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Confira temas que podem render questões nos

próximos vestibulares
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Cena do filme Lula, o filho do Brasil


Se a primeira década do século 21 foi marcada por conflitos insolúveis, terrorismo, crises nas finanças e degradação ambiental, tudo leva a
crer que estes temas estarão novamente em pauta em 2010. O ano que começa será decisivo para os países desenvolvidos resolverem
questões financeiras, ainda devidas ao colapso econômico de dois anos atrás, em harmonia com uma agenda global sobre as mudanças
climáticas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Dois países continuarão em destaque, regendo a sinfonia econômica do planeta: Estados Unidos e China. Deles dependem não somente a
recuperação das finanças globais como os acordos referentes à diminuição da emissão de gases causadores do efeito estufa, cujas metas
foram deixadas em aberto com o fracasso da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em dezembro de 2009.

Na América Latina, a política estará em foco, sobretudo no Brasil, com as eleições presidenciais e o início da era pós-Lula. Mas, antes disso,
os olhares do mundo se voltarão para a África do Sul, que sediará o principal evento internacional do ano, a Copa do Mundo da Fifa.

Fim da "obamania"
O ano de 2010 será particularmente delicado para o presidente americano Barack Obama. Passada a euforia da eleição do primeiro
presidente negro dos Estados Unidos, o democrata precisará colocar as finanças domésticas em ordem, administrando um rombo bilionário
por conta dos empréstimos que salvaram instituições financeiras e a indústria automobilística durante a crise econômica.

Na política externa, precisará cumprir metas que visam encerrar duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, iniciadas há quase uma década
pelo antecessor, o ex-presidente George W. Bush. No Iraque, este ano será de desocupação e entrega definitiva do governo aos iraquianos,
enquanto que, no Afeganistão, a aposta é no reforço de efetivo para fortalecer as autoridades locais contra os talebans.

Soma-se a isso a queda de popularidade de Obama, que tinha um índice de aprovação de 70% no começo de 2009 e que, hoje, bate na casa
dos 50%. A insatisfação de metade da população com promessas não cumpridas e falta de ações mais enérgicas deve refletir nas eleições
parlamentares em novembro. Apesar de fechar 2009 com a sanção do projeto de reforma do sistema de saúde, o presidente corre o risco de
perder este ano a maioria na Câmara dos Deputados, o que pode complicar seus dois últimos anos de governo. Já no Senado americano, são
poucas as chances de os democratas saírem derrotados.

Dragão chinês
A China, em 2010, vai se tornar a segunda maior economia mundial, ultrapassando o Japão, além de, pela primeira vez, gerir 10% das
exportações no comércio internacional. Depois de se recuperar da crise econômica mais rápido que outros países desenvolvidos, a China
manterá a taxa de crescimento apenas um pouco menor que os 10% anuais que vinha registrando nas últimas três décadas. Nesse ritmo,
especialistas preveem que ultrapasse os Estados Unidos em vinte anos (a mesma previsão era feita sobre o Japão nos anos 1980, antes que
o país entrasse em recessão nos anos 1990).

Na política, o Partido Comunista Chinês vai tirar o máximo de vantagens da "Exposição Mundial", evento internacional realizado desde o
século 19 e que este ano será em Xangai. Enquanto isso, o presidente Hu Jintao prepara suas substituições na liderança do partido, em 2012,
e na Presidência, em 2013.

Contudo, a face mais dura do regime comunista será posta à prova em negociações com os Estados Unidos, em torno dos temas economia e
mudanças climáticas, e, internamente, frente à tensão com minorias étnicas no Tibete e em Xinjiang, palcos de revoltas nos dois anos
anteriores. O governo já se previne contra novas ondas de protestos, em especial no mês de outubro, quando será lembrado o aniversário de
60 anos da invasão do Tibete pela China.

Pós-Lula
No caldeirão da América Latina, a fervura será política, com destaque para as eleições presidenciais de outubro no Brasil. Será a primeira
vez, desde o retorno das eleições diretas em 1989, que Luiz Inácio Lula da Silva ficará fora da disputa. O ex-metalúrgico perdeu três eleições
para presidente e está no poder desde 2003, em dois mandatos consecutivos (veja filme indicado abaixo). Ele possui uma aprovação recorde
da população brasileira, amparada pela estabilidade econômica do país e a despeito dos escândalos de corrupção em seu governo.

Os candidatos com maiores índices de intenção de votos são: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a chefe da Casa Civil, Dilma
Roussef (PT). Serra tem maioria no Estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, ao passo que a eleição de Dilma depende da
capacidade de Lula de transferir para ela sua popularidade.

O ano eleitoral deverá ainda interferir em uma das decisões mais importantes do Congresso em 2010, sobre o marco regulatório da
exploração do petróleo descoberto na camada pré-sal. A comemoração dos 50 anos de Brasília também colocará em evidência a capital do
país.
Outras eleições importantes ocorrem em países da América Latina, no ano em que se comemoram dois séculos de independência da América
Espanhola. Para o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, 2010 será decisivo para testar sua influência na região. Disso depende a condução
da economia do país e o preço do petróleo, que financia o socialismo "bolivariano" de Chávez, além dos resultados das eleições
parlamentares em setembro.

Mudanças devem ocorrer no Chile, onde a direita tem chances de retornar ao poder depois de quase duas décadas fora dele, com Sebastián
Piñera, que concorre à Presidência no segundo turno, disputado em janeiro. Na Colômbia, o desenlace das eleições presidenciais depende de
uma decisão da Corte Constitucional sobre um referendo que permita mudar a Carta, para que o presidente Álvaro Uribe, desde 2002 no
cargo, concorra a um terceiro mandato. Caso seja candidato, são grandes as chances de vitória.

Chantagem atômica
Em segundo plano, a Europa amarga uma taxa de desemprego que, estima-se, deve atingir uma marca histórica de 10%, o que corresponde
a cerca de 57 milhões de desempregados na UE (União Europeia). A economia em ritmo lento deve dar vazão a políticas protecionistas dos
mercados internos, incluindo medidas restritivas à imigração, além de protestos de rua. Mas os 27 países integrantes da UE começam o ano
com novas regras, definidas pelo Tratado de Lisboa, que pretende, na prática, conferir maior representatividade ao bloco.

Na Europa Oriental, as disputas energéticas, como a que opôs Rússia e Ucrânia em 2009 e deixou boa parte da Europa sem gás em pleno
inverno, deverão ter novos capítulos.

Entretanto, é no Oriente Médio que estarão alguns dos maiores nós da diplomacia em 2010. O Irã, mais uma vez, será o centro das atenções.
Além do desgaste político com as revoltas de parte da população, a insistência em levar adiante o programa nuclear sem a fiscalização da
Organização das Nações Unidas (ONU) poderá levar a um conflito com Israel, caso sanções econômicas não surtam efeito.

Assim como a Coreia do Norte, que insiste em fazer testes com armas nucleares, o Irã também se coloca na contramão de debates sobre o
desarmamento nuclear que ocorrerão em 2010. Na Coreia do Norte, continuarão ocorrendo especulações sobre o estado de saúde do líder
Kim Jong-il, que nos bastidores prepara sua sucessão no poder. Longe da diplomacia oficial, as duas Coreias - Norte e Sul - irão medir forças
pela primeira vez numa mesma Copa do Mundo, no ano em que lembram o centenário da ocupação japonesa.

Finalmente, acontecerá na África do Sul o maior evento de âmbito internacional de 2010. A Copa do Mundo deve ajudar o país tanto a
expurgar o passado de divisão racial quanto a se diferenciar de países vizinhos como a Somália, devastada pela guerra civil. Desse país que,
como o Brasil, idolatra o futebol, talvez guardemos as melhores lembranças deste ano.

Ano do futebol na África começa com violência


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

A Copa Africana das Nações começou


sob ameaça do terror depois do ataque
à delegação do Togo
Sede da Copa do Mundo 2010, a África é também uma das regiões mais pobres do planeta, assolada por conflitos étnicos e nacionalistas que
datam do final da era imperialista, no século 20. Esse lado mais sombrio do continente africano conferiu um ar de tragédia à Copa Africana
das Nações, um torneio de futebol que reúne as 16 melhores seleções africanas e antecede os jogos da FIFA.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Na antevéspera da abertura do evento, ocorrida em 10 de janeiro de 2009, a delegação de Togo foi alvo de um ataque terrorista. Os atletas
saíram de ônibus da República do Congo em direção a Cabinda, província de Angola. Quando atravessavam a selva, o veículo foi metralhado
por guerrilheiros das Forças de Libertação do Estado de Cabinda (Flec). Três pessoas morreram - o motorista, o assessor de imprensa e um
assistente técnico - e outras seis ficaram feridas. Temendo novos ataques, a equipe desistiu de participar da competição e foi desclassificada.

A Copa Africana das Nações é o maior torneio de futebol da África, similar em importância à Eurocopa ou à Copa América, realizados,
respectivamente, nos continentes europeu e americano. A competição ocorre com regularidade desde 1968. Neste ano, os jogos acontecem
em Angola, país de língua portuguesa.

Entre as 18 províncias angolanas escolhidas para receber as seleções africanas está Cabinda, onde foram marcados sete jogos. A região é
tumultuada por guerras separatistas desde os anos 1960, mas o Comitê Organizador quis mostrar que ela estava pacificada e, assim, atrair
investimentos com o campeonato.

Eventos esportivos dessa importância, entretanto, atraem não somente a atenção de pessoas bem intencionadas, mas também, dependendo
do contexto político, terroristas (ver filme "Munique", indicado abaixo).

História
Cabinda é um exclave angolano, isto é, uma das 18 províncias da República de Angola, mas totalmente cercado por territórios estrangeiros;
no caso, ao norte pela República do Congo, e a leste e ao sul pela República Democrática do Congo (a oeste, pelo Oceano Atlântico). São
7.283 quilômetros quadrados onde vivem 265 mil habitantes. Os limites territoriais foram definidos na Conferência de Berlim (1885), que
dividiu a África em colônias europeias. Na ocasião, o Reino do Congo foi fragmentado em: Congo Belga, atual República Democrática do
Congo; Congo Francês, atual República do Congo; e Congo Português, hoje Cabinda.

A região, originalmente, fazia parte de Angola, mas a Bélgica negociou com Portugal uma saída para o Oceano Atlântico, isolando assim o
protetorado lusitano de Cabinda. Em 1956, o ditador português António Salazar (1932-1968) anexou novamente a terra a Angola, para
conter despesas nas colônias.

Por este motivo, quando ocorreu a independência angolana, em 1975, Cabinda tornou-se província do governo de Luanda, capital da Angola.
Desde então, grupos separatistas reivindicam a independência do povo cabindense, alegando diferenças culturais, históricas e geográficas.

Para Angola, contudo, a independência está fora de questão. O país é um dos maiores produtores de petróleo da África e Cabinda responde
por até 80% dessa produção. Os guerrilheiros, por outro lado, contam com apoio da população local, que não se beneficia dos recursos
gerados pela indústria petrolífera de Luanda.

Em agosto de 2006, o governo assinou um acordo de paz com as facções separatistas que lutavam pela independência. Elas concordaram em
manter o território como província angolana, em troca de privilégios políticos e econômicos.

Mesmo assim, parte dos guerrilheiros da Flec continuou em atividade. O ataque à delegação do Togo é considerado a ação mais violenta do
grupo nos últimos anos.

Guerras civis
O caso, porém, está longe de ser isolado na África, cujo fim do período de colonização legou disputas sangrentas pelo poder. A África do Sul,
país sede da Copa do Mundo este ano, ficou quase 50 anos sob o regime de discriminação e violência do apartheid. Como atualmente é um
Estado em desenvolvimento e politicamente estável, os organizadores garantem que não há risco de investidas terroristas.

Outros países africanos são praticamente dizimados por guerras civis que duram décadas, deixam milhares de mortos e milhões de famílias
desabrigadas vivendo em campos de refugiados - e que dependem da ajuda humanitária da ONU (Organização das Nações Unidas) para
sobreviver.

A Somália, por exemplo, é uma nação dividida entre duas facções islâmicas armadas que combatem o governo para impor um estado
teocrático. Segundo dados da ONU, 40% da população passa fome e uma em cada cinco crianças é desnutrida. Os somalianos ficaram
famosos pelos ataques de piratas a navios comerciais.

Na região de Dafur, a oeste do Sudão, os conflitos já deixaram 300 mil mortos e 2,7 milhões de refugiados, de acordo com dados da ONU. Os
confrontos entre rebeldes e o governo do ditador Omar al-Bashir começaram em 2003, dando origem a um massacre de cidadãos da etnia
"árabe".

República Centro Africana, República Democrática do Congo, Nigéria, Guiné, Chade e Mauritânia são outros países africanos onde atualmente
são travadas violentas batalhas pelo poder.

Terremoto arrasa país mais pobre das Américas


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

População da capital haitiana recebe


comida e água distribuídas por militares
brasileiros
Atualizada em 22 de janeiro, às 12h37
De colônia mais rica do mundo no século 17 a país mais pobre do Hemisfério Ocidental, o Haiti passou os últimos 200 anos martirizado por
golpes militares, violência, corrupção, fome e catástrofes naturais. O terremoto que praticamente destruiu a capital Porto Príncipe no dia 12
de janeiro de 2010 foi a pior das tragédias de sua história.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Estimativas apontam entre 150 e 200 mil mortos. Setenta e cinco mil já foram enterrados em valas comuns, segundo o governo haitiano.
Entre os mortos estão 20 brasileiros: 18 militares que atuavam na missão de paz, Luiz Carlos da Costa, a segunda maior autoridade civil da
Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, e a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns.

Três milhões de pessoas, quase um terço da população, foram afetadas pelo terremoto. Muitas estão deixando o país, revivendo a migração
de refugiados do período de ditadura.

Setenta por cento dos prédios de Porto Príncipe foram destruídos, incluindo o palácio presidencial. A infraestrutura da cidade, que já era
precária, ficou comprometida, prejudicando os serviços de ajuda humanitária e socorro aos feridos. A Organização Mundial de Saúde (OMS)
emitiu um alerta para risco de epidemias como hepatite A, difteria, tuberculose, meningite e gripe suína.
Tremores
A República do Haiti situa-se na Hispaniola, uma das maiores ilhas do Caribe, e faz fronteira com a República Dominicana. Numa área de 27,7
quilômetros quadrados - pouco maior que o Estado de Sergipe, que possui 22 quilômetros quadrados - vivem 9 milhões de habitantes. O
idioma oficial é o francês e o crioulo. A religião predominante entre os haitianos é a católica (80%), mas quase metade da população pratica
o vodu, religião nativa.

