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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

P R E F Á C I O

 

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I. Verdades e Morais Relativas

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II.

A Posição do Homem Espiritual Diante das Religiões de Massa. A Religião Unitária e Científica do Futuro

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III. A Atual Fase Evolutiva da Sociedade Humana

 

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IV. Um Mais Avançado Conceito de Deus e da Vida

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V.

Arremesso e Correção da Trajetória da Vida. A Terapia dos Destinos Errados

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VI.

As Três Fases do Ciclo da Redenção

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VII.

A Técnica Funcional do Destino. A Futorologia e A Racional Planificação da Vida

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VIII.

A Nova Moral e A Técnica da Salvação

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IX.

A Resistência À Lei e Suas Conseqüências

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X.

O Problema do Karma e A Justiça de Deus

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XI.

A Função da Bondade e do Amor de Cristo Diante da Rígida Justiça da Lei do Pai

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XII.

O Homem Diante da Lei

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XIII. A Inteligência do Diabo

 

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XIV. O Conceito de Criação

47

XV.

As Conquistas Espirituais do Novo Homem do Futuro

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CONCLUSÃO

 

54

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)

página

de fundo

Pietro Ubaldi

A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

PREFÁCIO

Com o presente volume, vamos realizando o desenvolvimen- to da Segunda Obra, que constitui uma série de aplicações e consequências da teoria em que a Obra se fundamenta. Foi possível, desse modo, submeter a teoria a um controle experi- mental, colocando-a em contato com os fatos, para buscar a verdade e obter assim um sólido testemunho. O fato de que a prática confirma a teoria nos dá total segurança. Creio, pois, que mantive o compromisso assumido e cumpri

o dever de explicar tudo às almas sedentas de conhecimento.

Desejo-lhes que seja seu grande júbilo, como foi o meu, com- preender tudo e ver com clareza os grandes problemas da vida, saindo do estado nebuloso da fé e do mistério. De volume em volume, conduzi o leitor através do longo caminho do conhe- cimento, e agora, atravessado esse oceano, creio termos che- gado juntos ao porto. Ensinando-lhe a dar à vida um sentido altíssimo, pude demonstrar-lhe essa possibilidade de suprema utilidade, dando à minha própria vida uma expressão que a tornasse digna de ser vivida. Não ofereci fé, mas segurança; não apresentei mistérios, mas demonstrações; não convidei a crer, mas a compreen- der. De cada afirmação dei uma prova, baseada em fatos, e, finalmente, depois de tê-las exposto, ainda submeti as teori- as a controle experimental. Este é o estilo da nova religião científica, aquela que, sem negar as antigas, mas sim conti- nuando-as e demonstrando-as, torna necessária sua aceita- ção, assim como, para quem sabe pensar, é convincente tu- do aquilo que é racionalmente demonstrado e experimen- talmente controlado. Isso torna uma religião tão positiva e universal quanto a ciência, colocando-a acima da rivalidade

entre as divisões existentes. É conhecido o conceito de uma lei que tudo dirige. Mas não basta falar dela em termos gerais. Por isso, neste volume, adentramo-nos ao tema, para ver com que técnica funciona esta lei. O conhecimento alcançado é de extrema utilidade prática, porque explica as causas da dor e o modo como não semeá-las, evitando assim as suas consequências. Desse mo- do, aprende-se a conhecer qual é a gênese de nosso destino e

a

corrigi-lo, quando ele estiver errado. Verifica-se que a vida

é

canalizada ao longo de sua própria via de desenvolvimento

e,

assim, aprende-se a não viver loucamente, como acontece

com os involuídos, mas de forma inteligente como os evoluí-

dos, de acordo com uma técnica verdadeira, à qual se pode chamar de Técnica da Libertação. Este livro, portanto, é prático, utilitário e benéfico, por- que, através de uma cerrada psicanálise, nos conduz a Deus.

É um livro que, por meio de uma racional planificação da vi-

da, leva à redenção e à salvação. Mas, para compreendê-lo, seria bom ler os livros precedentes, os mais recentes, que de- ram origem a este, ou pelo menos um deles: “O Sistema”,

porque as referências à teoria ali exposta sobre o Sistema (S)

e o Anti-Sistema (AS) são frequentes. Terminei esse trabalho

em 1969, no meu octogésimo terceiro ano de idade, atraves- sando uma enfermidade que ameaçou matar-me. Mas o espí- rito venceu, a Lei funcionou como já descrevi neste volume, e assim posso lançar-me ao trabalho de um novo livro, a fim de que a Obra, nascida no Natal de 1931, esteja acabada no de- vido momento, isto é, no Natal de 1971.

I. VERDADES E MORAIS RELATIVAS

Vemos, na realidade, que a verdade é uma abstração. O que existe, de fato, são as pessoas que nela creem. Desta forma, uma verdade só existe na Terra enquanto vivem as pessoas que acre- ditam nela. Isto acontece porque não existe, em nosso mundo (AS), uma verdade universal. Assim encontramo-la, muitas ve- zes, fragmentada em infinitas verdades particulares, que são de- finidas pela percepção de cada indivíduo. Estas, porém, repre- sentam o ponto de partida e a matéria prima para a reconstrução da verdade universal do S, o que se consegue pelo princípio das unidades coletivas, isto é, por reagrupamentos sempre mais vas- tos de mentes que aderem a uma verdade particular, reciproca- mente atraídas por afinidade. Evolui-se, assim, em direção a unidades coletivas cada vez mais amplas, cujas partes, antes de se unificarem (S), enfrentam-se entre si para destruir-se (AS), uma acusando a outra de erro, enquanto não passam de aspectos diversos da mesma verdade, lutando para entender-se e, enfim, unificar-se. Que a evolução leve à unificação das verdades parti- culares, vemo-lo hoje na religião e na política, com a universal tendência à unificação, cuja finalidade é sanar o estado de cisão

e luta que prevalecia no passado. É assim que, através da unifi-

cação das verdades relativas particulares, chega-se à concepção

de uma verdade cada vez mais vasta. Certamente existe a verda-

de universal absoluta, mas ela é uma longínqua meta da evolu- ção e, hoje, para o homem, somente existe na medida dada pela

aproximação que ele atingiu da sua compreensão, em proporção

ao desenvolvimento de sua forma mental.

Então, o que de fato encontramos hoje, aqui na Terra, são agrupamentos de indivíduos de forma mental afim, que, por isso, defendem uma verdade comum, relativa a eles e válida para seu grupo. Assim as religiões são reagrupamentos de indivíduos que, pela raça, história, posição geográfica, grau de evolução etc., en- contram-se de posse de um dado tipo de forma mental, que pos- sibilita seu reagrupamento em torno de um determinado tipo de verdade e, portanto, em torno de um dado pensador-chefe, que a proclamou e que, ao morrer, deixou-a no mundo. Porém, se ela não corresponde à necessidade e gosto das massas, este guia, por maior que seja, terá falado aos surdos, inutilmente. O fundador faz sozinho a metade do trabalho do lançamento de uma religião.

A outra metade depende da aceitação por parte das massas, que,

depois, transformam e adaptam tudo às medidas e formas que su-

as necessidades e capacidades exigem para seu uso. Explica-se, assim, como as várias religiões do mundo conce- bem Deus e O adoram em formas tão diversas. Deus é o ponto

de convergência de todas elas, imensamente distante no Céu, onde todas se encontrarão unidas um dia no futuro. Uma religião

é a construção mental que o homem faz, para si mesmo, da con-

cepção que ele pode atingir de Deus relativamente à sua nature- za, dada pelo seu nível de evolução. Trata-se, portanto, de uma concepção particular, e não universal, portanto impotente para conseguir unificações mais vastas dos que as conseguidas pelo

próprio grupo religioso. Tais verdades, assim, não superam os limites do grupo. Aponta-se para o absoluto, mas o absoluto está no S, no alto da escala evolutiva, no extremo limite do grande caminho de subida, enquanto nós estamos no AS, inexoravel- mente mergulhados no relativo. É verdade que o universo está pleno de Deus, não havendo ponto, momento ou fenômeno em que Ele não esteja vivo e presente com Sua lei, que é pensamen-

to diretor e vontade atuante. Mas também é verdade que o AS é

um invólucro que encerra e isola o ser como uma barreira, sepa-

rando-o da capacidade de sentir aquela presença e mantendo-o aprisionado, até que, com a evolução, ele consiga rompê-lo. O estado atual do homem diante da verdade é, portanto, de separação, isto é, de cisão entre as muitas pequenas verdades isoladas, egocêntricas e em luta entre si. Enquanto o involuído permanece fechado nos estreitos confins da sua pequena verda- de individual, em antagonismo com a dos seus semelhantes, o

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Pietro Ubaldi

evoluído é, ao contrário, levado a conhecer verdades sempre mais universais. Com a queda, a unidade do conhecimento se fragmentou num caos de pequenas verdades rivais, em posição

de disputa. Explica-se assim não só o atual estado divisionista, mas também o processo, hoje em ação, de reunificação, em grupos cada vez mais vastos, dessas verdades separadas, que são, na realidade, apenas diversos aspectos e modos de conce- ber a mesma verdade, mas que, por não se conhecerem, conde- nam-se reciprocamente. No entanto o processo evolutivo é de unificação, e ele já se iniciou e se realizará sempre mais no campo religioso, assim como para as nações no campo político. Com a queda, o ser se fechou nos limites dimensionais do espaço e do tempo. Assim, a forma mental humana, que é seu instrumento, foi construída em função de tais limites. O ponto de partida e de referência para cada concepção do indivíduo foi

o terreno de sua propriedade, sobre o qual está a casa em que

vive com a própria família. Eis, então, a ideia de confim e de defesa contra os invasores, que são estranhos e estão ao seu re- dor, desejando entrar, como se entrassem nos próprios terrenos, para roubar as mulheres e os haveres, a fim de satisfazer às du- as necessidades básicas da vida: sexo e fome, correspondentes às necessidades de sobrevivência da raça e do indivíduo.

É sobre esse esquema que se constrói o castelo, para guerre-

ar contra todos. Hoje, esse castelo não tem muros e fossas, mas

barreiras legais, econômicas, morais e sociais. O princípio é o mesmo, quer se trate de indivíduos ou de povos. Luta-se para invadir e para não ser invadido, em todos os campos e níveis. O homem levou consigo, para o campo espiritual, essa forma mental. Assim, ele constrói a sua própria visão da vida, constituída pela sua verdade, aquela que mais lhe serve para viver. Ele a considera como sua propriedade e a defende con- tra as outras verdades, as quais, por sua vez, são construídas por outros homens, que igualmente as defendem e delas se servem como propriedade sua. Temos, assim, verdades limitadas, para uso próprio, relati- vas a cada um, ciumentas, inimigas uma da outra. Estão sepa- radas, mas cada uma é um centro de consciência e conheci- mento, constituindo um foco em expansão. Cada verdade ten- de assim a dilatar-se, invadindo o campo da consciência e da vida do outro. O princípio imperialista é uma qualidade hu- mana que se revela em cada manifestação, tanto no terreno político como no religioso, dando lugar a guerras que, na substância, são da mesma natureza.

É assim que, à maneira de cada povo, cada religião tende

à conquista e, além de ser proselitista e dogmática, quer in- vadir e dominar as consciências. Daí vem a intransigência e

o absolutismo egocêntrico, surgindo então o fenômeno do

imperialismo religioso. Tudo isto tem uma explicação. Com a queda, a verdade se fragmentou em inúmeros momentos separados, egocêntricos

e inimigos, em luta para sobrepor-se um ao outro, gerando o

caos. Para fazê-los voltar ao estado de ordem, em posição unitária, não há outro modo senão reagrupar, gradualmente, em unidades sempre maiores, os elementos rebeldes e sepa- rados, impondo-lhes à força uma disciplina contra a sua von- tade de desordem e separatismo. Esta é, de fato, a história e a técnica construtiva dos agrupamentos humanos, tanto políti- cos como religiosos. Temos sempre um chefe que, com mei- os materiais e espirituais, faz de si o centro e se impõe por um poder superior. Temos assim a fase do conquistador, de- pois a do poder e, por fim, a do expansionismo imperialista. Tudo depende da natureza humana, constituída por uma for-

ma mental que é aplicada a tudo o que se faz e se constrói. No entanto, se temos um imperialismo religioso, também te- mos uma verdade em contínua expansão, resultado de uma contínua conquista. A necessidade de evoluir está na base de nossa vida e justifica, em qualquer campo, o método imperia- lista expansionista de conquista dominadora, porque esse é

um meio para chegar à unificação, que é um dos grandes fins da evolução. Vemos assim como tudo funciona e encontra a sua justificação e explicação lógica. ◘ ◘ ◘ Não só no campo da verdade e da religião encontramos indivíduos que as aceitam, transformando-as em verdades e religiões particulares para uso próprio. Também no campo da moral, não encontramos uma única e universal, mas tan- tas quantas são as consciências individuais. Não falamos aqui da moral oficial, altamente proclamada e pregada, para uso da massa, feita de normas gerais, que deveriam regular- lhe a conduta. Isto é o que se diz, mas falar serve frequente- mente para mascarar o que se faz. Falamos aqui da verdadei- ra moral, aquela que, apesar de ninguém mostrar, é aplicada conscientemente por todo indivíduo, segundo sua própria na- tureza e forma metal, as duas únicas bases que ele possui pa- ra julgar e se orientar. Esta é a moral da qual somos verda- deiramente convencidos, mas que fica escondida, por ser po- sição de batalha e arma na luta pela vida. Dessas morais individuais existem tantas quantas são as posições de cada um ao longo do caminho evolutivo. Os ínti- mos julgamentos variam de acordo com as posições assumi- das, que representam o ponto de vista pelo qual cada um olha

o mundo. Assim, um involuído julgará tolo um evoluído que

se sacrifica pelo ideal e, do sacrifício deste, só perceberá o modo de aproveitá-lo em vantagem própria. Por sua vez, um evoluído se ofenderá com o modo materialista pelo qual o in- voluído entende a religião, limitada a práticas exteriores, va- zias de espiritualidade e, ainda pior, reduzidas a dogmatismo, fanatismo, proselitismo e intransigência agressiva contra ou- tras religiões. Tais métodos são contra a moral das religiões, porém, mesmo assim, são usados, porque correspondem a ou- tra moral, aquela real, aplicada aos fatos.

Esta não é a moral ideal, que o futuro haverá de realizar através da evolução, mas é a presente, tal qual se vive. Uma

moral biológica, que funciona na realidade, não fundada sobre

a compreensão e a cooperação, mas sim na luta para impor-se,

porque só o vencedor tem direito à vida. A outra moral é ape- nas teórica, sendo repetida em voz alta para esconder o estado de involução em que ainda se encontra o animal humano. A praticada de fato é esta moral biológica, egoísta e estritamente utilitária, anteposta a um fim importantíssimo, que é a defesa da vida, continuamente a ameaçada por um mundo hostil. Ora, isto não significa que o homem, por segui-la, seja mau ou tenha má fé, só pelo fato de não praticar a moral que ele de- fende em palavras. Simplesmente ele não está amadurecido pa- ra saber viver ao nível do ideal, aplicando-lhe os princípios. Ele não é imoral, mas amoral.

Imaturidade não é maldade. Portanto ele não é culpado. Simplesmente cuida de resolver o problema mais urgente: so- breviver, tratando de ser prudente para não se arriscar em peri- gosas explorações nas desconhecidas terras do ideal. Deixa tu- do isso para o futuro e pensa que, havendo a eternidade, não há

por que se apressar. Fica então ligado à matéria, à parte anima- lesca, apoiando-se na mais segura realidade biológica. Ele tem boa fé, porque, no seu nível de evolução, toda a consciência que ele, por haver conseguido formá-la no passado, possui ago-

ra fruto de uma longa experiência conquistada através de du-

ras provas assevera-lhe que é necessário permanecer utilita- rista, sem se deixar desviar por caminhos perigosos, e continu- ar, portanto, em busca de vantagens imediatas e concretas, permanecendo positivo antes de qualquer outra coisa. Tudo o que se faz por instinto é um produto do inconscien- te, onde funciona a inteligência da vida, substituindo a do indi- víduo, ainda insuficiente para orientá-lo. A verdade é que o homem faz as coisas mais importantes da sua vida, como nas- cer, reproduzir-se e morrer, movido por forças que desconhece, com muito pouca liberdade de escolha.

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Num tal mundo de involuídos, o evoluído surge como um re- volucionário que busca antecipar os tempos e se destaca do nível das massas, pretendendo acelerar-lhes o ritmo evolutivo, esforço

que elas se recusam a realizar, porque isso significaria precipitar os lentos deslocamentos de sua maturação. Não obstante, vários profetas foram aceitos, e isto significa que eles também são úteis

à vida, porquanto ela os produz e os aceita, não importando as adaptações necessárias para se chegar à aceitação. Embora, num primeiro momento, isto possa parecer escan-

daloso, pela falsificação dos ideais, vê-se, depois de um exame mais amadurecido, que tudo não passa de um calculado desen- volvimento de forças, canalizadas em sentido pragmático, a fim de que todas deem o maior rendimento possível, segundo a sua natureza, para o bem do ser, que deve ascender. Ora, se a vida, cujo funcionamento é dirigido pela Lei, que é o pensa- mento de Deus, aceitou o ideal na sua economia, embora so- mente na medida em que esse ideal pudesse ser utilizado se- gundo a maturidade atingida pelo homem, tudo isso prova que

é necessária a descida do ideal à Terra. Assim o surgimento de

profetas, santos e gênios sempre produz certo rendimento bio- lógico, em sentido positivo. Cristo, apesar de tudo, sobreviveu no mundo, em virtude do fato de terem as massas, no seu in- consciente, por instinto de evolução, percebido, embora de forma nebulosa, que Ele, num certo sentido, como aspiração a realizações distantes, representava uma forma de utilidade. Assim, descem à Terra os ideais, como uma chuva benéfi- ca sobre a selva árida e feroz. Vagam aqui e ali, alimentando

o cimo das árvores mais altas, prontas para recebê-los e assi-

milá-los. Em baixo, permanece a selva árida e feroz, onde os seres, continuando os mesmos, só podem ver com os olhos que têm e agir segundo sua própria natureza. Tal comporta- mento é considerado correto por eles, dentro da perspectiva da sua verdade, relativa ao seu nível de evolução, verdade esta,

porém, que pode ser um terrível erro para quem vive em posi- ção mais avançada. Os delinquentes, à sua maneira, acreditam estar certos, do mesmo modo que a fera, quando devora a ví-

tima, está certa no nível da fera. Que ela esteja vivendo a sua verdade prova-o o fato de que não se engana, pois, com tal conduta, resolve o problema maior, que é o da sobrevivência.

A culpa da besta está apenas no fato de ser obrigada a resolvê-

lo daquela maneira, enquanto que o homem civilizado pode permitir-se o luxo de resolvê-lo sem catástrofes e risco de vi- da, chegando a culpar aquele que não procede do mesmo mo- do. No entanto ele também se encontra diante do mesmo pro- blema de sobrevivência e o sente tão vivo, que tenta resolvê- lo não só na Terra, mas também depois da morte, no Céu, pois, se faz sacrifícios, é apenas com essa finalidade. Assim, para um selvagem, na sua inocência, pode parecer justo roubar e matar, quando isso lhe servir para a sua sobrevi- vência. Ele terá remorso e se julgará inepto, se não tiver rouba- do e matado suficientemente, porque sua consciência animal lhe diz que faz bem quando age em benefício próprio. E que ele age bem é provado pelo fato indiscutível e convincente à sua consciência de que, matando e roubando, obtém vantagens. O bom sabor da carne humana e o bem-estar do ventre saciado persuadem, de forma indubitável, o antropófago de que comer o homem branco é coisa boa. Da mesma forma, a posse da botina roubada, que permite gozar melhor a vida, persuade o ladrão de que é ótimo roubar sem se deixar prender. Assim, usar a astúcia para enganar a boa fé dos honestos, pela vantagem que deles obtêm, também persuade o astuto de que a hipocrisia é louvá- vel. Cada um, no seu nível, está certo e, na sua ignorância, tem razão. O ser involuído é, pois, a seu modo, inocente. Mas isto não impede que cada um receba o que merece, ou seja, a pena máxima, e esta não é, como se pensa, ficar momentaneamente derrotado na luta, mas sim ser uma criatura daquele nível, no qual deve permanecer, quem sabe por quanto tempo, mergulha- do nas trevas e nas dores relativas a ele.

II. A POSIÇÃO DO HOMEM ESPIRITUAL DIANTE DAS RELIGIÕES DE MASSA. A RELIGIÃO UNITÁRIA E CIENTÍFICA DO FUTURO.

“A hipocrisia é o câncer das religiões. Ela as corrói até matá-las”.

Observemos um caso particular da consciência e do com- portamento que deve seguir o indivíduo espiritualmente mais sensível que a média, ligado a uma religião mais de substância que de forma, porém ainda enquadrado, na prática, dentro das normas impostas pela forma mental das massas. Há na sociedade indivíduos profundamente espiritualiza- dos, que, por isso, custam a entrar na corrente em que se en- contra a maioria. Muitas vezes é a força do número que estabelece a lei e a verdade. Quando o erro é da maioria, não é julgado erro, mas sim verdade; e quando a verdade é de uma minoria, não é jul- gada verdade, mas sim erro. Parece que a verdade, quando não está munida de alguma força para se fazer valer, perde o valor, reduzindo-se a uma afirmação teórica que não se pode realizar. Retirando-se de qualquer doutrina a força que lhe confere o número de seguidores, ela ficará uma ideia desvalida e só, não sendo mais levada em consideração, ainda que seja bela e per- feita. Por isso cada religião se apoia no proselitismo, que cor- responde ao imperialismo no campo político, o valor prático de cada grupo, advindo do seu poder de conquista e domínio. Que deve fazer, então, o indivíduo em minoria? Ele poderia escolher um dos vários caminhos já existentes e adaptar-se às preferências da maioria, mas isto representaria para ele uma re- ligião apenas de forma, escassa em substância. Adaptar-se e aceitar tal mentalidade significaria renunciar à vida espiritual vi- vida em profundidade, isto é, mutilar-se nas regiões mais altas do seu ser. Isto, para quem é espiritualizado, é a mais penosa e também danosa das experiências, constituída pelo retrocesso in- volutivo, que o leva a viver num nível espiritual mais baixo. Diferentemente das massas, que fizeram de Deus uma re- presentação para seu uso e consumo, reduzida às dimensões do que podem conceber, o indivíduo mais evoluído tem Dele ou- tro conceito. O homem mediano concebe um Deus antropo- mórfico, feito à sua imagem e semelhança. Ora, uma redução em tão estreitos limites é inaceitável para quem pensa mais profundamente. O homem mais evoluído concebe Deus como o sábio pensamento que funciona em cada forma e fenômeno, em toda parte e sempre presente, ao qual é preciso prestar con- tas em cada movimento. Tal pensamento regula a todos através de uma lei estabelecida com exatidão, a qual não se pode vio- lar sem pagar as consequências. Trata-se de conceitos positi- vos, racional e experimentalmente controláveis, de que a ciên- cia pode apoderar-se para construir uma nova religião, baseada na lógica dos fatos e, portanto, universal. Como se vê, neste caso, o problema religioso é colocado de forma diferente. Mas, ao invés de abrir as portas a tais concei- tos, mais aceitáveis pela ciência, as religiões insistem naqueles antigos, que parecem feitos justamente para empurrar as mentes cultas a uma sumária negação, terminando na irreligiosidade do ateu. A esses resultados podem levar os velhos métodos. Quando uma religião impõe o conceito de um Deus exclusi- vamente pessoal e transcendente, o evoluído espiritualizado, embora desejando obedecer, pode dizer a si mesmo: “Mas eu não posso aceitar, porque os fatos me falam da imanência de Deus em todo o universo. É verdade que Ele é o centro do uni- verso e, por isso, pode ser entendido também de forma pessoal, mas isso não me impede de ver que Ele também é periférico e, assim, está presente em tudo que existe. Concebendo-o assim, sinto a Sua presença e não posso negá-la para admitir um Deus imensamente distante, que se ausenta da sua criação, isolando-

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Se na Sua transcendência, pois, se assim fosse, tudo morreria no mesmo instante. E eu preciso desta Sua presença para viver, pois sinto que, relegando Deus a tão imensa distância, tal sepa- ração me mataria. Sei que Deus está presente em tudo, como pensamento diretor e como dinamismo animador de todas as formas de existência, nas quais Se exprime. Assim, em todas as criaturas e também em mim Deus está presente. Eu sou célula do Seu organismo vivo, formado por todos os seres, e devo, por conseguinte, pensar em uníssono com o pensamento daquele organismo, que dirige todos os movimentos, e funcionar segun- do os princípios que o regem, isto é, segundo a lei Dele. Certa- mente, Ele é o Eu central do organismo do todo. Como aconte- ce conosco, o eu central não se isola dos elementos que o com- põem, existindo também em cada célula, que só pode viver em função dele, em estreita união e comunhão com ele. Deus é a vida presente em toda a parte. Retirai do ser este liame e ele morre. Deus é a existência. Um isolamento de Deus na sua transcendência destruiria a criação, porque O retiraria da cor- rente da existência. Não sei se isto é panteísmo, mas sei que não posso renunciar a esta presença de Deus, porque é essa pre- sença que me faz vivo na eternidade. Tal renúncia romperia o fio da minha vida que me une a Ele, de Quem a recebo”. Compreender e viver tudo isso é fundamental para o ho- mem espiritual, mas pouco interessa às massas. Não se trata de abstrações teológicas, mas do modo de conceber a vida e de realizá-la diferentemente da maioria, com resultados diver- sos, aos quais não pode renunciar quem os conhece. Muitos solucionam os elevados problemas espirituais, como os da consciência e do conhecimento, de modo muito fácil, sim- plesmente ignorando-os ou suprimindo-os, para se ocuparem somente do estômago e do sexo. Desse modo obtém-se a van- tagem de simplificar a vida, suavizando a fadiga da luta, que fica reduzida às conquistas mais elementares. Tudo isso se explica. A força da evolução é poderosa e conduz ao S, sendo essa redenção a lei fundamental e a razão da vida. Mas a tudo isto se opõe outra força, também podero- sa, constituída pela involução, que tende ao AS. Esta conduz a uma descida sempre mais acentuada. É a negação que leva à perdição, opondo-se à positividade salvadora. Eis o que signi- fica o retrocesso involutivo a que se reduziria o homem espiri- tual, caso se adaptasse ao nível das massas, que gostariam de detê-lo no seu plano. A posição delas é completamente diferente. Não possuem a força da evolução e não saberiam usar a autonomia espiritual, se a tivessem, por isso não a desejam. É necessário compreen- der-se também a sua forma mental. Para viver, a ovelha neces- sita de um rebanho e de um pastor que a conduza. Deixada so- zinha, em liberdade, não sabe aonde ir e se perde. A autonomia, que para a pessoa evoluída e espiritualizada tem um valor ines- timável, não é para a ovelhinha uma vantagem, mas sim um pe- rigo ou um dano. Explica-se assim como funcionam as religi- ões, com sua estrutura hierárquica de rebanhos e pastores, a qual exprime os valores desses seus termos e corresponde à na- tureza dos vários elementos biológicos que a compõem. Se os pastores comandam, é porque as ovelhas não sabem se dirigir sozinhas e têm, portanto, necessidade de alguém que lhes preste este serviço. Por isso elas são obedientes, pois com sua submis- são recebem benefício. A vida é sempre utilitária. Formam-se assim o grupo e o espírito de grupo que man- tém unido o rebanho sob a tutela do pastor. E, quanto maior o grupo, maior é seu poder. Por extensão progressiva vai reali- zando-se gradualmente o processo de coletivização. Mas tra- ta-se ainda de um sistema de massificação submetido a um pastor que, como patrão, impõe a ordem com regras próprias de disciplina. Com esse biótipo (ovelha), não é possível ir mais adiante, além da estrutura pastor-rebanho, a única alcan- çável pelo nível atual. Um mais avançado tipo de coletiviza-

ção, para o qual está pronto o indivíduo evoluído, que poderia realizá-lo, se encontrasse um ambiente humano do seu tipo, é composto de indivíduos autônomos, espontaneamente irma- nados em consciente colaboração, visando obter uma vanta- gem comum. Mas as organizações humanas de qualquer gêne- ro não alcançaram ainda tal nível evolutivo. Segundo as leis da vida, para poder dirigir, é preciso ter as qualidades necessárias, e quem não as tem deve obedecer. Li- berdade e comando significam responsabilidade. Inaptidão e preguiça levam a um estado de sujeição. Todos desejariam eli- minar o reverso da medalha e ser gratuitamente servidos. Mas é preciso pagar-se com a obediência o serviço prestado por aque- le que dirige. Não obstante, é preciso aprender a se autodirigir. Se, até ontem, as massas ficaram submetidas, isto ocorreu por- que, devido à sua imaturidade e inércia, preferiram a via da pa- ciência, para elas menos cansativa e menos arriscada. Outra via pode ser escolhida pelo indivíduo mais evoluído, que se encontra em minoria. Trata-se agora não de um enqua- dramento para uma verdadeira adaptação, mas apenas de uma falsa condescendência, mimetizando-se externamente na apa- rência. Este é o caminho da hipocrisia. Quando não há outro meio, a vida costuma usar a mentira como elemento de concili- ação entre opostos. É um acordo na aparência, limitando-se a esconder a dissensão, a qual permanece, porém já não franca e visível, mas tão distorcida, que poderia parecer consenso. Isto se justifica enquanto é uma tentativa, uma antecipação daquela verdade, à qual se chega somente pela evolução. Mesmo assim, este método ainda é um modo de chegar a uma convivência pa- cífica, o que é preferível a um estado de guerra.

A vida, que é utilitária, escolhe sempre o caminho do me-

nor esforço e maior rendimento. Mesmo sendo a mentira um remédio de ínfimo grau (os mais evoluídos a rejeitam com desprezo, resolvendo os problemas com inteligente sincerida- de), é neste sentido pragmático que a vida aceita a hipocrisia, quando é obrigada a recorrer a ela, porque, em face da involu- ção do indivíduo, nada encontra nele de melhor. Obviamente, mentir não é honesto, sendo necessária muita insensibilidade moral para adaptar-se à mentira. Mas, quando o acordo não é conseguido em sua reta posição, a vida tenta consegui-lo numa posição falsa, invertida, que, mesmo não sendo uma concor- dância, é, pelo menos, um tácito compromisso, que, bem ou mal, já aproxima as duas partes contrárias e permite uma pri- meira forma de pacífica convivência entre opostos. Eis a fun- ção biológica da mentira. Assim se explica por que a vida, ho-

nestamente utilitária, recorre a tal artifício, seguindo a lógica do seu princípio do mínimo esforço.

O indivíduo pode adaptar-se e assumir a forma mental reli-

giosa imposta pela maioria, quando ele é involuído, detentor da- quela sensibilidade que permite tais sedimentos morais. Mas a isto não se adaptará um evoluído, detentor de outra sensibilida- de, que torna impraticável para ele o método da hipocrisia. Tal método resulta válido, sobretudo, para os menos evoluídos, sen- do útil para esconder a forma mental que os leva a desfrutar da religião por interesses materiais, tais como obter respeito, auto- ridade, posição social e o bem-estar que tudo isso traz junto. Se nem a adaptação sincera nem a hipocrisia são aceitáveis para o indivíduo mais evoluído, que se encontra em minoria, há para ele um terceiro modo de resolver seu caso: o isola- mento, que pode parecer a muitos como indiferença religiosa, ausência espiritual, descrença e ateísmo, sendo por isso causa de escândalo. Tal método é condenável perante o mundo, mas, diante de Deus, é melhor que os outros dois, porque evita o retrocesso involutivo do primeiro e o decaimento moral im- plícito no segundo. De fato, é excelente o espírito de concilia- ção que lubrifica os atritos e atenua os choques, mas não des- sa forma. Reduzir uma religião a uma forma de hipocrisia é menosprezar Deus, sendo necessário um alto grau de insensi-

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bilidade moral para fazê-lo. É preferível um ateísmo sincero e convicto a uma falsa religiosidade.

Como se vê, nos dois casos, o modo de conceber a vida é completamente diverso, levando consequentemente a uma éti- ca e a um comportamento também diferentes. As religiões ofi- ciais são o resultado de um longo processo de adaptação da ideia-mãe que as gerou, aos instintos, inclinações e necessida- des humanas desenvolvidos no inconsciente das massas. O homem espiritualmente evoluído permanece fiel à ideia-mãe e rejeita as acomodações. E daí surge a dissensão. Ora, esta ade- são à ideia-mãe não é utopia, porque ele não a admite cega- mente de um profeta fundador de religião, mas controla-a e aceita-a enquanto lhe é confirmada pela observação do funcio- namento que dirige tudo o que existe, isto é, por um fato expe- rimentalmente positivo e universal. O homem não tem consciência da presença nem ideia do poder absoluto de tal pensamento e, resistindo e colocando-se em contradição a ele, não compreende que cataclismos atrai. Na sua ingenuidade, crê até que a lei de Deus possa ser enga- nada e que dela possa fugir com astúcia. A Lei, no entanto, impõe um equilíbrio inviolável, segundo uma justiça calculá- vel com exatidão matemática, estabelecendo uma moral férrea, que realmente funciona, em lugar da moral do mundo, elástica

e cômoda, mas enganadora.

Quem segue a moral da Lei sabe que todo abuso produz uma privação na mesma proporção; sabe que, para colher, precisa semear; que, para receber, é preciso dar. Quem roubou deve res- tituir, e isto não significa dar apenas uma esmola, mas sim de- volver tudo o que foi roubado, mais os juros e os ressarcimentos dos prejuízos causados. Enquanto isto não for feito e o método de ação não for mudado, aquele roubo produzirá miséria. Pela mesma lei, toda generosidade produz abundância. Isto parece contradição, porque o resultado obtido é o contrário do que se queria. Mas este fenômeno se explica. Se nossa ação tivesse a direção da Lei, os resultados positivos corresponderiam à natu- reza positiva do impulso que os produziu. Mas, como estamos situados no AS, isso significa que a direção predominante da nossa ação é no sentido anti-Lei. Eis porque, no campo do fe- nômeno, temos um impulso determinante de sinal negativo, ao qual só podem corresponder resultados negativos. O AS é um campo emborcado e só pode emitir impulsos deste tipo. Porém o ser aí situado gostaria de, ao emitir o impulso negativo, obter re- sultados positivos. Mas, naturalmente, está enganado e então grita que a vida é uma ilusão. No entanto iludido é somente ele, que, devido à posição invertida na qual o AS foi construído, fa- talmente entende tudo ao contrário. Seria absurdo tentar conse- guir resultados de sinal positivo, lançando a trajetória em dire- ção oposta. A causa só pode levar a efeitos do mesmo sinal. Que acontece então? O AS, que é feito de revolta, preten- deria a vitória do erro. Isto, porém, é impossível, porque o senhor é o S, ou seja, Deus. A ação produz o efeito contrário ao desejado, pois, em vez de dirigir-se no sentido correto, vai para o sentido oposto e assim, em vez de conseguir o fim de- sejado, produz a reação da Lei, que arrasta no sentido de en- direitar novamente a posição errada, levando o ser a obter re- sultados opostos aos desejados. Para quem compreende o seu funcionamento, o fenômeno é evidente. Quase sempre é igno- rada a presença ativa da Lei, que se interpõe entre a ação do ser e os resultados por ele buscados. Assim, embora o desen- volvimento do fenômeno dependa dela, e não do arbítrio in- dividual, não se leva em conta a sua presença. Quando há conflito entre a vontade da Lei e a do ser, verifica-se então o surgimento de uma força, denominada reação, por parte da primeira, tendendo a corrigir na direção do S o movimento anti-Lei. Trata-se de uma ação salvadora, porquanto reconduz

a negatividade à positividade, endireitando desse modo a po-

sição invertida do AS na direção justa do S. Assim, a conclu-

são da ação anti-Lei é um resultado segundo a Lei. É nesta técnica que está o segredo da salvação universal.

Para o ser situado no AS, dirigido em sentido contrário, is-

to parece um erro, porque ele não consegue a alegria que bus-

cava, mas sim dor; não obtém o sucesso, mas sim a derrota. Ele não compreende a razão de não conseguir os seus objeti- vos, mas aquela dor e aquela derrota o salvam, sendo este o caminho pelo qual ele alcança os fins da Lei, que são a seu fa- vor, e não contra. O fim último é a salvação, e o ser o atinge contra a sua vontade, sendo obrigado pela Lei a mover-se na direção contrária àquela por ele escolhida no início dos seus movimentos. Explicamos assim como a procura da felicidade, feita com os métodos do mundo, termina sempre na dor, isto é, exatamente no ponto devido, seguindo o caminho justo, que leva à correção do erro, e não ao sucesso do mal. Tudo se explica e se resolve quando se compreende este jogo entre forças opostas, positivas e negativas, do apocalípti- co conflito entre o bem e o mal, dirigidas fatalmente para a vi- tória do bem. É assim que, sem mistérios, com lógica eviden- te, pode-se compreender quais são as vantagens de viver na ordem da Lei, em vez de na desordem da anti-Lei. Essa é a prova de que viver honestamente, segundo o S, não é uma po- sição de fracos, iludidos pelas teorias moralistas e condenados pela realidade da vida, mas sim o método mais vantajoso, porque é o único que conduz à vitória final.

Descobrimos, dessa forma, quais os meios de defesa forne- cidos pela Lei aos justos, que parecem inermes no mundo. Es-

tes jamais são abandonados pelo S, que está sempre vivo e pre- sente também no AS, como uma alma a sustentá-lo em seu ín- timo. O homem que vive segundo a Lei e, com isso, põe-se no campo de ação direta do S, é mais potente que o homem que vive contra a Lei, na posição inversa e negativa do AS. Deste mecanismo a ciência ainda nada sabe, no entanto ele funciona.

A tentativa de inverter o S em AS embora constitua uma lou-

cura, porque só serve para despertar na Lei reações que depois

se pagam com a própria dor é continua. No entanto seria pos-

sível, com uma reta conduta, lançando essas forças na direção justa, recolher o bem ao invés do mal e construir destinos de paz e de alegria, em vez de ansiedades e sofrimentos. Queira ou não, o homem vive dentro da Lei, como um peixe dentro do mar. Este, por mais que tente rebelar-se, não pode existir senão enquanto está dentro da água, assim como

o homem não pode viver sem a atmosfera terrestre. Em nossa

vida, quando fazemos mau uso de uma coisa boa, tentando re- alizar a inversão de valores, vemos que ela se torna má para nos envenenar. Diante do abuso, não há outro remédio senão o justo pagamento, que corrige a inversão, recolocando-nos na ordem, de acordo com a Lei. Assim, quem quer libertar-se das consequências do mal feito, não tem outro meio senão fazer outro tanto de bem. A compensação entre dois impulsos, posi-

tivo e negativo, deve ser exata. Para retornar ao ponto de onde

se desceu, é preciso refazer para o alto todo o trecho percorri-

do até embaixo. Orar e invocar é útil, mas só como acessório.

O problema não será resolvido até que todo o trabalho da su-

bida e do pagamento tenha sido realizado.

III. A ATUAL FASE EVOLUTIVA DA SOCIEDADE HUMANA

Na Idade Média o domínio era dividido entre a autoridade

espiritual e a temporal, entre o pacífico poder religioso e o guerreiro poder civil, entre a cruz e a espada, entre o papado e

o império. As comunidades humanas se agrupavam em torno

do templo e do castelo. Prevaleciam, pois, os dois tipos bioló- gicos: o religioso e o guerreiro. O único elemento produtivo, o

tipo do trabalhador, ficava-lhes submetido como servo, à custa de quem eles se mantinham. Somente hoje o tipo do trabalha-

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dor foi valorizado. Trata-se de um deslocamento de base, que mudou toda a ética e os princípios sobre os quais se apoia a organização da sociedade. Isto se deveu às condições de vida alcançadas, aos novos conceitos diretivos agora adotados e à reorganização do rebanho humano em novas formas. Pela pri- meira vez na história, a coletividade se encontra desperta em vasta escala, sente-se a si mesma e, como tal, forma uma cons- ciência, de modo que as massas trabalhadoras se afirmam, fa- zendo valer as suas forças e conseguindo reconhecimento do seu valor econômico como produtoras de bens. Disso segue-se que seu advento e seu triunfal ingresso na história levaram ao enfraquecimento da importância e ao processo de decadência dos outros dois elementos sociais: o religioso e o guerreiro. E este é, de fato, o fenômeno a que assistimos hoje. A sociedade tende sempre a valorizar os elementos produtivos e a deixar de lado, como inúteis, os improdutivos. Pergunta-se qual a utili- dade desses dois tipos, que coisa produzem para a sociedade, e, quando se vê que são passivos, tende-se a eliminá-los. O conceito de produção pode estender-se a um amplo sentido, in- clusive como obtenção de valores espirituais e morais, também úteis à coletividade. Trata-se de um utilitarismo lato sensu, e não daquele restrito à moderna economia de consumo. Assim, o problema da vida é colocado em bases totalmente diferentes, fundamentando-se no trabalho produtivo, e não no domínio imposto sobre as massas ignorantes e desorganiza- das, que, por isso mesmo, são fracas e, portanto, facilmente subjugáveis, seja com a força das armas materiais, seja com a força das armas psicológicas e espirituais. Mesmo nestas con- dições, vemos a sabedoria e a bondade da lei de Deus, que di- rige a vida. Estes estados de sujeição são dolorosos, e a dor, que é o grande mestre, ensina, porque obriga o ser a pensar, para compreender a sua origem e, assim, conseguir evitá-la. A dor desenvolve a inteligência, e isto significa evoluir, repre- sentando consequentemente a solução de todos os males e o maior bem possível. Todos os indivíduos subjugados acabam sendo obrigados, por sua própria e triste condição, a despertar da inércia. Desse modo, sendo levados a reagir, eles fazem o esforço necessário para conquistar um valor, sem o que não é possível se fazer valer, pois não se podem abraçar direitos se- não quando se faz tudo para merecê-los. Para uma melhor compreensão, consideremos o fenômeno reduzido à sua estrutura esquelética de realidade biológica, que é dada pelo fato de cada um procurar viver a seu modo, segun- do sua natureza, da melhor forma possível, com o mínimo de fadiga e mal-estar, utilizando para este fim, em seu favor, os elementos que encontra no seu ambiente. O fundo do ser huma- no é frequentemente feito de preguiça, egoísmo e utilitarismo aproveitador. A resignada passividade e a ignorância das mas- sas convidavam, no passado, ao fácil triunfo sobre elas, que eram absorvidas à vontade por quem soubesse, usando a força ou a astúcia, elevar-se acima delas. Porém era preciso, moral e legalmente, justificar essa posição, que era falsa não diante das ferozes leis biológicas, mas sim perante os princípios oficial- mente proclamados, segundo os quais era preciso também sal- var as aparências, para se ter as massas melhor subjugadas. É assim que, no passado, costumava-se cobrir aquela dura reali- dade biológica, feita de instintos nada nobres, com os preciosos mantos das altas teorias e nobres ideais. Assim, para melhor sobreviver na luta, protegido pela sua posição de privilégio, o tipo religioso se fez representante de Deus, exibindo virtudes e cobrindo-se de investiduras divinas. Podia deste modo justificar seu parasitismo econômico, apoi- ando-se em construções ideais, impostas pela fé e fundadas na revelação e no mistério, meios utilíssimos, neste caso, porque autorizavam a paralisação da atividade racional, que, sendo um meio de investigar a verdade, era um elemento perigoso, por- quanto levava a descobrir e, assim, suprimir o jogo.

