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SOCIOLOGIA: A IMPORTÂNCIA DOS CLÁSSICOS NO DESBRAVAMENTO DA CIÊNCIA

DA SOCIEDADE.
Prof. Fábio Fraga dos Santos

Introdução
Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando
precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da
experiência concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a
sociedade. (Florestan Fernandes)

Dentre as inúmeras descobertas e análises produzidas pelo pensamento social foram resultantes de
questionamentos que atravessaram, pelo menos, às seguintes questões:
• O que promove a vida social?
• Quais motivos de existir um pacto social?
• Sociedade ou indivíduo, quem prevalece na condução da história?
• Existe ser humano fora da condição social?

Diante dessas idéias atravessadas por um humanismo clássico que se pautam as origens de disciplinas
científicas diversas (sociologia, antropologia, ciências políticas, entre outros). Diante dessas abordagens é
que se estabelecem as bases das concepções que prevalecem contemporaneamente a respeito das relações
entre sociedade e indivíduo. Os indivíduos pactuam a vida em sociedade, mas esta não é, somente, uma
soma daqueles que a compõe, ou seja, é mais do que isso, é ela, em múltiplos sentidos, que dá origem ao
indivíduo. Dito de outra forma, podemos dizer que somos nós que constituímos a sociedade e ao mesmo
tempo em que somos seres humanos, pois a sociedade assim nos condiciona.

No século XIX surgiram os esforços iniciais e sistemáticos de delimitação de objetos de estudo e de


estratégias metodológicas para a produção de conhecimento científico e fidedigno. A partir das grandes
mudanças econômicas, políticas e sócio-culturais que acompanhou o processo de estabelecimento do
capitalismo, especialmente na Europa e Estados Unidos, foram vários os pensadores que se dedicaram a
compreender e propor soluções para os inúmeros problemas e situações que floresceram neste momento.

A sociologia como campo científico

Leia atentamente o fragmento a seguir.


A Sociologia nasce e desenvolve-se com o Mundo Moderno. Reflete as
suas principais épocas e transformações. Em certos casos, parece apenas
a sua crônica, mas em outros desvenda alguns dos seus dilemas
fundamentais. Volta-se principalmente sobre o presente, procurando
reminiscências do passado, anunciando ilusões do futuro. Os impasses e
as perspectivas desse Mundo tanto percorrem a Sociologia como ela
percorre o mundo. Se nos debruçamos sobre os temas clássicos da
Sociologia, bem como sobre as suas contribuições teóricas, logo nos
deparamos com as mais diversas expressões desse Mundo. Sob diversos
aspectos, ela nasce e desenvolve-se com ele. Mais do que isso, o Mundo
Moderno depende da Sociologia para ser explicado, para compreender-
se. Talvez se possa dizer que sem ela esse Mundo seria mais confuso,
incógnito (IANNI, 1989, p.07).

Essas foram as palavras de um famoso sociólogo brasileiro, Octávio Ianni, em um texto publicado

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em 1989. Suas reflexões apontam para uma ciência que se desenvolverá, sobretudo, com o Mundo
Moderno e que não poderia ser de outra maneira. As condições históricas para seu surgimento,
como veremos, residem em dois importantes fenômenos para o mundo ocidental e capitalista.

A transformação da sociedade feudal foi o palco para o desenvolvimento do conhecimento


científico. Interessa-nos especialmente o conhecimento produzido sobre a sociedade que, como
veremos, resultou na fundação de uma nova ciência: a Sociologia. Este contexto histórico já foi
estudado por você no primeiro roteiro de estudos quando discutimos as características da sociedade
feudal, o processo de acumulação primitiva e a emergência da sociedade capitalista.

Curiosamente, a transição do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista


promoveu uma forte ruptura com a antiga forma de organização social, pautada pela economia
prioritariamente agrícola e pela manifestação do pensamento teológico. Essa transição para o
capitalismo tem como marco exponencial a Revolução Industrial, que contará com uma perspectiva
de progresso pautada na produção em massa e na explicação científica dos fenômenos pelo próprio
homem.