O país é um dos mais pobres do mundo, com 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, com menos de US$ 2 (R$ 3,5) por dia.
Também possui índices recordes de mortalidade infantil, desnutrição e contaminação por Aids. Em 2008, mais de mil pessoas morreram e
800 mil ficaram desabrigadas devido a furacões que devastaram a região, com prejuízos de US$ 1 bilhão.

O terremoto que atingiu o país às 16h53 locais registrou grau 7 na escala Richter, considerado "muito forte". Os tremores ocorreram a 10 km
da superfície, o que contribuiu para aumentar os estragos nas cidades. Eles foram causados pelo movimento de placas tectônicas do Caribe e
América do Norte. O Haiti fica exatamente sobre uma das falhas (espaço entre as duas placas), o que faz com que registre abalos sísmicos
com certa frequência.

Tremores de terra dessa magnitude causariam danos em qualquer país, mas as condições históricas que tornam o Haiti uma nação carente
de quase todo amparo social contribuíram para piorar a catástrofe.

Nação de ex-escravos
Em 1804, o Haiti foi o segundo país das Américas a conquistar independência das colônias europeias, atrás somente dos Estados Unidos
(1776). Foi também a primeira nação negra livre do mundo e a primeira a libertar os escravos, servindo como exemplo de luta abolicionista
para o restante do mundo, inclusive o Brasil.

Na época em que era colônia da França, no século 17, o Haiti era rico, responsável por 75% da produção mundial de açúcar. A luta pela
independência começou em 1791, liderada pelo escravo Toussaint L'Ouverture, que venceu as tropas de Napoleão.

Ao término das guerras pela independência (1791-1804), toda estrutura agrária montada pela França estava destruída e não havia como
substituir a mão de obra escrava nos campos. Os haitianos, escravos libertos mas analfabetos, sem experiência alguma em economia ou
política, tiveram que construir uma nação.

Outro fato que dificultou a formação do Estado foi o isolamento do resto do mundo. Como os impérios da época temiam a influência dos
negros revolucionários do Haiti, não reconheceram a independência e se recusaram a manter relações comerciais. Além disso, a França
cobrou uma indenização pesada da ex-colônia, que o país levaria um século para pagar.

No século 20 ocorreu uma sucessão de golpes de Estado e deposições violentas de presidentes, que tornaram as condições políticas do país
altamente instáveis e afugentaram investidores.

Um dos piores períodos corresponde às três décadas sob a ditadura Duvalier, primeiro de François Duvalier, o "Papa Doc", que governou o
país de 1957 a 1971. Ele aboliu os partidos políticos, se autoproclamou presidente vitalício e impôs um regime de medo, torturando e
matando dissidentes, chegando a um saldo de, estima-se, 30 mil mortos e 15 mil desaparecidos. Papa Doc foi sucedido pelo filho, Jean-
Claude Duvalier, o "Baby Doc", que ficou no poder de 1971 a 1986, até ser deposto por uma junta militar.

Brasileiros
O primeiro presidente do Haiti, o ex-padre católico Jean-Bertrand Aristide, foi eleito em 1991. Mas ficou pouco tempo no cargo. O governo foi
derrubado no ano seguinte por um golpe. Com apoio militar dos Estados Unidos, Aristide voltou ao poder em 1994, apenas para concluir o
mandato e passar o comando para o ex-premiê René Préval, na primeira transição democrática da história haitiana.

Em 2001, Aristide foi reeleito, mas mais uma vez não conseguiu concluir o governo. Ele renunciou em 2004, pressionado por violentas
revoltas nas ruas e sob acusação de corrupção e fraudes eleitorais.

Com a iminência de uma guerra civil, o Conselho de Segurança da ONU criou, em abril de 2004, a Missão das Nações Unidas para
Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em francês). O objetivo era desarmar os grupos guerrilheiros e assegurar a realização de eleições,
para trazer estabilidade política e financeira ao país.

O Brasil, que até então nunca havia liderado uma missão de paz da ONU, ficou encarregado do comando militar. Dos 7.100 mil soldados de
17 nações que compõem a força de paz no Haiti, 1.266 são brasileiros. Eles foram responsáveis por pacificar as favelas de Porto Príncipe,
controlada por gangues armadas. O trabalho da missão garantiu a realização das eleições de 2006, que devolveram ao cargo o ex-presidente
René Préval.

Com o terremoto, a ONU solicitou o aumento de tropas para reforçar a segurança e ajudar na distribuição de remédios e alimentos à
população. Foi marcada para o dia 25 de janeiro em Montreal, no Canadá, a primeira reunião preparatória para a conferência internacional
para reconstrução do Haiti. Arruinados pelo terremoto, os haitianos dependem hoje totalmente da assistência internacional para
sobreviverem.

Direita volta ao poder


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O então candidato à presidência do
Chile, Piñera, é recebido pelo presidente
Lula em 24/11/2009
Com a eleição do empresário Sebastián Piñera para presidente, o Chile apostou na alternância de poder e equilibrou um pouco mais o cenário
político da América Latina. Numa disputa apertada, a direita chilena conseguiu a primeira vitória em mais de meio século e rompeu 20 anos
de predomínio da coalizão de centro-esquerda que governa o país desde o fim do regime militar (1973-1990).

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O Chile é hoje, 2010, uma das economias mais prósperas da América do Sul, com estabilidade política raramente encontrada na região.
Situação bem diferente do período em que o general Augusto Pinochet conduziu uma das ditaduras mais sangrentas do século 20. Estima-se
que até 10% da população chilena tenha sido afetada diretamente pela repressão, que teve um saldo de 3.197 mortos ou desaparecidos e 28
mil torturados em 17 anos.

Pinochet subiu ao poder graças a um golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende, primeiro socialista eleito presidente na América
Latina, em 1970. Na época, Allende implementou um programa de estatização que piorou a crise econômica no país. As medidas também
confrontaram interesses econômicos dos Estados Unidos, que apoiaram a ditadura de Pinochet.

Em outubro de 1988, Pinochet realizou um plebiscito, sob pressão da comunidade internacional para que o país se democratizasse. Na
consulta popular, os chilenos recusaram a continuidade do mandato do presidente por mais oito anos. No ano seguinte, foram convocadas
eleições.

Desde 1990, o Concertação - partido de coalizão de centro-esquerda - governa o Chile. Diferente do socialismo estatizante de Cuba, por
exemplo, o partido adotou medidas que atraíram investimentos, flexibilizaram a economia (dependente da exportação de cobre) e reduziram
a pobreza. Isso tornou a nação, entre as sul-americanas, a mais forte candidata a entrar no restrito rol de países ricos.

Popularidade
A atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, é a quarta governante consecutiva do Concertação e a primeira mulher a ocupar o cargo. Ela
foi eleita em 2006 para um mandato de quatro anos, sem direito à reeleição.

A despeito de ter começado o governo enfrentando protestos, Bachelet terminou o mandato como a presidente com maior popularidade da
América Latina. Ela possui um índice de aprovação de 81%. Para efeito comparativo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerado o
mais popular da história recente do Brasil, possui pouco mais de 70%. A popularidade da presidente se explica principalmente pela forma
como administrou o país durante a crise econômica mundial, no ano retrasado.

Mesmo assim, Bachelet não conseguiu transferir votos para o candidato governista, o ex-presidente Eduardo Frei, que ficou em segundo
lugar, com 48,39% dos votos no segundo turno, realizado no dia 18 de janeiro de 2010.

Sebastián Piñera obteve uma vantagem de apenas 3,2 pontos percentuais, vencendo as eleições com 51,6% dos votos. Ele se candidatou
pela Coalizão pela Mudança, que reúne os partidos de direita União Democrática Independente e Renovação Nacional.

De acordo com especialistas, o resultado é fruto do desgaste natural da esquerda no poder. Outro fator se deve à própria biografia do
candidato governista. Frei foi presidente entre 1994 e 2000 e terminou o mandato mal avaliado, devido aos efeitos da crise asiática no país.
Além disso, quando era presidente, permitiu que Pinochet, que estava detido em Londres, retornasse ao país. O ex-ditador morreu sem ser
acusado por nenhum crime de violação dos direitos humanos. Isso custou a Frei tanto a perda de aliados quanto de votos da esquerda
chilena.

Empresário
Por outro lado, a direita conseguiu se desvincular da imagem de Pinochet e assimilar em seu discurso o compromisso com programas sociais.
O presidente eleito, Piñera, é um dos principais empresários do país, com patrimônio de US$ 1,2 bilhão. Ele é dono da companhia aérea LAN,
da TV Chilevisión e do time de futebol Colo Colo, entre outras empresas.

Quando Allende foi derrubado, em 1973, Piñera iniciava um curso de mestrado em Boston, nos Estados Unidos. Em 1988, votou contra
Pinochet no plebiscito que permitiu a redemocratização do país, mesmo sendo do partido de direita e ter apoio, até hoje, de simpatizantes e
pessoas ligadas ao ditador. Em 1989, foi eleito senador, cargo que ocupou por oito anos. Em 2005, candidatou-se à presidência pela primeira
vez e foi derrotado por Bachelet no segundo turno.

Na campanha presidencial deste ano, Piñera prometeu criar programas sociais, nas áreas de Saúde e Educação, voltados às camadas mais
pobres. Ele também garantiu dar continuidade aos programas de Bachelet. O empresário é o primeiro presidente de direita eleito no Chile
desde Jorge Alessandri (1958 a 1964). Ele assume o cargo em 11 de março de 2010.

Chávez
Partidos de direita adotam uma política conservadora e economia de mercado. São tradicionalmente associados aos regimes militares que
governaram países latino-americanos entre os anos 1960 e 1980, no período da Guerra Fria (1945-1989).

Já os partidos de esquerda defendem um papel maior do Estado sobre a economia e a sociedade, além de priorizarem programas de
assistência social.
Nos últimos anos, governos populistas de esquerda chegaram ao poder em países como Venezuela, Bolívia, Chile, Equador e Nicarágua. Tal
fato coincidiu com a diminuição da influência dos Estados Unidos na região.

É nessa conjuntura geopolítica que o Chile atuará, agora, como contrapeso. O presidente eleito chileno deve se aliar ao presidente da
Colômbia, Álvaro Uribe, ser um antagonista do venezuelano Hugo Chávez e fornecer um modelo para partidos de direita na região.

As eleições chilenas reproduziram uma situação parecida com a brasileira, onde a principal candidata governista, Dilma Rousseff, depende do
apoio do presidente Lula para conseguir votos. A eleição para presidente no Brasil acontece em outubro de 2010.

Problemas políticos, financeiros e energéticos


prejudicam Chávez
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O ano de 2010 começou mal para o presidente venezuelano Hugo Chávez. Inflação, problemas com o abastecimento de energia elétrica,
protestos de rua e conflitos internos no governo ameaçam a sobrevivência do "socialismo bolivariano".

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Há quase 11 anos no poder, Chávez vê sua popularidade cair depois de três medidas polêmicas: a desvalorização da moeda local, os planos
de racionamento de energia e o cancelamento da transmissão de canais de TV a cabo.

Isso em um ano decisivo de eleições parlamentares, marcadas para 26 de setembro. Chávez, que tem maioria na Assembleia venezuelana,
corre o risco de perder apoio. Fato que já vem acontecendo na região, em decorrência da eleição de um antagonista no Chile, o empresário
Sebastián Piñera, e da perda de um aliado em Honduras, o presidente Manoel Zelaya, deposto por um golpe de Estado há sete meses.

TVs a cabo
Os violentos protestos que dividiram o país entre chavistas e opositores são um reflexo da crise venezuelana. Dois estudantes foram mortos
a tiros durante os tumultos.

O estopim foi o cancelamento, no dia 23 de janeiro de 2010, da transmissão de seis canais de TV a cabo. Entre as emissoras fechadas está a
Radio Caracas Televisión Internacional (RCTVI), sucessora da RCTV, que em 2002 apoiou uma tentativa de golpe contra o presidente.

Segundo o governo, os canais foram retirados do ar devido ao descumprimento do decreto de dezembro de 2009, que obriga as emissoras,
entre outras regras, a transmitirem na íntegra os discursos do presidente. Três TVs conseguiram regularizar a situação, enquanto as demais
(incluindo a RCTVI) continuam com as atividades suspensas.

Em meio à pressão dos manifestantes, o presidente venezuelano sofreu duas baixas importantes no governo, com as renúncias do vice-
presidente e ministro da Defesa, Ramón Carrizález, e do presidente do Banco Central, Eugénio Vázquez Orellana. Eles deixaram o cargo,
respectivamente, nos dias 25 e 26 de janeiro.

Luz
Mas o descontentamento dos venezuelanos se deve, principalmente, às crises financeira e energética. Ambas têm origem no fato de o país
depender do petróleo (a Venezuela é um dos maiores produtores e exportadores do mundo) e, segundo especialistas, na má aplicação dos
recursos do setor e na criticável condução da política econômica.

A crise no abastecimento de energia elétrica se deve à falta de chuvas, que reduziu o nível dos reservatórios das hidrelétricas. A mais afetada
foi a usina de Guri, que responde por 70% do abastecimento. O Estado de Roraima, que importa energia elétrica da Venezuela, também foi
prejudicado.

Sem investimentos em infraestrutura para enfrentar períodos de seca, o governo teve de recorrer ao programa de racionamento. Cidades
ficam sem luz durante quatro horas a cada dois dias, em regime de rodízio. Em Caracas, a capital, o governo suspendeu o racionamento,
mas só devido à pressão popular.

Chávez anunciou, em caráter emergencial, a criação de um fundo de US$ 1 bilhão para aumentar a produção das termelétricas e um novo
programa de racionamento, que aliviaria as classes mais pobres. Ele conta ainda com o apoio do governo brasileiro, que vai enviar
especialistas em "apagão" para ajudar na recuperação do setor elétrico.

Inflação
Outra ação polêmica foi a adoção de um novo sistema cambial. Desde o dia 8 de janeiro de 2010, a Venezuela possui duas taxas cambiais:
2,6 bolívares (moeda local) o dólar, para importações de produtos de primeira necessidade (como alimentos e remédios), e 4,3 bolívares o
dólar para as demais transações comerciais.

A intenção é estimular a produção nacional e recuperar o país da crise financeira, que reduziu o PIB (Produto Interno Bruto) em 2,9% no ano
passado, depois de cinco anos de crescimento consecutivos. Contudo, a maior circulação de dinheiro e o aumento da demanda fizeram com
que os comerciantes aumentassem os preços dos produtos. A Venezuela tem hoje uma das maiores taxas de inflação do mundo, de 25% ao
ano.

Para combater a alta dos preços, Chávez recorreu ao Exército. Fechou 1,9 mil estabelecimentos acusados de remarcar preços irregularmente
e expropriou a cadeia de supermercados francesa Êxito.

