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As relações de poder da mídia e a constituição da identidade do

sujeito-jornalista no discurso de Divulgação Científica

Resumo: A proposta do presente trabalho está centrada na discussão acerca das noções de
sujeito, discurso e poder em Foucault, as quais são constitutivas de toda e qualquer prática
discursiva. Partindo do conceito foucaultiano de discurso enquanto um conjunto em que podem
ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo,
enquanto um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos
(1997: 62), pretendo mostrar como o sujeito-jornalista, na prática discursiva da divulgação
científica, se subjetiva e, por sua vez, constitui sua identidade, estando duplamente afetado: pelo
poder/pela verdade da mídia e pelo poder/pela verdade da ciência. Qual é, afinal, o lugar
discursivo que esse sujeito ocupa? E esse lugar reflete na constituição da sua identidade?

Palavras-chave: sujeito, poder, identidade.

Abstract: The aim of the present text is centered on the discussion of the notions of subject,
discourse and power, constitutive of any discursive practice according to Foucault. Departing
from the foucaultian concept of discourse as a totality, in which the dispersion of the subject and
his discontinuity with himself may be determined, also as a field of exteriority in which a set of
distintc positions is ruled (1997:62), my intention is to focus on the process of subjectivation
and identification of the journalist-subject in the discursive practice of scientific release, taking
into account its double determinination: by the power/truth of media and by the power/truth of
science. What is the dicursive position that this subject occupies? How does this position reflects
the constitution of his/her identity?

Key-words: subject, power, identity.

Em busca de respostas aos questionamentos que lancei acerca do sujeito-jornalista no discurso


de Divulgação científica na proposta do presente trabalho, trago à cena para discussão algumas
noções de dois autores, dois Michel - Foucault e Pêcheux. Historicamente falando, Foucault e
Pêcheux têm muito em comum. Ambos são autores franceses contemporâneos e os dois viveram
a crise epistemológica da lingüística nos anos 60. Uma crise que não só marcava a lingüística,
mas também as ciências humanas de uma forma geral. À crise teórico-epistemológica juntava-se
a crise política, influenciada pelas idéias marxistas. Assim, Pêcheux e Foucault (e outros
intelectuais franceses da época) unem, na base de suas reflexões teóricas, a crise política e a
crise epistemológica, tendo como base a questão do materialismo histórico.
Inicio, então, minha reflexão por Foucault, lançando um olhar sobre as noções de sujeito,
discurso e poder. Em seguida, estabeleço um diálogo com Pêcheux acerca dessas mesmas noções
e finalizo o artigo com a análise de algumas seqüências do discurso de Divulgação Científica,
mobilizando, no processo analítico, tais noções teóricas.

Um olhar sobre as noções de discurso, sujeito e poder em Foucault

Tais noções perpassam toda a obra de Foucault, principalmente a noção de sujeito que,
conforme declarou o próprio autor, constitui o tema geral de sua pesquisa. E o modo como
Foucault trata a questão do sujeito não está desvinculada nem da noção de discurso, nem da
noção de poder. Ao contrário, a abordagem foucaultiana desloca o sujeito de um viés
estruturalista, no qual era eliminado da prática discursiva, para um viés discursivo, no qual o
sujeito e o sentido são da ordem da constituição do discurso. Por isso, tanto o sujeito quanto o
discurso são tomados enquanto dispersão, o que rompe com a idéia de continuidade, até então
dominante no campo do saber.

E, como uma possibilidade para descrever essa dispersão, Foucault propõe o conceito de
Formação Discursiva (FD doravante) na sua obra Arqueologia do Saber [1]. Para Foucault
(1969), uma FD relaciona um sistema de dispersão no qual vai ser possível observar uma
regularidade em relação aos objetos, tipos de enunciação, conceitos e escolhas temáticas. Um
enunciado, então, pertence a uma FD, assim como uma frase pertence a um texto. E um
conjunto de enunciados, apoiados numa mesma Formação Discursiva, constitui o que Foucault
chamou de discurso. Nesse conjunto, “podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua
descontinuidade em relação a si mesmo. É um espaço de exterioridade em que se desenvolve
uma rede de lugares distintos” (Ibidem: 62). Portanto, o discurso não é a manifestação de um
sujeito que pensa e tem autonomia sobre o seu dizer. O que se materializa no discurso são as
posições de sujeito que se definem, conforme Foucault, “pela situação que lhe é possível ocupar
em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos” (1997: 59).

