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Tiragem: 57524 Pág: 14

País: Portugal Cores: Cor

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ID: 27028019 06-10-2009 Âmbito: Informação Geral Corte: 1 de 3

Entrevista Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra e presidente dos reitores

“Estado tem
que reformular
investimento no
ensino superior”
Depois de uma legislatura de aposta
na Ciência, é preciso redefinir o
superior. Seabra Santos pede mais
financiamento e uma rede melhor
atingir um certo patamar no PIB
Bárbara Wong
afecto ao ensino superior (dois por
a Na cerimónia de abertura do cento) e à investigação científica
novo ano lectivo na Universidade (três por cento). Em Portugal,
de Coimbra (UC), o reitor Fernando dificilmente se chegará a esses
Seabra Santos apresentou um valores sem comparticipação forte
caderno de encargos com seis da componente pública.
pontos que preocupam as O que propõe?
instituições de ensino superior. A Proponho que a política de
saber: o ordenamento da oferta financiamento seja completamente
educativa, a racionalização da revista, que se comece a pensar
rede de instituições, a política numa base plurianual, que
de financiamento, a clarificação se comece a complementar a
do conceito de autonomia, a atribuição por fórmula. Aquilo
revitalização do processo de a que temos assistido é a que
avaliação e a maior aproximação cada vez mais se transferem
entre sistema universitário e responsabilidades e se diminuem
científico. São seis pontos que as transferências orçamentais.
o próximo ministro deve ter em Foi este o pano de fundo nos
conta para revitalizar a área. O últimos cinco anos e mal seria
também presidente do Conselho se o presidente do CRUP não se
de Reitores das Universidades pronunciasse sobre esta matéria.
Portuguesas (CRUP) apela ao As propinas são uma das fontes
primeiro-ministro para que o de receita das instituições.
relacionamento entre tutela e Porque contesta o seu valor?
universidades melhore. Não tenho sido contrariado
O caderno de encargos
apresentado é consensual no seio
do CRUP?
Falei na qualidade de reitor da
UC. No CRUP, pode não haver
unanimidade em todos os
detalhes, mas estas matérias são
Para quem
consensuais.
A falta de financiamento argumenta que
continua a ser o principal
entrave ao desenvolvimento do o país não tem
superior?
É uma das seis preocupações. O recursos para
orçamento não é tudo, mas sem ele
não se faz nada e é um tema que investir no ensino
não se pode evitar discutir, porque
estamos a perder terreno em várias superior, eu digo
matérias, comparativamente a
outros países, porque não temos que enquanto o
acesso ao mesmo tipo de recursos.
Como, por exemplo?
Perdemos nos últimos cinco
país não investir no
anos 30 por cento do esforço
público de investimento no ensino
superior não terá
superior para funcionamento. Em
termos de percentagem do PIB,
recursos para coisa
essa redução é drástica, quando
assistimos a uma evolução inversa
nenhuma.
nos outros países e nos estamos
a afastar dos objectivos que os
ministros estabeleceram para
Tiragem: 57524 Pág: 15

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ID: 27028019 06-10-2009 Âmbito: Informação Geral Corte: 2 de 3