Popularidade
Desde que assumiu a presidência, em 1998, Chávez vem recorrendo a sucessivas consultas populares para se manter no cargo. Esse tipo de
socialismo, financiado pelos dólares conseguidos por meio da exportação de petróleo, conquistou aliados nos governos da Bolívia, do Equador
e da Nicarágua, além da condescendência do Brasil.

Em 2007, Chávez sofreu sua primeira derrota nas urnas, no referendo que previa reeleição ilimitada. No ano passado, submetido à mesma
consulta popular, conquistou o direito de se candidatar sucessivas vezes à Presidência. Dessa forma, garantiu a candidatura, em 2012, a
mais seis anos de mandato.

Contudo, a popularidade, que se encontra abaixo dos 50% de aprovação, pode atrapalhar os planos do presidente venezuelano.

MANDELA: 20 ANOS DE LIBERDADE

Entenda o que significa esse fato para nossa história


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José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Morgan Freeman interpreta Mandela em


Invictus, filme dirigido por Clint
Eastwood
Há vinte anos, em 11 de fevereiro de 1990, Nelson Mandela foi libertado da prisão para conduzir o processo de extinção do apartheid -
legislação que segregou negros na África do Sul por quatro décadas - e a democratização do país.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Sede da Copa do Mundo de 2010 e maior potência econômica no continente africano, a África do Sul conseguiu superar, nestas duas
décadas, as barreiras legais e políticas que separavam brancos (apenas 9% da população) e negros. Mas um "muro" social mantém metade
da população negra abaixo da linha da pobreza.

O fim do apartheid foi um evento tão importante na segunda metade do século 20 quanto a queda do Muro de Berlim e o colapso dos
regimes comunistas no Leste Europeu e na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Esses eventos históricos aconteceram
no mesma época.

Num mundo às portas da globalização, o apartheid era considerado uma aberração. O único paralelo na história, em termos de criação de leis
de segregação racial, aconteceu na Alemanha nazista e em alguns estados sulistas dos Estados Unidos.

A prática da segregação na África do Sul remonta ao período colonial. Os africâners (ou bôeres), descendentes de holandeses, e os ingleses
chegaram no século 17. As primeiras regras que restringiam o direito de ir e vir dos negros em colônias britânicas datam do século 19.

O regime foi implantado oficialmente em 1948, quando o Partido Nacional venceu as eleições. O partido conservador da elite branca
governou o país até 1994. Entre outras regras, as leis impediam que negros frequentassem as mesmas escolas, restaurantes ou piscinas que
brancos; que morassem em bairros de brancos; e determinava o registro da raça nos documentos pessoais.

O apartheid também acentuou uma história de lutas e resistência contra a minoria branca, o que resultou em massacres e na prisão de vários
líderes negros; dentre eles, Mandela.

Libertação
Por conta da legislação racista, a África do Sul sofreu sanções políticas e embargos comerciais de países membros da Organização das Nações
Unidas (ONU). O país, por exemplo, foi banido dos Jogos Olímpicos durante 21 anos, por determinação do Comitê Olímpico Internacional.

A pressão externa e as revoltas domésticas começaram a produzir resultados em 1989, quando o presidente eleito Frederik Willem de Klerk
deu início ao desmonte do sistema segregacionista. Ele legalizou partidos negros, como o Congresso Nacional Africano (CNA), de Nelson
Mandela, e começou a revogar, aos poucos, as leis do apartheid.

O ato mais simbólico foi a libertação de Mandela, aos 71 anos de idade. Ele estava preso há 27 anos, condenado à prisão perpétua pelos
crimes de traição, sabotagem e conspiração contra o governo. Uma vez fora da prisão, o movimento dos negros sul-africanos ganhou uma
voz de expressão internacional.

Presidência
De Klerk e Mandela eram duas figuras antagônicas que a história se encarregou de unir. De Klerk foi o último presidente branco do país, um
africâner oriundo das classes mais tradicionais. Mandela, primeiro presidente negro, pertencia a uma linhagem real da etnia dos xhosas; era
de esquerda e defendia a luta armada contra o apartheid. Pelos esforços para derrubar o regime racista, ambos dividiram, em 1993, o prêmio
Nobel da Paz.

A queda do apartheid começou com a criação de um fórum multirracial, a Convenção da África do Sul Democrática (Codesa), e a convocação
de um referendo para aprovar uma nova Constituição. A Carta provisória, aprovada em 1993, revogou completamente as leis racistas.

O segundo passo foi a convocação das primeiras eleições democráticas multirraciais em 1994, que elegeram Mandela presidente. A vitória de
Mandela pôs fim a três séculos e meio de dominação da minoria branca na África do Sul.

Ao tomar posse, o líder negro adotou um tom de reconciliação e superação das diferenças. Um exemplo disso foi realização da Copa Mundial
de Rúgbi, em 1995. O esporte era uma herança do período colonial e, por isso, boicotado pelos negros por representar o governo dos brancos
(veja filme indicado abaixo).
Nos dois anos seguintes, a Constituição definitiva e o processo de transição foram concluídos. Entre os anos de 1996 e 1998, o arcebispo
Desmond Tutu liderou a Comissão de Verdade e Reconciliação para apurar crimes cometidos durante o apartheid. Foram abertos processos
judiciais para pagamentos de indenizações às vítimas do regime.

Mandela deixou a Presidência em 1999 e passou a se dedicar a campanhas para diminuir os casos de Aids na África do Sul, emprestando seu
prestígio para arrecadar fundos para o combate à doença. O país possui a maior quantidade de portadores de HIV no mundo: 5,7 milhões de
pessoas.

Desigualdade social
Desde a eleição de Mandela, o Congresso Nacional Africano (CNA) mantém maioria na Assembleia Nacional e elege presidentes. O mais
recente é Jacob Zuma, líder do partido e eleito em maio do ano passado. A vitória foi polêmica, em razão de Zuma ser alvo de denúncias de
corrupção.

A estabilidade política garantiu que a África do Sul continuasse sendo o país com maiores taxas de crescimento no continente africano.
Apesar disso, a maior parcela da população negra não conseguiu deixar a pobreza e sofre com altos índices de desemprego e baixa
escolaridade. Estima-se que mais da metade da população de 49 milhões de habitantes vive abaixo da linha da pobreza, com taxa de
desemprego em torno de 24%.

Quase duas décadas depois do fim do apartheid, os negros, maioria absoluta na África do Sul, conquistaram o poder, mas continuam sendo
segregados no âmbito econômico.

ESCÂNDALO NO DISTRITO FEDERAL

Denúncias levam governador à prisão


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Integrantes do movimento "Fora Arruda


e toda a máfia" fazem protesto em
frente ao CCBB, em Brasília
Atualizado em 13/08/2010,às 10h32

Casos de corrupção envolvendo políticos fazem parte do cotidiano do brasileiro. O escândalo no Distrito Federal, contudo, trouxe situações
inéditas na história recente do país. Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar (1964-1985), um governador foi preso no exercício do
cargo, depois de ser flagrado recebendo dinheiro de supostas propinas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O ex-governador do DF, José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM), foi preso no dia 11 de fevereiro de 2010 por determinação do Superior
Tribunal de Justiça (STJ). A detenção durou dois meses. O vice-governador Paulo Octávio, também alvo de denúncias, assumiu o cargo mas
não resistiu muito tempo: ele saiu do DEM, renunciou ao mandato e prometeu deixar a política.

Por conta da dimensão do caso, a Procuradoria-Geral da República chegou a formalizar um pedido de intervenção no Distrito Federal junto ao
STF. Seria uma medida inédita desde a redemocratização do país. No dia 30 de julho, porém, os ministros do STF rejeitaram, por sete votos
a um, o pedido de intervenção federal no governo e do poder Legislativo do DF. A decisão ocorreu depois do deputado federal Rogério Rosso
(PMDB) ter sido eleito governador no primeiro turno da eleição indireta na Câmara Legislativa, em 17 de abril, e os principais pivôs do
escândalo terem renunciado aos mandatos ou sofrerem cassação. Rosso ficará no cargo até 31 de dezembro, quando assumirá o candidato
eleito nas eleições de outubro.

O Distrito Federal é uma das 27 unidades federativas do Brasil, onde está situada Brasília, a capital. Porém, diferente das demais, não é
Estado, e tampouco município. O Poder Executivo é chefiado pelo governador, mas como o território não possui municípios, é um "Estado"
sem prefeitos ou vereadores. O Poder Legislativo é exercido pela Câmara Legislativa, constituída por 24 deputados distritais.

Arruda foi acusado de comandar um esquema de corrupção que pagaria propina para parlamentares da base aliada do governo. O dinheiro
seria proveniente de empresas que possuem contratos públicos com o governo do Distrito Federal.

Oito dos 24 deputados da Câmara Legislativa - incluindo o ex-presidente da Casa, Leonardo Prudente - são suspeitos, além de empresários.
Os crimes investigados são de corrupção e formação de quadrilha, entre outros.

Pelo menos dois fatores conferem maior importância a este caso: a extensão do suposto esquema, que envolve os líderes dos poderes
Executivo e Legislativo, e os flagrantes em vídeo, que mostram o próprio governador e os demais envolvidos guardando maços de dinheiro
em bolsas, meias e cuecas.

Flagrantes
O escândalo começou no dia 27 de novembro de 2009, quando a Polícia Federal (PF) deflagrou a operação "Caixa de Pandora". Na ocasião,
foram divulgados os vídeos que mostram empresários e políticos recebendo dinheiro do ex-secretário de Relações Institucionais do governo,
Durval Barbosa. O material foi gravado pelo próprio Barbosa, que virou colaborador da PF em troca de redução da pena numa eventual
condenação na Justiça.

A situação do governador afastado começou a se complicar em 4 de fevereiro de 2010. Nesse dia, foi preso um suposto representante de
Arruda, por tentar subornar uma das testemunhas do processo, o jornalista Edmilson Edson dos Santos, o Sombra, para que mudasse o
depoimento em favor dos envolvidos. Foram as suspeitas de que o governador estivesse obstruindo as investigações que levaram a Justiça a
decretar a prisão preventiva.

Arruda começou a carreira política como senador pelo PP, em 1995. Em 2001, no PSDB, renunciou ao mandato para escapar da cassação.
Nessa ocasião, foi acusado de violar o painel eletrônico do Senado durante a votação da cassação do mandato do senador Luíz Estevão
(PMDB). Em 2002, foi eleito deputado federal pelo PFL (atual DEM). Desde 2006 exercia o primeiro mandato como governador do Distrito
Federal.

O esquema teria começado antes de Arruda ser eleito. Segundo a PF, ele teria recebido verbas de campanha não declaradas à Justiça
Eleitoral, provenientes de empresas privadas. A prática é conhecida como "caixa dois". Depois de eleito, as empresas foram contratadas para
prestarem serviços públicos. O dinheiro destinado a obras públicas teria sido desviado por meio de fraudes em licitações e distribuído entre o
governador, seus aliados e deputados de situação.

O ex-governador alegou inocência e afirmou que o dinheiro que ele aparece recebendo nas imagens seria doação para a compra de
panetones, destinados a famílias carentes do Distrito Federal.

Desdobramentos
O escândalo mexeu no cenário político do ano eleitoral. Em 3 de outubro 2010, serão eleitos presidente, governadores, senadores e
deputados estaduais e federais. Com o afastamento e prisão de Arruda, o DEM perdeu seu único governador no país, que tinha chances de se
reeleger. O partido também faz oposição ao Governo Federal e saiu com a credibilidade abalada para as coligações políticas e diante dos
eleitores.

No dia 12 de abril, por oito a cinco, os ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) revogaram a prisão preventiva de Arruda. Ele ficou
preso por 61 dias.

Ao ser solto, já não era mais governador de Brasília. Em 16 de março, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) cassou seu
mandato por infidelidade partidária. A corte entendeu que não houve justa causa para ele sair do DEM. A decisão de deixar o partido havia
sido adotada por Arruda para evitar desgaste político num eventual processo no Conselho de Ética do DEM.

A Câmara Distrital de Brasília também havia aprovado, em 4 de março, o processo de impeachment contra o ex-governador.

Os deputados distritais Leonardo Prudente e Júnior Brunelli (PSC) renunciaram ao mandato para evitar processo de quebra de decoro
parlamentar. Se fossem condenados, perderiam os direitos políticos por oito anos. Com a manobra, podem se candidatar nas eleições de
outubro.

Já a deputada Eurides Brito (PMDB) teve o mandato cassado dia 22 de junho por quebra do decoro parlamentar. Outras cinco pessoas
envolvidas no mensalão foram exoneradas do cargo.

ESPIONAGEM NO ORIENTE MÉDIO

Assassinato de líder palestino cria impasse


diplomático
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Serviços de espionagem atuam com absoluta discrição, a menos que algo saia errado. Parece ter sido esse o caso do assassinato do principal
comandante militar do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh, cometido supostamente por integrantes do Mossad, o serviço secreto israelense. A
operação foi descoberta e trouxe consequências diplomáticas e políticas para Israel, além de expor os bastidores dos conflitos no Oriente
Médio.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Mabhouh, 49 anos, foi encontrado morto no quarto 230 do luxuoso hotel Al Bustan Rotana, no centro de Dubai, no dia 20 de janeiro de 2010.
Ele havia sido executado na noite anterior. Dubai é um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes. A cidade, conhecida pela
arquitetura futurística, é bem policiada, e são raros os casos de homicídio.

A equipe de agentes foi flagrada pelo sistema de câmeras de vigilância seguindo o "alvo" pelos corredores e dependências do hotel. As
imagens permitiram à polícia reconstruir uma trama de espionagem que parece ter saído de um dos romances de Ian Fleming, o criador do
agente 007.

Segundo a polícia de Dubai, os assassinos entraram no país com identidades falsas. Eles seguiram o líder palestino - que havia chegado na
tarde do dia 19, vindo da Síria - disfarçados como turistas (usavam, inclusive, perucas e barbas falsas). Os matadores se dividiram em cinco
grupos: quatro responsáveis por vigiar - e o quinto, por executar o terrorista. Toda a operação durou apenas 19 horas.

Quatro agentes invadiram o quarto enquanto Mabhouh estava ausente. Eles então aguardaram o retorno da vítima, que ocorreu por volta das
20h30. Meia hora depois, mataram o palestino de forma a aparentar morte natural. Primeiro, paralisaram-no com choques elétricos e,
depois, sufocaram-no, provavelmente usando um travesseiro. Após eliminar o alvo, o grupo deixou o país.

Quinze suspeitos do crime tiveram as fotos divulgadas pela polícia, entre eles uma mulher. O esquadrão completo seria composto por um
total de 18 agentes, cuja base de operações estaria localizada na Áustria. Onze suspeitos foram incluídos na lista dos mais procurados pela
Interpol. A polícia de Dubai acusou formalmente o Mossad pelo envolvimento na execução.

