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O “CONHECIMENTO OBJETIVO” E O “PROBLEMA” COMO PRESSU-

POSTOS DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO PARA KARL R.


POPPER

Igor das Mercês Mairinque (PIIC- UFSJ)


Orientadora: Profª Mariluze Ferreira de Andrade e Silva

Resumo: O filósofo austríaco Karl Raymond Popper (1902-1994) desenvolve uma nova
forma de abordar a questão do conhecimento, com o intuito de combater o pensamento
moderno, que se alastrou pelo mundo, difundido por nomes como Hume, Berkley e Lo-
cke, que alegavam que para se conhecer alguma coisa era necessário ter sensações e
observações acerca de determinado objeto alvo de estudo. Popper concorda que as ob-
servações e sensações são necessárias, mas diz que antes é preciso formular uma hi-
pótese a ser comprovada empiricamente. A hipótese é a tentativa de se resolver um pro-
blema, o que resulta no desenvolvimento do conhecimento humano como um constante
processo de se solucionar questões de ordem prática e teórica.

Palavras-chave: Conhecimento Objetivo. Problema. Teoria do Conhecimento.

1. Introdução

A
proposta de Popper de se pessoas compreendam o valor da
entender o processo de cons- ciência para as suas vidas. E com a
trução e desenvolvimento do ciência, vem a expansão do conhe-
conhecimento através da formulação cimento e de seus significados. Tudo
de hipóteses para se resolver pro- isso, nada mais é do que uma forma
blemas é a chave para que o ser hu- de caracterizar a Filosofia, o conjunto
mano venha a encontrar uma evolu- de elementos, fatores e momentos
ção ainda maior neste mundo. que compõem a presença do ser hu-
mano neste mundo.
Ver as soluções como possibilidades,
não como definições, permite ao ho- 2. A Construção do Conheci-
mem buscar mais e melhores res- mento para a Filosofia Tradicio-
postas às suas inquietações, fazendo nal e para Karl Popper.
com que ele não se entregue a con-
ceitos formados, e desenvolva a ca- A construção do conhecimento hu-
pacidade racional de formulá-los, mano e a forma como ele se procede
através do constante exercício da são estudados pela Teoria do Co-
pesquisa científica. nhecimento ou Epistemologia. Urba-
no Zilles a define em seu livro Teoria
Desse modo, o trabalho de Popper é
o de trazer os meios para que as

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do Conhecimento1, como sendo a homem possuir algumas percepções


ciência que indaga os elementos e sobre este mundo, ou seja, experiên-
condições para que o conhecimento cias obtidas através dos sentidos.
possa se manifestar. Diz também que Isto quer dizer que o conhecimento
é preciso se encontrar um critério de seria adquirido e armazenado no ser
certeza para o conteúdo do conheci- humano, antes de ser expresso para
mento, ou seja, a adequação entre o os demais membros da humanidade
objeto do conhecimento e o seu con- através de uma lei, teoria ou solução.
ceito. Para que um conceito pudesse ser
proferido, seria necessário à pessoa
Até o momento em que Popper resol- o maior número de dados sensoriais
ve traçar novos rumos para a Teoria no interior de seu intelecto. Popper,
do Conhecimento, havia uma forma se referindo a esta maneira de se ver
de vê-la que era muito difundida, in- a questão do conhecimento, chega a
clusive por filósofos importantes definir a mente humana como um
como Bacon, Hume, Locke, Berkley e “balde”, onde as impressões sensori-
Kant, caracterizando um momento de ais acerca do mundo e de sues ob-
grande valor para a História do Co- jetos são depositadas e armazena-
nhecimento da Humanidade, onde o das. Estas impressões poderiam ser
empirismo e o racionalismo estavam de dois tipos: acumuladas (empirismo
em condição de destaque. Este mo- ingênuo) ou assimiladas (teorias de
mento corresponde ao que os histori- nomes como Bacon e Kant).
adores da filosofia chamam de Filo-
sofia Moderna, e foi caracterizado por As observações é que gerariam as
Popper como a fase da Epistemolo- hipóteses, através de processos de
gia Subjetiva. Os dois elementos fun- generalização, associação e classifi-
damentais eram a sensibilidade e o cação destas mesmas observações.
intelecto. O nome Subjetivista é dado O intelecto humano estaria encarre-
devido ao fato de que ela se baseia gado de realizar estes processos.
apenas em crenças, não traz uma Estes processos dão valor ao cha-
certeza, e com isso, não consegue mado Indutivismo.
uma explicação satisfatória e convin-
cente para o progresso do conheci- Um dos primeiros modelos de Epis-
mento. temologia Subjetivista é a concepção
atomista, formulada na Grécia Antiga,
Esta abordagem “famosa” da Teoria onde os átomos se desprendiam dos
do Conhecimento apresentava a idéia objetos e penetravam em nossos
de que antes de se dizer algo sobre o órgãos dos sentidos, tornando-se
mundo ou de se buscar algum co- percepções e transformando-se em
nhecimento dele, era necessário ao conhecimentos.

