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C974

Cultura e Desenvolvimento
/ organização Heloisa Buarque de Hollanda. – Rio de
Janeiro :
Aeroplano, 2004
200p/. : 12 x 21 cm

ISBN 85-86579-65-3

1. Cultura popular – Rio de Janeiro (Estado) –


Congressos.
I. Hollanda, Heloisa Buarque de, 1939-

04-2584 CDD 306.098153


CDU 316.7(815.3)

007787

Produção editorial:
Christine Dieguez

Capa:
Tita Nigrí

Projeto gráfico e editoração eletrônica:


Renata Vidal

Revisão:
Heloisa Buarque de Hollanda (org) Itala Maduell

Aeroplano Editora e Consultoria


Av. Ataulfo de Paiva, 658 sala 402
Leblon – Rio de Janeiro – RJ
CEP 22440-030
Tel: (21) 2529-6974
Telefax: (21) 2239-7399
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www.aeroplanoeditora.com.br
Sumário Paulo Roberto Pires 136
Estilhaços de ficção, literatura viva

Heloisa Buarque de Hollanda 7 Paulo Lins 144


Apresentação
Poema

Boaventura de Sousa Santos 10 Beatriz Resende 148


Entre Próspero e Caliban – Colonialismo,
A literatura brasileira
pós-colonialismo e interidentidade
na era da multiplicidade

Jailson de Souza e Silva 74 Tião Santos 176


Identidade, território e práticas culturais:
Rádios Comunitárias: “Balangando o beiço”
A experiência do Centro de Estudos
pelo direito de comunicar!
e Ações Solidárias da Maré – Ceasm

Ecio de Salles 90 Zuenir Ventura 186


Do bem e do mal
Culturas transitivas

Marta Porto 104 Sobre os autores 192


Cultura para o desenvolvimento:
um desafio de todos
Sobre o evento 198

Maurício Torres 114


Levantes bárbaros

Ferréz 132
Poema
Apresentação políticas concretas de desenvolvimento para a
área da cultura?
Seguramente, não é mais possível pensar as Com este naipe de perguntas em mente,
manifestações estéticas e culturais hoje sem pretendíamos promover a discussão e o ma-
articulá-las às questões básicas do desen- peamento dos movimentos civis e culturais
volvimento econômico e social. Por toda parte, emergentes e novas perspectivas críticas para a
emergem novos territórios culturais e disse- compreensão dos fenômenos culturais surgidos
minam-se novas dinâmicas de criação e nas grandes periferias urbanas e seu alcance
intervenção que rapidamente se articulam de inclusão e desenvolvimento social.
como respostas e interpelações aos efeitos Outro objetivo não menos importante
contraditórios dos processos neoliberais de deste seminário foi a criação de canais
globalização e transnacionalização da cultura produtivos e a promoção de articulações con-
e da informação. cretas e permanentes entre estas novas ma-
Neste quadro, a evidência sinaliza a nifestações que se apresentam desafiando os
ocorrência de uma significativa alteração na limites entre classes sociais e fronteiras
função social da arte e a entrada definitiva da culturais e a academia.
produção cultural no mercado e na economia, Os textos reunidos neste volume procuram
tornando-se elemento-chave nos processos de trazer subsídios a este debate. São escritos em
afirmação da cidadania, de geração de diferentes tons e linguagens por ativistas, pro-
emprego e inclusão social. fessores, pesquisadores, jornalistas, editores e
O esforço do seminário Cultura e artistas. Em todos, uma preocupação comum:
Desenvolvimento foi na direção de procurar a atividade cultural enquanto função radical
debater os caminhos possíveis da cultura hoje na vida política do país.
e colocar em cena algumas perguntas ina- Assim, temos um conjunto polivalente de
diáveis: Como pensar a radicalidade do reflexões, análises, relatos e testemunhos no
binômio desenvolvimento/cultura no Brasil? qual os poemas de Paulo Lins e Ferréz ou a
Como trabalhar as possibilidades de am- crônica de Zuenir Ventura sobre Paulo
pliação do paradigma dos diretos humanos Negueba dialogam com ensaios como o de
para a área cultural? Como potencializar o Ecio de Salles propondo um tipo de
rendimento político-cultural das redes cidadãs “articulação poliglota”, capaz de agir junto a
e das “multidões”? Como refuncionalizar a múltiplos pontos de interseção institucionais e
geopolítica da produção e do consumo cultural sociais na promoção de uma cidadania
no quadro transnacional? Como oferecer cultural, o artigo de Marta Porto situando,
novos dados e variáveis para a formulação de em boa hora, a invisibilidade e a
insuficiência histórica do debate sobre
Cultura e Desenvolvimento nas políticas
culturais no Brasil ou de Jailson de Souza e
Silva sobre as perspectivas conceituais e
socioculturais do fortalecimento de uma
dinâmica de redes cidadãs como noção
estruturante das ações que desenvolve no
Centro de Estudos e Ações Solidárias da
Maré. Outra experiência importante relatada
neste volume é a de Tião Santos em
Balangando o beiço pelo direito de
comunicar, sobre a atuação de 15 mil rádios
comunitárias que recriam, diariamente,
espaços de liberdade de expressão e cidadania.
Na área da literatura, Beatriz Resende e Entre Próspero e Caliban
Paulo Roberto Pires fazem um inventário
crítico das tendências de nossa literatura viva
Colonialismo, pós-colonialismo
ao lado de Maurício Torres, editor da Casa e interidentidade1
Amarela, que aponta, em Levantes bárbaros,
o provável e bem-vindo processo de geração de Boaventura de Sousa Santos
um novo cânone para as letras nacionais
vindo das novas expressões literárias,
marcadas pela consciência do local, pela
população marginal.
Abrindo o volume, o texto de Boaventura
de Sousa Santos nos oferece uma categoria
teórica: a noção de interidentidade para
pensar a questão dos colonialismos internos e
das possibilidades de uma globalização
contra-hegemônica para este século 21.

Heloisa Buarque de Hollanda


novembro de 2004
Boaventura de Sousa Santos 11 12 Cultura e desenvolvimento

Concentrando-se na análise dos processos A primeira hipótese é que desde o século


identitários no espaço-tempo da língua portu- XVII Portugal é um país semiperiférico no
guesa, este trabalho pretende ser um contributo sistema mundial capitalista. Essa condição – a
para o estudo do pós-colonialismo. Se a iden- que melhor caracteriza a longa duração moderna
tidade moderna ocidental é, em grande medida, da sociedade portuguesa – evoluiu ao longo dos
produto do colonialismo, a identidade no espaço- séculos mas manteve seus traços fundamentais:
tempo de língua portuguesa reflecte as espe- um desenvolvimento econômico intermédio e
cificidades do colonialismo português. Trata-se de uma posição de intermediação entre o centro e a
um colonialismo subalterno, ele próprio “colo- periferia da economia-mundo; um Estado que,
nizado” em sua condição semiperiférica, que não é por ser simultaneamente produto e produtor
facilmente entendido à luz das teorias que hoje dessa posição intermédia e intermediária, nunca
dominam o pensamento pós-colonial nos países assumiu plenamente as características do Estado
centrais, um pensamento baseado no colonialismo moderno dos países centrais, sobretudo as que se
hegemônico. O autor propõe o conceito de interi- cristalizaram no Estado liberal a partir de
dentidade para dar conta de uma constelação meados do século XIX. A segunda hipótese é que
identitária complexa, em que se combinam traços essa complexa condição semiperiférica se
de colonizador com traços de colonizado. A falta e reproduziu com base no sistema colonial e
a saudade de hegemonia (ou imaginação do reproduz-se, há quinze anos, no modo como
centro) propiciou a formação de colonialismos Portugal está inserido na União Européia (UE).
internos que perduram até hoje. À luz disto, o Daí decorrem três sub-hipóteses: o colonialismo
autor conclui que o pós-colonialismo no espaço- português, sendo conduzido por um país
tempo de língua portuguesa – um pós-colo- semiperiférico, foi ele próprio semiperiférico –
nialismo situado – deve manifestar-se, em tempo um colonialismo subalterno; por suas
de globalização neoliberal, como anticolonialismo características e duração histórica, a relação
e globalização contra-hegemônica. colonial protagonizada por Portugal impregnou
Com este trabalho pretendo dar mais um de modo muito particular e intenso as
passo numa investigação em curso sobre os configurações de poder social, político e cultural
processos identitários no espaço-tempo da não só nas colônias como no seio da própria
língua portuguesa, ou seja, numa vasta e sociedade portuguesa; o processo de integração
multissecular zona de contato que envolveu na UE, apesar de sua curtíssima duração quando
portugueses e outros povos da América, Ásia e comparado com o ciclo colonial, parece
África. As hipóteses de trabalho que orientam destinado a ter na sociedade portuguesa um
esta investigação foram formuladas em impacto tão dramático quanto o que teve o
trabalhos anteriores. Relembro-as aqui de modo colonialismo – em aberto está a questão do
muito sumário. sentido e conteúdo desse impacto 2.
Boaventura de Sousa Santos 13 14 Cultura e desenvolvimento

A terceira hipótese geral diz respeito ao valor nidade está no fato de que Portugal, como país
analítico da teoria do sistema mundial para semiperiférico, foi ele próprio, durante longo
entender a posição de Portugal – se periférica, período, um país dependente – em certos mo-
semiperiférica ou central – nas atuais condições de mentos quase uma “colônia informal” – da
globalização.3 A quarta hipótese é que a cultura Inglaterra. Tal como ocorreu com o colonialismo
portuguesa é uma cultura de fronteira: não tem espanhol, a conjunção do colonialismo português
conteúdo, tem sobretudo forma, e essa forma é a com o capitalismo foi muito menos direta do que
da zona fronteiriça. A cultura portuguesa sempre a que caracterizou o colonialismo britânico. Em
teve uma grande dificuldade em se diferenciar de muitos casos essa conjunção se deu por delegação,
outras culturas nacionais ou, se preferirmos, uma ou seja, sob o impacto da pressão inglesa por meio
grande capacidade para não se diferenciar de de mecanismos como condições de crédito e
outras culturas nacionais, mantendo até hoje uma tratados internacionais desiguais. Assim, en-
forte heterogeneidade interna4. quanto o Império Britânico assentou num
Neste texto, debruço-me sobre as práticas e equilíbrio dinâmico entre colonialismo e capi-
discursos que caracterizam o colonialismo talismo, o Português assentou num desequilíbrio,
português e o modo como impregnaram os igualmente dinâmico, entre um excesso de
regimes identitários nas sociedades que dele colonialismo e um déficit de capitalismo.
participaram, tanto durante o período colonial No domínio dos discursos coloniais, a
como depois da independência das colônias, com subalternidade do colonialismo português reside
incidência sobretudo na África e na América. no fato de que desde o século XVII a história do
colonialismo foi escrita em inglês, e não em
O colonialismo português e português. Isso significa que o colonizador
o pós-colonialismo português tem um problema de auto-
- A especificidade do colonialismo português representação algo semelhante ao do colonizado
Formular a caracterização do colonialismo pelo colonialismo britânico. A necessidade de
português como “especificidade” exprime as definir o colonialismo português em sua espe-
relações de hierarquia entre os diferentes cificidade quanto ao colonialismo hegemônico
colonialismos europeus. Se a especificidade é a significa a impossibilidade ou dificuldade de
afirmação de um desvio em relação a uma norma defini-lo em termos que não reflitam essa
geral, nesse caso a norma é dada pelo colonialismo subalternidade. Por um lado, o colonizado portu-
britânico: é em relação a ele que se define o perfil guês tem um duplo problema de auto-repre-
– subalterno – do colonialismo português. Tal sentação: em relação ao colonizador que o colo-
subalternidade é dupla, porque ocorre tanto no nizou e em relação ao colonizador que, não o
domínio das práticas como no dos discursos tendo colonizado, escreveu no entanto a história
coloniais. No domínio das práticas, a subalter- de sua sujeição colonial. Por outro, o problema de
Boaventura de Sousa Santos 15 16 Cultura e desenvolvimento

auto-representação do colonizador português cria condição que só poderia ser superada por uma
uma disjunção caótica entre o sujeito e o objeto de política colonialista desenvolvida – como
representação colonial que, por sua vez, cria um reconfortantes – e.g. o lusotropicalismo,
campo aparentemente vazio de representações “Portugal, do Minho a Timor”, colonialismo
(mas, de fato, cheio de representações subco- cordial –, mas quase todas as leituras tiveram
dificadas) que, do ponto de vista do colonizado, elementos inquietantes e reconfortantes. A
constitui um espaço de manobra adicional para negatividade do colonialismo português foi
tentar sua auto-representação para além da sempre o subtexto de sua positividade e vice-versa.
representação de sua subalternidade.
A especificidade do colonialismo português - O pós-colonialismo
assenta basicamente em razões de economia O pós-colonialismo deve ser entendido em
política – a sua condição semiperiférica5 –, o que duas acepções principais. A primeira é a de um
não significa que esta tenha se manifestado apenas período histórico, aquele que se sucede à
no plano econômico. Ao contrário, manifestou-se independência das colônias, e a segunda é a de um
igualmente nos planos social, político, jurídico, conjunto de práticas e discursos que desconstroem
cultural, no plano das práticas cotidianas de a narrativa colonial escrita pelo colonizador e
convivência e sobrevivência, de opressão e procuram substituí-la por narrativas escritas do
resistência, de proximidade e distância, no plano ponto de vista do colonizado. Na primeira
dos discursos e narrativas, do senso comum e dos acepção o pós-colonialismo traduz-se num
outros saberes, das emoções e afetos, dos conjunto de análises econômicas, sociológicas e
sentimentos e ideologias. A grande assimetria políticas sobre a construção dos novos Estados,
entre o colonialismo inglês e o português foi o sua base social, sua institucionalidade e sua
fato de que o primeiro não teve de romper com inserção no sistema mundial, as rupturas e
um passado descoincidente de seu presente. O continuidades com o sistema colonial, as relações
colonialismo inglês foi sempre o colonialismo- com a ex-potência colonial e a questão do
norma desde a sua origem porque protagonizado neocolonialismo, as alianças regionais etc. Na
pelo país que impunha a normatividade do segunda acepção, insere-se nos estudos culturais,
sistema mundial. No caso português, uma vez lingüísticos e literários e usa privilegiadamente a
criada a possibilidade de um colonialismo exegese textual e as práticas performativas para
retroativo, como discurso de dessincronia e analisar os sistemas de representação e os
ruptura, este pôde ser manipulado ao sabor das processos identitários. Nessa acepção o pós-
exigências e conjunturas políticas. Tanto se colonialismo contém uma crítica, implícita ou
ofereceu a leituras inquietantes – e.g. o explícita, aos silêncios das análises pós-coloniais
subdesenvolvimento do colonizador produziu o na primeira acepção. Por me centrar neste texto
subdesenvolvimento do colonizado, uma dupla nos sistemas de representação e processos
Boaventura de Sousa Santos 17 18 Cultura e desenvolvimento

identitários, reporto-me ao pós-colonialismo na incontornável às práticas de imitação e de


segunda acepção, ainda que as análises próprias à assimilação porque, consoante os casos, ou nega
primeira sejam recorrentemente trazidas a cotejo. por fora da enunciação o que a enunciação afirma
Minha hipótese de trabalho é que as diferenças ou então afirma o que ela nega. No caso do pós-
do colonialismo português devem repercutir nas colonialismo português há que contar com a
diferenças do pós-colonialismo no espaço da ambivalência e a hibridação na própria cor da pele
língua oficial portuguesa, nomeadamente em – o mulato e a mulata –, ou seja, o espaço-entre, a
relação ao pós-colonialismo anglo-saxão. A zona intelectual que o crítico pós-colonial
primeira diferença é que a experiência da reivindica para si, encarna no mulato como corpo
ambivalência e da hibridez entre colonizador e e zona corporal. O desejo do outro em que
colonizado, longe de ser uma reivindicação pós- Bhabha funda a ambivalência da representação do
colonial, foi a experiência do colonialismo colonizador6 não é um artefato psicanalítico nem
português durante longos períodos. O pós- é duplicado pela linguagem: é físico, criador,
colonialismo anglo-saxão parte de uma relação multiplica-se em criaturas. A miscigenação não é a
colonial assente na polarização extrema entre conseqüência da ausência de racismo, como
colonizador e colonizado, entre Próspero e pretende a razão lusocolonialista ou lusotro-
Caliban, uma polarização que é tanto uma prática picalista, mas certamente é a causa de um racismo
de representação como a representação de uma de tipo diferente. Por isso, também a existência da
prática, e é contra ela que a subversão da crítica ambivalência ou hibridação é trivial no contexto
pós-colonial se dirige e faz sentido. Mas onde do pós-colonialismo português. Importante será
ancorar a subversão quando essa polarização está, elucidar as regras sexistas da sexualidade que quase
pelo menos durante largos períodos, fortemente sempre deitam na cama o homem branco e a
atenuada ou matizada? O pós-colonialismo em mulher negra, e não a mulher branca e o homem
língua oficial portuguesa tem de centrar-se bem negro. Ou seja, o pós-colonialismo português
mais na crítica da ambivalência do que na exige uma articulação densa com a questão da
reivindicação desta, e a crítica residirá em fazer a discriminação sexual e o feminismo.
distinção entre formas de ambivalência e A terceira diferença do pós-colonialismo
hibridação que efetivamente dão voz ao português reside numa dimensão de ambivalência
subalterno (as hibridações emancipatórias) e e hibridação insuspeitável no caso anglo-saxão. Ao
aquelas que usam a voz do subalterno para contrário do que sucede neste último, a
silenciá-lo (hibridações reacionárias). ambivalência das representações não decorre
A segunda diferença do pós-colonialismo de apenas de não haver uma distinção clara entre a
língua oficial portuguesa reside na questão racial identidade do colonizador e a do colonizado, mas
sob a forma da cor da pele. Para os críticos pós- também de essa distinção estar inscrita na própria
coloniais anglo-saxões a cor da pele é um limite identidade do colonizador. A identidade do
Boaventura de Sousa Santos 19 20 Cultura e desenvolvimento

colonizador português não se limita a conter em si pelo menos, o seu fechamento foi sempre mais
a identidade do outro, o colonizado por ele, pois inconseqüente e transitório. A penetração sexual
contém ela própria a identidade do colonizador convertida em penetração territorial e interpe-
enquanto colonizado por outrem. O Próspero netração racial deu origem a significantes flu-
português não é apenas um Próspero calibanizado: tuantes que sufragaram, com o mesmo grau de
é um Caliban quando visto da perspectiva dos cristalização, estereótipos contrários consoante a
Super-Prósperos europeus. A identidade do origem e a intenção da enunciação. Sufragaram o
colonizador português é, assim, duplamente racismo sem raça ou, pelo menos, um racismo
dupla, constituída pela conjunção de dois outros: mais “puro” do que a sua base racial. Sufragaram
o outro que é o colonizado e o outro que é o também o sexismo sob o pretexto do anti-racismo.
próprio colonizador enquanto colonizado. Foi Por essa razão, a cama sexista e inter-racial pôde
essa aguda duplicidade que permitiu ao português ser a unidade de base da administração imperial e
ser emigrante, mais do que colono, nas “suas” a democracia racial pôde ser exibida como um
próprias colônias. troféu anti-racista sustentado pelas mãos brancas,
Pode-se pois concluir que a “disjunção da pardas e negras do racismo e do sexismo.
diferença”7 é bem mais complexa no caso do pós- O fato de o colonizador ter a vivência de ser
colonialismo português – uma complexidade que colonizado não significa que se identifique mais
paradoxalmente pode redundar em conjunções ou ou melhor com o seu colonizado. Tampouco
cumplicidades insuspeitas entre o colonizador e o significa que o colonizado por um colonizador-
colonizado. O “outro” colonizado pelo colo- colonizado seja menos colonizado que outro
nizador não é totalmente outro em relação ao colonizado por um colonizador-colonizador.
“outro” colonizado do colonizador. Ao contrário Significa apenas que a ambivalência e a hibridação
do pós-colonialismo anglo-saxão, não há um detectadas pelo pós-colonialismo anglo-saxônico
outro: há dois que nem se juntam nem se estão, no caso do pós-colonialismo português,
separam, apenas interferem no impacto de cada muito além das representações, dos olhares,
um deles na identidade do colonizador e do discursos e práticas de enunciação. São corpos e
colonizado. O outro-outro (o colonizado) e o encarnações, vivências e sobrevivências cotidianas
outro-próprio (o colonizador ele próprio ao longo de séculos, sustentados por formas de
colonizado) disputam na identidade do colo- reciprocidade entre o colonizador e o colonizado
nizador a demarcação das margens de alteridade, insuspeitáveis no espaço do Império Britânico.
mas nesse caso a alteridade está, por assim dizer, Para explicar essa diferença é necessário
dos dois lados da margem. introduzir uma outra, sobre os jogos de auto-
É por isso também que o estereótipo do ridade. Nos estudos pós-coloniais o colonizador
colonizado não teve nunca o fechamento que é surge sempre como um sujeito soberano, a
atribuído ao estereótipo no Império Britânico, ou, encarnação metafórica do império. Ora, no
Boaventura de Sousa Santos 21 22 Cultura e desenvolvimento

colonialismo português tal não se pode pres- objeto primordial do pós-colonialismo portu-
supor sem mais. Só durante um curto período – guês. A colonização por parte de um Próspero
a partir do final do século XIX, na África – é que incompetente, relutante, originariamente híbri-
o colonizador encarna o império, e mesmo assim do, redundou em subcolonização ou em hiper-
em circunstâncias muito seletivas. Fora disso, o colonização? Uma colonização particularmente
colonizador apenas se representa a si próprio. É capacitante ou incapacitante para o colonizado?
um auto-império e, como tal, tão livre para o Um Próspero caótico e absenteísta não terá
máximo excesso como para o máximo defeito da aberto espaço para a emergência de Prósperos
colonização. Mas precisamente porque essa substitutos no seio dos Calibans? Não será por
identidade imperial não lhe é outorgada por isso que, no contexto do pós-colonialismo portu-
ninguém além dele, ele é de fato um sujeito tão guês, a questão do neocolonialismo é menos
desprovido de soberania quanto o colonizado. importante que a do colonialismo interno? O
Por isso, a autoridade não existe para além da déficit de colonialismo e de neocolonialismo
força ou da negociação que é possível mobilizar ajuda a explicar a especificidade das formas
na zona de encontro. políticas que emergiram com a independência
Essa dupla ambivalência das representações das grandes colônias. Em sentidos opostos, essas
afeta não apenas a identidade do colonizador, mas formas divergiram da norma de descolonização
também a do colonizado. É possível que o excesso estabelecida pelo colonialismo hegemônico. No
de alteridade que identifiquei no colonizador caso do Brasil, tratou-se de uma das inde-
português seja igualmente identificável no seu pendências mais conservadoras e oligárquicas da
colonizado. Sobretudo no Brasil, é possível América Latina e a única sob a forma de
imaginar que a identidade do colonizado foi monarquia. Com ela estavam criadas as condi-
construída, em alguns períodos pelo menos, a ções para que o colonialismo externo sucedesse o
partir de um duplo outro: o outro do colonizador colonialismo interno, para que o poder colonial
direto português e o outro do colonizador indireto sucedesse a colonialidade do poder. Já no caso de
britânico. Essa duplicidade transformou-se Angola e Moçambique o desvio da norma foi no
mesmo em elemento constitutivo do mito das sentido de os novos países independentes ado-
origens e das possibilidades de desenvolvimento tarem regimes revolucionários que, no contexto
do Brasil, como veremos adiante. Instaurou uma da Guerra Fria, os colocavam do lado oposto
fratura que até hoje é tema de um debate que àquele em que Portugal os tinha mantido
divide os brasileiros entre os que se sentem enquanto colônias. As vicissitudes por que
vergados pelo excesso de passado e os que se passaram esses países nos últimos 25 anos (fim da
sentem vergados pelo excesso de futuro. Guerra Fria, guerra civil) não nos permitem
O colonialismo português carrega consigo o avaliar em que medida o colonialismo interno irá
estigma de uma indecidibilidade que deve ser caracterizar os novos países.
Boaventura de Sousa Santos 23 24 Cultura e desenvolvimento

A indecidibilidade do colonialismo português diferença tem poder para declará-la superior às


constitui uma mina de investigação para um pós- outras diferenças em que se espelha. A identidade
colonialismo contextualizado, ou seja, que não se é originariamente um modo de dominação assente
deixe armadilhar pelo jogo de semelhanças e num modo de produção de poder que designo por
diferenças do colonialismo português em relação “diferenciação desigual”9. As identidades subal-
ao colonialismo hegemônico. Caso contrário, uns ternas são sempre derivadas e correspondem a
apenas verão semelhanças e outros diferenças, e situações em que o poder de declarar a diferença
entre uns e outros a indecidibilidade escapar-se-á se combina com o poder para resistir ao poder que
como um derradeiro objeto incomensurável, a declara inferior. Na identidade subalterna a
invisível para si próprio como o olhar. No atual declaração da diferença é sempre uma tentativa de
contexto o pós-colonialismo contextualizado apropriar uma diferença declarada inferior de
pressupõe cuidadosas análises históricas e modo a reduzir ou eliminar sua inferioridade. Sem
comparadas dos colonialismos e do que se lhes resistência não há identidade subalterna, há
seguiu. É crucial responder à pergunta sobre quem apenas subalternidade.
descoloniza o que e como. Só assim o discurso A identidade dominante reproduz-se assim por
pós-colonial pode fazer jus à disseminação que dois processos distintos: pela negação total do
Bhabha propõe: um discurso que se move entre outro e pela disputa com a identidade subalterna
diferentes formações culturais e processos sociais do outro. Quase sempre o primeiro conduz ao
sem uma causa lógica central8. Sem tal espe- segundo. Por exemplo, a identidade dominante e
cificação histórica e comparativa o pós-colo- mesmo matricial da modernidade ocidental –
nialismo será mais uma forma de imperialismo Próspero/Caliban, civilizado/selvagem – repro-
cultural, e uma forma particularmente insidiosa duziu-se inicialmente pelo primeiro processo e
porque credivelmente antiimperalista. depois pelo segundo. Em diferentes jogos de
espelho, os dois processos continuam a vigorar.
Jogos de espelhos I: um Caliban na Do ponto de vista do diferente superior, porém, a
Europa identidade dominante só se transforma em fato
As identidades são o produto de jogos de político na medida em que entra em disputa com
espelhos entre entidades que, por razões identidades subalternas. É esse o fato político que
contingentes, definem as relações entre si como hoje designamos por “multiculturalismo”. Em
relações de diferença e atribuem relevância a tais qualquer dos seus modos de reprodução a
relações. As identidades são sempre relacionais identidade dominante é ambivalente, pois mesmo
mas raramente são recíprocas. A relação de a negação total do outro só é possível mediante a
diferenciação é uma relação de desigualdade que produção ativa da inexistência do outro. Essa
se oculta na pretensa incomensurabilidade das produção implica sempre o desejo do outro na
diferenças. Quem tem poder para declarar a forma de uma ausência abissal, de uma carência
Boaventura de Sousa Santos 25 26 Cultura e desenvolvimento

insaciável. Tal ambivalência está bem patente na sualidade, da violência à afabilidade, da falta de
representação da América no início da expansão higiene à ignorância, da superstição à irra-
européia. A maioria dos relatos da descoberta do cionalidade. O contraste entre Europa do Norte
novo continente e das narrativas de viagens reflete e Portugal está bem patente no relato do frade
uma peculiar fusão de imagens idílicas, utópicas e Claude de Bronseval, secretário do abade de
paradisíacas com as de práticas cruéis e Clairvaux, sobre a viagem que fizeram a Portugal
canibalísticas dos nativos. De um lado, a natureza e Espanha entre 1531 e 1533. Queixam-se
luxuriante e benevolente; do outro, a antro- recorrentemente das péssimas estradas, do
pofagia repulsiva. caráter rústico das pessoas, do alojamento e
Sobre os jogos de identidade no espaço- tratamento paupérrimos, bem “à maneira do
tempo português, adianto as seguintes hipóteses. país”, do hábito dos nobres ou homens honrados
Em primeiro lugar, esses jogos são particu- de reservarem para albergar os estrangeiros as
larmente complexos pelo fato de os portugueses casas mais miseráveis para não serem vistos como
terem estado ao longo da história dos dois lados estalajadeiros. Quanto à educação dos frades,
do espelho: como Próspero visto ao espelho de dizem, “são poucos os que nestes reinos
Caliban e como Caliban visto ao espelho de hispânicos gostam de latim. Eles não gostam
Próspero. A segunda hipótese, decorrente da senão da sua língua vulgar”. A descrição de
anterior, é que a ambivalência é potenciada Lisboa não poderia ser mais significativa da
nesse espaço-tempo pelo fato de o sujeito de atitude geral dos viajantes:
desejo ter sido também objeto de desejo. A
terceira hipótese é que a identidade dominante [E]sta cidade densamente povoada é
um antro de judeus, alimento de uma
nesse espaço-tempo nunca produziu de modo multidão de indianos, uma masmorra
conseqüente a negação total do outro e talvez dos filhos da Agar, um reservatório de
por isso tampouco soube confrontar-se poli- mercadorias, uma fornalha de agiotas,
ticamente com as identidades subalternas. Nesta um estábulo de luxúria, um caos de
avareza, uma montanha de orgulho, um
seção e nas seguintes aduzirei alguma prova refúgio para fugitivos, um porto para
dessas hipóteses. franceses cadastrados.11
As características com que os portugueses
foram construindo, a partir do século XV, a Ao analisar três relatos de estrangeiros escritos
imagem dos povos nativos de suas colônias são no decênio de 1720, Castelo Branco Chaves
muito semelhantes às que lhes eram atribuídas, a afirma que
partir da mesma altura, por viajantes, co-
merciantes e religiosos vindos da Europa do o conspecto geral do país que se
apreende é o de uma terra fértil, rica
Norte10: do subdesenvolvimento à precariedade mas desaproveitada, vivendo quase
das condições de vida, da indolência à sen- exclusivamente do ouro do Brasil. Parte
Boaventura de Sousa Santos 27 28 Cultura e desenvolvimento

do que comia, do que vestia, as madeiras dezembro de 1780 o capitão inglês Richard
para as construções urbanas e navais, a Crocker escreve de Lisboa:
maioria do necessário à vida, tudo
vinha de fora, da Inglaterra e da Os homens portugueses são, sem
Holanda, particularmente comprado dúvida, a raça mais feia da Europa.
com o ouro brasileiro. O português é Bem podem eles considerar a
mandrião, nada industrioso, não denominação de “ombre blanco” [...]
aproveita as riquezas da sua terra, nem uma distinção. Os portugueses
sabe fazer vender as das suas colônias.12 descendem de uma mistura de judeus,
mouros, negros e franceses, e pela sua
aparência e qualidade parecem ter
Com exceção da referência final às colônias, essa reservado para si as piores partes de cada
caracterização corresponde ponto por ponto ao um desses povos. Tal como os judeus, são
que então e desde há dois séculos se dizia dos mesquinhos, enganadores e avarentos.
povos nativos da América e da África: os Tal como os mouros, são ciumentos,
portugueses são vingativos até a crueldade, cruéis e vingativos. Tal como os povos de
cor, são servis, pouco dóceis e falsos, e
dissimulados, motejadores, frívolos e tolos. parecem-se com os franceses na vaidade,
Crueldade, espírito de vingança, dissimulação, artifício e gabarolice.14
frivolidade e tolice são parte constitutiva do
estereótipo dos europeus a respeito dos africanos No início do século XIX os portugueses são em
ou dos povos ameríndios. Essa assimilação está geral descritos como camponeses algo primitivos.
muitas vezes implícita nos relatos quando a cor da Em setembro de 1808 o oficial da marinha inglesa
pele dos portugueses é invocada para confirmar a Charles Adam escreve de Lisboa a um amigo:
veracidade do estereótipo. Segundo um dos “Vou fazer o possível para arranjar [...] livros
relatos, os portugueses são “na sua maior parte espanhóis, dizem-me que não há livros
muito morenos, o que resulta do clima e ainda portugueses que valha a pena ter”15. Durante sua
mais do cruzamento com negros”13. Ao mesmo estada em Portugal entre 1808 e 1814, August
tempo que os portugueses proclamavam a Schaumann, comissário alemão do exército inglês,
miscigenação como um triunfo humanista ou um lamenta nos seguintes termos depreciativos a
engenhoso expediente colonialista, a mesma situação de um povo que se vê invadido, não por
miscigenação era-lhes inscrita na pele como um um, mas por dois países, um que o ataca (a
ônus pelo olhar do Próspero europeu. França) e outro que o defende (a Inglaterra): “De
É a partir da segunda metade do século XVIII, todo o meu coração tenho pena destes pobres
como afirma Chaves, e por invenção sobretudo diabos”16 Pela mesma época Lord Byron visita
dos ingleses, que a “lenda negra” de Portugal e Portugal (1809) e escreve o seu famoso poema
dos portugueses como povo decaído, dege- Peregrinação de Childe Harold: “Palácio e cabana
nerado, imbecilizado mais se aprofunda. Em são igualmente imundos; seus morenos habitantes
Boaventura de Sousa Santos 29 30 Cultura e desenvolvimento

educados sem asseio; e ninguém, fidalgo ou A simetria entre os estereótipos dos


plebeu, cuida da limpeza do casaco ou da camisa, portugueses por parte dos europeus do Norte e os
[…] os cabelos por pentear, mal asseados”. E para estereótipos dos povos da América e da África por
não restarem dúvidas, eis a comparação com os parte dos europeus do Norte e do Sul torna-se
espanhóis: “O camponês espanhol é tão soberbo particularmente consistente na ambivalência com
como o duque mais nobre e conhece bem a que a estigmatização do outro é penetrada pelo
distância que vai dele ao escravo português, o desejo radical do outro. Vimos atrás como as
último dos escravos”17. primeiras imagens e narrativas da América
No final do século XVII, o reverendo anglicano combinam a exaltação da natureza idílica e da vida
John Colbatch, que ocupou o posto de capelão da simples com a condenação veemente das práticas
British Factory em Lisboa, deixara uma opinião cruéis e repulsivas do canibalismo. Esse contraste
em geral mais favorável dos portugueses, não tem um paralelo intrigante nos relatos sobre
deixando ao mesmo tempo de denunciar o “ódio Portugal feitos por viajantes europeus a partir do
mortal” que alimentavam pelos estrangeiros e de século XVIII, em que a beleza das paisagens, a
lamentar a sua pouca gratidão para com os terra rica, o clima ameno são recorrentemente
ingleses, que tantas vezes foram seus “salvadores”18. contrapostos à rudeza e brutalidade dos
Robert Southey visitou Portugal pela primeira vez portugueses, como nesta formulação de Lord
em 1796, e apesar de pretender mostrar admiração Byron: “Por que desbarataste, ó natureza, as tuas
pelos portugueses não deixou de tachá-los como maravilhas com semelhante gente? Eis que em
povo retrógrado, supersticioso, sujo, preguiçoso, vário labirinto de montes e vales surge o glorioso
ignorante, desonesto, tolhido pela tirania do éden de Sintra”20. Mas o contraste está presente
Estado e da Igreja, ambos corruptos e ignaros, e em muitos outros relatos. O mesmo Robert
servido por instituições insólitas e chocantes, como Southey que avalia severamente os portugueses é o
a Justiça, “geralmente inoperante ou precipitada, que exalta as belezas naturais do país e exclama:
que deixava impunes os muitos assaltantes e “Daria um dos meus olhos à cega Fortuna se ela
assassinos”, ou a medicina, “exercida por médicos me deixasse olhar o Tejo com o outro”21. A terra
que nada sabiam do ofício e desacreditados pelos fértil mas desaproveitada é um topos recorrente
doentes, que preferiam considerar as melhoras que dos relatos. Carlos de Merveilleux, médico
sentiam como obra de Deus”. E para compor a naturalista francês a quem D. João V convidou
simetria com os estereótipos europeus sobre os para escrever “a história natural destes reinos”, diz
povos da África ou da América, afirma Southey: “A que “as terras produzem quase sem trabalho e
sensualidade é sem dúvida o vício dos portugueses. indenizam abundantemente os cuidados com o
As imagens debochadas de Camões, a sua ilha dos seu cultivo”, e arremata: “Que riquezas não
amores e Vênus protetora do Gama demonstram extrairia Sua Majestade dos seus estados se eles
que eles se vangloriam de deboches desse tipo”19. fossem povoados por [...] gentes laboriosas”22.
Boaventura de Sousa Santos 31 32 Cultura e desenvolvimento