Sua relevância se deve à capacidade dos antigos mercadores e comerciantes terem conseguido, ao
longo do tempo, aglutinar os artesãos e seus aprendizes num único espaço: a fábrica! Assim,
instalava-se o controle e a disciplina do empresário sobre a força e a criatividade de outros homens.
No entanto, nem tudo foram glórias: ela trouxe no seu bojo toda uma nova forma de viver, além de
representar a consolidação do capitalismo, a Revolução Industrial promoveu a destruição de
costumes e instituições, a automação do processo de produção, o aumento de suicídios, a
prostituição e violência, a formação do proletariado, o trabalho da criança e da mulher etc.

Outro fenômeno importante foi a Revolução Francesa. Enquanto na Inglaterra a Revolução


Industrial se desenvolveu sob a égide dos princípios da mecânica, da física, da química, da biologia
e de outras ciências naturais, na França fora a influência do pensamento iluminista que promoveu
o questionamento do modo como a sociedade dos anos finais do século XVIII estava organizada:
as injustiças cometidas pela monarquia e o conservadorismo da instituição católica. Assim, os
conhecidos ideais revolucionários – liberdade, igualdade e fraternidade – se apresentam como
desejados por toda a população francesa. Porém, tempos mais tarde, observou-se que a promessa
não estava sendo cumprida por aqueles que assumiram a direção do Estado francês.

Esses dois cenários de transformação da sociedade merecerão, por parte de uma série de
pensadores, um estudo científico. Assim, o desemprego, a fome, os suicídios, a educação, o
trabalho, a filantropia, a cidade, as greves, enfim, os dilemas sociais trazidos à tona pelo
capitalismo industrial e por uma sociedade que ainda não havia encontrado “seu rumo” requerem
um estudo que permita justificar a necessidade da ordem e da harmonia; ajustar as relações entre os
indivíduos numa hierarquização racional, ou ainda, a necessidade de uma nova revolução social
que trouxesse uma nova forma de organização social.

Muitas situações eclodiram, tais como condições inumanas de trabalho, as precárias condições de higiene,
a exploração de mão de obra infantil, a miséria generalizada, estruturas de poder rigorosas e
intransponíveis aos desejos das grandes massas desprovidas. Estas eram algumas das principais temáticas
que compunham o grande número de pensadores neste momento - John Stuart Mill (1806 – 1873), Harriet
Martineau (1802-1876), Saint-Simon (1760 -1825), entre outros.

Foi com Augusto Comte (1798-1857) que o termo sociologia começou a tomar seus
primeiros rumos, de forma sistematizada. Ao pretender promover uma ciência da sociedade,
ele a defendeu com um grau de positividade equivalente às ciências físicas, para que, assim,
fosse capaz de direcionar a solução de problemas reais da sociedade. De acordo com Comte

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havia chegado o momento da ciência da sociedade alcançar uma capacidade de identificar as leis naturais
que regem a sociedade e para isso a sociologia deveria se livrar de concepções dogmáticas, das idéias
religiosas e pré-concebidas sobre a vida social. Assim, a “física social” deveria criar um sistema de
conhecimentos baseado em fatos e à medida que as ciências, de modo geral, se aproximam do homem,
tornam-se mais complexas e menos gerais ao mesmo tempo que enriquecem seus instrumentos
metodológicos.
De acordo com Augusto Comte, além da observação, da comparação e da classificação, característica de
todas as ciências, cabe, no entanto, somente à sociologia o procedimento da filiação histórica para que
possa estabelecer e ordenar os dados da realidade em hipóteses de trabalho. Desse modo esta ciência da
sociedade se apresentava como a possibilidade de apreender o passado, e dele obter a linha evolutiva que
conduz ao futuro.

Para este pensador a história é, fundamentalmente, a história do desenvolvimento do espírito humano, e a


parte elementar desse processo de evolução, a que mais inspirou sobre esse progresso da humanidade foi
o desenvolvimento eficaz e constante do espírito científico. Este autor defendia duas metas fundamentais
e pouco modestas, a saber:
• reformar a sociedade;
• estabelecer a síntese do conhecimento científico.
Assim caberia às ciências, principalmente a sociologia, garantir as bases para a reforma da sociedade
(reforma moral), já que desenvolvimento material (capitalismo) havia sido estabelecido.

