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Em 1605, foi criada a primeira lei de proteção florestal brasileira denominada

Regimento sobre o Pau-Brasil, que proibia, entre outras coisas, o seu corte sem
expressa licença real, aplicando penas severas aos infratores e realizando
investigações nos solicitantes das licenças. Este Regimento foi inserido no Regimento
da Relação e Casa do Brasil em março de 1609, que foi o primeiro tribunal brasileiro
instalado na cidade de Salvador, com jurisdição em toda a colônia. Depois disso, houve
uma legislação florestal em 1773, em que D. Maria I ordena ao vice-rei do estado do
Brasil cuidado especial com as madeiras cortadas nas matas e arvoredos,
especialmente naquelas que tivessem árvores de pau-brasil.

Atualmente, a preocupação com o meio ambiente não está mais restrita ao âmbito das
ciências naturais, pois o progresso leva ao desenvolvimento de todas as áreas que
vem gerando graves problemas no que concerne ao real entendimento de que
crescimento econômico exclui qualidade de vida ambiental. Hoje, fala-se em
desenvolvimento sustentado, para sintetizar a relação necessária entre meio ambiente
e economia, referindo-se à complementaridade potencial entre crescimento e meio
ambiente, ou seja, para que o primeiro ocorra, não tem de se excluir o segundo. Essa é
uma visão desenvolvida e de grande valor para o ecossistema. Esse entendimento foi
originado na Conferência das Nações Unidas realizada em Estocolmo em 1972.
Conhecer este instituto implica que todos os profissionais do direito têm o dever de
ajuizar ação civil pública na defesa do ambiente natural e cultural. Tal abordagem
envolve um interesse supra-individual, um interesse difuso, já que a conservação dos
recursos naturais interessa a todos que são afetados, direta ou indiretamente, pela
degradação ambiental.

Para que uma diferenciação plena seja feita entre dano ambiental e qualquer outro
dano, há a necessidade de se salientar que no primeiro, não existe prazo prescricional,
haja vista a prescrição destinar-se à pessoa individualizada pela sua inércia na falta de
exercício de seu direito e, como o interesse relacionado ao meio ambiente é difuso,
este será indeterminado em relação ao sujeito. Existem duas formas de reparação
referentes ao dano ambiental: recuperação do dano (reconstituição do bem lesado) e
indenização em dinheiro.

A recuperação do dano pela reconstituição do bem lesado deveria ser imposta de


forma coercitiva, assim como o é na indenização em dinheiro a uma pessoa, a um
grupo distinto ou até mesmo a uma comunidade. A reconstituição do bem lesado
deveria fazer parte de forma cumulativa à indenização, perfazendo um só ato: a
proteção total do meio ambiente. Mesmo que se apure que, em alguns casos, a
reversão seja quase impossível, a viabilidade e a possibilidade somente deveriam ser
descartadas por técnicos especializados após estudo específico do dano causado.
Pensar que, tão-somente por meio de multas pecuniárias, indenizações assombrosas
irão “proteger” o meio ambiente, é, na verdade, uma interpretação incorreta.

Há na legislação vários instrumentos relacionados à defesa do meio ambiente, para


que o agente causador do dano não fique sem a sua punição: mandado de segurança
coletivo; tutela cautelar, mediante ação cautelar; ação popular; e ação civil pública.
Ressalte-se que dentro desse instrumental jurídico de amparo à proteção ambiental,
mister se faz salientar que, mesmo com todos esses mecanismos, que atualmente
incidem nas multas pela infração às leis e nas indenizações à pessoa individualizada
ou grupo(s) diretamente ou indiretamente afetados, a proteção ambiental mais
alicerçada somente terá ingerência, de forma mais ampla, quando dispositivos outros
forem colocados em prática a conscientização, de forma educacional, da criança sobre
seu lugar no mundo, quão importante é a natureza, como se podem evitar danos ao
ambiente; tudo de forma simples, para um verdadeiro embasamento, no que se refere
à importância do ecossistema, do futuro cidadão; campanhas de combate à destruição
de matas, à poluição de rios, mares, lagos e lagoas; sistema cumulativo das penas:
multa e/ou indenização, e a efetiva reparação do meio ambiente.

A advogada Sabrina Maria Fadel Becue (sabrina@ekj.adv.br), associada ao Escritório


Katzwinkel e Advogados Associados, explica que a evolução do direito ambiental
acompanha a crescente preocupação humana com o ambiente à sua volta. Mas
somente na década de 1920, com a massificação das relações sociais, foi reconhecida
a existência de direitos metaindividuais, entre eles, o direito à vida saudável. A tutela
ambiental está assentada nesta premissa: necessidade de criar e preservar um
ambiente adequado para desenvolvimento pleno do homem e das gerações futuras.