Dessa forma, a manifestação da dispersão do sujeito se dá nos “diversos status, nos diversos
lugares, nas diversas posições que pode ocupar ou receber quando exerce um discurso, na
descontinuidade dos planos de onde fala” (1997: 61). Tais lugares, posições, etc, são construídas
no interior de uma determinada formação social e determinam, assim como são determinadas
pelas práticas discursivas. Ora, configurar o discurso como um espaço que abriga distintos
lugares/distintas posições significa apontar para a heterogeneidade que é inerente a todo e
qualquer discurso. E o discurso de Divulgação Científica - objeto de interesse do presente artigo
- é um bom exemplo de uma prática discursiva na qual se desenvolve uma rede de lugares
discursivos. Há, no mínimo, três distintos lugares discursivos que são da ordem do já-lá e, como
tal, fazem parte da constituição desse discurso. Quais sejam: o lugar do cientista, o lugar do
jornalista e o lugar do leitor.

Vimos, portanto, como a noção de sujeito em Foucault não pode estar dissociada da noção de
discurso, já que é nas/pelas práticas discursivas, as quais são determinadas pelas práticas
sociais, que o ser humano se transforma em sujeito do discurso. E, ao se discursivizar, passa do
lugar de sujeito empírico/individual para a posição discursiva, carregando consigo marcas do
histórico e do social. Segundo Foucault (1970), cada um de nós, enquanto sujeito, é o resultado
de uma fabricação, é um efeito, uma construção de poder. São os dispositivos e suas técnicas de
fabricação - de que a disciplinariedade é um forte exemplo - que instituem o que chamamos de
sujeito. Nesse sentido, cada um faz não o que quer, senão aquilo que pode, aquilo que lhe cabe
na posição de sujeito que ele ocupa num dado momento, inserido numa determinada ordem
disciplinar.

O sujeito do discurso de Divulgação Científica, por exemplo, ao ocupar o lugar de jornalista, está
submetido a outras ordens disciplinares (o dizer da ciência, da mídia e do leitor). Logo, ele não é
totalmente livre para dizer "o que bem entende". Mas esses lugares, ocupados pelos sujeitos do
discurso, são móveis, pois a rede está sempre se rompendo, aqui e ali, de modo que o ponto que
cada um ocupa está sempre sujeito a variações, as quais não estão, no entanto, destituídas das
determinações das relações de poder.

Em sua aula inaugural no Collège de France (1970) [2], ao tratar sobre os procedimentos de
controle (interno e externo) e delimitação do discurso, Foucault já lançava, no meu entender,
questionamentos para pensar a questão do poder. Ora, ao explorar tais procedimentos, ele
buscava resposta para compreender a maneira como a realidade enquanto norma
institucionalizada de uma sociedade interfere nas práticas discursivas, ou seja, como esses
procedimentos refletem no discurso, controlando-o, organizando-o. E essa forma de controle
nada mais é do que uma das formas de exercício do poder, legitimada por um “modelo
institucional”. Esse modelo institucional impõe ao discurso e ao sujeito que o produz
determinadas regras, as quais Foucault (op. cit) vai chamar de “polícia” discursiva. No caso do
discurso de Divulgação Científica, a mídia e a ciência, enquanto lugares institucionais
legitimados socialmente, entram em cena para administrar as regras, isto é, para controlar o que
da exterioridade deve ser dito nesse discurso. É preciso que a prática discursiva da Divulgação
Científica mantenha os efeitos de verdade difundidos tanto pela ciência quanto pela mídia. Por
isso, o jornalista científico, ao produzir esse discurso, está duplamente afetado: pelo poder/pela
verdade da ciência e pelo poder/pela verdade da mídia. Como ele se subjetiva nessa prática, a
partir dessas determinações, é o que pretendo mostrar nas análises de algumas seqüências
discursivas.
Para Foucault (1979) [3], a verdade e o poder são constitutivos do saber científico, já que “a
verdade não existe fora do poder ou sem poder” (2000: 12). Logo, a concepção tradicional de
verdade científica, neutra e objetiva, não se sustenta, já que as relações de poder não estão
separadas do campo do saber científico e a verdade está em constante confronto nessas relações.