TEXTO COMPLEMENTAR 1

A importância da obra deste autor repousa muito mais na tentativa de compreensão da sociedade num âmbito
total e nas possibilidades de especialização das ciências sociais do que na criação, propriamente dita, da disciplina
Sociologia. Os fenômenos sociais são objetos de estudo da Física Social e estes fenômenos podem ser submetidos a
“leis naturais e invariáveis”. Seguindo os mesmos passos das ciências naturais, Comte apontou essa nova ciência
como a ferramenta capaz de analisar o passado, realizar a compreensão do presente e apontar os caminhos futuros
para regular a sociedade. Somente o rigor que rege as ciências naturais pode ser capaz de realizar a compreensão
dos fenômenos sociais, pois foi este “espírito positivo, que sucessivamente regenerou e disciplinou todos os outros
gêneros das especulações humanas”.

Na positividade das ciências naturais e na sua penetração no cotidiano que as doutrinas religiosas perderam
espaço. A partir dessa mudança social, promovida pelas ciências naturais, Comte vê a necessidade do surgimento da
física social para poder explicar e direcionar os caminhos da sociedade, cada vez mais complexa, através de leis
positivas e não apenas utilizando as explicações generalizadas da Filosofia Positiva. O autor utiliza os exemplos da
física, tais como as análises mais simples dos fenômenos astronômicos e a necessidade da sua especialização (física
terrestre, mecânica, celeste, e depois a química, fisiologia, etc) para servir de fundamento para sua teoria.

“Sociologia, ciência da crise – conscientização de sua época”.

Comte reconhece que, em determinadas épocas a crise social foi ponto fundamental para o avanço da
sociedade, porém esta chegou a um patamar positivo que não seria mais possível permitir outras rupturas sociais.
Estas crises que ele aponta são obstáculos aos progressos da civilização. A importância da compreensão da
totalidade é alvo das ciências sociais na conjuntura que ele estava inserido, mas, o autor compreende que poderá
haver divisões no futuro, para que a análise de determinados assuntos possam ser melhor apreendidos. A biologia,
disciplina que esta estuda a relação dos seres com o meio, sem dúvida, surgiu antes da sociologia, porém esta não
depende da primeira. Segundo Comte o objeto da sociologia são as relações sociais, o conjunto de ações entre os
homens e o seu meio material ou espiritual. Essas relações estão instituídas e vão se cristalizando e sendo
transmitidas de uma geração para outra, e este é um dos principais pontos que a sociologia se destinge da biologia.
Neste ponto Comte aponta as relações culturais como fator relevante para separar as duas disciplinas.

COMTE, A. Sociologia. In: ______. Comte. 2.ed. São Paulo: Ática, 1983. p.53-72. (Coleção Grandes Cientistas
Sociais).
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O pensamento de Augusto Comte torna-se importante na medida em que percebemos a sua influência nas
correntes metodológicas do pensamento social, principalmente no que se refere ao funcionalismo. Apesar
das árduas críticas, sua contribuição foi pertinente, quando pensamos a sua obra como uma tentativa
(mesmo que conservadora) para a compreensão sistemática da vida social.

Emile Durkheim
Considerado discípulo de Comte, Emile Durkheim (1858-1917) estabeleceu, dentre outros
coisas, as análises da relação indivíduo/sociedade e do rigor metodológico no estudo
comparado. Quatro obras, desse pensador, que se tornaram clássicas e continuam
obrigatórias na formação do cientista social são:
•A Divisão do Trabalho Social (tese de doutorado defendida em 1893);
•As Regras do Método Sociológico (1895);
• O Suicídio (1897);
• As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912).