1
Outro exemplo está na teoria induti-
ZILLES, Urbano. Teoria do Conheci-
vista de David Hume (1711-1776),
mento. Porto Alegre: Edipucrs, 1994
(Coleção Filosofia-21). que como os outros, alegava que o

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conhecimento só poderia provir da problema à solução. Para Popper, a


experiência. Segundo ele, as idéias ciência possui um número infinito de
mais simples seriam associadas e possibilidades, sempre caracteriza-
conectadas, formando idéias mais das pela inovação e pela imaginação.
complexas, ou seja, conhecimentos Este espírito desbravador deve estar
mais elaborados. Cada impressão presente no homem que busca o co-
deveria estar ligada a uma determi- nhecimento. Outra razão para que a
nada idéia, num processo de suces- indução seja considerada uma forma
são ininterrupta. Manuela Carraro de conhecimento errada, está no fato
Leão comenta a respeito do “inferir de que as repetidas observações
indutivamente” de Hume. acerca de um objeto não são sufici-
entes para determinar que este ob-
Hume responde que após a repetição jeto possua uma forma e não outra.
de casos semelhantes, o espírito é im- Por exemplo, as muitas observações
pelido pelo hábito ou costume a que faço de cisnes brancos não po-
aguardar um evento quando surge o dem afirmar que todos os cisnes se-
outro, sendo que esta transição cos- jam brancos, pois, sei que existem
tumeira de um objeto a outro é a im- cisnes negros. Assim sendo, a indu-
pressão que origina a idéia de conexão ção não possibilita resultados definiti-
necessária e que permite inferir induti- vos e concretos ao conhecimento.
vamente. Quando um grande número
de inspeções aflui num único evento, Outro pensador que também defende
elas o fortificam e confirmam na imagi- a idéia de que as observações repre-
nação, engendrando um sentimento de sentam a matéria-prima do conheci-
crença que confere a tal evento maior mento é Immanuel Kant (1724-
preferência e confiabilidade. 2 1808). Para ele, o conhecimento es-
taria na experiência, que era o resul-
Popper critica esta forma epistemolo- tado de assimilação e transformação
gia, pautada na crença de informa- dos dados sensíveis com determina-
ções que se repetem, descartando-a dos ingredientes (formas a priori de
e passando a valorizar a crítica dos tempo, espaço e categorias) que es-
argumentos e hipóteses. Além disso, tariam no intelecto. As percepções
ele diz que a indução não existiria, entrariam no “balde” e passariam por
pois, as teorias não poderiam ser processos de classificação sistemáti-
deduzidas de enunciados singulares, ca, até se tornarem conceitos.
ou seja, não poderia haver um núme-
ro finito de teorias que levassem um Popper não vê as percepções como
as responsáveis diretas pela criação
2 da ciência ou da experiência.
LEÃO, Manuela Carraro. A Indução na
Filosofia: Lógica e Psicologia em Hume e
a Crítica de Popper. Metanóia. São João
Outros exemplos de Epistemologia
del Rei, jul. 2002. <http// www.funrei.br/ Subjetivista, que também foram alvos
publicações/Metánoia, p. 36. da crítica de Popper, foram a episte-
mologia racionalista de Descartes; a