Dessa forma, assim como o poder está relacionado às formas de verdade, estas estão
relacionadas a uma determinada formação social. Deixemos claro, no entanto, seguindo o
pensamento de Foucault, que tais relações de poder são historicamente constituídas. Por isso,
não podemos pensar no poder como uma forma única, global, totalitária; mas sim como uma
prática social que só funciona e se exerce em rede, isto é, para que o poder e/ou as relações de
poder se constituam, é preciso que alguém detenha, comande e domine tais relações, assim
como se faz necessário alguém que se submeta, assujeitando-se às ordens impostas e
determinadas por aqueles que estão no topo dessas relações. Conforme afirma o próprio
Foucault, em seu ensaio sobre O sujeito e o Poder [4], “só há poder exercido “uns” sobre os
“outros”; o poder só existe em ato, mesmo que, é claro, se inscreva num campo de possibilidade
esparso que se apóia sobre estruturas permanentes” (1995: 242), já que as relações de poder se
incorporam e cristalizam nas instituições. Por isso, o sujeito não pode ser concebido fora das
relações de poder e, conseqüentemente, fora das práticas discursivas e sociais (incluídos aí os
espaços institucionais).

É nesse espaço da rede de relações dominador/dominado que surgem as formas de resistência,


representadas pelas lutas, pelas relações de forças travadas, desencadeadas no interior da
própria rede de poder. Portanto, conforme Foucault, onde há poder, há resistência, a qual não é
marcada por um lugar específico, mas por ponto móveis e transitórios que se distribuem por
toda a estrutura social. E uma dessas formas de resistência, segundo o autor, seria a que faz dos
indivíduos sujeitos, os quais estão presos à sua própria identidade. Talvez, diz o autor,
“o objetivo não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e
construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste “duplo constrangimento” político, que
é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas do poder moderno. (...)Temos
que promover novas formas de subjetividade através da recusa deste tipo de individualidade que
nos foi imposto há vários séculos” (Foucault, 1995: 239)

A subjetividade - o modo como o sujeito se relaciona com os lugares sociais, ao se inscrever no


discurso e ocupar uma posição - se apresenta, então, como uma forma de resistência às
estruturas de poder. E o discurso de Divulgação Científica, tomado como um espaço discursivo
onde se exercem tanto as relações de poder como as formas de resistência, nos possibilita olhar
para o modo como funcionam essas relações nos limites do dito. Vejamos. A mídia e a ciência
atravessam esse discurso como instâncias de poder, embora de maneira diferenciada. A ciência
procura exercer o seu poder sobre a mídia, tentando controlar, impor os limites do dizer
científico, para que nenhum enunciado, escrito pelo jornalista, produza um sentido indesejado,
que escape da verdade e do saber objetivo. A mídia, por sua vez, resiste a esse poder, também
impondo a sua verdade, a sua interpretação sobre os fatos científicos, para que as matérias,
publicadas pelas revistas, atinjam o público-alvo. Temos aí funcionando, então, duas fortes
instâncias de poder, as quais resistem, lutam como podem, a partir do lugar social/institucional
que as legitima, cada uma a sua maneira, para administrar os sentidos do discurso de
Divulgação Científica. E o jornalista, enquanto sujeito responsável pela autoria desse discurso, é
quem vai colocar em funcionamento essas instâncias de poder, ao se subjetivar, inscrevendo seu
dizer no intervalo que há entre o dizer da ciência, da mídia e do leitor.

