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Agnáldo C.

Bacàro

HERÓI DE SI MESMO

2008
©Copyright by Agnáldo C. Bacàro

(Proibida a reprodução sem a prévia autorização do


autor. Todos os direitos reservados)

Revisão: Haidée Camelo Fonseca

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NOTA DO AUTOR

Peço permissão para perguntar a você,


que me está lendo agora: o que o (a) levou a
adquirir este livro? Você certamente quer a
solução de seus problemas, sofrimentos e
angústias mais íntimas.
Pergunto: você está feliz agora com seu
modo de vida? Você ama o que faz em sua vida
profissional? Você segue a sua vocação? Você
já se perguntou por que sofreu
miseravelmente em algumas fases de sua vida?
Você sabe a causa de tanta dor e miséria no
mundo? Por que alguns homens e mulheres
parecem felizes, por serem ricos e bonitos,
ou por conseguirem tudo o que querem? Será
que são realmente felizes?
Provavelmente você já se sentiu
terrivelmente envergonhado (a) por invejar
as pessoas citadas anteriormente. Confesso:
eu também já senti muita inveja pelos que
supunha bem sucedidos na vida.
Mas, em presença da dor e da angústia do
estar no mundo e não ser plenamente feliz no
que fazia, eu resolvi mudar, virar a mesa e
ser eu mesmo. Foi assim que nasceram as
perguntas feitas a você anteriormente.
Não, este não é um livro banal. É um
livro que pulsa, que arde em seu calor
sangüíneo e que vivificará quem o ler.
Trata-se de um livro revolucionário para sua
vida se assim você quiser que seja, e ele o
será.
Aqui há vida, sangue, suor e, por que
não dizê-lo, lágrimas, muitas lágrimas.

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Lágrimas que lavam as faces, o corpo e,
principalmente, a alma.
Aqui não lhe será ensinado nada. Você é
quem tirará as conclusões. Porque a vida é
assim, aprendemos com nossos erros e
acertos, embora mais com os erros; e o bem e
o mal são relativos, pois o que gera a dor e
o sofrimento é apenas uma palavrinha:
ignorância!
Não, por favor, não se ofenda, pois não
o estou chamando de ignorante, não, jamais!
Quero dizer que às vezes fazemos as coisas
pela paixão e ferimos os outros e isto tem
um preço chamado sofrimento. Aqui, quando
emprego a palavra “paixão”, incluo em seu
campo semântico sentimentos como raiva,
amargura, orgulho, luxúria e por aí vai.
Mas vivemos em um mundo escola e não
poderia deixar de ser assim. As chances para
melhorarmos são infinitas. Um dia, você
acordará cansado de sofrer, cansado de
viver, querendo até deixar de existir,
porque está se sentindo vazio e liquidado, e
então você terá o insight, a revelação.
Foi o que aconteceu com... Podemos
chamá-lo aqui de João.
Bem, talvez você queira saber o motivo
de tudo isto, a razão deste livro. Convido-o
a prosseguir na leitura, por mais um
pouquinho, e você verá que a vida é um
eterno milagre...

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I

João W.B.
Simplesmente João.
Um ser com alma, um homem como você,
como todos os seres humanos. Ele sofre, ama,
e tem alguma alegria.
Todos os dias, ele caminha pela cidade,
empurrando um carrinho de supermercado cheio
de tralhas, seus únicos pertences neste
mundo. Ele carrega roupas sujas, restos de
comida que mendiga, e penduricalhos
imprestáveis. Ele cheira mal, suas roupas
estão sebentas e esfarrapadas. Seus cabelos,
como a barba, são longos, grudentos e
amarfanhados. Seus olhos são escuros e
encravados em profundas olheiras.
Ele já foi relativamente feliz como a
maioria de nós. Ainda traz os traços, no
rosto envelhecido prematuramente, de alguém
que nasceu em um lar saudável e próspero.
Agora tem 40 anos.
Ele caminha, lentamente, pelas ruas,
empurrando seu carrinho. Dois cães vira-
latas, seus únicos amigos verdadeiros,
seguem-no fielmente. Um, muito magro, com
manchas pretas e brancas, que ele nomeou de
Esperança. O outro na verdade é outra: uma
cadela branca, sarnenta, igualmente magra,
que ele chamou ironicamente de Felicidade.
Quarenta anos esta noite e João caminha
pelas ruas da cidade com seu séqüito fiel,
os dois cãezinhos que ouvem suas angústias,
planos e desalentos. Sonhos? Não, sonhos não
os têm mais, ficaram perdidos nas ilusões do

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passado. Passado não muito remoto, desde que
ele resolvera, há cinco anos, viver nas
ruas, largado, sob as estrelas e o frio da
noite.
Desse modo, ele chega para dormir, como
faz todas as noites ao redor de uma
fogueira, onde outros seres como ele,
mendigos e mendigas, se recolhem, em um
terreno baldio, num canto remoto da cidade.
Mas esta noite é especial. Ele faz
aniversário e seu espírito, que há muito não
se perturbava, está inquieto. A verdade é
que ele está cansado da vida que leva,
pedindo de porta em porta, dependendo da
caridade de estranhos, recebendo restos,
passando frio e fome quase sempre.
Também está cansado das feridas que
carrega pelo corpo, escaras ocasionadas pela
vida insalubre que leva, pela falta de
banho, e pelas doenças que são, quase
sempre, sufocadas com muita cachaça e
drogas.
Como acontece com os amigos de
sofrimento, todas as míseras moedas que
ganha vão para o álcool ou as drogas, que
consome para fugir de seu destino
implacável.
Quando chega ao “acampamento” dos
mendigos, logo vai se juntar a eles na
fogueira que crepita quase todas as noites,
exceto quando chove, pois aí cada qual
procura uma marquise sob a qual pode se
abrigar. Chega, como sempre, calado. O
álcool e as drogas circulam de mão em mão,
compartilhadas, sugadas como se todos
buscassem nelas um alento de vida.

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Quando exaustos, cada qual pega o seu
papelão e o estende no chão, para esquecer a
vida no entorpecimento que lembra a morte.
Mas esta noite nem o álcool nem as
drogas aliviaram a infelicidade de João. Era
seu aniversário e ele não ousava contar a
ninguém. A dor pela falta, pela saudade e
pelo remorso o consumia. Assim João foi
absorvido pelo torpor da dor e da
desesperança.

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II

João começou a seguir em direção ao


centro da cidade. Uma viatura da polícia
passou por ele como se fora por um fantasma.
Era um pouco mais de meia-noite.
Por sua mente, passavam em desfile seus
aniversários de outrora, quando ainda se
julgava feliz. Via-se rodeado pela bela
mulher, Marta, e pelos não menos belos
filhos: Paulo, com três anos; Flávia, com
cinco e Júlia com sete. Todos à mesa,
lindamente decorada com enfeites, o bolo de
dois andares ao centro, flores e comes e
bebes de todos os tipos.
Uma dor insuportável invadiu-lhe o
peito, uma saudade sem remédio ao relembrar
que, após cantarem os parabéns, todos vinham
abraçá-lo e beijá-lo com amor. As crianças
lhe davam belos presentes que a mãe comprava
antecipadamente, escolhidos por elas: uma
caneta de ouro, um par de gravatas de seda,
um lindo relógio prateado e outros objetos
luxuosos. Aí então era a vez da mulher,
Marta, que, após um beijo e um abraço,
entregava-lhe um pacote feito com esmero.
Ele sempre adivinhava o que era. Podia ser
uma camisa de seda, uma pasta de executivo
em couro legítimo ou um terno completo de
alguma marca famosa.
João pára o carrinho e enxuga as
lágrimas que começam a explodir sem controle
nos seus olhos. Agora ele geme na solidão e
no frio da madrugada. Ninguém por
testemunha, só o coração arrasado. Os

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cãezinhos Felicidade e Esperança sentem o
que está acontecendo, mas nada podem fazer,
pois se trata da dor de humanos. Eles
simulam um latido leve, mas não conseguem
tirar João da cadeia de sofrimento que o
prende.
Ele empurra o carrinho e tenta afugentar
as lembranças, que, de tão felizes, lhe
acentuam a tristeza. Tudo o aflige, sua alma
se inquieta e ele tenta tomar coragem para
uma decisão final.
Percebe que está começando a caminhar
sobre o viaduto que corta uma grande avenida
da cidade. Ele empurra seu carrinho
lentamente, sabendo o que o espera.
Felicidade e Esperança pressentem algo, nada
bom, no ar.
Agora João pensa na vida de seus colegas
de jornada, os miseráveis como ele. Todos,
quase todos, escolheram a mendicância por
causa de uma dor insuportável que não
souberam ou não quiseram aceitar. Uma
desilusão amorosa, a perda da fortuna da
família ou o vício os empurraram para aquela
vida. Todos, sem exceção, carregavam grandes
ressentimentos e mágoas. E esses sentimentos
os envenenavam no corpo e na alma,
provocando a dissolução da vida, a
perturbação e a dor. Era como se a natureza
gritasse por equilíbrio, provocando o
desequilíbrio.
Ao estacionar no ponto mais alto da
ponte, uma idéia má amadureceu por completo
em João. Na verdade, ela fora incubada nos
últimos cinco anos em que ele estava nas
ruas.

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João se viu na encruzilhada da vida, do
ser ou não ser de que fala a filosofia.

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III

A ponte era alta e formava uma


parabólica. Ele estava no cume da curvatura.
Olhou para a esquerda e olhou para a
direita. Silêncio e frio. Nenhum carro
transitava e nenhuma pessoa circulava. Já
era alta a madrugada. João encostou o
carrinho de supermercado na mureta, tirou as
tralhas de dentro e as jogou no chão, com
impaciência. Os cãezinhos olhavam tudo
aquilo intrigados. Estando o carrinho vazio,
João subiu nele e assim teve acesso à
mureta, que era alta. Equilibrou-se, quase
caindo, segurando no poste de iluminação.
Não queria olhar para baixo e nem abrir os
olhos. Sua mente fervia com milhões de
pensamentos. As lembranças o instigavam a
dar prosseguimento àquele ato supremo.
Felicidade e Esperança se apoiavam
apenas nas patas traseiras. Esticavam-se na
mureta, como se quisessem escalá-la também
num gesto de solidariedade ao dono. Se
pudessem, sairiam correndo dali para
procurar ajuda.
- Vão embora, saiam daqui! – vociferou
João, fazendo um gesto com a mão em direção
aos cães.
Os animais nada compreendiam e não
arredaram pé dali. Pelo contrário:
aninharam-se no chão, decididos a esperar.
Esperar o quê? Felicidade e Esperança
ainda não tinham se alimentado naquele dia,
suas barriguinhas roncavam e a sarna os
fazia se coçarem tenazmente. Para se

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aquecer, os cães se encostaram um no outro,
na tentativa de escapar do vento frio que
soprava sem parar.
Por um instante, João compadeceu-se do
destino cruel dele e daqueles cães
indefesos. Até pensou em agarrar os dois
e... Não. Os cães talvez conseguissem se
virar sem ele, achariam outro mendigo a quem
seguir, a quem lamber as feridas...
Bem, era necessário prosseguir. Chega um
momento em que o homem que tem dignidade
precisa tomar uma decisão, por mais cruel
que esta decisão possa parecer. Sempre chega
o momento em que nossos brios são tocados e
temos que dizer um “chega!”, um “basta!” Do
jeito que estava não dava mais para
prosseguir, era insuportável.
“Sim, é preciso fazer o que tem que ser
feito”, pensou decidido.
Olhou para baixo e um frio percorreu-lhe
todo o ser, a barriga gelou. ”Parece fácil,
mas não é”, pensou. Naquele momento,
recordou-se de quando era criança e sua mãe
o levava ao parque e ele brincava na roda-
gigante. Agora se sentia como se a roda-
gigante tivesse parado e a cadeira em que
estava começasse a balançar perigosamente no
ponto mais alto. Nos momentos em que isso
acontecia, ele se agarrava à mãe, que o
acolhia junto ao peito e lhe dizia que papai
do céu jamais ia deixá-los cair. “Papai do
céu... Quanta besteira!”, pensou num ímpeto
de raiva.
Não muito longe, vislumbrou a torre alta
de uma igreja com seu grande relógio.
01h15min. ”É uma boa hora para...”. Um carro

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que passava lá embaixo, cheio de jovens
bêbados fazendo arruaças e jogando latinhas
de cerveja para o alto, mudou o rumo dos
seus pensamentos: “Esses aí sim é que são
felizes”. Sorriu do absurdo da situação,
lembrando-se do tempo em que também fora
jovem e fazia exatamente a mesma coisa.
“Então, é agora...” Se não fizesse o que
havia decidido fazer não teria mais como
viver, se é que aquilo era viver. Não se
sentiria mais um homem, ficaria
horrivelmente envergonhado e iria se achar
inferior a um verme.
“Então está feito... decidido... fiz
tudo o que podia nesta vida... e que Deus,
se é que existe um, me perdoe...” pensou, já
dando o impulso final.
“NÃO FAÇA ISTO!”
Ouviu de repente...

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IV

Ouviu a voz forte e aveludada que vinha


não se sabe de onde.
Olhou para baixo, para a esquerda e para
a direita do viaduto e não viu ninguém.
Resolveu prosseguir, talvez fosse alucinação
de sua mente desfragmentada. Fechou os olhos
e tomou novo impulso...
“JÁ DISSE: NÃO FAÇA ISTO!”
Não, agora era bem real! Era uma ordem
imperativa e dita bem próxima a seus
ouvidos. Seu corpo todo se arrepiou, sentiu
a presença de alguém atrás de si. Tomou toda
a coragem do mundo e, ainda de olhos
fechados, virou-se.
- Não tenha medo, pode abrir os olhos
agora! – ouviu de alguém que estava na
calçada.
João abriu os olhos e então viu. Um
homem vestido finamente de branco: terno,
calça, camisa, gravata e sapatos - tudo era
branco!
João só conseguia ver o que a luz do
poste deixava: do pescoço para baixo. Não
dava para ver o rosto, que era coberto pela
sombra da noite.
- Quem é você? – perguntou João.
- Apenas um amigo... – respondeu o
estranho.
- Qual é o seu nome?
- Me chame simplesmente de “amigo”...
- Mas eu não o conheço, nunca o vi nesta
vida.
- Certamente que não...

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Silêncio. Esperança e Felicidade
acompanhavam o diálogo de João com o
“amigo”. Os cãezinhos começaram a abanar o
rabo como se farejassem comida.
- O que quer de mim?
- O que um amigo pode querer a não ser
ajudar?
- Não preciso de ajuda agora... Por
favor, me deixe em paz! – disse João,
virando-se como quem toma impulso para se
jogar.
- Se quiser fazer o que pretende, faça
agora! Mas lembre-se: existem três vidas,
três crianças que sofrem pela tua
ausência...
Ao ouvir isso, João sentiu a agonia de
antes. Seu rosto se afligiu num esgar de
dor.
- Como sabe das crianças? Você nem me
conhece!
- Não importa! Quero ajudar.
- Agora é tarde, agora é tarde... –
respondeu João, as lágrimas sulcando as
faces.
- Nunca é tarde para o amor...
Um silêncio trágico caiu sobre a ponte.
- Palavras! Palavras! – bradou João.
- Se acha que são apenas palavras então
faça o que tem que ser feito!
Houve um longo silêncio. João agachou-se
sobre a mureta da ponte transfigurado pelo
sofrimento.
“O que eu faço, meu Deus?”, pensou.
- João... – disse aquele homem estranho.
– Você pode se curar se quiser...

