pertencerem a comarcas diversas, mas ao mesmo dis-
trito judicial, a solução do conflito compete â Relação respectiva (art. 71.°,
alínea c» ; se peribencerem não :só -a comarcas diversas mas até a distrito
juudiéial diferente, sé o, Supremo pode decidir o conflito (art. 72,°, alínea c)) .

Quando sé infrinja o di'spoosto no artigo 70.°, comete-se urna incom-


petëncia em razão da hierarquia, que o artigo 101 .° submete à diociplina
da incompetência absoluta do tribunal . Ror isso, se um recurso die um
notário ou -de um conservador do registo for interposto, não para o tri-
bunal d.e comarca, mas para o tribunal municipal ou pana, a Relação,
verifica--se uma incompetência absoluta.
E se o recurso for interposto para um tribunal de comarca diverso
do competente? ,Suponhamos que de unia decisão do tribunal municipal
de Concfeixa ase recorre, não para o tribunal da comarca a que pertence
o julgado de Condeixa (Coimbra), mas para o tribunal dia comarca de Soume
ou de Pombal. Quid júris?
Neste caso a incompetência é relativa.
Violou-se a regra de competência do artigo 87.° ; ora, esta regra é de
competência territorial e a infracção dais regras de competência desta
índole produz a incompetência relativa (art. 108.°) .

ARTiGO 71 .°
(Competência das Relações)

As Relações conhecem dos recursos e das causas que por


lei sejam ~da sua compètência, e nomeadamente :
a) Dos recursos interpostos dos tribunais de comarca ;
b) Das acções de perdas -e danos propostas, por causa
do exercício das suas funções, contra os juizes de direito e
respectivos magistrados d<) Ministério Público ;
160 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

c) Dos conflitos de compet-cncia entre tribunais perten-


centes a comarcas diversas, mas ao mesmo distrito judicial ;
d) Da revisão de sentenças proferidas por tribunais ou
árbitros estrangeiros.

Não se regula neste artigo, de modo completo, a competência das


Relações 'em vazão da hierarquia. A matéria tem o seu assento próprio
no Estatuto Judiciáxio, artigo 56 .0 Aqui só se faz menção dos assuntos
mais importantes.
Recctirsos . Conhecem dos recursos interpostas dos tribunais de
comarca . Nas causas de valor superior à alçada do tribunal de comarca,
que é actualmente de 6.000$00 (Dec . n." 29 :9'50, art. 3."), e nas questõësl que
excedem sempre a alçada (art. 678.o, 2.° alínea), das decisões proferidas
pelo tribunal de comarca cabe para a Relação ou o recurso de apelação
(art. 691."), ou o recurso de agravo (art. 733.") . Conhecendo do recurso,
a Relação funciona como tribunal de 2.° instância.
Do despacho do tribunal de comarca que não admitir o recurso de
apelação ou de agravo, cabe o recurso de queixa ; mas este interpõe-se,
não para a Relação própriamente mas para o seu presidente (art . 689 .") .
Não é ~sómente dois recursos interpostos do tribunal de comaae-a que
compete às Relações conhecer. 0 n." 1." da alínea b) do artigo 'S6.' do
Estatuto fala ainda dois recursos das decisões proferidas pelos árbitros e
da decisão do conselho de tutela que revogar a do conselho de família.
0 n.", 1." do artigo 74." do Esltat .utc> anterior referia--se também às decisões
do tribunal colectivo de 1 :' instância ; mas só através da apelação inter-
po-st,a da sentença do tribunal (te comarca é que a Relação toma conheci-
mento do acórdão do tribunal colectivo . Não se interpõe directamente
recurso deste acórdão ; o juiz de direito lavra a sua sentença tomando por
base! a decisão do tribunal colectivo (art. 659.°) e é da sentença do juiz
singular que ~se apela pura a Relação. Ao julgar a -apelação, o tribunal
de 2.° instância encontra-se em face de duas decisões : a) a do tribunal
colectivo sobre a matéria de 'facto -não provada por acordo' ou confissão ou
por determinados documentos (art. 653.0, alínea g)) ; b) 'a d'o juiz singular
sobre a restante matéria de facto e sobre a matéria de direrto (art. 659 .") .
:i~; o recurso houveir sido interposto sem restriçõPis, a Relação conhece
de uma e -de outra ; mas só em casos excepcionais pode alterar a decisão
do tribunal colectivo (af. 712'.") .
Relativamente aos árbitros, o artigo 1'575 ." declara que, não tendo as
partes renunciado aos recursos das decisões do tribunal arbitr~Ll cabem
para a Relação os mesmos recursos que caberiam de sentenças e d~espa
c.hos proferidos pelo tribunal de comarca.' E como, em regra, das deci-
sões deste tribunal o recurso !só é admissível quando o valor da causa
excede a alçada, o mesmo deve suceder no tocante aos recursos a interpor
das decisões do tribunal arbitral voluntário ou necessário.
O artigo 1499 ." admite recurso de agravo para a Relação da delibe-
ração do conselho de tutela que revogar a do conselho de família.
Capítulo III - Da competência interna 161

Também as Relações conhleeem, como já dfissernos, de recusas


interpostas de decisões dos juízes municipais, quando forem proferidas
ern causas de valor superior ã alçada do tribunal de comarca ou rerairlem
sabre questões que excedem a alçada .
Conhecem ainda da apelação interposta -da sentença ou acórdlão do
tribunal da tutocrïa da infância sobre providências relativas ao destina e
alimentos dias filhos (aras. 1455.o e 14'58 .°) .
polir outro ladra, nem todos os recursos de tribunais c1e comallca são
interpostos para -a Relação. Se o tribunal de comarca conhece, por via
de recurso, de decisões proferidas pelo tribunal municipal, da sentença
ora despacho do tribunal . dle comarca, quando 'se trate de ques" que
e:eckêdbm a alçada (art. 678 .1, 2.' a1Ínea), cabe recurso, não para a Relação,
mas para o Supre~ Tribunal de Justiça (art . 72.', alínea a), arte. 795,°
e 796.°) . Da sentença do tribunal de comarca que, fora de Lisboa e Porto,
julgar os embargos opostos a execuções fiscai's cabe recurso, não para a
Relação, mas para o tribunal de 2.* instância do cbntencío.slq das contri-
blaições e impostos (Dec. n.*1i6 :733, de 13-4.°-929, art. 2.1, § 1.*) ; coisa. seme-
lhante sucede quanto aos recursos dias decisões do tribunal de comarca
nas acções para aplicação de multa por simulação de valor em prejuízo
dia Fazenda .Nacional (Dec., n.° 25 :303, de 8-'5.9'35, art. 1') .
Antes da publicação do Código da Propriedade Industrial discutiu-se
ao càlbia recurso para a Relação da sentença db, juizo de direito 1& Lisboa
que conhece~ de recurso interpoq~to dias decisões proroferidaa pela Rlepar
tição da Propriedade Industrial. Porque houve no Supremo acórd"
encontrados, lavrou-Elo' o Assen% de 8 de Maio de 1928, segundo o qual
não havia recurso da decisão do juiz sobre matéria de proprieidade
ilILdulatrial.
0 Código da Propriedade Industrial -expressamente declara, no
artigo 209.°, que da sentença do, tribunal da comarca de Lisboa poderão
a;a, partes apelar e que do acórdao -da 'Relaaçãà compete meou~ para
o Supremo Tribunal de Justiça . Ma's no intervalo decorrido desde-
" clomeço dia vigência do novo Código de Processo Civil até ;iì. entrada em
vügor do Códgo dia Propriedade Industrial 1(Otltubro de 1939 a Agoisto
de 1940) levantaram~ dúvidas sobre se o Assento referido tinha cadu-
cada ou devia considerar-se subsistente. 0 ~acóMã~o ~do'Supremo Tribunal
de. Justiça de 22 de Julho de 1941 (Rev. de Leg., ano 74.°, pág. 2'50) decidiu
qae o Algsento caducara por força de artigo 3.* da lei. preambu~lax do Código
(Dec. n.(, 29-:637) . A questão não tem hoje interesse e por 'isso' nos não
detemos sobre ela.

AcS,ões de perdas e danos. Conhecean-das acções de perdas e danos


propostas, por clausa do exercício filas suas funções, contra os~ juízes de
direito e respectivos magistrados do Ministério Público (Estatuto, art. '56.°,
alínea a), n.° 1.1) .
Vej a-ise a nota ao uxtigo 70.°
No julgamento destas acções a Relação funciona como tribunal de
1 .° instância.
11---CÕDIGO DE PROCESSO CIVIL
1G2 Livro M  Da competência e das garantias da imparcialidade

A expressão aiespectivos magistrados do Minilstério Público>


. abrahge
,os magílstradoe do Mihisttério Público que exercem as -suas funções junto .dos
juízes de direito : delegadbs e aub-delega'dos do Procurador da República .

Conflitos de competência. Conhecem dos conflitos de ooanpetência


entre tribun«i's pertencentes a comarcas diversas, mas ao me~ distrito
judicial (EL~ art . M .°, alínea . b), n .o 2 .o) . O processo para ;a ~~Tução
dos conflitos está regulado nos artigos i17 .° e seguintes .
Veja~ a nota 'ad artigo 70.°

Revisão de sentenças. Conhecem da revisão de sentenças proferidas


por tribunais ou árbitros estrang<-'i~ .
O artigo 1100.o ,dispõe que, sem prejuízo do que se , achar estabelecido
¢n tratados e 'leis especiais, nenhuma decisão sobre direitos privados,
proferidia por tribunal estrang eiro ou por árbitros no estrangeiro, terá efi
cácia em Portugal, seja qual for ia nacionalidadc das partes, sem estar
revista e confirmada. E o artigo '50 a , por sua vez, determina que as sen-
henças pro`feridals por tribunais ou por árbitros em país estràngeiro- só
podem servir de base à ~uçab depois de revistas e confirmadas .
Há um(a leve -düscrepândai entre o texto dos artigos 50 .° e 1100 .° e o
da alínea . d) do aa*tigo 71 .' ; nacluelCs fala-se de árbitros em pais estrangeiro,
neste de árbitros estrangeiros . A desarmúnia Yesulta da circunstância
de pelos 'artigos 912 .° e '1144 .° do Projeotb primitivo, corre9poTfflLentwEI3 aos
mí'tigos 1100 .° e '50.° do Código, a revisão -só sem exigidta. para a execução
dais 'sentenças protferidas por árbitros estrangeiros . A Comimâo Revisora
foi 'de parecer que a revisão e confirmação deviam sem necessárias diambém
,:pando -se tratasse de executar uma decisão arbitral proferida em país
estrangeiro, ainda que os árbitros fossem poi tugueseis . Em conformidade
Besta doutrina 'se redilgiram os artigos 50 .° e 1100 .° do Código ; mas,
por lapso, deixou doe se arcomodíar a alínea d) do artigo 71 .° ao que fora
,~do pela Com~ Revisora .
É cil+aro o disposto. nos artigos 50 . 1 a 110Q°, ~nto próprio da
matéria, prevalecei sobre o que ise lê na alíneá, d) do artigo 71 .° : a ilzvisâb
e confirmação são necessárias paria a execução de deci$Ões proferiidlakr por
:árbitros portugueses em país estrangeiro e é à Relação que compete
conhecer da revisão e conceder ou negar a c~irmiação . O n .° 4," da alí-
nea b) -do àati'go 5'64° do Estatuto ewtá ~rcdigidü em conformida'd'e com os
artigos 50.° N. 1100 .9 do Código .
O processo paria -a revisão está regulado nos artigos 1102 .° e seguintes .
Conhecendo da revisão, as Relações nem funcionam como tribunal
de 1 .' instância, nem domo t.riburpal de iw14rso : exeu-oem uma função
específica.

Colónias . A competência das Relações das colónias está regulada


no artigo 63 .° da Organização Judiciária dáts Colónias (Dec . n .° 14 :453) .
Os n.°' 1 .°, 16 °, 9." « '&.° d~, artigo' correspondem mais ou menus, ây
alíneas a), b), c) e d) do artigo 710
Capítulo III-Da competência interna 163

Lânitar-iuols-emae a fazem algum= conafdenaçães dobre o n.° 1.' do


artigo 63 ." Compete ás Relações, diz eébe número, conhecer, por meio de
recurso, dada decisões proferidas pelos juízes de direito do respectivo dis
trito judicial; ou pois árbitros, em todos os prrooessols cíveis, &imos e
.coraerciàils .
É claro que, para caber recurso, é necessário que o valos, da causa
excyeda a alçada dá juiz de direito, que é hoje de 3 .000$00 (Port. n.° 9 :677,
de 30-10.°-940, '1&°), ou que sie trata de questão que esteja acima das
alçadas (art
. 678.°) .
Mas põe-se a questão de saber se caberá rerçrursa para a Relação
sòmente das decisões proferidas pelos juízes de direita quando fites
ma,gïstradoa fundirnielin como tribuna& Ve 1.° instância ou também das
decisões quê eles proferirem sobre recurso interposto de tribunais infe-
riorea
Há 'um caso em quê cabe recuado para a Relação de decisõeb profe-
ridas, pelbls juí~ dle direito coma tribunais' doe 2.° instancia: é o de a causa
ter, sido julgsJda eán 1.' inst'ânda pelo juiz muàricipd especial 'a que sie
refere o. artigo 53.° Da décisão do' juiz mundcipal recorre-se para o juiz
de dRneibo ; e da decisão deste cabe recurso para: a Relação quando a causa
ou a qub~ exceda a alçada do juiz de direito (art. 55.°) :
Quando a causa tenha sido julgada, em 1 .' instância, pelo juiz popular,
da decisão deste cabe recurso para o juiz municipal ordinário ou para
o juiz instrutor (art. 77.', n.,° 9.') ; relas parece que da decisão destes' não
pode re~r`»e para o juiz 'ode direi~o, visto que o n .° 9.° do ax'tïgo '71 .°
~d6 dá competência aos juízes 'de dIreli.to para conhecer, par meio de
recurso, enn. °l.° instâwaeia, e de dia d~ecisiã,o proIerida pelos juí~ municipais
dobre recuileo interp~ dos juízes populares houvesse recurso para o
juiz de direito, este funcionaria corroa tribunal 'd'e 3.' ixi-ofáncio-
Julga:da a causa, em 1.` instância, por um juid municipal ordinário ou
por um juiz ingiruboT, da ~ieãb podê recorrer-se para, o juiz de direito
(art. 71.o, n.° 9.') ; mis da decisão deste não sabe recurlyo parta a Relação,
visto que ais deusas da competência dois juízes municipa'i's ordinários estão
dentro da alçada do juiz de , direito .

-ARTIGO 72 .°

(Competência do Supremo Tribunal de Justiça)

!O Supremo Tribunal de justiça conhece dos recursos e


das causas que por lei sejam da sua competência, e nomeada-
-mente :
a) +Dos recursos interpostos 'dos tribunais de comarca e
-das Relações ;
b) Das acções de perdas e danos propostas ; por causa
do exercício das suas 'funções, contra juizes da Relação e do
164 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

Supremo e contra magistrados do Ministério Público junto de


qualquer destes tribunais ;
.c) Dos conflitos de competência entre as Relações e entre
tribunais pertencentes a distrito judicial diferente .

A competência db Supremo Tribunal de Justiça está rêgulada no


artigo 53:° do Estatuto Judiciário. O artigo 72.° do Código refere-se únida-
mente a três matérias : recursos, acções ,doe perdas e danos, conflitos.
O Supremo Tri(bun!a1 de Justiça funciona normalmente èomo tribunal
de revista: ,só conhece de quostõ)&s de direito (larts. 722 .° e 735 .') . Mos em-
casos excepcionais die~penha o papel de tribunal de instância: conhece
de qu~g de facto ; e pode então constituir a 1.` e única instân&a ou
uma 2.' instância . V isurpreender estas diferentes actuações do
Supremo através dias alíneas do arti!go 72 .o

Recwrsos . Conhece dos recursos interpostos dos tr'übunais de comarca


e dais Relações (Estatuto, art . f3°, alínea b), n.° 1-') .
Sobe directamente ao 'Supremo of recurso interposto d'o tribunal de
domãroa nos arilos dás artigos 79'5,1 e '796.', isto é, quando este tribunal
conhece, por vlia doe recurso, dúma decisão proferida pêlo tribunal muni
clipal e o objecto do recurso é 'alguma das, questões que estão acima, das
alo~ (art. 678,') .
Os recungols que normalmente ase interpõem dias Relações para v
Supremo, .,sãla a reviwta (art. 721 .1) ie o agravo (art. 754 .1) . Estes relcúwrsos
têm calbimento qu~ o valor da causa excedle a alçada das Rdlaçõeb,
que é hoje de 20.000$00, quer no continente e ilhés (De(c. n.° 29:950, art. 3.'),
quer nas colónias (Port. n.° 9 :,677, 18.') .
Nos ca~ que ficam apontadas o Supremo funciona como tribunal
de revista, pois que o objecto -dos recursos de que acima se fala são ìrnlioa-
mente que~ de'dfi~
Mas há um coso em que o recurso a interpor da Relação para o
Supremo não é o tagravo nem ia revista: é o caso did artigo 1096.' De acór-
dão da Relação que conhecer, em 1.' instância, do objecto da acção de
perdas e danos 'a que isoe refere a alínea, b) dá, artigo 71.° cabe para o
Supremo o recurso 'do apelação. Neste caso o Supremo funciona como
tribunoA de 2:" i~nciia, podto que só em casos excepcionais possa -alterar
a cisão dia. Relação em matériá de facto (arts. 1096.° e'712 .") .
O Supremo conhece também dê recursos interpostos dos seus próprias
acórdãos. É o caso de recurso para o tribunal pleno de acórdão que cGtej.a
em oposição com outro anterior, nos termos do, artigo 763"

Acções de perdas e danos . Conhece das acções de perdas e danas


propositas, por causa do exercício U" suas funções, contra juízes da Rela-
ção e do Supremo e contra =gistrados do Minilsltério que exerçam as suas
funções juin~o ide qualquer ~délstes, tribunais (Estatuto, art. 53°, alínea a),
n.° 2.°) .
Capítulo III -Da competência interna 165

Veja-se a nota ao artigo 70°


Nebbe caso o Supremo funciona ~o tribunal' -de 1.' e única insr
tância .
Cimfrontandb a alíena b)' do artigo 72.* com a 2 .' parte, do artigo 70.o
e com 'a alínea b) do artigo 71.o, vê-se que no julgamento dias acções de
;á>ex~dlas e ~dhnos contra m:agistrados ale respeita. rigorosamente a hieralr
qui'a. O,s actols ou factos praticados' pelas juízes no eacercício das' suas
~Eunnções e invocadols como causa das perdas e danos ~são apreciadbo, em
1.' i"tláncia, pelo tribunal a que o 'réu está ~tsmenlte subordinadb
iza escala híerárquic'a. 'Se o arguido é um juiz municipal, danh~ da acção,
em 1.' instância, o tribunal de comarca ; ad é juiz doe direito, conhece da
«cção 18 Rlelação ; se é juiz dá Relação, a competência cabe 'ao 'Supremo.
A regra falha para os juízes dd Supremo, por impossibilidade cie aplicação .
Pelo quie respeita ~abs magistraAos do Ministério Público, dolocàm-se
na ma,~ situação em que se acham os juízes doas tribunais junto das
quais ~aervem.

C<mflitos. Conhece dos conflitos de competência entre as Relações


e entre tribunais peirbencentes Is . distrito judficial diferente.
Veja-se a ndba ao artigo 70.'
O n.o 7.° do antigo 66.° do E,dtatuto Judiciário, tal como foi redigido
pelo Decreto n.o 24:090, de 29 the Junho de 1934, deferia 'aõ Supremo Tri-
lrunal de Justiça o conhecianento dos conflitos 'de jurisdição e competência
entre us Relações, entre quai~squez+ awboridades judiciaio dos distritos dk
<tiversas Relações, entre -as aútórLdades ou tribunais 'administrativo(s, fiscais
ou 'milita~ e 'as iáurboridadee ou tribunais judiciais, e entre qukisqueir
triburta.is eJspeCiáns entre si ou ehltre estes e os tribunais comuns .
O r1 .o 7.° do artigo 66.° do.Estatuto anterior ia muito além da alínea c)
do artigo 72.° do Códig+a. A competência 'atribuídb ao Supre~ por esta
alínea coincide com a que lhe âtribuia aquele número nas palavras «entre
as Relações, entre quaisquer autoridades judiciam« dos distritos de dive~
litelaç&s». O que ia mais ~se lia no Estatuto não tinha correspondência
no Código .
Poderia daí concluir-oe que .a alínea c) gaio artigo 72.° do Código
derrogara, como lei posterior, a parte do n.I 7.° do artigo 66.* do Estatuto
<due ultrapassava a su'a dispdsïção?
De modo nenhum. O começa do artigo 72.° é bem expr-ssivo :
<eo Supremo Tribunal, de Justiça donhede dos recursos e das causas que
por lei isejwn da sua competência, e nomeadannente . . .x. Vinca-se aqui, em
^ternios inequívocos, ,que não ase priebelndeu apresentar o quadro completo
(ta competência do Supremo ; quis-se íìnícamenlbe fazer alusão a certas
funções do Tribunal, àquelas que se domsilderaram mwás características no
ponta de vista da hierarquia. Ad mesmo tempo ~'bem ~nfbuada a
ideia de que as disposições legais "rilores sobre competência. do Supremo
+cont1'nuavaun em vigor.
O que interessava ao Código ~ definir a competência, em razão da
7iiemrquia, do Supremo Tribunal de Justiça no tocante às causas civis ;
1.66 Livro Il-Da competência e das garantias da imparcialidade

não cuidou, portanto das conflitos de jurisdição entre tribunais civis e


tribunais especiais' ou entre tribunaas especiais urus com os outros.
Com a publicação do Decreto n.° 2'4 :090, que alterou, entre outras dis-
posições, o n." 7:° do ardtígo 66 .1 do Estatuto, surgiu uma dúvida grave: se
devia considerar~ extinto o Tribunad dbs Conflitos, criaddb pelo Decr<pto
n.° 18 :017, de 27 dle Fevereiro de 1.930, para a decisão dos conflitos de juri&-
dição entre os tribunais administrativos e as tribunais comuns, e relmode-
lado depois pelo Dedreto n.° 23 :185, de 30 do Outubro de 1933 . 0 Supremo
Tribunal de Justiça e o próprio Tribunal dos Conflitos decidiram sempre
que este tribunas subsïâia, apestar de o n.° 7.1 do ~artigo 66 .° dia Estatuto,
tal como caíra do Decreto n .o 24':090 atribuir competência doo Supremo
Tribunal de Justiça para conhecer dos conflitos dntre os tribunais: admi*
nistrativxx9 e os !tribunais judiciais .
A questão devia consideram-se mora, depois do que se estabeleceu
na 2.' alínea do artigo 107 .° do Código. Diz-se aí expressamente que a
questão de saber se a causa é da competência do tribunal civil ou da do
contencioso administrativo deve ser resdolvida pelo tribunal dos conflitos
entre -as a!u:toridoddes judiciais e administrativas, referência manifesta ao
tribunal criaddo pelo Decreto n.° 18 :017 de modificado pelo Decreto n.." 23 :185_
De modo que a' situação actual era esta :
,a) Para o julgamento dás confl'i'tos entre os tribunais administra-
tivos e os tribunais comuns o órgão competente é o Tribunal das Conflitos;
b) Para o jul'gamenrbo das conflitos entre «9 outros !tribunais espe-
ciais e (As tribunáli~s comuns o órgão comp~te, . por força. dá n.° 7.o do
artigo 66.° do Edsdartuto, é o Supremo Tribunia'l de Justiça. (Rev. de Leg_
ano 7!4.°, pág. 38).
Com a promulgação do novo Estatuto Judiciário (Dec . n' 33 :'547)
a dhívidda !desapareceu inteiramente. 0 n.° 3.o ',da alínea b) do artigo :5'3 .°
diz-nos que !ao Supremo Tribunal de Justiça, funcionando por secções,
cortnpete conhecer ~dlas conflitos ~de competência entre as Relações e dos
conflitos de jurisdição entre quaisquer autori:dades judiciais pertence~
a distritos de Relações diferentes, ou entre as auto*d~ade>s ou tribunais:
fiscais ou militarels e ias ,aurto'ridfadds ou tribunais judiciais, e entre quais
quer tribunais iespecï'aís 'entre ~si ou entre estes e os tribunais comuns,
salva porém a competência do Tribunal dos Conflitos para resolver- os que
se derem entre !as autoridades ~e triburoai!s administrativao e entre estes-
e os judiciais.
Em face dilato deve terise oomb cexfbo que c!ompbte so Supremo
conhecer db.s conflitos -de ju'risd'ição entre os tribunais comuns e dos tribu-
nális do trabalho, que são tribunais especiais,
..mias mão são, tribunas admi
rriistraltivods no sentido em que esta expressão é empregada nos Decretos
n .°' 18 :017 e 23 :18'5.
(Vej,aase a Rev. de Leg., pano 74.1, pág. 36) .
Em vista do n., 3.° da alínea b) do artigo 53 .° doo Eistatuta é aro Suprenno,
e não à Relação, que compete conhecem do con'fl'ito dentre' o tribunal civil
e a tutoria da infância, tribunal especial (ac. do S. T. J., de 8-3.'-932, Col.
0f., ano 31.', pág. 68, Gaz. da Rel. de Lx .°, ano 45 .°, 'pág. 367) .
Capítulo III-Da competência interna 16 7

SECÇÃO IV

Competência territorial

Nos artigos 73 .° 'a. 89 .^ formulam lse as regras de competência territo-


rinl, assim denominadas porque servem paia fixar, a circunscrição terri-
torial em que a acção há-de ;ser proposta . Determinada a espécie clo tri
bunal (que ia acção ;deve, por exemplo, ser prlo'posba no fona comum ou no
foro civil), conhecida ia categoria. d o tribunal 'sob o ponto de vista da hie-
rarquia I,que a acção deve, par hipótese, ser intentada perante os tribunais
civi3 que norm',almente funciloinam como triburia :is de 1 ." instância) e! sob
o pwilto d~a visba do valor (qua a facção é da competência do tribunal de
comarca, por exemplo), resta dégcrimirrar, dantr'e os vários, tribunais de
comarca, qual deles é competente para a acção .
Qra esita última indiagiação assuma aspecto 'nitidamente territorial,
visto que, equivale a. delüerminar em que comarca há-de correr o pro-celsiso .
A que factoires ou critéri'oas se deverá atender para reEblvér a quen-
tão dá c'ompeltêmcia territo'ri'al, para fixar a cicunscr;igão judic,ial c!ompe-
t'e,nlte 'pano a causa?
Clarnelutti iencara o problema sob o aspecto económico. A a,sp~ração
deve ser esta : raduzir alo mínimo o custo do processo e relevar ao máximo
o seu rendinnento . O'ra esta ajspiração realiza-se tão completan~ quanto
peissível, dedde que ase faça co'incidi'r a sede do procns3o com ~a ode dia
Bole . Poir sede doa ptcceslso entende-ase o lugar ern que está instalado 'o
tribunal em que o processo se 'instaura e :segue os seves termeis ; por sede
lide exitend'e~e o ponto do 'terrilbório em que 'a lide se localiza.
Chega~3ie, poxtan'to, a este corolário : a acção ~dieve ser proposta
piexantee +o !tribunal em cuja. circunscrição !territorial a lide tem a sua seld-e
oro se encontra localizada- (Lezioni di dvritto processuale, vol . 3.1 , pás, 137) .
Mas edte princípio geral não dá a solução complielta, dia 'problema,
uma vera que a lide se desclabna sem várias ielem'entos e calda um dele13
pt~de achar-se local~izado em c'ircuns!crições judiciais diferentes . Na lide
há quê considerar os elementbis subjectivos ('as partes) e os elementos
objectivos (os bens sobre que recai  ,o acto ou facto juri'dïco d!e que emerge,
a obrigação cujo cumprimento se exige) .
A conexão ou contacto das par!te,3 com o território estabelece-se pelo
domicília, pela residência, ou piela 'simples presença ácidental num certo
lugar ; pode suceder, d suciede 'a cada passo, que o aultor tem o seu dlomi
cíliio ou resliidêridia numa comarca e o róu está domiciliado ou residi em
cemarca diveJnsa ; pose ain'da,da+r-sie o caso de gerem muitos 'os autor'vs ou
os réus e <,,ad-a um deles Jter o seu' domi'cíl'io em circunscrição diferen'be .
Por outro 1iadia pode 'accinteceT que a lide esteja localiDada i-Job
u ponto de vi :ata isubjiettivo 'em de'term'inadla comarca ou julgada e, sob
o ponto de vista objectivo; em comarlca ou julgado 'diverso .
Fíinalmiente há que encarar 'a 'hipótese de a lide, por ca'd'a' um dos
seus elementos objectivos, estar em contacto com ci'rcunscriçõeis judiciati-
168 Licro II-Da. competência e das garantias da imparcialidade

difci,i~tes : o acto ou facto de que a causa emerge realizou-sie numa comarca,


(os bens estão svtuadios noutra, a obrigação tem de ser cu'mpri'da numa outra .
Que critério há-de a'dolatar-se para decidir a qual destas várias loca-
lizações deve dar-se preferência?
Caiwe'lutlt'i ~relsp'aÉde : quando a lide está em contacto comi vários luga-
rês, deve prefe1rir~se aquele dom o qual ela tem uma conexão mais intensa
(Lezioni, 3 .", pág. 138) .
Sem ielsforço se reconhece que 'eJte critério é vago e de difícil apli-
cação e que, por outro lado, não está em perfeita confo-mnidade com o fim
que, segund) eI.A,~e ilustre proceissualis~ta, deve ter-se em vista . Parece
que Carne'lutti devia recomendar outro critério de orientação : preferir-se
o lugar onde se possa obter o (ibjectivo do processo com o mínimo de
eusiVo e o máximo de rendirn~ento .
Efectivamente no Sistema di diritto processuale Carn'elutti aconselha
já uma solução diversa . Entre os váricb tribunais com os qu'ails a lide
pode estar em con'tact'o deve escolher-se aquele que, pela sua isiede, seja
mais idóneo para o exercício da função ; e mais idóneo quer dizer o
seguinte : aquele que, pela suja maior vizinhança cem os elementos da lide,
dlê garantias de conseguir 'o resultado a que se visa com menor custo e
mais rendimento (Sistema, vol . 1 .", págs. 594 e 595) .
Simplesmente, parece que o brilhante escritor não tira do seu ponto
de vista as consequências que 'ele lògicamente- comporta. A 'dar-se pi+efe-
rêncüia a'o princípio da idoneidade, entendido nos tetmois expoist'os, o foro
dominante, sob o pombo ~de visita territorial, dèverna ser o que Carnelultti
,denomina instrumental isto é, o foro do lugar em que -se encontram as
provas dfe que o tribunal há-de servir-+se partia a composição da lide (Sis-
t~a, vol . 1 .°', pág. 595, Istituzioni, 3 .' ed, vol . 1 .°, pág. 134) . Com ofego,
é no lugar onde existem as provas ou os instrumentos ~do pro,cess'o, que a
, verdade p'óde ~dlescobrir-se com mais facilidade e mais probabilidade do
êxito (menor eu*o e maior rendimento) Ora não há indícios de que,
inum s'ils'tema cienltífilco de ~ipéténoia territorial, Carnelutti Pioloca'sse
cmi primeiro plano o foro 'instrumental, faze'n'do-o prevalecer sobre o foro
pessoal e o fora real .
No seu Projecto doe Cdd'igo de Processo Civil italiano Carnelutti punha
mo nmelsmo plano ols três farom. .°. foro pessoal para -ay acções sobre bens
imnobili'arios ou bens'im'aterais foro real para 'a's acçõès sobre bens imo
biliários, foro cjau ,sal para as 1vdos sobre obrigaçõels (arts. 54 .°, 5'5 .°'e 56 .°),
l no Sistema iafirma que urna cias soluçoels mais naturais 'do piobl-erna da
competência terrJIthrial é fazer, correr o processo no lugar em qu e as
partes 'se encontram (vol 1 .°, pág . 595) .

No direito positivo são três os factores, observa Carnelutti, que fun-


damentalm'ente determvnam a ccnnpetênlcla territorial : presença das partes,
presença dos bens, objedto d'o litígio, presença dos instrumentos do processo .
Se 'se atende ~ao primeiro elemento, temos o fora pessoal ; se se cons-
trói sobre o segundo, temas o foro real ; se se toma em consídoração o
terceílro, itemois o faro instrumental (Sistema, vol . 1 . 6 , pág. 595) .
Capitulo III-Da eo>npetência interna 16 9

M,as Tias Istituzioni Carnelutti faz uma s'is,temiatização mais completa,


inltroduz :indo urna nova figura : o foro cou :;al . Se a lide se caracteriza pel^s
szu.jeitos, objecto e causa e se calda um despes elementos pede pô-la em
contacto com dete,rmi7i~t ,'doo pointo do território, é claro que, ao lado dó foro
pessoaal, determinado pela presença das partes em certo 'lugar (foro>??
personae) e do foro real, diéterminado pela situação dQ; henl3 (forrar rCi
süiae) p-)dem,os ter 'o fo,rb causal, 'determinado pela le ,cal'ização do facto
jurídico, ou do facto que serve de fundamento à acção (foruna obli,gatiorais),
ou do facto em qule devia traduzir-ase o cumprimento (foram . executionis) .
A 'eÈlte3 1,ip is ac.r--se'e o foro instnonental, o foro do lugar 'em que- èl :istein
os in):~trumemto,s 'do processo (as provas, na acção declarativa, os 1>ens, na
acção executiva) (Istituzioni, 1 :', págs . 133 e 134) .
Nenhuma organização positiva 'as!serVtla o regime da competência
terriltoria sobre um só dos factores que ficam apontados. Em todas elas,
ou peno a~'os elas dol3 países reais rzpresentatlivos, se assina uma larga
influênlcia ao fora pessoal, sob a fd'r7na -dL 'dornicíli'o do réu, e se aceita o
foro real ~a , 2v,- acções relativas a imóveis . O que distingue e caracteriza
cada um 'dois difi i ,entel3 sistemas legislativos é a medida em que -o . foro
causal lianiita o foro pessoal ou concorre com el!e e o maior ou menor domí-
nio do princípio da autonomia da vontade, ilsto é, ia maior ou menor esclala
em que a vontade dais paneis pode modificar o regime legal de c'ompetênci'a .
Para não alongamos ~a expoâliçko, fixairenos 'apenas os com-tornoG
essenciais dos sïdbeanlas adopbadbs'-nels três Códigos mari's recentes : o brasi-
leiro, o iltali'arno e o português.
Em todos elas há um traça comum. A règra geral de compétênc<ia
telrritorial é esta : ia 'acção deve ser propasiba no juízo do domicílio do réu
(Cód. bralatileiro, art
. 134 .° ; Cód. italiano, art . 18.° ; Cód': poatuguìês,ar/b.85 .°),
Os três Códigos 'dão preferênai'a ao foro pessoal, sob a foram de domicílio
do réu . É a consagração da velha m'áxiiiia : actor sequitur foruM rei.
Um outro p'orlbo de coincidêncila é a a~dnninçoão db foro real paira als
acções respeita~ a imóveis (foram rei situe) . Mas e. redacção, dos textos
diverge . O artigo 136 .'" do Código brasileiro empreega 'a fónnulla; «acções
rel[àtivas a imóvel> ; o artigo 21 .° do Código itali~ e o adliga 73 .° do
°Código português exprimem~se doe outra, maneira : «Causas relativas a
direitos roRis sobre bens imóvelHs> (it'aUano), «acção que !tenha por objecto
fa2er valer direitas reais sobre hnóveïsb (português), formas de dizer que
se equivalem .
Além d%so, tanto o Código italiano como, o Código português esten-
dem o forro reaü a outras acções sobre imóveis, havendo nesta paste , diver-
gê:nicia oriltre um e outro .
Finalmehbe :a terceira disposição semelhante nos três Códigos diz
i~dspeito às cálulsas que podeimos chamar hewdditárilas. O artigo 22 .° do
Código iitaliano (declama competente o tribunal do lugar da 'abierturà 'dia
herança ;para ,as causas hereditá:r9as (petição q divilsao da herança, etc.) ;
o artigo 135 .o do Código brasileirob proclama a competênciá do foro do
dotmicílio do de cujas para o ínventálrilo, partilha e todatr as acções re'la-
tivas à Herança, prleceíto que equivale 'ao do Cód'i'go italiano, visto que a
170 Liirro II-1)(i , competência e das r1arantia .s da imharrialicha de

herança s~a abi e no dornicíli,3 do seu autor ; o artigo i!7 ." do nossa:) Código
é roais r ""tri'to : só atribui competência ao juízo do lugar 'da alierti.j a da
herança pai,a o inve!ntá,i"io e para a habilitação duma pesisoa corro hcrleira
cru rept-esentante doe outra .
Daqui por ~diiante são sensíwis as diferenças entre os três Códigos .
O Código italiano esirabelece o foro causal, na designação ci'e Carne-
lu'tti, piano a!s acções relativas 'a direitos d> obrigação (art . 20 .") ; o C&d-igo
português dá também ac'olhim'ento a es,ss foro no artigo 74," ; tio Código bra-
sileiro -não ise encorntr;a vestígio da influencia do foro da luga, , da obrigação .
Não coaincidem in`teirament ;e o artigo 74 ." -do noisso Código e o
artigo 20 .^ do Código italiano . Por elite artigo para as causas relativas a
direitos de obrigação é também competetnte o tr'i'bunal do lugar em que foi
con'tr'aída ou em que deve sal- cumprida a obrigação : há, por'tan'to uma
concorrência cumulativa td'e for-,os' : o autor pode propor ia facção ou no juízo
do domicílib do réu, ou no juízo do lugar em que a obrigação surgiu, ou
no . juízo do lugar d!o cumpri¢nento . Pelo antigo 7'4 ." do Código português
o foro causal é exclusivo : a acção há-jdle Ser propoisiba no juízo do lugar do
cumprimento, +se a obrigação é -de natureza contratual, no juízo do lugar
onde foli pratikbdoofadtoilícito,!geaobrigação édenatureza, extracontratual.
Há owtrãá excepções, 'doe menor relevo, ã negra geral de competência
territorial . O Código itallfano declara: competenlte, para ~ais causas entre
sócios, o juízo ldb lugar dia sede ~dh sociedade (mit. 2'3 .°), pwla as, causas
relsitivas a gestãeg Ibuteliards e patrimoniads o juízo 'db lugar do exericác.i o
da tutela ou da admlinidbração (art. 24 .°), etc . O Cód'iko br«áileiro ~sujoita
ao juízo da causa principal ias acções a~sóriàs ou oriundas de outrials
(art . 138.c), ddeclara que podem ser'&mandados no lugar da administração
por obrig~aações peasoaiis dela oriundeis os adkrr'inistradoriãs de negócios
alheios (art. 141. 1 ), fixa, ~»wa ~as acções de dáaquite «'& nulitda ;de do casa-
mcn~o, o foro da resildênicia da mulher, e para . as acções de alimierntos,
o faro do dbmicíliio ou ela relgidênc'rta do alimentando (ait. 142 °)~
O Código porzlbuguéts estabelece, por seu lado, além das excepções já
ind'i~cadas, ainlda out~ É competente :
- Para as acç&ls de divórcio e separação die pessoas e bens, o tribunal
do dlom'iicílflo ou Ida residéncïa db autxrr (foüh pessoal do autor) (art . 75 ..") ;
- Pana as acções 4 honorários dé mandatá.H a judicda.ifs ou, técnicos,
o tribunal da cansa ertn que foi pre!stadb o loerviço (foiro instrumental)
(art . 76 . 1) ;'
- Para certas acções r~e1hciohrad~as com o çomércib marítimo, a :tri-
buna1 ido porto em que a l~i'de -se lacaliua, ou porque a obrï'gaçaa devia ser
'aí cumpri'd'a (wIt. 78 .°), ou porque ocorreu aí o facto de que a acção
emerge (aras. 79 .°, 80.0 e 81.'), ~db nalguns calcos cumulativamente com-
pet~es ~ esse 'outros foras (arts. T9 .o e 80.°) ;
- Pana a declaração,dla falência ., o tribuna.1 dia isituação do principal
eátábeleditrrento (foro instrumental) (art. 82 ") .
Formulam-sa ainda, nas +aaitigos 83 .* e 84 .°, diap«sições de competên-
cia para os proU~ preventivos e Conservatórios e para as notificações-
.
avulsas
Capítulo III-Da competência interna 17 1

AR'rmo 73 . ,,

(Forvna rei sii(te)

Eleve ser proposta no tribunal da situação dos b ; ns a


acção que tenha por objecto fazer valer direitos reais sobre
imóveis .
Serão propostas no mesmo tribunal as icç~)es po~ss ; " so')rias,
a de posse judicial avulsa, as acções para .arl)itrawcn~ , ), as cie
despejo, as de preferência sobre imóveis e as de reforço, redução
e expurgação de hipotecas .
Mas as acções de reforço, redução e expurgação de hipotecas
sobre navios, automóveis e aeronaves serão instauradas na cir-
cunscrição da respectiva matricula . Se a hipoteca abranger móveis
matriculados em circunscrições diversas, poderá o autor escolher
qualquer delas .
único . Se a acção tiver por objecto uma universali-
dade de bens, ou bens móveis e imóveis, ou imóveis situados
em circunscrições diferentes, será proposta no tribunal da
situação dos imóveis de maior valor, devendo, para 'este efeito,
atender-se 'à matriz predial ; se o prédio estiver situado em mais
do que uma circunscrição territorial, poderá ser proposta em
qualquer delas .

1 . Esitabelece-se aqui, para certas acções, o foro da situação d-s


bens (f orum rei sitae) .
C . :xino dissenos, em qualse atadas as legislações se altribui! compeltên-
cia, palra algumas acções, iao juíza do lugar dia situação do;s bens. O que
varia é a formulação e o alcance doo preceito.
O Cód'igo facamcês diz que o réu deve ser demandaaldo, em matéria real,
perante o tribunal da isituação dia eoii'sa litigiosa (art. '59 .°) ; a lei cspanhola
dIeelaiia comp~eJtente, parca as acções reais sobre imóveis, o juíza do lugar dia
eútuação da coisa litigiosa (ley de enjuiciam~o civil, ar't . 63 .°, Manuel de
La Plana, Derecho procesal civil espaliol, vol . 1 .°, pág . 256) ; o Código alemão
manda propor no lugar da situação as acções sobre imóveis em que'se
discuta a propriedade, a existência eu inexi'stência doe ónus real, a demarca-
ção, a divisão ou a p:-3se (§ 24) ; a lei austríaca considera exclusivamente
compeit~ nte o juízo da situação para ais acções ;destinadas a fazer valer um
direito real sobre imóveis (§ 81) ; o Cá3igo brasileiro proscreve a compe-
tência do foro dia situação palia as acções relativas a imóvel (art . 136 .^) ;
o novo Código italiia :no ~submete ao ;juízo do lugar 'da situação as causas
relativas a direitos reais sobre bens i?nóveis .
172 Lirro II-Da conrjretenciu. e das tta.rccntias da inrparcia .lidade

Vê-se qun o artigo 73 .", mandando propor no tribunal dia situação dos
bens a acção que tenha p'ot abjecto fazei- valer- dirieitos a-'eais s!ob1~e imó-
veis, a ;lolltou uana fórmula semelhante à da lei 'austríaca e à do novo
Código italiano: .