A dialética de estranheza/desejo e domínio britânico sobre Portugal, mas ao longo


repulsão/atração presente na descrição dos de toda a época moderna são freqüentes as
animais do continente americano e da relação dos narrativas que procuram pôr em causa narrativas
índios com eles é também identificável nos relatos anteriores e propor alternativas. Alguns prosélitos
dos viajantes estrangeiros em Portugal. Eis o que da representação procuram mesmo reconstruir a
escreve uma viajante inglesa na década de 1890: história das representações dos portugueses de
modo a fazer salientar sua face positiva, como é o
... os porcos desta região são caso de Rose Macaulay24. Entre os estereótipos
terrivelmente feios. São uns animais positivos, o dos brandos costumes é talvez o mais
enormes com orelhas compridas, lombos
imensos, [...] costados ocos [...]. Apesar consistente, apesar de muito recente, e está na
disso, os aldeões consideram essas base de outro ainda mais recente: o do
criaturas como animais domésticos que lusotropicalismo.
respondem aos nomes que lhes põem e O que pretendo mostrar é que tanto a carga
vêm quando os chamam, como os cães, e
gostam muito que lhes falem e positiva como a carga negativa dos estereótipos
acariciem.23 têm paralelos por vezes surpreendentes com os
estereótipos coloniais. Num trabalho importante
A dialética da representação do colonizado faz sobre o sistema de representações sociais
deste, como vimos, um ser simultaneamente identitárias dos portugueses, Pereira Bastos
atrativo e repulsivo, dócil e ameaçador, leal e reconstrói assim o perfil do português saído dos
traiçoeiro, utópico e diabólico. Daí que os estudos do sociólogo francês Paul Descamps, que
estereótipos não sejam unívocos nem consistentes: fez investigação em Portugal nos anos 1930 a
consoante as necessidades de representação do convite de Salazar: predomínio do amor sobre os
colonizador, predominam estereótipos ora interesses materiais; saudosismo e propensão para
negativos, ora positivos, ainda que uns e outros se a melancolia; exagerada moleza do caráter;
pertençam mutuamente. Essa dialética tem desvirilização e hipersensibilidade; temperamento
igualmente paralelo nas representações dos nervoso, emotividade e compaixão; espírito
estrangeiros a respeito dos portugueses. Ao lado poético; amabilidade e docilidade; “alma
das representações “negativas”, que ilustrei acima, feminina”; propensão para a simulação; desejos
há igualmente representações “positivas”. Aliás, tal ilimitados e apelo ao irreal; espírito aventureiro;
como aconteceu com as narrativas coloniais a falta de perseverança, de capacidade empresarial e
respeito do colonizado, a disputa sobre “o perfil de chefia; ausência da noção de importância do
do português” foi por vezes acesa entre os tempo e da pontualidade; incompreensão das
observadores estrangeiros. Os estereótipos conseqüências sociais das ações.25 É importante
negativos passam a dominar na segunda metade nesse rol a complexa ambivalência de atração e
do século XVIII, à medida que se aprofunda o repulsão. Mas mais importante ainda é que, em
Boaventura de Sousa Santos 33 34 Cultura e desenvolvimento

pleno século XX, muitas das características A hegemonia de Portugal no sistema mundial
atribuídas aos portugueses têm semelhanças moderno foi de curta duração, e no final do século
surpreendentes com as que as narrativas XVI os significantes de Próspero e Caliban
colonialistas, inclusive as portuguesas, atribuíam circulavam fora do controle dos portugueses. As
ao negro africano e ao índio americano. inscrições desses significantes nos sistemas de
representação dos portugueses foram de tal modo
Jogos de espelhos II: um Próspero complexas e fizeram-se durante um período tão
calibanizado longo que acabaram por dar origem a estereótipos
Os portugueses nunca puderam instalar-se e mitos contraditórios, sobrecarregados de meias-
comodamente no espaço-tempo originário do verdades. Até hoje a construção histórica das
Próspero europeu. Ali viveram como que descobertas e do colonialismo portugueses está
internamente deslocados em regiões simbólicas assombrada por mitos que se pertencem e se anu-
que não lhes pertenciam e onde não se sentiam à lam mutuamente. De um lado, a construção de
vontade. Foram objeto de humilhação e de Charles Boxer: os portugueses como um Próspero
celebração, de estigmatização e de complacência, incompetente com todos os defeitos de Próspero e
mas sempre com a distância de quem não é com poucas das suas virtudes. De outro, a de
plenamente contemporâneo do espaço-tempo que Gilberto Freyre: os portugueses como um Próspero
ocupa. Forçados a jogar o jogo dos binarismos benevolente e cosmopolita capaz de se aliar a
modernos, tiveram dificuldades em saber de que Caliban para criar uma realidade nova26. Duas
lado estavam. Nem Próspero nem Caliban, construções credíveis à luz do desconcerto e do
restaram-lhes a liminaridade e a fronteira, a interi- caos das práticas a que quiseram pôr ordem. Essa
dentidade como identidade originária. Acontece indecidibilidade é o sinal da vigência reiterada de
que, em aparente contradição com tudo isso, um regime de interidentidades. Os portugueses,
Portugal foi a primeira potência européia a lançar- sempre em trânsito entre Próspero e Caliban, tanto
se na expansão ultramarina e a que manteve por foram racistas, muitas vezes violentos e corruptos,
mais tempo o seu império. Se o colonialismo jogou mais dados à pilhagem que ao desenvolvimento,
um papel central no sistema de representações da como foram miscigenadores natos, literalmente
modernidade ocidental, Portugal teve uma pais da democracia racial, do que ela revela e do
participação pioneira na construção desse sistema que esconde, melhores do que qualquer outro
e, portanto, no jogo de espelhos fundador entre povo europeu na adaptação aos trópicos.
Próspero e Caliban. O enigma é, pois: como é que Na África, na Ásia e no Brasil esse regime de
o Caliban europeu pôde ser Próspero além-mar? interidentidades teve infinitas manifestações, e
Ou será que, porque nunca assumiu nenhuma entre elas avultam a “cafrealização” e a
dessas identidades plena e exclusivamente, pôde miscigenação, fenômenos ligados entre si mas
assumir as duas simultaneamente? referidos a processos sociais distintos. “Cafrea-
Boaventura de Sousa Santos 35 36 Cultura e desenvolvimento

lização” é uma designação utilizada a partir do de relacionamento mais profundo que envolviam
século XIX para caracterizar de maneira estigma- freqüentemente a constituição de família e a
tizante os portugueses que, sobretudo na África assimilação das línguas e costumes locais.
Oriental, se desvinculavam de sua cultura e de seu Essa interação fácil entre os portugueses e as
estatuto civilizado para adotar os modos de viver populações locais e as práticas culturais híbridas a
dos “cafres”, os negros agora transformados em que deu azo estão documentadas desde o século
primitivos e selvagens. Trata-se pois de portu- XVII. Os relatos, muitas vezes de religiosos,
gueses apanhados nas malhas de Caliban e de fato criticam essas práticas, ainda que por vezes mos-
calibanizados, vivendo com mulheres e filhos trem compreensão para com as dificuldades en-
calibans, segundo os costumes e línguas locais. frentadas naquelas paragens por quem não tinha o
Até então a designação “cafre” não tinha poder colonial a defendê-lo. Escreve frei João dos
conotação negativa, servindo apenas para Santos em 1609:
distinguir os negros (cafres) dos negros que
falavam árabe e estavam, por isso, envolvidos no Um português chamado Rodrigo
Lobo era senhor desta ilha [na atual
comércio que os povos de cultura árabe e região de Sofala, em Moçambique], da
muçulmana e swahili mantinham há séculos qual lhe fez mercê o [rei] por ser muito
naquelas paragens 27. Ela assume conotação seu amigo, e juntamente lhe deu o título
depreciativa num momento preciso da história de sua mulher, nome que o rei chamava
do colonialismo português – que adiante ao capitão de Moçambique, ao de Sofala
e aos mais portugueses que muito
designarei por “momento de Próspero” –, e sua estima, significando com tal nome que
relevância para a argumentação desenvolvida os ama e que quer que todos lhe façam
nesta seção é que com ela o discurso colonial cortesia, como a sua mulher, e realmente
pretende ressignificar uma prática que se [...] os cafres veneram muito os
portugueses que têm títulos de mulheres
difundiu entre os séculos XVI e XIX, sobretudo do rei.28
na costa oriental da África. Consistiu na
interação prolongada dos portugueses com as Em 1766 escreve António Pinto Miranda que os
culturas e os poderes locais, uma interação em europeus de Moçambique
que os interesses do comércio não podiam ser
respaldados por qualquer poder imperial digno casam com algumas senhoras
do nome e, por isso, tendia a ser caracterizada naturais e outras que de Goa descendem
pela reciprocidade e horizontalidade, quando [e] se esquecem muito da criação cristã
não mesmo pela subordinação e prestação de [...], razão por que nem aos próprios
filhos a costumam dar, pelo que ficam
vassalagem aos reis e autoridades locais. A estes com os péssimos procedimentos que
reiteração dessas interações foi tal que elas dos patrícios relatei. […] Além das
extravasaram da atividade comercial para esferas próprias mulheres não deixam de
Boaventura de Sousa Santos 37 38 Cultura e desenvolvimento

procurar outras. [...] Desta sorte, ociosos relatos, e com ela a desqualificação dos portugueses
passam os dias da vida.29 que se misturavam com eles e adotavam seus modos
de vida. Ao longo de um vasto período o
Em 1844 João Julião da Silva escreveu a sua estereótipo português que domina não é o de
Memória sobre Sofala, onde refere: Próspero, mas o de um proto-Caliban, um
cafrealizado. À medida que se forem conhecendo as
A civilização nesta vila em nada se narrativas desses portugueses cafrealizados, será
tem avançado do seu primitivo estado possível obter uma idéia mais complexa dos
desde aqueles tempos em que tinha a
denominação de presídio [e] seus processos de hibridação e certamente diferente da
habitantes eram [...] criminosos e que nos é dada pelas narrativas dos que os visitavam
imorais que eram remetidos para em aparições meteóricas do poder imperial, da
cumprir suas sentenças por toda a vida Igreja e da Coroa, de resto sempre ausentes. Para a
[...]; estes tais indivíduos logo desqualificação e estigmatização do Próspero
procuravam familiarizar-se em tudo e
por tudo com os costumes e modo de cafrealizado contribuiu também a origem dos
proceder dos cafres que os rodeavam, e portugueses que povoaram os territórios. Segundo
para achar apoio nestes [...] se casavam Marc Ferro, foi primeiro em Portugal que se adotou
cafrialmente com as pretas dos sertões e a prática de “livrar-se dos criminosos, dos
geravam mulatos [que], criados na
mesma liberdade e costumes cafriais, delinqüentes, mandando-os cumprir pena para
seguiam o mesmo modo de proceder de longe – exemplo que a Inglaterra imitou em escala
seus pais, e até o presente são raros os que gigantesca com os convicts que a partir de 1797
sabem ler e escrever [...]; as superstições, foram povoar a Austrália”32. A partir de 1415, de
os prejuízos e costumes bárbaros estão fato, cada navio que partia a explorar a costa de
[tão] arraigados neles que é impossível
desalojá-los; ignorando até os primeiros África levava seu contingente de degredados.
rudimentos da nossa Santa Religião, o Muitos dos portugueses de que falam
idioma português e os costumes depreciativamente os relatos, como o do citado
europeus.30 Caetano Xavier, eram degredados:

Do mesmo teor é o lamento de Ignacio Caetano Chega ainda mais avante a


insolência destes moradores porque
Xavier em meados do século XVIII, ao dizer depois de atropelarem os respeitos
que os moradores sujeitos à Coroa “mais humanos também se têm atrevido
parecem feras do que homens, por serem muitas vezes a perder o decoro das Casas
opostos à vida civil e à sujeição à política, de Deus com sacrílegos insultos, de
omitindo falar na religião” 31. morte, feridas, bulhas etc., [...] como
sucedeu há poucos anos na igreja dos
A desqualificação dos indígenas como dominicanos em Senna, que hoje está
primitivos e selvagens é uma constante desses reduzida a cinzas.33
Boaventura de Sousa Santos 39 40 Cultura e desenvolvimento

O subtexto desses relatos é que a origem social insultos dos cafres macuas, sendo a Moçambique
dos portugueses na África reclamava uma presença impossível [...] mandar socorros [por] falta de
mais forte da autoridade colonial. Ora, como tropas 34. Também a legalidade colonial, não
vimos, esta era tão fraca e tão inconsistente que dispondo de um Estado colonial forte que a
melhor poderia caracterizar-se como um poder impusesse, ficou menos nas mãos de quem a
aparente, caráter esse fundamental, a meu ver, emitia do que nas de quem lhe devia obediência.
para entendermos os caminhos das interi- A autogestão colonial levou à constituição de uma
dentidades na África durante esse período. O fato legalidade paralela que combinava a aplicação
de o colonialismo português na África ter estado altamente seletiva, apenas quando conveniente, da
durante vários séculos mais interessado em legalidade oficial com outras legalidades locais ou
controlar o comércio marítimo do que em ocupar adaptadas às condições locais. Terá sido esse o
territórios, combinado com a debilidade político- primeiro exemplo moderno de pluralismo
administrativa do Estado colonial, fez que os jurídico.35 Do ponto de vista dos portugueses nas
portugueses que comerciavam nessas paragens colônias, a condição jurídica de suas atividades
fossem colonizadores sem Estado colonial e, por não era nem legal nem ilegal: era alegal. Do ponto
isso, se vissem forçados a praticar uma forma de de vista da Coroa, tratava-se de um sistema de
autogestão colonial. Essa autogestão lhe permitia desobediência que não podia ser assumido como
uma identificação discricionária com o poder do tal por ninguém, semelhante ao que vigorou na
Império, mas não lhes facultava desse Império América espanhola e que ficou conhecido por
senão o poder que pudessem mobilizar com meios “obedeço mas não cumpro”. Era um sistema
próprios. Como esses meios eram exíguos, o jurídico de torna-viagem: as leis, expedidas de
português teve de negociar tudo, não só seu Lisboa, nem sempre chegavam, e quando
comércio como também a própria sobrevivência. chegavam a sua chegada era ignorada, ou quando
Foi um “colonizador” que se viu freqüentemente era reconhecida, bastante mais tarde, as condições
na contingência de prestar vassalagem ao rei local tinham-se alterado de tal modo que se justificava
como qualquer nativo. o seu não-cumprimento; por fim as leis e a
A mesma ausência do Estado colonial fez que justificação eram enviadas a Lisboa com o voto de
as tarefas de soberania, como a defesa das obediência em apêndice final: “Ficamos a
fronteiras, por exemplo, fossem freqüentemente aguardar instruções”.
“subcontratadas” às populações locais. É o que Naturalmente, essas características da eco-
narra Joaquim Portugal no século XVIII acerca nomia política tiveram impacto no regime de
das ilhas de Cabo Delgado, no extremo norte de interidentidades, no modo como os portugueses
Moçambique, cujos únicos habitantes, “mouros se cafrealizaram, se hibridizaram com as culturas e
nacionais, que vivem na maior obediência, são práticas com que tinham de conviver. Mas se esse
toda a força que defende as nossas fronteiras dos impacto é evidente, o seu sentido preciso é um dos
Boaventura de Sousa Santos 41 42 Cultura e desenvolvimento

fatores de indecidibilidade do sistema de repre- constitui um duplo não-dito: é um não-dito da


sentações identitárias no espaço-tempo do colo- assimilação porque é uma assimilação invertida,
nialismo português. A cafrealização e, em geral, a de Próspero por Caliban, mas é também o não-
“adaptação aos trópicos” foi um produto da dito da imposição cultural que caracteriza a
facilidade ou da necessidade? Foi a facilidade que colonização, seja ela assimilacionista ou não,
a tornou necessária ou, ao contrário, a necessidade porque é uma identidade negociada. Curio-
a tornou fácil? samente, em mais um jogo de espelhos, essa
A leitura da facilidade tende a desestigmatizar a leitura é consonante com algumas das leituras dos
cafrealização e a torná-la uma condição capa- viajantes estrangeiros em Portugal a partir do
citante. A análise de Jorge Dias é uma versão século XVIII, nas quais a porosidade das práticas
paradigmática dessa leitura: identitárias dos portugueses não passou
despercebida38. Já a leitura da necessidade tende a
A composição heterogênea do povo
português e a estrutura tradicional ver na cafrealização a debilidade e a incom-
comunitária e patriarcal permitiram- petência de um Próspero que não pôde ou não
lhe uma perfeita assimilação do espírito soube escapar a ela. É expressão de uma de-
cristão de fraternidade, [...] mesmo generescência que arrastou no seu atraso o atraso
quando posto à prova em situações de dos colonizados. É essa, em boa medida, a leitura
grandes contrastes raciais e culturais.
[...] a política da Nação e o compor- de Charles Boxer, bem como a que subjaz às
tamento dos indivíduos formavam um políticas coloniais do final do século XIX em
todo completamente harmonioso. Os diante, embora nesse caso a leitura vise
portugueses não chegavam com atitudes exclusivamente justificar a ruptura com as
de conquistadores, antes procuravam políticas coloniais anteriores, a que farei referência
estabelecer relações de amizade com as
populações de vários continentes, e só na próxima seção.
quando as situações o exigiam eram A miscigenação é a outra manifestação da
levados a servir-se das armas e a lutar. porosidade dos regimes identitários dos
[…] A nossa ação assimiladora não se portugueses. Trata-se de um fenômeno diferente
exerceu de maneira violenta, antes pelo
contrário, procuramos adaptar-nos aos da cafrealização e pode ocorrer sem esta, mas a
ambientes naturais e sociais, respeitando verdade é que nos momentos de intensificação dos
os estilos de vida tradicionais. Por outro discursos colonialistas e racistas – os momentos de
lado, íamos, pelo exemplo e convívio, Próspero, que mencionarei adiante – a estigma-
despertando nas populações indígenas o tização da cafrealização arrastou consigo a da
respeito por certos princípios da nossa
civilização ocidental.36 miscigenação (a miscigenação como cafrealização
do corpo). Hoje tende a ser consensual que a
Nessa leitura, a cafrealização é o não-dito que miscigenação foi a “exceção portuguesa” no
sustenta o seu contrário, a assimilação.37 Ela colonialismo europeu39, embora também o seja
Boaventura de Sousa Santos 43 44 Cultura e desenvolvimento

que o colonialismo português não foi o único a uma armadilha adicional para os que pensem que
praticá-la. os jogos de espelhos refletem algo que esteja para
A porosidade de fronteiras entre Próspero e além deles. Trata-se da possibilidade de o
Caliban atingiu sua máxima expressão identitária português miscigenador ser ele próprio misci-
na figura do mulato e da mulata. A ambivalência genado, originalmente mulato, e não poder por
das representações a seu respeito é bem isso gerar senão mulatos e mulatas, mesmo
elucidativa da natureza de um pacto colonial tão quando uns e outras são brancos e brancas.
aberto quanto desprovido de garantias. Ora vistos Aqueles que quiseram fazer dos portugueses um
como seres geneticamente degradados, expressão Próspero de pleno direito atribuíram-lhes
viva de uma traição à Caliban, ora como seres ancestralidade lusitana, romana e germânica,
superiores, combinando o que de melhor havia enquanto os que os viram como um Próspero
em Próspero e em Caliban, os mulatos foram, ao relutante, inconseqüente e calibanizado atribuí-
longo dos séculos, uma mercadoria simbólica cuja ram-lhes ancestralidade judaica, moura e negra.
cotação variou com as vicissitudes dos pactos e A miscigenação originária, na forma de
das lutas coloniais. Em momentos em que significantes racistas inscritos na cor da pele, na
Próspero quis se afirmar como tal ou em que compleição física e mesmo nos costumes,
Caliban tomou consciência de sua opressão e se perseguiu os portugueses aonde quer que fossem.
dispôs a lutar contra ela, a cotação social dos Nas colônias ou ex-colônias de outras potências
mulatos baixou; e, ao inverso, subiu nos européias, em especial no mundo anglo-saxão,
momentos, imensamente mais duradouros, em foram freqüentemente motivo de perplexidade,
que nem Próspero nem Caliban sentiram constituindo objeto de classificações extravagantes
necessidade ou tiveram a possibilidade de se que não foram senão manifestações da
afirmar como tais. Expressão da democracia interidentidade. Nas Caraíbas, nos Estados
racial, os mulatos contribuíram, sem querer e Unidos e no Havaí os portugueses foram sempre
contra os seus interesses, para legitimar a considerados um grupo étnico diferente dos
desigualdade social racista. Pode-se pois concluir brancos e dos europeus, com um estatuto
que o debate sobre o valor sociológico político e intermédio entre estes e os negros ou nativos.40
cultural da miscigenação é indecidível nos seus Nas Caraíbas e no Havaí eram designados por
próprios termos, já que é um dos debates-erzatz portygees ou potogees, trabalhadores com contratos
do ajuste de contas histórico entre Próspero e a prazo que vieram substituir os escravos após o
Caliban, entre o colonialismo europeu e os fim da escravatura e que, por isso, não eram
colonizados por ele, que por muito tempo ainda brancos, mas apenas mais um tipo de coolie men,
vai ficar em aberto. assim como os asiáticos. Para o historiador afro-
Nesse contexto, vale registrar mais uma das caribenho Eric Williams, não há nada de estranho
astúcias do regime identitário dos portugueses, em descrever os grupos étnicos que apoiaram o
Boaventura de Sousa Santos 45 46 Cultura e desenvolvimento

Movimento Nacional Popular de Trinidad e o salário dos carpinteiros portugueses era superior
Tobago como “africanos, indianos, chineses, ao dos carpinteiros japoneses, mas um ferreiro
portugueses, europeus, sírios”, do mesmo modo português ganhava metade do que auferia um
que para V.S. Naipaul a luta pós-independência ferreiro escocês46. Para muito além das relações de
na Guiana envolveu seis raças: “indianos, trabalho, Harney refere um caso em que o estatuto
africanos, portugueses, brancos, mestiços e intermédio dos portugueses foi decisivo para se
ameríndios”41. atingir um compromisso no importante
Miguel Vale de Almeida, na sua passagem por julgamento de um crime de violação. Como os
Trinidad, recolheu o seguinte testemunho de acusados eram asiáticos e nativos havaianos, se os
descendentes de portugueses (os potogees): “as jurados fossem brancos (haoles) os réus certamente
elites não os consideravam brancos, quando muito seriam condenados, e se fossem asiáticos ou
Trinidad-white, e os não-brancos não os tratavam nativos, os réus seriam absolvidos. A solução foi
como superiores”42. Esse estatuto intermédio ajuda encontrada mediante a seguinte composição do
a explicar o papel desempenhado por Albert júri: “seis brancos, um português, dois japoneses,
Gomes, de descendência portuguesa, como líder dois chineses e um havaiano”47.
político dos afro e indo-caribenhos de Trinidad Nos Estados Unidos, a Harvard Encyclopedia of
dos anos 1960, numa altura em que os partidos American Ethnic Groups lamentava que ainda em
políticos ainda correspondiam a divisões étnicas43. 1976 a cidade de Barnstable, em Cape Cod, conti-
Os antepassados de Albert Gomes eram os nuasse a classificar os grupos étnicos que a
“portugueses africanizados” do porto negreiro de constituíam em duas categorias: de um lado, finlan-
Vera Cruz onde, segundo António Garcia de deses, gregos, irlandeses e judeus; de outro, negros,
Leon, faziam a intermediação (inclusivamente portugueses e wampanoags – ou seja, um grupo de
lingüística) entre os escravos recém-chegados e os inequivocamente brancos e um grupo de não-
que os compravam44. Maria Ioannis Baganha brancos48. Na mesma lógica, em 1972 o Ethnic
relata que no Havaí os portugueses eram vistos Heritage Program considerava os portugueses uma
como um grupo étnico superior aos orientais mas das sete minorias étnicas/raciais do país: negro,
inferior aos brancos caucasianos (haole), um grupo índio americano, hispânico, oriental, português,
social intermédio45. Efetivamente, entre 1910 e havaiano nativo, nativo do Alasca – ou seja, os
1914 o censo do Havaí distinguia entre portygees e portugueses eram o único grupo de emigrantes
“outros caucasianos”. Esse status intermédio, europeus a que era recusada a origem européia.49
sendo estruturalmente ambíguo, era bem preciso Originalmente mestiço, calibanizado em casa
quando acionado nas práticas locais, como indica pelos estrangeiros que o visitavam, cafrealizado
Robert Harney: no local de trabalho os nas suas colônias, semicalibanizado nas colônias e
portugueses eram capatazes mas nunca diretores, ex-colônias das potências européias por onde
posição reservada aos escoceses; do mesmo modo, andou, como pôde este Próspero ser colonizador e
Boaventura de Sousa Santos 47 48 Cultura e desenvolvimento

colonizar prosperamente? E será possível ser África, Angola e Moçambique, mais por soberba
consistentemente pós-colonial em relação a um do que na esperança do lucro”50.
colonizador tão desconcertante e exasperan- É verdadeiramente nesse momento que surge
temente desclassificado e incompetente? o indígena primitivo como contraponto ao
português colonizador, representante ou
Jogos de espelhos III: os momentos de metáfora do Estado colonial. O processo que faz
Próspero descer o indígena ao estatuto que justifica a sua
Distingo dois momentos de Próspero no colonização é o mesmo que faz subir o português
colonialismo português: o do final do século XIX ao estatuto de colonizador europeu. A dicotomia
e primeiras décadas do XX e o do 25 de Abril até entre os portugueses e a Coroa desaparece. O
a adesão à UE. Em qualquer desses momentos a império portátil que os portugueses a partir de
ascensão de Próspero no magma identitário agora transportam não é um auto-império sujeito
português faz-se sob a pressão de fatores externos, às fraquezas e forças de quem o transporta, mas a
sempre sob a forma da Europa capitalista emanação de uma força transcendente: o Estado
desenvolvida. O primeiro momento ocorre no colonial. O português branco e o indígena primi-
período pós-Conferência de Berlim (1884-85), tivo surgem simultaneamente divididos e unidos
em que a ocupação efetiva dos territórios sob por dois poderosos instrumentos da racio-
domínio colonial se torna uma condição da nalidade ocidental: o Estado e o racismo. Por
manutenção desse domínio. Feita a partilha da meio do Estado procura-se garantir a exploração
África, os países europeus industrializados dão à sistemática da riqueza, convertendo-a em missão
empresa colonial uma feição imperial que a civilizatória mediante a transladação para as
vincula estreitamente à exploração capitalista das colônias dos modos de vida civilizados da
colônias, o que pressupõe um rígido controle metrópole – a criação mimética de “pequena
político e administrativo sobre elas. Para garantir Europa” na África de que fala Edward Said51. Por
sua presença na África, Portugal vê-se obrigado a meio do racismo obtém-se a justificação
agir como as restantes potências européias, como científica da hierarquia das raças, para o que são
se o desenvolvimento interno do capitalismo mobilizadas tanto as ciências sociais como a
português fizesse exigências comparáveis, o que antropologia física.
não era o caso. Esse fato não escapa à A ocupação territorial, de que é bom exemplo
historiografia inglesa, a serviço do imperialismo a campanha levada a cabo por Portugal contra
britânico e, portanto, hostil ao imperialismo Gungunhana, visa reduzir os africanos, a
português. Thomas Pakenham, em seu The começar pelos seus reis, à condição de
scramble for Africa, 1876-1912, é exemplar a esse subordinados dóceis, ao mesmo tempo que as
respeito: “E havia Portugal, meio senil e ainda sucessivas missões de exploração científica visam
mais arruinado, agarrado às suas possessões na estabelecer e petrificar a inferioridade dos
Boaventura de Sousa Santos 49 50 Cultura e desenvolvimento

negros. 52 Num contexto de prosperidade do A África encarregou a preta de a


colono português, não admira que a cafrealização vingar dos europeus, e ela, a hedionda
e a miscigenação sejam estigmatizadas com negra – porque não há negra que não
seja hedionda –, conquista para a sen-
particular violência. Em 1873 diz António Ennes sualidade dos macacos, para os ciúmes
que “a cafrealização é uma espécie de reversão do ferozes dos tigres, para os costumes torpes
homem civilizado ao estado selvagem”53. Do e desumanos dos escravistas, para os
mesmo modo, Norton de Matos, que foi delírios do alcoolismo, para todos os
embrutecimentos das raças inferiores, e
governador-geral de Angola e era paladino do até para os dentes das quizumbas
assimilacionismo, insurge-se contra a assimilação [hienas] que escavam os cemitérios, os
invertida ao dizer que em 1912 circulavam entre altivos conquistadores do Continente
os indígenas “alguns europeus, em número Negro.57
felizmente reduzido, que por tristes circuns-
tâncias se tinham integrado na vida dos Entre o homem branco e o homem negro
indígenas não civilizados e adaptado por ergue-se uma barreira intransponível que é ao
completo aos seus usos e costumes”54. mesmo tempo o traço da união entre ambos.
Enquanto o português passa de criminoso Nesse jogo de espelhos o negro é selvagem e
degredado propenso a cafrealizar-se à condição de porque é selvagem tende a pensar que “nós” é que
agente civilizatório, os nativos passam de reis e de somos selvagens. Em 1911, um médico em missão
servos de reis à condição da mais baixa no vale do rio Zambeze escreve que o caráter
animalidade, na qual são suscetíveis de “desconfiado e egoísta” do indígena
domesticação apenas por via do gesto imperial. É
a animalidade do negro que justifica a brutalidade não lhe permite compreender o
do trabalho forçado. 55 Assim, lê-se numa interesse que o europeu tem em cuidar
da sua saúde [...], e então aventa a esse
publicação oficial do Ministério das Colônias de respeito as hipóteses mais inverossímeis.
1912 que o indígena, “dado à embriaguez por Nós para eles somos os selvagens,
atavismo de muitas gerações”, “é rebelde ao atribuem-nos os piores instintos e tratam
trabalho manual, ao qual acorrenta a mulher; é de acautelar, tanto quanto lhes permite
a sua estupidez preguiçosa, a vida,
cruel e sanguinário, porque assim o educou o mulheres e haveres. [...] O indígena não
meio em que vive; não tem enraizado na alma o compreende os motivos de ordem
amor da família e dos seus semelhantes”56. Mas a abstrata nem razões altruístas; assim,
demonização do colonizado atinge o paroxismo não podendo explicar por outra forma a
quando referida à mulher. É que esta é colheita de amostras de sangue
destinadas a exame, supõe que é para
considerada responsável pela miscigenação, agora comer. O médico que procede a esse
estigmatizada como o grande fator de degeneração serviço é olhado pela maioria como
da raça, como o expressa António Ennes: antropófago e é curioso que até os
Boaventura de Sousa Santos 51 52 Cultura e desenvolvimento

indivíduos que de perto me serviam princípio quase sempre estéreis e


supunham ser sangue o vinho que eu necessitarão do apoio e da manifestação
consumia.58 prévia da força para produzirem
frutos.62
O canibalismo é um tema recorrente em
momentos de espelhos polarizados entre Próspero A partir da polarização dicotômica entre o
e Caliban. E também aqui o mesmo vínculo que homem branco e o negro selvagem, essa missão
separa abissalmente permite a mais íntima civilizadora impõe ao colonizado uma dupla
reciprocidade. Por isso, a atribuição de caniba- dinâmica identitária: a antropologia colonial e o
lismo aos africanos surge freqüentemente arti- assimilacionismo. A antropologia colonial visa
culada com a mesma atribuição aos colonizadores conhecer os usos e costumes dos indígenas de modo
por parte dos africanos. Assim se lê numa a melhor controlá-los politicamente, administrá-los
narrativa recolhida por Henry Junod no sul de e extrair-lhes impostos e trabalhos forçados. As
Moçambique em inícios do século XX: “– O diferentes formas de “governo indireto” adotadas na
Gungunhana morreu. Os portugueses comeram- África no final do século XIX assentam na
no!” [...] Os portugueses comem carne humana”59. antropologia colonial. O assimilacionismo é uma
Em face da polarização, a colonização efetiva é construção identitária assente num jogo de
um direito-dever. Hegel afirmara já perempto- distância e proximidade do colonizado em relação
riamente que a África, “terra da infância, oculta no ao colonizador nos termos do qual o primeiro –
escuro da noite”, “não é uma parte do mundo his- mediante procedimentos que têm alguma
tórico”60. Por isso, a colonização constitui para os semelhança com os da naturalização – abandona o
Estados civilizados, nas palavras de Ruy Ennes estádio selvagem. A sua subordinação deixa de estar
Ulrich em 1909, “um dever de intervenção”: não vá inscrita num código jurídico especial (como o
“metade do mundo” ficar “no seu estado natural” e Estatuto do Indigenato, por exemplo) e passa a ser
“entregue a populações selvagens”61. Não espantará regulada pelas leis gerais do Estado colonial. O
que os administradores coloniais sintam que esse assimilado é, assim, o protótipo da identidade
dever não pode ser cumprido sem violência. Escreve bloqueada, uma identidade entre as raízes africanas
Alberto d’Almeida Teixeira em seu “Relatório das a que deixa de ter acesso direto e as opções de vida
operações realizadas com o fim de prolongar a européia a que só tem um acesso muito restrito. O
ocupação até ao rio Cuilo”, datado de 1907: assimilado é, assim, uma identidade construída
sobre uma dupla desidentificação.
É convicção minha que, sendo a O assimilacionismo, combinado com a
idéia de independência intuitiva nos miscigenação, é o que confere à sociedade africana
povos selvagens, como é inato neles o
ódio à raça superior, os processos de a sua distinta heterogeneidade. Em 1952,
persuasão e de catequese serão de questiona Alexandre Lobato:
Boaventura de Sousa Santos 53 54 Cultura e desenvolvimento