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- Mas por que ela fez aquilo? Por
quê?...
- Ela o amava...
- Mentira! – vociferou João, levantando-
se e olhando para baixo.
“Se pular, será instantâneo, não
sentirei nada.”
- Se me amasse, não teria feito
aquilo...
- Você a esqueceu, João.
- Enquanto eu trabalhava, ela...
- Aí está: você a trocou pelo excesso de
trabalho.
- Excesso? Mas como eu manteria a casa,
os gastos dela, os carros, os clubes e as
escolas caras das crianças?
- Você tinha apego às coisas, isto é
diferente de amor.
- Ah é?! Parece que você é o senhor
sabe-tudo – disse João com deboche.
- Você era um empresário bem sucedido,
não precisava trabalhar tanto.
- Quem é você para ditar regras? De que
mundo você é? Você não imagina como é a
concorrência, meu amigo, não imagina...
- Você pagou um preço alto demais, não
acha?
- Paguei, aqui estou. Mas ela não
precisava ter me traído, não precisava! –
bradou João, ecoando pela madrugada adentro.
- Temos o livre-arbítrio, João. Você
sabe disso, você é uma pessoa culta. Você
optou pelo trabalho, ela escolheu o amor e a
família.
- Blá, blá, blá!!

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- Ela é feliz agora, vive uma vida mais
simples no campo, junto aos filhos, e tem
uma pessoa que a ama de verdade.
- Meu Deus! Quem é você para me torturar
desse jeito? Quem?! – gritou João. - Deve
ser o diabo em pessoa!
Silêncio e frio. O vento balançava os
cabelos e a barba de João, que olhava para
baixo, hipnotizado.

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V

Na vida, temos que lidar com as


frustrações. Esta era a maior dificuldade de
João, que cresceu em um lar abastado,
estudou nas melhores escolas e sempre teve
tudo o que o dinheiro podia comprar.
Garoto mimado, adolescente bonito, rico
e rodeado por garotas. Carros e bons
empregos na área do Direito. Até que um dia
os pais vieram a falecer num acidente de
carro. Foi este o primeiro grande trauma de
João: a dor da perda, a solidão.
Com a herança, João montou uma indústria
na área da metalurgia. Tudo ia bem, tudo
prosperava. Casou-se com uma mulher linda e
rica. Teve três filhos maravilhosos,
saudáveis e inteligentes, com um futuro
brilhante pela frente.
Sua fortuna crescia ano a ano. Ganhar
dinheiro era seu maior prazer, aquilo que
lhe dava a sensação de estar vivo, de ser “o
cara”, de estar no topo.
Trabalho, trabalho e trabalho. A mulher
e os filhos sempre postergados a um segundo
plano. E então, um belo dia, surpreendeu a
bela esposa com seu melhor amigo. Para João,
foi a gota d’água. Separou-se da mulher e
caiu na vida boêmia. Mulheres, álcool e
drogas dilapidaram pouco a pouco seu
patrimônio. A mulher casou-se com seu ex-
amigo Stanislau, também empresário, que ao
casar-se com ela, assumiu os três lindos
filhos de João.

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Desiludido, falido e amargurado, João
caiu nas ruas. Sem ilusões e sem esperanças,
perambulava pelas ruas à espera da morte.
Passou a viver como indigente, comendo das
sobras do lixo e das esmolas dos
transeuntes. Para amenizar o ódio e a mágoa
que sentia da ex-mulher e do ex-amigo,
encharcava-se com o consolo dos mendigos,a
aguardente barata e abundante de todas as
esquinas.
Cinco anos perambulando. No rosto, o
retrato da amargura, do sofrimento e do
ódio. Ansiava pela morte, mas o que o
mantinha vivo mesmo era o ódio. Assim se
envenenava todos os dias e se punia por ter
deixado seu lar se desfazer. Era desse modo
que purgava a sua consciência.
Quantos não estão na mesma situação?
Quantos violam suas consciências, purgando-
se das mais variadas maneiras? Uns geram o
câncer em si mesmos pela mágoa que nutrem
contra alguém, outros se desequilibram
mentalmente e vivem à custa de calmantes, de
todos os vícios possíveis. Muitos temem as
outras pessoas, os animais, a própria sombra
e até a vida. Outros são aleijões mentais,
incapazes de amar, de sonhar e de serem
felizes.
Assim criamos o inferno.
Mas está em nossas mãos o poder para
criarmos o céu...

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VI

Felicidade e Esperança aninharam-se


novamente, junto um do outro. Pareciam
suspeitar que a conversa entre João e o
estranho amigo iria se prolongar muito.
Para se produzir um homem novo, é
preciso fazer uma limpeza interna, remover
toda dor, mágoa, ressentimentos e demais
tendências odiosas, maléficas, paixões e
também os vícios. Nem sempre isto é
possível, pois a pessoa em questão não tem
forças, não quer, ou não deseja uma mudança
radical, apegando-se viciosamente ao
sofrimento e à dor.
Assim, a raiva gera o ressentimento e o
ressentimento gera a autopiedade que, por
sua vez, gera a depressão, que volta a ser
raiva... É preciso romper o círculo vicioso,
perdoar as pessoas que nos ofenderam,
eliminar a inveja, o orgulho e a vaidade.
Todos esses sentimentos negativos geram
doenças. Isso já está provado pela ciência.
Os chineses sabiam disso há mais de cinco
mil anos antes de Cristo. Assim chegamos à
conclusão de que realmente colhemos o que
semeamos. É esta a lei da ação e reação que
rege nossa vida e todo o Universo. Deus não
castiga ninguém, nós mesmos nos condenamos e
geramos para nós mesmos a dor e as doenças,
como forma de compensação. É a consciência a
nos julgar...
Deste modo, todas as vezes que ferimos
alguém, ferimos a nós mesmos... E a lei
entra em ação, provocando o desequilíbrio em

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nós na forma de sofrimento, como que para
restaurar o equilíbrio.
Foi justamente essa lei que entrou em
ação no caso de João. A mágoa e o ódio da
ex-esposa e do ex-amigo geraram nele um
desequilíbrio – a revolta e o sofrimento
insuportável do ego ferido, que o levaram à
mendicância. Dessa forma, ele se punia,
inconscientemente, pelo fato de ter
destruído seu casamento. A esposa, que o
amava, ao ser tratada com indiferença, criou
as condições para a separação.
Foi assim que João passou a perambular
pelas ruas, sujo, cheio de feridas, bêbado e
quase sempre alucinado. Vítima dele mesmo.
Foi o modo que seu inconsciente encontrou
para aliviar a consciência ferida que
gritava dentro dele, mas que o ódio e a
mágoa não o deixavam perceber, não o
deixavam ouvir.
Era necessário curar-lhe a consciência,
a alma para resgatar o homem.

Ainda agarrado ao poste de luz do


viaduto, João olhou para baixo, para a
avenida onde, de vez em quando, um carro
passava em alta velocidade. Calculou que se
pulasse logo talvez não fosse esmagado por
um carro. Àquela hora, eram poucos os
veículos a transitarem. Pensando nisso,
olhou para a torre da igreja: 01h45min. “Uma
boa hora para morrer”, pensou.
- Seus filhos o amam... – disse de
repente aquele ser que ainda estava ali, a
observar suas atitudes.
- É... mas ela... ela não me ama mais...

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- Você se sente feliz em se fazer de
vítima, não é? Você gosta de achar que é o
coitadinho, o prejudicado dessa história
toda que foi gerada por você, não é?
João, amargurado, só ouvia.
- Pois é – prosseguiu o “amigo”. –
Agindo assim, você joga a culpa de tudo
sobre a ex-esposa e seu amigo...
- Não é verdade!
- Sim, é a mais pura verdade! – disse o
“amigo” com veemência. – Você é que não quer
ver, não quer dar o braço a torcer, como uma
criança mimada, que sempre foi!
- Você fala muito! – gritou João. – Não
quero ouvir mais! – acrescentou, tentando
tapar os ouvidos com uma mão, enquanto a
outra o prendia ao poste.
- Mas você vai ouvir até o final. Depois
poderá se espatifar lá embaixo como um verme
imundo... – Ouça, João, você não é um
coitadinho, jamais o foi... Você nasceu
saudável, rico, teve alimentos abundantes e
nobres, estudou nas melhores escolas e teve
o amor de pai e mãe, belas mulheres o
cortejaram e você pôde escolher entre todas
a que mais lhe interessava... O que você
queria mais, MISERÁVEL orgulhoso?!
- Você não sabe o que diz!
- Se não sei o que digo, então PULE
AGORA! PULE E SE ESBORRACHE JUNTO AO AMOR DE
SEUS FILHOS!
- Meu Deus, você me tortura! – gritou
João em soluços, agachando-se e colocando as
duas mãos nos ouvidos. – Você deve ser o
DEMÔNIO, sim, é verdade, você é o demônio em
pessoa!

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- Sim, sou o demônio de sua própria
consciência, daquilo em que você se
transformou.

O vento soprava feroz agora. Um fogo


devorava-o por dentro como uma vela que
queimava lentamente. João estava confuso. A
dor, de tão insuportável, transmutava seu
rosto numa forma de loucura. Decidiu, em
segundos, que tinha que acabar com aquele
pesadelo, se livrar daquele demônio que
tocava as suas mais profundas feridas.
João levantou-se resoluto e encarou o
“amigo” que ainda estava ali, como um
demônio a tentá-lo. Olhou para os dois cães
que dormiam encolhidos, tremendo de frio.
Pensou que alguém os acharia e cuidaria
deles, assim como alguém cuida de seus três
filhos.
João encarou o vazio, levantou-se com um
gesto brusco e fitou o céu. Seu rosto todo
sorriu na contorção de um riso insano,
desesperado.
- Se pular, sua dor será quase eterna...
- Mentira... Os mortos não sentem dor!
- Mas sua dor... João... não está no
corpo... está na alma... e esta é imortal...
– disse o estranho com extrema doçura.
- É o que vou ver! – foram as últimas
palavras de João.
Na torre da igreja, o relógio cravava
02h57min.

- VOCÊ PODE, SE QUISER, SER O HERÓI DE


SI MESMO!

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João não compreendeu o que o estranho
queria lhe dizer, gritando aquilo, pois já
dava o impulso fatal...
Segundos que são eternidades. O corpo de
João voou no frio da escuridão. Parecia que
jamais chegaria ao chão. Já imaginava a dor
do corpo estatelando-se contra o asfalto
duro, o sangue a sair-lhe pelos ouvidos,
pelos olhos e pelo crânio esfacelado. Seriam
segundos ou seria a eternidade? Num flash,
sua vida passou por ele. Viu a criança e o
jovem mimado que fora um dia; seus amados
pais a cercá-lo com cuidados excessivos;
seus filhos sorrindo no aniversário, a
mulher abraçando-o. Queria voltar ao
viaduto, não morrer, não se esmagar contra o
chão. Daria tudo para voltar, para não
realizar aquele ato louco, daria tudo, tudo
para isso! Mas a sensação de que era
impossível voltar o esmagou por completo. Se
pudesse voltar... Amaria a vida... Deixaria
os vícios... a rua... e voltaria a
trabalhar, ser alguém...Iria ver os filhos
mensalmente, e desejaria toda a felicidade
do mundo para a ex-esposa que tanto amara e
a seu marido, seu antigo amigo. Amaria com
todo o seu coração a todos os seres deste
mundo, desde a formiguinha mais
insignificante a seu pior inimigo... Faria
tudo para ajudar aos sofredores, aos
deserdados da sorte e a seus amigos de
infortúnio e mendicância. Mas infelizmente
era tarde... Ao concluir isso, ouviu um
estrondo horrível e então ele apagou... Fez-
se a mais tenebrosa escuridão no meio do
silêncio.

24
VII

O sol brilhava na manhã azul e sem


nuvens. Vários mendigos saíam à procura do
que comer, do que beber e do que fumar. No
terreno baldio, uma fumacinha saía das
brasas semimortas do que antes fora uma
fogueira.
- Ei, cara, acorde! – disse alguém. – Já
passa das nove...
Confuso, João abriu os olhos, pouco a
pouco, triste por não ter morrido, mas feliz
por ser-lhe dada uma nova chance...
- Cadê o homem de terno branco? –
perguntou, olhando para os lados.
- Você está louco, cara! O que andou
fumando, hein? Não tem ninguém assim por
aqui.
- Meu Deus, acho que tive um pesadelo...
– disse, olhando e apalpando o chão ao lado
em busca dos cãezinhos.
Felicidade e Esperança estavam atrás
dele e vieram imediatamente a lamber-lhe o
rosto, festejando-o.
João acariciou os cães e disse: “Vocês
estavam lá, não? Vocês viram aquele homem,
não viram?”.
O mendigo que o acordara saiu balançando
a cabeça. “Está cada dia mais pirado!”,
murmurou.
Sentado no chão, ao lado do que antes
fora uma fogueira, João ainda tentava
assimilar o que teria acontecido. Tudo era
tão incrível e ao mesmo tempo tão real!
Lembrava-se vividamente de suas sensações de

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horror enquanto caía da ponte, daqueles
segundos que antecederam a queda, que lhe
pareceram eternos. Sentia um alívio
fenomenal, uma força crescia dentro dele
como se fosse uma semente ao romper a casca
na escuridão da terra, prestes a
desabrochar.
“O que ele disse mesmo?” pensou.
“VOCÊ PODE SER O HERÓI DE SI MESMO!”,
lembrou João, passando as mãos pelos cabelos
ensebados.
“Sim, é isto!” A “ficha” finalmente
caiu.
João levantou-se ligeiro, uma vida nova
queria manifestar-se nele, ainda mais agora
que renascera, embora tudo não tivesse
passado de um sonho. Um sonho bem real!
Ainda sentia a angústia de não ter podido
voltar atrás enquanto seu corpo em queda
livre se dirigia ao asfalto. Mas agora...
estava vivo, bem vivo, e iria cumprir o que
prometera a si mesmo durante aquela queda
para o nada.
Levantou-se e deu vários pulos para o
alto, batendo com os calcanhares um no
outro.
- Vou ser o herói de mim mesmo! Vou ser
o herói de mim mesmo! – gritava, pulando no
ar de alegria.
Alguns mendigos que estavam por ali
caçoavam dele, girando o dedo ao redor dos
ouvidos para dizer que ele havia pirado de
vez.
Felicidade e Esperança pulavam junto com
ele, tentando abocanhar o tecido de suas
roupas em frangalhos.