Inocentes
O crime causou um princípio de crise diplomática entre Israel e países da União Europeia (UE). A razão disso foi o uso de passaportes
"clonados" de cidadãos europeus pelos espiões. Os agentes usavam documentos e cartões de crédito em nome de oito ingleses, cinco
irlandeses, um francês e um alemão, todos radicados em Israel. O fato de morarem em Israel reforçou a tese de envolvimento do Mossad.

Inicialmente, a polícia acusou formalmente 11 europeus por envolvimento no caso. Isso, apesar de os verdadeiros donos das identidades
terem feições diferentes dos espiões mostrados nos vídeos de segurança do hotel. Os europeus trabalham em profissões comuns e negaram
qualquer ligação com os assassinos.

Os ministros de Relações Exteriores dos países da UE condenaram o uso de documentos falsos pelos criminosos. O primeiro-ministro inglês
Gordon Brown determinou que o caso fosse investigado, e autoridades britânicas questionaram o Estado de Israel pela suposta participação
no episódio.

O governo israelense, por sua vez, não confirmou a responsabilidade do Mossad pelo ataque e cobrou da polícia de Dubai a apresentação de
provas. De acordo com os israelenses, a vítima estava em Dubai para comprar armamentos do Irã.

Acordos de paz
A morte em Dubai repercutiu na imprensa internacional e acarretou consequências políticas que poderão afetar o processo de paz no Oriente
Médio. Mahmoud al-Mabhouh era um dos fundadores da facção armada do Hamas. Ele foi acusado de participar de vários ataques terroristas,
incluindo o sequestro e a morte de dois soldados israelenses, e havia escapado de duas tentativas de assassinato - uma com carro-bomba e
outra por envenenamento.

O Hamas é hoje o mais influente grupo islâmico palestino, considerado uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União
Europeia. O grupo não reconhece o Estado de Israel nem os acordos de paz firmados com a ANP (Autoridade Nacional Palestina). Ele foi
criado em 1987, em Gaza, durante a Primeira Intifada - o levante palestino contra a ocupação de Israel.

Financiado por países árabes, o Hamas cometeu mais de 350 atentados terroristas desde 1993, de acordo com dados do Council of Foreign
Relations. Os ataques levaram Israel a isolar os territórios ocupados na Cisjordânia e adotar a estratégia de assassinato dos líderes do grupo.

Em 2006, a organização venceu as eleições legislativas em Gaza contra o rival Fatah, principalmente por conta de uma política de
assistencialismo à população pobre. Desde que passou a controlar a faixa de Gaza, Israel e os Estados Unidos impuseram embargos
econômicos, ao passo que os militantes aumentaram as hostilidades contra israelenses na fronteira.

Em 27 de dezembro de 2008, Israel iniciou uma ofensiva contra a faixa de Gaza que deixou 1.300 palestinos mortos e o território destruído,
segundo relatório da Comissão Internacional da Cruz Vermelha. Foi a maior operação militar na região em 40 anos.

O assassinato do líder palestino em Dubai emperra, agora, as negociações entre israelenses e palestinos. Líderes do Hamas culparam Israel
pelo crime e prometeram vingança. O caso também repercutiu mal nos Emirados Árabes, que são aliados dos Estados Unidos. O motivo é
que Dubai, assim como os demais emirados, sempre se mantiveram neutros nas guerras no Oriente Médio, diferente de países árabes que
são inimigos declarados de Israel, como Irã, Síria, Líbano e Arábia Saudita.

Veneno
Se for comprovada a participação do Mossad na operação, não será a primeira vez que israelenses empregam tal método na história dos
conflitos no Oriente Médio. O Mossad, cujo nome em hebraico é Instituto de Inteligência e Operações Especiais, é apontado como autor de
dezenas de assassinatos de líderes de organizações palestinas desde os anos 1970.

O serviço de inteligência foi fundado em 1949, um ano após a criação do Estado de Israel. Ele ficou conhecido internacionalmente após a
captura, em 1960, do nazista Karl Adolf Eichmann, na Argentina. Eichmann foi levado a Israel, julgado por crimes de guerra e condenado à
morte (ver filme "Caçada a um Criminoso", indicado abaixo).

Em 1973, israelenses mataram por engano um garçom marroquino na Noruega. Ele foi confundido com um líder do Setembro Negro, grupo
responsável pelo massacre de atletas da delegação de Israel nos Jogos Olímpicos de Munique (ver filme "Munique", indicado abaixo). Em
1997, dois agentes disfarçados de canadenses falharam na tentativa de envenenamento de Khaled Meshal, líder do Hamas na Jordânia. Os
espiões foram presos por autoridades locais e, para que não fossem executados, Israel enviou o antídoto do veneno. Mais recentemente, em
2008, o Mossad matou o líder do Hezbollah, Imad Mughnyiah, em Damasco.

Tramas de assassinatos, no entanto, não são exclusividade do serviço secreto de Israel. Durante o período da Guerra Fria (1945-1989),
países europeus, como o Reino Unido, e os Estados Unidos conspiraram para executar inimigos políticos no mundo. Em 1998, após os
ataques a embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, o então presidente Bill Clinton autorizou a captura e morte do terrorista Osama Bin
Laden.

Com os ataques terroristas do 11 de Setembro, tais métodos se tornaram mais frequentes na guerra contra o terror. As táticas de
espionagem são consideradas mais vantajosas do que a invasão de países, como aconteceu no Iraque, pois esta última acaba causando a
morte de civis. Porém, o assassinato planejado de inimigos em países estrangeiros nem sempre é simples, principalmente em um delicado
contexto político, ou moralmente fácil de se decidir, como mostrou a ação em Dubai.

TERREMOTO NO CHILE

Tremor é um dos mais violentos já medidos


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Michelle Bachelet, presidente do Chile,


visita moradia de emergência construída
para abrigar vítimas
O terremoto de 8,8 graus de magnitude na escala Richter que atingiu o Chile às 3h36 da madrugada de 27 de fevereiro de 2010 é
considerado a pior catástrofe natural do país nos últimos 50 anos e um dos cinco terremotos mais potentes desde o começo do século 20, de
acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Os tremores de terra atingiram sete das 15 regiões do Chile, matando 800 pessoas, danificando mais de 500 mil imóveis, pontes e viadutos,
e afetando cerca de 2 milhões de pessoas, o que corresponde a um oitavo da população de 16,6 milhões de habitantes.

O litoral chileno também foi devastado por tsunamis - ondas gigantes que se formam após um abalo sísmico.

O epicentro do terremoto foi localizado no mar, a 35 km de profundidade, na região de Male, que possui quase 1 milhão de habitantes. A
maior parte das vítimas fatais morava nessa região, incluindo a capital, Talca.

Santiago, capital do Chile, localizada a 325 km de distância do epicentro, também foi atingida e o aeroporto internacional teve de ser
fechado. O tremor foi sentido até no Brasil.

A cidade mais afetada foi Concepción, importante centro comercial e industrial do país, capital da segunda maior província chilena, Biobío,
composta de 12 comunas (cidades), com quase 900 mil habitantes.

Em Concepción foram registradas mais de 100 mortes, além de danos na infraestrutura. Sem água, luz ou comida, os moradores saquearam
e depredaram supermercados e entraram em conflito com a polícia. A desordem nas ruas levou o governo a decretar toque de recolher (ato
que proíbe os habitantes de ficarem nas ruas após determinado horário). O procedimento não entrava em vigor desde o fim da ditadura
militar chilena, em 1990.

Após o primeiro tremor, dezenas de outros abalos em escala menor - chamados réplicas - foram sentidos no Chile, a maior parte nas regiões
de Maule e Biobío.

Outro efeito foi uma onda de 2,34 metros de altura que devastou a cidade litorânea de Talcahuano, na província de Concepción. O alerta de
tsunami foi dado em outras ilhas do Pacífico.

Prejuízos
Estima-se que a tragédia tenha dado prejuízos da ordem de US$ 30 bilhões, ou quase 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do Chile, uma das
maiores economias da América Latina.

O terremoto comprometeu estruturas agrícolas e industrias do país, entre elas a indústria mineradora. Aos poucos, as fábricas retornaram às
atividades. O Chile é o maior exportador mundial de cobre.

A presidente Michelle Bachelet decretou "estado de catástrofe" nas regiões de Maule e Biobío, além de pedir ajuda à Organização das Nações
Unidas (ONU). De acordo com a Constituição chilena, as regiões sob estado de catástrofe passam a ser dirigidas pelo chefe da Defesa
Nacional, cargo indicado pelo presidente da República.

A medida também permite ao governo restringir a circulação de pessoas, mercadorias e informações, bem como adotar sanções em caráter
extraordinário. O Poder Executivo é obrigado a informar ao Congresso, que poderá suspender a medida no prazo de 80 dias, desde que as
razões que deram origem ao estado de catástrofe não existam mais.

Megaterremoto
O Chile tem um longo histórico de terremotos. Em 22 de maio de 1960, um tremor de magnitude 9,5 destruiu a cidade de Valdivia e matou
1.655 pessoas. Foi o maior terremoto já registrado na história desde a invenção de modernos instrumentos de sismologia, no começo do
século 20.

O tremor também provocou um tsunami que atingiu a Ilha de Páscoa, a 3.700 km da costa chilena. As ondas chegaram até o Japão, Havaí e
Filipinas. Desde 1973, ocorreram outros 13 terremotos de magnitude 7.0 ou maior.

Isso acontece porque o Chile está situado entre duas placas tectônicas: a Nazca, no Oceano Pacífico, e a Sul-Americana.

A crosta da Terra é formada por placas tectônicas separadas que deslizam lentamente sobre o manto terrestre. Esse movimento causa os
terremotos. Os abalos sísmicos acontecem nas franjas entre duas placas, chamadas falhas. As placas deslizam em direções opostas, abrindo
fendas, ou em movimentos verticais ou horizontais.

Terremotos de magnitude 8.0 são raros e acontecem em média uma vez ao ano. Eles são chamados de "megadeslizamentos" e acontecem
quando uma placa tectônica se afunda sobre a outra.

O terremoto chileno não foi mais forte que o de Sumatra, na Indonésia, em 2004, que chegou à marca de 9.1 na escala Richter e foi mais
destrutivo porque o tremor provocou um tsunami que matou 230 mil pessoas em 14 países. No Chile, o alerta de ondas gigantes, dado com
antecedência, permitiu que a população litorânea nas ilhas do Pacífico fosse avisada, o que não ocorreu no caso de Sumatra, no Oceano
Índico.

Haiti
O terremoto no Chile foi também 100 vezes mais potente que o ocorrido no Haiti, em 12 de janeiro de 2010, que registrou 7.0 graus na
escala Richter e matou aproximadamente 230 mil pessoas.

Mas por que, mesmo menor, o evento provocou mais destruição no Haiti? Primeiro, pelo fato de o terremoto no Chile ter ocorrido no mar, a
35 km de profundidade, enquanto que o haitiano teve o epicentro a 10 km da superfície, bem debaixo de centros urbanos, e a 25 km da
capital, Porto Príncipe.

Em segundo lugar, o Chile é um país preparado para lidar com terremotos. Localizado em um dos lugares do mundo mais propensos a
atividade sísmica, com grandes tremores a intervalos regulares de dez anos, o Chile possui prédios construídos com tecnologia anti-sísmica.

Além disso, a população é orientada sobre o que fazer em caso de emergência e existem equipes preparadas para agir após o colapso. Já o
Haiti não sofria uma catástrofe desse tipo há dois séculos.
Finalmente, há fatores socioeconômicos. O Haiti é um dos países mais pobres do mundo, enquanto o Chile é uma das nações mais
desenvolvidas da América Latina.

ELEIÇÕES NO IRAQUE

País decide nas urnas futuro sem Estados Unidos


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado em 29/7/10, às 18h08 A eleição parlamentar no Iraque, ocorrida no último dia 7 de março, foi a segunda e a mais importante
realizada desde a queda da ditadura de Saddam Hussein em 2003. O que está em jogo é a estabilidade política do país após a saída das
tropas americanas, ano que vem, em uma das regiões mais conflituosas do planeta.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Não será uma tarefa fácil. Primeiro, porque a sociedade iraquiana é formada por três grupos étnicos e religiosos que brigam entre si pelo
poder há séculos. Os árabes perfazem entre 75% e 80% da população, de 29 milhões de habitantes. Os curdos estão entre 15 e 20% desse
total. A principal religião é a mulçumana, dividida entre xiitas (60 a 65%) e a minoria sunita (32% a 37%). Os sunitas governaram o país
desde sua criação, em 1920, mas hoje têm pouca expressão política.

Por isso, independente de quem seja vencedor da eleição, a composição que governará o Iraque precisa oferecer representatividade a esses
diversos grupos religiosos e étnicos. Se não for assim, há o risco de insurreições e guerras, como ocorreram no passado.

Em segundo lugar, o país não possui nenhuma tradição democrática, assim como praticamente todo o Oriente Médio. Árabes votando é algo
raro em uma região pontuada por regimes ditatoriais e teocracias.

O Iraque é uma das civilizações mais antigas do mundo, que viveu séculos de ocupação estrangeira e guerras. Apesar de ser rico de
minérios, ele é hoje um dos países mais violentos do mundo, com problemas de corrupção e infraestrutura e serviços precários.

Era Saddam Husseim


Após quatro séculos de domínio do Império Otomano (1533-1918) e como colônia européia (1921-1958), o país sofreu sucessivos golpes de
Estado até que o partido do sunita Saddam Hussein chegou ao poder, em 1968.

Eleito presidente em 1979, Saddam ficou 24 anos à frente de uma das ditaduras mais sangrentas da região (ele foi responsabilizado pelo
massacre de 148 xiitas, ocorrido em 1982, após sofrer uma tentativa de assassinato).

Nesse período, o Iraque se envolveu em três guerras no Golfo Pérsico: a primeira contra o Irã (1980-1988), quando Saddam tinha apoio de
Washington; a segunda quando invadiu o Kwait (1990), a qual seguiram-se severos boicotes e sanções; e a terceira, quando foi invadido
Estados Unidos (2003).

Os Estados Unidos entraram no Iraque em 20 de março de 2003, com apoio do Reino Unido. Na ocasião, o governo de George W. Bush
(2001-2009) acusou Saddam Hussein de ligação com os atentados de 11 de Setembro e de possuir armas de destruição em massa, fatos que
nunca foram comprovados. O verdadeiro motivo da guerra seria garantir o controle das reservas de petróleo do Iraque (ver livro indicado
abaixo).

