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JOGANDO BOLICHE NO BRONX:

os interstícios incivis entre


a sociedade civil e a sociedade
política *

Laurence Whitehead

Introdução dos territoriais, as exceções a essa regra são defini-


das de forma precisa e delimitadas cuidadosamen-
O que compreendemos pelo termo “socieda- te (por exemplo, os presos, os comprovadamente
de civil”? Como ela surge? Como se relaciona com insanos e mentalmente incapazes, os refugiados e
o pluralismo, a democracia e a democratização? Se os asilados políticos). Se ocorresse de outra forma
existe uma tendência à sua desintegração ou auto- e as categorias de exceção fossem definidas frou-
destruição, isso põe em risco a consolidação dos xamente ou fossem facilmente extensíveis, então
regimes democráticos, ou torna apenas mais exa- amplos segmentos da comunidade política poderi-
cerbadas as angústias sobre a qualidade de nossas am sentir seus direitos de cidadania potencialmen-
democracias “realmente existentes” (poliarquias)? te em risco e, em conseqüência, poderiam se
Se ela desenvolve uma capacidade de autopreser- mobilizar para defender direitos políticos mais
vação, esta reforça obrigatoriamente o aprofunda- amplos. Apesar de tudo, a concepção de direitos
mento da democracia política, ou esse processo de cidadania quase universal e inclusiva, vigente
pode ocorrer às custas do universalismo e da não atualmente, somente foi alcançada historicamente
discriminação necessárias para a autêntica demo- através da pressão e da agitação por e em benefício
cracia? daqueles que eram inicialmente excluídos e margi-
A contribuição do artigo está em oferecer nalizados da comunidade política territorial. O
uma abordagem muito ampla — e provisória — resultado é que, nos dias da hoje, a esmagadora
dessas questões. O seu ponto de partida é a maioria das comunidades políticas representativas
discrepância entre nossa visão inclusiva de cidada-
nia e nossa visão tacitamente mais restritiva das
características da sociedade civil. * Texto publicado originalmente, com o título “Bowling
in the Bronx: the uncivil interstices between civil and
O constitucionalismo liberal moderno esten- political society”, no livro Civil society: democratic pers-
de o âmbito da cidadania (os direitos políticos pectives, organizado por Robert Fine e Shirin Rai (Frank
formais) a virtualmente todos os adultos em uma Cass, 1997).
certa jurisdição territorial. Em um mundo de Esta- Tradução de Eduardo Cesar Marques.

RBCS Vol. 14 no 41 outubro/99


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é fortemente orientada para a universalidade. Em noção de sociedade civil que pode, conseqüente-
outras palavras, elas contêm um forte pressuposto mente, ser desagregada e desconstruída). A discus-
a favor da manutenção dos direitos de cidadania. são concluiu que a qualidade e a estabilidade tanto
Isso é verdadeiro tanto para as democracias estabe- das democracias recentemente constituídas como
lecidas há bastante tempo (poliarquias), como para das próprias “poliarquias” consolidadas são prova-
os muitos regimes constitucional e potencialmente velmente afetadas pela solidez e pela estrutura da
democráticos frágeis e estabelecidos em período sociedade civil, e que essas características, pelo seu
recente (democracias recentes). lado, são fortemente condicionadas pela natureza
Entretanto, embora a cidadania moderna e pela força dos desafios que possam surgir dos
possa assumir a aparência de universalidade, o “interstícios incivis”.
mesmo não se pode dizer com relação ao perten- A fraqueza da sociedade civil e os riscos
cimento à “sociedade civil”. Esse é o ponto de vista colocados pelas várias formas de “incivilidade”
defendido por este artigo. A distinção entre uma são particularmente evidentes em muitas demo-
concepção inclusiva de cidadania (e conseqüente- cracias recentemente construídas. Tanto nas ex-
mente de “sociedade política”) e uma visão mais periências pós-autoritárias como nas pós-comu-
seletiva e restritiva do que constitui a sociedade nistas, os esforços de democratização são fre-
civil dependerá, é claro, de como a segunda qüentemente obscurecidos pela emergência ou a
categoria é definida. Nossa discussão, como conse- proliferação de formas anti-sociais de individua-
qüência, inicia-se por uma rápida revisão das lismo e organização de grupos que substituem,
possíveis definições concorrentes, todas implican- ou até procuram subverter, as formas de associa-
do graus maiores ou menores de restrição que a ção civil celebradas pelos teóricos da “sociedade
cidadania universal. Em outras palavras, todas as civil”. Uma descrição reconhecida internacional-
definições admitem a existência de um terceiro mente para tal florescimento de incivilidade pode
conjunto de “cidadãos incivis”, ou pessoas que têm ser encontrada no termo “máfia”. Se essa fosse
direitos políticos mas não se submetem aos cons- uma questão simples e direta de criminalidade
trangimentos impostos pela “sociedade civil”. seria de relevância limitada para os estudiosos da
Como aparentemente não há um único sentido política, embora possa ser difícil de ser solucio-
consensual na definição de nossa segunda catego- nada pela polícia. Entretanto, ela torna-se uma
ria, existem visões alternativas das formas assumi- preocupação central quando os requisitos de de-
das por tais constrangimentos; mas qualquer que mocratização incluem a extensão dos direitos
seja a forma adotada, uma certa parcela de “civili- políticos e de cidadania para amplos setores da
dade” deve necessariamente estar incluída. O estu- população que não apenas podem não ter expe-
do, conseqüentemente, propõe uma definição de riência prévia de política democrática, mas tam-
trabalho para a categoria que incorpora esse requi- bém têm parcos recursos para escapar das redes
sito. O presente trabalho avança então para consi- de cooptação e controle políticos do tipo “máfia”.
derar as implicações da incivilidade, tanto para Ela também é uma preocupação central nos casos
nossa compreensão da “sociedade civil” como para em que as formas incivis de associação são deixa-
nossas teorizações sobre a relação entre a socieda- das como herança do ancien régime, ou surgem
de civil e a democratização. no curso da luta política entre grupos que não
A premissa subjacente é a de que, seja ou não são leais à ordem constitucional prevalecente,
adotada essa definição, haverá necessariamente caso essa seja frágil. Os incentivos para organizar
uma distância substancial entre as concepções formas intolerantes e incivis de associativismo
mais universalistas de sociedade política moderna são particularmente fortes onde as reivindicações
e noções mais restritivas e exatas de sociedade de privilégios e propriedade são contestáveis po-
civil. Os interstícios entre essas duas formas sociais liticamente, onde os colaboradores do regime an-
irão favorecer a produção de múltiplas variantes de terior ainda seguem impunes por atividades cri-
“incivilidade” (uma categoria residual derivada da minosas e temem ações “revanchistas”, e onde o
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sistema judicial parece incapaz de sustentar um Os vários significados de “sociedade