SERGIO AZENHA
quando digo que tem que haver de monopólio que é outorgado Aposta crescente na internacionalização
um equilíbrio entre o esforço da à AAAES. As instituições são
família e do Estado. Portugal está
no extremo, em que se exige mais
à família e menos ao Estado, pelo
obrigadas a acreditar os cursos
numa única agência e a pagar a
factura que ela lhes apresentar,
Universidades podem chegar
menos no contexto da Europa.
Não houve uma aposta do último
qualquer que seja o seu montante.
Não é um método que promova o
aonde a diplomacia não chega
Governo na acção social escolar? bom funcionamento da agência. Há
Mas são apoios extremamente leis que nos defendem de situações
insuficientes. Vejo as propinas e de monopólio e, no entanto, a A Universidade de Coimbra (UC) que representam 98 por cento dos
a acção social como um binómio. estamos a criar uma situação foi considerada, pelo terceiro ano programas de pós-graduação e 94
A acção social em Portugal, destas. Tem que ser corrigido. consecutivo, a melhor instituição por cento de todos os centros de
traduzida em bolsas, suporta O Governo diz que todos os nacional pelo Times Higher investigação credenciados no Brasil.
uma percentagem baixa da cursos estão a funcionar à luz de Education Supplement, assim como O que constato é que universidades
população escolar e com valores Bolonha. Confirma? ocupa uma excelente posição no como a UC têm capacidade para
que, na maior parte dos casos, No plano da produção de International Education Directory chegar aonde a diplomacia clássica
são extremamente insuficientes. legislação, o processo está of Colleges and Universities. E e política não chega. Espanha já
A OCDE reconhece que a adiantado, muito embora se quer continuar a apostar na compreendeu isto, o Brasil também
população portuguesa perde, devesse aproveitar Bolonha internacionalização. e estou em crer que o Governo
permanentemente e por razões de para, por exemplo, proceder ao Tem sido feita uma enorme português devia olhar para o
natureza económica, a expectativa ordenamento da oferta educativa, aposta na internacionalização. papel que as universidades podem
de ter os filhos no ensino superior. com vista a tornar mais legível e De que forma o Estado poderá constituir neste campo e apoiá-las.
A inteligência está em todos comparável o sistema. Mas uma apoiar? Porquê a aposta da UC na criação
os estratos sociais e o país tem coisa são as leis, outra é a reforma. A universidade portuguesa tem de vários centros de estudos
que conseguir ir buscá-la aonde Há um longo caminho a percorrer demonstrado uma capacidade sociais [CES]?
estiver. É isso que distingue um entre o legislador e a sala de aula. grande de se internacionalizar, Porque a UC é global. A actividade
país rico de um pobre. Para quem O que falta fazer? tirando partido da nossa língua, dos nossos grandes centros de
argumenta que o país não tem A nível legislativo, penso que procurando parceiros no campo investigação prende-se com o
recursos para investir no ensino “Tem que haver da lusofonia e na Europa. mundo global, não apenas com a
superior, eu digo que enquanto o mais regulação Compreende-se que a UC, pela cidade ou com o país. Portanto,
país não investir no superior não do sistema. Foi força da sua história e prestígio, tem o CES sentiu necessidade de criar
terá recursos para coisa nenhuma. muito prejudicial reforçado essa necessidade. Esta uma sede em Belo Horizonte,
Qual é a solução? estarmos cinco dá oportunidade de complementar Brasil, para apoiar os projectos
A solução passa por ter políticas de anos sem a formação e investigação, quer que tem desenvolvido com os
médio e longo prazo, compreender avaliação dos para estudantes, quer para investigadores da América Latina.
cursos”
que não há transformações de um professores, não apenas como O mesmo acontece em Maputo,
momento para o outro, investir na haverá que olhar novamente para a aferição e comparação das melhores Moçambique. Prevê-se igualmente
educação a todos os níveis. Isso organização dos graus. A estrutura práticas mas, sobretudo, como a um CES em Goa. A criação do CES
só estará ao nosso alcance se o montada em Portugal não resolve a possibilidade de manter uma agenda em Lisboa é a aproximação aos
Estado reformular a sua política de questão do 2.º ciclo, na medida em de diplomacia cultural autónoma. centros de decisão.
investimento no ensino superior. que atribui o nome de mestrado Como? Sente que Coimbra está muito