Dialogando com Pêcheux


Considerando o exposto acima sobre as noções de sujeito, discurso e poder em Foucault,
proponho um movimento de diálogo com a teoria da Análise de Discurso (AD), fundada por
Michel Pêcheux. Se, para Foucault, a questão central de suas pesquisas é a noção de sujeito, para
Pêcheux, a reflexão central de toda sua obra está pautada na noção de discurso, incluída ai a
noção de sujeito, já que, para a AD, não há discurso sem sujeito, nem sujeito sem ideologia.
Para Pêcheux (1969) [5], discurso é efeito de sentido entre interlocutores. Logo, não há como
dissocia-lo nem do sentido, nem do sujeito. Também em Foucault não podemos fazer essa
dissociação; no entanto, o que marca o distanciamento entre os dois autores acerca dessa noção,
assim como acerca da noção de sujeito é, sobretudo, a intervenção do ideológico. Vejamos,
então, como a ideologia se inscreve, ou melhor, é inscrita por Pêcheux na teoria da AD.
Pêcheux e Fuchs (1975) [6] retomam a noção de FD, cunhada por Foucault, ao elaborarem o
quadro epistemológico da AD. E o fazem de forma própria, a partir do conceito de Formação
Ideológica [7], mas não ignorando as reflexões de Foucault. Sobretudo, as noções de discurso,
tomado enquanto prática e dispersão, que contempla o histórico e o social, e de Formação
Discursiva, tomada enquanto regularidade de enunciados dispersos, vindos de diferentes
ordens, foram contribuições importantes para a teoria da AD. Mesmo porque o histórico e o
social também são considerados elementos constitutivos da noção não só de FD, mas também
da noção de discurso e de sujeito no âmbito da teoria pecheuxtiana. Assim, o que marca o
principal distanciamento entre o conceito de FD em Foucault e Pêcheux é a inscrição do
ideológico nas reflexões deste último autor. É, então, pelo viés da formação discursiva, que a
ideologia se inscreve no interior da teoria do discurso, atravessando tanto a noção de discurso
quanto a de sujeito.

O sujeito, para a AD, é assujeitado ideologicamente e afetado pelo inconsciente. Logo, ele não
tem pleno domínio sobre o seu dizer, mas possui a ilusão de ser a fonte do sentido. Também, em
Foucault, o sujeito não é autônomo e empírico, mas ele não sofre as determinações da ideologia
nem a afetação do inconsciente. O que perpassa o sujeito foucaultiano, conforme já mostrei, são
as relações de poder, as quais contemplam o histórico e o social.

Então, considerar as relações de poder como constitutivas do saber científico, incluindo aí as


formas de resistência e verdade, significa deslocar tais relações para o plano histórico e social e,
mais do que isso, significa que devemos considerar tais planos como elementos importantes
para a constituição do sentido do discurso científico. E por que não incluir aí, nessas relações
entre o histórico e o social, fazendo um movimento de aproximação com Pêcheux, a questão da
ideologia, já que o todo conhecimento é perpassado pelo ideológico. “Toda ciência, diz Pêcheux,
é inicialmente ciência da ideologia da qual ela se destaca”(1995:64) [8].

Embora Foucault não trabalhe com a noção de ideologia, marcando o seu atravessamento/a sua
determinação no discurso, ele aborda a questão do poder, relacionando-o ao discurso da
verdade, o que marca também uma determinação, vinda do exterior, na constituição do
discurso. Ao trabalhar os tipos de sujeição do sujeito ao poder, afirma que as forças de
produção, a luta de classe e as estruturas ideológicas determinam a forma de subjetividade (cf.
Foucault, 1995, p. 236). Ora, o fato de contemplar em suas reflexões, ainda que não de forma
central, a determinação do ideológico na forma como o sujeito se subjetiva, abre sim uma
possibilidade de diálogo com o modo como concebemos o sujeito na AD, conforme o que
explicitei há pouco.