domínio legal amplo e imparcial. Essas são, é civil”
claro, condições características de muitas demo-
cracias constituídas recentemente. Quando Hobbes (1651, parte 2, cap. 5, pa-
Entretanto, a discussão não se direciona so- rag. 9) se referiu à “sociedade civil”, ele igualava
mente, ou mesmo principalmente, para os esfor- o termo a “cidade” ou “união”. O conceito era
ços de muitas sociedades que tentam consolidar diferenciado da noção de “multiplicidade” pela
suas frágeis democracias recentes. As poliarquias premissa de que os indivíduos respectivos se
estabelecidas há muito tempo nos países da Or- tinham inserido em alguma forma de acordo ou
ganização para Cooperação Econômica e Desen- contrato através do qual eles concordavam em
volvimento (OCDE) também manifestam bruscas subordinar suas vontades individuais a uma von-
disjunções entre o escopo de suas sociedades tade unificada coletiva, se não por outra razão,
civis e políticas. A Itália, terra de origem da máfia, apenas para a manutenção da paz e para a defesa
recentemente experimentou o potencial de de- comum. Mas Hobbes não acreditava que a cria-
sestabilização macropolítica dos interstícios inci- ção de uma sociedade civil poderia em algum
vis de uma forma particularmente dramática.1 momento abolir os medos e perigos subjacentes
Mas essa incivilidade adota diversas formas e ao que ele denominava de o “estado de nature-
aparece em muitas poliarquias. A disseminação za”. Embora a sociedade civil pudesse suspender
da violência de rua nos banlieux de quase todos a ação de tais perigos, o processo da vida política
os grandes centros, por exemplo, tem-se tornado seria sempre reversível. A liberdade e a interação
uma das questão mais sensíveis na França, parti- social tornadas possíveis pela sociedade civil es-
cularmente nos locais onde o desemprego jovem tariam permanentemente em risco pela possibili-
e as tradições islâmicas coincidem. A polícia fran- dade de regressão para uma comunidade não
cesa agora mantém registros mensais dos inci- social. Na verdade, o medo de tal regressão era
dentes enfrentados em 1.017 quartiers que fo- provavelmente o incentivo necessário para sus-
ram classificados como “sensitifs”. O mês de julho tentar o constructo artificial representado pela
de 1995 apresentou um recorde com 955 desses sociedade civil.
incidentes, sendo que a média está em torno de Diferentemente, a versão de Hegel da “soci-
500.2 A Inglaterra3 também não é uma exceção, edade civil” era derivada não do medo humano da
nem mesmo os Estados Unidos, particularmente morte, mas de suas necessidades materiais articula-
em algumas áreas obsoletas dos centros das ci- das pela divisão do trabalho. Nem a família, nem a
dades. associação religiosa ou política pertenciam a esse
Na verdade, o título deste artigo foi escolhido domínio, restrito ao campo da racionalidade instru-
para destacar a fraqueza do associativismo civil em mental e individualista. Entretanto, tanto Hobbes
partes dos Estados Unidos de uma forma não quanto Hegel viam um antagonismo radical entre
prevista por Tocqueville.4 O Bronx foi apontado sociedade civil e criminalidade sem lei. Os indiví-
na esperança de se evitar o exotismo que se duos na sociedade civil (que para Hegel era estru-
originaria se situássemos nossas discussões da turada solidamente por guildas, corporações e
sociedade civil no contexto de localizações tão comunidade — todas formas de associação com-
ideal-típicas do Terceiro Mundo como El Alto (La pulsórias e não voluntárias) perseguiriam seu auto-
Paz), a Baixada Fluminense (Rio de Janeiro), ou interesse dentro do quadro geral de direitos e
Guguletu (Cidade do Cabo). A premissa, aqui, é obrigações mutuamente reconhecidos regulado
que uma vez que tenhamos jogado boliche no pela autoridade pública. Essa noção de sociedade
Bronx, teremos avançado boa parte do caminho civil implicava um sistema judicial confiável e
para compreender também a relação entre socie- imparcial.
dade civil e democracia na Bolívia, no Brasil e na Hegel, seguindo os economistas políticos
África do Sul. escoceses, também estava preocupado com as
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propriedades autodestrutivas de uma sociedade antagonismo óbvio entre a burguesia e as classes