O ditador iraquiano foi deposto, capturado ao final daquele ano e condenado à morte em dezembro de 2006. Para os Estados Unidos, no
entanto, era apenas o começo de uma das guerras mais longas, caras e mortíferas, só perdendo para o conflito do Vietnã (1959-1975).
Somente a guerra do Iraque já custou US$ 711 bilhões aos cofres americanos e deixou um saldo de 4.700 soldados mortos, sendo 4.386
americanos.

Enquanto as tropas eram alvos de atentados terroristas no Iraque (ver filme indicado abaixo), escândalos como a justificativa fraudulenta
para a invasão e os abusos cometidos contra presos iraquianos na prisão de Abu Ghraib mancharam a imagem da Casa Branca perante o
mundo.

Isso começou a mudar com a posse de Barack Obama, em 2009. Obama assumiu o compromisso de retirar a maior parte dos combatentes
até 31 de agosto de 2010. No entanto, hoje há aproximadamente 96 mil soldados americanos no Iraque e metade desse contingente lá deve
permanecer, sendo removido gradualmente até 31 de dezembro de 2011. Somente depois disso, o Iraque conquistará de novo sua
independência.

Votação e atentados
No dia 7 de março, os iraquianos compareceram às urnas em meio a atentados terroristas. Ao menos 38 pessoas morreram e dezenas
ficaram feridas em 20 explosões que destruíram dois prédios na capital Bagdá. A fronteira com o Irã foi fechada e o exército foi mobilizado
para garantir a segurança dos eleitores.

Foi o segundo pleito desde a queda de Saddam. Em 30 de janeiro de 2005, os sunitas boicotaram as eleições, que terminaram com a vitória
de uma coalizão partidária xiita e a eleição, em 6 de abril, do líder curdo Jalal Talabani para a Presidência. Dessa vez, foi registrado maior
comparecimento entre as províncias de maioria sunita.

O país tem 18,9 milhões de eleitores e 60% votaram nesta última eleição, índice inferior a 2005 (75%). Eles irão escolher os 325 novos
integrantes do Parlamento e, possivelmente, um primeiro ministro e presidente.

Três grupos principais disputam os votos dos iraquianos. O atual premiê xiita Nouri al-Maliki, líder do Estado de Lei, é o favorito na corrida. O
principal rival é o ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, candidato da coligação Iraqiya, de xiitas e sunitas. Ambas as coligações partidárias são
de tradição secular, diferente da Aliança Nacional Iraquiana, de Moqtada al-Sadr, composta por xiitas religiosos. O maior risco seria esse
último grupo vencer, o que marginalizaria ainda mais os iraquianos sunitas.

Os resultados não devem diferir do governo atual, de xiitas governando com apoio dos curdos. Espera-se, porém, que haja mais participação
da minoria sunita.

Os desafios do novo governo serão atender população carente, garantir a segurança e a governabilidade após a saída das tropas americanas.
Se conseguir isso, o Iraque poderá ser uma das poucas nações árabes verdadeiramente democráticas da história.

GREVE DE FOME
Método de resistência pacífica existe há séculos
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A morte do cubano Orlando Zapata Tamayo, no dia 23 de fevereiro de 2010, depois de 85 dias em greve de fome, gerou críticas, no mundo
todo, ao regime comunista de Cuba. Zapata, 42 anos, era um dos mais importantes dissidentes políticos do país e estava preso desde 2003.
Ele iniciou o jejum para protestar contra as condições desumanas dos cárceres de Havana.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita a Cuba no dia seguinte à morte de Zapata, foi criticado por não se solidarizar com os presos
políticos, comparando-os a presos comuns. Foi a primeira morte de um dissidente cubano desde 25 de maio de 1972, quando o poeta Pedro
Luis Boitel não sobreviveu a 53 dias ingerindo apenas líquidos.

Outro opositor ao regime castrista, Guillermo Fariñas, 48 anos, iniciou greve de fome no dia 24 de fevereiro de 2010, em homenagem ao
companheiro morto e para pedir a libertação de 26 prisioneiros políticos doentes. Ele está hospitalizado em estado grave. Cuba possui 64
dissidentes presos, cumprindo penas que variam de 10 a 27 anos de prisão.

A greve greve de fome é um método de resistência pacífica, por meio do qual a pessoa deixa de consumir alimentos e até líquidos (como no
caso de Fariñas), até que suas reivindicações sejam atendidas. É uma das principais estratégias utilizadas por presos políticos para pressionar
autoridades, empregada, ao longo da história, por religiosos, políticos e ativistas de todo mundo.

Para que o jejum funcione, é preciso que haja publicidade do ato, ou seja, que o público tenha conhecimento do protesto. Mas é uma escolha
de alto risco: são grandes as chances de morrer de inanição ou contrair doenças incuráveis durante a abstinência. Ocorreram casos em que
governos recorreram à força para alimentar os grevistas.

Irlanda
A tradição da greve de fome é antiga. Ela remonta ao século 8, quando, na Irlanda, as pessoas cobravam dívidas e reparações de injúrias
jejuando na porta do autor da ofensa. A partir de 1917, republicanos e, anos mais tarde, o Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em
inglês), grupo católico que lutava pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido, adotaram a tática contra o governo britânico.

O caso mais famoso na Irlanda do Norte foi a morte de dez presos, em 1981, que jejuaram por um período que variou de 46 até 73 dias (ver
filmes indicados abaixo). Eles se rebelaram, em 1976, contra a revogação, pelo governo do Reino Unido, da categoria especial em que se
incluíam os presos políticos.

Um dos detentos, Bobby Sands, ex-comandante do IRA, chegou a ser eleito para a Câmara dos Comuns durante a greve, mas ele morreu
após 60 dias de jejum e virou um mártir da causa.

As greves desencadeadas tiveram como consequências a partidarização de movimentos nacionalistas irlandeses e uma crise no governo da
primeira-ministra Margareth Thatcher (1979-1990). Somente após a morte de dez prisioneiros e violentas manifestações nas ruas, o governo
inglês atendeu parcialmente às exigências do grupo.

Gandhi
A Índia é outro país com histórico de greve de fome. O mais famoso líder político a praticar jejum foi o Mahatma Gandhi(1869-1948),
primeiro contra a colonização britânica e pela independência da Índia e, em seguida, pela união de hindus e muçulmanos.

Para Gandhi, a abstenção era uma forma de exercer a desobediência civil e a não violência como caminho para a revolução. Os ingleses
temiam a repercussão internacional que a morte do líder indiano causaria, mas Gandhi nunca jejuou por mais de 21 dias.

Ficaram famosas também as greves das sufragistas no começo do século 20. Elas lutavam pelo direito ao voto das mulheres no Reino Unido
e nos Estados Unidos. Muitas morreram ao serem alimentadas à força nas prisões.

Já durante a era Bush, presos de Guantánamo em greve de fome foram alimentados utilizando-se uma sonda nasal que ia até o estômago, o
que foi caracterizado como tortura.

Ditadura
No Brasil, durante o período da ditadura (1964-1985), presos políticos amotinaram-se em favor da anistia. Uma das greves de fome mais
simbólicas da época aconteceu em 1979 e envolveu dezenas de prisioneiros em todo país (ver livro indicado abaixo).

A greve durou 32 dias e terminou com a aprovação da Lei de Anistia pelo Congresso Nacional, em 22 de agosto do mesmo ano.

Em dezembro de 2007, o bispo de Barra (BA), dom Luís Flávio Cappio, ficou 24 dias em jejum contra o projeto do governo federal de
transposição do rio São Francisco. Em novembro de 2009, o italiano Cesare Battisti ficou 10 dias sem comer para contestar uma eventual
extradição do país. O caso, aliás, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, que foi favorável à extradição, aguarda decisão do presidente da
República.

Agonia
Mas quanto tempo o corpo humano suporta a falta de alimentos? A resistência depende de dois fatores: a quantidade de gordura corporal da
pessoa e as técnicas usadas pelos grevistas. Alguns, como no caso dos irlandeses, em 1981, conseguiram suportar o suplício por mais tempo,
ingerindo água e uma colher de sal.

Em geral, depois de três ou cinco dias o jejum começa a oferecer riscos à saúde. O corpo humano, na falta de glicose, passa a consumir a
gordura corporal para produzir energia. No processo, o organismo gera maior quantidade de cetona, um composto tóxico. Uma característica
evidente dessa condição é o hálito adocicado.

Quando a concentração de cetona torna-se muito elevada na corrente sanguínea, pode correr a cetoacidose, que, em alguns casos, traz
complicações que podem ser fatais.

Após três semanas, ou quando a perda corporal passa de 18%, há redução do metabolismo. Depois de gastar toda gordura corporal, o corpo
utiliza músculos e órgãos vitais para sobreviver. Em outras palavras, o homem consome a si próprio até a morte.

Em média, o jejum é fatal depois de 60 dias após o início. Alguns grevistas, no entanto, sobrevivem por mais de 100 dias, mantendo uma
dieta que inclui vitaminas, líquidos, sal e açúcar não refinado.

O cubano Guillermo Fariñas foi internado em 11 de março de 2010, após sofrer um ataque de hipoglicemia (um dos efeitos da cetoacidose). É
sua 23ª greve de fome, desde 1995.

TRIBUNAL DO JÚRI

Saiba como atua a instituição que julgou os Nardoni


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado 29/03/2010, às 9h41

Terminou após cinco dias um dos julgamentos mais importantes da história recente do país. Sem a confissão dos réus ou testemunhas, o
Ministério Público conseguiu provar, com base em provas técnicas da perícia criminal, que Isabella Nardoni, 5 anos, foi morta na noite de 29
de março de 2008 pelo pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O júri popular aceitou a tese da acusação de que a menina foi asfixiada por Anna Carolina e atirada pelo próprio pai, ainda com vida, do 6º
andar do edifício London, zona norte de São Paulo. A defesa alegava que havia uma terceira pessoa no apartamento, o que não foi
comprovado. O julgamento durou cinco dias - de 22 a 26 de março - e atraiu uma multidão ao Fórum.

O casal foi condenado por homicídio triplamente qualificado, ou seja, assassinato cometido por meio cruel (asfixia mecânica), sem dar
chances de defesa à vítima e com tentativa de ocultação do crime.

Alexandre Nardoni foi condenado a 31 anos, 1 mês e 10 dias de prisão e Anna Carolina, a 26 anos e 8 meses, ambos em regime fechado. As
penas foram aumentadas pelos agravantes da vítima ter menos de 14 anos e, no caso de Nardoni, de ele ser o pai. Também foi acrescentada
à condenação 8 meses de prisão em regime semiaberto, para cada um, pelo crime de fraude processual, em razão de eles terem tentado
limpar a cena do crime.

De acordo com a sentença proferida pelo juiz Maurício Fossen, o assassinato foi motivado pelo "desequilíbrio emocional" do casal, que
demonstrou uma "frieza emocional e uma insensibilidade acentuada."

Os dois só poderão requerer o benefício do regime semiaberto após cumprirem dois quintos da pena. No regime semiaberto o condenado
pode trabalhar fora do presídio e só retorna à noite. Eles estão presos em penitenciárias de Tremembé, no interior paulista.

Outros casos
No dia 12 de março de 2010, o cartunista Glauco Villas Boas e seu filho, Raoni, foram mortos pelo estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes,
que confessou o crime e foi preso. Em outubro de 2008, Lindemberg Fernandes Alves matou Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, depois de
invadir um apartamento e fazer reféns por mais de 100 horas, em Santo André, no ABC paulista.

Outro crime famoso envolveu Suzana von Richthofen, que em outubro de 2002 tramou a morte dos pais junto com os irmãos Daniel e
Cristian Cravinhos. Os pais foram mortos a pauladas enquanto dormiam, em uma mansão na cidade de São Paulo. Os três foram condenados
a pena de até 39 anos de prisão em regime fechado.

Nos anos 1990, a morte da atriz Daniela Perez chocou os brasileiros. Ela foi assassinada pelo também ator Guilherme de Pádua, com ajuda
da mulher, Paula Thomaz. O casal foi condenado a 19 anos de prisão.

Depois do julgamento, a mãe de Daniela, a autora de novelas Glória Perez, iniciou uma campanha que fez com que o homicídio qualificado
fosse incluído na lei dos crimes hediondos, em 1994.

Jurados
O julgamento do casal Nardoni evidenciou o papel do Tribunal do Júri. No Brasil, casos de homicídios dolosos são levados a júri popular. Isso
significa que quem dá o veredicto a respeito da inocência ou culpabilidade dos acusados são pessoas comuns, pré-selecionadas e escolhidas
por sorteio para compor o júri. Ao juiz cabe conduzir os trabalhos e determinar a sentença.

A origem do júri popular remonta a tradições gregas e romanas. O júri moderno foi estabelecido na Inglaterra, em 1215, quando o Concílio
de Latrão aboliu as Ordálias ou Juízes de Deus. Logo depois, foi adotado na França, como forma de contestar a monarquia absolutista.

A Justiça brasileira acolheu o padrão francês. Uma das diferenças, em relação ao inglês, é que a decisão é por maioria simples, não unânime.

No Brasil, o júri foi instituído em 18 de junho de 1822, por determinação do príncipe regente d. Pedro 1º. No começo, tinha função exclusiva
de julgar crimes de imprensa. A partir da Constituição Imperial de 1824, passou a ter atribuições do Poder Judiciário, para receber ações
cíveis e criminais.

O modelo atual vigora desde a Constituição de 1946, que estabelece, entre outras funções, a exclusividade para julgar crimes dolosos contra
a vida (homicídios simples e qualificado, infanticídio, aborto e incentivo ao suicídio), sendo que o júri precisa ser composto por número ímpar
de membros e a votação deve ocorrer em sigilo. A lei também garante, constitucionalmente, a soberania do veredicto do júri.

O Tribunal do Júri é composto por um juiz de direito, que preside o julgamento, e sete jurados, que compõem o Conselho de Sentença.

Os jurados são voluntários ou alistados pelo juiz-presidente da Comarca entre cidadãos maiores de 21 anos de idade. Eles são escolhidos de
grupos cujo número de componentes varia de região para região: de 800 a 1.500 cidadãos (em comarcas com mais de um milhão de
habitantes), de 300 a 500 (em comarcas com mais de 100 mil habitantes) e de 80 a 400 (em comarcas com população inferior ao último
número). Da mesma forma que votar, ser jurado é uma obrigação.

Os jurados não podem ter antecedentes criminais nem parentesco com os demais integrantes do tribunal, como juiz, promotor, advogados,
além do(s) réu(s) e vítima(s).