E que se observa na população de sioneiros, mortos ou fuzilados alguns


Moçambique? Uns milhões de pretos em indígenas, retiram e se dissolvem dei-
estado primitivo, uns milhares de xando aqui e além um pequeno forte
brancos civilizados à européia, alguns mal artilhado e pior guarnecido, que o
milhares de mulatos semi-europeus e gentio em breve considera como ino-
semi-indígenas na maior parte, uns fensivo. A ocupação militar intensa
milhares de indianos [...] e uns quantos durante um longo período (cinco anos
pretos assimilados, civilizados, euro- pelo menos) a seguir à ação violenta e
peizados. […] não há povo moçam- indispensável do combate, da destruição
bicano no sentido em que se fala do povo de culturas e povoações, do aprisiona-
português […]. Não há em mento e do fuzilamento dos chefes indí-
Moçambique um pensar coletivo.63 genas, tendo por fim a escolha e a manu-
tenção de chefes novos que saibamos
transformar em criaturas absolutamente
O máximo de consciência possível do pensamento nossas, o desarmamento geral, a obri-
colonial é lamentar que os povos colonizados gação de trabalhos remunerados em
sejam aquilo em que as políticas coloniais os obras do Estado, a facilitação do re-
transformaram. crutamento de trabalhadores [...] para
O momento de Próspero dos portugueses no trabalhos particulares e o recrutamento
militar, o desenvolvimento agrícola e
virar do século XIX para o XX foi um momento comercial da região ocupada, a cobrança
excessivo em relação às suas condições de possi- de impostos de cubata e a transformação
bilidade. Fortemente condicionado pelas pressões necessária do regime de administração
internacionais após a partilha da África, o colo- militar ou de capitania-mor no regime
nizador português não podia contudo romper in- de circunscrição civil – constituem um
sistema racional de ocupação apenas
teiramente com a longa duração histórica da iniciado nos últimos anos.64
interidentidade entre Próspero e Caliban. Reve-
lou-se, assim, um Próspero inconseqüente e sub- Alguns anos antes Oliveira Martins manifestara a
desenvolvido. Com arrepiante frieza colonialista mesma preocupação perante a falta de condições
escreve Norton de Matos, então governador-geral do colonizador português para colonizar com
demissionário, em relatório confidencial datado competência:
de março de 1915:
Estar de arma – sem gatilho – ao
Não temos sabido ocupar e dominar ombro, sobre os muros de uma fortaleza
Angola. As nossas campanhas têm-se arruinada, com uma alfândega e um
limitado aqui à organização de colunas palácio onde vegetam maus empregados
que infligem ao gentio revoltado [...] malpagos, a assistir de braços cruzados
castigo mais ou menos severo e que, ao comércio que os estranhos fazem e nós
terminada a sua missão militar, ganhos não podemos fazer; a esperar todos os
alguns combates, feitos alguns pri- dias os ataques dos negros, e a ouvir o
Boaventura de Sousa Santos 55 56 Cultura e desenvolvimento

escárnio e o desdém com que falam de vulneráveis à “degeneração moral” do colono nos
nós todos os que viajam na África – não trópicos, revelando, além de “falta de diligência e
vale, sinceramente, a pena.65 indisposição para o trabalho”, uma “falta de
educação e respeito no trato dos escravos da casa,
Essa incapacidade de Próspero para se assumir
não estando habituados a eles na Europa”68.
como tal é testemunhada não só pelos
Igualmente cáustica é a avaliação do colonizador
administradores coloniais, mas também pelos
em momento de Próspero feita pelos assimilados.
estrangeiros e assimilados. Em 1809 o capitão
João Albasini escreve em 1913 sobre o branco dos
Tomkinson relata o seguinte sobre a condição dos
subúrbios:
portugueses de Moçambique:

O solo parecia fértil, com abundante Num casebre escuro e mal cheiroso,
fruta tropical […], mas as plantações um balcão sebento, [...] bancos escuros,
mais parecem pertencer a pobres nativos moscas voejando e… lixo, muito lixo.
não civilizados do que a europeus. Para lá do balcão, um ser cabeludo e
Embora a terra seja boa para o cultivo barbado mexe-se com alguma difi-
do açúcar, do café e do algodão, eles culdade, dando aqui e além um olhar
apenas tratam da fruta e cultivam distraído à sordidez das coisas que lhe
milho e arroz que bastem para o seu garantem a bem-aventurança, o bago, a
sustento. […] cada plantação tem um massa. É o mulungu [branco]; é a alma
número incrível de escravos tão mal gentil da colonização.69
vigiados que a sua principal atividade é
arranjar mantimentos para uso Como uma maldição, o Caliban português
próprio.66 persegue o Próspero português, segue-lhe os
rastros, carnavalizando a sua postura como uma
Outro testemunho interessante no mesmo sentido imitação rasca do que pretende ser.
surge em 1823, numa carta do capitão Owen. O segundo momento de Próspero ocorre no
Segundo ele, é tal a “autoridade militar e contexto da Revolução de 25 de Abril, com o fim
arbitrária” dos mercadores portugueses em da guerra colonial, o reconhecimento dos
Moçambique que “os estrangeiros que com eles movimentos de libertação e a independência das
desejam comércio [estão] sujeitos a toda espécie colônias, prolongando-se no estabelecimento de
de grosseira indignidade e impertinência”. E relações de cooperação com os novos países de
conclui Owen: Que a decadência persiga os língua oficial portuguesa e na criação, em 1996,
portugueses para onde quer que vão é da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
conseqüência natural de sua política estreita e (CPLP). É o momento do Próspero anticolonial
mesquinha”67. Em 1815, os naturalistas alemães ou descolonizador, semelhante ao que haviam
Spix e Martius, em visita ao Brasil, contrastam os vivenciado outras potências coloniais quase três
europeus com os portugueses, estes mais décadas antes. O fim do colonialismo europeu foi
Boaventura de Sousa Santos 57 58 Cultura e desenvolvimento

um momento de Próspero na medida em que as pós-independência. No caso do Brasil, a inca-


potências coloniais, perante os excessivos custos pacidade neocolonialista do Próspero português
políticos da manutenção das colônias, buscaram manifesta-se no pânico ante as conseqüências da
no reconhecimento de sua independência uma sua perda. Aliás, o Brasil desempenhou o papel de
nova e mais eficiente forma de reproduzir a “colônia colonizadora”, como exprime Marc
dominação sobre elas, que ficou conhecida por Ferro70, ao enviar para Angola os mais fortes
“neocolonialismo”. O Caliban colonizado contingentes de imigrantes brancos. Angola, de
transmutou-se no país subdesenvolvido ou em resto, estava desde há muito na dependência
desenvolvimento. Com isso, o regime identitário econômica dos brasileiros. Como refere ainda
alterou-se significativamente, mas a economia Ferro, o ministro português Martinho de Melo e
política subjacente quase nunca se alterou com Castro queixava-se já em 1781 de que o comércio
igual intensidade. Pelo contrário, a vinculação e a navegação estavam a escapar inteiramente a
econômico-política às antigas potências coloniais Portugal, “pois o que os brasileiros não dominam
continuou a ser decisiva para os países agora está nas mãos dos estrangeiros”.71
independentes. Paradoxalmente, deixou de haver Se a debilidade e incompetência do Próspero
Caliban para que Próspero sobrevivesse. colonial português inviabilizou o neocolonia-
Mais uma vez, o momento de Próspero lismo, facilitou, sobretudo no caso do Brasil, a
português distingue-se em aspectos significativos reprodução de relações de tipo colonial após o fim
do equivalente momento de Próspero europeu. do colonialismo, o colonialismo interno. Ao fazê-
Antes de mais, os processos históricos da lo, suscitou entre as elites, que continuaram a
independência do Brasil e das colônias africanas exercer a dominação em nome próprio, uma
foram concomitantes a profundas transformações divisão sobre as suas responsabilidades históricas e
de sinal progressista na sociedade portuguesa: a o modo como partilhá-las com o colonizador
Revolução Liberal, no primeiro caso, e o 25 de entrementes saído de cena. Foi, no fundo, uma
Abril, no segundo. Isso significa que há em ambos divisão sobre se a incompetência das elites para
os processos um sentido partilhado de libertação desenvolver o país era ou não um produto da
tanto para o colonizador como para o colonizado, incompetência de Próspero de que se tinham
o que criou alguma cumplicidade entre a nova libertado. Seria a incompetência de Próspero uma
classe política portuguesa e a classe política dos pesada herança, um constrangimento incontor-
novos países, sobretudo no caso das nável das possibilidades de desenvolvimento pós-
independências africanas. A conseqüência mais colonial, ou constituiria, pelo contrário, uma
decisiva das rupturas simultâneas foi que, oportunidade insuspeitada para formas de
combinadas com a posição semiperiférica de desenvolvimento alternativas?
Portugal no sistema mundial, permitiram Assim deve ser lida a polêmica entre iberistas
minimizar as seqüelas neocolonialistas no período e americanistas no Brasil. Para os iberistas, o
Boaventura de Sousa Santos 59 60 Cultura e desenvolvimento

atraso do Brasil poderia ser convertido numa debilidades do Próspero colonial português. De
vantagem, na possibilidade de um desen- fato, este não tem conseguido impor sua
volvimento não individualista e não utilitarista, hegemonia, ao contrário dos Prósperos inglês e
assente numa ética comunitária de que o mundo francês em suas respectivas commonwealths: não só
rural podia dar testemunho. Segundo Oliveira tem disputado a hegemonia com sua ex-colônia, o
Vianna, na análise de Luiz Werneck Vianna, a Brasil, como não tem podido impedir que alguns
singularidade brasileira era menos um produto países integrem outras comunidades “rivais”,
da historicidade da metrópole do que da como é o caso de Moçambique em relação à
especificidade das relações sociais prevalecentes inglesa e da Guiné-Bissau em relação à francesa.
no mundo agrário, onde uma classe aristocrática Como a hegemonia nesse tipo de comunidades
rural funcionava como um poder agregador tem significado a legitimação do neocolonialismo,
particular72. Já Tavares Bastos via na herança da a debilidade do Próspero português abre enormes
cultura política ibérica e o seu atávico potencialidades para relacionamentos demo-
antiindividualismo o fundamento do obscu- cráticos e verdadeiramente pós-coloniais. É uma
rantismo, autoritarismo e burocratismo do questão em aberto, no entanto, saber se o ex-
Estado brasileiro, sendo preciso romper com ela colonizador é capaz de transformar essa fraqueza
e criar um modelo social novo, tendo como em força e se os ex-colonizados estão sequer
referência a sociedade norte-americana, a interessados nisso.
indústria e a educação. Aliás, a incompetência do
Próspero ibérico é explicitada por Tavares Bastos Interidentidades: para um
quando afirma que, por não deter a força pós-colonialismo situado
característica dos países do Norte, Portugal Se alguma vez Próspero se disfarçou de
permitiu que “a geral depravação e bárbara Caliban, foi com a máscara dos portugueses.
aspereza dos costumes brasileiros [acabassem] Semicolonizadores e semicolonizados, incapazes
por vingar face à imposição cultural portu- de produzir regras à altura da sua complexa
guesa”73. Por outras palavras, foram as defi- situação, os portugueses não puderam regular
ciências de Próspero que tornaram possíveis os eficazmente suas colônias e, por isso, também não
excessos de Caliban. puderam preparar de forma ordeira a sua
No caso da África, está ainda por fazer o emancipação. A guerra colonial na África é a
julgamento histórico do Próspero colonial melhor demonstração dessa dupla incapacidade.
português. Por outro lado, não é ainda possível Daí também que nunca tenha havido colônias e
ajuizar da força e persistência das seqüelas ex-colônias tão autônomas em relação ao
neocolonialistas, sobretudo depois da adesão de colonizador e ao ex-colonizador: nenhum outro
Portugal à União Européia. As vicissitudes por poder colonial transferiu a capital do império para
que tem passado a CPLP são ilustrativas das a sua colônia, nem em nenhum outro país
Boaventura de Sousa Santos 61 62 Cultura e desenvolvimento

colonizador suscitou tanto medo a ascendência da sem contradição, para justificar sua não-ocorrência.
colônia. A colonização portuguesa surge, assim, Entre essas formas de representação displicentes
como um processo caótico que, à força de se assumem particular relevo na construção identitária
reiterar multissecularmente, se transformou numa dos portugueses a urgência, a sugestão, a surpresa, a
espécie de ordem. Foi um colonialismo que, por improvisação e a violência não organizada.
incompetência ou incapacidade, possibilitou a Qualquer delas aponta para formas de validação
emergência de ilhas de relações não imperiais no que só são convincentes enquanto biografia e
interior do império. expressividade. Essa forma epistemológica permite
A ausência de padrão e essa oscilação entre um criticar a racionalidade moderna e, ao mesmo
Próspero com pés de Caliban e um Caliban com tempo, criticar os racionalistas modernos por não o
saudades de Próspero foram se sedimentando serem suficientemente. A dispensabilidade da
numa das características, talvez a mais intrin- prova, a emergência e a contingência tornaram-se
secamente semiperiférica, da identidade dos particularmente correntes a partir do momento,
portugueses: aquilo que os jornalistas desportivos, logo no século XVII, em que a história da expansão
ao comentar o comportamento irregular da européia deixou de ser escrita pelos portugueses.
seleção nacional de futebol, chamam de “oito- Levados a viver os binarismos dos colonialismos
oitentismo”. O oito-oitentismo, sendo um hegemônicos – sujeito/objeto, civilizado/selvagem,
padrão, é também a ausência de um padrão. cultura/natureza, humano/animal –, viveram-no à
Sugere uma forma identitária que vive perma- distância, sob escalas impuras e “perspectivas
nentemente numa turbulência de escalas e curiosas”, no sentido da pintura pós-renascentista74.
perspectivas em que se trivializam os extremos, Dessa forma, os binarismos foram sendo
sejam eles exaltantes ou indignificantes, em que carnavalizados como zonas abstratas onde tudo é
não se radicaliza nada senão a opção radical de proporcional à sua potencial desproporção.
nunca optar radicalmente. Isso tem um efeito de Na ausência de critérios puros e peremptórios
presentificação devoradora, em que os palim- e de razões exterminadoras, o colonizador
psestos do que somos assumem uma contem- português não pôde apresentar um opulento
poraneidade desconcertante: a de tudo ser menu de identidades imperiais. Nem identidade
contemporâneo de tudo. emancipadora nem identidade emancipada,
As atitudes e comportamentos que essa forma oscilou entre Próspero e Caliban como que em
identitária comporta predispõem a formas de busca da terceira margem do rio de que fala
representação e atuação que dispensam prova, ou Guimarães Rosa. Nessas condições não foi
seja, formas que se distinguem pela emergência, possível consolidar essencialismos, os quais,
pelo seu caráter aparente, sem outra justificação sempre que nomeados, foram-no apenas para
senão a sua evidência post factum: o que se diz delas serem contestados, revelando assim sua
para as justificar, quando ocorrem, pode-se dizer, intrínseca contingência. As colônias ora foram
Boaventura de Sousa Santos 63 64 Cultura e desenvolvimento

colônias, ora províncias ultramarinas; a administração dos territórios e as regras a que ela
miscigenação foi vista ora como a degradação da estaria sujeita.
raça, ora como a sua mais exaltante característica; À luz do que fica dito, é consabidamente
e os povos nativos ora foram selvagens, ora difícil pensar o pós-colonialismo no espaço de
cidadãos nacionais. língua oficial portuguesa. Em minha opinião, o
A instabilidade, a imperfeição e a incom- pós-colonialismo nesse espaço deve centrar-se
pletude do Próspero português tornaram proble- paradoxalmente nas fraquezas do Próspero
mática a sua auto-identificação, condição que português. Duas orientações me parecem deci-
arrastou a do próprio Caliban: um Próspero não sivas. A primeira diz respeito ao colonialismo
ostentatório convocava um Caliban pedestre. Na interno e é particularmente pertinente no caso
ausência de critérios puros não há grandeza, mas brasileiro. A fraqueza interna do colonialismo
quando esses critérios, em vez de perdidos, português tornou possível a independência
nunca existiram tampouco há pequenez. Quando conservadora do Brasil. Às elites oligárquicas foi
os inimigos não se deixam medir, não são permitido transferir para as suas contas as
grandes nem pequenos, e por isso não estruturas de dominação colonial ao mesmo
conseguem estabilizar as lutas entre eles. Um tempo que cantavam loas ao ato inaugural da
Próspero tão difuso até se confundir por vezes construção do Estado nacional. O colonialismo
com Caliban não podia senão confundir este interno é a grande continuidade desse espaço, e é
último, baralhar-lhe a identidade e bloquear-lhe contra ele que deve dirigir-se, numa primeira
a vontade emancipatória. A difícil calibração da orientação, o pós-colonialismo de língua
dimensão de Próspero e de sua verdadeira portuguesa. Em que medida o colonialismo
identidade fez Caliban correr o risco de ser interno existe ou está a emergir nas ex-colônias
colonialista no seu afã anticolonial, ao mesmo de África, sobretudo Angola e Moçambique, é
tempo que lhe permitiu, como a nenhum outro, uma questão em aberto.
ser pré-pós-colonial na constância formal do A segunda orientação diz respeito à globalização
colonialismo. O colonialismo informal de um contra-hegemônica. Tem a ver com a fraqueza
Próspero incompetente permitiu que durante externa de Próspero, com o fato de o colonialismo
muito tempo setores significativos dos povos português ter ficado refém, desde cedo, do
colonizados não tivessem de viver cotidia- colonialismo hegemônico, sobretudo inglês, e das
namente a experiência de Caliban e que alguns formas de imperialismo em que ele se traduziu até
deles, e não apenas na Índia, pudessem, eles à sua última encarnação, nos nossos dias, sob a
próprios, pensar-se como o verdadeiro Próspero e forma de globalização neoliberal, em que
agir como tal nos seus domínios. Muitas vezes pontificam os Estados Unidos da América. Aliás,
puderam negociar com o Próspero vindo da são essas formas imperiais que permitem hoje a
Europa quase em pé de igualdade a consolidação do colonialismo interno nos países
Boaventura de Sousa Santos 65 66 Cultura e desenvolvimento

saídos do colonialismo português. A segunda A análise de algumas formulações brasileiras


orientação é, pois, a de que o pós-colonialismo das comemorações dos 500 anos da descoberta do
deve ser dirigido contra a globalização hegemônica Brasil revela a ênfase posta na pluralidade de
e as novas constelações de dominação local/global, povos que ali confluíram, para além dos índios,
interna/externa que ela possibilita. Em nome do que já estavam, e dos negros, que vieram à força:
pós-colonialismo, faz hoje tão pouco sentido agitar italianos, alemães, espanhóis, chineses, japoneses,
a bandeira antiespanhola na Colômbia como agitar portugueses etc. Posto ao par dos restantes
a bandeira antiportuguesa no Brasil, em emigrantes, o Próspero relutante dissolve-se na
Moçambique ou Angola. multidão. No entanto, essa equiparação oculta
À luz dessas duas orientações, o pós- que, pelo menos até a Independência, os portu-
colonialismo no espaço português terá menos de gueses não foram um grupo de emigrantes entre
“pós” do que de anticolonialismo. Trata-se de um outros e que o poder colonial que protago-
pós-colonialismo desterritorializado, porque diri- nizaram, apesar de particular, não foi, por isso,
gido contra uma engenharia de injustiça social, de menos colonial. Ao evacuar Próspero, essa
dominação e de opressão que dispensa os bina- representação da “nação arco-íris” evacua as
rismos modernos em que assentou até agora o pós- relações de poder colonial e transforma a Desco-
colonialismo – local versus global, interno versus berta num ato plural, não imperial, num exer-
externo, nacional versus transnacional. De fato, o cício de fraternidade e de democracia inter-
novo pós-colonialismo só faz sentido como luta cultural e interétnica. Dessa ocultação podem
por uma globalização contra-hegemônica, como alimentar-se a indolência da vontade anticolonial
busca de novas alianças locais/globais entre grupos e a neutralização das energias emancipatórias,
sociais oprimidos pelos diferentes colonialismos. sendo pois de suspeitar que as elites não são
Deve-se ter presente, contudo, que o caráter ingênuas quando promovem tais representações.
do Próspero português, relutante e incompetente, Ora demasiado familiar para se fazer notar, ora
incompleto e calibanesco, ao mesmo tempo que demasiado telescópico para ser visto a olho nu,
fundamenta essa posição pós-colonial avançada, esse Próspero furtivo convida à complacência ante
torna difícil a sua prossecução na medida em que um poder das elites que se insinua miniaturizado
produz um efeito de ocultação ou, o que é o pela ausência do poder de Próspero. As
mesmo, de naturalização das relações de poder. dificuldades em desenvolver estratégias pós-
Sendo um Próspero incompleto, o mundo que ele coloniais no espaço do colonialismo português
criou foi o mesmo mundo que o criou a ele. O são, assim, o outro lado das abrangentes possibi-
poder de criação aparece assim repartido entre lidades de globalização contra-hegemônica criadas
um Próspero calibanizado e um Caliban por esse tipo de colonialismo.
prosperizado. Aqui têm residido a arrogância e a
legitimidade das elites pós-independentistas.
Boaventura de Sousa Santos 67 68 Cultura e desenvolvimento

Notas [14] Apud Pires, Maria Laura B. Portugal visto pelos


[1] Uma versão ampliada deste ensaio encontra-se em ingleses. Lisboa: Centro de Estudos Comparados de
Ramalho, Maria Irene e Ribeiro, António S. (orgs.). Entre Línguas e Literaturas Modernas da Universidade Nova de
ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Porto: Lisboa, 1981, p. 112.
Afrontamento, 2001 e também publicado em Novos [15] Apud ibidem, p. 85.
Estudos CEBRAP, nº 66, 2003, pp. 23-52. [16] Apud Byrne, Maria Teresa R. “As tropas aliadas anglo-
[2] Cf. Sousa Santos, Boaventura de. Pela mão de Alice: o portuguesas vistas por um alemão”. Revista de Estudos
social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez Anglo-Portugueses, no 7, 1998, p. 108.
Editora, 1995, pp. 53-74, 135-157. [17] Byron, Lord. Peregrinação de Childe Harold. Lisboa:
[3] Cf. Sousa Santos, Boaventura de. “Os processos da Livraria Ferreira, 1881, pp. 30-31, 37.
globalização”. In: idem (org.). Globalização: fatalidade ou [18] Apud Macaulay, Rose. They went to Portugal. Oxford:
utopia? São Paulo: Cortez Editora, 2001, pp. 25-102. Alden Press, 1946, pp. 224-225.
[4] Cf. Sousa Santos, Pela mão de Alice, loc. cit., pp. 150- [19] Apud Castanheira, Zulmira. “Robert Southey, o
151. primeiro lusófilo inglês”. Revista de Estudos Anglo-
[5] Sobre a inserção de Portugal no ciclo colonial africano, Portugueses, nº 5, 1996, p. 83, 92.
cf. Fortuna, Carlos. O fio da meada: o algodão de [20] Byron, op. cit., p. 31.
Moçambique, Portugal e a economia-mundo (1860-1960). [21] Apud Castanheira, op. cit., p. 75.
Porto: Afrontamento, 1993, pp. 31-41. [22] Apud Chaves, op. cit., p. 20.
[6] Bhabha, Homi K. The location of culture. Londres: [23] Apud Pires, op. cit., p. 40.
Routledge, 1994, p. 50. [24] Macaulay, Rose. They went to Portugal. Oxford: Alden
[7] Ibidem. Press, 1946; They went to Portugal too. Manchester:
[8] Bhabha, Homi K. “DissemiNation: time, narrative, Carcanet, 1990.
and the margins of the modern nation”. In: idem (org.). [25] Pereira Bastos, José Gabriel da F. “Portugal minha
Nation and narration. Londres/Nova York: Routledge, princesa”. Contribuição para uma antropologia pós-
1990, p. 293. racionalista dos processos identitários e para o estudo do
[9] Sousa Santos, Boaventura de. Toward a new common sistema de representações sociais identitárias dos portugueses.
sense: law, science and politics in the paradigmatic transition. Lisboa: tese de doutoramento em Antropologia Social e
Nova York: Routledge, 1995, pp. 424-428; A crítica da Cultural, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Universidade Nova de Lisboa, 1995, vol. I, pp. 144-147
Paulo: Cortez Editora, 2000, pp. 284-290. (cf. Descamps, Paul. Le Portugal: la vie sociale actuelle.
[10] Por Europa do Norte entende-se aqui os países da Paris: Firmin-Didot et Cie., 1935).
Europa considerada “civilizada” – Inglaterra, França e [26] Boxer, Charles R. Race relations in the Portuguese
Alemanha – que irão mais tarde ter um papel decisivo na colonial empire, 1415-1825. Oxford: Clarendon Press,
colonização. 1963; Freyre, Gilberto. O mundo que o português criou.
[11] Bronseval, Claude. Peregrinatio hispanica 1531-1533. Lisboa: Livros do Brasil, s/d.
Paris: Presses Universitaires de France/Fondation Calouste [27] O termo deriva do árabe kafir, utilizado para fazer
Gulbenkian, 1970, passim. menção ao não-muçulmano, ao não-crente. “Em Melinde
[12] Chaves, Castelo Branco. O Portugal de D. João V visto [antigo porto da costa oriental da África] são os mouros
por três forasteiros. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1983, p. mais amigos dos portugueses e não diferem nada nas
20. condições e feição do rosto dos nossos, e muitos falam
[13] Apud ibidem, p. 24. muito bem português, por ser aqui o principal trato nosso
Boaventura de Sousa Santos 69 70 Cultura e desenvolvimento

com eles [...]. Os mouros daqui confinam [...] com uma [37] Em Moçambique a política de assimilação é
terra de cafres estranha dos outros de toda a costa. [As ilhas introduzida como parte do sistema político colonial no
do norte de Moçambique] são povoadas de mouros e cafres início do século XX, e a partir de então a divisão entre
misturados” (Padre Monclaro. “Relaçaõ da viagem q nativos e não-nativos é reforçada. Como cidadãos de
fizeraõ os padres da Companhia de Jesus com Francisco estatuto inferior, os assimilados (negros, asiáticos, mistos)
Barreto na conquista de Monomotapa no anno de 1569”. tinham cartões de identidade que os diferenciavam da
In: Theal, G. M. (org.). Records of South-Eastern Africa. massa dos trabalhadores não-assimilados, detentores de
Cidade do Cabo: Struik, 1899, vol. 3, pp. 167, 170). uma caderneta indígena. Os nativos, a maioria da
[28] Santos, João dos. Etiópia Oriental e vária história de população, não possuíam cidadania, não tinham direito
cousas notáveis do Oriente. Lisboa: Comissão Nacional para algum, sendo mal pagos, explorados, sujeitos a um ensino
as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999, rudimentar, ao trabalho forçado, a regimes penais de
p. 139. deportação etc.
[29] Miranda, António P. “Memória sobre a costa de Africa [38] O capitão Costigan, por exemplo, irlandês que esteve
e da Monarquia Africana”. In: Dias, L. F. C. (org.). Fontes em Portugal em 1778-79 e para quem, como nota Rose
para a história, geografia e comércio de Moçambique (século Macaulay (They went to Portugal too, loc. cit., p. 193), a
XVIII). Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1954, p. 64. perversidade dos portugueses era uma obsessão, declarava-
[30] Apud Feliciano, J. F. e Nicolau, V. H. (orgs.). se espantado com a agradável familiaridade dos
Memórias de Sofala por João Julião da Silva, Herculano da portugueses para com os seus criados, algo inimaginável na
Silva e Guilherme Ezequiel da Silva. Lisboa: Comissão Inglaterra.
Nacional para os Descobrimentos Portugueses, 1998, p. 36. [39] Ferro, op. cit., p. 177.
[31] Xavier, Ignacio C. “Relação do estado presente de [40] Esse estatuto social e étnico é identificável noutros
Moçambique, Sena, Sofala, Inhambane e de todo o continente continentes. Na África do Sul, por exemplo, os africâneres
da Africa Oriental”. In: Dias (org.), op. cit., p. 174. designavam pejorativamente os portugueses como “wit-kaf-
[32] Ferro, Marc. História das colonizações. Lisboa: firs” (negros brancos) (cf. Harney, Robert T. “‘Portygees
Estampa, 1996, p. 179. and other Caucasians’: Portugueses migrants and the racial-
[33] Xavier, op. cit., pp. 175-176. No mesmo sentido, ism of the English-speaking world”. In: Higgs, D. (org.).
relata Marc Ferro (ibidem, p. 179) que o governador de Portuguese migration in global perspective. Toronto: The
Angola tinha tal desconfiança em relação aos degradados Multicultural History Society of Ontario, 1990, p. 116).
que “não [lhes] queria confiar armas em caso de guerra [41] Cf. ibidem, p. 115, 114.
com os indígenas – a ponto de preferir servir-se de tropas [42] Almeida, Miguel Vale de. Um mar da cor da terra:
africanas tanto para dar combate às tribos insubmissas raça, cultura e política da identidade. Oeiras: Celta, 2000,
como para, eventualmente, manter a boa distância os p. 7.
delinqüentes. De qualquer modo, estes desertavam assim [43] Harney, op. cit., p. 115.
que se apanhavam com armas”. [44] Garcia de Leon, António. Contrapunto entre lo barroco
[34] Costa Portugal, Joaquim José da. “Notícias das ilhas y lo popular en el Veracruz colonial. Comunicação ao
de Cabo Delgado”. In: Dias (org.), op. cit., p. 276. colóquio internacional “Modernidad europea, mestizaje
[35] Sobre o pluralismo jurídico, cf. Sousa Santos, Toward cultural y ethos barroco”, Universidad Nacional Autonoma
a new common sense, loc. cit., pp. 112-122. de México, maio de 1993.
[36] Dias, Jorge. Os elementos fundamentais da cultura [45] Baganha, Maria Ioannis. Portuguese emigration to the
portuguesa. Lisboa: Junta de Investigação do Ultramar, United States, 1820-1930. Nova York/Londres: Garland,
1961, pp. 155-156. 1990, p. 288.
Boaventura de Sousa Santos 71 72 Cultura e desenvolvimento

[46] Harney, op. cit., p. 115. integrá-lo no sistema econômico de Moçambique”.