Dessa forma, é possível pensar numa articulação entre o conceito de formação social e formação
ideológica, cunhadas por Pêcheux, e as relações de poder, abordadas por Foucault. Para
Foucault, o poder, conforme já destaquei, é algo que só funciona em cadeia, isto é, ele “funciona
e se exerce em rede” (2000: 183). Por isso, a escolha pelo termo relações de poder, as quais “têm
essencialmente por base uma relação de força estabelecida, em um momento historicamente
determinável” (2000: 176). Então, a história intervém, de forma decisiva, nas relações de poder,
que não estão centralizadas num único lugar social, mas estão dispersas, capilarizadas nos mais
diferentes lugares sociais, através das práticas discursivas, podendo tanto representar uma
posição de dominante como de dominado. Vejamos, então, essa possibilidade de articulação.
A formação social está relacionada com as diferentes formações ideológicas, as quais, por sua
vez, estão materializadas nas diferentes relações de poder que perpassam instituições como a
mídia e a ciência. É, então, no conflito de F.I.s e relações de poder, que acontece a
disciplinarização dos saberes, sustentados pelos efeitos de verdade. Assim, o sujeito do discurso,
ao mesmo tempo em que ele é interpelado/assujeitado ideologicamente pela formação social, ele
se inscreve/ocupa um dos lugares sociais que lhe foi determinado. É o espaço do empírico. Na
passagem para o espaço teórico, no nosso caso, para o espaço discursivo, o lugar social que o
sujeito ocupa numa determinada formação social e ideológica, que está afetada pelas relações de
poder, vai determinar o seu lugar discursivo, através do movimento da forma-sujeito e da
própria formação discursiva com a qual o sujeito se identifica.

O sujeito sempre fala de um determinado lugar social, o qual é afetado por diferentes relações de
poder, e isso é constitutivo do seu discurso. Então, é pela prática discursiva que se estabiliza um
determinado lugar social/empírico. No caso do jornalista científico, é o modo como ele
discursiviza os diferentes saberes institucionais (tanto os vindos da ciência, quanto os que
circulam na ordem do senso comum) que sustenta e legitima socialmente o seu lugar (empírico)
de jornalista, comprometido tanto com a verdade da ciência quanto com a verdade da mídia e
com os saberes do leitor.

Ao tratarmos do funcionamento do discurso de Divulgação Científica, devemos considerar que


as imagens, tanto do jornalista quanto do cientista e do leitor, já estão dadas, isto é, já foram
construídas a partir do lugar social que cada dos sujeitos envolvidos na constituição desse
discurso ocupa. Trata-se, conforme nos mostra Pêcheux (1975) [9] do “ ‘sempre já-aí’ da
interpelação ideológica que fornece-impõe a ‘realidade’ e ‘seu sentido’ sob a forma da
universalidade” (1995: 164), o que corresponde ao pré-construído do discurso. E isso nos
remete ao exemplo do soldado francês [10], citado por Pêcheux (op. cit), que mostra como a
norma identificadora determina os lugares sociais de cada sujeito, sob o efeito do ideológico.
Então, as formações ideológicas estão relacionadas às formações sociais, já que é no interior da
formação social que o ideológico se institui, determinando, pelo viés da formação discursiva, os
lugares empíricos que cada sujeito pode ocupar, bem como estabelecendo as imagens que
representam tais lugares. Ou seja, o sujeito, ao ser interpelado pela ideologia e estar afetado
pelas relações de poder, sobretudo as institucionais, já está inscrito num determinado lugar
social/empírico.