Em cada processo são sorteados 25 nomes. Os escolhidos devem comparecer ao Fórum na data do julgamento. Pouco antes do início da
sessão, são sorteados os nomes de sete que farão parte do Conselho de Sentença. A defesa e a acusação podem recusar até três jurados
sem apresentar justificativa.
Os jurados não podem conversar entre si sobre o caso e ficam confinados, sem contato externo, até o final do julgamento (que pode durar
uma semana, como no caso Isabella). Eles também não recebem nenhuma compensação financeira pelo serviço.

Passo a passo
O julgamento é público, mas, nos casos em que há risco de perturbação da ordem, pode ser realizado a portas fechadas e limitando o acesso
de pessoas. A defesa dos réus é feita por um advogado, e a acusação, por um integrante do Ministério Público.

Pouco antes do julgamento, os jurados recebem cópias do processo para ler. Com o início dos trabalhos, são ouvidos depoimentos de
testemunhas convocadas pela defesa e pela acusação; e, em seguida, os réus são interrogados. Os jurados também podem fazer perguntas
por meio do juiz.

Na sequência, ocorrem os debates, em que acusação e defesa têm uma hora e meia para exporem seus argumentos, com direito a réplica e
tréplica de uma hora cada. Se houver mais de um réu, o temo é acrescido em uma hora e dobrado para a réplica e a tréplica.

Por fim, o júri se reúne na sala secreta onde responde a um questionário formulado pelo juiz. O voto de cada jurado é secreto. Eles recebem
cédulas contendo as palavras "sim" e "não", que são depositadas em urna.

As questões a serem respondidas tratam da materialidade do fato, da autoria ou participação dos réus, se os acusados devem ser absolvidos
e, por último, se há agravantes ou atenuantes do crime. O veredicto é decidido por maioria simples, isto é, quatro votos contra três.

Se os réus forem absolvidos, deixam o Fórum livres, caso não estejam presos por outros motivos. Sendo considerados culpados, o juiz fixa a
pena de acordo com o Código Penal e manda prender os réus ou os devolve à prisão.

De acordo com as mudanças no Código Penal relativo ao Tribunal do Júri, em 9 de junho de 2008, os réus não teriam mais direito a um
protesto por um novo júri. O recurso era válido para pena igual ou superior a 20 anos. Como o assassinato de Isabella aconteceu antes da lei
entrar em vigor (março do mesmo ano), há uma discussão jurídica se eles teriam ou não direito ao recurso.
CENSURA À INTERNET

Google fecha as portas na China comunista


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Além da Grande Muralha real, a China


conta também com uma muralha virtual
A decisão do Google de encerrar as atividades do serviço de busca na China comunista, em razão da censura imposta pelo governo chinês à
internet, resulta de um embate entre gigantes que deve alterar as relações de poder no mundo globalizado.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

De um lado da arena está o Google, detentor do mecanismo de buscas mais popular da internet e uma das marcas mais valiosas do planeta.
O site foi criado nos anos 1990, nos Estados Unidos, por dois estudantes de ciência da computação, Larry Page e Sergey Brin, e tornou-se
sinônimo da nova economia mundial.

No lado oposto, a China, que em 2010 deve tornar-se a segunda maior potência econômica, ultrapassando o Japão e atrás somente dos
Estados Unidos. Apesar de seguir a economia de mercado, o país é governado pelo Partido Comunista Chinês há mais de 60 anos e o regime
mantém censura aos meios de comunicação, persegue dissidentes políticos e restringe as liberdades civis.

A internet representa a maior revolução social desde a invenção dos tipos móveis, de Gutenberg, no século 15. Diferente de outros meios de
comunicação, a tecnologia não possui um centro hierárquico de comando, o que dificulta o controle. Por isso, governos autoritários como a
China desenvolveram complexos sistemas de bloqueio para filtrar o conteúdo da rede.

O sistema de censura chinês é um dos mais eficientes do mundo. Ele é chamado de "Grande Firewall da China", em alusão à Grande Muralha.
Todo conteúdo da rede é checado pelo Departamento de Informação e Propaganda do governo.

Ataque de hackers
Após quatro anos de atividades, o Google anunciou, no dia 22 de março de 2010, que não aceitaria mais a censura imposta às buscas de
usuários chineses no site. Com isso, o serviço foi redirecionado para Hong Kong, um dos mais importantes centros financeiros do planeta.

Hong Kong é uma região administrativa federal dotada de autonomia em relação ao governo chinês, exceto em assuntos de defesa e política
externa. Desse modo, usufrui de certa democracia, ainda que limitada.

Em janeiro, o Google já havia anunciado rever as operações em território chinês. O motivo foi o ataque de hackers de que foi alvo, junto com
outras 20 empresas estrangeiras que operam na China. Os hackers invadiram contas de ativistas de direitos humanos. O ataque teria partido
de Pequim.

O regime comunista obrigava o site de buscas a censurar determinados assuntos, principalmente os que faziam referências a "democracia" e
"direitos humanos". Pesquisas com as palavras "Tiananmen", praça em que ocorreu o massacre de estudantes chineses em 1989, ou "Tibete"
e "Taiwan", regiões em que o governo comunista enfrenta forte oposição política, resultam em páginas com informações deturpadas ou
simplesmente bloqueadas.

A China é um dos únicos países no mundo em que o Google perde para um concorrente local, o Baidu, que detém 60% do mercado.

Ranking
A China possui o maior número de usuários da rede, com 360 milhões de internautas (26,9% da população), de acordo com dados do
Internet World Stats. Em nove anos - de 2000 a 2009 - o crescimento foi de 1.500%.

Em segundo lugar no ranking encontramos os Estados Unidos, com 227,7 milhões de usuários (74,1% da população). O Brasil ocupa o quinto
lugar, com 67,5 milhões (34% da população). A China também registra o maior número de pessoas presas por crimes digitais no mundo: 72.
Segundo relatório recente da ONG Repórteres Sem Fronteiras, os países que mais violam a liberdade de expressão na internet são: Arábia
Saudita, Birmânia, China, Coreia do Norte, Cuba, Irã, Uzbequistão, Síria, Tunísia, Turcomenistão e Vietnã.

Outros países avançam com propostas de teor restritivo, como a Austrália, que, sob a alegação de combater a pedofilia e o tráfico de drogas,
quer proibir não só o acesso a alguns sites, mas também o anonimato na rede.

Legislação
A internet se tornou palco de lutas pelo poder político, envolvendo interesses de Estados e de empresas, bem como os direitos de expressão
e de livre acesso a informações da sociedade. A disputa possui dois pólos bem distintos: num deles está a censura por governos autoritários,
seja por meio de mecanismos sofisticados, como na China, ou utilizando imposições de ordem econômica, como em Cuba. No outro está o
conteúdo livre a que qualquer pessoa tem acesso, inclusive para prática de crimes virtuais.

Há, no entanto, uma terceira opção, que é a definição de regras de uso que, ao mesmo tempo em que garantam a liberdade, também
prescrevam medidas punitivas para os crimes em rede.

Neste sentido, o Brasil demonstra um avanço com o Marco Regulatório Civil da Internet, um anteprojeto do governo federal. Na primeira
fase, uma consulta popular online recolheu mais de 800 sugestões de internautas. O objetivo é criar uma legislação específica para assuntos
como anonimato na rede, privacidade e liberdade de expressão.

Estado, sociedade e empresas podem aprender a conviver com os avanços tecnológicos seguindo uma lição básica da internet: em
comunicação, o que prevalece é o diálogo.

DIREITOS AUTORAIS

Lei da propriedade intelectual faz 300 anos


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Três séculos atrás, em 10 de abril de 1710, entrou em vigor no Reino Unido a primeira lei dos direitos autorais. Ela marcou o início da era da
propriedade intelectual, que garantiu aos criadores a devida remuneração pelas obras, desenvolveu a indústria do entretenimento e
contribuiu para o progresso da arte e da ciência modernas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

No final do século 20, porém, a internet começou a mudar as relações entre autores, consumidores e meios de comunicação. A própria ideia
de autor, uma das bases da modernidade, tornou-se mais complexa. Com isso, a questão é saber por quanto tempo mais sobreviverão, na
forma como existem hoje, as leis que protegem a propriedade intelectual.

Direito autoral - ou copyright, em inglês - é o direito que um autor possui sobre uma obra original (um livro, uma música, um filme ou um
software), incluindo a reprodução, comercialização, distribuição e adaptação da obra. O copyright pode ainda ser transferido ou licenciado. O
autor de histórias em quadrinhos, por exemplo, pode vender os direitos de adaptação de um personagem para o cinema.

A proteção da propriedade intelectual, contudo, tem um prazo definido por lei. No Brasil, de acordo com a lei de número 9.610, de 1998,
esse prazo é de 70 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano após a morte do autor ou, no caso de produtos audiovisuais e fotografias,
a partir do ano de divulgação. Nos Estados Unidos, o prazo é maior: 95 anos.

Terminado o período, a obra passa a ser de domínio público, ou seja, torna-se patrimônio cultural da sociedade. Por este motivo, as obras
completas de Machado de Assis e Fernando Pessoa, por exemplo, podem ser lidas integralmente na internet, sem violar a lei do copyright
(ver site indicado abaixo). Recentemente, a partir de janeiro de 2010, entraram em domínio público as obras do fundador da Psicanálise,
Sigmund Freud.

Cada país possui legislação própria sobre direitos autorais, assim como as penalidades referentes à violação da lei. Existe ainda um acordo
internacional sobre a questão, conhecido como Convenção de Berna, que possui 164 países signatários. O tratado foi assinado em 1886, na
cidade de Berna, na Suíça, e revisado pela última vez em 1971, em Paris.

A Convenção de Berna permitiu que o copyright fosse respeitado em âmbito internacional. Antes, um escritor que publicasse um livro em seu
país de origem poderia ter a obra "pirateada" no exterior.

Tratado de Anne
A primeira lei de direitos autorais foi promulgada no Reino Unido em 1710, conhecida como Tratado de Anne, em referência à rainha Anne
(1665-1714). A lei decorreu da necessidade de o governo regular o comércio de livros e da falta de estímulos para escritores comporem
novas obras.

A invenção da imprensa, no século 15, permitiu a distribuição de cópias em massa de materiais impressos. Por outro lado, a divulgação de
informações nem sempre favoráveis aos regimes autoritários da época obrigou o Estado e a Igreja a elaborarem mecanismos de controle.

Para se imprimir e comercializar um livro, era preciso ter uma licença do rei. O direito sobre a obra era do livreiro, e o autor não tinha
qualquer incentivo à criação. Desde a Idade Média e o Renascimento, pintores e músicos dependiam de papas, monarcas ou mecenas para
sobreviver. Poucos viviam da própria arte.

O Tratado de Anne mudou esse panorama. A lei inglesa foi a primeira a contemplar os direitos de propriedade artística. O prazo de proteção
de direitos sobre livros e cópias era de 14 anos, renovados por mais 14 se o escritor continuasse vivo após o término do primeiro termo,
totalizando 28 anos. Além disso, estabelecia 21 anos de copyright para qualquer livro já impresso. A violação do tratado previa multas e a
destruição das cópias não autorizadas, do mesmo modo como acontece hoje.

Depois do Tratado de Anne, surgiram outras leis nos Estados Unidos e na Europa. No século 19, a noção de propriedade intelectual foi
estendida para abranger mapas, desenhos, fotografias, músicas, pinturas e esculturas. Já no século 20, foram incluídos cinema, dança,
arquitetura e programas de computadores.

Cultura digital
No final do século 20, a era digital começou a colocar em xeque o conceito de direitos autorais devido a três fatores referentes ao produto, ao
consumidor e ao meio de comunicação. Primeiro, o processo de digitalização propiciou a reprodução de obras com a mesma qualidade que o
original. A cópia digitalizada de um CD tem a mesma qualidade técnica que o original; diferente, por exemplo, da antiga cópia de um LP em
fita cassete.

Em segundo lugar, a popularização de computadores pessoais, de interfaces gráficas mais acessíveis, e o desenvolvimento de softwares
fizeram surgir consumidores que também são produtores de conteúdo. Eles se apropriam de obras, transformam-nas e as divulgam na
internet.

Por último, novas tecnologias de comunicação facilitaram a distribuição de produtos em alta velocidade, mudando a percepção que os
usuários têm dos direitos autorais. Sistemas de compartilhamento de arquivos como o P2P (peer-to-peer, ou redes ponto-a-ponto) fizeram
com que produtos protegidos por copyright fossem distribuídos aos milhões, sem que um centavo fosse pago.

A indústria fonográfica foi a mais afetada pela cultura digital. Atualmente, boa parte dos artistas prefere divulgar as músicas gratuitamente
na internet e ganhar dinheiro com shows. No cinema, cópias piratas são comercializadas às vezes antes mesmo do lançamento oficial do
filme. O mercado editorial, por enquanto, é o que sofreu menos prejuízos, em razão de o livro ainda ser uma tecnologia insuperável e muitos
leitores não terem se adaptado à leitura em telas.

Futuro do copyright
Na prática, houve uma mudança do que se entende por direito autoral. O problema é que a legislação vigente não contempla essa nova
realidade. Aos olhos da lei, tanto um camelô que vende cópias piratas de "Avatar" quanto um adolescente com o computador repleto de
músicas "baixadas" da internet são infratores. Do mesmo modo, artistas que utilizam técnicas de remixagem ou mashups (aplicações que
combinam dois ou mais serviços e conteúdos online), além dos usuários de sites como YouTube, por exemplo, também infringem essas leis.

Nesses casos, ao invés de incentivar o conhecimento, como o fez o Tratado de Anne, o copyright agiria como uma barreira à liberdade de
criação.

Na batalha pelos direitos autorais, empresas e companhias entendem que os governos deveriam ser mais rígidos, identificando usuários que
compartilham arquivos online, para que sejam punidos. Nos tribunais, as indústrias do cinema e da música se uniram contra os responsáveis
pelo The Pirate Bay, um dos maiores sites de compartilhamento de arquivos no mundo. Em abril de 2009, eles foram condenados pela Justiça
sueca.

Outros entendem que a internet é um território livre que não comporta mais o conceito de propriedade intelectual, conforme definido pelas
leis atuais. Os direitos autorais deveriam, deste modo, ser flexibilizados para fins não comerciais. Uma das propostas nesse sentido foi a
criação, em 2001, do Creative Commons, uma licença que permite a cópia e alteração de obras, desde que não sejam comercializadas e que
seja dado o devido crédito aos autores.

De qualquer forma, o direito autoral, fundamental na sociedade de consumo e de massa, precisa se adaptar à sociedade em rede para
continuar sendo um importante aliado dos autores, não um empecilho à criatividade.
BRASÍLIA: 50 ANOS

Nova capital levou desenvolvimento ao interior do


país
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O Eixo monumental visto da Torre de TV


de Brasília
Atualizado em 22/04/2010, às 16h11 A inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, é considerada um marco na história brasileira, tão
importante quanto a Independência (1822) ou a Proclamação da República (1889). A criação da capital promoveu o desenvolvimento do
interior do país e concentrou o poder político longe dos principais centros urbanos.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Brasília foi erguida no meio do cerrado, em menos de quatro anos, a partir de uma concepção modernista de urbanismo e arquitetura. A
cidade foi o ápice do projeto desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961), conhecido pelo lema "Cinquenta
anos em cinco".