2 . \-ent de longe, no nosso di'rei'to, a competência do foram -rei sitie


irara as acções reais . A Ordenação, no § 5 ." dei título 11 : , do livro 3 .",
<ecla :at- compete'nte,, liana a :acção de reivindicação, o foro (lia situação
d , a cotiza <Temandada, quer fosse 'de raiz, quer folssie móvel ; mas era neces-
sdrio cito ,) rêu não estivesse-ele posse há mái ,s ~de anjo e 'dia . Pata a refe-
rid'a a_°çàrt cri cuntulati ,, amente compe'tt:nte , à escolha do autor, o for ;, do
"-lonti^ili , . ;, réu .
A N-ivíssinta Reforma Judiciária manteve a doutrina da Ordenação ;
e, além ; :isujeitou à competência do foro rei sitie : (i) as acções de
<expropriação ; l,) as de to~mbamen~to ou demarcação, com referência às
comarcas ; r) as de nunciação de obra nova e caução dam .n i infecti ; (1) ais
de arresto ou embargo, sendo, porém, cumulativa, por d'erpendmcia,, a
íurisdição do juiz 'da causa principal ; e) as causas sobre servidões ; f) as
,le abolição de vínculo, por falta de rendimento, as de redução de encaigos
<"nt bens vincula'do's, as de despejo de herdades 'e ais de curad)oria dos bens
,los ausent'e's (art . 181 .") .
0 Código de 1876 estabeleceu o foro dia situação du,9 prédios para, as
a..cçõe ;, de despejo, d:e paaevençãa> contra o dano, de expropr.'iação por uti-
lidade, pública ou particular, de cessação ou mudança de, servidão, de
~ombanrento ou demarcação, de ~dhvisão de águas, de divisão doe cousa
comuns, pai , a aquelas em que se ttat~'e de posse, registo ou cancelamento,
¡rara os (ie reforço ou redução de hipoteca e para as d,e destrinçra de foros
e censos .
A doutrina do Código velho era manifestamente defeituosa . Sujei~
tavani-se ao .forno ~da situação as acções possessórias e,deixava,se para
o foro do domicílio do réu a acção de reivindicação, prIeci'samenté aquela
que, em Conformidade com a nassa tradução jurídica e o exemplo aras leis
estrangeiras, mais razão havia para submeter ao forum réi sitie . A 'ano-
analia foi corrigida pelo artigo 3 .° do Deci-eto n.° 12 :353, asÈim redigido :
«as acções que tenham par objecto fazer valer qualquer direito real sobre
bens imóveis serio propos'tas no juízo da situação do p,rédio, nos termos
ilo n ." 3 ." ~do alugo 21 ." do Código de Processo Civil, po~ dieduzir~
<"uanulátivaart'ende qualquer pedido que seja consequência daquele" . Esta
disposição foi reproduzida no artigo 10 ." do Decreto n.° 21 :287 .
Como se vê, a fórmula da 1 .' adínica do artigo 73 .o do Códrigo actual
tem a sia origem no artigo 3 .° do Decreto n .o 12 :353 . No artigo 91 .° do
Projecto primitivo falava-se die «acções reíalils imobiliárias» . 0 ~sr . cons'e
lheiro Botelho de Sousa exprimiu a dúvida sobre se esta fórmula equi-
valia à dq artigo 10.° do Decreto n .° 21 :287 e manifestou preferência pela
tio decreto, porque permi't'e que a expressão adirdito real» se deixe parra
lss definição ou cl'aissificação que se der no Código Civil ou no Código do
Efegísto Predial .
Capítulo III- Da competência interna 173:

A esta obsorvação e alvitre respondi


«As duas 'fórmulas equivakm-se. Desde que no artigo 4 .° se diz que
as acções Ise classificam, quianto à natureza do diteito que se . pretende
fazer valer, em reais e pessoais, seguewe que as, acções reais' imobiliárias:
são as que se propõem fazer valer um d'ireitb real sobre bens imobiliários .>
A Comissão Revisora, átendendb a que se resolvera suprimir no
artigo 4 .' a referência a acções reais e pessoais, aprovou a r'edacç:ão que
hoje se 1~ nb artigo 73-.°

3 . Qual é o valor 'dia fórmula «acção que tenha porc objecto fazer
valer dircütos 'relatas sobre imóveüs»?
O sr . Dr. Palma Carlos observa que a fórmula dá lugar,a dúvidas, .
vilsito haver grandes dhivergências entre os escritores a respeito do con-
teúdo da expressão «direitos receie» ; e uma idas divergências consiste em
saber se os chamados idnreito's moas de garantia são. verdadeiros direitos .
1~à (Cód. de Proc. Civ. anot ., vol . 1 .', pás . 263) .
Parvcelnos que, no estado actual do mossa direito, é possível deter-
minar, com certo rigor, o alcance da fórmula transcrita . O ar . Dr . Botelho,
de Siousa, ao inclinar-se para o texto que veio a adoptar-se, justificava a
sus. incliasação pela circumlstància de o senfidb da frase «direitos reais»
poder fixar-se no Código Civil ou no Código do Regista Predial . E temos,
na verdade, uma menção legal de direitos reais quer no § 1 o do artigo 180.°
de Código db Região Predial, quer no § 1 .° do artigo 949.° do Código Civil, .
segurido a redacção do Decreto n.° 19 :126. Ais duas disposições coincidem ;
e em face delas os direitos reais sobre coisas imóveis são únicaanemte
o domíníc, ou proprieldade imóvel e as propriedades imperfeitas imobiliá-
ri,aa, enumeradas no artigo 2189 .° do Código Civil, a saber : a enfiteuse
e alabenfïi ;euse,'o censo, o quinhão, o usufruto, o usa e a habitação, o com-
páscuo, aia- servidões .
Pouco importa que esta delimitação legal dás direitos reais seja esta-
belecida para efeitos de registo ; desde que temos uma especificação legal
de 'direitos reais, é em harmonia com ela que devemos interpretar o_
artigo 73 .° tanto móis que foi esse o pensamento expresso na Comissão
Revisora. Evita-se assim o arbítrio das opiniões individuais (veja Alberto
das Reis, Breve Estudo, 2." ed ., pás . '27) .
De maneira que os denominados 'direitos reais ,de garantia (hipoteca,.
arresto, penhora, direito de retenção, penhor, consignação e adjudicação
de renidimentos) não são abrangidos pelo artigo 73 .° 0 Código Civil e
o Código do Registo Pi-êdial classifiv'am-nos coimo ónus reais (Cód . Civ .,.
art.. 949.°, § 2 .° ; Cód, do Reg. Pred ., art . 180 .°, § 2 :) .
A acção de reivindicação doe prédio é o exemplo típilco dia acção real
imobil'iárïa ou da acção destina'd'a a fazer valer uni direito real sobre imó-
vel, vi'slto que visa a fazer reconhecer o domínio ou o direito de proprie
dade ; ~elhantemente, estão abrangidas pela disposição da 1 .° alínea do-
artigo 73." as acções dbstinadm a fazer reconhecer a enfiteuse ou a su!ben-
fiteu.se, o censo o quinhão, o usufruto, o uso, a habitação, o compáscuo~
e o direito de servidão .
174 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

É: evidente que são fórmula§ ~d+e alcance diverso a do Código brasi-


leiro «acções relãkivas a imóvel» 'ou acções sobre imóveis e a do Código
po:t. tuguês aeacçãb que tenha por objecto fazer valer direitos reais sobre
imóveis» ; aquela é anais extensa ido que esta . A acção pode versar sobre
imóveis ou dizer respieito a um imóvel e tddavia ter por fim fazer valer,
não um direito real, -nas um direito de obrigação . É o caso, por exemplo,
de acção proposta pelo vendedor conitra o comprador para rescindir o
contrato lie venda doe prédio, ou de acção do comprador contra o vendedor
a pedir a .~entrega do imóvel venidddo .
Bem decidiu, por isso, ~a Relação do Porto, em acórdão de .19 de
Novembro de 1930 (Rev. dos 'rrib, ano 48 .°, pág . 345), declarando sujeita
aio foro do domicílio lio réu,, mãlo ao foram rei sitae, a «ctçüVo em que se
pedia o reconhecimento dJa falsidade duma procuração e a anulação de
doação feita no uso deissa procuração, com a consequente reversão, ao
património 'dos dbadoreis, idos bens -doados. Bem decidiu também o
Supremo Tribunal de Justiça, em acórdão de 7 de Outubro de 1941 (Rev .
de Leg, ano 74'.°, pág. .282), considerando aplicável, não a artigo 73 .°, mas
o artigo 85 .", à acção destinada a pedir ta restiltuição- dum prédio ,ari°ema-
tado, por ter ficado, sem 'efeito a arrematação.
Não pode dizer se o mesmo a respeito do acórdão do Supremo Tri-
huàial de Justiça de 30 de Mar" adie 194'3 (Rev . de Leg, ano 7&°, pág., 78) .
Uni indivíduo cedera a outro os registos de determinadas minas, com
obrigação de o cessionário ,pagar certa percentagem em . dinheiro ou miné-
rio, à escolha do cedente ; como o cessionário deixasse de pagar a percen-
tagean ajustada, nl cedente propôs contra elle acção a pedir o pagiamento
e ao mesmo tempo a resc'isã'o eia cessão e a entrega d'a mina . O Supremo
entendeu que para o pedido de entrega da mina era competente, não
o foro do domiéilio do réu, mas o foro da Rituaçãb da mina, nos termos
do artigo 73 .- Parece-nas errada , a decisão . A acção não tinha por objecto
fazer valer o direito real de propriedade da mina ; o pedido de entrega da
mina era consequência imediata do pedido de r~ilsão do contrato de
cessão, de modo que o direito que pela acção se pretendia fazer valer era
um direito de obrigação : o direito resultante da fa14a diz cumprimento
duma obrigação contratual.
Também não merece aplauso a decisão proferida pelo Supremo em
acórdão de 28 ,de Outubro de 1930 (Gaz . da Rel. de Lz .°,ano 44 .', pág. 325) .
Um homem casado celebrou um contrato pelo qual cedera a outro, por
certo período, a fruição de 'determirrvudas terras do casal ; decretado o
divórcio entre o cedente e ,sua mulher, esta propôs acção para rescindir
o contrato celebrado pelo marido e reaver as terras, que eram bens pró-
prios dela . Discutiu-se se o juízo competente para a acção era o domi-
cílio 'do réu (comarca de Évora), ou o Ida situação das terras (comarca
de Redondo) ; na 1 .° e 2 .° instância julgou-se competente o tribunal do
donricíl'io do réu ; o Supremo decidiu que o juízo competente era o da
situação 'dois prédios, por força -do arbigo . 3 .° -do Decreto n .° 12 :353 . E argu-
mentou assim : pela rescisão do contrato, pedido fundamental -da acção,
,o que a autora p'ret'ende é reaver, e portanto reivindicar, o- usufruto e
Capítulo III -Da competência interna 175

fruição dos bens que lhe pertencem, de sorte cfue a acção tem par objecto
fazer valer o direito ~l' d(e usufruto.
Mas logo ia seguir, o acórdão observa : poderá ainda, dizer-se, com
razão, que o (d'ontrato'oelebra'do entre o réu e o mari'dio da autora foi um
verdadeiro contrato de arren&nnento e que por isso a acção visa a obter
a rescisão desse contrato e o despejo das terras, sendo competente para ela
o juízo da situação, nos te~ do n .I 3.° do artigo 21.° do Código de
Procesoo Civil (de 1876) .
São manifestamente contrálditórios os dois fundamentos. Se a acção
era de rescisão de contrato de arrendamento e despejo, tinha por objecto
fazer valer, n£o .uim direito real, mas um direito de obrigação . 0 tribunal
oompeltente, em tal caso, era. o da situação dos prédios ; -mas essa compe-
tência provinha do n." 3.° do (artigo 21 .° do Código velho, e não do artigo 3
do Decreto n." 12 :3'53' .
Através do confuso relatório do acórdão, a impressão que se colhe é
a de que se tratava de um contrato misto 'de arrendamento e de parçaria
agrícola, celebrado pelo marido sobre bens próprios da mugher . Decre
taido o divórcio, a mulher entendeu qu'e tinha motivo legítimo para fazer
cessar o contrato e reaver a fruição deis prédios. A acção era, portanto,
de despejo. Hoje aplicar;se-ia, nab o proémio do artigo 73., nvas a 2." alí-
nea do artigj>. Nã'o se tratava de urna acção de reinvindicação do direito
real de usufruto, como o acórdão diz, mas de uma acção de rescisão de
contrato. A entrega das terras 'era consegniênoilâ rdi;recta da rescisão'.
Não é igualmente de aplaudir 'a d'eci'são dy Supremo Tribunal de
J'ustiça em aeó(rd'ãb dh 24 de Abril (de 1930 (Rev. de Leg., ano 63.°, pág. 14'8),
ee'gundo o qual está abrangida pelo antigo $." do Decreto n^12 :358 e deve,
por isso, ser proposta no juízo -da ~situação do prédio, a acção que o pro-
prietário de um dos 'andares de uma casa intentar contra o domo de outro
andar para lhe ser reconhecido o d'amínio do seu 'andar e o réu ster con-
denado a pagar a despesa feita com a reconstrução da frontaria da casa.
Condo se vê, tratava-se de uma casa de dois andares, rada um dos,
quais pèrtencia a dono diferente. A frontaria da rasa teve de ser recons-
truída ; a, despesa, foi feita pelo domro do '1." andar; como o dono do 2.0 andar
,se recu~sle a embol'sá-lio da parte que lhe cumpria pegar nas despesas'
da reconstr'uç'ão, o dono do 11 andar propôs acção contra o dono do 2:°
a p'êldlr o referido pagamento. A acção foi proposta em Lamego, juízo da
situação da cisas ; o réu arguiu aincompetência do tribunal, alegando que
o juízo competente era o do !sena domicílio, Porto, pois a -ficção não visava
qualquer (direito real sobre 52nóveie~. 'Tanto a 1.° iinstân~ia, como a 2.` e
o Su~o julgaram competente o foram rei sitas. Fundamento : o autor
pefi'a na acção, ern, primeira lugar, que lhe fdsse reconhecido o domínio
do 1.° andar da casa; portanto a acção tinha por objecto fazer valer o
dfreito real de propriedelde sabre um imóvel .
A excepção de Incompetência devia ter sido julgada procedente .
certo que se pedia, noa acção, que o réu foisse condienoJd'o: a) a reco-
nhecer que o autor' era, proprietário dIo 1.° andar ; b) a pagar 4.11'4$35,
parte das despesas fei'tás com a- demolição e reconstrução da frontaria.
17 6 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

Mas o que verdadeirprn'ente caracterizava a acção, o que constituía o.


objecto próprio do litígio era o 2 .1 pedido . Com a facção proposba o autor
não reivin'dic'ava o domínio do 1.* andar ; para que ia acção fosse de rei-
vindicação, era neçessár5o que o direito real de propriedade, pertencente
ao autor, -houvesse sido oferidilda por facto do réu, insto é, que este se
tivesse abusivamente instalhdo no 1.° andar, incul~d~ dona dele ..
Vê-se nclaramente que não hera assim ; o réu n'ã'o [se arrogava o domínio
do 1.o andar, não praticara, facto 'algum lesivo do direito de propriedade
do autor, não lhe contestava escoe direito. Não havia, pois, litígio entre o-
autor e o réu sabre o domínio do 1.o andar. Tanto bastava para se poder
afirmar, earn toda a exact$dão, que a acção não tinha p" objecto fazer
valer lontra o réu o direito real de propriedade do autor sobre a' 1.' andar-
da casa .
As partes só estavam em conflito sobre um ponto : o autor jul-
gava-se credor do réu por 4' .114$35, por entender que aio réu, como domo
do 2.° andar, cumpria pagar essa quota parte das -despesas feitas com a
demolição e reconstrução da frontaria ; o 'réu, pior qualquer circunstância,
recusav"e 'a pagar essa quantia. A acção tinha, portanto, carácter nitida-
mente pessoal : destinava-se a fazer valer, não um dlreRb real, mas um
direito de obrigação. A afirmação do domínio sobre o 1.o andar, por parte
do autor, não era o fim verdadeiro da acção; era um dos 'fund'amentos dela,
ou molho-, era a razão dn facto de o auitar ter ocorrido às despesas de
demolição e reconstrução da frontaria.

4. Mandam-se propor nb mesmo tribunal (da situação dos bens) as.


acçõess possessórias a de posse judicial avulsa, as acções para arbitra-
mento, as de despejo, as de preferência sobre imóveis e as de reforço,
reduçãh e expurgação de hipoltecas.
A fonte desta parte do artigo 'foi manifestamente o n,° 3.° do artigo 21 .°
do Código anterior . 5ó aparecom 4uals espécies novas : as acções de pre-
ferência ~e as de expurgação de h'ipotec'as.
Acções possessórias . No Código de 1876 dizia-se «aquelas em que se
tratar de pois~
; no artigo 91 ." do Projelcbo 1ha-ISc : «'as acções . poseó-,
rias, compreendida aposse judicial avulsas. No Código actual separou-se
a acção de posse judicial avulsa das acções po~ssórias .. Isto mostra, sem
sombra de dúvida, que pela expressão «acções passessóriiasb se quiseram
designar as acções dei que sie ocupa a secção 1` do capítulo 7. do título 4.°
do livro 2.°, artigos 1032 : a 1035 :° Com efeito, 'essa secção tem precisa-
mente por epígrafe «Acções posg~asx e abrange a acção possessória
,de prevenção, a acção de manutenção e a acção de restituição de posse.
Pel"a que respeita aos embargos 'de terceiro, poeto que sejam um
meio pos~ório, não estáo compreendidos, n~e¢n o podiam estar, visto
que são dependêmila do processo em que tiver !sido ordenado o acto ofen
sivo dia polslse (art. 103'7..°). A postse'judicial avulsa, dle que se trata rios
artigos 1043 .° a 1054.°, é menáionad'a expre'ssam'ente em separado.
Não 'se exige que as acções possessórias e a posse ju'd'icial avulsa
recaiam sobre imóveis; e cento é que p'od'em ter por objecto coisas
Capitztlq III-Da competência interna 177

móveis . Num e noutro caso deve considerrar.se competente o juízo da


situação da corsa, uma vez que, tendio-se restringido às acções' de prefe-
rência sobro móveis o preceito ~do foram rei sita!, não se fez restrição
idêntica quanto :às acções possessórias.
A pmovidrencia preventiva e cánse'rvatória da restituição provisória
da passe (ara. 400 .0) também deve ser reque!r'idã no juízo da situação da
coisa, não directamente por força da 2 .° alínea do artigo 73 .°, mas por força
do disposto na a'1'ínela d) do artigo 83 .°
Estranha o sr. Dir. Palma Carlos (Cód . de Proc . Civ. anot ., vol . 1 .°,
pág. 268) que se tivessem mencionado as acçoe!s possessérias e a de posse
judicial avulsa, depois de se haver formulado a regra, -da 1 .° parte do
artigo 7,3 .° Para quê, se nas acções de posse se faz valer um direito real?
A explicação do facto não é a, que o sr. Dr. Palma Cár'los apmsenta :
terem-se fundido, no ;ar4tigo 73 .°, !as disposições do artigo 10 .° do Decreto
n ." 21 :287 e do n ." 3 .° do artigo 21 .0 dá Código de 76. A explicação é
outra . Teve-se em vilsita a enumeração de direitos reais feita no § 1 .° do
artigo 9 .49 .° do Código Civil e a posse -não figura nessa enumeração,
Já se pretendeu sustentar que a posse judicial avulsa de prédio adqui-
rido por ~airremataçao em processo de execução devia ser requerida, não
na comarca ida situação do prédio, mas na comarca da execução e no
próprio processo executivo. 0 lacórdã'o do Supremo Tribunail de Justiça
de, 9 de Julho ,doe 1940 (Rev . de Leg ., ano 73 .°, pág. 392) decidiu que o juízo
competente é o ~da comarca da situação ; e na verdade, tanto em face do
alïigo 73 .° do Código (actual, como em face do artigo 145 .° do Decreto
n." 21 :287, a posse judicial avu'1'sá está sujeita ao forum rei sitae . Que a
Coisa de que se pretende tomar posse tenha sido adquirida por meio de
arrematação em processo de execução, nada importa para o caso .
Alegava-se que a posse deve considerar-se um fncidente do processo
de execução, quando a coisa haja sido adquirida em arrematação feita nesse
processo ; mas a alegação nãá'tinha base alguma. Na.da autoriza a afirmar
qu'e -a posse jud'ici'al avulsa seja um incidente do processo em que se
adquiriu a coisa doe que pretendo tomar-se poisse (Veja-se na Rev. de Leg.
cia . a anotação ao , acórdão do Supremo) .

á . Acções para a.i- bitramento . Esta designação tem um sentido pre-


císo, porque corresponde à rubrica do capítulo 9 .° do título 4 .° do livro 2 .°
(aias. 10,51 .° e sega.) .
Abrange, pois, as 'acções de prevenção contra o dano, expropriação
por utilidade particular, cessação ou mudança de servidão, tombamento
ou demarcação, destrinça de foros e censos, redução de prestações incer
tas, divisão de águas, dvisão de coisa comum, e todas aquelas em que se
pretenda ia realização de um arbitramento (art . 1051 .°) .
Os artigos 1062 .° e seguintes, subordinrnados ao capítulo das acções de
arbítramento, estabelecem o processo ~a seguir para a regulação e repar-
tição de avarias grossas ; poderia, por isso, parecer que também esta
acção está sujeita as forum rei sitae . Mas paira a regulação e repartição
de avariai, grossa há um preceito particular de competência : o do artigo 78.0
12 --Cf1OIO0 P& PROCESSO CIVIL
17 8 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

É este que dleve ser observado e não o da 2 ." afinea do airtiga 73 .', banto
mais que dificilmente sie poderila adaptar ao caso a regra do foro da
situação dos bens.

6. Acções de despejo. Propôs na Comissão Rlevisdna o Sr. Ministro


da Justiça que se sujeitassem ao forum rei sitae as acções de arrenda-
mento, que não é o mesmo que acções de despejo. O alvitre não foi
aceite . O sr . Dr . Palma Carlos, depdis de re0st'ar este facto e de citar,
corno acções emergentes do contraato de arrendamento a 'acção possessória
intentada pelos inquilinos nos termos do artigo 20 .° do Decreto n .° 5 :411
e a execução para prestação de facto quando o prédio arrendado careça
de obras (art. 17 .° do mesmo observa : «efectivamente não era neces-
sário fazer referência especial a tais acções, porque elas se destinam a
fazer valer o direito real da habitação, estando, por isso, abrangidas pe'l'a
1 ." parte do artigo» (ob. cit., pág. 26'4) .
Não é exacta ~a 'observação 'do douto advogado. Pelo contrato de
arrendamento o arrendatário adquire o direito de uso e fruição do prédio
arrendado, mas não fica sendo titular dum direita -de propriedade imper
feita, do direito real de urso e habitação regulado nos 'artigos 2254 .° e
seguintes ido Código Civil, ou do -direito real de usufruto disciplínaldo nos
artigos 2197 . e seguintes do mesmo Código ; o seu direito é um direito de
obrigação, portanto um !direito pessoal, e não um direito real (Dr . Pinto
Loureiro, Gaz . da Rel. Lx .°, ano 54 .°, pág . 263) .
Se o arrendatário quiser, com base no artigo 20,° do Decreto, intentar
alguma das acções possessória dos artigos 1032 ."-1035 .°, há-de intentá-las
no juizo da situação, não por força da 1 .' parte do artigo 73 .', mas por
força da 2 ." parte deste artigo ; se quiser exercer o direito que lhe reconhece
o artigo 17 ." do decreto, há que distinguir. Ou o arrendatário opta pela
rescisão do contrato e indemnização de perdas e danos, e neste caso tem
de propor acção ordinária, surnária ou sumaríssima, conforme o valor ; ou
opta, pela solução de mandar fazer os reparos por conta do senhorio, e
neste caso tem de usar do processo que hoje corresponde ao do artigo 901 .°
do Código anterior, isto é do px- oce!sso regulado nos artigos 903 .0 e seguin-
tes do Código actual . No 1 ." caso o tribunal competente para a 'acção é
o do domicílio ~do senhorio (art. 8'5 .") ; no 2 .° caso, visto que 'se trata de
execução para prestação de facto, não fundada em ~sentençà, a regra de
competência a aplicar é a da alínea c) da artigo 94.°
Não são, por't'anto, quaisquer acções emergentes do contrato; de
arrendamento que têm de ser propostas no tribunal da situação do prédio
arrendado, como a acção para pagamento da renda, a acção para exigir
do arrendatário o cumprimento de determinadas obrigações assumidas no
contrato, a acção do arrendatário a pedir ao senhorio a entrega do prédio
arrendado, etc . ; são ìznicam'ente as «acções de despejo» . E o que deve
entender-se :por esta expressão?
A fórmula tem um significado técnico rigoroso : designa as acções
pi-cpostas pelo senhorio contra o arrendatário para fazer cessar o arren-
damento e obter- a entrega do prédio arrendado . E fala-se dle «acções»
Capítuio III-Da competência interna 17 9

e não de «acção», porque, na verdade, há pelo menos duas acções doe des-
pejo di'sl;'infa5i : a) !a acção para fazer cessar o arrendamento no fim do
prazo (art. 970 .°) ; b) a arção para fazer ces~sa~r o arrendamento imediata-
mente (a rt. 977.') . .
É < , ;aro que a acção não deixa de 'ser de despejo pelo facto de se
empregar o, provesse ordinário ou sumário, em vez do processo dlspe-
cial dos artigos 971." e seguintes, porque uma acção caracteriza-se
pelo fim a que ;se de!~tina, e não pela forma doe processo que para ela se
adapta .
Também não deixa de-ser de despejo a acção pelo facto- de ser pro-
posta pelo adquirente Ida prédio arrendadoo, em vez doe o ser pelo senhorio,
isto é, perla pessoa que, como tal, -outorgou no contrato de arrendamento
ou pelo seu herdeiro . 0 artigo 977.`, alude expressamente ao adquirente
do prédio e reconhece-lhe o direito de intentar acção de d'es'pejo . 0 que
importa é que a acção se destine a fazer cessar um arrendamento e a
obter a E5ntrega do prédio arrendado .
A dúvida que poderá surgir é a respeito do des'p'ejo previ-sto e regu-
ladb nos artigos 990.° e 991 .° Nos casos destes artigos o mandado de
despejo não bem por base uma sentença proferida na acção declarativa
dons artigos 971 .° e seguintes ; o fundamento é a notificação do arrendatário,
o auto de verificação da oposição de escritos, o facto da oposição, ou a
declaração escrita db arrendatário de que se considera desp'edidü~ Em que
tribunal deverá requerer-se a expedição do mandado?
Cremos que no tribunal da situação do prédio .
Os °asos mencionados padem, sem esforço, considerar-se abrangidos
pela expressão «acções die d'espe'jo» 'da 2 ." alínea do artigo 73 .° Na hipó-
tee+e regulada no artigo 991." o proces,o apresenta a configuração duma
verd'ad'eira acção de despejo ; nas hípóte, ses a que se refere o artigo 590.°,
os contornos 'nã'o -são tão nítidos, mas é, em verdade, dia! acção de despejo
que se trata, senão de acção declairativa, pelo menos de acção executiva.
Pelo facto de o aspecto executivo prevalecer sobre o aspecto declarativo,
não se segue que a acção seja de 'despejo .
É também na ;sede do tribunal da situação do prédio que deve reque-
rer--se o depósito da renda, quando ainda não esteja pendente a acção de
despeja (art. 994.°) .
Em vista do disposto no artigo 983.°, não pode deixar de classifi-
,car-se como acção de despejo a que o parceiro proprietário proponha
contra o parceiro cultivador para 'obter a cessação. da parçaria agrícola
e a. 'entrega adia respectivo prédio. Por isso tal acção está sujeita também
ao forum rei sitae.

7. Acções de preferência . Esta espécie foi incluída na 2 .° alínea do


artigo 73 .° por proposta, na Cbrcnissão Revisara, do sr . Dr . Sã Oarnetiro.
Como o seu nome indica, as acções doe preferência são as que têm
poi: objecto exercer o direito de preferência, 'isto é, o direito que uma
pessoa tem de se substituir, tanto por tanto, ao ad'quir'ente, por título
oneroso, duma coisa ou dum direita sobre ela .
180 Livro II-Da conapetêncicn , e das garantia .s cl (i ünpar~iulé~nclr~

0 Código' Civil reconhece o direito de preferência ao co'ml)ropi-ie-


tário, no caso de venda, a estranho, da quota parte de coisa indivisa
(art . 15166 .") ; ao senhorio directo, no caso de o foreiro vender ou d'ar em
pagamento o prédio aforado, c ao enfiteuta, no caso de o senhorio directo
vender ou dar em pagamento o foro (art. 1678 ." e § 1 .") ; ao senhorio
directo, e não querendo este ao enfiteuta, no caso de o subenfiteuta ven-
der ou dar em pagamento o prédio subenfitêutico, ao subenfiteuta, e não
querendo leste, ao enfiteuta, no caso de o senhorio vender ou doar em paga-
mento o domínio directo, ao senhorio directo, e não querendo este, ao
subenfiteuta, no caso de o forei'r'o vender o seu domínio (art . 17,03 ."
e §§ 1 ." e 2 .°) ; ao c'ensuísta, no censo i-eservativo de pretérito, quando o
censuário vender ou der em pagamento o prédio censítico, e ao censuário,
quando o censuísta vender ou dér em pagamento o censo de pretérito
(art . 1708.", com referência ao -art . 1678 .") ; ao posseiro, quando algum dps
quinháeiros vender ou der 'em pagamento o soeu quinhão, aos quinhoeiros,
quando o posseiro vender ou der em pagamento a sua posse (art . 2195 .",
§'§ 1 .o 'e 2 .") ; aos proprietários de prédios encravados, quando os donos
das -prédios onerados com a servidão de passagem venderem, aforarem
ou derem em pagamento os seus 'prédios, aos donos dos prédios servien-
tes, quando o pro'p'rietário dò prédio encravado o vender, aforar ou der
em :pagamento (art . 2309 .", § 1 .") .
A estes casos pode acr'escentar~s'e o do artigo 11 ." da Icei n ." 1 :662,
d'e 1 de Setembro de 1924 : direito de preferência a favor db princi-
pal locatário, comerc''ial ou industr;al, no caso de venda do prédio
arrendado .
Em todos estes casos é evidente que, efectuada a venda, 'a dação em'
pagamento ou aforamento, sem que o titular do direito cie preferência
tenha sido notificado ou avisado para exercer, querendo o seu direito,
es`de .pode propor acção para se substituir ao adquirente, tanto por tanto ;
a esta acção é que cabe o nome de acção de preferência .
Nos termos da 2 ." alínea, do artigo 73 .", é no tribunal da situação do
imóvel, objecto da venda, aforamento ou dação em pagamento, que a acção
bem de 'ser proposta .
Nos casos apontados, exceptuado o previsto no artigo 1566 .", o
direito de preferência recai sobre coisa imóvel ; portanto a 2 .'` alínea do .
artigo 73 ." tem manifesta aplicação . No caso do artigo 1566 .0 é que a
compropriedáde pode ter por objecto coisa imóvel o`u coisa móvel ; na,
1 .a hipótese aplica-se a mesma alínea, na 2 .°, tem de observar-se a regra
do artigo 8'5 .°, a não ser que tenha cabimento algum outro piwceito especial
de competência.
Pode . s'uced'er que a relação jurídica a que dá lugar o direito de pre-
ferência ponha em contacto vários prédios, situados em circunscrições
diferentes. É. o caso do § 1 ." do artigo 2309 ." do Código Civil, quando o
prédio encravado esteja situado numa comarca e os prédios servientes
estejam em comarca contígua. 0 que tem de considerar-se é a situação
do rprédio que foi objecto da venda, dação em pagamento ou aforamento,
visto que é sobre ele que vai exercer-se a preferência.
Capítulo III-Da competência interna 18 1

Ao lado idos casas mencionadas, há outros em que o direito de pre-


ferêncita tem como resultado, não a aquisição dle 'um imóvel, mas a aqu'i-
siç'ão de 'um direita de fruição ou de uma universalidade, 0 § único do
artigo 1676 .° dso Código Civil atribui ao senhorio directo o direito de prefe-
rência no caso de o foreiro doar de arrendamento o prédio por tempo
superiora dez wnds ; o § 1 .° do artigo 2309 . estabelece, , a favor d .-> proprie-
tário de prédio encravado, o direito de pr'eferênci.a, no caso de o proprietá-
rio serviente (lar do arrendamento, por mais de dez anos, o prédio onerado
,com a servidão de passagem, e vice-versa ; o § único dá artigo 9 .o da Lei
n .° 1 :662 reeonhece ao senhorio o direito de preferência no casso de tres-
passe do 'est'abel'ecimento comerc'ia'l ou industrial instalado no prédio
arrendado . Também estarão sujeitas ao forum rei sita,e as acções dlesti-
nad'as a exerce:- o direito de preferência nestes casos?
0 sr. Dr . Pinto Loureiro põe 'a questão e resolve-'a em sentido nega-
tivo, pela consideração de que o objecto do direito de preferência, nos
casos indica'd'os, é o direito ao arrendamento, que é um direito de crédito
, ou de obrigação, de natureza mobiliária, 'e o direito a uma universalidade
('o estabelecimento), que é também um direito de obrigação, mobiliária
portanto (Gaz . da Rela de ano 54 .°, págs. 163 e 164) .
Merece-nos alguns reparos esta 'doutrina . Pejo arrendamento o
arrendlatárib adquire 4) direito ~de fruição db prédio arrendado -direito de
obrigação noa verdade, mas, direito relativo a um imóvel : o exercício do
direito de preferência no caso de 'arrendamento não importa a aquisição
do prédio, mas 'importa a aquisição de um direito sobre ele. Portanto, em
úl'tim'a análise, o direito de preferência incide sobre um imóvel.- Não há
razão para excluir a acção de preferência, no caso dse arrendamento, da
fórmula áacçõk_-s de preferência sobre imóvgéis» .
Quanto ao caso previsto no § único db artigo 9 .° da Lei n.° 1 :662, há
que atender ah disposto no § único do 'artigo 73 .° D'iz-se aí que ase a acção
tiver por dbjec~to uma universa!li iãde de bens, será prop~a 'no tribunal
da situação dos imóveis de maior valor . Desata dispdsiçãb ~se infere que,
para os efeitos do artigo 73 ;-a universalidade de bens em que haja imó-
:
veis 'é, tratada como coisa imóvel ; logo, se o estabelecimento comercial
trebpassado compreender algum imóvel, a acção d'e preferência por .p'arte
do senhorio do prédio arrenId~ado para o exercício do comércio ou da
indústria considera-ise como ~indo sobre imóvel .

8 . Reforço, redução e expurgação de hipotecas . 0 n .o 3,° do artigo 21 .o


do Código doe 76 falava, só do reforç«'e redução se híp sbeca ; acrescentou-se
a acção de expurgação .
Nb Código anterior a acção -de reforço doe hipoteca seguia o processo
especial do artigo 61.8 .° ; a acção doe redução, o processo especial do
artigo 5.28 .o No Código actual não :há processo especial parla 'a acção de
r~eduçãb, sujeita portanto ao processo comum ; do reforço de hipoteca
trata-se noa artigos 446 .° e seguintes, mas a isecção respectiva está subor-
dinada à Inscri~ão «Das processos preventivos e conservatórios» (cap. 4 .
do tít . 1 .° do liv. 3 .*) .
182 Lii ,ro dI-Da. awn.preténcia e doas garantias da imparcialidade

Tendo-sie considerado os prroceissois de pres'taçã'o e -de reforço de


caução como pik)ceslsos preventivos e conseirvatórios' e havendo um texto,
o artigo 83 .", em que se estabêlêccm,-as i"egras' de competência t("rr¡itorif
para oka i+eferidos proce'sso's, pareicie que não devia falar-se, na 2 ." alínea
do artigo 73 .", da acção de rled'ução de hipoteca . A acção de redução de
hipoteca é, sem dúvida ~alguma, a que efstá regulada nos artigos 4'411 ." e
seguinte1s ; mas estia, como acção conse ,rvatóri'á, está sujeita ao disposto da
alínea d) dio artigo 83 ." Parece, pfis, haver, nesta parte, confilto entre
o artigo 73 ." e ia ia'línlea d) do artigo 83 ."
Não existe conflito, pela razão (simples de que -a alínea d) do artigo 83 ."
iá ~inapficável à acção de reforço de hipbiteca . 0 pedido de reforço de
hipoteca nade surgir como incidente de uma causa : é o que su, " ede nos
casos previ'stois nos artigos 451 .° ~e 452 . 0 ; m'a!s não é iaeto preventit,u e pre-
paratório de uma acção, a que haja, de apllicar-se o artigo 387 ." Quando
não r+evdste a, figura' de ineidên'te, o reforço dê 'hip'oteca tem ia fisioromi'a
de uma acção autónoma : acção cbnservató~ria sim, mas acção independente,
e não lacto preparatório de uma outra acção a que 'enteja ligada .
De (sorte que o preceito de competência a aplicar à acção conserva-
t.óri .rl de reforço de hlpo~tecia é o ido, artigo, 73 .°, e não o da alínea d) do,
artigo f3 ." ; simplesmente, ia s'u'jeição do processo de reforço de hipoteca
ah foro da situação do prédio deviia estar inslerlta no artigo 83 .", uma
vez que este consliderrou esse pr:oc!essb como preventivo e conservatório .
A explicação do facto 'é a .seguinte : pelo, Prloj*to primitivo a acção de
rcetbrço de hi'p'oteca figuirava', como acção (autónoma, no~ título dos proces-
eas ~dspeciais (arts . 813 .° e 'sega.) e por isso compre'endi'a-se perfeitamente
que dela- se fizesse menção no iaritigo 91 .°, carrdspondente ao artigo 73 .0 do
Código ; foi a Comissão Riev+iisora que de'li'berou desIbeá-ufa para o capítulo
relativo aos proc5soq preventivos e conservatóriiob e não houve o cuidado
de fazer, nia regra de c'om~ncia territorial que lhe dri'zia respeito, deslo-
cação parla'leDa, tran~índo,-a do a)rt'i'go 73 .° para o iarfiga 88 .°
É c!l'ahro que ia d'spoisiçã)o do artigo 73 .° só pode apl'i'car~se quando se
não verifiquem ois c'alsds previstos noas artigos 451 .° e 45'2 :° Se a h'ipoiteca
tiver sido constituída jud .iciia'lmente, o reforço, quando necessário há-de
ser requerido no processo de constituição ; ~-se ia hipoteca tiver sido pres-
tada por uma dais partes à 'segurança da outra e portanto como incidénte
de unia causa., o reforço tem igualmente do, ser requerido no, processo de
prestação . d prjeceith do artigo 73,." fica, pois, para o casa de -ter sido
constituída voluntàri'ame:nte ou extrajud'ici'lâmente a hipoteca que se pre-
tende T~ar.
 acção de expurgação Ide hipoteca corresponde processo f:special,
que se acha regulado nas 'artigos 999 ." a 1005 .°', ou melhor, cor¡r+esp'ond'em
três processos especiais d'ifer'entes, conforme se verifica o caso do n ." 1 .",
cio n ." 2 .' ou ,dia n." 3 .° do antigo 938 ." ido Código Civil : o processa do
artigo 9199 .0, o do artigo 1 .000 .°, e o dóis 'artigos 1001 .° a 1003 .° Ora bem,
o precevto de domp~etênciu do artigo 73 .° só se aplica acs p'rocéssds regula-
dos nas ax'digois 999 .' e 1001 .°, courespondentes abes case previstos nos
n.°s 1 ." ~e 3 .° dio artigo 9'38 .° do Código C'i'vil . No caso do n,° 3 .0 do'artigo 938 .°
Capítulo Ill-Da competência interna 183

deste Código e do artigo 1000 .° do Código 'de Processo a expurgação coars-


titui, por assim dizer, um incidente do processo em que teve lugar a venda
ou a adjudicação juldici'ad . É b que se infere da locução «mesmo pro-
cessbr», que se lê na segunda !alíáea do artigo 1000.° Se .compararmos o
texto do artigo 1000." com a do ,artigo 820 .0 doo Projecto primitivo, que lhe
corresponde, b 'sentido dIa expressão «mesmo proc~jgso» torna-se bem
claro . O artigo 820 ." do Projecto, entre as palavras «ou por adjudicação
c'om precedência de hasta pública» e as palavras «'e todas os credoires hipo-
tecáriois . . . houve~ sido rnatificudbs» intercialava esta frase : «em pro-
c:éssb judicial periÊht'e algum tribunal civil», frase que se -encontrava no
§ 1 .° -do antigo 53'2." do Cl&d'igo ide 76 . Eiia com lesta frase que ositava rela-
ai'cmada ~a fórmula, «mesmo processo» da 2 .° alínea do artigo 820 .° do
Projecto .
De mlodo que em face db Projecto era manifesto que o d'e~pósïto do
pr~eço, a citação dois credIares e a diedução dos direitas destes tudo tinha
lugar no procless'o judicial ern que ~a coisa, hipotecada havia s1idb adqui
rida, o que equivald ia dizer : a expurgação 'era um incidente 'dIe:`;e pro-
cessa.
E nestla parte o Projecta não fize1ra senão re-prolduzir a doutrina do
Código de 76 .
O artigo 851 .o do Prbjedto emanado dois trabalhos da Comús~ão- Revi-
gora, corre,1ponidíente ~ao artigo 820 .° ido Projecto primitivo ;ainda conseT-
vava a frase «sem processo judicial perante algum tribunal civil» .
Foi na reviis~Lo ministerial que essas palavras ,desapareceram . Supri-
miram-ase porquê? Porque se julgaram, d'esnecessári'as . Mas ficaram as
palavras «nio messmo processo», que com elas' estavam em cbrraespon-
dência .
Parede-nas, em todo o c'aaso, que a 'essas palavras não pode deixar , de
atribuir,se o !senltidb que tinham 'antes dia eliminação operadá na revisão
ministerial . «No mesmo processo» quer dizer no processo m que a
coisa hipdtecada tiver sido ad'quirid'a .
Dir-se-á : «rio mesmo pruce.s a» significa no procels~so sem que sie efec-
t:u!a a aitiaçã'o . Os credIorc1s são citados parai virem 'ao processo de expur-
gação, que na'd'a 'tem. com o processo de aquiisição, deduzir os seus:
direitos .
A objecção não cbnven.ce . Para se 'exprimir a ideia de que os cre-
dores haviam de 'deduzir bas ~seub direitos 'no praceísso em que a citação se
efectuara, ia frase ano mesmo precesso» não eria neced3ária ; é claro que,
quando se cita alguém num processo para deduzir os seus direitas,
entende-'se que é nr,gge prbcosgo que os direittos hão-de ser deduzidas_
De moldo que a frase 'em questão só podia ter sido escrita para inculcar
que o processo 'de expurgação sie enxerta no processo de aquisição, da
cousa hípotecada.
Se a hipoteca recair sobre um navio, um autom~ó-,nel ou uma aeronave,
e juíza competente para o reforço, . a redução ou a expurgação não é o da
situação da coaisa hipotecadh, mas o dao' lugar em que se achar feita a
respectiva mátrícul'a (art . 73 .o, alínea 3 . 1) .
18,1 I,irro II-Da, ea~i7pelêru " irt e (Ias garantias da i)nparciali(la.de

No que respeita às hipotecas sobre navios, a disposição, de compe-


tência da 3." 'alínea do artigo 73 ." vem do artigo 172." do Código de Pro-
cesso Comercial, assim redigido :

«Estes processos (para reforço , redução e expurgação de quais-


quer hipotecas sobre navios) sorão instaurados no juízo comercial
em cuja isecreltia ., , ia s'e adiar matriculado o navio hipo'tec'ado .»

A matrícula di navio é obrigatória (Cócl . G:)nr ., art, 47 .`) ; e há-de


fazer-ase 'em qualquer Conservatória a cuja circunscrição pertença um
ponto de mar, salvo sie o- navio eS~tiver ainda em construção, porque
neste caso 'tem de fazer-se na Conservatória 'a que pel,tença o estaleiro
(Ke ;, i e 1,--11 ."-88, at`t. 2.", § 1.", e art. 51,.") . Na Conservatória em que o
navio ]se achar ma'tricul'ado e que -a hipoteca lrá-doe ser inscrita (Cód . Com
ai+t, <)9(J.") ; por isso, e porque o navio é coisa móvel, não está fixo num
d-terminado lugar, é que não convinha aplicar ao reforço, redução e
expurgação de hipoteca sobre navio a regra da 2.° alínea, do artigo 73 ."
Matriculado o navio na Cons'erva'tória de um certo porto e iniser'ita aí a
hipoteca, é na comarca a que pertencer essa Conlservatóri'a que a acção
d'e reforço  re(hrção ou expurgação tem ~de se!r proposta .
Não vá inferir~,se, d".). que acabamos de escrever, que a hipoteca só
podK~ ser reforçada, reduzida ou expurgada quando s!e ache r+egistad!a.
O regi's'to da hipoteca é facu'lt'ativo ; e a lei não exige, cmr,o requisito do
reforço, da redução ou da expurgação que 'se moistre feito o regi.sáo da
hipoteca. De modo que, ou a hipoteca do navio esteja inscri't'a ou não
esteja, é'semp~iae no tribunal a cuj'a circunscrição pertencer a Conlservatória
em que o navio ise achar m'atri'culado, que a acção da reforço, redução ou
expurgação há-de ser ' n's'tiaurlalda . O que quii'semos significar, com a refe-
rnci'a à inscrição, é que, sendo provávzl que 'a hipoteca haja s§içilo regis-
tada, pois sem 'o regis-to não produz ~efeitos em relação -a 'terceiro, e
devendo o r,egilslto fazer-se na Conservatória da mlatríc'ullla mais uma razão
para declarar competente p'ar'a 'as acções a que nos referimos o tribunal
a cuja circunscrição essa Co'nls!or-vãtór!i'a pertencer.
Quanto às hipotecas sobre automóveis, a matéria acha-se regulada
no D'ecre'to n .' " 19 :832, de 4 de Junho de 1931, e respectivo r~egulame'nto que
se 'lhe segue. O território do continente e i8has adjacentes ~eístá dividido
em .> cii°cu'nsci~ições, com se.+d'e no Porto, Coimbra, Lisboia, Ponta Delgada
e Funchal (Cód . da Estr'ad'a, art . 2 ."), Em L'i!sboa-e Porto há conscrrvaclare's
prívativos do registo da prnrprhadaIe aut'omóv'el ; em Coimbra e Funchal as
funções dtie conservadoir do r^egi[sto 'd'e praprie, dlad!e automóvel são desem-
penhadas pelo cons'erva'dor do registo c=ereial ; em Ponta Delgada, pelo
conservador dlo registo pr'edia'l (ltegulam'ento cit., art. 2.°, §§ 2." 'e 3.") .
A cada circuns'criçáo c'orrespon'de uma comissão 'técnica de automo-
bilismo (Cód, da Estrada, art. 3 .") ; e uma das funções desta camilssão é
registar todos os veícu'lo's automóveis existentes na circunscrição, mencio
nando noa respectiva nz.atríczda o nome e residência do proprietário, as
caract'eríst'icas do veículo, bem como todas 'as alterações que ne'la's se
Capítulo III-Da competência interna 185

forem verificando (regulamento .para a execução 'do Cód . dia. Estrada, apro-
vado .pelo Dec . n.  19 :'"6, de 31 ,3 "-931, art. 3 .", n ." 5 .o) .
Sobre os automóveis podem ~Ailtuir-se hipotecas voluntária, ou
negais (Dec . n." 19 :832, art. U) . Ais hipotecais estão sujeitas a registo (Reg .
db Dec . n." 19 :832, art . 27.", n." 1 .') ; o registo não pode efectuar-se sem
" qule prèviamente se faça o registo ida propriedade (Dec . n ." 19 :832, art . 5 .") ;
a Conserv'atbói4a competente para o registo é a que funciona na sede da
respee'tiva nircunscxição (Dec. n ." 19 :832, art . 3." Reg. cit ., art. 29 ."),
Isto é, na ssede da Circunscrição em que o automóvel csltá matr'iculaldo, nos
termos do n." :ï ." Ido art. 3 ." db Reg . ap .rgvado pelo Dec . n.° 19 :545) .
Portanto, matriculado um automóvel, por exemplo, na circunscrição
de Coimbra, é ,na Con!yervatória do registo comerc'ia'l de Coimbra que se
há-de registar a proprieIdade do veículo e a hipoteca que `sobre ele se
constitua ; ia acção de reforço, redução ou expurgação da hipoteca tem de
correr rua comama de (,oimbra. A frase do artigo 73 ." «serão instauradas
Tila c'ircunscriçã'o dia respectiva matrícula» há-de entender-ise, no tocante
aos automóveis, neste sentido : no tribunal da sede da circunscrição em
que o veicu4a se acha matrkuliaido .
Pelo que respeita a aeronaves, o texto ainda não funciona, porque
não há lei que' permita, a constituição doe hipotecas sobre elas . Quando a
aviação comercial 'e cívil ~s'e desenvolver, é natural que venha a estabe
3ecervse para os aéroplanos regime semelhante ao que vigora para os
automóv'e'is e então terá plena aplicação ~a 3 ." alínea do artigo 73 ."

9. O § únkho prevê a hipótese de a ~acção ter por objecto : a) ou uma


urdívenisa idhd'e de bens ; b) ou beras móveis e imóveis ; c) ou imóveis
s5tualdas em'circunscrïções diferentes. E determina que -a acção seja pro
po(sta no tribunal da situação dos imóveis de maior valor, devendo, para
esbe efeito, íslbo é, pamala averiguação do valor, atender-se à matriz predial .
Para que o precdito do § único tenha sentido, há, d'e entender-se que
a frase «situados em circunscrições diferenteisu se refere aos três casos
-coneti!derados. Quer dizer o parágrafo 'supõe :
a) Que a acção tem por abjecto urna univers'al'idade de bens em
que há imóveis ;
b) Que item por abjecto móveis e imóveis ;
c) Que Item por objecto sòmente imóveis ;
d) Que sem fados os três casos os respectivós imóveis estão situa-
dos em circunscrições d'iferear.tds.
Quando se dê qualquer dos três casos, o tribunal competente é o da
situação dos imóveis d~ maios- valor segundo a matriz predial . Duas dúvi-
das podem suscitar-sie
Sie 1 .' os imóveis, ou alguns deles não estiverem inscritos na matriz,
quid juris?
2 .a Como resolver, qüanã'o os imóveis 'tenham, segundo a matriz,
valor igual?
Quanto ,à primeira dúvida, )parece que, se a omissão na mia~triz disser
respeito a todos os imóveis, a determinação do valor deveria fazer-se por
18 6 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialiddde

meio de avaliação . 0 autor proporá a acçã.e no tribunal que julgar com-


petente por ser o da situação db~s 'imóveis -de maior valor ; se o réu ,arguir
a incompetência, alegando que têm maior valor os imóveis situados noutra
circunscrlição, estaria indiicado que a questão 'se resolvesse por meio de
avaliação feitapor louvados.
Mas surge uma dificuldade . 0 § 1 .° do artigo 111 .0 proíbe que no
inc'id'ente 'dia incompetência relativa 'se produza prova por' arbïtranlento
e ase efectuem diligências por carta. A única solução é portanto, esta :
ínquirem-se testemunhas sabre 'o valor e o juiz recolher os, elementos de
informãçãó que puder obter.
Se a oln'issão 1la matriz for relativa apenas a alguns imóveis, poderia
alvitrar-se que 'se altende~sse Lao valor dos prédios 'inscritos e se despre-
zaisse o das omissos. Semelhante solução seria contrária à 4èi . 0 pará
grafo estabelece !a preferêncl~a ;a falvor do tribunal da situação dos imóveis
de maior valbr e pode suceder que esses imóveis sejam precisamente os
omissos na iniatriz . É certo que mlauda atender, para ia determinação do
valor, aio que constar dia matriz ; mias isto pressupõe que a matriz nos
habilita a apurar qual, dentre os vários imóveis em causa,'tem valor mais
eTevadb. É claro que o pressuposto não se verifica, quando algum dos
imóveis não está inscrito na matriz .
Tem, portanto, dlese -adoptar piara esta, hipótese solução idêntica à que-
se defendeu paria o caso de a matriz isier omissa quanto a todos os imóveis.
A segunda dúvida não oferece dIficuldade . Se todos os imóveis têm
o mesmo valor, a regra db § único não pode funcionár. Não há então
motivo legal para se considerar exclusivamente competente um determi-
nado tribunal, o que significa que são, por igual, competentes os diferentes
tribunais d'a' «ituaçãb dos imóveis ; o autor poderá propor ~a 'acção em
qualquer deles.
É a solução que a 3 .' alínea db artigo esftabe4ece para o caso de a
hipobeca abranger várias automóveis ou navios matriculados em circuns-
crições difeTen". Aqui não se manda -atender ao navio ou ao automóvel
'de maior vapor ; dá,se logo ao Fautor o direito de propor a acção 'em qual-
quer dias circunscrições .
É ainda u solução ~adoptada na parte final do parágrafo para o caso
,de a 'acção dizer respeito 'a um único prédio, mas este achar-se 'situado em
,ma~s do que uma circunscrição territorial : o autor tem o direito de escolher
qualquer delas .
No n .° 3 .° do artigo 21 .° do Código de 76 consignava-se doutrina dife-
vente da que está hoje no artigo 73 .o Quando a acção recaísse sobre pré-
dios situados em circunscrições diferentes, não ~se atribuía competência
ao tribunal dá situação do prédio de maior valor, permitia-sie ao autor que
propusesse a acção em qualquer das circunscrições.
O § único do artigo-172 .' do Código de Processo Comercial, prevendo
o caso de a hipoteca'abranger 'vários navios matriculados em secretarias
díversas, dava ao autor o direito de escolheu, dentre os vários tribunais
em cuja secretarias os navios estivessem matriculados, aquele que lhe
conviesse para propor a acção de reforço, de redução ou de expurgação,
Capítulo III-Da competência interna 18 7

dh hipoteca ; a !salução era, portanto, a rnesm~a que está exarada na 3' alí-
n'ea do a~ 73 .°, posbo que a redacção defeitubsa do referido § único do-
artigo 172 .* pudesse dar, à primeira vista, impressão, diversa.
à
10 . O- artigo .' dos Decretos n .°' 12 :353 e 13 :979 é o artigo 10 .o do,
1kcrdto n .° 21 :287, depois de Fixarem a competência do juíza da situação
do préd'i'o 'para as acções destinadas 'a fazer valer qualquer direito rear
sobre bens imóveis, aci~ntsuvwn : xpódeÚdo deduzir-se cumulativamente
qualquer pedido que seja consequência !da'qu'ele» (o pedido de reconheci-
mento'do direito real') . Não ase lêem estais palavras no artigo 73 .° Parquê?
Porque sie julgaram despe~rias .
Em face do § único do artigo 5.o do Código de 76 não podia cumu-
lar-se um ppedido, pertencente a juízo especial com outro que não perten-
cesse ao mesmo juíz(>. A expressão «juízo êspecialb interpretava.-se no ,
sentido da miaior latitude ; entendia-se que por «juízo 'especial» se d)esi-
geava -ali não 196 o juízo especial em razão da matéria, como também
o juízo especial em razão do território . Daí vinha que não podia eumu-
larise uma acção sujeita ao .foram rei sitae do n.o 3 .° do artigo 21 .°, juízo
especial sob o ponto de vi-ata da competência territorial, com outra que
estivesse sujeita ou ao foro do domicilio do réu ora a um foro especial que
não corhueidisse com o -foro da situação do prédio.
Sendo este o regime do Código 'de 76, veja-se agora o que poderia
suce'd~er &pois da inovação introduzida pelo artigo 3 .° do, Decreto
n .° 12 :353 . Propunha~ uma 'acção de reivinldiéaçãb de prédio-, - o autor
pretendia nwturailmentE! pedir não só o reconhecimento do ddireito de pro-
prieda& e a entrega do prédio, senão também a - restituição -das rendimen-
" 'produzidos pelo prédio durante o período em que o réu o possuira
e a iMemnizaç'ão dos outros prejuízos causados pela usurpação . Para
0 1 .* pedido era competente, por força do referido artigo 3 .', o foro da
situação do prédio ; mas para o pedido de indemnização o forro competente
era o do domicílio do réu. Os dois pedidos' não poderiam cumular~
seguindo a. regra do § único do artigo 5 .° do Código. As palavras finais
do dito 'artigo 3 .° foriaen insertas para se tornar 'lícita a cumullação .
A dbutrinla do Código actual, no tocante a cumulação -de pedidos, é
diversa da do Código anterior. O facto de os 'pedidos pertenceron a tri-
bunois difer~ sob o ponto de vista da competência, em razão do valor
e do território não obsta à cumulação (art. 274 .°, combinado com o § único
do art . 29.o) ; não havia, pois, necessidade de manter, na 1." alínea do
artigo MI, as pafàvras finais do artigo 10 .° do Decreto, n .° 21 :287 .