Logo, o ideológico, o histórico e o social, que é onde estão inscritas as relações de poder, não
podem ser tratados separadamente, tampouco como algo exterior à prática discursiva. Por isso,
tais questões não são alheias ao discurso Científico e, por sua vez, a prática discursiva da
Divulgação Científica. Ao contrário, a ideologia, a história e o social constituem essa prática
discursiva, na qual as relações de poder encontram-se em confronto. Imbuído nessas relações de
poder e resistência, as quais estão inscritas numa determinada conjuntura histórica-social e
ideológica, está o sujeito jornalista, autor do discurso de Divulgação Científica, o qual é afetado
por essas relações, justamente por pertencer a uma determinada formação social. Dele é
cobrado a responsabilidade da unidade do texto, da clareza, da não-contradição, entre outras
coisas.

Vejamos, então, como o sujeito jornalista, na prática discursiva da Divulgação Científica, se


subjetiva nesse discurso, resiste às relações de força travadas no interior da rede de poder,
estando afetado por tantas determinações.

A prática discursiva da Divulgação Científica: o lugar do sujeito jornalista

Para analisar o modo como o sujeito jornalista se subjetiva no discurso de Divulgação Científica
e, assim, constrói sua identidade, selecionei algumas seqüências discursivas de reportagens da
Revista Superinteressante. Eis as seqüências selecionadas:

SD1: Ao contrário da medicina convencional, a homeopatia não é uma terapêutica invasiva,


dispensando cirurgias, exames incômodos e drogas que provocam efeitos colaterais quase
sempre perigosos. Sua abordagem é sistêmica e tem como foco o paciente e não a doença em si
- detalhe que faz toda a diferença na relação médico-paciente. Ela é muito mais próxima e
afetuosa do que a medicina alopática, cujos diagnósticos dependem hoje mais da
tecnologia que da acuidade do médico. Uma consulta homeopática pode envolver perguntas
sobre hábitos do dia-a-dia, incluindo até questões prosaicas como sonhos ou a sensação
experimentada pelo paciente no pôr-do-sol. A importância dada aos sintomas mentais é
tanta que a conversa com o homeopata, muitas vezes, assemelha-se a uma sessão
com o psicólogo . Ah! Há outro detalhe: a homeopatia é barata. O preço de um frasco com
glóbulos homeopáticos (as bolinhas de açúcar) varia de 7 a 10 reais. Já uma caixa de
antibióticos... bem, você sabe (In: O PODER DAS BOLINHAS - Medicina -
Superinteressante/janeiro/2002).

SD2: “ Índice glicêmico” é a medida do nível de glicose que o alimento gera no sangue.
Carboidratos como grãos integrais e frutas têm índice glicêmico baixo - eles são ricos em
fibras, que retardam a absorção de açúcar. Outros, como pão e arroz brancos, batata e açúcar
têm índices altíssimos. Eles elevam rapidamente a taxa de glicose no sangue e forçam o corpo
a armazenar o excesso dentro das células. Quem faz o trabalho de armazenamento é a
insulina . Quando comemos alimentos de alto índice glicêmico, produzimos muita
insulina de uma só vez. O excesso do hormônio diminui o nível de glicose no sangue e a queda
faz o corpo pedir mais, gerando a sensação de fome. Ou seja, consumir muita comida com alto
índice glicêmico pode aumentar a compulsão alimentar. E não é só isso: está ficando mais claro
que esses altos e baixos na produção de insulina podem levar a diabetes tipo 2, uma doença
séria, cuja incidência está explodindo (In: A CIÊNCIA DE COMER BEM - Saúde -
Superinteressante/setembro/2004).

Na SD1, ao inscrever-se no lugar discursivo de jornalista científico, o sujeito do discurso explica