26
- Eu não morri! Estou vivo, vivo,
vivinho da silva! – berrava ele pelas ruas,
seguindo em direção ao centro.
Largou o carrinho de supermercado com
suas tralhas para trás, não iria mais
precisar delas, não, nunca mais! Quando
chegou a um mercado da cidade, sem pedir,
começou a ajudar um servente a descarregar
um caminhão com caixas de frutas. Em
pagamento, o motorista deu-lhe dez reais.
João agradeceu, beijou a nota com grande
amor e foi direto para uma barbearia. Gastou
os dez reais no corte do cabelo e da barba.
Estava com fome agora, não havia feito o
desjejum ainda. Decidiu que tomaria um
banho, e conseguiria roupas novas.
“Mas onde?” pensou.
Viu uma igreja e entrou pela porta
principal, pediu ao padre que o deixasse se
banhar, mas o pároco o expulsou, ameaçando
chamar a polícia. João não se abalou. Depois
do sonho, sentia que nada mais poderia
abalá-lo. Sorriu, fez um gesto de reverência
para o padre, agradecendo a recusa, e saiu,
feliz como havia entrado.
“Tomar banho”, pensou. ”Preciso tomar um
banho”.
Caminhou mais um pouco. Felicidade e
Esperança seguiam-no e, de vez em quando,
enroscavam-se entre suas pernas.
Estava disposto a trabalhar, nem que
fosse limpando esgotos. Aspirava
ardentemente a reconstruir a sua dignidade
perdida. Foi até a prefeitura para ver se
conseguia alguma coisa. Como tinha formação
superior, disseram-lhe que não servia. Ele

27
disse-lhes que não tinha problema, que
trabalharia em qualquer coisa, mesmo que
fosse na coleta de lixo, mas insistiram em
lhe dizer que não seria possível.
Depois que “ressuscitara”, ao acordar do
sonho em que cometera suicídio, as coisas,
por mais difíceis que fossem, pareciam-lhe
quase nada. Sentia grande força e acreditava
que havia sido privilegiado por Deus, que
lhe concedera aquele sonho. Passou a
agradecer por tudo o que tinha de bom e de
mau. Agradecia por amanhecer com o coração
batendo, pelo ar entrando em seus pulmões,
pelas roupas sujas e esfarrapadas, pelos
cãezinhos amorosos que o acompanhavam, pela
vida de mendigo, por todas as coisas que lhe
aconteceram até ali, pela alegria e pela
tristeza, pelo fato de ter cortado o cabelo
e a barba e, principalmente, pelo fato de
ter tido aquele sonho restaurador.
Por volta das duas da tarde, sem ter
conseguido ainda tomar o banho que tanto
almejava, foi até uma feira livre para ver
se conseguia algo para comer, pois não
agüentava mais de fome. Sentia tremor nas
mãos devido à falta de álcool e drogas.
Normalmente, àquela hora, já estaria, no
mínimo, totalmente bêbado. Mas como queria
ser o “herói de si mesmo”, como queria
honrar o sonho que tivera, determinou a si
mesmo que jamais voltaria a consumir álcool
ou qualquer outra droga. Assim ia
resistindo, embora a abstinência lhe
causasse um grande sofrimento no corpo e,
principalmente, na alma.

28
Revolveu o lixo do final de feira e
encontrou algumas frutas semi-apodrecidas,
que comeu, tirando as partes estragadas.
Para os cãezinhos conseguiu algum resto de
peixe e alguns tomates amassados que eles
adoravam. Saindo da feira, caminharam a
esmo. Em seu delírio, João ia martelando: “Ó
Deus, dai-me forças!”, “Ó Deus, não me
abandone, por favor!”.
Quando passava defronte a algum bar,
sofria dobrado, pois suas pernas queriam
entrar, mas sua cabeça queria fugir para o
mais longe possível dali. Uma luta tenaz se
travava dentro dele, sem piedade, uma luta
desigual e atroz. Mas ele, lembrando-se
sempre da angústia que antecedera a queda no
sonho, adquiria novas forças. Suspirava
suando muito e saía dali, mais forte do que
nunca, mais duro que o aço.
Veio-lhe a tentação de mendigar, pedir
dinheiro como fazia antes do sonho, mas
achou esta idéia horrível, pior do que a
morte.
“Não, eu agüento tudo agora, nem que eu
tenha que morrer de fome, mas esmola eu não
peço mais, NUNCA mais!”, pensou.
E foi assim, nessa luta, trôpego,
abatido, cansado, esfomeado, sujo, e sem ter
conseguido tomar aquele banho tão almejado,
que a noite o alcançou.
Ainda assim, agradeceu aos céus por mais
aquele dia que findava.

29
VIII

Debaixo da marquise de uma loja, João e


os dois cãezinhos se aninharam para dormir.
Forrou o chão com algumas caixas de papelão
que foram desmanchadas com este fim. Para se
cobrir, juntara alguns jornais velhos. Como
não havia ingerido álcool, sentiu grande
dificuldade em conciliar o sono. Quando
bebia, tudo lhe era mais fácil. Ao deitar-
se, “desmaiava”. Agora não, apesar de ser
quase uma hora da manhã, sentia grande
vergonha pelo fato de estar ali, deitado
naquele chão imundo e exposto aos olhares
dos transeuntes. O que mais o afligia era o
receio de que algum conhecido o visse e
fosse tomar satisfações. Agradecia a Deus
todas as vezes que isto não acontecia, pois
a situação de morador de rua já é muito
humilhante por si mesma.
Eram meados do outono e o frio começava
a chegar, lentamente, com seu chicote em
riste, o terror de todos os mendigos. De
repente, sentiu a ausência dos antigos
companheiros, que andavam em bandos para se
sentirem mais fortes. Agora, era ele só, ou
melhor, era “eu e Deus” como se habituou a
pensar. Não queria voltar para os antigos
companheiros por um motivo óbvio: com eles
certamente voltaria a beber e a usar drogas.
Se quisesse mudar para sempre, teria que ser
radical. Modificaria os hábitos nocivos,
arrumaria algum trabalho e, quem sabe,
formaria uma outra família... Este era seu

30
sonho no momento. Primeiro, o trabalho para
se reerguer e, com sorte, a família!
Pensando assim, sonhando acordado,
conseguiu conciliar o sono. Não se tratava
de um sono profundo, mas sim de um torpor
entre o frio, a tremedeira da abstinência e
o medo de ser reconhecido por alguém.
De repente, sentiu algo duro e forte a
ferir-lhe as costas num estrondo feroz, algo
que certamente teria rasgado suas carnes.
Vozes abafadas de homens raivosos que
começaram a falar, primeiro baixo e devagar,
mas depois alto, rápido e violento.
- Acorda vagabundo! – gritaram, ao mesmo
tempo em que um segundo golpe acertava-lhe a
cabeça, fazendo o sangue escorrer-lhe pelas
faces.
Felicidade e Esperança também apanharam
e saíram pelo meio da rua, sem destino,
ganindo. João ergueu a cabeça, mas não
conseguiu ver nada, pois o sangue ocultava
seus olhos com respingos grossos. Tentou
pela segunda vez ver quem o agredia, mas um
golpe forte acertou-o em cheio entre os
olhos e ele apagou. Tudo ficou escuro e
esquecido, como daquela vez em sonhos no
momento em que estatelara no chão.

* * *

Marta preparava o café enquanto João lia


os jornais. As crianças preparavam-se para
ir à escola, uniformizadas e felizes. Estava
próximo o natal e Marta queria saber se
comprariam uma árvore natural, um cipreste,

31
ou se usariam a mesma árvore que fora
montada no ano anterior.
- Acho melhor trocarmos tudo – disse
João.
- Bem, então vou encomendar uma ainda
hoje – respondeu Marta, feliz.
- Papai, o que vou ganhar de presente? –
perguntou Paulinho, o garoto de três anos, a
puxar-lhe a gravata.
- Algo maravilhoso!
- E eu? – perguntou Flávia, a garotinha
linda de cinco anos.
- Algo mais que maravilhoso!
- Eu também quero saber o que vou ganhar
– disse, por fim, Júlia, a garota mais
velha, de sete anos.
- Algo bem mais que grandioso!
Cada vez que respondia, João fazia
gestos grandiloqüentes com as mãos.
- Ah, assim não vale, papai! –
protestaram em coro todas as crianças.
- Bem, vão para o carro todos vocês, que
mamãe já vai levá-los.
João abraçou e beijou cada criança e
todos saíram rumo à escola. Por fim, foi a
esposa, Marta, que o abraçou e lhe deu um
beijo longo na boca, saindo em seguida, toda
atarefada.
Sim, era uma família feliz, muito feliz.

* * *

Era uma recordação viva, bem real,


situada entre o sonho e a realidade na mente
semiconsciente de João. Uma imitação de
sorriso estampava-se em sua boca fechada,

32
num misto de sofrimento e alegria. A cabeça
estava enfaixada, via-se um pouco de sangue
coagulado nas orelhas.
- Se a polícia não tivesse chegado a
tempo, eles iriam matá-lo! – disse um homem
de jaleco branco ao lado da cama.
- É, doutor. Já se tem idéia de quem
possa ter feito isto? – perguntou outro
médico, da mesma equipe.
- Alguns jovens baderneiros...
- É um absurdo fazer o que fizeram com
uma pessoa indefesa, como este mendigo...
- Sim, absolutamente inaceitável –
respondeu o outro médico, chefe da equipe
que cuidava de João.
- Ele vai sobreviver, doutor? –
perguntou uma estagiária.
- Acredito que sim, mas talvez fiquem
algumas seqüelas – respondeu o médico
responsável.
- É uma pena, pois se trata de um homem
ainda jovem... – respondeu a estagiária, que
anotava tudo numa prancheta.

33
IX

Após um mês, João teve alta do hospital.


Devido às pancadas na cabeça, ficou com todo
o lado esquerdo do corpo paralisado,
passando a se locomover com uma bengala, na
qual se apoiava para caminhar.
Ganhara a bengala da direção do
hospital, bem como uma calça jeans, uma
camisa branca, uma jaqueta e um par de
sapatos usados. João agradeceu aos médicos e
funcionários pelo tratamento recebido.
Aquele hospital, apesar de público, era um
lugar onde os pacientes eram tratados com
dignidade. Agradeceu especialmente à equipe
médica, pela bengala e pelas roupas que,
agora, o vestiam. Com as novas roupas e os
cabelos e a barba cortados, já não parecia
mais um mendigo. Agradeceu a Deus pelo fato
de estar vivo e com saúde, apesar da
dificuldade que tinha ao se locomover.
João tinha que recomeçar. “Mas por onde?
Meu Deus, dai-me uma luz!”, pensava,
enquanto caminhava a esmo à procura de
trabalho. Em uma loja, viu a plaqueta:
“Precisa-se de ajudante geral”. Seu sorriso
reacendeu no rosto sofrido, mas só até o
momento em que lhe disseram que “não podiam
empregar aleijados, pois o trabalho era
duro, tinha-se que carregar coisas
pesadas...”. João agradeceu, como sempre, e
saiu dali, pensando, como advogado atuante
que já fora um dia, que poderia processar
aquela empresa. Riu de si mesmo, pois já não
era mais aquele João do tempo em que

34
advogava e, muito menos, o João mendigo
bêbado e drogado. Jamais seria aquelas
pessoas novamente. Disso ele tinha certeza.
Voltou a caminhar pelas ruas centrais da
cidade. Lembrou-se de que suas mãos já não
tremiam mais. Embora a mão esquerda
estivesse inutilizada, a direita não tremia
com a falta de álcool e drogas. Os trinta
dias de hospital fizeram-no passar pela
síndrome da abstinência sem muitos
solavancos.
Viu, do outro lado de uma praça, uma
enorme biblioteca. Em cima do prédio em
estilo rococó, estava escrito: “Biblioteca
Municipal”. João resolveu entrar, pois
poderia ler alguns jornais e revistas e até
livros gratuitamente. Assim o fez, entrou e
sentou-se a uma mesa. Mal começou a ler um
jornal, uma funcionária o abordou:
- Senhor, preciso saber se tem o
cadastro da biblioteca...
- Cadastro? Não, não tenho...
- Então preciso de seu CPF, RG, três
fotos 3x4 e comprovante de residência para
fazer um.
- Só tenho o RG... - disse constrangido.
- E o comprovante de residência, as
fotos e o CPF?
- Só o RG. Sou morador de rua...
- Ah... entendo... Um mendigo... Um
mendigo que sabe ler...
João sentiu o sangue ferver. Fazia muito
tempo que não sentia raiva. Aquela mulher o
estava humilhando...
- Um ex-mendigo, estou tentando arrumar
um trabalho e sair das ruas...

35
- Ah, e aqui na biblioteca o senhor acha
que vai encontrar um trabalho? – perguntou a
mulher num tom de desprezo.
- Sim, lendo os jornais, talvez eu o
encontre...
- Lamento, mas...
Neste momento, um senhor distinto, que
ouvia toda a conversa, interferiu:
- Rose – disse para a mulher –, pode
deixar, faça o cadastro dele usando só o
RG...
- Tudo bem, já que o senhor quer
assim... – disse a funcionária, a
contragosto, pegando o RG de João para
elaborar o cadastro.
João sorriu para o homem, que retribuiu
o sorriso e, antes de afastar-se, apontou
uma plaqueta afixada na parede. João ergueu
os olhos e leu: “O Universo é um eco de
nossas ações e pensamentos”.
Minutos depois, Rose, a funcionária,
entregou-lhe o RG, dizendo-lhe que ele
poderia usufruir da biblioteca, desde que
zelasse por ela, mas que não poderia
fornecer a carteirinha por ele não ter as
fotos.
João sorriu amavelmente, dissipando a
raiva que havia sentido, e agradeceu.
Deste modo, começou a ler o jornal
tranquilamente, acreditando que uma enorme
porta começaria a se abrir para ele.
Agradeceu a Deus por isso. Desfilando os
olhos pela seção de empregos, observou que
todos pediam dois anos de experiência. Tinha
uma relativa experiência no ramo do Direito,
mas não estava de posse do diploma, pois

36
quando se separara da mulher, num acesso de
raiva, jogara o diploma num rio junto com
outros documentos, restando-lhe somente o
RG. Portanto, se quisesse militar em sua
área, teria que solicitar uma segunda via na
faculdade onde se formara. Essa faculdade
ficava em outra cidade e ir até lá para
conseguir o documento lhe custaria dinheiro.
Sentiu uma pontada de desânimo pela
loucura que fizera ao jogar o diploma no
rio, e pelo fato de não ter uma mísera moeda
para tomar um café. Resolveu recomeçar de
baixo, tentar algo para ir se arrumando aos
poucos, para poder comer, se vestir e dormir
em algum quarto alugado. Se conseguisse
isso, já seria uma vitória.
“Se você pensa que pode ou sonha que
pode, comece. Ousadia tem genialidade, poder
e mágica. Ouse fazer e o poder lhe será
dado”.
Este pensamento, de Goethe, que João leu
num canto do jornal, iluminou seu espírito.
Ao virar a página do jornal, uma foto
colorida chamou-lhe a atenção. Era uma foto
das colunas sociais. Nela, uma mulher muito
bonita e bem vestida, ao lado de um homem de
terno e gravata, ladeados por três crianças
igualmente lindas, sorriam como se
estivessem no próprio paraíso. Como título
da coluna estava escrito:
“CHÁ BENEFICENTE REÚNE A NATA DA
SOCIEDADE”.
Abaixo da foto, em letras menores, João
leu: “Dr.Stanislau, a bela esposa Marta e os
três lindos filhos: Paulinho, Flávia e
Júlia”.