ARTIGO 74 .°
(Competência para o cumprimento de obrigações)

~A acção destinada a exigir o cumprimento de obrigações


será proposta no tribunal do -lugar em que, por lei ou convenção
escrita, a respectiva obrigação devia ser cumprida .
18 8 Livro II -Da competência e das garantias da imparcialidade

Mas se a acção derivar ,de' facto ilícito, será competente


o tribunal do lugar onde o facto foi praticado.

Em face da Ordenação Filipina, todo aquele que f'assle citado por


causa doe algum negócio ou de alguma gestão, 'havia de ser demandado no
lugar onde houvesse tratado o negócio ou exercido a 'adminisitração (Oro.,
liv. 3 .°, tít. 11 .", § 3 .') .
Por convenção, o foro do lugar em que a parte se houvesse obrigado
a responder era competente -para as causas intentadas pela pessoa para
com quem se tivesse o'brigad'o, e o foro do lugar em que a parte se hou
vesse compi~:)metido a pagar uma dívida era competente para a acção
destinada a exigir o pagamento dessa dívida (Oro., liv . 3 .°, tit. 6 .°, § 2 .0) .
Mas se uma pessoa 'se obrigasse geralmente a resp'ond~er perante
-quaisquer justiças, só pudi'a ser ,demandada no lugar em que sie ac'has'se ou
no seu domicílio (Oro ., liv . 3 .°, ~t t . 6 .°, § 3 .°) .
O Código de 1876, entre as excepções à regra geral do foro do domi-
cílio do réu, mencionava as -dois n.°s 1 .1 e 2 .° do artigo 21 .o Pelo n .° 1 .°, as
-causas para que as partes tivessem estipulado juízo ou domicílio parti
cular, deviam ser propostas ~no juízo fixado pela estipulação ; pela n ." 2 .°,
as causas que dissessem respeito a obrigações ou actos para cujo cumpri-
mento estivesse :designado dumicíili'o particular, por lei ou convenção,
tinham de ser proposibas no juízo ido lugar em que devesse cumprir-se
o acto ou a obrigação .
Estes os antecedentes históricos do artigo 74~ :do Código actual .
Se agora indagarmos da sua correspondência na legislação co ,~rbpa-
rada, verificamos que o foro do contrato ou como Carnelutti o designa,
o foro causal, não foi admitido pelo Código brasileiro, mas está consagrado
:na maior parte das legislações estrangeiras .
O Código francês, em caso 'd'e escolha de domicílio para a execução
de um acto, permite que a acção ,sie proponha perante o tribunal do domi-
cílio esmilhido (art . '59 .°, última alínea) . O Código alemão atribui compe
tência ao tribunal do lugar_ onde deva cumpair,se a obrigação para as
,acções que tenham por objecto a declaração 'da existência ou inexistência
de um contrato, cumprimento ou revogação do mesmo e para a indemni-
zação por falta ,doe cumprimento (§ 29 .`) ; para as acções derivadas de actos
ilícitos, d'ecl'ara competente o tribunal do lugar em que o 'acto foi come-
tido (§ 32 .°) . A lei austríaca 'insere, no § 88,°, d'isp'osição semelhante à
do § 29.° do Código alemão . A lei espanhola m'an'da atender, em matéria
de obrigações, ao lugar do cumprimento e permite, subsidiàriamente, ao
autor que ~escolha entre o domicílio ~do devedor e o lugar do contrato se
aí ase encontra e pode ser citado o réu ('art . 62 .°, regra 1 .°) . 0 Código
italiano diz, como já vimos, que para as causas relativas a direitos de
obrigação é também competente o tribunal do lugar em que surgiu ou
deve cumprir-ase a respectiva obrigação (art . 20 .o) .

Se atentarmos cuidadosamente na feição que o foro do contrato apre-


senta neste breve quadro legislativo, descobrem-se dois tipos : a) o tipo
Capítulo III-- Da competência interna 189`

facultativo ; b) o tipo obrigatório. No direito alemão e no direito austríaco


o foro do contrato é obrigatório ; quer dizer, o autor tem de propor a
acção no tribunal do lugar do cumprimento da obrigação, sob pena de
incompetência . No direito francês, italiano e espanhol o foro do contrato
é facultativo : em vez de propor a acção no tribunal do lugar do cumpri-
mento ou d'a execução, o autor pode propô-la no tribunal do domicílio
do réu .
A lei portuguesa pertence ao tipo obrigatório. Não é lícito ao 'autor "
optar pelo foro designado no art1'go '7f.' ou pelo foro do d'om'icílio do réu .
Se a acção não for proposta no tribunal do lugar do cum.prim2nto da obri
gação ou no do lugar em que o facto ilícito foi praticado, o réu ten o
direito de deduzir a excepção de 'incompetência relativa ; e pode deduzir
esta excepção, ainda que a -acção haja sido proposta no juízo do seu domicílio .

O artigo 74 .o consta de duas partes distintas : a) a que diz respeito às .


acções destinadas a exigir o cumprimento de obrigações emergentes de
actos jurídicos lícitos; b) a que se refere a acções destinadas a exigir
o cumprimento de obrigações derivadas d+~ factos ilícitos .
Comecemos pela primeira..
0 'artigo 92 .° do Projecto primitivo determinava que, tendó a acção
por fim fazer valer dir'citos emergentes de um contrato ou obter a sua.
anúlação modificação ou rescisãoi, seria proposta no juízo do lugar onde
o contrato houvesse sido celebrado . Depois' acresr-entava :
«Mas as acções d'estinad'as a exigir o cumprimento de obrigações que,
por lei ou convenção escrita, deviam ser s'ati'sfeitas em determinado lugar, .
serão propostas no juízo desse lugar .»
A 1 ." parte do artigo 74 ." corresponde à 2 .' parte da artigo 92 .' do
Projecto. A 1 .' parte deste artigo desapareceu . A expIkação do facto
está claramente indicada na acta `7." da Comigs~ão Revisora. O sr . conse
lheiro Butel'ho de Sousa, observou que a 1.' parte do 'artigo 92 .' e o
artigo 93 ." podiam dar lugar a situações embaraços~as, principalmente
quando so tivesse celebrado o contrato ou praticado o facto ilícito nas
colónias ou no estrangeiro, onde já não residam nem o autor nem o réu
o onde tenham 'assinado acidentalmente o contrato . É certo que podem
convenciom'ar que outro seja o juízo para a acção ; mas se por ocasião do
contrato o não tiverem feito, muito possível é' que depois não-cheguem
a acordo.
Este inconveniente já não sedará no caso da 2 .' parte do artigo 92 .', .
porque aí o autor estará ainda n'aturalm'ente vinculado, por seu interesse, .
ao lugar do cumprimento ~da obrigaçãa.. Por isso, quando se não queira
deixar a compeitênci'a à -regra geral do domicílio do réu, é de ponderar se
deverá ou não, ~da 1 ." parte db mitigo 92 .0 e do artigo 93'.', exceptuar-se
a hipótese de o contrato haver si'd'o celebrado e o (acta ilícito praticado
fora do continente.
Na i"po'sta a estas observações tomei a seguinte atitude : que o-
artigo 93 .° (correspondente à 3 .' patife do artigo 74 .') podia ficar como
estava ; mas quanto à 1 .' parte do 'antiga 92 ." era de considerar a ob'serva-
19 0 Livro II-Da competência e crus garantias da imparcialidade

ção feita ,a que talvez conviesse deixar para o juízo do domicílio do réu
as acções de :anul'açao modificação ou rescisão doe contratos 'e para o juízo
do lugar da execução as acções destinadas a exigir o 'cumprimento de
obrigações (Acta 7 .°, pág . 33) . Foi exactamente isto o que a Comissão
votou (Acta 7.°, pág. 39) .
De maneira que as ;acções de anulação, modificação ou rescisão de
contratos seguem a regra geral do artigo 85 .° 0 que ficou para a forum
executionis ou foram destinatae solutionis foi a acção destinada a exigir
o cumprimento de obrigações que, por lei ou convençãb, deviam ser cum~
pridals em determinado lugar . A 1 .' parte do 'artigo 74 .o coincide, assim,
com o n .° 2 .° do 'artigo 21." do Código , de 76 .
0 lugar do cumprimento (ta obrigação pode ter sido estipulado por
convenção ou estar designado por lei. Como as disposições legais que
indicam o lugar do cumprimento têm carácter supletivo, isto é, só se obser
vam quando as partes não tenham convencionado o contrário, ocupemo-
-nos, em 1 .( " lugar, da convenção .
Lugar do cumprimento escolhido por convenção . S.e as partes tiverem
convencionado que a obrigação seja cumprida em certo lugar, é nesse
mF'smo lugar que, na falta de cumprimento, deve ser proposta a acção
destinada a exigi-lo .
Mas a que requisitos há-de satisfazer a convenção para produzir os
efeitos que o artigo 74," lhe . atribui?
0 sr . Dr . Palma Carlos escreve que o n .° 2 .° do artigo 21 .° do, Código
anterior era in.udo a tal respeito, mas os jurisconsultos manifestavam-se
predominantemente no sentido de só considerar válida a convenção
quando ela, nos termos do artigo '4-6 .° do Código Civil, constasse dy
documento autêntico ou autenticado (ob . cit ., pág. 267) .
0 n ." 2.° do artigo 21 .° do Código de 76 era realmente mudo ; mais não
o era o § ;-, ." do mesmo artigo, mandando o'bsexvar o artigo 46 .° do Código
Civil, quer se estipulasse juízo ou domicílio particular para a cau's'a, quer
domicílio particular para cumprimento de acto ou obrigação . De modo que
a exigência de documento autêntico ou autenticado para validade do foro
convencional indirecta não era uma criação da doutrina ; era uma impo-
sição expressa da lei. Se o n .° 2 .° do artigo 21 .° erra mudo, falava par ele,
com a necessária clareza, o § 5 .c , 'do mesmo artigo.
A jurisprudência dos tribunais é que nem sempre se manteve fiel
à determinação deste parágrafo ; sobretudo no que reespeita a obrigações
comerciais, a corrente dominlante, até certa altura, era no sentido de dis-
pensar a forma autêntica ou autenticada .
Regista o sr . Dr . , Palma Carlos que contra esta jurisprudência se
insurgiu vigorosamente o sr . Dr . Cunha Gonçalves. É certos Mas muito
antes de o sr . Dr . Cunha Gonçalves ter levantado o :sFeu grito, já quem
escreve estas linhas tinha combatido com bá!stante energia, a jurispru-
dência referida, ca'pitul'ando-a de ilegal (Processo ordinário, 1 .° ed .  1907,
págs. 289 e 290 ; 2 ." ed ., 1928, pág. 737) .
Depois de fazer estas referências ao que se passava no domínió da
lei antiga, o sr. Dr. Palma Carlos põe a questão em face da lei actual .
,Capítulo 111-Da competência interna 19 1

1, exprime,se nestes te:rmos : o artigo 74 .° não fornece indicaçãeis bastantes


para responder à peiAgunta, pois se limita a exigir que o' lugar de cum-
primento conste de convenção escrita, o que,, posto em paralelo com o
artigo 46.' do Código Civil, poderia fazer pensar que a convenção havia
de satisfazer à forma exigida por este artigo ; m'as cbnro as formalidades
do foro 'convencional hão-de ser as ni'dsmas quer a estipul'aç'ão se faça por
v$a directa, quer, poT-via reflexa, deve entender-se que no caso previsto
m.o artigo 7'4." a convenção terá doe obedecer às condições ex ,igidhs pelo
artigo 100 .° (Cód. de Proc . Civ . anot, vol . 1 .-, págs . 268 e 269) .
Náo é necessário recorrer ao artigo 100 ." para resolver a dúvida
suseitad~£1 pelo sr . Dr . P'alm'a Carl'os'. 0 texto do artigo 74 ." é suficiente .
No caso que 'este artigo regula, as partes nada convencionam quanto ao
tribunal em que a acção há-d.e ser proposta ; limitam-se a estipular o lugar
em que <r obrigação- há-de ser cumprida . A lei é qu ! s'obr'e tal estipulação
erige uma regra de competência .
De maneira que, em rigor, o foro designado no artigo 74 ." não é um
foro convencinal, é uni foro legal . Com efeito a norma do artigo 74 .^
podia 'ser formulada nestes tenmos : a' acção destinada a exigir o cumpri
mento de obrigações será proposta no tribunal do lugar em que a respec-
tiva obrigação devia 'ser cumprida. Se -s'e fez referência à convenção, foi
porque se quis significar que, no caso de 'ser meramente verbal o con-
trato, ~a estipulação relativa 'ao lugar do cumprimento (ia obrigação é
irrelevante para o efeito do -artigo . Especificou-se a convenção para se
adicionar o ad'ject'ivo «escrita», isto é, para se frisar que )só quando o lugar
de cumprimento cirirste de convenção escrita 'é que se 'toma em considera-
ção parla d efeito de a acção dever ser proposta, no tribunal desse lugar.
Visto que o objecto da convenção é o lugar do cumprimento da,obri-
gação, e não a competência do tribunal, a reli de processo nada tinha a dizer
sabre os requisitos a que a convenção há~d ;~ satisfazer : isso é matéria de
puro direito substantivo . E nada ~díria, na verdade, se não fosse a circuns-
tância dfe pret°nder e~stabélec'er um certo limite de forma, de querer deter-
minar que só a for-nua escrita é atendível . Fixado este limite mínimo, daí
para cima a lei de processo nada tem que ver com o assunto . É à lei
substantiva que compete providenciar, visto que a estipulação do lugar
de cumprimento dia obrigação se 'insere num contrato è à lei substantiva
pertence regular os requisitos, de forma e de fundo, a que o co1ntrato~ há,de
satisfazè~r .
No caso previsto no artigo 100 ." a questão é diferente . A c.:>nvenção
tem directamente por objecto 'a c'om'petência do tribunal ; e é à lei de pro-
cesso que cabe dizer não só quais regras de competência podem ser alte
radas pela convenção, senão também a que formal'i'dades há-de ela satis-
fazer para ter a eficácia de :mod'ific'ar o regime lega'1 de competência .
Assentemos, pois, nisto : ~só a convenção escrita sobre o lugar de
cumprimento dia obrigação é tomada em conta para o 'efeito do artigo 74.' ;
a convenção verbal é irre'lev'ante sob este aspecto. De modo que, embora
o conth+ato, em face da 'lei civil, tenha car'ac'ter consensual, isto é, não esteja
sujeitou formalidade alguma externa (Cúd . Civ, art . 6'8'6 .°), se as partes se
19 2 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

sei-virem ìrnicamente -da palavra e estipularem o lugar de cumprimento da


obrigação, esta est'ipu'lação, válida para efeitos civis, não tem valor para
o efeito de, na `falta de cumprimento, a acção dever ser proposta no lugar
convencionado .
Eis o que o aartigo 74 .`teve ~ffn vista d'ec'larar.
Mais isto não quer dizer que qua'l'quer convenção 'escrita baste ; desde
que o connrato t'enh'a carácter formal, tanto a cláusula relativa ao lugar
do cumprimento como as restantes hão~d'e satisfazer aos: requisitas' d'e
forma que a liei reguladora do contrato exigir, sob pena de ser(¢m nulas.
Não está 'esta doutrina no artigo 74 ." ; nem tinha que estar, porque é com-
sequência necessária do regime legal estabelecidlo pela lei sulístantiva .
A qu'estãa que fa'd'e suscitar-se é a seguinte : gupon'hamIcis que, num
ecntr:ato meramente verbal valido [segundo a lei substancial, as partes-
estipulam o lugart do cumprimento da obrigação ; a estipulação não é de
atender piara o efeito -dia competência ; mias em tal caso -a Facção terá de ser
proposta no juízo do .domicíJio do réu, s'e'gundo o artigo 85 .', ou no ;juízo
db 'lugar que a liei designar para o cumprimento da obrigação, nos te :i"os
do !artigo 74 .°?
. Somos de parecer que ia acção 'deve ser proposta aro tihunal do
lugar em que, segundo 'a lei, a obrigação devia lser cumprida. Desde que
a convenção 'não tem valor para o efeito da competência, é como se não
houvesse convenção ; e na falta desta é a lei que governa. É certo que as
partes, iconvencionanrdo para o cumprimento dia obrigação 'lugar diverso
do designado por lei, quiseram afastar a aiplicaçao desta ; mais a sua von-
tade é irrelevante sob o ponto de vista da exigência co'activa da obrigação,
lama vez que nã[a foi expressa como o devia ser.

As palavras «respectiva obrigação» mostram que o foro a qu;~ o


artigo se 'refere ~é competente unicamente para a acção que :se &stinar 'a
exigir aquela obrigação para a qual está designado, por lei ou convenção,
o lugar do oumpriirnenfo : Qualquer outra obrigação, embora emergente
do mesmo contrato, fica, fora do âmbito do antigo. A vendeu a B um
cavalo e obrigou-se a entrega-4o em Anadia, por exemplo ; -se a estipulação
cia entrega em Anad'ia constar de escrito, é em Anadia que, no caso de
falta de cumprimento; B há-de propor acção contra A a pedir a entrega
klo cavalo. Sé, em vez de pedir a entrega do cavalo,' B quiser pedir a
rescisão do contralto, o artigo 74 .° não 'tem aplicação ; é o artigo 85 .° que
regula.
. Mas ia expressão «respectiva obrigação» não deve ser entendida em
termos tãio rígidos que exclua a obrigação subsidiária ou sucedânea, da
obrigação específica . No caso & falta dz cumprimento 'o contraente pnn
tu'al tem o direito de exigir do contraente r!ernisso ou a prestação espe-
cífica a que este s[e obrigou, ou a indemnização de perda6- e danos (Cód .
Civ ., urt. 709 .°), . Suponhamos que opta péla indemnização de perdas e
danos. Em que tribunal há-te 'propor á acção : no tribunal -do lugar em
que devia ser cumprida a obrigação específica, ou no tribunal db domi-
cílio do réu?
Capítulo III-Da competência interna 193

Tem-se entendido que <ii juízo competente para a exigência da obri-


gação específica é igualmente competénte para 'a exigência da ind!emnsza-
ção de perdas ~e damos pela falta, de cumprimento daquela . No exemplo
apresentado, se B, em vez de p'ed'ir a entrega do cavalo, quiser pedir a
indemnização de perdas e danas pela falta -da entrega, é em Anadia que
deve propor a acção .
É esta u orientação geral da jurisprudência ('ac . da S. T . J ., de 9-10 °-942,
Rev. de Leg ., ano 75 .", pág. 377 ; vejam-se as decisões citadas no Processo
ordinário, 2 .° ed,, pág . 702, nota), 5e bem que a Relação ,do Porto; em acór
dão doe 29 de Novembro de 1918 (Rev . de Just ., ano 3 .", pág. 736) tenha deci-
dido em. sentido contrário . A indemnização de perdas e danos é uma
obrigação que ~a lei põe no lugar da obrigação assumida pelo contraente
remisso ; substitui esta obrigação, equivale juridicamente a ela, deve por
isso ter o nn~o regime e o mesmo tratamento .
O que acaba de dIzer~se tanto se aplica ao caso de o lugar de cum-
primento da obrigação ser designado por convenção como ao de ser
determinado ;par lei.

Na anotação ao artigo 73 .° 'aludimos ao que se dilsipunha no n .° 2 .°


do § 3 ." do artigo 21 .° do Código de 76 . Segundo este texto, a acção de
despejo, guando fosse consequência da falta de pagamento de renda ou da
falta de cumpri¢nentà de qualquer outra obrigação para o qual se houvesse
estipulado determinado lugar, tinha de ser proposta, não no juízo da situa-
ção -do prédio, mias :no ~do lugar escolhido para- o cumprimento d!a referida
obrigação ; ia acção de reforço e a de redução de hipoteca, quando para
o cumprimento da obrigação a que esta serve ~de garantia se tivesse con-
vencionado certo lugar, haviam de ser propostas nesse lugar e não no
foro -da situação do prédio hipotecada. Ainda hoje será assim?
A disposição do artigo 73 .o cederá perante a dio artigo, 74.°?
O artigo 92 .o do Projecto primitivo, correspondente ao artigo 74 .° do
Código, começava assim :
«Quando a acção n'ãb esteja aibrangidla pela disposição db artigo ante-
rior» . . .
Estas palavras tinham sido insertas precisamente para resolver a
dúvida pasta, isto é, para significar que a acção de despejo, a de reforço,
ia de reilução de h ~poiteca e qualquer outra abrangida pelo artigo 91 .°,
oai+réspondente ao 'art'igo 73 .° do Código, deviam ser propostas nó
juízo dia situação dos bens, embora estivessem relacionadas com obri-
gaçõeds para cujo cumprimento se houvesse estipulado lugar especial .
Não obstante a eliminação das palavras transcritas, julgo que a dou-
trina do Cód'i'go é -a mesma do Projecto, salva a restrição que vai apon-
tam-se.
Consideremos as acções de reforço e redução de hipoteca . É claro
que, quando kse pede e, reforço ou a redução d'a hipoteca, não se exige
o cumprimento da obrigação -a que a hipoteca serve de garantia ; portanto
o artigo 74:° não pode ser aplicado . £ o preceito do artigo 73 .° que tem
cabimento.
13-- CÓDIGO DE FROCII:SSO C7[VI;~
19 4 Livro II-Da eompeténcia c das garantias da imparcialidade

Tratando-se de acção de d'esp'ejo, há que distinguir : a) ou se pede


sómente o despejo ; b) ou se pede, conjuntamente com o despejo, o paga-
mento da renda ou o cumprimento da o'brïgação cuja falta dá lugar ao
despejo . No 1 .° caso é evidente que rege o artigo 73 ." : o artigo 74 ." não
pode ser invocado . No 2 .° caso é que pode haver dúvidas ; mas visto que
há uma cumulação de pedidois, para cada um dos quais é diversa a com-
petência t'err'itorial, pa'rec'e que a acção poderá ser proposta em qualquer
dos tribunais competentes, à escolha -do au'tar : ou no tribunal da situação
-do prédio, competente para o pedido de despejo, ou no do lugar em que
a renda -devia ',ser paga, competente para o pedido de pagamentó .

Lugar do cumprimento determinado por lei . Há muitas disposições


legais que indicam o lugar em que, na falha de convenção das partes, certas
obrigações devem ser cumpridas . Quando tal suceda, é no tribunal do
lugar ande, por lei, a obrigação devia ser cumprida, que tem de propor-se
a acção destinada a exigir, o cumprimento dessa obrigação .
Exemplifiquemos.
D artigo 744 . , do Código CM]. formula esta regra geral : se o lugar da .
prestação ise não achar designado e a dita prestação consistir em objecto
móvel determinado, deverá ser feita no lugar onde essé objecto existir no
tempo do contrato . A, domiciliado em Lisboa, vendeu a B uma máquina
agrícola que, ao fbempo do contrato, estava num prédio si'tu'ado na comarca
de Santarém ; se 'vendedor não entregar a máquina, B, querendo pedir
a entrega dela ou a indemnização ~de perdas , e danos pela falta de entrega,
há-de propor a acção, não em Lisboa, tribunal do domicílio do r+éu mas
em Santarém, tribunal do lugar em que,, por lei, a obrigação devia
ser cumprida (art . 74 .° db Cód ., -de Proc, combinado com o art . 744 .'do
Cód. Civ.) .
O artigo 1447. do Código Cfvil manda que a coisa, depositada seja
entregue, não 'havend'o convenção em contrário, no lugar onde o depósito
foi feito . Tíoío e Sempróni'o, d'omicili'ados no Porto, encontram-se aciden
talmente em Lisboa ; Tício, bengo receio de ser vítima de furto, pede a
Semprónio que lhe guarde um relógio de grande valor e estimação ; Sem-
prónio recebe o relógio e guarda-o . Se rbad'a se estipular quanto ao lugar
em que o relógio deve ser restituído, é em Lisboa, lugar do depósito, que
a restituição 'deve ser feita. No caso de Semprónio se recusar a entregar
er relógio, ta acção de residi!tu'ição terá de ser proposta, não ne Porto, lugar
do domicílio do réu, mais em Lisboa, 'lu'gar em que, segundo a lei, a obri-
gação devia ser cumprida (art . 74 .° do Cód . de Proc, combinado com
o art. 1'447° do Cód'. Civ.) .
Disposições serrrelhantes às dos artigos 744 .° e 1447 .° se encontram
rios artigos 1529 .0- (restituição da coisa emprestada), 1583 ." (pagamento do
preço 'd'a venda), 1661 .1 (pagamento do foro) e 1843 .0 ('entrega dia coisa
legada) .

A 2 .° parte do artigo 74," diz respeito as acções de indemnização


derivadas de :facto ilícito . 0 tribunal competente é o do lugar onde o facto
Capitulo III-Da cmnpetência interna 19 5

foi praticado (forum eommissi delicti) . Trata-se de um foro instrumental,


segundo a técnica de Carnelutti, visto que 'é nu lugar onde o facto foi pra-
ticado que devem. encontrar-se as melhores provas da ocorrência e dos
danos por ela produzidos.
Disposição semelhante se lê no § 32 .' do Código alemão.
0 ~artigo 20 ." tio novo Código italiano, posto que não ~se refira expres-
samente às causas deriv'adás doe factos ilícitos, contém doutrina que em
última analise copdu~, era parte, à mesma solução da 2 ." alínea do artigo 74 .°
O artigo 110 .° do Pròjéreto definitivo S'olmi fonte do artigo 20 ." do~ Código,
estabelecia para as acções pessoais o foro -do lugar em que tivesse sido
contraída a obrigação . De vários lados se observou que faltava um
foram commissi delicti. Asisim, a Universidade de Gatân'ia, pela voz do
Prof. Coniglio, ponderava que não se fazia referência às obrigações não
contratuais, isto é às que nascem de acto ilícito (delito, ou quase delito) .
Convinha consagrar o princípio acolhido pela jurisprudência, segundo o
qual a acção pode, em tal caso, ser proposta no tribunal do lugar em que
o delito foi cometido.
Solmi respondeu que o texto compreendia tamto as acções emergen-
tes de contrato como as que tinham origem extra-contratual . Por se falar
do lugar em que a obrigação foi contraída, não deve supor-se que se quis
2:ludir únicamente às obrigações derivadas de contrato ; o . lugar em que a
~brigação foi contraída é aquele em que a obrigação surgiu, qualquer que
seja a razão por que o vínculo se forma (Nappi, Coinmentario cit ., vol . 1 .°,
pág . 190) .
Esta resposta dá claramente o sentido do 'artigo 20 .° do Código .
Declara-se competente o tribunal do 'lugar em que surgiu ou deve cum-
prir-se a obrigação exigida em juízo . Para as obrigações de origem contra
tual o autor pode escolher entre três juízas : o do domicílio, do réu, o do
lugar em que o contrato foi celebrado, o do lugar em que a obrigação devia
ser cumprida ; para as derivadas de facto ilícito só tem a alternativa entre
o tribunal, do domicílio do réu o o do lugar em que a obri'gação surgiu,
visto que não pode, em tal caso haver lugar designado para o cumpri-
mento da obrigação . Ora olugar em que surge a obrigaçãb emergente de
facto ilícito, é aquele ern que o facto ocorreu ou foi praticado .
Há, pois ; coincidência n!eslta parte, entre a doutrina dó artigo 20 .° .do
Código italiano e a 2 .° parte do artigo 74 .o do nosso. A diferença está em
que o fonma commissi delicti é facultativo segundo o Código italiano, visto
o autor poder propor a acção ou nesse foro ou no do domicílio do réu,
ao passo que segundo o Código português é obrigatório.
A 2 ." parte do artiga - 74 :° é a generalização do preceito de compe-
tência inserto no artigo 143 .1 do Código da Estrada . Diz-se aí : as acções
que tenham por objecto a efectivação da responsabilidade civil a que o
presente Código diz respeito (indemnização pelos prejuízos ou 'danos
causados por 'veículo ou meio de transporte em circulação nas vias
públicas, (art. 138 .*), quando não devam ser exercidas em processo
penal, serão da competência do juiz cível da comarca 8m que o acidente
,ocorreu .
196 Livro II-Da competência, e das garantias da im.parci(cli<l<ule

ARTIGO 75 .°

(Divórcio e separação)

'Será competente o tribunal do domicílio ou da residência do


autor para as acções de divórcio e de separação -de pessoas.
e bens .

O artigo 1206 .' do Código Civil, referindo-se à separação de pessoas


e bens, determinava que o cônjuge a requeresse ao juiz de direito da
comarca do seu domicílio ou residência . Como a mulher casada tem por
domicílio o do marido (Cód . Civ., art . 49 .°), levantou-se dúvida sobre se
acontecia o mesmo quanto à residência, isto é, sobre se, estando a mulher
separada de facto do marido e residindo em comarca diferente, podia.
propor -a acção no juízo dia sua resid'ên'c+ia ou tinha de propô-la no juízo
do domicílio do marido, por dever entender-se que o domicílio e a, resi-
dência da mulher casada coincidem sempre necessàri'amente com o doimi-
cílio dó marido .
0 Código de Proces's'o Civil de 1876 pôs termo à dúvidá, declarando,
no n .° 4." do artigo 21 .°, que para as acções de separação doe pesso'a's e
bens dos cônjuges é competente o juízo quer d'o drnnicíl'ib, quer da, resi
dência do autor . Agora já não podia sustentar-se que a mu'l'her era obri-
gada a propor a acção no tribunal dlb domicílio do m'aridb quando o juízo
da 'sua residência, apor estar separada de facto, fossei diverso do juízo do
domicílio e residência do, marido .
A jurisprudência fixou-se neste sentido .
0 artigo 5.o do Decreto de 3 doe Nevembro de 1910 dispôs que a Facção
de divórcio 'será proposta, pau :no juízo do domicíl'ib, ou no, da residência
do autor ; mas se este i"iidir em pais estrangeiro, a respectiva acção sen+á
proposta. na comarca de Lisboa.
0 artigo 7,5,' db Código actual teve . por fontes o n.° 4.° do artigo 21 .°
do Código de 76 e o 'antigo' 5 .o db Decreto die 3 de Nbwembro de 1910-
Decl~ar'a-se competente o tribunal dlo domicílio ou da residência dor autor
para as acções de divórcio e de separação de pessoas e bens.
0 pensamento que se quis traduzir é o mesmo que estava exarado
nos textos citados : n .° i4 .° do artigo 21 .° do Código anterior, artigo 5 .0 do
Decreto de 1910. A conjunção ou é manifestamente , disjuntiva, expribne
uma iddüa alternativa ; para que significasse analogia ou equivalência seria
necessário que domicílio e residência fossem uma e a mesma coisa, que
coincidi'sseun 'sempre .
Deve, por, ter-se como certo que o autor tem a faculdà& de propor
a acção ou no tribunal do seu domicílio, ou no tribunal dia, sua residênicüa,
quando esta não co'inc'ida com o domicílio .
hjão o entende assim o sr. Dr. Palma Carlos . Se é o marido que pro-
pãe 'a acçâ'o, há-de propô,la, diz è'le, mo tributilal dó :seu domicilio ; só a~
pode propor no 'da sua residência, se não tiver domicí'l'io . Se é a mulher
Capítulo III-Da competência interna 19 7

a 'autora, há que distinguir : a) ou ela tem legalmente o domicílio do


niarid'o ; b) ou tem 'domicílio próprio, diferente do do marido, como sucede
no caso de condenação deste a pena maior fixa no caso -de o marido se
ausentar para o estrangeiro eu para as colónias 's'enr acordo dela, e no
caso de o marido estar interdito . No 1 .° caso a mulher pode propor a
acção no juízo da sua residência, ,se for diversa da do mari'd'o ; no 2 .', tem
de a propor no juízo do seu domicílio (Cód. de Proc. anot ., vol. 1.", pág. 272) .
Não pod'emo's concordar com esta 'opinião . Em primeiro lugar é
contrária à letra expressa da lei .
Desde que 'sie atribuíu competência tanto ao tribuna' do domicílio
como ao da residência do autor, parece fora ide düvilda que este tem a
faculdade 'de optar por um ou por outro conforme mais 1'hw convenha.
Em segundo lugar faz-se uma distinção inteiramente arbitrária, por-
que não tem base alguma na lei . Porque é que ia mulher, no caso de o
seu domicíl-io ser o do marido, pode optar pelo tribunal do domicílio ou
pelo da residência, e não púde fazer o mesmo quando tenha' d'omicíl'io
próprio? Porque 'é que o marido, quando a sua residência. não coincida
com o domicílio, está 'ihibi'do de propor a acção no tribunal dia sura resi-
dência?
Dir-se-á : 'a opção entre o juízo do domicilia e 'o da residência foi
estabelecida em beneficioidr, mulher para lhe permitir propor a acção no
tribunal da, sua residência quando esteja se'paradia de facto do marido.
A objecção não colhe . Quis-se, na verdade, colocar 'a mulher em
condições de não ser obrigada a propor a acção no tribunal do domicílio
do marido, que é, em regra, o seu próprio domicílio ; mas obteve-se esse
resultado através de um preceito 'legal amplo, que tanto funciona para o
caso de o autos ser a mulher como paria o caso de ser o marido .
Entendeu o legislador que nas acções de separação e divórcio - era
o autor, cônjuge inocente, que devia de preferência, ser protegido ; por Lssb
su'bstituíu à ,regra geral ,do antigo 85 .`- foro da domicílio do réu - d foro
,do domicílio do autor, quer este seja 'a mulher, quer seja o 'marido .
Mais não se limitou a isto ; colocou no mesmo plano que o foro 'do
-domicílio do autor o (da sua residência, s'em d'is'tinção também -entre o caso
de o cônjuge inocente e requerente ser a mulher ou o marido.
Se os -dois forcas 'estão no mesmo plano, é claro que o 'autor pode
escolher qualquer deles. C'onsi'derar o da residência meramente subsi-
diário, salvo num determinado caso, é altérar completamente o s.~ntido
e alcarce da 1di.
Domicílio e residência coincidem em regra, visto que o domicílio é o
lugar em que b cidadão tema sua residência permanente (Cód . Civ.,art.41 .°) ;
mas podem ;deixar de . coincidir, ou porque a pessoa tem o seu domicílio
necessário num 'lugar 'e a residênc'i'a efectiva noutro, ou porque ia pessoa
bem diversas residências onde vive alternadamente e escolheu uma delas
para 'domicílio '(Cód. Civ ., art . 43 . ,, ), ou porque a pe's'soa mudou de residên-
-cia sem mudar de domicílio em conformidade com a lei (Cód . Civ., art . 44 .°) .
Quando haja, falta de coincidência entre os dois factos-domicílio e
residência -o cônjuge, ou sgja a mulher ou seja o marido, pode propor 'a
198 Livro 17-Da competência e, das garantias da imparcialidade

acção quer no tribunlal db seu domicilio, quer no da sua residência, à sua


eso»Pha . Eis o que está dedltarúdo nó artigo 75 .*
As dhkficuldad4-~s de 'aplicação do arti!gb 'surgem na deberminação do
conooeito & residência. Para que uma pessoa passa eonfiderar-se resi-
dente num lugar, o que é necessário?
A residência supõe uma certa fixação, uma certa permanência. num
lugar. Nado reside evidentemente nunva localidade quem se encontra nega
acidentàImente, -de passagem, ou por templo muito ilimitaido.
Ditas Ferreira dú conta doe que, tendo sido apresertitada na câmara, dJos
deputados, por ocasião da discussão do n .° 4 .o do artigo 21 .o do Código
de 76, uma emienda no sentido de não se considerar residência o lugar para
onde ae retinia um duos cônjuges, abandornandb b outro, a emenda não foi -
aprovada, por desnecessária, ~poi)s que, em presença -das disposições do
Código Civil sobre residência e domicílio, é evidente que o cônjuge não
pbkïse intentlar a acção de sleparação die pessoas e bens no lugar para onde
se retira, sie a .'í não tem residência nem domicílio. A saíldla para qualquer
lugar não imporzita, só por si, residência ou domicílio nesse lu.ga.r (Dias
Ferreira, Cód. de Proc . Civ. anot ., voz, 1 °, pás, 54) .
No mesmo sentido se pronunciaram Alves de Sá, Dias da Silva e
o sr. Dr. Abe~ Souto, nos lugares . citadas pelo sr. Dr. Palma, Ca&los
(ob . cit. ; pag. 274) ; foi também a opinião que expendi no Processo ordiná-
rio (2.' ed., pás, 718) ; é a jurisprudência de vários acórdãos.
0 ar. Dr . Palma Carlbs r--puta errada esta ori'entaçã'o. «Quando a
mulher sai de 'casa para requerer q divórcio ou a separação, entendemos,
oomo o ar . Dr. Cunha Gonçalves, que a sua residência se fixa logo na
comarca para ande se dirigir com esse intuito ; e que, assim, o tribunal
dessa ~arca imediatamente se torna competente parla perante ele ser
intelnbada a acção. A própria 'lei, aliás , o reconhece, ao permiti- que a
mulher requeira o 'seu depósito como preparatório da acção de divórcio
ou de áeparaçãb de pessoas e bens ('art. 14, 67 .o), ,depósito que há-de ser
requerido - nb .tribunal da comarca onde a autora residir, isto .é, onde se
encontrar, ex vi do artigo 83 .o do Código» .
Dïscardamos desta opinIãlo . Residência inculca estabilidade ; é abso-
luitamente contrário à realidade das factos e à significação da palavra ms -
dência afirmar que reside num lugar a pessoa que aí acaba de chegar .
A análise dós artigos 41 ." 43 .° e 45 .° do Código Civil, por um lado, e
do § 1 .° do artigo 665 .°, §§ 1 .° e 3 .° do artigo 85 .° do Código de Processo Civil
por outro, mostram claramente que, no nexo das pes6b'as com as locali-
dades, a lei distingue e considera três graus diferentes : a) o domicílio,
b) a ',simples residência ; c) a presença acidental . 0 domicílio, exprime
a ligaçãb mais forte : é a - residência permanente ; a simples residência supõe
ainda uma certa fixidez, uma rema demora, a habitação estável e pro-
tonga'da, avias não exclui a habitação durante algum tempo noutro lugar,
vi.sto,que a lei figura a hipótese de .um _indivídluo ter mais que uma resi-
dência onde viva aliternadúmente (Cód. Civ., art . 43 .0 ; Cód. d e Proc ., art . 83 .",_
§ 1 .o) ; a presença acidental é o 'lufo mais ténue, porque se tr&d!uz no facto
de a pessoa se encontrar inomen,~âneam,ente em determinado lugar.
Capítulo III-Da competência interna 199

0!ra,a doutrina dos srs. Drs. Cunha Gonçalves e Palma Carpos inc'«re
no defeito de confundir a residência narro lugar coar o simpleis encontro
ou a presença aci~ nesse lugar. Se a mulher sai do domidl:ih con
jugal paga deJharminadú localidade -e, logo que aí chega, propõe perante
o reopectivb tribunal a acção de dNbrcio ou de separação, é evidente'que-
intenta a acção, não no tribunal da sua residência, mas no tribunal do
lugar em, que se encontrou. 0 ~artigo 75 .1 não consente tal solução, porque
dá competência ao tribunal cio domicílio ou da residência, e não ao tribu-
nal do lugar em que o cônjuge se encontrar .
Coano se ponderou. nos acórdãos da Relação 'do~Pb1rto de 19 de Feve-
reiro de 94 A 28 de Abril de 1903 (Rev. dos Trib., «nols 1&.°, pág. 283, 21.°,
pág. 263), permitir que a mulher proponha a acção no tribunal do lugar
onde acaba de chegar, equi°cal,e a rec'anIhecer=lhe o direito de intentar a
acção onde lhe aprouver, o que 'é inconcebível . Que o réu, na falda dê
domicílio ou residência, seja demandado no lugar onde se encontrar
(art. 85.°, §§ 1.o e 3.o), (-ompreen.de-se perfeitamente ; que o autor proponha
a acção onde lhe apeiteder, não pode de modo algum admitir-se.
Argumenta-se com o facto de a mulher poder requerer o depósito
como acto preparatório da acção de divórcio ou separação . Mas o 'argu-,
mento não procede .
A lei não diz que o juízo competente pára o depósito sejâ. o do lugar
onde a mulher se encontrar . Nos artigos 1467.° e 1468.° nada se estabelece
a respeilbo de competência ; tem, 'por isso, de observar-se a regra da alí
nea d) do artigo 83.°, que nos reme!be para o artigo 75.° É competente
para o depósito 'o juizo que for competente para a acção ; parla esta. é
competente, não o tribunal do lugar em que a mulher 'se encontrar ou
esIdier acidentalmente, mas o do lugar em que tiver ou o 'domicílio ou a
rM~Si~denc!i'a.
É claro que não pode formular-se a priori um concito rígido de
residência. E--Oba supõe estabilidade è continuidade; mas quanto tempo é
nl~ário para 'a formar? Qula.ntos dias ou quantas meses há-de uma
pessoa viver numa povoação para que possa reputar-se residente nela?'
Eis o que não é passível dizer em abstracto .
Para efeitos ~de casamento o artigo 265 .o do Código db Registo Civil
considera cbano residência a habitação contínua durante trinou dias num
determinado lugar, mas o artigo 238 .° do Código anterior exigia a habi-
tação pelo praza de 90 ,dias.
Desde que, para efeitos de competência, não há uma norma seme-
lhante, é uris tribunais que incumbe decidir, em cada caso concreto,
segundo o .seu prudente arbítrio, seu habitação num lugar já toam a dura
ção sufic'i'ente para c'anstitu:ir residência. Na averiguação Deste facto o
tribunal atenderá às várias circunstâncias que se verificarem,' devendo ter
em conta que -a residência resulta da conjunção de dois factores ou requi-
: a) o requisito material-a morada em certo lugar ; b) o, requisito
sitos
moral-intenção ou ânimo d.e se fixar nesse lugar. Quanta mais seguros
forem os 'indícios de que ia pessoa pretende fixar-se no lugar-em quê está,
maior relevo terá o requ'isit'o material para o efeito de conduzir à' formação:
20 0 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

da residência . Uma demora de seis meses, um ano, ou mais em c+tnto lugar


pode não significar, c'loisa alguma como residência, desde que os flactas
mostrem que a pessoa não quer fixar-+se aí e, se continua a viver nesse
lugar, é porque circunstâncias acidentais a isso o forçam ; pelo contrário,
a habitação por um, dois, três meses pode ser suficiente paga inculcar
residência, se tudo revela que a pessoa está. disposta a fazer da re~tivo
lugar o centro da sua vida e dos seus interesses.

0 artigo v.° do Decreto de 3 de Novembro de 1910 mandava propor


a acção de ~divórdo nã, comarca de Lisboa se o autor residisse em país
estrangeiro . Revogado como está esse artigo, a solução hoje tem de ser
outra . Se o autor tiver o domicílio em país- estrangeiro mas residir em
Portugal, é claro que podile propor a acção no tribunal da sua. residência ;
se :residir no estrangeiro, mas tiver ainda o domicílio em território portu-
guês, podre intentar a acção no tribunal do seu domicílio ; se tiver o domi-
cílio e a residência em país estrangeiro, -a acção só poderá ser proposta em
tribunais portugueses se, nos termos d)a 'alín'ea b) doo artigo 65 0, tiver sido
praticado enz território português o acto ou facto de que a acção directa-
mente emerge (o adultério, as sevícias, as injúrias o abandono,
Em tal riaso, como o artigo 75 .° não pode aplicar-se, terá de recorrer-se à
regra geral do, antigo 8'5 .° : o tribunal c'ompetent'e será o da dortmicífio db réu .

0 artigo 7'5 :° tanto se aplica ao divórcio e à separação litigiosos,


corno ao divórcio e à. . separação por mútuo consentimento, . d, ay que se
ocupa ~o Código nos artigos 1472 .° e seguintes. Mas não tem interesse a
aplicação do preceito à separação e aio divórcio por mútuo consentimento .
Desde que o pedido é formulado por ambos os cônjuges, pouco importa
que eles requeiram num tribunal 'di'verso do do seu domicílio ou T+esidên-
cia, uma vez que a incompetência não pode ser suscitada oficiosamente
pelo tribunal (art. 109 .°) .
A acção de simples separação jud'ic'ial de bens, a que se referem os
artigos 1219.° e seguintes do Código C'ivi'l, não está a'bran'gida pelo artigo 75.°
o por isso segue a regra geral do artigo 85 .°
O Código brasileiro declara competente para as acções de desquite
correspondentes às acções de separação de pessoas e bens, o foi-o da resi-
dência da mulher (art. 142:°) .
Alt'riGo 76 :°
(Acção de honorários)

Para a acção de honorários de mandatários judiciais ou


técnicos e para a cobrança . das quantias adiantadas ao cliente,
será competente o tribunal da causa em que foi prestado o ser-
viço, devendo aquela correr por apenso a esta .

O artigo 75'7 .° do Estatuto Judiciário aprovado pelo Decreto n,° 13 : 809,


de 22 dé Junho de 1'927, determinava que as acções para cobrança dos
Capitulo III -Da campet6wia interna 201

honorários devidos aos Úcivogados e candidatos fossem propostas -no juízo


,do domicílio destes, eonsi'derando-~se como domicílio do advogado o do
seu escritório, e como domicílio do candidato o do escritóriG do advogade)
por quem fosse dirigiáo.
E&ta regra aplicava-se aos solicItadore&, por força do artigo 801 .'
do Estatuto.
A mesma doutrina se cGns~ignava -nos decretos que alt2rarani poste-
riormente o Est)atuto, terdo-se porém alargado a disposição, de modo a
âbranger também as acções para cobrança das quantias adiantadas ao,
cliente (Dec . -n .' 22 :779, ~art. 756.', § 4,0) .
Do Estatuto o preceito passiou para o artigo 12 .o do Decreto n,.' 21 :287
0 artigo 95 .' d,,3 Projectc : primitivo distinguia entre : a) acções de
honoi-ái~ios de &dvogadb ú solicitador pelo exercício, de mamiato, judilcial e
para a cobrançade quantias adiantadas ao cliente ; b) acções de honorários
e para cobrança de quantias não respeltantes a inandato Judicial . Para as
primeiras o juizo competent .-~ era o da causa em que houvesse sido pres-
tado o serviço ; para a~s segundas, o do lugar em que o advogado ou
citador tivesse o escritóric..
Ao discutir-se este artigo na Comissão Revisora, o sr . Dr. Barbosa de
Magialhães propós que a primeira parte (a relativa às acções derivadas do
exercício de mandato judicial) foss,!~ al'terad~a -de haTmonila cüin a doutrina
-do § 4.<' do artigo 7&6.o do. Estatuto .
Observei que o tribunal da causa 'em que foi pr'esbado o serviço é
mais qualificado para co~,,ihecer (ta acção, viste, possuir elementos para
unia decisão mais justa e, conscienciosa ; como os restantes vogais ci.a
.Comissão considerasisem fuindada a observação, o ~sr. Dr. Barbosia de Maga-
lhães desistiu da sua proposta . Saiu, pois, ~) artigo do CXame da Gomissáo
tal como estava no Projecto ; sómente se alvitrou que as acções de hono-
rários deviam ser processadas por ~apenso aos processos a que respei.-
tassem os serviços (Acta, nf 7, págs, 40 e 41) .
A segunda parte do arbigo, coneernente às acções & honorários po ,
sei-viços d!iferen~t-~s do exercício de mandato judicial, foi eliminada po-ste-
víoiririente . Na revisão ni.inist;eri~al estendei~-se a disposiçãh do artigo It
-acção -de 'honorários de témwos .
Fixemos, em primeiro lugar, o wIcarice do artigo 76,1

É fora de dúvida que a disposição de compe.tênc'a nele exarada é


restríta às acções d~eÈiVadasdo exercíciode mandatc, judicial ; a referência
a mandatfíy~os judiciais e ao tribunal -da causa em que :foi l)resItado o
viço mostra claramente que o caso visado pelo texto legal é o, seguinte :
urna pessoa passou procuração a um advogado, a um carididato, A advo-
cacia ou a um solicítador para o representar num processo ; o mandatário
aceitou e exerceu o mandato ; vem depois pedir ao mandante o pagainento
dos honorários pelbs serviços prestados no exercício do mandato e o
,enib~)Iso das quantias que porveritura tenha adiantado.
Mas a lei fa-la também em técnicos . 0 que significa esta expressão?
A intervenção de técnicos no processo pode ter urna de duas ori--
202 Livro II-- Da competência e d<Ls ga~antias da iqnparcial~e

gens : a) a iní~ciatíva do -advogado da parte (a;rt, 42 .') ; b) a resolução do .


juiz (art-s. 618.' e ,650.') . Ora os técnicos a que se alude no artigo 76 .' são
os técnicos esco1hidos pLelo advogado, ~m confonnidade com o artigo 48 .o,
e não os técni~,os requi.Siltados ou d)esigTva~düs pelo juiz, nos termos dos
artigos 618.' P, 050. 1 Qtrando os técnicos intervêm por &terminação do
juiz, os seus honorários são fixados e liquidados no próprio processo em
que tem lugar a intervenção, entrando em regra de custas, tal qual como
os emolumentos dos peritos, avaliadIores, ittérpretes e outros auxiliares
da justiça.. Se o advogado da pafte usa da faculdade que lhe concede o
artigo 43 .', de Se fazer assistir de um técnico quê o auxflie na instrução-
e -discussão de .questões que exijam competência espedial, esse técnica, em
reI,ação às questões para que tiver sido designado, tem os Mesmos direi-
tos que os man~clla~hários judiciais (art . 43 .0, § único) ; pode, por isso, exigir
honorários ao cliente do advogado que o designou ; SC OS 'hO]lDrários pão
forem pagois, à acção destinada a pedi-los é aplicável o urtigo 76 .'
Ternos, pois, que o artigo âbra~n-gIe :
a) As acções de honorários, devidos a ad~vog&dos, candidatos à
advocacia e soficitadores em consequência do exercício de mandato
judicital;
b) As -acções destinadas à cobrança -de quantias que o mandatário
haja adiantado ao cliente no exercício do m~an ,dhto ;
c) As acções -de hIenerários devi-dos aos técnicos pela assistência
que 'hajam p~ado ao advogado res~ivo, nos termos db aTtigo 43 .'
0 tribunal competente para estas -acções é o tribunal da causa em
que foi prestado o serviço, isto é, em que foi -exercido o mandato ou. pres-
tada a assistência técnica. 0 artigo ordena que a acção de honorários ou
4 pagamento das verbas -adiantadas ao chente corra por apenso, à causa
em que foi prestado o serviço ; portanto, além dum preceito d,~ cumpetên-
cia, estiabelece-se uma norma de conexão : a acção -do mandatário ou do
técnico não f~6 há-de ser proposta no juízo da causa -em que se exerceu
o mandato ou a assi~stência, como também há--dé correr na secção a quê a .
m~ caulsacoube, em ~ribuição, o que significa que a pet-içiLodá acção
de honorários ou de pagamento das quantias adiantadas não eritra no sor-
teio da distrffiuição, averba-se por dependência . ao chefe de SE~CÇão a que
pertencieu o processo em que, foi' exercido o mandato, para que Seja
apensãdo a este .