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redução fenomenológica e eidética de acordo com o conteúdo da cons-


de Husserl (sujeito cognoscente re- ciência e do ambiente de cada um.
duzido a pura consciência cognitiva); São, portanto, um conjunto de ex-
a “teoria dos perfis” de Merleau- pectativas que cada um de nós temos
Ponty. para que possamos traçar o nosso
próprio desenvolvimento neste mun-
Todas estas experiências não conse- do, conferindo a ele, os significados
guiram resolver os aspectos empíri- das experiências, ações e observa-
co, pessoal e aperceptivo do sujeito ções que fazemos sobre sua existên-
cognoscente, de forma a ressalvar a cia.
possibilidade do conhecimento objeti-
vo. É esta a tarefa que Popper tenta Algumas expectativas permanecem
realizar. iguais por muito tempo, até por toda a
vida em alguns casos. Entretanto,
O que ele pretende é justamente uma algumas são modificadas devido à
abordagem contrária a esta tradicio- necessidade de novas observações
nal, destacando o papel das hipóte- que são feitas. A isto, Popper dá o
ses e argumentações como os pilares nome de Novo Estágio da Evolução
da construção do conhecimento, e da Experiência, onde o ser humano
não as observações como tal. Para caminha um passo a mais no seu
ele, as observações também são desenvolvimento social e individual,
importantes, mas devem ser precedi- integrando as novas e reformuladas
das pelas hipóteses. Isto explicado observações às já existentes e man-
pelo autor quer dizer que para que se tidas por ele.
faça uma observação, é preciso que
se tenha primeiro uma disposição, ou Esta teoria que valoriza as hipóteses
seja, uma motivação que a justifique. precedendo as observações é cha-
Por exemplo, quando eu vejo pela mada por Popper de Teoria do Holo-
primeira vez uma árvore, eu preciso fote, onde o importante é se encon-
formular uma pergunta ou procurar trar uma justificativa consistente a
uma razão para que eu possa me cada hipótese estabelecida, criando-
aproximar desta árvore e conhecê-la se outras novas, caso haja a neces-
melhor, de modo que eu possa esta- sidade de comprovar algo que ainda
belecer mais futuramente que ela é não está totalmente claro.
uma árvore. Minha mente criou uma
razão para que eu pudesse conhecer As expectativas humanas dão um
o objeto captado pelos meus senti- importante impulso à ciência, pois
dos. Deste modo, as observações conferem a ela um desenvolvimento
são “seletivas” e pressupõem alguma contínuo, onde cada novidade edifica
coisa como princípio de seleção. os conhecimentos já existentes.

As disposições para justificar uma A partir das ciências, Popper estabe-


observação são inatas ao homem. leceu um critério de comprovação
Elas diferem de pessoa para pessoa dos conhecimentos, destacando o

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falseamento como grande elemento contrada e estabelecida como conhe-