De seu lado, o tipo guerreiro, para se justificar moralmente diante dos outros princípios pregados para uso das massas, a fim de que continuassem obedientes e, ao mesmo tempo, pa- ra conservar a sua posição de domínio, escondendo o seu para- sitismo econômico, mantinha outros ideais, que lhe eram úteis, porque construídos para seu uso, à semelhança daqueles do ti- po religioso. Assim, neste caso, não somente a preguiça e a as- túcia, mas também a força e os instintos agressivos, foram co- bertos com o ideal dos valores do heroísmo e do patriotismo do guerreiro, associados aos respectivos martírios e à interes- sada e partidária glorificação. Ao homem não agrada que se lhe percebam os instintos in- feriores, pois eles o aproximam do animal. Gosta de escondê- los e, para isso, serve-se dos ideais, pois eles permitem obter aquilo que mais lhe interessa: a satisfação dos instintos, en- quanto ocultam aquela inferioridade, completamente contras- tante com a bela figura do homem superior que vive de princí- pios. Adaptações da vida, que sabe utilizar-se de tudo, até mesmo do ideal, pois este, se não pode, pela imaturidade dos indivíduos, ser empregado no sentido evolutivo, é usado como meio para a defesa na luta pela sobrevivência. Esse mundo medieval, que vivia até há pouco, está hoje desaparecendo por fatal maturação biológica. É verdade que está morrendo, mas dizê-lo desagrada a quem cresceu dentro dele e com ele estruturou sua forma mental. Desagrada porque destruí-lo significa destruir, com ele, a si mesmo. Estas são, então, verdades que não podem ser ditas, pois acabariam ge- rando um sentido de agressividade que não é necessário e nem oportuno. Para concluir o atual trabalho de renovação, não se necessita de velhos bem pensantes. Basta esperar que estes morram por si mesmos. Sua forma mental e seus métodos se- rão ignorados pelas novas gerações, que serão arrastadas por outros problemas. Houve um tempo em que o passado era li- quidado com a violência, cumprindo uma carnificina. Hoje, a passagem do velho ao novo se faz sem barulho, respeitosa- mente, por graduais transformações, por natural maturação e renovação, sem agressões destrutivas, que implicam reações violentas e, com isto, a reativação de baixos instintos. É assim que vemos cair pacificamente, na zona do silêncio,

o

convento e a fortaleza, os heroísmos da santidade e da guerra,

o

conceito do mundo regido por dois poderes: o espiritual e o

temporal, que foram por muito tempo a base da vida social. Es- tas duas instituições já não servem para o crescimento. Assim, a vida já está construindo outras. Em seu lugar está surgindo a instituição do trabalho. Cada elemento da sociedade deve ser produtivo e, em compensação, provido do necessário por toda a vida. Deverá, pois, ser eliminado como antissocial tanto o rico que vive ociosamente de renda, quanto o pobre ocioso que mor- re de fome; tanto o renunciatário improlífero, quanto o irres- ponsável que se reproduz além do limite estabelecido por seus recursos e os da coletividade. Com as novas gerações, irá mor- rendo a velha forma mental, que será substituída pela nova. As- sim a velha ética, embora sendo continuada pela nova, não será mais compreensível e desaparecerá. Pouco a pouco, com o pro- gresso da vida, a sociedade chegará a uma nova organização, que utilizará métodos mais evoluídos e perfeitos. Isso tudo não significa que o espiritual e o temporal não de- vam mais cumprir sua função, mas sim que devem cumpri-la de outro modo. O espiritual será mais positivo, consciente e res- ponsável, como convém ao adulto, para realizar-se na vida seri- amente, e não apenas em sonho ou aspiração. E o temporal sa- berá lançar, com a técnica, as bases que possibilitarão a produ- ção dos bens necessários para se poder viver em um nível civil. Trata-se de dois métodos diversos de enfrentar o problema da vida. Há algum tempo, dada a fase atrasada de evolução em que se encontrava o homem, a economia da produção dos bens necessários se fundava mais no assalto e no furto do que no tra-

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balho. Hoje, também em razão justamente da evolução, ocorre que o homem se prepara para superar aquele tipo de economia e substituí-la por outra superior, que, em vez de valorizar o herói conquistador, ladrão e assaltante, valoriza o trabalhador, pacífi- co mas produtivo. O que foi um tempo função menosprezada de servo, é hoje virtude de cidadão útil à coletividade. O conceito basilar de uma propriedade imóvel e hereditária,

defendida por leis estáticas religiosas e civis, é substituído hoje pelo conceito fluido e dinâmico da produção e consumo, defen- dido por direitos e deveres em termos de justiça social. A essa ideia a sociedade foi conduzida pelo desenvolvimento tanto da tecnologia quanto do sentido orgânico social de espírito coleti- vista, dando maior rendimento ao trabalho, que assumiu assim outro significado e valor. Este, de fato, hoje, não representa mais a condenação dos vencidos, simplesmente reduzidos a es- cravos, mas exprime a potência produtora das mãos e da mente do homem. Outrora, quem trabalhava era um escravo; hoje ele

é um produtor. A justiça distributiva já esteve confiada à espa- da; hoje ela depende da organização social.

Estes fatos nos fazem compreender por que, no passado, exaltava-se, com o cristianismo, a religião do sofrimento. Mas, se sofrer era então uma virtude, uma vez que, sendo a ordem social baseada no desfrute de uma vítima (mulher, ser- vos etc.), era impossível evitá-lo, tal virtude hoje é contrapro- ducente, porque a ordem social é fundada em outros princí- pios de justiça, com outros direitos e deveres. No passado ha- via muita gente sem nenhum direito, mas apenas com deveres, gente que era preciso manter quieta na sua posição, com espe- ranças e consolações. E o cristianismo satisfazia esta necessi- dade. Com o seu aparecimento, porém, aos párias foi reconhe- cida uma alma, passando-se a considerá-los como seres hu- manos, com direitos e com preferência sobre os ricos, ao me- nos no Céu. Este foi o primeiro passo. O caminho foi continu- ado, depois, pelo comunismo, que, embora com métodos di- versos, deu a eles direito também aos bens terrestres. No passado, a sociedade era composta de patrões e servos, sendo que a matéria dos direitos e deveres não era disciplinada,

e sim confiada à espada. Porém, mesmo neste nível, formou-se

um equilíbrio, no qual, enquanto ao servo convinha deixar-se dirigir e defender, ao patrão cabia fazer-se servir. No fundo, ca-

da um dos dois tinha como compensação uma vantagem, esta- belecendo-se então uma espécie de justiça social. Formou-se assim uma simbiose que permitia uma convivência pacífica. Naquela fase evolutiva, enquanto cumpriam uma função, estas relações eram justas. O problema da injustiça e da vítima configurou-se somente hoje, quando se concebe a vida de ou- tro modo, de forma coletiva, numa sociedade organizada. Ocorre então que o indivíduo pode, cada vez menos, isolar-se no seu egoísmo e ficar indiferente ao mal do próximo, porque este mal também é percebido como sendo seu próprio mal, en- quanto antes lhe era indiferente, pois percebido como alheio. Na posição separatista do passado, o dano do outro significava, muitas vezes, o próprio bem. No estado de sociedade organi- zada, significa um prejuízo para si o prejuízo do próximo, pelo qual o indivíduo deve interessar-se, para evitar o seu próprio. Esta transformação está implícita no fato de que se caminha para uma economia unificada, baseada na socialização dos re- sultados, tanto de danos como de vantagens. Tal transformação só se tornou possível hoje, através da técnica, que torna mais rendoso o trabalho, e, paralelamente, do novo amadurecimento mental das massas. Houve um tempo em que, à força de compromissos e adaptações, uma ordem havia sido estabelecida, e a sociedade a conservava de forma ciumen- ta, porque, não sabendo inventar algo melhor, não tinha outro meio para esquivar-se ao caos. Ora, o fator novo, que desloca os antigos equilíbrios nos quais se apoiava a sociedade, está no

aumento da inteligência das massas, levando-as a descobrirem a potência da organização e da cooperação, condições que as va- lorizam como número, dando-lhes um poder desconhecido e não utilizado anteriormente, em virtude da dispersão gerada pe-

lo individualismo separatista, causa de um contínuo e desgas-

tante atrito recíproco. Houve um tempo em que o povo era obrigado a viver de forma subordinada, em função das classes dominantes e seus interesses, porque, pela própria imaturidade, não sabendo orientar-se por si mesmo, precisava apoiar-se ne- las. Hoje, porém, aquele povo se desenvolveu a ponto de se dar conta de que constitui a base da estrutura social formada por quem trabalha e produz e que, por isso, vale tanto quanto quem comanda. Assim, entendeu que, na organização coletiva, tem uma função complementar diferente, mas cujo valor não é inferior à de quem dirige aquele trabalho e produção. Na sociedade futura não haverá mais pobres, porque sua formação será impedida através da regulamentação demográfi- ca, do trabalho organizado e obrigatório para todos e das ne-

cessárias providências sociais. O desenvolvimento da inteli- gência levará à compreensão de que o individualismo, levado até à inconsciência, ignorando o prejuízo infligido ao próximo pelo egoísmo, é contraproducente, devido à dispersão de ener- gia que custa, fazendo da sociedade um campo de lutas fero- zes. Compreender-se-á que o mal, quando posto em circulação por quem quer que seja, danifica a coletividade da qual todos fazem parte e, assim, acaba por retornar àquele que o emite. Compreender-se-á que é impossível isolar-se no seio de uma sociedade; que não se pode, sem dano, ser rico entre pobres ou fruir entre quem sofre; que a vida é feita de leis, razão pela qual não se pode fazer o mal sem pagar depois. Sem teóricos idealismos, que só convencem os que gostam de crer neles, mas objetivando um utilitarismo evidente e prático, compreen-

der-se-á a conveniência de superar o antigo método desagrega- dor da luta de todos contra todos, a fim de substituí-lo pela co- laboração. O problema não é ético, mas de rendimento positi- vamente calculável. Este será o novo Evangelho, adaptado às novas condições de vida produzidas pela civilização e convin- cente, porque racionalmente utilitário. Sem heroicos altruísmos

e compensações ultraterrenas, o homem compreenderá que não

é vantagem para si o dano do vizinho, pois isto redundará num dano a si mesmo, não convindo a ele, portanto, ocasioná-lo. Mas há também o reverso da medalha. Houve um tempo em

que a arte, a poesia e os valores espirituais ocupavam lugar de honra, não se deixando que morresse de fome quem cultivasse tão nobres coisas. Hoje se tenta relegá-las a um “hobby”, um passatempo nas horas livres permitidas pelo trabalho, que é considerado a atividade mais importante, por ser a única produ- tiva. Houve um tempo em que éramos primitivos e ferozes, mas na desordem havia lugar também para os ideais, um lugar esti- mado e admirado. Hoje somos mais educados e já nos preocu- pamos em não deixar ninguém na miséria, mas o ideal desapa- receu, sendo relegado entre as coisas supérfluas, não necessá- rias à vida. Assim conquista-se o bem-estar, mas, como aconte-

ce com toda conquista, paga-se com o sacrifício do melhor. Eis, portanto, os tipos de valores sociais aqui examinados.

Temos três poderes: o espiritual, o temporal e o econômico, re- presentados por três tipos de homem: o religioso, o guerreiro e

o trabalhador, que desempenham suas funções unindo-se se-

gundo três modelos de vida associativa: o convento, a fortaleza

e a oficina. Cada um destes tipos de vida, segundo princípios e

necessidades diversas, representa uma instituição, que é a cons-

trução de uma unidade coletiva na qual se organizam os vários elementos humanos. Ora, o fenômeno a que assistimos, no atual momento histórico, é o desaparecimento dos dois primeiros ti- pos de vida em favor do terceiro. Hoje, a técnica substitui a cruz e a espada; o homem não é mais uma alma para ser salva

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ou um herói habituado a vencer os inimigos, mas sim um pro- dutor e consumidor de mercadorias. Trata-se de uma transfor- mação profunda, de uma revolução incruenta, mas que trans- formará o mundo como nenhuma outra precedente revolução. Hoje, os dois primeiros tipos de vida estão velhos e can- sados, exauriram sua função biológica e foram substituídos pelo terceiro. A grande organização industrial, as contínuas descobertas e a tecnicidade aplicada à vida, tomam o lugar dos antigos ideais, tanto mundanos como religiosos. Tempos atrás, a mecânica da produção era iniciante e movia os pri- meiros passos à sombra da Igreja e do castelo, donos do po- der. Diante do Papado e do Império, senhores do mundo, o artesanato era ainda uma pobre coisa e o trabalho constituía atividade servil, desdenhada pelos senhores, pelos cavaleiros armados e pelos conventuais contemplativos. A cruz e a es- pada dominavam as massas inermes e ignorantes. Mas estas, embora de forma servil, trabalhavam e, dessa forma, adquiri- ram qualidades que os dirigentes, no ócio, perdiam. A vida sempre caminha. Assim os patrões se tornaram inep- tos e os servos, hábeis. Estes, com seu esforço, resistindo à

opressão dos execráveis senhores e à hostilidade da Igreja, cria- ram a ciência, e esta os levou a uma nova técnica de vida, que, por sua vez, reage hoje, gerando um novo tipo de homem. Tudo

é concatenado e interdependente. Com a sua mente, o homem

fez a ciência, que, por sua vez, refaz a mente do homem. As novas condições de vida, criadas pela técnica moderna, reagem sobre ele, criando um novo tipo de civilização. Ir até aos plane- tas, deslocarem-se milhares de pessoas de avião em alta veloci- dade, comunicar-se por rádio e televisão, saber logo, em qual- quer parte onde se esteja, tudo o que ocorre no planeta, abolir o trabalho físico, confiando-o às máquinas, e substituí-lo pelo trabalho mental etc., tudo isto constrói um ambiente novo. Vi- vendo nele, o homem não pode deixar de se transformar. Eis então que o mundo do passado se afasta e desaparece, refugian- do-se nas recordações históricas e nos museus, circundado pelo respeitoso silencio dos cemitérios. Se a forma é diversa, a finalidade mais urgente e imediata é sempre a mesma: a sobrevivência. Houve um tempo em que essa luta se desenvolvia em dois níveis: 1) No plano da exis- tência terrena, ela se travava entre indivíduos rivais que dispu- tavam entre si o espaço vital; 2) No plano da existência depois da morte, ela era realizada contra si mesmo, a fim de assegu- rar, com virtudes e renúncias para superar a própria animalida- de, a vida em outro plano. Hoje, esta mesma luta ainda se realiza no plano da existên- cia terrena, para conquistar o espaço vital, valendo-se da inte- ligência, a fim de penetrar as leis da vida e utilizá-las em bene- fício próprio. Porém, no plano da existência depois da morte, esta luta é eliminada, pois a ciência ainda não dá soluções po- sitivas neste campo, e assim, dado que, para a mente moderna, mitologia e mistérios não são mais levados em consideração, estes problemas são no momento, enquanto se espera uma so- lução, deixados de lado. Desse modo, hoje, o espírito de luta se dirige para outro objetivo, indo muito menos contra o próximo ou contra si mesmos o que no passado se fazia com o espírito agressivo característico do involuído e muito mais contra a ignorância, o ócio improdutivo e o parasitismo, enquanto a lu- ta, caso ocorra, acontece num plano mais alto, não mais ao ní- vel muscular, da guerra feroz, mas sim ao nível nervoso e ce- rebral, da competição intelectual.

Isto não quer dizer que no passado, no seu terreno e condi- ções de vida, cada um não tenha tido o seu valor ou cumprido

a sua função. Os guerreiros tentavam construir e manter a or-

dem social com as suas instituições. Os monges e o clero ti- nham que se defender de ataques bélicos, salvar a cultura e fazer orações e penitencias para a salvação espiritual. Tudo is-

so não era fácil, e devemos a esse trabalho o fato de ter a civi- lização chegado ao nível atual. Eis que a função desempenha- da no passado não se desvaloriza, mesmo se a civilização hoje lhe impõe a superação. Cada coisa, colocada no seu devido lugar, tem a sua importância e o seu significado. Porém o respeito pelo passado e o reconhecimento do valor da função por ele desempenhada não pode e não deve impedir a transformação no sentido de um tipo de vida mais evoluído. A religião, que outrora detinha o poder político e hoje se mantém como poder econômico, deverá assumir-se como poder espiri- tual. Os instintos agressivos, que definiam no passado o herói glorioso na guerra, hoje são concebidos cada vez mais como qualidades antissociais, próximas da delinquência. Mesmo a nova técnica bélica, baseada mais na inteligência do que na fe- rocidade, não convida mais ao desabafo daqueles instintos bes- tiais, que antes podiam conduzir às mais altas honras. Seme- lhante moral era justa enquanto necessária para a sobrevivência, que era então reservada somente aos fortes, como é confirmado pela escolha feita pela mulher, cujo instinto a fazia sentir-se atraída por este tipo de macho. Tudo isso foi substituído hoje, sobretudo, pelo trabalhador da mente, que, aprendendo e fixando no seu inconsciente ca- pacidades técnicas e culturais, vai construindo a personalidade num caminho diferente, na direção do conhecimento e da pro- dutividade, conquistas que estavam em germe no passado, ainda não desenvolvidas, tanto em profundidade como em ex- tensão, nas massas. Os idealistas do passado, tendo alcançado isoladamente altos graus de evolução, poderiam olhar com desconfiança a atual transformação, que pode parecer-lhes uma degradação da espiritualidade na técnica e do trabalho de elite no trabalho de massa. Mas é preciso compreender que a humanidade, hoje, está começando a construir, desde as bases,

o edifício de uma nova civilização, cujas fundações ela está

colocando agora, no nível mais baixo. Uma vez lançadas es- tas, a subida continuará até aos ideais. Partindo de bases mais sólidas, será possível subir mais alto, até aonde não se podia

com os métodos dos séculos precedentes. Do passado nada morre. Tudo apenas continua e renasce de novo para desen- volver-se ainda mais. Será possível então atingir uma espiri- tualidade positiva, derivada do conhecimento profundo de um mundo que as religiões, hoje, tratam apenas como matéria de fé, envolvido em mistério. Assim a evolução avança, possibi- litando a realização de tipos de vida sempre mais altos. A função da presente obra é levar Deus para fora das Igre-

jas e das religiões, a fim de colocá-lo de forma racional e po- sitiva diante da ciência agnóstica e ateia, de modo que esta não possa mais ignorá-Lo. Para chegar a isso, é necessário elevar o conceito antropomórfico com que Deus era pensado no passado, ao Seu conceito de Lei, funcionando em toda a parte, com o qual a ciência não pode deixar de encontrar-se a cada passo e, pois, de prestar-lhe contas. O primeiro passo é

a laicização e universalização das religiões particulares, ain-

da hoje separadas e inimigas, penetrando em todas as mani- festações da vida, e não apenas alguns setores particulares. Trata-se de uma abolição de fronteiras, uma ampliação de ho- rizontes, uma tentativa de colóquio para chegar à atualização. Outros passos virão depois. A evolução chega por aproxima- ções sucessivas. A fase que se seguirá mais tarde, por essa orien- tação geral da ciência em relação aos fins últimos da existência, será constituída pelo conhecimento e uso da técnica funcional da Lei. Desta serão descobertos, a partir de então, os seus muitos aspectos, o que permitirá viver as suas aplicações e consequên- cias. Será a fase da transformação biológico-social da humanida- de, a fase sucessiva à atual, que é de orientação e de preparação daquela transformação. Assim, tudo se prepara primeiro e, de- pois, realiza-se com lógica, equilíbrio e medida, como quer a Lei.

Pietro Ubaldi

A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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IV. UM MAIS AVANÇADO CONCEITO DE DEUS E DA VIDA

te

conhecimento não é adquirido por esforço da mente, devemos

conquistá-lo à custa de sofrimentos. O fim da Obra é iluminar, ensinando com métodos de compreensão, menos duros que os

Quando um leitor apressado vê que o autor volta a deter- minado argumento, diz: “Mas ele já tratou disto, está repetin- do”. E assim fica na superfície. Não compreende que esta re- petição é devida ao fato de nossos conceitos girarem todos em torno de um pensamento central, que é continuamente re- tomado, porque constitui o ponto de referência de todos eles.

da

escola da dor. A arte de viver consiste no desenvolvimento da

inteligência, a fim de compreender mais a Lei. E ter dela uma compreensão melhor serve não só para obedecer-lhe com maior precisão, mas também para estar melhor e sofrer menos. O nos-

objetivo é prático e utilitário. A Lei resiste como um muro contra toda desordem e, sem- pre atenta à sua integridade, resiste contra quem ameaça dese-

so

O

que parece repetição é de fato um aprofundamento; é uma

busca de precisão, para resolver os problemas enfrentados com maior fidelidade; é uma penetração cada vez mais pro- funda no pensamento que dirige os fenômenos examinados. Assim, a nossa pesquisa segue um caminho em espiral, que busca aproximar-se cada vez mais do centro daquele pensa- mento. Este centro é Deus, um infinito irredutível às nossas dimensões, portanto inconcebível para nós em sua essência. Isto, porém, não impede a possibilidade de se obter aproxi- mações sucessivas na tentativa de compreender aquele pen- samento, fazendo uma progressiva abertura de nossa mente ao conhecimento. Mesmo que, no relativo, onde estamos si- tuados, o absoluto não seja atingível, este relativo está sem- pre a caminho, buscando aproximar-se daquele absoluto. Nestes livros seguimos este caminho, percorrendo um trecho dele, sempre ansiosos por avançar mais.

Já conquistamos o conceito de Sistema (S) e Anti-Sistema

quilibrá-la. Encontramo-nos, assim, diante de um fato positivo,

e

não uma coisa longínqua e genérica. Nos seus princípios

fundamentais, a Lei é como uma árvore formada por um tronco central de onde partem muitos ramos e uma infinidade de fo- lhas. Assim, a lei geral se subdivide em muitas leis menores, que são tantas quantas as formas dos seres e dos fenômenos. Estes se reagrupam segundo o ramo de que derivam, mas, por outro lado, subdividem-se até chegar aos mínimos particulares que encontramos na realidade. É preciso aprender a se mover com disciplina, respeitando as normas estabelecidas por essa ordem inviolável, dentro da qual estamos situados. Ignorá-la significa sofrer depois. Só com conhecimento e obediência se pode evitar a dor. Isto é o que a Obra quer ensinar. É inevitá- vel, portanto, girar continuamente em torno do ponto central, constituído pela Lei, que pode assumir mil formas e aspectos segundo o problema particular submetido a exame, dando as- sim lugar para um tratamento estritamente unitário, embora subdividido em inumeráveis particulares.

(AS), referindo-nos continuamente a eles, que nos orientam a cada passo. Conhecemos o esquema fundamental da estrutura

de

nosso universo físico-dinâmico-espiritual e, com esta bússo-

Tudo que existe está imerso nessa Lei. Não podemos, en- tão, ir de encontro a ela a cada passo. Devemos compreender

la

nas mãos, podemos saber, em cada ponto de nossa navegação

no oceano do desconhecido, onde está o Norte e, assim, dirigir

nossa busca com mais segurança. Cada problema pode assim, já de saída, ser colocado de modo a aproximar-se com mais segu- rança da verdade e com maior probabilidade da solução, dife- rentemente do método da tentativa cega. E isto acontece pelo fato de não se partir da dúvida e do desconhecido, mas sim de um princípio universal de base, já demonstrado e aceito.

Pelos argumentos tratados, o leitor poderá deduzir que estes livros sejam de filosofia e, portanto, distantes da realidade da vida. No entanto estes livros estão bem ligados à vida, uma vez que não ficam na superfície, mas penetram-na em profundida- de. O conceito de Deus que expomos aqui revoluciona aquele do passado. Não se trata apenas de teorias, mas da análise cien- tífica dos problemas teológicos, enfrentando-os com métodos

que a finalidade da vida é a redenção na dor, efeito da revolta, e que isto só se consegue através da evolução. Se, num primei-

ro

momento, a revolta contra a ordem do S gerou o caos do

AS, num segundo momento a disciplina deve reconstituir tudo

na

ordem, tal como nasceu no S. Sabemos que o fio condutor

do caminho da existência é constituído dos seguintes termos, reunidos no mesmo ciclo: ordem no S, revolta, involução até à dispersão daquela ordem no caos do AS, estado de ignorância, erro, dor, experiência, conhecimento, obediência e retorno à ordem do S. Assim, o ciclo se fecha, retornando ao ponto de

partida. Eis que a lei da existência é avançar em direção ao S,

ao

Quando se assume esta forma mental, a separação entre a ciência e a fé, entre materialismo e religião, entre ateu e crente, perde a importância. Vê-se então que, seja qual for o nosso comportamento mental, a Lei funciona igualmente para todos.

longo do caminho da evolução.

de

pesquisa positivos. Foi assim que pudemos falar de uma re-

ligião científica unitária no capítulo precedente. Não se trata de

O

ateu, assim como o crente, vive imerso no pensamento de

elucubrações teóricas e estéreis. Se quisermos salvar as religi- ões, é preciso encontrar um Deus que os ateus não possam ne-

gar, como fazem facilmente com o antropomórfico Deus atual. Uma vez que o pensamento humano tenha entrado nesta or- dem de ideias e canais de pesquisa, podem seguir-se a ele con- sequências revolucionárias, com grandes deslocamentos em nossa vida. A aceitação de tais conceitos diretivos implica na formação de uma estrutura mental diversa da atual, da qual de- riva uma ética também diferente, que determina um novo modo de comportamento. De uma conduta diferente derivam depois outras consequências, levando ao aumento do bem e à diminui- ção do mal, ou seja, à eliminação das dores e à conquista de sa- tisfações, com mudanças nas condições de vida e reações no campo psicológico-espiritual que podem levar a novas trans- formações evolutivas, e assim por diante. Tais fenômenos são conexos e se desenvolvem de forma encadeada. Assim, a obra é feita de um único pensamento, sempre mais aprofundado. Este pensamento é a Lei. Aproximamo-nos dele em dois momentos: primeiro, para conhecê-lo; depois, para obe- decer-lhe. Conhecê-lo é importantíssimo, porque isso nos faz evitar os erros, que são a causa de nossas dores. Ninguém pode escapar da obediência à Lei, sem pagar as consequências. Se es-

Deus. O homem de ciência não faz outra coisa senão estudar uma das ramificações desse pensamento. Ele observa seu fun-

cionamento em leis invioláveis, estabelecidas pela mente divi- na, e sabe que, se não seguir as regras com exatidão, vai obter como resultado um desastre. Quando o cientista quer enviar um foguete à Lua, deve estudar todas as regras estabelecidas por aquele pensamento e obedecer-lhes, se não quiser ver des- truídos os seus mecanismos. A Lei, com os fatos, fala claro. Se

o

médico não observa as leis do funcionamento orgânico, mata

o

doente. Se o engenheiro não respeita as leis da gravidade, do

equilíbrio, da resistência dos materiais etc., a sua construção

cai. Se alguém pratica o mal, esse mal termina por voltar con- tra quem o praticou. E assim iludem-se aqueles que esperam obter recompensa, praticando o mal. Estas são as respostas da Lei, no permanente diálogo que se mantém com o pensamento de Deus em todos os campos. Sua presença torna-se assim evidente, porque, se não compreende-

mos a sua palavra e nos enganamos, então ele nos corrige, repe- tindo-a na língua que melhor compreendemos: a dos fatos, fa- zendo-nos pagar o erro. É preciso mais que ateísmo para negar

as

evidências. Este é um Deus cuja existência ninguém pode

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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deixar de reconhecer, porque, para os surdos, sabe falar bem al-

campo moral, será possível prever as consequências das pró-

to. E isto é verdade em todos os campos, da matéria ao espírito.

prias ações, controlar a correção da trajetória do próprio destino

O

conhecimento dos fatos não é senão um prolongamento do

e

lançá-lo a partir de um novo impulso, calculando a natureza e

conhecimento da existência de Deus. Trata-se, portanto, somen-

o

desenvolvimento nele contidos. Em vez de se comportar co-

te

de fazer a ciência ainda materialista continuar avançando,

mo hoje, às cegas em relação ao futuro, poder-se-á, com uma regulamentação racional da própria conduta, estabelecer previ- amente uma planificação da própria vida, dirigindo-a conscien- temente para os fins pré-estabelecidos, evitando os erros e suas consequentes dores. A ética poderá tornar-se uma ciência exata. Isso é possível porque ela faz parte de uma lei justa. Então a conduta humana certamente seguirá métodos diversos. Cada pensamento e ação deverão ser feito com absoluta sinceridade e honestidade, dirigido para fins determinados, porque sabe-se que a Lei é justa e responde com a mesma linguagem que se usa com ela. Assim, pois, não será mais concebível uma reli- gião de hipocrisia, porque se poderão calcular os efeitos desas- trosos que os impulsos de forças negativas podem produzir, pe- sando sobre quem as lança. O raciocínio, porque terá base utili- tária, será convincente, claro, evidente e, principalmente porque honesto, tangível nos efeitos, sem mistérios nem fé cega. Com- preender-se-á então quão péssimo negócio é semear o engano, que só pode levar a colher engano. A Lei responde restituindo o que lhe foi dado e dando o que foi merecido. Assim, o que de fato conta não é o que se diz, mas sim o que se faz. O atual sis- tema de se comportar como astuto, pensando saber o que faz, é simplesmente louco. Mas a dor desperta a inteligência, e a hu- manidade, quando cansar de sofrer, chegará a compreender que convém adotar um tipo de vida diferente.

Para o ser maduro, tudo isso é evidente. Mas as velhas for- mas mentais resistem e se rebelam contra as mudanças, não querendo correr o risco de se perder, abandonando os velhos métodos, comprovados pela experiência. De fato, o ser, embora situado no AS, tende ao S. Isto significa que, apesar de situado no relativo, onde a verdade é relativa e progressiva, sente con- fusamente uma indefinida ânsia do absoluto. Busca então reali- zá-lo como pode, fazendo dele uma imagem que lhe correspon- da, declarando e afirmando, como absoluta e definitiva, a sua posição alcançada na progressiva conquista da verdade. Então, cada inovação é julgada como erro e heresia, sendo, portanto, condenada, para que seja destruída. Tudo isso é um impulso instintivo, produzido pelo inconsciente. O novo é recusado por- que atenta contra a segurança garantida à vida pelos antigos métodos, que deram prova de ser úteis para tal fim. Assim se explica a resistência do passado, a sua sobrevivência no presen- te e a sua predisposição contra o futuro. O problema se resume em lutar pela própria sobrevivência,

não em conquistar a verdade. O mundo se interessa mais pelo primeiro aspecto do que pelo segundo. Trata-se sempre da ve- lha verdade, que cada religião estabelece na sua própria forma, com o objetivo fundamental de manter o monopólio do seu Deus, concebendo-o segundo sua forma mental específica e acirrando a diferença do próprio grupo contra todos os demais. Na Terra, como se vê, fundamental é o problema biológico da luta pela vida, e não a busca da verdade. Postos um diante do outro, o primeiro vence o segundo. Interessa ao homem a satisfação imediata das suas necessidades, e não o conheci- mento por si mesmo. É com esta realidade da vida que o ideal tem de ajustar contas todas as vezes que busca descer à Terra. Mas é possível então haver obstáculos à grande função bioló- gica do ideal, que é fazer evoluir? Quem tem razão? É louco quem, num mundo feito de guerra, enquanto ferve a luta, põe- se a fazer pesquisas sobre a verdade, mas é louco também quem, na sua ignorância, violando a lei, atrai tantas dores. No entanto ambos têm a sua parte de razão, porque o realizador prático busca viver bem no presente, enquanto o idealista trata de criar para si um mundo melhor. Estes contrastes entre opos- tos são inevitáveis numa vida feita de transformação, razão pe- la qual tudo, modificando-se, é sempre uma fase de transição.

e

para que possa chegar mais alto e, assim, compreender também

os

problemas do espírito. Com os seus métodos experimentais

positivos, o conhecimento levará aos bancos de prova dos labo-

ratórios também os fenômenos desse tipo, para compreender-

lhes a técnica funcional e descobrir-lhes os princípios diretivos,

estabelecidos pela lei geral, dada pelo pensamento de Deus.

Trata-se de uma revolução profunda, que ocorrerá antes de tudo no cérebro humano. Não se pretende dizer com isso que se possa compreender completamente Deus, conquistando o abso- luto. Porém é possível, na medida permitida pelo caminho per-

corrido na evolução, chegar a um contato direto com Deus, em proporção ao desenvolvimento atingido pela nossa inteligência

e,

pois, capacidade de compreensão. Não se pode superar tal

limite, mas, dentro daquele nível, o contato se realiza e o diálo-

go

pode ser uma real troca de ideias. Ora, o livro da vida já foi

todo escrito por Deus, mas ainda falta ao homem os olhos para lê-lo e a mente para compreendê-lo. Ele poderá lê-lo cada vez melhor, à medida que a evolução desenvolve aqueles olhos e aquela mente. A história da humanidade é todo um diálogo com Deus. Diálogo profundo e completo. Na presente obra, já são quase quarenta anos em que estou empenhado sozinho nesse diálogo, que vejo desenvolver-se sempre mais e que deverá continuar cada vez mais estreito na eternidade. Nasci sem saber o verdadeiro significado da vida e não encontrei ninguém que o conhecesse e mo explicasse. Agora posso morrer satisfeito, depois de havê-lo compreendi- do, graças a este diálogo, vivendo com consciência e com co- nhecimento e, desse modo, lançando na direção desejada por mim a trajetória do meu futuro destino. Jamais se poderão apreciar suficientemente as vantagens advindas de saber assu-

mir conscientemente as rédeas da própria vida. Desenvolver esta capacidade significa evitar montanhas de erros e, portanto,

de

sofrimentos. É natural que a ignorância seja um grave peri-

go, porque leva a desastres contínuos. A ciência ateia está de fato realizando um diálogo com o pensamento de Deus, que se lhe revela sempre mais a cada descoberta. O ateísmo não é contra Deus, mas sim contra o clericalismo, ou seja, contra a concepção eclesiástica de Deus. Trata-se em resumo da costumeira guerra entre os homens, na qual Deus não entra. Seria ridículo pensar que Deus pudesse envolver-se em nossas lutas humanas ou que devesse estar à mercê de nossas opiniões. E uma guerra contra Deus é absur- da, porque seria uma guerra contra a primeira fonte de nossa própria vida. De fato, o Anti-Sistema, por sua negatividade an- ti-Deus, tende à própria autodestruição. Uma completa ausên- cia de Deus é impossível, porque significa a ausência da pró- pria vida. Assim ateu quer dizer sem vida, isto é morto ou em descida para a morte. O comunismo não é ateu, mas só anticle- rical, pois ele, de fato, continua o seu diálogo com o pensa- mento de Deus, estudando-o atentamente, quando busca co- nhecer o funcionamento da Lei, para não cometer erros quando envia mísseis ao espaço. Deixemos de lado o Deus fabricado pelas religião para seu uso eclesiástico. Seus fins e funções são limitados ao grupo que o elegeu como modelo para satisfazer suas necessidades. É natural que tal Deus não possa ser univer- sal, superando os limites do grupo. E não há razão para cair no ateísmo, se tal Deus às vezes parece ilógico e inaceitável. Se desaparecessem as religiões atuais, ainda assim Deus sobrevi- veria de outra forma, cada vez mais sentido no íntimo e cada vez mais amplo como universalidade. Este será o melhor canto que a ciência positiva poderá elevar à glória de Deus. Colocada na estrada de uma religião positiva, toda a vida individual e social poderá ser orientada de outro modo. No

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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Será que o valor da vida encontra-se apenas nessa luta exterior e que a sabedoria, então, está apenas em saber vencer a luta pa- ra viver como vencedores, ou tudo isso nada mais é senão um meio para aprender e, assim, progredir para formas de vida mais evoluídas? Em suma, será a vida fim em si mesma e vale- rá mais pelas suas realizações imediatas do que pelo futuro ou, ao contrário, valerá por suas realizações longínquas, situadas numa outra vida, à qual é sacrificada a presente? Devemos descuidar-nos dos problemas reais do presente, para cuidar dos hipotéticos do futuro, ou descuidar destes úl- timos para ocupar-nos apenas dos primeiros? Qual dos dois métodos é mais vantajoso? O ideal é uma inovação ainda não ratificada pela experiência, uma tentativa que pode malograr- se, um salto no escuro. Por que devemos, como imprudentes, aventurar-nos por estradas inexploradas? Pode-se responder que tanto o realizador prático quanto o idealista têm, cada um, sua sabedoria, mas em função de pontos de referência diversos. Cada um faz o seu trabalho. O primeiro exaure suas forças no presente, na Terra, conseguindo aqui os seus objetivos imediatos. O segundo dirige seu esforço para além do período de vida física, estendendo-o ao futuro. Mas cada uma das duas posições tem o seu pró e o seu contra. O primeiro se tornará rico e poderoso, obtendo glória e júbilos, mas, com a morte, chega o fim e tudo cai para ele, que só então se dará conta de quão ilusórios são os valores do mundo, enten- didos como último e exclusivo fim. O segundo viverá de renún- cias e atribulações, sendo desprezado como inepto, mas terá aproveitado da escola da vida um aprendizado que não é ilusão, porque, quando chegar a morte, estará no caminho da evolução. Na verdade acontece que, assim, cada um busca realizar-se a si mesmo segundo sua própria natureza, fazendo o trabalho a que melhor se adapta e dele colhendo os respectivos resultados. Ca- da um recebe em pagamento pela Lei, com justiça, a recompen- sa que buscou e mereceu, segundo o destino que, com o seu passado, construiu com as próprias mãos. A justa posição está em usar os valores do mundo, mas não como única finalidade, e sim apenas como um meio para conse- guir um fim mais alto e longínquo, aquele proposto pelo ideal. Aceitar assim o mundo, mas em função de uma superação. Des- te modo, a vida na Terra se torna uma escola para aprendizagem. Então, a sabedoria está em servir-se desta experiência para pre- parar-se, a fim de entrar na outra vida, em uma posição espiritu- al mais elevada. É respeitada assim a imperiosa necessidade de se ocupar das coisas materiais indispensáveis para viver, mas, ao mesmo tempo, este trabalho é canalizado num sentido evolutivo, em direção ascendente, para o alto, de modo que não dê apenas um fruto imediato, mas seja também útil para a nossa evolução.

V. ARREMESSO E CORREÇÃO DA TRAJETÓRIA DA VIDA. A TERAPIA DOS DESTINOS ERRADOS

Observamos o fenômeno de nossa vida e destino. Existir, no relativo, significa possuir uma duração própria como transfor- mismo fenômenico, que é o incessante movimento ao longo do caminho do devenir. Este movimento é na direção evolutiva, is- to é, no sentido que vai do AS para o S. Toda forma de existên- cia, cada fenômeno e cada vida, é constituída por uma trajetória ao longo da qual tudo se move. Esta trajetória tem o seu percur- so estabelecido pelos impulsos que a lançaram. Cada fenômeno está fechado dentro da sua lei, que lhe estabelece o desenvol- vimento. O mesmo acontece no fenômeno de nossa vida. Pode- se, então, estudar a estrutura da personalidade humana, uma vez que ela é constituída por um feixe de forças em movimento. Observemos o caso de nossa vida. Voltemos aos conceitos já observados, para tratá-los agora mais a fundo. Já tratamos, em outro lugar, da estrutura e da formação da personalidade. Do nascimento até aos vinte anos, o indivíduo trabalha no seu de-

senvolvimento físico e mental, repetindo e reassumindo o cami- nho que sua evolução percorreu no passado, até chegar ao ponto em que se encontra. Mas, terminado este trabalho de repetição, no qual a trajetória da vida retorna sobre si mesma para reassu- mir todo o passado, inicia-se na época da maturidade o lança- mento da trajetória de uma nova vida. Esta se desenvolverá em obediência ao lançamento inicial, até atingir seu apogeu, para depois, descrevendo um arco, descer e fechar sua trajetória. Quais são os princípios que regulam este arremesso em órbi-

ta para seguir o trajeto que chamamos destino? Esse trajeto o in-

divíduo só vem a conhecer na velhice, após já haver percorrido

o caminho, quando ele pode ver tudo retrospectivamente. As-

sim, ignorando-o ainda jovem, ele o segue por instinto, movido por seus impulsos, agindo sem consciência do que faz. Estamos numa fase determinista. Nesse período, com experiência míni- ma, são tomadas as mais graves decisões, assumindo-se as posi- ções que constituirão as bases de toda uma vida, às quais per- maneceremos ligados até ao fundo. Se fosse justo responsabili- zar o indivíduo, lógico seria que ele tomasse suas decisões na velhice, isto é, em estado de maior consciência e maturidade es- piritual. No entanto acontece o oposto. Ele faz o arremesso no momento em que é mais inexperiente, incapaz de prever, dei- xando-se dirigir cegamente pelos seus impulsos. Então nos per- guntamos qual é o significado dos impulsos que movem o indi- víduo, como existem e quem os construiu? Eles são o resultado do passado, porque dependem das qualidades com que o indiví- duo construiu seu tipo de personalidade, que resulta definida por elas, como um feixe de forças em movimento, interligadas num campo dinâmico fechado. Tudo isto se formou através de expe- riências de vidas precedentes e representa o resultado impresso no subconsciente, constituindo o capital armazenado que o indi- víduo carrega consigo na vida sucessiva. São essas as qualidades que estabelecem as atrações e as repulsões que determinam, no ambiente, a escolha de uma coisa ou de outra.