Quianto aos honorários devidos a advogados, candidatos à advocacia


ou solicitadores, por- serviços extrajudiciais, ou, melhor, por sexviços que
não digam regpútO, sp exercício de mandato judicial, como consultas ver
bais ou escritas, conferências, actos ou diligências extrajudiciais praticados
" solicitação do interessado, o artigo 76.' não tem aplicação, cL2~ modo que
" regra de compeitência de que terg de lançar~se, mão é a do artigo 85 , .' :
foro do doi~bicíli~9 do réu.
É certo qi~u> o artigo 85 .1 ressálva não só os casos previstos nos arti-
gos anteriores, Senão também os previstos em disposições especiais. PÇ)de-
i-ia, pois, pretender-se que se quis deixar em vigor, na p-ai.-Le~ que não
Capítulo III- Da co?npetêmia inte?-nu, ~IU~5

colide com o artigo 76 .', a -disposição especial do § 4.' do artigo 756." do


Estatuto, tal como foi redigido piei<) Decreto n.' 22 :779 .
Não é de -admitir semelhante doutrina . As disposicões especiais que
houve o perisamento de salvaguardur foram as vigenteN, e nao as revo-
gadas. Encon.tram-se espalhados ri ,.) Código vários preceitos particulares
de competência territorial, como os dos aTtigos 1018 .", 1023 .% 1090 .1 ,
1101 .^, fite . ; Poi a estds preceitos e aos que vierem a ser estabelecidos mi
lei~ positeriores ao Códig~o que se quis aludir no artigo Quanto às
disposições especiais de competência territorial formuladas em leis anze-
riores, ou se integraram no Çódigo, como a db artigo 10 .<> do Decreto
n.' 21 :28~, ou foram revogadas pe,IG artij~~o 3." do Decreto n.` 29 :637, e
nestas circunstâncias está a , d(o § 4.1 do artigo 756.' do Estatuto Judiciário .
0 novo Esitaituto (Dec . ri .' 33 :547) já não insere disposição, correspondente
à do § 4 .',ido artigo 756.' do anteiÍor .

0 artigo 76 .' foi objecto de dúvidas e de ci<tica.q . *Vamos Gcupai , ~:tios


de urnas e de outras .

Dúvidas. Um advogado d:~ Lisb~)a, dirigindo-se à pr,,uradoTia-Geral


dia República, aio abrigo do dislooisto -no artigo 5.' do Decreto n." 29 :627,
pÔs as seguintes questões :
1 .' Qual o juizo competente para a acção de honorários quando os
serviços forem prestados em processos crimes, fiscais, administrativos,
de trabalho, etc.?
2.' Sendo cks serviços prestados em comar`cas ou varas dif2rentes,
como resolver o pro~lema da competência do tribunal?
3.' Quando o manàatái,ib não chegou a fazer uso da procuração
e portanto, a interviT em qualquer causa, em que tviburial há-de ser pro-
posta a acção, de honoriários?
4.' :Qual o tribunal competente quando os serviços foiN--m prestados
em repartições públicas ou exclusivamente no escritório do advogado,
sem procuração e :simplesmente a pedido verbal do cliente?
5.' Tra:tando-~se de serviços prestados em tribun&is comuns, mas em
varias ou cornarcas diferentes, qual é o fo, ro, competente?
Em 6.' que juizo háde intentar-se a acção quando os sei-viços foi-em
prestados Nem inventários de maiores ou menores e em - tribunais comuns
ou especiais simu Itâneamente?
Tendo conhecimento -destas dúvidas, procui-.,~i resolvê-las na Rev~sta
de Legislação (ano 72 .', págs . 337-341, 353-31: 6) . R-2produzo as soluções
que aí apre~
A 3.' e a 4.' dúvida já ficam acima resolvidas . Se o mandatário não
c] -rcgoii a fazei- uso da procúração que lhe foi passada, ou se os honorários
dizem respeitg a serviços prestados independentQmente de procuração,
como consultas verbais no escritório, conferências corri intei- '2-qsados ou
advogados, diligências e3çtr,ajudiciais de qualquer natureza , o artigo 76 .'
não tEm aplicaçãje, estamois, por isso, -diante da regra g,,~raI do artigo 8'.»~.I
A acção há-. de ser propocta no foro do domicílio do réu.
204 L~vr(> II-Da competéncia e d« .,~ riarantias da i?vparcia12dade

à
Quanto 1 .~' e à 2 ." É manifesto que o artigo 7~5 .', nada tiem que ver
com o prob12ma da compeUncia em razão da matéria ; tem ~inicamQnte
poir fim resolver o problema da competência terr~itorial, supondo, por isso,
já resolvidos os problemas de competência que lógicarriente estão aiit ,,- ~s
deste, e consequentem ente o problema da competência em razão da
inatéria.
Sendo 1a93in-i, é bem de vei, que se o tribunal perante o qual foi exer-
cido o mandato nu. preistada a assistência técn~ica nao , e competente, tm
iazão da matéria, para conhecei- da acção de honorários, o preceito do
artigo 76 . ,, não pode funcionar. 0 artigo manda propor a acção rio tribunal
da causa em que foi prestado o sei-viço ; com esta determinação não quis
atribuir-se competência ao tribunul da causa, seja qual for a sua natureza,
para conhecer da acção de honorários, o que quis prescrever-se foi que,
se e, sse~ tribunal tiver co)~?,peténcia objectiva para julgar -a acção de hono-
i'iàrios, a essa competéncia acrescerá a conipetência territorial para a refe~
rida acção . Poi- outras palavras : o artigo 76 .o pressupõe necessài~amente
que o tribunal da causa tem comp2tência, em razão da matéria, para conhe-
cer dia acção de honorários ; e partindo deste pres:suposIto, atribui-lhe tam-
bém competência, em razão do território, para a me&nla acção .
S,~~ o pressuposto, falha, como no caso ~de o mandato ter sido-exercido
perant~ um tribunal militiar, administrativo, fiscal, etc . cessa a disposição
c19 ~ai~t`i`go e caím, ',Ys igualmente na órbita do artigo 85 .`, exactamente como
nas hipóteses figuradas em 3 .' e 4 ." lugar .
Restam as dÚvidas ~3 .' e 6 .' 0 mandato fbi exercido ou a assistência
foi prestada em -várias causas que correram seu~s termos perante tribunais
comuns ; mas sucede que ~9 tribunais pertencem a comarcas diferente:,
ou que as causas coubéram, na mesma comarca, a varas ou secções,dife-
i ,entes ; o advogado ou o técnico quer exigir, numa só acção, o paga-
mento dos honorários devidos pelos serviços prestados em todas as
causas.
A primeira questão quê se põe é esta : poderá propor-se uma
única acção para a exigência dos honorários relativos ao exercício do
nTanúato, nas diferentes causasi?
A resposta não pode deixar de ser afirmativa . Estamos em presença
dum caso de c-umu1a~çà'o de pedido.~ ; mas a cumulação é lícita, porque o,5
pedidos são compatíveis -e não existem, nem quanto à forma de, processo
nem quanto à competência do tribunal, os obstáculos postos pelo § único
do artigo 29.' (art . 274 .') .
0 sr. Dr . Palma Carlos entende que, na hipótese figurada, não há
cumulaç~,o de pedidos ; o pedido, segundo ele, é um só : pagament(> dos
honorários devidos, embora por diversos serviços (Ob . cit ., vol . i .',
pág. 27'7) .
Não nos parece exacta esta construção . Ainda que o autor peça
ump, verba global., cori~espondentc à totalidade licis serviços prestados, a
verdade é que o advcwg~do é credor do constituinte por ta-nto .- dívidas
qu,antas as acç6es em que foi exercido o mandato . A causa de 7yedir é o
exercício do mandato ; e este é distinto em relação a cada processo,
Capffitlo III-Da co)iijoet6ncia interwa 205

mesmo quando a pro-~uraçãc, é uma &6, lavrada em termos gel , ais, e SC


extraíram della certidões para juntar às várias acções .
Tanto isto é exacto, que o sr. Dr . Palmia Carlas cam-eça pai- encarar
duas hipóteses : a) o advogado organiza unia conta para cada causa E-
exigo o pagamento de eada conta por lapenso ao processo respec
tivo ; b) o advogado organNa uma só conta por todos as s21 , viços que

Ora se o advogado pode organizar contas distintas em rolação a ciada


causa o propor ac~ões separadas, é porque se trata, na realidade, de dívi-
das diferentes, é parque o exercício do mandato em cada umas -das causas
dá orig~em. a uma dividaautónoma e prefeitamenhe diferenciada ; se a dívida
fosse uma só, abrangendo a tota~lidade dos serviços prestados nos difereri-
tes processos, o mandatário não poderia fraccioná-la e pedir uma part~~
em cada uma das acções.
De maneira que não pode considerar~se recomendüvel a prátíca d, ,
organizar uma conta únie.,?,, referente aos serviços prestados nas váriais
causas : a cada litígio deve,em. rigar, corregpondei- uma conta . Se -) advo
gado apresenta uma conta geral em que junte os serviços prestados nos
diferentes processos, só no ponto de vista material é que a canta é única ;
no ponto de vista jurídico hão-de descrimi -nar-Se e ver-1s~ aí tantas contas,
quIantas as acções em que o, mandato fúli exercido .
Naúa imparta, pois, que o advogado . acabe por pedir uma importân-
cia unica ; nem por isso deixa de haver, na verdade, tantos pedidos quantas
as dívidas e tantas dívidas qu,antas as causas em que se exerceu o Man-
dato . 0 que isso significa é que os pedidos se somaram.
Não é, portanto, absurdo, como o sr . Dr. Palma CarIos assevera, per-
der tempo a demonstrar que, no caso figurado, a cumulação de ped`idos
é a&"ssível .
Assênte qwe pode propar-se uma única acção, vejamos agora qual
o juizo competente. Se as causas em que se exerceu o mandatocorrerani
na rolesma comarca, é claro, que o- tribunal competente é o dessã comarca .
Não 'há, em tal cago, um problema de competência ; o que pode haver , é o
embamço da apemaçõo, ordenada peloartigp Mo, quando as causas t3nham
cabido a secç&es diferentes . A acção de honorários tem de ser apensaUa
à acção em- que o serviço foi prestado ; mas os wrviços foram prei3tados
em acções diversas e -cada uma delas cotá em. cart6rio, ffiferent-_ . G*no
a lei quer que o juiz, ao imistru, ir e julgar a acção dE, honoffirids, tenha a
vista'os várias processas ein que foram prestados os serviços, parece que
nãohá outra co!s~a a fazer, para -dar -.~tisfaçã» à vontade da lei, -senão jun-
tai! eslães processos é apensar-lhes a acção de honorários . Foi exacta .-
mente o que -sugeri ie ia;lvitrei na Revista de Legislação (-ano 72 .", pag. 353)_
A forma legal de executar este pensamento parece-me ser esta : sor--
tear a acção de honorári~os entre os chefes dê . ~ção a que, couberam - as
causas Tespectivas, aperigá  la à causa existente .no cartóijio do chefe de
secção designado pelo sorteio e em -seguida o juiz ordenar que os pro.-
cemos exis~entesÍ nos outros dartóribs se juntem àquele a que s~_- fez a .
apensação .
20(; Lirro II--Da co?n?)eténcia e da ,. ~ garantias da imparc~Áúidade

Se na comarca h,ouvei~ mais do que uma vara e os processos egti-


vei~ espalhados po:i- diferentes vaias, de-verá proced;er-se, de forma
semelhante : designar, por meio de sorteio, a vara em que a acção, de hono
rários há-de correr, apen-sad~a a causa que aí existir (Rev . de Leg, ano 72 .",
pág. 353) .
Quando as causas em que se exerceu o mandato pertençam a co~nar-
cas dliferentes, pode,rá o autor propor a acçã-> ~em qualquer das comarcas,
à sua escolha. Desde que o artigo 274'.", na sua remissão, para o, § único~
do ai`tigo 29 .', não fez depender a l~egalidIade dia cuniul-açã-j do facto de
para os difere~ites pedMos sev competente õ mesnio tribunal SOV o ponto
de vista do vailor e do território, e por outro lado não existe no Código
uma regT ,a especial. de comotênciá para o ca,% de se cumul~ai'8m pedidos
sujeito~s a circunscrições judioiais diversas, a ,Situação apres~~nta-s'3 nestes
termos : pai--a a acçã1o sã<) igualmente compe~eiites, sob o aspecto terri-
torial, vários juízos.
Ora,quando
. isto acontec~~, o autor tem > (Iire(ito~ de. es-colher, dentre
os juízos dompNetemtes, aquele que mais lhe convit~r (art . 75f,art. 85 .(', § 1.`,
in fine, art. 86 .", 2.- período) .
Resta gaber s~, proposta a acção, pndia:rn ser requisitades, os prú-
ce~~ws das outras conia-reas paVa se juntarem àquele ta que a acção se
ap,ens,du . Na Revi«a de Legislação escr~-_~ :
«Inclinam.,)-nos para a respe , s:ta iafirniativa . 0 artigo 713 .` quei, que
a acção de horioráribs se apensie, aio procc,~iso em qul- foram prestados os
gorvíços ; e o fundamento da apensação é, domo já frisámos, um motivo 8e
interesse, público : a boa administração da justiça, a ine4holi- preparação
e d&cisão da cau, sa . Parece, pais, que ia aNn.sação banto, deve fazer-i3 , e
ciu,ando o pedIdo, é só um, como quando os pedidos se cumulam. A cir-
eunstância de os processas pertencerem a coniarcas diferentes não obsta
à apensução. Que assim é, mo-,ffira-o o artigo 280.'» (Rev . de Leg.., ano 72 .',
pág. 354) .
A 6 .~' düvida consilste em saber quaJ o trábunal c=petente quando
em
os iseTviço ,s foTem prestadbs em inventário de maiores ou menores e
tribunais comune. e espec'íâi~s simulUncamenbe .
As isoluç&Bs estão contidas mo que-já se escreveu . A hipótese dio
serviços prestados; t-~m ddís inveii`tários, um ck m~ e outro de meno-
res, corresponde à hipótese de serviços prestados k*n caus= díversas; que
correram em t.t~bunaI comum, na mesnia com-ama ou em coniarcas drife-
rentes.
A hipótese de seiwiços prestados em causa julgada pelo, t]~ibunal
comum e em causa julgiada por tribunal êspec,41a1 resIoàve-s~- na hipótese
de cumulação de pedidos sujeiteo à mesma ola a diterenbe- eircunscrição,
judicial . Com efeito, para og ~honorários ré1~tivos ab exercício, de man-
dato perante o tribunal comuTo, é competente o juízo da causa em que o
.oerviç'o foi pre9tado ; para os honorrários relativos ' ao exercício de mandato
perante o tribunal especial é comp~e o juí.zci do domicílio do réu. Se
este juízo o~inctid~r ~ aquele, não há 'dificuldades; sé for di`ferente, é
líc'ito alo, autor escolher
' qualquer deles.
Capítulo III- Da compe,téncia interna 207

40

A Revista de Jus~tiça (am 2:6 .', pág . 309) aceita como exactas, em
face do que está, as que ex~u-~os na Revista de Legiglação .
0 sr. Dr . Palma Garlos (ob . cit ., pág. 277) também se conforma e= adoLi
trina apresentada, excepto na parterelutiva à 5 .' dúvida . Taxa de absurdas
duas soluções -a de se determinar por sorteio a secção ou a vará em
que a acção de h(>noxário.s há-qde correr, e a -de se apensarem os vários
processos em que foram p1 ,est~8o6- os serviços . As suas vazões são as
s,0guintes :
«Em prime~1~o lugar, não s~Q_ empreende 'porque poderia o adv-3gadD
dentr~- as comareãs, & que mai~s lhe agradasse pR1~a, propor a
acção, e não poderia escolhera vara úua s,ecção em que havia de intentá-la,
quando , -.dos os ~proc;essGs houv~m ' corrido numa 6-ú comarcía.
A i , &ia ~do sorteio não 'é iadmitida, para este caso, por nenhum prE!~
ceito -legal ; e por isso tem de sex Tojeita)da .
Por outro lado, a ~~olução da apens~ação dos processo-s é abertamente
contra a lei. Os processos que podem ser apensados, nos termos do
ai~tigo 280 .o, não são aqueles errn que tenha intervindb o mesmo advogad,-) ;
são o3 que poderiam ser i-, euni;dos num -único, nos t2,itmos, d,)s artigas 29 .'
e 30 .o, que já armlisámos .
Ora se o advbgado inte,rveio, por exemplo, numa acçã~ d~ divórcio,
numa acção de despejo e numa acção, de disso~1ução, de sociedade, como
é que es-tes pr~),c-esbiDs hão-de Per apen ,sados?»
Força é reconhecei; que são razões muito débeis para abónar a tese
arroj , ada e temeráifia que se enunclou : serem absurdas e contráliw3 à lEi
as soluções, alvitradas.

Quanto ao sorteio . 0 sr . Dr. Palma Carlos não compreiende qw-,


poüendo o advogado escolher :a ciomarca, não posisa escolher a vara ou a
secção . Pais compreende-se- muito bem . 0 autor pode escolher a comarea,
porque se encontra perante tribunais de -duas comai"s igualmente compe-
tentes segundo a lei.
Escblhe nd3he caso a comiarca, pella mesma razão por que a escolhe
nos casos semelhantes dos artigos 75 .", 79 .', 80 .', 85 .0, § U, e 86 .' Sempre
quebá doisou. mais tAburrais cumu-liativamente competentes para a acção,
naD é po4sível outi-a, s~aíd;a que não se-j- a esba : o autor tem o direito <k
<~scolber .
Mas o que nenhuma disposÍição de lei permite 'é que o autor escolha
n viara ou a isecçãb em que o procemo há-de correr cu. o juiz que há-de
ei~~r M fumções de relator nos tiibunais éa1ectivos. É pela distribuição
que se díesigr~a a vara, a secçã1o e o relator (art .,209 .') ; e o princípio funda.-
assenta
n~tal em* qub a distribuição é o do sorteio ent1-e~ as varas, tas
secçõEis ou os juízela que estão em igualdade de circunstâncias (aits,. 216 .'
o 226 .o) .
Sendo este o regime legal, pergunta.-se : domo é que se há-de deter-
minar em que vara e 'secçãk> -terá de correr a acção dê honorár" no caso
partícular que ~mos iEurafiwindo, de -se cumulariem podidos relativos a
208 Livro II-- Da eol?],Petê~ e das garantias da i ;npar(, iali(l(i<ie

cerviços prestad)os em pl~sos que couberain u Valias e secçõês dífe-


rentes?
0 sr . Dr . !:>alma C :arlos diz : visto a acção poder correr numa ou nou-
tra valia, numa ou noubra, secção, deve reconhecer-se ao, autbir o direito dei
Qscolhe-r . Eu digo : visto que se trata de designax, dentre duas ou mais vai-as,
duas ou inâis secções que estão em igualdade de circunstândias, aquela a
quie ia acção há--dle pertencer, a designação deve f azer-~ge por ri-teio de dis-
tribuição, e poitânto por meiiio de sorteio, que é o expediente de que a lá
~e siei-ve pai~a atribiÚi- um processo a uma vara ou a unia secção, quando
estão em corncorrênda' diferentes va-ras ov diferenteis secções (art . 209 .') .
Apontando esta solução, não- faço mais do que adaptar o regime legal dos
aitigGs 209 .` e seguintes a um caso que não eistá exp~amente regulado
na lgi, mas que é uni autên .ti~éo casode distribuição ; o sr. Dr . Palma Carlos,
pretendendio que o autor tenha o direitio de escülhe,r, faz :fUr.LCioqlar esto
direito numa, matéria e numa esferaem que a leio não . ~i~eccynhece . Parect--,
pois, que, da6 suas soluções, é à do isir. Dli. Palma Curlos, e não à inffiha,
que pode apilicai-se ü qualificativo de ilegal.

Quanto à apensação . Não invoquei o artigo 280 .o para demonstrar


que, no ciasq sujeito, os processos ~am. ser apenskdbs ; isó o invoquei
palia justificar esiba, tese : não iIepug~na à lei que se ap~er%eni processos
pertencentes a comareas diferentes .
.0 que jUsfifica, a apensação, na hipótesie disautida, é o artigo, 76.'
Est~e é que miar-da, .sem dúvida ;al'guma, -apen§ar a acçãb de hnnorários à
causa em que o serviço foi prestado . A lei quer, por uma razão de ordem
superíor, quIe o juiz tenha à vista o processo em que foIi exercjido~ o man-
dato , : a instruçã~o é mális fácil, a decisão mais consciencióiga .
Como se dá satisfação a esta, von!tade da lei quando, em vez dum só
pracesisó, haja vár%s, pertencentes ia tribunais di'ferentw? Evidentemente
juntando os vários processos. De modo que é o próprio artigo M% e não
o 280 .% que deterinina, e impõe a apeinsação . 0 art~go 280 . 1 foi chamado
sómente para se mostral- que não constitui impedimento .à apensação- a
circunstâncila de os processok ositarem em comareas diversas.

A Revista de Justiça (ario 26 .", pág . 310) e o sr . Dr . Palma Carlos


levantam outi-ais dúvidas . Se o serviço tiver sido prestado na Relação, ou
no Supremo, qual, a juizo compiitente? Se o mandato, t~ hsLi(I'C~ exercido,
na 1 .' instância e o processo ainda estiver pendente -na Relação ou no
Sul>iAe=, há~dW o mandatário esperar que o processi,> baixe? Se o, man~
datário renunciar o mandato ou este 'lhe for revogado, continuando o pro-
ces.4o a correr, há-de, o -atdvogadb aguardar que o processo finde?
É evidente que o credbr dois honoráli~ots não pode ser forçado a
espelar que ~u ~p,1~oc~o t~rmine e baixe à 1 .' inistânéiá ; pode propor a
acção logo que o mandato deVa considerar-6e extinto . Sic'Tiessa, ialtuta, o
proce~ ainda está a correr ria .1 .' - inistâncTa <>li em tribunal superior,
a apensação não pode te)r lugar . Mas não sé 'segue d'aí que o preceito , de
~ petência. do a-Aigo, 76 .o deixe de funcionar. Aacção há-de ~àer proposta
Capítulo III -Da competência interna . . 20 9

no tribunal da cauga respectiva ; a apensação, far-so-á logo , que seja pos-


sível, Isto é, lógio que o prgcesso termine e baixe.

Criticas. 0 sr. Dr. 1"ãlma Carlos e a Revista de Justiça não concor-


dam ciom a doutr`ina . do, -artigo . En~endem que devia Trianter-se co stata
quo ante, a norma de ooffnpetência dIG § 4 .o do, artigo 756 .o do Estatuto
ou do artigo'12 .' do Decreto n. , 21 :28'7 .
Razões :
«Não é juíAo forçar o advogado ou o sialicitadbr que ~serviu o cliente
o melhor que pôde e iss~, ri:--. c~eb~en ,do em troca dos seus serviços um
calote, a andar depois a correr pelas comareas ondê o serviu, Pai'& tentar
ser pago dos 9e~~s honorúrios e dois dinheirois que porventuriw haja achar-
tadD ao eliiente» (D.r. Palma CárIos, pág. 275) .
«É vulgar a inhervenção de advogados de Lisboa nos recursos que
sbbem das Reliações C~iais ao Supremo e até nds que sobem. !dás Reila-
ções do Porto e Coimbra . Queir-se, neste caso, obrigar os advogados a
irlem propor a acção de honorários â comarca onde a acção foi propúsÍa?
A Tlimor, ao Bié, à Huília, a Cabo Delgado, a Macau, ete?
Mias Isso equivale a uma dene-gação, de justiça, poi~s o impedimento
ou difie-ull , diad~,,da propositura claacçãD naquelas, lC~nOnquas paragens eqti'.[-
val~-,~ ao não ~e'mbbliào do que ao advogado é devido . Obrigar miesmo um
advogado de LIghoa, Port4) ou Cdhnbra ia propor ia acçãc, em Miranda do
Douro, em Chaves, ou* ein Vila Real de Santo, AntóMo .é uma violên~Cia
tamanlw que precisa de ser evitada sev~ delongas (Rev. de Just, ano 26 .`,
págs. 309 e 310) .
Por fim, pondera-se que a di,sposição db artigo 76 .1 nem sempre
atinge o Iseu objeictivo, domo acaba, de Verificar-se.
Pa;recem~nos exoessivas e pouco conviniceútes as criticas qu2 têm
sido feitas.
A questão dosdobra se eân duas :
1 .' Sabei- ~e t~!in justificação plausível a -regra de empetência do,
~itigoi 76 .' ;
2.' 'Saber sie palia os casos em que essa regra não rY(Yde funciona,r,
w3 ~acções de honurárIDs deViam ficar sujeitas ao foTo dIo domicílio do~ r~~u
ou ao forjo do esciritório , do mandIatário .

Quanto ao 1 .o ponto . 0 qu;3 s -e passou na Comissão Revis!o,ra é elo-


cfuente. 0 sr . Dr. BarboEia de Magalhães, que nã6 Ploide! ser acusWido de
fruuxo ou doscuid&do na -,d~efeisa das prerr!ogaltIvas dos adv,3gados, porque
;sempre se ~strou e ,io's .3 e vi~gilante nessa defesa, apresentou uma, pro-
Posta no sentid~ de se mante,r, em todIa a sua amplitudie, a di~posiçãio, do
§ 4.' db artigo 756 .' do Esta1tuto,
' nias desistiu dela perarft;eu ju~JtifiícaÇào ,
prolduzída pelh Autor do Priojecto a resp~ito da vegria quei 'hoje (se lê no
eirtigo 76 .' e peilante a ~aqui~escêneia a es~31?i ju~tiTicação por parte dor~.
restaútes vogais da Clomissão .
V&ge, portãút~>, que a razãb invocada pelo Autor do, PToj~~c'to) calou
no espírito dos vogais ,da, Coffliaisão, entrie os qua;ís se encGntrava o ilustre
14-CóDIGO DE PROCESSO CIVIL
210 Livro II --Da conipetência e das garantias da -imparcialidade

advogado, sr . Dr. Sã Carneiro, a quem também não pode, com verdade,


fazer-se a censura de menosprezar ias justas regalisLs, da claissedos B~dvo~-
gados. 0 próprib ~sr . Dr. B, aT%-sa de Magalhães, longe de insi.stir~ e,r~epli-
car, parece ter-Ise rendido à boa doutrina, porque desistiu da proposta .
Que importa. que nalguns casos, aliás pouco frequentes, ib, preceito de
completência 'do -artigo 76 .' não possa ter aplicação? Isto não é motivo
para que &Ixe de mariber-se para os restantes, para aqueles ~ qu,-- pode
funcioniar .

Qu,anto ao 2.o ponto. Como se legfstou, o artigo 95 .o do Pà~.o0jectb, na ,


2.' paite, reproduzia ia disposição do § 4.1 do, artigo 756.' d~ Estatuto.
Porque se éliminau posteriormente essa parte do ~artigv?
C~ob não ândarloinWe da verdade supondo que o motiv-j- foá io con-
vericânento de que nãb liavia uma razão pereroptór1ia e dedisiva para con-
servar um desv£o dIa regra geral db completênciu heerritor`iial fo,rMulada no,
artigo 85.o, desN,,Iib que tinha todõ o ar de ser um privilégio . -
Porque é quê, em princípio., o &vedorr há .-de ser demandadb n-ç) juízo
1

do seu domicíli5 e -só quando -se defronta com um advogad<) ou soficita-


dor - preccislamente os «ediord3 mais fortes e mads bem apeire-chwdos --
é que o regime há-dle in~ter-ge, obrigan-d~o-sc o deved~arr a rk~,spon&ar no
don~icílw do credor? Porque é qu,~! o méd`ico~ o engenheiro, o arquitecto,
o pintor, etc., tÁ~m de perseguir os seus devedoTes: noi juízo do, domicílio
destes, que pode estar ia grande distância do seu piróprio do[micílii0 üu do
lugar em que o serviço -foi prestadb, e os advogadbs, e solicitadbres, hontens
do foro, eom,ia supeiÍoridade e fwcilidialdes que a sua profissLi, implica, é
que lião-de gozar ida prerrogativa especial & foxo ao pé da purta?
Os rualefícios que o sr . Dr . Palma Carlos, -e a Revista de Justiça atri-
lou~ à aplicaçÈ~o dio artigo, 85 .0 . estão mapifestamentLe exageradoís ; fez-sie
uso dernasiaido, (Ias cores sombrias . Per~deu~s~e, sem dúvida alguma, o sen
tido das proporções quando !se escr&veu que «obrigar um advogado d,~
Lisboa, Por%o o-ti Colimbrau propor -a acção em Miranda db Douxo, Chaves
ou Vila Real da Santo Antônio é uma violêncla tamanha que precisa de
ser evihada seem dolongas»!
Parece que, se não se acoúe imediatamente, a segurança e a tran-
quilidade ssocial corren~ grav:~s rÍ~cos .' E todavia foi nesse 1~eg'ime de vio-
lência inaudita que neghe desgraçado País se viveu durante arios e -séculos
seguidos, sem que :nenhuma catástrofe se prodbzisse! Os advogados de
Lísboa presitaram serviços forenses, -durante centenas de anois, a consti-
tuirib6s das ilhas adj'acenb5s e dIas colónias sem a protecção do § 4.1 do
ãrtigio 756.o do ErAatuto e nunca se ouviram os cliamores que ago,ra s~2
erguem em volta do irdorltunadb preceito, db artigo 76 .' db Código.
Dir~sie~i,a que -a recusa de'pagamento dos hoii ,orário,s aos: advogadbs
era, até há polaco, um facto raríssimo, e :se tornou recenternerite uma
ocorrência vulgar ; &r-se--!ia ainda, que-o advogado -não tem meia de se
precaver contra o possível precalço de ter de id~emahdar o cUente em
Timor, no Bié, na Huíla ou em Macau. Nada disto é, porém, exacto.
As acções de hoínoráriüs & advogados continuam a iser raras ; e as que
Capítulo III -Da competência interna 211

por ori'gem a circunstância (te


apa~m nos tribunais têm quase s~empre
o ch~enhe cons~ar excesãiva a conta ap, m~ta&a, Por outrb lado, quandb
a procuração viem de parage~s longínquas, há sempre tan intermediário
entre o adVoodb de Wsboa e o cIi~ente ; esse inbermédiárib é o advogado
que exerceu o mandato na 1 .' ena 2.' instância, ou numa delas., ou então
é um banco, uma casa comercial, uma entidade ,enfim. que dá aio advogado
a segurança de que os seus lhônorários ,*rãb v~Dluntàr~amento satWeitots, .
Em iSátima extr~emi&a&, se o advogadb bem mk>~ivc)s para adoptar
caute-las espe~s, a lei põe â sua disposiçãb meios f~ de defe5i :
a exi~u duma pro~ (Estatuto Judiciário' art. 557 .1 , § U), a está-
pulação de que os honorários serão pagos no se~ escritótio,(Córd . de Pro~, .,
zit. 74 .*) .

ARTIGO 77 .0
(Inventánio e habilitação)

0 triburial do lugar da abertura da herança será competente :


1 .o Para o inventário ;
2 . ,> iPara a habilítação -de urna pessoa como herdítira ou
representante de outra .
§ 1 .o A herança de indivíduo falecido forá do País,', seni
nele ter domicílio nem bens mo6iliários, 4bre-5e no lugar em que
existir a maior parte cios bens mobiliários .
§ 2 .o A habilitação será requerida no tribunal - do doini-
cílio do habilítancio quando a herança se abrir em país estrari-
,geiro .
§ 3 .o0 tribunal onde se procedeu a invontário por óbito
de um dos cônjuges é o competente para o inventário a que
tiver de proceder-se por óbito do outro cônjuge, excepto se
o . casamento foi contraído segundo o regime da separação
absoluta de bens . Quando se tenha proceclido a inventário
por óbito de dois ou mais cônjuges - do autor da h,erança,
a competência será determinada pelo último desses inven-
tários .

A ffisposição &ste artigo teve por fontes os artigos 22 .', 23 .' e 25 .'
do Código anterior.
Decla-ra-~se eonipetente o tr~ibunal do lugar da abertura da herança
para o inventário e para. a habilitação duma pessoa como , herdeira ou

1 A palavra «Pal:s» deve, quanto às colónias, entender~se Poi, «Coló-


hia» (Port. n.' 9 :677, n.* 12 .*) .
212 Livro II--Da competência e das garanÉias da imparc ,~,*~tlidade

repíreoentante de outra. Maisampih é a regra de competêncíado, artigc> 22 .1


do Código Por ~ ~o o foro do lugar da abertura . da herança
é cúmpeitente para " causas hereditárias ; e nestú &áigrÉaçã<) se incluem
E~s causás :
1) relativas a petiçãoou divisão de herança e quaisquor outras entre
até
coerdeiros à partilha ;
2) re1ath~ à ~isão da partilha e à gwrant~a das quotas, desffi--
que sejam propos;ta~s dentro, de dIois anos a contar da pa;rtilha ;
3) rela~iVas a créditos contra,o f0ecido ou a I~egad(o~s devidos pelos
her&iros, quando propostas antes da partilha, mas dontro d14- dois , anos
a contar da abertura, da herança;
4) contra o testamenteiro, desd`e que E~ejam prüpost1a~s dentro do
prazo indicadono número an~erio1-.
Sea herança se abrir fora do reino, as causas mencionada's são da com-
a
potência dIo trâl>un(al Ulo lugar em que existir, no reino, maior parte dos
na ou dâlg-lim -dos réus,
ben~, o_ falta !dJestes,dó triibun-al da residência do iéu
0 Código bras12ei, ro submete, ao foro do domicífio do de cujus o Inven-
.
J

tárib, a partilha e todas as acções relativas à herança. Quandoi o de cuius


faleça em país estrangúro, atenide~se -ao seu último dom-icílio- no Brasil ;
na falta do donúcílio oerto, declara-ise competenta o foro da situação do
imóvel deixa-do pelo falecido e, s',e não tiver deixadb'irnovel, o do lugar do
óbit~, se ocorrar no Brasil (art. 135.`) .
0 artigo 77 .1 ido no~ Código fiebu âqu~e~i-n db artigo 22 .'> db Código
italiano e 'do artigo 135.' do C'ód igo brasileirb .
0 lugarda, ab,,z~rtu1-a da herança está determinado no artig.:) 2009 .' do
Código Civil, a que serve d,~~ cümplemento o § ]- .' do artigo 77 ." do Cóffigo
de Processo . A herança abre-se : a) no domidlio do finado ; b) na falta
do domicílio, , m> lugar da situação dos imóveis deIxados pelo finado ;
c) se os imóveis estiveriem situladids em vários lugares, naqu, Ele, em que
s.e achar a maior parte delos, calculada pella respectiva contribuição
directa ; d) na falta ffi-- imóveis, no lugar do (~bit~o db de -cujit,9 ; e) se o
óbitio ocorrer no, es~trange~iib, no lugar em que, no País, existir a maior
parte dos bons iriobili'ários.
Atende-s~c, em primeirio lugar, ao domicílio do autor (Ia hIerança .
É claro que o d'amicílio há-de d.,eterminar&- em conformidade com as
regras dos artigos 41 .1 -e seguint,6s do Código Civil . Sie o de cujus tinha
domicíHo neceaoLr~õ, é n~ejIe que se abre a herança, embora a sua rasidên-
cia lefectiva, fosse noutro lulgar (sr. Dr . Palma CaAos, 6b . cit,, pág. 286 ;
Silva Carvalho, Manual do Proc~esso de Inventário, pág. 53 ; ~sr. Dr . Lopes
Cardosú, Processo die Inventário, pág. 71 ; acórdãos do Suprznio T.ribunal
de Jus~tiça de 26 de JuJho dê 1!907 e 16 de Dezembro de 1930, Colecção
Oficial, anos 7.o, pág. 3- 28, 29 .0, pág. 228) . Tendo o finado domicílio em
certa comarca e nhutra rosidência acidental e behs ini6veis, é naquela,
e não nesta, quê se abre a herança e prociede a hiventário, (ac. do S. T. J.>
de 24~j5.o-940, Col. Of ., ano 3,9 .1, pág. 243) .
P~ le~itar-se as dúvidas quanto ao aIcan~ce da fra~se <na falta
db docrnicíl%», que se lê no § 2.o do artigo 2009 .o SuponhamoLs que o
Capítulo HI -Da competência interna, 21 3

de cujus tinha duas ou mais, residências onde vivia alternadIamenté e não


fizera, perwite a respecti~4a câmara municipal, a dedamção , de que pre-
feria unia delas para geu domicílio~ ; morre numa a des~sas residêheias.
Neste caso parece-rios incontestável que herança se abre no lugar
da residência em que faleceu, por força do § 1.' do artigo 20~09.', combi-
nado com o artigo 43 .o Diz-se neste artigo que, tendo o ciidadão ;div2rsas
residências, ande viva alternadamente, e não tendo preferido algunia &Ias,
será havido por domicíliado naquela onde se achar. Logo, se, à hora lia
Tnorte, se encontrava numa das residências habituais, essa residência
cia, para t,>dlos os efeitos legais, o seu domicílio e é aí que se abre a
hei-ança .
Já se tem sustentado e d2ciffildo, que à hipótese, figura-da se apliCa
o § 2.' do artigo 2009 .' e que, portanto, a herança se abre no lugar dia
situação dci3 imórvei(s. A solução é errada, a nosso ver. Não, estamos em
presença dum caso ,d,e faUa de domicílio, para que possa recorrer-se ao § 2.'
do artigo 2009 .' ; o artigo 43 ." ordena que o cidadão seja havido por domi~
cili,ado na residência em que se achar, partanto o caso, filgurado desenha-,%
nitidamente assim : o autor da herança faleceu no seu domicílio.
Peluco importa, pois, que nenhuns imóveis o finado possuísse na
residência em que fal-ecieu, <~ que todos ou a miaior parte -dos imóveis
estejam situados numa das outras residências habituais, . Desde que a
residência do ~&b~-to ,era o seu dómicílio, por virtude db artigo 43 .o, éo § Lo
do 'artigo 2009 .', e não os § 2.0, que tem aplicação.
Outra 'hipótese. 0 finado tinha -diversas residências ; não, preferiu
nenhuma delas para domicílio ; falec:3u noutro lugar Em que acidental-
nie'.nte se encontrava . Agoi~a é que têm cabimento, os §§ 2.' e 3.o dü
artigo 2009f : a herança abre-i--le no lugar da situação dus imóveis ou da
maiDi, part .-~ deles . Na verdade, não tendo o finado preferido nenhuma
das residências nem se encontr2mdo em alguma delas,, não há critério legal
para sobrepor uma das residêndiÁs às outras ; estamos, por isso, ~-_m pre-
sença do caso de , falta de domicílio.
Não se podeaplicar o artigo 4'5.' do C6d-igo Civil, siegundb o quial
havido por domiciliado no lugar onde se achar o. cidadão que não tenha
residência' perm~ente. Este artigo visa a hipótesedos desenraízados, das
pessoas, ambulantes e errantes, que não têm residência fixa em -parte
alguma ; a hipi&teE,~ figurada é a de pessoa que bem mais que uma resi-
dêncla fixa e habitual . Além -de que a aplicÊLção do artigo 415.' teria como
consequência abrir-se a herança no lugar do óbito, quando é certo que
o § 4." do artigo 2009~` não permite que se atenda ao, lugar do óbito senão
na falta de imóveis.
0 ~caso que estamos coiisi(12rando está prevenido na parte final do
.
§ 1 .11 do a,i-tágo 85,." do Código de Pro:c~esso . Determina-se ai que, não se
encontrando o réu em nenhuma das residências, poderá ser demandado,
em qualquer delas, à escolha ido autur. A -aplicação, por analogia, desta
dispo~sição daria em. resultado que a herança se poderia considerar abarta
em qualquer das residênc~as, à escolha da pessoa que requeres-se o inveii-
tário ou a habilitação ; mas não é lícito recorrer, por argumento, de analo-
214 Livro II-- Da cqmpeténcia e das garantias da imparcialidade

gia, ao !disposto no § 1 .' do artigo 85..', pela -razão decisiva de que temos
lei expmssa para o caso : o § 2.' do artigo 20019 .' do Código C-Nil .
A dúvIda niais grave que o § 2 .0 do artigo 2009 .o podia suscitax é se
as palavras «na falta de domicílio» visam únicamente o caso de o finado
não ter ~ente d)onilicílio, ou abrangem também a hipótese de o -domi
cílio ser em país. estrangeiro . Falta de dornicílio quer dizer falta absoluta,
ou falta de domicílib em Portugal?
0 § . V do artigo 17~.-, i<e~dução do § 1 .* do artigo 22 .~> do Código
de 76, acrescentado pelo Decreto ri . , 4 :618,de 13 de Julho de 1918, dá-nos
a soluçã;o da dificuldade . Determina o parágrafo que a herança de indivíduo
faleci-do fora de. País, sem nele ter domicílio nem bens imobiliários, se
abre no lugar ern. que ekistir a maior parte dos bens mobiliários . Daqui
se vê que -a expressão «na falta de dornicílio», inserta no § 2." do
artigo 20% .', ságnifica o mesmo que : «n~a falta de domicílio em território
poituguês» . Corn efeito, -as palavras «sem nele~», referidas a País, mostrani
claramente que, embora o falecido tivesse o seU dornicílio no estrIangeiro,
a herança se abre em Portugal, desde que : a) ou haja imóveis situados
em território português ; b) ou o aubor da herança faleça em Portugal ;
0 ou deixe cá bens niobiliários .
Só quando o de cujus nem tenha dornicíliô em Portugal, nen-i deixe
bens alguns no País, nem aquIi faleça, é que a herança se abre ezn país
ü.3trangeir~o, posto que seja português o autor dela . Em tais circunstâncias
entendeu o legislador que não h-avia fundamento plausível pala f azer correr
o inventário em tribunais portugues31s . Se o inventário for requerido eni
Portugal, verifica-se a incompetêncila internacional dbs tribunais portu-
gueses (alínea a) 'do art . 65 .', co,ordenada com o art. 77 .' e com o art . 2009 .`
do Cód. Civ.), a não ser que .possa invocar-se a alínea c) ou a alínea d)
do artigo 65 .o
0 sr. Dr. PaInia Carlos, POTque não tomou na devida consiúei'açào
o § 1 . do artigo 77 .% enunciou, a nosso v~r, ,àoutrÍna inexacta . Escreve ele :
«Mas, por virtude da ,apliclação das regras do al'tigb 2009 ." do Código
Civil e do artigo 77 .`, § Lo, deste Código, o lugar da abertura da herança
pode vir a ser no estrangeim Basta que o autor dela aí tenha o seu domi-
cílio, ou os seus imóveis» (Ob . cit ., pág. 286) .
Não basta tal. Por foi~ça .do § 4 .' dIo artig~o 2009 .', a herança abre~se
em Portugal quando o de cujus se finar em Portugal, embora tivesse domi-
cílio e imóveis em país estrangeiro ; por força do § 1 ." do artiglo 77 .` do
Cód~igo de Proiciesso, ainda a herança se abre em Portugal quando o, seu
autor deixar aqui bens mobil ,iários, posto que o seu domicílio fosse em
país estrangeiro, aí estejam. os imoveis e ai ocorresse o óbito .
Continua o dist~nto advogado :
«Em tal caso, diz o § 2 .` do artigo, 77 .`, a habilitação, será i~equerida
no tribunal do domicílio -do habilitando . E o inventário? Poderá ser
i., equerido perante os tribunais po'i-tugueses? Entendemos que não : ou a
herança é constituída apenas por móveis, e então o quedeve é proc, 2der-se
à arrecadação do espólio, nos termos do artigo 186 .' do Regulamento
consular português, de 7 de Março de 1920, habilitando-se depois a L-Ia os
Capítulo III- Da competência interna, .1 1 -)

interessados no juizo da naturalidade do falecido, ex vi do artigo 194 .- , Jo


mesmo Regulamenibo ; ou é constituída por imóveis, e a partilha destes
há-dè fazer-se no lugar (ia situação, visto ser o forum rei sitae o compe-
tente para ela, embora a sucessão se r~eja pela -lei pessoal do de cuj?.1~~» .
Quando a herança se abn~ em país estrangeiro, por o seu autor riem
têr domicílio em Portugal, nem cá deixar bens alguns, riem cá falecer, os
É , não têm competência para o inventário, nem interila
ti1Íbunai~s portugueses
nem internacional . o'qule o § 2.' do artigo 77.' claiamente revela . Pal-4
o caso de a herança &e abrfl- em país estrangeiro, declara-se competeril,e,
no tocante, à habilitação, o tribunal do domicílio do habilitando ; mas nada
se dJiz quanto ao inventário,. Este silêncio significa que o inventário só
pode correr ém Portugal quando a herança se abra, segundo a TiGssa [ei,
em teriltório português; desde que nem o artigo 2009 : do Código Civil,
nem o § -1 .1 do artigo 77 ." 'do Código de Processo faça abiíi- a h~~rança em
Portugal, n~o há tribunal partuguês competente para o inventário sol) o
ponto de vista terrUorial, e se todos os tribunais portugueses estão pr,iva-
dos d, 2 coniMência territorial interna, estão igualmente privados de com-
petêncla interna;cional, iros teimo.,; da aliena a) do artigo f~5." ; e corno a
alínea b) do mesmo artigo é i'napl- icável ao caso, s-egue-se, que só nos casos
excepcionais previstos nas alíneas c) e d) é que poderia atribuir-se com-
petênci, a internacional aos tribunais portugueses .
A posição dIa nússa lei é divei~sa da da lei *tali,ana. . Segurido a última
alínea -do artigo 22 .- do Código de Processo, Civil italiano, ainda que a
herança s.e abra em país estrangeiro, as causas . hereditárias não deixani.
de sei, da competência dos tribunais italilaTios, devendo, em última análise,
ser propostas no juizo do domicílio do réu ; segundo a lei portuguesa, o
inventáilo s6 pode correr ~Em Portugal se, ~os termos do artigo 2009 ." do
C"go Civil e § 1." do artigo 77.' do Código de Processo, a herãnçà ;se
abrír -em território português.