“Pautado pelo objetivo exposto, as legislações e as declarações internacionais trazem


uma série de princípios definidores da tutela ambiental, entre eles os princípios da
precaução; do desenvolvimento sustentável; do poluidor-pagador; e da participação e
responsabilidade comum, mas diferenciada. O princípio da precaução impõe que, na
presença de dúvida quanto à segurança de um produto e no emprego de uma técnica
ou incertezas em relação à ocorrência de dano ambiental, o ato deve ser evitado. Esse
princípio sofre ferrenhas críticas em razão da sua abstração conceitual e aplicação
casuística, já que os parâmetros de cientificidade variam de acordo com as normas de
cada país. Contudo, elas não devem ser levadas a sério, visto que as políticas
ambientais trabalham sempre com a potencialidade de dano e conseguem, mesmo
assim, transformar a incerteza em dados e ações concretas através, por exemplo, do
Estudo de Impacto Ambiental (EIA)”, diz.

Ela acrescenta que, caminhando lado a lado com o princípio da precaução, o princípio
do desenvolvimento sustentável transmite a idéia de ação em longo prazo. A
necessidade de tutelar a qualidade de vida das gerações futuras, manejando
corretamente a escassez dos recursos naturais, veda práticas predatórias. Se por um
lado a livre iniciativa e atividade de empresa são garantias constitucionais, por outro, o
desenvolvimento tecnológico permite que as empresas subsistam e lucrem com a
implementação de práticas limpas e com melhor aproveitamento dos recursos naturais.
O princípio não pressupõe a ingenuidade do intérprete quanto aos danos gerados por
toda atividade industrial. O risco é ínsito à sociedade contemporânea, mas é preciso
achar um ponto de equilíbrio implantando técnicas alternativas e com a utilização
racional dos meios naturais.
“Já o princípio do poluidor-pagador imputa a todos que desenvolvem atividades
impactantes ao meio ambiente uma responsabilização própria desse novo ramo do
direito. O ordenamento transfere os custos com políticas de prevenção de danos, exige
medidas de monitoramento da atividade e, configurada a lesão, impõe também a
reparação. Atuando nessas três frentes ele consegue desmistificar a idéia de que a
poluidor não será apenado se houver garantias quanto à capacidade de indenizar as
vítimas: degradar o meio ambiente não é uma opção. O Estado visa a internalização
dos custos causados pelas atividades poluidoras na estrutura de produção e consumo,
em outras palavras, encarece as atividades danosas ao meio ambiente, primeiro
porque o causador deve ser o maior responsabilizado pelos danos e, segundo, porque
esse é um meio eficaz de prevenção e incentivo ao emprego de técnicas limpas”.

Por fim, complementa a advogada, resta analisar o princípio da responsabilidade


comum, mas diferida. Este princípio reconhece que, em primeiro lugar, os países
desenvolvidos, além de possuírem mais recursos para investir na proteção ao
ambiente, normalmente são os maiores responsáveis pelos danos gerados. Considera
também as diferenças entre os ecossistemas do planeta. “Todos devemos zelar pela
preservação do meio ambiente, contudo, as frentes de atuações e os montantes de
investimentos realizados se diversificam. O Fundo Multilateral, criado pelo Protocolo de
Montreal, é a expressão mais saliente do princípio, pois concede ajuda financeira aos
países em desenvolvimento, para que aperfeiçoem os produtos, de modo a não mais
prejudicar a camada de ozônio. No âmbito interno, temos o Fundo Nacional de Meio
Ambiente, instituído pela Lei 7.797/89, que prevê recursos públicos a serem manejados
pela própria administração ou por entidades privadas sem fins lucrativos, para
realização de projetos voltados às unidades de conservação, ao desenvolvimento
tecnológico, ao controle ambiental, entre outros (art. 5º)”.

Aduz, ainda, que todos esses princípios são extraídos da sistemática adotada pelas
legislações voltadas à proteção ambiental e tentam compatibilizar a ação humana com
a necessidade de se proteger a natureza. Justamente por guardarem uma visão
holística do processo de desenvolvimento social e dos danos que eventualmente esse
venha a causar ao ambiente, trazem em seu bojo medidas eficazes, quando aplicadas,
para racionalização dos recursos naturais em prol da qualidade de vida.