[47] Ibidem, p. 115. Rodrigues Júnior (1955), O negro de Moçambique (estudo).
[48] Ibidem, p. 117. Lourenço Marques: África Editora, pp. 22-23.
[49] Cf. Baganha, Maria Ioannis. Resenha de Higgs, David [56] Apud Barradas, op. cit., p. 124.
(org.). Portuguese migration in global perspective (Toronto: [57] Ennes, op. cit., 192.
The Multicultural History Society of Ontario, 1990). [58] Sant’Anna, José Firmino. Missão da Doença do Sonno:
Análise Social, XXVI(111), 1991, p. 448. Embora não trabalhos de outubro a novembro de 1991 (N’hantsua, Tete).
ponha em causa esses dados e a existência de racismo Maputo: Arquivo Histórico de Moçambique, Secção dos
contra os portugueses nos Estados Unidos, Baganha Serviços de Saúde, 1911, p. 22.
considera que algum desse racismo se dirigia a outros [59] Junod, Henry. Usos e costumes dos Bantu. Maputo:
grupos de europeus, com os de Leste. Não deixa porém de Arquivo Histórico de Moçambique, 1996 [1917], vol. 2,
assinalar que o Johnson Act de 1924 e o National Origins pp. 299-300.
System de 1927 restringiam a entrada nos Estados Unidos [60] Hegel, G. W. F. Vorlesungen über die Philosophie der
dos grupos “não assimiláveis” e que desses grupos faziam Geschichte. Org. por Eva Moldenhauer e Karl M. Michel.
parte os portugueses. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1970, pp. 120, 129.
[50] Apud Furtado, Filipe. “Portugal em histórias de [61] Ulrich, Ruy E. Política colonial, lições feitas ao curso do
Inglaterra”. Revista de Estudos Anglo-Portugueses, nº 6, 4º ano jurídico no ano de 1908/09. Coimbra: Imprensa da
1997, p. 77. Universidade, 1909, p. 698.
[51] Said, Edward. The question of Palestine. Nova York: [62] Apud Barradas, op. cit., p. 128.
Vintage, 1980, p. 78. [63] Lobato, Alexandre. Sobre cultura moçambicana.
[52] Num trabalho em co-autoria com F. Barros, Lisboa: Gradiva, 1952, pp. 116-117.
Rodrigues Junior chega ao ponto de afirmar [64] Apud Barradas, op. cit., p. 132.
categoricamente a insensibilidade dos pretos à dor (cf. [65] Oliveira Martins, J. P. O Brasil e as colónias
“Notas etnográficas de Moçambique”. In: XIII Congresso portuguesas. Lisboa: Parceria António Mário Pereira, 1904
Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. Lisboa, 1950, [1880], p. 286.
vol. 5, p. 619). [66] “Report of captain J. Tomkinson to vice-admiral
[53] Ennes, António. Moçambique: relatório apresentado ao Albermarble Bertie”. In: Theal (org.), op. cit., vol. 9, pp.
governo. Lisboa: Imprensa Nacional, 1946 [1873], p. 192. 4-5.
[54] Apud Barradas, Ana. Ministros da noite – livro negro [67] “Letter from captain W. F. W. Owen to J. W. Crocker,
da expansão portuguesa. Lisboa: Antígona, 1992, p. 54. 9 October, 1823”. In: Theal (org.), op. cit., vol. 9, p. 34.
[55] Segundo Rodrigues Júnior (1955), “não há dúvida [68] Lisboa, Karen M. A Nova Atlântida ou o gabinete
que o branco não pode exercer, em África, determinadas naturalista dos doutores Spix e Martius: natureza e
funções. A sua resistência física não suporta, por exemplo, civilização na viagem pelo Brasil (1817-20). São Paulo:
a violência do trabalho da enxada”. Citando Marcelo dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 1995, pp. 182-183.
Caetano, o autor afirma que “o preto tem condições de [69] Albasini, João. “Amor e vinho (idílio pagão)”. O
resistência natural e uma adaptação ao meio que lhe Africano (Lourenço Marques), 11/06/1913.
permitem trabalhar nos climas tropicais em certas [70] Ferro, op. cit., p. 179.
atividades em muito melhores condições que o europeu [71] Ibidem, p. 180. Por sua vez, Moçambique esteve, até
[...]. É necessário forçar [o negro] à contribuição que deve o século XVIII, dependente do Vice-rei da Índia, de modo
dar para o desenvolvimento da riqueza pública; é preciso que ali o sistema econômico era largamente dominado por
obrigá-lo a produzir […]. Trata-se de proteger o negro, de indianos.
Boaventura de Sousa Santos 73

[72] Vianna, Luiz W. A revolução passiva: iberismo e


americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 1997, p.
162.
[73] Apud ibidem, p. 157.
[74] Cf. Sousa Santos, A crítica da razão indolente, loc. cit.,
p. 251.

Identidade, território e práticas


culturais: A experiência do
Centro de Estudos e Ações
Solidárias da Maré – Ceasm
Jailson de Souza e Silva
Jailson de Souza e Silva 75 76 Cultura e desenvolvimento

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar ambiental e tem como referência ética fundamen-
incessantemente uma rocha até o alto de tal a sua satisfação pessoal e, no limite, a de seu
uma montanha, de onde tornava a cair grupo familiar.
por seu próprio peso. Pensaram, com
certa razão, que não há castigo mais ter- Com isso, fragilizam-se a democracia e o exer-
rível que o trabalho inútil e sem espe- cício da cidadania, tornando-se cada vez mais raro
rança. Se dermos crédito a Homero, o contato com a diversidade, com o outro. Há uma
Sísifo era o mais sábio e prudente dos progressiva perda, então, do sentido da vida cole-
mortais. Mas, segundo uma outra
tradição, ele tendia para o ofício de ban- tiva, fato que gera o aumento da intolerância, da
dido. Não vejo contradição nisso.1 sensação de insegurança, além da dificuldade em
Albert Camus incorporar uma ética de responsabilidade em
relação ao espaço público. Vive grande parte da
Sobre os vínculos entre as identidades e sociedade metropolitana um cotidiano que se
os territórios populares urbanos repete indefinidamente, sem futuro e alma, a
Em texto anterior2, afirmava que a população mesma pena imposta pelos deuses a Sísifo, o rei
das grandes metrópoles, em geral, vem desenvol- condenado pelo deuses a viver o cotidiano de
vendo uma progressiva presentificação e a particu- forma reprodutora e sem futuro.
larização da existência. A particularização se carac- As formas apresentadas de inserção na cidade
teriza pela valorização da vivência em um ter- conformam um determinado tipo da identidade
ritório homogêneo, de "iguais", sem parâmetros social, analisada por Néstor Canclini. Seu ponto de
mais abrangentes de inserção na pólis. O lugar, partida é a crítica ao que denomina de "concepções
físico e social, é o ponto de partida e de chegada ontológico-fundamentalistas das identidades"
para a inserção na cidade. (1995: 224). Nessa visão, haveria uma crença a-
A presentificação, por sua vez, expressa uma histórica e transcendental nas identidades, fossem
prática social que se manifesta como um "eterno nacionais ou populares. Nela, a identidade seria
agora". Ela caracteriza o que Espinoza vai definir marcada por uma essencialidade imanente, a ser
como prazer – a busca incessante do que oferece defendida dos ataques dos seus possíveis adversários
retorno imediato, termo antônimo, para o filóso- – sejam outros grupos sociais, as multinacionais, a
fo, da alegria – a busca do que oferece retorno globalização etc. Não há espaço para a negociação,
mediato. O ser humano presentificado e particu- pois as identidades estariam prontas, delimitadas.
larizado é representado, por excelência, pelo Nesse processo, as diferenças são acentuadas e trans-
Consumidor. Sem noção de passado ou de futuro, formadas em elementos divisores, ignorando-se as
voltado para a aquisição de bens materiais e dis- possíveis circularidades das relações sociais. Não se
tintivos, ele não investe em projetos de longo reconhece, assim, a possibilidade de constituições de
prazo, tais como a educação, em seu sentido uma identidade híbrida, "foco de um repertório
maior, não desenvolve uma maior preocupação fragmentado de minipapéis" (1995: 39).3
Jailson de Souza e Silva 77 78 Cultura e desenvolvimento

As reflexões sobre temas como identidades laridade, a faixa salarial e/ou o espaço de moradia
sociais, presentificação e particularização são ele- dos residentes na cidade. O juízo se expressa, de
mentos valiosos para se debater o estatuto da forma particular, no menor ou maior grau de to-
favela e da periferia e de seus moradores, assim lerância com as diferentes manifestações de vio-
como a inserção destes na pólis, em particular no lência, de acordo com o alvo da agressão e não
quadro de tensão e medo que domina o ima- com o ato em si. Basta lembrar como difere a pos-
ginário do Rio de Janeiro e de outras grandes tura da mídia e dos órgãos de segurança quando
metrópoles brasileiras. um morador da periferia ou outro das camadas
O eixo da representação da favela é a noção de médias/altas sofre uma violência.
ausência. Ela tradicionalmente é definida pelo que Outra forma de perceber-se a favela é possível;
não teria: um lugar sem infra-estrutura urbana – ela pressupõe, todavia, o reconhecimento de que
água, luz, esgoto, coleta de lixo; sem arruamento; os seus moradores desenvolvem formas ativas e
globalmente miserável; sem ordem; sem lei; sem contrastantes para enfrentar suas dificuldades do
regras; sem moral, enfim, o caos. Impressiona dia-a-dia, de acordo com suas trajetórias pessoais e
também a visão homogeneizadora. Localizadas em coletivas, as características socioculturais e geográ-
terrenos elevados ou planos, reunindo centenas ou ficas da localidade, o peso do tráfico de drogas e a
alguns milhares de moradores, possuindo dife- postura assumida pelos dirigentes das entidades
rentes equipamentos e mobiliários urbanos, sendo comunitárias, dentre outras variáveis. Significa,
constituída por casas e/ou apartamentos, com então, levar em conta tanto suas demandas como
diferentes níveis de violência e presença do poder as formas inovadoras e complexas materializadas
público, com variadas características ambientais, por seus moradores para produzirem seu habitat.
as favelas constituem-se como territórios com Para isso, contudo, é necessária a quebra da hege-
paisagens razoavelmente diversificadas. Essa plu- monia das referências sociocêntricas que ainda sus-
ralidade é absolutamente ignorada, e não só pelo tentam os olhares sobre o espaço popular e a criação
senso comum, mas também em definições preten- de mecanismos de diagnóstico e definição de ações
samente técnicas, tais como a do IBGE, por exem- que levem em conta os saberes construídos pelos
plo, que identifica as favelas como subconjunto de moradores, em sua longa e intensa caminhada por
um aglomerado subnormal. uma vida mais plena. Esse tem sido o caminho per-
A favela é contraposta a um determinado ideal corrido pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias
de urbano, vivenciado por uma pequena parcela da Maré – o Ceasm, como veremos a seguir.
dos habitantes da cidade. Não é casual, então, que
ela seja considerada uma disfunção, um problema No território das práticas sociais
que afeta a saúde da cidade. Nessa lógica, o reco- Constituinte da 30a Região Administrativa, a
nhecimento da identidade do cidadão é relativiza- Maré reúne 132 mil habitantes, possuindo uma
do, de acordo com a cor da pele, o nível de esco- densidade demográfica de pouco mais de 21 mil
Jailson de Souza e Silva 79 80 Cultura e desenvolvimento

hab/km2, para uma média de 328 hab/km2 na Segundo o Censo Maré 2000, realizado pelo
cidade do Rio de Janeiro. No maior território Ceasm, o percentual de moradores locais analfa-
popular da cidade residem 2,3% da população do betos, maiores de 14 anos, chega a quase 10%.
município do Rio de Janeiro; caso recebesse o sta- Abaixo da média brasileira (13,3%), ele é muito
tus de município, ele ocuparia a 18a posição no superior ao percentual da cidade para o ano de
estado e a 11a posição na região metropolitana. 1999 (3,4%). Quanto aos rendimentos, mais de
O processo intenso de ocupação do terreno dois terços dos seus trabalhadores afirmam receber
local é um fator básico na definição de alguns menos de dois salários-mínimos por mês e, no que
aspectos da paisagem da Maré. Destaca-se, em concerne ao trabalho infantil, 2% das crianças de
particular, a ausência de árvores, o rareamento de 10 a 14 anos residentes na Maré exercem alguma
espaços vazios, a verticalização das residências e a atividade de trabalho – para um índice de 0,6%
intensa circulação de pedestres e diversos meios de para o Rio de Janeiro.
transporte. A população distribui-se por cerca de O fato que mais singulariza a Maré, todavia, é
38 mil domicílios e 16 comunidades: a concen- seu processo de construção. Situado em uma área
tração de vias rodoviárias, prédios públicos e insalubre, alagadiça, o núcleo original da Maré
instalações industriais/comerciais faz com que as era formado por seis comunidades, fronteiriças,
fronteiras entres elas sejam heterogêneas, com mas também com características sociais,
níveis diferenciados de vizinhança. A rivalidade econômicas, geográficas e históricas heterogêneas:
entre facções do tráfico de drogas, por seu turno, Morro do Timbau, Parque União, Baixa do
tem um forte papel inibidor para a circulação dos Sapateiro, Rubens Vaz, Nova Holanda e Parque
moradores. A Avenida Brasil é, assim, o principal Maré. As comunidades de Vila Pinheiros, Vila do
espaço de circulação entre as diferentes comu- João, Conjunto Pinheiros e Conjunto Esperança
nidades locais. foram criadas no início da década de 80, sendo
No plano das infra-estruturas educacionais, na ocupadas por antigos moradores das comu-
Maré estão instaladas 15 escolas públicas, sendo nidades originais, principalmente os residentes
sete Cieps; sete creches comunitárias, além de nas palafitas – habitações de madeira construídas
várias escolas privadas de pequeno porte, voltadas em áreas alagadiças.
para a educação infantil e para o ensino elementar. Os conjuntos Bento Ribeiro Dantas, Novo
O ensino médio, cuja demanda cresce de forma Pinheiros e Nova Maré foram criados via inter-
explosiva, é contemplado com a oferta de dois venção do poder público municipal, na década de
colégios para toda a região – incluindo os bairros 90. Eles reúnem moradores provenientes de
próximos à Maré. Não há instituições com grande habitações localizadas em áreas de risco. Já as
tradição no plano cultural, estrito senso, e os comunidades de Marcílio Dias, Praia de Ramos e
equipamentos existentes, nesse campo, são de Roquete Pinto, apesar de antigas, são um
recentes e precariamente estruturados, ainda. pouco mais distantes, no plano geográfico, das
Jailson de Souza e Silva 81 82 Cultura e desenvolvimento

outras. Com isso, elas não tiveram o mesmo aces- exemplos locais positivos na construção de suas
so às intervenções urbanísticas realizadas na déca- trajetórias sociais e escolares. O fato possibilita
da de 80. Elas passaram a ser consideradas inte- uma maior ampliação de seus campos de possibi-
grantes da Maré a partir da transformação dessa lidades sociais.
área em bairro e da criação da Região O conceito de Rede é a noção estruturante da
Administrativa. dinâmica do Ceasm. A preocupação permanente é
Nesse contexto nasceu o Centro de Estudos e de que as atividades sejam desenvolvidas de forma
Ações Solidárias da Maré – Ceasm. A instituição articulada, com as diferentes equipes de trabalho
surgiu a partir da iniciativa de um grupo de estabelecendo níveis variados de relações. O eixo
moradores que cresceram e/ou moraram durante central de todas, cabe ressaltar, é a oferta de novos
muitos anos em alguma comunidade da Maré. O produtos culturais e educacionais aos moradores
desejo maior do grupo original, que em sua maio- locais, em particular às crianças, aos adolescentes
ria conseguiu atingir uma formação universitária, e aos jovens. Mais do que oferta de serviços,
era a produção de uma intervenção integrada e de todavia, a meta é que o próprio público benefici-
longo prazo no espaço local. O seu pressuposto é ado formule e realize os produtos desenvolvidos
de que o exercício da cidadania deve sustentar-se pelo Centro. Assim, em um processo permanente,
em um projeto abrangente e processual. Assim, a vão sendo construídas as redes sociopedagógicas.
finalidade maior do Ceasm é a constituição, for- A instituição buscou ampliar sua intervenção a
talecimento e/ou articulação de redes sociais nas partir da constituição de alianças com instituições
quais se valorize o papel social do morador, as da sociedade civil e do poder público. No plano
ações solidárias, o respeito às diferenças e a crítica local, o Centro atua em parceria com escolas
às desigualdades sociais existentes na realidade municipais locais, associações de moradores e ou-
carioca e brasileira. Essas redes são denominadas tras organizações da sociedade civil. No plano
sociopedagógicas, pois buscam incorporar novas externo, é forte seu vínculo com universidades,
formas de percepção e intervenção na realidade institutos de pesquisa, empresas públicas e pri-
social a partir de ações cotidianas continuadas. vadas, embaixadas e ONGs. As parcerias se evi-
A grande novidade da entidade é o fato de ela denciam, por exemplo, no processo de construção
aliar a inserção comunitária à condição de ins- do seu espaço físico original. A entidade contou
tituição de pesquisa e gestora de projetos de em um primeiro momento com o apoio da Fase,
grande porte no campo da educação, comuni- do Fundo Novib, da Embaixada do Canadá e de
cação e cultura, elementos raros de serem encon- comerciantes locais. Posteriormente, expandiu
trados nas organizações sociais oriundas da pe- suas instalações a partir de recursos fornecidos por
riferia. O principal efeito da organização institu- entidades públicas e privadas, tais como Petrobras,
cional do Ceasm é que, nela, os moradores – em Infraero e Ediouro. No que concerne às suas ativi-
particular os adolescentes e jovens – encontram dades, elas são mantidas a partir de recursos tam-
Jailson de Souza e Silva 83 84 Cultura e desenvolvimento

bém resultantes da prestação de serviços e da con- maneira como ele será desenvolvido no cotidi-
tribuição dos participantes, de acordo com suas ano das ações.
possibilidades. Grosso modo, é possível afirmar que a con-
Os instrumentos elaborados pelo Centro para o cepção de cultura norteadora das atividades da
fortalecimento progressivo das redes cidadãs pas- instituição se materializa a partir da interação das
saram, em um primeiro momento, pela instituição três formas mais comuns de tratamento do termo.
de um novo espaço – articulador e catalisador de De forma mais usual, ele está associado a um
um leque de ações particulares que vinham sendo processo individual, que caracterizaria um con-
encaminhadas na Maré ou com potencial para junto de disposições e qualidades do ser "cultiva-
serem materializadas. Construída no Morro do do". Nesse sentido, o indivíduo culto possuiria
Timbau, a sede do Centro tornou-se em pouco uma habilidade especial de tratar com maior pro-
tempo o principal espaço de educação integrada fundidade e amplitude os fenômenos humanos,
da Maré. O objetivo central da instituição, em particular os situados no campo da arte, da
todavia, sempre foi atingir o Conjunto da Maré. ciência e da ética.
Assim, em 2002 foi inaugurada outra sede, na No extremo dessa representação, a cultura tam-
comunidade de Nova Holanda. Com isso, permi- bém é definida como o conjunto de traços carac-
tiu-se o acesso à entidade de pessoas que tinham terísticos de uma sociedade, de uma comunidade
dificuldades em freqüentar o espaço do Timbau, ou de um grupo particular. Assim, as ações coti-
tendo em vista a restrição do direito de ir e vir dianas desse grupo, delimitadas pelo território,
provocado pelo enfrentamento entre facções cri- pelas características educacionais e de renda, pela
minosas rivais. Em 2003, em um espaço com língua etc, são entendidas como capazes de garan-
cerca de 3 mil m2, localizado nas fronteiras do tir-lhes uma identidade específica. Nesse caso, é
Timbau, Avenida Brasil, Linha Amarela e Linha afirmada a existência de culturas particulares, tais
Vermelha, foi criada a Casa de Cultura da Maré. como a brasileira, a popular, a rural etc.
A outra forma mais comum de caracterizar a
A cultura como caminho para novos cultura é a sua identificação como atributo ine-
tempos e espaços sociais rente ao ser humano. Cultura seria, então, o con-
Definida a partir de variadas e arbitrárias junto de práticas que materializam a identidade
acepções – um autor já registrou a existência de humana e nos distingue das outras espécies ani-
138 definições para o termo –, a reflexão sobre mais. Seriam elas as ações que não dependem de
"cultura" oferece diversas possibilidades para a nossa fisiologia, mas de nossa história, de nossa
apreensão de uma multiplicidade de práticas linguagem, da consciência que temos da vida e de
sociais. A constituição da Casa da Cultura da sua finitude.
Maré tem provocado a necessidade de o Ceasm O filósofo grego Protágoras afirmava que o
sistematizar sua compreensão do conceito e a homem é a medida de todas as coisas. Essa centrali-
Jailson de Souza e Silva 85 86 Cultura e desenvolvimento

dade humana pode ser concebida a partir das três um papel fundamental, em particular a juven-
dimensões culturais expostas, vistas de forma tude. Com efeito, a razão de ser desta é devorar a
indissociável: a singular-individual; a particular- geração anterior, reconstruindo, sob novas refe-
grupal e a genérica-universal. Assim, o exercício rências, o cotidiano. Nesse processo, há várias
da cidadania plena demanda que os seres humanos formas de um novo presente ser construído. O
ampliem suas possibilidades subjetivas de apreen- primeiro passo é reconhecer que os jovens cons-
são da realidade social nos planos conceitual, tituem, em territórios múltiplos e marcados pela
estético e ético; exige também um sentimento de diversidade, diferentes redes socioculturais,
pertencimento ao coletivo social e ao gênero variados mecanismos para a expressão dos dese-
humano, de forma tal que as pessoas sintam-se, de jos, temores e crenças – da subjetividade. Mesmo
forma integrada, cidadãs da Maré, do Rio de manifestas, muitas vezes, em "tribos", "galeras"
Janeiro, do Brasil e do mundo. e/ou grupos restritivos, essas redes podem ser
A cidadania plena exige também a prática de referências preliminares para a inserção social
iniciativas que ampliem as possibilidades de exer- mais abrangente.
cício dessa humanidade. O ideal da cultura seria, A partir das redes dos jovens, vistos como
então, a humanização plena e permanente do ser cidadãos e, portanto, constituídos de poder, é pos-
humano, utopia que o conduziria em seu destino, sível estimular que diferentes grupos se encon-
apesar de não ser um ponto objetivo de chegada trem, partilhem suas experiências e tenham a pos-
ou mesmo um porto seguro. Para isso, faz-se sibilidade, de acordo com suas características e
necessária a produção de equipamentos e práticas interesses, de articular iniciativas comuns. Em
culturais, seja na Maré ou além, que se tornem uma cidade marcada pela segregação e pela inse-
territórios de circulação e (re)produção de identi- gurança, eles são os que mais buscam novas expe-
dades em permanente negociação, mas com raízes riências, podendo construir novos vínculos, abrir-
fincadas em referências democráticas e humanistas se para a diferença. Para isso, são necessárias práti-
que permitam, no caso do Rio de Janeiro, a afir- cas sociais e equipamentos urbanos adequados que
mação de uma identidade carioca, brasileira, uni- estimulem o encontro e o respeito à diversidade, à
versal, que atravessa a Zona Sul e a favela, o rural pluralidade, à humanidade do outro.
e o urbano; que levem em conta que a caracterís- As considerações feitas até aqui evidenciam os
tica da Cidade é o fato de ela ser o espaço da pos- aspectos que definem o trabalho cultural que se
sibilidade do encontro, por excelência. Encontros busca produzir no Ceasm. As ações no campo da
das diferenças e das semelhanças, que permitem a educação, comunicação, dança, música, foto-
constituição de identidades plurais, mas, acima de grafia, vídeo, teatro, artes plásticas, dentre outras,
tudo, humanas. são trabalhadas como novas formas de apreensão e
Na busca desses novos caminhos para a vida intervenção no mundo. O que não ocorre em um
na pólis, alguns atores e práticas podem cumprir lugar qualquer, mas em um território demarcado,
Jailson de Souza e Silva 87 88 Cultura e desenvolvimento

que tem características identitárias específicas, essência de um trabalho em rede, pois visa conju-
como tem de ser. gar saberes e práticas sociais como possibilidades
O Centro busca desenvolver linguagens de ações solidárias.
múltiplas, que permitam aos seus freqüenta- Na perspectiva apontada, a Casa de Cultura da
dores, em particular os moradores locais, Maré surge como um espaço de tratamento, em
usufruir e produzir linguagens elaboradas e con- variadas linguagens, de temas situados em campos
sumidas por grupos pouco acessíveis aos setores da subjetividade, em geral pouco refletidos ou
sociais populares, de forma geral. No caso, estas considerados nos territórios populares: a sexuali-
manifestações podem ser tanto o balé clássico dade, os direitos humanos, o racismo, o acesso à
como a dança contemporânea; exposições plásti- Justiça etc. De forma particular, nela se estimula a
cas e exibições cinematográficas; o jornal e a TV realização de eventos que tratem, de forma sis-
comunitária, a música clássica e o jongo, o mara- temática e ordenada, do fenômeno da identidade
catu, o bumba-meu-boi e outras expressões da do sujeito e do morador do Rio de Janeiro e das
cultura popular territorializada. marcas da territorialidade em suas ações.
No caso específico da Casa de Cultura da Acima de tudo, o principal sentido da criação
Maré, ela é proposta como um espaço de reflexão da Casa é afirmá-la como um espaço de encontro.
e prática de um conjunto de referências gerais Encontro daqueles que, na diferença, se fazem
sobre a condição e identidade humana; a diversi- iguais. Localizada em um espaço fronteiriço e de
dade cultural e territorial; a realidade política e circulação, a Casa, em sua própria localização
econômica etc. A intenção é romper com a geográfica, materializa-se como um espaço capaz
tradição de debates sobre temas conceituais ou no de permitir o fluxo de diferentes moradores da
campo dos direitos humanos, dentre outros, cidade, de forma regular e progressiva.
ficarem restritos aos grupos sociais mais inte- Desse modo, o Rio de Janeiro ganha, com o
lectualizados e a espaços culturais apropriados, Ceasm e a Casa de Cultura da Maré, formas de
comumente, apenas por esses. combate, em uma perspectiva democrática e
O seu projeto está fundamentado em criativa, às segregações sociais e espaciais que
metodologias prático-sensíveis, voltadas para a obscurecem as suas belezas e a alegria de seu
reconstrução crítica da relação imaginário-cotidi- povo. Segregações que precisam, de forma
ano. Elas pressupõem a construção de relações urgente, ser combatidas e superadas por todos
horizontalizadas entre os atores sociais, visto a aqueles que ainda têm esperança na vida coleti-
intenção de trabalhar com a criação de espaços de va e na construção de uma nova humanidade
vivência. Neste, os indivíduos se reconhecem mais justa e plena.
como participantes ativos da reconstrução de sua
realidade e se afirmam como integrantes da re-
solução de seus problemas. Na verdade, essa é a
Jailson de Souza e Silva 89

Notas
[1] CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Ed. Record, 2004,
São Paulo.
[2] Cf. Boletim Trabalho e sociedade – Jovens – nº 1, março
2001. Iets, Rio de Janeiro.
[3] CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos,
Ed. UFRJ, Rio de Janeiro, 1995.