Pod!3 suceder que o autor da herança faleça a b31-d~c> de navio que se


encontre fora de águas j; urisdÍcionais. Qual o tribunal competente para
o inventár~io?
0 sr . Dr . Silva e Sousa pós a questão perante a Comissão Revisora ;
enterideu-se que não havia necessidade de regular a hipótese, por s.~1-
muito rara (A,cta ri ." 41, da sessão de .4-4 .'-938) . 0 sr. Di- , Palma: Carlos e
de opinião que se aplique, por analogia, o disposto nos artigas » 196." e 194 .'
do Regulamento Consul!ar. 0 ai-tigo -196 .` determiria que, falwerido a
bordIo, -de rvavib mercante português qualquei- tripulante ou passageiro, s~
proce-da à liqüidaçãõ 'do espólio, na forma usual ; e o artigo 194.' atribui
competência, 'para !a habilitação ao espólio, ao tribunal da naturalidade
do falocido.
Esrtas &sposições ri(" são de aplicar ao caso, nem resolveriam a
dificuldáde. Uma coisa é a liqui6ção do espólio, isto é, a liquidação dos
haveres que o falecidio levava corisligb a bordo do navio, em que faleceu,
d5itra, coisa é a d~r~ição, avaliação e partilha dos restantes bens deixados
pelo finado . Que se arre~caàe e liquide o espólio, está bem ; mas esse&
21 6 Livro II--Da competência e das riarantias da inkoarciaiiàade

,actos não prejudicam o inventário pr~>priamente dito da ~hierança, aberta


pelo falei do tripulante'ou do passageiro . A este inventário hãQ~de
aplicar-se ais i"gras próprias, e não as coneernentes à liquidaçãO de esPóli108.
Por outro lado, o artigo 19&' do Regulaani-Tito Consulax só tem cabi-
mento quando o fin!ado for poirtuguÔ3 e o óbito ocorrer a boi de na~io
mercante português. Ora o problema põe~ãe também a reispeiti3 de estrân
geit~os ou portugueses falecidos a bordo de navios mereantes estrangeiros .
Visto que não há precêito pailticular para o caso, têm de observar-~sN
as regras g~rais . 0 .falecimento a bordo idie navio que se enici. fora
das águas jurisdiciona,is poiltuguesas, equivale a faIeicimento, fora de Por-
tugal ; partindo desta base, umi duas : a) ou a herança sie abre em
Portugal, por~u~! o finado tinha cá domicílio, ou bens, imóv&s ou móveis ;
b) ou a herança se abre em país estrangeiro, porque não se verifica nenhum
daqueleç, -i,equisiltols. No 1." caso o 'inventário Uidb correr em Portugal
no tribunal do doi do de cujus, ou no dâ sItuação dos imóveis, ou no
do lugar em quie se achar a maior parte dos móveis, conforme for de
aplicar o § Lo do artigo 2009 .', ou os §§ 2." e &o dli m2snio artigoi, ou o
§ 1 .' :do artigo 77 .' ; no 2.o caso os tribunais portugueses não sã 3, compe-
tenteis pai-a o inventário .

Suponhamos que a herança s.e abre em 'Portugal, mas os bens do


inve!ntar~ado,, ou uma pai,t3 deles, estão :em país estrangeiro. 0 tribunal
português do lugar ida :abertura da ~heirança é coinpetente paia o inventário ;
põe-~sü, porém, a questà~o, de saber ise hão-de di2wre~ver-&e e partilhar-se
todos os hens, ou sórolente os que existirem em Portugal .
A questão foi levantada na Comissão Revi&,>ra pelo sr . Dr . Silva e
So,usa, que enter.&a dever ffiaerir~se no Código uma di-spúsiçãii pela qual
se atribuísse competência ~ao tribunal português para a partilha de to~los
os bens 'da herança: tanto os existentes em Portugal como os existentes no
-estrangeiro. Houve &vergêncilas no seio da Comissão e nenhunia delibe-
ração se tom-ou sobre o assunto. No entanto, remata o sr. Dr . Palmia
-Carlos, a douti~,Ína dosr. Dr . Silva e SDus-a é a exacta (Ob'. cit., pág. 288) .
Não há dú vida : posto que nã~o se ~nsei~ilg,"- no Código a disposição
proposta pelo -ar., Dr . Silva e Sousa, -a doutrina dia nossai é a que essa
proposta traduzia . Em prim1~iro lugar, não pode d,:~ixar . -de e-olisid!erar- ,se
anómalo ~e inconveniente que se façam tantas partilhas quanto!,Q~
' 46 .8 países
em que se acharem os bens . A partilha -d~- ser unia só, -abrangendo
portanto todos os bens, geja qual for 'o lugar em que se eniem.
Em segundo lugar, os §§ 1.1 e 4.' do artigo :2009.', combinados com o
artigo 77.', mo~~tram claramente que o perisamênto da lei poituguesa é
que o +inventário o,rga-nizaido em Portugial compreenda os bens iexi~lbes
em país estrangeirb .
Com efeito, manda-S.'~ abrir a herança e : r~der a inventário, em
Portugal quando o finado cá tiver domici%) e também quando o 4bito
ocorrer em terrRóilio portilguês, embora o'inventariado não tivessie ~i
cílio, nem bens em Portugal . Ora s:~ os tribunais portugu~a são compe-
tentes para o inventário, meIsmo quando todos os, bens dó ilirMi%tariado
Capitido III-Da competencia intcynn. 217

estejam, en-i país estrangeiro, é claro que o inventário se destina à descrição


e parfilha dos bens existentes fora de Portugal .
S'implesm~ente, com ser este o si , ste~na da lei portuguesa não se segii-~~
que, &- facto, asslim suceda . É que não basta pr'oclainar : o inventár~o
liá-d!e eGi-rei- em Portugal e abrangerá todos es bens, mesmo os situados
~_,ni território estrangeiro . -A . proclamação &,s`te princípj~o, só terá verda-
deiria eficácia na medida em que as leis e os itribu -nais &,,s países em que
os bc~ns se encantrarem Ille dierem a sua ad,esão .
Exempljfiq~remos . lViorre em Poliltugal um cidadão português qu ,~-
estava d:~,micIliado no Brasil ou qu~e, domíciliado em PartugIal, deix~u beris
imóveis no Brasil . Os tribunais portugueses são comp ,pte,ntes para o
é,
inventár`io de toda a sua herança ; mas por viitudc~ do artigo 135) .<> )
CódigQ bra,síle-iro tambéri os tribunais do Bra, sã1 são coTnpetent.«~S pala
o inventário e partilha de todos os bens deixad,)s pelo falecido . Estainos,
pois, em prêsença dum conflito, d~~ jurIisdiçõ~.s .
CornoSC resolve o conflito , ?
Desdé que não haja ti-atado ou convenção, os ti,ibuiiais do ca,,,ia pal,s
resolvê-lo-ão iem conformidIad!, com as normas ditad(a% pel,) Estado a .qw~
3~

devem obcldíência ; 1,kto equivale a dizer qu :~ (1, ti~iLunais poitugue-Ses se


3

consfiid,erarão competentes, 'por força da alínea. a) do a141g.)* 65 .'>, coordei-lada


ec~m o artigo, 77 .', paria e, inventárib e partiIha de trl:l'o~s os bens, mesmo
os situadoIs no Brasil, e que, por seu lado, os , tribunais bvasileiros se
arrcigarão competência para o inv&ntáT~io e partilha ~ tud-ns os bens,
mesmo os existentes em Portugal . Teremo-s, po,is, n, ~_ prÍtica, dois inveri-
tários, duas partílha~s ; e como a sentença d2 homdlog.gçãb da pa'rtil.lla
efectuada en~ Portugal não será acata,da, nem .executada no Brasil,
incid~ir sobre, mátéi'ia dia coimpetência, dos tribun~ais brasiIeiros, seigundo a
iegra di-- competência intérnacioqial a que estes têm de chedecer, o mesmo
,sucedendo em Partugal quainto, à sent ,2-riça profei'ida rio Brasi,l, o bom
sonso aconselha que os tribumis de cada país, em caso de conflito, se
limitem a inventãria, r e partilhar .os bens existentes no território nac~Gnal .
Uma colisa é, pois, o princípio, outra a actuação prática 'dele.
Por se reconhecer que só m,~diante trãta~dbs ou convenções interna-
cíonais sia pode assegurar a eficácia do pT~ncípio, da unidade e unive"dli-
dade do inventário, é que o legislá-d~~r :s~- absteve - d~e o f«i , Tnular .

0 ri ., LI do artigo 77 .' T-3fere-se evidentem.ente, não a qualqUer


inventário, mas ao que tem por fim a desicrição, avaliação e partilha da
herança de piessoa, falecida . Há- ouitras espécies de inventário : a) o inveri
tárilo-arrolamento, 'destinado àffiloarnente :à descriçãó e avaliação de bens
de pessoiws vivas; b) o inventário para paTtil-ha em consequênúa, de divór-
cio, separação de pe,13oas e bens ou anulação dIz~ m-atrim"io . A nenhuma
diestos espécies s~e aplica o, ri .' 'do, artigo 77.,
1.0

0 inveritário-arrelamento, tem lugar qua-não se institui uma adminis~


traçãb ou fruição de ber~,s alheios,; serve para fixar a i~esponmbilidade do
ãdmínis~tradlor ou db titular do dimi*o de fruiçãb. É o caso & interdição
por demên~c:ia, surdez-mudéz; ou pmdIlgalida& : os bem e~itregaTn-se ao
21 8 Livro II--Da, competência e da .s garantias da imparcialidade

tutor ou curiadú,r mediante ai- rolamento, que é um inventário limitado à


descrição e avaRação (ai-ts. 956.' e 96V, § único ; Côd . Civ, art . 324 .`) ; é o
caso de usufrut9 (Cód. Civ, art. 2221 .', n ." 1 .`) . No1 .'> caso ü iriv--ntário,
faz,se no proc~esso de interdição ; Tio 2 .0 caso o juízo, competente para
o inveiritário é o 'do domicílio do réu, isto é, do simples proprietário
(art . 85 .') .
0 inveriltário para partilha em cGnsequên&~a d2 divórcio, separação
eu aTiulaç~o corre par apenso ao processo, de que -é cori -sequência,
(art . 1445 .') .

Voltemos ao inveritári» a que ~5e aplica o ri ." 1 .'do artigoi 771."


Feita a partilha :da herança, polãem su. rg~ii- posteriormente várias,
questões que coni ela ~se relacionam . Assim : ,
a) Pode requere-r-se a einenda da partilha (ai- ts . 1425 . 0 e 1426 .  )
b) Pode pedir-se a resciséto da partilha (art. 1427 .'» ;
c) Pode haver lugar 4 composiç4o da quota ao herdieiro preterido
(ait. 1428 .') ;
d) Pode proceder-se a novo inventário (art . 143V)
e) Pede surgir a partilha adicional (art . 1434 .`) ;
f) Pode exigir-se ou oferecer-se a prestação de co?ítas, ;do cabeça-cLe-
-oasal (art. 1018 .o) .
Diêãtas questões, urnas hão-de ser resolvidas ri<> próprio processo de
inventário ; outras em acção separada, mas por apênis3; a ele, Dá~se o
1 .' casio -no que respeita à emendã da part)Rha, havendo acovdo (art . 1425 .1 ),
no tocante à rescisão fundada nb artig,~> 771 .' (art . . 1527 ., ), relativamente
à com~o da quota ao preterido (art. 1428.'), ao novo inv2ritário
(art . 1430.'), à partilha adicional (art. 1434 .') . Dá-se o segundo, quanto à
emenda 'dia partilha na fàlta dê acordo e -à rescilsão da pai~tilha com funda-
mento !n~o -ri .' 2 .' db artigh 1427., 1 ; o pk-ffldb tem então de formular-se em
acção oM'ináriá ou sumária, conforme o valorr, mas a acçãb é dependência.
do prIocess3 dê inventário (art. 1427 .1 , § úriico) ; o mesmo suce~'di_-i quanto .
às coutas do ca!beça-de-casal (ailt. 1018 .0) .
1

Outros tex~tos man,dain airida resolver c&no dependência do. proces.s~>


de inventário, quanich o haja, determinadras questões : o pedido de d"llbe--
ilação do conselho 'de família (art. 149V, § único), a nomeaçka, "cusa e
remoção dó testlamentelio e o exame db testamento, (art . 1527 . 0) a venda
~

de bens poir parte db testameníte~ro (art . 1529.', § único), etc .

Tên&>-se procedildo -a InventáriO Txyr óbito dum 'dos cônjuies, se


depoí~s hIouvei, de fazer-se o iinventái~io por ób!W do outro cônjuge, para
este seguTâb inventário é competente a tribwrial em que se procedeu
àquele ; ce o cônjuge -sobrevivo casar em segundas, terceiras ou mais
núpcías e houver inventárib põr morte de "os os seus cÔnjuges, o inven-
~tário a que haja de proceder-4se por seu falecimento hã-de correr no tri-
bunal erri que -se processar õ úl`timo daqueles inventáriois (art. 77.', § 3 .") .
Estabelece-se aquii uma reJação de dependência entre o inventário
do cônjuge supérstitè e o inventário do-cônjuge prede-fuInto : aquele! está
Capitido III-Da compet6ncia interna 21!)

subordinados a este . E a. subordinação 'diz respeito não is~5 à competência


do tribunal, como também à formação -do processo ; o inventário por óbito
do cônjuge falecido em segundo lugar, em vez dIe sei- instaurad(} no tribu-
nal do lugar da abertura da sua herança, é instaurado) ri,:) tribunal em que
não lugar
se próicedeu a 'inventário por óbito do cônjuge predefurto, e dá
a um processk) autónomo, porque 'se encorpora no inventário anterior,
sendo, por assim dizer, a continuação dele (art . 1431 .") .
Mas a dependência só tem lu :gar quand oi o casiamento tiver sido cele-
brado segundo o i-,egiT^ da comurffião geral, ou da simpl-e~Is comunhão de-
adquiridos, ou dotal ; s~e o regime de bens foi, o db, separação absoluta,, o
§ 3.,, do artigo 77 ." não se ,aplk,a -e cens~equentemente não se aplica também
o artigo 1431 ." Em tal casio .os -dois inventários são independentes um do
outro. o do cóniuge falecido em segundo lugar há-de correr nü tribun.al
do lugar dá é abertura da herança, ws termos do n." 1 ." do artigo 77.o,
pddendio, claro, sueLeder que a segunda herança s-e abra em lugal-
diverso daquele em que ge abriu a pi-imeii , a e que, por i_ss ,o, os doislInVen-
tários se pi-oeelssein em tribunals diferenteis. Ainda que: os tribu~n4~~is
coincidam, o segun!db inveritário, nada 'tem que ver com o primeiro : há-de
cerrei- na secção a que couber 4e~m distribuição .
0 § U do artigo 77 ." 'teve por fonte o artigo 2W' d,,, Código anteri~i>r .
No § 2.` deste artigo dizia-se : quando (> autor da herança, tiveisse domicílio
em outra comarca, o juíz~ desta será competent~- para o inventário, se ,li
for requeridIo e nenhu,~nia das partes se opuser nos termos do artigo 807.`
Não se reproduziu f'ista idisposúção por :duas mzões : 1.~' I)t>rque eia das
necessária ; 2." porque e.va ine,onveinieinte . Ela de,sii-~cesSária, visto que
não fazia senão repÊtiT o princípio geiial formulado no artigo 24 .", aliais
desnecessár~o também, uma vez que, não sendo arguida em tempo a
excepção de incompetência territorial, a consequência inevitável é que h
juízo se torna coimpetente . Er~a inconveniente, pois que podia indúzir rio
erro de se supor que o efeito atribuído à falta de oposição só se piuduzita
quando o inventário houvesse sido requerido no juízo do domicílio clo
invenitariado.
A verdade é que, não po&Êndo o tribunal conhecer oficiosamente da
incompetência relativa (ai-tls. 109.o e 499.', § 2.'), se o inventário do cônjuge
faleicido em segundo, luga,1-, em vez de sei, requerido no tribunial em que
~.e prolcessou, o' inventário do cônjuge priedlefunto, for promovido noutro
qualquer juízo, sejaou não o do domicílio do autor da herança, o tribunal,
inícialmente incompetente ex vi do § 3.' do artigo 77 .', toi-na~se competerlx--
se a excepção de incompetência não for deduzida em tenipo oportuno por
qualquerdos citados. Para ~sie chegar a este ripisultado não havia necegs,idaée
,de inserir preceitoequivalentie -ao do § 2.' do artigo 23 .' do Código d~& 187,G.
Suponhurribs, porém, -que se promove simultâneamente inventário
no tribunal do inventário do cônjuge prédiefuntó e no tribun al do domicífio
do auto.r de herança e que neste ninguém deduz a excepção , -de incompe
tência . A Relação de Coimbva, em aipórdão de 2 de Junho de 1923 (Rev .
de Leg., ano :,56 .', pág. 335), , decidiu que havia -em tal caso, um conflito posi-
tiv,> de competência e que o tribunial supeiÍor devia, na solução do con-
220 Livro II--Da competência c di-is ~iaranti.7.,,,, da imparcíalidade

flilto, dec-Parar cumpetente o juizo do inventávio do cônjuge predefunto .


A hipftese Elsitá hoj,~ prevista na alínea a) do artigo 121.'
P(Yd~ fazer-~sc, no inventário por óbito, do cônjuge supérstite, a, par-
, he~ dw. hen,3 ideixadis pelo cónjuge predefunto e que não foram parti-
tiIl

lhadeo, no inveritário por óbito &-ste, Revisto, de LegísIaç&), ano 58 .%


pá,i.z . 341.

0 11 ." 2." do arfigo 77 .` atribui competência ao trIbunal (13 lugai- da


ab,c,rtui~a ia herança p,~qa a habilItação duma p~~Ei~o:a co-mo liet-dleii-a*ou
i«eprezIen~tàInte de outra .
Qual é nItiI~Íanieme o caso visacb por este irúmero?
É o seguinte : faF:?!ceu uma_,pesf~o ,a ; alguém quer propor a acçã3 r; egu-
lialda m, artigo 1117 .", a fim de ~orbter uma sentença que o declaxie herdeii,>
do falfido ; é no tribunal Ao lugar da abertuiu da herança deste que a
aeção 'tem :de s,2r propoista.
Esitamei3 entá3 pbrant~ um cas-lo, em que a habilitação é o objecto
próprio e principal dia acção. A habilitaçko durna. pessiou conio herideira
ou i~ep ,,-esent.antrz. de outila pode apres.,cinitar-sle sob ti-ês aspectos :
(,~) Como objecto próprá> idu-ma acção autónoma (é o coso 69
ait. 1117 ") ;
!» , Como ~nridente dama, causa pendente (é o caso pi1~vi~~to nos
ai-ts. 376.` e s-egs,.) ;
(,) Como factor de legitimidade do auito.r ou do réu, do exequente
ou do executado, en-i acção ou execução que se requereu (é o caso do
ai ,t. 55.`) .
0 ~ii ." 2 ." do artigo 77 .` nada tem que ver com os casoi3 considi8r-ad~3s
&ínea,s b) e c) . Se a habilitação surge como incidente, é claro clun. sie
piw.~es , sa nG tribiinai dia cauisa de que é incidentP, ou poir apeniso, à causa
principal no c&s~o do arfigo 378.' (§ 3.0), ou encorparada nos pri5prios autos
dia causa principal no caso d-o artigo 377.' ; se eonisotitui um fadtoT de legi-
timildade, há-de seguir, quanto à com~ncia -do tribunal, o destino da
causa em que s~z~ põe a questão 'ale liegitimi&a-de . Um indivíduo propõe,
por exemplo, cantra outro uma acção de dívida ; o réu é d~wnaaida-do, não
na qualidade die idevedDr owi~ginário, mas na qualidade de herdeiro desse
devedor ; é claro que o autor, para mostrax que o réu é parti~ -legítima,
tem de alegar qu~e ele -está na ~çãlo d~ hierdeiro do originário di-~dor,
eu por outras pialfaviw, ~ -de -o habilitar como herde~ro de, d~--wdbir,;
esta habilitação há-~dIe ser deduzida na petição inIciãl ; não úObstante i:s~,
não é n:~ tribunal do lugar di~ ~a;~i`tura (Ia herança db do~r oliginário
quie a acção deve -ser propoisita, é -no tribunal que, em conforniidáúe com
o -artigo 74 .' ou com o artigo 95 .', for competente para a exigência da
dívida.
0 objecto (Ia acção é o conh~ecimento da dívida ; a habilitação, ~sendo
um simples eliem~ da legitimiJd~a~cie do réu, não podb ter relevâncila
para o efieito dia 'deite rminação dia w-mpetêr~cia do tribunal . Asosiim deci
-diu o Supremo Tribunal, tde JuWUIça em acóridão h 5 de Dez~bj..,o de 1941
(Rev . de Leg., anio, 7:5.o, pág. 12) .
Capítulo III-Da competência interna 22 1

0 -ri . , 2 .' do &rtigo 77.' está, õomo se disse, em r~-_lação com o


artigo 1117.o P" -a acção de habilitação cujo procejw_-~D q&stá regulado
ne§te ar~tigo é que tsle declara compledente o tribunal ido lugar dà abertura
dia herlânça da p~&s :soIa -de quém o autor pT!e~tende demonstrar Sier herdeilro .
Note,sie que o proc~ de justificação organizado no artigo 1117 .` só
é de aplicar quanido não houver contralditor certo, i~~to é, quando não hou-
ver p;ei,;~so.a conhecida que fSearírogue pretensão, co,nti-áxia ; EI-, houver cou-
traditor, é contra êstIe que a acção tem de sei- proposta, devendG ém tal
caso seguir-se, não os termos prescrítos no artigo, 1117 .", mas os teimos
ordinárik6- ou sumários, conPo~-me o valor, e siem~d(y aplicável, não o n ." 2 ."
do artigo 77.', maâ- o artigo 85 .'
Qu!anUD % herança se abrlii- em país estrangleiro, o tribunal coimpe-
tente para a habil;ftação pr!ev i~sta no a rtigo 1117 .' é o do domicílio do habi-
lítando (art . 77 .", § 2 .'» .

0 tribun!al do lugar, da abertura (Ia herança é também comp-~1tente


para se rlequIerer, nos terinios -ck> artigo 1,519 .', que sejam notificados os
herdeiros para declararem sie ac,2itam ou repudiam a herança, para os
cred»a3 dos rêpud'i!ante~s fazerem -a declaração de aceitação (art, 1521 .`)
e para a nomeação de curadoir à liei , ança jacente (art . 1522 .') .

ARTIGO 78 .1

(Reg~tlaç~i',o , repartição de avaria grossa)


4

0 tribunal do porto onde for ou devesse ser entregue a carga


de uni navio, que sofreu avaria grossa, é competente para regular
e repartir esta avaria .

Nos -ai ;tigo,.9 78 ." a 81 .o I!Orni~ulam-,s~e preceitos d.~ compe4ência relativos


a acções emer!genites -do, comercio inarítimo .
0 artigo 78.1 refeq-e-se à acção de regulação e repartição, de avaria,
grossa de navio . 0 artigo 634 .' db Código Comercial define avaria to,d!as
as des~as ext .morid(inárias feiba13 com o navio ou com a sua c&rga, con
junta ou s--para~damien~de, e toldes os danos que acontecem. a o navio e carga
&sIãe que com,,eçam os risco,9 do mar até que acabani . S-~ as despes&s e
danos afectam cúnjuntaxnente o navio e a carga, a avaria diz-ise grossa ou
comum (Cód. Coni ., art. 63~5 .o, § 1 .`) ; se ffizem resi~cilto Isbinonte a,> navio
ou sómIente, à carga, a avaria é simples ou particular (art . 63, 5 .`, § 2 .`) .
Oi'a bem, o artigo 7'9 .o nada, tem que ver com a acção de~stiriada a
i~egular a avar~í-a simples ou particular . Para esta não há ~P receito parti-
cular de co~mpotkncia ; está IsujAta, portanto, à regra & artigo 85 ."
Tr~at&ndo-se de avaria grossa, há não sé que regular a avaria, mas
também que ia repartir, vi~ devei- ser suporta!da prolporcionalniente pela
carga e pIorr metade ~dlo valor Ido navio e do,filete (Cód . Com,, art . OU),
222 Livro II -Da wmpetência é das garantias da itnp-ciaUdade

É a ésta causa dê regúlação e repartição, cujo proc~ e" ~abe-


lecido nos artigos 1G62 . 1 e seguintes, que se aplica o, artigo 78 .*
0 ~altigo teve por fonte o -artigo 9 .o do C ódigo de Pr~soo Comere~al.
Manda-se propor a acção nü tribunal do portó onde for ou de~ ser
entregue a carga,do navio .
A razão justificativa destanorma dIe competência egtá no -artigo 650 .*
db Código Comercial : ias avarias grossas são regulades e repartidàs àegundo
a lei do lugar, ondl- a carga for enti~egú&.
No urtigo 9 . 1 do CódIgo de Pro~so Cornercial eómente! se fãIava do
juízo do portoi onde fosse entregue a cargía ; ma& podesuceder que a carga
não chegue a ser entregue, por ~er havildo neciessidadL- de & ali~ar para
salvação dio nav% ; por isso se ~aleros~ck',ntou, no artigo 78 .', às palavras
«ocnde for» estas outras : «ou &cvess~,e ser» .

ARTIGO 79 . 0

(Perdas e danos por abalroação de navios)

A acção de perdas e danos por abalroação de riavios pode


ser proposfa no tribunal do lugar do acidente, e,no do domicílio
do dono do navio abalroádor, no do lugar a que -pertencer ou
em que for encontrado esse navio e no do lugar do primeiro
que
porto em entrar o navio a,ba-lroado .

A abalroação dá--se quando dois navios em movimento embatein uni


contra o outro ou qutandó um navio em movimento e~ra contra outIN)
ou cai sobre loutix) que está parado,
Da abalrolação resultam naturalmente prejuízhs, que podem dizer
respeito ou s~>Tnente a" navios, ou a esItês -e à carga,* ou aos navios e aos
passa,geiros, {)u aoS navios, aos passageiros e à carga .
QuEm responde pelots prejuízos?
Há que distiniguir : a) ou o aci. dênte foi devido a c~ purament,8
fortuito ou força maior ; b) ou foi causado por culpa dos navios abalroados,
ou lde um deles, ou de terceiro navio . No 1 .* c~ não há din~a indemni
zação (Cód . Com ., art. 664 .') . Nd 2.o c,~ os 1e3adbs têm o direito de exigir
indemnização & perdas e danos do proprietár~p db navio abalroador
(Cód . Com ., arts. 665 .o u 667.0) .
É pariaEsWa acção de indemnizaçãú que o artigo 79 .o indica o tribunal
competente .
Importa advertir que - , em 23 & , &~ibÉo, de 1910 ae~ assinou eni
Bruxelas uma Convenção entre ~árim Estados, destinada a i-~-ar a
respoÈ~sabilidojdeí por abalÊoação de navios. Um dos E,~ sígnatáriof$
foi Portugal ; e a Convenção foi posteribrmente aprovada, «itre nós, pela
Lei de 7 de Maio de 1913 ~o confirinada e ratificad-a pe~a Carba. de 12 de
Julho de 1913 (Diário do Governo de 12.-8 . 1-913) .
Capitulo III- Da competência interna 22 3

Quando todos os navios em causa pertencerem aos Estiados das Altas


Partes Contratantes,a Indemnizaçãjo terá de!mr regul-aid~L pelas dispoisições
da Convenção (art. 12 .') ; quando todos os inteTessadbs, 'bem como o, tri-
bunal quehouver de j'ulgar o feito, pertenelerem -a um mesmo Estado, será
u lei nacional Interna, e não a Com~ção, que terá die ber aplicada
(art. 12 .o, n .o 2 .~) .
0 Código Cornereúal, dlépois de estabelecer as regrias de dir~eito
substantivo redÉtivas à respon,,,sabiliúad z~ por abalroação, conclui as$~ni :
acção
«A por perdás, ~e danos riehzultantes -da abalmação pode instau-
rai--se, tanto no tribunal d,> lugar onde se deu a abalroação, clomo no do
6micílio do do-no do na:vio abal.roador, ou no do, lugar, a que pertencer
ou em que foT encontraúo e6s~-- navio» (art . 675.') .
E, St-e prec2àbc> de competência passou depoiís paiia o artigo 10 .o do
Código & Pr~so Cbmercial. 0 Projecto primitivo repríoduzia, no
artigo 98 .', a doutrina do ai~igo 10 .1 do Código de Próces,1sia Comercial ;
o artigo 79 .1 do Código acresciantou ajos tribunais anter, iorment,.:~ conside~
rados compe6entes mais um : o do priffieiro porto em que entrar o navio
abalroado.
Lê-se no Código de Processo Civil explicado, pág. 49, é no Código de
Processo Civil anotado, pág. 63, que est4~ ádicionamerbtg msultou, d& voto
da Comissão Revi~s1G'r:a ; o ~sr. Dr . Palma Carlos estranha esta afirmação,
pois que da acta n.' 7 da sessão de 19 de Abril de 1937 consta qw2 o
artigo 98 .o do P1,oJ~~eto foi aprovado sem ãlteriaç~lo, Tefi .n, vazão o, Ilusti-e
advoga-do ; a sua estranheza é fundada. Foi por -lapso que se escreveu. o
1

qut, fica referido . 0 artigo 98 .1 'do Projecto não sofreu modificação ria
Comissão Revisora ; o aditamento reigistado apareceu no, revisão ministe-
rial -e foi sugerido, à última ,hora, pelo sr. Dr. Barbosa de MagaIhã~eí3 .
Para a acção de flidemnização de perdas e t&anos em cDnsequênc~a
de abalr<yaçã,o sãb hoje cumulativame -nte ccmpetentes :
1) 0 tribunal do lugar d'G arjid~-nte ;
2) 0 tribunal do domirílih do dono :do navio ábalro-ador ;
3) 0 do lugar a que pert;Lncer este navio ;
4) 0 do lugar em que o me~ navio for encontilE~~lb ;
5) 0 dio lugar dto primeiro po~ ~em que ~ent~Iàr o navib abalroado.
0 autor pokde propor a acção em qualquer destes tribunáis, à sua
escolha.
0 artigo 180.' ido Código de Proceqso Comercial dispunha que, tendo
alguém direito a inàemnização por abal'r<)ução de navios, poderia requerer
qu~e o dono, ou o sleu Iegíitim~ represent&nte, prestasse caução, no prazo
de 24 horra3 (ta intimação, sob pena de se pro4c~eder a arresto.
Palra fonnuliwr peldido o requerente teTia de justificar a existên-
cia do fac~o que induzàa -em resporns~àbiIídade. e o quantum -aproximado
da reispectiva i:mportân(dia.
_Por outro lado9. o artigo 673.o do Olódigo Comercial determina que a
reclarnaqão por perIdíws e ú~ resultantes da abalroaçã» de navios será
apresentadã no prazo de 3 dià~g à auto, r~dialde do lugar em que sucedeü ou
do primeixo a q~~ Oj~ortàr ú~ r~rio, abal~ eob pena'de nãb ~ admitida .
224 Livro II--Da competência e das garantias da imparcialidade

Em execução dIeste preceito, o artigo 223.o .do R~amento Geral Úfas


Capitanias de 1 ~die Dezembro de 92 veio 6eclarwr que é ao capitâ9 do porto
que com~ c)oiihe,~~r da reclamação por perdas e djanos resultantes de
abal~ão, s~egt;in-alo o'procesisc, pib.~-,c~ritJo no mesmo artigo . Se , a impoi-
tância questilonada não exceder 5.000$00, o capitão do porto decide &efini~
tivamente; se for superior a essa quantia, hãi-6e as partes declarar, antes
do julgamento, s~3 sie conformam ou não com a deci§ão. No caso de se
não conformarein, o capitão do porto remete -as partes. , depoi~s do julga-
mento, para a acção competente, a proporno tribunal comum (Dec . -n.' 5 :703,
de 10-5,'-919, «rt. 28.', n. 6.' a 8.' ; Dec. n.' 9 :7U4, 'de 21~5.'-91,24, arts . 1.o
a 3.o) .
Note-se que o artigo 6.' da Convenção &~ Bruxelo,& estipula que a
acção de indlemnização de perdas e dlanos por efeito de abairoação não
depend6 -ne~n d-~- protesto ne~n ide qualquer outra formalidadi2 especial .
Mas em face dD artigo 673.o do C6digo, Comercial, combiruado oom o
aitig-j 223 .1 do Regullamento à&s Oapi,tanias wm -o artigo 28 .` do Decreto
n.' 5:703 e clom os artigos 1.' -a 3.' db Decreto , ii .<> 9 :704, ao la~.o da acção
de indemnização perante o tribunal comum edb pedido de caução ou arresto,
há a reclamação por perdas -e danos perante a capitania do porto . Ora
a coordenação d--st?I3 b~s deu luga .i~ a vária,,; dúvidhs :
1.' Púderá a acção de indemnização pe~-ante o tribunal comercial
ser proposta sera preceder a rE~claTnação perant, 2 a capitartia"
0 2." capitão dIc, porto tem competência, 'paria conhecei, (Ia -recla-
mação sè«nen£e quando o acid(e ,n`t-~,haja ocorrido m águas jurisdicionais
portuguesals, ou meismo no c~ -d~3 a abalroação se verificar fora dê3sas
águas?
3.' A exigência de caução 'ou o arresto podem sei- r3queridos como
acto, preparatório da reclamação na ciapitania ou ÚnicamentE, como acto
prepaiátório da acção de inde(rn, niização a propor no tribunal comercial?
4.1 Sendo a importância questi1Gi~adà 1d2 valor superiar a 5.000$00,
qual a eficácia ~! alcanceda ,decisào !da capitanIa no caso de a:; partes se
não conformarmi com Pila?
Sobi-2 as três primeiras dúvidas foi formuliadb pelo Sul)remo Tri-
bunal de Julgbiça o Ass~entc, :de 25 de Maio de 1934 . -
Decidiu-se :
a) Queos capitãesdos portü~s têm competência para julga:- as clausas
sobre avarias motivadas por abalroação, effiboria ocúrrida foikt das suas
águ.~3 jurlisdicio,naià, quando o navio abalroador nelas for encontrado,'
b) Que não siL pode reqUerer nois tribunais ordiriár ios a caução, ou
arresto paragarantia dos prejuízos causados,, enquIant3 a respectiva causa
não for julgada pelo capit" do porto e submetida legalmenteix jurisdição>
d,o~s mesmos tribunais (Rev . de Leg., ano 6.7 .0, pág. 63) .
Pelo que respeita à 4.' dúvida, têm-se sustentado duas tesE~s :
1.1 Adecisã~o (ia capitania subsiste enquwrdb não for subgtituída por
sentença proferida ~no tribunal comum;
A 2.' decisãh da capitania caduca logo qu~~ seja proposta, em tempo,
perante é tribunal comum, -a acção de indemnização (Veja-se a Rev, de
Capítick, III - Da competência interna 22:5

Leg, ano 74 . 1 , pág . 94 e &no 75.*, pág. 97 ; o ac . d o S . T . J. de 28-2 . .-941,


Rev. d e I~eg ., ano 74. 9`, pág . 93 ; o ac . da Riel . do Po~ de 11-3 .0-942, Rev .
d
e Just., a-no 27.', pág . 180 ; a Rev. dos Trib, ' ano 60 .1 , págis . 1%, 171, 1W
e 185) .
Qual é a, situação actual?
0 regime jurídico anterior ao GMigo, só foi meidificacb num ponto :
&§apareceu h aão preiventivio e preparaitório admitide, pelo artigo 180 .'
do Cóidigo 'de Processo Comercia1 . 0 Projecto ainda o -estabelecia rio
artigo'304 ." ; mas a matériadeirs artigos 304.' a 306 .' foi elinfinada, de sorze
que hoje o credar. de ir~dcmnização pior motivo de abalroação de navios
não pode exigir -a prestação de caução a que se refaria o artigo 180 .' elo
Código de Procêsso Comercial . Pode, é claro, requerer arresto, mas não,
como consequência ida falita de prestação de caução . Se o navio abalroa~
idor esItá desImichadio, paria, viagem, paria se requerer o arr~ ; basta fazer
e. prova ida ceiteza da dívida e de que esta provém de r&speirisabilidade,
por -ãbalro~açã-o (art . 409 .0, n .' 2 .1, combinado com o art . 8'28 .') ; se não está
despachado paiá viagem, há-ele provar-,ise, além da cerbeza da dívida, o
justo receio de insolvência do -devedor ou de ocultação de bens por parbe
diJáte (art . 409 .', n.' 3 .') .
Nos termos da alínea ia) ;do artigo 65.' os tribuinais portugueses são
competentes, sob o ponte, de vista internacional, nos mesmos casos em
que o sãb sob o ponto de vistã * territorilal interno, e po---rtanto :
a) Quando o aciderte hlajaocori~ido em águas portuguesas ;
b) Quando o dono do navio a1 balM~wdor esteja, domiciliado em Por-
tugal, ou aqui resida há rnáils &- seis meses, ou se encontre em território
português no momento &1 L propiosição da acção e o autor seja português,
c) Quando o navio abaliroador estiver miatriculaido em porto lxwj--
tu,guês ;
d) Quando o mesmo navio-se encentrar em porto poT~tuguês ;
e) QuandIo for português o primeiTo porto em que entrar o navio
abalroado .
Se, p" outro la;do, atenidermos a que os capitães dos portos só
podem conhecer das reclarnações por perdas e danos emergientes de
abalroação qu-ando elAda ocorra em águas portugw~sas o`ti nelas se eencon
tre o navio àbalroad~or, segue-se que há caisos em que os tribunais portu-
guese.- são competentes para a acção de indemnização e não é posisível
fazê~lia preceder de reelamação perantea capitania, por -gue esta não tem
competência para a julgar. Quando tal suceda, não púde deixar d~e -ent~e)ri-
-der-se que a acção de inidIemnizaçãü pode ser propostia no tribunal comum,
independentemente dá rescIlia-mação prévia junto da capitania .
Portanto a elGutrinla a e~tabelecer é a seguinte :
a) Se a rmIamação prévia pode ser levada perante alguma capi-
tanía pditugiic43;a, não pode a acção ser proposta ' ro tribunal comum sem
que precioJa : a ref2a,ida reclamação ; .
b) Se não'há capitania portuguesa competente pgra a reclaffiação,
a acção púde ser instaurada indepenellentemente da intervenção prelirn'inla.r
da capitania .
15-CóDIGO DE PPO~O CIVIL
22 6 Livro II-- Da co~etência e das garantias da imparciaíidade

Relativame,nte ao valor da decisão da capitania quanIdo, as partes se


não conformem com ela e o quantitativo da indemnização ileclamada
exceda 5 .000$00, parece-me que a boa solução é esta : se a acção de indemni
zação não for proposta perante o tribunal comum dentro de, ti-Inta. dias, a
decisão da capitania torna-se definitiva ; se a acção for proposta em tempo,
a decisão caduca (Rev . de Leg, ano 7,5 .o, pág. 97) .

ARTIGO 80 .'

(Salários por salvação ou assisténcia de navios)

Os salários devidos por salvação ou assistência de navios


poderão ser exigidos no tribunal do lu,(,yar em que o facto
ocorreu, no do domicílio do dono dos objectos salvos e no
do lugar a que pertencer ou onde for -encontrado o navio
socorrido .

Os -artigos 681 .' e 682 . 1 do Código CQmerc :~al mencionam os casos em


que são devidos salários por salvaçãa de navios ou da sua carga e por
assistên,úa de navios . Estas disposições têm de combinar-se com o que
se prescreve nos artigos 677 .', 678 .', 683 .' e seguintes.
Mas há que ter em consideração o que se estipulou na Convenção de
Bruxelás , de 23 de S'eteznbro de 1910, de que Portugal foi uni dos Estados
signatários, e que foi aprovada pela Lei de 7 de Maio de 19 .13 e confir
macia e ratíficada pela Carta de 12 de Julho de 1913 (Diário do Governo
de 12-U-913) .
Se o devedor dos salários os não pagar voluntàriamenije, a acção
destinada a exigir o pagamento pode ser propo:sta :
a) Ou no tribunal do lugar em que ocorreu o facto da salvação ou
d14 assitência ;
b) Ou no tribunal ido 4om~cíIio d-o dono dos objec" salvos ;
c) Ou no do ~lugar a que pertencer o navio socorridú ;
d) Ou no Ilugar . onde este navio for encantrado .
Entre estes, tribunais o autor tem o direito de escolher o que mais
lhe convier .
0 artigo 80 . 1 reprbduziu o que se pÊe screvJ~ :a no artigo 11 . 1 do Código
de Procesiso Comemial, que porsua vez reproduzira
' o que o Código Comer-
cial havia estabelecido -no artigo 691 .'
0 artigo 180.o -do Código de Processo Comercial 'dava . ao credor de
salários de aàsistência de navioou dIe salvação de navio ou da, sua carga
o direito de requerer que o dono ou o seu legítimo represenlante pres
tasse caução, sob pena de se proceder a arresto . 0 artigo 304.' dp~ Pro-
jecto primitivo ia na mesma esteira ; mas o CódIgo não inseriu disposição
correspondente, -de sorte que o credor de salários e despesas lx>r salvação
Capítulo III-Da competência interna 227

ou assistência só tem, no que respeita a caução, os dii~oi%os que os arti-


gos 677 .' e 680 .' do, Código Comercial lh-e reconhecem .
Relativamente a arresto, há que atender . aos artigos'409 .' e 828 .'
,Se o navio socor'rido está àe~h,.~,dlo para viagem, pode o credor de salá-
rio de àss~stênci-a ou salvação requerer o arresto del, e, provando única
é
mente a certeza a origem da dívida (art . 409 .', n .' 2 .' e § l .', combinado
,com -o ~art. 828 .') ; se não está despachado para viagem, o arresto só podp
ter lugar nos termos gerais e comuns, do n .o 3 .' do artigo 409 .'

ARTTGO 81 .'

(Extinção de prívi1éq~os sobre navios)

A acção para ser julgado livre de privilég~os um navio


adquirido por título gratuito ou oneroso será proposta no tri-
bun"al do porto onde o navio se achasse surto no momento da
.aquisição .

0 artigo 578 .' db Código Comercial mencionia e gradua a~s dívidas que
têm privilégio sobre o navio ; e o artigo 579 .o diz que os privilégios do~s
credores sobre o navio se extinguem não só belo mo-do por que g -~~ral
mente se extinguem as obrigaçõe~s, senão também pela venda do navio,
,quer judicial, quer voluntária. Se a venc1à é judicial, depDSitado o preço,
para este se transfere o privilégio e a acção dos credores ; se é volunt4ria,
hão-de ser citados os erddores privilegiados para fazerem valer o privi-
légio ou impugnarem o preço,.
N modo que o adquirenté dum navio por compra voluntária tem
o direito de fazer extinguir os privilégios que incidem sobre o navio ; mws
esWe direito há-i& fazê-lo "ler em acção proposta contra 3;s credores cer
tos e incertos . 'A acção deatina-se a chamar os credores a juizo, a fim d*,
deduzirem os seus privilégios ou impugnarem o preço -da venda.
A esta acção corre~spondiJa, no Código de Process6 Comercial, o pro-
.
,cé~ especial do artigo 168. 1 ; e declarava-se, competente p ara ela o tri-
buT~al de comércio do porto em que o. navio se achame surto na oca-sião,
,da venda .
E se o navio, em vez de ser adquirido por título oneroso, houvesSe
sido adquirido por 'título g~atuito?
0 Código Comercial crâ orni~a tal respeito ; a lacumi foi preenchida
pêlo artigo 169 .* do Código d~e Processo Comercial, que rnandava. aplicar
o processo prescri-th no artigo anterior, donde era lícito concluir que ao
adquirente se queria recophecer o direito .de fazer extinguir os priviqégios
dos credores sobre o navio . E embora se falasse (do processo'prescrito no
arItigo anterior, devia ~entender-ee que a vontade dIa lei era que » caso
-de aquWção ~ta se apli~sem não is6 os te=os do processo formu-
228 Livro H- Da con?,petência e da,,~ garantias (Ia iinpa.rrqali(~a(le

lado no artigo 16U, conio também a regra de competência que esse ai - tigo
estabelecia e que, portanto, a acção para fazer julgar livre de privilégios
o navio adquiiido por título gratuito devia ser proposta no tribunal (],>
perto em que o navio se adhaas~-- surto na oc.)asffi-..> da doação, ou melhor,
da aquisição .
Foram es~tes c13 precedentes históric ." do, artigo 81 .' 0 artigo, con-
signou o que se achava prescilito no artigo 168." do C&digc, dP Processo
Comercial, fundindo num preceito único os dois casos de aquisição por
título oneroso e aqui~§içãb por título grlatuito . 0 -tribunal do porto em que
o navio se achasse surto .no momento da aquis~ição é o eOTnFIOtente para .5,
acção de extinção ãos pAVilégio, s. Se o navio é adquirido por compra ou-
troca, at~ende-.,;e ao momento da transferência da proprieda ,de (Cód . Civ .,
ar~t . 154~~ .'» ; se é adqu'irido por -doação interviros, atenÚ~-se ao morne~htc,
da ac&tação Wód . Civ., art . 1456 .'), salvo se a doação pi~qd`uzix- efeitos,
independentemente, de acei1taçã~o (art . 1478 . ,,) ; se é adquirido por sucessão
teistamentária ou legítima, há-de atender-se também ao momento da acei-
tação.
0 preceitode c~ompletên.c'ila do artigo 81 .` rel'aciona~se corn a -disposição
do artigo 10W.' À extinção de privilégios por venda ou aquisição gra-
tuita de -navios mandaxn-,~ge aplicar os processos especiais die expurgação,
de, hipo~teca;s dos artigos 999 ." e s~~guintes . ~~e o navio foi adquirido por
venda judicial, os credores &vem ter sido eitados nos teriykos dos arti-
gos 864 .' ; neste caso não há necessidiwde de .acção eJ.-p~ecial para extinção
dos privilégi'ois. Se fo~i adquirido por venda voluntária ou Por- título , gra 7
tuftb, ~então é que o adquirente, se quiser fazer julgar livre de privilégios
o navio, carece de propor acção contra os credores segund-3 o processo
esp~4cía1 ,de expurgação de hipotecas ; paru tal acção o tribunal competente
é o desigriãdb no, artigo~ 81 .'

ARTmo 82 .1

(Declaração de falência)

,Para a declaração de falência é competente o tribunal da


situação do principal estabelecimento e, na falta deste, o do
dómicílio ou da sede do arguido . Deve considerar~se principal
estabelecimento aquele em que o arguido exerce maior actividade .
comercial .
,§ único . 0 :disposto neste artigo é aplicável ao caso de
uni comerciante ou sociedade estrangeira ter em Portugal, qual-
quer estabelecimento, sucursal ou' representação . Mas o tribunal
.português só pode declarar a 'falência em cons ,equência de obri-
gações contraídasem Portug~l e que aqui devessem ser cumpridas,,
dapitulo III--Va coinpeUncio interna, 229

sendo tatrbéni a liquidação i-estrita aos bens existentes eni terri-


tório português .
0 artigo conderisa o que se achava de~terminado nos artigos 12 ." e 13 .`
d~i) Código de Proc, ~~s,so Gomerciá] e qu-2 o Código de Falências de 192 .5)
i , cpietira nos artigos, 9 :' e 10 .,>
Para a declaração de fMência de comerciante em nome individual
ou de socícidade é comp2tente, em primeira linha, o tribunà1 do lugar onde
cstiver situado' o principal estabelecimento do falido,
Mas o que deve enteftd2r-se por «principa:I estabelecimento» qua-,Id'~
o arguidiG tenha mais do que um estabeleciroento?
Os escritore, s h~~sitarn entre dois critérios: a) -o di,) lugar ,da execução ;
b) o d:) lugar -da direcç~w . Para uns, como Ly-3n Ciaen e Renault, prin,
ci, pal estabelecimento é aquele em qw~ o curnerciante pratica os actos do
seu comércio : a oficiIna, ia fábrica, a loja em que tilabalha. Para outros,
como Bolaffi,o, Navarrini, Candian, principial establelecimento é aqu?~le <,-,irt
que a admiffistração * se centraliza, e poi~tanto aqu~,ele em que o comerciante
tem o seu escritório (Veiú,sesr . Dr. Palma Carlos, ob . c~ ,,"t ., págs . 290 e 291) .
OS nc~3so,s tribunais têm dec~di-d~~ ora nuIm ora noptro sentido (acór-
dãos : 'da Rel. de Lx .', de 30 ,4.'-909, Gaz, ano 23 .', pág. 534, da Rel. do
PGrto ,de 6~ ,6 .o-928, Rev. dos Trib ., ano 47 .o, pág. 39, do S. T. J. dk~ 8-11 .o-5110,
Gaz., ano 25 .', pág. 308, e de 11-8 .931, Col. 0f, ano 30 .% pág. 206) .
A qu~~stãú, apresenta-se geralmente nestes termos, : o com--reiante indívi-
áual ou a goeiedade tem, numa comarca, uma fábrica -)nde s2 produzem
(»; artigoR que, constituem o obj,ecto db 'seu * eGmércio ~u um armazém
cnd~ recIdlhei os génerios em quie negoceia e tem, noutra comarca, o e&..-;~-
tóri~ em que Ise- celebram as transacções, -se expede e arquiva a corres-
pondênciá. Qual do3 estabelecimentos deve consid,-~rar-se principal : a
fábrica, o armazém. ou o oscritóri->?
.
0 Supr~o Tribunal de Justiça inelína-se, de pre-feriência, para a
opinião de que o ~---~abei[eciincnto prinie.i.pal é o escritórilo, porque é aí que
se concentra -a vida àdminiatrativado comerciante . 0 sr . Dr. Palma Carlos
-aplaude esta jurisprudência,.
Mas temo3 hoje um critério legal e é este que importa interpretar
,e aplicar; Devie cor~siiderar-se principal fisitabel~-ci~nento , , díz o artigo 82 .',
aquele em que o arkuMo exerce maibr iactividl&d~, comercíal. Noção prà-
ticamente inútil, comenta o sr . Dr . Palma Carlos, quando o argui-do ten~a
três ou quatro eist«beIecim,~ntos por onde igualmente rieplafta a sua activi-
dade . É claro que s; 2 o comerciante exerce a -mesma Egyma de actividade
nos di-ferêntos estabellecimentos, não há ie!~elecimento, principal : estãG
todos no mesmo plano para o efeito dá apticlaç~ão do artigo 82.' Em tal
cago a seduçãü não pode 'deixar 'de ser a, que Barbosa de Magalhães já
defendia : para a declaração da falência é coffipet,-nlte o tribunal da situa-
ção de qualIqw-r dos ~abelecimentos (Cód. de Proc . (~om . anot ., vol. 1.",
pág. 12G) .
Mas o caso há,~de ;ser raro . E o que interessa saber é como func~.iona
,o critêrJ<) legail do artigo 82 .' quando'a activiidade se reparta, de modo
230 Livro II-Da competência, e d(j~s garantias da iinparcialido(7(,

d- esigual, pelos diversos estabelecimentos . Ponfiamos a questão n~ais deba-


tida : num lado está a fábrica, a oficina, o armazém, a loja de -çenda, no
outro está o escritório ; qual é o principal estabelecim.2nto pai-2, o efeito
do artigo 82 .o?
Como Vimos os escritoreis e o nosso Supremo Tribunal (1 .2 Justiça
mostram tendência para dar supremacia ao escritório, pela consid ., ração
de que é aí que se concentra o comando, a direcção, é daí que ii-ra-d~iam as
ordens e as directrizeis . Não nos parece que "ta doutrrna possa ;~ci- aceita,
em face cio critério legal fixado no artigo. 82 .o
A lei manda ,atender à maióractividade, e não à actividade ,mperior;
saibrepôsse o criU~rio quantitativo ao critério quatitativo . Porquê 9
Porque há toda a vantagem em que o processo de falência corra na
comarca em que se encontra o principal activo do falido . Têm de apreÁen-
der-se os bens ; twn de vailürizar~se e liqui, dar-sp o activo ; corvém que
estes actos sejam praiticados directamente pelo -tribunal da falência, ~!m
vez de o ser~em pGr cartas piiwatórias. 0 património 'do falido tem de
ser entregue ao administrador ; a administração será tanto mais, fácil
quanto mais próximois estiverem os b~ens~ . Finalmente, é natural que a
apreciação 'dás cau,sas da falência pos~sa fazer-se com melhor conliecimento
no lugar em que é mais intensa e volumosa a actividade comercial dD falido .,
Quer dizer, estamos em presença !dum foro caracteristicamente
instrumental.
Supo,nhamo,s então que uma sociip-idlaide t~em ais suas fábricas, os seus
aiinazéns, as suas instalações comerciais e inidustriais na comarca de Vila
Fiunca- de Xira ou do Montijo e tem em Lisboa ún'icamente uma casa on.de~
funciona o escritório, e :se reúne o conselho, de ad!minis)tração.
Qual é, para os efeitos Ido artigo 82 .', o principíal estabeleiimento?
Afigura-se-nos que é aquede em que funcionam os serviços técnicos e não
aquele em que funcionam os sei-viços administrativos . Pal-a excluir, no
caso figurado, a competência, dia tribunal de Lisboa basta considerar que
a preferência do lugar em que se encontra a administração conduziria,,
em última análise, a fazer correr o pr-,>cesso no tribunal da sede da socie-
dade, quando é cei.-to que o artigo &2 .o só na falta de estabelecimento é
que manda atlender à sede .
Quer dizer, a e^ em que funciona ia administração , não é consi-
deralda estabelecime!nto paria o efeito & artigio 82 .'
podem
As coígas apre~sentar~ge noutros -termos. Um comerciante tem,,
por exempIb, a sua fábÉica, ou a sua ofic4na no Barreiro, mas tem em
Lisboa, aléin do escritório, o estabelecím~O 'de venda, ao públlieo, dos
artigos que produz na fábricia ou na oficina. Então o caso rauda de
figura.
0 principal estabelecimento é o de Lisboa, visto que a fábrica tuabalha,
para fornecer a k~ja de Lisbolia e é nesta que s-, exerce a actividade
comercial.
Há quio averiguar, em cada caso concreto, em que consiste a activi-
dade comercial ido arguido ; apurado i§to, tratase de saber em que lugar
é mais volumoga esga actividade . Não importa o lugar em que funciona a.
Capítulo III -Da competência interna 23 L

adminiístração ou em que i-es:ide o órgão superior de comando ; o qii,?


impGrta, é o lugar em que se praticam as operações co ;nerciais própria-
mente ditwg.

