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Público • Sexta-feira 15 Abril 2011 • 37

Espaçopúblico
O FMI ajudar-nos-á a gastar menos, mas não resolverá o problema da nossa incapacidade de gerar riqueza

É possível ter esperança para lá do FMI (e da vergonha)?

N
MIGUEL VIDAL/REUTERS
o dia em que se soube que o Ministério 11 pontos (o FMI sugere que em Portugal se cortem
da Administração Interna não estava a dez pontos). O Estado Social foi completamente
entregar o IRS e as contribuições para a reformado, diminuindo certas prestações, mas,
Segurança Social que desconta aos seus sobretudo, alterando a lógica do sistema, pois foi
funcionários – empresários que usaram introduzida concorrência no fornecimento dos
o mesmo expediente já acabaram na prisão –, 100 serviços – concorrência entre entidades públicas
militares da GNR, 50 agentes da PSP e um número e concorrência com os privados. Diminuíram, ou
José indeterminado de cães garantiram a segurança de desapareceram mesmo, os organismos destinados
Manuel 67 passageiros que embarcaram em Beja para Cabo a comandar a economia e a condicionar as escolhas
Fernandes Verde. Todos esses homens terão lá estado pouco individuais. Por fim, o Estado retirou-se dos sectores
tempo: o próximo voo comercial só está marcado onde a sua presença não era necessária. O resulta-
Extremo para Maio. Até lá, as infra-estruturas que nos custa- do foi o regresso do crescimento económico e uma
ocidental ram muitos milhões de euros continuarão de portas aceleração da melhoria das condições de vida. Na
fechadas. E depois não se sabe bem quantas vezes Suécia ninguém fala da “crise internacional”.

O
abrirão. Dificilmente encontraríamos, mesmo com
muita imaginação, melhor exemplo de desvario pa- modelo sueco é apenas um dos modelos
ra ilustrar o descalabro a que chegámos – e logo no possíveis. Conviria também olhar para
dia em que os técnicos do BCE, do FMI e da União a Dinamarca ou para a Holanda. Ou se-
Europeia já estavam com os narizes mergulhados guir o esforço reformista do Reino Uni-
nas contas nacionais. do. Em todo o lado se está a mudar de
O que se passou com o Aeroporto de Beja – para paradigma, evoluindo do Estado de Bem Estar (Wel-
onde chegaram a prometer a construção de uma fare State) para a Sociedade do Bem Estar (Welfare
estação de lançamento de pequenos satélites! – é Society). O Estado, em vez de procurar monopolizar
apenas uma gota de água no oceano de despesas a prestação de serviços públicos, deve privilegiar o
em infra-estruturas de que nunca se retirará retor- É preciso evoluir do Estado crise internacional – Portugal está estabelecimento de parcerias e a criação de redes cí-
no. Pior: muitas dessas infra-estruturas implicam como está porque não consegue ge- vicas, que passam a ser a chave para a configuração
despesas de operação e manutenção que engordam de Bem Estar para uma rar crescimento e desenvolvimen- dos diferentes serviços públicos. Mais: ao introduzir
diariamente a factura que pagamos. Ora, como to económico. Portugal – Estado e concorrência nos sectores sociais pode-se conseguir
não temos mais dinheiro, é provável que muitas
Sociedade do Bem Estar, privados – endividou-se ao ritmo de o que se alcança no resto da economia, isto é, mais
destas nossas fantásticas infra-estruturas acabem não para acabar com 10 por cento do PIB ao ano, nos últi- inovação, melhores serviços e menores custos.
como as autobahn (auto-estradas) da antiga RDA: mos 15 anos, porque produz pouco Mudar esta lógica não corresponde a acabar com
tão esburacadas e perigosas como um caminho o Estado Social, antes para e gasta muito. As medidas do FMI o Estado Social, antes a devolver o protagonismo
de carro de bois. devolver o protagonismo ajudar-nos-ão a gastar menos, mas aos cidadãos e à sociedade, encontrando fórmulas
Este exemplo, por nos mostrar o que não deve- não resolvem, só por si, o problema locais, variadas, de prestar melhores serviços gas-
mos fazer, obriga-nos a pensar no que poderá ser aos cidadãos, encontrando da incapacidade de gerar riqueza. tando muito menos dinheiro. Ao acabar com a lógica
feito para que exista alguma esperança ao fundo Há semelhanças entre o ponto do Estado-faz-tudo e do Estado-comanda-tudo é
do túnel onde estamos. É certo que o primeiro e
fórmulas locais, variadas, em que estamos e a situação da Sué- possível reduzir de forma estrutural, e não apenas
indispensável passo para ter qualquer esperança de prestar melhores cia no final da década de 1980. Nos conjuntural, a despesa pública, e ao mesmo tempo
terá de passar por remover, nas eleições, o “que- vinte anos anteriores a carga fiscal manter o nível dos serviços.
rido líder”, como se referiu a José Sócrates um serviços gastando tinha duplicado e o crescimento Mudar a velha lógica implica também vencer o
congressista de Matosinhos. É certo que isso tam- menos dinheiro económico tinha caído, permitindo preconceito – o que, num país em ruínas, pode ate-
bém implica alterar a forma de fazer política – e que o país perdesse todos os anos morizar. Sobretudo quando há demagogos à solta.
também de fazer jornalismo – e deixar de inventar lugares na tabela dos mais ricos do mundo. Foi en- E muito pouca vontade de pensar ou, sequer, de
caso atrás de caso para evitar sempre e sempre tão que os suecos resolveram mudar de vida. Em olhar para soluções diferentes.
discutir o essencial, e o essencial é saber como 15 anos, o peso do Estado na economia desceu de Mas para mudar basta-nos ter vergonha a sério,
mudamos de vida. Radicalmente. 56 para 45 por cento do produto, uma quebra de não apenas vergonha fingida. Jornalista