Culturas transitivas
Ecio de Salles
Ecio de Salles 91 92 Cultura e desenvolvimento

A ponte não é de concreto abriu espaço para o acontecimento que aglutinaria


Não é de ferro não é de cimento definitivamente as pessoas que dariam origem,
A ponte é até onde vai o meu pensamento meses depois, ao Grupo Cultural Afro Reggae.
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente atravessar Desse modo, em agosto de 1992, foi realizada a 1a
Caminhar sobre as águas desse momento Rasta Reggae Dancing.
Lenine e Lula Queiroga É possível inferir desse movimento não
calculado – a passagem do funk ao reggae – o
Do funk ao reggae: o impulso criativo marco inicial de um processo de transformação no
na origem interior do próprio núcleo organizador da festa.
Quem vê de fora, ou de longe, enxerga primeiro Enquanto o funk prioriza o aspecto festivo, o
o lado fulgurante, espetacular e belo. Talvez não reggae, sem prescindir desse viés, coloca de ma-
imagine que, para quem vive de dentro, a tarefa de neira enfática opiniões sobre consciência racial,
construção de um caminho alternativo ao processo questionamentos socioeconômicos, críticas à
degradante conduzido pelos métodos excludentes sociedade de consumo, enfim, um repertório de
do processo de globalização é o tempo todo informações que poderia induzir – como induziu,
atravessada por empecilhos, impossibilidades e... no caso do Afro Reggae – o ouvinte atento a
riscos. Desfazer diariamente cada um desses nós é repensar sua posição no mundo e seus modos de
a fórmula instável que confere êxito a um certo nele interferir. Uma das canções de Bob Marley,
número de projetos que tem na cultura popular a por exemplo, profetizava que:
base de sua atuação social. O Grupo Cultural Afro
Reggae, por exemplo. Até que não haja mais cidadãos de
A própria história do grupo é em si interessante primeira e segunda classe em nenhuma
nação, e que a cor da pele de um homem
e guarda alguns pontos de contato com certos não signifique mais que a cor de seus
aspectos da cultura hip-hop. Reunido com a olhos, há guerra. E até que os direitos
finalidade de organizar festas de funk, o grupo que humanos básicos sejam igualmente
deu origem ao Afro Reggae se viu obrigado a garantidos a todos sem preocupação de
mudar de planos quando o prefeito Cesar Maia, raça, haverá guerra. [...] Vamos lutar.
Nós achamos que é necessário e sabemos
em 1992, decidiu proibir qualquer manifestação que vamos vencer. Pois temos confiança
pública que envolvesse o ritmo. Foi assim que, na vitória do bem sobre o mal.1
instigado por um dos integrantes do grupo,
Plácido Pascoal, o grupo resolveu realizar uma festa Foi assim que, da organização de festas, o grupo
de reggae. Esse primeiro evento, já revelando a partiu para um novo desafio: publicar um jornal.
influência que a cultura e a religiosidade hindu O Afro Reggae Notícias veio à luz em 21 de janeiro
teriam sobre o futuro coordenador executivo do de 1993. Na capa, a imagem do cantor Junior
grupo, José Junior, chamou-se Loka Govinda e Marvin e do guitarrista Andrew Mc Inture
Ecio de Salles 93 94 Cultura e desenvolvimento

ilustrava a matéria principal: o show da banda The favela para vingar seus companheiros.
Wailers no Circo Voador, Rio de Janeiro, em Começaram incendiando trailers na
novembro de 1992. No editorial, que nessa época Praça Catolé do Rocha, em seguida
metralharam um bar da comunidade,
vinha na primeira página, os editores anunciavam tradicional ponto de encontro dos
explicitamente os objetivos do jornal: “Informar, moradores, que ali se reuniam para jogar
divulgar e conscientizar nossos leitores de uma carta ou sinuca e tomar uma cerveja.
forma especial. Com suingue e ritmo”. Através da Depois, invadiram uma casa próxima,
de uma família evangélica, e executaram
história do reggae e da cultura afro-brasileira, o os donos da casa e seis de seus filhos.
grupo queria ainda enviar “um recado contra o (Junior, 2003: 49).
racismo e a injustiça social”.
A cada edição do jornal, o grupo, autodeno- O Afro Reggae, então, foi conduzido pelo rumo
minado “organizadores”, amadurecia a idéia que dos acontecimentos até a comunidade a qual
germinaria numa instituição social. Até que, em ajudaria a transformar e onde deitaria raízes.
julho de 1993, decidiu criar uma ONG, o Grupo Antes mesmo desse episódio, entretanto, um
Cultural Afro Reggae (GCAR). Nesse momento, o outro evento entrou para a história não apenas de
grupo tinha entendido que a criação de uma Vigário Geral, mas também da comunidade
entidade organizada era fundamental para a vizinha, Parada de Lucas. Em 1983, as duas
concretização de seus planos, uma vez reconhecido comunidades entraram em guerra, dando início a
que, através unicamente do jornal, não seria um conflito que, segundo a minha percepção,
possível interferir positiva e diretamente em apresenta três fases até o momento. A primeira
determinados problemas sociais. A idéia era criar durou dez anos, seguindo até 1993. De acordo
um programa de ação sociocultural voltado para os com os relatos dos moradores, o conflito começou
jovens que residiam em favelas e que, concre- por causa de uma partida de futebol. Durante a
tamente, viesse a modificar de alguma forma a vida disputa de pênaltis, o goleiro de Vigário, Geléia,
dessas pessoas. Nesse ínterim, ocorreu um episódio foi alvejado por um tiro de fuzil, disparado por um
que marcou tragicamente a história do Brasil: a traficante de Lucas, no momento em que defendia
chacina de Vigário Geral. a última cobrança, que decidiria a partida a favor
O motivo da chacina teria sido vingança. Na de seu time. A partir daí, o termo “adversário”
noite anterior, dois policiais foram assassinados, perderia fatidicamente o seu significado esportivo,
na Praça Catolé do Rocha, por traficantes da passando a marcar de forma violenta a relação
favela de Vigário. Explica José Junior no livro Da entre as duas comunidades. Pelo menos até 1993,
favela para o mundo: quando a chacina teria dado lugar a uma
A represália foi na noite de domingo. consternação tão grande que o “armistício” foi
Pouco antes da meia-noite, um comboio decretado após um curto processo de negociações.
de policiais encapuzados invadiu a Nesta segunda fase, travou-se uma espécie de
Ecio de Salles 95 96 Cultura e desenvolvimento

“guerra fria”, na qual ameaças de lado a lado e tiros uma localidade que não tem escolas, não tem
eventuais e sem conseqüências fatais eram acesso a serviços de saúde, não tem teatros,
disparados de uma comunidade a outra. cinemas, museus e, lembrando ainda Jailson, “não
A paz relativa não durou mais que sete anos. tem regras, não tem leis, não tem cidadania!”.
O mês de agosto de 2000 marcou o reinício das Coincidentemente ou não, trata-se de um discurso
retaliações mais concretas, iniciando desse modo que lembra de perto a opinião etnocêntrica que os
a terceira fase. Caracterizado pela retomada do primeiros colonizadores portugueses expressaram
ritmo anterior a 1993, o clímax desse terceiro sobre os indígenas brasileiros, um povo que não
momento aconteceu em julho de 2003, quando teria fé, nem lei, nem rei.
traficantes de Lucas invadiram e tomaram
Vigário Geral, numa ocupação que durou pouco A afirmação desse “discurso da ausência”
em relação aos espaços populares revela
mais de 24 horas. uma representação muito comum de que
Este é o cenário onde se constituiu o Grupo a favela não seria constituinte da cidade.
Cultural Afro Reggae: a favela, com todos os seus Existe o bairro, local típico para as
contrastes e contradições. Por um lado a violência vivências legais e formais, e existe a
favela como a não-cidade, como espaço
– que, venha do crime ou da polícia, é sempre onde não ocorreria o efetivo exercício da
brutal, desmedida – e a exclusão social, muito cidadania. (Silva, 2003: 22)
perceptível na precária estrutura, nos barracos
humildes, na dificuldade, quase impossibilidade, Por outro lado, quando o discurso assume
de acesso aos benefícios da cidadania e da uma clave afirmativa, é a fim de chamar a
modernidade a que teriam direito. Por outro, uma atenção para a presença do crime, da violência,
força criativa, um manancial de talentos pronto do perigo no interior das favelas. Um texto que,
para questionar a ordem social que o reprime e como se vê, enfatiza o pensamento crimi-
ocupar um lugar diferenciado no mundo. nalizante, como se nessas localidades não
houvesse outras experiências sociais que não a do
Afinidades eletivas, culturas transitivas tráfico de drogas. Jailson notou duas noções
Contudo, o discurso que realça os aspectos distintas a nuançar esse discurso da ausência, a
vinculados à violência, à marginalidade, à pobreza economicista e a paternalista.
material em cada favela põe em evidência um De acordo com a primeira noção, o destino
ponto de vista redutor, que não dá conta da inevitável dos jovens moradores de comunidades
riqueza de conteúdos gerada nas práticas pobres é ingressar no tráfico, numa lógica que os
cotidianas de qualquer comunidade. Pelo con- considera criminosos em potencial, ainda que a
trário, trata-se de um discurso que, conforme o ínfima proporção de indivíduos que ingressam no
raciocínio de Jailson de Souza, destaca a “ausência” tráfico, em face do universo total de moradores de
como fator primordial a definir o espaço da favela, cada comunidade, desminta esse diagnóstico. De
Ecio de Salles 97 98 Cultura e desenvolvimento

acordo com a segunda – presente até no George Yúdice, “a orquestração e a negociação


pensamento de setores da esquerda –, eles se exigem manter-se firmes frente à cooptação”
tornam vítimas de um sistema social injusto, o que (Yúdice, 2002: 195). Não é o caso aqui de fazer
inclusive justificaria o recurso a expedientes ilegais frente a um só foco de opressão ou dominação,
como o não pagamento de impostos ou a mas de agir junto à diversidade de grupos e
receptação de objetos roubados. Assim, “não instituições, os quais na maior parte das vezes
restaria ao morador das favelas, levando-se em falam a partir dos múltiplos pontos de intersecção
conta esses juízos, mais do que se conformar com entre os vários atores, interesses e discursos
a sua condição de potencialmente criminoso ou envolvidos no processo (Yúdice, 2002: 195)2.
vítima passiva da sociedade” (Silva, 2003: 22). Há um problema, todavia, que merece atenção.
É nesse contexto que o discurso do Grupo É o caso de saber se, como argumenta Marta Porto
Cultural Afro Reggae entra em cena. E, felizmente, (Porto, 2003), corremos o risco de naturalizar a
não o faz de maneira isolada, mas integrando um idéia de que “projetos substituem processos”.
conjunto de discursos que, na cidade do Rio de Afinal, ao pôr em evidência – inclusive em posição
Janeiro, começa a se fazer ouvir com mais destacada na mídia – jovens que obtiveram êxito
intensidade a partir da primeira metade da década em abraçar o viés artístico como forma de superar
de 90. Nesse período – um pouco mais, um pouco os obstáculos impostos por uma sociedade
menos – surgem inúmeros movimentos sociais que desigual, sem pensar sobre o que eles representam
hoje constituem um importante e produtivo foco e propõem modificar, a sociedade, diria Marta,
de um discurso e de uma estética, ou antes, de um “substitui a necessária revisão das políticas em
contra-discurso e de uma antiestética que, de um curso, com destaque para as de cultura, esvaziando,
lado, dialogam entre si, trocando idéias e assim, o seu potencial transformador”. Dessa
experiências. De outro, dialogam também com forma, o estabelecimento do que poderíamos aqui
órgãos governamentais, agências de cooperação chamar de cidadania cultural poderia apresentar
internacional, universidades e escolas, empresas, um efeito colateral neutralizador:
políticos, artistas, intelectuais, associações de
moradores... Um universo amplo, que inspirou É como se um anúncio publicitário
Rubem César Fernandes a falar numa “poliglosia permanente, formado pela imagem de
várias experiências culturais de
da sociabilidade” para definir os agenciamentos destaque, redimisse a culpa de todos por
postos em curso pelo Afro Reggae e por outros não conseguir abrir mão de mais nada,
grupos semelhantes. Sem dúvida, essa articulação ou melhor, do mais importante, que é a
“poliglota” envolve não poucos riscos, uma vez que democratização real da esfera pública,
das oportunidades educacionais, de
os personagens envolvidos na relação estão à mercê emprego, de renda, de moradia, de
de uma inegável assimetria no que diz respeito às serviços estatais de qualidade, de cultura
posições de poder. Entretanto, como assinalou também. (Porto, 2003)
Ecio de Salles 99 100 Cultura e desenvolvimento

Se é preciso admitir que a mobilização dos É a partir dessa concepção que o trabalho do
movimentos sociais ainda não foi capaz de se Afro Reggae, e de outros movimentos sociais, pode
estruturar como processo, é preciso também escapar à cooptação ou ao “esvaziamento de seu
reconhecer que os projetos – e eles são inúmeros e potencial transformador”. Porque, em meio às
diversos o suficiente para que não os ponhamos intersecções, interações e mediações de que fazem
todos num mesmo saco – estão trazendo uma parte, esses movimentos estão sempre formulando
contribuição decisiva para o debate acerca das e reformulando discursos. E o fazem em meio à
relações sociopolíticas que construímos e das idéias intempérie da globalização, o que lhe confere um
de futuro e transformação que postulamos. outro aspecto notável.
Preparados para falar muitas “linguagens” – Segundo Canclini, uma das maneiras possíveis
englobando a sociedade civil, o terceiro setor, o de entender a globalização é como um conjunto
governo, a mídia, empresas – e articulá-las de de estratégias para realizar a hegemonia de
forma a tornar alguns desejos realidade, grupos conglomerados industriais, grupos financeiros,
como Afro Reggae, Ceasm, Nós do Morro, Cufa, grandes empresas da área de entretenimento e
Pré-Vestibular para Negros e Carentes, Educafro, comunicação, “a fim de apropriar-se dos recursos
Jongo da Serrinha, Cia. Étnica de Dança3, para naturais e culturais, do trabalho do ócio e do
citar só alguns, têm trazido para o primeiro plano dinheiro dos países pobres”, mantendo-os
o discurso da favela, ou, pelo menos, o discurso subjugados à ordem estabelecida por esses atores
legitimado por ela. Nisso, têm contribuído desde meados do século 20 (Canclini, 2003: 29).
bastante para mudar a correlação de forças entre as Já Zygmunt Bauman, por sua vez, entende que
comunidades e as outras instâncias da sociedade; no mundo globalizado a marca que distingue os
têm ajudado a repensar positivamente o lugar da excluídos é a “imobilidade”. Para o autor, “estar
favela na cidade; têm posto em curso um proibido de mover-se é um símbolo pode-
interessante e produtivo processo de resistência, rosíssimo de impotência, de incapacidade e dor”
uma vez que não se trata de resistir apenas, mas de (Bauman, 1999: 130).
fazê-lo com um novo sentido, possuidor de uma Nesse contexto, a atividade do Grupo Cultural
potência afirmativa que torne a noção de Afro Reggae e dos demais grupos que venho
resistência comparável a um procedimento de re- mencionando atua como produtora de antídotos
existência, idéia que tomo emprestada à Tatiana espetaculares contra a imobilidade de que fala
Roque, que, com o rigor intelectual que lhe é Bauman, abrindo perspectiva para – ainda que
peculiar, percorre as acepções possíveis desta noção estejamos nos referindo neste primeiro momento
para, numa formulação fortemente inspirada pela àquelas “experiências culturais de destaque”, como
filosofia deleuziana, propor a “resistência” como define Marta Porto – um movimento contínuo de
constitutiva de um devir revolucionário (Roque, desterritorialização e reterritorialização que
2001-02: 23 et alli). termine por mover um produtivo e potente
Ecio de Salles 101 102 Cultura e desenvolvimento

processo de integração social, capaz de, quem sabe, contra os quais protestava Jailson e, sob outro
criar as condições para que sua atuação se converta aspecto, para gerar ações que ressignifiquem
em processo, mudando efetivamente, num prazo favoravelmente o conceito de globalização. É ainda
que não podemos prever, as nossas condições Canclini quem sugere que a indagação “sobre os
sociais, políticas, culturais, e outras mais. sujeitos capazes de transformar a atual estruturação
É nesse ponto que posso falar em globalizada nos levará a atentar aos novos espaços
“transitividade” desses movimentos socioculturais. de intermediação cultural e sociopolítica”
Eles, por um lado, representam o desejo do (Canclini, 2003: 28. Grifo do autor). Esse é um
diálogo, de fato dirigem-se ao outro, estabelecem movimento que dá ensejo à formação de um
relações com ele; por outro, implicam a idéia de processo de “afinidades eletivas”4 – um termo que
trânsito, de movimento. As culturas transitivas prefiro neste momento à noção tradicional de
seriam aquelas capazes de situar-se nas fronteiras, “redes” – entre os diversos grupos, que se articulam
de falar desse lugar e aí se dedicar à tarefa de eventualmente, muitas vezes prescindindo de
desfazer muros, construir pontes. Um exemplo reuniões ou outros procedimentos formais. O que
interessante é o projeto Parada Geral, desenvolvido promove a sintonia entre eles é antes uma espécie
a partir das parcerias que venho destacando, no de sentimento íntimo, balizado primeiro pela
caso entre Afro Reggae, Rede Globo, People’s consciência de que o mundo em que vivemos não
Palace Project, entre outras, e visando criar no nos serve; depois pela força e vontade de
espaço que separa e une as comunidades de Lucas transformá-lo e, por último, mas não menos
e de Vigário um território livre para o intercâmbio importante, pela certeza de que é possível fazê-lo.
de idéias, a prática do reconhecimento mútuo, a Falta o dado metodológico à fórmula, é verdade,
criação de arte, o contato das culturas, a mas o “como” da questão é justamente o que se
transformação da realidade. está inventando no dia-a-dia das lutas, na
Certamente, essa não é conclusão da história. É, mobilização dos movimentos, nos muitos e
pelo menos deve ser, o seu ponto de partida. Estou caprichosos modos de re-existência.
com Marta Porto quando ela entende que o Rio de
Janeiro, que na década passada pôde reconhecer e Referências bibliográficas
dar visibilidade a práticas inéditas originadas “nas BAUMAN, Zygmunt. Globalização. Rio de Janeiro:
favelas, nos subúrbios e nas periferias”, deva Jorge Zahar Editor, 1999.
assumir nos próximos dez anos esse espaço “como CANCLINI, Néstor García. A globalização
locus privilegiado de mudanças sociais estruturais” imaginada. São Paulo: Editora Iluminuras, 2003.
(Porto, 2003). JUNIOR, José. Da favela para o mundo – A história
O fato animador é que os novos discursos que do Grupo Cultural Afro Reggae. Rio de Janeiro:
surgiram todos praticamente nessa época mos- Aeroplano, 2003.
tram-se potentes o bastante para enfrentar aqueles PORTO, Marta. A fama x os normais: ajuste social
Ecio de Salles 103

no mundo das celebridades. In Dez anos depois:


como vai você, Rio de Janeiro?, 2003
(www.iets.org.br).
ROQUE, Tatiana. Resistir a quê? Ou melhor, resistir
o quê?. In Lugar Comum: Estudos de Mídia,
Cultura e Cidadania, no 15. Rio de Janeiro:
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2001-
2002.
SILVA, Jailson de Souza e. A favela imaginária da
classe média. In Revista Global no 1, outubro-
novembro. Rio de Janeiro, 2003.
YÚDICE, George. El recurso de la Cultura: Usos de
la cultura en la era global. Barcelona: Editora
Gedisa, 2002.

Notas Cultura para o desenvolvimento:


[1] Trecho do reggae War, de Bob Marley.
[2] Em espanhol no original. um desafio de todos
[3] Enquanto escrevo, percebo que invariavelmente, em
diferentes situações e proferidas por diferentes sujeitos,
quando se fala em grupos que desenvolvem projetos em Marta Porto
favelas, insiste-se sempre nas mesmas instituições (no
contexto carioca). Isso, a meu ver, não representa uma
limitação, mas o reconhecimento de que esses grupos
alcançaram resultados objetivos em seu trabalho, e agora
certamente influenciam outras iniciativas que começam a
trilhar caminhos parecidos. Fora isso, há ainda uma
enorme soma de outras instituições tão interessantes
quanto que, por questões de espaço, não pude citar aqui.
[4] Utilizo o conceito de afinidade eletiva segundo
formulado por Michel Löwy, em Redenção e utopia:
“Designamos por ‘afinidade eletiva’ um tipo muito
particular de relação dialética que se estabelece entre duas
configurações sociais ou culturais, não redutível à
determinação causal direta ou à ‘influência’ no sentido
tradicional. Trata-se, a partir de um analogia estrutural, de
um movimento de convergência, de atração recíproca, de
confluência ativa, de combinação capaz de chegar até a
fusão”.(Löwy, 1989: 13).
Marta Porto 105 106 Cultura e desenvolvimento

A proteção dos direitos humanos, em implica não somente uma negação do


uma sociedade cultural, requer a reconhecimento cultural, mas algo que
observância dos direitos culturais, afeta seriamente o sentimento de
enquanto direitos universalmente pertencimento de indivíduos e comu-
aceitos. Não há direitos humanos, nem nidades à sociedade do conhecimento, ou
tampouco democracia, sem a justiça a sua exclusão dela. A cultura possui
cultural, sem a diversidade e o laços múltiplos e complexos com o
pluralismo culturais e, nem tampouco, conhecimento. A transformação da in-
sem que se assegure o direito de existir, o formação em conhecimento é um ato
direito à visibilidade, o direito à cultural, como é o uso a que se destina
diferença e à dignidade cultural. todo o conhecimento. Um mundo auten-
Flávia Piovesan ticamente rico em conhecimento há de
ser um mundo culturalmente diverso.2
Pensar a relação entre cultura e desen-
volvimento é um desafio global reconhecido pelas O acesso à cultura – pensada não só como
Nações Unidas desde 1988, quando foi lançada a memória ou ato criativo espontâneo ou artístico,
Década Mundial do Desenvolvimento Cultural e, mas como conhecimento –, ou a necessidade de
alguns anos depois, em 1993, implantada a apropriar-se continuamente de suas variáveis e
Comissão Mundial de Cultura e Desenvol- disponibilizar esse acervo à comunidade, é um ato
vimento1, sob a batuta competente do peruano consciente que exige inserção coletiva e política de
Javier Perez de Cuellar. todos os cidadãos. Assim exige um ambiente
Como sinaliza a Comissão, o desafio da cultura comunitário e político favorável à inserção cultural
no século 21 propõe que pensemos em conexões do indivíduo e de grupos.
que coloquem na ordem do dia as complexas A nossa disposição de aprender e dialogar com
relações entre cultura e desenvolvimento universos diversos é fruto dos estímulos que
econômico, entre globalização e expressões locais, recebemos do ambiente vivenciado na infância, na
entre fluxos informacionais e identidade e, adolescência, na fase adulta da vida. Estímulos e
especialmente, entre os aspectos inovadores dos incentivos proporcionados pela riqueza dos
movimentos civis e comunitários emergentes, encontros culturais proporcionados ao longo da
como os da juventude das grandes periferias vida, da nossa facilidade e curiosidade de
urbanas, e o impacto sobre a democracia e o apreendê-los e transformá-los em dados
fortalecimento da vida pública. Ou seja, significa importantes da experiência humana. A cultura, tal
repensar todo o papel desempenhado pela cultura qual ela é pensada no século 21, é a experiência
no plano mais radical da vida política de um país que marca a vida humana em busca do
ou de uma comunidade. conhecimento, do alto aprimoramento, do
Um acesso desigual aos meios de sentido de pertencimento e da capacidade de
expressão cultural, novos ou tradicionais, trocar simbolicamente.
Marta Porto 107 108 Cultura e desenvolvimento

O valor que damos à cultura, a nossa ou a do papel do Estado no campo da cultura, no Brasil
aprendida, é aquele que aprendemos a dar. essa discussão esteve desde sempre secundarizada.
Apesar da implantação do Ministério da Cultura
Cultura e democracia: um debate em 1985, optou-se por setorizar a discussão nos
insuficiente mecanismos financeiros capazes de ampliar as
Nesse contexto, é preciso lembrar a insu- verbas públicas a setores restritos da produção
ficiência histórica no Brasil do debate que cultural, aqueles com maior capacidade de
relaciona cultura e retomada da democracia, organização e pressão política. As leis de incentivo,
cultura e direitos sociais e, conseqüentemente, nas três esferas do aparato estatal, seus tetos de
cultura e desenvolvimento. Alheia a boa parte dos isenção, as estratégias de preenchimento das
avanços políticos que marcaram nas duas últimas planilhas disponibilizadas pelos órgãos públicos
décadas as discussões em outros setores de atuação deram a tônica da superficialidade política que
pública, a cultura caracterizou-se nos últimos anos acometeu durante quase duas décadas o debate
como uma área de “disputa de privilégios” cultural no país. Como em nenhuma outra área, a
personificados nos limites reivindicados para a cultura do privilégio, da ausência de preocupação
isenção fiscal dos diversos setores artísticos, pelo com os movimentos sociais e culturais de fora do
lobby de aprovação dos tetos permitidos nas que tradicionalmente se denomina “produção
comissões de cultura e, naturalmente, pelas verbas cultural” esteve tão presente como na configuração
publicitárias e de marketing das grandes empresas das políticas culturais brasileiras.
brasileiras, em especial e paradoxalmente das Distante do debate político, a cultura pouco
estatais. Assim, o campo teórico por excelência das contribuiu para o debate sobre o desen-
soluções coletivas revela com crueza o traço mais volvimento democrático no país, ou refletiu sobre
contundente da elite nacional em relação às o farto campo de oportunidades e/ou contri-
mazelas do povo: o prevalecimento dos interesses buições que poderia ofertar ao país pensando
privados e das soluções imediatistas e restritas a conjuntamente a educação, a universalização dos
poucos, sobre as necessidades de um corpo social serviços culturais – equipamentos e programas –,
diverso a quem se nega o direito de emancipação o desenvolvimento local baseado em ativos
cultural e visibilidade pública. singulares de cada comunidade, a organização de
Ao contrário de outros países latino- uma indústria e um mercado cultural digno da
americanos, como Bolívia, Uruguai, Colômbia, capacidade e do talento da nossa diversidade
México, onde o processo de democratização criadora. Ou indo além, ajudando a recuperar e
acompanhou o aprofundamento do debate sobre o humanizar a face distorcida e feia de um país com
papel da política cultural e a importância do um passivo de violação de direitos sociais,
protagonismo político e da participação popular econômicos, culturais, enfim, direitos univer-
de amplos setores da sociedade no reordenamento salmente reconhecidos como Humanos. Situação
Marta Porto 109 110 Cultura e desenvolvimento

que só nos últimos anos começamos a recuperar, para encontrar seus iguais e, por meio de
de forma tímida e pouco assumida. diferentes linguagens, expressar suas
No entanto, é preciso afirmar que o conjunto questões, suas visões de mundo, suas
condições de vida, suas revoltas, seus
de opções estratégicas da agenda pública, estatal ou projetos de sociedade. Nós observávamos
não, proposto hoje para enfrentar o desafio do esta riqueza e nos inquietávamos com
desenvolvimento brasileiro, que se caracteriza sua invisibilidade.3
pelos altíssimos níveis de concentração de renda e
de ativos educacionais e culturais em segmentos O poder destes movimentos culturais
restritos da sociedade, não pode deixar de expressos em inúmeros exemplos espalhados pelo
considerar a importância central da cultura e das país, sem dúvida alguma, traz um dado novo
políticas culturais no processo de repaginação da para o conjunto das práticas sociais e de
democracia brasileira, principalmente se consi- ocupação do espaço público que ainda não foram
derarmos a força do recorte cultural no conjunto devidamente absorvidas. Em parte, pela ausência
de projetos reivindicatórios e dos direitos sociais e de políticas culturais estruturantes que
especialmente comunitários que surgem nas duas interfiram decisivamente no desenho das
últimas décadas na cena nacional. políticas públicas e das ditas agendas sociais no
Em especial, quando se avalia a importância Brasil. O traço da invisibilidade continua a
que os projetos culturais passam a ter a partir da operar como uma máscara de incompreensão e
década de 90 na conquista dos espaços públicos e de não reconhecimento do lugar central da
na legitimação dos direitos sociais dos movimentos cultura e da força das práticas locais no
comunitários e das periferias dos grandes centros amadurecimento da democracia brasileira.
urbanos. Maria Virgínia de Freitas, da Ação Democracia que deve incorporar o respeito às
Educativa, chama a atenção para a importância diferenças, o respeito à diversidade e ao
desse fenômeno: pluralismo cultural, às questões de gênero,
étnico-raciais, de proteção às minorias culturais.
Se, nos anos 60, eram os jovens de classe Talvez por isso, ou sobretudo por isso, a
média, os estudantes que traziam o novo, absorção dessas práticas culturais provindas das
nos anos 80 e 90 a efervescência do
diferente começa a nascer em outros periferias urbanas e protagonizadas especialmente
espaços sociais. Em cidades como São por jovens tenha sido erroneamente traduzida
Paulo, é nas periferias que começamos a como ação social capaz de transformar indicadores
encontrar uma série de grupos de jovens históricos de desigualdade (saúde, educação,
que se organizam para fazer música, saneamento básico, nutrição etc.) de forma
dançar, grafitar, fazer teatro, produzir
fanzines, organizar ações solidárias etc. mágica. Programas de música, dança, capoeira, que
(...) É sobretudo em torno da dimensão sempre deveriam estar ali à mão dos moradores
cultural que esses grupos vão se articular mais ou menos próximos do universo cultural,
Marta Porto 111 112 Cultura e desenvolvimento

como um direito assegurado pela sociedade, e das práticas no campo político e simbólico do
passaram a ser financiados não como extensão universo cultural ainda estará incompleta. Investir
desses direitos culturais numa sociedade demo- em projetos culturais comunitários é importante,
crática, mas como remédio para a ação social mais todos, sem distinção, têm o direito de se expressar
ingênua. Aquela que ganha contornos preventivos artisticamente, de ter acesso a livros, às artes, à vida
– quem já não se surpreendeu com frases como “é cultural. Isso deve ser encarado com a naturalidade
melhor a garotada estar numa oficina de arte a que uma sociedade democrática reivindica e
estar nas ruas sendo vítima ou autora de violência”, também como um desafio para o Brasil. Assim, a
ou “a cultura é a melhor estratégia contra a busca não deve ser pelos talentos, pelos possíveis
violência juvenil” –, que não é capaz de ser famosos do amanhã, mas pelo acesso universal. Ou
universalizada, pois tem “público-alvo” ou conta seja, precisamos ultrapassar a idéia de uma cultura
com parceiros com capacidade limitada de ação, a serviço de algo, da prevenção, da assistência
reduzindo a um percentual pequeno as crianças e social, que não esteja a serviço unicamente de si
jovens “atendidas”. mesma, de dignificar a vida humana.
Para os jovens das classes média e alta a cultura O aperfeiçoamento do processo democrático
é uma aventura para o conhecimento e o saber, brasileiro, inevitavelmente, deve caminhar nessa
humanizando o espírito e ampliando a capacidade direção. Daí a importância de políticas culturais
de escolha. Para os jovens moradores de áreas que assegurem o reconhecimento e a visibilidade
populares, ela é tratada como remédio preventivo à das diversas práticas culturais originadas no
violência urbana e a ação social vinculada a termos território local, e que as focalizem como capital
como “melhorar a auto-estima”, “se sentir cultural relevante ao desenvolvimento sustentável
incluído” e outros tantos que presenciamos de do país, capaz de dialogar com outros universos
forma marcante nos balanços sociais de empresas e simbólicos. E não tratadas como um trampolim de
nas falas de funcionários da burocracia estatal ou ascensão social para alguns mais talentosos, ou
internacional. O caráter político e reivindicatório, como instrumento de política social localizada e de
a ação transformadora são esvaziados pela retórica impacto duvidoso4. A desigualdade social, a
oficial, e tratados como soluções para as mazelas violência que afeta cada vez mais os jovens
sociais de problemática bem mais ampla. Sem brasileiros, a má qualidade ou a ausência dos
dúvida alguma, as intenções são boas e os serviços públicos nessas comunidades não serão
resultados, com o contingente atendido, revertidos com ações ingênuas e localizadas, sejam
surpreendem positivamente. Mas enquanto elas culturais ou não. Mas certamente serão
olharmos a ação cultural esvaziada do seu potencial amenizadas se a cultura for, desde os bancos
político transformador, aproximando-a do escolares, tratada como algo essencial à vida
assistencialismo, a tarefa de universalizar o acesso à humana. Podemos sim apostar que se o país tiver
cultura, de ampliar a representatividade dos atores com a política cultural um compromisso de
Marta Porto 113

ampliar o acesso, de qualificar a educação pública,


de fomentar a leitura e práticas locais que
complementem políticas de desenvolvimento, em
algumas décadas o país estará melhor.