Desde o ingresso na nova vida, tudo está fixado. Isto signi- fica que já estava estabelecida a direção da trajetória, porque o arremesso foi feito desde o final da vida precedente, pelas for- ças livremente postas em movimento, as quais acompanham o indivíduo até se exaurirem. Tudo se passa então segundo a ló- gica e a justiça, ocorre no momento devido e corresponde ao mérito, respeitando a devida responsabilidade. Quando o indi- víduo atinge a maturidade, não é necessário que ele esteja des- perto e consciente para escolher, porque a escolha já foi feita como consequência do tipo de trajetória lançada anteriormente. Agora ele já não pode mais mudá-la, e esta é a razão pela qual ela se apresenta sob a forma de fatalidade do destino. Podemos, assim, compreender o que é o destino, a técnica funcional desse fenômeno e a lógica de sua estrutura determi- nística, a qual, embora pareça violar o nosso livre arbítrio, na realidade o respeita plenamente. Ao nascer, a personalidade é nitidamente individuada, não só como estrutura, por suas qua- lidades, mas também como trajetória em movimento, resultan-

te das forças que nela estão atuando. Isto significa que a órbita

do próprio destino já está estabelecida e calculada em função apenas desses elementos componentes. Cada indivíduo, na época de sua maturidade na vida precedente e como conse- quência de suas conclusões, fixa com impressão indelével em sua personalidade os resultados da sua experiência. Assim, ao renascer, é preciso ajustar contas com a bagagem que cada um traz consigo, acumulada no passado. É com esse material que vai sendo construído o próprio destino. Por isso ele é determi- nista e se apresenta com caráter de fatalidade, uma vez que constitui a consequência de resultados já fixados pelas experi- ências realizadas e concluídas, e não em fase de formação. As- sim, por exemplo, explica-se como irmãos nascidos dos mes- mos pais e crescidos no mesmo ambiente, recebendo a mesma educação, percorrem vidas diferentes, com destinos diversos.

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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Isto porque eles, pelo fato de não possuírem o mesmo patri- mônio pessoal, só podem seguir trajetórias diferentes. Na mesma casa, não terão procedimentos iguais e da mesma coisa farão usos diversos. O que decide, mais do que as opções a nós oferecidas pela vida, é a escolha realizada por nossa preferên- cia, a qual depende exclusivamente de nós mesmos.

Eis que a parte mais importante da própria vida cada um a traz consigo. Então é inútil lamentar-se depois por não ter feito de outro modo, dado que não se poderia fazer de outra maneira. Para proceder de outra forma, é necessário ter outro destino. Mas como o indivíduo pode ser outro, com outro tipo de perso- nalidade e com outras qualidades? Que se procure, então, viver corretamente, porque tudo recai sobre nós. Uma vida errada nos liga a um doloroso destino de correção, o que significa uma grande fadiga, à qual ficamos ligados. Urge, pois, corrigir em tempo a trajetória, enquanto a percorremos durante a vida, in- troduzindo nela, com o nosso livre arbítrio, novas modifica- ções, ou seja, não a lançar de todo, esperando que se fixe, por- que então ela se torna destino fatal. O problema da correção da trajetória do próprio destino é importante para a nossa evolução e redenção. Tal correção não

é fácil. Segundo o próprio tipo de destino, as forças que consti-

tuem a personalidade atraem as forças afins, com as quais es- tabelecem uma ligação, formando em torno do indivíduo uma atmosfera semelhante a ele, que ele respira e da qual se nutre, confirmando as suas qualidades, boas ou más. Isso reforça os impulsos que deram origem ao lançamento da trajetória e ten- de a mantê-la ainda mais estável ao longo de sua linha de de- senvolvimento, resistindo aos desvios e tendendo a fazê-la chegar à sua conclusão boa ou má, segundo a direção assumi- da. Certamente, se essa direção estiver errada, a correção re- quererá um esforço proporcional para empurrá-la no outro sen- tido, e somente o indivíduo que vive tal destino pode fazer este esforço, porque o projétil lançado é ele e as forças que o mo- vem são as suas qualidades pessoais. Eis então que se pode estudar uma técnica para praticar te- rapia de destinos errados, através da correção das trajetórias mal orientadas, que levam o indivíduo a espatifar-se contra a resistência da Lei, pois esta não se deixa violar, como ele dese- jaria na sua inconsciência. Trata-se de uma terapia à base de an- tídotos adequados para neutralizar as qualidades venenosas ad- quiridas em vidas anteriores, vividas de forma errada. As várias morais que a humanidade possui têm justamente a finalidade de impedir, ensinando uma sábia conduta, a formação de trajetó- rias deste tipo ou então, caso já se encontrem formadas, corrigi- las, reconduzindo-as à sua justa direção, estabelecida pela Lei. Sem dar explicações, tais morais desempenham esta impor- tante função de modo simples, proporcionada à ignorância das massas, ditando normas práticas, prontas para o uso, confeccio- nadas para tal fim. Estas morais, assim como uma espécie de trilho, oferecem um direcionamento pré-estabelecido, para que não se erre a direção no lançamento das trajetórias, evitando dessa forma a formação de destinos errados.

Deve-se ter sempre em mente que, para os seres rebeldes cujo intento é sempre lançar órbitas erradas, do tipo AS a Lei, que dirige nosso universo, já fixou, segundo o modelo dado pe- lo Sistema, o tipo de órbita a ser seguida. Ora, aqueles que pra- ticam o mal pretendem estabelecer, em oposição às trajetórias segundo a Lei, órbitas do tipo anti-Lei, em sentido contrário. Ocorre, assim, o que sucederia a um automóvel, caso se lanças- se na contramão e enfrentasse o tráfego contrário. Então é fatal

o choque com a Lei. Mas ela é constituída por forças poderosís-

simas, muito além daquelas pelas quais é constituída a persona- lidade do indivíduo, que, deste modo, acaba levando a pior, en- quanto a Lei continua intacta e triunfante em sua rota. Assim, ao invés de se expor a sofrer as duras consequências provoca- das pela tentativa de infringi-la, seria mais conveniente obser-

vá-la. É inútil tentar derrotá-la, pois a Lei é mais forte e vence. Mas, apesar de tudo, o homem é tão ignorante, que, quando se põe a funcionar contra a Lei, julga-se sábio.

É fato positivo e inviolável que, acima de qualquer desor-

dem, está a Lei. Ela permanece sempre em seu lugar, quer o homem a compreenda ou não. Ao invés de ceder, deixa-o, pe-

lo contrário, pagar duramente, com a própria dor, o erro de ir contra ela.

É inútil iludir-se. A revolta quis destruir o Sistema, no en-

tanto apenas produziu uma zona periférica emborcada. No cen- tro do Anti-Sistema ficou o Sistema Deus que dirige o fun- cionamento de nosso universo, para levá-lo, através da evolu- ção, à salvação, com o retorno a Ele. Isto significa que no cen- tro de tudo está a Lei, incumbida como o espírito em nosso corpo da função de dirigir tal funcionamento. Isto não é uma fantasia, mas sim uma teoria demonstrada em nossos dois vo- lumes: O Sistema e Queda e Salvação. Para redimir-se, é fun- damental a correção das trajetórias erradas. Já vimos o caso de

um destino isolado, constituído por uma única trajetória. Este fenômeno, dado pelo lançamento e correção da trajetória, pode verificar-se para cada um ou para muitos indivíduos, que são milhares e milhares. Será que conseguimos imaginar milhares de vidas lançadas em órbitas, cada uma com a sua trajetória, no oceano das forças do transformismo universal fenomênico, em movimento consonante com a evolução, orientadas e im- pulsionadas pela Lei na direção do S? Que rede de reações e combinações poderá verificar-se na aproximação e encontro dessas trajetórias? Cada órbita se acha numa posição de desen- volvimento diferente, seja no início, no apogeu ou na sua con- clusão. E cada uma é exatamente regulada e claramente indivi- duada pela Lei, de modo a nunca perder a sua identidade em qualquer estado de reação ou combinação em que ela possa encontrar-se. A cada conclusão segue-se o lançamento de uma nova trajetória, cada uma ligada à precedente como sua conse- quência, num encadeamento que se perde no infinito. Não obs- tante a complexidade, todas as combinações e reações são re- guladas por um dinamismo calculável com exatidão. E isto é apenas um dos aspectos do fenômeno da vida. Quando começamos a penetrar um pouco mais na íntima estrutura de tais fenômenos, ficamos perplexos. Ficamos to- mados por uma espécie de estupor mágico, encantados na con- templação da técnica desse funcionamento. Tem-se a sensação de ver ao longe, no horizonte, brilhar o pensamento de Deus. Quando observamos a trajetória do desenvolvimento e o com- portamento de um fenômeno, embora limitando-nos apenas a ele, observamos a técnica funcional daquele pensamento. Po- de-se assim, também pelas vias da inteligência e da ciência, chegar aos entusiasmos do místico, porém agora racionalmente calculados. Assim a mente, com a fria contemplação da Lei e daquele pensamento, também pode alcançar êxtases semelhan- tes aos obtidos pela ascese mística. Nos meus primeiros volu- mes experimentei os ímpetos mais elementares, originados do coração, no plano do sentimento. Mas aqui, nestes últimos vo- lumes conclusivos da Obra, amadurecido depois de tanto ca- minho andado, experimento os arrebatamentos mais comple- xos e profundos, provindos do pensamento, que se apossam da mente, resultando em conhecimento. Atinge-se assim um mis- ticismo mais maduro e evoluído, que se elevou do coração à mente, do sentimento à inteligência, do amor a Deus à con- templação do Seu pensamento. Este é o misticismo que a ciên- cia alcançará, formando a nova religião do futuro. Quando se abrem à compreensão essas espirais de luz, sente- se o abalo de uma poderosa libertação. Quando um cientista faz uma descoberta, ele deve, naquele momento, sentir-se arrastado pela onda avassaladora do pensamento de Deus, que lhe falou e, num átimo de sublime contato, revelou-lhe um pouco de si mesmo. Esta percepção também é revelação e adoração, consti-

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tuindo o senso de veneração que sentirá vibrar no fundo da sua alma o mais evoluído homem do futuro, ao se dar conta que, nas suas descobertas, ele se encontra diante do pensamento de Deus. Uma religião baseada na fé era necessária no tempo da ig- norância, em que a mente era ainda incapaz de pensar por si mesma e imatura para compreender. Mas, hoje, tal sistema é contraproducente, levando ao ateísmo. A falta de crença não é mais possível diante do fato positivo da existência de um pen- samento funcionando sempre e por toda a parte, cuja presença

é evidente, porque é impossível não esbarrar nele a cada passo. E, se esse pensamento é Deus, como podemos ser ateus? Que pensamento tão evidente é este que, quando lhe são propostos quesitos para resolver, exprime suas respostas na linguagem concreta dos fatos, através do funcionamento dos fenômenos e da evolução do seu devenir?

Do panorama restrito dos fenômenos individuais não po- demos deixar de passar aos vastos panoramas de princípios universais. Na verdade, tudo é interligado, do particular ao universal, onde encontramos a orientação e a justificação dos nossos conceitos no particular. Pensando, em relação a esses princípios, nos destinos do mundo, é evidente que sua trajetó- ria é mal orientada e necessita de uma correção. Os métodos da violência e da mentira vigentes são contra a Lei e não podem conduzir senão a desastres. Como aplicar aqui uma terapia pa- ra destinos errados? Raciocinar é inútil, e a força não serve, porque não resolve, como nos prova a história. Quando uma trajetória é anti-Lei, só há uma solução: chocar-se contra a Lei, isto é, esfacelar-se contra as suas invencíveis resistências e fi- car massacrado, para depois sofrer, pensar e aprender, através da experiência, uma dura lição. Não é este o método normal de ensino na escola da vida? Pode-se assim calcular onde vai che- gar a política mundial, baseada no espírito de domínio, que até agora só levou a guerras. É verdade que esta luta desenvolve a inteligência, mas a que preço e em que nível? Se é este, porém,

o nível evolutivo da humanidade, como levá-lo a outro superi-

or? Os golpes da Lei tornam-se, portanto, inevitáveis, porque,

a essa altura, outros métodos educativos não são producentes.

Tudo é lógico e está em seu lugar. Métodos e resultados não podem ser diferentes. É possível, porém, em contrapartida, uma grande reviravolta. A Lei é justa e estabelece que as traje- tórias, as responsabilidades e os destinos sejam individuais. Portanto quem quiser salvar-se pode fazê-lo sozinho, seja qual for o modo como vive. A Lei lhe responde com a linguagem com a qual se lhe fala, pagando a cada um segundo o seu méri- to e restituindo segundo o que se lhe dá.

VI. AS TRÊS FASES DO CICLO DA REDENÇÃO

Vimos, no capítulo precedente, que a personalidade é cons- tituída por um feixe de forças em movimento e que o destino é

a trajetória desse movimento. Pode-se assim estabelecer uma

técnica diretiva da evolução do espírito, orientando de forma inteligente esse movimento na direção do S, isto é, Deus, meta de todo caminho. O tipo de trajetória ou destino é estabelecido pelos impulsos que o indivíduo, com seu livre arbítrio, tem o poder de lançar no campo fechado da própria personalidade, que assim estabelece o tipo de órbita que ela deve percorrer. Tal personalidade é, por sua vez, o resultado do seu passado, de que se ressente, com todos os efeitos que constituem a sua natureza e dos quais depende a direção do seu movimento. Eis que nosso eu não é uma entidade estática, mas um feixe de forças cada uma com suas características próprias, bem defi- nidas que, avançando e retrocedendo, desloca-se ao longo do caminho da evolução. É o estudo dessa bagagem e o modo in- teligente de manobrá-lo que haverá de formar o conteúdo de uma psicanálise mais profunda, base de uma nova ética cientí- fica positiva para a psicosíntese do futuro. Assim, vivendo

com consciência e conhecimento, o homem poderá construir um futuro melhor para si mesmo. Como se vê, a ideia de uma vida única é simplesmente ab- surda. A vida é longa, e tão longa quanto a evolução. Não po- de ser de outro modo. A criança nasce com a sua personalida- de já feita e com ela reage e se adapta ao ambiente. Mas isso não é novo para ela. O fato de logo se sentir à vontade, mostra que já o conhece. A infância é uma rápida repetição que re- sume o trabalho já feito, a fim de levá-lo um pouco mais adi- ante. Os instintos pelos quais a criança é guiada são o resulta- do de longa experiência passada, que emergem do inconscien- te, onde foram armazenados. Sobre os ombros do indivíduo encontra-se, então, o peso de toda a bagagem acumulada por ele no passado. Este fato estabe- lece a órbita do seu destino, ligando-o a certo tipo de trajetória. Mas esse indivíduo tem diante de si o futuro, vazio e intacto, dentro de cujo espaço ele pode, com sua livre vontade, lançar os novos impulsos que desejar. Eis de onde nasce a possibilidade de se redimir. São estas as bases racionais do conceito de reden- ção. Significa introduzir na trajetória do próprio destino novos impulsos. Por isso afirmamos insistentemente que não se pode conseguir através de outros a própria redenção, mas somente ca- da um por si mesmo, pois ela é exclusivamente pessoal. Indivi- duais são os destinos, constituindo campos fechados à seme- lhança do organismo humano, que pode ter contatos e trocas, mas nunca perde a sua identidade, apresentando alta estabilida- de, tanto que rejeita qualquer corpo estranho. O bem ou o mal que cada um faz é feito para si próprio, por sua conta, sob exclu- siva responsabilidade e com suas próprias consequências. Eis então que, seja qual for o seu passado, é oferecida ao indivíduo a possibilidade de corrigi-lo. Mantém-se, desse mo- do, sempre aberta a porta da salvação. É questão de tempo, pois a dor, consequência do erro, existe e impele tenazmente o ser a decidir-se pela canalização das suas órbitas de acordo com a vontade da Lei. Todos deverão terminar salvando-se. Se um único indivíduo não se salvasse, Deus fracassaria no mal e, impotente diante dele, Sua obra estaria falida. O período em que o campo de forças da personalidade está aberto para a introdução de novos impulsos é dado pela vida terrestre, no plano da matéria e da luta, onde se encontram as resistências adequadas para avaliar as qualidades já adquiridas e conquistar novas qualidades através da experimentação. O ambiente terrestre é um campo de trabalho. Nele, a vida é um período de construção, uma fase da existência na qual todo o passado ressurge, retornando como impulsos instintivos, que originam outros, lançados em novas direções. Por isso a vida é também um campo de batalha. Na velhice tudo se acalma, coa- gula-se e cristaliza-se, isolando-se das experimentações, das quais é tão ávida a juventude. Terminada sua função, a ação en- tão se detém, pois a posição de partida já se fixou para o desen- volvimento do novo trecho de trajetória da próxima vida. O ca- nhão já fez pontaria, e, com isto, o futuro trajeto do projétil já foi traçado. O indivíduo já preparou, com as próprias mãos, o destino que o espera. Este trabalho de preparação será comple- tado e aperfeiçoado no período de reflexão, definido pelo inter- regno depois da morte e antes do nascimento, quando se dá a interiorização e a assimilação das experiências vividas. Isto acontece na fase introvertida de desencarnado, oposta e com- plementar àquela extrovertida da vida. Eis, portanto, quantas coisas trazemos e temos conosco quando nascemos. Assim estabelece a Lei, e quando o ser ainda não se tornou consciente pela evolução, isto funciona automaticamente. A diferença está apenas no fato de que ele, em vez de se dirigir com conhecimento, tendo nas mãos o timão do próprio desti- no, é arrastado pela corrente da vida. Quando o ser não co- nhece a técnica da correção das trajetórias erradas e não se decide a este trabalho espontaneamente, a Lei reage ao erro

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por meio da dor, manifestando a necessidade de corrigi-lo. Quanto mais distanciados estivermos da Lei e insensíveis formos aos seus reclamos, mais aumentará a dor proporcio- nalmente a este afastamento, até se tornar um fato tão insupor- tável, que deveremos decidir-nos a eliminá-lo a qualquer pre- ço, reentrando na ordem. Tal potência de correção automática se deve ao fato de que o afastamento da trajetória individual daquela traçada pela Lei produz no ser um estado de desor- dem, de desarmonia, de dissonância, que se faz perceber como dor. E isso ocorre em proporção ao afastamento, de modo que, quanto maior for este, maior será a dor. Adiante explicaremos melhor esses conceitos. Eis, pois, qual a técnica do automáti- co e irresistível chamamento que impulsiona as órbitas desvi- adas a reentrar na justa órbita da Lei. Esta, assim, não teme o mal e sempre termina por vencê-lo, utilizando-o sob a forma de instrumento de salvação, ao servir-se da dor como ferra- menta segura para a correção das órbitas erradas. ◘ ◘ ◘ Agora que vimos em linhas gerais a técnica desse funciona- mento, vejamo-lo de modo mais particular, observando como se

comporta o homem que, estando encarcerado dentro daquele funcionamento, deseja conduzir-se a seu modo. Isto nos permiti- rá ver como se desenvolve a luta entre as duas vontades opostas

e como a da Lei termina por vencer, levando o ser à salvação. Todo o caminho da evolução é uma luta entre AS e S, que se conclui, porém, depois de tantas fadigas e dores, com a vi- tória do S. A concepção apocalíptica da cósmica batalha entre bem e mal corresponde a uma realidade biológica, porque é através do caminho da evolução que tem lugar essa batalha, até reconduzir, através de um transformismo incessante, o ser ao ponto de partida: o S.

A técnica dessa redenção, por meio da evolução, realiza-se ao longo de um processo trifásico, que, ao nível humano, de- sempenha a função corretora das trajetórias mal orientadas, pa- ra levá-las aos trilhos da Lei, dirigidos na direção do S. Este processo se realiza através de uma forma típica, que poderemos chamar de ciclo da redenção. Seu desenvolvimento abraça três tipos de experiências, cada uma das quais pode estender-se a uma ou mais vidas. O fenômeno é dividido em três momentos ou períodos. Observaremos então o seu desenvolvimento em três situações distintas. Se observarmos o fenômeno em seu aspecto evolutivo, como processo construtivo do indivíduo, poderemos definir as três fases assim:

1 Ignorância.

2 Experimentação.

3 Conhecimento.

Se olharmos o fenômeno no seu aspecto retificador e sal- vador, isto é, de correção na direção do S daquelas trajetórias erradamente lançadas para o AS, poderemos ver aquelas três fases de outra forma:

1 Fase inicial do erro (lançamento da trajetória errada).

2 Fase curativa da dor (sua correção).

3 Fase resolutiva da redenção (trajetória justa).

Em ambos os aspectos, o processo termina sempre com a chegada ao conhecimento, à cura, à salvação ou redenção, isto é, a um estado em que essas metas são atingidas. 1 a fase O ponto de partida do processo de experimentação

é a ignorância e o erro. Por quê? Se o ponto de chegada do ciclo

é o conhecimento, é lógico que, no seu extremo oposto, o ponto

de partida seja a ignorância. O ciclo se move em sentido evolu- tivo, de modo que, se a meta para a qual ele tende é o S, com as qualidades positivas já conhecidas por nós, então sua origem só pode estar no AS, com as qualidades contrárias. Eis então que, no início de sua primeira fase, o indivíduo vive nas trevas, sem conhecimento, agindo por tentativas, e isso o conduz ao erro. Além disso, pelo fato de se encontrar ainda mergulhado no AS,

o seu impulso natural é para baixo, na direção do mal. Assim o

movimento tende a verificar-se no sentido contrário. Como se vê, desde o início, o fenômeno já aparece assen- tado sobre essas características de negativismo, em que fica enquadrado durante o seu desenvolvimento, ainda que isto le- ve ao emborcamento.

É esse tipo de colocação do processo sobre o erro, em posi-

ção anti-Lei, desde a sua primeira fase, que, seguindo uma fa- tal concatenação, leva a estabelecer, desde o princípio, os ca- racteres da segunda fase, fatalmente destinada a ser de dor, porque o involuído, privado de consciência e conhecimento, não sabe se autodirigir com inteligência, mas apenas deixar-se arrastar pelos instintos, que, neste caso, vêm de sua evolução pretérita, isto é, do AS. Como corrigir, então, tais erros, fazen- do compreender quem ainda não tem capacidade para isso? Assim se justifica o aparecimento posterior da dor, necessária na segunda fase, para desempenhar a função de corrigir o erro. Dada a natureza do indivíduo, a dor se torna o único meio se-

guro para estabelecer um diálogo, constituindo o modo pelo qual a Lei pode mostrar o verdadeiro caminho a percorrer.

Como se vê, tudo é consequência do ponto de partida do ci- clo, do qual depende o lançamento e a direção de toda a trajetó- ria do seu desenvolvimento. Parte-se, em suma, de um estado de involução, isto é, de um edifício destruído. O conteúdo do fenômeno só pode ser, portanto, um trabalho de reconstrução por meio da evolução. O ser só pode encontrar sobre o seu ca- minho a necessidade de esforço, indispensável para percorrê-lo.

A causa primeira de tudo está na natureza humana egoísta e se-

paratista, que é levada à procura somente da vantagem e do go- zo próprios, não se detendo a não ser quando obrigada pelo aparecimento da dor e do dano próprios. Como frear ou parar o ser, então, no caminho da descida para o Anti-Sistema, para o qual ele tende, senão por meio dos seus sofrimentos? Desse modo, a cada erro, a Lei reage com uma dor proporcional, le- vando à obtenção de resultados tão ruins, que faz cessar a von- tade de repeti-lo, cumprindo assim a sua função corretiva e atingindo sua principal finalidade, que é ensinar e, portanto, eliminar o erro. Sofrendo, o ser aprende o que não é capaz de aprender raciocinando. Quando o aluno não possui ainda a inte- ligência para compreender, a sua formação vai sendo feita jus- tamente à custa de luta e sofrimento, já que a Lei não pode usar outro método na escola. E ensinar-lhe é necessário, a fim de que, aprendendo a lição, possa salvar-se.

É assim que a primeira fase, de ignorância e erro, é a lógica e

fatal premissa da segunda, de experimentação e dor. Se o ho- mem possuísse o conhecimento das consequências da sua con- duta errada, não incorreria nelas e, assim, não teria que seguir o longo percurso das três fases. Ele não sabe, mas deverá aprender às suas custas, que, num universo regido por uma lei feita de or- dem, qualquer violação desta ordem, pela própria natureza da in- fração, inevitavelmente deve doer em quem a pratica. Isso por- que, assim, é produzido aquele estado anti-Lei que, traduzido em termos de vibração, significa um estado arrítmico de disso- nância, através do qual se produz no ser, situado no organismo do todo, a sensação daquele efeito negativo chamado dor. Dura consequência esta, porém segura e mesmo salutar, porquanto funciona como um benéfico processo de autoabsorção, pois, eliminando o erro que a gera, a dor termina por eliminar-se a si mesma. Dada a repugnância que o homem tem pela dor, o fato de associá-la repetidamente à ideia do erro terminará por fixar em sua mente a aversão ao erro, de modo que assim, eliminada a causa, também pode desaparecer o efeito.

Se o homem tivesse conhecimento, não teria necessidade, para conquistá-lo, de passar através das três fases do ciclo da redenção e poderia, assim, poupar-se do erro e da dor. O ser mais evoluído não segue este longo caminho para che- gar ao estado de salvação, porque a atinge diretamente, evitando

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entrar na primeira fase e, com isso, esquivando-se às premissas do ciclo, que obrigam a seguir o desenvolvimento até o fim. Mas isto só ele sabe fazer sozinho, pois seu ponto de partida não é o estado normal de involução. Não vai por tentativas, pois co- nhece e toma, desde o princípio, o caminho justo, razão pela qual não inicia nem lança a trajetória na direção errada e, em consequência, não deve sofrer a ação corretiva do endireitamen- to. Ele não precisa dessa escola e, por isso, não se submete a ela. Porém, para quem se encontra na primeira fase, estando obriga- do a seguir as sucessivas, também há a perspectiva de atingir uma futura sabedoria com as relativas consequências, embora sob a condição de conquistá-la através de uma enorme fadiga. Assim, na primeira fase se inicia o ciclo da reconquista do conhecimento. Movido pelos impulsos do AS e ignorando os re- sultados, o indivíduo é levado a tentar o desconhecido em senti- do involutivo, anti-Lei, que automaticamente o expõe às reações dela. Ele busca a felicidade, motivado pela sua natureza de ori- gem divina, mas, por causa da revolta, age de forma contrária, isto é, descendo em vez de subir, caminhando para o AS, e não para o S. Assim segue os desvios, os enganos, as falsas vias, que, convidando ao prazer, levam à dor. Ele é livre. A Lei lhe permite agir e, enquanto ele ainda não houver cumprido toda a sua ação, provocando as devidas reações, fica à espera. Dessa forma, o indivíduo, em princípio, pode obter um sucesso mo- mentâneo, falseando o seu julgamento, já que, ao contrário, está aprendendo sua primeira lição, isto é, a vitória do erro. Neste er- ro ele se afirma, crendo ter vencido, enquanto na verdade per- deu. A verdadeira lição, que é o endireitamento, virá depois. Es- ta é a história de quantos fizeram fortuna no mal. É preciso ter presente que todo o fenômeno do ciclo da re- denção é orientado em sentido evolutivo, movendo-se do AS para o S. É assim que a primeira fase traz consigo todo o sa- bor do AS e lança sua trajetória na direção anti-Lei. É natural, pois, que, tratando-se de uma órbita em sentido negativo, esta seja feita pelo engano e não possa levar senão ao emborca- mento na dor. Logicamente também, é inevitável o choque de tal órbita com a Lei, que, ao contrário, segue uma órbita de ti- po positivo. Embate doloroso, mas salutar, pois reconduz ao caminho positivo, isto é, à salvação, que acaba, assim, tornan- do-se um resultado inevitável. 2 a fase Esta é a fase na qual se experimentam as conse- quências da primeira, que precede a escola da dor. Nela se reali- za a ação curativa do mal, com a correção dos erros. Em geral esta fase se desenvolve na vida sucessiva. O triunfo obtido na vida precedente ensinou ao indivíduo que é vantajoso o caminho do erro. Esta vitória o fez assimilar no subconsciente as piores qualidades do tipo AS, que, fixadas aí, agora ressurgem sob a forma de instintos, impelindo-o a insistir na órbita precedente de sentido negativo. Então este indivíduo se lançará de novo na mesma direção, e a repetição do erro será tanto maior quanto maior tiver sido o sucesso que dele obteve na vida precedente. Verifica-se, desse modo, o choque fatal entre esta a traje- tória errada e a trajetória da Lei. E tanto mais forte será o choque, quanto mais negativa for a força do indivíduo, isto é, quanto maior o sucesso obtido com ela e, portanto, a potência atingida. Quanto mais forte for o choque, tanto maior será a dor do indivíduo, que se esfacela no momento em que a sua órbita choca-se contra a inamovível órbita da Lei. É natural que esta vença todas as órbitas menores que lhe são contrá- rias, porque ela é a maior do universo: a órbita da lei de Deus. As órbitas lançadas no mesmo sentido a acompanham e, as- sim, não se chocam com a Lei, o que somente acontece com aquelas estão contra a sua corrente. Podemos agora compreender por que o choque advém. No universo, temos a grande órbita da Lei, segundo a qual se mo- ve em sentido evolutivo o transformismo de todos os fenôme- nos, que, partindo do AS, tende à recuperação da ordem perdi-

da, indo em direção ao S. Com a revolta e a queda, foi implan- tado o método separatista, tipo AS, lançando-se trajetórias ne- gativas, anti-Lei. Indivíduos rebeldes, afeitos ao mal, continu- am a lançá-las. Mas, como acenamos acima, essas órbitas na- vegam em direção oposta àquela órbita positiva da Lei. É ine- vitável então que, indo contra ela em vez de seguir fielmente sua direção, o choque ocorra e que, sendo a trajetória da Lei a mais forte, a órbita do indivíduo rebelde se quebre e sofra as consequências em forma de dor. Podemos assim compreender agora, mais exatamente, que

o choque é devido a uma ação não da Lei, mas sim do indiví- duo, que, lançando-se em direção oposta, vai contra ela. Então

é ele próprio a causa do choque. Não é a Lei que inflige a dor,

mas sim o indivíduo que a inflige a si mesmo, indo bater a ca-

beça contra o muro imóvel e inviolável da resistência da Lei.

É preciso compreender que, se algo é anti-Lei, então é anti-

Deus e, portanto, antivida. Tal condição significa assumir uma posição de morte, implicando numa automática liquidação de quem se põe do lado negativo, no mal. Nesta segunda fase, tudo tem o caráter de fatalidade, uma vez que é consequência do que foi livremente preparado na primeira fase. Daí advém a importância de nosso comporta- mento neste primeiro período, porque é nele que se faz o lan- çamento da trajetória, que depois, automaticamente, continua na mesma direção, até o impulso recebido se exaurir. Disso depende o desenvolvimento de todo o ciclo, desde o início de- finido e irrevogável. Se a primeira fase é o livre plantio das causas, a segunda fase é a fatal colheita dos efeitos, quando o fenômeno se acha mais avançado no seu desenvolvimento e começa a dar os seus frutos. Se a primeira fase é o lançamento da órbita na direção anti- Lei, a segunda fase é o choque com a órbita da Lei, quando, pa- ra o indivíduo, chega a hora da experiência da dor. Sacudido

pelo choque, ele entra no hospital para fazer a cura corretiva do erro, até sair dele convalescente, para iniciar a terceira fase do tratamento. Por esse exemplo se vê a utilidade dessa segunda fase, que, retificando a negatividade do erro através da negati- vidade da dor, corrige uma trajetória de enfermidade, que tende

à morte, com outra positiva, de saúde, que leva à vida. Na segunda fase, teremos então uma vida de tipo diferente, isto é, não de abuso, mas de pagamento, não de desordem anti- Lei, mas de reordenamento segundo a Lei. A primeira fase para

o indivíduo foi de livre iniciativa, que, por si mesma, embora a

seu modo, o ligava às suas responsabilidades. A segunda fase é determinista. Nessa etapa, é a Lei que comanda, curando o mal e reconstruindo a ordem violada. Este é o momento em que se vê como funciona a presença ativa de Deus em nosso mundo, uma vez que, como já foi explicado, não obstante a queda e a forma- ção do AS, o S permanece no centro do universo, com seu espí- rito animador e sua providencial potência curadora do mal. Como se vê estes fenômenos no desenvolvimento de desti- nos individuais têm raízes profundas, que estão em Deus, e só assim eles podem ser justificados com uma causa permanente, que lhes explica a forma e a evolução. Eis, pois, que o indivíduo se encontra diante do fato de ter de viver outro tipo de vida. O mesmo cálculo de probabilidade mostra que é difícil à possibilidade de se verificar, uma segunda vez, a feliz convergência de todos os elementos favoráveis ne- cessários para obter um sucesso frequentemente não merecido, porque a ele não correspondem reais qualidades e valores indi- viduais. Então, diante de uma realidade tão diversa, cai a mira- gem e o indivíduo choca-se contra a desilusão em que lhe nau- fragam os sonhos. A posição se troca, porque, na hora da corre- ção da trajetória, aqueles mesmos movimentos, em vez de leva- rem ao sucesso, conduzem ao desastre; em vez de trazerem sa- tisfação, geram dor; em vez de conseguirem um alto grau social, levam à prisão. Esta é a resposta que se pode dar a uma fácil ob-

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jeção que poderia ser levantada, quando se observa a realidade da vida, que nos oferece o espetáculo de homens malvados e bem sucedidos, gozando o fruto de sua iniquidade e zombando da Lei e da sua justiça. Aqui podemos responder que tal contra- dição nasce porque a observação do fato limita-se ao exame de um único momento do fenômeno, sem ver as outras fases. Eis como funciona a escola. Ela não consiste na exposição de teorias, as quais se pode não escutar, deixar de lado ou en- tão torcer, dando-lhes uma interpretação própria, mas sim de fatos, que não se podem evitar. Pelo fato de ser uma defesa da vida, o método é benéfico e, embora magoe, constitui uma providência de Deus a nosso favor.

Sem ação corretiva, que detém e remete o ser ao reto cami- nho, ele se perderia, tornando-se sempre mais desgastado e invo- luído. É assim que o S o salva do desastre da queda no AS. E ne- nhuma tentativa de destruição para subverter a ordem tem suces- so, porque o resultado produz, infalivelmente, a lição adequada para corrigir quem, na sua inconsciência, cometeu aquele erro.

A segunda fase contém uma experiência real, feita na pró-

pria pele e sem possibilidade de evasão. Tentemos compreen- der mais exatamente como isso acontece. A vida é como um laboratório químico. Nele encontramos todos os elementos pa- ra nos exercitarmos com suas combinações, nos mais diversos modos. Porém, se desconhecemos, devido à nossa ignorância das leis da química, as reações e os resultados das nossas ope- rações, então cometemos erros contínuos, porque misturas e combinações são feitas ao acaso. Mas a própria química nas- ceu assim, tentando e depois observando o que sucedia. O mesmo ocorre com as experiências da vida. Nela, as reações já sabem funcionar por si mesmas e as combinações seguem a Lei, que já conhecem. Porém o homem que não a conhece de- ve descobri-la por meio de suas experiências. Tudo já aconte- ce por si mesmo, independente dele. Seu conhecimento diz

respeito somente a ele e, exista ou não, não interessa de modo algum ao funcionamento dos fenômenos.

Eis então que a vida coloca o homem no laboratório, a fim de que ele, provando, aprenda. A cada experiência, ele toma conhecimento de uma reação e combinação química nova. Em certo momento, quando o fenômeno já amadureceu, qualquer estímulo pode funcionar como catalisador. Então o edifício químico se precipita e a combinação se fixa estavelmente num dado composto, registrando-se o resultado da experiência no subconsciente, onde é depositado. Assim o ser enriquece o pró- prio patrimônio com conhecimentos que, depois, constituirão suas várias qualidades adquiridas, vindo estas a fazer parte in- tegrante da sua personalidade como ideias inatas e impulsos na- turais instintivos. É assim que a personalidade vai sendo cons- truída através da experimentação e o ser vai recuperando a sa- bedoria do S, perdida com a queda no AS. Isto é o que se faz do nascimento até à morte. O indivíduo, ponto por ponto, constrói com o próprio esforço a própria sabedoria, que se torna sua propriedade inalienável e a mais útil conquista da vida.

A estrutura desta técnica nos faz compreender como ocorre

a correção do erro na segunda fase. O resultado de tais experi- ências forma uma conexão de ideias diferentes da primeira fase, substituindo a conexão entre erro e vantagem própria pela de erro e dano próprio. Assim, com a finalidade de corrigir a pre-

cedente, uma nova ideia se estabelece, registrando-se e alojan- do-se no subconsciente, para ressurgir depois, conforme já foi dito, sob a forma de instinto, como qualidade adquirida pela personalidade, para dirigir de modo diferente outra vida.

O fenômeno também é conduzido por esta via porque, se o

indivíduo na vida precedente foi um vencido, ele acreditou, no entanto, ter sido um vencedor, uma vez que, momentaneamente, os fatos lhe davam razão. Ora, essa ilusão com que o AS o traiu, empurrando-o a repetir o erro, faz que ele continue na direção involutiva com os mesmos métodos. Mas, como já vimos, quan-

to mais decidido foi o lançamento da nova órbita em sentido contrário ao da Lei, tanto maior terá sido o sucesso até então ob- tido naquele caminho. Tudo isso, ao invés de fazer o indivíduo aproximar-se dos mais evoluídos, leva-o a cair num ambiente de involuídos, ao lado não dos melhores, mas sim dos piores. Dada

a sua forma mental da primeira fase, é natural que, por afinida-

de, ele se sinta levado a nascer e a viver justamente entre estes.

E nada mais poderá esperar deles, senão egoísmo, traição, assal-

tos etc., que terminarão por vencê-lo. Se na vida precedente lhe foi fácil aproveitar-se de pessoas simples e boas, enganando-as, dessa vez, entre pessoas mais duras, ele levará a pior. Aqui o jogo dessa correção do erro se torna mais complexo. Qual é, no processo da evolução, a função desses elementos pi- ores que, embora tenham de se redimir, vencem na primeira fa- se, à custa de quem sofre na segunda fase? A Lei, sendo um conceito ou princípio imaterial, não se manifesta em nosso pla- no senão através das forças e formas que a exprimem. Quando exige do violador compensações para restabelecer a ordem, ela usa, como executor do débito e da divina justiça, outro indiví- duo mais atrasado, que encontra no devedor uma oportunidade para satisfazer seus instintos maléficos. Para quem sofre o da- no, este processo constitui uma purificação e, para quem o im- põe ao outro, significa cair na tentação de cometer o erro. As- sim, quem se encontra na primeira fase do ciclo, na qual se co- metem os abusos, é utilizado para dar uma lição corretiva em quem se encontra na segunda fase, na qual se fazem os paga- mentos. O mesmo ato cumpre, em duas direções, funções di- versas. Nas mãos de quem o faz, o mal é culpa e débito para pagar depois à Lei; nas mãos de quem o recebe, é instrumento de redenção e pagamento da dívida à Lei. Assim todos trabalham para o mesmo fim em diversas fases do mesmo ciclo. Aqueles da primeira fase preparam, sem que- rer, a escola para os da segunda fase, mas deverão receber, por sua vez, a mesma lição, quando atingirem a segunda fase, por parte dos novos que, na primeira fase, iniciam o ciclo. Aparen- temente, os dois tipos são inimigos, porque um inflige dano e o outro o recebe, mas eles, na realidade, colaboram fraternalmente para o bem comum, porque os da primeira fase experimentam através do erro, enquanto os da segunda seguem um curso da re- denção. É assim que, na sabedoria da Lei, até mesmo o mal ter- mina por desempenhar uma função de bem. Então quem acredita que trabalha em sentido negativo para o AS, na verdade trabalha em sentido positivo, para o S. Isso se deve ao fato, já examinado muitas vezes, de que a positividade do S permaneceu imanente no centro da negatividade do AS, com a função de transformá- la, através da evolução, na positividade do S. Assim, o mal se torna uma escola que, através da dor, redime do mal e da dor.