A
ladainha mais ouvida por estes dias é a
de que chegaram aí uns senhores que
vão mandar em nós. E que de pouco
Notícias de um país à beira-mar plantado
valerão as escolhas eleitorais, pois tu-
do será determinado pelo acordo que a Já passaram nove dias sobre a todos os jornalistas de terem por este também desconfiar das
terá de ser firmado até 15 de Maio para receber o o anúncio do pedido de ajuda acesso, na sala do congresso, aos contas do Estado. Por mim, que
dinheiro necessário para coisas tão elementares externa e ainda nenhum jornalista convidados de outros partidos. já exigi uma auditoria antes das
como pagar os salários aos trabalhadores das em- conseguiu chegar suficientemente Por fim, verdadeira cereja em cima eleições, só posso saudar os que
presas de transportes ou aos militares das Forças perto de Sócrates para lhe fazer a do bolo, distribuíram-se na sessão querem acabar com o reino da
Armadas. Não é bem assim. pergunta inevitável: como é que, de encerramento bandeiras de mentira em que temos vivido.
O que é que é certo? Que os que nos vão empres- tendo prometido nunca governar Portugal pelos presentes [na foto,
tar dinheiro nos imporão um muito maior rigor com o FMI, quer agora governar em cima] e vetaram-se as do PS, a Vi muita gente parolamente
orçamental, o que é bom em si mesmo, mesmo que com o FMI? numa encenação de patrioteirismo entusiasmada com a entrevista
custe muito no curto prazo. Mas se a UE, o BCE e o saloio. Qualquer semelhança entre em que Otelo declarou que, se
FMI vão obrigar o Estado a gastar menos dinheiro, a Há detalhes do congresso o partido de Sócrates e um partido soubesse como o país ia ficar, não
não nos dizem como devemos organizar esse Esta- do PS em Matosinhos que são socialista é mera coincidência. teria feito a Revolução. É curioso
do. E há, no essencial, duas formas de olhar para o reveladores do tipo de cerimónia como certa esquerda perdoa à
problema da organização e das funções do Estado: que ali decorreu. Um deles foi a Andam por aí uns jornalistas falsa esquerda assumir que, afinal,
manter tudo de acordo com o modelo seguido nos quando passou um filme sobre e “comentadores” muito teria sido melhor continuar com
últimos 30 ou 40 anos, o que significará que pelo as lideranças do PS e todos os incomodados por Pedro Passos a ditadura. Ou como deixa passar
simples efeito da demografia viveremos eternamen- anteriores secretários-gerais Coelho ter exigido conhecer a em claro ameaças corporativas,
te à míngua e, mesmo assim, passaremos a vida em (Soares, Constâncio, Sampaio, verdade das contas públicas. É pois Otelo afirma que bastariam
curas de emagrecimento; ou pensar que o Estado Guterres, Ferro) apareceram em extraordinário: pessoas que deviam 800 militares para derrubar
não tem de ser decalcado daquilo que temos, que imagens a preto e branco, tendo defender a transparência e o um Governo e que “um novo
há outras formas de garantir os serviços públicos Sócrates sido mostrado a cores. conhecimento de toda a verdade 25 de Abril” só aconteceria
e que temos de encontrar fórmulas para limitar a Outro foi a proibição imposta optam pela opacidade. Parecem havendo perda de direitos dos
tendência dos governos para prometerem o que a todos os fotógrafos – excepto fazer coro com um deputadinho militares. Este país não parece
não podem pagar. ao fotógrafo oficial de Sócrates que, na blogosfera, já acusou de ter um mínimo de instintos
Portugal não está como está porque houve uma – de se aproximarem do palco, e “traição à pátria” António Barreto democráticos…