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Filósofo e Riqueza

Cristovam Buarque

Há décadas, George Soros é um dos homens mais ricos do mundo.


Uma vez o ouvi dizer que trocaria sua fortuna pelo privilégio de ser
considerado um grande filósofo.
Ao longo de sua vida, ele oscilou entre a reflexão de filósofo e a
especulação financeira, tendo mais sucesso na segunda, mas sem
desistir da primeira. Esta semana tive o privilégio de participar como
convidado e debatedor de suas palestras, como filósofo, na
Universidade do Leste Europeu, em Budapeste, na Hungria.
Soros começou explicando seu conceito de "reflexividade", pelo qual,
ao interferir no mundo, a economia e a política são incapazes de
captar a realidade do mundo como ele é.
Ao desmistificar a certeza dos economistas, Soros dá uma
contribuição, na filosofia do método, mas não filosofou sobre o
conceito de riqueza. Mais ainda do que as limitações metodológicas, a
economia precisa de mais filosofia para entender o seu objeto - a
riqueza em si -, e não apenas o método de como fazê-la crescer.
Se um filósofo grego clássico caminhasse pelas ruas de Nova York,
não veria ali qualquer sintoma de riqueza. Para ele, a riqueza estava
associada à disponibilidade de tempo livre e o seu uso para o
exercício da cultura.
Se um cidadão da Idade Média fizesse o mesmo percurso em Nova
York, ele também não veria riqueza, salvo na primeira igreja em que
entrasse, mesmo assim a acharia pobre.
O atual conceito de riqueza é pobre. Não resiste a uma análise
filosófica, que tente entender o seu significado: o que é a riqueza em
si. É certo que o grego e o medieval ficariam fascinados pelo avanço
da medicina, sem dúvida alguma um conceito íntimo de riqueza, mas
não com os automóveis que roubam o mais precioso de todos os
recursos: o tempo de vida de uma pessoa.
Mesmo ao se deslumbrar com a riqueza do avanço na esperança de
vida e na redução do sofrimento, uma pessoa da antiguidade ficaria
indignada com o privilégio que faz com que algumas pessoas vivam
mais e com menos dores do que outras, porque dispõem de dinheiro
para comprar vida e saúde.
Do ponto de vista moral, a riqueza atual não resistiria a uma análise
filosófica. Pena que os economistas não aceitem com tranquilidade a
ideia de incerteza, e, ao não tentar entender o que é riqueza, apenas
aceitam o seu conceito atual.
Se tentassem, perceberiam que o melhor indicador de riqueza ainda é
o grau de educação de cada pessoa e do conjunto das pessoas em
cada sociedade.
Primeiro, porque a educação é geradora da riqueza material que
caracteriza o imperfeito sistema econômico dos últimos duzentos
anos; segundo, porque é o instrumento de ascensão do patrimônio
material de cada pessoa; terceiro porque é o único elemento capaz
de distribuir bem a riqueza, qualquer que seja seu conceito.
Do ponto de vista filosófico, a pessoa educada é rica por ter
acumulado o "bem" conhecimento e, através dele, ter acesso aos
outros bens e serviços.
Finalmente, o conhecimento é a principal riqueza do futuro, porque é
o patrimônio que não fere a natureza, outro bem que os economistas
ainda não aprenderam a valorizar, pelo pavor que têm à filosofia.
Tudo isso mostra uma grande ironia da pobreza da economia, ainda
mais quando se descobre que um dos homens de mais sucesso no
século XX na construção de riqueza, usando a economia, deseja
sobretudo ser filósofo.

Para um economista, isso é uma contradição; para um filósofo, isso é


óbvio, porque ser filósofo é ser rico, mesmo que sem dinheiro.