Uma vez que se trata de um jogo de emborcamento e endi- reitamento, assistimos àquilo que os maus podem ver como zombaria. Estes, de fato, pensam que, fazendo o mal aos ou-

tros, podem obter vantagem para si, quando, na verdade, fazem

o bem àqueles, devendo depois pagar o mal que praticam. As-

sim os inimigos vivem abraçados, ajudando-se mutuamente no trabalho da evolução. O resultado de todo este trabalho não é negativo e destrutivo, como desejariam os cidadãos do AS, mas sim positivo e construtivo, como quer a Lei. Assim, fican- do livres para fazer o mal, acabam fazendo o bem. Pode-se en- tão compreender, além da aparência, uma realidade diversa, aquela já revelada pelo Evangelho no Sermão da Montanha,

em que os vencedores, na perspectiva do mundo, tornam-se vencidos e os vencidos, vencedores. Assim, um inimigo que nos faz sofrer pode tornar-se um amigo que nos faz subir, obrigando-nos a evoluir. Pior para ele então, pois a salvação está na evolução e, através do pobre coitado, podemos subir a uma posição melhor, enquanto o mesmo fica atrasado, numa posição pior. Através dele, pagamos nossos débitos, enquanto ele se endivida e deve pagar. É por essa razão que o Sermão da

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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Montanha pode dizer, “Abençoados os que choram, porque se-

abençoados os que sofrem, alegrai-vos e

exultai, porque grande é a vossa recompensa

Assim se percorre a segunda fase do ciclo e se conquista o conhecimento. Tudo isso, porém, não se resume a um fato úni- co e imediato, mas sim a uma reconstrução executada em cada detalhe, por graus, ponto por ponto, em todos os campos e sob todos os aspectos da vida, envolvendo sentimento e intelecto. O ciclo da redenção, portanto, não se realiza numa única zona do indivíduo, mas é um fenômeno que se repete a cada passo, em cada setor, em tantos casos quantos são os elementos do conhe- cimento, para reconstruí-lo em todos os seus detalhes. Ainda que varie o conteúdo específico da experimentação, não muda a técnica trifásica do ciclo com que se realiza a evolução, permanecendo na segunda fase a sua característica de falência dos métodos da primeira. Assim a desilusão se mantém, pois são obtidos resultados opostos aos precedentes, terminando-se por viver na corrente contrária à da primeira fase, que foi vivida na anti-Lei. Na segunda fase, em vez de se continuar a comandar livre no caos do AS, como se dese- jaria, deve-se obedecer disciplinadamente, na ordem do S. Esta é a hora da penitência, mas é também a hora da reflexão e da mudança, momento precioso, no qual se aprende e, as- sim, se prepara o lançamento de um novo destino, segundo uma nova e correta trajetória. Para melhor compreender as relações entre a primeira e a segunda fase, vejamos um exemplo. Imaginemos dois indiví- duos, que chamaremos de homem da primeira fase e homem da segunda fase, no sentido de que o primeiro vive o primeiro pe- ríodo do ciclo, o do erro, e o segundo vive no segundo período, o da correção na dor. Há dois caminhos: um que desce (involu- ção) e outro que sobe (evolução). O primeiro homem é esperto, sabe viver, escolheu o caminho cômodo e segue por ele sem fa- diga, livre em sua bicicleta, cantando despreocupado, feliz por ter descoberto a vida fácil. Bastava somente um pouco de astú- cia e ele, convencido da própria inteligência, de repente fez a descoberta. O segundo homem não é ladino, mas sim honesto. Escolheu o caminho íngreme, que sobe, cheio de pedras agu- das, e segue por ele com esforço, empurrando a sua bicicleta, quando não é forçado a carregá-la sobre os ombros. Caminha pensativo, escavando a própria alma, ocupado com um profun- do trabalho de introspecção, a fim de compreender o sentido e o valor da vida difícil, a sua função redentora e suas metas lon- gínquas. Ele não é mais tão ingênuo a ponto de se crer inteli- gente só pelo fato de ser astuto, porque experimentou as conse- quências de se deixar enganar pelo orgulho. O primeiro homem, muito contente consigo mesmo, vai correndo confortável pela descida, sem freios. No fim do ca- minho há uma curva, mas ele não se preocupa em saber o que há na frente. Tudo é tão fácil e belo! Que importa? Ele sabe o que faz, é ladino. Na sua inconsciência, plenamente satisfeito consigo mesmo, olha com lástima o segundo homem, cansado na subida, e pensa: “Como é possível ser tão estúpido para es- colher um caminho tão incômodo, quando se pode tomar este outro tão belo, que eu escolhi?”. Tem vontade então de gritar:

“Muda o caminho, tolo. Não sabes viver!”. Por sua vez, o segundo homem olha o primeiro, que o jul- ga, e pensa: “Coitado, com seu modo de agir, está destinado a se espatifar. Adverti-lo é inútil, porque ele está convencido de ser ele o sábio e eu o idiota, uma vez que o sucesso imediato lhe dá razão”. Nos lados do caminho estão os pregadores mo- ralistas, que o advertem do perigo, mas ele é astuto e não se deixa enganar. No fim, a Lei vai ensiná-lo, fazendo-o aprender com a própria experiência, e não com a alheia, deixando-o quebrar a própria cabeça, em vez de ver a cabeça partida dos outros. Não seria justo que um simples aviso permitisse ao culpado desviar-se ou parar a tempo. Ao contrário, uma traje-

rão consolados

”.

tória, uma vez lançada, deve ser percorrida até o fim. O segun- do homem, por sua vez, continua a pensar: “Eis que é inútil avisá-lo. Afinal de contas, esta é a linha traçada pela Lei, e não posso mudá-la. Se ele não se espatifar na curva, como já acon- teceu outrora comigo para aprender, ele jamais compreenderá e, assim, não se decidirá a deixar o caminho do erro e seguir a via correta segundo a Lei. Deixemo-lo, pois, nas mãos de Deus. É necessário provar para crer”. A conclusão é que, devido à própria natureza do homem, a sua via natural é traçada pelas três fases do ciclo da redenção, razão pela qual não se pode retornar à felicidade do S senão pe- la dura via do erro e do pagamento com a própria dor. Constru- ído assim, com os elementos que o constituem, o fenômeno não pode seguir outra linha de desenvolvimento. Teremos sempre indivíduos do primeiro e do segundo tipo de homem. E os primeiros somente compreenderão os segundos depois de have- rem chegado, através de seus erros e correspondentes choques com a Lei, à segunda fase, onde encontrarão a dor. Para quem ignora a estrutura da Lei, não é possível compreender, sem ter antes passado pela experiência, que não se poderá jamais che- gar à felicidade pela via fácil da descida, mas somente pela via difícil da subida, o caminho adequado para alcançá-la. Que o universo seja regido, na complexa organicidade da sua ordem, por uma lei de fácil e injusto arrivismo, só os involuídos, igno- rantes da realidade, podem pensar. 3 a fase Assim como a primeira fase leva à segunda, que a continua, a segunda leva à terceira. Na primeira, o indivíduo é alucinado pela visão deformada da realidade no AS. Ele não vê

a Lei como força vital amiga, mas sim como um inimigo ao qual

é preciso vencer, sendo que seu valor consiste em desobedecer.

Assim, ele se lança imediatamente numa órbita negativa, e o su- cesso que obtém o engana, porque o leva a chocar-se com a Lei. Sobra-lhe tempo para confirmar-se no engano, porque aquele choque só ocorre após a trajetória ser toda percorrida, isto é, quando o mal está feito. Antes de chegar a esse ponto, o fenô- meno do movimento das forças necessárias deve desenvolver-se todo numa determinada direção. Assim o pecador pode cometer livremente todas as culpas que quiser e concluir sua vida com a convicção de estar com a verdade. E, até certo ponto, os fatos acabam lhe dando razão. Mas, assim, ele iniciará uma nova vida, lançando-se a toda velocidade na segunda fase: a da penitência. Dados estes precedentes, o choque é fatal. Desta vez, o in- divíduo não encontra o caminho livre para desenvolver a expe- rimentação a seu modo, pois, enfrentando condições opostas, acha-se bloqueado pelas resistências da Lei, contra a qual vai chocar-se, e isto o obriga a se corrigir. O dano do choque recai completamente sobre o próprio indivíduo, que o provocou. A

correção da trajetória é uma consequência do fato de se obter

resultados opostos aos previstos. A primeira fase é positiva para

o indivíduo, mas negativa diante da Lei. A segunda fase é nega-

tiva para o indivíduo, mas positiva diante da Lei. Podemos ago- ra compreender a estrutura destes fenômenos, porquanto os vo- lumes precedentes nos permitem orientá-los em relação ao fun- cionamento universal. A presença do S no centro do AS faz com que deva ser reabsorvida a desordem pela ordem, a negati- vidade pela positividade. Compreende-se, então, que a fatalida- de do choque implica na fatalidade da correção e da salvação, com o triunfo final do S sobre o AS. Chegamos assim à terceira fase. O seu conteúdo não é mais o trabalho de estabelecer condições de choque, para a correção da trajetória e do erro, mas sim de confirmação da posição correta, alcançada no final da segunda fase. Não basta receber uma lição, é preciso também absorvê-la. Não basta obter resultados, é preciso também assimilá-los, transforman-

do-os em qualidades adquiridas, fixadas na própria personali- dade. Na terceira fase cumpre-se o processo da trajetória cor- reta, para experimentar-lhe as vantagens e assim confirmar a

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sua verdade. Para ensinar que este é o melhor caminho, é pre- ciso que aos sofrimentos passados se acrescentem os bons re- sultados atuais. Assim a função da terceira fase é confirmar definitivamente, num dado campo de experiências, a posição do erro corrigido e da lição aprendida. Trata-se de se construir, conquistando o conhecimento. A

dura lição da segunda fase dissuadirá o indivíduo de repetir os erros da primeira, e a lição da terceira lhe fará ver as vanta- gens de viver segundo a Lei. Assim, agora, ele poderá ter uma vida de paz e alegria, na qual fará a experiência da ordem e de suas vantagens, vivendo segundo a Lei, e não na anti-Lei. Tal como na primeira fase se formou a conexão entre erro-abuso- alegria e, na segunda, a conexão entre erro-abuso-dor, forma-

se na terceira fase a conexão entre ordem-dever-alegria. Com

isto, o ciclo se fecha num tipo de forma mais inclinada ao S, em oposição àquela inicial, mais inclinada ao AS. Assim, gra- dualmente, progride-se no caminho da evolução, até suas zo- nas mais altas, de natureza moral e espiritual. Passa-se, deste modo, da ignorância ao conhecimento, do engano à verdade, da falsa alegria à verdadeira, da desordem do AS à ordem do S, percorrendo todo o ciclo nos seus três momentos: erro, expiação e redenção. Isto em correspondên- cia ao ciclo universal da queda e da salvação, nos seus três momentos: AS, dor e S. Podemos, dessa forma, compreender a centralidade da pai- xão de Cristo no fenômeno biológico da evolução. Eis que, mesmo no caso particular da reconstrução de cada qualidade da personalidade, mesmo nos seus menores aspectos, encontramos reproduzido o modelo do grande ciclo da queda e reconstrução do nosso universo, dado pelas três fases: 1 a ) A queda involutiva

do S na posição negativa de AS (desmoronamento); 2 a ) A dor e, assim, a árdua luta para reconstruir o S, evoluindo; 3 a ) A salva- ção, com o retorno ao S, através da evolução. Se o indivíduo tiver percorrido todo o ciclo, então terá as- similado a lição e consolidado a experiência, por ter vivido seu lado positivo. Partindo da nova posição conseguida, ele poderá iniciar outro ciclo do mesmo tipo, mas num outro setor mais avançado, ainda não explorado, e assim por diante, reconstruin- do-se e avançando no conhecimento, sempre em direção ao S, onde todos os erros terão sido eliminados, arrancados um a um por meio da dor, consequência deles. Na vida, encontramos indivíduos que estão situados na primeira fase, outros na segunda e outros na terceira. Expli- cam-se desse modo suas diferentes condições. Para facilitar a compreensão, expusemos aqui o fenômeno de forma esquemá- tica, dividindo o ciclo em três fases, vividas em três vidas. Mas pode acontecer que uma fase se prolongue e continue também na nova existência. Pode haver destinos mistos, de transição, onde encontramos as características de duas fases sucessivas.

O indivíduo pode, então, ficar submetido a dois destinos diver-

sos, um na fase final e outro na inicial. Pode até acontecer que uma fase domine várias vidas. É difícil encontrar uma só das três posições em estado puro, com domínio exclusivo do cam- po. Frequentemente há necessidade de repetir a segunda fase corretiva, por se ter persistido no erro, sem querer entender. A série desses ciclos de recuperação é tão longa quanto o cami- nho da evolução, e tão vasta quanto todas as qualidades do in- divíduo. Sempre através do mesmo processo erro-dor- redenção, o esquema do ciclo e a sua técnica permanecem e se

repetem em todos os casos, porém ocorrendo em um nível bio- lógico cada vez mais alto. Assim, as experiências e as conquis- tas serão de tipo sempre mais avançado e poderão ser realiza- das mesmo fora do campo moral orientador do reto comporta- mento, estendendo-se nas áreas do conhecimento, para adquirir outras qualidades, que também constituem a personalidade. In- sistimos no tipo de experimentação ética porque ele é funda- mental para a formação do indivíduo.

Dada a multiplicidade de pessoas e posições, encontramos na Terra um emaranhado de destinos, que se tocam, influenci- am-se, entrelaçam-se e podem combinar-se entre si, no entanto não se misturam. Quem se encontra na primeira fase, a do erro, pode exercer a função de carrasco e utilizar aquele que, so- frendo sua ação como vítima, encontra-se na segunda fase, a do pagamento com a própria dor. O agressor é levado a isso não só pelos instintos básicos, mas também pelo fato de que os

mais involuídos se agarram às costas de quem tenta sair do AS,

a fim de impedir que isso aconteça, porque não querem tais fu-

gas para o campo inimigo, que, na verdade, gostariam de ver destruído. Esta é a razão pela qual os melhores, que buscam superar-se, são assaltados e caem presas dos piores. Estes nos consideram seus inimigos, porque sentem inconscientemente neles a potência superior do Sistema, que os vence. Este é o poder da justiça, da bondade e da ordem qualidades e méto- dos do Sistema que levam aqueles situados na segunda fase, onde se dá a correção, a aprender e praticar. Deste modo, involuído e evoluído se atraem mutuamente.

Cada um dos dois tem necessidade do outro para cumprir sua experiência. O carrasco, para realizar o mal que depois paga- rá, tem necessidade de uma vítima para executá-lo, e a vítima, para pagar o delito pelo mal que fez, tem necessidade de um carrasco que a faça pagar. Procede-se a uma troca de serviços opostos, que são realizados em duas posições opostas, para fazer duas experiências também opostas. Assim, encontramos tanto aquele que, oprimindo, goza a expensas do outro, mas, com isso, prepara-se para pagar com

o próprio sofrimento, como aquele que, oprimido, sofre, mas

prepara-se para conquistar o melhoramento proporcionado

pela evolução.

Com injustiças opostas e compensadas forma-se uma jus- tiça. Na realidade, a verdade que poucos veem é que, no pri- meiro caso, o carrasco, que experimenta na primeira fase, prepara para si mesmo uma vida de expiação corretiva numa segunda fase, em que ele pagará, tornando-se vítima. E a ví- tima, que viveu a segunda fase, prepara para si uma vida de redenção na terceira fase, onde será compensada pelo que so- freu. Todos, sem saber ou querer, trabalham juntos, ajudan- do-se mutuamente. Também nesse campo se aplica a lei das unidades coletivas, que tende a engrenar vários elementos pa- ra formar um organismo. Podemos então ter uma série de destinos conectados entre si, dispostos em órbitas coordena- das, a fim de realizar o mesmo trabalho. Nessa massa de des- tinos, encontramos as trajetórias do pecador, do penitente e do redentor. O primeiro está no erro, o segundo se corrige na dor e o terceiro goza do resultado da lição aprendida. Há vi- das cinzentas, em que pouco ou nada se faz; há vidas tempes- tuosas e destrutivas; há vidas iluminadas pela redenção. Há tantos destinos quanto pessoas. Ao longo dessa grande corrente, o ser pode ocupar as mais variadas posições. Pode haver quem escolha a inércia, retirando- se assim de toda atividade, para evitar o erro e, com isso, a pos- sibilidade de entrar no ciclo da redenção. Mas nem mesmo esta tentativa de evasão exime das provas necessárias para evoluir, pois seria muito fácil resolver o problema com a resistência pas- siva à Lei, que, ao contrário, representa a exigência absoluta de subir do AS ao S, isto é, de retornar a Deus. Há, em nosso uni- verso, uma inadiável necessidade de evolução, e quem se lhe opõe é um rebelde, não por violação, mas pelo descumprimento da Lei, e fica assim sujeito às consequências que acompanham toda transgressão da Lei. Transgressor porque todo o nosso mundo está envolvido no ciclo da redenção, com as três fases descritas acima, das quais a primeira foi a revolta de origem, que iniciou a queda no AS, isto é, a fase do erro; a segunda é a atual correção na dor; e a terceira será a da cura salvadora no S. Eis então que, mesmo se o indivíduo não tem um erro precedente e

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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pessoal a pagar, ele está situado como elemento no meio da massa que se encontra em tais condições, isto é, de pagadores da segunda fase. Assim cabe-lhe inexoravelmente, por justiça, a fa- diga da evolução. A vida é um processo de experimentação que, através da técnica edificante das provações, tende a reconduzir o ser à consciência e ao conhecimento da Lei. Mesmo que o indi- víduo queira assumir uma posição neutra, para não cair em cul- pa, ele se encontra sempre perseguido pelo aguilhão da Lei, que

o impulsiona adiante no caminho da evolução. Expliquemos estes conceitos com uma imagem. A evolução é uma pista onde avança o tráfego de automóveis num dado senti- do. O seu percurso é o caminho da vida. O regulamento da estra- da a Lei estabelece uma velocidade média para todos, estabe- lecendo no tempo o ritmo do transformismo fenomênico. O ser, durante sua evolução, permanece fechado não só dentro dos tri- lhos estabelecidos pelo seu determinado tipo de forma, mas tam- bém dentro de um determinado tipo de ciclo de maturação evolu- tiva próprio dessa forma. Deve nascer, crescer, envelhecer e mor- rer segundo certo modelo orgânico e com um ritmo preestabele- cido. Quem corre muito sobre a pista vai bater no veículo que es- tá na sua frente. Este é o caso do gênio incompreendido que, an- tecipando os tempos, tenta ultrapassar a multidão de medíocres. Então, para se adequar à média, ele é obrigado a diminuir a mar- cha. Quem vai muito devagar na pista é atingido pelo carro que está atrás. É o caso do ignorante inerte que tenta parar o tráfego. Então ele é obrigado a acelerar. E há também o caso do incons- ciente, que acaba fora da estrada e vai bater por conta própria. Eis em cada caso um erro a pagar. Nesse capítulo, examinamos este caso mais comum e evi- dente do indivíduo que sai da estrada, destrói o seu carro, reco- lhe os pedaços e, depois, reajusta-os, paga os danos e se repõe no caminho da evolução. E ainda, por último, observamos o ca- so também típico do tranquilo fugitivo da Lei, que desejaria de- ter-se no meio da estrada e, como um alienado, sentar-se para descansar. Naturalmente, um tipo assim será atropelado. Esta é a provação que aguarda o indivíduo, quando ele não se decide a mover-se. Por outro lado, a provação para quem é muito ardente na evolução é permanecer entre indivíduos inferiores, que lhe sufocam os movimentos. Neste caso, pode ser que ele se encon- tre na dolorosa posição merecida por haver cometido algum erro causador de retrocesso involutivo. Estas observações nos fazem compreender que a inércia também é, diante da Lei, um erro a pagar. Não fazer nada pode constituir a primeira fase do ciclo da redenção, tornando-se inevitável percorrê-lo todo, mesmo para aqueles que acreditam não cometer culpas com sua imobilidade. Podemos assim compreender por que os indivíduos que nada fazem, nem para

o bem nem para o mal, são submetidos a duras provas, que de-

sempenham a função de estimular a atividade. Ora, isso acon- tece justamente porque seu grande pecado é não fazer nada, o que exige pagamento como qualquer outro erro. A culpa con- siste em recusar-se à fadiga da subida, recusando realizar o es-

forço necessário para subir a escada que reconduz a Deus. A Lei permite o repouso em função do trabalho, para que este possa continuar, e não a inércia como fim em si mesma. As virtudes negativas, por si sós, são contra a Lei. Desse modo, quem nada faz parece inocente, pois não comete erros, no en- tanto é obrigado à fadiga de experimentar a correção como um pecador. Tentar, com a própria preguiça, deter a corrente que sobe em direção a Deus também é uma culpa a ser corrigida, pela qual é necessário sofrer a devida lição. Observamos, assim, os mais variados tipos de destino, que são tantos quantas são as gotas de água do oceano. Interligan- do-se e combinando-se no imenso laboratório que é a vida, ca- da destino vai seguindo o seu caminho ao longo do imenso mar da evolução e da grande onda do tempo. Este oceano é o universo, que caminha para Deus.

VII. A TÉCNICA FUNCIONAL DO DESTINO. A FUTOROLOGIA E A RACIONAL PLANIFICAÇÃO DA VIDA

Os conceitos expostos acima nos permitem colocar em foco

o problema do nosso destino. Vivemo-lo sem compreender seu

significado. Cada um tem o próprio e a ele fica inexoravelmen- te ligado. Que força é esta que fatalmente nos constringe? Que deseja de nós? Por que tudo isso acontece? A nossa personalidade é um organismo de forças bem de- finidas, constituídas por nossas qualidades, de cujo tipo de- pende a estrutura de nosso destino. Se elas estiverem de acor- do com a Lei, atrairão outras forças benéficas, enquanto, se forem anti-Lei, atrairão forças maléficas. Segundo sua própria natureza, cada indivíduo forma sua própria atmosfera, com- posta de elementos que lhe são afins e de acontecimentos do mesmo tipo. Tudo isso ocorre segundo a justiça, porque a es- trutura de nossa personalidade depende de uma livre escolha desejada por nós no passado, cujos efeitos se fixaram em nós

e cujas consequências trazemos conosco. Como ocorre esta atração por afinidade? As forças que constituem o organismo da personalidade são ligadas à seme- lhança de um circuito fechado, oferecendo desse modo resis- tência a combinações com forças de outro tipo, que são repeli- das, enquanto atraem e introduzem no circuito forças do mesmo tipo, as quais, depois de aceitas, fazem crescer o potencial da- quele organismo. A natureza dessas combinações depende do

tipo da personalidade, que, segundo a sua natureza, atrai para si

o que lhe é semelhante. Assim, os bons, ainda que na fase de

correção ocorra o contrário, automaticamente tenderão a se unir aos bons, enquanto os maus são repelidos por ele. Por outro la- do, aos maus, mesmo que estejam na primeira fase, na qual ob- têm o próprio triunfo, acontece o contrário, pois tenderão a se unir com outros maus, já que os bons fugirão deles e também serão por eles repelidos. Depois, superadas as provas e aprendi- da a lição, cada um acabará por atrair o novo tipo de forças e de indivíduos aos quais, através da experimentação, tornou-se afim. No entanto, dado o tipo de circuito que constitui uma per- sonalidade, a escolha das forças a serem anexadas é fatal, como também é fatal ter que lhes sofrer as consequências.

Na construção de um destino, temos três momentos conec-

tados por derivação: 1 o ) Livre-escolha; 2 o ) Construção de certo tipo de personalidade; 3 o ) Fatal sujeição, a partir da estrutura formada, a um tipo de forças e acontecimentos que constituirão

o destino atual. A manifestação ocorre apenas no terceiro mo-

mento, estando ocultos os dois primeiros, preparatórios, como raízes subterrâneas das quais se desenvolve depois a planta. Esta toma formas diversas, conforme a semeadura tenha sido feita na direção da Lei ou da anti-Lei. Assim, o fenômeno do destino é percebido, sobretudo, na segunda fase do ciclo da re- denção, porque é nesta que se dá a correção obrigatória dos er- ros livremente cometidos na primeira fase. Por essa razão, o destino toma a forma de fato inexorável. Queremos justamente analisar aqui, com mais profundidade, quais são as causas e as razões desta sua inexorabilidade.

O fenômeno todo tem funcionamento automático. Uma vez feita a escolha dos caminhos a seguir, a órbita deve fatal- mente continuar o seu impulso. Tudo depende desta primeira colocação. Quando o indivíduo se põe numa dada posição di- ante da Lei, fica depois encurralado num dado tipo de conca- tenamento de causas e efeitos, de modo que não pode mais sa-

ir dele enquanto não haja percorrido todo o trajeto. Esse pro-

cesso passa a ser um componente da sua personalidade. Sua própria vida se transforma nesse processo, de modo que é im- possível escapar dele. Daí advém a fatalidade do destino. Quando um indivíduo enfrenta a sua vida, ele leva consigo as consequências de todos estes precedentes, aos quais está li-

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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gado. Segue-se que, na série das várias oportunidades que a vi-

Vemos um mal nos cair às costas e, para nos defendermos, que- remos descobrir quem é o inimigo que no-lo atira. Não compre- endemos que não se trata do assalto de um inimigo, mas do fun- cionamento da justiça da Lei. É inútil nos culparmos uns aos ou- tros. Cada um sofre as consequências do que faz. Quem foi atin- gido expia, e quem o atinge deverá expiar por tê-lo atingido. Há filhos que maldizem os próprios pais porque eles, tra- zendo-os ao mundo, condenaram-nos a uma vida de sofrimen- tos. Mas esses pais poderiam responder a cada um de seus fi- lhos: “E tu, por que encarnaste naquele feto? Não fomos nós que te obrigamos a escolhê-lo. Por que não nasceste de outro casal? Poderia esse fato mudar a tua natureza e o teu destino, que depende dela? Nós te demos um corpo, mas não te obri- gamos a escolhê-lo entre tantos outros. A alma é tua, e não fomos nós que a fizemos. Se foi Deus que assim te criou e te obriga a viver desse modo, então te volta contra Ele”. Depois destes esclarecimentos, tais reclamações não têm mais sentido. Contudo, para resolvê-los, é necessário sair do mistério e conhecer este funcionamento. Os desgraçados que passem a fazer exame de consciência e, ao encontrar a culpa em

da

lhe oferece, ele não escolhe livremente ou por acaso, mas se

orienta seguindo suas preferências, segundo as atrações estabe-

lecidas pela sua natureza. Disso depende o seu comportamento,

o

seu tipo de reação, o seu método de pensar, seu modo de agir

e,

por conseguinte, a sua vida. Mas tudo isso depende de sua

forma mental, que foi construída por ele no passado. Eis como

o indivíduo traz consigo já traçado o caminho que há de seguir.

A escolha, o comportamento, os tipos de reações, o modo de

pensar e de agir eram como sementes à espera de desenvolvi- mento, escondidas no inconsciente do indivíduo, introduzidas aí por ele mesmo no passado. Dado esse precedente, não é possí-

vel que ele seja diferente do que é ou se torne outra pessoa, pa-

ra

que as consequências derivadas de sua natureza possam ser

diferentes do que são. Para que isso fosse possível, seria neces-

sário que o indivíduo fosse feito de outro modo. Assim a única

via que ele pode seguir é somente a do natural desenvolvimento

trajetória do seu destino, tal como esta foi lançada por ele.

Uma mudança é possível, mas somente percorrendo toda a ór- bita, introduzindo pouco a pouco, com novos impulsos, as cor- reções para modificá-la, depois de haver passado pelas devidas provações, consequências do passado, e ter aprendido a lição. Uma mudança rápida se poderia fazer, desde que possuísse o conhecimento. Mas o conhecimento não se pode sobrepor à ex- periência, porque é consequência dela. Este fenômeno do destino, uma vez que é consequência do que semeamos, apresenta a característica de golpear nos pontos precisos e na forma em que semeamos. Constituindo-se na cor-

da

reção das forças anti-Lei que pusemos em movimento, é lógico que, para nos corrigir, como é sua função, ele o faça de modo

si

mesmos, procurem corrigi-la. Como pode a Lei ser tão injus-

ta a ponto de fazer um filho inocente pagar as culpas dos pais?

E, da parte destes, como é possível, por sua vez, serem respon- sáveis por um destino que não podem prever? Certamente esses pais podem e devem ajudar com a educação, mas já vimos que os destinos não se anulam senão depois de terem sido percorri- dos, vivendo-se todas as relativas experiências. Como se vê, es- tamos fechados numa gaiola de ferro, que é a ordem e a justiça da Lei. É lógico que ela não nos venha dar essas explicações e, imperturbável, continue a funcionar em silêncio. Somos nós que, com a nossa inteligência, devemos chegar a compreender.

específico e dirija-se contra o defeito a ser corrigido, atingindo

o

órgão enfermo a ser curado. Assim, cada um é submetido a

 

um dado tipo de provas, duras para si, porque o golpeiam jus- tamente em seu ponto fraco, de menor resistência, enfermo e dolorido, enquanto que, para outros, tal tipo de provas é insigni- ficante, porque eles, naquele ponto, são fortes, sadios e inatacá- veis. Mas aqueles que não foram atingidos serão, por sua vez, submetidos a provas que lhe serão igualmente duras, porque se- rão golpeados em outros pontos também fracos, doentios e do- lorosos, entretanto estas provas não atingirão os demais seres que, nestes pontos, são fortes, sadios e inatacáveis. Eis então que essas forças são automaticamente canalizadas para ferir o ponto justo, particular de cada indivíduo. Isto é ló- gico, pois esta canalização já está estabelecida pela direção em que foi lançado o primeiro impulso, continuando por si só, através do conhecido concatenamento entre o erro, o seu regis- tro como mau hábito ou qualidade adquirida, a experiência cor- retiva e, finalmente, a correção da trajetória errada. Ora, o des- tino não pode funcionar senão permanecendo dentro desse ca- nal em que foi gerado, do qual não pode sair enquanto um novo impulso não modificar sua trajetória. É assim que o destino é fatal, estritamente pessoal e específico, sendo exatamente orien- tado para os pontos pré-estabelecidos, construídos por nós ante- riormente. No caso da segunda fase da redenção, torna-se uma escola com a finalidade de corrigir aqueles determinados erros que quisemos cometer no passado. Tudo isto é bem definido, sem elasticidade ou promiscuidade. A cada um corresponde a responsabilidade pela sua culpa e a fadiga da redenção. Tudo segundo a justiça. Cada um paga os próprios pecados, e não os dos outros, que pagam somente os seus. Cada um se redime com as próprias dores, e não com as dos outros, que, por sua

vez, não podem se redimir através das dores alheias. A Lei não pode ser senão esta da mais exata justiça. Quando alguém sofre por um duro destino, é levado a procu- rar a causa nos outros, jogando a culpa neles, e não em si mes- mo, acreditando desse modo que pode se livrar da própria dívi- da, enquanto, na verdade, agrava o erro, aumentando a culpa.

◘ ◘ ◘ Procuremos agora compreender ainda mais profundamente

estrutura do fenômeno de nosso destino. Veremos que ele, não obstante possa ser entendido como fatalidade cega, é, na verdade, um fato que se pode racionalmente prever, calcular e livremente preparar, mesmo apresentando-se depois como de- senvolvimento automático e fatal. Segundo a justiça, somos responsáveis, e não há como contestar. É necessário, antes de tudo, compreender que só existimos enquanto somos um vir a ser. O transformismo é a forma da nossa existência. Não somos algo fixo, mas sim uma trajetória em movimento. É este movimento que nos sustém, assim como

a

é

o movimento que mantém os planetas nas suas órbitas. So-

mos crianças que se tornam adultos, adultos que envelhecem, velhos que morrem para renascer. Estamos sempre nos tornan- do alguma coisa diferente e não podemos nos deter nunca. Aqui, o esquema rotativo da órbita planetária nos exprime o fenômeno com evidência. Existimos hoje de um modo diverso do que fomos ontem e do que seremos amanhã, ou seja, esta- mos sempre em outro ponto de nosso movimento, que é a con- tinuação do precedente. Assim, pois, cada um de nós é uma personalidade que resulta de um conjunto de qualidades bem definidas, mas em contínua transformação, razão pela qual o ser existe na forma de uma trajetória em curso, como uma en- tidade que navega através do seu transformismo, individuada pelo típico feixe de forças que a constituem. Daí se conclui que, assim como uma massa, ao ser lançada ao longo de uma trajetória, tende, por inércia, a manter inalterada a sua direção, uma personalidade, ao ficar definida pelas suas qualidades, também tende fatalmente a prosseguir seu destino. Afirmamos anteriormente que tais forças formam um cir- cuito individual fechado em si mesmo, o qual, porém, encon- tra-se em relação com o ambiente em diversas condições, por afinidade ou dessemelhança, por atração ou repulsão. Aper- feiçoemos agora estes conceitos. Quando a personalidade se desloca através de seu transformismo e percorre assim a traje-

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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tória do seu destino, ela atrai para si as forças afins que en- contra nesse caminho e repele aquelas com que não sintoniza. Dessa atração nasce uma aproximação e, depois, uma combi- nação. Então um determinado evento se verifica. É a natureza das forças constitutivas da sua personalidade, com suas qualidades bem definidas, que estabelece o tipo de atração, de repulsão e, logicamente, de combinações para o in- divíduo, promovendo depois a verificação de determinados eventos em sua vida. Mas estas qualidades são construídas por ele mesmo, com seus pensamentos e atos passados. Assim, es- tão presentes no fenômeno estes dois elementos: 1 o ) A natureza da própria personalidade do indivíduo, ou seja, a sua estrutura, com suas particulares atitudes de atração e repulsão; 2 o ) A traje- tória segundo a qual ele é lançado, que o expõe a encontrar as várias forças entre as quais, conforme a qualidade daquela natu- reza, automaticamente ocorrerá a escolha. Ora, estes dois ele- mentos são pré-existentes ao evento que se diz desejado pelo destino, sendo eles o resultado de uma nossa livre escolha ante- rior, segundo a qual foram por nós mesmos construídos no pas- sado. Eis, então, que o fenômeno nos parece cego e fatal so- mente porque não vemos a sua primeira formação. Esta, no en- tanto, é o resultado de movimentos concatenados, iniciados pe- lo indivíduo, que livremente os lançou. Ele é, pois, responsável pelos eventos da sua vida, os quais, por ignorância, atribui a um destino cego. Assim, em última análise, tudo é justo, porque a primeira causa de tudo está em nós. Tentemos penetrar a técnica do fenômeno, observando seu funcionamento. O destino não é senão o desenvolvimento de uma trajetória lançada por nós mesmos anteriormente, a cujo percurso estamos inexoravelmente ligados pela lei de causa e efeito. Se foi nossa a escolha e nossa a ação que operou como causa, nossas também devem ser as consequências. Uma vez que nos lançamos em determinada direção, é impossível não se- gui-la até o fim. Eis porque o destino se nos apresenta com tais características de fatalidade. Estabelecida a origem e o tipo desse movimento, tentemos compreender o que acontece no seu desenvolvimento, ao lon- go do seu percurso. Este movimento consiste no transformis- mo, canalizado em determinada direção, de uma personalida- de exatamente individuada como feixe de forças, num circuito fechado e bem definido nas suas qualidades. Eis que cada ca- so submetido a exame se distingue seja como tipo de perso- nalidade, seja como tipo de destino de todos os outros casos em meio aos quais se move. Estabelecido tal tipo e o percurso da sua trajetória, eis então que se pode prever quais campos de forças o indivíduo atravessará em seu caminho e a escolha que fará, dado que, segundo a sua natureza, estará pronto para ser levado a entrar em combinação com forças afins, porque as atrai e é por elas atraído por semelhança e simpatia. Poder- se-á prever as forças que poderão entrar no seu circuito e quais delas se enxertarão nele e com ele se fundirão. Poder-se- á, assim, conhecer que tipo de evento será repelido e qual será aceito e absorvido, como consequência da escolha que o indi- víduo é levado a fazer segundo a sua natureza. Veremos então que, se o primeiro impulso e a trajetória por ele definida são do tipo negativo, ele será destinado, por atração recíproca, a atravessar campos de forças negativas e a combinar- se com elas, o que significa entrar numa atmosfera de destrui- ção, condição pela qual, ao fazer mal aos outros em vantagem própria, será levado a sofrer o mal em dano próprio. Se, ao con- trário, o primeiro impulso e a respectiva trajetória são do tipo positivo, ele será destinado, por atração recíproca, a atravessar campos de forças positivas e a combinar-se com elas, o que sig- nifica entrar numa atmosfera construtiva, fazendo não só o bem aos outros, mas também o recebendo em benefício próprio. Em conclusão, eis que, em cada caso, os resultados do pri- meiro lançamento, livremente escolhido e desejado, recaem,

como é justo, em quem o praticou. Cada um premia ou pune a si mesmo com as suas próprias mãos, porque o destino é dado pelo tipo de trajetória por ele escolhida e lançada, que o levará

fatalmente às posições situadas ao longo de seu percurso. É as- sim que a vida, dependendo do fato de ser positiva ou negativa, será feita de bem ou de mal, benéfica ou maléfica, autoconstru- tiva ou autodestrutiva. E deste último tipo será a vida do indiví- duo malfeitor, mesmo que ele se proponha a ser maléfico e des- trutivo apenas para os outros. Se estes forem inocentes, não se- rão atingidos por ele. Ele poderá irradiar forças negativas, mas

é ele próprio quem mais está impregnado delas, porque essas

forças constituem a sua natureza e, se são prejudiciais para to-

dos, o são, sobretudo, para ele, que, mais do que todos, está sa- turado delas. O mal que ele faz aos outros é muito menor do que o mal que termina por fazer a si mesmo. E, vice-versa, o mesmo ocorre em relação ao bem, seguindo-se as trajetórias de tipo positivo, que são autoconstrutivas. Esta é a técnica funcional do fenômeno, que é automática, ainda que o homem tenha necessidade de representá-la, à sua semelhança, sob a forma de um chefe que recompensa ou casti- ga. Ocorre desse modo que as trajetórias semelhantes se atraem por afinidade, tendendo, portanto, a se aproximarem e a se fun- direm, fato pelo qual, no bem ou no mal, as forças constitutivas se somam e assim se reforçam reciprocamente. O contrário ocorre com as trajetórias de tipos opostos. Quando uma trajetó- ria de tipo positivo tem de atravessar um campo de forças nega- tivas, não ocorre nenhuma atração para levá-la à aproximação ou à fusão, mas sim uma repulsão, que leva ao afastamento e à separação. Somente os circuitos afins conseguem enxertar-se uns nos outros. Processo igual acontece quando uma trajetória de tipo negativo atravessa um campo de forças positivas, veri- ficando-se o mesmo estado de repulsa que leva ao afastamento

e à separação. Tal fenômeno é semelhante àqueles encontrados

na química, onde certos elementos, em alguns casos, combi- nam-se com outros, somente quando existem as necessárias condições de afinidade, caso contrário formam apenas uma miscelânea, permanecendo estranhos um ao outro, sempre prontos para se separarem. Assim, as forças de uma trajetória podem se unir e colaborar com as de outra, de um modo seme- lhante à combinação química, sendo possível sua sintonização quando afins, mas ocorrendo a repulsão no caso contrário,

mesmo se postas em contato. Eis, então, que o bem atrai o bem e é por ele atraído, com ele tendendo a se juntar, e o mal atrai o mal e é por ele atraído, com ele tendendo a se juntar. Assim é, sobretudo, para o pró- prio indivíduo, segundo o seu tipo positivo ou negativo, que, no primeiro caso, tudo tende a se mover em sentido construtivo e, no segundo caso, em sentido destrutivo. No primeiro caso, te- mos um destino benéfico, que automaticamente favorece quem

o construiu, e, no segundo caso, temos um destino maléfico,

que automaticamente pune quem o desejou assim. Perguntamo-nos, então, se é possível ajudar quem se encon- tra nas tristes condições desse último? Se a sua natureza é nega- tiva e maléfica, como podem ser postos, num circuito de tal tipo de forças, impulsos do tipo oposto, a fim de que possam ser as- similados e utilizados? Eis, então, que é a própria negatividade do indivíduo que repele a positividade de tais ajudas. É natural que a trajetória do seu destino resista a cada desvio de seu cami- nho, pois este, sendo dirigido para o mal, quer continuar a avan-

çar em tal sentido. Mudar, para ele, significa uma violação da sua personalidade, então ele, como é negativista e deseja perma- necer assim, rebela-se a cada movimento de salvação que deseje conduzi-lo ao campo positivo. Ele procurará, ao contrário, ou- tros indivíduos negativos, com os quais possa melhor realizar a sua personalidade, e, ao invés de salvar-se, terminará por perder- se. Assim ele se defenderá dos bons que quiserem salvá-lo, co- mo se estes representassem um assalto destrutivo com a intenção