37
Como se um prédio desabasse sobre ele,
assim sucedeu com João. Ficou alguns minutos
parado, olhos perdidos ao longe, fixos.
Grossos fios de lágrimas espocaram de seus
olhos, respingando sobre a foto de sua ex-
esposa, do ex-amigo e dos filhos estampados
no jornal. Um ressentimento atroz brotou em
seu peito, um misto de ciúme, ódio, inveja,
e compaixão por si mesmo. Fez um esforço
hercúleo para controlar a fúria e não sair
destruindo tudo: mesas, armários, estantes,
livros, revistas e jornais.
Olhou para os lados para ver se alguém o
estava observando e recortou aquela foto,
onde estava a imagem de sua querida família
de antes, de seus filhos e da esposa que
ainda amava. Saiu dali apressadamente,
mordendo os dentes, os olhos ainda anuviados
pelas lágrimas que salgavam a sua boca. Uma
angústia insuportável apossou-se dele,
semelhante àquela de quando sonhou que
pulara da ponte.
Teve um ímpeto medonho de entrar no
primeiro bar e beber, beber até anular-se.
Lembrou que não tinha um tostão sequer, e
isto o revoltou ainda mais. “Isto não é
vida, meu Deus!” Um pensamento mais louco
apossou-se dele, sugerindo-lhe que se
atirasse debaixo de algum carro, de algum
ônibus. Mas o tormento que sentira ao cair
da ponte durante o sonho anulou por completo
este intento. “Não. Isso não. Será que não
há outra solução? Meu Deus, não agüento mais
sofrer!”, pensou.
Aproximou-se de um banco de praça e
sentou-se. Era quase meio-dia. Tirou a foto

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amassada do bolso e a fitou. Passou as mãos
pelo rosto e pelos cabelos. Respirou fundo.
As lágrimas cessaram. Guardou a foto no
bolso. Alguns pombos comiam milho no chão e
as pessoas iam e vinham num afã desesperado
pela vida.

“É PRECISO SER O HERÓI DE SI MESMO,


ENFRENTAR SEUS MEDOS, ANGÚSTIAS, VENCER AS
FRAQUEZAS E NÃO TER MEDO DE ENCARAR SEU LADO
SOMBRA.”

“Meu Deus, é isto!”

39
X

A fome começou a apertar. Durante um


mês, se alimentara no hospital. A comida era
insossa, mas pelo menos o mantivera vivo.
Agora, precisava batalhar pela
sobrevivência, “ser o herói de si mesmo”,
crescer em todos os aspectos da vida.
12h46min. A fome nocauteia seu estômago.
Uma senhora distinta, bem vestida, lábios
vermelhos de batom, bem maquiada, magra,
cabelos nevados ao estilo chanel, senta-se
no banco com dois sacos de pipocas.
- Para você – disse a senhora,
estendendo um saco de pipocas para João.
- Ah, não, obrigado, muito obrigado! –
respondeu João, engolindo em seco.
- Olha, o orgulho mata, sabia? –
continuou a senhora. – Se não quiser, vou
jogar aos pombos...
- Neste caso... – constrangido, João
pegou as pipocas.
- Pode me chamar Órion – disse a
senhora, estendendo-lhe a mão.
- Prazer, João. Grato pelas pipocas.
- Nada! Adoro comer pipocas junto de
alguém.
João fazia um esforço enorme para comer
as pipocas devagar, educadamente. Encarou os
olhinhos azuis pálidos da senhora e
perguntou:
- Órion? Mas que nome diferente...
- Sim... papai era astrônomo e em
homenagem à grande constelação me colocou
este nome... Papai era um grande homem... o

40
mais sábio que já conheci... O que você faz,
meu rapaz, sentado perdido aqui neste banco?
Além de descansar, é claro – perguntou Órion
sorrindo, um dente dourado na boca.
- Eu!?... Bem, eu na verdade não faço
nada, procuro o que fazer, procuro pôr as
idéias em ordem...
- Bingo! – respondeu a velhinha. - Já é
um bom sinal.
João devorou seu saco de pipocas e
continuou com muita fome.
- Sabe de uma coisa? – falou a velhinha
amavelmente, encarando-o. – Papai, além de
sábio, era muito rico... na verdade,
riquíssimo!
- É... ganhou muito dinheiro com
astronomia?
A velhinha sorriu.
- Não, meu filho, não foi com
astronomia... Na verdade, ele era um
astrônomo amador.
- Ah sim... Com que então ele fez
fortuna?
- Na verdade ele não fez fortuna... Já
nasceu rico...
- Certo, herdou da família, que já era
rica.
- Pelo contrário, a família de papai foi
muito pobrezinha.
- Eu não compreendo...
- É simples, meu rapaz... Está tudo aqui
na cachola... – disse a velhinha, apontando
a cabeça e rindo.
- Sim, ele era inteligente e usou a
inteligência para ganhar dinheiro.

41
- Quase isto – meu filho –, quase isto!
Olha, eu tenho o segredo de como ele
conquistou tudo de bom na vida, aqui num
destes envelopes – Órion abriu a bolsinha
ricamente enfeitada que trazia, em couro
preto e dourado, e retirou dois envelopes.
- Aqui está! – disse, mostrando os
envelopes.
Um dos envelopes estava lacrado com cera
vermelha, no formato de um trevo de quatro
folhas. Nele, lia-se, impresso em baixo
relevo: “Amor Omnia Vincit”.
- “O amor vence tudo” – traduziu João a
inscrição em latim, pois como advogado havia
estudado essa língua.
O outro envelope estava mais grosso,
recheado, também lacrado com cera vermelha,
igual ao outro. Neste, lia-se, também em
latim: “Audaces Fortuna Juvat”.
- “A sorte ajuda os audazes” – traduziu
mais uma vez João.
- Pois então, meu jovem, só quem pode
captar o sentido profundo destas frases é
digno do envelope...
Houve um pequeno silêncio.
- Muito bem. Agora vamos ao meu
propósito, ou melhor, ao de papai. Antes de
partir, papai pediu que eu procurasse a
primeira pessoa abatida que encontrasse, e
oferecesse a ela a oportunidade de escolher.
Órion estendeu os dois envelopes para
que João escolhesse um. Só um. Disse que seu
pai, há muitos anos, teve também a
oportunidade de escolher. E agora, caso João
fizesse a escolha correta, como seu pai

42
havia feito, teria a oportunidade de ser
feliz e construir grande fortuna na vida.
João, perplexo, perguntou o que havia no
interior dos envelopes.
- Surpresa! – respondeu Órion. – Nem eu
sei o que tem dentro, só papai.
João olhou para os envelopes ainda
achando absurda a aparição de Órion e toda
aquela encenação. Em meio a tanto sofrimento
pelos quais passara e ainda estava passando,
não saberia diferenciar o que era loucura e
o que era realidade.
João agradeceu a Órion pelo saquinho de
pipocas e pela oportunidade que seu pai, por
meio dela, estava lhe proporcionando.
Respirou fundo, fechou os olhos e,
finalmente, pegou um envelope.

43
XI

- Abra! – ordenou Órion, fitando-o.


João olhou o envelope. Era aquele em
cujo selo estava escrito: “Amor Omnia
Vincit”.
João abriu o envelope e, perplexo, viu
que, no interior, só havia um pedaço de
papel branco, sem linhas, onde estava
escrito, a mão, o seguinte:

PEÇA TUDO A DEUS. ORE E TRABALHE. SEJA


O HERÓI DE SI MESMO.

- É muito bonito o que está escrito


aqui... – disse João, olhando para Órion. –
Até parece que já ouvi isso antes...
- O quê? – perguntou a velhinha, tirando
o papel das mãos de João. – Sim, é muito
bonito – continuou após ler. - E tem muita
profundidade o que está aqui.
Em silêncio, João se lembrou.
- Há algum problema? – perguntou a
velhinha, ao ver João entregue aos próprios
pensamentos.
- Não... é que... há um mês atrás eu
atentei contra a minha vida, mas foi tudo um
sonho...
- Ah bom! – exclamou Órion, aliviada.- E
aí...?
- Mas foi tão real! No sonho, antes que
eu pulasse da ponte, um homem de branco, que
conversava comigo, disse que, se eu
quisesse, poderia ser o herói de mim mesmo.

44
- Nossa, João! É mais ou menos o que
está aqui, não é mesmo? – disse a velhinha,
lendo novamente o papel. – Aqui diz
claramente: Seja o herói de si mesmo!
- Sim! É a mesma coisa – afirmou João.
- Bem... – disse a velhinha. – Agora, o
que será que tem neste outro envelope?
Órion abriu o outro envelope, aquele
onde se lia “Audaces Fortuna Juvat”. No
interior, para o assombro de ambos, havia
uma grande quantidade em dinheiro e uma
carta dirigida a Órion.
Órion pediu para que João contasse o
dinheiro. João contou e havia cem mil reais
em notas de cem. Órion desdobrou o bilhete e
o leu para que João ouvisse:
“Pague um almoço e um jantar para a
pessoa que pegou o outro envelope, e o
restante doe para uma instituição de
caridade”.
João pareceu desanimado... Acreditava
que havia escolhido o envelope errado. Bem
que poderia ter escolhido o outro! Teria
agora cem mil reais para recomeçar a vida
com um grande impulso!
“Realmente eu nasci para sofrer”,
pensou. “Que idiota eu sou, sempre fui,
enfim, sou um perdedor!”
- Bem, quanto vale um almoço e um
jantar? – perguntou Órion.
Vendo o desânimo estampado no semblante
de João, ela disse:
- Ei, rapaz, não fique assim... Existem
muitas coisas disfarçadas... que só
conseguimos perceber lá na frente!

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- Faz tempo que não almoço e muito menos
janto...
- Bem, então, fica assim, tome.
Órion tirou uma nota de cem reais do
envelope e a entregou a João, que agradeceu,
pois sabia que com aquele valor dava para se
almoçar e jantar algumas vezes, desde que
escolhesse um restaurante barato.
- Bem, preciso ir. Papai ficará
contente, pois fiz, finalmente, o que me
pediu. Ele partiu no mês passado, com
noventa e oito anos! Estava forte e lúcido
até o final. Só agora tive a oportunidade de
fazer o que me pediu. Você, João, me pareceu
ser a pessoa indicada.
Ela levantou-se, e eles se abraçaram.
Órion beijou-lhe a face e ele retribuiu.
João colocou o envelope no bolso, e a
velhinha sumiu no meio da multidão.
Esfomeado, saiu dali e foi procurar um
lugar para almoçar, coisa que não fazia há
muito tempo.
Achou um restaurante popular e entrou,
sentou-se à mesa e pediu o prato do dia:
arroz, feijão, salada de alface e tomate,
batatas fritas e bife acebolado. Para beber,
pediu um suco de laranja bem gelado.
Enquanto comia, pensou em como as coisas
simples da vida são as que trazem grande
satisfação: comer quando se está com fome,
saciar a sede quando se está sedento e...
amar, quando se tem alguém que nos ama.
Após comer, chamou o garçom, pediu um
cafezinho e a conta. Tomou o cafezinho e
sentiu uma vontade louca de fumar. Expulsou
esta idéia imediatamente, pois resolvera ser

46
o herói de si mesmo, descartando todos os
vícios. Pegou a conta que estava sobre a
mesa e olhou: nove reais e noventa centavos.
Bem, ainda teria noventa reais e dez
centavos para comer até que encontrasse uma
ocupação. Nada mal, Deus é bom. Fechou os
olhos e agradeceu por aquela refeição, a
mais saborosa dos últimos cinco anos!
Enfiou a mão no bolso da calça e pegou
aquela foto das colunas sociais. Seus olhos
marejaram e ele levou a foto dos filhos aos
lábios e a beijou, três vezes. Depois, pegou
a carta que tinha tirado das mãos de Órion e
releu o pedaço de papel escrito a mão,
várias vezes:

PEÇA TUDO A DEUS. ORE E TRABALHE. SEJA O


HERÓI DE SI MESMO.

“Sim, eu serei!” – pensou. – “Serei o


herói de mim mesmo, nem que seja a última
coisa que eu faça nesta vida!”
Guardou a foto e a carta no bolso, pagou
a conta e saiu do restaurante. Era preciso
achar um trabalho, algo que o sustentasse,
que lhe desse um lugar para dormir e as
bases para recomeçar.

47
XII

Enquanto caminhava pela cidade, pensou


no que teria acontecido caso tivesse
escolhido aquele envelope, onde havia cem
mil reais...
“Melhor nem pensar”, concluiu.
“O que tem que ser será!”
Nada melhor do que caminhar, mesmo com
bengala, com a barriga cheia, satisfeitas as
necessidades primárias.
Enquanto andava, ia lendo as plaquetas
dos estabelecimentos comerciais: “Precisa-se
de Costureiras”; “Precisa-se de Vendedores”;
“Precisa-se de Ajudante Geral”; “Precisa-se
de Faxineiros” etc.
Com o lado esquerdo do corpo paralisado,
seria difícil conseguir algo que demandasse
esforço físico. Teria que conseguir algo
mais técnico, que necessitasse mais do
intelecto que dos braços.
Pensando assim, entrou em uma loja que
precisava de vendedores. Foi informado de
que as vagas já tinham sido preenchidas e
que, além do mais, os candidatos precisariam
estar com a “saúde perfeita”. Em outra loja,
disseram-lhe o mesmo, com outras palavras; e
em outra e em outra... João sabia o que
“saúde perfeita” queria dizer. Mesmo assim,
agradecia, e saía com a cabeça erguida,
determinado a ser o “herói de si mesmo”.
A noite chegava junto com o frio.
Precisava achar um local para dormir, não
queria ficar nas ruas, pois tinha uma amarga

48
lembrança da última vez em que dormira sob
uma marquise.
“Mas onde, meu Deus, onde passarei esta
noite?”, pensou. Enquanto prosseguia, olhava
as plaquetas dos hotéis baratos. Havia
preços desde vinte e cinco reais até os mais
altos, de cinqüenta reais para pernoitar,
sem café da manhã.
Para João, os preços cobrados, naquela
situação, eram uma fortuna. Não sabia como e
quando acharia algo, um trabalho que lhe
garantisse ao menos o básico para
sobreviver. Teria que economizar ao máximo
aqueles noventa reais e dez centavos que lhe
restavam.
Foi então que teve uma idéia: passaria a
noite num velório da cidade, dormiria
sentado em uma cadeira qualquer. Ali ninguém
o incomodaria, passaria despercebido como
parente ou amigo de algum morto.
Chegou ao velório mais perto dali, na
parte central da cidade, e aproximou-se dos
caixões. Um de cada vez, discretamente, para
não dar na cara a sua intenção de apenas
estar ali para dormir. Em um caixão havia um
homem de meia-idade, deveria ter uns
cinqüenta e cinco anos, num outro, um homem
de uns setenta anos, e em outro, uma bonita
jovem de uns vinte anos.
“Para morrer basta estar vivo. No
cemitério há pessoas de todas as idades”,
pensou.
A um canto do velório, havia grande
movimentação de pessoas, com flashes de
máquinas fotográficas, luzes de câmeras de
tevê e muitos jornalistas. João se aproximou

49
e fez um grande esforço para furar a
multidão que ali estava, cercando a urna
funerária ricamente adornada, juntamente com
as muitas coroas de flores ali dispostas.
Ao olhar para o caixão, João teve um
calafrio. “Não, não é possível!”, pensou.
Tratava-se da velhinha, Órion, que jazia
na urna mortuária com uma expressão plácida
e feliz, de missão cumprida. Ao encará-la,
foi quase que cegado pelos flashes das
câmeras que espocavam por todos os lados, a
todo momento. Uma luz forte de refletor foi
acesa e João tentou tapar os olhos com o
braço.
- O senhor a conhece, tem algo a dizer
sobre ela? – perguntou uma jornalista loura,
bonita, de uma grande emissora de TV, que
quase introduziu o microfone em sua boca.
- Conheço, conversei com ela esta
manhã... – respondeu João.
- Como? Esta manhã? O senhor tem
certeza? – novamente perguntou a jornalista
com grande afã, espremidos que estavam pela
multidão.
- Sim, Órion me deu um envelope, quer
dizer, pediu que eu escolhesse entre dois
envelopes...
- Este cara é louco, tirem ele daqui! –
gritou um jovem engravatado que ouvia tudo
em silêncio.
João foi arrastado por dois homens de
terno e gravata, que mais pareciam dois
gorilas de zoológico. Empurraram-no para
fora e, em seguida, jogaram em sua cabeça a
bengala.