Notas
[1] Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento,
Nações Unidas. Sobre as idéias defendidas pela Comissão
indico a leitura do relatório Nossa diversidade criadora, São
Paulo, 1997, Ed. Papyrus.
[2] MATSUURA, Koichiro. Secretário Geral da Unesco.
Informe Mundial de Cultura 2000-2001, abertura.
[3] FREITAS, Maria Virgínia. A formação de redes: a
experiência da Ação Educativa, in Juventude, Cultura e
Cidadania, p. 113, Iser, 2002.
[4] Sobre este tema, ler o artigo publicado pela autora no
Boletim nº 5 do Instituto de Estudos do Trabalho e
Sociedade, A fama versus os normais: ajuste social no mundo
das celebridades, 2003.
Levantes bárbaros
Maurício Torres
Maurício Torres 115 116 Cultura e desenvolvimento

Brasília, 20 de abril de 1997. Galdino Jesus dos alienígena do outro. Mostra incisiva de como ao
Santos pega fogo. índio – ou ao morador de rua e a tantos outros
Cinco jovens delinqüentes de classe média-alta grupos – é vedado o espaço público, mesmo
assassinam o índio pataxó com requinte de porque esse é tratado como prosseguimento do
perversão: ateiam-lhe fogo. espaço privado dos dominantes e cidadania acaba
Homicídio? Sim, mas eles se explicam, por ser um privilégio de classe.
“pensavam que se tratava apenas de um mendigo”. Tal como nas Cidades invisíveis, a cidade parte-
Sintomaticamente, os jovens da capital se em lado de dentro e de fora. Porém, se a
reproduziram com precisão milimétrica, sem o fronteira de Ítalo Calvino é invisível, as nossas são
saber, o pior aspecto da mentalidade dos claras e ostensivas, exibidas como um brasão. Aliás,
colonizadores, que relegavam a uma mesma vala como o brasão de armas da Polícia Militar do
comum todos outrora marginalizados, seres Estado de São Paulo. Cada uma de suas 18 estrelas
degradados a uma condição não-humana. remete a um marco histórico da corporação. O que
Galdino fora a Brasília e dormia em espaço a Polícia entende por “campanhas honrosas”
público, uma parada de ônibus da Asa Sul. De elucida a concepção de povo a quem serve.
fato, não seria difícil confundi-lo com um Orgulhosamente, constam participações no
mendigo. Esse último, por definição genérica, massacre de Canudos, na repressão aos traba-
nada mais é do que um desabrigado, supostamente lhadores na Greve Operária de 1917, na derrubada
desempregado, completamente à margem da do presidente João Goulart para instauração da
sociedade. A praça é pública, o mendigo é intruso. ditadura militar, entre outras. Enfim, o glamour se
Ele não incorpora, orbita, desnecessário e parasita, deve, comumente, a repressões sobre levantes
a sociedade. E Galdino? populares. Causa calafrios imaginar o que não
Galdino morre no Hospital Regional da Asa poderá a ser 19ª estrela.2
Norte. A violência para a polícia brasileira é
Homicídio? Não. Brincadeira, só estavam se constitutiva da instituição e norma no controle
divertindo, segundo os seus depoimentos. Aliás, cotidiano da população. A polícia age de maneira
“brincadeira” bastante comum. Só em Brasília, explícita. Protege a pequena elite pondo-se a
fora o 13º caso em apenas dois anos, de mendigos combater toda uma população oprimida. Assume
e crianças de rua incendiados vivos.1 funções de triagem, isolamento, controle de acesso
Galdino em chamas clareia a fenda aberta a a determinados espaços etc. E, a tomar pelo
dividir um mundo de valores e idéias radicalmente número – e perfil – de mortos vitimados pela
distintos. Chega a propor que um não reconheça o polícia, atua também como grupo de extermínio.
outro como um ser igual. Ilustra a partição das Naturalmente, com a mira sempre nos excluídos: a
cidades em inclusos e exclusos. A reação dos jovens majoritária parte dos mortos são negros, jovens e
“de dentro” é emblemática e exemplar do caráter de bairros pobres.
Maurício Torres 117 118 Cultura e desenvolvimento

Porém, a todas as formas de dominação, até e preconceitos, legitima a implantação de novas


mesmo àquelas declaradamente autoritárias, é tecnologias de exclusão social.
vital uma ideologia a sustentá-las, a legitimá-las, Em 24 de janeiro de 2001, pôde-se perceber a
levando a um consenso que viabilize seu propagação clássica da “fala do crime”, em plena
funcionamento. A atuação militar na manutenção devoção ao preconceito e à segregação, numa
das distâncias sociais encontrou seu endosso no exemplar e sinistra comunhão entre mídia e
que Teresa Caldeira chamou de “fala do crime”: intolerância. Nesse dia, a revista Veja trazia mais
um discurso eficiente a ponto de levar a uma de suas inesquecíveis manchetes de capa: “O
população a, simultaneamente, temer e apoiar a cerco da periferia: Os bairros de classe média estão
ação da polícia. sendo espremidos por um cinturão de pobreza e
O belo trabalho da antropóloga mostrou, com criminalidade que cresce seis vezes mais que a
aguçada análise de entrevistas realizadas entre a região central das metrópoles brasileiras”. O
classe média paulistana na década de 90, como exemplo lapidar do imaginário da xenofobia social
pobreza, atraso, inflação, desemprego, frustra- era ilustrado por uma montagem emblemática:
ções pessoais, problemas de saúde etc. fusionam- uma região central, harmônica, bela, arborizada,
se sintetizados no discurso da violência que se limpa e ensolarada era sitiada por uma lúgubre e
tornou a “fala da cidade”. O crime presta-se à ameaçadora mancha acinzentada, a periferia. A
articulação, como recurso retórico, da expe- ligação estabelecida no subtítulo da matéria entre
riência da classe média apavorada. Ela projeta na periferia e criminalidade dispensava qualquer
suposta violência de um estigmatizado “favelado explicação. A segunda apresentava-se como
famigerado” as agruras e fracassos de seu peculiaridade intrínseca à primeira. Da mesma
cotidiano. Comentando a entrevista com uma forma, as imagens de esgotos a céu aberto fundiam
senhora da Mooca, Caldeira assinala a indis- os conceitos de pobreza, de sujeira e de doença. À
tinção das imagens do nordestino e do imagem e semelhança do ideário do século 19,
criminoso: “É inconcebível para ela que pudesse misturam-se, sinuosamente, elementos naturais
ser de outra forma. Ela tem de prender-se aos negativos (relacionados à doença) aos com-
estereótipos disponíveis e aplicá-los rigorosa- ponentes sociais negativos inerentemente
mente para entender o absurdo dos assaltos e das vinculados com pobreza, atraso, promiscuidade,
mudanças em sua vida e no seu bairro. As miséria, enfim, com os “miasmas sociais”.
categorias são rígidas: não são feitas para Há muito que a proximidade física de pobres e
descrever o mundo de forma acurada, mas para ricos no espaço urbano aguçou diferenças e
organizá-lo e classificá-lo simbolicamente. Elas fomentou separações. O Estado encarregou-se em
são feitas para combater a ruptura no nível da ordenar esse campo, e entenda-se por isso separar
experiência, não para descrevê-la”3. O discurso os pobres dos ricos: para classes diferentes, espaços
do crime, alimentado de medo, aversão ao outro diferentes. As próprias políticas públicas relegaram
Maurício Torres 119 120 Cultura e desenvolvimento

às “margens” determinados grupos. A expressão inerte e inapta, elas seriam incapazes de exercer
“marginal” não fala de uma fronteira geográfica, qualquer função decisória e, caso isso ocorresse,
mas, antes, designa uma condição social, étnica ou seria uma degeneração da política. Na terra da
cultural. O olhar do Estado é crivo dessa seleção e resignação harmônica, “conflitos sociais são vistos
de quem recebe ou não a aura de cidadão. como excepcionais, como algo que não faz parte
Muitas vezes, a postura do Estado foi ainda da ‘pátria brasileira’. Assim, por exemplo, as
mais ostensiva. Tornou-se regra as políticas graves contestações que marcaram a Primeira
urbanas “desocuparem” áreas nobres da presença República teriam sido realizadas por elementos
de uma população “indesejada”. No começo do estranhos, apoiados em ideologias espúrias e
século 20, Pereira Passos, no Rio de Janeiro, alheias ao corpo social brasileiro, por natureza um
reformou o Centro, demoliu cortiços, empurrou a corpo sadio, sem conflitos”5.
população para os morros e assistiu à formação das A gênese desse pensar de Rui Barbosa, Olavo
primeiras favelas. No final do século 20, Paulo Bilac, Gilberto Freyre e tantos outros contem-
Maluf, em São Paulo, “re-organizou” o local onde porâneos, a eles e a nós, encontramos bem escla-
hoje é a Avenida Água Espraiada e os moradores da recida. Carlos Nelson Coutinho, em Cultura e
Favela Jardim Edith, resíduos do progresso, foram sociedade no Brasil, explica o processo de
embarcados em carrocerias de caminhões da modernização econômico-social no Brasil como
própria Prefeitura e basculadas ao léu, às margens algo oriundo das elites dominantes e alheio às
da represa Billings, área de proteção de manancial.4 classes populares. Isso seria causa direta do não
desenvolvimento – como coletivo e não como
“Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco valores isolados e individuais – de uma
sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, intelectualidade posta ao seu essencial papel:
exemploso.” “expressar a consciência social das classes em
Guimarães Rosa – Primeiras estórias choque ou de um bloco de classes sobre o conjunto
Frente a tantos episódios de espoliação, de seus aliados reais ou potenciais”6. Leandro
sempre ouvimos falar da passividade e resignação Konder, referindo-se a falas de Farias Brito,
da população. É a repetição do preconceito que Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Miguel Reale,
parece ter sete fôlegos: a natureza das massas Francisco Campos e outros, comenta o
brasileiras é “pacífica, acomodada e não rei- autoritarismo elitista de pensadores brasileiros: “O
vindicatória”, como disse Rui Barbosa. Essa pluralismo da ideologia da direita pressupõe uma
premissa fez muito pela exclusão das massas unidade substancial profunda, inabalável: todas as
populares da participação política nacional. correntes conservadoras, religiosas ou leigas,
Serviu de pilar ao intenso controle do Estado otimistas ou pessimistas, metafísicas ou so-
sobre iniciativas sociopolíticas populares: ciológicas, moralistas ou cínicas, cientificistas ou
entendendo-se as camadas populares como massa místicas, concordam em um determinado ponto
Maurício Torres 121 122 Cultura e desenvolvimento

essencial. Isto é: em impedir que as massas para a instauração do capitalismo, e não com
populares se organizem, reivindiquem, façam qualquer projeto político e cultural dos escravos.
política e criem uma verdadeira democracia”7. Os naturalistas, atados a concepções geode-
Os defensores do caráter resignado do terministas, também prestam grande desserviço
brasileiro passaram ao largo da violência que se social ao pregar a miséria brasileira como uma falaz
abateu sobre os levantes ocorridos e do conseqüência incontroversa de elementos
esvaziamento dos direitos inalienáveis do homem perenemente fatais: clima e etnia. Desviam a
à medida que não foi possível configurá-los como atenção dos reais pólos da miséria: os mutáveis
direitos de um cidadão. A privação foi além dos fatores sociopolíticos. A estrutura social existente,
direitos civis, mas, como um todo coeso, direitos mesmo caracterizada como injusta e desumana, é
civis, sociais e econômicos, necessariamente defendida na medida em que, conotada como
acessíveis a todo membro de uma determinada inalterável, remete à resignação e ao conformismo.
nação. Como, então, falar em resignação e Esse discurso respondeu pela propagação
conformismo? Hannah Arendt mostrou muito ideológica, uma verdadeira domesticação do
bem como “a destruição dos direitos de um imaginário, que aprofundou as raízes dos estigmas,
homem, a morte de sua pessoa jurídica, é a perenemente reciclados e irradiados na fala urbana
condição primordial para que seja inteiramente contemporânea.
dominado”8 e como a força da aniquilação moral
e social do indivíduo pode ser grande ao ponto de, “Para o pobre os lugares são muito mais
numa situação extrema, propiciar que “milhões de longe.”
seres humanos se deixassem levar, sem resistências, Guimarães Rosa – Primeiras estórias
às câmaras de gás”.9 Na década 80, ouviam-se as classes mais altas
Triste de ver. Salvo algumas exceções (como indignadas: “Não tem o que comer, mora num
Cruz e Souza, Machado de Assis, Manuel Antônio barraco, mas tem televisão”. A década de 90
de Almeida, Lima Barreto e outros), grande parte manteve a frase, só substituiu a televisão pelo
do desenvolvimento literário brasileiro, em videocassete. Hoje, o já tradicional jargão formu-
diversos momentos, postou-se favorável ao estado la-se modernizado, o desaforo do pobre é ter uma
de dominação sobre o povo. Em José de Alencar, antena parabólica. Pode-se supor que tal in-
por exemplo, temos o “vanguardista literário”10, dignação provenha de uma sensação de “invasão”:
escravocrata e politicamente conservador, a cultuar o pobre rompe a fronteira de separação social ao
a subjetividade alimentando a evasão, pois, ao praticar (em prestações) o consumo que seria
olhar para o falacioso personagem do indianismo, exclusivo ao rico e próprio para diferenciá-lo. Até
desvia o foco do real problema, os escravos negros. mesmo quando o empregado, classicamente,
Mesmo Castro Alves, o poeta da abolição, reproduz a relação capitalista, seu ato é re-
preocupava-se com a implantação da ordem liberal preensível por ousar parecer-se com o patrão.
Maurício Torres 123 124 Cultura e desenvolvimento

Porém, o ícone do esbanjamento do pobre e da por exemplo, uma longa tradição em estudos de
incapacidade de administrar seus recursos, não estética que afirma que o gosto das pessoas pobres
por coincidência, é a sucessão televisão-vídeo- é uma função da necessidade, as pessoas pobres
parabólica. São exatamente veículos que pos- não teriam uma percepção estética [...] Uma versão
sibilitam certo acesso à informação e ao com- recente e sofisticada dessa perspectiva é
partilhamento de um mesmo universo simbólico apresentada por Bourdieu, para quem as classes
que os ricos. trabalhadoras estão confinadas à ‘escolha do
Outros argumentos contribuem para atestar a necessário’”11. Poucos preconceitos são tão
incapacidade do pobre em planejar seus gastos, a perniciosos como esse. A redução das populações
natalidade, por exemplo. “Pobre não pode nem de baixa renda às necessidades básicas equivale a
consigo e ainda faz filho como coelho” é outro negar-lhes uma peculiaridade humana.
clichê repetido ao ponto da demência. A conclusão A coletânea de estigmas pariu ainda outra
é clara e propícia a legitimar atos como os golpes pérola: “Pobre não gosta de ler”. Se o exercício de
autoritários: deduz-se que o povo não tem imaginar precede o agir, nada mais seguro do que
racionalidade, conhecimento e competência um discurso que corte o mal na fonte e evite que
alguma para participação política. a população se imagine rompendo o cerco. Além
Da mesma forma que o consumo, qualquer do que ler seria muito atrevimento, só menor do
menção de inclusão política do pobre é aviltante que escrever.
por também representar uma equalização de
condições. Participação por voto, movimentos “As coisas pelas idéias que nos sugerem.”
sociais, direito à comunicação são encarados pelas Machado de Assis – Várias histórias
classes média e rica como uma decadência social, A editora Casa Amarela, como todas as outras,
mesmo que seus padrões de vida continuem recebe uma grande quantidade de textos inéditos.
absolutamente iguais. Porém, chama a atenção que muitos desses
O discurso que se articula pró-diferenciação originais provenham das periferias12 de todo o país.
tem um sotaque bastante colonial. Assim como Certamente, isso se deve ao fato de o carro chefe da
aproximavam-se índios e negros de animais, hoje editora, a revista Caros Amigos, falar muito a esse
difunde-se o estereótipo de que o pobre, por ter a público. Edições especiais foram inteiramente
sobrevivência como preocupação imediata, limita- dedicadas ao Hip Hop e à Literatura Marginal, por
se às necessidades primais: ao pobre é importante exemplo. Foi-se além da abordagem de temas
ter uma casa, mas absolutamente irrelevante que próprios às periferias, deu-se espaço para que seus
seja bela. Mais um estigma a tornar ainda mais moradores fossem sujeitos do próprio discurso e,
incompreensível e insultuosa qualquer reivin- da sua forma e da peculiaridade do seu ângulo de
dicação. Esses pensares são uma forma antiga e visão, mostrassem seu mundo e sua singularidade.
eficaz de sedimentação de distinção social. “Há, Naturalmente, encontrou-se aí uma alternativa
Maurício Torres 125 126 Cultura e desenvolvimento

para aqueles que, quase sem exceções, não tinham político. Não haveria como isso escapar à
espaço algum para publicarem-se ou, em ra- iniciativa de diferenciação pela linguagem. Com o
ríssimos casos, produziam de modo independente russo Mikhail Bakhtin entendemos a língua como
suas próprias obras. uma expressão e registro do mundo social.
Sempre o meio editorial viu com muito maus Aprendemos como a língua sempre se recria e
olhos esses textos, muitas vezes motivo de como, nesta transformação perene, operam-se
chacotas, pelo crivo da correção normativa. A processos de dominação e de resistência. Leandro
própria carta de apresentação denuncia a origem Konder dá exemplos ao comentar como na Roma
do autor num autêntico uso da língua como antiga o vocábulo vilas, que designava as casas fora
classificador social. Antes mesmo de qualquer dos perímetros urbanos, gerou os pejorativos vilão
avaliação, o material é descartado. e vilania; ou ainda em relação ao verbo pedir, em
A discriminação e o preconceito partindo da latim rogare: “Os pobres eram tolerados, desde
apreciação lingüística não é nada inédito. Por volta que se expressassem com humildade. Se, porém,
de 1570, Pero de Magalhães Gandavo havia ousavam reivindicar algo (em latim reivindicar era
diagnosticado a causa da incivilidade dos índios: o arrogare), passavam a ser vistos como arrogantes.”14
problema era fonético. “A lingua deste gentio toda Se a língua registrou os critérios de quem
pela Costa he huma: carece de tres letras – scilicet, mandava, também marcou a resistência a eles:
não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de corte, o espaço do rei, gerou cortesia, mas também,
espanto, porque assi não têm Fé, nem Lei, nem cortesã; e “o termo ladrão, por exemplo, deriva de
Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e lateranus, que era em latim a designação dos
desordenadamente.”13 soldados que caminhavam ao lado do magistrado,
No extremo oposto da segregação lingüística, zelando pela preservação da ordem e aproveitando
postam-se correntes que denunciam tentativas de para roubar os circunstantes.”15
impor à população padrões normativos e códigos É bastante coerente, nos condicionantes
lingüísticos típicos da classe alta. Esses mo- históricos brasileiros, o temor pela manifestação
vimentos pecam ao louvar a “fala autêntica e literária da periferia. Essa “apropriação” da língua
espontânea do povo” quando, muitas vezes, dita – e principalmente da sua escrita – faz da
fala é resultado de uma privação, de um sistema literatura um campo de identificação comunal
social injusto. Sua apologia acaba por perpetuar a que possibilita e promove uma coesão vital para
condição de marginalidade. exigir direitos e enfrentar os vários tipos de discri-
O atrativo dos textos da periferia deve-se ao minação. O ato segregador de repúdio à literatura
que mostram de um ato consciente de marginal enquadra-se na dinâmica da vigilância e
singularização, de afirmação cultural. De um disciplina, da manutenção do cartel da
reclame vigoroso de valores que particularizem comunicação e da privação dos atos populares que
uma identidade e reivindiquem um espaço se põem além do seu controle instituído. À
Maurício Torres 127 128 Cultura e desenvolvimento

medida que essa população assume o papel de também há quem esvazie seu valor e a enalteça,
criador, o afronte começa, não ao questionar a só, pela condição marginal de seu autor. Essa
violência da divisão social, mas simplesmente em armadilha é particularmente perigosa na seleção
assinalar a sua existência. A contra-reação da do material a ser editado. Não publicar por ser
ideologia dominante é eficaz. Manifestações marginal é postura tão discriminatória quanto
populares que poderiam representar resistência, publicar só por ser marginal, houve apenas a
desarranjar estruturas e cooperar no desman- inversão do paradigma. Seria cair no nocivo
telamento dos estereótipos convertem-se em paternalismo de ignorar sua qualidade e
artífices à reprodução de estigmas e de dominação. subsidiá-la em função da identidade do autor e
A incorporação pelo mercado é caminho rápido e do valor da causa. Esse seria um caminho certo
certo para isso. O produto da “indústria cultural” para deter a maturidade do movimento. Walter
não se presta à reflexão, ao contrário, inclina-se à Benjamin formulou bem a idéia de que a arte,
omissão dos conflitos, contradições e diferenças para ser combativa, deve, antes, ser arte, caso
sociais. Os exemplos disso são fartos. O marginal contrário, é inócua.
é muito bem aceito, desde que se limite ao pagode A conversa com um autor, comprovadamente
pasteurizado, ao futebol, ou ao exotismo “marginal”, elucidou bem esse dilema.
ornamental. Raimundo Arruda Sobrinho, o “Condicio-
nado”, é um curioso escritor. Há muitos anos,
“Em cada signo dorme esse monstro: um como que fundido à paisagem, mora no canteiro
estereótipo.” central da paulistana e elegante Avenida Pedroso
Roland Barthes – Aula de Moraes, na altura da Praça Ernani Braga. Diz
O caráter de literatura “recente” arma nunca ter vivido sem trabalhar e só aceita
sinuosas ciladas. Um grande perigo é o da receber algo se for em troca de seus escritos,
“exotização”. Reduz-se ao pitoresco decorativo pequenos ensaios em livretos que costura a mão
não só a competência da obra em retratar a ou em folhas avulsas. Muito visitado pela
realidade da periferia, mas, também, o valor aristocrática vizinhança do Alto de Pinheiros,
literário expresso no modo como esses incomoda-se com algumas coisas. “A coisa mais
elementos sociais incorporam-se como dados triste é ver a ignorância das pessoas que vêm
estruturais nos textos, delineando um conteúdo falar comigo e não prestam a atenção, não
que só poderia expressar-se nessa determinada entendem o que digo. São vazias, não sei o que
forma. A realidade e o sofrimento do homem da querem comigo, não sabem ouvir”. E conta
periferia são equiparados a atrações circenses. também, já sem espanto, das muitas agressões
Se, por um lado, a Literatura Marginal é físicas que sofreu nesses 26 anos morando nas
depreciada só pela condição marginal de seu ruas. A percepção de Raimundo sobre o olhar
autor, ignorando-se sua qualidade, por outro, que o classifica é aguda e penetrante. Sabe ser
Maurício Torres 129 130 Cultura e desenvolvimento

agredido por ser, nas suas palavras, Notas


“psiquiatricamente escravizado” e “vítima de um [1] FRANÇA, William. “Índio é queimado por
crime político”, assim como sabe que o assédio ‘brincadeira’ de estudantes”. Folha de S.Paulo. São Paulo,
22 abr. 1997. Caderno Cotidiano, p. 3-4.
que recebe também se deve a sua condição
[2] Segundo o site da Polícia Militar do Estado de São Paulo:
marginal: o excêntrico mendigo que escreve. “1ª estrela – 15 de dezembro de 1831, criação da Milícia
Fere-se com os jovens que o agridem à noite. Bandeirante; 2ª estrela – 1838, Guerra dos Farrapos; 3ª estrela
Agride-se com as pessoas que “compram” seus – 1839, Campos das Palmas; 4ª estrela – 1842, Revolução
escritos mas não lêem: “Faça da arte literária um Liberal de Sorocaba; 5ª estrela – 1865 a 1870, Guerra do
Paraguai; 6ª estrela – 1893, Revolta da Armada (Revolução
instrumento de incompreensão”. Federalista); 7ª estrela – 1896, Questão dos Protocolos; 8ª
A própria designação “Literatura Marginal” estrela – 1897, Campanha de Canudos; 9ª estrela – 1910,
tem efeito ambíguo. Eu a uso, vejo importância, Revolta do Marinheiro João Cândido; 10ª estrela – 1917,
por força do contexto histórico, do ressaltar-se a Greve Operária; 11ª estrela – 1922, Os 18 do Forte de
periferia como autora, como criadora, algo Copacabana e Sedição do Mato Grosso; 12ª estrela – 1924,
Revolução de São Paulo e Campanhas do Sul; 13ª estrela –
sempre negado a ela. Vejo valor na expressão pelo 1926, Campanhas do Nordeste e Goiás; 14ª estrela – 1930,
que traduz de consciência do local ocupado pela Revolução Outubrista-Getúlio Vargas; 15ª estrela – 1932,
população marginal e pelo seu efeito de afirmação Revolução Constitucionalista; 16ª estrela – 1935/1937,
de identidade comunal. Porém, não deixo de ver Movimentos Extremistas; 17ª estrela – 1942/1945, 2ª
nessa adjetivação a proximidade do risco de Guerra Mundial; 18ª estrela – 1964, Revolução de Março.”
[3] Caldeira, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros. 1ª ed.,
escorregar para a segregação dissimulada. Se o São Paulo, Ed. 34/Edusp, 2000.
que o morador da zona nobre escreve é [4] Cf. FIX, Mariana. Parceiros da exclusão. 1ª ed., São
Literatura, o texto de Ferréz não pode ser Paulo, Boitempo, 2001.
considerado “outra” literatura (como muito [5] KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1979. p. 23.
freqüentemente tem sido entendido) só pela
[6] COUTINHO, Carlos Nelson. “Os intelectuais e a
condição social do autor. Outro Movimento organização cultural”. In: Cultura e sociedade no Brasil:
Literário, sim. E marcado não só pelo perfil do ensaios sobre idéias e formas. 2ª ed., Rio de Janeiro,
escritor, mas por uma preocupação temática e DP&A, 2000. p. 52.
uma linguagem e estruturação próprias para [7] KONDER, Leandro. “A unidade da direita”. Jornal da
República, São Paulo, 20 set. 1979. p. 4. Apud Coutinho,
contar seu mundo e, assim, gerador de um novo
op. cit., p. 56.
cânone para toda a Literatura. Isto sim, [8] ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. 3.
verdadeira inclusão. reimpres., São Paulo, Cia. das Letras, 1998. p. 502.
[9] Ibid., p. 506.
[10] Como, ironicamente, o designa Carlos N. Coutinho
(op. cit., p. 24).
[11] Caldeira, op. cit., p. 69. A obra de Pierre Bourdieu
referida é Distinction: a social critique of the judgment of
taste. Cambridge, Harvard University Press, 1984.
Maurício Torres 131

[12] Da mesma forma que usamos o termo “marginal”,


aplicamos a expressão “periferias”, não como designação
territorial, mas como indicação de segmentos sociais.
Portanto, os moradores de rua do Centro de São Paulo,
assassinados a pauladas na madrugada de 19 de agosto de
2004, são entendidos, aqui, como população de periferia.
[13] Apud. RONCARI, Luiz. Literatura brasileira. 2ª ed.,
São Paulo, Edusp/FDE, 1995. p. 51.
[14] KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São
Paulo, Cia. das Letras, 2002. p 152.
[15] Id.
Estilhaços de ficção,
literatura viva
Paulo Roberto Pires
Paulo Roberto Pires 137 138 Cultura e desenvolvimento

“Literatura partida”, um dos temas deste resistência política e cultural. Não tem a
seminário, é imagem boa e, ao mesmo tempo, grandiloqüência de uma retomada, como se quer
insuficiente para dar conta da produção ficcional atribuir ao cinema nacional, e tampouco se faz
brasileira contemporânea. É certo que ao se falar com a criatividade organizada de movimentos e
em literatura, hoje, fala-se mais em fissura do que escolas. Novos autores despontam aqui e ali,
em unidade, refere-se antes à fratura do que revistas e blogs somem e aparecem ao sabor dos
ramificação. Mas a expressão, que alude de forma downloads e uploads, críticos reclamam “qua-
inequívoca ao livro de Zuenir Ventura, Cidade lidade”, escritores ameaçam ir “às vias de fato” na
partida, também sugere divisões entre centro e defesa de posições de um jogo literário que
periferia, produção dominante e alternativa, visão conhece até lances sensacionalistas na disputa por
de mundo bem assentada e deriva marginal. E aí é evidências passageiras e glórias banais.
preciso radicalizar para tentar ver os desenhos Tudo isso é sintoma, se acreditarmos no
possíveis de uma “literatura estilhaçada”. conceito de um crítico como Brito Broca, de uma
Fragmentação foi, por muito tempo, palavra- pujante vida literária1. Tudo isso é indício de que
mágica que, nas águas ralas do que se chamou escritores, editores, críticos e leitores deixaram o
“pós-modernismo”, nomeava tudo o que não se alheamento dos anos 80 e de parte dos 90 para
conseguia classificar ou, o que é pior, desistia-se de voltar, de alguma forma, a relacionar-se. Rom-
interpretar. Aqui tem outro sentido, bem preciso: peu-se, por cansaço ou atitude, uma hibernação
os estilhaços são as ocorrências do literário em iniciada nos últimos estertores da ditadura,
lugares físicos e simbólicos até então comple- quando começa a aguar a idéia de uma “literatura
tamente excluídos da vida literária, dos MCs e como missão”, e que se prolongou pelo inverno
rappers até a anarquia virtual dos blogs. do “tudo está dito”, o AI-5 da criatividade que se
Face às outras artes, aqui e em qualquer outro decretou a partir da “morte das grandes nar-
lugar, a literatura tem perdido relevância e rativas” apontada por Jean-François Lyotard em
conseqüência estética e cultural. A música e o O pós-moderno.
cinema, sobretudo, estão a anos-luz de distância na Ao despertar, cada um dos atores da vida
capacidade de sintonizar-se com seu tempo e, literária encontrou, como é próprio ao fim de
também, de pôr em questão seus fundamentos. hibernações, uma paisagem muito diferente. No
Um vanguardista comemoraria mais esta morte da horizonte, o mercado cultural lançava novas luzes
literatura, um beletrista iria denunciá-la com – e sombras – sobre práticas e costumes, elegendo
indignação. Noves fora, resta para a literatura uma o entretenimento como valor e o audiovisual
admirável liberdade, que é a dos despossuídos, dos como forma privilegiada de difusão. É preciso
periféricos e dos desimportantes. profissionalizar-se segundo padrões internacionais
A vitalidade que se vê hoje na literatura – e bem o entenderam os editores, que começam
brasileira não é heróica, como em tempos de a esboçar novas relações com os autores (até então
Paulo Roberto Pires 139 140 Cultura e desenvolvimento

excessivamente confinados num esquema de A disseminação da internet a partir da segunda


fidelidade e afetividade) e transformam livros em metade dos anos 90 contribuiria fundamentalmente
produtos bem acabados e competitivos que para transformar de forma radical esta paisagem
passam a fazer parte, de forma mais agressiva, na desolada. A literatura – e o literário – não passariam
lógica dos blockbusters da cultura. incólumes pela aceleração que a web impôs à
Se a profissionalização soou como um alerta para produção e difusão de informações. Com a
escritores que, atônitos, viam alguns de seus pares simplificação crescente das formas de acesso, a
figurar em manchetes pelos polpudos adiantamentos grande rede começou a ser povoada por um número
recebidos, para a grande maioria funcionou como maior de textos que, entre muito lixo, pornografia,
um estranho canto da sereia. O mercado acenava notícias, pesquisas e tecnologia, diziam-se...
com modelos narrativos de sucesso garantido (o “literários”. É impreciso e redutor afirmar que uma
policial e o romance histórico, principalmente pela “demanda reprimida” acabou escoando pela
facilidade com que poderiam ser adaptados para o internet, mas é fato que ela se mostrou o meio ideal
cinema e a TV) e mostrava-se mais refratário do que de expressão para escritores jovens e nem tão jovens
se poderia supor ao surgimento de novos nomes. O que se sentiam excluídos da vida literária ou, o que
fenômeno Paulo Coelho era exemplar, pela consa- é melhor, não estavam nem aí para estes parâmetros.
gração de um modelo narrativo e o monopólio de Do Rio Grande do Sul vieram as primeiras
uma fatia deste mercado – menos por uma experiências mais organizadas: TXT Magazine (de
imposição calculada do que pelo imponderável que André Takeda), Proa da Palavra (editada por Daniel
sempre cerca este tipo de desempenho editorial. Galera) e o Cardoso On Line, o COL, que começou
Neste período, os leitores aumentaram em como um e-zine enviado por e-mail e em 278
número – pelo menos a se julgar pelo incremento de edições3, já transformado num site, reuniu gente que
títulos e tiragens2 – mas não em qualificação. A hoje já tem bibliografia como Daniel Galera (Dentes
inequívoca afirmação daquele que se poderia guardados), Daniel Pellizzari (Ovelhas que voam se
considerar um “leitor de massa” não foi acom- perdem no céu) e Clarah Averbuck (Máquina de
panhada pela disseminação dos “leitores profis- pinball). Teoricamente, tratava-se de “revistas
sionais”, aqui entendidos como jornalistas, editores, literárias” difundidas por um novo meio – o que,
professores e, é claro, os próprios escritores. Também como veremos, não é um detalhe tão pequeno assim.
estes, os que têm na leitura parte de suas obrigações A idéia de revista literária parte de um pressuposto
profissionais, praticamente desconhecem a produção básico: a de um criador, ou grupo de criadores, que
contemporânea, em geral confinada no circuito das dispõe de um meio próprio de expressão,
pequenas editoras, agraciadas com eventuais independente de injunções do mercado e da lógica
destaques em jornais e revistas e penalizadas pelas produtiva, para fazer circular suas criaturas. No papel,
históricas dificuldades de distribuição comercial do são uma espécie de ante-sala do livro, este o meio
mercado editorial brasileiro. canônico e consensual de entrada na “vida literária”
Paulo Roberto Pires 141 142 Cultura e desenvolvimento

tal como a conhecemos ortodoxamente. A forma Mas é graças a esta incerteza radical, a esta terra
tradicional da revista literária obedece, com pequenas de ninguém, que começam a despontar na ficção
variações, a um mesmo modelo: jovens e estreantes brasileira nomes que, de alguma forma, vencem as
são publicados lado a lado com nomes consagrados, barreiras tradicionais da difusão e, à margem do
que de certa forma os avalizam ou pelo menos mercado e suas convenções, conseguem o que é –
ajudam a chamar a atenção sobre seus nomes. ou deveria ser – o objetivo último de um escritor:
O que vem acontecendo na internet é em parte, ser lido pelo maior número de pessoas possível,
e somente em parte, análogo a este processo. Pois dialogar com seus pares e com os críticos, manter a
nos sites independentes e, principalmente, nos sinceridade criativa que cimenta com solidez uma
blogs, não há necessidade alguma de legitimação obra. Pois o garoto de qualquer idade que começa
intelectual e literária. No que já se chama de a blogar está mais solitário do que um náufrago de
blogosfera reina uma saudável anarquia que, do piada, soltando suas garrafinhas em busca de um
ponto de vista literário, marca um espaço vira-lata, pedido de socorro. Ao iniciar num blog seus
sem qualquer pedigree intelectual. Como se sabe, é exercícios de ficção e escrita, um autor não espera
possível blogar o cotidiano de uma grávida, a vida dinheiro ou consagração: manter um blog é ato
amorosa de um garoto, comentários e bastidores gratuito, felizmente “não serve para nada” a não ser
de notícias, informações de um fã-clube, etc. O o exercício da escrita.
que faz o literário na internet é, basicamente, a Esta mudança de atitude do escritor, que prefere
intenção – e aí entramos num terreno minado pelo blogar a chorar pela desatenção das editoras, acaba
espontaneísmo e pela pretensão. alterando de forma substancial o trabalho de um
A literatura produzida na internet e por ela editor, habituado a receber cotidianamente remessas
difundida é reconhecida como tal só e somente e mais remessas de originais. Classicamente e na
através de um pacto múltiplo que se firma entre maioria das vezes, trata-se de um trabalho de rápida
escritor (que de alguma forma declara estar reação às propostas que chegam pelo correio ou pela
realizando algo mais do que um simples diário), recomendação de interlocutores qualificados.
leitor (que identifica no que lê algum tipo de Algumas horas de navegação podem, no entanto,
transcendência do umbigo do blogueiro) e crítico mudar completamente esta atitude, pois o que se lê
(que se arrisca a de alguma forma emprestar em meio ao caos de informação da web são textos
legitimação ao vazio completo de referências que é mais ou menos brutos de escritores mais ou menos
a web). Esta equação, que é o frágil processo de talentosos. Não há placas indicando o caminho, é
legitimação intelectual do literário, completa-se se preciso perder-se para ter o melhor dos encontros
o pacto for ainda firmado por um editor, que ao possíveis, a primeira leitura de um texto sedutor do
transformar blog em livro dá a bênção final, qual se desconhece a autoria. Descobrir é um dos
transformando a escrita dispersa no virtual no verbos que um editor tem sempre em mente – e a
objeto canônico da literatura. web só o potencializa.
Paulo Roberto Pires 143

Todas estas transformações alteram de tal forma


a vida literária que a complexa equação escrever-
publicar-ler-criticar ganha uma surpreendente – e
interessante – carga política. O filósofo francês
Jacques Rancière viaja à Grécia4 para lembrar que a
verdadeira política só se pode fazer pelo
desentendimento, ou seja, pela atitude de alguém
não-autorizado a falar determinado assunto que
resolve tomar a palavra em um lugar proibido e no
momento em que não se espera nenhuma fala.
Instala-se aí o desentendimento radical e, com ele,
a verdadeira discussão e ruptura que têm poder
efetivamente transformador.
A literatura estilhaçada é a potencialização
máxima da política. Em torno dela, que não tem
lugar nem voz pré-definidos, estabelece-se o
máximo desentendimento. E, com ele, a vitalidade
mais radical.