civil não constrangida por nenhum princípio nor- criminosas.
mativo mais amplo. Segundo essa visão, o desen- Tocqueville foi, provavelmente, o primeiro
volvimento não controlado da divisão de trabalho teórico de importância a apresentar a sociedade
poderia gerar uma parte da sociedade que fosse civil como uma contrapartida indispensável para
tanto material como espiritualmente empobrecida uma democracia estável e vigorosa, ao invés de
pela monotonia e estreiteza da sua ação. Esse setor uma alternativa a ela. Mas as associações voluntá-
tenderia a perder o auto-respeito e, em conseqüên- rias que constituíam o cerne da sua noção de
cia, a sua identificação com a comunidade como “sociedade civil” eram muito distintas dos pactos
um todo: “torna-se evidente, portanto, que apesar considerados por Hobbes, das corporação de ofí-
do excesso de riqueza, a sociedade civil não é rica cio levadas em conta por Hegel ou da classe
suficientemente, isso é, seus próprios recursos são burguesa de Marx. Na verdade, se a busca do auto-
insuficientes para limitar a pobreza excessiva e a interesse material era o que distinguia a sociedade
criação da turba miserável” (Hegel, 1942, parag. civil no pensamento dos dois teóricos alemães, o
245). Apenas a incorporação da sociedade civil em que inspirou o liberal francês foi a contenção desse
uma comunidade mais ampla (para Hegel, a comu- materialismo nos limites das instituições voluntári-
nidade política) poderia conter o seu potencial as benevolentes (que podiam ser vistas como
autodestrutivo. Mas é claro que nem Hegel, nem extensões da família, ou como aplicações práticas
Hobbes estavam sugerindo que a autoridade polí- da fé religiosa). Ao contrário de uma parte da
tica necessária para regular a sociedade civil deve- literatura neotoquevilliana dos dias de hoje, o
ria ser democrática. Tocqueville original não era nem pré-político (as
Marx preservou o arcabouço da teoria hege- instituições do governo local figuravam de forma
liana, embora invertendo o seu mecanismo. Na destacada em sua descrição das bases da democra-
forma mais completa dessa versão, a divisão do cia norte-americana), nem sentimental (seus escri-
trabalho e a sociedade civil “burguesa” daí resul- tos contra o conformismo social e intelectual nas
tante tornaram-se os motores da mudança social, pequenas cidades da Nova Inglaterra contrastam
enquanto os domínios político, ideológico e nor- de maneira marcada com as nostalgias tão em
mativo tornaram-se meras conseqüências, a ela moda no período).
subordinados. Além disso, as características auto- De acordo com a sua descrição, o que era
dissolutivas da sociedade civil deram origem a uma fundamental nas instituições políticas norte-ame-
teoria dialética do progresso revolucionário, atra- ricanas era a profusão de suas associações políti-
vés do qual a sua forma burguesa seria inevitavel- cas democráticas. Elas é que levariam os indiví-
mente substituída por uma versão socialista mais duos isolados a cooperar para propósitos coleti-
avançada. A relação conseqüente entre sociedade vos apesar da ausência de uma aristocracia e da
civil e democracia política era, portanto, de antago- grande distância do nível federal do Estado. Nes-
nismo. A democracia “real” teria de esperar pela sa concepção de sociedade civil — “associações
revolução socialista. A burguesia, em sua fase que são formadas na vida social sem referência a
progressista, poderia temporariamente se fazer objetos políticos” —, as atividades comerciais,
acompanhar de democracia formal (como uma educacionais e religiosas são todas incluídas. Na
arma contra as classes pré-burguesas), mas o seu verdade, além da divisão do trabalho, Tocque-
compromisso político epifenomênico estaria atado ville (1945, vol. II, cap. 5, parag. 2) refere-se a
ao destino, já que a classe operária cresceria em “associações de mil outros tipos: religiosas, mo-
força e autoconsciência e desafiaria a supremacia rais, sérias, fúteis, gerais ou restritas, enormes ou
política da classe capitalista. Na versão marxista, diminutas; para produzir diversão, para criar se-
portanto, não poderia haver a premissa de congru- minários, para construir hospedarias, para edifi-
ência inerente e supra-história entre a sociedade car igrejas, para difundir livros e para mandar
civil e a administração da justiça, nem tampouco de missionários para a Austrália e a Nova Zelândia”.
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E acrescenta (talvez em benefício de Foucault): vista como interna ou externa; se o papel neutro
“dessa forma eles fundaram hospitais, prisões e do Estado de direito é uma precondição ou ape-
escolas”. Essa é a razão da angst de Putnam com nas um ideal utópico que os ativistas da socieda-
o declínio do boliche como atividade recreativa, de civil deveriam usar para criticar os registros
o que para ele reflete uma crise profunda na existentes da manipulação política; e, por fim, se
democracia norte-americana contemporânea. En- a democracia política brota de, coexiste com, ou
quanto a sociedade civil de Hobbes deve fazer ameaça poluir os densos princípios associativos
frente aos riscos do estado de natureza, e para da sociedade civil.
Hegel ela reflete o crescimento do comércio Depois de apresentar essas dúvidas sobre os
como esfera supostamente independente da polí- vários sentidos do termo, devemos, para poder
tica, para Tocqueville ela preenche o vácuo dei- prosseguir, estabelecer uma definição de trabalho,
xado pela ausência de uma aristocracia. Portanto, mesmo que de forma arbitrária. A que se segue
pela primeira vez, na concepção de Tocqueville, utiliza uma formulação recente proposta por Phili-
a sociedade civil e a democracia são vistas como ppe Schmitter, que tem o mérito de ser depurada a
inerentemente relacionadas entre si — para os partir de uma ampla variedade de realidades soci-
autores anteriores elas eram princípios da organi- ais contemporâneas (isso é, não generaliza de
zação social desconectados e na verdade potenci- forma óbvia a partir de um ponto de vista etnocên-
almente antagônicos. trico), e estrutura-se a partir da preocupação subja-
Cada uma dessas caracterizações sucessivas cente de Schmitter com as condições necessárias
da sociedade civil foi construída a partir de uma para a consolidação dos regimes democráticos
realidade social muito distinta e específica, e con- modernos (tanto democracias antigas como no-
seqüentemente propunha a inclusão (ou exclusão) vas). A sua definição de sociedade civil é a seguin-
de diferentes entidades corporativas ou coletivas. te: “um conjunto ou sistema de grupos interme-
Para Hegel, a religião era própria do mais alto diários auto-organizados” que: (a) são relativamen-
domínio da ação estatal, enquanto para Tocquevi- te independentes tanto das autoridades públicas
lle esse lugar era preenchido pela expressão volun- quanto das unidades privadas de produção e
tária da auto-organização local. Para Marx, a asso- reprodução, isso é, firmas e famílias; (b) são capa-
ciação dos trabalhadores nos sindicatos era uma zes de deliberar sobre e realizar ações coletivas na
realidade fundamental, ao passo que para Tocque- defesa/promoção de seus interesses ou paixões;
ville era o jornal local que produzia a agregação (c) não tentam substituir nem os agentes estatais
dos colonos norte-americanos até então dispersos. nem os (re)produtores privados ou aceitar respon-
Essas diferenças de ênfase e concepção refletem sabilidades de governar a comunidade política
não apenas pontos de referência sociológicos con- como um todo; (d) não aceitam agir sob regras
trastantes, mas também posições teóricas diferen- preestabelecidas de natureza “civil” ou legal.
tes com respeito às bases da organização estatal e Schmitter acrescenta que a “sociedade civil,
às fontes da ação coletiva. conseqüentemente, não é uma propriedade sim-
Desde a metade do século XIX, é claro, as ples, mas composta. Ela se apóia em quatro condi-
teorias da sociedade civil de que dispomos foram ções ou normas: (1) autonomia dual; (2) ação
muito elaboradas e posteriormente diversificadas, coletiva; (3) não usurpação; (4) civilidade” (Schmit-
mas o esforço de seguir os passos desses desen- ter, 1995).6 Como a maior parte das definições, esta
volvimentos ultrapassaria os propósitos deste arti- pode ser lida de inúmeras formas, mas parece
go.5 É suficiente dizer que continuamos sem uma excluir organizações do tipo da máfia (tanto em (3)
compreensão única, unificada e consensual do como em (4)) e também os tipos de organizações
termo. Até hoje, a maioria do autores que escreve mais “segmentárias” que tanto preocuparam Gell-
sobre a “sociedade civil” deixa dúvidas sobre se ner, por serem, na sua opinião, opressoras do
os sindicatos ocupam um lugar central ou margi- individualismo.7 A interpretação de Gellner tam-
nal nas suas concepções; se a mídia deve ser bém se baseia nas quatro condições ou normas
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listadas. É possível sustentar que estas pressupõem, quanto nas associações locais coordenadas em
coletivamente, uma forma “moderna” e/ou “indivi- torno de jornais de Tocqueville. O mesmo é verda-
dualista” de organização social. deiro se observarmos as coletividades apoiadas
Correndo o risco de sobrecarregar o texto pela Igreja como um componente crucial da soci-
com definições, devemos acrescentar algo ao ter- edade civil: elas tendem a ser mais densamente
mo-chave “civilidade” para dar conteúdo à quarta concentradas em algumas áreas e em alguns estra-
norma de Schmitter. A definição de Collingwood tos sociais do que em outros. De modo similar, os
introduz uma dimensão mais familiar de civilida- sindicatos de trabalhadores e as formas de organi-
de, baseada no comportamento interpessoal, para zação comunitária tendem a ser geograficamente
além de qualquer compromisso de agir de acor- concentradas. Igualmente, se seguimos Parsons na
do com os constrangimentos de regras legais pre- ênfase da centralidade das instituições educacio-
estabelecidas: nais (especialmente universidades), novamente
encontraremos uma cobertura social e espacial
Comportar-se com civilidade com relação a al- desigual. A definição de Schmitter carrega a mesma
guém significa respeitar os seus sentimentos, abs- implicação, já que as quatro condições por ele
ter-se de aborrecê-lo, amedrontá-lo, ou (breve- especificadas são mais seguramente preenchidas
mente) fazer surgir nele alguma paixão ou desejo em algumas situações sociais do que em outras
que possa diminuir seu auto-respeito, isso é, (especialmente a “civilidade”, mas também a auto-
amedrontar a sua consciência de liberdade fazen- nomia dual etc.). Embora alguns desses padrões de
do-o sentir que a sua liberdade de escolha está em distribuição possam se compensar (fortes associa-
risco de desmoronar e a sua paixão ou desejo está ções da classe trabalhadora onde a cobertura de
em vias de assumir o controle.8 educação superior é fraca etc.), outros são cumula-
tivos. Na verdade, todas essas definições parecem
Isso pode ser considerado um aspecto essen- significar que a sociedade civil é mais densa em
cial da civilidade não coberto pela conformidade Hampstead do que em Brixton e em Santa Mônica
mínima às regras acordadas anteriormente. De do que em East Los Angeles. Qualquer que seja a
outra forma, “obedecer ao texto e não ao espírito” maneira de especificar mais precisamente os com-
de um acordo pode ser considerado um comporta- ponentes da sociedade civil, algumas partes da
mento “civil”, assim como a obediência a acordos comunidade dos cidadãos serão atendidas em
incivis. excesso com “vida associativa densa”, enquanto
outras terão falta de tais dimensões. (Isso é prova-
velmente verdadeiro até mesmo para a “mundo-
A ausência de congruência
da-vida da interação comunicativa” de Habermas,
entre sociedade “civil” e sociedade
embora seja difícil ter certeza a esse respeito.9 )
“política”
Não podemos nos apoiar nem no mercado,
Todos os significados distintos discutidos nem no Estado para equalizar essa distribuição
acima, e certamente também a definição de traba- social desigual do associativismo voluntário. Não
lho selecionada ao final, apontam para formas de se pode confiar a tarefa ao mercado porque este
organizações associativas voluntárias (ou ao me- obedece à soberania do consumidor, que é distor-
nos não reprimidas) que provavelmente não se cida em benefício dos possuidores de maiores
distribuem de maneira uniforme nos terrenos geo- rendas. Tampouco pode-se confiar no Estado, pois
gráficos e sociais cobertos pelos Estados territoriais a assembléia soberana é também tipicamente dis-
modernos (as comunidades políticas). A ocorrên- torcida em benefício dos grupos mais bem articu-
cia de desenvolvimento desigual é mais ou menos lados e organizados na comunidade política (na
auto-evidente no domínio da divisão do trabalho. verdade, não raramente o parlamentarismo é tanto
É também uma característica virtualmente inesca- elogiado como criticado por ser a forma de gover-
pável tanto nas corporações profissionais de Hegel no que melhor assegura a ascendência da socieda-
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de civil sobre a vontade republicana). Os teóricos um tempo ter que funcionar sem uma estrutura
do associativismo que querem preservar suas ca- consolidada de direitos”.)
racterísticas voluntárias e participativas por conse- A sociedade civil não apenas é distribuída de
qüência resistem à padronização imposta centrali- forma desigual no espaço social em um momento
zadamente e vêem a regulação do Estado como particular do tempo; ela também se desenvolve de
uma ameaça à liberdade.10 Mas, nesse caso, que forma desigual, e de acordo com uma lógica que é
mecanismos podem contrabalançar esse processo distinta daquela da formação do Estado ao longo
e reduzir as desigualdades da sociedade civil? A do tempo. Obviamente, cada uma das diversas
esperança de que, sendo as associações voluntári- definições de sociedade civil apresentadas acima
as benéficas, aqueles que se ressentem da sua falta carrega em si uma teoria implícita distinta de
possam ser ensinados ou encorajados a criá-las causalidade histórica. Na verdade, o mais provável
parece-me um argumento frágil para contrabalan- é que os processos que estiveram envolvidos na
çar a situação. geração das tradições cívicas do norte da Itália
Como temos conhecimento a partir de inú- tenham sido de alguma forma diferentes daqueles
meros estudos sobre polícia e administração da que produziram as pequenas cidades norte-ameri-
justiça, mesmo aqueles direitos legais que são canas de Tocqueville, ou a sociedade civil emer-
formalmente uniformes em toda a comunidade gente na Polônia pós-comunista. O que nos inte-
política são, na prática, distribuídos seletivamente ressa aqui, entretanto, é a conclusão de que qual-
de alguma forma. A pobreza, a raça, a origem quer que tenha sido o caminho histórico seguido,
familiar não privilegiada e daí em diante forne- os padrões resultantes de vida associativa e comu-
cem marcadores negativos virtualmente univer- nicação social serão altamente estruturados, com
sais mesmo nos mais consolidados e “social-de- setores tradicionalmente mais favorecidos e cen-
mocráticos” dos Estados nacionais. Robert Put- trais e outros marginais ou excluídos. Dependendo
nam (1994) recentemente chamou a atenção para da localização de cada pessoa nessa estrutura de
a evidência de variações locais e regionais fortes privilégios e oportunidades, e do grau de abertura
na qualidade da vida cívica em diferentes partes e flexibilidade do sistema, é possível considerar a
da Itália, e Francis Fukuyama (1995) esboçou um sociedade civil resultante tanto como a expressão
quadro para a realização de comparações simila- mais autêntica e a garantia durável de uma demo-
res em nível internacional. Na maior parte das cracia política, quanto como a mais flagrante nega-
democracias recentes, os principais atributos da ção da sua promessa universalista.11
sociedade civil tendem a ser altamente concentra- Em contraste com os ritmos de desenvolvi-
dos em pontos específicos, freqüentemente reser- mento incrementais, desiguais e mesmo reversíveis
vados a uma minoria da população, e com frequ- que caracterizam o crescimento da sociedade civil,
ência têm origem em privilégios conferidos pela os regimes políticos modernos são freqüentemente
estrutura de poder pré-democrática. Logo, na constituídos, à primeira vista, como estruturas co-
medida em que o Estado de direito se constitui erentes e interdependentes e que têm pretensões a
em um componente essencial da sociedade civil, uniformizar a cobertura dos direitos em suas juris-
criado e mantido publicamente, a justiça imparci- dições territoriais respectivas. Os novos Estados
al é tipicamente uma aspiração ao invés de uma criados na Europa depois de 1918 ou na África e na
conquista realizada em amplos campos do pano- Ásia depois de 1945 fornecem muitas ilustrações
rama social na maior parte das democracias “real- recentes dessa tese, mas ela se aplica também a
mente existentes”. (Como Cohen e Arato (1992, muitas democracias recentes criadas com o colap-
pp. 440-442) admitem de forma relutante, embora so soviético em 1989-91. Em quase todos esses
os “direitos fundamentais devam ser vistos como casos, as reivindicações de cobertura uniforme e
princípios organizadores de uma sociedade civil de igualdade política formal para todos os cida-
moderna, a sociedade civil em formação [...] dãos na sua jurisdição eram, inicialmente, não mais
[como recentemente no Leste Europeu] pode por do que meras aspirações, ou ficções legais, para a
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maior parte da população. Não obstante, essas muçulmanos ou “bantus”). Onde as novas fron-
novas diretrizes políticas de cidadania territorial e teiras políticas são incongruentes com os antigos
igualdade entre os cidadãos foram criadas, em mapas de vida associativa, é igualmente provável
princípio, em um momento específico (por exem- que sociedades civis periféricas e estrangeiras se-
plo, através da elaboração de uma constituição), jam prejudicadas à medida que as sociedades
depois do que elas adquiriram universalidade ins- civis centrais são fortalecidas. Se a situação é
tantânea. Nos casos que nos interessam aqui, um analisada desse ponto de vista comparativo am-
conjunto completo de direitos políticos democráti- plo, aparentemente não há razões fortes — teóri-
cos foi ostensivamente conferido a um conjunto de cas ou empíricas — para que se presuma a exis-
cidadãos criados de uma hora para outra. Apesar tência de uma única relação fortemente determi-
disso, a criação repentina de sociedades políticas nada entre a sociedade civil e a democracia polí-
inclusivas inteiramente novas pode não coincidir tica. Se as duas são facilmente separáveis, e em
com nenhum mapa de vida associativa densa princípio incongruentes, precisamos examinar
preexistente. A questão óbvia é a seguinte: como mais de perto os interstícios entre elas.
as práticas associativas e comunicativas da “soci-
edade civil” se relacionam com as aspirações ou as
“Sociedade incivil” e democracia
ficções jurídicas da “sociedade política” nas novas
política
democracias? Se existe mais de uma via histórica
para o estabelecimento de uma sociedade civil, Nas situações sociais em que a sociedade
aparentemente pode existir mais de uma via para a civil é fraca ou ausente, aplica-se o inverso das
que a sociedade civil se envolva na construção de quatro condições de Schmitter: (1) invasão da
um regime político democrático. autonomia dual, (2) que subverte a capacidade
É evidente que pode existir um crescimento de deliberação e pode encorajar (3) usurpação e
lento da sociedade civil que acabe finalmente por (4) incivilidade. Essa formulação abstrata incor-
criar as condições para a implantação da demo- pora uma grande variedade de possibilidades
cracia política. (Essa é a interpretação Whig para mais específicas, já que ameaças à sociedade civil
a história britânica, e também se aplica à visão podem vir de muitas — e freqüentemente múlti-
dominante sobre a democratização da Espanha). plas — fontes, e podem ser motivadas por pro-
Entretanto, uma seqüência inversa também pode- cessos políticos, socioeconômicos, ou mesmo
ria ocorrer, isto é, um regime político formal seria tecnológicos.12 Consideremos uma rápida lista de
implantado primeiro, e somente em período sub- alguns dos mais celebrados exemplos históricos
seqüente a sociedade civil — talvez criada e nu- — a subversão da sociedade civil na República
trida por um Estado liberal protetor — amadure- de Weimar pelo Partido Nazista, seguida pelo
ceria gradualmente. (Isso poderia sugerir um mo- Partido Socialista Unitário na Alemanha Oriental
delo ocidental padrão para a teorização da demo- após 1945; a máfia na Sicília republicana; o con-
cratização de muitos Estados pós-comunistas, e formismo clerical católico na Irlanda rural; o isla-
também poderia se aplicar à experiência dos mismo fundamentalista nos bidonvilles de Ma-
“protetorados”, como a democratização de Porto ghreb; a conformidade imposta pelo Estado em
Rico e do Havaí.) Outras combinações são tam- Cingapura, e alguns acrescentariam a docilidade
bém possíveis em teoria — uma sociedade civil manipulada pela mídia dos Estados Unidos de
que atinja um alto nível de desenvolvimento sem Eisenhower, o nepotismo imoral das Filipinas ou
nunca chegar a um regime político democrático a exclusão baseada em castas na Ásia do Sul.
(como Hong Kong, por exemplo), ou uma socie- Essa lista não deve ser lida como a reunião de
dade civil que se desenvolva tomando como base todos esses fenômenos diversos em uma amálga-
para a garantia de suas liberdades e direitos a ma indiferenciada de “ameaças à liberdade oci-
exclusão dos não-membros da participação políti- dental”, nem tampouco deve-se aderir aos julga-
ca (sejam eles tamils, palestinos, cipriotas turcos, mentos sociais e históricos específicos de respon-
JOGANDO BOLICHE NO BRONX 23