50
- Meu Deus, as pessoas não têm mais
respeito nem por aleijados! – disse a
jornalista que correra para acudi-lo,
erguendo-o pelos braços. – O senhor está
bem?
- Estou! – respondeu João, pegando a
bengala e passando as mãos pela roupa, para
sacudir a sujeira.
- Por favor, me acompanhe, preciso
conversar com o senhor... – convidou a
jornalista, cortando a multidão que
aumentara significativamente.
Acharam duas cadeiras ao fundo e
sentaram-se. A jornalista perguntou a João
se tinha certeza de que a senhora Constância
de Guignard, este era o seu verdadeiro nome,
conversara com ele aquela manhã. Ele disse
que sim, que ela se apresentara como senhora
Órion, e dera-lhe dois envelopes para que
escolhesse um, pois assim pedira seu pai
antes de falecer. Para provar, João tirou o
envelope do bolso e o mostrou à jornalista,
que o leu intrigada. Ela deu-lhe seu cartão
e perguntou onde ele morava, pois pretendia
ouvir a sua história. Ao saber que ele era
um ex-morador de rua, ex-advogado bem-
sucedido, a jornalista interessou-se mais
ainda por entrevistá-lo.
- Ah, deixe me apresentar, sou Aymara, e
posso conseguir algum dinheiro por sua
história...
- Verdade?
- Sim, verdade. Diga-me – prosseguiu
Aymara -, onde vai passar esta noite?
- Aqui!
- Aqui, onde?

51
- Neste Velório...
Aymara riu desbragadamente. As pessoas
voltaram-se para ela com ares de censura.
- Ah, meu Deus, esqueci onde estou...
Mas, João, você não existe, não é deste
mundo! – disse Aymara, agora controlando o
riso.
- Tome, dá para dormir em algum local
melhor... – disse Aymara, abrindo a bolsa e
dando-lhe cem reais.
- Não posso aceitar!
- Não seja orgulhoso! – considere como
parte do pagamento por sua história, sim?
- Se for assim, tudo bem!
- Combinado então! Me ligue amanhã para
combinarmos o encontro, sim? Agora tenho
muito que fazer – completou a jornalista,
correndo em direção ao local onde estava o
caixão de Órion, ou Constância de Guignard.

52
XIII

Ao acordar, João não tinha a noção da


proporção do que estava acontecendo. Dormira
num hotel barato, a vinte e cinco reais o
pernoite. O hotel era mal afamado,
freqüentado por prostitutas, travestis e
punguistas em geral.
Apesar disso, agradeceu aos céus por
aquela cama suja, mas macia, onde pôde
dormir sem medo de ser agredido. Agradeceu
também pelo dinheiro que Aymara lhe dera,
pois assim teria mais refeições, e mais
tempo e tranqüilidade para procurar um
emprego.
Saiu do hotel e procurou um local para o
desjejum matinal. Entrou em uma padaria e
pediu um copo de café com leite e pão com
manteiga esquentado na chapa. Satisfeito,
tirou o cartão da jornalista do bolso da
camisa e leu: Aymara S. Cohen, jornalista,
redatora-chefe da TV...Fone...
“Humm, esta menina não é fraca não...”
pensou, enquanto se dirigia ao caixa para
pagar a conta e comprar fichas de telefone.
Dirigiu-se a um orelhão do outro lado da
rua e discou. Eram dez da manhã.
- Aymara, jornalista, pois não? –
atendeu do outro lado, com uma voz ainda
sonolenta.
- Aqui é o João, lembra?
- João!?... Ah, sim, me perdoe... Tudo
bem com você?
- Caminhando... Então, liguei porque
você pediu...

53
- Certo, onde você está agora?
- Aqui no centro, defronte à padaria
N...
- Ok, me espere aí. Não demoro muito.
Vamos almoçar juntos...
- Então estou aguardando...
- Em trinta minutos, estarei aí!
- Combinado!
Quando Aymara chegou, eram onze horas.
Pediu desculpas a João, justificando o
atraso: teve que passar na emissora de TV.
João disse-lhe para não se preocupar.
Entraram no carro da emissora e, meia hora
depois, estavam em um fino restaurante da
cidade.
Acompanhados pelo garçom, sentaram-se em
uma mesa ao fundo, iluminada sutilmente,
quase uma penumbra.
- Eu sempre sento aqui nesta mesa –
disse Aymara.
Aymara pediu um suco de laranja e João
decidiu pedir o mesmo. O prato, João pediu
para que Aymara o escolhesse.
- Mário, nos sirva daqui a uma hora,
tudo bem? – falou Aymara, dirigindo-se ao
garçom.
- Tudo bem! E qual será o prato, madame?
- Estrogonofe, no capricho!
O garçom fez uma mesura, inclinando-se,
e saiu todo apressado.
- Ainda é cedo – disse Aymara, olhando
para o relógio. – Até ficar pronto, a gente
conversa...
Aymara ligou um mini gravador, colocou-o
sobre a mesa e pediu para que João contasse
sua história desde o começo, o motivo de ele

54
virar um morador de rua, e os fatos
principais de sua vida até a noite anterior,
no velório da senhora Constância. Quando
João disse que havia visto a sra. Órion na
manhã anterior, num banco de praça, onde
conversaram e onde ela pedira para que
optasse entre um dos envelopes, houve
silêncio.
- Você tem certeza de que a viu ontem de
manhã? – perguntou Aymara, intrigada.
- Bem... – respondeu João pensativo. –
Não era bem de manhã, passava um pouco do
meio dia.
- Isto não muda nada! Melhor, muda tudo!
- Não estou entendendo.
- Você sabe a que horas a senhora
Constância, ou Órion, morreu?
João balançou a cabeça negativamente.
- Pois é... se segura então! Ela faleceu
às seis horas da manhã de ontem...
- Não acredito! Não pode ser...
- Então como ela pôde aparecer a mim,
oferecer pipoca e fazer com que eu
escolhesse um dos envelopes?
- Não sei, é um mistério. Só se for uma
pessoa muito parecida com ela...
- Impossível!
Houve um breve silêncio que foi quebrado
por João:
- Aymara, diga-me, quem era a senhora
Constância?
- Uma mulher muito rica, dona de um
verdadeiro império econômico... Ela era a
acionista maior de um grupo que tem
indústrias, lojas, fazendas etc. Sua família
emigrou para o Brasil, vindo da França,

55
quando ela era ainda uma criança. Seu pai
era muito pobre, e fez fortuna por aqui.
- É verdade, antes de me fazer escolher
um dos envelopes, ela disse que seu pai era
pobre e que o segredo da sua fortuna e
felicidade estava num deles.
Aymara pediu para olhar novamente o
envelope que ele escolhera. Ela leu,
primeiro, o selo de cera, soletrando: “Amor
Omnia Vincit”, “O amor vence tudo”.
Depois, abriu o envelope, pegou o papel
e leu, soletrando:

PEÇA TUDO A DEUS. ORE E TRABALHE. SEJA O


HERÓI DE SI MESMO.

Após um momento, ela perguntou:


- Você disse que havia dois envelopes?
- Sim...
- E o que estava escrito no outro?
- Por fora, no selo de cera, “Audaces
Fortuna Juvat”. Estava cheio de dinheiro,
cem mil reais em notas de cem.
- “A sorte ajuda os audazes”. Bem,
acredito que você pegou o envelope certo!
- O que quer dizer?
- Se houver algum segredo da fortuna e
da felicidade, ele está no envelope que você
tirou... Que segredo pode haver no outro
envelope, em cem mil reais? Nada, nenhum,
pense bem... Está na cara que a sorte ajuda
os audazes.
- Pode ser!
- “Amor Omnia Vincit” – disse Ayamara. –
Meu Deus, esta frase é muito profunda! E

56
seja o “herói de si mesmo”, também não fica
atrás...
Conversaram mais um pouco e, na hora
acertada, o almoço foi servido. João comeu
galhardamente, como há muito tempo não
fazia. Ao terminarem, Aymara pagou a conta e
saíram. A jornalista deixou João próximo ao
hotel onde passara a noite e disse para ele
telefonar no dia seguinte, pois iria tentar
“vender” sua história ao dono da TV, o que
lhe garantiria um bom dinheiro...
Despediram-se com um abraço, João
agradeceu pelo almoço e por tudo que Aymara
estava fazendo por ele.

57
XIV

João passou a tarde toda perambulando


pela cidade à procura de trabalho. Nada,
ninguém queria dar trabalho para alguém
diferente, um ex-morador de rua com um lado
do corpo paralisado.
Resolveu voltar para o hotel. Estava
exausto e passaria a noite ali. Havia um
chuveiro no banheiro do quarto e um bom
banho seria ótimo àquela altura. Gastaria
mais vinte e cinco reais, mas acalmou-se ao
pensar que Aymara poderia lhe trazer mais
dinheiro com a venda de sua história. Feliz
com este pensamento, entrou na padaria e
comprou seis pães e um tablete de manteiga.
Ao menos economizaria no jantar.
Já no quarto, comendo pão com manteiga
como se fosse um banquete, sentiu saudades
de Felicidade e Esperança. “Onde andariam
eles, estariam vivos ainda?”. Lembrou-se do
dia em que fora espancado, os cachorrinhos
também apanharam e saíram ganindo pela
escuridão. Deveriam ter voltado ao terreno
baldio, para junto dos ex-companheiros
mendigos. “Tomara que isto realmente tenha
acontecido”.
Após comer, João tomou banho. Como não
tinha toalha, ficou se esfregando com as
mãos, nu, até que seu corpo secasse. Em
seguida, vestiu seu calção e deitou-se sob
as cobertas, pois estava no finalzinho de
maio e o frio chegava de mansinho. Ao lado
da cama, havia um criado-mudo e João abriu a
gavetinha. Havia algumas páginas esparsas de

58
uma revista pornográfica e uma minibíblia,
toda suja e amarfanhada. Pegou aquela bíblia
e a abriu aleatoriamente. Colocou o dedo em
um versículo, e leu:
“O senhor, que ama a prosperidade de seu
servo, seja engrandecido”. (Salmos 35:27)
Pôs de novo a bíblia na gaveta, apagou a
luz e ficou quieto na escuridão total. Nunca
fora religioso, nunca lera a bíblia, aquela
fora a primeira vez que abria uma. “A vida é
estranha, coisas inesperadas acontecem. Era
para eu estar morto e enterrado”, pensou.
Lembrou-se dos filhos, da ex-mulher, do
ex-amigo e agradeceu por eles existirem,
pedindo perdão a eles em pensamento, por
tudo de mal que lhes desejara um dia. Vibrou
para que eles fossem muito felizes, pois a
felicidade deles seria a sua felicidade.
A noite caiu como desce o véu escuro da
solidão. João dormiu profundamente, e não se
lembrou dos sonhos.
Ao acordar, lavou o rosto, vestiu-se e
comeu pão com manteiga.
Às onze horas, foi a um orelhão e
telefonou para Aymara. Esta o atendeu, e
disse que contou a seu chefe toda a sua
história, mas que ele a achou impublicável,
pois envolvia a família da senhora
Constância, cujas empresas investiam altas
somas em publicidade na TV... Portanto, com
a história vindo a público eles poderiam
perder as verbas de publicidade, além do que
achava a história dele muito inverossímil e
fantasiosa. Disse-lhe que não ligasse para o
que o seu chefe dissera, e que ela lamentava
muito... Disse também que ele não precisava

59
devolver os cem reais, que lhe adiantara
pela história.
Bem, a vida é assim, nem tudo acontece
como esperamos. João agradeceu pelo empenho
de Aymara, pelo almoço do dia anterior e por
tudo o mais. Aymara pediu que ele ligasse
sempre que desejasse, que seria muito bom se
pudessem manter aquele contato. João se
despediu, dizendo que assim o faria.
João largou o fone e saiu para
espairecer, olhando as plaquetas das lojas e
empresas que encontrava pela frente. Uma
plaqueta chamou-lhe a atenção. Ficava em um
prédio simples e antigo, sobre uma porta
onde se iniciava uma longa escadaria.
João leu o que havia na placa: “O
Cenáculo da Verdade”.
Embaixo desta frase, em letras menores,
ele leu:
“Que todos os seres sejam felizes; que
todos os seres alcancem a paz!”
João subiu as longas escadarias, e ao
chegar ao final avistou um corredor
comprido, com salas de ambos os lados. Sobre
a sala número vinte e um, lia-se: “O
Cenáculo da Verdade”. Na porta, que estava
fechada, estava escrito: “Entre sem bater”.
João abriu a maçaneta e entrou.
Era uma sala de dez metros quadrados,
uma janela ao fundo, uma mesa, uma lousa
móvel e quatro fileiras de cadeiras. Um
homem em pé, à frente da mesa, palestrava.
Umas vinte pessoas estavam ali, sentadas, e
João sentou-se também, discretamente, na
última cadeira da fileira do corredor.