Notas
[1] É impossível a meu ver abordar o texto literário sem
compreender o que se desenvolve a seu redor, resumido pelo
conceito de “vida literária”. Tão importante quanto o livro
em si é o ambiente que o influencia e que por ele é
influenciado. Críticos, editores, jornalistas, premiações,
conferências, universidades, boemia, enfim, tudo é material
de formação de uma época da literatura, como o
demonstrou magnificamente Brito Broca e sua Vida literária
no Brasil – 1900.
[2] Segundo pesquisa do Sindicato Nacional dos Editores de
Livros, o SNEL, em 1990 publicaram-se 22.749 títulos, que
resultaram na venda de 212.206.449 exemplares. Em 2000,
foram 45.111 títulos (mais do que o dobro, portanto), com
uma venda de 334.235.160.
[3] É possível ler os arquivos em
http://www.cardosonline.com.br/
[4] RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento. Rio de Janeiro:
Editora 34, 1996.
A literatura brasileira na era da
multiplicidade
Beatriz Resende
Beatriz Resende 149 150 Cultura e desenvolvimento

Ao iniciarmos qualquer observação sobre a literários com valores bem maiores. Os jovens
prosa de ficção brasileira contemporânea, escritores não esperam mais a consagração pela
especialmente a praticada da metade dos anos 90 “academia” ou pelo mercado, vão publicando
até agora, percebemos, de saída, que precisamos como for possível, sobretudo a partir das pos-
deslocar a atenção de modelos, conceitos e espaços sibilidades oferecidas pela internet. E mais,
que nos eram familiares, há pouco tempo atrás. formam listas de discussão, comentam uns aos
Vamos ter que nos mover de jargões tradicionais outros, encontram novas formas de organização,
no trato do literário e, saudavelmente, nos improvisam-se em críticos. A maior novidade,
imiscuirmos a termos que vão da antropologia ao porém, seguramente está na constatação de que
vocabulário do misterioso universo da infor- novas vozes surgem a partir de espaços até
mática, tudo isso atravessado pelas necessárias recentemente afastados do universo literário.
reflexões políticas. Gramsci vai parar ao lado do Usando seu próprio discurso, vem hoje, da peri-
Bill Gates, ao som de muito funk e rap, feria das grandes cidades, forte expressão artística
atravessando nossa familiar bossa nova, que o que, tendo iniciado seu percurso pela música, pelo
mercado se encarregou em transformar em música teatro e pela dança, chega agora à literatura.
lounge, ou seja, de elevador. A segunda constatação, ainda que sob o risco de
Diante da produção literária recente, vale a representar algum namoro extemporâneo com o
pena tentarmos formular algumas constatações cânone, diz respeito à qualidade dos textos e ao
iniciais para mapear, minimamente, o assunto. A cuidado com a preparação da obra. Esta poderia
primeira evidência que salta aos olhos, diante do ser uma contradição em relação à primeira, mas
objeto escolhido, é a fertilidade dessa forma de não é. Sobrevivendo às facilidades do computador,
expressão entre nós, hoje. Apesar das queixas desprezando a obviedade dos programas de criação
repetidas de que há poucos leitores, o livro vende de texto, a prosa que se apresenta vive momento de
pouco etc. etc., é fácil constatar que se publica grande qualidade. Em praticamente todos os textos
muito, novos escritores surgem todos os dias, fala- de autores que estão surgindo, revela-se, ao lado da
se de literatura, consome-se literatura. Nas grandes experimentação inovadora, a escrita cuidadosa, o
cidades, novas livrarias partilham o mesmo espaço conhecimento das muitas possibilidades de nossa
com outras formas de lazer, tornando o convívio sintaxe e uma erudição inesperada, mesmo nos
com o livro mais sedutor. A repetição da Festa autores muito jovens do pós-2000. Imaginação,
Literária Internacional de Paraty, em 2004, originalidade na escritura e surpreendente reper-
conseguiu apresentar escritores brasileiros ao lado tório de referências da tradição literária (sobretudo
dos nomes mais importantes do cenário inter- a moderna) mostram que, como já disse uma vez,
nacional em evento que se tornou, em aparente parece que, com as costas doendo menos e a
contradição, ao mesmo tempo cult e popular. correção imediata, nossos escritores estão
Surgiram, nos últimos anos, novos prêmios escrevendo tão rápido quanto bem.
Beatriz Resende 151 152 Cultura e desenvolvimento

A terceira constatação, e talvez a mais globalização da economia e da informação que


importante para esta reflexão, é conseqüência da caracterizou os tempos pós-modernos.
fertilidade, da juventude e das novas pos- No espaço social, rapidamente a intolerância
sibilidades editoriais: a multiplicidade. Multi- ultrapassou as esperanças de convivência pacífica e
plicidade é a heterogeneidade em convívio, não proveitosa entre expressões culturais diferentes,
excludente. Esta multiplicidade se revela na definitivamente agravada pelos conflitos étnicos
linguagem, nos formatos, na relação buscada com que tomaram proporções ameaçadoramente
o público leitor e – eis aí algo de realmente novo mundiais depois do 11 de setembro de 2001. Por
– no suporte, que, na era da comunicação outro lado, a força da globalização dos bens
informatizada, não se limita mais ao papel ou à simbólicos e da circulação da mídia vem
declamação. São múltiplos tons, múltiplos temas acarretando, como previsto desde o início, uma
e, sobretudo, múltiplas convicções sobre que é homogeneização do gosto, das expectativas, do
literatura, postura que me parece a mais consumo representada pela americanização que se
interessante e provocativa nos debates que vêm espalha por onde as redes midiáticas do Império se
sendo travados. estendem. Nesse sentido, a força da globalização
Num primeiro momento, a evidência da atingiria o imaginário e as práticas culturais, em
multiplicidade como expressão tão forte pode flagrante conflito com a diversidade e o
remeter às contingências do momento que foi pluralismo. De um lado ficaria a positividade das
chamado de pós-moderno com a substituição dos trocas culturais mais rápidas e fáceis e, de outro, a
dogmas modernistas por movimentos plurais, imposição inevitável da homogeneização. Num
posteriores à superação de classificações fundadas lado do cabo de guerra estariam os ideais de
em dicotomias. Como disse Andreas Huyssen, em afirmação de identidade cultural/nacional, de
ensaio fundador1, o pós-modernismo passava a outro a imposição uniformizadora que emanaria
operar “num campo de tensão entre tradição e das forças econômicas dominantes, especialmente
inovação, conservação e renovação, cultura de as dos EUA. Só que não vivemos mais tempos de
massa e grande arte”, o que já indicaria o convívio oposições nítidas, unívocas, nem a organização
de diferenças, também na literatura. geopolítica da cultura e da arte se dá por
No entanto, não é para a identificação de mais binarismos ou paralelismos. Pelo espaço labiríntico
um “estilo de época” que apontamos, bem ao erguido sobre solo movediço em que se dá a
contrário. Ainda que a constatação dessa fricção multiplicação e a difusão dos bens culturais, vão
proveitosa entre múltiplas possibilidades de criação surgindo elementos que, felizmente, tornam a
seja evidente, outras questões, me parece, merecem questão tão mais rica quanto complicada. Entre
atenção, sobretudo por certo deslocamento que já estas características, a mais estudada tem sido a
podemos constatar, depois de desilusões e caracterização da cultura como fenômeno de
questionamentos em relação ao movimento de hibridação (Canclini), mas outras aparecem de
Beatriz Resende 153 154 Cultura e desenvolvimento

formas mais ou menos fortes em momentos fenômeno de reversão, com a literatura do boom
diferentes. Entre centro e margens aparecem latino-americano, por exemplo, invertendo a
olhares oblíquos, transversos, deslocados que direção e conquistando o mercado norte-
terminam por enxergar melhor. americano e europeu. Apesar de a afirmação ser
É nesta obliqüidade dos discursos anti- correta, constatamos que, mesmo tendo se
hegemônicos que aparecem recursos que dão aproximado mais do pensamento latino-
formas múltiplas à criação literária contem- americano, com referências a teóricos como Néstor
porânea: a apropriação irônica, debochada mesmo García Canclini e George Yúdice, a forte crítica
em alguns casos, de ícones do consumo; a que é feita por Aijaz Ahmad ao pensador
irreverência diante do politicamente correto; a americano, desde 1986, com o ensaio “A retórica
violência explícita despida do charme da alteridade de Jameson”, parece ainda não ter
hollywoodiano; a dicção altamente pessoalizada, surtido completo efeito. Ahmad condenava
voltada para o cotidiano absolutamente privado; a naquele texto a generalização contida na afirmação
memória individual traumatizada seja por de que “a alegoria nacional é a forma principal, até
momentos anteriores da vida nacional, seja pela mesmo exclusiva, de narratividade do assim
vida particular; a arrogância de uma juventude chamado terceiro mundo”3, parece ainda não ter
excessiva; a maturidade altamente intelectualizada; surtido efeito. Da literatura latino-americana
a escrita saída da experiência acadêmica e assim Jameson continua conhecendo apenas o chamado
por diante, como continuaremos vendo. boom, e a diferença que o fenômeno guarda com a
Deste modo, a multiplicidade de nossa literatura brasileira é apenas levemente percebida
literatura aparece como fator altamente positivo, por menção a Guimarães Rosa. Nem por isso, e
original, reativo diante das forças homoge- esta é a razão pela qual nos referimos ao ensaio,
neizadoras da globalização. De algum modo, esse faltou a Jameson acuidade na análise. Esta é arguta
pluralismo – que se constitui por acúmulo de ao constatar que ao se fazer a crítica ao
manifestações diversas e não pela fragmentação de modernismo ocorreu também uma libertação em
uma unidade prévia – garantiria várias vozes relação a padrões europeus, mas, sobretudo, ao
diferenciadas ao invés de sonoridades em eco ou reconhecer na multiplicidade um lugar de
mero acúmulo reunido sem critérios. resistência e liberdade, fazendo com que na
Frederic Jameson, em ensaio sobre a América Latina essa propriedade seja celebrada
globalização como questão filosófica2, de 1998, como contrária à unidade opressiva.
identifica na literatura um espaço de resistência à Tais características, além de não serem
globalização da cultura, especialmente na América extensíveis à mídia cinematográfica ou televisiva,
Latina, fenômeno que não se estenderia ao cinema encontrariam muitas diferenças no que diz
e à televisão. Segundo Jameson, a linguagem respeito à força da manifestação popular que é
protegeria as produções literárias provocando um representada pela música no Brasil, o que viabiliza
Beatriz Resende 155 156 Cultura e desenvolvimento

um convívio, absolutamente peculiar, entre seu apartamento parisiense, comprado com o


formas de consumo e de difusão como as das suado trabalho na música popular, para
rádios e TVs comunitárias com o poderio desenvolver identidade mais recente, a de escritor.
multinacional das gravadoras. Se quisermos identificar as possibilidades
Neste momento, o que nos interessa é a plurais de nossa prosa de ficção, podemos partir do
peculiaridade do caso da literatura, e vemos que a importante elenco de escritores que tornou a
“imunidade” da literatura, indicada por Jameson, década de 90, especialmente a partir de sua
frente aos preceitos de gosto e às manifestações da segunda metade, um momento bastante rico,
economia de mercado e da sociologia do consumo como Milton Hatoum, que já surge maduro,
certamente existe, mas não é tão nítida como pode Rubens Figueiredo, Marçal Aquino, Bernardo
parecer vista de fora. As relações perigosas da Carvalho e, num caso peculiar, Paulo Lins. Nesta
literatura com o cinema são hoje um diferencial palavra de retórica a que o termo geração se viu
complexo. O fenômeno de vendas nacional e reduzido incluem-se, também, sobreviventes,
internacionalmente chamado Paulo Coelho aqueles que colocaram a literatura em sintonia
colocou uma marca de confusão nas avaliações com os tempos pós-modernos que se anunciavam,
depois de o autor ser canonizado pela Academia e apresentaram uma outra dicção com a
Brasileira de Letras. Outra variação é a via de mão emergência de novas subjetividades, da tensão
dupla trilhada no desejo de alcançar sucesso no entre local e global, da desterritorialização, da
mercado ou prestígio entre a academia. Se o ruptura com os cânones ordenadores vigentes, de
fascínio exercido sobre a literatura pelo mercado absorção de eventuais recursos midiáticos na
televisivo e cinematográfico, através da possi- construção do texto e, sobretudo, com a ausência
bilidade de absorver adaptações, já é bem de uma preocupação em garantir as barreiras que
conhecido, resta ainda por ser compreendida a iam sendo rompidas entre alta cultura e cultura de
importância que tem para autores que são também massa. Podemos citar Rubem Fonseca, mas falo
ícones pop (ainda que se trate de um pop erudito), principalmente daqueles que, já reconhecidos por
como Caetano Veloso e Chico Buarque de uma obra anterior, continuaram a escrever com
Hollanda, o reconhecimento da crítica espe- crescente interesse e maior impacto, como Silviano
cializada em literatura seja em jornais ou na Santiago e Sérgio Sant’Anna.
universidade. Caetano prefere ter suas letras de Em todos estes casos estou me referindo a uma
música reunidas e apresentadas como poesia por ficção de importância, que merece atenção, a uma
um professor a vê-las publicadas em um songbook literatura robusta, a propostas de criação
e Chico Buarque parece querer que a crítica se inovadoras, convencida que estou de que a
esqueça do estupendo compositor que por entre literatura brasileira vive um de seus grandes
nós circulou desde 68 para identificá-lo como momentos. Para falar de forma mais enfática da
romancista que de fato é, capaz de trancar-se em multiplicidade na literatura brasileira, passaríamos
Beatriz Resende 157 158 Cultura e desenvolvimento

pelo grupo de finais dos anos 90 – como Marcelo cultura. A peculiaridade da transição do regime
Mirisola, Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, André autoritário para o democrático, entre nós,
Sant’Anna, Marcelino Freire e outros – para chegar terminou por abreviar o luto vivido em relação aos
a jovens escritores que vêm surgindo na cena anos de chumbo, de forma a que, hoje, os novos
literária brasileira a partir desta virada de século, tempos possam ser vividos, não sem a memória,
observando a profunda diferença entre suas formas mas sem o peso que ainda aparece em países onde
de expressão, como Santiago Nazarian, João Paulo os crimes da repressão tiveram as dimensões do
Cuenca, Paloma Vidal, Joca Terron, Clara ocorrido na Argentina, por exemplo. Os novos
Averbuck. Bastariam estes exemplos e já estaríamos criadores surgem libertos de qualquer necessidade
diante de escritas bastante diversas, indo da de denúncias (anos 70/80) ou exaltação do
irreverência iconoclasta da maior parte aos nacional reapropriado (anos 80). No plano mais
representantes de um outro grupo, preocupado detalhado da organização econômica e política do
com a sofisticação da escrita e estabelecendo país, cabe chamar atenção para a descentralização
interessante diálogo entre literatura e outras artes, da produção literária, do início do modernismo até
como a música e as artes plásticas, com é caso de bem recentemente, concentrada predominan-
Adriana Lisboa, Michel Laub e Rodrigo Naves. temente no Rio e em São Paulo, com eventuais
Indico aqui um elenco resumido, que facilmente ocorrências no Rio Grande do Sul e Pernambuco.
poderia ser acrescido de outros autores, capazes de Note-se que não me refiro aqui ao estado natal dos
praticar uma escrita literária que, mesmo escritores, mas ao local de produção.
fabricando um presente cheio de urgências, em Hoje a literatura vem ainda de São Paulo e do
nada foi atingida pela pressa característica dos dias Rio de Janeiro, mas também de Curitiba,
atuais ou pelas facilidades dos computadores (Cristóvão Tessa, José Castello), Florianópolis
(como já indicou Nelson de Oliveira ao publicar a (Marcelo Mirisola) ou Centro Oeste. No Pará,
coletânea Geração 90, manuscritos de computador). Edyr Augusto Proença escreveu Moscow, espécie de
Tanto a fertilidade como a multiplicidade têm romance/rap, diferente de tudo o que possamos
muito a ver com a realidade vivida pelo país hoje, esperar vir do Norte. A prosa de Raimundo
sob diversos aspectos. Em plano maior, a Carrero não tem nada a ver com a herança
solidificação do processo democrático garante mais regionalista, mesmo sendo o autor tão nordestino.
do que o inspirador clima de liberdade, a As novas relações do livro com o mercado
democracia plena assegura a representação popular editorial aparecem através da maior rapidez com
nas instâncias de poder, a organização e a expressão que o autor é editado, seja pela utilização da
dos movimentos populares e, sobretudo, provoca informática como suporte, seja pela multiplicação
uma inusitada preocupação pela necessidade de de pequenas editoras por todo o país. Só para citar
inclusão, por diversas formas, de todas as camadas algumas, podemos lembrar Livros do Mal, de
da população no processo de criação e difusão da Porto Alegre; Ciência do Acidente, com sua
Beatriz Resende 159 160 Cultura e desenvolvimento

coleção “Tumba do Cânone”; Lamparina; Travessa apenas um meio de publicação para que
dos Editores, de Curitiba, responsável pela luxuosa os escritores não precisem de inter-
edição ilustrada da tragicomédia-irônico-pornô de mediários entre ele e os leitores. Não
existe literatura de blog, só blog como
Décio Pignatari Céu de lona; e, principalmente, a 7 meio de publicação para escritores e seus
Letras, que, com a coleção “Rocinante”, vem textos. Que podem perfeitamente ser
garantindo uma edição cuidada e bem acabada, publicados também em livro.4
inserida em catálogo de peso, ao primeiro livro de
vários escritores. Equacionado o tema da multiplicidade, cabe
Dentre as possibilidades de uso da internet apurar o olhar sobre estas obras publicadas nas úl-
como meio de tornar um texto literário público, o timas décadas, o que fará com que identifiquemos
uso dos blogs é o que mais debate tem provocado. que, dentro da diversidade, há, certamente, ques-
Clara Averbuck talvez seja a escritora que, até o tões predominantes e preocupações em comum
momento, encontrou maior repercussão para seus que se manifestam com mais freqüência.
livros, publicados de forma simultânea à escrita em A primeira dominante que quero apontar é a
seu blog Brasileira Preta, com o primeiro livro, presentificação, a manifestação explícita, sob formas
Máquina de pinball, levado para teatro com diversas de um presente dominante no momento
direção de Antônio Abujamra e comprado por de descrença nas utopias que remetiam ao futuro,
Murillo Salles para ser transformado em filme. É tão ao gosto modernista, e de um certo sentido
curioso ver como a jovem escritora percebe o blog intangível de distância em relação ao passado. Em
não como uma forma de escrita, mas de edição. artigo recente, onde analisa as formações culturais
Sobre o segundo livro, Das coisas esquecidas atrás da manifestas em Buenos Aires no ano de 2000,
estante, escreve no próprio blog, insistindo, ela Josefina Ludmer destaca, em relação à Argentina,
também, na busca de eliminar “intermediários”. que “o caminho até a literatura era o desejo de
poder ver, em ficção, “as temporalidades do
Existem livros de contos. De poesia. De presente vividas por algumas subjetividades”, em
crônicas. Por que não uma coletânea de manifestações onde “as formações culturais do
textos publicados em um blog? Afinal, presente se superpõem, coexistem e se interpretam
como eu estou cansada de dizer mas mutuamente”5. Embora sob alguns aspectos a
continuo repetindo porque nunca param
de perguntar, blog é apenas um meio de literatura brasileira contemporânea se afaste da
publicação para o que quer que o autor, produção argentina (ainda que em outros,
dono e soberano do blog, queira escrever. evidentemente, também se aproxime) entre nós o
Receita de bolo, resenha de disco, sentido de presente aparece também com força e
resmungos mal-amados, histórias,
realidades, mentiras. No caso do meu de múltiplas formas. Há, na maioria dos textos, a
livro, só não tem receita de bolo. Um manifestação de uma urgência, de uma presen-
livro, uma coletânea de um blog, que é tificação radical, preocupação obsessiva com o
Beatriz Resende 161 162 Cultura e desenvolvimento

presente que contrasta com um momento anterior, presente que surge impositivo, carregado ao mesmo
de valorização da história e do passado, quer pela tempo de seduções e ameaças, todas imediatas.
força com que vigeu o romance histórico, quer por A presentificação me parece também se revelar
manifestações de ufanismo em relação a momentos por aspectos formais, o que tem tudo a ver com a
de construção da identidade nacional. Não é só na importância que vem adquirindo o conto curto ou
literatura que isto acontece, mas também nas artes curtíssimo em novos escritores, como Fernando
cênicas – com as performances –, nas artes Bonassi e Rodrigo Naves, ou nas pequenas edições
plásticas, que eliminaram o suporte preferindo para serem lidas de um só fôlego. Exemplo da força
arriscar na efemeridade das instalações, e na e do gosto pelos textos curtos pode ser encontrado
videoarte. no interessante volume Os cem menores contos
Na literatura, o sentido de urgência, de brasileiros do século, organizado por Marcelino
presentificação, se evidencia por atitudes, como a Freire, onde Ítalo Moriconi, em microprefácio,
decisão de intervenção imediata de novos atores apresenta o gênero: “É no lance do estalo que a
presentes no universo da produção literária, cena toda se cria”6. Bastam, porém, dois exemplos
escritores moradores da periferia ou os segregados para mostrar que na idêntica forma presente,
da sociedade, como os presos, que eliminaram imediata, urgente do conto muito breve a
mediadores na construção de narrativas, com multiplicidade continua.
novas subjetividades fazendo-se definitivamente Assim aparece no volume de Ronaldo Cagiano,
donas de suas próprias vozes. Na recusa dos sem título:
mediadores tradicionais, essas novas vozes
utilizam não apenas recursos de estilo, como o Quando dei por mim
dos narradores pessoalizados, mas buscam Já havia este cárcere
também o imediato em ações dentro do circuito
editorial, com a substituição, em alguns casos, E, de Marçal Aquino, o ótimo “Disque-
dos editores, com a criação de novas editoras denúncia”:
onde tenham mais participação. O que interessa Cabeça?
é, sobretudo, o tempo e o espaço presente, É.
apresentados com a urgência que acompanha a De quem?
convivência com o intolerável. Não sei. O dono não tá junto.
Diante das novas configurações do espaço
geopolítico e de diferente organização do tempo, Neste efeito ou atitude que é a presentificação,
premido pela simultaneidade, as formações seria até redundante voltar a falar da partilha do
culturais contemporâneas parecem não conseguir espaço de criação entre o livro impresso e as
imaginar o futuro ou reavaliar o passado antes de possibilidades do virtual, de tão evidente que é
darem conta, minimamente, da compreensão deste este aspecto.
Beatriz Resende 163 164 Cultura e desenvolvimento

Passo agora para uma segunda constante que estabelece um efeito peculiar com o indivíduo,
venho identificando em narrativas diversas que supera-o e traça uma relação direta com o destino.
pouco parecem ter em comum: o retorno do Trágico e tragédia são termos que se incorporaram
trágico. A presença do trágico nas sociedades deste aos comentários sobre nossa vida cotidiana,
momento pós-globalização não é exclusividade do especialmente quando falamos da vida nas grandes
literário. Está presente no cotidiano, expõe-se nas cidades. Vamos então perceber que é a
mídias, incorpora-se ao vocabulário mais inevitabilidade do trágico que aparece em dois dos
corriqueiro. Nas artes, tem-se manifestado mais importantes autores da prosa contemporânea,
fortemente no teatro – entre nós, no Brasil, com Luiz Ruffato e Bernardo Carvalho. É também a
uma retomada mesmo da tragédia como forma que inexorabilidade do trágico, invadindo doloro-
freqüenta os palcos. Recentemente, vimos um samente as relações pessoais, tornando a vida
documentário como o Ônibus 174, de José somente suportável pelo consolo da arte, que dá
Padillha, assumir a forma de uma tragédia clássica, uma força inédita aos contos de dois excelentes
construída com unidade de assunto, tempo e livros de Sérgio Sant’Anna, O monstro e O vôo da
espaço. A arte híbrida e tão atual da performance madrugada. O trágico retorna à cidade na anomia
incorporou-se à própria linguagem na visualidade, angustiante, nas relações pessoais e na vida pública,
na linguagem, na relação com o público. A pelos escritos em prosa de Luiz Ruffato. E vai mais
manifestação de forte sentimento trágico que longe ainda, transformando-se no trágico radical
aparece na prosa pode se reunir ao sentido de que se tornou matéria de Bernardo Carvalho. Nos
presente de que já falei, já que nas narrativas dois, é o sentimento trágico da existência de que
fortemente marcadas por um pathos trágico a força temos dificuldade em falar e como tal sentimento
recai sobre o momento imediato, presente, em conforma as identidades que dominam a narrativa.
textos que tomam o lugar de formas narrativas que Em Luiz Ruffato – e falo aqui de seu festejado
se tornaram pouco freqüentes como as narrativas romance Eles eram muitos cavalos, publicado em
históricas, as épicas ou as que se desenvolvem em 2001 – a narrativa ocupa-se da cidade que é a
um tempo mítico/ fantástico de temporalidade grande São Paulo mas pode ser qualquer cidade –
indefinida. Cabe lembrar que, de todos os gêneros que o narrador percebe fragmentada, desconexa,
da poética clássica, o que se realiza sempre num incongruente, quase irreal, sem que falte a estes
presente é o trágico. escritos o impacto ou força dos escritores que
É evidente que são características do momento optam pelo realismo mais direto da linguagem. É a
que a cultura vive hoje, em termos de organização tragicidade da vida na metrópole hostil que se
do mundo, que fazem com que elementos como o entranha nos universos privados, circula da
sentido de urgência, com predomínio do olhar publicidade das ruas, cruzadas com rapidez, até o
sobre o presente, e a familiarização com o trágico espaço sem privacidade da vida doméstica, onde a
cotidiano atravessem múltiplas obras. O trágico violência urbana se multiplica ou redobra.
Beatriz Resende 165 166 Cultura e desenvolvimento

Seja qual for o tom adotado na construção dos irá terminar no coração da baleia, no centro
fragmentos, unido pelo fio constituído pela vida urbano da cena trágica contemporânea, a Nova
na cidade global, o trágico os atravessa. Mesmo York que fora atingida pelo atentado de 11 de
quando a prosa se organiza, próxima ao poético, o setembro de 2001. A falha trágica, porque
tom sempre é do destino trágico. Pode ser a inevitável, e o trágico radical, que cerca todo
listagem de livros numa estante, um cardápio, uma esforço para compreender e reconhecer qualquer
mensagem na internet, ou o texto de um diploma identidade (como acontece desde Édipo Rei), estão
de evangelização. E pode, também, assemelhar-se a além das evidências que o realismo poderia
um microconto, como o antológico “Noite” ou em apresentar. Não se compreende o mistério do
“Aquela mulher”, dolorosamente fragmentário e trágico radical, nem dele se escapa.
absolutamente trágico. No cenário a cidade, o Mongólia, de 2003, me parece trazer, como já
paradoxo trágico se constrói entre a busca por escrevi em outros textos, antes de mais nada, a
alguma forma de esperança e a inexorabilidade discussão sobre as possibilidades do literário, o
trágica da vida cotidiana que segue em convívio conflito de vida ou morte entre o documental e o
tão próximo com a morte. ficcional, trazendo ao debate os perigos do
Mas cabe ressaltar que é o fragmentário da excesso de realismo e os limites não entre
narrativa, acompanhado por certo humor e literatura e não literatura – não é exatamente esta
ironias sutis, que impede que a obra se a questão – mas entre imaginação e realidade.
transforme puramente no relato do mundo cão. A Tudo isso, porém, partindo da banalidade do
narrativa entrecortada evita a catarse como trágico no cotidiano da grande cidade para se
conseqüência, propondo em seu lugar a crítica, perder e se encontrar por entre caminhos tão
numa espécie de distanciamento brechtiano indecifráveis como o próprio trágico.
(lembra a cidade construída no filme Dogville) Chego assim à última das questões que quero
que comove, mas não ilude. identificar nas múltiplas possibilidades da prosa
Nos últimos romances de Bernardo Carvalho, o contemporânea, talvez o tema mais evidente na
trágico radical é o elemento que inicia, impulsiona cultura produzida no Brasil contemporâneo: o da
e conclui as narrativas. Como em toda a obra do violência nas grandes cidades.
autor, há enigmas e não há explicações senão o Se a questão da violência, com suas causas e
próprio reconhecimento da tragicidade da formas de controle, divide governos e políticos,
condição humana, ambígua, inexplicável, põe em cheque as diversas formas de administrar
incontrolável. Em Nove noites, de 2002, o narrador o estado, espalha acusações, deixa a população
deixa seu espaço e tempo para investigar quais amedrontada e perplexa, a transposição da
teriam sido as reais razões da trágica morte por violência urbana para a literatura também não
suicídio de um jovem antropólogo americano deixa de ser polêmica. Cada vez mais a crítica
entre índios brasileiros, nos anos 40. O romance literária, sobretudo acadêmica, vem se ocupando
Beatriz Resende 167 168 Cultura e desenvolvimento

do debate em torno do excesso de realismo que vai dos desenhos japoneses à antes tão
utilizado nestas narrativas, perguntando-se até sofisticada cinematografia francesa? É possível,
que ponto o ficcional não seria empobrecido, hoje, discutir a situação política do atual estado do
numa volta a recursos anteriores ao moderno. mundo sem passar pelo debate sobre a violência,
Volta-se à questão dos limites ente o literário, o sua reprodução, sua narrativa?
jornalístico, o sociológico. Ser político é ser capaz de agir como membro
Parece-me que aquelas duas questões que da pólis e é neste princípio de intervenção que
apresentei como recorrentes em textos de aparecem as diversas possibilidades de se tratar da
diferentes dicções se unem aqui. Em torno da violência, na literatura e fora dela.
questão da violência aparecem a urgência da Na relação que o relato da violência guarda
presentificação e a dominância do trágico, em com a vida política da cidade, quer me parecer
angústia recorrente, com a inserção do autor que a diferença fundamental estaria em ser a
contemporâneo na grande cidade, na metrópole violência oferecida como objeto distante, quase
imersa numa realidade temporal de trocas tão um objeto estético, que podemos observar a
globais quanto barbaramente desiguais. Na força salvo, como se os conflitos estivessem sendo
deste cotidiano urbano onde o espaço toma novas apresentados em uma arena, ou serem tão
formas no diálogo do cotidiano local de perdas e narrados como vividos, trazidos para o espaço
danos com o universo global da economia, político, locus de discussão, de debates, espaço
também a presentificação se faz um sentimento que passa a ser partilhado por todos: os que se
dominante e o aqui e agora modifica-se pelas novas sentiam a salvo na condição de meros
relações de espaços encurtados e de tragicidade do espectadores e os próprios personagens que
tempo. A cidade – real ou imaginária – torna-se, reivindicam a cidadania completa. A este espaço
então, o locus de conflitos absolutamente poderíamos chamar não mais arena, onde se
individuais, privados, mas que são também os travam combates e também onde se encena o
conflitos públicos que invadem a vida e o trágico de que nos tornamos, quotidianamente,
comportamento individuais, ameaçam o presente e espectadores, mas ágora, praça pública de
afastam o futuro, que passa a parecer impossível. assembléias do povo, de trocas religiosas e
É aí, a meu ver, justamente pelo aspecto políticas, numa pólis onde, diferentemente da
polêmico tomado pelas diversas narrativas da própria pólis grega, não houvesse cidadãos com
violência na cidade, que está uma possibilidade diferentes direitos à existência, à sobrevivência, à
inovadora no quadro da produção literária. circulação e à imaginação.
Até que ponto o tema da violência retoma uma Nesta ágora, as novas identidades se afirmam
espécie de gosto espalhado pela mídia (no caminho como sujeitos de seus destinos, de sua história e de
da homogeneização imposta pela mídia hegemô- sua vida privada, são novos atores de um mundo
nica, como assinalado por Jameson), pasteurização do trabalho que se desestrutura, arena, são
Beatriz Resende 169 170 Cultura e desenvolvimento

