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Reflexões sobre o jeito de ser brasileiro

à luz da psicologia Intercultural


parte I

Faz alguns anos li um livro que muito me impressionou e tinha ligação


direta com meu trabalho – chamava-se Brasileiros Pocotó. O livro, de
Luciano Pires, era uma coletânea de artigos sobre a mediocridade
que assola o Brasil em seus diferentes momentos.

O que isso tem a ver com o que faço? Sou psicóloga culturalista,
formada na Europa, cinco anos praticamente fora do Brasil, vivendo
nas melhores universidades européias, ajudo hoje executivos
expatriados – ou seja, estrangeiros que chegam ao Brasil ou
brasileiros que vão ao exterior por tempo determinado. Muitas das
empresas que atendemos HSBC, EMBRAER, Nissan, Vivo, Nestlé,
Banco do Brasil, Bosch, entendem que nada mais importante do que
a pessoa entender de fato os parceiros que irão recebê-las. E eu falei
entender, não conhecer.

Muita gente acha que basta olhar a etiqueta, a gastronomia, a


religião e falar bem um idioma – de preferência o inglês, não
necessariamente o idioma dos nativos (o que por si só já justificaria
uma grande gafe), que está apto para entrar no cenário global. Não
está. Primeiro passo talvez seja mesmo conhecer o país, mas o mais
difícil vem depois: compreender.

“- Alguém aí pode me explicar o Brasil?” Dirá um estrangeiro


desesperado mergulhado em seus dez primeiros minutos no caos que
é o Aeroporto de Guarulhos, onde nós mesmos não nos entendemos.
Me explicar, por favor, porque acontecem tantas barbaridades –
essas que Luciano Pires relata com maestria no seu livro? Alguém
pode explicar a um estrangeiro nossa dificuldade intrínseca de
colocar a responsabilidade no outro e, portanto, nunca
responsabilizar-se por nada. Vocês acham que estou exagerando?

Quantas vezes na sua vida já esteve envolvido em infindáveis


telefonemas para os 0800 de telefonia móvel, de internet, de redes
de televisão, de clínicas médicas, de órgãos do governo e ouviu:
Senhor me desculpa, mas não podemos fazer nada? Ou ainda:
desculpa, Senhor, políticas da empresa (quer dizer, não podemos
fazer nada novamente.). Ou quem sabe o: Sr, mil desculpas, o
sistema não permite (idem ibidem)... Isso quando a ligação não cai
depois de quarenta e dois minutos...

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Ah, Brasil... Meu papel, como psicóloga culturalista é explicar,
aprofundarmos na complexidade do pensamento de cada povo –
porque pensa dessa maneira, porque decide de outra, porque
comunica numa outra esfera ainda. Mas fazer isso no papel de
brasileira para mim é, ás vezes, motivo de vergonha.

Alguns povos lidam com seu ambiente de uma forma irresponsável –


ou seja: por ele não tenho gerência alguma. Talvez seja uma questão
de sorte, talvez de azar, talvez seja tudo culpa do governo mesmo, ou
de Deus (que quis assim) – mas eu? Ah, eu? Eu não conto nada...
Afinal de que adianta reclamar? Vai mudar? Não vai mesmo... E assim
entramos (todos) no infindável ciclo Pocotó que meu colega tanto
comenta.

Ao ausentar-me da responsabilidade, naturalmente o segundo passo


é procurar o culpado: e assim o fazemos com Deus, com o trânsito,
com a filha doente, com o governo, com o fornecedor, com o cliente
ou com um ente querido que muito gostamos de evocar: “a gente”.

Sempre brinco com meus alunos: a gente quem? Tu e teu guia


espiritual? Tu e teu amigo imaginário? Quem é a gente?

Como todos sabem, a língua portuguesa nos autoriza a ter seis


pronomes pessoais e o brasileiro – com sua infinita criatividade criou
um sétimo – a Gente.

“A gente” é uma excelente expressão para eximir-se da


responsabilidade. Ela não apenas ilude o interlocutor dando a idéia de
que “estou incluído nisso”, mas ainda melhor ela pulveriza o sujeito,
esconde ele, mascara num grupo secreto. Será “a Gente” um grupo
religioso sectarista ortodoxo que trabalha num porão escuro ás
expensas do pobre brasileiro que queria responsabilizar-se, mas “a
Gente” proíbe?

Quem mandou o relatório errado? A gente.

Quem disse para fazer isso? A gente.

Quem não quis mandar o mail? A gente.

Quem se esqueceu de convidar o Chefe da Comitiva? A gente.

Quem decidiu ir embora mais cedo? A gente.

