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O Crime do Pe.

Amaro

O crime sem castigo

Eça de Queirós, revelado como o maior romancista português chocou a sociedade


da época com sua denúncia da hipocrisia social e religiosa. A sua obra, O Crime do
Padre Amaro, é simultaneamente uma obra-prima, um documento humano e social
do país e de uma época, a expressão literária de uma realidade que a história
confirma. Além de ser uma das mais famosas, pois trata do comportamento nocivo
e corrupto não só dos padres, mas do clero em geral. Percebe-se, claramente,
nesse romance o combate aos valores éticos e morais vigentes na sociedade
portuguesa da época, que eram considerados como fundamentais para as pessoas
e famílias de bem.

Naquela época (segunda metade do século XIX), o Ocidente vivia um período de


grandes transformações, com a Segunda Revolução Industrial. O cientificismo
passou a predominar, com novas correntes filosóficas e teorias, entre as quais o
positivismo de Comte, o determinismo de Taine, o evolucionismo de Darwin e o
socialismo científico de Marx e Engels. Essa perspectiva racionalista e materialista
leva os intelectuais a estudar o impacto social da industrialização e do liberalismo.
Passam a serem discutidas as desigualdades que essas mudanças trouxeram para a
sociedade, como o surgimento de uma nova classe que é oprimida pela burguesia:
o proletariado.

No romance há o predomínio da narrativa em terceira pessoa onisciente e


onipresente, ou seja, o narrador não participa da história, não se envolve com a
trama, mas sabe o que se passa com os personagens e o que pensam e sentem.
São bastante perceptíveis as críticas e opiniões do narrador no texto em sua
própria voz ou nos pensamentos e atitudes dos personagens. Podendo ver a sua
posição ideológica. A forma desprezível e irônica com que ele expõe os defeitos dos
personagens fazem com que o leitor acabe sendo adverso a eles. Como podemos
ver no trecho que segue: “E a Amélia, resignando à vontade de Deus em tudo, ia
deixando cair às saias”.

Podemos perceber ainda que o narrador faz muitas críticas ao misticismo


exacerbado, ao apego às imagens dos santos da Igreja, aos rituais das missas.
Na obra podemos perceber o predomínio do discurso direto. No entanto, pode-se
observar que existem os três tipos de discurso: discurso direto, discurso indireto e
discurso indireto livre.
O tempo narrativo é rigorosamente cronológico e linear. A história se passa no
século XIX e dura, aproximadamente, dois anos, entre 1870 e1871. No entanto
devem-se considerar os flashbacks por meio de recordações da infância de Amaro e
Amélia.

A história se passa na cidade de Leiria, interior de Portugal. Assim pode-se dizer


que o ambiente é real com pessoas que levam uma vida normal. Os locais mais
comuns são: a casa da Dona Joaneira; casa do Padre Amaro na Rua dos Sousas;
casa do sineiro; Quinto da Ricoça.

O protagonista da história é o jovem Padre Amaro filho da criada da Marquesa de


Alegros. Ao ficar órfão é criado pela marquesa onde esta, ao falecer deixa um
testamento, uma determinação, para que Amaro ao completar quinze anos deve
entrar no seminário. O ambiente da casa da Marquesa e do seminário molda o seu
caráter.

Amélia é a co-protagonista do romance, em sua figura, o resultado trágico de uma


formação num meio provinciano e atrasado, centrado em torno do poder
eclesiástico. Amélia vive, portanto, rodeada de cônegos e padres. Aos 23 anos,
alta, forte e "muito desejada", possui um temperamento sentimental, romântico e
fortemente sensual. Órfã de pai, sua mãe é amante do cônego Dias e ela é uma
devota simplória e passiva, atraída pelo ritual católico.

Como podemos ver Eça critica abertamente o comportamento nocivo dos membros
da Igreja, a troca de favores para a conquista de benefícios, a falsa literatura
religiosa e a valorização das ciências e teorias vigentes da época. Pode-se dizer
então que O Crime do Padre Amaro é uma análise crítica e impiedosa de um
burguês sobre os três grupos sociais dominantes: Igreja, Burguesia e Monarquia.
O próprio título do romance fala do crime Amaro, de fato ele cometeu vários
crimes, dentre eles o assassinato de seu próprio filho, pois foi o responsável. No
entanto, o padre não recebe punição, mudando-se para Lisboa e onde continua
gozando da sua posição social. Podemos perceber que na realidade houve uma
punição, a da sociedade que continua a ser composta por pessoas imorais e
dominadoras. Por isso “O Crime do Padre Amaro” é uma obra de caráter
transformador, pois mostrando as falhas da sociedade e faz com que o leitor se
indigne e mude o seu comportamento.

Bibliografia:
QUEIROS, Eça de. O crime do padre amaro. Editora Moderna, Coleção Travessias,
1994.
www.mundocultural.com.br
AMARAL, Emília. IN. Novas Palavras. Português. Ensino Médio. Editora FTD, Volume
Único. São Paulo, 2003.