De acordo com este pensador, a sociologia constitui uma ciência entre as ciências positivas, ocupando-se
da esfera social e pretendo conhecer as leis fundamentais que a regem. Ele desenvolveu o seu primeiro
trabalho sistemático sobre o método sociológico. Neste estudo o autor aponta que a sociologia deve se
ocupar apenas dos fatos sociais e para estudá-lo o pesquisador deve se ater à observação e à comparação.
Também afirma que fatos sociais devem ser considerados como coisas, ou seja, devem ser observados de
fora, e devem ser descobertos como os fatos da física ou da biologia.

Fato Social
A característica do fato social é que ele se impõe sobre o indivíduo (Coercitividade). As causas dos fenômenos
sociais devem ser encontradas no próprio meio social, todo fato social tem por causa um outro fato social e jamais
um fato da psicologia individual (Exterioridade). Um fato social é normal quando é encontrável de maneira geral
numa dada sociedade e, de certa forma, em uma determinada fase de seu desenvolvimento (Generalidade).
Assim Durkheim afirma que a sociedade deve ser entendida na sua TOTALIDADE, pois ela não é a simples soma
de indivíduos e o sistema é formado por sua associação e realidades específicas com características próprias.

O processo de unidade social ocorre, segundo Durkheim, a partir do processo de solidariedade, e este
pode ser de dois tipos:
• a mecânica (solidariedade por semelhança, característica de sociedades pequenas)
• a orgânica (solidariedade que se estabelece entre indivíduos diferentes pelo consenso,
característica de sociedade mais complexa).

Durkheim defende o conceito de solidariedade não como um elemento de bondade, vinculado a uma
moral, mas como uma esfera da vida social que corresponde à rede de organização que estrutura uma
sociedade através da divisão social do trabalho.

A questão primordial das sociedades é a relação dos indivíduos ao grupo. Durkheim apresenta o estudo
sobre o suicídio como algo revelador sobre a natureza dessa relação. Veja o comentário sobre a obra no
quadro, a seguir:

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TEXTO COMPLEMENTAR 2

Durkheim, em O Suicídio, pretende verificar a relação entre o número de suicídios e a coesão social e para isso, ele se
utiliza de dados estatísticos retirados de diversas sociedades européias em diferentes momentos históricos. Durkheim
descarta a influência de fatores biológicos ou climáticos sobre o índice de suicídios e observa uma ligação entre o
suicídio e a moral na sociedade. Ele analisa a totalidade dos fatos não como a soma de unidades independentes, mas
como um fato novo e sui generis, de natureza social. O autor não descarta as causas individuais que levam uma pessoa a
tirar sua vida conscientemente, mas sim através da análise das características de cada suicida e dos motivos que o
levaram ao fato.

Coesão social
Aquilo que promove a unidade social.

Mais do que traçar um quadro rico e detalhado sobre o suicídio nas sociedades européias, O Suicídio é uma aplicação
prática das idéias defendidas por Durkheim e contribuí para trazer ao alcance da sociologia fenômenos antes
considerados pertencentes a outras esferas da ciência como a biologia e a psicologia. Esta obra demonstra que os atos
individuais estão fortemente influenciados pelos fatos sociais. A observação mais detalhada mostra que o poder de
coerção social está sempre atuando e determinando a vida dos membros da sociedade.

O autor nos coloca a questão da importância da compreensão da uma força coletiva e moral que atua sobre os
indivíduos, pois o suicídio não é um fato que pode ser transmitido através de tradições interindividuais e o sujeito
vivendo em coletividade não é a essência real da sociedade. Durkheim aponta duas estruturas condicionantes como
essência real da sociedade, quais sejam, o fator material externo ao indivíduo e o conjunto constituído das consciências
individuais reunidas na sociedade. È neste ponto que Durkheim nos chama a atenção ao fato de que é preciso colocar-se
acima dos fatos isolados - tais como as ocorrências de suicídios avaliados por médicos e psicólogos - e “enxergar o que
lhes dá a sua unidade”.

DURKHEIM, Émile. Sobre o suicídio como fenômeno social em geral. In: ______. O Suicídio. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1982. p.237-259.