Mas a ideia da cidade é antiga. José Bonifácio, o Patriarca da Independência, foi o primeiro a sugerir o nome Brasília para a nova capital do
país, em 1823. A primeira constituição republicana, de 1891, previa a mudança da capital do Rio de Janeiro para uma região no Planalto
Central. Para isso, foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893), liderada pelo astrônomo belga Luiz Cruls - amigo do
imperador d. Pedro 2º, então no exílio -, que explorou a região.

Anos depois, em 1954, o governo de Café Filho (1954-1955) nomeou a Comissão de Localização da Nova Capital Federal (1954), comandada
pelo marechal José Pessoa, para dar continuidade aos trabalhos. O território que abrigaria a futura capital do país era conhecido como
Quadrilátero Cruls, em homenagem a Luiz Cruls. Tinha dimensões de 160 por 90 quilômetros quadrados e situava-se a mil quilômetros de
São Paulo e Rio de Janeiro.

A proposta do governo, com a transferência da capital para o cerrado goiano, era explorar as riquezas da região central do país.

Veja vídeo: Como surgiu o traçado da capital do país.

Polêmica
O Distrito Federal foi o primeiro passo no sentido de equilibrar as diferenças de um país dividido entre o litoral - populoso, urbanizado e
industrializado - e o interior - despovoado, pobre e sem infraestrutura. Junto com a capital surgiram estradas como a Belém-Brasília,
importante ligação com a região Norte do país.

Juscelino Kubitschek, o JK, foi alvo de muitas críticas na época, principalmente por parte de políticos do Rio de Janeiro, que temiam perder
influência e poder com a transferência da capital, pois a cidade era capital federal desde a implantação da República, em 1889, e foi capital
da colônia desde 1763.

Para JK, entretanto, a mudança era também estratégica. O ambiente político da segunda metade dos anos 50 era permeado pela tensão da
Guerra Fria (1945-1989). De um lado, havia o receio de os militares darem um golpe - e, de outro, o de estourar uma revolução comunista
como a ocorrida em Cuba, em 1959. No ano anterior à eleição de JK, Getúlio Vargas se suicidara no Palácio do Catete (sede do governo, no
Rio de Janeiro).

JK esperava cumprir o mandato estando longe das agitações populares e do clima de instabilidade no Rio de Janeiro. O isolamento do poder
em Brasília, para alguns especialistas, acabaria contribuindo para formar uma classe política que, distante da pressão popular, estaria mais
sujeita à corrupção.

Juscelino defendia a proposta desde 1946, quando era deputado constituinte. E a cidade apareceu como meta de número 31 (a meta-síntese)
no Plano de Metas de seu governo.

Foi no primeiro comício como candidato da coligação PSD-PTB, cinco dias após deixar o governo do Estado de Minas Gerais para concorrer à
Presidência, que JK fez a promessa de construir Brasília. Era 4 de abril de 1955, no município de Jataí, sertão goiano. Após o discurso, um
eleitor perguntou se o candidato mudaria a capital, conforme previsto na Constituição. JK respondeu: "Cumprirei na íntegra a Constituição.
Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital".

Niemeyer
Juscelino Kubitschek foi eleito em 3 de outubro 1955, com 33,82% dos votos. Para cumprir a promessa de campanha, escolheu o arquiteto
Oscar Niemeyer para projetar as principais edificações da cidade. Niemeyer já era conhecido internacionalmente, e alguns dos projetos
arquitetônicos que fez para Brasília tornaram-se símbolos do país, como o Congresso, o Palácio do Planalto, o Palácio da Alvorada e a
Catedral.

O segredo da arquitetura de Niemeyer é a sofisticação da obra aliada a um elemento intuitivo, que permite que ela seja apreciada por
qualquer pessoa. São soluções criativas que parecem simples - como o desenho dos "pratos" invertidos do Congresso -, mas que são ricas de
detalhes.

Para escolher o Projeto Piloto foi realizado um concurso entre 12 e 16 de março de 1957. Foram apresentados 26 projetos. O júri escolheu a
planta cujo formato parecia o de um avião, do urbanista e arquiteto Lucio Costa.

Com o projeto em mãos, foi criada uma empresa, a Novacap, e empregado um contingente de 60 mil trabalhadores para a construção. Os
operários, a maioria formada por nordestinos, acabaram se fixando na cidade. Eles trabalhavam dia e noite para erguer, no nada, a capital
futurista num prazo recorde de 43 meses.

Cofres públicos
Não se sabe exatamente quanto foi gasto na construção de Brasília. A maior parte das verbas não foi contabilizada em registros bancários ou
comprovantes fiscais. O governo também não fez, à época, uma estimativa oficial.

O ex-ministro da Fazenda de Café Filho, Eugênio Gudin, adversário político de JK, estimou os custos em US$ 1,5 bilhão. Em valores
atualizados, o orçamento seria de US$ 83 bilhões, seis vezes mais do que o previsto para as Olimpíadas do Rio, a serem realizadas em 2016.
Para captar recursos, o governo emitiu mais dinheiro e foram feitos empréstimos no exterior. Isso deixou uma conta salgada para o país, na
forma de inflação alta e dívida externa.

A despeito disso, Brasília progrediu. A cidade tinha 140 mil habitantes em 1960 e em 2010 são estimados 2,6 milhões de brasilienses vivendo
na capital. Enquanto o PIB (Produto Interno Bruto) do país cresceu, em média, 4,8% entre 1961 e 2000, o Distrito Federal teve aumento de
57,8% no mesmo período.

A combinação de empregos públicos e altos salários faz de Brasília a cidade com o maior PIB per capita do país, R$ 40.696, quase três vezes
maior que a média nacional - e superior a São Paulo (R$ 22.667) e Rio de Janeiro (R$ 19.245), de acordo com dados do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística).

Juscelino conseguiu cumprir o mandato, mas os presidentes que o sucederam - Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-1964) - não
tiveram a mesma sorte. Em 1964, um golpe militar mergulhou o país numa ditadura que duraria mais de vinte anos.

Eleito senador pelo Estado de Goiás, em 1962, JK teve os direitos políticos cassados dois anos depois. Morreu em 1976, num acidente de
carro na via Dutra. Deixou como legado uma utopia modernista concretizada no meio do sertão. Brasília ainda seria palco do fim da ditadura
militar (1985), do impeachment de Collor (1992), da eleição de um operário (Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003) para a presidência da
República e de muitos escândalos de corrupção.

EVOLUÇÃO HUMANA

Fóssil fornece novas pistas sobre a origem da


espécie
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Até um século e meio atrás, a explicação para a origem do homem era religiosa: a espécie humana havia sido criada à imagem e semelhança
de Deus. Essa ideia começou a ruir quando Charles Darwin (1809-1882) formulou a teoria da evolução das espécies, segundo a qual o
homem, assim como todos os seres vivos, é resultado de um longo processo evolutivo.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Quando publicou Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida, em 1859,
Darwin evitou falar na evolução do homem. O livro tratava das mudanças sofridas por diferentes organismos para se adaptarem ao meio
ambiente e sobre o surgimento de novas espécies. As ideias de Darwin já eram escandalosas o suficiente para os padrões vitorianos da
época. Por isso, ele quis evitar um confronto ainda maior com os dogmas religiosos, o que aconteceria se aplicasse sua teoria à espécie
humana.

A ousadia coube a seu maior discípulo, Thomas Henry Huxley (1825-1895), que concluiu, de acordo com a teoria da evolução, que o homem
descendia de primatas. Anos depois, Darwin publicou A descendência do homem (1871), em que afirmava que nossos parentes mais
próximos eram os gorilas e os chipanzés, e que as provas seriam descobertas na África, continente habitado por diferentes espécies de
primatas.

Isso não significa que os macacos evoluem e se transformam em homens, mas que homens e macacos são descendentes de espécies em
comum que deram origem a diferentes linhagens. De uma dessas linhagens surgiram os macacos, tal como existem hoje. De outra, apareceu
o homem.

Árvore genealógica
No século 20, descobertas científicas comprovaram a teoria de Darwin. Foram encontrados fósseis de diferentes espécies primatas e, com
base na análise de cadeias de DNA, foi possível traçar uma árvore genealógica da espécie humana.

Sabemos hoje que o ancestral mais antigo do homem vivia na África, há sete milhões de anos. Sabemos também que a evolução humana
não foi linear, mas comportou vários chamados "galhos secos", ou seja, espécies que foram extintas no caminho. E que, além disso,
diferentes espécies de homem chegaram até a coexistir na mesmo época (ver filme indicado abaixo).

Desde que o primeiro fóssil de um ancestral do homem foi encontrado na Alemanha, em 1856, três anos antes da publicação de A origem
das espécies, os cientistas traçam a linha evolutiva de dois gêneros distintos de hominídeos: o Australopithecus ("macaco do sul"), que
representa a transição entre o macaco e o homem, e o Homo, ou gênero humano.

Porém, há diversas lacunas nessa história. Não se sabe, por exemplo, como a espécie Homo sapiens (que pertence ao gênero Homo), da qual
faz parte o homem moderno, conseguiu sobreviver em relação às demais, ou como desenvolveu o pensamento abstrato e a linguagem.

A própria origem do gênero Homo é controversa. Especialistas acreditam que ele teria se desenvolvido de uma espécie do Australopithecus,
como, por exemplo, a Australopithecus afarensis, à qual pertence o fóssil "Lucy", descoberto em 1974, e a Australopithecus africanus. Mas
qual seria o "elo" entre as espécies dos dois gêneros?

Antepassados
Uma importante peça desse quebra-cabeça foi encontrada. Cientistas anunciaram, na revista Science, de 8 de abril de 2010, a descoberta de
dois fósseis de 2 milhões de anos, na África do Sul, que seriam de uma nova espécie de hominídeo, a Australopithecus sediba. Para os
cientistas, essa espécie seria o elo entre uma espécie do gênero Australopithecus - a Australopithecus africanus - e espécies do gênero
Homo, a Homo habilis ou a Homo erectus, que são consideradas linhagens diretas do homem atual. Seria, portanto, o "elo perdido" entre o
homem e o macaco.

Os fósseis são de um jovem macho, de aproximadamente 13 anos de idade, e de uma fêmea adulta, com cerca de 30 anos. Eles foram
encontrados em uma caverna localizada perto de Johanesburgo, maior cidade da África do Sul, pelo filho de 9 anos de idade do antropólogo
americano Lee Berger, durante uma prospecção de fósseis. O local onde ocorreram os achados, chamado sítio de Malapa, é estudado desde
1935.

O que sustenta a hipótese dos cientistas é que os esqueletos possuem tanto características de macaco quanto de homem. A espécie tem
braços longos e cérebro pequeno, como os de um macaco, e pernas compridas, pélvis robusta e dentes pequenos, como os de um humano.

A hipótese, porém, precisa ser comprovada. Para isso, os cientistas irão verificar se os fósseis apresentam traços de DNA, além de estudar o
ambiente em que viviam. Outros especialistas discordam e acham que a descoberta pode ser de uma espécie de Homo extinta - e, deste
modo, não seria ancestral do homem moderno, mas apenas uma prima distante.

Mesmo que os fósseis de Malapa não resolvam o mistério da origem do Homo, sua correta classificação irá acrescentar um retrato a mais no
álbum de família dos primatas, o que nos permitirá conhecer mais sobre nossas origens.

IMPOSTO DE RENDA

Por que a carga tributária é tão alta no Brasil?


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
No dia 30 de abril de 2010 termina o prazo para se entregar a declaração do imposto de renda referente a 2009. Esse imposto é apenas um
dos tributos que, segundo estimativas de 2007 do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), obrigam o brasileiro a trabalhar 146
dias por ano (4 meses e 26 dias) somente para sustentar o Estado.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Apesar disso, os tributos são essenciais para o desenvolvimento de um país. Com o dinheiro do imposto de renda, por exemplo, o governo
federal repassa verbas para estados e municípios aplicarem nas áreas de saúde, educação, habitação, transportes e segurança pública, além
de financiarem programas sociais de distribuição de renda para a parcela mais pobre da população.

Nenhuma outra relação entre sociedade e governo é mais concreta e, ao mesmo tempo, mais problemática do que essa, que afeta o bolso
das pessoas. Por isso, os impostos também estão entre as causas de revoltas populares na história, como a Inconfidência Mineira (1789), a
Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789).

Carga tributária
Tributos são pagamentos obrigatórios, definidos por lei, que todo cidadão deve fazer ao governo. Eles podem ser de três tipos: a) impostos,
que são arrecadações sem destinação específica e que podem recair sobre a renda (imposto de renda), sobre bens (IPVA e IPTU) ou sobre o
consumo (IPI ou ICMS); b) taxas, que são cobranças sobre a prestação de um serviço público, como a coleta de lixo; e c) contribuições, que
podem ser de melhoria, como o "imposto sobre o cheque" (CPMF), supostamente destinado à área da saúde, ou especiais, que possuem
destinação específica, como as contribuições ao PIS/Pasep e ao INSS.

Hoje, no Brasil, temos mais de 70 tributos (federais, estaduais e municipais) diferentes em vigor. A quantidade de impostos pagos pelo
contribuinte, segundo especialistas, torna complexa a administração, dificulta ao cidadão saber exatamente como é feita a cobrança e
estimula a sonegação e o trabalho informal.

A soma de impostos, taxas e contribuições pagos pela população ao governo é chamada carga tributária ou fiscal. Em 2009, a carga
tributária brasileira correspondia a 35,02% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com estudo do IBPT. Isso significa que, para cada R$
100,00 gerados no país, R$ 35,20 ficam com o Estado.

Mesmo com uma queda de 0,14 ponto percentual em relação a 2008, que foi de 35,16%, o índice de tributos pagos é comparável ao dos
países mais ricos no mundo. A carga tributária brasileira é superior à das duas maiores economias mundiais, Estados Unidos (25,77%) e
Japão (26,28%); e inferior à carga tributária de países europeus como Suécia (51,35%, a maior do mundo), Dinamarca (49,85%) Bélgica
(46,85%) e França (45,04%).

Em geral, a carga tributária em países europeus é maior em decorrência de uma política baseada em princípios da social-democracia,
segundo os quais o Estado consome mais recursos porque oferece serviços públicos gratuitos para a população, como educação e saúde.
Ocorre o oposto em países de tradição política mais liberal, como os Estados Unidos, por exemplo, que somente este ano, e depois de muita
discussão, aprovou o sistema de saúde universal, que não existia antes.

