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A responsabilidade dos cônjuges na fiança

prestada sem a anuência de um deles

Não se controverte que o núcleo-base de qualquer sociedade


é a família. Também não se questiona que a solidez e prosperidade de qualquer
sociedade são diretamente proporcionais à proteção conferida pelo ordenamento
jurídico ao seio familiar.

Estas são, sem sombra de dúvida, as razões que inspiraram o


legislador a estabelecer regras como as que se encontram positivadas no art.
1.647, III, e 1.650, ambos do Código Civil, segundo as quais, respectivamente,
“ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro,
exceto no regime da separação absoluta: (...) III – prestar fiança ou aval” e “a decretação
de invalidade dos atos praticados sem outorga, sem consentimento, ou sem suprimento do
juiz, só poderá ser demandada pelo cônjuge a quem cabia concedê-la, ou por seus
herdeiros.”.

Em outras palavras, o atual Código Civil – praticamente


reproduzindo o disposto nos arts. 235, III, e 239, ambos do Código Civil de
1916 – fulmina de nulidade a fiança prestada por um cônjuge sem a autorização
do outro, com a ressalva de que a decretação de tal vício só pode ser pleiteada
pelo cônjuge que não interveio na concessão da garantia pessoal em comento.

Seguindo a literalidade do direito positivo, o Superior


Tribunal de Justiça, em novembro de 2006, editou a Súmula nº 332, segundo a
qual “a anulação de fiança prestada sem outorga uxória implica a ineficácia total da
garantia.”

Como o adjetivo “uxória” é privativo da mulher, o Superior


Tribunal de Justiça, em 5 de março do corrente ano, houve por bem aprimorar a
redação do sobredito verbete sumular, que passou a ostentar o seguinte
conteúdo: “a fiança prestada sem autorização de um dos cônjuges implica a ineficácia total
da garantia.”

Malgrado o louvável intuito do legislador, bem como da


Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça, a cominação de nulidade à
fiança prestada sem o concurso de ambos os cônjuges representa norma que,
com o devido respeito, incentiva o descumprimento de obrigações livremente
assumidas perante o credor do afiançado.

Consoante afirmado no início do presente artigo, é


plenamente justificável a instituição de normas protetivas da entidade familiar,
sem a qual nenhuma sociedade que se pretenda organizada e justa poderá
subsistir.

Todavia, no caso específico da fiança prestada à revelia de


um dos cônjuges, a decretação de nulidade da garantia, inclusive em relação à
meação daquele que desrespeitou o comando inscrito no art. 1.647, III, do
Código Civil, afronta interesses legítimos de terceiros.
Como visto acima, os ditames do art. 1.650, do Código Civil,
proíbe a invocação da nulidade da fiança pelo cônjuge que a prestou sem a
autorização do outro.

Ora, se o cônjuge que prestou a fiança não pode alegar sua


própria torpeza para tentar invalidar a garantia em questão, é intolerável que sua
meação não responda pelo cumprimento de uma obrigação que ele mesmo
espontaneamente contraiu.

Mas não é só. Como cediço, o contrato de fiança é, regra


geral, gratuito, motivo pelo qual não traz nenhum benefício ao fiador e seu
respectivo cônjuge. Porém, existem inúmeras situações em que o cônjuge não
participante do contrato de fiança se beneficia, de algum modo, da garantia
prestada pelo outro a sua revelia ou mesmo contra sua vontade.

É o que ocorre, por exemplo, quando o sustento do casal


provém do lucro auferido por uma sociedade cujos únicos sócios são os próprios
cônjuges, sendo que apenas um deles tem poderes de administração.

Nesse contexto, se a sociedade contraísse determinada


obrigação que, por imposição do credor, demandou a prestação de fiança pelo
cônjuge administrador, ainda assim a garantia seria nula, por falta de autorização
do outro cônjuge???
Obviamente, a resposta só pode ser negativa, como, de resto,
preconizam os arts. 1.643 e 1.644, ambos do Código Civil, cujos preceitos,
desavisadamente, não foram ressalvados pelo art. 1.647, III, daquele mesmo
diploma legal, nem mesmo pela Súmula nº 332, do Superior Tribunal de Justiça.

Dessas considerações, extrai-se a conclusão de que a proteção


instituída pelo art. 1.647, III, do Código Civil, e reiterada pela Súmula nº 332,
do Superior Tribunal de Justiça, deve se restringir à meação do cônjuge que não
interveio no contrato de fiança, sem perder de vista, outrossim, que o fiador tem
direito de regresso contra o afiançado, o que igualmente resguarda o patrimônio
familiar.

João Paulo Mont`Alvão Veloso Rabelo


Ribeirão Preto, 16 de maio de 2008.