para se chegar a isso. Para ele, não cimento indubitável.
há indução, os fatos só passam a ser
teorias se puderem ser falseados. Esta forma de mostrar como o co-
Quando uma determinada teoria se nhecimento se procede, traduz o
mostra falsa por alguma razão, tem- pensamento objetivo de Popper. Ali-
se a necessidade de explicá-la de ás, “objetivo” é um termo bastante
uma forma melhor. Para isso, surge usado por ele, que juntamente com o
uma nova teoria que deverá mostrar termo “problema” terminam por com-
o ponto em que a antiga falhou. Esta provar o valor deste processo para
necessidade de se encontrar sempre toda a humanidade, no que concerne
uma nova e melhorada teoria confere à ciência.
à ciência um desenvolvimento pro-
3. A Questão do Conhecimento
gressivo, que abre caminho para no-
Objetivo e a Questão do Pro-
vos descobrimentos e invenções,
blema para Popper.
fazendo com que o homem e o seu
mundo jamais parem de evoluir. Isso Em sua obra O Conhecimento e o
também dá às teorias uma escala Problema Corpo Mente, Popper afir-
gradativa de valor, onde as mais im- ma que o “Conhecimento Objetivo” é
portantes e valiosas são aquelas que composto pelos problemas, teorias e
são mais testáveis e que possibilitam argumentos, presentes na vida do ser
um maior índice de universalidade e humano. Este é conhecimento é con-
precisão. O falso confere valor de siderado o mais importante pelo au-
verdade dentro desta perspectiva. tor, pois é fundamental para a cons-
trução da vida humana, gerando no-
O verdadeiro cientista, aquele que
vos instrumentos e soluções para as
constrói o conhecimento, busca sem-
suas questões. Tudo o que o homem
pre melhores teorias (holofotes mais
cria para viver no mundo provém
fortes) capazes de serem testadas
dele.
cada vez com mais rigor, mas sem-
pre procurando encontrar a falsidade Para valorizar ainda mais o conheci-
em cada teoria para que o processo mento objetivo, Popper desenvolveu
científico continue sempre evoluindo. o chamado Esquema Quadripartido,
Isto leva a conclusão de que a verda- que consiste na fórmula utilizada pelo
deira ciência é uma caminhada que homem para solucionar problemas
não tem fim. que surgem em sua vida. Esta fór-
mula está representada do seguinte
É importante lembrar que o papel do
modo: P1_ TE_ EE_ P2, onde P1
cientista não é o de mostrar que to-
representa o problema original que
das as teorias possuem alguma coisa
surge diante do homem, impedindo-o
de falso para desmoralizá-las, mas
de prosseguir seu caminho na vida;
sim para que a verdade plena esteja
TE é a teoria experimental proposta
cada vez mais próxima de ser en-
para se tentar solucionar o problema;

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EE significa o processo de eliminação tificar um problema a ser soluciona-


dos erros por meio de ensaios ou do. A partir disso, surge um processo
discussões críticas; e finalmente, P2 de realimentação crítica de ajustes
representa os problemas finais, sucessivos, uma cadeia de proble-
aqueles que emergem das discus- mas e soluções provisórias interliga-
sões e dos ensaios. Desse modo, o das, no presente rumo ao futuro. No
conhecimento nunca termina, pois meio deste processo, se encontra o
está em constante movimento, sem- homem, participando na história das
pre pronto a solucionar novas ques- idéias.
tões. Para cada solução, novos pro-
blemas podem surgir. Bryan Magee, em sua obra As idéias
de Popper, fala de um sentimento de
A História se caracteriza por este “autenticidade” presente no homem,
progresso do conhecimento. Tudo que faz dele um ser em busca de
aquilo que os animais, incluindo o uma solução que supre uma necessi-
homem, incorporam a suas vidas, dade sua. O homem é o responsável
serve para que eles possam resolver pela construção de sua própria vida
suas dificuldades. As leis, fórmulas, na Terra, transformando a natureza
invenções e soluções que se fazem conforme suas necessidades.
presentes no mundo de hoje são de-
corrências do mundo de ontem. Isto O conhecimento objetivo de Popper
significa que o conhecimento não é não permite ao homem saber alguma
um processo cíclico (fracasso algum coisa plenamente, mas sim, possibi-
gera conhecimento), nem dialético (a litar a ele novos descobrimentos, que
contradição não é tolerada). O seu servirão para que ele possa recons-
caráter progressista está representa- truir todo o esquema tradicional do
do pela idéia de que a solução pode conhecimento, diferenciando este
gerar novos problemas. trabalho, das outras concepções de
ciência e racionalidade. Este é preci-
Esta fórmula se aplica a todas as samente o alvo de crítica de Popper,
áreas do conhecimento (matemática, ou seja, as correntes que alegam que
lógica, artes, etc). Aplica-se também a ciência traz conhecimentos pura-
ao próprio autoconhecimento do ho- mente certos, e que ela pode dar
mem, onde os preconceitos do pas- respostas legítimas. Assim, Popper é
sado são eliminados e as experiênci- um crítico ferrenho do Cientificismo.
as obtidas pelo seu contato com ou-
tras pessoas são armazenadas, a fim De acordo com ele, todos os homens
de se tornarem instrumentos na re- exploram o conhecimento, procuran-
solução de novas questões, como, do pela verdade. Porém, não há
por exemplo, novos modos de convi- como começar esta busca do nada.
vência no meio social. Tudo é resultado de pensamentos e
ações que já foram executados no
A primeira coisa a se fazer para que passado. Isso mostra o quanto a tra-
este processo se desenvolva é, iden- dição é importante na criação de al-

