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ANTOLOGIA POÉTICA

FUVEST / UNICAMP /2010 Valdir Ferreira

AUTOR : Vinicius de Morais


ÉPOCA : Modernismo no Brasil (2ª. fase)
GÊNERO : Poesia Lírica
FORMA : Verso

1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Etimologicamente, antologia significa “tratado acerca das flores”


ou “coleção de trechos em prosa e/ou em verso”. Neste último sentido,
pressupõe-se uma coleção de textos escolhidos, selecionados. Outros
sinônimos: florilégio, seleta, crestomatia.
Em 1955, Vinícius de Morais organizou a 1ª. edição de ANTOLOGIA
POÉTICA, revista e aumentada por ele mesmo na 2ª. edição, em 1960.

2. LOCALIZAÇÃO DO POETA NA LITERATURA BRASILEIRA

Vinícius de Morais pertence à segunda fase do Modernismo


Brasileiro (1930-1945). Essa fase caracterizou-se pela estabilização das
conquistas da primeira fase (1922-1930), por uma prosa regionalista e por uma
poesia que extrapolou a temática do cotidiano, revelando uma preocupação
filosófica e religiosa em busca do universal.
Quanto ao aspecto formal, os poetas da segunda fase, além da
forma livre modernista, retomaram a métrica e a forma (soneto) tradicionais,
ambos desprezados pelos poetas da primeira fase.

3. CONSIDERAÇÕES SOBRE A OBRA

De acordo com o próprio Vinicius de Morais, na Advertência que


antecede a 2ª. edição, sua poesia apresenta duas fases.
A primeira engloba os livros O CAMINHO PARA A DISTÂNCIA,
FORMA E EXEGESE, ARIANA, A MULHER e parte dos poemas de NOVOS
POEMAS. Essa fase é marcada pelos aspectos espiritual, místico e religioso.
Nela há um constante choque entre a carne e o espírito, entre o sexo e a
religiosidade. Está intimamente ligada à fase cristã do autor.
De um modo geral, os poemas da primeira fase são longos, com
versos polimétricos, herméticos e escritos numa linguagem complexa.
A segunda inicia-se com o livro CINCO ELEGIAS, publicado em
1943, e continua nos demais: POEMAS, SONETOS E BALADAS, PÁTRIA MINHA,
LIVRO DE SONETOS e NOVOS POEMAS II.
Nessa fase, o poeta aproxima-se da realidade e do mundo material.
Liberta-se da inquietude e da angústia que marcam a primeira fase e passa a
aceitar a vida e a realidade.
Passando do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual,
-2-

do sublime para o cotidiano, Vinícius de Morais valoriza o erotismo e o social.


Além dos versos polimétricos da primeira fase, o poeta retoma o
soneto e a métrica tradicional: versos decassílabos e redondilhos. A linguagem
torna-se mais simples, direta e concisa.

OBSERVAÇÃO
Uma terceira fase poderia ser acrescentada. É a fase da música
popular do Vinícius compositor e cantor.

4. ASPECTOS TEMÁTICOS

São quatro os temas constantes na poesia de Vinícius de Morais:

• A Religiosidade
É o tema dominante nos dois primeiros livros. O amor físico é visto
como pecado. Merecem destaque os poemas O Filho do Homem, O Nas-
cimento do Homem, Três Respostas em Face de Deus e O Incriado.
Abaixo, versos de O Filho do Homem, poema que reflete sobre a
universalidade de Cristo.

“O mundo parou A noite o fez negro


A estrela morreu Fogo o avermelhou
No fundo da treva A aurora nascente
O infante nasceu. Todo o amarelou.

Nasceu num estábulo O dia o fez branco


Pequeno e singelo Branco como a luz
Com boi e charrua À falta de um nome
Com foice e martelo. Chamou-se Jesus.

Ao lado do infante Jesus pequenino


O homem e a mulher Filho natural
Uma tal Maria Ergue-te, menino
Um José qualquer. É triste o Natal.”

• A Presença da Mulher
A escolha da mulher como tema principal de sua obra poética
começa com o longo poema Ariana, a Mulher, publicado como livro em
1936. Nele, a mulher é vista espiritualizada, como um ser divino.
Posteriormente, ela é envolta em sensualidade e erotismo, aspectos
constantes nos demais livros de Vinícius de Morais. Exemplificando o
último aspecto, transcrevemos três estrofes de A Mulher que Passa.

“Meu Deus, eu quero a mulher que passa.


Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
-3-

Oh! Como és linda, mulher que passas


Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia


Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.”

• O Cotidiano
É o tema que se incorpora à poesia de Vinícius de Morais a partir
do livro POEMAS, SONETOS E BALADAS. Como exemplos, temos os
poemas A um Passarinho, Epitáfio, O Dia da Criação e Poema
Enjoadinho, o qual transcrevemos abaixo.

“Filhos... Filhos? Filhos? Filhos


Melhor não tê-los! Melhor não tê-los
Mas se não os temos Noites de insônia
Como sabê-los? Cãs prematuras
Se não os temos Prantos convulsos
Que de consulta Meu Deus, salvai-o!
Quanto silêncio Filhos são o demo
Como os queremos! Melhor não tê-los...
Banho de mar Mas se não os temos
Diz que é um porrete... Como sabê-los?
Cônjuge voa Como saber
Transpõe o espaço Que macieza
Engole água Nos seus cabelos
Fica salgada Que cheiro morno
Se iodifica Na sua carne
Depois, que boa Que gosto doce
Que morenaço Na sua boca!
Que a esposa fica! Chupam gilete
Resultado: filho. Bebem shampoo
E então começa Ateiam fogo
A aporrinhação: No quarteirão
Cocô está branco Porém, que coisa
Cocô está preto Que coisa louca
Bebe amoníaco Que coisa linda
Comeu botão. Que os filhos são!