imaginários atormentados determinados a pólis Parece-me que ficam, a partir daí, evidentes as
com sua produção cultural, incluindo nela uma dificuldades da crítica literária como tal em
literatura de forte cunho urbano, tomando a analisar fenômenos como este. Evidencia-se a
grande cidade, em sua configuração cotidiana impossibilidade de olhar a obra sem olhar a cidade
submetida à organização da nova ordem mundial, real, os habitantes reais, preocupação que é
como cenário e tema. importante para o crítico, porém, mais do que isso,
A obra pioneira entre nós deste tipo de o que se evidencia é a importância do inusitado
narrativa/sintoma é Cidade de Deus, de Paulo Lins. olhar de dentro.
Publicada em 1997, a obra terá importância, não E é justamente aí que me parece estar a
só por suas próprias qualidades, mas antes de mais importância do romance de Paulo Lins, em
nada por um aspecto fundacional, apontando para contraste, sobretudo, com os limites do filme de
mudanças que estariam a caminho. mesmo nome realizado a partir do romance. O
O romance surgiu legitimado por um de filme opta por desterritorializar a narrativa,
nossos mais importantes scholars, Roberto revelando-se excessivamente sensível à estetização
Schwarz, que, em ensaio publicado na Folha de da violência de gosto hollywoodiano, cometendo
S.Paulo, saudou o livro como um acontecimento. o erro de “recortar” o gueto de seu entorno, a
A novidade do fenômeno, porém, se provoca um cidade, tomada hoje pelas ameaças do
grande texto ensaístico – “Cidade de Deus”, narcotráfico, parte de um país latino-americano,
depois republicado em livro –, revela, de saída, no mundo da globalização.
certa perplexidade ou impossibilidade da crítica e Talvez, por tudo isso, o romance Cidade de Deus
evidencia as dificuldades que os estudos literários tenha sido o último momento em que esta nova
teriam ao tratar de obras cuja origem está na expressão literária viu seu prestígio lançado e
proximidade entre autor e narrador. Como disse referendado pela chamada academia. Daí em
Ferréz em recente entrevista a um programa de diante os outros “fenômenos” não precisaram mais
televisão, “morar dentro do tema é complicado”. disso para ocupar o espaço que ora ocupam.
Schwarz, para analisar o “catatau” como diz, Como o romance Cidade de Deus volta-se para
utiliza-se de recursos de análise que vão do close o local em toda a sua violência, talvez nele
reading – “No parágrafo de abertura, que é sutil, estejam as cenas mais violentas da literatura
encontramos as pautas clássicas da vida popular brasileira. É a subcultura do crime, do arbítrio,
brasileira” – aos instrumentos críticos mais segu- do mundo organizado não mais pelo trabalho,
ros na teoria literária: ponto de vista narrativo, mas sobretudo pelo universo infrator do
foco da ação, estatura das personagens (“A esta- narcotráfico. Surge uma circularidade trágica
tura das personagens, conforme o ângulo pelo nesta cidade-gueto dentro da cidade,
qual se encarem, formaliza e dá realidade literária comunidade tomada pela iminência da tragédia
à fratura social”). que cerca seu cotidiano. Paulo Lins, ao pôr em
Beatriz Resende 171 172 Cultura e desenvolvimento

cena a cultura deste espaço da Zona Sul do Rio posterior Inferno o relato de um jovem traficante
de Janeiro, assumiu uma nova dicção, a dos que, das favelas do Rio, a autora termina se perdendo,
vindos do espaço da exclusão, usam sua própria ao buscar dar conta realisticamente de um
voz ao invés da dos tradicionais mediadores, os cotidiano por ela pouco conhecido, repetindo a
intelectuais, que, até recentemente, por eles mesma narrativa do narcotráfico carioca
falavam, e marca o início de uma nova leva de diariamente contada pela mídia.
representações da cidade na literatura, fora dela O mesmo acontece a toda uma leva de
(no cinema, na televisão, no teatro), ou no tênue narrativas sobre matadores e frios criminosos em
limite dos textos depoimentos. A Cidade de Deus romances, filmes, minisséries, até mesmo no
se sucederão outras obras que pretendem trazer fantasioso espaço das telenovelas. Multiplicam-se
para o erudito campo do literário o universo de matadores de aluguel e, de tal forma a indiferença
parcelas da cidade que já se manifestavam de destes assassinos, a total falta de ética, de afeto ou
maneira expressiva em outras formas de de emoção contamina tudo, que pouco importa
expressão artística, como a música (princi- quem morre, como morre, quando morre. Pouco
palmente pelo funk, hip-hop e rap) e a dança, importa se os chefões vão se livrar ou não, se havia
com companhias como o Corpo de Dança da amor ou não entre o casal perseguido. E, se nada
Maré e a importante Companhia Étnica de importa, a leitura também acaba por não importar.
Dança, do Morro do Andaraí, e ainda no teatro A exibição realista de cenas violentas não é mais
com o já sólido grupo Nós do Morro, que existe privilégio de nenhum veículo, e não é à toa que
na Favela do Vidigal há 18 anos. dois campeões do uso da violência, mas que são
Daí em diante surge a polêmica: excesso de também competentes cineastas, Quentin
realidade? Apropriação da realidade que extrapola Tarantino e Takeshi Kitano, estão se repensando:
o âmbito do literário? É inegável que o filão se Tarantino com o uso irônico, cômico às vezes,
mostra perigosamente proveitoso, já que falar da absolutamente irreal da tiras de quadrinhos, e
violência urbana tornou-se, mercadologicamente, Kitano com a exacerbação de um trágico quase
uma boa opção. Além disso, nos vastíssimos teatral, como no recente e deslumbrante Dolls.
espaços das periferias, seja do Rio de Janeiro, São Quando esse realismo ocupa de forma tão
Paulo ou Recife, não faltam conflitos universais ou radical a literatura, excesso de realidade pode se
tragédias míticas que possam render boas histórias. tornar banal, perder o impacto, começar a
Foi a este perigo que se expuseram autores que produzir indiferença ao invés de impacto. O foco
vinham construindo uma literatura pessoal excessivamente fechado do mundo do crime
merecedora de certa atenção, como Patrícia Melo, termina por recortá-lo do espaço social e político,
que em 1997 publicara O matador, narrativa da vida pública. Torna-se, então, ação passada em
interessante da violência que um jovem da uma espécie de espaço neutro que não tem mais
periferia paulista expressa. Ao criar, porém, no nada a ver com o leitor. Corre-se o risco de
Beatriz Resende 173 174 Cultura e desenvolvimento

resultarem disso tudo, o mais das vezes, obras diz, fazer ficção. Liberto dos mediadores culturais
literárias que temo considerar descartáveis. Surge que tradicionalmente escreveram a História e as
a ameaça de que a literatura que pretende falar de histórias dos excluídos, levando esta prática ao
arenas da cidade apresente aos seus leitores ponto de desejar editar sua obra e não hesitar em
espaços de conflito que encenam a violência vender ele mesmo seus livros, como fez no
como fonte de divertissement. A arena da cidade encontro literário de Paraty, Ferréz destrona seus
opõe-se, então, à ágora. parceiros de artes literárias da hegemonia criativa,
No entanto, esta possibilidade de exaustão de desloca-se da periferia e instaura-se, ele mesmo, no
uma literatura excessivamente realista da violência centro da arena da cidade, mas para desfazê-la
coloca-se definitivamente à prova com a produção como cenário a ser observado, mesmo que com a
de Ferréz – Reginaldo Ferreira da Silva – morador melhor das intenções. Mais do que isso, Ferréz
da periferia de São Paulo. Falo de seu primeiro inverte o processo: ele, como outros escritores,
romance, Capão pecado, editado pela Laboratório como os presos, autores de obras como Memória de
Editorial (ainda que a opção seja por uma espécie um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, ou o
de texto híbrido a que não faltam colagens, como conjunto de escritos do presos do Carandiru em
o texto de Mano Brown, uma espécie de Letras da Liberdade, coloca dentro do sistema
poema/rap, e fotos do Capão Redondo e seus literário, sem intermediários, a realidade de
habitantes), ambientado no bairro muito pobre da excluídos da grande cidade. Mas não é apenas
violenta periferia onde mora, cenário de gritante colocar o foco de luz sobre a arena mostrada em
criminalidade, e também do segundo, bem mais toda sua terrível realidade que lhes interessa. O que
maduro, Manual prático do ódio. É importante procuram, ao desejar fazer literatura, é levar tal
prestarmos atenção à apresentação do livro pelo realidade para a ágora, para o espaço de discussão
autor: “Todos os personagens deste livro existem de intelectuais (que mereçam esta qualificação),
ou existiram, mas Manual prático do ódio é uma editores, políticos, público, enfim, mas levar por
ficção”. Os dois romances narram histórias dos suas próprias mãos. É dessa maneira que ocupam a
“manos”, esmiuçando, com pleno conhecimento pólis e criam uma nova forma de literatura
de causa, amores, ódios, carências. O mais assumidamente política. Desse modo, diante de
importante do romance talvez seja o lócus (espaço nossa perplexidade, torna-se evidente que é
mais do que geográfico, social e emocional) de somente nesta cidade politizada que a realidade
onde fala o autor e que poderia estar situado em pode deixar espaço para imaginários em liberdade.
qualquer outro lugar do Brasil. Daí em diante No número especial da revista Caros Amigos:
importam ainda outros elementos, dentre eles a “Literatura Marginal. A cultura da periferia – Ato
intenção do autor. Capaz de criar uma escritura de II”, que reúne escritores de diversas periferias do
testemunho, sendo sujeito ele mesmo da realidade país, membros de comunidades indígenas, como
sobre a qual escreve, o que Ferréz pretende é, como os terenas, e ainda recupera escritores ícones como
Beatriz Resende 175

Plínio Marcos e João Antônio, que sempre lidaram


com o tema da marginalização, foi publicado o
poema “Um presente para a elite brasileira”, de
Cláudia Canto, moradora da Cidade Tiradentes,
bairro no extremo leste da cidade de São Paulo. O
poema assim finaliza:

(...)
Dou de presente
Uma língua Portuguesa diferente,
aprendida no gueto
Poesia marginal e Chico Buarque da
periferia
E haverá um dia em que chegarás
perto do belo,
Este mesmo que as estatísticas Rádios Comunitárias:
quiseram apontar como feio “Balangando o beiço”
Aprenderás o que é anseio à flor da
pele.7 pelo direito de comunicar!
Notas Tião Santos
[1] HUYSSEN, Andréas. “Mapeando o pós-moderno”. In:
HOLLANDA, Heloisa Buarque. Pós-Modernismo e política.
Rio de Janeiro, Rocco, 1991. Págs. 15 a 80.
[2] JAMESON, Frederic. “Globalization as philosophical
issue” In: The cultures of globalization. Duke, 1998. Págs.
54 a 77.
[3] Cf. AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente. São Paulo,
Boitempo, 2002.
[4] http://brazileirapreta.blogspot.com/
[5] LUDMER, Josefina. “Temporalidades do presente”. In
Margens, Revista de Cultura nº 2, dezembro de 2002. Belo
Horizonte, UFMG, Pág. 14 a 27.
[6] FREIRE, Marcelino. (org) Os cem menores contos
brasileiros do século. São Paulo, Ateliê Editorial, 2004.
[7] CANTO, Cláudia. Revista Caros Amigos, São Paulo,
Editora Casa Amarela. Edição especial: Literatura marginal.
A cultura da periferia – Ato II. Pág. 11.
Tião Santos 177 178 Cultura e desenvolvimento

Permitam-me iniciar este pequeno capítulo É disto que quero falar: de beiços balangando
sobre rádios comunitárias com a frase país afora, garantindo, na prática civil e
“Balangando o beiço pelo direito de comunicar”. revolucionária, o sagrado Direito de Comunicar.
A expressão balangando o beiço ouvi de Misael, E, para que ninguém se assuste, falo da prática
um dos idealizadores da Rádio Favela de Belo garantida na Constituição Brasileira, apenas
Horizonte, na pré-estréia do filme Uma onda no violada e desrespeitada pelos que se sentem
ar, de Helvécio Raton, no cinema Odeon, no donos do ar, por onde trafegam as vozes de bons
Rio de Janeiro. Fiquei pensando em que título e maus, de justos e injustos mas, sobretudo, por
dar a este artigo sobre rádios comunitárias onde trafegam as vozes dos que não querem e
quando me lembrei da fala do Misael e resolvi não vão calar!
citar sua frase, acrescentando parte do artigo 13
do Pacto de São José da Costa Rica: “Pelo direito Rádios no ar, uma conquista popular
de comunicar”. De fato, as cerca de 15 mil rádios
A expressão “balangando o beiço”, extre- comunitárias que estão no ar hoje existem graças
mamente significante no dito popular mineiro, à luta, à resistência e à criatividade de milhares
traduz a liberdade lingüística da comunicação de comunidades. Sem querer desmerecer o
popular, direta, objetiva, perfeitamente em trabalho de muitas lideranças do movimento de
sintonia com um dos direitos mais sagrados do ser radiodifusão comunitária que, de maneira
humano, o direito de comunicar. revolucionária e apaixonada, iniciaram esse
Creio que o direito de comunicar seja o processo no Brasil. Mas, como um dos que
primeiro viés que devemos explorar desse iniciaram esse trabalho, devo reconhecer que, se
fantástico instrumento de democratização da a proposta não tivesse sido abraçada e apropriada
comunicação e da sociedade que são as rádios pelas comunidades, nada disso estaria acon-
comunitárias. tecendo: o milagre da multiplicação das vozes
Num país como o nosso, marcado pelo não teria ocorrido!
silêncio das maiorias, desde os processos de Lembro-me bem, como se fosse hoje, do dia
colonização até os anos de ditadura militar, era de em que fui a uma comunidade da Zona Oeste do
se esperar que, ao primeiro sinal de liberdade de Rio de Janeiro. Era início da década de 90 e
expressão, a voz das maiorias se fizesse ouvir nos princípio da popularização das rádios nas
quatro cantos deste país. comunidades. O desafio era mostrar à comu-
Os poderosos de sempre não conseguiram e não nidade do Conjunto Habitacional da Capitão
conseguirão calar a voz de milhões de brasileiros e Teixeira, no bairro de Realengo, como funcionava
brasileiras que descobriram, através das rádios uma rádio comunitária, desmistificando a idéia de
comunitárias, que existem e que têm o que dizer que só os poderosos poderiam ter um veículo de
aos seus, a mim e a você! comunicação.
Tião Santos 179 180 Cultura e desenvolvimento

Quando chegamos na sede da associação de qualquer custo, as verdadeiras rádios comunitárias,


moradores, local onde instalaríamos os as que, verdadeiramente, têm um compromisso de
equipamentos, já havia muita gente nos esperando, contribuir com a democratização da comunicação
curiosa em ver se era verdade o que havia sido e da sociedade, livres dos velhos chavões e dos
anunciado. Com a ajuda de todos e com o velho e compromissos normalmente assumidos pelas
bom transmissor da Rádio Cigana (equipamento rádios comerciais, vêm dando uma grande con-
que usávamos para demonstração nas comu- tribuição à comunicação de massa, na medida em
nidades), mais alguns aparelhos emprestados pela que ousam criar novos formatos e experimentar
própria comunidade, instalamos os equipamentos novas linguagens.
e colocamos a rádio no ar. A surpresa e a alegria de É muito comum ouvir nos encontros,
todos foi indescritível. Um senhor, de quem seminários e oficinas de que participo, país afora,
infelizmente não lembro o nome, me perguntou: depoimentos emocionados de comunicadores
“Se eu falar aqui, neste microfone, minha mulher comunitários ressaltando que a rádio comercial de
vai ouvir lá em casa?”. Eu disse que sim. Ele, ainda sua cidade está levando ao ar um programa
descrente, me falou: “Se isso for verdade, te pago igualzinho ao que ele faz em sua rádio.
uma cerveja”. A diferença é que esse novo jeito de comunicar
A experiência da Capitão Teixeira floresceu e vem ganhando cada vez mais o gosto popular.
deu muitos frutos. Hoje, só no bairro de Realengo Num contraponto à chamada comunicação
e arredores, existem mais de 10 rádios globalizada, normalmente pasteurizada em seus
comunitárias. conteúdos, as rádios comunitárias estão resgatando
Como a Capitão Teixeira, outras comunidades o bom conceito do rádio “amigo íntimo”, que
sonharam, desejaram e se organizaram para ter a entende e fala a linguagem do ouvinte, dos seus
sua rádio no ar. Hoje, em cada canto deste país tem problemas, dos seus sonhos, das coisas que fazem
uma rádio no ar: grandes centros urbanos, parte de seu cotidiano.
periferias, favelas, pequenos e médios municípios, Aos poucos e cada vez mais, as emissoras
áreas rurais, aldeias de índios e comunidades de populares vêm se livrando do modelo absoluto e
quilombolas, todos e todas botando a boca no quase centenário do rádio brasileiro. No começo, é
mundo e, como diz o outro, “quem tem ouvidos comum as rádios, quase todas, imitarem ou
para ouvir, que ouça!”. copiarem as rádios comerciais. Mas, aos poucos,
vão percebendo que têm um papel diferente das
O que rola pelas ondas da comunicação rádios comerciais e que seu compromisso e seus
popular objetivos são outros.
Descomprometidas com o objetivo de gerar Temos observado que as rádios que adotam
lucro e com a desenfreada necessidade de disputar posições extremadas, radicalizadas, que se limitam
o mercado, de alcançar altos índices de audiência a a copiar as rádios comerciais ou que, do outro
Tião Santos 181 182 Cultura e desenvolvimento

lado, resolvem fazer uma programação totalmente chamo de excluídos da grande mídia e da
alternativa, desconsiderando a cultura radiofônica sociedade. Sempre gosto de citar o exemplo da
existente, normalmente encontram dificuldades Rádio Novos Rumos, criada em 1990, no
para exercer sua função de integradora, município de Queimados, uma das primeiras
articuladora das diversas expressões sociais e rádios comunitárias do país. A Novos Rumos foi
culturais existentes na comunidade. uma das primeiras rádios verdadeiramente
O importante é a emissora ser capaz de levar ao comunitárias. A maneira como a rádio foi
ar uma programação que se diferencie no formato, criada, sua organização e seu estatuto foram
na linguagem e, principalmente, no conteúdo, exemplo e modelo para o Brasil inteiro. Mas o
sem traumas ou radicalizações. O segredo é que mais me impressiona na Novos Rumos é a
considerar a cultura radiofônica atual e, aos capacidade que a rádio tem de mexer com a
poucos, ir adicionando elementos novos na cidade, com a vida social, cultural e política dos
programação, capazes de construir uma seus ouvintes.
identidade própria verdadeiramente envolvida na Situado a 50 quilômetros do Centro da cidade
construção da cidadania. do Rio de Janeiro, Queimados recebe o sinal de
Apesar de a maioria das “emissoras todas as rádios comerciais da capital e convive
comunitárias” estar nas mãos de grupos pouco com cerca de 15 outras novas rádios
comprometidos com a diversidade, com a “comunitárias” que surgiram nos últimos anos.
pluralidade, com a democracia, está em curso, entre Mesmo assim, segundo pesquisas oficiais, a
elas, um processo de redefinição de suas funções e Novos Rumos se mantém em primeiro lugar,
de seu papel na comunidade. Esses grupos estão deixando bem para trás as rádios que lideram a
percebendo que, para consolidar um projeto audiência no Grande Rio.
coletivo comunitário como deve ser toda rádio Isso só acontece porque a rádio vem sendo
comunitária, é preciso ser capaz de incluir todos os capaz de manter a pluralidade e a democracia na
segmentos vivos da comunidade, todas as sua gestão e na sua programação. Outro dia,
expressões culturais, filosóficas, religiosas... Quanto visitando a emissora, presenciei uma cena que
mais participação, maior o sucesso da emissora. justifica minhas palavras. Estava na recepção
As que teimam em manter, com exclusividade, quando chegou uma senhora muito pobre com
apenas os projetos de grupos fechados, ou se uma receita na mão. Ela se dirigiu à
limitam a defender interesses individuais, acabam recepcionista e disse que queria falar na rádio
saindo do ar ou perdendo totalmente a para ver se conseguia os remédios daquela
credibilidade da comunidade. Viram apenas mais receita. Disse, ainda, que havia vários dias vinha
uma rádio no dial. se dirigindo ao posto de saúde para ver se
Uma verdadeira rádio comunitária tem que conseguia os remédios e não era atendida.
fazer a diferença. Ser capaz de incluir o que Segura do que estava querendo, disse à
Tião Santos 183 184 Cultura e desenvolvimento

recepcionista: “Moça, sei que, se eu falar na Telecomunicações) dão conta de que houve, em
rádio a minha história, na mesma hora serei 2003, já no novo governo, 17% a mais de rádios
atendida”. E assim o foi. Ela falou e foi atendida. fechadas do que no ano de 2002.
Creio que exemplos como esses estão rolando Mas os problemas das rádios com relação ao
pelos quatro cantos do país, onde há uma rádio governo não se resumem apenas à repressão.
comunitária no ar a serviço das comunidades e da Outro desafio é superar a burocracia e a
construção da cidadania. morosidade da análise dos processos no
Ministério das Comunicações. Para muitas
A legitimidade que o Estado não comunidades que, desde 1998, pediram
reconhece autorização ao Estado e até agora não a
Estima-se em 15 mil o número de rádios obtiveram, ter a autorização é uma questão de
comunitárias no ar em todo o Brasil. Passados sorte, uma loteria. Some-se a isso a falta de
seis anos desde que a lei 9.612 foi aprovada (19 transparência e de informações sobre o
de fevereiro de 1998), não chega a mil o número andamento dos processos que tramitam no
de rádios autorizadas definitivamente pelo ministério.
Ministério das Comunicações. Nesse período, Bom seria se, em vez de tanta perseguição, o
foram cadastrados cerca de 15 mil pedidos de governo se dispusesse a elaborar uma política de
associações que sonham em ver suas emissoras comunicação que incluísse as mídias comunitárias
autorizadas. como parte estratégica de políticas de
Enquanto as experiências e os bons exemplos desenvolvimento local sustentável.
das rádios se espalham, se multiplicam, Uma política que, no caso das rádios
beneficiando comunidades inteiras, prestando comunitárias, permitisse maior agilidade nos
serviços a órgãos públicos e a associações da processos no ministério, que suspendesse a
sociedade civil, o governo federal, numa atitude violenta, desnecessária e, às vezes, ilegal repressão
que não se compreende, vira as costas para esse às emissoras comunitárias e que, numa atitude de
poderoso instrumento de desenvolvimento local. reconhecimento ao papel das emissoras, houvesse
Infelizmente, o movimento das emissoras investimento na formação, na capacitação e no
comunitárias continua vivendo uma profunda desenvolvimento do setor, como reza o artigo 20
contradição: se por um lado o governo federal, da lei 9.612.
através de seus órgãos públicos, utiliza as rádios Enquanto o quadro não muda, as
para veicular campanhas fantásticas como as do comunidades, cansadas de esperar pelo Estado,
Programa de DST-Aids do Ministério da Saúde e continuam resistindo, criando e recriando espaços
coisas do interesse do governo, por outro lado de liberdade de expressão e de cidadania,
continua desenvolvendo uma brutal perseguição às “balangando o beiço”, vencendo o medo e
emissoras. Dados da Anatel (Agência Nacional de alimentando a esperança.
Tião Santos 185

Para essas comunidades, a Mãe-Gentil, Pátria-


Amada, Brasil, não tem olhado com muito
carinho, aliás, com nenhum carinho!
Sobre os autores
Sobre os autores 193 194 Cultura e desenvolvimento

BEATRIZ RESENDE é doutora em Literatura campo da Educação, além de participar na


Comparada. Professora da Escola de Teatro da UNI- produção de eventos realizados pelo grupo e
Rio, é pesquisadora do Programa Avançado de coordenar um de seus subgrupos, o Afro Samba.
Cultura Contemporânea da UFRJ e do CNPq. É Também integra a Coordenação Editorial da
curadora da Biblioteca Virtual de Literatura – Revista Global Brasil. Em 2002, concluiu o
PACC/UFRJ e editora do Fórum Virtual O que é mestrado em Literatura Brasileira na Universidade
Literatura, projeto apoiado pela Faperj através do Federal Fluminense (UFF), e o tema de sua
prêmio Cientista do Nosso Estado. Publicou dissertação abordou a produção textual da cultura
Apontamentos de crítica cultural (Aeroplano Editora, hip-hop no Brasil.
Rio de Janeiro, 2002), Cronistas do Rio (José Olympio,
Rio de Janeiro, 1995) e Lima Barreto e o Rio de Janeiro FERRÉZ nasceu em São Paulo, em 1975, e adotou
em fragmentos (Editora UFRJ, Unicamp, 1993). na literatura o pseudônimo para homenagear dois
Escreve regularmente para cadernos literários. líderes populares: Virgulino Ferreira, o Lampião,
e Zumbi dos Palmares. É autor do livro Capão
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS é doutor em pecado (São Paulo, Labortexto, 2000), romance
Sociologia do Direito pela Universidade de Yale sobre o cotidiano de um dos bairros da periferia
(1973). É professor catedrático da Faculdade de de São Paulo – em que o escritor vive até hoje.
Economia da Universidade de Coimbra e professor Ferréz é ligado ao movimento hip hop e participa
visitante da Universidade de Wisconsin-Madison, de eventos culturais na periferia. Em 2003,
da London School of Economics, da Universidade lançou o romance Manual prático do ódio (Rio de
de São Paulo e da Universidad de Los Andes. Janeiro, Objetiva, 2003). E é idealizador do
Diretor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade projeto Literatura Marginal, que em breve será
de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor lançado em livro pela Editora Agir.
do Centro de Documentação 25 de Abril da
Universidade de Coimbra. Diretor da Revista Crítica JAILSON DE SOUZA E SILVA é doutor em Educação
de Ciências Sociais. Recebeu o Prêmio de Ensaio Pen pela PUC-Rio. Publicou Por que uns e não outros?
Club Português 1994; o Prêmio Gulbenkian de Caminhada de jovens pobres para a universidade
Ciência, 1996; o Prêmio Bordalo da Imprensa – (Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2003). É professor
Ciências, 1997; e o Prêmio Jabuti (Brasil) – Área de adjunto da Faculdade de Educação da UFF desde
Ciências Humanas e Educação, 2001. 1992 e professor do Programa de Pós-Graduação
em Geografia da UFF. Um dos fundadores do
ECIO DE SALLES é mestre em Literatura Brasileira, Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré
coordena o Programa de Educação do Grupo (Ceasm). Coordenador geral do Observatório de
Cultural Afro Reggae, núcleo responsável pela Favelas do Rio de Janeiro. Consultor do Unicef e da
elaboração e coordenação de projetos ligados ao Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Sobre os autores 195 196 Cultura e desenvolvimento

MARTA PORTO é jornalista, pós-graduada em Deus. Publicou o romance Cidade de Deus pela
Planejamento Estratégico e Sistemas de Editora Companhia das Letras, em 1997,
Informação (PUC-MG), com mestrado em Ciência transformado em filme em 2002. Trabalhou na
da Informação (UFMG). Foi diretora de planeja- Secretaria de Cultura do Estado do Rio de
mento e coordenação cultural da Secretaria Janeiro em 2002, onde criou um projeto de
Municipal de Cultura de Belo Horizonte e bibliotecas em escolas de favelas. Em 2004,
coordenadora do Escritório da Unesco no Rio de passou um mês como escritor residente na
Janeiro. Recebeu o prêmio Prix Mobius de Universidade da Califórnia, em Berkeley. É
Multimídia Cultural, França, em 1997, pela roteirista, junto com Lúcia Murat, do filme
Revista Eletrônica Zapp Cultural, e o Prêmio Quase dois irmãos.
Beija-Flor – Homenagem Especial 2001. Integra o
Comitê da Agenda XXI do Fórum de Autoridades PAULO ROBERTO PIRES é jornalista, mestre em
Locais, implantado pelo Fórum Universal de Comunicação pela Escola de Comunicação da
Culturas – Barcelona (2004). Atualmente é UFRJ e professor da ECO/UFRJ . Publicou a
diretora da X Brasil. biografia Helio Pellegrino, a paixão indignada e a
novela Do amor ausente (Rocco, Rio de Janeiro,
MAURÍCIO TORRES nasceu na cidade de São 2000) e organizou, com Flavio Pinheiro, Próximos
Paulo. Iniciou-se na Engenharia Agronômica e 500 – As perguntas que o Brasil vai ter que
perdeu-se em Letras. É professor e milita em responder (Aeroplano, Rio de Janeiro, 2000). É
movimentos populares. Atualmente divide-se responsável pela organização da nova edição,
entre a paulistana Vila Madalena, onde trabalha ampliada, da obra reunida de Torquato Neto
na Editora Casa Amarela, e a Floresta Amazônica, (Rocco, Rio de Janeiro, 2004). É diretor editorial
desenvolvendo um trabalho de pesquisa sobre da Ediouro e colunista do site No Mínimo.
exclusão social.
TIÃO SANTOS é radialista, produtor e diretor de
PAULO LINS fez graduação e licenciatura em rádio. Foi professor de Educação Física e Moral e
Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Cívica; diretor e instrutor da Casa de Meninos de
Portuguesa, na UFRJ. Foi integrante do grupo São Paulo Apóstolo, de Petrópolis; coordenador
Cooperativa de Poetas nos anos 80. Em 1986, de correspondentes comunitários do Portal Viva
publicou seu primeiro livro de poemas, Sobre o Favela, Viva Rio, em 2001; coordenador da Rádio
sol, pela UFRJ. Entre 1991 e 1992, realizou Viva Rio e da Rede Viva Favela. Ex-diretor da
pesquisa para o projeto “Crime e criminalidade Federação Nacional dos Radialistas; ex-presidente
nas classes populares” com bolsa Faperj/Iuperj. da Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão
Em 1995 foi contemplado com a bolsa Vitae de Comunitária) e membro do Grupo de Trabalho
Artes. Organizou o cineclube na Cidade de do Ministério das Comunicações.
Sobre os autores 197

ZUENIR VENTURA é jornalista há quase 40 anos.


Formado em Letras, trabalhou como repórter,
redator e editor em vários jornais e revistas.
Ganhou o Prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio
Wladimir Herzog de Jornalismo em 1989.
Recebeu o Prêmio Jabuti (categoria reportagem)
pelo best-seller 1968 – O ano que não terminou
(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988). É autor de
Cidade partida (São Paulo, Companhia das Letras,
1994), Inveja – mal secreto (Rio de Janeiro,
Objetiva, 1998), Crônicas de um fim de século (Rio
de Janeiro, Objetiva, 1999), Cultura em trânsito
(Rio de Janeiro, Aeroplano, 2000), Chico Mendes –
Crime e castigo (São Paulo, Companhia das Letras,
2003) e Vozes do golpe (São Paulo, Companhia das
Letras, 2004). Atualmente é colunista do jornal O
Globo e do site No Mínimo. Sobre o evento
Sobre o evento 199

O seminário Cultura e desenvolvimento foi realizado


entre os dias 23 e 26 de novembro de 2004, no
Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro.
Participantes: Beatriz Resende, Boaventura de
Sousa Santos, Carmen Luz, Ecio de Salles, Ferréz,
Graça Salgado, Heloisa Buarque de Hollanda,
Heloisa Toller Gomes, Ilana Strozenberg, Jailson de
Souza e Silva, Ismael Lopes, Marta Porto, Maurício
Torres, Misael Avelino dos Santos, MVBill, Nega
Giza, Paulo Lins, Paulo Roberto Pires, Tião Santos
e Zuenir Ventura.

Composto em Adobe Garamond corpos 10, 12, 14 e 18 sobre 14,6,


Helvetica Neue Condensed corpo 9 sobre 10,8
e corpos 10, 12, 18 e 24 sobre 15,
e Highway to Heck corpo 12 sobre 17, e corpos 14 e 24 sobre 24,5.
Impresso em papel polén bold 90g, pela gráfica Imprinta
para a Aeroplano Editora, em Novembro de 2004.