Max Weber
Outro pilar das ciências sociais foi o alemão Max Weber (1864-1920) que deixou densa
e diversa obra, que envolveu questões históricas e metodológicas, abrangendo vários temas
sociológicos, políticos e do direito, marcando sua influência no pensamento social
contemporâneo. Dentre seu legado, destacamos A ética protestante e o Espírito do
Capitalismo (1904/5). Nesta obra ele ocupou-se da ação recíproca entre condições
econômicas, situações sociais e convicções religiosas. Evitando estabelecer determinismos causais, Max
Weber enfatizou a importância dos valores na estrutura da vida social. No entanto, foi em sua obra maior,
Economia e Sociedade, publicada postumamente (1922) que desenvolveu um tratado de sociologia geral.
Neste, o autor distingue os tipos de ação social que orientam a atividade humana.

Tipos de Ação Social:


a) Ação racional em relação a um fim;
b) Ação racional em relação a um valor;
c) Ação afetiva ou emocional e a ação tradicional.

Assim, cabe à sociologia compreender e analisar a ação social, ou seja, captar o sentido que o sujeito dá a
sua conduta. O traço característico do mundo contemporâneo é o processo de racionalização crescente ou
de desencantamento do mundo, típico da empresa econômica e da gestão burocrática do Estado.

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Segundo Weber o maior desafio para a compreensão da vida social e do processo de atuação sobre ela é,
primordialmente, a identificação de setores da sociedade que escapam à tendência geral e onde subsiste
ação de tipo não racional. Desse modo, os vínculos entre ciência e política são objeto central na reflexão
deste pensador, fazendo com que seu método seja conhecido como sociologia compreensiva.

A Sociologia Compreensiva de Weber foi estruturada em modelos de análise denominados tipo ideal, que
é um recurso metodológico próprio do processo de compreensão característico da racionalização da
ciência moderna. O modelo de análise tipo ideal ou ideal tipo é uma estilização racional da realidade
histórico-social, instrumento da compreensão de relações causais de certo conjunto de fenômenos.

Portanto, a ciência é um processo de racionalização próprio das sociedades ocidentais modernas, em uma
busca constantemente renovada da verdade objetiva. No entanto, para Weber, nenhuma ciência será
capaz de determinar aos homens a melhor maneira de viverem ou às sociedades de se organizarem e
muito menos de promover à humanidade um futuro certo. E mais, existirão sempre as dimensões da
sociedade em que a ação social não racional irá prevalecer e que nestes casos a ciência poderá apenas
expressar-se em termos de probabilidades.

TEXTO COMPLEMENTAR 3

Uma das grandes obras de Weber foi, sem dúvida, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Neste estudo o
autor busca compreender as especificidades que desencadearam o desenvolvimento do capitalismo nas sociedades
ocidentais. Através das análises das obras dos puritanos, Weber fez a relação entre uma ética religiosa (calvinismo) e as
condições para o surgimento e estabelecimento do capitalismo.

As máximas de Benjamin Franklin (séc. XVIII, “Time is money”) serviram de referencia para Weber realizar as
conexões entre as transformações econômicas e as mudanças na esfera religiosa. O trabalho então passa a ter valor em si
mesmo, as pessoas passam a viver em função de suas atividades de subsistência ou profissionais.

“A medida que se foi estendendo a influência da concepção da vida puritana – e isto, naturalmente, é muito mais
importante do que o simples fomento da acumulação de capital – ela favoreceu o desenvolvimento de uma vida
econômica racional e burguesa. Era a sua mais importante, e, antes demais nada, a sua única orientação consistente,
nisto tendo sido o berço do moderno ‘homem econômico’”

O profissionalismo do puritano influenciou todos a sua volta, e segundo Weber passou a influenciar a moralidade
secular, e contribuiu para a formação moderna da ordem econômica e técnica ligada a produção em série. “Desde que o
ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se desenvolver, os bens materiais foram assumindo uma crescente, e,
finalmente uma inexorável força sobre os homens, como nunca visto antes na História”.

A ética protestante abre espaço para o poder econômico e vai se tornando laica. Um ética profissional e categoricamente
burguesa surgiu no lugar da ascese religiosa. “As restrições impostas ao uso da riqueza adquirida só poderiam levar ao
seu uso produtivo como investimento de capital”. Após esse impulso, o capitalismo deslanchou, não necessitando mais
do suporte religioso.