Subsidiàrânente, o artigo 82 .' atribui competência ao tribunal do


do)nicílio -do comerciante j.iidivildual ou ao tribunal da sede da sociedade.
Quando não haja estabelecimento, o ti-ibunal competente é o do -domicílio
ou da sede.
E se o comereitante individual não .tivew domicílio?
A questão p~dd~e i,eve,.,tir vários aspectos :
a) 0 comerciante te~m diversas residências onde vive alternaldamente,
e -ião escolheu uma dellas para seu 'domicílio ;
b) 0 comerciante n .~~o tem residência fixa : é um bufarinheiro ou
mercador ambètlante, qu.2~ se desloca cons~tanteme!nte de terra para terra;
c) 0 comerciante tem do-niicílilo, mas -em país, estrangeiro .
Na 1.` hipótes,3 aplica-se o segundo períod.j db § 1 .' do artigo 8,5.'
É competente para a decla raçãio da falência o tribunal da res:idência em qir~,
o arguido se encontrar, porque é ,aí que s.e considera domiciUád~> ; se não sIe~
encontrar em ner~huma, a faIência, pad-e ser ilequerida em qualqu~r delas.
Na 2.' hipótese tem~se por domiciliado no lugar on,de se achar (Cód..
Civ., art. 45 .o) e aí 'deve ser i, ~_-queri(du, a falência . Biarbo :m de Magalhãeg
(Cód . de Proc . Com ., vol. 1 .o, pág, 120) . observa que esta solução -só é acei-
tável quando ele não tenha, como aliás po,dla ter, residência permanent4~,
o,i,. aturade, em oualauer terra . Mas se o comerciant,- tem residéncia;
permanente ou aturada numa localidalde, é claro que eW-L :EL constitui, para.
td3cos os efeitos, o seu domicílio ; a hipótese posta é a de ~e ;l-e não' ter
r6sidência habitual em parte alguma e eri a-r, dia a -dia, de terra em terria .
É a hipótese prevista no artigo 45 .1 do Código Civil .
Ne. U hipótesa ús zribunais; portugueseis serão inbernacionalment,~-
incvmpeten,tes para a declaração da falência, salvo, S:C :
a) 0 argiúdIG residir em PorItugal há mais 'de s~ei;s meses; ou tiw~r-
contraído com um português a obrigação cuja falta de cumprimento,
justifica a falência e s, ~~ encoritrar acidIentalmente em tèn.,itório português-
(art . 65f, al . a) e § 1.1) ;
b) Ou devessem efectuar-is-e em Portugal os pagamentos cuja cessação ,
serve de fundamento à falência (~art.'65 .', al . b» ;
c) Ou ocorrer algum dos casos excepcionaí~s previstos nasalíneas c) -
e d) 'do artigo 65 .'
Quando a falência possa i-e,,quel-e .r~se em Portugal por força do § 1.*
do artigo 65 .', o tribunal competente será o da residência do arguido eu
o do lugar da sua presença acidental ; nos ~outros cas1o~s -deverá aplicar-se,
para a ,àeterminação do ffibuTial competente sob o ponto de vista territarial,,
o § 3 .0 do artigo 85 .1

0 § único do artigo 92 .' manda -aplicar o disposto no artigo ao caso


de comerciante ou sociedade estrangeira, que tenha em Portugal qualque:~-
esta belecimento, sucursal <iu representação .
2 :32 Livro II -Da c~peténcia e (Ias guruntia,,~ da i?n, »arci~dÍdadc
-

0 quIe, quer isto dizer?


Quer dizer que, estando ~?in país estrangeiro o estabelecânento prin-
cipal, maE, existindo fem Portugul uni scciiq , dái,io, uma
,,ucursa:I ou unia ic'preç :~-nt1ação, o tribunal p,)i -tuguês da situaÇão do z~sta
h~eleeimento se--undário, da sucuisal ou da vepi-esentação é competente
para declarar a. falência .
Estiamos ?m pi~cs,_,nça. !dum preceit,) de competência qui(, é simultâ-
neament~_ de caráctei- intc ,~va(,i,)n«l e dL cai-Jictei- interno. De ,~1de que o
ccnierciunte tem iem'~Portuga1 um es~tab-.lceimeiito, uma !sucL[], ,al 'ou un-ia
1~

lepl-i~~s,elitaçã,), os tribunais portugueses são competentes, s,~)b o ponto de


vista internaci'onal, para declarai- a falência, Posto qu~? o e_-~ub2l"~-imCi1to
pi incipal (~steja, w) e embova a sociedade, s,.~ja estilang-aira ;
os tiib,unais po,itugues2s, o que t1~~ni ecmp2têneija territorial para a
decIbaração da falência é o da situação dl,) estabellecimento se-~~undái-io, da
siw,tirsal ou da
ELs o que,, sc deteimina no luimeiro plei-í S, cr-0. do § único ch) a,l,tigo 82 ."
0 :segundo peiíodo estabe-lece 'duas i-2strições à competência interna-
cional dos tribunais poitugu--s2s :
1 .1' A fa]éi)c~a só p,63-- tp-i- poi, fundarnento a inlexecução de obri-
g~açõcs con~raíÚas em Po-rtugal e qu, e aqui deves,sem ser ~3umpi-idas ;
2 ." A liquídaçã:) é restrita acs berns existenhes em território por-
t Uguês.
Estas já s: ,~ liam nlo § 1 ." do artigo 12 .` e n,o § único do
artigo 13 ." dc> Código de Pr(,cesso Comercial, assim c9mo~ w) § único
do artigo 9.<> -2 do artigo 10 ." &:> Código ,de Falências de 1935 ; wws n.~)tam-se
alguiria,s diferençus . 0 § t.` do ai-tig~) 12 ." do Có.dig~o de Pi-ocesso e o
~ único do autigo, 9 ." do Código de F&Iênciás não exigiam, quaribo, ao comer-
ciante individual, que a falência dei'ivass~~ di~ obrigaç6es ctknti-aídas em
Fortugial ; o § úni~c~) Ido ai-tigo, 13 ." do Có~d,,ig,,) de Pi~ocesLs, ~i, e c, § único do
aiTigo 10 ." do Cóifig,> de Falências ) ,eferinICID--3e a sü ,c1iedwÍ~3 Iegalmente
constituí(la~i em país e~---iti~aiigeilo, áavam competência ao tri11:1111a1 portu-
guês p, ai - a decretar -a falência quanto a actos e co),~tratos feitos o~m Portugal.
Era equíve,,Ia eIsta :disposição ; pcidia, em face delia, sui3citar-se
, dúvida sobre
se bastava que a obrigação, cuja falta de cuirprimento servia, de baise ao
pei1id,,~ do falência, ~houivesge s!í~Jo contilaída em P~ortugal, o.u era nec2s-
sái io, ãl~m disso, que devesse sei- cumprida em território português.
0 § únie, ,) do artigo 82 .' não s6 rwolveu esta dúvida, cemo , também
fixou o mesmo ilegime plara a falência do cornercí~ante individual e pw -a,
a dIas socie, da~d,,-s.

0 confront3 clá riegra enunciada no corpo do artigo coini o preceito


formula,do nó seu § únic« habilita-,nüis a &terminar com precisão o alcance
duma e douti~o e consequentemente a apurar o regime àe -eompetêncía dos
nossos tribunais no tocante à falência, quer no aspecto interriacionul, quei-
ii, ,) aspecto territorial inteimo.
Se o comerciante individual ou a sociedade tem ~-> seu princIpal. esta-
belecimento em Portugal, os tribunais 1>ortugixeges são coTnp~et~e ,ntes para
Capítulo III- Da competê?wia intema 23:3

a declaração da fálênciá . Poueo; imporba, " tal casm, que o com;érciante


ou a sociedade wja nacional ou estrangeiro ; e a falência não sofre «s res-
trições impostas no § único do artigp 82 .' : abrange todo o património <L)
falido,, mesmo o existente em país estrangeiro, e pode ter por fundam2nt .)
obrigaçõeo contraídas fbra, & Portugal e que deves4s(em ~9, zr. eumpridas eni
territói~jG estrangeiro .
É o quIB d~&K, va da c~o~nbinação da. regra prescrita no corpo (I.)
ai-tig,) 82 ." com a -alínea fi,,) dIG 'artigo 65 ."
Dentre os tribumiais -portugueses, é competente, sob o ponto de vista
teriit-)i-i(al, o dIa situação 41, 3 és~Cabeleciment~ principal .
Se o comerciante ou a sociejd~ad,-~ tem o s!eu principa,[ estabeleciment.)
em país (~,stmnge~iro, uma de duas :
a) Ou lexiFJte em Portugal um ~e!st«)Yp_lecinr:?nto ;secundário, urna
sucursial uma repregentação ;
b) ' Ou não existe coisa ~alguma dastas.
Neste s~guncPb caso 3s, tribunais portugueses não podem -declarar a
falência, nem mesmo com baEoe em obrigações contraídas em Portuga-i e
que aqui devejEi~e~rn ser cumpridas, -~~ aind'a que )~ arguiI)~ t--nha.'hens em
território, português .
N~ primeiro oas 3, os tribunais portugu~e-ses são coiripetentes para a
declaração da falência, dem ias restriçõ-~~, s que o § únic~i e3tabelecE~ e já
-se apontaram..
Daqui st~ ve que ia expressão «na falta ~d'este», empregada no corpo
d~3 artigo, significa falta absoluta dI&estabel~~cimento, e nã-.,~~ «falta d-e, esta-
belecimento em território português» . 0 dbmicílio do comerciantp, ou a
-sede da sociedade ;só se temam como fac,t!jrei3 (atributivc~ â8 completência
quanda o fali'db não tem es~tab~e,1~e-cimentÁ-> adguTn, nem em Portugal, nem
no estiangeiro . Era )assim pk-,db '§ L , do artigo 12 .' e pelo § único do
~,r-tigo 13 ." do Código de Processo Comercial, pelo § único dos artigos 9 .`
e tC, ." &, Código (3e Falências d8 1935 ; o m1J3rolo deve entend- :~r-se hoje .
Por outro lado, apura-,se que a nacionalidade Ido curnerciante ou da
scciodaà~ não exerce influêncila (alguma quan'~b exi~sta um estabelecimento :
é sempro 3 tribunal da situação do estabeTecimento e havendo várilas, .o
da situação do estabF-IeciTri :ento principal, o comp2ten~e para decretar 2,
falência, quer o comercíarite geja. português quer seja estrangeiro, tenha
a s(>cie ,dadJea sua isetd;e em Portugal ou foira do território, português.
Pode muito bem awntecler que uma so,ci~e!dad~e com sede em Portu .-
gal tenha o seu principal ou único estabel,~~ciment~,~ em país estvangeiro .
Em tal caso a. jurisdição I)o-i-tug-u ,esa será incompetentb para a declaração
da falência, emborta a :soci, e,àa~d~e ~sêja po,i-tugu3sa, desde que não exista em
Portugal algum estabellecimento 9ecundário, sucursal ou representação .
As I)alavras estrang!e, ii -,a», insertas no § único, podem
induzir em erro, fazendo sup ,,Yr que c43 tribunais portugueses são, ecanpe--
tent~~E; pai a a declaração dIa *falência tde s, ,,ciedIad2s portuguesas que tenharn
o iseu estabelecimento principal em país estrangeiro, ainda que não exist2.
em Portugal nenhum estabolecim2nto secundário, nenhuma sucursal,
nenhuma representação .
234 Livro II--Da competencia e das garantias 4 imparcialidade

Não é exacito, como já ac~entuámhs . A expre-ssão «sociedade estlian-


geira> equivale à fórmula <soci~edade legabTyente constituída érrt país
estrangeiro», que se encontrava no § único do artigo 13 .o dio, Código de
Proce§so Comerciial e no § único do artigo 10 .' do C6digo, de Falências.
A redacção & prânloi ro período -do § único do artigo 82 .' seria mais
clara e correota.'9e sedissesse
' :
«0 disposto neL%te artigo, é aplicável no caso de existir em Portugal
qualquer td3tablelecímento, sucursal ou representaçãb de conierciânte ou
wwiedade, cujo estabelecimento principal esteja situadb fTá país estran-
gei~ro.»
A palavra «reprogenbação» abiÍànge, é elaro, a agência,, a filial, a
de1egação, de - que ge falá no,artigo, 7.', no § únibo do -artigo 65 .1. e nlo § 4 .o
do artigo 85 .'

Para a d,~cI 1aração da ins~&vêncià dos não comerciantes o juizo com-


petente é o dk> domicíli3 do «rguido, (art. 85.') . Eria o que expre.,É&amente
se preceituava no -artigo 3. 0 do . Decreto n.' 21 :758, de 22 de Outubro de 1932 ;
é o que tem &i entender~ge hoje, por força da regra gerail do artigo 85 .1,
vistto não existir nenhum pInbceito, parUcular aplieável ao caso (Rev . de Leg.,
ano 76 .', pág. -71) .
0 . p~eFi3o de insbIvência rege-se pelas disposições dia, processa de-
falência, em tudo quanto -não se acha, especialmente ]~,-gulado nos arti-
gos 135-8.0 e w---guintes (art . 1357f) ; mas nem o Código manda aplicar à
insoNência o (114posto no artigo 82,', nem o preceito; deste artigo teria
razão de 0e~r relativamente à insdlvência civil, pois os insolventev3 não
têm estabeleciniênto . Em última. aná11~&e a aplicação do artigo 82 .' condu-
zíria ao mesmo resultado que a aplicação -do artigo 85 .' : seria sempre o
tribuual do doanicílio ou da gede do arguido o competente, atenta a falta

ARTIGO 83 .0

(Processos preventivos e conservatórios e diligências ante~ipadas)

Quanto a processos preventivos e conservatórios e a


diligências a,nteriores à proposição da acção, observar-se-á o
seguinte :
a) A imposição de selos, o arrolamento e as outras pro-
vid-~ncias , conservatórias de bens sujeitos a extravio serão
requeridos no tribunal do lugar onde os bens se encon
trarem e, sé houver bens em várias coniarcas, em qualquer
delas ;
b) Para o embargo de obra nova será competente o tri-
bunal do lugar - da obra ;
Capítulo III- Da competência interna 23 ;5.

C) As. diligências antecipadas de produção de prova serão


requeridas -no tribunal do lugar em que hajam de efectuar-se ;
d) Para os outros processos preventivos e conservatórios
será competente o tribunal em que deva ser proposta a acção
respectiva.
§ único . 0 processo dos actos e diligência,, ; a que se refere
este artigo será apensado ao -da acção respectiva, para o que
deve ser remetido, quando se torne necessário, ao tribunal -em
que esta for proposta .

Os preceitos formuladim neste artigo vieram preencher uma lacuna


que se notava no Código anteriox . Nalda se dispunha, no Código de 1876,
quanto ao tribunal territor4almente competente para os actos preventivos
e preparatórios regulados nos artigos 363.o (arresto), 380.o (embargo de
obranova), 389.o (depósitos), 390.o (protèst<>&), 391.o (alimentos prtovisóriDs)
e para as diligências de produção ~& prova requeridas a,ntiffi, -da proposicÇao -
da ca~ (arts . 247.' e 270.') ; daí as dúvidas e hesitações 'da doutrina e
da ju
Eva principalmiente -a respeito da vissúària ante~~ipada, do embargo de
obra nova e do arresto que a questão, se opreseaitava .
QuIanto â vistoria tinha-se elhegaj& :a. ~do : considerava ~,se. compe-
tente o tribunal -da situação do,prédio, que devia ser obj'ecto da diligência .
Quanto ax) embargo de obra nova hasitava-se entne o tribunal da
situ~q4ão da obra e o tribunal do domicílio do embargado.
Quanto ao- arresto tinham-se formado nada =nos que três correntes :
Begundo uns o tribunal compête~nte era o -da situação dos b,-ns a arrestar ;
segundo outros, o Ao dbmicílio ido devedor ; segundo outros, o; que fosse
competente para a acção reg~tiva (Alberto dos; Reis, Processo ordinário,
2.' éd ., págs. 716 e 717, nota).
0 ~artigo :83 .o remove as dúvid~as.- Exprecsament.~ se indbm o tri-
bunal competente para os processos preventivos e conservatórios e para
as diligêncías anteriores à proposição da acção .
Processos preventivos . e conservatórios . Esta designação, corresponde
é, rubric~a do capítulo 4 . 1 do título 1 . 1 do livro iii. Os processos agrupa-
dos neste capítulo refe,~-em-ge aos alliméntos provisórias (art. 393.1), à,
reistituição provisória de posse (art. 400 .0), à suspensão de delil>eraç'~íes
sociais (art. 403.o), às providências cautelareg (art . -405~ .'), ao arresto
ÇarI~. 409 .'), ao embaTgo, de obra nova (art . 42V), à imposição de selos
e arrolamento (art. 4129.`), à prestação de caução (art. 436.1), ao reforço
â2 caução (art . 446.'), aos depósitos (aa-t . 453.') e aos protestos (art . 455.o) ..
O~Pa no 'artigo 83 .9 formulam-se três preceitos'cle competência relativos
a processos preventiv6s e conservatórios.
1 .' Para a imposição de sélos, arrolamento e outras providências
conservat6rias de bens sujeitos a extravio : tribunal do lugar onde c,3 bens
se encontrarem, e se -os houver em várias domarcas, o de qualquer delas .,
236 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade

Paria 2." o ~Fmbargo de obra nova : tribunal do lugar da obra .


3 .<> Para os r03tantes : tribunal em que deva ser propeista a acção
respectiva, isto a acção de que o processo preventivo ~cja acto pre-
paratório .
De maneira que os alimentos pr-3visórios hão-de ser requeridos no
tribun-w1 que for competente para a acção de- aliment03 defintivos (juízo
-do domicílio &,> réu), de divórdi~okou de siepailaçãode pe(ssoas e bens (juizo
do dormicílilo ou da residência do' -autGr) ; a restituIçãoo provisória de poss~
tem de s--r t ,E~querÍdã no tilibunal que for ecnipetente para a acção de
restituição de possIe (juizo da situação dos beri , para a suspensão de
d~elibei'açõ~ei3 s196ais ~) tribunal competente é o, da. acção de, anulaçdo das
deliLerações (j -tiíz3 da sed2 :da sociedade) ; para ,as providências cautelares
o juizo competente é o 'd'a acção em quie se há-~dF,', declarar o diinito posto
em riI3c :~ pelos factos ou arinciaçjas, que d2terminam as providências ; para
o arresto -o tribunal compctent,,~~ é o da acção dê idlvi'dia'(juízo ~do domicílio
do réu ou do lugar do cumprimento da obrigação) , nos cagas dos n .- 2 .`
<~ 3 .` d,,> artigo 4(1`9 .`, e o da acção, destiriiii a Te-ggir contra a ~iIeproduÇã0
fraudulenta <yu contrafacção ou contra " uso ilegal , de mare:w-3 (>u carirnbos,
no casodo n ." 1 .' do artigo 409 .o (juízo. do lugar da prática do fwto, ilícito) .
Dentre os compr~eenJd'icBj~s -no citado capítulo 4 .o rie~.tarn a
prestação e reforço de caução, os depósitn-~g e os protest ,.)s.
A prestação e refDrçc> de caução ~e os proftestos são prüCeiSI5DIS ,cüns ,er-
vatóríis, mas nã~3, constituém acto preparatório de, deterrniríadu . ácção a
que seja aplicáv~,l o n .11 1 .` do artigo 387 ." A prestação & caução, excep
tuadIU, os casais y.)i1cvj~3t-j,s artigos 442 .`, 443 .'~ e 445 .% dá 111 .g-ar a uni
pi»ce~nsb autórilorro e independente, a que não pode apTicar-&~ ~> disposto
na alínea d) do, artigo 83 .` A detc-minaçãü do tribunal mmpct?i,ite &~verá,
portanto, fazer-s~e ssegundo. a regra geral dIo~ artigo 85 .'
Quanto ao iIeforço . P«stos,departe os casos r2gulados no~s artigos, 451 .0
~) 452,", em que o refo,rço de caução se encorpora num outro pi~~3cesso, há
que distinguir : a) ou s,3 trata 'de reforçc, d ,~ hipoteca ; b) ou Qe trata de
)'e,fol-çõ de penho-r ou de fiança . No Lo caso o tribunal competente é -o da
si~tuaçã~) do prédio hipotecado (art . 73 .`) ; no 2 .' caso, o do domicílio do réu
~art . 85 .") .
Os pi~otegto, s, visto quie s-~~ fa~em por n,otifi .caç .-~to~ avulsa (iart . 4 ;)5 ."),
estão sujeitos ao díspos~o no artigo 84 .' : o tribunal compet~nt I~ é aque-le
,em cuj ,'a áreal resT~~r a pessoa a notificar. ,
ebnstituem Os depógitos reKulad~c13 Y) , c> artig~o, aeth pneparatóri ,~
duma acção ; mas estahá,de ser proposta, pela parte conitráiji~q, ala , &posi-
tante, e nãb por este . Dá-se aqui o inversi~ do que suceú~e -,nos outros
casos . Nú arresto, no embargo d-~~ obra nova, no arr-.)Iam,ento, na resti~
tuição provisória de posse, etc, quem requer o pro-ces)so conservatório é
que tem de propor àepois, dentro de dez dias, a acçã ,,) respectiva, sob
pena de caducar a, proviidência conserivait6.rlia (art . 387 .1, n .' 1 .1) . No depó-
sito o requerente dele nada mais tem ia fazer ; a parte contrárÍa é qu :?, se
quiser fazer triunfar oseu ponto de vista ; t~~m de propor, dentro die 30 dias,
-a acção res~iva (art. 454 .')% De inaneira que a eficácia do depósito não
-Capítulo III- Da competência interna 237

esté. de~ete da propiosiçãõ de acção por parte do depo%tlbante ; sendo ,


Pissim, não há riazão para apIimr o preceito de competência da adínca d)
do artigo 83 .o 0 juizo competentLe para o depósfto è o & domicílio da .
pessoa que hádê ser notificada (art . 85 ,. ,) .
Ab dep&ith kla mulher o~da, c~ acbo preParatóri~> da acção de ,
divórcio ou gep&raçãõ de pessolas e bens (art. 1467 .o), é quL- se aplica o
preceito 'da ialínPia d) do artigo 83 .o ; deve também aplicar-se, ai3 processo
para ablertura do testamento cerrado, como acto preparatório da aeç&o de
curadoria dèfinitilva (art . 1.11U) .

Diligências antecipadas . As dfilígêncíajs anterior,~~s à proposição da


acção, de que se fala noconreçoi do artigo, são ias diligências destinadas à
produção auiteci~a de prova, à prio~o de prova antes 'di~ Proposta a
acção, ciomo se vê pe-la alínea c) . É -a chamada prova ad perpetuam rei*
memoriam, de que se ocupa o (artigo .525, 1 0 Código de 1 .976 só adhútia,
an*13 de praposta ia acçãb, io, arbitram(ento (art . 2417.') o aínquírição de teeis-
ternunhas (art, 270 .') ; o Código actual permite o <k-poimento tanto de tes-
ternunhas c~ de pessoas que hajam de figuvar como partes e a v-rificação
ocular, quereoba foi'xna de exame, Vístoria ou -avaliação, qu~~r soiba forma,
de inspecção judicial, po1i~3 que o iartigo 5Z5 .0 nãõ distingue , nem há razão
para distinguir. É a -~s diligências que si- aplica a alínca c) dIo artigo 83 .1 :
no tribunal do lugar em ~ue hão-de efeictuar-se . é que devem ser reque-
ridas.

0 § único manda ~&pc~isar o processo dos actos e &Ugências, ao da


acção ilespi-witiva, para o que ideveirá ser rernetidb, quand,,> necei3sário, ao .
tribunal em que ela for proposta . Esta disposição não- figuitava no Pro
jecto ; n!em havita uei_-~es1s:idade -dio a insetir aqui . Pelio quie, ilaspeita aos
", Qs pre~vos e conservatórios, o § repete o que se determina nô -
artigo 389 .1 ; IYelb que respeita às dillgências amtecipadas de produção de
prova, era no artigo 525 . .o qub o predeitio, tinhia cabimento .

ARTIGO 84 .0

(Notificações avulsaâ)

As notificações avulsas serão sempre requeridas no tribunal


em cuja área residir a pessoa a notificar .

Mandam-se -requerer as notificações ávullab no .tribunal em cuja área


reáidir a piessoa ia notificar.
0 que dbve entP_ndar~E,.,e. püT notificaçõe s avu lms ? Quais são as noti-
ficaçõe~á que-entram, ~ta dL-isigniação?
No Código- - Janterilor aludia,-se a notificaçõeB avulsias no § 1 .' da,
artigo 159 .o ; é entendia-i52 que esta rfeferência abrang~a as notificações
reguladas nos artigos 641 .o e seguintIi--s : notifitações para preferência
'23 8 Livro I] - Da competência e das garantias da imparc~hlidade

<ait, 64.1 .'), notíficações palia preve-nçCw (art . ~E45 .0), notificações -para revo-
gação e rienúncia dIe inandato (&rts . 6416 .o e 648 .o) .
0 Prbj" plimitivo -do Código actual ocupava-ge das n~otificações
avulsas nos artigais 1916 .' e seguintes . Vê-se clarablente por esses artigois
que o Projecto incluia na claisse das notificaçdc-l-~ avulsas, as notificações
para preferência e para pri&vençáo (,aTt . 196.`G as notificações para inter-
rupção da pr~escr!çãõ e ias dbstiniad)~Ls a efectuar quaisquer outros protestos
judiciai3 (art. 197 .*),as niotificações paTa-rervo-gaçao e renuncia de mundlato
(art . 199 .') e ainda as que tiw~ssem outros fins (arit . 196 .') .
Da leitura dos artigos 189 .', 19U, 195~.' e 196 .* do Projecto colhia-ise
,esta lição : ias notificações avulsas contrapunham-sie 'às notificações que
eram c'onge;qukricia de processos pendentes.
Passemos para o Código . Logo no artigo 229 .' sn, encontra a diferen-
ciação entii-- n~ytif Ícução avulsa e notificação relativa a processo pendente ;
nos altigo,~, 234 .', 2,37 . 1 , 261 .' a diÉtinção acentua~se. Tal qual como no
Projecto, a notificação ou é, consequência de processo pendente, quer
dizer constitui uni acto de piloceroo que está a correr os seus termos, ou
~, uma diligência separada e avtónorna, que nada t3m que ver com qual-
quer processo , em curso .
Por outras palavrais, a notificação ou é um acto~io, ou é um a--to-fim
A notificação Telativa « processo pendIente, é um acto-meib, porque serve
de ingtrum(ento ou & meio num procei~so cujo filn nàdh t:b~m que ver com
o objectivo directo da notificação . Notificam-se as 'testemunhas para
depor ; notificam-se os aiúvogados pala compálwer ou palia tornar conhe-
cimento d),:i quaisquer decissões ; esta13 notificações sã~o meios para 'se con-
seguír o fim db processsio, e não o próprio firr.i 'do procoSso . A notificação
a-vul)3a é um acto-fim, porque fodia a actividade que se exorce é condu-
cente à nbfificaçã ,~.
Nenhuma dúvida se 12vamta quanto às notificações para - iniberromper
a prescl~ção ou para realizar quaisquer outros protdstos judiciaís, para
prevenção nos casos dos artigos 711 .0 n .' W, 789 .', 838 .o, § único, 8517 .o,
1 .451 .', 1641 . 1 , 1677.% 1679 .', 2240 .0 do Código Civil, e semé[hantes, para
fazer ees~-:ar o arrendamento (artis . 9 70.', 975 .', 984 .o, 985 .o), para revogação
ou renúncia de Tiran-Iato (~art . 263 .o) .* Todias r13tas nbtificaçõésipertencem à
categoriã dás n .,)tifi, ,--açõe: s avulsas .
A questão surge a propÓs~ito das notificações paria prí,,ferência, de
que o Proj2eto se ocupava nos artigos 200 .o a, 207 . 0 ~ e que hoje se encon-
artigos
tram noIs 1511 .' a 1518 .'
Qu2 as mtifidações para preferênêia eram notificações avulsas em
face 'do Projecto, não poldlila oferecer dúvida . Declarava-o expressamente
-o artigo 19kU ; -de sol-te que lhIeo era apli~cável a disposiição, do artigb 208 .o,
co:rri~spondente ao preceito do artigo 84 .' do Código .
Suistenta,se, porém, que actualmente não podem classificar-se como
avulsas as notfficações parla preferência reguladas mis artigos 1511 .0 e
s~eguint,2s, pois que estas notificações constituem um verdadeiro proceaso
especiail . 0 que caracte ,riza as notificações avulsas é a circunstância -de
a
não darem <)rirem um *procesgo ; u diligência é eféc~tua:da em cansequên-
Capítulo III-Da competência inte~ 289

cia de despacho Tançado, em requerimentk) avulso e os papéis, uniã vez


feita a notificação, são entregues ao requerente (art . 261 .`) . Nas notifica-
ções para preferêncía organiza-se um verdadeiro procesiso, que fica arqu.i~
vado na secretaria, casoalgum nótificado se apresefite ia preferir' (arts . 1511 .'
el,517.o) . Neste gentidoge pronuncia o sr. Dr. Palma Carlos (ob . cit .,pág.292) .
Não podemos aceitar esta doutrina .
Em primeiro lugar osr. Dr. Palma Carlos chega a uma conclusão que
está longe dIe ser harmónica com o critérib -de que parte . Se a notif icação
avulsa toma este nome por se i"&Ilizar em consequênciu -de despacho
lançado jium requerim I ento avulso e p-.)r os papéis serem entregw3-s. am)
1-equerente'dlepoi,s'de efectuadia a ~«ilig&:nciIa, tem de admitir~se que tambéni
à notificação para prefcIrência cabe essa designiação, quando nenhum dos
iiõtifi,cado ,s seapresiente a preferir . É ,expressa a 1 .' alínea, db artigo 1-5 , 17 . 1
Dentro d<J ponto de vi§tla em que o sr . Dr. PaIma Carlos s-e coloca, a
-solução ló04c~aser~a esta : a notificação para preferência é uma Üidigência
avulsa, se nixiguém se awpresentar a preferIr ; --e -algum dois notificados
declarar que prefere, a notificação dá lugar a um pracesso, que tem de
ficar na secretar~a, e por isso não pc4e elassificar-se como avulsa .
Esta solução in~eo)rre num gilave defeito . -Como no momento em que
se requeT a ii~otificação se desconhece a atitude que to2nai- ão os noti£i-
candos, o requerente estaria impossibilitado , 'de resolver o problema ide
~l~ncia. ra requerer uma notificação, que PL^,di,a ser avulisa ou na,,,),
conforme o que ocorresse ulterío-rmente ; não sabia Eie hiavia de aplicar mL
nãb o artigo 84 .'
Portanto a notificação há-de elassific~ai ., ~se de avulsa em átenção, ao
seu próprio objectivo ou à sua própria função, e não em atenção à atitude
que vier atárnar o niotifice~d,,> .
Como, já pugemôs em relevo, a léí contvapõe a figura da notificação
avulsa a figura da notificaçko relativa a processo pendente. Exempdos
niti&>s de n~otificação avulsa : a n-otificação para a revogação ,de mandato,
para interrupção da prescriçãb, para prevenção do arrendatário de que
&ve consideirar findo o arren'8amento no fim do prazo . Éxempl.os claros
Ide nvffificaçã~D---actó de proceisso pendente : a notificação aos advogados
do despacho que designa dia paTa um exame, paria uma vi,~shoria, paTla uma,
inquirição dIe tésbemunhas, a notificação da junção de do-cumentos, a noti 
ficação ,aos peritos para cemparecerem na audiência de discussão'e julga-
zne"to, etc .
Se são é~ os ddis tipos UL- notificação, pergunta-s~e : em qual deleis
se einqúadra a t~i~oação para preferência?
Decerto no prâneiro . Na notificação para preferência a diligência,
da notificação não é meio posto ao -serviço do piwesso, è o próprio.,
fim do processo, tal qual como na notificação para prevenção ou para,
MVogiação, de ~dato. 0 f~ -de, no caso de e_x~erc~cio do dIrelte, de
preferên&a, o~s papéis. ficarem na -secretaria, em , vez de :serem entregues;
ao requerente, nãb modifica a ínidole nêm o carácter da clliligência .
Somos, pois, ide parecer que o artIgo 84 .* é aplic&vé1 às notificações
para preffierência .
240 Livro II --Da competência e das garantias da imparcialidade

Mas c~. há-& observar-ise o disposto no artigo, quando haja a


nofificar várid.3 interessados quê residam em circunscrições diferentes?
D~§tinganios. Ou oe trata (te notificação para preferênci)a ; ou se trata
de o~ qualquier niotificação uNrullsa .
Neste seguhdo oasb hão-da- requerIer~se tantas notificaç~~s distintas
qu,antas a3 ciIrcunscriçõê3 em que as notificari(dios residirem.
No Oi!ni~êj_PD o~ a notifiLeação de tàdos os lordferentes liá-de reque-
rer-se no megrno tribunal, ~ que se o direito pertencer simultânea-
mente -a;o~3 váricos interessados terá de haver licitação entre eles (art . 1512 .') .
Em q~1k- tHbunal?
Duas soluçõessão ~p~og-cdv" : a) ou a dê s-- requerer a notifi6ação em
quffiquer -dols trliburiãis -em cuja área rL-sildlir algum notificando ; b) ou a de
se requerer no tribunal em qire r"ídir o maik)r número deles:.
Julgamos preferIvel ia segundia ; é a que se h(arrnoniza com o sistema
kgal expresso no artigo 86 . 1 Só no cas<) de haver o mesm.oi número de
ndtÍficandos eni d'der~ente~s éircunscriçíye.% é que o requerente poderá.
escolhêr quaJ~qu!er delas .
D'ir~w-á que dês(tia maneira fugimos à apliriação do artigo 84 .' e vimos
* cair na obsiervância doa artigos 85 .' e 86 .' A objecção -não mlhn .
0 preceito, legal de que se fazuw, é o artigo 84 .', e não o artigo 85 .' ;
* não é indiferente o funcionamento dum ou doutro, visto que o primeiro
manIda atender à simples residência, a~o paisso que o segun6o t-oma por
basta o domicílio. Quando o ~Úlio e a residên;cia não coincidam, há-de
preferi,r,.se o '&omicílio,sé o texto -a aplicar foi: o affigo 85 .o, e há-de pre-
fer~r-4jge u r«siIdênc~a, ge o text(o a apllicar for o artigo 84.'
Pai~tànos, pois, deste ponto : o que rege, no caso de notificação para
preferência, é o artIgo 84.0 Mas tor'na-se ivecessário acomoclar a dispo-
iÚção do Eu~, âts circun&tâncias omrrentes ; e ~então, por ai-gumeyito de
"alogia &ri-va~clb do artigo 86.% ch~ega-se -ao resultEffio de con,siderar com-
petente o tríbun(al e~m que râsidir o maior número de poessoas a notfficar .

ARTIGo 85 .0

(Regra geral de competência territorial : foro do do?niéílío do réu)

Em todos, os outros casos não previstos nos artigos anteriores


ou em disposições especiais é competente o tribunal do domicílio
do réu .
,§ 1 .o Se o réu não tiver residência fixa, será demandado
no lugar em que se encontrar . Se tiver mais que uma residência
em que viva alternadamente e não houver escolhido uma delas
para domicílio, será demandado naquela em que se encontrar, não
se encontrando em n~,nhuma, poderá ser demandado em qualquer
delas, à escolha do autor .
Capítulo III'- Da competência interva 241

§ 2,0 Se
o réu for incerto ou estiver ausente eiri parte
incerta, se~á
dernandado no tribunal do dornicílio do autoi:- .
Mas a curadoria, provisória ou definitiva, dos bens do ausente
será requerida no tribunal do último domicílio que o ausente teve
em Portugal .
§ 3 .o -Se o réu tiver o ; domicílio e a residência em país
estrangeiro, será demanda-do no tribunal do lugar' em que se
encontrar ; não se encontrando em território p~ortuguês, será
demandado no do domicílio do autor ; quando este! domicílio seja
em país estrangeiro, será competente para a causa o tribunal de
Lisboa 1 .
§ 4 .o Se o réu . for o Estado, ao tribunal do domicílio do
réu substituir-se-á o do domicílio do autor. Se o réu for
outro qualquer corpo colectivo, _ ~erá demandado no tribunal
da sede da a~dminigtração principal ou no da se(te da sucursal,
agência, filial ou delegação, co,nforme a acção for dirigida
contra aquela ou contra esta . Mas a acção contra pessoas
colectivas estrangeiras que tenham sucursal, ag~^.-ncia, filial ou
em
delegação Portugal pode ser proposta no tribunal da .sede
destas, ainda que seja pedida a citação da administração
pri,ncipal .

Enuncia-s~e aqui a r~egra geral de competência territorial : foiro do


do-Inícffio, do réu .
A que casos s4e aplic~a 'esta i1~Êgra?
0 artigo d11-41v cliaramente : a todois os casos, sia-Ivo os previstos nos
artigos anít]er~iüwes (73 .0 ia 84 . 0 ) ou em &spusiçõerá especials .
A frase «em disposições espeei" já'fbi interpÉetoklá no sentido, de
que oe quiseram respeitar as disposições espec'iais de competência ten-i-
tarW insewtas em diplomas antleri(>res ao Código, como a do artigo 43 .' dó
Decreto n .  2, 'die 25 -de Dezembro de 1910, r~elativa às acções de investi-
gUIçáo de pate~rhi~ ou :mato-Tnidã& ileg~tima . Já na Revista de Legi6-
lação, ano~s 72 .o, pág. 244), e 76 .o, pág . 242, combati e~sta dbutrina, que
o sr. Dir. Palma Garlos taxa dL- absurda (ob . cit~., pág. 293) .
As dispúsições espieciais que houve 0 pTOPóSitO & ~alvar foiram
as contWas em váriaa luga-res do Código ~art& 1018.0, 1023 . 1, 1090 .1, etc .)
e as que viessem a ser estabeleci&s posteriorinente . Quanto, às constan
tos de leis anter~iores ao CódIgo, -este ou ae reproduzíu com ou ~ modi.-

1 Nas coaóni~as as ~--xpreissões «o tribunal de Lísbo4x» devem substi-


tuir-ce por tjuízo da comãrcia ãMe dIa colónia» (Port. n .o 9 :677, n .I 3 .1) .
16 - CóDIGO DE PROCESSO CIVIL
24 2 Livro II -- Da competência e o" garantias da imparcialidade

Seações, ou as revogou. Asaim é que no artigo 73 . 1 deu acolhimento ao


Preceito do,fonrm rei ~itae formWado no artigo 10 .' do Decrete, n .o 21 :287 ;
no artigo 75 .' repetiu a norma de competência do urtigo 5 .' do Decreto
de 3 de Novánbro de 19 , 101 ; no artigo 76 .1 modificou a disposição, do § 4 .o
do artigo 756 .o do Estatuto Judiciário. Se o kgisla&ir quisem,e regressar
ae, regime de compêtência do extigo AU do Decreto de 25 de Dezembro
do 1910, teria certamente introduzido o preceito nalgum 'dos -artigos ante-
rioros alo 85 .' ; - o o fez, porque entendeu deverseguir na~ma linha de
2 ~~

orientação do artigo . 4.* do Decreto n.' 12 :353, e do artigo 10 .' do Decreto


n .' 21 :287, isto é, julgou preferível a, doutrina da competência do foro do
domicílio do réu para as -acções de invesItigação de p~idoJde ou mater-
nidade ilegítim~k.
As disposições especiais dê com~ncia t.e'rritorial insertas em
d~plo=s anteriores ao Cóffigo só podem. ser invocadas quando e~
diplomas dIevwn con~siderar-~se em vigor, ou porque fomm expresgamente
réssal"dos pelo § único do,artigo 3 .Ido Dê-creto n.o 29 :637 (lei pream-
bula ,r), ou porque foilam tàcitamente respeita&s . Assim é que, tendo sido
exceptuada da revogação a Iégislaçã~o de pTocesso contida no Código da
Estilãda, o preceito particular de competência estabekcidú no artigo 14,3 .'
deste C6digo, ainda hoje poderi(a. ae-r invocado, mesmo no c~ de não
ekistir a 2. .' p~wj-te do artigo 74,*

0 domicilio do réu háJde ser determinadIo em conformikIade dús


artigos 41 .' u 54 .0 do 06digo Civil .
No § Lo do artigo 103 .o do Projecto, dizia~se que o réu oe consikièi~ava
salvo
domiefliado no lugar em que residisse há mais de sets meses, o caso
de downicílib 0 sr. conselheiro Botelho de SoucLa observou
que d~ mi~ra 'ffia revogar-se o d~Etto no artig~o~ 41 .0 do Código
Cívil e que poderilam surgir diTiculdade;a parase determinar em que juízo
devia ser piroposta a acção ae o réu -residlsft en~ certo lugar, com ânimo
de aí pemaneco~T, mas .há menos de kOei~q m~, A Comissão RÂ&visora deu
,razão ao sr. coni~elh&lro BotêNib de %usa, pelo que a disposição referida
fdi êl; im~iffyada.
E todavia ela tinha gratde utffid»Jck- . Evitava os embaraços a que
'dá lugar a ,al)lieação do pr~ito do a:rtigo 44 .o db Código Civil . É claro que
o principio geral do aití'glo 41 .o deste Côdigo continuava de pé ; -para efeitos
de competéncia considerava-se -residC-n~&iia permianente, e po~to domi-
cillío, a que exc~~desse seis me~.
Se o réu, fixasse a sua residência em d~et!eiinina-do lugar e fizesse a
comuinitcação prescrita m aiftigo 44 . 1 db Código CM1, tinha de <--i)insidera:r-se
dómicilíMo nesselugar, m~o para efeitcrsde convp~etência, sua
mhi~&da a~ ngo tiveMe,à~nda du-ÉaçãG superioT a sei~s meses.
Nãb me p,%1-p-ce, pois, que suscIt~e díficuld&desou tivesse inconve-
nientes Ia fórmirla enunciada xra La pairt~ do § .1 .' do artigo 1% .' do Pro-
j ,ecto. Mas vi-ato ter sff<Qo rejeitada, é em harmoffia e= as regras do
Código Civil que se h"e determinar o domicílio p;ara efeito da aplicação
do princípio, dle comipetência formulado' nb arffgo. 85 .*
Capítm1o III-Da competência interna 243

No artigo 5.' do Código de PTooesso Comerciâ dispunha-se que, para


os efeitos da competéncia, o domicilio dos comerciantes e o -das su&s sucur-
sais, no caso ,de haver matrícula, era o que desta constasse. Uma das espe
cificações exigidas :no -artigo 51 .` ido Código Comercial para, a -matrícula
cbs comerciantes é a indi"1ção do -seu domicílio ; -por êsta, indicação tinha
de regul&r-se quem quisesse propor contra o comerciante niatriculadb qual-
quer acção sujeita. à regra geral do foro 'do doinicíliodo réu.
domicílio
De maneira que era no t~!buúal do designado na matrícul, a,
e nãb nIo tribun&l. do 4oznicílio lekal ou voluntário s--gundo as regras (h)
Códigio Civil, que o cDmei-ciaffltp. tinha de sér deman~o. Só :r~o caso de
o comerciamte não estar matriculado é que o domicílio, para efeitos &
competência, -.se determinava -em confo.rmida~d~e com os preceitos da
lei
civ 1.
Allgumas diávida~s surgiram . Discutia~se qual o lugar em que o
comerdiante devia consi~derar-i.5e Id~o~miscliliado, Iya^ria efeitos de competência.,
quando tivesse trespassado o estabelecin~to, sem fazer cancelar a matrí
cula ~ac. da Rel. de Lx .a &e 4-10 .929, Rev, de Just., ano 14 .o, pág. 299),
ou quando da matrícula não constasse o domicílio ('ac . da Rei. de Lx .'
de 20-4f-929, Rev. de Just, ano 14 .', pág. &6), ou quando o comerciante esti-
vtlsge matricula:do em inais do que uma comarca (se. do S. T. J. de 22-10.o-929),
Col. Qf., ano 23 .o, pág. 285, Gaz., ano, 43 .o, pág. 316) . Não examinaremog
estas queãtõés, porque já não têm interesse. A dispoãição da artigo 5.*
do Código de Pro~so, Comercial não foi repivduz~idh ne , Código de Pro-
oemo Civil ; -está, portanto, rêvogada.
Para os comerciantes, matriculados ou não, o 1-egin~~ é o mesmo que
para as outras pessoas. 0 domicílio, para os efeitos, de competência,
deterniffia-se a-etuaSmente segundo as prescrições do Código Civil, sendo
abdolutamente indiferente o que da matrículia constar ; quer dizer, o
domicílio consbante da matrícula só é tomado em consideração' quando
coincida com o domicílio fixado -segundo a lei civil.

Visbo que a competênoia se fixa no momento em que a acção se prú-


põe te as modificaçõés que ocorrerem posteriormente são, , em princípio,
írrelevanbes (art . 63 .'), ü donúcffio, a que tem ãe atendier-se é o que o réu
tiver à data da proposição da acção. Poui~o importa, pois, que à -data da
ciitação ou em momento po~teriIor o r~êu já tenha domicffio em coniarca
difevente daquela em que a acção foi Intentada ; se à data da proposição
o seu domicffio era na cornarca da acção, o tribu"l é competente e a sua
competência fica defix~itivaánénbe ostabelecida . 0 que dizemos do domi-
cílio a~plic"e â àimples residência e ao lugar dIa presença acidental
quando sejam e,*ks, em substituição do domicílio, os factos legalmente
determ~nativos da competênci«.