60
- Aproxime-se! – disse o senhor que
estava à frente, dirigindo-se a João.
João aproximou-se e sentou mais à
frente, na terceira cadeira da mesma fileira
onde estava. As pessoas viraram a cabeça
para vê-lo melhor.
O homem que palestrava tinha quarenta e
sete anos, cabelos curtos, olhos castanhos.
Usava óculos e tinha bigode e cavanhaque.
Trajava um blazer cinza sobre uma camisa
azul clara, calça de sarja bege, sapatos
marrons.
- Meu nome é Hermes, posso saber o seu?
- João.
- Seja bem-vindo, João, aqui ao nosso
Cenáculo da Verdade!
Todos que estavam ali se apresentaram,
um a um, para que João os conhecesse. Havia
homens e mulheres, pessoas de todas as
classes sociais. Alguns João reconheceu como
ex-moradores de rua, como ele fora um dia.
- Por que Cenáculo da Verdade? –
prosseguiu o palestrante. – Porque aqui cada
um encontra a verdade dentro de si mesmo,
sem dogmas, sem fanatismos. Somos ecléticos
e respeitamos todas as religiões e
filosofias. O Cenáculo é universalista, e
aprendemos com todos os mestres do passado e
do presente, inclusive com os cientistas.
Também usamos em nossos rituais a bebida
sagrada Ayahuasca, que desperta Deus em nós.
Nossa missão? A reconexão com Deus ou
Universo, a origem de tudo. Para isso, temos
que reconstruir o homem, fazê-lo ter contato
com a origem, para que ele possa descer
novamente em nosso mundo, tomar o seu fardo

61
e espalhar a compaixão e o amor por todos os
seres...
Assim, o palestrante prosseguiu por mais
uma hora, falando da vida, dos problemas
inerentes a ela e das soluções possíveis
para que o homem encontre, finalmente, a
felicidade a que estava destinado.
- Então, meus amigos, irmãos e irmãs,
nos veremos na fazenda, tudo bem?
- Tudo bem! – responderam todos, menos
João, em uníssono.
Ao terminar, todos foram cumprimentar
Hermes, que era muito querido. Quando a sala
estava totalmente vazia, Hermes aproximou-se
de João, que ainda estava sentado e, dando-
lhe um forte abraço, disse:
- Meu irmão João! É muito bom você estar
aqui!
João contou sua história, e Hermes
também contou a dele. Falou de como se
envolvera com o crime, o álcool, as drogas e
de como sua vida tinha chegado próximo da
loucura, quando chegou a pensar em dar cabo
de tudo.
- Vê, meu irmão, como nossas histórias
são semelhantes? – disse Hermes. – Somos
feitos todos, ricos e pobres, saudáveis e
doentes, feios e bonitos, todos somos feitos
do mesmo barro...
Ao saber que João procurava trabalho,
Hermes disse-lhe que poderia trabalhar na
fazenda do Cenáculo da Verdade, ajudando aos
outros iguais a ele a se recuperarem das
drogas, do álcool, e da loucura. Disse-lhe
que teria roupas, sapatos, cama quentinha,
amor, e comida para o corpo e o espírito.

62
Não teria salário. Mas Hermes lhe disse que,
quando reencontramos Deus, tudo o mais será
acrescentado.
- Vou tentar – disse João. - E quando
posso começar?
- Hoje mesmo! Pois só somos donos do
agora – acrescentou Hermes. – Ontem já foi,
e o amanhã não pertence a nós.

63
XV

João dormiu na sala do Cenáculo naquela


noite. Pela manhã, por volta das seis horas,
Hermes chegou para irem à fazenda. Subiram
na Van umas dez pessoas além de João. Hermes
deu a partida e, uma hora depois, já
chegavam ao local.
À entrada da fazenda, pendurada, havia
uma placa em madeira entalhada, onde se lia:
“Fazenda-Colônia Cenáculo da Verdade”. Era
uma fazenda de cem alqueires, cercada por
montanhas e planícies. Havia muita mata
virgem, rios, cachoeiras, lagos e animais
silvestres. Tudo ali era respeitado, cada
animal, cada árvore, cada ser vivente,
sementes do Criador.
Desceram da Van e foram para a sede, uma
casa simples de quatro cômodos. Perto da
casa, havia um salão grande, de uns
trezentos metros quadrados, construído com
madeiras nativas. Dois galpões, também muito
simples, afastados do salão, serviam como
dormitórios. Em cada um deles, havia camas
rústicas enfileiradas, quinze beliches de
cada lado. Um dormitório era masculino e o
outro, feminino.
Hermes sentou-se à mesa da sala da casa
sede, e pediu para que João e os outros
homens se sentassem nas cadeiras à sua
frente, para explicar o funcionamento da
fazenda.
Disse-lhes que se levantavam às cinco
horas da manhã, todos os dias, menos aos
domingos, que era de folga para todos. Ao

64
acordar, faziam o desjejum todos juntos no
salão, praticavam meditação por uma hora e,
em seguida, faziam meia hora de exercícios
físicos, entre os quais caminhadas e
corridas pela fazenda. Depois tomavam banho
frio, que era para “fazer o sangue circular”
e, por volta das sete horas, iam para os
trabalhos na horta e na lavoura. Ao meio-
dia, paravam para o almoço, que também era
realizado no salão. A uma e meia da tarde,
voltavam para o trabalho que se encerrava às
cinco horas. Tomavam banho frio, e às seis
horas voltavam para o salão, onde jantavam
todos juntos. Após o jantar, aqueles que não
tinham ensino fundamental ou médio eram
levados até a cidade para concluírem estes
cursos. Os demais iam para a casa sede, onde
há uma biblioteca, ou então se dirigiam ao
salão, para as aulas que eram oferecidas. As
mulheres aprendiam a costurar, a cozinhar, a
serem boas esposas e a educar os filhos. Os
homens aprendiam marcenaria, agricultura
orgânica e formas de serem bons pais e de
educar os filhos. Depois todos, homens e
mulheres, tinham aulas de Literatura,
Pintura, Filosofia, Informática, História do
Brasil e Universal, Matemática, Economia,
formação política para a cidadania e de
estudo das religiões. A noite era encerrada
pela meditação coletiva no salão, e às vinte
e três e trinta, impreterivelmente todos,
inclusive os que foram estudar na cidade,
deveriam estar em seus dormitórios. Aos
sábados à tarde, havia um baile no salão que
era encerrado às dez da noite quando, alguns
voluntários, iam para o centro da cidade

65
para a distribuição de sopas e lanches aos
moradores de rua. Aqueles que quisessem eram
incentivados a virem para a fazenda, onde
teriam a oportunidade de se livrarem do
vício e resgatarem a sua dignidade de ser
humano. Os vícios como o do álcool, fumo e
drogas eram proibidos na fazenda. Ninguém
era obrigado a permanecer ali, e poderiam ir
embora quando quisessem. Os que saíssem e
quisessem voltar poderiam fazê-lo. As aulas
eram dadas por professores voluntários que
vinham da cidade. Uma vez por mês, faziam a
reunião naquela sala do Cenáculo do centro
da cidade, onde compareciam os moradores de
rua e outros interessados em virem para a
fazenda, aprenderem conosco a ser mais
felizes. Duas vezes ao mês, faziam o ritual
com a bebida indígena Ayahuasca, para o
autoconhecimento e a desintoxicação do
organismo e a conexão com Deus e/ou
Universo.
- Por fim – concluiu Hermes, dirigindo-
se a João –, o Cenáculo é uma instituição
religiosa sem dogmas e sem fins lucrativos.
- Estou achando maravilhosa a proposta!
– respondeu João. – Nunca vi nada igual!
- Aqui ninguém paga nada, aceitamos
moradores de rua, prostitutas, ex-marginais,
viciados em todos os tipos de drogas, filhos
e filhas de papai, entediados com tanto
dinheiro, suicidas em potencial, enfim, os
“náufragos da vida”.
Houve um silêncio. João e todos os
outros tentavam absorver todas as
informações.

66
- Hoje vocês apenas conhecerão a fazenda
e seus moradores. Tudo que consumimos aqui,
a maior parte, é produzida por nós mesmos.
Alguns ex-moradores daqui, que se tornaram
pessoas bem-sucedidas no mundo dos negócios,
acabam fazendo doações mensais, dinheiro que
usamos para pagar médicos especialistas,
comprar material didático como livros,
computadores, cadernos e também roupas,
calçados etc.
- E caso um dia eu queira sair, não vai
haver problema? – perguntou João.
- Nenhum problema, você vem para cá
quando quiser e vai embora quando quiser.
Enquanto estiver aqui, é só seguir a
disciplina da casa e tudo sairá bem.
- Me parece muito bom, justo.
- Ah, tem uma coisa: só vem para cá quem
REALMENTE quer melhorar em todos os
aspectos, quem quer parar de sofrer com
qualquer coisa que seja. Vocês podem
perguntar o que nos faz sofrer e eu lhes
digo que é a vaidade, a ilusão, o apego, as
paixões como o ódio, a mágoa, os
ressentimentos, os vícios etc.
- Eu que o diga! – respondeu João.
- Nunca se esqueçam – concluiu Hermes. A
vaidade traz a ilusão, esta provoca e
desilusão, e a desilusão é a mãe do
sofrimento e da dor.
Levantaram-se todos, e Hermes levou-os
para conhecerem a fazenda e seus moradores.

67
XVI

“Que todos os seres sejam felizes; que


todos os seres alcancem a paz!”
Era a inscrição bem no alto da porta de
entrada do salão. Neste salão, que também
funcionava como templo, se realizavam os
rituais com a Ayahuasca. Três dias após ter
chegado, João comungou da bebida sagrada.
Fora a experiência mais marcante de sua
vida, com recordações e insights que levou
um bom tempo para assimilar. Fez também a
famosa “limpeza” de seu corpo físico,
mental, emocional e espiritual. Seus canais
foram desbloqueados, a sua aura totalmente
limpa. Alguns dos viciados que ali chegavam,
após uma primeira sessão com o chá, deixavam
totalmente as drogas. Pessoas, que haviam
tentado de tudo, com a bebida sagrada
ficavam limpas de todas as drogas.
Algumas pessoas que estavam ali já lhe
eram conhecidas, pois eram moradores de rua
como ele mesmo fora, por longos cinco anos;
outros, a maioria, desconhecia por completo.
No início, fora-lhe difícil se adaptar à
rotina da fazenda, mas, pouco a pouco, foi
se acostumando ao banho frio, mesmo nos dias
mais gelados de junho, à meditação e ao
trabalho na horta. Mas o que mais gostava
mesmo era das aulas de Literatura que o
próprio Hermes ministrava à noite.
Uma noite, depois que ganhara um caderno
e um lápis de Hermes, João começou a
rascunhar a sua história, suas percepções
como morador de rua. A princípio, quando

68
Hermes percebeu que João estava escrevendo a
sua autobiografia, resolvera que ele podia
terminar o trabalho na horta duas horas mais
cedo, dando-lhe tempo para escrever, antes
que fosse para as aulas do salão.
Para João, fora um presente. Ele
agradeceu e empenhou-se o mais que pôde em
recordar a sua vida e pô-la no papel.
Nas noites de sábado, João e mais alguns
irmãos e irmãs do Cenáculo iam até a cidade
para a distribuição de sopas e lanches aos
moradores de rua. Hermes, para este
trabalho, gostava de levar quem já morara
nas ruas como João, pois ao ver que as
pessoas mudavam, alguns daqueles mendigos
sentiam que podiam mudar também, pelo
exemplo. E, quando manifestavam desejos de
mudar, Hermes os convidava para a fazenda,
para que pudessem curar o corpo, a mente e o
espírito. Alguns, não muitos, realmente
vinham para a fazenda, se recuperavam, mas
outros, nem queriam saber. Muitos vinham e,
saciada a fome e sede, voltavam aos vícios e
às ruas. A maioria, não suportando a
abstinência das drogas, voltava para o
vício. Aqueles que conseguiam se recuperar
recebiam do Cenáculo um título, em forma de
uma medalha de ouro, onde se lia: “Herói de
Si Mesmo”.
João, como chegou à fazenda praticamente
sem vícios, pois graças ao sonho resolvera
mudar, ser o herói de si mesmo, também
recebeu a medalha e a ostentava no pescoço,
principalmente, quando saía às ruas para
distribuição de sopas.

69
Certa tarde, na biblioteca, enquanto
escrevia sua história no caderno, viu uma
pessoa a colocar um quadro na parede. Aquilo
chamou-lhe a atenção. Aproximou-se, e
começou a admirar a tela, que fora pintada
por um hábil pintor. Perguntou à moça que
pendurava a tela quem era aquela pessoa, e
quem a havia pintado. A moça respondeu que
não sabia quem era e nem quem a pintara, mas
que se tratava de um óleo muito bonito.
Disse também que foi o senhor Hermes quem
mandara pendurar.
Para João, não havia dúvida: tratava-se
de Órion ou Constância, aquela velhinha que
o fizera escolher um dos envelopes naquela
manhã na praça da cidade. “Mas por que o seu
retrato fora parar ali?”, pensava consigo
mesmo.
Na manhã seguinte, um pouco antes da
meditação, João interpelou Hermes:
- Você pode me dizer uma coisa?
- Claro. Prossiga.
- De quem é aquele retrato na parede da
biblioteca e porque ele foi afixado ali?
- Ah João... Esta é uma longa
história...
Hermes explicou que aquele retrato fora
pintado por um ex-alcoólatra, que residiu na
fazenda durante alguns anos e que,
agradecido, fizera o retrato daquela que o
ajudara. Tratava-se da senhora Constância de
Guignard, uma das mulheres mais ricas do
Brasil, dona de um enorme coração cheio de
amor. Ela não gostava que falassem muito
dela, gostava de agir às escondidas e,
apesar de ser uma pessoa de posses, era a

70
alma mais desapegada que já conhecera. Uma
espécie de Jó de saias. Não permitia que
colocássemos nem um quadro dela enquanto
fosse viva. Falecera recentemente, e como
dizia que, após a sua morte, não “poderia
apitar nada”, resolvi fazer-lhe uma sincera
homenagem, colocando a tela que você viu na
biblioteca.
- Além do mais – prosseguiu Hermes -,
esta fazenda existe somente porque ela era
totalmente desapegada. João, meu irmão, esta
enorme fazenda foi um presente da senhora
Constância ao Cenáculo, ao trabalho de
resgate que fazemos com as pessoas. Até
hoje, eu não sei quanto ela pagou, mas
acredito que foi uma pequena fortuna...
João contou do seu encontro na praça com
a senhora Constância, dos envelopes e de
como sua vida começara a mudar desde então.
- Só uma coisa eu não entendi até
hoje...
- O quê? – perguntou Hermes, curioso.
- É que ela se apresentou a mim como
senhora Órion... e, pelo que eu fiquei
sabendo, quando nos encontramos na praça,
por volta das 12h30min, ela já estava morta
há algumas horas...
- Ah, entendi! Realmente ela morreu às
seis horas da manhã! Pessoas como a senhora
Constância não morrem, simplesmente fazem a
“passagem”... Mas não se preocupe com isso,
João. Ela era uma pessoa reservada e este
nome, certamente, era o seu nome “de
guerra”.
- Nome de guerra?