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de sufocá-lo na realização de si mesmo. Ele interpretará os sá- bios conselhos ao contrário. Sendo negativista, ele confundirá tudo, entendendo o positivo como negativo, um ato de sinceri- dade como uma mentira, o que lhe é benéfico como coisa malé- fica, de modo que, revertendo o que lhe é oferecido como vanta- gem, acabará por transformá-lo no seu próprio dano. Eis qual é a técnica da autopunição e a razão da fatalidade do destino, razão

pela qual a trajetória, seja do tipo que for, deverá ser percorrida até o fim. De resto, não seria justo, no caso negativo, uma fácil recuperação sem mérito, o que certamente não ocorre, pois é o próprio mal que, agindo, tenta subverter e inverter o bem, trans- formando-o em negativo. Às vezes, pode até mesmo acontecer, numa nobre tentativa para resgatar quem está ligado com as for- ças do mal e nada mais deseja senão arrastar consigo todos ao inferno da perdição, de se chegar ao ponto em que, a uma tenta- tiva de corrigir o negativo com o positivo, o indivíduo responde com uma tentativa de transformar o positivo em negativo. Eis então que a boa vontade do homem benéfico, no tocante aos fins a que ele se propõe, pode ficar paralisada diante da ine- xorabilidade da Lei, que exprime a justiça de Deus, motivo pelo qual o bem não pode passar gratuitamente de quem o quer fazer

como no plano biológico e espiritual. É a presença dessa ordem que torna possível calcular, com antecedência, não só o percurso de uma órbita planetária mas também a trajetória de um destino,

permitindo ver os acontecimentos que ele contém. Torna-se pos- sível, então, lançar as bases racionais de uma nova ciência posi- tiva da previsão, que poderia ser chamada de “Futurologia”. Esta ciência se torna possível através do conhecimento das fases que, no seu desenvolvimento, a órbita de um destino per- corre, ou seja, daquelas que chamamos as três fases do ciclo de redenção. A evolução segue a direção da Lei, apontando para o S, mas disto não se conclui que a trajetória do indivíduo o leve sempre mais para o bem. Vindo tal movimento do AS, o caso mais comum é que a direção da partida, no início do ciclo, seja

o

erro. Verifica-se assim aquele fenômeno trifásico, observado

no capítulo precedente, que, relembrando, é composto de três momentos: 1 o ) Ignorância, que leva ao erro; 2 o ) Experiência,

feita de dor; 3 o ) Conhecimento, que leva à cura, corrigindo a velha trajetória e iniciando outra, conforme a justiça. Ora, tenho submetido esta teoria a um controle experimental, observando muitos destinos, e vi que ela corresponde à realida- de. Esta teoria é aplicável a todos os casos, ainda que o tipo de forças contido em cada um portanto de cada trajetória também seja diferente, pois o percurso das três fases está sempre pre- sente e pode ser dividido em três períodos. Uns se encontram no primeiro, outros no segundo, e os demais no terceiro. Estes perí- odos se encontram distribuídos em vidas sucessivas, ao longo de todo o ciclo, que, muitas vezes, não pode ser exaurido numa só vida. Mas, examinando-se a posição do sujeito na sua vida pre- sente e conhecendo o andamento do fenômeno, podemos saber qual foi seu destino no passado, que preparou o seu presente, e qual será seu destino no futuro, preparado pelo presente. Eis como é possível estabelecer uma futurologia racional. Apresentemos um exemplo. O sujeito é um motorista que guia um automóvel. Ele é inábil e está, portanto, exposto aos perigos do trânsito. Acidentar-se ou não depende das qualida- des dele, e destas, portanto, também depende o tipo de mal que ele poderá fazer a si mesmo e aos outros. Ele pode errar de vá- rios modos, e em cada um está implícito o dano corresponden- te. Tudo depende exclusivamente dele. A primeira fase é de ig- norância e erro. Se houver acidente, inicia-se a segunda fase, de experiência e sofrimento. Aquele motorista acabará no hospital

ficará imóvel durante muito tempo, enfaixado num leito, para

e

a

quem não o mereceu, mesmo se, por bondade alheia, aquele

bem lhe seja endereçado. Ocorre então que aquele impulso de bem não prossegue, mas recai sobre quem o lançou e permanece em seu benefício. Assim o exercício do bem, quanto mais é pra- ticado em prol do próximo, com o próprio sacrifício, tanto mais beneficia aquele que o faz. O mesmo efeito acontece no exercí- cio do mal. Assim, quanto mais se pratica o mal, a fim de con-

seguir tudo egoisticamente para si em prejuízo dos outros, maior será o prejuízo para aquele que o pratica. Em suma, pela justiça da Lei, ocorre que o bem ou o mal não passam a quem o recebe

a

não ser na medida em que este mereceu. Pode-se chegar ao

ponto em que os assaltos do mal, encontrando a virtude do bem, podem ser transformados numa escola de purificação e numa prova útil para a redenção, enquanto, a quem faz o mal, não é dada a oportunidade de saber operar, em vantagem própria, tal transformação em bem, levando-o assim, com os seus frutos ma-

léficos, a danificar tudo o que realiza. Em suma, o que prevalece

e

fica a cargo do indivíduo como seus resultados é a positividade

ou negatividade do seu tipo de destino. Assim, segundo a justiça, todas as tentativas de violar a Lei, mesmo que seja sem desejar e até desejando o contrário, provo- cam a mesma reação, e tanto quem faz o bem como quem faz o mal termina por fazê-lo, sobretudo, a si mesmo. Ele poderá transmitir uma parte aos outros, mas a maior parte fica com ele. Assim quem faz o mal pode até mesmo conseguir fazer o bem à sua vítima, se esta é boa. Isto prova como a lei de Deus, com a sua soberana disciplina, exerce seu domínio sobre tudo e sobre

todos. Em sua ordem, ela estabelece que as responsabilidades, embora os destinos se toquem e se influenciem, não se misturem

consertar os ossos quebrados. Deverá pagar os prejuízos do seu carro e os dos outros. Então ele pensa: “Se não tivesse cometi- do aquele erro, agora não estaria sofrendo”. Ao ficar bom, ele se refaz e retoma a direção, mas toma cuidado dessa vez, con- trolando e dominando os seus impulsos, para não repetir mais o mesmo erro. Agora, ele se encontra na terceira fase, a do co- nhecimento, que o leva à recuperação, isto é, à correção de seu velho modo de dirigir, para seguir um novo. Ora, encontramos na vida alguns indivíduos que estão na primeira fase, uns na segunda e outros na terceira, mas seja qual for a fase que a pessoa se encontre, sempre é possível de- duzir quais são as outras duas. Assim, do conhecimento de um só ramo de sua história, podemos deduzir outro mais completo, mesmo que essa história se interligue a vidas precedentes ou posteriores. Desse modo, se encontramos uma pessoa que, in- consciente dos perigos, corra loucamente na vida, sem conhe- cimento das suas finalidades, sabemos contra qual obstáculo ela irá se chocar. Isso é o que tantos chamam de sucesso e triunfo! Encontramos também aquele que já bateu e está no hospital, chorando e meditando; ou então quem aprendeu a li- ção e, já ajuizado, não cai mais no erro. Assim podemos com- preender o significado e o valor de cada posição, pois elas são vistas complementando-se dentro do mesmo ciclo, e podemos dizer a cada um as coisas que ele fez antes e o que lhe sucederá depois. As forças que constituem a personalidade estão na tra-

e

que cada um fique ligado às consequências das próprias ações,

e

não às dos outros. Nenhuma trajetória pode sair ou ser desvia-

da casualmente do seu caminho, mas apenas seguir as normas estabelecidas para sua correção, com os devidos impulsos e cál- culos de forças. Podemos assim ver com que exatidão, disciplina e justiça é regulado o desenvolvimento de um destino. As trajetórias das nossas vidas se movem com a mesma or- dem que as planetárias e estelares, seguindo percursos exatos, calculáveis e previsíveis. Assim como aquelas, as infinitas órbi- tas dos nossos destinos não se misturam. Se isso ocorresse, que caos se tornaria o universo! E que caos seria a vida, se tudo, no seu movimento incessante, não fosse canalizado em percursos determinados, segundo um plano pré-estabelecido! Nesta ordem, cada elemento percorre a sua trajetória em equilíbrio com as

demais, interagindo e relacionando-se através de ações e reações reguladas, sendo tudo coordenado em um imenso organismo, tanto no plano dos corpos celestes e do dinamismo que os move,

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jetória e no sentido estabelecidos por sua natureza, com a ve- locidade determinada pela sua potência. Portanto o trajeto de nossa vida é, num certo sentido, pré-estabelecido. Assim é possível prever-se, no bem ou no mal, a que posição esse traje- to conduz e quando a alcançará. Eis a futurologia. Para resumir então, estudemos o fenômeno em quatro momentos, cada um dividido em duas partes, ou seja:

Primeiro Observação da estrutura da personalidade.

Finalidade Conhecer suas qualidades ou tipo de forças que ela contém.

Segundo Observação da direção dessas forças, esta- belecida pela sua natureza, segundo a qual elas querem realizar-se, dado que estão em movimento de evolução.

Finalidade Conhecer quais serão as futuras posições que o destino examinado alcançará no seu percurso, isto é, aonde ele levará o indivíduo.

Terceiro Observação da potência daquelas forças e, portanto, da velocidade de sua realização.

Finalidade Conhecer quando, em medida de tempo, cada uma daquelas futuras posições será alcançada.

Quarto Conclusão das observações efetuadas, alcan- çada através da análise da trajetória.

Finalidade Constatar os erros da trajetória, diagnosti- car os seus males e, uma vez conhecidos os meios de correção a serem usados, indicar os novos impulsos a se- rem introduzidos para corrigi-la, compilando uma receita médica com a lista dos remédios que devem ser tomados para curá-la, a fim permitir a construção de um destino.

◘ ◘ ◘ Estes poucos conceitos são apenas um início do estudo de problemas imensos, uma primeira tentativa de orientação para profundas pesquisas introspectivas e de psicanálise, mas já permitem traçar uma teoria positiva do pecado e da redenção, dando uma explicação racional do destino e da função da dor. Perfila-se a possibilidade de se efetuar o cálculo das trajetórias dos vários destinos, primeiro descobrindo-lhe as raízes deter- minantes, situadas no passado, e depois, consequentemente, prevendo seus futuros desenvolvimentos. Uma vida é um traje- to no tempo e depende de como foi assentada, ou seja, da posi- ção em que foi posta em órbita. Levando em conta a natureza, potência e direção das forças em ação, pode-se calcular o per- curso e a posição de chegada ao fim de uma vida, mas, para is- so, é necessário um conhecimento profundo da personalidade humana e das suas qualidades instintivas, intelectuais e morais, com uma análise individual em cada caso. Possuindo o conhecimento de todos os elementos do fenô- meno, talvez se possa confiar o cálculo das trajetórias dos des- tinos a computadores eletrônicos, com procedimentos seme- lhantes àqueles que se usam na determinação das trajetórias das naves espaciais. Dessa forma, será possível introduzir naqueles destinos os impulsos adequados, para corrigir-lhes o percurso e, assim, torná-los benéficos, modificando o conteúdo daqueles campos de forças. Assim, o eu poderia ser colocado e prepara- do para assumir uma órbita mais vantajosa, na melhor acepção da palavra. Eis o método para uma verdadeira planificação da vida, não no sentido restrito, já aludido, de uma única existên- cia terrestre, mas sim no sentido amplo, de vida na eternidade. Quanta energia despendida em tentativas frustradas seria pou- pada, quantos erros e dores seriam evitados, quão maior rendi-

mento seria obtido, se a vida fosse inteligentemente orientada!

E quão mais rápido e fácil poderia ser então a escalada ao céu,

realizada por meio da evolução! Os métodos de conduta humana hoje vigentes são tremen- damente ilógicos e contraproducentes. Podemos comparar o trajeto de nossa vida a um trecho que percorremos dentro de um túnel. Nós e tudo o que existe estamos nele fechados, de modo que os nossos movimentos, apesar de livres dentro de seu âmbi- to, são limitados por suas paredes. O caminho que percorremos dentro do túnel constitui a evolução. De fato, quanto mais se vai para trás, mais ele é estreito e escuro, e, quanto mais se vai para frente, mais amplo e luminoso se torna, até que, no ponto final do túnel, na saída, encontra-se o espaço livre e o brilho in- tenso do sol: a luz do S. Durante o percurso, enquanto estamos mergulhados nas trevas, vemos aquela luz de longe, como um ponto. Avançamos penosamente, na escuridão de nossa igno- rância. Movimentamo-nos ansiosos de liberdade, mas não sa- bemos fazê-lo, porque nos falta a luz da inteligência. Assim,

nos movemos por tentativas, enganando-nos a cada passo e nos chocando contra as paredes do túnel, que lá estão, duras e infle- xíveis. Nós mesmos as fabricamos com nossa revolta, fechan- do-nos nelas em posição anti-Lei, no AS. Dentro desse cárcere, aprisionados no túnel, fizemos o caos, que é para nós o nosso inferno. Desatinados por causa da felicidade perdida, agitamo- nos para a direita ou para a esquerda, mas, a cada movimento errado, chocamo-nos com as paredes do túnel.

O mal que nos fazemos não vem das paredes, que ficam

quietas e não nos assaltam, mas vem dos nossos movimentos errados. É evidente que, não obstante o espaço restrito, se sou- béssemos nos mover, não iríamos bater e não faríamos mal a nós mesmos. O choque, portanto, deve-se a nós, e não às pare- des, depende de nossa conduta errada, e não da Lei. Para eli- minar a dor bastaria compreender quais são as suas causas e não provocá-la mais, semeando-as, isto é, sabendo comportar- nos sem bater nas paredes, seguindo a disciplina da Lei. O homem, que tem feito tantas descobertas, ainda não é capaz de compreender uma coisa tão simples: o funcionamento da Lei.

É inevitável, portanto, que ele continue a sofrer, enquanto não

conseguir compreendê-lo. Porém a Lei já havia previsto que a decidida vontade do ser seria estabelecer no AS uma revolta definitiva, de modo a ficar dentro dele, ignorante e sofrendo; sabia que ele, em vez de inserir-se na ordem estabelecida, iria tentar romper as paredes do túnel, subvertendo a Lei. Mas ele não possui um poder tão grande. Então, em vez de romper as paredes, arrebenta-se a si mesmo. O resultado da sua revolta é a cabeça partida, que significa dor. Ora, a sabedoria da Lei está justamente nisso, porque é aquela dor que o ensina a não repe- tir o choque e, com isso, a saber mover-se. O percurso do tú- nel, isto é, da evolução, torna-se então uma escola para apren-

der a mover-se, porque este conhecimento é indispensável para tornar a entrar no S, que é regime livre, mas feito de ordem. De fato, somente na ordem é possível ter, sem prejuízo, uma li- berdade completa. Essa não se pode conceder na desordem, porque seria desastrosa, uma vez que gera imediatamente abu- so, fato que somente num regime de perfeita disciplina não ocorre. Assim, esta liberdade só pode ser atingida no final do túnel, onde o espaço é livre e luminoso, e dessa liberdade se poderá fluir, pois se terá aprendido a fazê-lo na indispensável ordem e disciplina, aprendidas na escola da evolução.

O homem é ainda uma criança que não sabe caminhar e

que, para aprender, deve cair a cada passo, mas cada queda ensina, até a criança não cair mais. Certamente, para um adul-

to, seria absurdo tal modo de caminhar, isto é, tendo que cair

e levantar-se a cada queda. Basta apenas evoluir um pouco, e

passa-se a compreender quão estranho é este modo de se mo- ver. Mas é para isso que existe a evolução. Quanto mais o homem evolui tanto mais se aproxima da saída do túnel, onde

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termina o AS e o espera o S. Então, com o avançar, as trevas se tornam menos densas, a luz aumenta, abre-se a inteligência, vê-se tudo mais claro e, assim, as quedas e os choques, como as dores que deles derivam, vão diminuindo, até cessar. Quando se tiver compreendido tudo isso, será possível che- gar a uma nova moral científica, que se ocupará do correto lan- çamento das trajetórias da vida e da correção das erradas, im- pedindo assim a formação de destinos de dor. Trata-se de uma medicina preventiva no campo moral, baseada nas normas de higiene espiritual, que previnem contra o mal, eliminando os centros de infecção, impedindo-lhes a formação, o que é mais prudente do que corrigir e reprimir depois, recorrendo às repa- rações, quando o mal já está formado. Assim o problema é as- sentado sobre a lógica, sem apriorismos fideístas, com base em critérios práticos e utilitários, portanto compreensíveis para to- dos, isento das rivalidades de partido ou religiões, baseando-se em princípios de alcance universal. Poder-se-á então fruir da imensa vantagem de evitar tantas dores, vivendo como seres conscientes e inteligentemente orientados.

VIII. A NOVA MORAL E A TÉCNICA DA SALVAÇÃO

Falamos em uma nova moral. Aprofundemos este conceito. Segundo a velha forma mental, invocava-se a liberdade para ir em direção ao AS, com o abuso, lançando trajetórias de tipo negativo, em descida involutiva, e não para ir em direção ao S, com disciplina, lançando trajetórias de tipo positivo, em ascen- são evolutiva. Com a nova moral, não são possíveis tais distor- ções, pois se trata de uma moral de substância, uma moral de honestidade, e não de formas inimigas, prontas a fazer a guer- ra, no sentido de vencer na luta pela vida no plano animal. Tra- ta-se de uma moral que não é fundada nesta ou naquela reli- gião ou ideologia, mas nas leis da vida, portanto positiva e universal. Moral que, tal como estas leis, é verdadeira para to- dos e, portanto, funciona indiscriminadamente, trazendo con- sequências tanto para os crentes como para os ateus. Moral re- duzida à sua essência, despojada de formas, que tendem a ser transgredidas. Moral que consiste em ser sincero e honesto, sem admitir hipocrisia diante da Lei. Esta lei regula tudo em nosso universo e o rege, no plano moral, com a mesma exatidão com que o rege no plano físico e dinâmico. Diante da constatação positiva de uma sabedoria que dá prova indubitável de saber coordenar e disciplinar o funcio- namento orgânico dos fenômenos nesses dois planos, seria im- possível admitir que aquela sabedoria não funcione igualmente com a mesma ordem e disciplina naquele outro plano de exis- tência de nosso universo: o moral e espiritual. Se, na sua primei- ra parte, a Lei se mostra tão ampla, comprovando tal potência e inteligência, não é possível que ela mude de método e natureza justamente quando se trata de dirigir essa última parte, a mais alta, a mais importante e mesmo a mais preciosa, por se tratar do fruto do trabalho que o ser, com a evolução, teve de realizar para poder chegar àquele nível. A Lei é uma só. O universo físico, dinâmico e psíquico é um só. Logo a regulamentação do seu funcionamento deve ser só uma. Com a nova moral caem as distinções fictícias humanas de forma e fica a substância. Chega-se, então, à conclusão de que ser ateu ou crente é a mesma coisa, quando o somos honesta- mente. Salva-se quem é honesto, ainda que ateu, e perde-se quem é desonesto, mesmo se religioso e crente. Compreende- se, assim, que as religiões de nada valem, quando não são vi- vidas honestamente, e que a hipocrisia representa para elas um perigo mortal, um mal que termina por matá-las. Para esta nova moral mais valem as intenções do que as formas exterio- res. É condenado quem, por astúcia, consegue parecer irrepre- ensível, porque sabe agir de forma escondida, e é perdoado aquele que, por não saber disfarçar, parece culpado.

Quando um míssil é lançado, trate-se de um míssil do orien- te comunista ou do ocidente democrático, ele deve atravessar os mesmos espaços, enfrentar os mesmos riscos e superar os mesmos obstáculos. Portanto os problemas a resolver são os mesmos. Diante das leis dos fenômenos, as ideologias de nada servem. Só por ignorância se pode crer que nossa fé e nossas opiniões podem mudar alguma coisa no funcionamento da rea- lidade. Vê-se com isso quanto a nova moral é diversa da antiga. Esta acreditava em Deus não através da mente, utilizando o ra- ciocínio, mas entendia-o antropomorficamente, vendo nele um senhor que, pelo direito do mais forte, recompensa ou castiga de forma arbitrária, segundo planos escondidos no mistério. Com a nova moral, o destino, segundo o qual se desenvolve o

percurso de nossa vida, torna-se uma trajetória calculável, con- forme o lançamento realizado por nós, da qual se podem prever

e inteligentemente corrigir as consequências.

Introduzimos, no capítulo precedente, o problema de ser possível alguém se sacrificar, violando a inexorável justiça da Lei, em benefício de quem não tenha merecido tal vantagem. Esta é a posição na qual se encontra o idealista que se sacrifica para salvar um mundo que não tem a menor disposição de se deixar salvar por ele. Vejamos agora quais são as fases que este ser atravessa na sua tentativa de beneficiar os outros. 1 o ) Dada a sua natureza honesta, o idealista crê num mundo semelhante a ele, supondo que a aparência corresponde à reali- dade, que as palavras sejam verdadeiras, que a religião, a moral,

a espiritualidade e o idealismo sejam coisas vividas seriamente.

2 o ) A esta fase, que se poderia chamar de inocência, segue- se o descobrimento de que, sob aquela aparência, há uma reali- dade completamente diferente. Daí provém a amarga surpresa de constatar que a sabedoria do mundo consistia em fingimento

e engano. Este descobrimento, no entanto, é uma superação da

fase precedente de ingenuidade. 3 o ) Segue-se, então, um estado de terror pelas possíveis consequências a que pode levar o percurso de uma trajetória tão

negativa e destrutiva em descida para o AS, em vez de positiva

e salvadora, em ascensão para o S. Assim se explica, dado o

ânimo honesto do idealista, a sincera preocupação de advertir o próximo do perigo que corre, a fim de que mude de rumo. 4 o ) Há uma resposta hostil da parte de quem, incomodado nos seus métodos e aborrecido por vê-los descobertos e de- nunciados, está pronto a reagir contra aquelas tentativas de redenção espiritual, que não lhe interessam, sendo entendidas como um ato de agressão, contra o qual devem defender-se, eliminando o incômodo moralista. Mas, analisando-se a outra face do problema, é necessário também compreender que é di- fícil ao homem comum, tão mergulhado na sua involução, atravessar a vida sem ficar de algum modo massacrado, não lhe sobrando assim espaço para fadigas suplementares, como as que o ideal lhe desejaria impor, acrescentando-as às suas já duras penas pela luta da existência. 5 o ) Segue-se um novo golpe na ingenuidade do idealista, tão sabedor das coisas do Céu, mas muito pouco conhecedor no to- cante às bem diversas coisas da Terra. Além do mais, a sua fun- ção biológica não é, como para as massas, a conservação da es- pécie, mas, sobretudo, a evolução destas. Assim, o idealista aprende, às próprias custas, a conhecer o ambiente terrestre, tão diferente do seu. Com as novas experiências, supera o seu esta- do de inocência e não comete mais o erro de pretender coisas superiores da animalidade humana. Por isso é lógico que o ideal,

na Terra, seja utilizado, sobretudo, para os fins concretos e ime- diatos da vida, como é lógico também que, num regime de luta,

o nobre desejo de salvação por parte do idealista seja entendido

como ato de agressividade ou, no mínimo, como sem sentido. 6 o ) Sem mais ilusões, há o reconhecimento da verdadeira na- tureza do homem, involuído e sem nenhum desejo de evoluir. Mantem-se, então, absoluto respeito pela sua liberdade de esco-

Pietro Ubaldi

A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

25

lha e decidida vontade de permanecer naquele nível. Reconhece-

 

A

moral que deriva de tais constatações é que se torna ne-

se

a impossibilidade de forçar a correção do percurso da trajetó-

cessário ter uma conduta reta, porque as nossas obras nos se- guem e suas consequências não nos deixam mais, enquanto

ria

já lançada e estabelecida, em vista da necessidade de tais cor-

reções não poderem ocorrer a cada um senão através de suas du- ras experiências pessoais, aprendendo exclusivamente às pró- prias custas, e não por meio de prova alheia ou de conselhos gra- tuitos. Em suma, uma evolução justa, conseguida com o próprio esforço e suportando as consequências dos próprios erros. Essa posição final está em concordância com a justiça. Des-

forma, o idealista se despoja de sua ingenuidade e aprende a conhecer o mundo. Então ele não tem mais necessidade de se defender de um inoportuno estado de luta, que o aborrece, e al- cança outro, de compreensão e pacífica convivência. A evolu- ção, porém, que a febre do idealista gostaria de acelerar, per- manece estacionada à espera, enquanto o involuído pode afun- dar-se nos baixos planos da matéria. Esta é a vitória do mundo, que, em seu ambiente, tenta afastar o ideal como um intruso. Esta é a realidade e a mais importante coisa deste mundo. O problema mais urgente para resolver é a sobrevivência, e isso a qualquer preço. A moral, os princípios, a religião vêm depois. Em primeiro está a necessidade de se defender contra todos. Somente mais tarde, com o aperfeiçoamento, é que se vai pen- sar em justiça. Acima de tudo estão os meios materiais para manter a própria vida na Terra, depois vêm a religião e o ideal,

sa

não as tenhamos exaurido totalmente. Cada impulso nosso, se

é

relativamente livre para iniciar novas trajetórias no momento

de lançá-las, é imediatamente em seguida colocado no canal causa-efeito, no qual o movimento se torna determinístico. So- bre a nossa liberdade prepondera a Lei, que, se não nos limita na escolha das causas, liga-nos aos seus efeitos, dos quais não permite evadirmo-nos. Permanecemos, então, fechados dentro do percurso da trajetória lançada, sem possibilidade de fuga, e deveremos fatalmente segui-lo até ao fim, isto é, até ao ponto

em que ele, divergindo da Lei, nos leva a bater contra as pare- des do canal, dentro do qual ela impõe que tudo se mova. O choque que receberemos então será o golpe corretivo que nos levará a abandonar a velha trajetória e a iniciar uma nova, e es- te desastre será a nossa salvação. Quantos destinos que parecem venturosos não se estão movendo nessa direção! Isso ocorre quando eles são lançados no sentido anti-Lei, com base no engano, no abuso e no ego- ísmo, para a vantagem própria e o dano alheio. Outros desti- nos estão em fase de golpe corretivo, outros em posição de trajetória corrigida, e todos vão sendo inexoravelmente, para o seu desenvolvimento, canalizados dentro da norma estabele- cida pela Lei. Por mais que o ser goste de ficar no caos, ambi- ente natural do AS, no fundo deste permanece sempre a or- dem do S, que ninguém pode anular. Diante da Lei, para qual- quer um que a transgrida, não há salvação, seja ele o mais po- deroso ou o mais astuto da Terra.

a

fim de assegurar o próprio aperfeiçoamento para uma vida no

Céu. A finalidade é sempre a mesmo: sobreviver. Por isso, dado que o Além e as religiões que dele se ocupam são em grande parte mistério, jamais se sacrifica o certo pelo duvidoso. É me-

dida de sabedoria fazer, antes de tudo, os próprios negócios neste mundo e, somente quando for oportuno, ocupar-se de questões celestiais, das quais há tão pouca certeza. Assim a evolução é lenta, porque a vida é prudente e não

se arrisca no inexplorado, em tentativas plenas de incógnitas.

 

O

mundo não compreende tudo isso e paga duramente por

sua ignorância e sua vontade de não compreender. Somos li- vres na escolha, mas responsáveis pelas consequências, liber- dade e responsabilidade que nos ligam, inexoravelmente, aos efeitos das nossas ações. Se compreendêssemos tudo isso, esta- ríamos bastante preocupados em não fazer o mal. Deixamos de ser inteligentes quando praticamos o mal, iludindo-nos com o fato de crer que isso ocorra impunemente, só porque não ve- mos logo surgir suas consequências, das quais acreditamos po- der fugir. É preciso olhar mais longe. Somente os muito ingê- nuos podem acreditar que os efeitos do mal possam anular-se gratuitamente, sem que ninguém pague; apenas eles podem pensar que uma força lançada possa deter-se no vazio, sem ter de percorrer todo o seu caminho. Essa moral revoluciona o modo normal de conceber a vida como luta para vencer. A realidade é bem outra. O vencedor não é quem sabe conquistar domínio glória, poder e posses ter- renas. O verdadeiro rico e poderoso é aquele que é proprietário

A evolução pede esforços, e o indivíduo, que tem recursos li-

mitados, calcula-os, preferindo pensar nas vantagens imedia-

tas que percebe melhor e que lhe parecem mais seguras. A providência presume um estado de ordem, enquanto que o nosso mundo ainda está envolvido no caos do AS. Por sua parte, o idealista se torna mais consciente das dificuldades e menos propenso aos fáceis entusiasmos, tão comuns em tal campo. Então, aprendendo que o ideal, para frutificar, deve trabalhar mergulhado na imundície humana, ele não se expõe

a

insucessos, pelos quais o mundo depois o ridiculariza. Com

isso, também se torna mais potente, pois evita expor-se irre- fletidamente como um cordeiro, somente para se deixar devo- rar. Ao contrário, será um cordeiro cujo sacrifício, em vez de ser desperdiçado, será multiplicado para o bem de todos.

Falamos há pouco de um novo tipo de moral positiva e uni-

de um bom destino, o indivíduo cuja personalidade é composta

versal e dissemos que ela é objetiva, funcionando tanto para os crentes quanto para os ateus e materialistas, porque o fenômeno

de forças benéficas, positivas, sadias, que, por sua vez, atraem eventos favoráveis. Por outro lado, é pobre e miserável quem é proprietário de um mau destino, o indivíduo cuja personalidade

se

realiza indiferentemente para todos, sem levar em conta suas

opiniões. Trata-se de uma moral que depende dos fatos, e não de nossa fé neles; uma moral que, se for compreendida, pode revolucionar o nosso louco modo de viver, transformando-o em outro mais sábio e, portanto, menos doloroso. Por quê? Já explicamos anteriormente que, quando um determinado

tipo de personalidade ou circuito de força percorre a sua órbita,

é

composta de forças do tipo ruim, negativo, doente, que, por-

tanto, atraem forças e eventos desfavoráveis. O mundo está cheio tanto de coisas boas como más, mas que a nós venham umas ou outras depende de nós mesmos, isto é, do tipo de atra- ção que possuímos. Um homem pode ser o senhor do mundo, mas, se possuir somente as qualidades que atraem o mal, tudo lhe será desfavorável, até que esteja arruinado.

se

ele é bom, atrai do ambiente forças boas e com elas se com-

bina, produzindo bons acontecimentos, que serão favoráveis ao indivíduo. Mas, se é mau, atrairá do ambiente forças más, com as quais se combinarão as forças do seu circuito, produzindo maus eventos, que lhe serão desfavoráveis. E isto será automá- tico e fatal, pois as combinações são definidas por atrações e repulsões que dependem do tipo de forças de que o indivíduo é

 

O

que rege a nossa vida são estas forças interiores. As ver-

dadeiras riquezas, portanto, são de outra natureza. O que de fato conta é o que temos dentro de nós, aquilo de que somos feitos, e não o que está por fora, ligado somente ao exterior. Eis o nosso verdadeiro patrimônio inalienável, que ninguém pode nos rou- bar. Eis o método para nos tornamos independentes daqueles

feito, com as quais ele próprio construiu a sua personalidade. Eis porque o destino é realmente fatal, porém somente na sua fase de efeito, e não na fase de causa.

que, por meio da força, são vencedores. Estes podem empobre- cer-nos e matar-nos, mas não podem deslocar um ponto em nos- so destino. E, se nos empobrecem e nos massacram, é porque

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

Pietro Ubaldi

merecemos. Eis que ao princípio da luta pela vida com o triunfo do mais forte se substitui o princípio da Lei e da sua justiça. Estejamos atentos em não lançar trajetórias na direção do mal, porque, depois, teremos de percorrê-las até ao fim, pa- gando com o nosso sofrimento. Seremos, então, perseguidos por uma série de acontecimentos hostis, dos quais fomos nós primeiro a causa, por nos termos construído de modo ruim e, como consequência, atraído somente forças maléficas, das quais, no entanto, aqueles que se construíram de modo bom ficam imunes, já que atraem forças benéficas. Atentos então, porque não há coisa tão dolorida quanto ter que corrigir uma trajetória lançada contra a Lei. A esta altura, podemos com- preender toda a técnica deste fenômeno. Construamos assim, com uma conduta reta, um patrimônio de forças boas, porque então todo o bem virá a nós. Se, ao contrário, quisermos for- çar a Lei, colocando-nos contra ela, construindo para nós um patrimônio de forças negativas, todo o mal virá, e estaremos inexoravelmente ligados a um destino de desgraça. É preciso compreender que tudo o que pertence ao AS é negativo, destrutivo, inclusive para os seres que nele vivem. Trata-se de um reino invertido, onde a ordem do S se trans- formou em caos; a sua unidade, em separatismo; o seu poder construtivo, em força destrutiva, ou seja, fraqueza e enfermi- dade. Ao invés de amigos que se ajudam reciprocamente, os elementos pertencentes ao AS são rivais que vivem em dispu- ta. Eles se irmanam somente para tirar proveito uns dos ou- tros, e suas uniões se desfazem tão logo cesse o interesse de cada um. Esta sua estrutura é o ponto fraco do AS, por isso ele não pode deixar de se desagregar. Quando um indivíduo, com sua conduta errada, viola a Lei, ele inevitavelmente entra na negatividade, nos caos e no separa- tismo do AS, colocando-se em posição de inferioridade, de fra- queza e de doença diante da vida. Então a vida tende a eliminar tal elemento de corrupção, que se colocou fora da Lei. Em vez de protegê-lo em seu seio, ela que é vida abandona-o sozi- nho, ao seu desejado destino de rebelde, em razão do seu negati- vismo destrutivo. Como amigos, ele só encontrará seres do tipo AS, isto é, aliados egoístas prontos a traí-lo. Quanto mais avan- çar no caminho do mal, tanto mais afundará nesse ambiente. A salvação está somente na recuperação, retomando o ca- minho do bem. Para fugir àquela vontade de morte que está no AS, basta nos livrarmos do mal que nos torna vulneráveis. O micróbio ataca o ponto débil. O destino nos assalta onde pe- camos. É por isso que se torna necessária a retidão para nos curarmos. Se Cristo, quando lhe foi oferecido, tivesse aceita- do o AS, teria caído dentro dele, tornando-se rei na Terra, e teria perdido a oportunidade de nos mostrar, através do pró- prio exemplo, como fugir do AS para o S, que era o verdadei- ro objetivo da sua paixão. Eis que nada do que ocorre em nossa vida depende do aca- so. Tudo é pré-ordenado segundo esse jogo de forças, con- forme a atração ou repulsão dada pela natureza delas. O desti- no é construído por nós mesmos e está em nossas mãos. Ver- dadeiramente, ainda que não estejamos conscientes, vivemos num mundo livre e responsável, onde não domina o fado ce- go, mas a inteligência de Deus; onde não prevalece o acaso, mas sim a justiça. Procuremos, pois, lançar uma boa trajetória para o nosso futuro. Uma vez que se faça o esforço de lançá- la, ela irá por si mesma, segundo a sua natureza, arrastando- nos e levando-nos na direção de nosso bem ou de nosso mal, segundo o mérito e a justiça, de modo semelhante a um veícu- lo no qual viajamos a determinado ponto. Em substância, a nossa vida é um destino em movimento, que percorre o seu trajeto estabelecido pelo tipo de forças que contém. Infeliz é o afortunado que tem sucesso, enquanto segue

pois, ser o golpe corretivo necessário para ele se endireitar e salvar-se. A mais profunda realidade da vida é que os aconte- cimentos pelos quais ela é constituída não ocorrem de forma desordenada e por acaso, mas estão antes logicamente ligados, para cada indivíduo, ao longo do fio de seu destino, sendo tal fio constituído por um desenvolvimento de forças ao longo da linha causa-efeito, segundo uma trajetória bem definida, numa dada direção. Tais acontecimentos não são isolados, e quem compreendeu vê que a vida é feita de um concatenamento de sucessivos momentos ao longo de um único percurso, razão pe- la qual eles adquirem uma direção, uma meta e um significado. ◘ ◘ ◘ Continuemos a falar da construção de um novo tipo de mo- ral, positiva e universal. Essa moral pode ser tanto preventiva, constituída por normas de boa conduta, para o lançamento de trajetórias sadias construídas segundo a Lei e de seus desti- nos correspondentes, como corretiva, constituída por métodos para endireitar as trajetórias erradas e os destinos corresponden- tes. Como se vê, trata-se de uma moral diferente da antiga, que se limitava ao exterior e intervinha apenas quando o fato estava realizado, sem chegar à raiz do fenômeno. Trata-se de uma no- va moral, que, penetrando profundamente no íntimo da consci- ência, respeita-lhe a liberdade, mas impõe-lhe responsabilidade, e, assim, enquanto a deixa livre para qualquer escolha, é inexo- rável na exigência do pagamento de suas consequências. Uma moral que nos ensina a segurar o leme na travessia da vida e a dirigir a trajetória do seu percurso, lançando-a na direção justa, ou obrigando a corrigi-la, se errada. Pode-se assim dispor de medidas preventivas e corretivas do mal, antes desconhecidas, impedindo-lhe o nascimento ou afastando-se dele a tempo, evi- tando assim chegar-se ao choque fatal com a Lei. Trata-se, em suma, de uma moral das causas, e não só dos efeitos. Uma mo- ral mais sutil e inteligente, mais sábia e poderosa que a atual, agindo no interior, de forma mais penetrante e com efeitos de- cisivos, o que torna possível uma correção oportuna, evitando aquele choque com a Lei, que, mesmo podendo ser catastrófico, representa a natural solução do fenômeno, quando este foi lan- çado no seu fatal desenvolvimento. Podemos então chamá-la de moral das intenções, porquanto atinge o ato no seu nascimento, no momento espiritual da sua gênese, já que está na raiz de cada movimento nosso, instante do qual tudo mais deriva. Com a nova moral, pode-se intervir neste primeiro tempo, no momento do lançamento, quando este ainda não estabeleceu uma trajetória e tudo é mais maleável, porque ainda está em fase de formação. Quando a trajetória é lançada, o erro básico já foi definido e o dano está em ação. En- tão já é tarde, e a correção terá que ser muito mais laboriosa do que antes, quando tudo isso ainda não tinha ocorrido e podia ser prevenido, impedindo-se a sua primeira formação. Consegue-se assim antecipar-se ao mal, como, por exemplo, quando se usa a desinfecção e a higiene, que previnem a formação e a difusão de enfermidades, evitando um ambiente inadequado. Estes novos métodos podem levar a um deslocamento fun- damental em nossa vida, pelo qual nos tornamos senhores de nosso destino, ao invés de sofrê-lo passivamente. É certo que, pela lei de causa e efeito, o destino é fatal, porém, se souber- mos lançá-lo na direção justa, ele será fatal a nosso favor, ao passo que o será em nosso prejuízo, se o lançarmos, como fre- quentemente acontece, na direção errada. É necessária, porém, uma psicanálise da personalidade e um conhecimento do tipo de forças benéficas, uma espécie de medicina preventiva do espírito, que cure os males a tempo, prevenindo-os antes de se formarem e, assim, evitando agredir o enfermo com punições (cárcere ou inferno), que constitui uma forma de autodefesa tardia, um tipo de vingança, que não adianta, porque confirma e consolida o mal, ao invés de eliminá-lo. Tal forma é um mé- todo de guerra e responde a um princípio de luta para subjugar,

a

sua trajetória anti-Lei, dirigida para o mal, porque tal sucesso

o

reforça naquela direção. Tanto mais forte e doloroso deverá,

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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e não de cura para restabelecer, rebelando-se contra o atingido

pela enfermidade, para eliminá-lo; indo não contra as causas da doença que o atingiu, mas contra os seus efeitos. Trata-se apenas de uma reação egoísta contra uma ameaça ou uma ofensa produzida por aquele mal, e não de uma ação interessa- da na sua cura. Para nos livrarmos do perigo que ele represen- ta, busca-se eliminar, em lugar do mal, o enfermo. Quanto mais o homem se civiliza, tanto mais aguda se tor- na sua inteligência, aumentando a sua capacidade de penetrar até às raízes do fenômeno e, consequentemente, de dominá-lo. Assim, com o progresso da civilização, vai sendo continua- mente substituído o conceito de justiça positiva “a posteriori” pelo de educação preventiva, primeiro, e, depois, corretiva do mal. Este é de fato o critério que, em matéria penal, vai con- quistando espaço, tentando eliminar a formação da dupla fila de sempre, formada pelos culpados passíveis de punição e por suas vítimas, progressivamente eliminando-se a relação entre o mal realizado e o mal recebido. Forma-se assim uma nova moral, alicerçada na compreen- são, e não no temor, na convicção das vantagens que ela ofere-

ce a todos, e não na imposição da autoridade. A vida, que é uti- litária, não poderá deixar de aceitar essa moral, compreendendo

a conveniência que há na convivência pacífica, tornando leves

os perigos e as fadigas da luta, o que permitirá o trabalho e a conquista de um mais alto nível evolutivo. Houve um tempo em que a moral existia em função daqueles que comandavam e, vi- sando à própria vantagem, faziam-se representantes da ordem e

da justiça, constituindo a classe das pessoas honestas. Hoje, em lugar dessa moral egoísta de classe, a nova moral existe em função da utilidade coletiva. Houve um tempo em que uma pes- soa valia na proporção de sua riqueza, de sua classe social, de sua posição de comando, isto é, segundo o poder que dispunha para submeter os outros a si mesmo. Hoje se começa a apreciar

o indivíduo em razão do rendimento que ele pode dar como

produção e atividade em benefício de todos. É por isso que no passado se glorificava a virtude da obediência, porque se bus- cavam servos para subjugar, e não colaboradores. Foram exaltadas as três virtudes franciscanas: a pobreza, a castidade e a obediência, que buscavam podar o indivíduo no plano animal humano, na esperança de poder elevá-lo a um ní- vel evolutivo mais alto. Mas, hoje, elas se transformaram. A vir- tude da pobreza ociosa e improdutiva é substituída pela virtude do trabalho, indispensável para elevar o nível de vida, base de uma civilização mais avançada. A virtude repressiva da castida- de e da renúncia que, apesar de controlar as paixões baixas e ferozes então dominantes, induzia à posição negativa do não fa- zer é substituída pela virtude positiva, motivada no dinamismo criativo do fazer, isto é, o exercício de uma paixão mais alta no plano da inteligência, deixando em seu devido lugar as funções fisiológicas e nervosas e deslocando o centro da vida para um

nível mais evoluído. A virtude da obediência, referida acima, é substituída pela produtividade e pela compreensão recíproca, necessária para consegui-la. O exercício dessas três virtudes va- lia enquanto funcionava como correção das trajetórias mais co- muns naqueles tempos, dirigidas no sentido oposto: abuso de ri- queza, de sexo e de poder. Então a autoridade, não só para corri- gir mas também para manter-se em pé, tinha que exercer a fun- ção de domador. Modificadas, porém, as condições de vida, en- contrando-se esta numa fase de evolução mais avançada, é natu- ral que a moral evolua e surjam virtudes de tipo diverso. Hoje, ainda nos encontramos habituados à antiga moral con- vencional, que resiste a se adaptar às mudanças das condições de vida. Trata-se de uma moral peremptória, ameaçadora e precep- tiva, ao passo que hoje necessitamos de uma moral de compre- ensão. Os problemas, analisados mais a fundo, assumem outros aspectos e perdem seu absolutismo. Por exemplo, condenava-se

o egoísmo, mas, se quisermos ser sinceros, como se pode não

reconhecer que o egoísmo é a primeira condição de sobrevivên- cia em nosso baixo nível biológico? Como suprimir o egoísmo, se ele desempenha a função de defender o indivíduo? Como se pode, honestamente, propor como virtude aquilo que, num re- gime de luta, é antivital? É assim que nasce a hipocrisia por par- te do falso altruísta, que exalta tal virtude, mas só para os de- mais, buscando até mesmo desenvolvê-la nos outros, para se aproveitar deles em função do seu próprio egoísmo. É natural que, quanto mais os outros se sacrifiquem em seu benefício, exercitando o altruísmo que ele incentivou, tanto mais ele pode- rá utilizá-los a favor do seu egoísmo. Eis uma das razões pelas quais, no passado, inculcavam-se certas virtudes cristãs com tan- to zelo, além do que qualquer ato de rechaçá-las provocava uma espécie de escândalo e de condenação contra quem não as prati- cava. Tudo isso, conforme as leis da vida, é lógico.