Só peço, nesta matéria, que nos àquilo que era antigamente a Posso dar alguns exemplos: a afastada de Lisboa?
aproximemos daquilo que os licenciatura e deixa em aberto a constituição de uma rede de bens Não. A distância está mais nas
outros países da Europa, com os formação dos antigos mestrados. mundiais de origem ou influência opções e orientações políticas dos
quais nos gostamos de comparar, As ordens profissionais têm tido portuguesa, em articulação vários Governos. Portugal está a
fazem. dúvidas relativamente aos graus. com a UNESCO e o Igespar. A tornar-se um país excessivamente
Os Cursos de Especialização Porque Bolonha diz que o 1.º ciclo participação da UC na Comunidade centralizado em Lisboa. É uma
Tecnológica e para Maiores de deve conduzir a um diploma com de Universidades do Mediterrâneo, política desastrosa em termos de
23 não são formas de trazer perspectivas profissionais e em cujos países, em alguns casos, equilíbrio nacional.
novos públicos e mais receitas ao cursos como os de Arquitectura, estão em situação de guerra, mas Com toda a experiência de
ensino superior? Medicina, Engenharia, Psicologia que por esta via encontram forma internacionalização já adquirida,
São, com certeza. São evoluções e Farmácia os 1.ºs ciclos não de desenvolver projectos comuns, a UC não está preparada para ser
positivas. São alternativas conduzem a diplomas com porque a ciência não tem fronteiras. uma fundação?
extremamente interessantes, empregabilidade. A criação do grupo de Coimbra Poderá estar, quando soubermos
embora haja perversidade na sua O Regime Jurídico das de universidades brasileiras, que exactamente o que é que isso
aplicação. É sabido que algumas Instituições de Ensino Superior engloba as 50 melhores instituições, significa.
instituições deixam entrar foi uma oportunidade perdida
estudantes sem condições para para reordenar a rede de
ingressar porque o financiamento instituições? Reitores pedem “um novo relacionamento”
decorre do número de alunos e, Espero que não, porque a reforma Relação com o Governo nem sempre foi fácil
infelizmente, algumas instituições não está completa. Constato com
não resistem. agrado que uma das preocupações
Quem é que deve intervir: a do partido que ganhou as eleições Como foi o relacionamento com de tentar montar um sistema
Inspecção-Geral do Ensino é a criação de consórcios entre o ministro? científico de qualidade sem fazer
Superior ou a Agência de instituições, o que denota vontade Houve altos e baixos. Houve o mesmo no universitário. Temos
Avaliação e Acreditação do de consolidar e de racionalizar a um patamar de relacionamento a percepção que uma coisa não
Ensino Superior (AAAES)? rede. institucional que ficou aquém pode ir sem a outra, que as duas
Tem que haver mais regulação do Algumas instituições deveriam daquilo que as universidades são componentes de uma mesma
sistema, aceitaria qualquer uma fechar? necessitam para poder realidade. Actualmente, os dois
das soluções. É preciso é que haja Não digo isso. Reporto-me ao que funcionar melhor. Há um novo sistemas estão separados por um
ou uma regulação a priori ou uma diz a OCDE, que no futuro vamos relacionamento que é preciso ministro comum.
avaliação a posteriori, com efeitos ter necessidade desta rede densa, construir. O novo ministro tem Recomendaria ao primeiro-
efectivos sobre quem desvirtua porque vamos ter que ter maior que se preocupar em olhar ministro a sua substituição?
as leis ou as não aplica. Foi acesso de estudantes ao ensino para as orientações que as Não. Recomendaria que se olhasse
muito prejudicial estarmos cinco superior. A questão é que agora, universidades sugerem como para as linhas de orientação que
anos sem avaliação dos cursos. em que ainda não temos essa fundamentais e restabelecer enunciámos e para a preocupação,
Desmantelou-se um sistema que capacidade de atracção de um clima de confiança. que deveria passar não só pelo
estava a funcionar, sem oferecer estudantes, não deveriam Mariano Gago foi mais nosso ministério mas por todo
alternativa. É preciso corrigi-lo o ser as instituições a ministro da Ciência o novo Governo, de acabar
mais rapidamente possível. suportar os encargos do que do Ensino com a crispação com todos os
As universidades estão desta rede, Superior? profissionais. As reformas não
descontentes porque têm que que é o Houve a se fazem sem os profissionais e
pagar a avaliação? que está a incongruência muito menos contra eles.
Não compreendemos o regime acontecer.

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