Nesta obra Weber buscou analisar uma das possíveis conexões causais que contribuíram para a composição do
capitalismo moderno. Não descartando a explicação do materialismo histórico que é alicerçado no campo econômico,
porém Weber não deixa de realizar a critica ao pensamento marxista. “Avaliar o significado de quanto as idéias
religiosas influenciaram a cultura e os caracteres nacionais, não se pode pensar em substituir uma interpretação
materialística unilateral por uma igualmente bitolada interpretação causal da cultura e da história. Ambos são
igualmente viáveis, mas, qualquer uma delas, se não servir de introdução, mas sim de conclusão, de muito pouco serve
no interesse da verdade histórica”. Neste ponto, a lucidez do autor nos reporta na importância de averiguar não todos os
detalhes que caracterizam uma realidade, mas os grandes vieses de análises que são possíveis dentro de uma
interpretação.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 15. ed. São Paulo: Pioneira Editora, 2000. p.110-
132.

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Max Weber e as análises sobre o Poder

Formas de dominação
É notável que em todo grupo dentro de qualquer sociedade, que seja baseado em regras e hierarquias, se encontrem
indivíduos dominantes e dominados. E nesse contexto Weber nos fala que dentro da sociedade é preciso que haja
elementos que detenham o poder ou que possuam formas de autoridades legitimamente reconhecidas, e elementos
que não detenham o poder. No Estado, por exemplo, Weber nos diz, que é necessário que as pessoas obedeçam à
autoridade dos detentores do poder, sempre que esta autoridade seja legitimamente reconhecida, para que o mesmo
funcione e/ou exista. E dessa forma percebe-se que a dominação sempre foi e, é uma presença marcante dentro da
sociedade. O sociólogo Max Weber apresentou, em um de seus estudos mais importantes, três tipos puros de
dominação legítima, cada um deles gerando diferentes categorias de autoridade. São classificados como puros
porque só podem ser encontrados isolados no nível da teoria, combinando-se quando observados em exemplos
concretos. São formas de dominação, segundo Weber, dominação legal, tradicional e carismática, como é
apresentado no texto a seguir:

TRADICIONAL: Baseado na crença da santidade das ordenações e dos poderes senhoriais há muito
existentes; Obedece-se à pessoa em virtude de sua dignidade própria, santificada pela tradição: por
fidelidade; O tipo que manda é o senhor, o que obedece é o súdito; Exercido pelo patriarca, pelo
príncipe patrimonial; Pessoal e ordinário.

CARISMÁTICO: Baseado na devoção afetiva à pessoa do senhor e a seus dotes sobrenaturais


(carisma) e, particularmente: a revelações, heroísmo, poder intelectual ou de oratória; O tipo que
manda é o líder, o que obedece é o apóstolo; Exercido pelo profeta, pelo herói guerreiro, pelo grande
demagogo, pelo governante plebiscitário; Pessoal e extraordinário.

RACIONAL-LEGAL: Baseado na validade do estatuto legal e na competência funcional, fundada em


regras racionalmente criadas. Obedece-se não à pessoa em virtude de seu direito próprio, mas à regra
estatuída, que estabelece ao mesmo tempo a quem e em que medida se deve obedecer. Quem ordena
obedece, ao emitir uma ordem, a uma regra; O tipo daquele que ordena é o superior, o que obedece é o
funcionário; Exercido pelo moderno servidor do Estado e assemelhados; Impessoal e ordinário.

Ao colocar na legitimação subjetiva o fundamento do poder, Weber cria uma tipologia das formas de
governo profundamente inovadora

Karl Marx
Outro pensador clássico das ciências sociais e que promoveu grande influência sobre a produção
sociológica contemporânea é Karl Marx (1818-1883). No prefácio da primeira edição
alemã de O Capital, afirma que a sociedade não pode nem ultrapassar por saltos e muito
menos abolir por decretos as fases de seu desenvolvimento normal, no entanto pode
abreviar os períodos de cada fase, desde que compreenda as leis que organizam o seu
movimento.