A velha moral nada mais resolve. Melhor será deixar de pre-

gá-la hipocritamente. Em lugar de reprimir um egoísmo neces- sário à vida, aumentado-lhe assim o estado de luta, a inteligência está em desenvolver esse sentimento, redirecionando-o em sen- tido coletivo, para nos defendermos todos juntos, em vez de nos esganarmos para nos destruirmos. Respeitar então o vital impul- so egoístico, mas levá-lo a dilatar-se para abranger um grupo cada vez mais vasto, capaz de suprimir, a cada ampliação, um limite divisório e um setor de guerra, lucrando todos em paz e bem-estar. Pode-se, pois, passar do egoísmo a um verdadeiro al- truísmo sem hipocrisia, levando em conta a realidade biológica e pedindo apenas o que a vida pode dar. Só se pode passar do ego- ísmo ao altruísmo através da dilatação do primeiro, e jamais por sua negação antivital, contra a qual o ser se rebela, concedendo apenas uma aceitação fictícia, em forma de mentira. Neste caso, não é mais útil uma virtude de tal tipo. Mas, se, pelo contrário, o seu movimento for redirecionado, ele não toma uma direção ne- gativa, agressiva e destrutiva, mas sim positiva, porquanto de- senvolve em sentido construtivo um natural impulso da vida, tendo em vista uma vantagem e deixando de assumir uma forma opressiva de mutilação. Então o indivíduo aceita algo melhor, porque satisfaz o instinto de crescimento, que está na base da evolução. Repensando o problema do egoísmo em termos de de- senvolvimento de amplitude em vez de repressão, ele se resolve de modo natural, no sentido evolutivo.

Já tratei alhures desse assunto. Ao leitor superficial há de parecer repetição a retomada não só desta como também de ou- tras questões. Mas retornar a um tema é levá-lo sempre um pouco mais adiante, vê-lo mais a fundo, completá-lo e aperfei- çoá-lo. Assim, o leitor assiste o seu contínuo desenvolvimento.

É interessante ver como a sabedoria da vida resolve certos

problemas, manobrando o homem ignorante através de seu in- consciente. Os psicanalistas afirmam que as motivações “re- ais” são instintivas, inferiores, e que as outras, ideais e superio- res, nada mais são do que coberturas para, diante dos princí- pios, justificar aquelas. A realidade seria, pois, definida pelas motivações mais baixas, vizinhas da animalidade. Observemos a técnica do fenômeno, sem condenar suas origens instintivas. De que modo a vida resolve a contradição entre o ideal e a rea- lidade biológica, entre Cristo e o mundo? O primeiro quer que sejamos cordeiros, mas, se o formos, o mundo nos devora. En- tão o Evangelho, tão cheio de amor, acabaria nos empurrando para a morte? E porque nos escandalizamos, quando a essa pretensão se responde com a hipocrisia?

A questão se resume nestes termos: existe um antagonismo

absoluto entre o Evangelho e o mundo, isto é, entre o ideal de Cristo e as leis biológicas vigentes no nível evolutivo do ani- mal humano. Obrigando-se os dois opostos à convivência, é inevitável a hipocrisia, isto é, uma posição de contradição en- tre o que se prega e o que se pratica. A Igreja, devendo repre- sentar Cristo no mundo, não podia deixar de ficar prisioneira dessa contradição. Há fatos que não podem ser deslocados: 1 o )

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

Pietro Ubaldi

Os ministros de Cristo devem pregar o Evangelho, porque es- te é o seu dever de ministros e nisto consistem a sua função e

a

praticar, porém praticar o Evangelho num mundo ainda não civilizado como o nosso, isto é, oferecer-nos como cordeiros aos lobos, leva ao fim de Cristo, ou seja, a sermos rapidamen- te eliminados; 3 o ) Quando se morre, embora na condição de mártires e santos, não se pode cumprir a função e a missão de pregar o Evangelho; 4 o ) Portanto, para poder pregar o Evange- lho, é necessário não o praticar; 5 o ) Dessa forma, a contradi- ção e a hipocrisia são inevitáveis. Assim, a Igreja é justificada, porque se vê obrigada a recor- rer a tal solução. Nasce então o consórcio entre a religião e a hipocrisia. Mas esta não é uma solução desejável, pois o mal permanece. Então, para não culpar a Igreja, termina-se por culpar Cristo, que pregou um Evangelho em flagrante contra- dição com as leis da vida vigentes no plano humano e, portan- to, é inaplicável às massas. Para justificar a Igreja, temos que culpar Cristo, o que é uma solução ainda mais grave. Isso de- monstraria que o ideal é impraticável na Terra e acarretaria a derrocada total, pois, sem o conceito de evolução e de telefina- lismo, a vida perderia o significado.

sua missão; 2 o ) É verdade que há contradição em pregar sem

Será a culpa da Igreja e dos cristãos, que não seguem Cristo plenamente, até à Cruz, ou de Cristo, que propôs um método de vida que a conduz à morte? Há, no entanto, uma solução que justifica tudo sem inculpar ninguém. Ela consiste em aceitar a contradição, reconhecendo sua existência e sua incoerência, mas aceitando-a como um mal necessário, justificado por ser transitório, como uma fase evolutiva, feita para ser superada e depois abandonada pela vida. O Evangelho é de fato aplicável num mundo mais civilizado, que pratique métodos mais pro- gressivos de vida, dos quais já se estão detectando os primeiros sintomas. É verdade que o fenômeno só é concebível em função de uma futura fase complementar hipotética. Mas é também verdade que a isso nos levam a nossa razão e a lógica da vida.

A Igreja, por ora, resolveu o caso, usando o método concili-

atório, o único que pode permitir a pacífica convivência de opostos no mesmo terreno, sem que um destrua o outro como gostaria. Claro que se trata de dois inimigos. Contudo essa con- vivência é necessária, porque o ideal deve cumprir a sua função evolutiva, por meio de uma lenta penetração no mundo, que gostaria de eliminá-lo, mas que deverá ser por ele transforma- do. Este resultado não se poderia atingir com o método unilate- ral da vitória de um termo sobre o seu oposto. Frequentemente,

a contradição é um casamento entre opostos, a fim de que estes,

como polos da mesma unidade, ligados no mesmo circuito, possam colaborar para um fim comum. É assim que a sabedoria da vida terminou por casar o ideal e a realidade biológica, evo- luído e involuído, Cristo e o mundo. Desse modo, o primeiro termo não deixa sozinho, embaixo, o segundo, mas desce ao seu nível e a ele se junta para elevá-lo a outro plano de existên- cia. Trata-se de um trabalho de milênios, de lenta penetração dos princípios do cristianismo no âmbito terrestre, realizando, sob o manto do ideal, uma obra de civilização da besta, sempre pronta a reaparecer tão logo surja a necessidade de se defender na desesperada luta pela sobrevivência neste mundo.

É assim que se pode compreender, sem culpar ninguém, a

posição de um cristianismo que não pratica o que prega. Com- preende-se também a sua função de progressiva realização do ideal por sucessivas aproximações. Entende-se o seu trabalho de transformação evolutiva, situando a atuação plena do Evan- gelho não no presente, que não pode oferecê-la senão em pe- quenas doses percentuais, porém longe, mais adiante, no futu- ro. De fato, este é um caminho que se está percorrendo, avan- çando sempre mais no sentido daquela atuação. Compreendido assim o fenômeno, cessa a culpa das adaptações que tanto de- preciei nos escritos precedentes, pois não seria possível, senão

através de um recíproco ajustamento, uma aproximação entre dois extremos opostos, sem que um deles fosse eliminado. De outra forma, o mundo teria ficado sem o ideal como impulso de evolução, enquanto, para o ideal descido à Terra, não have- ria outra condição senão a morte. A realidade é que Cristo está no Céu, mas a Igreja está na Terra, e o comando pertence ao mundo. Cristo está no S, e aqui estamos no AS, reino do invo- luído, no seu baixo nível biológico. Dessa forma, então, expli-

ca-se e justifica-se o antagonismo entre os dois opostos, Cristo

e o mundo, e a contradição na qual se encontram os cristãos

que, de fato, não seguem Cristo, advindo daí a necessidade das adaptações que constituem hipocrisia, não se podendo, porém, acusar nem julgar culpado quem as pratica. Eis que, sem eles,

o ideal, ainda em seu estado teórico, não poderia existir nem

ser conhecido na Terra e a ideia de evolução em direção a um telefinalismo ideal estaria faltando.

Se essa contradição existe e se a vida aceita tal fenômeno, é lógico que este deve ter a sua função útil, a qual só agora, indo mais fundo, pudemos ver. Confirma-se assim a convicção de que a vida é feita de uma sabedoria que dirige tudo da melhor maneira possível, com o maior rendimento útil, mesmo que possa parecer o contrário a quem não conheça todos os fatores do fenômeno. O elemento que não se levou em consideração foi o estado involuído do ser humano, razão pela qual se ter- minou por exigir dele uma excessiva e avançada aproximação de Cristo, o que na Terra, campo do AS, é impossível. Assim se explica como, embora traído sob a forma de hipocrisia, o Evangelho ainda subsista neste mundo, em vez de se ter há muito evaporado nos céus. Embora apenas iluminando do alto

a estrada a percorrer, ele permanece, mesmo que esta estrada

ainda não tenha sido de fato percorrida. Que encontramos então na Terra, por trás das aparências? De um lado, vemos lobos à procura de cordeiros evangélicos, sequiosos para devorá-los; de outro, verificamos que a sobrevi- vência só se torna possível quando os lobos se disfarçam em cordeiros, isto é, assumem a auréola de pessoas honestas, justi- ficadas pela sagrada necessidade de sobreviver. Em tal mundo,

é necessidade vital e, portanto, biologicamente justificável fazer do Evangelho um uso diverso daquele para o qual foi destinado, utilizando-o como um manto para esconder a verdadeira natu- reza. Mas, se não há outro meio para não sermos devorados e se estas são as regras do jogo da vida no baixo nível humano, a conclusão então seria que tudo é justo e ninguém culpado.

O problema é colocado pela própria vida de tal modo, que

não se pode resolvê-lo senão por uma destas duas vias: 1 o ) Ou negamos, por orgulho, que o homem se encontra ainda numa fase involuída de animalidade, perdendo-se a única atenuante de suas necessárias evasões diante dos ideais superiores, o que nos induziria a concluir que, sendo um ser superior e conscien- te, como se afirma, é um mentiroso, porque não faz o que diz; 2 o ) Ou reconhecemos que o homem está ainda numa fase invo- luída de animalidade e, assim, tornamos possível justificar as evasões necessárias à sua sobrevivência, isentando de culpa a hipocrisia de que se vale como indispensável arma de luta e, neste caso, reconhecendo que ele não é o ser superior e consci- ente como se pensa. Em suma, há um erro na contradição entre

a teoria e a prática, cuja causa é preciso encontrar. Não há ou- tra escolha: ou devemos ser perdoados porque, na condição de involuídos, somos inconscientes, ou somos conscientes e evo- luídos, mas culpados pela mentira. Cada um pode escolher a interpretação que lhe convier. Ou somos desgraçados que mi- seravelmente lutam no nível animal, usando todos os meios de que dispomos, inclusive o ideal; ou, na verdade, somos seres superiores o que implica na responsabilidade e obrigação a um adequado tipo de vida, com deveres que os outros não têm traidores do ideal, pois não observamos tal comportamento. Não é possível nos qualificarmos como seres conscientes sem

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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assumir as relativas responsabilidades e deveres. Se assim não se procede, a hipocrisia é evidente. Qual é a solução então? Será, como já escolheu o mundo, deixar o ideal como está, em seu estado teórico, e a realidade como é, em seu estado prático? Ou será procurar conduzir a rea- lidade, através de uma lenta maturação, a aproximar-se cada vez mais da realização do ideal? Sem dúvida, tentar aproximar-se da

perfeição, embora vivendo num estado imperfeito, é a solução. Não é necessário que o homem compreenda aquilo que faz. A vida se ocupa de obrigá-lo a fazer aquilo que para ele é melhor,

e isso automaticamente. Quando a hora está amadurecida para

que tal fato ocorra, seja ela uma revolução, a descoberta de no- vas ideias ou a mudança em qualquer campo, o homem o realiza sem saber por que e onde acabará, chegando a conclusões, mui- tas vezes, totalmente diversas daquela em que acreditava. As- sim, procedendo de forma inconsciente, crê ser ele próprio quem deseja e escolhe, enquanto na realidade apenas obedece. A vida permite que ele mascare tudo com outras razões, deixando-o di-

zer o que quiser, mas, na verdade, ele só faz o que ela (a vida) permite. O que vale, realmente, são os fatos, e não as palavras.

A evolução se faz com as próprias experiências, cada um com as

suas. Aprende-se a não cair mais nos erros, somente depois de

ter caído neles e tê-los pagos com as próprias dores. Tanto faz ignorar ingenuamente ou mentir com astúcia, tudo funciona da forma como deve. Assim, qualquer comportamento pode deslo- car a posição do indivíduo, mas a Lei e a ordem das coisas per- manecem invioláveis, continuando o seu caminho. É desse mo- do que o homem vai experimentando e, com isso, conquistando

a consciência, o mais precioso produto de tanto trabalho.

O homem é livre, mas de tudo o que fizer advirão conse-

quências, e delas deverá prestar contas à Lei. Esta o deixa livre para cometer qualquer erro, uma vez que só deve corrigi-lo de- pois, com uma experiência instrutiva, que, através da dor, ensi-

na o caminho certo. Trata-se de uma conquista de conhecimen- to, o que significa evolução. O ideal representa um tipo de vida de um nível mais alto, isto é, mais civilizado e feliz. É em razão disso, por constituir um bem maior, que a realização do ideal é assegurada. A vida recompensa somente quem luta para subir, porque isso está de acordo com a Lei, que arrasta consigo quem

a segue, ao passo que abandona quem diverge do seu caminho.

Se um preguiçoso ou inerte se veste de pacifista para esconder seus defeitos, a vida, que não se deixa enganar, não o protege.

É inútil mentir-lhe. Diante dela não têm valor tais virtudes bara-

tas, negativas, feitas de inércia. Aqueles que se fazem evangéli-

cos por comodidade são liquidados. A mentira se volta contra quem a usa, quando é usada contra a vida. A vida quer a luta pela conquista, e o ideal é uma luta em um nível mais alto, pela conquista de valores mais elevados. A hipocrisia, que desejaria usar o Evangelho como um refúgio para poltrões, pode valer no plano humano, diante do mundo, mas jamais diante da Lei. É a própria Lei que lança os lobos contra os falsos cordeiros, que desejariam enganá-la. A veste de cordeiro, usada por muito tempo, torna os indivíduos gentis, mas os enfraquece. Obriga- os a assumir as pacíficas atitudes do cordeiro, e isto os torna ineptos para a luta, beneficiando o lobo. No plano humano, a vida permite a esses indivíduos agirem desse modo porque isto serve para civilizá-los, porém, terminada essa função, manda os aristocratas para a guilhotina das revoluções.

É antiga a história do ideal escondido. O lobo prepara suas

reservas e sobe na escala social. Estabilizada legalmente a posi-

ção conquistada, ele se torna uma respeitável pessoa honesta. O homem da ordem, que ele passa a defender porque é a seu fa- vor, torna-se conservador, defensor da sua posição, honesto e generoso, pois agora pode agir sem incômodo. Ele chegou lim- po ao bem-estar e agrada-lhe completar a obra, ostentando a au- réola de benfeitor, situação que agora pode desfrutar para satis- fação do próprio orgulho, luxo moral que não é concedido aos

pobres e que ele pode gozar, dada a posição que ocupa, custan- do apenas um pouco do quanto já conquistou. Assim, ele tran- quiliza sua consciência, sente-se bom, pratica o Evangelho, dá provas de amar ao próximo, é respeitado na Terra e pode até preparar-se para subir ao Céu e gozar a eterna beatitude. É verdade que ele se esforçou e lutou para subir, pensando que soube vencer. A vida o recompensa com o sucesso terre- no, no mesmo nível em que trabalhou. Apesar de tudo, ele fez

um esforço para subir, e a Lei lhe dá crédito. A retidão da Lei

é indiscutível, recompensa cada um proporcionalmente ao es-

forço realizado na direção evolutiva. Esta é a direção da pró- pria Lei, que atrai e protege o ser. Mas, quando este, sob a

máscara da mentira, põe-se a desfrutar o resultado obtido, buscando enganar a Lei para obter mais do que o merecido, então a falsa virtude se torna nociva para quem a aplica. Não se pode condená-lo, porque, se soubesse as consequências que

o esperam, não escolheria tal via. Sua opção é fruto da igno- rância, que se pode chamar também inocência. Mas a inocên-

cia não impede que se cometa o mal. Muito ao contrário, leva

a cometê-lo, e todo o mal deve ser corrigido, porque, diante

da Lei, representa desordem e, sem correção, voltaria a se re- petir, o que seria prejudicial para quem o comete.

Automaticamente, a ignorância leva à experiência que a elimina. Assim, a experiência é necessária para eliminar a ig- norância, que, por sua natureza, representa involução, en- quanto a Lei quer justamente o contrário, ou seja, não a es- tagnação do ingênuo, mas a laboriosa experimentação do conquistador de conhecimento. A inocência não exime das provas, sendo o estado que mais precisa da escola para aprender. Não se pode voltar ao céu do S, situado no mais al- to da escala da evolução, senão depois de ter atravessado to- do o inferno do AS e, por experiência direta, ter atingido os pontos mais degradantes da involução, com o fim de superá- los e suportar o trabalho de purificação, neutralizando todo o mal com o qual o ser se saturou, por ter vivido nele. ◘ ◘ ◘ Vimos assim, num determinado aspecto, como funciona a Lei. Ela é um pensamento diretivo e uma vontade de realiza- ção. As características fundamentais da Lei são: a inteligên- cia, o poder e a vontade. Os seus movimentos são exatos e atingem a finalidade. A sua técnica não é constituída de ten- tativas incertas, característica do ser decaído no AS. O ho- mem ainda primitivo, na sua inocência, não soube conceber tal lei senão antropomorficamente, sob a forma de um Deus que ajuda cada um. Quando um corpo cai, não podemos ad- mitir que Deus esteja lá para regular o fenômeno da queda, porque este é regulado automaticamente pela lei da gravida- de. Similarmente devemos admitir que assim também ocorra no campo espiritual. A Lei funciona igual para todos, segun- do as condições em que cada um se põe diante dela. Ela fun- ciona com inteligência perfeita, sem errar um movimento nem falhar um instante, com força irresistível, contra a qual não adianta rebelar-se, mas também com bondade absoluta, que exige a nossa salvação a qualquer preço.

Para esse fim, ela usa sempre dois métodos, segundo o ti- po de trajetória que o indivíduo escolheu e percorre. Se este se lançou contra a Lei, então esta, com seus impulsos, leva-o a se chocar com ela, o que se faz necessário para o bem dele, pois

é a única solução, embora dolorosa, para a correção do erro,

que, de outro modo, continuaria a levar o indivíduo cada vez

mais para o mal, piorando as suas condições. A Lei sabe disso

e o encaminha para o choque, porque, para a salvação do ser,

este é o único fato que pode reendireitar sua trajetória. A dor

não deve, pois, ser entendida como uma punição por parte de um Deus ofendido, mas sim como uma benéfica salvação da- quele que queria se perder. Se, porém, a trajetória em que o indivíduo se lançou segue a direção da Lei, então esta o pren-

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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de na sua corrente e o eleva, ajudando-o também quando ele está na fase de correção de uma trajetória errada. Em suma, a Lei está sempre presente e ativa, visando ao bem, embora sob formas opostas, segundo a posição positiva ou negativa em que o ser se coloca diante dela. O seres se movem em meio a essa lei como os peixes no mar. Quem segue a cor- rente da Lei é por ela conduzido; quem vai contra, é por ela ar- rastado. Esta corrente é a evolução, dirigida para o S. Quem quer andar em sentido oposto, involuindo para o AS, depara-se com todas as resistências da Lei, até encontrar o choque resolu- tivo, expresso em forma de dor e de sufocamento da vida. A dor é a voz da Lei dizendo: “Erraste! Corrige o teu erro”. A Lei nos

Vimos que, além de inteligência e bondade, a Lei também é uma vontade absoluta de manter o percurso de todas as traje- tórias na direção positiva, no caminho para o S; é um impulso inabalável de fazer o ser avançar ao longo do caminho da evo- lução, a sua natural via de salvação. Então, quando uma traje- tória se afasta da Lei, porque é lançada na direção negativa, no sentido do AS, a própria Lei age em sentido corretivo, reti- rando o ser do caminho da involução, que é a via da perdição. Ora, das duas forças, a do extraviado e a da Lei, a primeira é mais débil e limitada, devendo acabar por exaurir-se, e a se- gunda é mais potente e inexaurível, devendo, pois, acabar vencendo. O impulso de atração da Lei deve prevalecer sobre

diz isso porque é nessa correção que consiste a salvação do ser, também chamada de redenção. Todo caminho de involução não

o

impulso de repulsão do ser. Nesse afastamento, está implíci-

to um limite de resistência do impulso negativo, que funciona

é

senão uma trajetória errada, lançada na direção anti-Lei. Nes-

a

favor da vitória do impulso positivo. Inevitavelmente há de

te

caso máximo, cada erro nosso, embora pequeno, desencadeia

chegar um momento de saturação do fenômeno, isto é, de exaustão das forças maléficas do circuito rebelde. Aquele mo- vimento centrífugo chega, assim, a um ponto calculável, além do qual prevalece e entra em ação o impulso oposto, positivo, gerando um tropismo em direção à Lei, destinado a recolocar as coisas na ordem por ela estabelecida. É nesse momento que não funciona mais a vontade do indi- víduo e, com a finalidade de corrigi-lo, prevalece a vontade da Lei. Então é dada marcha à ré e o débito contraído com os equi-

líbrios da sua justiça é pago por quem o contraiu. A partir deste ponto começa o percurso invertido, de redenção. Então ao afas- tamento se substitui a reaproximação; à revolta, a obediência; ao furto de um bem não merecido, o pagamento da pena cor- respondente. O percurso de ida se resolveu no choque contra a Lei, mas, com a súbita ruína, o ser compreende o significado do abalo e então, para se salvar, aceita voltar atrás. Colocando-o na direção correta, a Lei que, por ser positiva, é sempre saneado- ra, benéfica e construtiva ajuda-o a pagar a dívida. Presta-lhe auxílio, pois é feita de bondade, mas não presenteia nada, por- que é justa. Não abandona o pecador ao seu destino, mas o atrai

o

mesmo processo de experimentação, dor e correção. O cami-

nho evolutivo não é senão a correção do grande erro da revolta, através da experimentação e da dor. Depois de uma cansativa subida que neutraliza a queda, voltaremos ao S, mas estaremos então conscientes das consequências de cada violação da Lei, donos de uma sabedoria tão duramente conquistada, que não de- sejaremos mais cometer o erro. Este é o método que a Lei usa e que se poderia chamar a técnica da salvação. Procuremos aprofundar o conhecimento dessa técnica, observando-a ainda mais nos seus particulares. Estamos ape- nas começando a penetrar o canal da Lei, mas, ao percorrê- lo, descobrimos desde o início incríveis maravilhas. Pergun- tamo-nos a que descobertas esse exame nos poderá levar e até aonde será possível, para nós ou para outros, continuar a percorrer aquele canal? O eixo conceitual em torno do qual se move o universo em outras palavras, o pensamento diretivo do seu constante funcionamento orgânico é a Lei. Ela representa sua inteli- gência, isto é, o modo pelo qual o universo existe no plano mental, do qual dependem outras formas menos evoluídas de sua existência, que estão no nível dinâmico, como a energia, e no nível físico, como a matéria. Com relação ao nosso corpo, a Lei é o espírito. No universo, encontramos em maior escala o mesmo modelo, do qual o homem é uma cópia ou caso menor, com a mesma disciplina, dependência hierárquica e funciona- mento orgânico. Assim como no espírito está o nosso pensa- mento, na Lei também está o pensamento de Deus. Da mesma forma que, em todo o funcionamento de nosso organismo, en- contramos a presença de um pensamento, a presença do pen- samento de Deus também é encontrada no funcionamento de todo o universo, e podemos identificá-lo por toda a parte. Vemos então que o homem é apenas uma partícula, mo- vendo-se ao longo de percursos estabelecidos por determina- das leis, como as que estamos observando. Os seus movimen- tos podem assumir duas direções principais, canalizando-se ao longo de dois tipos de trajetória: uma que se afasta da Lei, se- guindo a direção negativa, e outra que segue a Lei, indo, pois, na direção positiva. Este segundo caso se verifica mesmo quando, para corrigir um precedente afastamento da linha da Lei, realizado em direção negativa, é necessário inverter tal percurso. Direção negativa quer dizer avançar no caminho do mal. Direção positiva quer dizer avançar no caminho do bem. Temos, assim, dois percursos opostos: um no sentido que se afasta de Deus pelas vias do mal, e outro que se aproxima de Deus pelas vias do bem. Como se vê, o dualismo expresso pe- los dois sinais (+ e ) existe em nosso universo até ao mais alto plano da existência: o espiritual.

No centro de tudo está Deus, que é uno, acima de todo du- alismo, no qual se encontra somente a criatura caída pela re- volta. Diante do ser pulverizado no relativo, Deus é o pensa- mento único e central, a Lei, cujas qualidades já observamos.

e

o ajuda para salvá-lo, permitindo, porém, que ele expie a sua

pena, a fim de que compreenda o mal feito e não recaia no erro. Sua finalidade é a salvação dele, e não uma vingança pela ofen- sa recebida. Deus não pune e muito menos se vinga, porque ninguém tem o poder de ofendê-Lo.

Acontece então, nesta fase, o emborcamento da posição precedente. Enquanto no trajeto de afastamento, as vantagens eram todas surrupiadas à justiça da Lei, que, diante da inicia- tiva contrária do indivíduo, encontrava-se em posição de re- sistência, já no trajeto de reaproximação, a dívida é toda paga àquela justiça, e o indivíduo, em lugar de impulsos de resis- tência da parte da Lei, encontra apoio. Ela, assim, facilita-lhe

o

caminho, convida-o e impulsiona-o a percorrê-lo, ajudando-

o

tanto mais quanto mais ele, sofrendo, houver quitado seu

débito, purificando-se e redimindo-se. Isso o faz, então, tor- nar-se mais apto a poder gozar dos bens a que tem direito aquele que se move segundo a Lei. Esta é a técnica funcional dos movimentos e relações de forças entre os dois termos: Lei e indivíduo, de acordo com a qual se dão os deslocamentos de ida e volta por parte do indi- víduo em relação à Lei. Esta permanece estável no seu sinal positivo, isenta das oscilações (+ e ) do indivíduo, porque apenas ele está sujeito a erros e correções (afastamento e rea- proximação). Isso é o que ocorre quando observamos os dois termos, Lei e indivíduo, nas suas relações. Vejamos agora quais fenômenos se verificam quando o ser segue uma trajetó- ria que se move em sentido negativo, anti-Lei. A Lei é positi- va, e todo afastamento dela é negativo, sendo esta a qualidade fundamental daquela trajetória anti-Lei, qualidade exclusiva- mente sua, característica própria do seu campo de forças. As- sim se explica o fato de tal trajetória ser levada a atrair no seu circuito de tipo negativo, entre as forças que encontra em seu

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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caminho, somente forças do mesmo gênero, isto é, maléficas, repelindo as outras positivas, isto é, benéficas. Esta é a conde- nação que o indivíduo, situado em tais condições, leva automa- ticamente consigo e impõe a si mesmo. E, dessa forma, ele não pode deixar de encher a sua vida de mal e de desgraças, que tendem a destruí-lo e acabarão por consegui-lo, já que, com sua própria natureza negativa antivital, é incapaz de resistir di- ante da positividade da Lei. Há no S uma vontade fundamental de se livrar do maligno tumor constituído pelo AS e de recupe- rar-se, com o retorno deste ao estado de S. Estas forças negativas são lançadas também contra os cam- pos de forças de tipo positivo, tentando torcer para o sentido negativo o seu percurso gerado em sentido positivo. Ocorre, po- rém, que, sendo esses circuitos de sinal oposto, eles repelem tais forças, de modo que aqueles impulsos de tipo negativo não conseguem penetrar e não se instalam nos circuitos de tipo po- sitivo. Eis porque o mal não pode fazer o mal a um bom que não o mereça, mas pode acrescentar o mal a quem o merece, somando-se a ele, porque, neste caso, as portas lhe estão abertas para entrar, enquanto no outro permanecem fechadas para im- pedi-lo. Ocorre então que, além de não entrar no campo do bem, que é automaticamente protegido pela sua positividade, o mal lançado volta-se para trás e, sendo negativo, vai enriquecer

o campo do seu próprio sinal, aumentando o dano para quem o

lançou. Assim, os impulsos negativos, além de não penetrarem no circuito positivo, somam-se com os impulsos negativos do circuito de origem, reforçando sua potência destrutiva, que re- dunda em prejuízo de quem a possui.

De tais constatações deriva uma moral que responde à perfeita justiça da Lei, razão pela qual, por mais que se tente fazer o contrário, não é possível fazer o mal senão a si mes- mo, nem fazê-lo a um bom que não o tenha merecido. A me- dida com que o mal pode passar de um indivíduo a outro ou que a negatividade pode ser inserida num dado circuito, é es- tabelecida pelo mal merecido, ou seja, pelo grau de negativi- dade de que se saturou o próprio circuito receptor. Em suma,

a Lei não permite a injustiça. Portanto não pode haver sofri-

mento sem culpa, porque seria absurdo corrigir um erro não cometido. É possível, assim, verificar-se quão injusto seria a

possibilidade de se conceder ao elemento mau o poder de fa- zer sofrer o bom e inocente, somente porque aquele malvado

é mais forte e mais esperto. Se o bom tiver de ser atingido,

isso só poderá ocorrer na proporção em que o circuito de suas forças permitir a introdução de impulsos negativos e maléfi- cos. Esta inserção será impossível, se o indivíduo bom não merecer o mal que o assalta, mas torna-se possível, quando ele merecê-lo. É isto que tal moral nos garante. Ela nos diz

também que aquele mal não merecido e, pois, não recebido não é uma força que se anula o que é impossível mas sim um impulso que se volta contra e atinge quem o lançou. Esta

é a justiça da Lei. Pelo fato de desconhecermos as raízes pro-

fundas e as origens longínquas de tantos acontecimentos hu- manos, o que vemos na superfície pode enganar-nos. O contrário ocorre no caso de trajetórias que seguem a dire- ção da Lei, isto é, um percurso em sentido positivo. Estas, entre tantas forças que encontram em seu caminho, atrairão e pode- rão absorver no seu circuito apenas aquelas que têm o mesmo sinal. Assim, quem se encontra em tais condições terá uma vida abençoada e frutificativa, que o levará para o alto, porque a Lei da vida, para quem quer evoluir, é mover-se em direção do S. Estes impulsos positivos, porém, se forem dirigidos em favor de campos de forças do tipo negativo, não poderão se inserir na-

quele circuito de sinal oposto e, portanto, serão repelidos. Assim

o bom não pode fazer o bem a um mau que não o tenha mereci-

do e, quando pode fazê-lo, isso só acontece na medida em que aquele haja merecido. Quando esse bem, ao encontrar as portas fechadas, não pode entrar naquele campo, então volta para trás e

retorna ao circuito de forças positivas do emissor, enriquecendo-

o de positividade, para vantagem de quem fez o bem.

A moral que deriva de tais constatações é a mesma exposta anteriormente, mas com resultados opostos, permanecendo de pé a justiça da Lei. Como se vê, esta nova moral se baseia num princípio de justiça mais avançado que o da antiga moral, segundo a qual tudo se explicava sob a perspectiva de uma ofensa a Deus e de uma ação pessoal punitiva contra o trans- gressor. Tal conceito, que tem muito de egoísmo e de vingan- ça, corresponde à forma mental e psicológica do passado, si- tuada ao nível de uma mitologia antropomórfica proporcional

à ignorância dos tempos. Porém, enquanto aquela velha ima-

gem de Deus convier à vida, ela vai ser respeitada, apesar de bastante primitiva. Ser destrutivo é trabalho negativo, caracte-

rístico dos atrasados, inseridos no AS. Quem é positivo jamais faz um trabalho negativo, mas somente positivo e, assim, ape- nas atua no sentido de mostrar a nova visão das coisas, dei- xando-a junto à antiga, de modo que os mais amadurecidos a encontrem pronta e possam, assim, escolhê-la e colocá-la em ação. Compete ao tempo a destruição do antigo, que é supera- do e deixado para morrer de morte natural.

Traçam-se aqui as espirais de luz premissas introduti- vas, suscetíveis de grandes desenvolvimentos de uma nova moral científica e racional. Moral universal, porque verdadei- ra para todos, como verdadeiras são as leis do plano físico e dinâmico. Portanto, assim como não há uma lei da gravidade especial para os ateus, diferente daquela para os crentes, também não existe uma lei moral diferente para eles. O lan- çamento das trajetórias é livre, mas, para todos, em qualquer tempo e lugar, cada movimento é regulado por leis e, uma vez iniciado, é canalizado em um dado sentido, ao qual fica ligado segundo os impulsos que lhe são impressos, permane- cendo aprisionado à disciplina da ordem soberana, sem poder escapar do canal escolhido, enquanto sua trajetória não for toda percorrida. As transgressões levam ao choque destrutivo

e doloroso com o qual se paga o erro. Essa nova moral não será aceita por quem está habituado à velha moral. Porém, para o homem mais evoluído, representa uma grande satisfação chegar a conceber com exatidão essa lei

e poder situar-se e funcionar em seu seio, num plano de justiça

elevado, acima do nível humano da luta pela seleção do mais forte e astuto. Também é consolo, para o evoluído, constatar de modo positivo que, em um nível mais avançado, existe uma lei bem diferente daquela de tipo animal, vigente em nosso mundo. Assim, a lei terrestre inferior, com a sua relativa moral e siste- ma de vida, permanece como herança somente para o involuí- do, sendo destinada a desaparecer com a evolução. Surge então

uma biologia mais avançada, na qual a feroz lei do mais forte é substituída pela justa lei do mais honesto, de modo que a sele- ção ocorra em outro sentido, em um nível mais alto. Será intro- duzido na Terra, inclusive para os menos atrasados, e poderá começar a ser reconhecido o valor social de quem é mais avan- çado. O inepto para o tipo de vida inferior dominante não mais será condenado. Assim, o evoluído conhecerá qual é a sua posi- ção biológica e cada um estará situado no lugar que lhe cabe por justiça, em obediência à lei do seu plano de evolução. Alcança-se finalmente, na evolução biológica, um ponto em que o ideal encontra condições para cumprir a sua função vital, em vez de ser utilizado de modo hipócrita, como meio de esconder a realidade e obter melhor vitória na feroz luta

pela vida. Finalmente, será atingida uma posição biológica num mais elevado plano, situada além do nível normal huma- no, na qual o ideal será realização e atuação, e não só teoria e hipocrisia. Será definido finalmente, na escala biológica, um lugar no qual o evoluído encontrará o ambiente adequado ao seu tipo feito de inteligência e de bondade, ao invés de força

e agressividade e o seu direito à vida será reconhecido.

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

Pietro Ubaldi

Resumamos e apliquemos estes conceitos ao momento his- tórico atual. Há na Terra três modos de viver, usando três mé-

todos: 1 o ) O da força, que consiste na opressão do fraco; 2 o ) O da astúcia, apoiado na inocência do ignorante; 3 o ) O da sinceri- dade e da clareza, dirigido à compreensão recíproca com o fim de colaborar. Estes três métodos são distribuídos em três de- graus sucessivos ao longo da escala da evolução. O primeiro é

o mais antigo, hoje superado e condenado. O segundo é de uso

mais recente e ainda em vigor. O terceiro é um método mais in- teligente, que se expandirá no futuro. Hoje vivemos uma fase

de transição, que vai do segundo ao terceiro método.

É natural que, no passado, quando a vida se encontrava di-

ante de um fraco ou ignorante, ela permitisse, pela lei do míni- mo esforço e maior rendimento, que dele se aproveitasse quem tivesse capacidade de consegui-lo. Embora muitos pensem des-

sa forma, o método é injusto segundo a atual e mais amadureci- da moral dos países civilizados, ao passo que poderia parecer justo no passado menos evoluído. Outrora não existiam pro- blemas de justiça com deveres e direitos, mas só duas posições:

a do vencedor, o forte que comandava, e a do vencido, o fraco

que obedecia. A primeira coisa que fazia aquele que detinha o poder, para assegurar-lhe a continuação e consolidá-lo, era exercitá-lo em nome da justiça divina, afirmando a sua legiti- midade, que defendia à força, com as armas da sugestão e do domínio psicológico. Pregava-se como virtudes o respeito e a obediência, investindo o poder de um caráter sagrado, coadju- vado pela autoridade religiosa, aliada no trabalho de manter subjugados os povos. É natural que, em tal fase evolutiva ainda feroz, a mais forte preocupação de quem detinha o poder fosse conservá-lo, defendendo a própria posição. Do outro lado, o pobre não vencedor era induzido a perma- necer sujeito não só a tal tipo de educação, que lhe era impos- to, mas também a uma natural ideia de superioridade do mais forte. Tal tipo, que, para Nietzche, representava o modelo do super-homem, estava baseado, porém, devido ao baixo nível de evolução em que a humanidade se encontrava no passado, pelo uso das velhas leis biológicas, na superioridade da força, seu maior valor, e se fazia valer naquele plano com as mesmas razões pelas quais o leão é o rei da floresta e merece respeito. Essa superioridade, portanto, não era só inculcada por suges- tão, mas também realmente sentida pelos fracos.

Hoje, em outra fase da evolução, tudo isso não é mais con- siderado justo, como foi no passado. É natural que a moral dependa das diversas condições de vida. No passado, tinha-se outro conceito de justiça, porque esta era medida em função de outros pontos de referência. Não há dúvida de que o mais forte, se não representava um maior valor espiritual, constitu- ía, no entanto, um valor biológico maior. É por isso que o po- bre, ainda que com ódio e inveja, inclina-se diante do rico também com admiração e avidez para imitá-lo, ansioso de aprender os métodos de vitória. Para a vida, isso é sadio, por- que funciona para a evolução, embora em nível baixo. O po- bre sabia que era um fraco e que valia pouco. Sabia que a su- jeição era justa e que ele devia aceitá-la como sua culpa. Era sua própria fraqueza, a qual ele não sabia superar, que o im- pedia de ter direitos. De fato, ele se deu conta de tê-los só agora, depois de ter evoluído mais e haver conquistado a força para fazê-los valer, sem a qual é inútil ter direitos, embora justos. Antes não lhe restava senão a virtude da obediência e da resignação, além da esperança de recompensa com uma vi- da melhor nos céus, consolo do vencido na Terra.

É óbvio que, naquelas condições de vida miserável, era im-

praticável ao pobre o exercício da bondade. Pode-se pensar nos outros somente quando não falta o indispensável para si mesmo. Para poder crescer, é preciso que não falte o necessário; para poder dar, é preciso primeiro possuir; para ser bondoso, é preci- so ser forte; para ser generoso, é preciso ser rico. É preciso não

sermos mais ingênuos, para podermos nos permitir o luxo de sermos bons sem cair em todas as armadilhas da vida. Os deve- res dizem respeito àqueles que os podem cumprir. Porém isto não significa que hoje o pobre esteja passando para a outra mar- gem, pois ele tem de assumir suas responsabilidades. As previ- dências sociais dão uma nova orientação de tipo coletivo. As classes e os povos, outrora em estado de sujeição, estão se orga- nizando e vão conquistando forças para se fazerem valer. É sufi- ciente este fato, que nada tem de teológico, filosófico ou moral, para se chegar a um novo conceito de justiça, antes impraticável. Hoje podemos constatar seu fortalecimento com base no direito que realmente se tem, fazendo surgi-lo, quando antes, na prática, era apenas teórico e não funcionava. Entretanto, um fato nada espiritual, mas concreto, como a aquisição da força, pôde trans- formar a velha moral numa outra bem diversa.