sabilidade que ela implica. Em uma análise cuida- crático. Eles podem, na verdade, dar forma a
dosa de cada caso específico, devemos esperar regras e afetar a alocação de recursos que dão
encontrar causalidade múltipla e algum grau de base à parte civil da sociedade. Por exemplo, se
determinação estrutural, ao invés de apenas a observamos a “deliberação autônoma” como um
vontade de uma única ação antiliberal. Dos dos mais essenciais ingredientes de uma socieda-
exemplos listados acima, aproximadamente meta- de civil robusta, a democracia política pode per-
de representa casos de invasão a partir de cima feitamente dar poder a forças políticas que não
(do Estado), e a outra metade, de usurpação a têm interesse em promover tais práticas, mas, ao
partir de baixo (sociedade antiliberal). De uma contrário, que as vêem como inúteis ou mesmo
forma geral, é de se esperar alguma interação perigosas. De maneira similar, não pode haver
entre essas duas fontes de constrangimentos. garantia de que as maiorias eleitorais sempre fa-
Também devemos destacar um conjunto de vorecerão a preservação da “civilidade” tão cara
ameaças não intencionais e não políticas. Estas às minorias mais bem instruídas. Ao contrário, a
têm natureza “estrutural” e, embora sejam ampla- “autonomia e a civilidade” de uma parte podem
mente conhecidas, merecem ser citadas: desem- ser facilmente interpretadas por outras partes da
prego (que dificilmente conduz à civilidade ou à sociedade como privilégio elitista que precisa ser
deliberação coletiva); criminalidade (que erode a retirado.
autonomia dual e encoraja a usurpação); sistemas A recente recondução ao poder, via eleições
monopolistas de controle social local (que, inde- competitivas, de alguns dos partidos comunistas
pendentemente de intenção política, bloqueiam a menos reformados nas novas democracias de vári-
deliberação, estimulam a intolerância, obscure- os países do Leste Europeu serve para ilustrar essa
cem a legitimidade dos pontos de vista alternati- tensão persistente entre as reivindicações rivais de
vos); os efeitos atomizantes da supremacia de lealdade à sociedade civil e à democracia política.
mercado, e daí por diante. Novamente o propósi- Todos os teóricos liberais eminentes, como Gray e
to da lista não é amalgamar todas essas estruturas Gellner, invocam visões da sociedade civil em
em uma ameaça indiferenciada, nem supor que contraposição ao comunismo, o que pode ser lido
elas sejam determinadas separada ou conjunta- como a deslegitimação de tais resultados eleito-
mente. Ao contrário, o objetivo é demonstrar a rais. 13
sua heterogeneidade e fragmentação. Isso implica De maneira similar, Schmitter também reco-
que a sociedade civil sempre será pressionada a nhece a separação dos dois processos e o potencial
partir de múltiplas fontes, e que em qualquer de atrito entre eles, embora, em uma análise
comunidade política moderna o mais provável é centrada na democracia capitalista, ele tenda a
que ela conviva com fontes persistentes e subs- apresentar a sociedade civil como positiva para a
tanciais de incivilidade. Não haverá nunca a ten- consolidação democrática no longo prazo e em
dência à uniformidade de cobertura através de condições normais. A “sociedade civil, entretanto,
qualquer Estado nacional. Conseqüentemente, não é uma dádiva completa para a democracia. Ela
uma certa capacidade de organização sempre pode afetar a consolidação e o subseqüente fun-
será requerida para a autodefesa e a auto-repro- cionamento da democracia em uma série de for-
dução, de forma a que se consiga segurança e mas negativas”. Dentre essas ele inclui:
preservação da hegemonia política. (2) A sociedade civil pode levar a uma distri-
Em uma democracia moderna, esses bol- buição da influência sistematicamente tendenciosa
sões ou estratos de incivilidade também possuem no processo de produção das políticas públicas;
direitos políticos e têm sua parcela de representa- (3) Ela tende a impor um acordo complexo e
ção na realização das políticas públicas. Depen- obscuro sobre a vida política, o que pode resultar
dendo, portanto, do seu tamanho e da sua capa- em políticas públicas que ninguém queria desde o
cidade de articulação política, eles ajudarão a início e com as quais, conseqüentemente, ninguém
conduzir a sociedade no rumo do governo demo- pode se identificar;
24 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 14 No 41