• Preocupação Sócio-Política
Tema presente em poemas como A Bomba Atômica, A Rosa de
Hiroshima e Operário em Construção. Observem-se os versos abaixo
transcritos que pertencem a este poema longo, que é o último da
ANTOLOGIA POÉTICA de Vinícius de Morais.
-4-

“Era ele que erguia casas Mas ele desconhecia


Onde antes só havia chão. Esse fato extraordinário:
Como um pássaro sem asas Que o operário faz a coisa
Ele subia com as casas E a coisa faz o operário.
Que lhe brotavam da mão. De forma que, certo dia
Mas tudo desconhecia À mesa, ao cortar o pão,
De sua grande missão: O operário foi tomado
Não sabia, por exemplo, De uma súbita emoção
Que a casa de um homem é um templo Ao constatar assombrado
Um templo sem religião Que tudo naquela mesa
Como tampouco sabia — Garrafa, prato, facão —
Que a casa que ele fazia Era ele quem os fazia
Sendo a sua liberdade Ele, um humilde operário,
Era a sua escravidão. Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
De fato, como podia Banco, enxerga, caldeirão
Um operário em construção Vidro, parede, janela
Compreender por que um tijolo Casa, cidade, nação!
Valia mais do que um pão? Tudo, tudo o que existia
Tijolos ele empilhava Era ele quem o fazia
Com pá, cimento e esquadria Ele, um humilde operário,
Quanto ao pão, ele o comia... Um operário que sabia
Mas fosse comer tijolo! Exercer a profissão.
E assim o operário ia
Com suor e com cimento Ah, homens de pensamento,
Erguendo uma casa aqui Não sabereis nunca o quanto
Adiante um apartamento Aquele humilde operário
Além uma igreja, à frente Soube naquele momento!
Um quartel e uma prisão: Naquela casa vazia
Prisão de que sofreria Que ele mesmo levantara
Não fosse, eventualmente, Um mundo novo nascia
Um operário em construção. De que sequer suspeitava.”

5. COMENTÁRIOS SOBRE ALGUNS POEMAS

Texto 1: Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
-5-

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.


Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Esse poema, pertencente ao livro FORMA E EXEGESE, é um dos


primeiros em que há a tentativa de representar a mulher amada e a expe-
riência amorosa como ponto de encontro entre o espírito e a matéria.
Poema da primeira fase de Vinícius de Morais, caracteriza-se, do
ponto de vista formal, pelos versos longos, livres e brancos.

Texto 2: Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... Não cante


O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante


E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,


De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,


É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Poema que nos remete à lírica camoniana não só pela forma


(soneto), mas também pela temática do amor. Por meio de opostos — amigo
/amante, além / presente, eternidade / a cada instante — o poeta dá destaque
à oposição amor espiritual / amor material para expressar a plenitude do
amor.

Texto 3: Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
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De repente, não mais que de repente,


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Soneto dos mais conhecidos de Vinícius de Morais. É elaborado por


meio de antíteses (riso /pranto, calma /vento, triste /contente, próximo
/distante, fez-se /desfez) que revelam as mudanças inesperadas e repentinas
na relação amorosa entre o eu lírico e a amada.

Texto 4: A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças


Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Por meio de imagens — “crianças mudas telepáticas”, “meninas


cegas inexatas”, “mulheres rotas alteradas”, “feridas como rosas cálidas” — o
poeta nos aconselha a refletir sobre as desgraças causadas pela guerra e,
principalmente, por uma das mais terríveis criações humanas: a bomba
atômica, “a rosa radioativa” que destruiu a cidade de Hiroshima, no Japão, na
segunda guerra mundial.

Texto 5: Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
-7-

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem


Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
— Meu tempo é quando.

Trata-se de um texto curioso. Pelo número de versos (14) e pelas


estrofes (dois quartetos e dois tercetos), tem a forma de um soneto, embora não
haja rigor na métrica, o que revela liberdade e insubordinação do poeta ao ato
de criação poética.
Do ponto de vista do conteúdo, no primeiro quarteto, temos uma
sequência — manhã, dia, tarde e noite — que revela a passagem natural do
tempo, que é rompida no primeiro verso quando o poeta diz “De manhã
escureço”.
Esse rompimento confirma-se no quarto verso que apresenta
ambiguidade, pois o verbo “arder” tanto pode significar “brilhar”, “cintilar”,
como “abrasar-se”, “inflamar-se de amor”.
No segundo quarteto, o poeta, em mais uma atitude anticon-
vencional, o que já fizera do ponto de vista formal, revela que “o este é seu
norte”, ou seja, ele se guia pelo este e não pelo norte, diferentemente do que
todos fazem.
Nos tercetos, após estabelecer as oposições “morro ontem”, “nasço
amanhã”, ele nos revela que o importante para ele não é o que acontece, mas
quando algo acontece, afirmando “Meu tempo é quando”.
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