A atual transformação nos faz ver como a vida tinha suas ra- zões quando, no passado, deixava que aquelas injustiças fossem cometidas, porque isso somente ocorreria até o momento em que, pelo sofrimento, o fraco aprendesse a se tornar forte e o ig- norante viesse a ser mais inteligente, isto é, até o momento em que a vítima alijasse de si mesma o defeito que a tornava vulne- rável. Assim a vida atingia a justiça percorrendo uma longa es- trada, mas a única possível, devido às condições de então. Na verdade, para que se livrassem dos próprios sofrimentos, a vida obrigava os mais atrasados a fazer o esforço de evoluir, supe- rando suas inferioridades na luta pela seleção do melhor, sendo justo tal condição. Depois, nas revoluções, as vítimas se revolta- vam contra os opressores, fazendo com que estes pagassem as respectivas culpas, o que é também um ato de justiça. Vê-se co- mo tudo é lógico e tem suas razões. Cada um paga pelos seus defeitos. O fraco ou ignorante paga pela sua fraqueza ou ignorância, enquanto o forte ou astu-

to paga pelo abuso da sua vitória, e todos, indistintamente, cur-

sando alternativamente a mesma escola, são obrigados a evolu- ir, como quer a Lei. Cada um, assim, sofre um período, en- quanto o outro goza, mas depois goza um período, enquanto o outro sofre. Na escola da Lei há lugar para todos. Esta era a única forma de justiça que se podia praticar num regime de inimizade, onde a justiça não pode ser obtida sob a forma pací- fica de acordo entre companheiros, mas somente através do equilíbrio entre rivais em luta.

Por mais que se busque escondê-la sob belas teorias, esta é

a realidade da vida. Vejamo-la num outro caso, também de

justiça, mas em outro sentido. Hoje nasceu um fato novo na história, isto é, um estilo de generosidade pelo qual as elites

ricas se ocupam das classes pobres e os povos de alto nível econômico voltam-se para os subdesenvolvidos. As raízes de tudo isso se encontram num outro fato também novo, que é a organização dos pobres, realizada pelo comunismo, através da qual estes se tornaram uma força e, assim, fortalecendo-se, passaram a ter direitos que antes não tinham, mas que agora têm, pelo fato de hoje saber fazê-los valer. Um direito não alimentado por uma força que lhe imponha o reconhecimento, não é de fato direito, mas apenas um piedoso desejo, cuja sa- tisfação depende do capricho do patrão. Só é possível falar tanto de justiça social hoje porque existem os que estão pron- tos a exigir seu reconhecimento, ao passo que, antes, ninguém se ocupava disso. Somente agora, que os pobres se tornaram uma ameaça, nasceu nas classes e nos povos abastados o amor pelos deserdados, ressuscitando-se o Evangelho. No entanto já se falava há séculos desses deveres para todos os cristãos, que só excepcionalmente os praticavam. Mas como se podia pre- tender o contrário, se a parte oposta não sabia impor-se, fa- zendo seus próprios direitos serem reconhecidos? Hoje, o grande amor pelo pobre se tornou moda e é usado como bandeira, fazendo parecer que o pobre tenha surgido só agora, sem jamais ter existido ou sofrido antes. O mundo se

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deu conta de sua existência somente hoje, depois que o pobre constitui um perigo, condição sem a qual ninguém o veria. Até ontem seus direitos não existiam. Seu problema nunca teve importância e, se hoje tem, é porque se tornou também um problema para a segurança e a paz do rico. Foi daí que se originou esse novo amor, surgindo não por uma questão de bondade, mas sim de luta. Ora, para que se acobertar com mantos de idealismo, se essa

é a realidade da vida e ninguém crê em tais disfarces? Por que

insistir no velho método da astúcia, quando o mundo quer passar não porque esteja melhor, mas porque está mais inteligente ao método da sinceridade e clareza? A ingenuidade está em crer que os velhos sistemas possam ainda valer num mundo que se renova profundamente; está em crer que um determinado tipo de trajetória, constituído por um modo de pensar e de viver, possa ser rapidamente corrigido só com a tomada de consciência de tudo isso. A quem conheceu a técnica desses fenômenos, expli- cada neste volume, poderá ocorrer uma pergunta. Não será mui- to tarde para que uma trajetória, percorrida por tanto tempo no passado e fixada como forma mental e costume social, possa ser corrigida com tais paliativos? Não estará implícito nos equilí- brios da Lei, sendo, portanto, fatal, que não se poderá chegar àquela correção, senão depois de se ter chocado com a Lei e so- frido todas as suas consequências? Num regime de luta, pode surgir a dúvida de que, no passa- do, tenha sido exaltada a virtude da inocência porque esta, signi- ficando ignorância, permitia dominar melhor, ao passo que a vi- da quer e premia a virtude do conhecimento, necessária para vencer a luta sem cair na armadilha da astúcia humana. Com a queda, perdeu-se aquele conhecimento, que vai sendo trabalho- samente reencontrado através da experimentação, e nessa con- quista consiste a solução. Vimos como se procede à correção do erro devido à ignorância. Por isso a vida é uma contínua expe- rimentação, justamente porque o seu fim é a reconquista do co- nhecimento. Assim se explica o instinto humano de se aventurar em toda a sorte de experiências. Muda então o tradicional conceito de evoluído. Ele não é um santo ou um anjo, ingênuo e inexperiente, mas um ser que pro- vou e conhece a vida, mesmo nos seus planos mais baixos, dos quais, porém, fez o esforço de emergir. A superioridade deve ter consciência também do seu oposto, pois deve ser o fruto de um conhecimento adquirido pela experiência individual. Assim o santo deve conhecer todas as insídias do diabo, porque, se for ingênuo, será vencido por ele. Trata-se uma guerra, e o santo deve ser o mais forte e o mais preparado. O evoluído deve co- nhecer as consequências do erro, por tê-lo cometido, se não qui- ser recair nele. Deve ter-se livrado, com seu próprio esforço, da grande punição que o ser, com a queda no AS, infligiu a si mesmo, ou seja, do estado de ignorância da realidade expressa pela Lei. O involuído vive em posição invertida, isto é, no enga- no, na ilusão que foi chamada a “Grande Maya”. Ele é cego, mas crê que vê, e assim se engana e paga. Enquanto não houver corrigido a sua posição de AS, não terá paz.

Deus entende o pensamento de Satanás, mas Satanás não entende o pensamento de Deus. A evolução consiste na reab-

sorção do erro pela dor, do pecado pela penitência, da igno- rância pela experiência, do negativo pelo positivo. A evolução

é o trabalho de correção na direção do S, isto é, Deus da

trajetória da vida invertida em direção ao AS. Isso só se ob- tém com uma serie de tantos lançamentos de trajetórias meno- res quantas são as vidas, as experiências de superação e as li-

ções a aprender. As condições são desvantajosas, porque o lançamento se faz na posição de AS, isto é, emborcado para o negativo. Pelo fato de os impulsos serem errados, há a neces- sidade de corrigi-los um a um. Mas vejamos agora o que está sucedendo hoje, que se está realizando a passagem do segundo ao terceiro momento, isto

é, do método da astúcia e do engano para aquele da sincerida-

de e da compreensão. Vivemos numa fase de destruição dos

valores do passado. Com ele não se entra mais em discussão. Deseja-se apenas retirá-lo do mundo, para recomeçar do zero.

O castelo das velhas construções não comanda mais a crítica.

Há, porém, o fato de que, no transformismo universal, nada pode se deter definitivamente. No conflito entre as gerações, caberá às novas, após ser concluída a destruição, a tarefa de recomeçar a reconstruir, porque não se vive no vazio e nin- guém pode parar a vida. Que saberão fazer os inovadores de

hoje quando, superada a fase negativa da destruição, tiverem que entrar na subsequente fase positiva de reconstrução?

Não há dúvida de que estamos em estado de revolução. A história nos habituou com a ideia de revoluções à base de catás- trofes. Esta, porém, parece uma revolução mais evoluída, que se processa diferentemente. Nem por isso se pode dizer que não se-

ja revolução, porque age de uma forma mais profunda que as

outras. Hoje, reis e chefes, outrora constituídos pela graça de Deus, são depostos pela vontade da nação, que os mandam reti- rar-se, sem matá-los, coisa antes inconcebível. Esta forma de re- volução mais civilizada, realizada na ordem, parece-nos mais sadia que o habitual desabafo de vinganças e de agressividade por parte dos oprimidos. Trata-se de uma revolução que aceita a destruição como um mal necessário para limpar o terreno, mas cuja finalidade não é negativa, e sim positiva, porque tem a fina- lidade de construir num plano mais alto, de acordo com a lei da evolução. Essa sua forma pacífica na qual se manifesta em nosso Ocidente civilizado nada retira à profundidade do fenômeno,

que poderíamos chamar biológico, pois constitui uma fase do percurso evolutivo e, portanto, toca os pontos vitais da humani- dade, dirigindo-a no sentido de um mais avançado tipo de civili- zação. Não estamos falando da habitual revolução de classe, com o assalto dos famintos contra os abastados. Trata-se de um processo que procura desenvolver a inteligência, para ela conse- guir compreender o enorme peso que tal método de vida repre- senta para todos. Constitui, portanto, uma revolução para se li- bertar da segunda fase, livrando-se das falsidades que enchem

de alçapões a vida. É uma guerra contra a moral de hipocrisia

estabelecida em todos os campos como produto do passado e transformada em sistema de vida da qual tanto se aproveitou quem a usou e a qual tanto pesou sobre quem a sofreu. Um hábil homem de negócios dizia ao filho, para educá-lo: “Conviva sempre com as pessoas honestas, são as mais fáceis de serem enganadas”. Eis o que se lucrava com a honestidade. O problema agora é reconstruir. Jamais teve tanto vigor o revisionismo como neste nosso tempo de ideologias. Os jovens precisam de quem, especializado em tais trabalhos, tenha pre- parado e possa apresentar um plano já completo. Eles têm ne- cessidade de encontrar uma filosofia já pronta, positiva, para orientar e dirigir a ação. A hora atual não é mais de elucubra- ções, mas de realizações. Vivemos num momento maravilhoso da história humana, que é de aceleração evolutiva, levando a um mais rápido transformismo da vida em sentido ascensional, para formas mais evoluídas. Agora sabemos que determinados conceitos novos não nascem por acaso em algumas consciên- cias isoladas, mas representam o reclamo das exigências do momento evolutivo, que, satisfazendo uma necessidade vital, polariza-se sobre aquelas consciências, encontrando no incons- ciente coletivo o terreno adequado para crescer e frutificar. Eis que, entre tantas, a nossa Obra, da qual este volume faz parte, poderia ser utilizada para esse fim. O momento é adequado. A oferta é desinteressada, e já foi feita oficialmente em 1966, na Câmara dos Deputados, em Brasília, ao Brasil e aos povos da América Latina. Esta Obra não nasceu hoje. Somente agora, depois de quarenta anos de trabalho, ela está se completando. Tem suas raízes no passado e se projeta no futuro, do qual re- presenta uma antecipação. Pode assim funcionar como ponte

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entre a segunda e a terceira fase do transformismo evolutivo. Ao invés de destruir, como hoje se desejaria, ela, pelo contrá- rio, salva e utiliza do passado tudo o que é bom, mesmo não sendo novo, mas alija tudo o que é mau, ampliando-se e avan- çando com conceitos novos, lucidez e sinceridade, como exi- gem os tempos atuais. Trata-se de conceitos revolucionários, enquadrados na ordem da lei de Deus, expostos com lógica e demonstrados à razão através de provas.

A fim de que uma coisa se desenvolva, não basta que ela

seja boa e bela. É necessário que também seja útil e satisfaça uma necessidade do consumidor, que só então a aceita. Esta Obra é um plano de trabalho para os reconstrutores. Ela é pu- blicada em livros que são de domínio público. As novas gera- ções encontram nela, com o estilo de franqueza que desejam, a solução racional dos fundamentais problemas do conhecimen- to. Trata-se de conceitos sadios e dinâmicos, que, ao invés de impor, busca oferecer uma ideia pelas vias da convicção, sem agredir ninguém; uma ideia jamais negativa, e sim exclusiva- mente reconstrutora, deixando para outros a parte destrutiva. São conceitos que induzem os seguidores do velho estilo a um exame de consciência e conduzem os jovens seguidores do no- vo estilo a uma conquista de consciência, para que aqueles mudem o sistema diretivo e estes assumam a responsabilidade das posições que querem conquistar. O mundo está farto de enganos, exploração e injustiças; está cansado das pessoas que, sem compreender quanto infortúnio causam a todos e, sobretu- do, a si mesmas, tomam da sociedade mais do que dão e, as- sim, a danificam, tornando-se pesadas à coletividade, o que é desonesto e injusto em qualquer campo, causando indignação às pessoas que são honestas e justas. Trata-se de verdades po- sitivas, imparciais, de efeitos calculáveis, racionalmente con- troladas e suscetíveis de experimentação, verdadeiras tanto no Oriente como no Ocidente, sob qualquer religião ou ideologia, porque estão escritas nas leis da vida e, como tais, não podem deixar de funcionar em toda a parte.

Os mais evoluídos já começam a compreender que o siste- ma intimidativo não resolve e a violência provoca outro dano. Já se pode hoje demonstrar, a quem sabe compreender, quanta aflição deve suportar pelo mal feito o próprio indivíduo que o faz, confirmando que o dano recai principalmente sobre ele e que a mentira engana quem a pratica, isso tudo automatica- mente, por um jogo de forças que não se pode deter e das quais não se pode fugir. Entende-se, pois, que é estúpido aquele que pensa vencer com tais meios, porque, em lugar de ganhar, co- mo crê, perde e tem de pagar.

O novo mundo a construir deve ser, antes de tudo, sadio.

Isto é o que a vida quer. Se de fato deseja-se alcançar a tão co- biçada justiça, então, para poder usá-la como um legítimo di- reito, é preciso antes praticá-la como legítimo dever. Somente assim pode cessar o estado de luta que atormenta tantos. Trata- se de uma renovação de base. O problema da injustiça tem so- lução, mas a humanidade está ligada aos antigos hábitos. Terão as novas gerações a força de arrastá-la até à outra margem? Conseguirá o homem compreender a estupidez de querer sofrer inexoravelmente, fazendo da Terra um inferno de condenados, atormentando-se reciprocamente, enquanto tudo isso seria evi- tado e todos poderiam estar melhor, se fossem menos maus? Trata-se de passar da era patrão-servo, na qual se usavam os primeiros dois métodos, força e astúcia, que se apoiavam na injustiça, à era dos direitos e deveres, na qual se passará a usar o terceiro método, sinceridade e honestidade, que se alicerça na justiça. O momento é grave e resolutivo. Trata-se da mu- dança para uma nova fase evolutiva, do salto de um nível bio- lógico a outro mais elevado. Quem está habituado aos velhos sistemas resiste. Mas, se as novas gerações souberem ser for- tes, inteligentes e honestas, haverão de consegui-lo e, então, poderão dizer que fundaram uma nova civilização.

IX. A RESISTÊNCIA À LEI E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

O maior problema de nossa vida consiste nas relações que

cada um estabelece com a Lei, porque nosso próprio destino depende dos respectivos contatos e choques que se seguem. Continuemos, então, aperfeiçoando as observações deste fenô- meno, embora sob outros aspectos. Comecemos por orientar nosso pensamento para uma posição diferente em relação ao esquema geral que rege o funcionamento de nosso universo.

O seu centro dinâmico e conceitual é Deus. Inesgotável

fonte de poder e de sabedoria, irradia-se continuamente, man-

tendo em vida tudo o que existe, como resultado dessa per- manente irradiação divina. Ele é o princípio e a primeira fon-

te da vida. Reciprocamente, tudo gravita na direção de Deus,

que se constitui não somente em centro irradiador, mas tam- bém em centro de atração universal, para o qual tende tudo o que existe. O ser, com seu impulso de rebelião, procurou se-

parar-se e afastar-se deste centro, que é o S, construindo seu anticentro no AS. Mas, fazendo assim, isolou-se da fonte de sua vida e, se não quiser morrer, deve voltar a ela. Eis, então, que o caminho de afastamento ou involução teve de se inver- ter, corrigindo-se no caminho de reaproximação ou evolução, que, por parte do espírito obscurecido, representa um proces- so de reabertura ao conhecimento perdido. No conflito entre

a vontade anti-Deus do ser rebelde e a vontade de Deus, o

impulso da segunda, sendo inesgotável, porque infinita, não pode deixar de vencer o impulso da primeira vontade, natu- ralmente fechada num limite. Superado assim o impulso re- belde, predomina a atração para Deus. O grande fenômeno da evolução é devido a essa atração, que, não obstante todas as resistências do AS, dirige o nosso universo.

Exemplifiquemos. As águas que descem dos montes vão to- das para o mar, que as espera para recolhê-las no seu seio. Elas não encontram um caminho traçado que as guie, contudo mo- vem-se todas na mesma direção do íntimo impulso de atração. Encontrarão dificuldades, mas resolvê-las-ão. Avançarão por tentativas, explorando o desconhecido caminho a percorrer, mas sempre orientadas pela certeza absoluta da presença da me- ta, para a qual as leva essa atração. Eis o que significa gravitar para Deus e porque, à semelhança dos rios que vão para o mar, aquela meta final deve, pelo caminho da evolução, ser atingida, apesar do estado de ignorância do ser, das trevas em que vive, da incerteza das suas tentativas e dos obstáculos que procuram detê-lo. Agora o caminho, depois de ser percorrido do S até ao AS, é percorrido no sentido oposto, do AS ao S.

A evolução é uma força viva em movimento, porque ani-

mada pela vontade de Deus, que exige o retorno a Ele. Mas, do lado oposto, fica a vontade do ser que, não redimido ainda por sua evolução, resiste em posição anti-Lei, impulsionado por resíduos daquele primeiro impulso de revolta a se manter contra a corrente de atração que tende a levá-lo de volta a Deus. Pretendemos, neste capítulo, estudar o fenômeno dessa resistência, a sua técnica e as consequências, observando co- mo se comporta o ser de tipo anti-Lei e o que ocorre quando se verifica o choque entre ele e a Lei.

É lógico que seja possível ocorrer o fenômeno de resistên-

cia à atração do S, porque a revolta e a queda foram devidas a um impulso oposto, ainda não totalmente extinto nos níveis mais baixos. Assim, a evolução não é pacífica, mas se desen- volve numa luta entre dois contrários, S e AS, isto é, entre o impulso unificador do primeiro e o impulso separatista do se- gundo. É assim que o indivíduo, quanto mais involuído é, ou seja, mais próximo está do AS, de onde deriva, mais ele pro- curará opor-se à corrente evolutiva de endireitamento, fazen-

do prevalecer o seu instinto de inversão. Com a sua vontade rebelde, ele se colocará em posição anti-Lei, para deter-lhe o funcionamento, buscando com as próprias forças construir um

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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dique que detenha essa corrente. Isso se verifica, sobretudo,

 

A

sabedoria do mundo consiste em construir diques com

na primeira das três fases do ciclo da redenção, a do erro, com

esses resultados. Este é o método dos astutos que sabem viver. O seu exagerado senso de egocentrismo os faz crer que podem fazer sua própria lei, enquanto estão na verdade fechados num sistema de normas que custa caro violar. Na verdade, ocorre que eles, com tal forma mental, quanto mais creem ganhar, in- do contra a Lei, tanto mais se destroem, sobrecarregando-se de dores. Não se trata de uma abstração da realidade, mas daquilo que vemos acontecer no mundo a cada dia. Eis qual é a estru- tura do mecanismo da reação da Lei. Da compreensão de tais fenômenos é evidente que nasce uma nova moral, provida de sanções automáticas, às quais ninguém pode fugir, tenha a fé que tiver, e sobre a qual nenhuma autoridade humana tem po- der. Uma moral convincente, porque redutível a um cálculo de forças. Moral cuja autoridade é alicerçada sobre princípios que todos compreendem e sobre os quais se baseia a vida. Assim, o mundo é dividido em duas partes. De um lado, os espertos fabricantes de diques, abandonados pela Lei e defendi- dos apenas por suas próprias forças. De outro, os honestos, que agem de acordo com a Lei, desprezados como tolos, mas defen- didos por ela. Muito esforço é despendido na construção de di- ques gigantescos, cuja queda, porém, é desastrosa. Se fizermos o cálculo utilitário do rendimento do trabalho realizado, vemos

o

lançamento da trajetória errada.

Observemos o que acontece. Os dois impulsos, um de natu- reza positiva, o da Lei, e outro de natureza negativa, o do indi- víduo, agora em posições opostas, estão frente a frente. Logi- camente isso não acontece no caso onde se segue a corrente da Lei, que tem, por natureza, poder ilimitado e, portanto, riqueza inesgotável de reservas. O impulso do S é tão superior ao do AS, que permaneceu vivo e atuante no íntimo deste, para dirigi- lo em direção à salvação e curá-lo por meio da evolução. O im- pulso anti-Lei não é bem direcionado, pois nada tem de positivo

e

afirmativo, sendo, pelo contrário, um impulso invertido, por-

que traz a negatividade da posição de rebelião e resistência. Portanto, como não resulta de um sistema orgânico de forças,

mas sim de elementos isolados, como indivíduos ou de seus agrupamentos, seu poder é limitado e está sujeito a se exaurir. Assim, a resistência que o indivíduo anti-Lei opõe não pode ul- trapassar um determinado limite, pois suas reservas não são in- finitas, e chega o momento do cansaço e da rendição.

 

O

que acontece então? O indivíduo que trabalha em sentido

anti-Lei procura fortalecer a sua resistência contra a corrente

da Lei. Constrói um dique que se manterá em pé enquanto pu-

der, porque está do lado oposto. Mas a corrente não se detém,

que o tipo anti-Lei se cansa muito mais, para obter depois pés- simos resultados. Entretanto quem segue a corrente da Lei nada perde do fruto dos próprios esforços. Cada braçada que ele dá, nadando a favor da corrente, leva-o adiante no caminho da evo- lução, atraindo e multiplicando a seu favor tudo o que é positivo

e

a água continua a forçar o dique, que gostaria de deter-lhe o

curso. Então o nível da água cresce, aumentando cada vez mais

a

pressão. Por mais alto e forte que seja o dique, cada vez mais

se aproxima o momento da catástrofe, com a vitória da corren-

te, que resultará no afundamento e destruição do dique. Então,

e

alijando progressivamente tudo o que é negativo e lhe causaria

o

impulso da Lei, isto é, o das forças do bem, vence finalmente

prejuízo. Ele obtém, pois, do seu trabalho o rendimento máxi- mo, enquanto ocorre o contrário para quem nada contra a cor- rente. Aquele que pretende inverter a Lei é antes por ela inverti-

o

impulso da anti-Lei, isto é, o das forças do mal.

O

dique que se rompe representa o campo de forças com-

ponentes da personalidade do indivíduo, orientado contra a Lei. O rompimento significa que, naquele momento, ele recebe os efeitos do choque contra a Lei, ou seja, a reação dela. Signi- fica também que aquela personalidade se precipita, porque a corrente da Lei arrasta a sua inútil resistência. As pedras que formavam o dique são as forças que constituíam a personali- dade do indivíduo rebelde. Uma vez que não flutuam, elas não podem manter-se na superfície e seguir a corrente para se sal- var. Ao contrário, em razão de seu peso, mergulham na Lei e são arrastadas por sua corrente, chocando-se a cada momento contra aquele fundo pedregoso. Este atrito representa a reação da Lei, que não se detém com a queda do dique, mas prossegue com a sua função de forma educadora. Assim, continuando a

do. O mecanismo do fenômeno processa-se de tal forma, que a tentativa de inverter redunda na inversão de quem tenta fazê-lo, obrigando o indivíduo a restituir à Lei na mesma proporção em que tentou lesá-la. Desse modo, quem faz o mal o faz, sobretu- do, a si mesmo, ainda que creia tê-lo feito aos outros. Quem as-

sim procede está demonstrando o próprio egoísmo, e jamais a sua inteligência. Tudo que é negativo é perseguido pela vida, cu- jo objetivo é eliminá-lo, e esta perseguição só terminará quando

objetivo for alcançado. Trata-se de princípios biológicos, que fazem parte das leis da vida e estão sempre ativos em nosso mundo. Quem opõe um dique à corrente da Lei, está tentando obstruir a corrente da vida, que ninguém pode deter.

o

 

Os

diques são construídos por nós, com nossos pensamentos

 

e

obras. Suas pedras são as forças que lançamos. Cada impulso

rolar no fundo, as pedras têm suas saliências suavizadas e ar- redondadas, o que lhes permite avançar um pouco melhor,

obedecendo à corrente, embora penosamente nas trevas e com grandes baques. Esta é a hora da dor expiatória, da lição salu- tar. Com esse método, até mesmo os cegos veem e os surdos ouvem. Esta é uma forma de avanço bastante penosa e forçosa, ao passo que o mesmo caminho poderia ser feito muito mais suavemente, flutuando na superfície da corrente.

nosso acrescenta uma pedra à sua estrutura, lançando uma força que, ao somar-se com as outras, constrói aquela resistência à Lei, representada pela imagem de um dique. Tanto a construção como a queda e o choque contra a corrente são fenômenos de caráter dinâmico e espiritual. Concebendo-os como forças, é possível calcular seus parâmetros, tais como impulsos, movi- mentos, trajetórias, direção, potencial, tipo de estrutura etc. Na verdade, todos esses fenômenos podem ser constatados, se submetidos a controle experimental. Apesar de viver tais fenômenos, o mundo nada sabe do fun- cionamento deles, cometendo contínuos erros, que depois deve pagar com sucessivas dores. Por isso insistimos neste argumen- to, a fim de que, ao menos, algum leitor isolado salve-se por sua conta. De Deus, fonte infinita de forças benéficas, flui con- tinuamente uma corrente positiva vital, que sustém tudo o que

existe. O fluir dessa corrente é disciplinado por uma lei própria,

 

O

processo da redenção se realiza quando buscamos seguir

espontaneamente a corrente, em vez de tentar resistir-lhe com a pretensão de detê-la. A fim de aprender isso, é necessário, para os que não conhecem a estrutura do fenômeno nem tem a inten- ção de seguir-lhe o desenvolvimento, que eles construam seus diques e os vejam depois ruir e afundar, sofrendo as conse- quências desejadas. Assim, à força de construir diques e vê-los cair, aprende-se que aquele sistema, por ser anti-Lei, é contra- producente e deve ser abandonado, para seguir-se o oposto, na direção da Lei, que é muito mais vantajoso. Feita essa opção, a própria Lei, que só pode auxiliar a quem segue a sua vontade

salvadora, pois sua natureza é jamais se impor à força contra o ser rebelde, funciona como ajuda. Então Deus vem ao nosso encontro para nos levar em direção ao S.

a

qual é necessário respeitar, caso se deseje que o fenômeno se

verifique. Ora, ao construir diques, opondo-se com a sua nega- tividade, o rebelde detém esse fluxo no seu campo de forças e, em meio a uma atmosfera de ilimitada abundância, acaba se en- contrando na mais esquálida miséria. Ele não percebe que eleva

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

Pietro Ubaldi

o dique contra as forças que alimentam a sua própria vida.

Deus, jamais se negando, continua sempre sua irradiação. Mas nada pode chegar, quando se impede sua corrente de entrar, fe- chando-lhe as portas. Aquele que vive segundo a Lei abre-as e, então, é alimentado. No entanto, quem vive contra a Lei fecha- as e então, como nada mais passa, morre de fome. Pobre de quem interpõe um diafragma de negativismo ao fluxo de positi- vidade do S. Se quem pratica o mal soubesse o que vem depois, quando se trata de pagar, ele ficaria aterrorizado. Mas isso só compreende quem pagou e sabe, portanto, o que isto significa. Tais afirmações parecem ser desmentidas pelo fato de ver-

mos desonestos sem escrúpulos gozar impunemente do fruto de suas proezas. É preciso, porém, também reconhecer que essa sua posição não é estável, pois se mantém apenas enquanto du- ram as reservas de força do indivíduo anti-Lei, o qual não rece- be reabastecimento e, portanto, encontra-se como alguém aban- donado no deserto. O jogo tem duração limitada. Assim, aquela aparente impunidade nada mais é senão a momentânea riqueza

do jogador que, no final, termina perdendo tudo, pois se vê con-

tinuamente assediado pela Lei, que exige justiça e, consequen-

temente, a prestação de contas e o pagamento. Trata-se de um equilíbrio instável, em virtude de ser injusto, e a Lei o fará de- sabar, pois quer a posição estável, alicerçada na justiça. Se a posição do indivíduo não é mantida por tais íntimos equilíbrios,

o esforço humano poderá sustentá-la por um determinado perí-

odo, mas, ao longo do tempo, ela será corroída pelo seu vício de origem e terminará esfacelando-se.

É preciso compreender que a nossa culpabilidade anti-Lei é

um diafragma que nos separa das origens de tudo o que é bené- fico. É assim que os auxílios chegam à zona onde não somos culpados, mas nada acontece naquelas onde a culpa e a rebeldia nos deixa abandonados ao nosso livre arbítrio de revolta. Eis porque razão o nosso mundo está em poder da feroz lei animal da luta pela vida, condição que significa salve-se quem puder, cada um por si, sozinho contra todos, sem defesa alguma além das próprias forças. Trata-se de um regime infernal, baseado na

força, no engano e na injustiça, que só um estado de revolta an- ti-Lei pode ter criado, pois não é possível admitir que uma obra tão terrível possa ter saído das mãos de Deus. O nosso mundo representa, de fato, a reviravolta da positividade do S.

O pagamento se faz de acordo com a justiça. Em cada uma

das zonas de forças e qualidades constituintes de nossa perso- nalidade, há uma balança que estabelece até que ponto a priva- ção deve funcionar como compensação e pagamento do res- pectivo abuso pelo qual infringimos a Lei. É assim que o des- tino nunca nos atinge globalmente, mas apenas em dados pon- tos, poupando-nos, favorecendo-nos e até mesmo ajudando- nos em outros. É a própria natureza das forças com as quais nos construímos que atrai as forças pelas quais deveremos de- pois ser punidos ou premiados segundo a justiça. Assim, em cada ponto, recebemos segundo o mérito. Estes conceitos nos fazem compreender como funciona a Divina Providência. Pelo eterno fluir das irradiações divinas, ela está sempre aberta e em ação. Mas só pode chegar até nós quando encontra livre o caminho. O segredo, pois, para sermos ajudados por tal providência é nos encontrarmos ajustados à Lei. Para o rebelde anti-Lei, não há ajuda. Ele poderá invocá-la e ter a ilusão de poder aproveitá-la, mas, se não tiver agido se- gundo a Lei, não receberá auxílio, permanecendo abandonado às próprias forças, que, esgotando suas reservas, chegarão ao fim. Se, pelo contrário, ele tiver agido segundo a Lei, esta o ajudará abundantemente. Mas o rebelde se coloca fora de sua ordem e fica excluído do seu organismo de energias positivas. No próprio campo de forças das zonas da negatividade, ele forma vazios antivitais, que atraem, para enchê-los, forças ma- léficas da mesma natureza. Este procedimento é automático, independente da vontade e do conhecimento do indivíduo, veri-

ficando-se todas as vezes que o livre fluir da corrente da Lei se- ja impedido pelo indivíduo através do lançamento de forças ne- gativas, que resistem ao fluxo benéfico. A simples conclusão é que, quando somos justos, Deus nos ajuda e, para sermos ajudados, é preciso tê-lo merecido. Colo- cada essa premissa e encontrando-se o indivíduo nas condições ideais da justiça, o resto é fatal e automático. Deus construiu com perfeição o universo, que é feito de forças benéficas. É a própria criatura rebelde que, virando tudo de cabeça para bai- xo, impede, em prejuízo de si mesma, a chegada destas forças. É ela que, voltando-se contra a Lei, coloca-se contra a vida. O universo está pleno de Deus. É a nossa própria loucura que nos impede de gozar de seus benefícios.

X. O PROBLEMA DO KARMA E A JUSTIÇA DE DEUS

Da teoria da reencarnação já nos ocupamos no livro Pro- blemas Atuais. Iremos aqui vê-la apenas em alguns de seus as- pectos. A seu favor há o fato de que ela não só é admitida por uma boa parte da humanidade, mas também permite enquadrar e resolver muitos problemas sobre o significado e as finalidades da vida, de outra forma insolúveis. Muitos temem que tudo isso seja incompatível com a orto- doxia cristã. Cristo não negou tal doutrina, tratou-a como coisa óbvia, sobre a qual não era necessário insistir. A igreja primi- tiva aceitou-a até o Concílio de Constantinopla, em 553 D.C., vindo a repeli-la mais tarde, por três votos contra dois. Oríge- nes, Santo Agostinho e São Francisco de Assis a aceitaram. Para citar apenas alguns outros, sabemos que nela creram Pitá- goras, Platão, Sêneca, Cícero, Goethe, Schopenhauer etc. O consenso de tais mentes não pode deixar de constituir um tes- temunho da verdade para tal doutrina. Nós a aceitamos plena- mente, porque é a única capaz de demonstrar, pelos argumen- tos da lógica, a justiça e a bondade de Deus, que, de outro mo- do, não encontrariam comprovação numa criação tão cheia de males e de dores. Considerando-se o princípio evolucionista do retorno de tudo a Deus, a reencarnação se torna um fato indis- pensável para que essa subida se possa realizar. O próprio cris- tianismo é todo baseado nessa ascensão do espírito, cuja reali- zação não seria compreensível sem um longo tirocínio que permita repelir e, desse modo, corrigir as experiências engano- sas, fazendo das vidas repetidas uma escada de degraus suces- sivos. É impossível compreender como, tão-somente com um rápido exame de uma única vida, seja possível, inapelável e definitivamente, julgar um ser que nasceu ignorante e inocente. Não se compreende por que deveriam as mãos perfeitas de Deus dar origem ao nascimento de seres tão imperfeitos. Mas por que, então, o cristianismo repeliu essa doutrina? A maioria que a refutou não foi muito forte: apenas três contra dois. Provavelmente, tal resultado se deveu ao fato de que mui- tas verdades não podem ser ditas, e isso por motivos práticos. Somente excluindo a reencarnação, a Igreja poderia deter nas próprias mãos o monopólio absoluto e definitivo da outra vida, obtendo o poder de decidir para sempre sobre a sorte da alma. As massas ignorantes estão sempre prontas a fazer mau uso mesmo das melhores doutrinas e das maiores verdades, que lhes devem, consequentemente, ser sonegadas. Assim, um pro- blema de fundamental importância como a reencarnação foi posto de lado, sendo seu lugar assumido por questões sem im- portância, mas que encontraram ressonância nos instintos do inconsciente coletivo, sempre interessado em semelhantes te- mas e pronto a aderir-lhes. Referimo-nos a problemas de fundo sexual, como o da virgindade da mãe de Cristo. É que, na Ter- ra, até mesmo as coisas de Deus são elaboradas pelo homem, que as faz a seu modo, segundo os seus instintos, seu uso e con- sumo. Não se deve, portanto, condenar a Igreja, porque ela não pode ser diferente do elemento humano que a compõe.

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

37

No caso da teoria da reencarnação, qual interesse podia ter

pa-causa é, pois, apenas dedução nossa. Não sabemos exata- mente qual é, onde, quando e como foi cometida. Nada de se- guro se tem como base. Ninguém pode garantir que os seus juí- zos correspondam à verdade. O certo é que, valendo-se de uma lógica suposição de culpa, baseada na lei do Karma, pode-se condenar o próximo e, desse modo, agravar injustamente a sua pena, aproveitando-se de seus sofrimentos para acusá-lo. Uma teoria de justiça não pode nos servir de instrumento para come- termos um ato de injustiça. Mas, de qualquer modo, a culpa não é, certamente, da teoria do Karma. Mas o caso não está encerrado. Que novos efeitos produzirá essa intervenção de novas forças inseridas no fenômeno, funci- onando como novas causas, que operam no terreno dos efeitos já em ação? Ora, quem condena se inculpa. O mundo é feito de pecadores, e ninguém tem o direito de jogar a primeira pedra. Dessa forma, o Karma pode ser utilizado para lançar muitas pe- dras por quem não está sem pecado, piorando-se assim o pró- prio Karma, que exigirá depois o resgate dessa culpa. Poder-se-ia, porém, objetar que quem é atingido deveria ser grato a quem condena, porque, quanto mais sofre, mais rapi- damente resgata e, com isso, liberta-se. E o problema se agra- va, pois quem condena é levado a atingir o culpado, tornando- se, por sua vez, ele mesmo culpado, ao passo que, para o seu bem, melhor seria que o condenado se insurgisse contra o juiz, impedindo-o de pecar e de criar um mau Karma. Quem conde- na deveria ser grato ao condenado por sua revolta, que o salva de tristes consequências, já que, impedido de fazer o mal, não cria um mau Karma, que depois terá de pagar. Ações e reações são interdependentes e de todos os lados se expande o conca- tenamento de causas e efeitos. Eis o complexo jogo que pode produzir o mau uso da teoria da reencarnação, servindo de re- forço aos argumentos daqueles que não a aceitam. ◘ ◘ ◘ Estas simples observações nos levam a olhar mais profun- damente o funcionamento da lei de Deus. Podemos assim en- frentar tal problema em termos sempre mais amplos. É verdadei- ro o fundamental princípio de justiça, mas, em nosso baixo nível evolutivo, é também verdadeira a lei da luta, que recompensa o mais forte, o vencedor. Trata-se de dois princípios opostos: um pertencente ao S, e outro ao AS; princípios que se digladiam nesta nossa fase intermediária de evolução, disputando o campo de batalha. Vejamos então o que ocorre nesse embate. Quanto mais me sacrifico e sofro com paciência, mais me purifico e, por isso, devo ser grato a quem me fere, uma vez que, com isso, ele me faz expiar as minhas culpas e pagar meus débitos à divina justiça. Devo, então, ver nele um salutar ins- trumento da Lei, que assim me educa, pelo fato de que me habi- tua, através da minha própria experiência, a unir a ideia de chi- cotada com o mal feito. Induz-me a não cometê-lo mais, por- que, agora que senti o peso do açoite, sei a que está ligado. Por outro lado, é também verdade que, quanto mais os outros me fazem sofrer para que eu expie e me redima, tanto mais eles fi- cam devendo à Lei, porque a culpa do mal praticado recai sobre aqueles que o praticaram, tornando-se estes, consequentemente, responsáveis, mesmo se a sabedoria de Deus os utiliza como justiceiros e instrumentos de expiação. Para quem faz o mal sempre há o que pagar. O fato de eu ter merecido o sofrimento que me é infligido não apaga a culpa de quem o inflige, porque ninguém o obriga a perseguir o próximo, autodenominando-se executor da divina justiça. Suas razões não o isentam, apesar do fato de beneficiar a vítima, resultado que é independente das in- tenções do verdugo. Assim o mal cumpre a sua função de bem, mas de forma inconsciente, portanto sem mérito, garantindo a vantagem alheia, ainda que a ideia do perseguidor seja de bene- ficiar-se a si próprio e prejudicar o outro. De tudo isso se conclui que, a cada santo, é necessária a co- laboração de um diabo. Este, com a sua perdição, sacrifica-se

a

Igreja de entrar em tal assunto, quando era mais fácil obter

um consenso geral com a teoria da vida única, que, embora absurda, permite satisfazer o instinto humano utilitário da máxima vantagem com o mínimo esforço? É mais cômodo acreditar que, no átimo de apenas uma vida, seria possível as- segurar o direito a uma felicidade eterna. É verdade que, com tal sistema, também se corre o risco de cair num inferno eter- no, mas isso faz parte do jogo em que o astuto se crê hábil, sabendo como se evadir da pena através de arrependimentos oportunos. Assim se explica porque foi omitida a doutrina da reencarnação. Hoje, com a psicanálise, é fácil descobrir que ela é a íntima razão de muitos dos nossos atos.

Dissemos que a provável razão pela qual a Igreja fez calar

a

espinhosa questão da reencarnação estava em que não se

podem dizer certas verdades, devido ao mau uso que as mas- sas ignorantes estão sempre prontas a fazer, mesmo das me- lhores doutrinas. O ponto que queremos focalizar agora, para

entender a conduta da Igreja, é justamente o mau uso da teoria

da

reencarnação ou do Karma.

A

realidade da vida, escondida atrás das mais belas e santas

doutrinas, é que na Terra vigora um regime não de justiça, mas sim de egoísmo e rivalidade. É por isso que a visão do sofri- mento do próximo, em lugar de provocar um sentimento de pi- edade e induzir a ajuda, desperta o instinto de luta, que leva a ver em quem sofre um vencido e, com isso, um inimigo a me- nos, o que já é uma vitória, porque cada vida alheia suprimida significa maior espaço para a própria vida. Entretanto o homem sente a vergonha desses baixos instintos, que o reaproximam do animal. Por isso quer recobri-los com justificativas morais, que

autorizam a satisfazê-los sem revelá-los. Então, diante daquele que sofre, comparece não o irmão que ajuda, mas o juiz que julga, dando uma explicação lógica para aquele fato pela teoria do Karma, justificando aquela dor e dei- xando em paz sua consciência. Não é a posição atual efeito de causas situadas no passado? Então basta imaginar causas que

o

correspondam a tal efeito, das quais é consequência, e o caso es-

resolvido. A justiça é perfeita. A Lei automaticamente corrige

com aqueles sofrimentos os erros passados. A culpa é de quem sofre. Chega-se a tal conclusão, obtendo-a de altos princípios, porque ela convém à lógica dos mais baixos instintos de luta pe-

la

sobrevivência, que querem a derrota e a eliminação do fraco.

É

instinto humano colocar-se do lado do juiz que condena,

e

não do pecador que deve pagar. Quando se encontra o sofre-

dor e o mundo está repleto deles explica-se a ele que sua dor se deve às culpas do passado. Com este juízo da culpa dos outros, satisfaz-se o próprio senso de justiça a expensas do

próximo, livres do dano, que cabe inteiramente ao pecador. O mesmo não ocorre quando, invertendo-se os papeis, a pena é nossa e o próximo é o juiz que, em nome da justiça uma vez que o dano pertence somente a nós agora nos faz ver a lógica

de

nosso débito. Compreende-se então a diferença entre se tor-

nar juiz à custa dos outros e suportar quem se faz juiz às nos- sas custas. A luta pela vida faz com que cada um descubra a culpa no outro, a fim de poder erigir-se comodamente em juiz

superá-lo, enquanto esconde as próprias culpas, para não ser condenado pelo mesmo sistema e pelas mesmas razões.

e

É

esse o uso que se faz da teoria do Karma. Com isso, não

criticamos a teoria, mas sim o mau uso que dela se pode fazer.