(5) Ainda mais perigoso, a sociedade civil “contestada essencialmente”) nesse nível de abs-
“pode se revelar não uma, mas várias sociedades tração. Uma avaliação razoável dependerá, em
civis — todas ocupando o mesmo território e a parte, de onde o observador está localizado na
mesma comunidade política, mas organizando in- estrutura social, e da forma pela qual uma socie-
teresses e paixões em comunidades que são distin- dade civil particular funciona e se relaciona com
tas, ou até mesmo mutuamente exclusivas, étnica, o sistema político mais amplo. Talvez fosse me-
lingüística e culturalmente”.14 lhor para a democracia norte-americana se todos
Os dois últimos parágrafos apresentaram fôssemos juntos a clubes de boliche mais fre-
imagens normativas diametralmente opostas da qüentemente. Mas enquanto no Upper East Side
relação entre sociedade civil e democracia. No da ilha de Manhattan uma questão natural de
primeiro, a sociedade civil é o sustentáculo da deliberação para a comunidade seria a carga fis-
liberdade, mas é ameaçada pela aplicação mecâ- cal excessiva e o gasto social inútil, no Bronx
nica da política majoritária em uma sociedade uma forma diferente de civilidade poderia emer-
com uma herança incivil ainda predominante. No gir com maior probabilidade. Da mesma forma,
segundo, a consolidação da democracia política é os impedimentos à ação coletiva efetiva quase
tomada como um objetivo desejável, e a socieda- certamente se mostrariam muito diferentes nos
de civil pode, conseqüentemente, ser analisada e dois casos.
avaliada de acordo com a qualidade de sua con- Uma forma de dar conta dessa diversidade
tribuição potencial, que pode ser negativa. Se- é afirmar que quaisquer deliberações coletivas
gundo a primeira visão, quanto mais forte for a que não sejam subversivas, e que não infrinjam a
sociedade civil, melhor, mesmo que inerente- lei, são tão legítimas quanto quaisquer outras. É
mente esta seja mais “densa” em alguns locais do claro, para atingir resultados positivos dentro de
que em outros. De acordo com a segunda visão, um quadro constitucional liberal seria necessário
somente as formas de sociedade civil que contri- vencer vários interesses diversos. Algumas formas
buem para a consolidação de uma alta qualidade de deliberação conseqüentemente seriam mais
de democracia política são claramente desejáveis. bem-sucedidas do que outras (por serem mais
Outras formas também podem ser não igualitárias persuasivas, ou orientadas de forma mais habili-
demais, excessivamente promotoras de pressões dosa). Mas formas não efetivas e não persuasivas
e desordens, ou mesmo muito “incivis” para se- de deliberação também são permitidas, desde
rem desejáveis. Na verdade, democratização sóli- que não infrinjam um pequeno número de proi-
da pode necessitar de reformas amplas, e talvez bições definidas claramente. Em princípio, na
até do enfraquecimento de sistemas herdados de verdade, esse é o caminho pelo qual os regimes
vida associativa densa.15 democráticos definem o âmbito das deliberações
A primeira versão sobre a relação entre socie- toleráveis. Mas será que o mesmo critério serve
dade civil e democracia parte do princípio da para limitar o escopo do debate no interior da
existência de um Estado que impõe idéias e con- sociedade civil? De acordo com a definição ado-
ceitos. A sociedade civil então precisa se fortalecer tada aqui, a resposta a essa pergunta é aparente-
contra essa fonte de ameaça à sua “autonomia mente não.
dual”. Na segunda perspectiva, diferentemente, Na maioria das definições (incluindo a usa-
assume-se implicitamente que falta autoridade ao da aqui), seria mais plausível dizer que algumas
Estado. O principal risco à autonomia dual, portan- formas de discussão que não são ilegais em uma
to, vem da captura da sociedade civil por interesses democracia podem ser, entretanto, incivis, ou
particularistas. ameaçadoras das normas cruciais de não usurpa-
Como essas duas possibilidades são tanto ção e tolerância interpessoal. Várias formas de
teórica como empiricamente plausíveis, podemos fundamentalismo religioso podem ter de ser tole-
concluir que a relevância moral que podemos dar radas no interior de uma democracia, mas não
à sociedade civil é indeterminada (talvez até podem ser consideradas como parte de uma “so-
JOGANDO BOLICHE NO BRONX 25