Segundo o autor, os homens não arbitram livremente sobre as forças produtivas, base da
história, pois elas são produto de uma atividade anterior. A cada geração nova surgem forças produtivas
adquiridas pela geração anterior e que irão servir de matéria prima para a nova produção.
Forças produtivas
É a relação do ser humano com a natureza no esforço de produzir a própria existência – isto é, relação dialética entre homem e
natureza, que permite desenvolver instrumentos, ferramentas etc.

Relações sociais de produção


É a relação dos indivíduos entre si - isto é, é a relação dialética entre homem e homem.

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Para pensar!!!
Forças produtivas e relações de produção são condições naturais e históricas de toda atividade produtiva
que ocorre em sociedade. A forma pela qual ambas existem e são reproduzidas numa determinada
sociedade constitui o que Marx denominou modo de produção.

Para Marx, o estudo do modo de produção é fundamental para compreender como se organiza e funciona
uma sociedade. As relações de produção, nesse sentido, são consideradas as mais importantes relações
sociais. Os modelos de família, as leis, a religião, as idéias políticas, os valores sociais são aspectos cuja
explicação depende, em princípio, do estudo do desenvolvimento e do colapso de diferentes modos de
produção.

Segundo a concepção materialista da história, na produção da vida social os homens geram também outra
espécie de produtos que não têm forma material e que vêm a ser as ideologias políticas, concepções
religiosas, códigos morais e estéticos, sistemas legais, de ensino, de comunicação, o conhecimento
filosófico e científico, representações coletivas, etc. – cujo conjunto é chamado de superestrutura ou
supra-estrutura.

O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual
em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente,
determina a sua consciência.

A grande contribuição de Marx foi demonstrar cientificamente a evolução do capitalismo. Marx focaliza
atenção na questão da contradição e se esforça em demonstrar que esta característica é algo inerente da
sociedade capitalista. Portanto, se para as correntes positivistas – que concebiam o capitalismo como o
último estágio de desenvolvimento social, portanto deveria ser preservado – os conflitos entre
trabalhadores e capitalistas eram considerados fato social anômicos e que deveriam ser “tratados” afim de
restabelecer a ordem vigente, para Karl Marx o mesmo conflito está na essência da natureza e do
desenvolvimento das sociedades capitalistas. De outra forma, Marx explica que o conflito entre classes
(Proletário x Burgueses), expressado através de greves, movimentos e revoluções, é algo imanente às
sociedades que se estruturam pelo antagonismo. Sempre uma classe irá se sobressair e as classes
subalternas tentaram se impor diante do processo de dominação. Para por fim a esse processo, somente
com o estabelecimento de uma sociedade sem classes, ou seja, o comunismo.

TEXTO COMPLEMENTAR 5
Leia a obra de Engels: Do socialismo Utópico ao Científico, de Engels.

As obras de Karl Marx (especialmente o Manifesto Comunista, a Contribuição à Crítica da Economia


Política e O Capital) forma centradas na afirmação e na demonstração do caráter contraditório
(antagônico) do capitalismo e de sua necessária superação. Segundo o autor, a burguesia e proletariado
são classes revolucionárias e antagônicas, a primeira estabeleceu o capitalismo através da ruptura com o
antigo regime feudal e a segunda é a portadora da sua destruição. Desse modo, a contradição é uma
condição do capitalismo e que a economia liberal é pautada na defesa e potencialização da propriedade
privada, que conduz cada vez mais para o aguçamento da contradição entre capital e trabalho e da divisão
da sociedade em classes.

São duas as contradições estruturais do capitalismo, que expressam o antagonismo de classes:


a) a contradição entre forças produtivas, que não cessam de crescer, e as relações de produção -
relações de propriedade e distribuição de renda - que não se transformam no mesmo ritmo;

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b) entre o crescimento da riqueza e o aumento da miséria. A promoção da miséria pelo sistema
capitalista é constante produzida pelo capitalismo, pois a sua condição de reprodução depende de
um exército industrial de reserva e da produção de tecnologias que afasta constantemente o
operário da sua atividade laboral. Assim a composição orgânica do capital é uma relação ou
proporção entre a parte constante (matéria-prima, máquinas, instalações, etc) e a parte variável
(força de trabalho). Nessa lógica marxista que, tanto a necesssidade de uma reserva de mão-de-
obra (afim de biaxar cada vez mais os salários) como na busca por inovações tecnológicas levam o
aumento cada vez mais de uma massa de trabalhadores sem emprego ou a condições de miséria.