o que é a homeopatia, incorporando o discurso que circula na ordem da ciência sobre esse
campo de saber. Ao afirmar que a homeopatia não é uma terapia invasiva, dispensando
cirurgias, exames... e que sua abordagem é sistêmica e tem como foco o paciente e não a
doença em si, o jornalista fala como se fosse um homeopata/na posição de, identificando-se com
os saberes dessa ciência e, por sua vez, desidentificando-se com os saberes da alopatia. Por isso,
julga-se, ainda que ilusoriamente, autorizado a avaliar (ela é muito mais próxima e afetuosa) e
comentar (detalhe que faz toda a diferença na relação médico-paciente) a prática homeopática,
contrapondo-a a medicina convencional. Compara, em seguida, a consulta homeopática a uma
sessão com o psicólogo. E, para fazer tal comparação, faz um movimento de aderência a
elementos que circulam no imaginário do senso comum tanto sobre um tratamento psicológico
quanto sobre um tratamento homeopático. Por ocupar uma posição de incorporação do discurso
científico, falando como se fosse o próprio cientista - nesse caso, o homeopata - é que o
jornalista sente-se autorizado a produzir esses movimentos de comparação, avaliação,
comentário e explicação. Por fim, para ratificar a sua posição de identificação com o discurso da
homeopatia, o jornalista declara que a homeopatia é barata, recortando elementos de saberes
do cotidiano (o preço de um frasco com glóbulos homeopáticos ... varia de 7 a 10 reais) e
dialogando com o leitor (bem, você sabe). Assim, oscilam, nessa seqüência as posições-sujeito
de incorporação do discurso da ciência e de aderência ao discurso do cotidiano. E o efeito-leitor
é construído, discursivamente, no entremeio dessas posições, a partir das antecipações de
imagens que estão em jogo na constituição do DDC. É ocupando tais posições que o jornalista
encontra formas de resistência, movimentando-se no intervalo entre o dizer da ciência e o dizer
do leitor. Então, ainda que afetado duplamente - pelas relações de poder da mídia e pelas
relações de poder da ciência - o jornalista produz movimentos de subjetivação, já que
(re)significa os saberes da ordem da ciência. Dessa forma, também constrói a sua identidade,
que não está dissociada do lugar social que ocupa e, por sua vez, da imagem projetada para
alguém que está inscrito neste lugar - o de jornalista comprometido com a linha editorial da
revista em que escreve, mas também comprometido com o entendimento do leitor e a “verdade”
da ciência. Produz, portanto, também efeitos de verdade em seu discurso.

Na SD2, o sujeito jornalista produz um movimento de subjetivação e incorpora o discurso da


ciência sobre os alimentos. Assim, julga-se autorizado, ainda que ilusoriamente, a produzir
explicações, conclusões (..é a medida do nível de glicose que o alimento gera no sangue; eles
elevam rapidamente a taxa de glicose no sangue e forçam o corpo a armazenar o excesso
dentro das células; o excesso do hormônio diminui o nível de glicose no sangue e a queda faz o
corpo pedir mais, gerando a sensação de fome; E não é só isso...), comentários (ou seja,
consumir muita comida com alto índice glicêmico pode aumentar a compulsão alimentar), e
até a dar exemplos (como grãos integrais e frutas; como pão e arroz brancos, batata e açúcar)
ao leitor. Ao produzir tal movimento, apropria-se de termos próprios a um determinado campo
do saber, como é o caso de índice glicêmico, glicose, carboidratos, insulina e diabetes e enuncia
desse lugar de fala, (re)significando ao leitor o discurso da ordem da ciência. Ocupa, portanto, a
posição sujeito de incorporação do discurso da ciência. Embora produza movimentos de
aproximação do leitor, inclusive incluindo-o ao seu dizer (quando comemos alimentos de alto
índice glicêmico, produzimos muita insulina de uma só vez), o jornalista não ocupa aqui a
posição de aderência ao discurso do cotidiano, já que ele não recorta elementos dessa ordem de
saber. E, ao incorporar o discurso da ciência, o jornalista produz gestos de interpretação e,
assim, sustenta a sua identidade de alguém que está autorizado a falar em nome da ciência e, ao
mesmo tempo, a produzir outros efeitos de verdade a partir do lugar de onde enuncia - a mídia.
Para entender melhor esse movimento de subjetivação do jornalista, retomemos o
funcionamento das posições-sujeito de incorporação do discurso da ciência e de aderência ao
discurso do cotidiano, presentes nas duas SDs analisadas. O que ocorre, no caso da posição de
incorporação, é uma apropriação do saberes que circulam na ordem da ciência, os quais são
(re)significados graças ao lugar discursivo no qual o sujeito do discurso se inscreveu e que está
determinado pelo lugar social e histórico, que, por sua vez, confere autoridade ao jornalista para
se colocar/falar como se estivesse no lugar do cientista. Já, na posição-sujeito que adere ao
discurso do cotidiano, não se produz uma apropriação, isto é, o sujeito não toma para si o dizer
do outro e fala desse lugar, mas simplesmente recorta e cola o dizer do outro em um espaço
discursivo próprio - neste caso, no discurso de divulgação científica. Embora o sujeito produza
apenas um movimento de aderência ao dizer do outro, esse movimento não está destituído de
um gesto de interpretação do jornalista, o qual é produzido como uma forma de resistência.
Observamos, então, nas seqüências analisadas, o jornalista se subjetivando através de duas
posições-sujeito - a de incorporação do discurso científico e de aderência ao discurso do
cotidiano - o que nos aponta para a heterogeneidade do discurso em análise. Retomando
Foucault, podemos, então, configurar o discurso de Divulgação Científica como um espaço em
que se configuram distintos lugares. Além dessas posições, a prática discursiva de Divulgação
Científica possibilita ao jornalista outras formas de subjetivação, se analisarmos outros tipos de
regularidades.