A

presença de culpas cometidas nas existências precedentes,

funcionando como causa determinante dos efeitos de agora, não é matéria suscetível de observação positivamente controlá- vel. Trata-se, antes, de uma suposição que, embora racional e válida como princípio geral, é muita incerta no caso particular. Conhecemos apenas uma parte do fenômeno, a fase do efeito, através da qual procuramos deduzir a fase oposta e desconheci-

da

da causa, derivando-a por correspondência ao efeito. A cul-

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como instrumento de agressão condição necessária daquela santidade funcionando como resistência a ser vencida para superar a prova, a fim de que se estabeleça o triunfo do santo. Para o glorioso sacrifício de Cristo pelo bem da humanidade, era necessária a traição e a condenação de Judas, além da mal- dição de Deus sobre um povo até ontem chamado de deicida. Não se pode negar que estes tenham sido elementos necessários para a verificação do fenômeno, tanto quanto o foi o sublime sacrifício de Cristo. A fim de que os mártires cristãos pudessem ganhar o paraíso, essa sua beatitude deveria ser paga com a

eterna pena do inferno dos seus assassinos pagãos. A fim de que possa existir a vítima inocente sacrificada, mas destinada à eterna felicidade, é necessário o delito de quem a sacrifica, de- pois execrado e condenado à eterna dor. Mas, na verdade, quem

é a verdadeira vítima? Quem sofre durante uma curta vida o

temporário martírio, mas é feliz depois para sempre, ou quem, por um passageiro ato de agressão, que não leva certamente à felicidade, deve depois sofrer para sempre? O certo é que a função santificadora, que beneficia o bom, deve, por último, ser paga pelo malvado que a executa, com a sua perdição. O verda- deiro dano é sofrido por aquele que permanece enganado, por- que, movido apenas por seu egoísmo, acaba trabalhando em benefício de sua vítima e em seu próprio prejuízo. Então, quem pagou o preço da redenção da humanidade não foi Cristo, que sofreu poucas horas e logo subiu triunfante ao Céu, mas foram, sim, Judas, os hebreus, os pagãos e todos aqueles que foram julgados responsáveis pela morte Dele e, por isso, condenados ao inferno eterno. Onde está, pois, a justiça de Deus? Para eliminar essas contradições, compreender o que ocorre

e resolver o caso, devemos deixar de lado a teoria do prêmio e

das penas eternas e observar a realidade do fenômeno, colocan- do-nos diante da justiça da Lei. O mérito de transformar o assal- to do malvado em meio de santificação pertence ao bom, ao pas-

so que a culpa de querer fazer o mal fica para o malvado. É ele que se rebela, portanto é justo que pague, como também é justo

o prêmio da vítima por ele sacrificada. O rebelde nunca terá uma

pena ilimitada, mas sempre proporcional à culpa, limitada se- gundo a justiça, tanto mais que a finalidade da Lei é educar e corrigir, e não usar de inútil crueldade. Na realidade, o fenôme- no tem outro significado. Ele representa uma prova para o mau, isto é, uma oportunidade de fazer o bem, que lhe é oferecida e da qual poderia fazer bom uso, ajudando a vítima, em lugar de agredi-la. O mau, porém, deixa-se vencer por seus baixos instin- tos e dessa oportunidade faz mau uso. Culpa limitada, mas sua. Uma possibilidade de redimir-se lhe é oferecida, e ele se apro- veita dela para fazer um mal ainda maior. Assim, a experimen- tação fracassa para ele, e justamente em seu prejuízo. Também é justo que a vantagem seja a favor da vítima, pois ela soube fazer bom uso da oportunidade que lhe foi oferecida. O tolo, aquele que não sabe cuidar de seu interesse, é o próprio mau, que se vale da bondade do bom para vencer. A sua vitória é feita de uma momentânea construção, que logo após desaba, porque se orienta em sentido involutivo, contrário à Lei. A derrota do mau favorece, em contrapartida, uma construção que permanece, porque foi feita segundo a Lei, em sentido evolutivo. Em nosso mundo, regido pela lei animal da luta pela seleção do mais forte, a bondade é entendida como fraqueza e representa uma tentação para o forte, um convite ao assalto. Mas pior para ele quando crê ser hábil ao valer-se da ocasião que lhe permita explorar o bom, oportunidade que lhe é oferecida para fazer o bem, mas que ele aproveita para praticar o mal. Podia subir, mas desceu. Ele podia aderir à corrente da Lei, mas preferiu colocar- se na anti-Lei, carregando-se de forças negativas. As conse- quências são fatais. Involuir é piorar, é caminhar para a dor. A vida quer ascender ao S, mas o involuído insiste em retroceder para o AS. A vida quer chegar aos métodos de coexistência mais civilizados, de tipo evangélico, altruísta, colaboracionista, orgâ-

nico, mas ele procura impor-se de forma individualista, com os métodos egoístas e separatistas do primitivo. A vida quer cons- truir unidades sempre maiores, numa ordem cada vez mais com- plexa e compacta, mas ele opta pela imposição da luta e do caos. Então a vida expele do seu caminho ascensional esses rebeldes, que vão para os degraus mais baixos da involução no AS. Que fenômeno se verifica, quando, na Terra, o bom e o mau se encontram? O primeiro, usando o método do S, perde e so- fre, mas sobe. O segundo, usando o método do AS, vence e frui, mas desce. Este, porém, não poderá subtrair-se ao impulso da evolução, que depois o prenderá em suas espirais e o levará para cima. As sempre mais dolorosas experiências que irá en- contrar na descida irão separá-lo dos seus métodos de vida, os quais lhe darão frutos tão amargos, que ele tentará subir. Então, à força de evoluir na Terra, ele se encontrará no grupo dos bons e, portanto, usará os métodos e seguirá o destino deles. Por obra dos outros maus emergentes do AS, caberá a ele fazer, então, a mesma experiência salvadora que os bons, quando estavam no seu nível, fizeram como suas vítimas. Assim, a maré da evolução sobe, levantando uma camada de todos os seres, entre bons e maus, santos e diabos, todos in- terligados num processo comum de colaboração para as finali- dades da evolução, que os abraça a todos e a todos arrasta. Compreende-se, então, que o princípio da luta, origem do se- paratismo desagregador que produz caos no AS, contém, no fundo, um princípio de cooperação para atingir um mesmo fim comum: evoluir para a ordem. De fato, no AS, a luta não é se- não um vínculo negativo pelo ódio, enquanto, no S, a harmo- nia é uma ligação positiva pelo amor. Mas o mesmo ato é pela evolução impulsionado da sua posição invertida no negativo à sua posição retificada no positivo. Assim, tanto nesta como naquela posição, os seres permanecem sempre ligados pelo mesmo vínculo, nascido do princípio originário da unidade, ainda que a revolta e a queda tenham tentado despedaçar essa unidade no caos do separatismo no AS. Deste modo, bons e maus, santos e diabos, funcionam todos eles como instrumentos da Lei, para a mesma finalidade evolu- tiva, reciprocamente oferecendo uns aos outros provas que de- vem ser superadas, oportunidades e tentações para o bem ou pa- ra o mal, material experimental que cada um utiliza a seu modo, sofrendo-lhe depois as consequências. Em razão de sua livre es- colha, ainda que a Lei os utilize como seus instrumentos, eles não estão isentos de responsabilidade, pois ela não impõe posi- ções, mas apenas as oferece. Assim, imparcialmente, ninguém pode subir e redimir-se senão através da própria dor. E são eles mesmos que, causando a dor com a sua própria revolta, termi- nam por se ferir, como se estivessem ligados a uma condenação de recíproca perseguição, produto da desobediência da criatura, condenação, porém, que, com a experiência da dor, conduz à re- denção e à salvação, produto da sabedoria e da bondade de Deus. Tanto os rebeldes do AS se atormentarão entre si, que acabarão por amar-se como criaturas do S. Com isso, o bem triunfa sobre o mal, a ordem vence o caos da revolta e Deus permanece sempre senhor absoluto de tudo.

XI. A FUNÇÃO DA BONDADE E DO AMOR DE CRISTO DIANTE DA RÍGIDA JUSTIÇA DA LEI DO PAI

Imaginemos uma família composta de pai, mãe e muitos fi- lhos. O pai provia tudo e representava a ordem e a justiça, a Lei. Fazia-a respeitar, porque ele era o princípio masculino da potência. A mãe, seguindo aquela ordem e apoiando-se sobre aquela potência, criava os filhos com bondade e sacrifício, em completa dedicação. Ela era o princípio do amor. Os filhos, ainda pequenos, ainda não tendo chegado à maturidade, fica- vam em casa, confiados à mãe. Mas, movidos pelos instintos rebeldes, próprios da natureza humana, tentavam aproveitar-se

Pietro Ubaldi

A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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do amor de mãe, para desobedecer às sábias ordens do pai. Po-

rém, à noite, o pai voltava. Então, prestavam-se contas, e a jus-

tiça tomava lugar do amor. A cada violação da ordem estabele- cida pelo pai, já não respondia o amoroso perdão da mãe, com quem, valendo-se de sua bondade, poderiam fazer o que quises- sem. Não compreendiam, porém, o quanto era necessário para eles aquele pai, de quem, de bom grado, se livrariam. Não en-

tendiam que ele, tudo provendo, era indispensável e que, se im- punha uma ordem, assim procedia porque era necessário à vida

de todos, para não terminar no caos.

Deus é o pai com função de justiça, e Cristo é a mãe com função de amor, que completa a função do pai. Ou melhor, o pai é Deus no seu aspecto Lei, e Cristo é Deus no seu aspecto amor. Os filhos são os cristãos, ainda crianças, protegidos em um ni- nho pela bondade de Cristo. Esta situação é necessária para os imaturos, que devem ficar livres para as finalidades da sua expe- riência, mas são ignorantes dos furacões que poderiam desenca- dear com sua louca conduta diante da lei de Deus. A natureza deles não deseja a ordem, mas o livre arbítrio; não deseja a obe- diência à lei do Pai, mas a revolta. Ei-los, então, prontos a apro- veitar da bondade da mãe para fugir das rígidas ordens da lei do Pai. E bondade maior não poderiam encontrar senão em Cristo, que se ofereceu para pagar por nós, obtendo-nos a eterna reden- ção. Mas, considerando o homem tal como ele é e as leis vigen- tes em nosso mundo, de que serve a bondade alheia senão para ser utilizada em benefício próprio?

Há dois mil anos, a humanidade procura aproveitar-se da bondade da mãe para fazer o que lhe convém. Mas chega a noite, e eis que o pai volta. Então o discurso se torna diferente. Ele usa o seu poder segundo a justiça, e ao amor se substitui a Lei. Prestam-se contas, e os resultados são executados. Esta é a posição atual dos filhos diante do pai. Era tão bom depender apenas da bondade da mãe, condição que permitia tantas aco- modações, mas infelizmente, por trás daquela bondade, que tudo adapta e ajusta com a sua elasticidade, ajudando e confor- tando, há a firme rigidez da Lei, que se volta contra o infrator, quando a medida está cheia, e então golpeia inexoravelmente, porque ela não admite que a elasticidade se transforme em vio- lação. Infelizmente, a natureza humana é levada a dirigir as coisas neste sentido, jogo perigosíssimo, devido à ignorância

do real estado das coisas. Com tal forma mental age-se louca-

mente, enquanto tudo no universo, da matéria ao espírito, fun- ciona enquadrado dentro de leis exatas, fixadas por uma inteli- gência suprema, que tudo dirige com ordem. Então, é natural que, num ambiente intimamente regido por uma ordem perfei- ta, quem se move seguindo um regime de caos acabe se cho- cando a cada passo com as barreiras impostas por essa ordem, determinadas pelas normas que a regulam. É natural também que o choque provoque aquelas reações da Lei, que se fazem perceber sob a forma de dor. Trata-se de leis positivas, que a

ciência descobrirá. Leis às quais todos, ainda que as ignorem, estão submetidos. Só a infantil ingenuidade do homem pode crer que seja suficiente ser astuto para fraudar a lei de Deus. Seria como se fosse possível, com a astúcia, enganar a lei da gravitação, evitando a queda quando nos lançamos no vazio.

A história está cheia de catástrofes que representam a pena

que se segue como reação a tantas tentativas de violação da Lei. O problema não é pertencer a esta ou aquela religião, na-

ção ou partido, mas sim de retidão. A Lei presta atenção à

substância, e não à forma. Em nada modifica a Lei o fato de

se crer nela ou não, de se ter conhecimento dela ou não. A Lei

funciona permanentemente para todos. O grande erro, no qual se cai frequentemente e que revela o tipo invertido do AS, é usar a bondade de Cristo como um meio de fraudar a lei de Deus. Não se compreendeu que, por trás do amor de Cristo, doce, cheio de compaixão e feito de sa- crifício, existe a ordem estabelecida por Deus, ordem feita de

justiça, que exige obediência e reage a cada violação. O fato de que se tente, com a própria vontade, substituir a ordem pela desordem, demonstra em que grau de inconsciência o homem ainda se encontra. O fato de Cristo ser bom é uma coisa. Ten- tar enganar a Lei é outra. A bondade de Cristo tem a sua fun- ção, mas subordinada à disciplina estabelecida pela Lei. Ora, antepor a bondade à disciplina, substituindo a primeira pela segunda, é subverter a ordem, o que constitui uma enganadora tentativa de inversão, de tipo AS. Para salvar-se, não basta apenas amar Cristo, é preciso, antes de tudo, saber funcionar exatamente enquadrados na ordem do organismo do todo. Todos sabem quão grande foi a bondade de Cristo. Mas sa- bem também como ele foi recebido na Terra, de que modo o homem, por dois mil anos, respondeu àquela sua bondade e de que forma foi aplicado seu Evangelho. Para não ser acusado de maledicência, cedo a palavra a um escritor não suspeito, o Doutor Giovanni Albanese. No seu pequeno volume Assim disse Jesus, editado pela Pro Civitate Cristã, Assis, 1959, aprovado pelo devido “Imprimatur” e “Nihil Obstat” da auto- ridade eclesiástica, esse escritor diz algumas verdades que não

no mundo, tu, Cristo, és um pobre

vencido, um iludido, um falido (

com que resultado? Os Teus não Te reconheceram e não Te

dedicaste-Te à Tua missão com extremo sacri-

acolheram (

fício, sem repousares. Que obtiveste? Não creram em Ti, não Te seguiram e Te repeliram. Escolheste um grupo de colabo- radores com afetuoso cuidado; Te pagaram com o abandono, a fuga, a negação, a traição, e Te venderam pelo preço de um

e dizes teres vencido o mundo. Os Teus adversá-

rios Te tratam como um delinquente, Te fizeram processar,

condenar, insultar pelo povo e crucificar entre ladrões e mal-

e Tu afirmas que venceste o mundo. Fizeste-Te

feitores (

proclamar rei, e a Tua coroação foi uma burla feroz; Te pro- clamaste filho de Deus e foste condenado como blasfemador; Te chamaste o Messias e foste julgado um sedutor da plebe; Te proclamaste o Salvador e não conseguiste salvar sequer a

se poderiam dizer: “(

),

)

),

amaste, fizeste o bem (

),

escravo (

),

),

Ti mesmo (

),

ainda dizes que venceste o mundo?”.

Estas palavras, devidamente aprovadas pela autoridade, afirmam que Cristo, ao menos na Terra, é um falido e confir- mam uma nossa asserção defendida em outro volume da obra de que não foi Cristo que venceu o mundo, mas foi o mundo que, além de não se ter deixado vencer por Cristo, O tem ven- cido até aqui. Triste constatação, levando a terríveis deduções, que fazem parte das chamadas terríveis verdades que não se podem dizer. A falência maior de Cristo está no fato de que seu Evangelho não foi, de fato, aplicado. E, se alguma tentativa de justiça social foi iniciada, deve-se isto principalmente à revolta dos deserdados. As conquistas se deveram antes à força do que ao amor e à generosidade evangélica. Quando o amoroso convi- te de Cristo não funciona, então explode a Lei, que irrompe nas revoluções, e o Evangelho se aplica obrigatoriamente. A atua- ção da justiça é primeiro oferecida com o método doce de Cris- to, que age com bondade. Mas, quando a bondade da mãe não é ouvida e é aproveitada para desobedecer à Lei, então chega o poder do Pai, que não pode ser enganado pelas astúcias huma- nas e não admite a violação impune da sua Lei. Isso significa que, por trás da bondade mesmo se esta, como diz aquele es- critor, fez de Cristo um vencido existe a Lei, que não pode fa- lhar, porque ela sabe se fazer valer e vencer o mundo. Então Cristo se retrai e o amor desaparece. Prestam-se contas e, sobre

a cabeça de quem se aproveitou da bondade, explode inflexível

a sanção da justiça. Chegam as horas terríveis, duras mas ne-

cessárias, a fim de que os surdos ouçam e a triste raça dos re- beldes, que zombaram do amor, seja castigada como merece, porque é delito valer-se da bondade para fugir à justiça. O uso da liberdade concedida pela bondade para violar a ordem estabelecida pela Lei, faz parte da primeira culpa de ori-

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

Pietro Ubaldi

gem, que levou consequentemente a criatura a precipitar-se do S no AS. É sempre o mesmo pecado que se repete, de querer obter

sem merecer, sem ter antes feito o esforço para ganhar. O grande sonho do ser decaído é destruir a Lei, para deixar em seu lugar a Anti-Lei. Mas é justamente isso que revela a sua ignorância, que

o faz crer numa coisa tão absurda. Ele não vê que a injustiça que gostaria de implantar pode existir apenas temporariamente e de forma superficial. Não percebe que, no fundo, o objetivo máxi- mo da Lei é tenazmente perseguido, cabendo à justiça a última palavra e a solução definitiva. Ele não vê que Deus permaneceu imanente dentro do AS e que, portanto, a lei do S dirige também

o AS. Assim, não é possível fugir à Lei. Quem se julga esperto,

acreditando deste modo conseguir a felicidade sem esforço, vio- la a ordem e vai contra a justiça, portanto faz o mal e, assim, termina por fazê-lo de fato a si mesmo, colhendo dor. É possível ser mais tolo? No entanto é nisso que consiste grande parte da sabedoria humana, revelando-nos o que é o homem. O motivo é sempre o mesmo da primeira revolta: violar a ordem e tentar agir no lugar da Lei, mas, com isso, terminar emborcado e ter de pagar o mal feito. Para quem conhece o funcionamento do uni- verso em todos os seus planos, dá para ver com quanta inconsci- ência se cometem os erros mais grosseiros, semeando as causas dos maiores desastres. De nada adianta advertir. Mas assim deve ser, porque não seria justo que a lição salvadora pudesse ser to- mada gratuitamente da experiência alheia, uma vez que a justiça quer que aquela lição não possa ser aprendida senão por experi- ência própria, através da própria dor.

Agora podemos compreender qual a função da bondade e do amor de Cristo diante da rígida justiça da Lei. Cristo é pie- dade e misericórdia. Ele não castiga, pelo contrário perdoa, mas, quando chega a hora da Lei, Ele nada pode fazer. Então desaparece a bondade e fica apenas a justiça. Esta não é doce

e elástica como o amor, mas férrea para não errar no golpe.

Trata-se de duas funções diversas, ambas necessárias. Não nos desencorajemos, pois, se Cristo, como disse aquele escri- tor, é um falido. Se na Terra a bondade fracassa, nem por isso fracassa a justiça. A Lei sempre triunfa. Somente quem ignora

a realidade dos fatos pode, na sua inconsciência, acreditar que seja possível, com a astúcia, subverter a ordem de Deus. Por trás do amor de Cristo há, inexorável, o poder absoluto de Deus, a Quem cabe a última palavra. Felizes daqueles que sabem interpor o amor de Cristo en- tre o seu erro e a rígida justiça da Lei. Então o pagamento é facilitado, prorrogando-se as quotas, tornando-as proporcio- nais às forças do indivíduo, mas sem, com isso, nada subtrair

à exatidão desse pagamento. Assim presta-se contas à justiça,

mas as culpas são abrandadas, porque a Lei, não sendo atingi-

da na sua integridade, pode funcionar também pelos caminhos do amor, e não apenas através da justiça. Entretanto, para os que não aceitaram o método da bondade de Cristo, a ação da Lei não é doce, mas rígida e inexorável. Quanto mais amor pusermos no pagamento de nossa dívida, tanto mais a Lei se adaptará a nós, proporcionando-se às nossas necessidades, a

fim de nos ajudar, já que o nosso amor lhe permitirá tratar-nos mais docemente. Cristo é o amor da mãe que se interpõe entre

a Lei e o culpado, para moderar a severidade do Pai, represen-

tando o princípio de elasticidade, que se acrescenta à firmeza da justiça sem violá-la, e funcionando como substância que lubrifica e acaba facilitando o funcionamento da máquina da Lei. Adaptando este funcionamento à nossa vida, Cristo hu- maniza a concepção da Lei, para nós terrivelmente profunda. Cristo a transporta das inacessíveis alturas do absoluto até ao nosso nível, a fim de que possa melhor funcionar no caso par- ticular de nossa vida. Diante do Pai, Cristo representa a fun- ção materna do amor, que funciona como intermédio entre a violação e a ordem estabelecida pela Lei. Assim, a concepção desta se enriquece de novas qualidades, aperfeiçoa-se e com-

pleta-se na forma, acrescentando à dura lei de Moisés (Velho Testamento) a lei do Evangelho (Novo Testamento).

Tentemos compreender ainda mais o significado da presen- ça de Cristo na Terra. Encontramo-nos diante de dois grandes dramas: 1 o ) A paixão de Cristo, como representante do ideal, descido à Terra para cumprir o necessário sacrifício, colocando- se à frente do movimento da evolução redentora da humanida- de. 2 o ) A paixão da humanidade, com a qual ela deverá pagar o delito de, em lugar de aceitar tal oferta de amor, ter-se aprovei- tado da bondade de Cristo como de uma fraqueza do Deus- senhor, insistindo na própria revolta (AS), contra a ordem da Lei (S), trágico drama este, porque não se pode desviar da ine- vitável conclusão. Eis como isso aconteceu. Com a vinda de Cristo, o homem viu Deus humanizado na- quele rosto e acreditou que este aspecto de Deus, como bondade

e amor, exprimisse toda a divindade, porque seu outro aspecto

abstrato, de Lei, foge à capacidade de compreensão do homem comum. Então, como verdadeiro rebelde rebeldia que ocasio- nou a primeira queda do ser o homem, na sua inconsciência, disse a si mesmo: Deus, então, é bom. Que esplêndida ocasião

para se aproveitar disso! Outro instinto não pode ter quem é ci- dadão do AS, que acredita não na justiça, mas na força e na as- túcia, não no poder da honestidade, mas no engano. Não é esta a forma mental que nos impõe o mundo, regido no seu nível pela lei da luta pela vida? Aqui, o bom é tido como fraco, um tolo de quem se pode aproveitar. Entendendo a bondade como fraqueza,

o mundo, em vez de usar para o bem a oferta de Deus, abusou

dela por dois mil anos com o mal. Já que lá estava a vítima ino-

cente, encarregada dos pagamentos diante da Lei, Cristo foi re- duzido a pagador dos pecados alheios. Com isso, quitaram-se os débitos com a justiça divina e ficou-se em paz. É natural que, na Terra, os bons devam ser utilizados de algum modo. Caso con- trário, para que serviriam? Existiram e existem exceções, mas são a minoria. Fala-se muito, mas esta é a dura realidade. Assim,

a oração que não se baseia em fatos é uma falsa superestrutura,

que nada vale sozinha, porque, diante de Deus, o que conta são as obras, e não as palavras. O mal camuflado se torna mais cor- rosivo do que aquilo que é escandalosamente visível.

O fato de não só ter-se aproveitado, por comodismo, da bondade de Deus que, piedosamente, toma a mão da desgra- çada criatura para salvá-la, abrindo-lhe o caminho da redenção,

a fim de que ela se encaminhe e, amparada, redima-se com o

próprio esforço mas também haver respondido com a mentira

e a traição a uma oferta de amor, como fez Judas, conduz a hu-

manidade, neste perigoso jogo, ao pior pecado que ela poderia cometer, porque resulta na mais dolorosa das consequências: o retrocesso involutivo. Então a oferta de amor é retirada, a bon-

dade e a ajuda desaparecem, e Cristo, o ponto de defesa inter-

mediário entre a miséria do culpado e a rígida inviolabilidade da Lei, afasta-se. O homem se encontra sozinho e nu diante da justiça do Pai, e nem Cristo poderá mais impedir que se dispare

o mecanismo da reação da Lei, porque foi ultrapassado o limite suportável, com a tentativa absurda de utilizar a bondade de Deus ao contrário, para ir contra a Lei e subverter a ordem.

Como pode acontecer tal coisa? É oferecido o perdão, e apro- veita-se para fazer o pior. Qual será a nossa culpa e que pena deveremos pagar, quando estivermos diante do tribunal? Então

já não se poderá mais invocar o amor e pedir piedade, porque as

portas da misericórdia estarão fechadas. Cristo cala-se, porque chegou a hora do Pai, a hora do juízo. Quando Judas O traiu com um beijo, Cristo o perdoou, mas seu perdão não pôde im- pedir que a culpa da traição devesse ser paga à divina justiça. Tal exemplo nos mostra os limites dos poderes do amor de Cristo como redentor diante da justiça da Lei, que permanece inviolável. Na Lei, tudo é disciplinado, de modo que bondade e amor não podem conflitar com justiça. Se isso ocorresse, a re- denção, obra do Filho, estaria em oposição à Lei, obra do Pai.

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A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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Em seu comodismo, o homem entendeu aquela bondade como um modo de fugir à Lei, tornando-a vã, o que faria de Cristo um violador, em vez de um salvador. Amor e justiça constituem tão-somente dois modos de agir da Lei, ambos ascendentes ao S, duas estradas para atingir o mesmo telefinalismo: Deus.

O verdadeiro poder e a salvação estão somente em Deus.

Mas é natural que o nosso mundo, existindo em posição inver- tida e vendo tudo através de tal perspectiva, creia no contrá- rio. Assim ele não compreende que a maior força está na fu- são com a Lei, na conduta retilínea pautada por ela, e que fra- co e vencido é o astuto, e não o homem bom e justo, como frequentemente se crê. Quem é cego pelo orgulho crê no ab- surdo de que possa ser tão hábil a ponto de saber fraudar a

Lei, mas é tão tolo, que provoca uma reação de prejuízo para si mesmo. O fato de não saber compreender uma coisa tão simples custa a muitos seres uma incalculável soma de dores, que são merecidas, pois a ignorância e a incapacidade para compreender são efeitos da queda no AS.

A realidade é diferente. Vivemos num universo regido por

um organismo de leis também espirituais, que lhe regulam ca- da movimento. Tudo funcionaria perfeitamente, mesmo para nós, se soubéssemos mover-nos segundo a ordem estabeleci- da. Mas, inconscientes dessa ordem, usamos nossa liberdade para violá-la a cada passo. Chocamo-nos, então, contra mil forças e provocamos suas reações, o que, para nós, significa dor. Cremos que seja possível obter o que desejamos, transi- gindo com todos os meios. Grande cegueira a nossa! O único método válido de recebermos é segundo a justiça, sem a qual nada se obtém. Porque nos movemos em direção errada, nos- sos planos falham e nossos esforços são em vão, produzindo resultados contrários. Ilude-nos a vantagem imediata, mas tal resultado é momentâneo. Abusa-se tanto do princípio do mí- nimo esforço como do jogo de atalhos ilusórios, que parecem facilitar o sucesso, métodos estes que nos atraem, mas que, depois, resultam invariavelmente em traição. Outra afirmação feita por nós, não compreendida pelo mun- do, é que, por trás do amor e da bondade de Cristo, está a rígida

e inviolável justiça de Deus. É inútil, portanto, querer lograr Sua

justiça, tentando aproveitar-se do amor e da bondade ofertados, cuja finalidade é nos ajudar a cumprir a Lei, e não servir como subterfúgio para desobedecê-la. A sólida estrutura que rege o universo é a Lei, ou seja, o pensamento e a vontade de Deus. Assim, a última palavra, com a qual se estabelece a decisão fi- nal, é reservada à Lei. Sua solidez está por trás da doçura, de que é inútil se aproveitar para fugir à sua ordem. O homem, por- que não compreendeu isso, faz tentativas erradas. Se tivesse en- tendido a imensa oportunidade que lhe foi oferecida, ele não a teria perdido e haveria utilizado esta oferta no devido sentido, a fim de redimir-se com o próprio esforço, em vez de tentar aco- modar-se, crendo que pudesse ser gratuitamente redimido pelo sacrifício de Cristo! Poucos O tomaram seriamente. O homem não entendeu que não se pode evoluir através de outrem, nem jogar sobre os ombros alheios a merecida fadiga de ir do AS ao S. Mas, como isso era cômodo, ele se iludiu com esta possibili- dade. Uma redenção gratuita seria uma violação da justiça do Pai. O amor não pode violar a ordem da Lei. Se a Lei fosse ob- servada, a ajuda se teria multiplicado em proporção à nossa boa vontade e ao nosso esforço. Mas, buscando-se, pelo contrário, torcer a Lei, as fontes da ajuda divina secaram. E pode ser que tenha chegado a hora em que o amor e a bondade se retraem, permanecendo apenas a rígida justiça de Deus.

Poder-se-ia objetar que, se o mundo não compreende, basta- ria explicar-lhe. Mas é inútil. Para compreender, é necessário ter a forma mental adequada, mas o mundo está com a sua em-

borcada e, portanto, é levado a conceber e entender tudo segun- do uma perspectiva deformada. Não importa o que se diga, tudo

é deturpado pela mente humana, que representa o órgão de jul-

gamento e o único meio de compreensão disponível. Nisso está

a fatalidade do destino, que exprime a inexorabilidade da Lei e,

assim, fecha as portas a qualquer possibilidade de evasão. Nin- guém pode reagir diversamente da própria natureza, sendo ine- vitável que, quando chega o golpe, as máscaras caiam e o ser se mostre tal como realmente é. É assim que, no momento do pe- rigo, o louco fica mais louco, o ladrão mais ladrão, o viciado mais viciado; em contrapartida, o bom revela a sua bondade e o inteligente a sua inteligência. Desse modo, encontrando-se em apuros, quem está contorcido acaba se torcendo ainda mais e quem está na descida acelera a sua corrida para a perdição. Isso ocorre não por se tratar de uma intervenção do exteri- or, por parte de seres ou forças estranhas ao fenômeno. A Lei não intervém para premiar ou punir. Trata-se de forças inseri- das no próprio fenômeno. O fato de, automaticamente, estas forças se colocarem a funcionar segundo os impulsos que o ser livremente pôs em movimento, faz parte da própria estrutura e funcionamento do fenômeno. A Lei é tão engenhosa, que o in- divíduo, queira ou não, saiba ou não, está imerso nela como um peixe no mar, sendo obrigado a produzir, seja qual for o movimento realizado por ele, efeitos que recaem sobre si mesmo, de modo que, automaticamente, quem faz o mal se au- tocastiga e quem faz o bem se autopremia. Definidas as pre- missas, as consequências são fatais. Daí se conclui que a Lei sempre se realiza totalmente, seja qual for o movimento que o ser faça e a posição que queira as- sumir. Assim ele é livre, mas ai dele se violar a ordem, que sempre permanece. Em substância, ele é livre somente para es- colher e semear aquilo que deseja, mas nunca para modificar os efeitos que depois deverá sofrer. Quando se explicam essas coi- sas ao homem comum, ele responde que não lhe interessam, sem compreender que elas representam a técnica necessária ao navegante para atravessar o mar da vida. Assim ninguém se preocupa em dirigir a própria rota, crendo ser mais lógico dei- xar o leme à deriva sobre as ondas. Há, porém, o fato de que o homem rebelde, mesmo igno- rando tudo isso, está fechado dentro da Lei, que não permite evasão e o reconduz duramente à ordem, fazendo isso para seu próprio bem. A Lei é, por natureza, positiva, isto é, cons- trutiva e, por isso, tende sempre à salvação. Assim, embora seja rigidamente justa, enquanto justa é implicitamente boa e benéfica. Aparentando punir, no fundo educa, reordena a de- sordem, põe o bem no lugar do mal, leva ao S, isto é, à alegria

e à vida, e afasta do AS, isto é, da dor e da morte. A Lei sempre atinge esta sua finalidade, sendo que a possi- bilidade de evadir-se é apenas uma das tantas ilusões humanas. Diante dela, o homem pode assumir três posições, mas, qual- quer que tenha sido a escolha, não poderá evitar a correspon- dente reação. A primeira posição é a do indivíduo honesto, que, sem evasões, segue a Lei. A segunda posição é a do peca- dor que violou, mas se arrependeu e se dispõe, com boa vonta- de, a pagar o seu débito à Divina Justiça, ajudado pelo amor de Cristo. E, finalmente, a terceira posição é a do pecador impeni- tente, decididamente rebelde, que tenta enganar a Lei, valendo- se da bondade de Cristo. Quem está nesta posição é reenviado ao terreno da justiça, diante da qual será obrigado a pagar ine- xoravelmente toda a sua dívida. Nos três casos, seja qual for a posição que o homem quiser tomar, a Lei será sempre aplicada plenamente e sem falhas. No primeiro caso, isso ocorre sem esforço, por espontânea adesão, sem erros e reações. No se- gundo caso, acontece penosamente, mas com retidão, isto é, o erro receberá da Lei uma reação moderada pela ajuda do amor. No terceiro caso, tudo ocorre à força, por constrangimento, por rígida coação da Lei, até que o erro seja todo pago. No primei- ro caso, nada há a pagar. No segundo, paga-se por amor. E no terceiro, deve-se pagar à força. Mas, em todos os casos, é sem- pre a ordem e a justiça da Lei que triunfa.

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XII. O HOMEM DIANTE DA LEI

Tudo o que existe é um fenômeno em movimento, dirigido por uma lei que, distinguindo-se em tantas modificações particu- lares, orienta os movimentos de todos os fenômenos. Esta lei

constitui o código que regula o seu contínuo transformar-se. Pe-

lo fato de representar uma inteligência e uma vontade de ação

realizadora, podemos concebê-la como uma manifestação da personalidade de Deus transcendente, que deste modo se mani-

festa imanente nas formas de nosso universo, cujo funcionamen-

to depende daquela lei, que estabelece as normas, segundo as

quais o processo da existência se deve desenvolver. Ela abarca também a conduta humana, fixando-lhe uma espécie de trilhos, ao longo dos quais esta deve atuar. Há, pois, inserido na vida, acima de todo separatismo religioso, um único regulamento para esta estrada, igual para todos, segundo o qual se deve desenvol- ver o tráfego, seguindo uma ordem pré-estabelecida. Assim, está traçada a via a percorrer, que é dada pela evolução do AS para o S. E, tal como ocorre com as normas do trânsito, tudo é discipli- nado, a fim de que não haja desastres.

Enquadrado em tal rede de regulamentos, o ser permanece livre nos seus movimentos, gozando de plena autonomia, e não preso como uma peça passiva na mecânica universal. Esse

livre arbítrio faculta-lhe a possibilidade de erros, violando a Lei. Como evitar, então, que a liberdade transforme a ordem em caos? Este perigo é bastante grave não só porque a nature-

za rebelde do homem, filha do AS, leva-o a querer impor-se à

Lei, mas também porque ele conhece pouco o regulamento da estrada, razão pela qual o transgride a cada passo. Pode-se imaginar as consequências de tais métodos, que acarretam movimentos desordenados em um tráfego intenso. Isso é o que está ocorrendo em nosso mundo.

Que se passa então? Temos batidas, lutas, processos, danos a pagar e questões similares. Eis os efeitos da desordem. Pode-se violar a Lei, mas ninguém pode se furtar às consequências, pro- porcionais à violação. Tudo isso funciona como corretivo e tem

a finalidade de reconduzir o violador às normas e aos limites do

regulamento. O dano que ele sofre o ensina a não mais transgre- dir a Lei. Esta, com as suas sanções impostas aos violadores, é também mestre que ensina, porque age não apenas para manter a ordem entre os que obedecem, mas também para reconduzir à ordem os desobedientes, que assim aprendem, às próprias cus- tas, a conhecer a Lei e a saber usar a própria liberdade com co- nhecimento e responsabilidade. Depois, não ocorrendo novos danos, não há consequências a pagar. Tudo corre bem, quando o ser sabe mover-se disciplinadamente. Na Lei, a cada erro está li- gada automaticamente a sua correção e, com isso, a eliminação dos males a que todo erro conduz. Isso mostra a sabedoria con- tida na Lei e nos prova que a finalidade da dor não é a vingança nem a punição, mas o ensinamento, a fim de que não se repita o

erro e se possa, assim, evitando o próprio dano, seguir na dire- ção do bem e da própria felicidade. Estabelecendo para cada movimento a estrada correta a se- guir, a Lei é como um trilho sobre o qual a vida caminha. Quando se sai dela, ocorre um enguiço no funcionamento, per- cebido sob a forma de dor, sensação esta que nos adverte da presença desse desajuste, para evitá-lo e, assim, evitar também

o erro que o produz e, consequentemente, a dor resultante.

Constatamos este fato também em nosso organismo. Cada ser

existe dentro de uma forma, assim como cada fenômeno é indi- viduado por um dado tipo de transformismo. Esta forma ou tipo

é o veículo por meio do qual o ser e o fenômeno desenvolvem a

sua atividade. Esse veículo é um meio para alcançar esse fim, que representa um enquadramento obrigatório na ordem. Cada veículo é diferente e expressa um determinado modo de existir, correspondente a uma determinada ordem particular. Mas a Lei, responsável pela ordem, é igual para todos.

Esta ordem da Lei são os trilhos da existência. Esses trilhos permitem uma oscilação, consequência da liberdade do ser, ne- cessária também para seguir a escola da sua experimentação. Funcionam como se fossem trilhos elásticos, para permitir os deslocamentos colaterais. Mas elasticidade não significa violabi- lidade da Lei, ou seja, uma definitiva saída do reto caminho. Ao contrário, significa um impulso de atração de retorno para a jus-

ta posição desse caminho, tanto maior quanto mais o ser dele se afaste. É assim que, quanto mais se erra, tanto mais se é corrigi- do e tanto mais se aprende a não errar, porque, quanto maior o afastamento da Lei, mais se obrigado a voltar a ela e a ficar-lhe ligado. Assim a ordem, num certo sentido, é violável, mas tende automaticamente a reconstituir-se. A Lei é um fato verdadeiro, real, continuamente em funcionamento, sempre atuante. Podemos exprimir-nos também com uma imagem. O traba- lho do homem ao atravessar a vida pode ser comparado àquele de quem aprendesse a andar de bicicleta ao longo de um corre- dor, entre duas paredes, sem saber ainda equilibrar-se. No meio da estrada, está assinalado o caminho correto a seguir, mas o ciclista inexperiente ora vai para um lado ora para outro. Assim, ele termina batendo de um lado, cai e se machuca, mas aprende a não se jogar mais para aquele lado. Então, fortaleci- do por essa experiência, evita repeti-la, mas se deixa ir para o lado oposto. Então cai de novo e se machuca, no entanto aprende a não mais se jogar também para aquele lado. Batendo

e tornando a bater, caindo e sofrendo, o ciclista, com essa téc-

nica educativa, aprende a não se chocar com as paredes laterais que fazem seu caminho, mantendo-se na via correta a seguir, assinalada no meio da estrada: o caminho da Lei. Substancialmente, esta lei representa a presença de Deus. Sem aparecer, ela deixa o ser enquadrado num sistema de for- ças que, por ações e reações, o obrigam a transformar por si mesmo queira ou não, tenha ou não consciência disso o erro na sua correção, o mal em bem, a dor em felicidade. Esse pro- cesso de cura de todo o mal existente é a grande obra de Deus para dirigir a recondução do ser do AS ao estado de S, processo que se desenvolve por concatenação de momentos sucessivos, segundo a lei de causa e efeito, isto é, de golpes e contragolpes, uns como consequência dos outros. Nessa concatenação, a cor- reção do erro não é instantânea, porém, uma vez semeado o mal, inicia-se o ciclo que o leva a produzir seus tristes frutos, definindo-se a trajetória do seu desenvolvimento, que, pela ve- locidade adquirida, resiste e, se não for corrigida por um impul- so contrário, não se apaga enquanto não se tiverem exaurido seus efeitos. É assim que a humanidade arrasta os seus pecados por milênios, antes de conseguir digeri-los e livrar-se deles. Muitas vezes, é necessário um tempo longuíssimo antes de po- der neutralizar os erros cometidos contra a Lei, e pode-se até imaginar a natureza desses erros, uma vez que são cometidos por um ser situado nos antípodas dela, isto é, no AS. Para explicar melhor, tentemos concretizar, focalizando o problema de um caso particular, a título de exemplo. O eterno antagonismo entre ricos e pobres deriva do fato de haver sido a coexistência, desde o princípio, assentada em posição invertida (AS). O pecado originário ocorreu em razão de não ter sido a convivência baseada no acordo e na recíproca compreensão, mas no egoísmo e, portanto, na luta e no atrito. Assim, ricos e pobres, em lugar de se ajudarem e se entenderem, buscaram or- ganizar-se em dois grupos, um contra o outro. Por terem assim se dividido, foram lançados em caminhos opostos e iniciaram duas trajetórias divergentes, que não tendem a resolver-se atra-

vés da colaboração, já que o triunfo de uma só se consegue com

o arrasamento de outra. Aplicando ambos o mesmo princípio

do “tudo para si”, o rico procurou subjugar o pobre, enquanto o

pobre, sempre que lhe foi possível, vingou-se do rico. Os dois têm as suas culpas, e, caso se queira ser imparcial,

é necessário reconhecê-las em ambas as partes. Suas trajetó-

Pietro Ubaldi

A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS

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rias já foram lançadas nessa direção.