ciedade civil” liberal moderna. Uma família rica ço social freqüentemente muito maior do que o
pode se empenhar em comprar um jornal e utili- ocupado pela própria sociedade civil emergen-
zá-lo para desacreditar seus inimigos, e pode te.16 Para analisar o escopo da “consolidação
executar toda a operação tomando cuidado para democrática” nessas sociedades, necessitamos,
permanecer o tempo todo dentro da lei, mas isso portanto, prestar atenção às manifestações políti-
não envolve nenhuma manifestação de autono- cas da “sociedade incivil” nas democracias emer-
mia dual ou de civilidade. Administradores públi- gentes. Também precisamos considerar como a
cos podem criar um conluio para reter informa- escala e o poder dessa sociedade “incivil” podem
ções que o eleitorado “deveria” saber (de forma a afetar o conteúdo e as características de qualquer
poder fazer escolhas políticas bem fundadas), e forma de sociedade civil correspondente. A seção
novamente isso pode ser feito dentro da lei, mas final deste artigo destaca algumas idéias prelimi-
mesmo assim é “incivil”. Na verdade, a própria nares a esse respeito.
questão de quão rigorosamente a lei será cumpri-
da em várias situações pode também ser objeto
A sociedade civil e o “Outro”
de manipulação incivil que permaneça dentro
dos limites das ações permitidas constitucional- Se a sociedade civil se caracteriza por sua
mente. capacidade de deliberação e pela ação coletiva
Resumindo, no domínio do discurso coleti- (nos limites estabelecidos pela não usurpação e
vo, assim como no reino da estrutura social, há pela civilidade), então podemos esperar que ela
um vazio entre a cobertura estreita do que per- delibere e aja sobre as ameaças previsíveis à sua
tence propriamente às várias concepções de “so- existência, ou à sua capacidade de desenvolvimen-
ciedade civil” e a cobertura ampla requerida de to futuro. Essas ameaças podem ser atribuídas
uma comunidade política. De um lado desse va- primariamente à “sociedade tradicional” e a seus
zio podemos identificar deliberações “incivis” e constrangimentos habituais, ou ao “Estado moder-
estratos sociais “incivis”. A fronteira precisa entre no”, com suas propensões à racionalização e à
o civil e o incivil pode ser difícil de definir mes- atomização. Entretanto, particularmente em demo-
mo em princípio, e mais ainda na prática. Pode- cracias recentes, elas podem também estar locali-
se esperar que alianças de conveniência sejam zadas nos interstícios incivis da nova comunidade
construídas de tempos em tempos cobrindo o política (nem no privado-tradicional nem no públi-
vazio (como quando os barões da mídia incivis co-burocrático).
se associam às mais respeitáveis instituições libe- Cada um desses diagnósticos invoca um mo-
rais na defesa de algum assunto de interesse delo (ou teoria) alternativo e implica uma estraté-
comum, ou quando fundamentalistas procuram a gia particular de autoperpetuação. Em qualquer
proteção de forças políticas libertárias civis). Mas, exemplo particular, essas três concepções rivais
se a “sociedade civil” carrega quaisquer das co- podem ser encontradas em conflito no interior das
notações morais e sociológicas consignadas a ela assembléias de uma dada “sociedade civil”. Quan-
pelos teóricos, deve haver uma fronteira delimitá- do a família tradicional e as lealdades particularis-
vel. Se assim for, as atividades que repousam do tas são definidas como o problema central a ser
outro lado dessa fronteira — no campo que de- superado, estratégias de “fortalecimento do Esta-
nominei de “interstícios incivis entre a sociedade do” podem parecer aceitáveis, particularmente
civil e a sociedade política” — podem ser de aquelas que fortalecem a “esfera pública” pela
grande significância para a qualidade e a estabili- garantia de direitos cívicos impessoais e reforçan-
dade da democracia como um todo. Esta seção do o Estado de direito. Mas quando (como nas
tenta ilustrar a extensão desses efeitos mesmo em democracias recentes pós-comunistas, e também
democracias ocidentais bem estabelecidas. Sendo no discurso neoliberal latino-americano) a realiza-
assim, pode-se argumentar que em democracias ção de inúmeras tarefas pelo Estado é vista como
novas esses interstícios incivis ocupam um espa- uma ameaça, então a desregulamentação, a priva-
26 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 14 No 41

tização e a redução do Estado tornam-se as estraté- peito a fenômenos como a irresponsabilidade im-
gias preferidas. Em princípio, estes também podem pessoal da mídia de massa comercializada mo-
envolver o aprimoramento de alguma forma de derna; a impulsividade de um eleitorado desori-
“espaço público” onde os agentes autônomos pos- entado e desenraizado; a visão de curto prazo
sam interagir sem manipulação. Nesse caso, tam- dos mercados financeiros especulativos; a insegu-
bém pode-se sustentar que a legalidade imparcial rança gerada pelo crime bem organizado, tipica-
e os direitos estão presentes, mas faz uma grande mente localizado em setores estratégicos como o
diferença que esses direitos sejam assegurados tráfico de armas, a lavagem de dinheiro e o co-
contra o Estado, ao invés de sob a sua proteção, e mércio de narcóticos? As normas da autonomia
que o sistema judicial seja submetido à mesma dual, da deliberação racional, da civilidade e dos
austeridade e aos mesmos testes de mercado que o “direitos fundamentais universais” de Cohen e
resto da burocracia estatal.17 Isso porque, nessas Arato podem todas ser sitiadas por incivilidades
condições, o Estado de direito resultante respon- potencialmente majoritárias como essas, o que
derá acima de tudo aos requerimentos do comér- não pode, na sua maior parte, ser atribuído dire-
cio, ao invés de se submeter à racionalidade tamente a nenhuma das duas fontes típicas de
dirigida do Estado.18 Na linguagem de Habermas, ameaça contra a sociedade civil. Como já tive
isso leva ao empobrecimento cultural e à coloniza- oportunidade de destacar, essa terceira forma de
ção do mundo-da-vida, a partir do qual se supõe desafio à sociedade civil agora pode ser encon-
que a sociedade civil moderna deva emergir. trada em todos os lugares — mesmo nas demo-
Como a norma da “autonomia dual” deixa cracias liberais mais seguras e mais desenvolvi-
claro, as sociedades civis estão sempre, de alguma das. Alguns teóricos enfatizam como novas ten-
forma, sob pressão de ambos os lados, do particu- dências dominantes a importância da integração
larismo tradicional e do Estado que se intromete global e a erosão da autonomia do Estado-nação.
excessivamente. A preservação e o aumento de Na minha opinião, isso pode ajudar a explicar
uma esfera autônoma requerem um fluxo constan- alguns dos elementos de incivilidade majoritária
te de recursos e de novos membros, regulados com listados acima, mas de forma alguma todos. Parti-
vigilância e continuidade de propósitos. A socieda- cularmente em democracias recentes, com fre-
de civil consiste em centros de associação múlti- qüência a maneira pela qual os regimes autoritá-
plos que se autoperpetuam, competindo tanto rios acabaram e as heranças incivis que eles dei-
quanto cooperando a fim de promoverem interes- xaram para trás com o seu final apresentam-se
ses rivais e projetarem suas concepções alternati- como mais críticos do que a erosão do Estado
vas de autonomia, civilidade e autopreservação. nacional como tal.
Alguns desses centros encolherão graças ao parti- Nas democracias recentes, as sociedades ci-
cularismo, mas esperam se beneficiar da força do vis emergentes são, por definição, incipientes e
ativismo estatal. Outros resistirão firmemente ao ainda não testadas. As normas da autonomia dual,
direcionamento imposto pelo Estado, mas aceita- da deliberação independente e da civilidade foram
rão se aliar a aspectos do tradicionalismo social. No pouco cultivadas durante o domínio autoritário
interior de cada sociedade civil, perspectivas e (exceto, talvez, entre algumas minorias muito pri-
prioridades alternativas competirão por ascendên- vilegiadas sob o regime que Linz denominou de
cia com sucesso flutuante à medida que se perceba “pluralismo limitado”) e, conseqüentemente, elas
que o ambiente externo muda. tiveram de ser promovidas e mantidas frente à
Mas, e se, como em muitas democracias frente com a opressão oficial. Isso trouxe uma
recentes, o maior risco para a sociedade civil não intensa experiência de aprendizado às minorias de
vier — ou ao menos se considerar que não ve- ativistas, e com frequência a sua influência social
nha — nem do estatismo, nem do particularismo explodiu quando o regime autoritário deixou o
tradicional, mas de uma incivilidade majoritária poder. Na melhor das hipóteses, entretanto, eles
de moldes modernos? A referência aqui diz res- eram um grupo selecionado e nem todos dentre
JOGANDO BOLICHE NO BRONX 27