0 domicílio que há-de tbmar-se em con~sideraçãó é o civil e não


o
o político ; a -acção deve ser proposta na com-arca em que o réu tem o se
domicílio determinado segundo o Código Civil, embora esteja inscrito
como eleitor no recenseamento, eleitoral de freguesia pertencente a
244 Livro II --Da competência e das garantias da ímparcialidade

,co~n~arc,,-. &iversa (ac . do S . T . J . 'de 27-10 ..o-905, Rev. dos Trib ., ano lLo,
pág . 331) .
Se o réu tem dilornicílio necessário, é por ele que se regula a compe-
tência do tribunal ; em tal caso a residência efectiva em lugar diverso é
irrel~eva,n~te .
Já se di%~cutiu :
a) Em que juizo há.de -ser proposta a acção quando o autor seja
o pai e o réu seja ugi filho menor,sujeito ao poder paternal daquele ;
b) Qual ~j tritffinal compete-nte pai:a a acção 'intentadh eúntra um
interdito por prodigalidade -l _qu-ando o seu curadar esteja doiTiiciJiado em
comarca diferente d~aqu.el'a em que vive o réu ; ;
C) Qual o juizo compo-tente para a acção a propor contra um fun-
cioiLário público, quando "t~e exerça temporàriamente funçõ,~~-s em lugar
diversio da sede do seu cargo .
Quanto --ao 1 .o ponto . 0 artigo 47 .o do Código Civil fixia aos meno~
não emancipados o domicílio do pai ou -da mãe, a cuja autoridáde se acham
sujeitos, e na fa~lta ou impedimento legal dest, , s, o do tutor.
Por outro lado, o artigo 1'53 .' determina quê, no caso de conflito de
interesste.s entre os pais e os seus filhos menores, sérá dado aos filhos,
por nomeação do juiz competente, tutor especial que os defendh . Supo
nhamos que o pai tem o -domicílio ~_ Coimbrá e que o tutor especial
nomeado ao filho tem o ~diomicílio em Anadlia ; Para a acção do pai contra
o filho é ~pel)ente o tribnnal de C ,o!imbra ou o d .~ Anadia?
Tudo está em saber que sentido ~deve atribuir-se à palavra impedi-
mento, empregada no artigo 15~3 .' : se o impedimento de que aí se fala é
sómente o impedimento geral que conduz à constituiçãb da tutela, ou
também o impedim2nto acidental e avulso a que se refere o artigor 153 .o
A Revista de Legislação, ano, 49 , .', págs . 218 e 220, entende que o impedi-
mento visado no artigo 153 .' é iinicamente o de carácter geral, donde
conclui que r~3 c!as;o previsto no artigo 15.3 .' a acção há-de ser proposta
pello pai ;no tribunal dIo seu próprio domicílio, por ser o do filho, e não
no tribunal do domicílio do tutor eispecial. ' 0 caso é duvidoso .
Quanto ao 2 .' ponto . 0' acórdão Ida Relação do Pofto, de 4 de Maio
de 1929 (Rev . ,dos Trib ., ano 47 .', pág. 379) decidiu que o tribunal compe-
tente é o do domicílio voluntário do interdito . Com efe'itio, não há disposição
de 13i que sujeite os interditos por prodigalidade (ao domicilio do seu
curador. 0 artigo 48.' do Código Civil dá aos maiores, sob tutela, o domi-
cílio do tutor; este texto não é aplicável aos interditos por prodigalidade .
Quanth ao 3 .o ponto . 0 Supre~mb Tribunal de Justiça, em acórdão
de 19. de Novembro de 1912 (Gaz ., ano 26 .`, pág. '543), decidiu que o tribunal
compe~ent~ é o da comarca em que o emprego se exerce (Cód. Civ., art . 51 .').,
,e não o do lugar em que 6 funcionário se er~co ntrar eventualmente, posto
que encarregado d~ missão oficial . 0 ciasb ' concreto erá o seguinte :
Almada. Negreir~os fora nomeado achninistrador do concelho de S . Ibmé
o estiveira em exercício effttivo do cargo durante alguns lanIos ; em certa
, altura, sem ser exonerado do cargo de administr&dor, foi encarÉgado
pe~o Gbverno de u!ma mIsaão especial a desempenhar On Paris e pai~
Capítulo III- Da competência int^b 2:45

a relsidir ncAa cidade; passados aJguns a" foi propiosta contra,ele uma
saber sé o tribunal dia cornarca
ã~--Çãb em S . Tomé ; l~-,v'Bmt(>u-ae a quIestão &
de S . Tomê era competente piata a causa. 0 Supremo pronunciou~ no
sentido afirmativo, com fundamento no artigo 51 . 1 do Código Cívil, , 1 i
que, não tendo ainda sido exonerúdo do lugar de admInistradqr do con-
c,élho, o seu domitulib necessário coútihuava a ser em S . Tomé, embora
residisse em Pari19 há muito teimpio,
Não ,noS pa~ exacba a decisão . É clam clue os empregai públicios
têm demicílib necessi no lugar ean que ~exe~ os seus empregos,
pouco impoi que, de facto, re~ildwn iein lugar diferente. Mas este
domicílio nec~essáríÓ pressupõe, como a letrado ã~rtÍgo 511 .* do Código CNil
,
inculca, o exercício, efectivo do cai*o ; se o empri~ deixou de exercer
realmenIte a função, o domicílio -nêcéL%,gárib . cessa, poisIdo quie aínda -não
íenha sidIo demitido do lugar . E asgân, o funcionário aposentadb ou em
situação de licença ilimitada ou que - abaí~ o lugar deixa de ter o
doiy~icílilo neides~sário, fixado no iaTtigo 51.*
Suponhani ~agbrÉa que o empregado, sen~ perdIer o seu. cargo, foi
nomeado para, em comissão de ~servíço, exercer determinada função ~
lugur diferente d'as;ede do cargo ; trat&-~E;Ie, não de uma comissão de sçr ,., iço
acidental e trar~sitório,ff~ias de uma com~ssãb estável e du-radoura, por 3,
4, 5 an^ 'ou sem limitação de tempo . Não pode de~xar & entender-se
que, enquanto durar a comissi o domicílio nercessário do empregado
pasi a ser o lugar em que a função tem de ser exercida ; só quanffi> a
comissão findar e o fuawionário regressar~ ao exercício do cargo é que
vblta u ter ~ domicilib necessário o lugar em que este há-deser exercido
Portanto, no caso concreto do acôrdão citado, ~se Alinadia Megi~eiros*
estava investido dê uma missão oficial em Palis e a de~penhava aí,
há anos, tinha ~o dIonácílio ineceisoário Paris, e não S . Tomé .
Trise de Ócimicílio voluntário, "tem~ discutido tse a comuiiii-
câção às câmaras municipais, de que se fala noartigo 44 .* db Códígo Civil,
é formalidade indispensável para - a mudança 'de domicílio, ou s~e basta a
fixação da residêncita em outro concelho. 0 Sup=o Tribunal de Justiça
tem seguido uma e oütra, jurisprudência ; parece-nhis- mais legal a opiniãb
de que basta a fixação da reáidência . Veja-se a anotaçãIb da Rev. de Leg.,
anú '57 .', pág . 29, -ao acórdãk) do Supremo Tribunal de Justiça, de 22 de
Janeiro de 1.1924, e a nofla. de pág . 660 no Proces,,w ordinário, 2.' ed&çiío,
pág. 660 .

Slu~amos que o réu não tem dhmicílio necessário e também não


tem, em Portugal, residência peimwnente . Em que tribunal há-de sier
propoista. ia acção?
As legislações dós vários pa~ises mian.düm ate~nder, na falta de dbmicílio,
à reisidência ; mas pode suceder que o réu nem sequer tenha residência
estável ou que a resi:dêntia seja desconhecida . Em tais casos adoptam-se
vár~Us soluções : a) manda,4se propor a aéção no tribunal do lugar em que
o réu se finciontrar e se não ~sê êncontrar em território narionál, no tribunal
doidoi do aubor (sistema. itialii) declara-se c,o-ir.ipetênte otribunal
24~6 Livro II--Da competência e d~ garanhas da imparci«àd~de

do últinio doTnicilii~o. (aistema auatÁTo,g~nir-ID) ; c) dá-jse . ~ab autor ó ~dil-eito


de escolher entre o lugarem cpie o réu se encontrar e a última r"dêmia
Mstema espai~libl) ; d) ata~ibu!~ cDmpetência ao tribunal do dornicíN, do
autx>r (Éis~ema bTIasileiro) .
0 sistema -português aproxima.-se muito do sis~ italiuno.
Figur~>s as várias hipólbesets que podem verifimr-se :
t) 0 réu tem mais do que uma residência on& vive alterniad-amL~nte ;
2) 0 réu nãõ tem residência fixa ;
3) 0 réu é- incerto ou está ausente em parteíncerta ;
4) 0 réu tJem :domicílio e -residên6a em paí-s estrangeiro.

1) Residências alt~das. Estia hipótese -está prevista no artigo 43.*


do C"go CM1 e no ~§ 1.* do artigo 85.o do Código de Processo.
0 artigo 43,.' prevê dois c~s:
0 1.' de o ddadã~o ter decIaT~adh perante a respectiva câmaria muni-
cipal que prefere uma dias r"idênclias parra seu domicílilo ;
2.o 0 de rião ter feito ciOa declaraçãb, mws en~r~ar~se numa dao
residênejiã~s .
No 1.1 ca~se, o ~d<)ffnicílib do indivíduo é a :residência ewolliida. Tício
Vl'w. durante unTa parte do ~ ~ Coimbra e duTamte outra parte em
Li~a; declaroU peràn~,e a C~Unãra MunIcip~a`I -de Coimbra que prefere
esta c~e para seu domicillíb; o séu domicílio é Cuimbra, mesmo, durante
o tempo ern que~de em Uisboa ; é ,exn Coimbra que ~ern 4 ser denmn-
dado, desde quE! i&e trate de Wcção sujeita à regria de competência do
arti,go W,.o É o que regulta 4~h artigio 4-3 .0 do Código Civil e do § 1.o dó
artigo 85 .o do Código de Procésso.
Xb 2.1 caso t~se para decnicílib a residêndia em que o cidadão se
encontrar (art. 43.o do Cód. CiVil.) ; e por ísso o § 1.' do -artigo 85,.* manda
propor a -acção nessa ' residêncàa, devendo entender-se, por força &
árUgo 63.1, que a fraãe t4serú demãndado naquela em que se encontrar>
visa a residên~eis, em que o réu se encontrar no momento da proposição da
cau~,m, Assini, na hipótesé figuradã, ~se Ticio não ti~ f~ a declaração
de preferência, deverá Iser demaindado em Lisboa ou em Coinibra, com-
f=,e se achar :naque~ ou nesta cidwde à data dla in~ração da wcçãd .
0 acóràãb do Suptemb Tribúrial de Justiça de 27 -de. Novembro
de 1928 (Col. Of., ânIu 2-7 .1, pág. 28,1) ~consi&_rou decisiva a informação
constante da certidão da c'itação ,para o efeito de se apurar eIn. qual das
residências se ene~rava ú, réu à data da proposição da causa. 0 caso
aprd,,4entwva-se nestes termos : o réu tinha ,duas -residências: PoTto e Lisboa ;
o autor propôh a acção no Porth, Por ter aver`iguado quie o réu estava
nesta cid)ade ; mus sucedeu que, ao procurá-lo na residência do Porto para
o cita-r, o oficial de justiÇa não o encontrou e foi informado de que estava,
há sete ni~, <m Lisboa, o que declarou na certidão i~octiVa ; expe,
dida carta precatória pwra Lisboa, o réu foi aí citado.
Em face dostês factos e Porque o réu deduziu a excepção de incom~
petên~cia, 'houve que decidir sle o tribunIal comp~te era do Porto ou o
de Lisboa. 0 autor provou por tostemunhas que, ao tempb da éristxibuição
Capftuko III -Da competgncia interw 247

, da causa, o réu estava no Porto ; o Supr~emIo decJarou competente o tri-


bunal de Li~a, pela ~sideração de que a provia testemunhal produ-
zida pêlo a~ nã1o põd:lja, atento o dlisp~ no artigo 2'507.o do Có&Ko
Civil, preVaIeL~ contrIa o que icon, atavia dh certidão do oficial de justiça,
documento au"nt'i~--o.
A ~gãb " ~,a. 0 artigo 2507.o dio Código Civil não aidmitia
prova. td~unhal em comtrár~Ó ou além -do conteúdo 4 documentos
autêntic~ds ; a razab &sta -proibição era a força prol>a;tóiia pllena dbos
documen" autênticüs, consignada nosartiigos 242'5.o e 242,6 .1 Mas o prin--
cípi)o dá plietrátude probatórlia de ta$s documentois, não era, ~luta:
segundo a boa doutrina abrangia únicamente . os factõS p-raticados ou
p,resenciados pelo oficlial público, ou os factos de que ele se certificou ou
podia eeitifkur.
0 que é que justificaa força probatéàa, pTena dó& documentos autên-
tko19? A fé pública que merece a -autoridade ou o funcionário que lavra
o documente. Mas 'é de toda a Jéviidênciu, que essa fé s6 cobre os factos
de que o funci)anár% tk~m conhecimento di-re&> e pe~ ; quanto aos
fa~s quelhé foram narrados, o fuincionário, não pode garantir a sua exac-
tidão. Lgitio, quie Iwj~ está expressãmetIte exar&db nosartiglo~s'530.' e 621.*
do Código de Processo CM1, era o que já devia enteríder-se em face das
dis~ções coi-reispond~enleg do Código Civil.
APII)cando eistes princípios ao c~ cQncreto,,,,
pr seguia-4~-- que a ~ão
lavrada pelh ofi6a1 de justiça só fazia orva plena q~to aos fact9ys,
asqeguriadIos por ~eqe, de que procurara o citando na rgua msid~êmih -do
Porke, não, o encmtrara e rocebem ia informação , de - que estava, há sete
meses, em Lisboa. -Quantk) ,a sabexjs~e se eisitainformação, coTre9pondila à ver~
dade, a, fé pública do funcionário não piodia ser invociada; o oficial repix>
duzia v que lhe fom. dito ; não garantia, nem podia garantir, que f«sse
e3~acta a informação . P~rti&n~o, nesta parte e§távamõs em pros;ença, dum
fa~eto a respeitb do qu~a-1 ,~L ce rtidãb não constituía prio,,na plena ; à informa-
ção que o ofidial recolhera podia ' perfeitamente cont~r-s~e o depoimento
das testemunhas oferecidas pêlo autor.
Há um terceirocaise, que o artígo 4,3 .' não regula :, o de o ci&dão não
ter preferido nenhuma das T~e(sidên~cias nem sé encon~rar noA,guma delas.
Tício tem duas residênciais : Lisboa, e Sintra ; não preferiu venhuma deIas,-~
em d"rm~nakIa cobjuntura quer saber-~,,Je qual é o ,seu dbniicílio , e sucede
que, n~ momento, ele nem está êm Msboa nem em . Siintra, está e"
~bra . Quid juris?
AntM de 1918 a 'iurâq)rudênc~a hesitava na soIuç~u) . 0 Decreto
n.' 4:618, de 13de ~dê 1918, resolveu a düvfdla, daírido ao artigo 16 .'
do Código de P~rocesso, C.Ml uma redacção que mandava atender â última
~dêncla. Quer dizer, na hipótese isu~, Vcih, si deinandado fim
IÂsboa ou em Sint:ria, cionforme ãe achagae numa ou -noutra cidade ao
tempo em que se au~u -para Coimbra: preferia-se ia última residênci~a
m que o réu tivoase estaido.
Não foi esta a isõl'ução -ad~cla (pelo Código ae.tual ; o § 1.o do
artigo 85 .* díspõe, em últImo lugar, que rnãó se encontrando o ylí»ti êm
248 Livro II- Da competência e das garantias da impaq~~e

nenhuma das residências, poderá a acção ser .pivposta em qual-quer delas,


à escolha doautor. Na hipOtese, figurada Tício, poderia :ser demandadb em
Lisboa ou em Sintra, conilo ffiais conviesse ao autor . Nã,3 conkid~u
motivo atendivel de ~referência a eircunstância que o Decreti. n.o 4 :618
inandava tomar em consideração ; sobretudo entendeu-se que não devia
colodar-se o autor nIo eml)àraço -de averiguar qual fora, das várias resi
dên~cia,s, a última em que o réu habitara.

2) Falta de. residência fixa . A hipóteoe está previsita no primeiro


poi~odo do § Lo do artigo 85 .' 0 tribunal competente é o do lugar em
que o réu se eneontilar . Este preceito ti~aJduz a aplicação, pura e sin11p1 ;es,
do que se dispõe no a1~tigo 45 .' do Código Civil .
Quã1 é, com precis~o, o caso contempladso pelo artigo 45.` do Código
CiVA e pêl-oprimeiro período do artigo 85,.' do Crôdigo -de P1-oce~',So?
É o das pessoas que não têm estabilidade, que ,se deslocam, cÁmstante-
mente, que não Ikin poiso certo,
0 aritigh 4 ,5,.o do Código Civil tem de dombinar-sle com o artigo 43 .o
Quaúdo o cidadão tem diveráas m«adas. onde vive alternadamenhe, é claro
que a sua reáidência em qualquer delas não é permanente ; mas é fora de
i
dúvilda que o artigu 45 .o ~ião vtga este caso, polis que parí ele existe a
i~-_gi,a -do artigo 43 .o Temos, Vois, de dar à ekpm~ «re.-~i)dêiicia perma-
nente», empregada no artigo 45,', um s\entido que não ponha o preceito
deste artigo em conflito com o do artigo q14er dizer, ~)emios <I3 , inter-

pretar 'a f~e *que não tiver re~iIdêwiap~rm&nente» ne~ t;exmo~g : que
não tiver qualquer i~eàIdên;di'a fixa, ou malt simplesmente, que: -não tiver
residência, Visbo que o conceitoi de residência já de si pressupõe estabili-
dalde e fixidez.
Se anaNsarmos os facths da vida rejal, ve1~ificamo3 que o homem
pode encoiÂiIax-~se numadestass três rélações com o territóAo :
a) Estar imtabélecido e assente num deiterminado luga!r-- ter só uma
residência ;
b) Viver com. cjei~ta estabilidade e fixidez em dois ou mais lugares
ter ~is do que uma residência ;
c) Não parar em. parte alguma, andar sempre de terra, em terra
-não ter residéncia .
A priméira L%ftixação (uma 96 r~daidênc'ia) - está regu`lada, no artigo, 41 .o
do Códágb Civil, a que clorresponde o coT~b do artigb 8W 4,co Código de
Próc~ E ,ssa re~idência única é o domicílio voluntário ; . e é aí que - a
p~ deve ser d~ndlada; a não ser que esteja su)eiba £L domicílio
ne-~ário, n~oi3 terinos dús artigos 47,1 e seguIntos &> CM!igo Cá-%d1 .
A seguhda sitúação (várias residências) ~ no artigo
. prelvista 43 .'
do Côdio Clivil, a que corresponde o 2 .o peTíodo do § 1 . 1 -do artigo, &5 .o do
Cóidlgb de Proco,~.
A terceira situação (nenhuma 14esidência) é a que o artiko, 45 .' do
Código Civil - quer ôonteinplaT ; corresponde-lhe o 1 .' pleríodi, d3 § 1 .' do
artígo 85 .1 do Código de Processo . É o caso das pesWolas nómades, como os
bu~arinhéIros, os saltimbancós,, os cigauos, os judeus errantes numa palavra .
Capítulo III-Da competência interna 24:9

Mortara refere-oe esppeeiWmehte ao caso dos caixeiros viajantes e do,


pios!~I 'de circulação das empresas & transpoftes ferroviárióis e marítimos .
É de parecer que, ig-- não tiverem família constituída ou um outilo centro
de int~ssê~s qua passa conísiàerar~se domicí`lio, devem ter--se k-jomo, à)mi-
ciliados na casa comercial ou na -sede da empresa a que prestam serviço,
CommentaKo del Codice, vol . 2 .', pág. 226, nota.
Pelo que reIspeiffia aio pemoal da tripulação de navios de comércio ou
de barco~,~í costeiros, o § único do artigo 52 .o do Codigõ Civil marda~lhes
domicilio necessário nas povoações a que pertencerem os navios ou
barcos, se por outra causa não tiverem domicílio difi--re?nte ; quanto ãcs
caixeiros viajantes e ao peswall!da felircúllação das empresais dê transportEs
terileâres, não há, que eu súiha, preceito legal que lhes atribua dxn~icíli.o
neceqsário. Os caixeiros vilajanteg, nã~o podendo considerar~Se, abrangidos
pelo artigo '50 .1 do C6digh Civíl, estão ~sujeitols às regras gerais do àonii-
cílio voluntário, e o mesmo se dá 'em relação ao pessoal circulante das
compaxfflias de caminhos de ferro . Ou têm unia residênc [a habitual -a que
rêcdlhem nos intervalos do serviço, como geralmente Isuce!d'2, e neste caso
é ,aí o seu domicílio ; ou n-~o têm, e então caem sob o domínio do artigo 4 5) ."
do Código Civil, podendo serdemandadiosno lugar em que ~se encontrarem

3) Incertez-a de pessoa ou de lugar . Esta hipótese nãÓ está pT~--veni'd.


no Código Civil ; previne-a o"§ 2 .' do (artigo 85 .' 'db Côdigo de Pror-'esi .~>K) .
Se o réu é ~sha inoerta ou pessoa certa mas ausente (," parte ilncerklít,
é claro, que não pode tomiar-9e em consideração nem o &du, domicílio nem
a ~ residência à data da proposiçã~o da causa. TrataTéd-ose de pessi3as
incertas,
' está naturalmente indicado que iao juízo do domicílio do réu se
su~ua o juizo do domicílio do autox ; tratandb-se de augente em parte
incertá, oforecem-g8 duas soluções, : a) ou latenidler a~o último domicílio
conhecido dib réu ; b) ou <~on'siderar competente o tribunal do domicílIo do
autor . A 1 .« solução é a do 'diréitó iauãtr~o-gerTnânico ; a 2 .' é a do direito
italiano edo direito português . M", parau curadoriá, provisória ou defi.-
nitiva, dos beús ido auiâefnte (arbs. 1107 .' e 1503 .0) o tribunal COmpetente é
o do úq~timo domicífio que h au~& t~ em Portugal.

4) Domicílio e -residência em país estrangeiro . É a matéria do § 3 .0


do artigo 85 .' 0 tribunal competente 'é : o do lugar em que o r&u se
encontrar ; nião se en~contrando, em território português, o do~ domicílib do
autor ; quandoeãte domicílio gejia em pais ês~trangeiro, o tribunal ,de Li19boa
Já tivemos engeio de acentuar quea dispo§ição ,do § 3 . do artigio 85 .'
nada tem que ver com o< problema da competência internacional : -é unia
regr~a de c~mipetênci~a territorial interna, que supõe, portanito, rosbIvU3,
ajuele ~lema. À aplicação dJa regra do § 3 .' Ub artigo 85,0 s6 se chegá
dlep'(Y~s de se- apurãr que a jurisdição portuguesa é' comp-tente para a
causa .
Por outro lado, é fora [de düvidia queo preceito ,db parágT~afo , só aetú;3.
no domínio da regra enuii-cíada no cúrpo do artigo . Quer ffizer, o, paTã-
gi4aTo pressupõe que, àoé o ponto de vista da compêtência territoriãa
25 0 Livro II --Da comJ>etência e das garantias da imparcialidade

~nherrIna, a acçãky está sujeita a)o foro do domicilio do réu, porque n~em se
ti" de ic~ pr"isto nos artigos 73 .' a 84.*, nem ~se trata de claso pro-
visto em dli~ição especial . Do ~dira que :
a) AveT~guIou~se que para a causa são competentes, ãob à ponto de
vÍ~sta intel~~ídnal, os bÍbunails portugueses ;
b) Averiguou-se posteriormente . que, dentre os tribunais portugueses
de &terminada espéci12 e categorila, é competente o tribunal cio, domicílio
do -réu.
Só ~is de feitas estas úVaIs averiguações é que pode entrar em
cena o § 3 .' do artigo 85.1
Assente que a acção pode 'ser -submetida à jurisdição portuguesa e
asísente que o tiü-bun,&1 competente, sob o ponto & vi~sta territorial, é o do
domIcílio do réu, suponhamos que vem -a apurar-se que o réu tem o dhmi
cffio eni país esti~aJngeirb . Este fwto põe imediatam~ o geguinibe prop
b%n-~a : em que circunseriçãb judicial há-de s~er pro"ta a acçãO?
É ~)a que ~o § 3.o do ia~rtig*o .85 .o enti4A, em função . 0 parágrafo,
considera weessivamente compet~, :
a) 0 tribunal, da residêncIh 'db réu ;
b) 0 tribunol db lugar em que o réu se encontrar ;
C) 0 trilyinal do domícíl'io db autor ;
d) 0 tribunal de Usboa .
Di~os que est~es tribunailá são suceswivamente com~ntes, porque
ao tribunal idéâignaido na alínea b) só se recorre quandb, não , p~
ree,armr-se ao da ~aflínèu a), por sL-r ~ país estrangeiro a residência do
réu ; aü deÈTgiiadb na alínea c) s6 se recorre q.uãndb nãb p~ rocorrer-se
ao da alínea anterior, plor o réu não se encontrar em tt~iT~tóT)~cp português ;
ab desiknádb na alinead) só oe recorre quando não po~ recorreT~ske ao
da alí~ c), por o autk: r "tar domIciliadô no e§trange" .
0 dbmIcílio do réu, além factor determinativo da {,ompetência
territooi~íal intei-na (art. 85 .0), é também, e por issh mieismo, factbr atributivo,
de competência ~ntern£wioft&, atiento o di~spasto, na alínêa a) doartigo 65 .' ;
e tanto numa como na outra esfera de compétência d dbmicílio piodE~ ser
áu'bAirtuído por outros 'factoires. Mas há que !distinguir cuida&isamente
o domínio ínteinaciünal úo domínib 'interno, porque ia kmbstituição
do Ómnicílib ni% se opera ek"mk-.Jnte da mêmm maneiria nos dois
donúnios.
Na esfera da compe~ncia internacional o domicílio do réu só pode
ser substituidk> :
a) Pela resiüènc.ila idio réu ~em Portugal há mais deselià meses ;
b) Pelo facto Ide o réu se encontrar acidentalmente êni território
português e ter ~traído a obr~gação com um português (art. 65 .0, § 1 .1) .
De maneira que, ti~a,~inIdo,sIede acção sujeita, à regia üecompdtência
tei~ritúrIa1 do artigo 85,. ,, -os tribunaàs p~D,rtugluoe~~ só terão côm~ncia
~nacional* por- aplicação da alínfá a) do artigo 65 .o :
1) ge o réu tiver o domicílio em Portugal ;
2) S~e, tdndo o &ytnicí1% no estrangeiro, réãidir em Portugá1 há mais
de " m~s ;
Capítulo III- Da competência interna 251

Se, '3) temdb o dbniicílio -e a rmidência no éstrange" tu residindo


em Portugal há menos tempo dia que o indicWdio na ia,linLoa ant«~ior, se
encontrar em Plortugal à dIata da proposição da acção e tiver contraídIo
com um poi*~uguêg a obrigação, Ue que a causa emerge.
A , alíneá a) ido artigo 65,% nasua enbr&eIna4o com o artigo 85f, não
opera, -além dos lânites que acabamos de marúar. Quer dizer, na r~,-
lução do problema da competência i -nternac~ibnãl não pode 'invocar-se o
§ 3 . 1 -do -artigo 95 , .1 , com<) já se invocou no acórdão -da Relação de Lisbo&
da 16 de Janeiro de 1943 (Rev . de Leg ., ano, 76 .', pág . 158)! ; o ldbmicílio do
réu, quando seja o fa~cWr ati~ibutÍ`vo da competência b.~aclonal, pode
ger substituído pelarésidência do réu há mais de 6 meses e pela presenoa
acidental db TeU em terilibóhio po~rtug~uês conjuga-da com « circunstânciu de
a obrigação ter sido, ~traffia com um português, miasnã1o pode -ser subs~
tituído pélo üomicíllo doautôr n~em pelo tribunal de Usboa .
Dêpõi~s de se re~.ohl~-,r o problema de completência . iht~--rnacibnal no,
sentido de que a jbrisclUção poTtuguo~~a é competente e ao ter de s~Dlu-
clbnarr-se o ~I" de competêncla territorial iinte-rna, é que o, § 3 .1 do
artilgo 85 .* pode heir aplicação.
têm competência
Se os tribunais poTtugueises internacional por vir-
tuUè da ~alíTú--u a) db artigo 65f, uma de du" :
a) Ou a têm, porque wa truta & acção a que é apheávell qualquer-
d~os .preceit~>.9 particulares de comp~nt~a territorial Idos artigos 73 .o a 84 .o
ou de p~i~os,siimlilà~ e~shabel'ecÍdos em disposições esp" .ihib ;
b) Ou a têm, pbIrqúe se tr~wta dê acção sujeta à regra do artigo 85.o
No 1 .' c~ nãohiaveTá oca~sião & aplileiar,* o § 3 .1 dia artigo 815 .1 Se-
a juriodIção põrtugu~esa é ~p~e, por ser a#licável à acção quWqiier
dos p~itospayticulares dos artigos 73 .' a 84 .*, é claro que, ao chega~-se
à sK~lüçãio do problema & clompetência terr'iitoiriffi ínterna, o preceito, a
observar é jIustamenUe aqwele que determinou a êo~nip~--têric'ia internacíonal,
isto é, algum dos artigos 73 .o a 84,.o
No 2 .o caso também não haver~á lugar a apilicar ia 2 .' e a 3 .' paxte do
§ 3 .' db artigo 05,', pela razão simplès Ide que, se os tribunais portu-
gue~e« sibo conip~" sob o ponto de vista intérnae- on!a1 1 é porque o
réu tem ei domicí-l% èm Poirtugal, ou resid~-- aqui há mais de seis mesE~s,
ou a,,- e~útra cem ter*t6rio ~guês lilo mom,~ dia proposição

CHega,-Áse u§sim à donélusão segura dê que, postoo o problema da


com~^rbci,a internacionial, só quand~o -eÉse problema jçeJ~a ~vido no
senti6 da ~~ndia " tribunails poituguésios por aplicação dlas .aj.í,
neas b), c) e .d) do artigo 65 .o é que ao chegar-se à solução, do problema
da compe~a ternitoxiM interna, ~;&mn ter aplicação a 2 .' e ia 3 . á parte
do § 3 .* do aa~Ugo 85 .0

Pessoas oolectivas . Quaúdb 'o r~éú seja uma ~a ou um corpo


coMetivo, há quie d$.stftrigui~ :
a) Ou «e trata db E~ ;
b) Ou se trata de <~, ~ outro corpo cobectivó .
252 Livro Il -Da competência e das garantias da imparcialidade

Trab"do-~ú & EIstadb, o tiribunal compétente paira a acção é o do


çbmicí,ho ido autor (§ 4 .') . Nãto, era eÁsta a riegria de ebimpletênclila do Código
de 1876 ; pelo artigo 19 .11 deste Códígo, o Estado dievita s(eIr dim-~a;iidhdo na
circunscrição m. que i~e Itivews!e c~A1ebria)dJo o ach> jurí~dléo ou houvesse
ocorrido o faictô em que a 4eaus~a r~e fu~ssie-.
Enten8euse que não iera ú~ mãnter eísita -d~outr~i-na. 0 lugar Ida cele-
:
bração do &cto jurldiço, se bem relevância na esfera da competAne ia inter~
da~cl~onal (art. GS. o, alínha b» , nãochinta. plara ielf44tos ~dã compei~ênciia terl- :i-
toriiial, como Ige vê pela análise dois artigos 73 .' a 84.' ; não àwia, por issIci,
siar tomado em ~§ideaiaçãio is6 polô fEucto de sL-r réu o Esbado ; o lugar
onde haja ocorrido o facto é factor dieterminativo de minp.etência ter!ri-t-a-
Ido
r~al nios termos lila 2 .` alínda, artigo 74 .`, quer o rISU i§eia, irmã p&ssoa
física, quie~r uma pesso-a juriMicia, incluído o Estadb . Não havia motivo sério,
paria récoirffi)ecer iniaior influêni ~ao lugarda prúticia do facto quando o réu
s~-j1a o Estaldo .
ser
0 probllenl!a põé-;se nestes teirmos : quando a wção dIeva proposta
no juízo do domicílio do réu, por não ser aplicável nenhum dois, preceitas
particul,ares contidos nús artigos 73 .' a 94 . 1 ou em disposições eispec-iai,s,
qual o tribun(al competeintei !§e o réu far o Estalo?
A primeira ideia que corre é esta : deve adoptar-,se para o Estado
doutrina idêntica à que se adopta para as outras pessoas jurídicas. Este
critéri~D ~duziria a ideclarar compe)tente o tribunal de Li~a,
Go~h e piorltanto da Administraç4o principal dio Estado .
Eista soQução seria IdemiaIsiiado pkenúsa e -Nolienta paria queiin tivess;Ie
de demandar o E;9hado. Embora o acito ou fácto de que 'a e ausa ieiniergi61sle
}io~uviesise sidio, pratibaído por um funcionário> lloc , wl, a -grande dist&ncia da
ciaipital, o "tor teiriía sempm de propor (a acção -em Lisboa . Poderia, pen-
slar-sie elin. levar mais lcngie ia equiparação do EWtaldo àls «utras, pe~as
cúli~ poindo as a&inin£striações loic!ais no inesmo pé ~em quie ie~stãq as
Éru~àais, agências filiais " UlelegaçãPis, da,3 sc)èiedades~ ; mas isto 1dàva
lugar a complicações e ei-nbaxaç(ys porquie- tinha Como cicmi3equência lógica
~rem. cons~deÉar-se os funcíonáriois: locais como partes legítimas para
se~ deimandâdm ~em nome, do Ustado.
A sidIução, d:> proNema de eompidtôncia terriitorial clu"db o réu sseja
o Esdtúdo iositá naÁurialm~e ligada à »olução Ido pr6bliemada i~ep.,i-êl~açãb
do EsItIado ~ juizo . Quem representa o Estado ~ aC~õe13 pTüpostias por
ele ou contra ele'?
0 arbigio 21 .' ri~nde : o magisítriado dó Min(istério Públic-c, que fun-
e~r jutto do tribunIal ciempietente paiá ia causa . DIaq~í se ~ê que ao
Estado é Êndifereinte, no ponto de vista da faÁ-, ilidade e ciomodidade da
d~, que a acção conítria ele -cowT~a na comarca A ou na comarda B : qual-
quer que seja a comarca, as suas possibilidades de defesa -são &empre, as
mesrimis, ,~istb qVe em toda a -parte te~m um inagi,9traldb do Ministério
Público à sua disposição.
Pare~, pioí~s, ila"vel inverter aqui o prinicípio ger~al .' Em vez de
ser o autoT a ,seguir o floro ido réu (actor sequitur fo~ rei), é o réu que
,está sujeito iao foro do autor .
Capítulo III- Da competêneia interna 2,53'

Quazidó o réu seja outro quaRquer coVpb colimtivo, o tTib~unal comPe-


tente é o da sede da administriação principal ou o -d~a da sucursa .[,
agênck, fillãl ou dW~ãk), e"fo ,i,~nie a acçãb for dirigida contra aquIcIa
ou éontu~-a alguma destas.
0 § único do a~rtigo 41 .' do Código Civill aiz-no~s que com relação às
corlx>.raçõels ou aâsociações, a sede da ~sua aú~n'inisti-ação subst!Ítui a resi-
dân6a- Quer dizer, o domicílio divil das corporações, ou, h~3,soúaçõe& é a
qWe da sua administração. Daí ar!egra de competência do § 4 .' do ai~igo 85 .`
0 Código & 76 doberminava, no artigo 18.', que -os rúrpús oolectàvors
foEI~ d~~ldhdo6 no juizo oindia estil~se a wd :~ da sua -a,dmini .5t1, ação ;
e o § 1 .* acTescentava : o ju'ízo do domicílio dassucursais, agências ou esta-
b~imentos fMais da qualquer b~w, s-ocied&de ou c~panhia é compe-
t~ para conhecer dias cauis~ ~tra eles intehIWd~as, quaindo disserem
respeito a contratos c4Aebrados ou úbr'~gaçõe!s contraídas, pelas mesmas
súéursa~N ãontiWs ou ~be%N--~to~,-; filiãis. Ne-âa disposição confun-
diame a qule~ & competência eom a questão de legibimidaíI,~ ou &
perãconélidade jVdiciá~ria. A, c@iT~é~tncia de a acçãoÕeTivar de contratos,
ceMbrados ou oblrig~açõbs contraMIaj3, não pela r~é, mas pelá, administração
prIm~ipaã ou por outra sucursal, agên~c!a ou filial, devia ~~-~onduzír lógica-
men'te à ilegitimidade da, r~~, e não à incompetência do tribunal .
Se a acção é'dirigildã dIire&am~e~-te c'ontra a sucursal, agência ou filiaj,
é elwm que o tribunai coin1.etente para 51a é o da'sede idia ré ; que a CaUSZL
emanio de " olu facto priaticado pela sulcursal, agência ou filial deman
dada ou de- -acto ou facto praticado por outra entidad~e, nada, tem isso que
ver coim a ~~ de competência do triilbu-naA . D~esdP que a acção esteja
sujeita à vegra de -c<»n~n ,cáa territÁnIal formulada no , ai -tigo 85~' e seja
realmente inW~dJa no tribunal'do domi-ci^liodasucurisal, agência ou fil~al,
que é o tribunal 'dá sua âede, :não pãd~e alegar~sn que o tr'ibuna'l ~é íncom-
peffienbe ; -se porventuira a acção procede de aot~> ou facto pi!aticado, não
pela ré, mw3 p~--la ãd~úiniát-ração p1~in;c!pal ou por -sucursal, agência ou
filW diversa Ida 'demahdlàda, o que sucede é que a ré ear~Dce de pemona-
fida& judiciária, como se verffiba, p~51o ailtigo 7 .' 0 que há então -a fazer,
por parte da -ré, é deduzir a excepção m~encibn-adla ria alínea c) 'dc,
artigo 499 ., e aião a exco-pçãb a que se refere a -alínea f) do, m~o a~ .
Há qwe atender, . porÉm, ao que sb dispõe no § údico dIG artágo, 7.`
e nh § 4~, do artigo 86.1 a respekü de sucursais, agênri~ais, filliais ou de14---
gaç5es, ~be14~cidas em Portugal, de ~so" colectivas e~st,rang,&iras,
0 § úT~icb do artigo 7.~I Mf z-nos quia as, sucurs«is, wgênciãs, fí-láai~s. ou
de4egações poldem demandar e ser demandadas,'ainda que a acção derive
ide actto ou Tacto praticado ipela alchni,nistr-ação principal, uma vez que a.
obrigação 'tenha sMb ~~raíúiâ clom um português ; o § 4 .` do artigo 85 .'
declara que a acção contra pêssoais COlerItiVas estrangeir& ; pode ser pro-
poata no tri~l da ~'d!a sucursal, agência, filial ou delegação estabele-
ckk em Portugal,aindã quo seja pedidá a citação da a~dinínist -,ração principal
Pode parwck, pri~ facie, que há 'desarmonia entrê os doi(s. textos :
no § únioo do -a-itigo 7 .' ex40-se, que a obrigação tenha si& conitralIda com.
25 4 Livro II- Da competência e das garantia.R da imparcialidade

um poituguês, ao passo que no § 4 .() Ido iaritigh 85 ." não se lê tal exigênciu .
Mas, bem consideradas as coisas, verifiba-se que não há re-menté de~sar-
mo,nia. As iduEs &sposi~~ têm um domínio die aplicação diferente . Uma
resolve o prxyl)lemla ida personial`iidade judiciária, outra o problem-a da
competência dio tribunal sob o aspecto territoilm1 . Fazendo, funcionar
cada um ~dos pÉecieitos dentro da sua esfera de acção, apura-sei o seguinte :
a) 0 acto ou facto de que a causa emerge foi praticado, pela achni-
nistração pritcípal e, praticand", ~umiu ela -uma obr~gac-10 para com
- um português, Neste caso a acção pode ser proposta directamente cQn~
tra qualquer -sucursal, agên~cía ou filial existente em Portugil e -poid ;e
requerer-âd ia citação Ido representaInte da, sucuilsal, agência ou filial
demandada . Pooto que a causa deri've de acto práti~cãdo, pela administra,
ção principal, ia eirk~unotânoia dê a obrigação ter sidb contraída com um
português faz queasucursa!l, agênIcia ou filial adquira personalidade judi-
ciárila para figurar ~ r`é ma acção, que terá de ~ pro~a no tribunal
da' sodie da sucursal, agência ou filial- dbmandiada .
b) 0 acito ou facto foi praticado pela admiTástração principal e em
virtude ~deIea pessoa colectiva estrangeira fic(>uc~onstitul'da ,em obrigação
para = allguém que não é cidadão poituguês nem ~soa colecfiva
portuguesa. A acção díést~n&da a exigir o cumprime-niti6 da olyrigação. pode
.ser propoista em tribunais portugueàes, desde que a obrligação devesse
ser cumprida iem Portugal'(art . 6 15 .% aÀ . a) combí~nàdia com o art. 74.*), ou
derive ]de adto ou %~ praticado em território português (art . 65 .% al. b»,
ou w, trate de acção Isujei!ta à regra geral do artigo 85.' e a pessoa colectiva
est~igeira, tlânha em Portugal álgunia sucursal, agência, filial ou delegação
(art . 65 . 1 , § 2.1), ou se verifiquem os ciasos excepcionaiW das a~ín~ c) e d)
idoi artigo 165 . 1
assim
ResidIVido 6 problema Ida competência internacional, segu~
reisoliver o proíblema da piersonalidãde jud!íciária (contra quem. há-de sier
prd~ a iacOLo) , e o PrIÓIAema, dia competência terrPhorrial interna (em que
comarca &ve ser i~tada a ~Reção) .
ida personalidade
O,Problem~a judiciáriatem de resõlVer~oa em confor-
midáde com o art~igoi 7 .o e § único . Visto que a obrigação foi. contraída
com um ~angeiro, a acção tem de i3ei~ IdirigMà contra a prSpria pb~
colectivia ; ainda que ela tenha em Piortugal agência, eucursal, filial ou
ddiegação, não poidem ~ ~ger demainIdadas, nem pode ser citado para ia
a~, Coitnoi representante da peswa colectiva, o d'irlector ou. gerente da
sucur`sal, a~:ia, filial, ou deq<~ga~çã~o.
Quianth ao problema 'da competência territo~Êial, unia de, duas :
1) Ou w. trata de a~ ~sujefta a ~quer dà9 dispiosições; psAi-
-cUla;res idos artigos 73 .1 a 841 . 1 ;
2) Ou de a~cçãb sujeita â regra geral Idio artigo 85, 1
No 1 .' agiso o tribunal competente é o desi~ piália respwfiva
disposição . No 2.* ~ há que distinguir : a) a pessoa colectiva estran-
geira bem em Piortugtail agênda, ,sucursal, delegação ou, Tifial ; b) não tiem
em Poirtugal <;tWalqUer espécie de representação . Na 1.' hir~ o tri-
bunal competente é o da bedie de qualquer sucursal, agência, ètc.. (art. 85.o,
Capítulo III- Da competência interna 255

§ 4 .') ; na 2 .*, obgOrva-se o disposto na 2 .' e'3,1 pai-te db § 3 .' db artigb 845 . 1 :
o tribunal comp~te é o % ldwnic~liio do autor e se est;e domicílio for
em país estr4ãnXeir~o, o de Lisboia .
Para o efeilto da aplicação do § 4 . 1 do artigo 85.' é absolu~eii-t~e
indifer4ente que o corpo co-ledUvo, tenha ou não ptOrsonalidadie judiciária,
que esteju ou não lega)Imente constftuído . Desr],e que se dernandã um
colipo ecyle~_-tivo e ia aci~ãc, se , acha sujeita à regra -do artigo 85 .', o tribunal
clompetente é o da ge& dIa administração, ai-ncia qu% por falta die- con~sti-
tuição legafi, esta a~Tlistração seja meramk-nt,,~ de facto.
0 altigo, 19 .<I Ido Código itáliâno di%põe~ na 2 . 1 parIte : «para efeitos de
conipetência, as w,>c'icctaides sem per sonal idade jurídica, -as ~ciações não
reconhecidas e os agrupamentos (co-rnitati) de que se fala nos artigos 36, . 0
e 6«Faintes de Códligh Civil, têm a ~mde no lugar ern. qu~e,, ~volveTk~m
continua~~e ~a mia ~"ivi~e» . A noissa lei não inser~- Idisposiç&>
aernelh«nte ; ~de moda que tem die adaptar-se ao caso o dispostú no § 4.' do,
artigo 85 .' E a a~dlaptação dá o seguinte re,sultadb : o corpo colecitivc:,
posto que não tenha ~persona~l'idade jurídica nem esteja Uegalmente consti-
tuído, háide 'ter, de fa--to, um órgão de cornandb ; o lugar em que, e,5~e
órgão funcimar é, para os efeitois da competência, o lugar dia se~dIe da
administração. ,

Potd,e perguhtar-se scie ta regra & competência do a,rt~go 85 ." é apli-


cável aos iproces~ de juriskiição voluntária .
A r=ã~o da dúvida é que nestes processos não há rigorbsamente, reu~
nem há um litígio i>rópriamente, dito .
Mas n&o p(>dè acimiUr-se, em princípio, que -ao requerente seja -líciLl;o
dirigir-~ ao tribu~ que lhe aprouper . Tanto isto 'é exacto, que num
grande número de proce~s de jur~í.sdição voluntária a lei revelou a preo
capação 6e fixar o tribunâ1 competente . Exemplos : ~artigos 1452 :`, 145<>.',
1457.% 1458 .', 1460 .', 146W, 1466 .o, 1 1470 . 1 , 149.0 . 1 , § único, 1502 ." e 1503 .'
cMnbiniadot3 com a alineia a) Ido artigio 83 .o e com o § 2 .' do axtigo, 85.',
1511 .' combinudo ebm o Ui~r`tigb 84 .0, 1,519 .', 1527f, 1528 .", § único, 1542.o,
1546 .% 1555 .o 1556 .o, 1559 '
De modo que a que~ de competência só se pó< , em relação aos
processos íde jurisdlção vdlúmtária pam os quaiís o Código não Úesigriou
expressa e especiabn<~nite o tribun&l a que devem ser submetidos, cmrio
sucede Tffils ~is dos artighs 1477 .*, 1480 .0 , 1488. 1 , 1490 .1, 1500 . 0 , 1507 . 1,
EN23 .' e 4eguinites quandb se não verifique o c~ pi~evi~ no § único do
artigo 11527 .1 , 1528 .o quar~db não haja inventário, 1531f, 1531 6 .% 11538 .o, 1539,*,
1550.', 1:553 .' e 1660.o
Párece-nos que a e~ ciasos deve ser aplicaUa a regra , do artigo. 85.0,
sempre -que o poiwa ser, ~ é, sempre que o processo, admita op~jsiç~»
de determiriãdia pessba -e esta haja dêser c:i~eada para ,a deduzir. Em tais
o~s o citando ~ a posição pr-3cessual 'de réu, pelo que hem perfeito
ca,bb~to o princípio fôrmuladb nu a14tigo 85~ ,
É o que se p~a no caso de suprimento de consentimento, que
&verá ser requerido no triburral dIo domicílio do recusante (art . 1477 .o) ou
236 Livro II- Da eompetência e au« garantias da imparcia2idad( ,

de quem o repr'es~ntav (art . 14 ,78 .'» ; no c~die alienação ou emprazamento


de bens dIo(tais, que deve sei- pédida no tribun-al do, dionii~cílio -do conjuge
reensante ou do seu representante, quando se verificar o caso previsto
rio ~iltàn'o períod,) do artigo 148G .", e no tribuxial do donri;cflio -da maior
pai-te das pessoas que têm ; de ser ouvidas, nos termos, do, artigo 1481 .%
quando o outio cônjuge der o seu consentimento ; jio caso de, arrendianin'nto
judicial do quinhão -ju de bens comuns, que i,-erá de ser Yequ2rido, no
tribunal dz) ,do-micíl,i~o do citando ou da maior parie dos citandos (ai-ts . 1507.'
i~ 1, 510 .') ; nos casos Mlativos , ao exercício dabestamentaAa, quando não haja
~nventário (arts. 1523 ." e segs .), devendo- o requerimento ser apresentadD
.no tribunal do domicíllio das pessoas a ouvir ; rio caso de venda de bens
piedo testamenteiro (art. 152$ .') ; no caso & inquéritos judiciais, que hão-de
ge, requeridüs no tribunal da sede da sociedade (art . 1531 .') ; nos casos de
,-,Gnvo~ciação de reuniõeIs e ass;eTnUe lias de sócios (art. 1,538 .'), exame da
escrituração (art, 155V), in~vestidura em cargos sociais (art. 1,553.*), que
devem ser iIequerido~s no juízo da sedie da sociÍ ~e&ade ; no mso, de ffiesti-
tuiçâo de a~dminist,radhr (art . 153!6 .`), que há-~de ser ped~ilda no txibunul do
(lornicíUo do axguddio, etc.
A regra 8a a.r'tigo 8!5.11 não pode funciorrial- em c'a~sos em qUe o pro-
cesso não é dirIgido, directamente contra deteiininadas pessiouiiq, isto é,
- não têm de ser ouvidos 'ou citados ceTteos interessaldlvs, cvM~ por exempIb
nos casos des aitigos 1472 .o (divórcio e separação por mútuo consenti-
mento), 1490 ." (convocação do conselho de famíl[a), 1500 . 1 (verificação da
gravidez), 1,539 ." (11édução do capital social), 1'560. 1 (n~-ação de consigna-
tário) . Então o processü será natui4alinente promovido no ti, ibpnal do
lugar do ~domicj'l'io, residênciu ou sede do requerente e no C~ do
artigo 1560 .' no tribunal do Ilugar da f!ntrega das fazendas.

ARTIGO 86 . 0

(Pluralidade de réus)

Havendo mais de uni réu na mesma causa, deverão todos


ser demandados no tribuna, 1 do domicílio do maior número . Se
for igual P número nos diferentes dornicílios, poderá o autor
escolher o de qualquer deles .
§ único . Cessa o di sposto neste artigo quando se cumu-
Iarern pedidos que estejam ' entre si numa relação de dependência .
Neste caso será competente para a acção o tribunal do domicílio
do réu coi .tra quem for deduzido o pedido do qual todos os
outros dependam .