E como explicar para o estrangeiro o pronome “A gente”?

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Sempre digo que a gente pode de fato ser um grupo, mas
freqüentemente é a própria pessoa que está falando. Mas então
porque não usa o “eu”? Ah... Porque “eu” não vou me expor dessa
maneira.

A responsabilidade, portanto não é lá uma grande virtude em solo


brasileiro. É confundida com exposição, com maturidade, com
autoridade. Sabe lá (Deus) o que vão fazer se eu me pronunciar?
Melhor mesmo é seguir escondidinho aqui.
E num país coletivista, onde o indivíduo vale tão pouco mesmo,
acrescentado o fato de que somos jovens, imaturos, um grande
adolescente em conflitos de crescimento por que preocuparmo-nos
com a responsabilidade? Ah, isso o tempo resolve...

E sem percebermos, cria-se a cultura da corrupção. Corrompem-se as


normas da boa conduta, da honestidade, da integridade, do olho-no-
olho, do ser escutado e respeitado como cidadão e do que sei que
posso contar com você. Á propósito, alguém aí se sente realmente
amparado a fim de poder contar com algo?

Vamos aos aeroportos.

Agora mesmo estou num deles. Toda semana estou por aqui indo e
vindo de alguma palestra no Brasil ou no exterior. E acreditem: é
sofrido, é cansativo. Toda semana tem uma história a contar. Já
imaginei até escrever um livro sobre isso – Contos de Aeroporto. Sem
dúvida as grandes vilãs serão as Companhias Aéreas, seguidas pelo
protecionismo perverso das ANAC´s e INFRAERO´s.

Chego ao balcão, o vôo foi cancelado. Por que a companhia não


avisou? “Ah, porque é responsabilidade da operadora de viagem”.
Ligo para a operadora: a companhia não avisou. “Ah, mas isso era
responsabilidade deles”, respondem. E no fim, entre a AZUL e a
WAGONLIT fico eu aqui, mais 5 horas no aeroporto, sem almoço, sem
descanso, como outros tantos – desamparados.
Ou talvez essa em BH. Chego ao balcão da GOL ao meio-dia, antecipo
meu vôo que era para as 17 horas para as 14 horas (coisa boa voltar
mais cedo pra casa) – pago uma diferença tarifária importante (ok,
vale á pena assim mesmo). Resultado? O vôo das 14´00 sai ás 17´30.
Dinheiro reembolsado? Claro que não! O sistema não permite. E “a
gente”, diz a Srta, “não pode fazer nada”.

Ou quem sabe essa? Estar em Congonhas ás 18´00 hora, comer algo


correndo no saguão e embarcar duma vez (felizmente está ali,

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embarque imediato, alegria dos viajantes...). E subo correndo as
escadas para esperar até ás... 21 horas. Srta, por que não avisam
então? “A responsabilidade é da INFRAERO, Senhora”. Ok, mas a Cia.
tem que avisar certo? “Sim.” E vocês avisaram? “Não sei Senhora,
não sou eu quem cuida disso”. Quem cuida então (uma vez que eu
estava falando com uma funcionária da Cia!). “Não sei Senhora.” Mas
quem se responsabiliza??? “Também não sei, Senhora.”

Bem, eu também não sei.

Mas sei que estamos mergulhados numa cultura de exclusão: a


exclusão da responsabilidade pessoal, a exclusão do indivíduo, a
exclusão da cidadania.

Hoje “a gente” se misturou uns aos outros a palavra do indivíduo


pouco vale, o pensamento individual foi banido, a responsabilidade
mais ainda e tudo, - tudo - pulverizamos entre “a gente” mesmo.

Andréa Sebben é psicóloga culturalista,


membro da International Association for Cross-Cultural Psychology, especialista em
Educação Intercultural pelo Council of Europe. Mestre em Psicologia Social pela UFSC
(Universidade Federal de Santa Catarina) e membro do Educational Advisory Council
do AFS Internacional. Autora de diversos artigos e pesquisas, Andréa já conduziu
centenas de Treinamentos Interculturais no Brasil e no exterior, transitando
confortavelmente entre diferentes públicos e ajudando-os nas suas experiências de
viver fora do país: jovens de programas de intercâmbio como high school, cursos,
trabalhos remunerados. Da mesma forma executivos expatriados, equipes
multiculturais e jogadores de futebol e suas famílias trasladados aos mais diferentes
países. Além disso, Órgãos Governamentais, Câmaras de Comércio e Escolas
Internacionais têm se beneficiado amplamente com o auxílio das novas Ciências
Interculturais que Andréa traz para nosso país.

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