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guma coisa ou pensamento novos. A duz ao progresso do conhecimento.


tradição é portanto, a base para a Sua validade não depende de quan-
construção de novos conhecimentos. tas pessoas estejam envolvidas, mas
nos testes que deverão ser feitos. A
Cada época da História tem a sua expressão “eu sei”, não é suficiente
situação-problema, que deve ser es- para considerar um conhecimento
tudada (conhecer as divergências, como objetivo, a não ser que o tes-
procurar as dificuldades e conhecer o tem muitas e muitas vezes. O conhe-
que está sendo estudado pela ciên- cimento torna-se, portanto, algo de
cia). O homem que busca conhecer, domínio público (Mundo 3) e não
precisa escolher uma determinada pertencendo aos estados privados
área do conhecimento para trabalhar, das mentes dos indivíduos (Mundo
apoiando-se nos resultados que a 2).
tradição já alcançou até então, sa-
bendo que ela não diz como e onde Todo o conhecimento individual pro-
se deve iniciar uma análise do mun- vém de conhecimentos já existentes
do, e sim, apenas que ela proporcio- (outras pessoas, livros, arquivos,
na os limites que os pesquisadores computadores, etc). A observação
do passado conseguiram alcançar. O dessas fontes e as anotações feitas a
pesquisador do presente deve buscar partir delas é que garantem a gera-
superar ao máximo este limite. ção e a perpetuação do conheci-
mento por todos os tempos futuros,
Diante disso, é que o conhecimento pois a mente humana não consegue
vem a ser objetivo, pois cada indiví- memorizar todos os dados de uma só
duo se empenha em encontrá-lo, e vez. Assim, o material do Mundo 3
cada solução chega a um determina- não se encontra armazenado dentro
do momento, determina um ponto a de nenhum indivíduo, mas fica a dis-
ser analisado. Depois disso, é neces- posição de todos nestes receptáculos
sário que as críticas ou tentativas de criados pelo homem. Bryan Magee
novas soluções sejam expressas em comenta acerca disso.
uma linguagem, para que finalmente,
venham a ser testadas, encontrando As bibliotecas e os sistemas de regis-
com isso, sua confirmação ou sua tro e os arquivos contém material do
negação. Cabe às demais pessoas, Mundo 3, material que, analogamente,
atacar ou acatar a solução encontra- não se encontra no espírito de nin-
da, e não a pessoa que a apresentou. guém, mas que, sem embargo, é co-
Isso demonstra o valor primordial que nhecimento de espécie mais ou menos
as idéias (Mundo 3) têm para Popper, valiosa e útil. O status cognitivo desse
ao invés das mentes que as desen- material e sua utilidade ou valia inde-
volveram (Mundo 2). pendem da existência de alguém que o
“conheça” no sentido subjetivo. O co-
A formulação pública de idéias com nhecimento, no sentido objetivo, é co-
nhecimento sem conhecedor: é um

