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Faltou Freio

O Império contra-ataca?

Há alguns meses esteve em Campina Grande por inter-


médio do nosso querido Saulo Ais o artista plástico catalão Jesus
José Cardenete, que expôs belos trabalhos no bravo e resistente
Museu de Arte Assis Chateaubriand.
Entre os trabalhos expostos, um deles me chamou imediata 101
atenção. Não sou conhecedor da pintura, não consigo identificar
técnicas, composições, escolas ou movimentos, mas a arte fala a
mim da mesma forma que fala a qualquer ser humano. Sua linguagem
é universal, e não se fica impassível diante de suas manifestações.
Um mouse – em Portugal é rato, mesmo! – de formas bonitas
e vanguardistas dirige-se, inocentemente, a um artefato que a princípio
nada tem a ver com o seu ambiente natural – uma ratoeira. Em tese,
nada pode o arcaico ardil contra o moderno dispositivo. O problema,
que o talento de Cardenete conseguiu enxergar é que, no fundo, no
fundo, o mouse continua a ser simplesmente um rato, sujeito às
mesmas ameaças e vulnerável aos mesmos problemas de sempre.
Cláudio de Lucena Neto

La trampa de la modernidad é muito mais do que uma obra


genial. Não tivesse qualquer mérito estético – não é o caso, a tela é
primorosa – já seria brilhante enquanto registro da antevisão de um
acontecimento que, todos sabíamos, era iminente: o embate entre a
sociedade da informação e da tecnologia e as velhas armadilhas a
que a humanidade está sujeita. Mal sabia o simpaticíssimo forasteiro
de Barcelona que seu pincel havia traçado uma cena tragicamente
profética, principalmente depois de conhecida a dimensão inédita e
chocante do fato. Suprema clarividência, o mouse está completamente
vermelho, dos botões ao fio, em uma óbvia alusão ao banho de sangue
por que passaria o símbolo político da modernidade e à armadilha
que ela esconde sob o mito da segurança.
O Afeganistão é uma armadilha de proporções colossais,
de barreiras físicas e geográficas virtualmente intransponíveis, de
barreiras ideológicas inabaláveis, na qual os EUA parecem cair como
patos, ao reagir no pior momento possível, que é o momento em
que estão tomados pelo ódio. Neste instante, é impossível ter a
parcimônia e o comedimento necessários para entender que é neces-
sário mais do que um exército, mais do que armas, mais do que a
força bruta para conter e derrotar o terror, o horrendo inimigo que a
humanidade enfrenta.
Pior. É possível que, ante à cegueira moral imposta pelo
ressentimento, os valores e os princípios – exatamente aqueles que
o ataque procurou sepultar sobre os destroços dos alvos atingidos –
102 sejam esquecidos, atropelados, deixados de lado. Esse é horizonte
na paisagem terrorista, que sabe ser impossível derrotar em franco
combate as forças armadas internacionais. Eliminados os vestígios
da tolerância, da civilidade e da racionalidade que se está tentando
construir ao longo dos séculos, a derrota da paz terá sido completa.
Osama Bin Laden, tenha ele a ver ou não, especificamente,
com a carnificina que mudou a história, é um assassino sangrento,
lunático, desequilibrado e grotesco e, por isso, extremamente perigoso.
No entanto, a diferença de perspicácia, de visão política e diplomática
entre ele e o xerife texano é tão estúpida que ele está conseguindo
fazer com que as coisas se dêem numa seqüência que lhe é impressio-
nantemente favorável.
Faltou Freio

À medida em que os corpos vão esfriando sob os escombros


do World Trade Center, vai arrefecendo a necessidade imperiosa de
vendetta que a força das imagens instantaneamente nos fez sentir. A
curto prazo, Bin Laden vai fazendo com que os seus métodos pare-
çam ser os únicos capazes de causar com efetividade alguma reflexão
e, portanto, vão perigosamente assumindo um certo caráter de
legitimidade. Mais alguma trapalhada estratégica da América e ela
própria corre o risco de escrever na história o nome de Bin Laden
como um grande herói da resistência – tanto para o ocidente quanto
para o oriente.
É inevitável lembrar, nesse contexto, a lição de um outro
artista – este, paraibano – o professor Paulo Lopo Saraiva. Já de
algum tempo, o mestre tenta nos convencer de que o que se globaliza
é o mercado, não a sociedade.
Com efeito, o dinheiro está internacionalizado. É possível
comer um McDonald’s em Marrakesh, Pequim, Bogotá ou São
Petersburgo. O capital de programa dorme com quem der mais. Só
que não é tão fácil universalizar – vá lá, globalizar – os valores, os
princípios, a ideologia, e a prova maior é o show de intolerância que
estamos vendo.
Ah! O Império contra-ataca, sim, e de forma enérgica, impie-
dosa, cumprindo enfim a profecia de nosso artista espanhol. Afinal
de contas, o bem deve vencer o mal, os escolhidos precisam subjugar
os infiéis (sejam eles quem forem – ninguém sabe, mesmo...) e a 103
Infinita Justiça precisa triunfar sobre as trevas tirânicas.
E aqueles que se beneficiam do domínio da Infinita Justiça
devem, até por uma questão de coerência, perfilar-se ao seu lado, já
que são sempre convidados a participar das suas celebrações e festas.
Não é justo – ou digno – porém exigir igual posicionamento daqueles
que nunca são convidados; daqueles que quando muito são chamados
no dia seguinte para o serviço pesado e braçal de arrumar a bagunça
que os convidados deixaram e, se houver sobras, experimentar as
migalhas.
(Setembro de 2001