Ao ocupar a posição de incorporação do discurso científico, o jornalista fala da posição do outro


- nesse caso, do cientista -, apropriando-se do dizer desse outro como se fosse seu. Produz,
portanto, um efeito de autoria próprio, já que se sente autorizado a comentar, concluir, explicar
etc o discurso científico. Já, ao ocupar a posição de aderência ao discurso do cotidiano, o
jornalista não fala da posição do outro, mas a partir do discurso-outro. Ele recorta, cola dizeres
da ordem do senso comum e os inscreve, de forma própria, no discurso de divulgação científica.
E, por inscrever esses dizeres de forma própria, é que produz um gesto de interpretação,
podendo, assim, também produzir comentários, (re)significar dizeres, assim como o faz ao
ocupar a posição de incorporação. A principal diferença está, então, no modo como o sujeito
desse discurso se relaciona, via lugar discursivo, com a forma-sujeito histórica, na qual circulam
os saberes tanto da ordem da ciência quanto da ordem do senso comum.

Tais posições também representam formas de resistência às coerções que o jornalista científico
sofre ao falar desse lugar, ou seja, são diferentes modos de se subjetivar. Produzindo diferentes
gestos de interpretação - comentários, avaliações, etc - o jornalista vai inscrever o seu dizer no
intervalo entre a ordem da ciência, da mídia e do senso comum. Assim, constitui uma identidade
própria - de alguém que está sob a coerção da mídia e da ciência, mas que, ao mesmo tempo,
está autorizado por essas mesmas instituições a produzir efeitos de verdade.
Para finalizar, ocupando o lugar de analista de discurso, gostaria de enfatizar que os gestos de
interpretação que produzi para as seqüências analisadas só foram possíveis a partir das noções
teóricas que mobilizei, tanto em Foucault quanto em Pêcheux. Os efeitos de sentido que
emergiram desses gestos de interpretação estão atravessados pelas noções teóricas, as quais
norteiam todo o processo analítico. Para melhor entender as formas de subjetividade, o espaço
discursivo em que se movimenta o sujeito jornalista na prática de Divulgação Científica, o olhar
que lancei sobre as noções de discurso, sujeito e poder em Foucault foi fundamental, já que tais
noções se mostraram extremamente produtivas no diálogo com algumas noções da teoria da AD
e na análise que realizei, a qual mostrou que, apesar das determinações, das relações de poder
institucionais a que está submetido, sempre é possível ao sujeito resistir. Pois, como diria
Foucault, onde há poder, há resistência.

data: 2004-10-19 12:32:24