71
- Sim, existem algumas sociedades que
não aparecem ao mundo, estão escondidas,
entende? Isto acontece porque o mundo não
está preparado para conhecê-las... Eles
conhecem muitos segredos... principalmente
os da vida e da morte...
- Sociedades secretas você quer dizer?
- Sim. Certamente Órion era o nome da
senhora Constância em alguma sociedade
destas... E antes de partir para o outro
lado apareceu a você, porque tinha coisas a
fazer ainda... Mas isto não é importante. O
importante é o que ela deixou como obra,
como um rastro de amor, paz e felicidade por
onde passou... A memória dela estará para
sempre gravada com o fogo do amor no coração
de todos aqueles que ela ajudou a resgatar
da dor, do “inferno” que as pessoas criam
para si mesmas e, depois, não conseguem sair
sozinhas...
- É verdade... O inferno que o ego cria,
que nos prende como uma teia. Uma vez
enredados nela, o preço é a dor e o
sofrimento.
- Perfeitamente, João. E digo mais: “O
ego é o pai da dor e do sofrimento”.
Ao concluir a conversa, João mostrou a
Hermes o envelope que retirou das mãos de
Órion. Hermes pegou o pedaço de papel, e leu
a inscrição feita à mão:

PEÇA TUDO A DEUS. ORE E TRABALHE. SEJA O


HERÓI DE SI MESMO.

72
- Meu Deus! – exclamou Hermes. – Aqui
está a filosofia do Cenáculo, e toda a obra
da senhora Órion.
Conversaram mais um pouco e logo em
seguida João foi para o trabalho na horta
orgânica, cujas verduras e legumes
enriqueciam as refeições do Cenáculo.

73
XVII

Após três meses na fazenda, num domingo


pela manhã, quando João ainda dormia, Hermes
veio acordá-lo.
- João, há uma pessoa querendo falar com
você. Está lá na biblioteca da casa sede.
João lavou o rosto e vestiu-se com a
melhor roupa que tinha, doação da fazenda:
sapato social preto, meias brancas, camisa
azul, calça de sarja bege e um blazer cinza.
Uma mulher elegante, trajando um belo
vestido até os joelhos, o aguardava. Três
crianças, duas meninas e um menino, estavam
com ela. As meninas trajavam vestidos
sóbrios, mas com estampas alegres, e o
menino calçava sapatos pretos, vestia camisa
branca e calça social azul-marinho, seguras
por suspensórios.
- João? É você mesmo?!
- Marta!
A ex-mulher correu para abraçá-lo, bem
como os três filhos. Hermes, que até então
observava a cena, saiu e fechou a porta,
deixando-os a sós. Sorrisos e lágrimas,
dores e alegrias de uma saudade imensa,
forte e antiga.
João abaixou-se um pouco e abraçou
carinhosamente o menino, que agora estava
com oito anos.
- Ah, você deve ser o Paulinho! Meu
Deus, como está forte e crescidinho, hein! A
cara do pai, os mesmos olhos castanhos, o
mesmo nariz!

74
Em seguida, abraçou a filha Flávia, que
estava com dez anos.
- Você é a Flávia. Meu Deus, que moça
linda! Os olhos azuis e os cabelos loiros da
mãe, hein! – disse sorrindo, encarando
Marta. - Quer casar comigo? – brincou,
sorrindo.
Júlia, que agora tinha doze anos, já era
quase da altura do pai.
- E esta aqui com certeza é Júlia! Que
olhos pretos enigmáticos são estes, hein?! E
que cabelos negros! Parecem de piche, hein?!
E esta boquinha perfeita, hein?! Quer casar
comigo?!
- Papai – respondeu Júlia -, você já
disse que quer se casar com a Flávia!
Todos riram. João não se cansava de
abraçá-los, de beijá-los, de apertar as suas
bochechas, mimando-os. Como estava
paralisado do lado esquerdo, abraçava-os
usando somente o braço direito.
- O que aconteceu com o seu braço
esquerdo, papai? – perguntou Paulinho,
preocupado.
- Ah, esta é uma longa história
Paulinho, depois mamãe te conta, agora não,
agora é só alegria...
- Ouvi dizer que você virou escritor! –
disse Marta entusiasmada.
- Escritor? Eu?! Quem disse esta
“mentira”, hein?! Apenas estou rabiscando
alguma coisa sobre mim, mais nada...
- Não importa. Quando terminar, quero
ser a primeira a ler. Você promete?
João fez uma careta, olhou para cima,
como se estivesse em dúvida, e acrescentou:

75
- Hum... não sei, vamos ver!
- Eu também quero ler, papai! – disse
Júlia.
- Eu também! – repetiram em coro,
simultaneamente, Paulinho e Flávia.
- Está vendo, João? Você já tem quatro
leitores em potencial! – disse Marta,
estimulando-o a prosseguir.
Houve um pequeno silêncio.
- Diga-me – falou João, dirigindo-se à
ex-esposa. – Como soube que eu estava aqui?
Marta disse-lhe que ficara sabendo por
meio da jornalista Aymara. No dia seguinte à
morte da senhora Constância, ele havia
aparecido num telejornal. Então, ela entrara
em contato com Aymara, pois já a conhecia, e
começou a seguir seus passos.
Após certo silêncio, João perguntou pelo
ex-amigo, o atual marido de Marta,
Stanislau. Ela disse que ele ficara no
carro, lá fora, pois não queria causar
constrangimentos e nem fazer cena. João fez
questão de vê-lo, pois agora já era outra
pessoa, outro homem, e o demônio do ciúme já
não o incomodava mais. Desapegara-se de
pessoas e coisas, pois aprendera a amar
incondicionalmente.
Marta foi até o BMW preto e chamou
Stanislau. Este relutou um pouco em sair do
carro, mas ao ouvir que João era outro
agora, resolveu certificar-se com os
próprios olhos.
Stanislau era um homem de cinqüenta
anos, forte, com quase dois metros de
altura, semi-calvo, rosto quadrado, olhos
pequenos, pretos e compenetrados. Trajava

76
sempre terno e gravata, inclusive aos
domingos. Nessa ocasião, usava um costume
preto, bem talhado, de uma grife conhecida
internacionalmente.
Assim que ele entrou na biblioteca, João
apertou-lhe a mão e deu-lhe um forte abraço.
O braço direito mal conseguiu abarcar o
largo tronco de Stanislau, que correspondeu
timidamente, espreitando a reação de Marta.
Esta esboçou um sorriso e fez um sinal de
aprovação com a cabeça, seus olhos marejaram
e ela foi até a janela, fungou o nariz num
lenço, fitando o horizonte infinito. As
crianças observavam tudo, sentadas no sofá,
em silêncio, mas igualmente emocionadas.
Para elas, era como se seus “dois pais” se
reconciliassem naquele momento. O pai
biológico e o pai “adotivo”, que os amava
igualmente.
- Agradeço por tudo o que tem feito por
minha família, Stanislau – disse João, mal
ocultando as lágrimas. – Agradeço de
coração, meu irmão!
- Não precisa agradecer, João! Fiz por
eles e por você também...
Marta saiu da janela e sentou-se no
sofá. João desvencilhou-se do abraço e foi
até a janela onde chorou copiosamente, por
um longo tempo. Stanislau sentou-se ao lado
de Marta, emocionado.
João lavou a alma. Todas as mágoas e
todos os ressentimentos saíram de seu âmago,
como um rio quente que nasce das entranhas
de um vulcão de dor. Os sentimentos antigos
de posse e ciúme desvaneceram-se como o seu
passado de erros e aprendizados. Um novo ser

77
começava a brotar dentro dele, pleno de
humildade, amor, paz, sabedoria e harmonia.
O nó do passado, que o levara aos desatinos
e à mendicância, desfazia-se ali, e João
sabia que pagara por tudo aquilo, por toda
aquela transformação. O preço fora bastante
alto, mas valeu a pena. Agora podia passar
tudo aquilo adiante, compartilhar com os
outros a sua experiência, para que, se
possível, evitassem sofrimento semelhante ao
que passara.
Marta, vendo que João demorava-se na
janela, foi até lá e, abraçando-o
carinhosamente, fez com que se sentasse ao
lado das crianças e de Stanislau. Ela se
sentou no meio deles, tendo as crianças e
João de um lado e Stanislau do outro.
Depois, estendeu os braços por trás e os
chamou a si, aproximando a cabeça de todos
num gesto de cumplicidade e amor fraternos.
- Bem – disse João, quebrando o silêncio
que não durara muito. – Chega de tristeza e
choro! Vamos conhecer a fazenda...
Dito isso, desvencilhou-se num pulo do
abraço de todos e saltou do sofá.
- Vamos! – repetiu.
Todos se levantaram do sofá como se
estivessem imersos em uma outra dimensão,
num outro tempo, em que só o amor é real.
Hermes já os aguardava solícito para, junto
com João, mostrar-lhes a fazenda do
Cenáculo.

78
XVIII

O tempo engatinhava sorrateiro como um


rio, lento, mas inexorável. Marta e os
filhos passaram a visitar a fazenda
mensalmente. Sempre que chegavam,
perguntavam a João se já tinha terminado o
livro, o relato de sua história. João pedia
para que ela tivesse calma, pois só escrevia
em seus horários de folga, e aos domingos.
Foi numa bela manhã de domingo, após
oito meses de fazenda, que João colocou o
ponto final em seu relato. Quando Marta
chegou para a visita mensal, João entregou-
lhe o caderno de duzentas folhas, manuscrito
a lápis, e disse-lhe:
- Aí está, querida, o original.
- Tomarei cuidado para não perdê-lo –
respondeu Marta, aconchegando o caderno
junto ao peito. – Mas não tem título ainda?
– perguntou, olhando a capa.
- Pois é... Estou com dificuldades para
achar um título bom... Vou deixar para
depois, para mais tarde.
Marta sorriu e disse que ele precisava
encontrar um título realmente condizente.
João disse que ao menos tentaria.
- Bem, assim que terminar de ler, emito
minha opinião.
- Tudo bem, Marta, mas não fique muito
empolgada.
- Não, não ficarei, pode ter certeza!
João abraçou e beijou as crianças, não
conseguindo conter a emoção, e depois se
despediu de Marta. Pediu que desse um abraço

79
em Stanislau, que não pôde comparecer
naquela ocasião.
O domingo ainda reservava surpresas
agradáveis a João. Era como se estivesse na
colheita, após ter trabalhado arduamente a
terra e, após as chuvas, tudo houvesse
brotado e prosperado. Agora, depois de um
tempo, sob o sol dourado, começava a colher
os frutos doces de seus esforços.
Estava na biblioteca à noite, quando
Hermes entrou com Aymara e um belo rapaz,em
seus vinte e cinco anos, trajando um costume
elegante. Hermes se despediu deles e saiu,
deixando-os à vontade.
Sentaram-se no sofá e Aymara apresentou-
lhe Jacques Guignard, neto da senhora
Constância Guignard, ou senhora Órion. O
rapaz tinha grandes olhos azuis, cabelos
negros, e um rosto bem delineado. Os
cabelos, quase compridos, eram ondulados,
repartidos ao meio, no centro da cabeça.
Tinha um porte atlético e aproximadamente
1,85m de altura. Era uma figura imponente em
seu terno azul turquesa e em seus sapatos de
três cores.
Ao cumprimentá-lo, João o reconheceu.
Era o rapaz que o expulsara do velório da
senhora Constância.
- Me perdoe por aquela noite – disse
Jacques.
- Tudo bem!
- Minha avó era uma pessoa com o coração
imenso – prosseguiu Jacques – e muitos
tentavam se aproveitar de sua bondade...
- Compreendo...

80
- Bem, vamos ao assunto. O motivo de eu
estar aqui é...
Jacques, tirando uma carta do bolso do
paletó, explicou-lhe que, ao fazerem o
inventário da senhora Constância,
encontraram, entre seus papéis, a
determinação de entregar aquele envelope ao
senhor João, ex-morador de rua. Se isso não
fosse feito, a herança não poderia ser
partilhada...
Disse também que, na determinação da
senhora Constância, estava escrito que João
era aquele que escolhera o envelope onde se
lia “Amor Omnia Vincit” no selo de cera...
Como Aymara me disse que o conhecia e que
tinha visto o envelope, aqui estamos para
nos certificarmos da veracidade dos fatos.
Para não haver dúvidas a respeito da sua
identidade, minha avó determinou que
solicitássemos, ao encontrá-lo, que
apresentasse o envelope com os dizeres em
latim. Desse modo, não haveria dúvidas. Ela
determinou ainda que, após a apresentação do
envelope, esta carta fosse aberta em sua
presença, e na de mais uma testemunha.
- Você tem o envelope com a inscrição em
latim? – perguntou Jacques.
João enfiou a mão no bolso do blazer e
tirou o envelope, pois sempre andava com
ele. Jacques e Aymara conferiram a
inscrição.
- Ok. A inscrição confere... –
prosseguiu Jacques. – Então, na presença
aqui da testemunha, vamos abrir a carta...
Jacques abriu a carta e retirou um papel
branco, onde se lia escrito a mão:

81
PEÇA TUDO A DEUS. ORE E TRABALHE. SEJA O
HERÓI DE SI MESMO.

Os três se entreolharam e João mostrou-


lhes os dizeres que estavam em seu envelope,
onde se lia a mesma coisa. Mas... na carta
Jacques observou que havia ainda um pedaço
de papel, dobrado, azul claro. Ele o pegou,
e com os olhos arregalados mostrou a João e
a Ayamara que, ao verem do que se tratava,
também ficaram maravilhados.
Era um cheque nominal a João W.B. no
valor de um milhão de reais!
- Vovó realmente gostava do senhor! –
exclamou Jacques.
- Como ela descobriu meu nome? –
perguntou João.
- Você não conhecia vovó... Ela
conseguia tudo o que queria... Nunca vi nada
igual!
- Bem, agora a partilha da herança pode
ser realizada. Aymara está aqui como
testemunha de que a carta foi entregue ao
seu destinatário...
- Pode contar comigo! – respondeu
Aymara.
- João – perguntou Aymara amavelmente.-
Você já sabe o que fará com este dinheiro?
João balançou a cabeça negativamente,
como se ainda flutuasse nas nuvens.
- Não, sinceramente, ainda não! –
respondeu.
- João, acredite – disse Aymara num
sorriso. – Você merece tudo isto e muito
mais!

82
Ao se levantarem, Jacques viu o retrato
da senhora Constância, afixado na parede.
- Meu Deus! – disse. – É a cara da
vovó... A pessoa que a pintou tem muito
talento!
Pensativo, Jacques acrescentou:
- Ouvi dizer que esta fazenda foi doação
de vovó ao Cenác... como é mesmo o nome?
- Cenáculo – completou João.
- Isto! Cenáculo...
- Sim, a fazenda foi doação de sua avó -
confirmou João.
- Bem, fico feliz que ela esteja sendo
usada para um bom propósito... – concluiu
Jacques.
Ao se despedirem, Aymara pediu para que
João mandasse notícias, sempre, que jamais
perdessem o contato.
- Fique tranqüila! Você sempre saberá de
meus passos...
Ayamara sorriu, entrou na Mercedes de
Jacques, e partiram.