eles eram profundamente socializados nas normas mente às contradições internas e aos constrangi-
da civilidade. Assim, as escolhas que eles enfrenta- mentos externos que eles enfrentam, mas o con-
ram durante o período confuso da democratização junto de alternativas compatível com a sobrevi-
os dispersaram em atividades amplamente espa- vência e eventual crescimento é certamente limi-
lhadas. (A virtual desintegração do bloco Solidari- tado e inibidor da ação. Em alguns casos, socie-
edade na Polônia depois de 1989 parece ser um dades civis fortes podem, apesar de tudo, ser
caso paradigmático.) Vários grupos ativos educa- construídas ao longo de um período de tempo
dos em normas menos civis estiveram competindo significativo, mas não sob condições de sua pró-
com eles por influência na vida pública depois da pria escolha. Utilizando a linguagem de Gellner,
transição — pragmáticos da estrutura de poder as condições para uma sociedade civil realista
autoritária; revanchistas, chauvinistas e fundamen- podem não permitir a realização da sociedade
talistas, de outros setores da oposição; os novos civil ideal.
ricos, freqüentemente preocupados com a “acu- A existência de governos constitucionais ba-
mulação primitiva”; consultores estrangeiros do seados no sufrágio universal normalmente implica
tipo “vendedores de tapetes”, sem nenhum com- que aqueles que querem realizar um ideal de
promisso durável com a sociedade local, e daí por conduta pública devem promover a sua causa
diante. A lista poderia ser estendida mais ainda, através da política partidária ou ao menos através
mas o ponto já está claro. Nessas situações, qual- do processo eleitoral. Entretanto, as normas da
quer sociedade civil que tenha sido estabelecida “autonomia dual” e da “não usurpação” que atribu-
de forma precária será frágil e estará sitiada de ímos à sociedade civil implicam que o termo não
todos os lados. Ela terá de dar conta de uma deve ser estendido para incluir as organizações
comunidade política povoada, em sua maioria, por políticas que competem para ocupar cargos públi-
atores cujo compromisso com a civilidade é ques- cos. Além disso, em muitas democracias recentes,
tionável ou ausente. algumas das organizações mais eficientes em ven-
Muito tempo antes de essa “sociedade civil” cer eleições se ressentem de uma tradição de
ter sido estabilizada e consolidada, a comunidade compromisso com a norma de “civilidade” e/ou
política terá produzido uma sucessão de decisões permitem muito pouca “deliberação” em seus as-
fundadoras que constrangerão fortemente os pa- suntos internos. Portanto, geralmente não há ne-
drões de interação política. Não há dúvida de nhuma razão particular para esperar uma “afinida-
que certas formas de engenharia constitucional de eletiva” entre uma sociedade civil vigorosa e a
podem melhorar as perspectivas de uma socieda- presença de partidos políticos bem-sucedidos elei-
de civil viável (por exemplo, através de uma lei toralmente. Decerto, em vários casos podemos
de direitos bem elaborada, ou talvez através do verificar que a emergência de uma sociedade civil
parlamentarismo ou do federalismo). De maneira com base mais ampla é seguida pelo estabeleci-
similar, algumas estratégias de modernização eco- mento de partidos políticos democráticos que
nômica têm maior probabilidade de encontrarem agem de acordo com uma sociedade civil ideal.
apoio do que outras (por exemplo, esquemas de Mas outros dois modelos são igualmente plausí-
regionalismo aberto baseados em leis, desregula- veis: (a) um antagonismo entre os arquitetos da
mentação, algumas formas de privatização). Mas sociedade civil e os líderes partidários bem-sucedi-
não há nenhuma receita única e garantida aplicá- dos ou (b) uma compartimentação das duas esfe-
vel em todos os casos, nem a saúde da sociedade ras.19 A relação entre sociedade civil e partidos
civil deve ser o único ponto para consideração políticos requer, claramente, análise cuidadosa,
quando as alternativas são submetidas à escolha. que não foi possível executar ao longo deste
Na prática, outras considerações normalmente artigo.20 Mas nós podemos aqui ao menos advertir
mostrar-se-ão decisivas. Não há tampouco uma contra o erro do reducionismo.
única forma pela qual os líderes de uma socieda- Mas e se o “Outro” contra o qual as cabeças
de civil incipiente devam responder necessaria- pensantes da sociedade civil podem se organizar
28 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 14 No 41

não for nem o Estado autoritário, nem a inércia constitucional e que consideram legítimo participar de
da tradição, mas, ao contrário, a insegurança, a formas “incivis” de oposição política. O Sínn Féin, o Heri
Batasuna e os nacionalistas da Córsega ilustram esse
rudeza, a arbitrariedade e até mesmo o canibalis- padrão de incivilidade.
mo social que tem sido associado a tantas socie- 4 O título é também uma referência ao artigo de Putnam
dades liberalizadas após a transição? Que tipo de (no prelo). Putnam conclui que nos Estados Unidos “a
sociedade, baseada em quais princípios organiza- participação caiu (com freqüência de forma abrupta) em
vários tipos de associações cívicas, de grupos religiosos
tivos, pode sobreviver e se desenvolver diante a sindicatos de trabalhadores, de clubes de mulheres a
desse “Outro” anômico moderno? Uma “cidade” clubes de fraternidades e do encontro de vizinhança a
hobbesiana, talvez unida apenas pelo medo da ligas de boliche. Virtualmente todos os segmentos da
guerra de todos contra todos circundante? Guil- sociedade foram atingidos por essa redução no relacio-
namento social [...] [que] parece ser um provável deter-
das hegelianas? Ou uma burguesia marxista? Uma minante de vários dos males sociais e políticos que
rede tocquevilliana de associações locais (e clu- afligem no momento os Estados Unidos, e que talvez
bes de boliche)? Ou mesmo o “mundo-da-vida” coloquem em cheque também outras democracias
avançadas.
da interação comunicativa de Habermas? Cada
5 Para uma exposição recente e sofisticada conduzida a
uma dessas respostas tende a privilegiar uma ca- partir de dentro da tradição da teoria crítica alemã, cf.
tegoria sociológica particular — especialistas em Cohen e Arato (1993). Dentre os muitos autores de
segurança, mestres artesãos, capitalistas, jornalis- primeira linha analisados por eles, Arendt, Gramsci,
Parsons e inevitavelmente Habermas recebem atenção
tas locais, intelligentsia, e daí por diante — e
particularmente cuidadosa. Cf. cap. 9.
nenhuma delas parece aplicável, de forma auto-
6 Note-se que essa definição inclui os sindicatos de
evidente, às democracias recentes como um todo. trabalhadores mas exclui as empresas privadas. Onde
Cada qual pode sugerir um fragmento de um ficam, então, as empresas de comunicação e mídia de
todo potencial, mas nenhuma fornece um guia propriedade privada, assim como as igrejas?
claro com relação aos princípios sob os quais 7 Gellner (1994, pp. 8 e 10). Quem considerar a linha de
argumentação de Gellner excessivamente eurocêntrica
elas deveriam ser integradas. Na prática, diferen-
pode utilizar Carrithers, Collins e Lukes (1985) e Godoy
tes formas de sociedade civil provavelmente mos- (1996) para a correção parcial de tais problemas.
trar-se-ão relativamente viáveis em democracias 8 Collingwood (1992, p. 292, parags. 35-41). No entanto,
recentes, mas de um modo geral podemos con- resta a pergunta: a norma de civilidade também se aplica
cluir que os princípios de integração mais efica- ao tratamento dos grupos externos, aqueles não cober-
tos pelas regras preestabelecidas ou não socializados
zes virão mais provavelmente de fora do que de por essa concepção de auto-respeito? O livro de Collin-
dentro. Isso quer dizer que as sociedades civis gwood foi publicado no momento mais grave da Segun-
que obtenham melhores resultados com as pres- da Guerra Mundial (janeiro de 1942) e parece um pouco
ambivalente sobre essa questão crucial.
sões das maiorias incivis têm as melhores pers-
pectivas. Se elas conseguirão ou não correspon- 9 Na sua narrativa do que denomina “a transformação
estrutural da esfera pública”, Habermas vê a sociedade
der às esperanças idealistas que tantos teóricos civil como a arena na qual a opinião pública pluralista
recentes depositam nelas é um outro problema. consegue se fazer passar por fonte independente de
poder. Entretanto, algumas vozes obviamente se ex-
pressam mais alto do que outras na arena da opinião
NOTAS pública, e nem todas as opiniões que se expressam em
uma arena pública não restringida são igualmente “ci-
vis”. Cf. Habermas (1993).
1 Para uma compilação útil e atualizada dessas complica- 10 Para uma apresentação recente e vigorosa desse caso
ções, incluindo a desagregação institucional e regional, ver Hirst (1994).
e uma discussão dos julgamentos de Andreotti, cf.
11 Em uma visita recente à África do Sul, fiquei impressio-
Violante (1996).
nado com a riqueza e estabilidade da sociedade civil
2 Le Monde, 30/12/1995, p. 5. que tinha servido de abrigo à população branca — e
3 A Grã-Bretanha, como muitas das “poliarquias” estabe- talvez mesmo à população de cor da Província do Cabo
lecidas há muito tempo, estende os direitos políticos — sob o apartheid, ao mesmo tempo que as possibili-
(direitos de voto e de organização) a comunidades de dade pacíficas de associação da maioria não branca
tamanho significativo que rejeitam a sua autoridade eram suprimidas ativa e energicamente. O Ulster protes-
tante provavelmente também apresenta uma polariza-
JOGANDO BOLICHE NO BRONX 29