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mológico de Karl Popper. Cabe ago-


ra, esclarecer o valor do “problema”
conhecimento sem sujeito de cogni- neste mesmo argumento.
ção.3
Popper diz que sempre temos que
Popper faz com este seu argumento partir de um problema para resolver
mais uma crítica à epistemologia tra- outro. Um problema deve ser traba-
dicional, que estudou o conhecimento lhado de dois modos diferentes: su-
em sentido subjetivo, através das pondo-se uma solução ou tentando-
expressões “eu sei” e “eu estou pen- se criticar uma solução já existente.
sando”, sem se preocupar em exami-
nar aspectos relevantes ao conheci- Uma suposição pode durar um de-
mento científico. No prefácio de O terminado tempo sem a necessidade
Conhecimento Objetivo, ele faz uma de refutação, mas logo, percebe-se
consideração interessante a respeito que ela é fraca, só funcionando em
disso. parte e dando origem a novos pro-
blemas. O crescimento do conheci-
Os ensaios deste livro rompem com mento marcha de problemas velhos
uma tradição que pode ser rastreada para problemas novos, por meio de
até Aristóteles – a tradição dessa teo- conjecturas (hipóteses) e refutações
ria do conhecimento, de senso comum. (contestações). A produção de uma
Sou grande admirador do senso co- solução e a sua contestação, são
mum, que, afirmo, é essencialmente necessárias para que se possa com-
autocrítico. Mas, se estou disposto a preender qual é a dificuldade que
sustentar até o fim a verdade essencial caracteriza o problema.
do realismo do senso comum, conside-
ro a teoria do senso comum do conhe- Um ponto interessante notado por
cimento como uma asneira subjetivis- Popper é o de que os problemas não
ta. Essa asneira tem dominado a filo- nascem das observações, como pen-
sofia ocidental. Tenho tentado erradi- savam a maioria dos filósofos. O ho-
cá-la e substituí-la por uma teoria ob- mem, e os demais animais, possuem
jetiva do conhecimento, essencial- em suas essências, algumas anteci-
mente conjectural. Isto pode ser uma pações, uma espécie de conheci-
pretensão audaciosa, mas não peço mento hipotético, que proporciona
4
desculpas por ela. uma motivação para o conhecer. Esta
motivação é considerada uma forma
Dessa forma, fica evidente a impor- “pré-consciente” para a elaboração
tância do conhecimento objetivo para de uma teoria. Este é o momento em
a construção do argumento episte- que se cria o primeiro problema, que
passa a ser corrigido e modificado,
3
MAGEE, Bryan. As Idéias de Popper. desenvolvendo o caminho do conhe-
São Paulo: Cultrix, 1973, p. 74. cimento e aumentando-o.
4
POPPER, Karl R. Conhecimento Objeti-
vo. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada,
1975, p. 07.

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A observação só é anterior aos pro- fará parte do conhecimento que esti-


blemas surgidos de uma expectativa ver em vigor no momento correspon-
desiludida ou que refute uma teoria. de na História do homem.
Popper menciona em seu livro Co-
nhecimento Objetivo, uma citação de A pergunta mais importante neste
Charles Darwin, onde ele diz que as trabalho, e que Popper tenta respon-
observações necessitam de uma mo- der é: Como podemos compreender
tivação para acontecerem. ou melhorar um problema científico?
A resposta é simples, aprendendo a
Darwin sabia disso quando escreveu: compreender um problema vivo. Isso
Como é estranho que alguém não veja se dá através de um processo que
que toda observação deve ser pró ou compreende a tentativa de resolvê-lo
contra alguma opinião... Nem “obser- e o insucesso disso, levando a nova
vai!” (sem indicação do que) nem “ob- tentativa de solução.
servai esta aranha!” são imperativos
claros. Mas “observai se esta aranha Mesmo que não se compreenda um
sobe ou desce, como espero, que problema, pode-se tentar resolvê-lo,
fará!” seria bastante claro.5 e criticar essa eventual solução. Não
compreender um problema é o pri-
Ao surgir um problema, partimos para meiro passo para se encontrar a difi-
conhecê-lo. Isso se dá produzindo-se culdade, e resolvê-lo, pois, um pro-
uma solução. Quase sempre, a solu- blema é uma dificuldade, e compre-
ção encontrada é inadequada, pois endê-lo é constatar que existe esta
não apresenta totais condições de dificuldade. Este procedimento só
atribuir verdade ao problema, por acontece quando as primeiras solu-
isso, a obrigatoriedade de refutá-la. ções não funcionem, do contraio, não
Isso nos permite compreender por há necessidade de se continuar o
que as dificuldades não se encontram trabalho.
tão facilmente.
Quanto mais se fracassa na tentativa
Não importa se a crítica à solução é de solucionar um problema, mais se
obtém sucesso ou é mal sucedida. conhece e se compreende a respeito
Em ambos os casos, ela trará muito dele. Quando surge uma proposta de
de aprendizagem sobre o problema, solução, o perito, aquele que conhe-
suas hipóteses, ramificações, etc. ce muito sobre o problema, pode
Popper compara este processo de constatar se ela é ou não correta.
conhecer à “Seleção Natural” de Da-
rwin. A Seleção Natural de Hipóteses Popper diz que se o aprendizado de
corresponde àquelas que são mais uma determinada disciplina for
aptas a se manterem existentes, eli- transferido para outras, pode aconte-
minando as menos eficazes. En- cer que a pessoa se saia melhor na
quanto a hipótese se manter forte, ela luta pela solução de um determinado
problema.
5
Idem. P. 237.