83
XIX

João ainda estava sem saber o que fazer,


que rumo tomar. Sua vida melhorara e muito,
agradecia constantemente a Deus e à senhora
Constância, a Hermes e a todos por ter
conseguido chegar até ali.
Queria retribuir, ser útil, ajudar
pessoas em estado de sofrimento e desamparo,
reconstruir vidas como a dele fora
totalmente reconstruída, vivificada.
Era sábado à noite. Feliz, saiu com
Hermes e mais três irmãos do Cenáculo para a
distribuição de sopas e lanches. Foi àquele
terreno baldio onde dormia outrora, junto
aos amigos de infortúnio. Ao vê-lo, alguns
não o reconheceram como sendo João, o ex-
mendigo. Alguns eram novos moradores de rua,
geralmente jovens viciados em drogas
pesadas, que, expulsos de casa, não
encontravam outra opção, senão a mendicância
ou a criminalidade. Convidou todos para o
Cenáculo e alguns se prontificaram em
comparecer na próxima reunião. Sentiu falta
de alguns amigos e indagou sobre eles. Ficou
sabendo, desolado, que alguns morreram
assassinados por dívidas com o tráfico;
outros se suicidaram; alguns estavam presos;
e muitos deles morreram consumidos pelo
vício do álcool e das drogas. A maioria
deles entre dezessete e trinta e cinco anos!
Voltou para a fazenda, abatido pelo
destino cruel dos seus amigos, moradores de
rua que não tiveram a mesma “sorte” que ele.
Hermes disse-lhe que ele fizera a parte

84
dele, que se estava ali, vivo e forte, era
porque fez por merecer. Que só muda quem
quer mudar! Pois neste mundo-escola, a
semeadura é livre, mas a colheita é
obrigatória para todos, pretos ou brancos,
ricos ou pobres!
A Van começou a transpor uma ponte e
João se recordou de que era a mesma ponte
onde passara tantas vezes, a ponte de onde
se jogara durante um sonho. Foi a partir
daquele sonho que sua vida começara a mudar,
a ganhar sentido.
Ao terminar de cruzar a ponte, observou
um bando de cachorros vira-latas a vadiar.
Alguns fuçavam em uma lixeira. Sentiu um
aperto no coração, e pediu para que Hermes
parasse. Desceu da Van e se dirigiu ao grupo
de cães que farejavam o lixo. Dois deles lhe
chamaram a atenção. Estavam magros, com
algumas feridas. Um deles mancava de uma
perna. Resolveu arriscar e chamou:
- Felicidade! Esperança!
Surpreso, verificou que os cães ergueram
as orelhas e se dirigiram em sua direção,
abanando o rabo.
- Não pode ser! É Felicidade e
Esperança! – disse todo feliz, fazendo festa
nos cachorros.
Era três e meia da madrugada. Hermes
desceu da Van para ver o que ocorria. João
pediu permissão para levá-los para a
fazenda, pois tinha encontrado dois grandes
amigos fiéis. Hermes não se opôs e, assim,
Felicidade e Esperança encontraram seu
antigo dono e, o mais importante, um lar
onde seriam cuidadas as suas feridas, onde

85
tomariam banho, teriam uma “caminha” quente
e comida abundante.
Felicidade - que mancava da perninha,
desde aquela vez em que foram surrados sob a
marquise – e Esperança foram colocados
amorosamente por João atrás da Van. Rumaram
todos em direção à fazenda. João, que
estivera abatido até então devido ao destino
triste dos ex-amigos, voltou a sorrir, a
ficar alegre.
- Nada como encontrar velhos amigos! –
disse Hermes, dando partida no veículo,
feliz com a alegria de João.
- Agora já sei o que vou fazer – disse
João. – Vou doar metade do dinheiro que
ganhei à fazenda, para o resgate de pessoas
e animais que estejam pelas ruas a passar
fome, frio e todo tipo de sofrimento...
- João! Você tem certeza de que é isto
mesmo o que você quer? – interpelou Hermes.
- Certeza absoluta!
Todos na Van urraram de alegria e
bateram palmas. Felicidade e Esperança,
assustados, começaram a latir. João riu e
disse, voltando-se para trás e fitando os
cãezinhos, que eles estavam voltando para
casa e que jamais iriam passar frio, fome, e
que ninguém os espancaria novamente.
Com a doação de João, uma grande área da
fazenda seria destinada aos cãezinhos e
gatos abandonados. Ali eles teriam
assistência veterinária, comida, banhos,
tosa e tudo que pudesse contribuir para o
seu bem-estar.
Claro que o foco continuaria a ser os
moradores de rua, os viciados, os suicidas

86
em potencial, ou náufragos da vida e todos
aqueles que quisessem se livrar de suas
mazelas e sofrimentos físicos, mentais e
espirituais.
Afinal, O Cenáculo era uma instituição
religiosa não dogmática, universalista,
espiritualista, eclética e holística,
voltada para o bem-estar do ser humano como
um todo.
Enfim, uma Escola de Mistérios, cujas
bases estavam na Arte, na Filosofia, na
Ciência e na Religião.

87
XX

No dia seguinte ao reencontro de


Felicidade e Esperança, Marta telefonou.
Disse a João que lera o manuscrito e que se
emocionara bastante, pois fazia parte da
história. João disse que alguns fatos novos,
como a doação da senhora Constância e o
reencontro de Felicidade e Esperança, teriam
que ser adicionados ao texto original. Pediu
para que Marta, quando viesse vê-lo,
trouxesse o caderno para os acréscimos.
Assim foi feito. Marta digitou o texto e,
com as indicações de Aymara, enviou-o a
vários editores conhecidos.
Os dias passavam alegremente para João.
Com metade do dinheiro que recebera, podia
adquirir uma casa na cidade, voltar a
advogar e continuar ajudando voluntariamente
o Cenáculo. Hermes, por sua vez, apoiaria
qualquer decisão que fosse tomada por João.
Resolvera ficar mais um mês na fazenda
antes de mudar-se para a cidade. Todos os
dias, seguia a rotina dos outros irmãos
(ãs): fazia a meditação no salão, tomava seu
banho frio e ia trabalhar nas hortas
orgânicas. Sentia-se feliz, útil e era
admirado e amado por todos.
Faltava uma semana para que ele se
mudasse, quando Marta telefonou novamente,
dizendo que um grande editor resolvera
editar seu texto, mas que havia um problema,
pois o livro não tinha título. João olhou
pela janela, e de seu íntimo brotou num
insight: “Seja o herói de si mesmo”. Foi aí

88
que nasceu a idéia do título, e João disse:
“Herói de si mesmo”. Marta disse que gostava
do título e que o passaria para o editor.
Assim ficou combinado, e não se falou mais
nisso.
Ao fim de uma semana, ajudado por
Aymara, João já havia mobiliado a casa. Só
faltava mudar. Ficou decidido que, a partir
do momento de sua mudança, passaria a ajudar
Hermes nas palestras do Cenáculo no centro
da cidade, onde ele o conhecera.
Com sua experiência de ex-morador de
rua, seria mais persuasivo junto àqueles que
achavam impossível a mudança. E assim foi
feito. Pelo menos uma vez por mês, João ia
até aquela sala do centro da cidade e falava
de sua experiência, de como caíra na
mendicância, e de como conseguira se
reconstituir.

A vida é um dom supremo e, de modo


algum, podemos jogá-la na lata do lixo do
desprezo, da dor e da agonia. Cada ser
humano é um, cada ser é um Ser supremo,
único e formidável.
Nas noites em que estou na fazenda e
olho para o céu, eu vejo como somos pequenos
e, ao mesmo tempo, como somos grandes! Meu
Deus, eu digo, é formidável respirar, tomar
água límpida das fontes, comer frutas e
legumes puros, e amar as pessoas como elas
são, sem julgamentos.
Meu maior sofrimento é ver as pessoas
sendo tratadas como objetos, como gado, como
seres lucrativos. Não somos nada disso!

89
Somos feitos do mesmo material dos sóis, e
dos planetas do universo infinito.
Vocês sabem o que gera a doença, a dor,
o sofrimento, o desespero e o inferno? Pois
então fiquem boquiabertos, porque tudo isso
é provocado por nossa ignorância. Sim,
ignorância em saber que todos somos irmãos e
irmãs e que a única realidade é o AMOR!
Dirão alguns que estou sendo infantil,
simplório e bobo com esta história de
amor... Pois então, façam o caminho mais
difícil e depois de muito sofrerem, também
chegarão a esta conclusão, a que também
cheguei, a que todos os mestres chegaram,
desde Jesus, Buda, Krishna ou Maomé...
O ego, meus irmãos, minhas irmãs, é o
pai de toda a dor e sofrimento. Quantas
guerras e mortes desnecessárias não foram
provocadas pela cobiça desmedida? Quanta dor
e quantos lares não foram desfeitos pelo
ciúme, pela luxúria? Quantos cânceres não
são gerados neste exato momento pela mágoa e
pelo ressentimento? Quantos não vão para o
túmulo gemendo sem ao menos se darem a
chance de perdoar? E a inveja então? Quantas
mortes não provocou? Quantas intrigas não
gerou? Quantos ambientes não envenenou? E a
ira, quantos assassinatos não provocou? E a
avareza, quantas favelas não gera em nosso
país? E a corrupção, quantos estragos não
tem feito?
Meus irmãos, o planeta Terra é rico e
abundante, o Universo é rico e abundante,
Deus é rico e abundante. Pergunto, então:
quem gera a dor e a miséria a não ser o
próprio homem? E ainda, não satisfeito em

90
gerar tanto sofrimento, o homem põe a culpa
fora dele, num hipotético diabo, inventado
por sua consciência pesada...
É desse modo que o homem tenta amenizar
a sua culpa: dizendo que o diabo ou o
demônio são os culpados pela miséria e pela
dor do mundo, pela queda do homem, etc.
Assim fica mais fácil roubar, matar e
explorar o seu irmão, a sua irmã, pois foi o
diabo quem tentou... E depois de tanto
cometer esses desatinos, esses “pecados”,
como chamam, pedem perdão para que seus
crimes passem em brancas nuvens e tudo
bem... Mas com Deus não se negocia... E o
que plantarmos, certamente, colheremos...
Então, meus irmãos e minhas irmãs,
cuidado, cuidado com aqueles que criam
dificuldades para venderem facilidades.
Cuidado com os vendilhões do templo. Cuidado
com os intermediários do poder que está
dentro de vocês mesmos e não fora...
Se eu consegui, com a ajuda de nosso
Pai/Mãe Divinos, qualquer um de vocês, que
realmente quiserem e determinarem, o
conseguirão também!
Há cem milhões de planetas aptos à vida
só em nossa Via Láctea! E pasmem, há bilhões
de galáxias no universo, com bilhões de
sistemas solares como o nosso! Ninguém pode
monopolizar a riqueza de Deus, ninguém! Quem
tentar fazê-lo pagará um alto preço por
isso! O dinheiro não é bom e nem mau, mas
foi feito para circular, é energia de Deus
para promover o crescimento e a vida de
todos os seres deste planeta, e não para
ficar amontoado em bancos. Os bancos existem

91
para espalhar riqueza e não para espoliar o
pobre com juros de agiotagem!
Não se iludam, irmãos e irmãs, pois o
céu ou o inferno é aqui mesmo, pelo menos é
aqui que começa. O que vocês construírem
aqui é o que levarão para o outro lado. Se
esperarem para serem felizes após a morte,
estão totalmente enganados! Se esperarem
encontrar o céu ou o inferno só após a
morte, vocês estão totalmente enganados! É
só olharem do lado e verão que não estou
mentindo... Pois o que semearmos iremos
colher aqui e agora!
Eu plantei espinhos e colhi espinhos
maiores e mais pontiagudos ainda! Quando
comecei a preparar melhor a minha terra
interior, a plantar sementes melhores,
comecei a colher frutos melhores e mais
doces... Mas antes disso tive que colher a
semeadura má... grão por grão, pois não se
iludam, esta é a Lei!
Eu mudei, porque quis mudar, cansei de
sofrer. Saibam que o sofrimento é um vício
também, como o é o álcool, o cigarro e as
drogas... Determinem mudar, cuidem de sua
terra interior, plantem paz, amor, harmonia,
caridade e vocês verão o que colherão
brevemente...
Vocês podem, se quiserem, se lapidar,
transformar-se totalmente. Para isto é
preciso querer, determinar.
Para encerrar, eu peço para que SEJAM OS
HERÓIS DE SI MESMOS!
Só assim, vocês construirão desde já o
céu, e o mundo de paz e amor que tanto
almejam.

92
Prezado leitor (a): a “Fazenda-Colônia Cenáculo da
Verdade” é um sonho em permanente construção. Se quiser,
você pode nos ajudar a construí-lo.
Saiba mais acessando o site ou telefonando: (11) 4812-
4943 – cel. 8641-6634

Site: www.ocenaculo.com.br

Perfil do autor no Orkut:


http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?uid=4319938924493200703

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“Que todos os seres sejam felizes; que todos os seres


alcancem a paz!”

Paz, luz, Amor, Equilíbrio, Saúde, Harmonia,


Abundância e Justiça!

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OUTRAS OBRAS DO AUTOR:

- Os Iluminados do Apocalipse – Editora Secortecci, 1999


(romance)- Versão impressa e digital – ebook

- Introjetando a Prosperidade: como conquistar seus


objetivos com o uso das imagens mentais - Editora
LivroRápido, 2006 (auto-ajuda) – Versão digital – ebook

- Imaginação é Poder – ebook GRÁTIS.

- As Símiles como manifestação da Epifania e do Estilo


Narrativo nos Contos de Clarice Lispector – (Inédito)

- Mudez (poemas) - Inédito

- Cassiopea - (antologia poética)

- Caminhos do Vento - (antologia poética)

- Jundiaí Poética - (antologia poética)

- Poesia, um jogo sem torcida – (antologia poética)

- Poetas Brasileiros de Hoje (1985) – (antologia poética)

- CD DE RMI® (Reprogramação Mental Introjectiva) PACTO COM


DEUS E/OU UNIVERSO -

Peça qualquer livro ou CD pelo telefone:

(11) 4812-4943 – celular: 8641-6634 com Agnáldo


Ou pelo email: abarcaro@uol.com.br
Site: www.imagemental.com

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AGNÁLDO C. BACÀRO é o presidente/fundador do Cenáculo da
Verdade, instituição religiosa universalista e eclética, não dogmática,
fundamentada na Filosofia, Arte, Religião e Ciência, que faz uso
ritualístico da bebida enteógena Ayahuasca, para conexão e
introjeção da Inteligência Infinita ou Grande Foco. Escritor, poeta,
palestrante, professor e livre-pensador, autor do romance iniciático
gnóstico, entre sacerdote e sacerdotisa, Os Iluminados do
Apocalipse. Criador da RMI® (reprogramação mental introjectiva)
para reprogramação da mente com a consciência expandida, cujos
fundamentos estão no seu livro Introjetando a Prosperidade: como
conquistar seus objetivos com o uso das imagens mentais.

Faço palestras GRÁTIS sobre meus livros, Reprogramação Mental Introjectiva (RMI) e sobre
a bebida sagrada Ayahuasca. Se quiser uma Sessão de RMI® com expansão da consciência
em sua cidade entre em contato.

Site do Cenáculo: www.ocenaculo.com.br

Site do Autor: www.imagemental.com

Minha página no ORKUT: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=4319938924493200703

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