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É possível antecipar de ofício a Tutela Jurisdicional no Processo do Trabalho?

Por Wanderlan Mariano Nascimento

Inicialmente devemos conceituar antecipação de tutela e a partir daí tentar


responder a pergunta: Tutela antecipatória dos efeitos da sentença de mérito é providência que
tem natureza jurídica mandamental, que se efetiva mediante execução “lato sensu”, com o
objetivo de entregar ao autor, total ou parcialmente, a própria pretensão deduzida em juízo ou
os seus efeitos. É tutela satisfativa no plano dos fatos, j´aque realiza o direito, dando ao
requerente o bem da vida por ele pretendido com a ação de conhecimento.1

O art. 273 do CPC é categórico e não deixa dúvidas, verbis:


O juiz poderá, a requerimento da parte, antecipar, total ou parcialmente, os
efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, desde que, existindo prova
inequívoca, se convença da verossimilhança da alegação e: I – haja fundado
receio de dano irreparável ou de difícil reparação; ou II – fique caracterizado o
abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu.

Portanto, em analise ao artigo acima descrito não há possibilidade de antecipação


dos efeitos da tutela sem requerimento da parte, e esse entendimento é reforçado por outros
argumentos, vejamos o artigo 2º do CPC.

“Art. 2º. Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o
interessado a requerer, nos casos e formas legais”; “art. 128. O juiz decidirá a
lide nos limites em que foi proposta, sendo-lhe defeso conhecer de questões não
suscitadas a cujo respeito a lei exige iniciativa da parte”.

Entendimento majoritário aponta para a inadmissibilidade de concessão ex


officio, no entanto, há algumas vozes dissonantes na doutrina que insistem na possibilidade da
antecipação da tutela sem que haja requerimento expresso da parte interessada. Faço parte
desse minoritário corrente que passo a expor.

1
Nery Junior, Nelson, Código de processo civil comentado: e legislação extravagante: - 7. Ed. Ver. E ampl. –
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. pag. 646
O instituto da tutela antecipada tem fundamento constitucional, pois
decorre do direito fundamental à tutela efetiva art. 5º, inc. XXXV, da CF/88: a lei não
excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito,

Certo que o direito fundamental consagrado no dispositivo garante ao


jurisdicionado não apenas o direito formal de propor a ação, indo muito mais além, pois
assegura o direito a uma tutela adequada e efetiva.

Na hipótese do prévio requerimento como requisito para a antecipação da


tutela, embora se possa considerar sua exigência, em abstrato, válida, em certos casos
específicos, pode vir ela a se mostrar desarrazoada e injusta, devendo o juiz, nestas situações,
antecipar a tutela mesmo sem pedido expresso, a fim de dar cumprimento à norma
constitucional que garante a efetividade do processo.2

Neste sentido, Cássio Scarpinella Bueno3 sustenta a possibilidade de o magistrado,


independentemente de provocação, antecipar os efeitos da tutela jurisdicional, afirmando que
"Se o juiz, analisando o caso concreto, constata, diante de si, tudo o que a lei reputa
suficiente para a antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional, à exceção do pedido, não
será isso que o impedirá de realizar o valor "efetividade", máxime nos casos em que a
situação fática envolver a urgência da prestação da tutela jurisdicional (art. 273, I), e em
que a necessidade da antecipação demonstrar-se desde a análise da petição inicial. Ademais,
trata-se da interpretação que melhor dialoga com o art. 797 (v. n. 4 do Capítulo 2 da Parte
II), tornando mais coerente e coeso o sistema processual civil analisado de uma mesma
perspectiva".

No caso da Justiça do Trabalho, em que é possível peticionar sem a


representação técnica por advogado, também fica manifesta a desnecessidade de requerimento
expresso de antecipação de tutela, já que seria cômico exigir que um sujeito de parca
instrução saiba o que é a antecipação de tutela e, por conseqüência, venha a requerê-la.

Nelson Nery Junior4 “Quando tratar-se de reclamação trabalhista de


empregado que não esteja representado por advogado (CLT 791 caput), é admissível a
concessão ex officio de tutela antecipada tendo em conta a natureza social do processo

2
LIMA, George Marmelstein. Antecipação da tutela de ofício? . Jus Navigandi, Teresina, ano 6, n. 57, jul. 2002.
Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2930>. Acesso em: 16 set. 2010.
3
BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil: Tutela antecipada, Tutela
Cautelar, Procedimentos cautelares específicos, v.1. São Paulo: Saraiva, 2009.
4
Nery Junior, Nelson, Código de processo civil comentado: e legislação extravagante: - 11. Ed. rev., ampl. e
atual. Até 17.02.2010 – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. pag. 548
trabalhista e a condição do empregado no caso concreto, de não estar assistido por
profissional técnico do direito.”

Portanto, é sim possível antecipar de oficio a Tutela Jurisdicional no


Processo do Trabalho, conforme exposto acima, pela qual entendo ser perfeitamente possível
a antecipação de ofício com fundamento no próprio princípio da dignidade da pessoa humana.

Referencias bibliográficas

BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual


Civil: Tutela antecipada, Tutela Cautelar, Procedimentos cautelares específicos, v.1. São
Paulo: Saraiva, 2009.

LIMA, George Marmelstein. Antecipação da tutela de ofício? . Jus


Navigandi, Teresina, ano 6, n. 57, jul. 2002. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2930>. Acesso em: 16 set. 2010.

Nery Junior, Nelson, Código de processo civil comentado: e legislação


extravagante: - 11. Ed. rev., ampl. e atual. Até 17.02.2010 – São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2010.

Nery Junior, Nelson, Código de processo civil comentado: e legislação


extravagante: - 7. Ed. Ver. E ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003.