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Sendo o conhecimento objetivo, o ser dotado de raciocínio e imagina-


processo de ampliação do conheci- ção, imprescindíveis para a elabora-
mento humano, através da constante ção de teorias e resolução de pro-
solução de questões, e o problema, a blemas. O seu conhecimento seria
matéria-prima para que este conhe- um produto da sua ação sobre os
cimento se proceda, pode-se concluir objetos, e não ao contrário.
esta exposição com duas teses de
Popper que resumem bem toda a sua Popper representa um marco na his-
argumentação sobre este assunto: tória do pensamento, mostrando uma
forma de vê-lo que o valoriza ao má-
1. Somos falíveis e propensos ximo, com suas representações e
ao erro; mas podemos apren- possibilidades, passiveis de se con-
der com nossos enganos; cretizarem no mundo real. É uma
forma de se compreender por que ele
2. Não podemos justificar nos- desenvolveu a idéia do Mundo 3,
sas teorias, mas podemos cri- como sendo, superior aos demais
ticá-las racionalmente e ado- mundos, que dele possuem relação
tar experimentalmente aque- de dependência.
las que pareçam suportar
melhor nossa crítica e que Desta forma, Popper deve ser res-
têm maior força explicativa. peitado como um dos grandes nomes
da ciência e da filosofia. Sua contri-
buição ultrapassa a barreira que divi-
de estas duas manifestações do co-
Considerações Finais.
nhecimento humano, unindo-as num
Tudo isto que foi abordado neste tra- mesmo corpo, com o mesmo ideal de
balho, serve para mostrar o caráter trazer a evolução do homem, tanto
que o ser humano tinha aos olhos de como ser no mundo, como ser que
Popper. Para ele, o homem era um pensa e constrói.

Referências Bibliográficas

BOMBASSARO, Luiz Carlos. As Fronteiras da Epistemologia. Como se produz o conhe-


cimento. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1993.

LEÃO, Manuela Carraro. A Indução na Filosofia: Lógica e Psicologia em Hume e a Crítica


de Popper. Metavnóia. São João del Rei, jul.2002. <http//www.funrei.br/ publica-
ções/Metánoia.

MAGEE, Bryan. As idéias de Popper. São Paulo: Cultrix, 1973.

PELUSO, Luis Alberto. A Filosofia de Karl Popper: Epistemologia e Racionalismo Crítico.


São Paulo: Papirus, 1995.

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POPPER, Karl R. Autobiografia Intelectual. São Paulo: Cultrix, 1986.

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zonte:Editora Itatiaia Limitada, 1975.

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulus,
1991.

ZILLES, Urbano. Teoria do Conhecimento. Porto Alegre: Edipucrs, 1994 (Coleção Filoso-
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Metavnoia, São João del-Rei, n. 6, p. 65-75, 2004