ção de alguma forma comparável na promoção da de mercado, enquanto o primeiro-ministro Havel iguala
sociedade civil, nesse caso legitimada pelo sufrágio democracia com liberdade individual, incluindo liber-
universal que garantiu a subordinação dos católicos. dade da engenharia social em nome da sociedade civil.
12 Se os amigos de Putnam não jogam mais boliche, isso Cf. Havel, Klaus e Pithart (1996).
acontece, em parte, pela existência de tantas diversões 18 Lembremos do pluralismo liberal de Durkheim, para
competidoras que estão presentes eletronicamente e em quem era o Estado quem “criava e organizava e fazia dos
casa nos dias de hoje. direitos naturais individuais uma realidade”. Na verda-
13 No seu último livro, Ernest Gellner (1994, pp. 188-189) de, a sua “função essencial” era “liberar as personalida-
apresenta convincentemente os dois argumentos teóri- des individuais”, contrabalançando a pressão sobre elas
cos rivais que reivindicam validação, e afirma a sua dos grupos domésticos locais, eclesiásticos, ocupacio-
escolha claramente: “Teóricos da democracia que ope- nais e demais grupamentos secundários (enquanto os
ram no abstrato, sem referência às condições sociais últimos também precisavam contrabalançar a tirania
concretas, acabam por absolver a democracia como potencial do Estado). Cf. Lukes (1973).
uma idéia geral, mas são obrigados a conceder que em 19 Essas três alternativas foram elaboradas por Forment
muitas sociedades o ideal não é realizável.[...] Não é (1995).
melhor afirmar as condições que fazem a idéia viável, ou 20 Minha abordagem tem sido excluir todos os partidos
mesmo obrigatória, e começar a partir daí? A sociedade políticos da “sociedade civil”, baseado no fato de que
civil é uma noção mais realista, que especifica e inclui as eles competem por cargos nacionais. Uma alternativa a
suas próprias condições [...] Como destacam aquelas isso seria incluir os partidos políticos que representem
precondições institucionais e o contexto histórico ne- os interesses de setores substanciais da sociedade civil
cessário, a ‘sociedade civil’ é provavelmente um slogan (e somente esses). Isso envolveria fazer algumas distin-
mais esclarecedor do que democracia”. ções discricionárias entre partidos políticos. O Partido
14 Schmitter (1995, p.14). Note-se que essas potencialida- Comunista Italiano expressa os interesses de elementos
des negativas tendem a contrabalançar os atributos de destaque na sociedade civil, ou ele os substitui e os
positivos enfatizados pela definição inicial de Schmitter. subordina a seus interesses? Isso é estável ao longo do
Aqui, a não usurpação torna-se desvirtuamento das tempo, ou variável? Como podemos provar uma inter-
políticas públicas, a deliberação torna-se opacidade e a pretação ao invés da outra?
civilidade torna-se tribalismo. É difícil sustentar uma
imagem idealizada da sociedade civil que ao mesmo
tempo dê conta do seu impacto desigual no funciona- BIBLIOGRAFIA
mento de uma comunidade política mais ampla.
15 Carlos M. Vilas (1996) apresenta algumas ilustrações ALBERTI, Giorgio. (1995), “Movimentismo” and de-
impressionantes desse ponto de vista em um panorama mocracy: an analytical framework and the
geral das novas democracias na América Central. Ele Peruvian case study. Bolonha, CESDE, mimeo.
retrata as oligarquias locais fundadas na herança direta
das estruturas de exclusividade social que aprenderam CARRITHERS, Michael, COLLINS, Steven e LUKES,
a desfilar a retórica da democracia de mercado como Steven (orgs.). (1985), The category of the
discurso público, mascarando a continuidade de sua person: Anthropology, Philosophy and History.
supremacia, enquanto suas práticas sociais mais íntimas Cambridge, Cambridge University Press.
perpetuam valores altamente antidemocráticos. Compa-
rar com Gyimah-Boadi (1996) sobre as fraquezas da COHEN, Jean e ARATO, Andrew. (1993), Civil society
sociedade civil na África: os “valores pré-liberais e and political theory. Cambridge, MIT Press.
antiliberais [...] tendem também a impregnar as associa-
ções civis seculares e modernas [...] tendências a que COLLINGWOOD, R.G. (1992), The new Leviathan: on
algumas associações civis-chave se recusem a estabele- man, society, civilization and barbarism.
cer burocracias ‘racionais’; a ‘ungir’ ao invés de eleger Oxford, Clarendon Press.
os seus executivos (incluindo aqueles envolvidos no
trabalho pró-democracia); e a dotar seus líderes de FORMENT, Carlos A. (1995), Civil society and the
mandatos vitalícios”. invention of democracy in nineteenth century
Cuba. Princeton, Princeton University, mimeo.
16 Giorgio Alberti (1995), da Universidade de Bolonha,
baseou seu conceito de movimentismo no Peru e na FUKUYAMA, Francis. (1995), Trust: new foundations
Argentina em um argumento análogo. Guillermo of global prosperity. Londres, Hamish Hamil-
O’Donnell (1993) cunhou o termo “áreas marrons” para ton.
se referir a amplos setores da sociedade latino-america-
na onde condições incivis prevalecem. GELLNER, Ernest. (1994), Conditions of liberty: civil
17 Comparar o debate checo sobre a “sociedade civil”, em society and its rivals. Londres, Allen Lane.
que o presidente Havel tenta promover o conceito como GOODY, Jack. (1996), The East in the West. Cambrid-
um corretivo para a ênfase excessiva na relações puras
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30 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 14 No 41

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