A regra do corpo do artigo . é a reprodução do § 2.o do artigo 16 .o do


Código de 76. No caso -de pluralidade de réus com 'domicílios diferentes,
há que distinguir : a) ou a maioria dos réus se con~ra num determinado .
Capítsdo III- Da competência interna, '1!5 7

domicílio ; bJ ou é igual o número de réqs nos várío~a d»micílios . No


1 .' c~ A -acção tem de ser pix>posta no tribunal do domicílio do maior
número ; no 2 .*, o autor tem o dãreito de emolhe~r o tribunal de quaisquer
dos domicílios .
Não era aíssim Pelo nosso diTeito judiciário anterior (Nov . Ref. Jud .,
art . 17!kI, Nazaré, Elementos do Processo Civil, vol. 1.', § 179 .1 , pág. 131),
nem é esta e~ "uçã~ adoptada peloa Códigos estr:an~geiros, (Cód . francês,
art. 59 .', al . 2 .', lei espanhola, art. U.1, regra 2 .', al. 2 .' ; Cód . alenião .,
§ 3'5 ; -lei -austríaca, § 102, Cód . italiano, art. 33 . 1 , Cód . bTasileiro, art. 134.*,
§ 2 .') : dá-oe ao autor o direito de esc61.ha, mesmo quando, a maioria dos
réike! está domicRiada em determinada circunscrição .
A -aplicação do p~ito do corpo do artigo 86 .o p<)d3 suscitar algu-
mas dificuldades .
Suponhamos, em 1 .` lugar, que -há vários 'réus com domicílios diÈe-
rentes e que há um outT~) réu áuwnte em pai-te incerta . Par4 o efeito do
artigo 86.1 terá de tomar-se em consideração o rei~ ausente?
A questão já foi discutida nos tribunais . 0 Supremo Tribunal de
Justiça,em acó~'de 12 de Março ,de 1912 (Gaz . da Rel. de Lx .,~ 23 .o,
que
pág. 748), decidiu tãb havia que a~er ao a~nte. Na hipóte~se con~
creta propusera~ uma wçaO cont-j~a 4 réus, um domiciliado em Chaves,
outro em Braga, outro em Vila Nova de Famalicão e o quarto em parte
inceita, tendo sido em Chaves o seu último domicílio conhecido ; alegava-se
que o juizo competente era o 'de Chaves, por ser o domicílio de um dos
réus presentes e o último domicílio -do a~nte emparte incerta ; o Supremo
ent,en4eu que a acção podia ser propoísta, à escolha do autor, em Chavos,
em Braga ou em Vila Nova de Fampilicão, pois que não havia que toniar
em consideração o ultimo domicílio conhereido do ausente .
Isto pasoava-se amt« da alteração introduzida no artigo 16.o do Código
anter4or pela Decreth n .o 4 :618 . 0 § L- do artigo H . , do Código veabo,
segmndo a redacção dada por este decreto, dó mesmo ' meido que o § 2 .* do
aT,tigo 85 .0 do 0&digo actual, substituem ao jufzo & domicHio do réu o do
domicílio do autor, quandoaquele esteja ausente em p4rt,~ incerta. A ques-
tão apresenta^ pois, agora sob este aspecto : se o ausente for demandado
conju~ente com outros réus domiciliados em tribunai,9 diferentes,
4&verá tomar-se em conta, em substituição do doinicilio do ausente, o
4bmicílib db autor?
A, dorniciliado em Lisboa, demanda B, com domicílio, em Sintra, C,
com domicílio em Setúbal, e D, ausente em parte incerta . ; poderá a acção
ser pn)posta em Lisboa, ou só o poderá oer em Sintra ou em S~etúbe~l,
à ~,ha do autor?
Entendo que o ,autor só pode escolher, no caso figurado, entre Sintra
e Setúbal ; não pode escolher o. tribunal db seu próprio domicílio . 0 § 3 .0
do artigo 85.1 declara ~pe%nto o - tribunal do domicílio do autor pe,'!a 1

imposs%ibil~e que há -de propora acção no tribunal do domicílio do réu ;

é um ~o extremo. Recoi-r"e ao domicílio do autor por ser díesconhecido


o domicílio do réu . Mas se há réus cujo 'domicílio é conhecido, cessa a
razão de ser do § 3 .' do ar~igo 85 .' e nã~opode, por i~, aplitar-« este texto,
17 - CóDICIO DE PROCESSOI CIVIL
258 Livro II-- Da competência e das garantias da imparcialidade

De modo que para o efeito da aplicação da r-,gra, estabelecida na


artigo 86.1 não liá que atender aos réus ausentes em parte incerta, como
não há que atender aos -réus incertos ; só -se contam os réus certos com
do,mkíli<> em prarte certa.
Na mesma ordem de ideias, se entre os réus houver algum- ou alguns
nas elariffiçõeis prev~stas na 2,.« e 3.',parté do § 3.* do artigo 85 .`, não devem
ser tomados ,em consMeração, no funcionamento do aTtigb 8,6.~ 0 juízo do
domileflio do autor e o juízo de Lisboa são juízos a que se recorre em ú~timã
ex,t~i.da',&,-poi~ não sei~ ,possível%anç&r mão do juízo, do domic11% do réu ;
não há, portanto, que tomá-los ~em conta quando a competênicia pode assen-
tár sobre o d(>m~i<!íliodb réu, isto é, quando há réus dbmi~ciliwdoser.n Partugal .
Não suceck o mesmo quando algum dos réus, p~ que i14miciliadú
em país estrangeiro, reside em Portugal há muito ou pouco tempb ou se
encontra acident&lmente em território português à data da proposição da
acção. Em tal caso o flactor «.residência> ou o fa~ «pm3ença acidental»
subvt,itui inteiramente, para efeitos de competência, o factor *domicílio:,
como se vê pelas; §§ 1.0 e -3 .0 do artigo 85 .o Quar£dõ no. &rtigb W., sq fala
em do-micílio, do réu, e claro que'esta designação tem dê entender-se em
conf~dade com o artigo 8& 1 : abrange o domicílio própriamente diith e
as ouitras modalidades que, na falta 'de domicílio, exprimem onexo do, 'réu
co(m o território, isto é, a residência e a presença acideríta-l.
Gutr~a dificuldiade que pode surgir na execução do airtigo 86 .1 é'rel-a-
tiva ao caso de ~, e!ntre os -iMua, incapazes representadúà pela m~C3ma
~soa. Propõe-ige, por exempIb, uma acção contra um indivíduo, capaz
d<xmicil-iado em Coimbi~a e contra dois menores representados por seu
piai, que teim o domicílio na Lousã. Poderá a acção ser proposta, ~ Coim-
bra ou nia Lousã â escolha db -autor, ou terá de ser proposta -na Lousã?
À primeira 'vista tudo se reduz a averiguar se, na hipótese, há dois
réus na Louaã ou só~1te um, o que equivale a dizer se n30 UCçõeS C9ntra,
incapazes por menoridade ou donência, o verdadeiro . réu é o -.[Twapaz ou
o ~ representante. Temos como certo que, -em face do àsposto nos
artigos 5.o e ~iintes, o réu é o próprio incapaz e não o seu pai ou tutor.
Parece, pois, que no caso proposto a acção teria de ser intentada na
Lousã, por estar aí a maioria -dos réus. E, foi esta a solução que defendi
no Processo ord"rio (2 .' ed ., -pág . 679, nota) .
M~as, réfil&tindo sobre a quegt", reconheço que podê com bons
É
argumientos, wmten~ar-.se solução diversa. certo que fo~,Imente há
dois iléus na Lougã e um em Coimbra; mas com<? os dúda réu3: da Lousã
são represerita&os pela mesma pessoa, tudo devê passar-se como s~- aí
estivesse idomicilia&o um único réu. Atenda-se a que os menores e inter-
ditos têm por dbmicí1% o do pai ou tutor (C'ód. Civ., ". 47 .1 e 48.`) e a
que a citação oe :faz na pessoa do representante, e -não na pessoa do menor
ou do inter&th por dk"ência, saIvó o cash de o m~enloT ter mai13 kle 14 anos,
o
cago e~m que se eita ~bén menor (art . 13 .') .
Finialmente há a hipótese de a acçãk> ser proposta contia maridio
e mulheT e outixw réus. Põe-s~e a questão : para os efeitog do ., artigo 86 .'
marido e mulher contam como dois ~rêus ou como um só?
Capitulo III-Da competência interna 26 1)

Nenhuma dificuldade se 'levanta quando o marido e a mulher estão


separados judiciãlmente, &z- pessoas e bens. Então não pode haver dúvida
de que ~stituem -dois réus disrtintos.
Mas se a comunhão conjugal subsiste de direito, qu(w os , cônjuget,
vivam juntos, quer estej4im, -separados de facto, as opiniões divergeni .
Na jurisprudência dos tribunais notam-se três correntes :
a) 'Segundo uns, marido e mulher va lem sempre como doíls réus
disti,rÉbs, salvo quando a lei expressamente determine o contrário , (ac . do
S . T . J .de 28-10 .1-921, Rev. Just., ano 6 .', pág . 250, Gaz., ano 3W, pág. 222) :
b) Segun:db outros, marido e mulher contam como iléus di~-tintos
quàndo têm interesses diferenciadoa, poosto que hairmónicus (acs. doi S . T . r .
de 12~11 .  901, 28-8.*-903, 24-4 .1-904e 7-5 .o~909, lur. Trib ., ano 6 .o, pág . 456,
Col . Of ., 1903 -a 19N, pálgs . 74 e 291, Gaz ., ano 23 .o, pág.510) ;
c) Para outros, finalmente, marido emulher formam sempre umúnicx)
réu, Igalvo ~se os gevs interesses forem antagón,icos. É a jurisprudência
donií,n~aade (acs. do S . T . J . 'de 2" . o -903, 19-12 .o-911, 12-3 . o_912, 22-11 .o~9!21,
25-7.'-¥2, 6-11f-1923, Jur . Trib ., ano 9~. 0 , pág. 32, Rev . Trib ., ano 30 .',
pág . 292, Gaz ., ano 25 .% pág . 738, ano 36 .o, pág . 30~9, Rev. Leg ., ano 54 .":,
271, ano 55 .o, pág. 1114, Gaz ., anú 37U, pág . 318) .
A minha posição doutrinal é a geguinibe : m.aridbi e mulher constituéir.
u m único réu, quando um deles é citado sómente para legalizar a situação
pr~ssualdo outro ; há então uma parte litigantee uma parte Imbilitante,
que se fundem (Proc . ord~nário, 2 .' ed., págs.-36~e~680, nota, Rev. Leg .,
ano 152 .o, pág. 183) ; nos outros casas mar~dk> e mulher devem considerar-sE
réus dliatintos, tanto mai~s. que a mulh er, sendo i-é, po .d~e tomarno processo
uma atituidê diversa dâ do marído (Rev. de Leg ., ano 7W, pág. 20) .
Trans~ando esta doutrina para o campo legal, vem. o seguinte :
a) ise os do~s eõnjuges sALo denrandados em obediência ao disposto nos
n . 1 * 1 .' e 2 .' do, arlt . 19, .', devem clontar-se como dois iiéus diferentes ;
b) oe são chamadoa à cairás. paradar satisfação ao preceitodo n .o 3 .o do
mesmo artigo, ~eÚder-ise-á que constituem um único réu .

0 § único mandIa c~essar o pTecléito do artigo quando s~e cumularem


pedidos qu~e eistdjam. entre si numa, relação de dependência e 'atribui, eni
tal casio, competência lab ~~iburraI do domicílio do réu contra quem for
deduzido o pedido do quial ~»dos os outros dependam .
Este parágrafo cori"pc>nde ao artigo 17 .1 do G6digo anteribr, qu .~
estava &sgim redigidó :
«Cumulando-se no mesmo p1~&cesso mais de um pedido, contra diver-
sas pessoas, nos termos db artigo 6 .*, § únko, a competência será deter-
miffiada pêlodornicílíc, do réu contra quem for,dêduzido o pedido princ~ipal .~>
A referência , " § único do artigo 6 .' mareava, ~ toda a preci&qo,
o alcance da regra de competência formulada noartigo, 17 .1 0 § único do,
artigo 6 .' permitín que oe deduzisse, ckmjuntamenté e no mesnio ~esso,
main de um pedicb conitra dIiv~_-rsas pessoas, nos termoIs do~ artigo 5 .1 ,
quando um dos pedid" fosse consequência do outro. De modo que o
artigo 17.' 06 :se aplicava quando se verificassem cumulativamente três
260 Livro Ii -Dá competência e 4as garantias da imparciaU4~ade

requisi" : 1 .' haver vários réuis ; 2 .' forr.aulareni-Be vários p~ ;


3 .* cumulareffn,-ae üs pedidos por uni ou al-gun~B dães a~ -~sequência
de «~ .
Um C~1p110 . P.]~Op"e dontra vários réw9 uma acção em que se
cumulam dois pedidos : o de anulação dum testamento ou duma &oação, e
lo da en~rega N" bens deixados, legados ou doadoe. É clario que, destes
dóis pedidos, e da entrega dos bens é consequencia. natural e necessáTia
do da anulação ; anulado o testamento ou -a doação, o herdeiro legítimo ou
o dolador -tem o'&,reitodê ~Itamar a entrega dos bens dá hêrança ou dos
b~ dbadoe.
Iniagffie-se agora que o herdeiro t\-stamentáiiio, domiciliado em
Aveiro, tinha vendidb os bens a três pe~as-, dOMICiliadea em O!-iveiT<a
& Azemeis ; o herdèiTb legititn~o queria demaridar os quatir» interd~dx)a ;
em que tribumd havia de propor a acção?
0 artigo 17.o do C"go de 76 mandava propê~la em Aveíro, Juizo do
domicílio do T<,, u contra queIn era &düzich o pe&db principal (anulação
do -tesUTnento) .
É ~~aniente a mesma ia doutrina do § úni£3o do -artigb 86 .1 e deverá,
portanto, ser a m~ a soluÇão a adloptar hoje, em casos, wxacl%~ ao
que aca13amios de figuráT. G preceito do § ún'ico do artâgb 86 .* está niani,-
fástamente, em correlação -dom a parte final do corpo do artigo 29 .0
0 ,artigo 29 .' permitea coligação de réus em dois caaw :
Lo Quando a causa de pedir seja a meem, aí -e única ;
2 .* Quandb os ~" estejam entre 91 numà relaçâ~o de ~n-
dên)âa . É coni este caso quê se re~acfona u regra 4 comp~cia db
§ únicoÉ do artigo 86.1 ; a fórmula legal é a mo~a' .noa " ItLextos .
fáciI, Fois, determinar o âmbito db pr---k-elbo do § ~inica em con-
fronto e=h o do corpo do, artigo. A disposição do corpo dü &rtigo ébns-
t~tui a regra de competência a ap -ficar em todos os c~ de- pluTalidadíc
de réus, exceptuado o de coligação fundada na relação '& 'dependência
entre os pedüidos ; a diapasição do § único constitui o preceito de compe-
tência a aplicax no cãw especiá1 dIe váribs réus serern demandados por
pedildoe que estão entre ai numa Mação de'dependén~cia.
Quer dãzer, -a regra do corpo do artigo -aplilda-E~-- :
1 .* Avis ca-sos de simples plurialidadeUIe r~&ks ; '
2 .o Aos casos de coligaçdo 4 réu,9 justificada pda circunstância de
os pedidos deiriva-rem da mesma e única causa de pedir (azt . 29.% .1 . 1 parte) ;
3.o Abs clasas de coligação de réus ju-.stifi~c~~a pela cire~Ancia dé
a priocedência dos pédidky9 p4heipeÁs depender essenclalmente da apre-
dos
ciação meNEwws factos ou da interpiletaÇâo e aplicaçãk> dho m~na8
regras de direito ou de cláusulas de dontrátos, perfeitamentie análogas

P«r «simlj4es pluralídadê» de réus querej~ designar a hi~ de


o pedido ser só um, mea dirigido contra vários réus (unidade- des obrigação
own pluxal~e de sujei" pasisivos) . Tíc~o emprestou a Semprónio,
20 co~ ; morre Sempróffio sem ter pago a dívida, dWxaMb três herdei-
~ ; Tício quer, Idernandar os '"s h~erdéi*is paila pedir o pag-wnwnto. Se
Capítulo III- Da competência interna 26 1

ao caso não for iaplicável. o preceáto dia artigo 74 .0, a acção, terá de ser pro-
powta no ~ribunà'I do lugar em que cativei-«M domiefliadbe doia ó* her-
deiros, ~e -se cada um dedes tiver dhmicílio, diferente, no tribunal de qual-
quer dos domAios, à ~offia do autxxr.
Quando haja cumuloção de pedidos contra várias ~as, ~nios
em pre~ça Ida figura de <Vligação de réus ; e então ~ainda a regra do
coTpo do wrtigõ &6,', fie a ~eoligaçã)o, tom pbr fundIamento ou jusitificação
a 1.' paírte Ido sitio 29.` ou o artigo 30 .*
Para o domíniõ do § únko 'do artigo 86.1 fica, portanto, sómente a
hi~m previalha ma 2.a parIbe do artigo 29 .0 : coligação de réus devida à
êiTeumUncia díe oe pedidos ~rem eiitre si numa relaçãó de dIeq~dênx-~a .
Já «kemPfificámoo ~aesp-écie. 0 p~,~o do parágrafoi tem pretísamentuei o
mesmo ~Edeancie que tinha, no CMigo de 76, o preceito db artigo 17 .o ; p~,
sup% a forwaçã1o de " ou mais pWdidos liga~d!os entre à po>r um n'L-Ko
de prejudicial~ ou dependência. Há um pedido-causa e um pedido-co-n-
sequência, ou um pedido principal e um pedidb subordinado ; para o efeito
da ~rmihação dó tribunal c~pethrité aV"dfe-se sómente ao dW~a"i-io
do pedildo-cau» ou ~% 1>edlifdb pr~wip«l : o destinatário do pedido-canse-
quência ou dú peldido, subordinâdo não conta.
Fà~te se vislumbra a razão do precéito contído no parágrafo .
Visbo que a procedência do pedk%-eonoequência, ou melhor, dó pedido
subordinado é um corolário %gBco, e necessário da procedência ido pedi,d;o
pKricipal, bem wa compreende que e~3*m seja posto, em ~eírb plaho, ou
por outras palávrwq, quese atenda, para efeitósi de competência t&rritorkI,
réu
únidamén~e aio domicílib do contra. quem for dedüzi~i~> o pdffib-causa.
0 que verdadeiramente importa é o pedIdo, principal ; o que interessa.
proteger é a dèfesa do seu dleatinatárib ; é Ióg~IIcb, pois, que oeja o dbmi-
cílío d~ destinatário que comande a competência territorial.
Pode ha'ver nedosL,
do ~ídãd~e de coordenar o preceito do propostaparágrafo com
a regra do corpo artigo. Suponha-se que a acção é contra
seis réus, alendo três os d'estin&tá,r~oq do pedido principal e os outros três
os deatinatários do pedido !subordinado ; estes têm o seu dúmicílio em gan-
tarém ; &>s primeiros três, dois estão domi~ciliados em Lisboa e o outro
em Vila Franca & Xi:ra. Qual é o tribunal coffipetent~~'.,
Por força do § úàio,> do artigo-86.% há que exclu:iT a comarca de Sãm-
tarém, posto que ~já aí o maior nü~mero de rém ; visto que se trata. de
~inatários Ido peffidb suborditadb, o seu dbmicílio, não conta. Ficam
em ~'Po ~entea emarca de Lisbft e a de Vila Franca ; é a primeira
a c~p~te, por virtude -da regra do corpo do artigo, uma vez que
nela ~está ~ie~,liadla a mai«ria dos réus contra quem é dirigido o pedido
prínciOM .
Na vigência do 06digo die 76 rilem sempre se fez aplicação cor~ta
da , di~siçã1o de compeWência do artigo 17.', a que corresponde hoje o
§ úriico :do artigo 86 .1
Algune CXelnplos'de ca~ concTetbs-.
Um credbr propôs iimaa«á<> de dív;ida contra 4 réus, dois residentes
no Porto e os outros dk~is em Estarreja ; sucedi~L que os réus, d)o Pouto
26 2 Livro II-- Da empetência e das garantias da imparciaiidade

eram demanIdados na qualidade de deve~dores principais e os de Estarreja


na qualídade de fiadores ; levantou-se -a q~ão de sabler se, a acção tinha
de
é ser proposta nIo Porto ou podia ser proposta Tio Porto ou eni Estarreja,
escolha do autor. 0 Supremo Tr`ibunal de Ju.,.sti~~a decãdiu qw& o juízo,
e,oni~nthe eila, pôr força do artigo 17 .', o db Port~D, por ser aí o domi-
cílio dos réus coútra os quais era deduzido o pedido principal (vL-ja-se
a Rev. de Leg., ano '59.1, pága . 61 e 62) .
Mas em c!asb sem'elhánte o SupT~eino, a Mação de Cvimbra e a . Ma-
çko do Po*b enhend~ que a acção tanto podia -ser proposta no tribu-
nal db dmã$Úlilo dos devedores principais corno nbdb dlomicílio dos fia6>reis
~acs . db S. T. J. de 6-11.'_923 e 31-10 .*-924, Gaz., ano 37 .o, pág. 318, Rev.
de, Leg .,anh57.1, pág. 251 ; a~c. da Rêl.db Porto ,de 9J5f-924, Rev. dos Trib .,
ano 43.1, pág, 9, jw . dá Rel. de Coimbra -de 4-1.922, Gaz, -ano 36 .', pág. 379)'.
Parece-nos fora de tdúvida que esta segui~dia soluçãb é a exactÊL, -tanto
em faice db Código velho como em face do C&ligo n~ovo. 0 texto , a apli-
car à hipótese, é o corpo do artigo 86 .o, e não o seu § único. Porquê?
Pela razão simples e dedisiVa de quese trata de um ciaso de m-,mplKs plu~
ralidade de réus e Tião de um caso de coligação de réus por pedidb~si inteT-
~àe~dentes ; o pe&do é só um : o pagamento d~a dívilda. Pouco importa,
pdis, para os effitoL9 da competência territórial, que a respt~n:sabilid'ade
" d~bres Deja principal e a dog fiadories subsidiária. D<%de que
o pedido é um só não há Iugar àap~li, ciaç .ão,do § úr~ico,dc). ,ai-tigo 86 .'
Outro ca&,.' Propô~ uma acção de pPeferência corri base no
artigo 1516'6 .1 do Código CiVil ; dêrnandou-se o vendedor e o compradbr,
em juízos dhferentos ; discutiu-se se ao caso era aplicável
o § 2.' do artigo 16 .o do Código ante,14ior, correspOndiente ao corpo do
a~ 86 .o do C~>digo actual, se o artigo 17 .o daquele Código, cior~pon-
dente ao § únib)i do artigo 86." ; a Relação do Porto, -em acórdão de 31
de Março de 1925 (Gaz, anb 39~', pág. 40), julgou aplicável o artigo 17 .<'
e decidiu que o trilyunaJ1 ~~nte era o do dornicílio do coiriprador.
0 tribunal rar*cinou assim : o artigo 17 .` deve apli'ear-~sc não só à
Iripótese de cunitilação, de pedidos contra váríos réus, mas ainda àhipótese
de se formular um. único pedido e de o destinatário -dele s--r apenas um
dm réus. Na acçã1o dê pr~ef1erência o pedidlo é um só : o de rE~ivir~dic!ação
do p~ ; e é Jir~ig~dIo e=tr& o adqVirente ;- logo, quando se demãnd"
conjuntamente o vei~r e o clompradow, a acção deve sier prOposta, no
tribunal :do domicílio deate.
Não pode a<~eitar-s~e a doutrina dbacór-dão . A conclusáb não se con-
tém nas premissas. Se o ~ido era um só e dírigido ànicamente contra
o adquirente, a conisequência lógka era que devia considirar-se, o vende
dor parte ilegítima, por não ter interesse em contradizer. Em vez de con-
dluir pêlIa ilegitimídade do veúdêdo~r, o tribunal ~eluíu pela competên-
eis do foro do dbmicílio do
adquirente, com fundaÊ~to, no artigo 17 .o ;
ora este artigo pressupunha necessàriamente a , existência de dois'pedidos,
um principal e Dutio suborchriado, & ~e que o acórdãb, ELplicando~o
a um ~ em que entendia haver um único pedidb, fez uma aplicação
manifo~tam"te eTradã.
Capítulo III -Da compotência. interna 263

Março
0 Supremo Tribunal -de Justiça, em ac6rdão de 12 'de de 1922
(Gaz ., anb 05.', pág. 748), decidiu, e bem, que não havia lugar à aplicação
do affigo 17.' no cago de ~5e propor contra váriús ~ndiví,duos, acção de rees
cisão &un coontrato & empiâsltimo com hipoteca, pois- que o pedi~db é
um 96 . Aleg&ra~ no processo que, nos termos dü ,artigo 17 .*, a acção devia
ser proposta no juízo do domicílio do credor hipotocário, por seir o prin-
cip~ÉI i~ado.
0 § únà~cb do ailtigo H .0 é de aplicar ,ao caso de se investigar ia pater-
nidade ilegítima e pedir-s~-_, ao .m-esmo tempo, -a entrega da herança ; este
~do é *&_pkeff~dêncâh dalquêle, pek que a a~cçãb deve ser proposta no tri
bunial do &micíltio do r4u ou réus contra quem for deduzido o, primeiiro
pedido (acs . do S . T. J . de 12-7-0-904 e 19-5.. 0 -92'2, Gaz., ano 18~.', pág . 624,
ano W, Dág . 185) . È igu&1m4E~nte apHeável à hipótese -de numa acção se
po&k a i~"o, por simulação, do contrato de venda dúrn prédio, o can-
celamento do iegisto de transTfflssão e a reversão, a uina massa heredi-
táHa, dá coi~sa vendida (i~tença de 25-1 .*-904, ac . da Rel . do Portb
de 27-5 . 1-904, Rev . de Leg., tano 37 .0 , págs. 411, 4-29, 4,5, 8) . 0 pedIdo prin~ci-
pal é o da rescisão ; os oiitros dois ~estão para com ele - numa relação de
dependência. Portanto nãD há que atender ao domicílio -dos réus contra
quem forem dieduzidós ois dois pedidos subordinados ; pai~a o efeito da
c(ympetênci)a b ~cílio que conta é o do réu ou réus contra quem fo~
deduzido o pedido de rescisão.

ARTIGo 87 .0

(Regra de competência para o julgamento de recursos)

Os recursos devern ser interpostos para o tribunal a que está


hierárquicarne-nte subordinado aquele de que se recorre .

Man~-ft im~r os recursús para o tTibunal,,a que está hierà :L--


quíc=~ aubkxffillioJdb aqu4àO, 'de que se recorre .
,Con~rembs os kl~ que podeYn dar-se nbs tribunais ~&omuns (h)
continente e ilhas údjacentes.

a) . Recursos dos tribunais municipais para o tribunal de comarca .


Quabdb ~Oe T~rler dê umia decisão proferida por juiz municipaJ e o
rwurso deva a« interposto para o trib~"IáI de comarca, dentre os vários
juizos de dix~ é competente para conhecer dó rL-curoo aquele a que
o juiz munidipal recorrido está hiérârquícamente suboTidinado .
E qual, é ele?
No artigo 105 .o do Pki,~ primitIVa dizia~se : o~s recursos dL-V~. 4~«r
ir~postos para o tribunal a cuja circunscrição judicial pertence: o julgado
ou a domarda em que exerce funções o juiz - recárrido . Na Comissão
Rev110a1% oboervou~ : num julgadio p~ haver fregueàas qu,,- p~-_~çam
26 4 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade

a dotorminadoa comarca e outiws que pertençam - a comarca diferente ; em


tal caso -a qual dos juízes , de direito há-de subir o recursio?
Palia r~lver ~ düvilda o sr. Dr . Gôi~s propôs que se dio~
<a cuja eircunodr~çãb judicial pe~cer a sede do julodo» . A proposta foi
apilúvada (Acta n ., 7 da sessão de 194.937, pág. 43) . É exaCtamelite a
idèia que sie qais exprimir no artigo 87 .', não obstante -a diversida& de-
forma que o artigo ápresenta, confrontado com o artigo 105,<' do Proj<~cto .
Qu~o um julgado municipal compreenda fr~eguesias pfa-tencentes a
comarcas dífenn~es, c~ sucede com o de Montemor-o~Velho, em que há
f~~~la ~encentes à e=arca da Figueira da Foz, outras à comarca
de "mbm o (nitras à d~ Cantanhe&, riem por Isso. o juiz respectivo. está
~quicamente subordinado a mais do que iam juiz (de direi,to ; a subor-
dinaçãõ hierárquica ~é so6 a um : ao juiz de direito da coniarca a que
pertencer a s«~e do julgado (Estatuto Judiciário, art. 73 .') . Assini, o juiz
munic#>al kle NIonte~nor-o-VWho não está subordinado hierài-quicwnente
aos juizes de dlileitode Coimbra, Cantanhede e Figueira da Foz ; só o eutá
ao juiz da Figueira, por peiténcêr à comarca da Figue-ira a freguesia de
M~br-o-Velho ., ~ do julgado .
Portanto, seja qual for a freguesfia em que se localize a olemanda, das
deci~ db juâ :,, muhicipal 4 Montemói-o-Velho há--de recorrer~sê sempre
para o juízó dki ~to da Figuchia da Foz, quando o tribunal. ~np2ten'~e
piara o recurso oeia o de comarca (Rev . de Leg., ano 6.5 .", pág~3. 236 e 245,
ano 66.', pág. 53) .
S~hani»s, plorém, que -de uma decisão do tribunal municipal de,
Montemor-o-Velho s~e ~orre, não para o tribunal da c lomarca -ia Fiiigueira,
mas para o tribunal -da comarca ide CoimbrIa ou pai la o da, comarca de
Souxe ; quê incompatêndila se comete em tal caso?
Poderia parecer que a incompetência é al)soluta, por infiUcção, duma
r~egra de competência em razão da hierarquia (art. 101 .o) ; mas o que na
rdalida& oe Infj~ingfu. foi oa~tigb 87.0 -e este attigo formula uma régila de
comp~cía em razão do . território, de sorte quea incompetência é relativa
(art. 108.*) . Esta doutrina ficou expreesgamente acentu~adia na Comissão
ReViadra . 0 Authr do P1~ojecto, re~ferindIó-se -ao ártigo, 105. 1 , coorrespon-
denhe ao artigo 87.', expl&ou: no Côdigo de Processo Civil (de 1876) não
exis% preceith semelliante ; a infracção dá regra agora e~belecida cons-
tituirá uma inc'o~ência rel-altiva (Acta n . , ', i r pág. 43) .

Há p~sog que & juizo muhiocipo~l sobem ao juíz3 & diréito, ~


ser em coni~n6a. de recurso : sobem pelo, fácto ~de a ~petência do
t~I niunicipal, sor limitada a uma cei~ta fase da acção .
Na vigênefla db Dec~ n .* 19 :900, de 18 de Junho 4 1931, sueedlia, isto
nas acções, nas exe(~uçõcs e nos inventários ; a cMnpetéticia, do, juiz rhurii-
pipal era ~,ita à fWs~_- da prepoamç4 do processo . 0 actilal Estatuto
Judi~9o (Ne . n . , 33 :347, de 23-2 .'-944) modificou pi~ófundsmente à situa-
pão
m qu)e ~peita ãs, acções pr~èpri)amente ditas é âs e»cu~õè& ; fitimãs
e TibutMê 'a compeUncía db tríbunãl municipal, até . ao válor déi* 6.000$00, é
plena : abrange a prepaftção -e o julgar~to, i~ é, estende-jE;Èt a tódos . os
Capítulo III - Da co7npetê?zcia interRa 26.53

actos do pl~mo (Estatuto,, art . 76 .`, -alínea a), n ." 1 .' e W) . Mais rèl&tlva-
mente ~ inventários subsiste Ia limitação funcional : o juiz municipal inter-
vêm em todb9 os acto~s e termoEi do ~nvontário quando o valor deste não
exceda 6 .000$00 (art . 76 . 1 , alíriela a), n,' U) ; se excedêr 6 .000$00, o inven-
tárib corre no tribunal municipal até ao fim da licitação, devendo em
àeguida ser rerneitido ao respectivo tribunal U-a comarca para seguir aí os
temos ulteriores (art. Mo, § 2 .1) .
SuiIg~e, por ~imo, a qu~ qual é o alcance do termo respectivo?
A que tribunal ae comamL há-&- subir o procei39o paia ser ooimpletado?
kqui ilão tem aolleaç~io o «itigo 87 . 1 do CUigo, porque mão se trata
de redu~ a interpor de decisão do juiz municipal . A fr!a»-- «respectivo
tribunal dia ~arca> deve in~ietar-~se -neste sentido - tribunal da cornarca
que for c&m-petente para o inve~ntárib. Pretende~ conipletax uni inventário
qu~e ~ iprotessado aè~tt£ até à ficitação ; deve Oompbetá-lb o tr-ibunal
da comarca em cuja eircuii.~scidçãb !haja ocorrido o facto determÍnativ~o da
compotência, isto é, o tribunal Ida comarca da abertura -da herança (art. 77:, ,
n.* 1 .?) .
Assim, suponhaimos que a herança se abriu na ireguesia dê Tentúgal,
por ser aí o d~omiêíld!o do finado. 0 inveritár4o corre no julgadõ m"i<,~,~pel
dq Mont~mnxxr-~>,Wlho, a qit~é -a freguesia ~~e Tentúgal pertence, até esta;r
concluída a licitação ; em segtuáda o prbceaw terá de sei- neemetidb pam
o ti-ijbunÊU da ebni-ama de- (,,oi2nbra, visto que a fr~egu~eâfa de Tenltúgal está
compreendida na Arca ida <bmarca. de Coimbra.
esteja oubordi-
Não imp" que o julgado municipal de Montemor
n~ado à ~arca dá Figuéira da Foz ; a subordinação tein relevântia para
o efeito dos recursos, não a tem para o efeito do § 2. 1 d5 artigo 76 .o do
E~th . É quê irão é a título de tr4bun~alhieràrquitamen~te superior ou de
tribimai de 2 . 1 imffincia que io tribunal de ~rea. intervém, é a títudo de,
tribu~ de 1 . 1 in~wtância, pods que o proce~ de inventário ainda não está
o
concluW Ikgido é, porta~, qui- processo oej-a remetido ao tribuxiàl
de e~roa que itérila competêncliá paíra todos os aethe db inventário se
não exiWtiam o tri!buriall municI~paI, o que equivale a dizer , ao tr4ibunál de
Comíarca em cuja área se tenha ab~ a 'herança .
A fT~ <ao reopettivo tribunIal de e=arca> do § 2 . 0 do artigo 76 .1
do E~Uto tem ee~eitbe o mesmo sentildo que a fi~ «pelo juiz de
d~o da, ~bdtáva doniaj~ca>, quê , se lê no § 3 .' do nicâno -artigo ; ora é
evídente que por jui2 de ci~reitb da l"Vectiva doirvarca se quia ~gnar
o juiz Uo d-iMto da conrama &ompetente para a , acção, i~BtD é, da comarca
em que sê IbeMItá o facto ~ .*ninELtivo da c=petência .
To~os ~ pàra ~Mo o julgadb de Monternor-o-Velho nas
suat reIa~ões cam " cw=~cas dá Figueira, de Ooirribra e de Cantanhwk .
,%~,wnos que m quer propor uma , acção. de procom surn" sujeita
do
ao forum rei oítae (aTt . 78 . 1) ou ao foro do &~micIlio i%u (ait. 85.*) ;
o vailor da ac4ão não excéde 6 .000$00 ; oÉ bens de- que se trata no 1.1 ca~O
," tit~ rio julgãdo õe Monter~- ou é aí que, no 2 .1 caw, está
d=icíliado, o réu ; o tfilbubal competente é, portanto, o . do julgado de
Hontemor.
26 6 Livro II--Da competência e da.,~ garantias da imparc~úidade

Mas o autor prefere propor a acção no tribunal de cornarea e tem


razões para crer que o réu não s,-'opü-r'á -a esise desvio de competência .
Em qual das comarem háJde intentar a acção : nade Coimbi4a, na de Clan-
tanhede ou na da Ffgueira?
A solução não pode deixar de s~r ia seguinte : naquela que sei-ia coni-
petente se nãó existissIe o tribunad muni~cipaI de Montenwr, o que significa
o mesmo que -- naqu~úa em,~cujà área estiverem -situado$ os bens, no eaw
de ser uplicável o artigo, 73.1, ou em qute o iêti tivêr dornicílio, no caso de
sei- apUeável o artigo 85 .`
Su~hamba que se trata de acção, de mivi~id'icação dum prédio
situadIo na freguesia d-, Verride ; como esta freguesia pertence à cíornarca
da Figueir~a da Foz, o juizo de U~roilto competenite para a acção seria o da
Figueliria (art. 73,'), c~ não h;ouves~ste o julgado de Montemor ; poi4tanto é
na Figueira que a acção pode a" proposta, ao abrigo -cio § 3.`do artigo 716 .1
.do E~tuto .
Imaginemos agora que se trata, de acção abrangida, pela regra do
artigo 85.' e que o réu está domiciliado da freguesia de Atazede, .perten ,
cente w julgado de Montemor e à comarca de Cantanhede ; o juáz de
diréibo da co~ma respectiva a que alude o § 3 . 1 do áltigb 7-13 . 1 seriã, na
~ãe, o juiz die dir4éfto de CiantanhfJdIe. Figum-se finalmente o c~ &
acção &stinada, a exigirffildemínização de perdais e danos em consequência
de facto ilícito ; o* facto ocorreu na friegues-ia die Pereira, pertencente: ao
julgado de Mo~or e à comárca de Coimbra ; ~h o triburía-I dompe-
tchibe é o do lugar onde o facto foi praticado (art . 74, 0 ), querendb fazer-se
uso da fàculdade conferidia plélb § 3 . 1 do a-itigo 76 .o a acção ter%a de- ser
proposta énó juízo; de direito de Coimbra .
Se e~ a Inte*pretação a dar à fórmula «pelo juiz de d~reito da
re~va ~axba.~>, emWegada nb %§ 3 .o do urtigo 76 .op ki~terp~ção
idên~ticIà d~ ser dada à fórmul~a «ao res~ivo txíbun£d dIa ~rea>,
eidai" no § Z,* do mesmo artigo. Num e noutrx) texto a!B palavraà «~
pectivo> e cres~iva» significam o mesmo que compete-nte para conhecèr
eim 1 .1 in~Icia.

b) Recursos dos tribunais mun~is para a Re4aç&o . Das decisõeis


dos tribuniaiw municípais -nem -seimpre o recu~rso tem die %ex, interposto
para o tribunb1 de ~aTea. 0 wtigo 77 .' do Estatuto, &pois de assinalar
que os juizes municipais não têm alçada, acrescenta :
«Das isuas ~Weú ~re-se para o juiz de direilho se a maféria do
recurso cabe na alçada d~ e parpa a Rellação erh caso don%rIãr~o.»
Sublinhãmos a frase «matéria do rec~irw>, po~ foi inserta para
i~ver urna dúvída levantada na vigência do artigo &o dIo Decreto
n .o 19 :900, Imibe do arrtigh 77 .* N" texto, em vez & se dizer «se a
mab"s kb reepiroo», ditilas,- : « :se a acçã-j» ; e esta fornia die dizer fez
surgir a E~eguimte dYivida : se a acção, pelo ~seu valor, estiver contida na
alçada do juiz de direito, mas o recurso ind-dir ~»bre queotão ou maú4ria
qú~e ex~a todm as «lçaU,^ há-~de recorrer~, para o juiz de direito ou
para a Relação?
Capituk? III - Da compet4ncia. interna 267

0 caso concieito, em volta do qui&1 se travou debate, apresentava-se


assim : propôs-se perante tribunal municipal acção de (l"pejo de prédio
urbano, a que se fixou valor não excedente a 6.000$00 ; o, jui?~ munícipal
de-c14etou o despejo ; pr~etende recorrer-lse desta sent~elnça ; o recurso deve
ser interposto para o tribunal de comarca ou para a Relação?
0 juiz de direitoda 2." vaia de Cbimbi-a, sr . Dr. Carnpas de Carvalho,
sustentava, com grande cialor e convicção, que o tribunal competente para
coi1he~cer do recurso epa o juízo de 'direito (Rev . de Leg., ano 75 .o, pág..405) .
Fundava-se em que unia acção de despejo de prédio urbano de valor rião
superior a G .000$00 c£Lbe na alçada ~do juiz de direito- e por era pa,11a
est~,, que o recurso devia ser interposto, em face da letra expressa do
artig3 '5.' do .Decreto ri ., 19 :900 .
Mas o Suprenio Tribunal de Justiça, em acórdãos de 4 de Dezembi.-o
de 194'2 e 19 'de Fevereiro dê 1943, decidIu que o tribunal ecanp2itente, para'
o recurso era a Relação ; e neste mesmo sentido se pronunciou a Revi.s~W
de Legislaç&) (ano 75 .", pág. 408) .
A razã<) & ser do texto legal con~duzia, na verdade, a L~sta SQlução.
Desde que o recurso diz respeito a uma decisão que, por força do artigo ..'
do Decreto n.' 10 :774, excede todas as alçadas, nada impoita que a acção,
pelo seu valor, estejIadentro da alçadado tribunal de coirarca ; esta alçada
não coúta no caso ,sujeitó, visto que, não Dbstanhe ela, o recurso a interpor
da sentença de despejo pode ir até ao Supremo.
Eis o que hoje . está elaramenté vincado no artigo 77 .' do Estatuto .
Pai~a o efeito de sabei, se o reculisb a interpor da decilsão db juiz muni-
cipal há-& serdirigido ao trlibunal de comarca ou à Relaçko atendie-se, rião
ao valor -da acção, mais ~ matéria do ilecurso . E assim, se o recurso teni
por objecto ou por fundamento alguma questãg superior às alçãdas, conio
a incomípetência absoluta do tribunal, a ofensa do caso julgado ~art. 678.'
do Cód. de Proc .) ou sobe -de ~gentença que haja decietado o deispejo de
prédio urbano (art, 5.o do Dec. n., 10 :774), o tribunal compe~ para

conhecer dele é a Relaç :>, postG que a acção, pelo seu valor, wteja den,
tro da alçada do tribuntal. 'de comarca .
De manêira, que hãc~-:d~e ser interpostos para a Relação :
1 .' Os recursos de àecisões proferidas pelos juízes municipais em
causas de valor superiar , a 6.000$OG. É o caso de estar a correr no tribunal
munícíp!al uni inventário de v41br exceden~tea 6.000$N, nos termos, do § 2.'
do artigo 76,1 ~do Estatuto, e pretender recorrer-se de qualquer despacho
do juiz ;
2.' Os recursos de decisões proferidas pelos juízes muniveipaís, em
causas de valor não ~excedente a 6 .000$00, quando o recuilso se dk-stine a
submeter ao tribunal 9upe~1hr uma questão que exceda todas as Êlçadias,
como a questão -de incompetência absoluta do tribunal, de ofensa de caso
julgado, de i1egal1dadE~ do dlespejo de prédio urbaino, etc.
A Relação para a qual o recur;s-9 deve sei, interpo.Oto é aqueda a que
o tribunal munícipal. estiver hieràrquièainente subordinado (art . 87 .1) ; não
pó& deikar de entênder-se que o ttibunal municipal está subordíriado à
Relação , em cujia área jurisdicíonal egtivei- compreendida ia s~eídé do~ julgado.
2q8 Lipro II--Dç& competéncia e das garantias da imparcialídade

c) Recursos dos tribunais de comarca para a Relação . Aqui não há


dificuldade em Jazer funcionar o aitigo 87.' ; o tribunal de comarca só
pode estar hieràrquicamente subordinado à Relação a cujo distrito, judi-
cial perteince

ARTIGO 88.0
(Acç~es em que seja-parte o juiz de direito, sua mulher-
ou descendente ou ascendente seu)

Para as acções em que for parte o juiz de direito, sua


m ilher, ou algum seu -ascendente ou descendente por consan-
guinidade e que :devessem ser propostas na comarca em que
esse juiz exerce jurisdição, será competente o trilbunal da
cornarca mais próxima, P,.ntendendo-se por comarça mais pró-
xima aquela cuja sede estiver a menor distância da sede da
outra comarca .
§ 1 .1 Se a acção for proposta na comarca em que serve
o juiz impedido de fu-ncionar ou se este for aí colocado estan . 00
já pendente a causa, será o processo rerinetido para a comarca
mais próxima, pôr iniciativa do juiz ou a requ-erimento das partes .
A remessa pode ser requerida em qualquer estado da causa até
à sentença .
,§ 2.0 0 juiz -da causa poderá ordenar e praticar na
comarca do juiz impedido todos os actos necessários ao anda-
mento e instrução do processo, como se fosse juiz dessa
comarca .
§ 3 .o 0 que fica disposto não tem aplicação nas comarcas
em que houveir mais de um juiz .

Veja-oe a anotação ao artigo imediato.

ARTIGO 89 .0
(Acçõe~q em que seja parte o juiz inferior, sua mulher
ou descendente ou ascendente seu)

Quando seja parte um juiz inferior, sua mulher, ou algum


seu ascen~dente ou descendente por consanguinidàde, serão pro-
postas no tribunal da respectiva comarca, ou serão para aí reme
tidas, nos termos do § 1 .1> do artigo anterior, as acções que,
Capítulo III- Da competência interna 269

segundo as regras -normais de competência, teriam de correr na


circunscrição em que sèrve esse juiz inferior.

ser
parte NOiS a~ 88.' e 89 .' P'Pevê-^ em -Pi~imtiro lugar, a. hipótese dici
na causa o jui~; da o~rca ou julgado em que a acIção teti!a de ser
prop~ segundo as i~egra!3 normais de competência ; e determioa~ que,
em tal caso, o %ribunal comp~e será :
a) 0 da ~Ica ma,1 9 , Prókima . se for pai-te o juiz de di&~eitQ,, enten-
dando-se por mmarca maio pr6xima aquêla cuja sede estiver a mênoi,
&otância da -sede da comarca em que o juiz, parte na causa, e_<eTee jurís-
dição ;
à) 0 darC8peCti'VaCDm~urca,i~e for pa.i~te um juiz infeirivr (juiz muni-
c~pal e náo colóni" também o juiz Popular) .
0 que se 'di)spãe para o o~ de ser parte o próprio juiz apIjea-se
twnbéan ao caso de ser pai% sua mulher, ou úlgum seu ~endente ou
dOscendente por consangizin~e . 0 tribunal normairnente ~cIompetente
sob o ponto de visba territorial &ixa de o ser ; a competência é atribuída
ou, ao tribunal d'a -coma^ nia~s práima (art. ã8,'), ou ao taibunW àEL
r~tiva emmit~a (art . 89 .1),
Convém ffríoxi~nwr o ifisposto nos artigos 88 .' e 89 .' do que se pires,-
elleve nos n . . . -L~~ e Zó do artigo 122 .~' e no -artigo 12 ,à,* 0 juiz ~a &~mpe-
di& de f~onar,dizem os n," 1 . 1 e 2 .1 do artigo 122,1, quando for parte,
na caMa, porsi. ou como reip~entante de outra pemoa, ou quandb estiver,
a respeito do objecto da c~au&a, na mesina situação em que se encontra
qualqwer das pãrtes, e quando ior parte na causa, por si ou como Tepre.
sen~ta(n% de ~m pe~la, o seu conjuge, &l-guin seu des-cendente, awen-
dente, irmão rou afim nos nilesmos graus .
A ~pawação &a ~extos paraílelos mostz-a que nos artigos &à.' e 99 .`
oe regul~ ciasos "rangidos pélos n .  1 .o e 2 . 9 do artigo 122 .' ; e mostra
tambâü qúe ~es numérois vão além do que está prevenido nosartigo& 88 ."
e 89 . 0 : e=,pr~dwn ea~ que estes artigos não alcançam .
Ca~ comunia a;os textos p~lêlos ; ser parte o pr , 6prio juiz, sua
algum
mulhkw, seu a%~,d~m~,,e ou dleslce~nd'ente par co.na~Ln-gu,inídacbc).
Ca" priVativos dos n . 1 .' e 2 .' do artigo 122 .' : ser parte o juiz
e=o repre~tante de outra peewa, estar o juiz, a respeito do objecto
d,a cau^ na mesina oituação em que -se Qncontra qualquer das parte~s, sex
p" o cônjuge, um ~~ ou ascendente como reprOsentante de
"tra pemoa, ser pa~te, por si ou como repi'Osentante, um ascendeute ou
cl«~~ pôr afimíídade, um irmão ou cunhado .
Eota verífiocação tem impoitância, porque a sanção do, impedimento
é diversa dá ~ção da incompetência : " passo que c13 artigos 88 .' e 89 .'
maWam propor a acção no tribunial competente ou remeter para aí o pro
od~, o "igo 123.o ordena que o juiz se declare impedido e passe ~a causa

ab substítutIo ou, nois tribunait superiúi,,.--a, -ao iknediàto .


A primeira, lição quê -se colhe do confronto, das disp; mições é esta :
o regime doEI artigos 88 . 1 e 89.* h'á-de ser aplicado única e simplesmente
270 Livro H- Da competêncía e das garantias da imparcialidade

aos casos aí prevenidos de modo expresso, não sendo lícito estendê-lo


aos outros casos abrangidos pêlos -n ." 1 .' e 2 .«> do artigo 122 .' Se o juiz
for parte, não por si, mas conig reprwentante de outra pessoa, se e~stiver,
.
a respdito db ,objecto da causa, ria meisma -sit