Essas são as contradições que irão desencadear a superação do capitalismo, cabendo aos homens a
possibilidade de acelerar esse processo de transformação social.

Karl Marx, além de intelectual e sujeito ativo de sua história, promoveu inspirações em inúmeros
movimentos sócio-políticos mundo afora. Uma infinitude de partidos e organizações operárias procuram
inspirações de alguma forma na monumental obra de Karl Marx. Foram muitas as análises de Marx que
foram utilizadas por organizações políticas, acadêmicos e pensadores que as reinterpretaram para a
compreensão do capitalismo e do processo histórico. Dentre esses conceitos destaca-se: forças produtivas
e relações de produção, luta de classes e consciência de classe, infraestrutura e superestrutura, mais valia,
ideologia, etc.

TEXTO COMPLEMENTAR 6

Lefbvre no capitulo primeiro, intitulado de “Pensamento Marxista e Sociologia”, faz uma excelente revisão do
pensamento marxista, principalmente no que concerne aos debates acerca da metodologia marxiana e das diversas leituras
realizadas pelo desenvolvimento dos estudos pós-marxistas. O debate aborda questões como a crítica da filosofia com relação a
religião e a sua superação. Nesta perspectiva de superação, o autor aponta o marxismo como a superação da filosofia, cujo
espírito radical e o pensamento dialético prevalece como ferramenta de compreensão e crítica da alienação filosófica de sua
época.
O resgate de Lefbvre da obra de Marx nos chama a atenção para uma outra questão em Marx, qual seja, a apreensão
da ação nas ideologias no ímpeto da dominação do cotidiano. Marx considerava que os homens se libertavam da alienação no
decorrer da vida prática, pois a alienação se manifesta na vida real do homem, na maneira pela qual, a partir da divisão do
trabalho, o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer. Essa relação, em que o trabalhador, sujeito que transforma a
natureza por intermédio de seu trabalho, e o capitalista que se apropria desse trabalho, através do processo de alienação,
transforma o homem em sujeito estranho ao seu trabalho, transforma-o em objeto.
O autor demonstra que a crítica de Marx com relação à filosofia da época é pelo fato de que elas não superaram a
religião, no sentido de compreensão do real, mas que a filosofia estava fazendo o mesmo papel da religião, o de representante
das classes dominantes, com seu discurso ideológico. As representações da filosofia são as dos grupos dominantes e seria
preciso ultrapassar a filosofia, realizando-a, e repelir a alienação do filósofo.
Lefbvre comenta que o aspecto sociológico da teoria marxista das classes, apontando nesta obra, não é esgotante e
afirma alguns pontos que considera essenciais, tais como: não há classes sem lutas de classes; mesmo polarizadas, há uma
unidade nas classes; a estrutura da sociedade muda de acordo com a conjuntura; as classes dominantes agem como grupos de
pressão e utilizam as leis para atuarem. É nesse quadro sócio-econômico que se deve situar o pensamento de
Marx sobre as classes.
LEFBVRE, Henri. Sociologia de Marx. Rio de Janeiro: Forense - Universitária, 1979, 2ª Edição, p.71-21; 45-88.

Assim, constitui-se o elenco dos pilares da sociologia e evidencia-se o legado teórico do pensamento
social. Esses autores, Durkheim, Marx e Weber deixam-nos uma sociologia com elementos macro e cujo
eixo está nos fatores condicionantes do conflito e da solidariedade na sociedade capitalista moderna, nos
elementos de promoção da ordem e nas possibilidades de transformações (lentas ou aceleradas) para a
sociedade.

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REFERÊNCIAS

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva e outros textos. São Paulo: Abril Cultural, 1983a. (Coleção Os Pensadores).
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