Estado inflacionado
Um dos problemas com os impostos no Brasil é que, ao mesmo tempo em que o país tem uma carga tributária de padrões europeus, possui
indicadores econômicos de países pobres e serviços públicos de péssima qualidade. Isso sem falar na diferença de renda entre a população
brasileira e a europeia. A Suécia, por exemplo, possui uma renda per capita de US$ 36,8 - três vezes maior que a do Brasil, que é de US$
10,2. Ou seja, os tributos pesam mais no bolso do cidadão brasileiro do que no bolso do europeu, sem que o brasileiro receba, em troca,
serviços públicos com a mesma qualidade.

O inchaço do Estado brasileiro ocorreu em dois momentos diferentes na história recente: durante os anos 1960, sob vigência do regime
militar e do chamado milagre econômico, e a partir dos anos 1990, após a redemocratização do país, nos governos de Fernando Henrique
Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No primeiro caso, o aumento de tributos ocorreu em razão da necessidade de se desenvolver a infraestrutura do país, com estradas e usinas
hidrelétricas. Nessa época, a carga tributária pulou de 17,4% para 26% no prazo de uma década (1960-1970). No segundo período, a
arrecadação teve como finalidade corrigir graves problemas sociais, elevando de 25,2%, em 1991, no governo de Fernando Collor de Mello
(1990-1992), para atingir os índices atuais de 35%. Contribuíram para isso, também, o fim da inflação e a estabilidade econômica.

Impostos
O primeiro imposto de renda foi cobrado na Inglaterra, em 1799, com a finalidade de gerar recursos para a guerra contra Napoleão
Bonaparte. No Brasil, a Coroa portuguesa cobrava 20% (o quinto) de todo ouro encontrado no país, o que teria originado a expressão "quinto
dos infernos".

A primeira cobrança de impostos no Brasil aconteceu em 1843, mas vigorou por apenas dois anos - eram poucos os contribuintes e era difícil
fazer a arrecadação num país tão extenso. Houve novas tentativas durante o Império e a República, até que o imposto de renda foi instituído
legalmente em 31 de dezembro de 1922.

Os impostos podem ser diretos ou indiretos. Os diretos são aqueles arrecadados com base em rendimentos (imposto de renda) ou
patrimônios (IPVA para carros e IPTU para imóveis). São os mais transparentes e fáceis de se calcular e saber quanto se paga por eles.

Já os impostos indiretos taxam a produção e comercialização de produtos e serviços. As empresas pagam para o governo e, na medida em
que podem, embutem o custo no valor dos produtos. Pagamos por estes impostos toda vez que fazemos compras no supermercado ou na
feira, quando compramos um carro ou pagamos contas de luz, água e telefone.

Os impostos indiretos são mais fáceis de serem cobrados, fiscalizados e aprovados pelo Congresso. Eles respondem por quase metade da
arrecadação do governo: 49,7%, de acordo com dados de 2006 da Receita Federal. É uma distorção grande. Em países ricos, como a renda
dos contribuintes é maior, a contribuição provém de impostos diretos. Nos Estados Unidos, os impostos indiretos perfazem apenas 17% da
receita. Na Suécia, 20%.

Nos países pobres, entretanto, onde a tributação direta requer não somente maior renda dos contribuintes como maior fiscalização e recursos
para a Receita Federal, os governos optam pelos impostos indiretos. Só que poucos países têm um Estado com as dimensões do brasileiro.

Distorções
O problema desses impostos é que eles tornam as mercadorias mais caras, estimulando desde os famosos sacoleiros que trazem muambas
do Paraguai até o mercado informal de camelôs. Para o setor industrial e empresarial, a tributação excessiva torna os produtos brasileiros
mais caros e, por isso, menos competitivos no mercado externo, encarecem o maquinário e estimulam a sonegação fiscal.

Os tributos indiretos, além disso, não trazem justiça social. Enquanto que, com o imposto de renda, os ricos pagam mais que os pobres, no
imposto indireto ocorre o oposto. Vamos imaginar um DVD que custe R$ 150 e que metade deste valor, R$ 75, seja referente a impostos
federais e estaduais. Para alguém que ganha um salário mínimo (R$ 510), o valor gasto com impostos corresponde a 14,7% da renda
mensal, ao passo que, para um brasileiro que recebe dez salários mínimos, o percentual será de 1,47 %.

Somente uma reforma tributária corrigiria as distorções, reduzindo a carga tributária, mantendo (ou mesmo aumentando) a arrecadação do
governo e beneficiando empresas e trabalhadores. A reforma, porém, esbarra em políticos que relutam em abrir mão dos ganhos no país, em
estados e municípios. Por isso, todas as propostas de reformas foram paralisadas no Congresso.

Líderes mundiais discutem redução do arsenal


atômico
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) foi fundada, em 1945, duas bombas atômicas - lançadas nas cidades japonesas de
Hiroshima e Nagasaki, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) - colocaram o mundo pela primeira vez diante da ameaça da
aniquilação total.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Nas quatro décadas e meia seguintes, a Guerra Fria e a corrida armamentista trouxeram o risco de um ataque nuclear em larga escala
envolvendo dois blocos políticos e econômicos antagônicos, os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Para a geração pós-11 de
Setembro, o terrorismo, os acidentes em usinas nucleares e o enfrentamento entre países do Oriente Médio conferiram atualidade à política
de desarmamento nuclear.

Em abril de 2010, Estados Unidos e Rússia, antes os principais protagonistas da Guerra Fria, assinaram um novo Tratado de Redução de
Armas Estratégicas (Start, na sigla em inglês) que irá reduzir em um terço os arsenais nucleares de ambos os países. Juntas, as duas nações
detêm 90% de todas as bombas atômicas existentes no mundo. Foi o mais importante acordo desse tipo nos últimos vinte anos.
No dia 3 de maio de 2010, começou em Nova York (EUA) a 8ª Conferência das Partes de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas
Nucleares (TNP), com duração até o dia 28 de maio. O objetivo da reunião é revisar o tratado, criado em 1967 e efetivado em 1970, que visa
diminuir, de maneira gradual, o armamento atômico, bem como promover o uso pacífico da energia nuclear.

As reuniões de revisão do tratado acontecem a cada cinco anos. O pacto original previa um limite de duração de 25 anos para suas
propostas, mas os países signatários decidiram, em 1995, ampliar e estender indefinidamente o acordo.

Participam da cúpula líderes e representantes dos 189 países signatários do TNP mais Taiwan (país reconhecido como território chinês pela
ONU), incluindo cinco potências nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

Polêmica
Coreia do Norte, Israel, Índia e Paquistão não assinaram o documento e, por isso, não participam do encontro. Índia e Paquistão são,
confirmadamente, potências nucleares. Israel não admite nem nega, porém, a comunidade internacional aponta que o país tem, pelo menos,
200 artefatos nucleares. A Coreia do Norte realiza, desde 2009, testes que teriam propósitos militares, intimidando a vizinha (e rival) Coreia
do Sul. Os norte-coreanos chegaram a assinar o TNP, mas se retiraram em janeiro de 2003.

Os países não signatários argumentam que o tratado, que impede que os Estados desenvolvam tecnologia nuclear com fins militares, dividiu
o mundo entre países que podem possuir armas nucleares - pois já as tinham antes da assinatura, em 1967 - e outros, que não podem ter.

De fato, o TNP faz distinção entre países "nuclearmente armados", definidos como aqueles que já haviam fabricado ou testado armas
nucleares antes do tratado, e países "não nuclearmente armados". O artigo 1º impõe aos signatários do primeiro grupo a proibição de
repassar tecnologia, enquanto os artigos 2º e 3º exigem que as nações do segundo grupo se comprometam a não fabricar nem possuir
armas atômicas e, ainda, se submeterem ao controle e fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Todos, porém,
devem se comprometer com negociações que levem ao desarmamento nuclear total (artigo 4º).

Mais polêmico é o Protocolo Adicional de 1997, que prevê medidas de fiscalização consideradas invasivas em países "não nuclearmente
armados". O protocolo permite que a AIEA faça uma blitz com aviso prévio de duas a 24 horas em locais que não estavam previstos antes
pelo tratado, como centros de pesquisas e usinas. Os especialistas da agência também podem recolher amostras de água, terra e ar para
identificar um possível programa nuclear militar clandestino.

A adesão voluntária ao protocolo será um dos temas da conferência de 2010. Países reconhecidos como potências atômicas (Estados Unidos,
China, Rússia, França e Reino Unido), que são desobrigados de terem suas instalações inspecionadas, pressionam as demais nações para que
acatem os termos do Protocolo Adicional, que já foi ratificado por 93 dos 189 integrantes da TNP.

Brasil
O Brasil é signatário do TNP desde 18 de setembro de 1998, mas não do Protocolo Adicional. Conforme disse o ministro das Relações
Exteriores, Celso Amorim, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o motivo é que o governo brasileiro considera prioritário o
desarmamento das potências atômicas, não os compromissos que países desarmados devem assumir para evitar a proliferação.

A Constituição brasileira possui uma cláusula pétrea (artigo que não pode ser alterado) que determina o uso de energia nuclear apenas para
fins pacíficos. Além disso, assinou em 1991 um acordo junto com a Argentina que permite a fiscalização da ONU.

O Brasil domina a tecnologia de extração e enriquecimento de urânio para produção de energia nuclear. Nos anos 1970 e 1980, durante a
vigência de regimes militares, Brasil e Argentina cogitaram produzir bombas atômicas, o que poderia desencadear uma corrida armamentista
na América Latina. Esse é um risco atual no Oriente Médio.

Irã
O maior embate diplomático da Conferência das Partes de Revisão do TNP se dará entre Estados Unidos e países do Oriente Médio, uma das
regiões mais conflituosas do planeta. De um lado, os Estados Unidos e a ONU pressionam o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para
que permita a vistoria nas instalações do programa nuclear iraniano, que, suspeita-se, tenha objetivos militares. Uma das propostas da
cúpula se refere à adoção de novas sanções a Teerã.

Para o governo americano, o Irã pode provocar uma corrida armamentista na região. Existem hoje no mundo 430 usinas nucleares em
funcionamento, nenhuma delas na região do Golfo Pérsico. A razão é que os países do Oriente Médio são ricos em petróleo, o que tornava
supérfluo o investimento em outra fonte de recursos energéticos. Além disso, havia o perigo de países islâmicos possuírem armamentos
atômicos que poderiam cair nas mãos de radicais. O governo de Israel já destruiu reatores no Iraque, em 1981, e na Síria, em 2007.

Mas esse panorama deve mudar nos próximos anos. Motivados pela demanda econômica por energias alternativas e pela ameaça do Irã,
todos os países do Oriente Médio, com exceção do Líbano, anunciaram programas nucleares. Irã e Síria, nações que não mantém relações
amistosas com a Casa Branca, iniciaram a construção de usinas. Turquia, Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Barhain e Emirados Árabes, entre
outros, anunciaram projetos de construções de complexos nucleares para os próximos anos.

No outro lado do tabuleiro, o Egito lidera um grupo que pressiona Israel, aliado dos Estados Unidos, para que se torne signatário do tratado e
atenda à proposta de criação de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. Israel impõe como condição para isso um amplo
acordo de paz na região.

Segundo estimativas do Boletim de Cientistas Atômicos, o mundo possui, em 2010, 23.574 artefatos nucleares, contra 32.512 em 2000. A
Rússia vem em primeiro lugar, com 12.987, seguida dos Estados Unidos (9.552), França (300), Reino Unido (192) e China (176), incluindo
estimativas em relação a Israel (200), Paquistão (90), Índia (75) e Coreia do Norte (2).

Acordos bilaterais como os firmados entre Estados Unidos e Rússia e o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares ajudaram a reduzir os
arsenais. A falta de instrumentos mais precisos de identificação de programas clandestinos e sanções mais enérgicas contribuem para criar
outro pólo de tensão nuclear no Oriente Médio.

CRISE DO EURO

Endividada, Grécia protagoniza drama fiscal na


Europa
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Os violentos protestos de rua na Grécia e a queda nas bolsas de valores do mundo, reflexos da crise fiscal do país, podem ser comparados a
réplicas do terremoto que devastou as finanças mundiais há dois anos. O "marco zero" dessa crise econômica mundial foi a falência do Banco
Lehman Brothers, nos Estados Unidos, em setembro de 2008.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Para evitar que a Grécia entrasse em colapso e levasse junto alguns países da Europa, o que alastraria a crise pelo mundo, ministros das
Finanças da União Europeia (UE) aprovaram, em 9 de maio de 2010, um fundo emergencial inédito de 750 bilhões de euros (R$ 1,7 trilhão).
Um terço do total dos recursos é proveniente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas como um país pequeno (pouco menor que o Estado do Amapá), de 10,6 milhões de habitantes, considerado o berço da civilização
ocidental, se tornou de repente uma ameaça aos mercados financeiros internacionais?

O endividamento da Grécia é resultado de duas irresponsabilidades: a fiscal, do governo, e a especulativa, dos bancos.

Um modo fácil de entender isso é comparar com o orçamento doméstico. Qualquer dona de casa sabe que precisa equilibrar as contas entre
os gastos com a família (alimentação, vestuário, contas a pagar etc.) e os rendimentos. A regra é não gastar mais do que se ganha. Quando
isso não acontece, contraímos dívidas.

Foi o que aconteceu com a Grécia. O país gastou muito além do que seu orçamento permitia nos últimos dez anos - em programas sociais, na
folha de pagamento dos servidores públicos (um em cada três gregos é funcionário público) e em pensões ou outros benefícios. Para pagar
as contas da casa, o Estado adquiriu empréstimos com instituições bancárias.

Para piorar a situação, a crise do mercado imobiliário dos Estados Unidos, em 2008, que afetou o mundo todo, também atingiu o bolso dos
gregos, resultando em desemprego e na consequente queda na arrecadação de impostos.

Para reduzir os custos, o governo do primeiro ministro George Papandreou anunciou um pacote que congela os salários, reduz as pensões e
aumenta os impostos. Foram essas medidas que provocaram a greve geral, manifestações de sindicalistas e estudantes nas cidades gregas,
e enfrentamentos com a polícia. No pior dia, 5 de maio, três pessoas morreram em um banco incendiado em Atenas por manifestantes.

Europa
O déficit no orçamento, isto é, a diferença de quanto o país gasta e quanto arrecada, correspondia a 13,6% do Produto Interno Bruto (PIB)
grego em 2009. O índice é mais de quatro vezes a porcentagem tolerada na Zona do Euro, de 3%. (A expressão "Zona do Euro" se refere a
um grupo de 16 países europeus que adotaram o euro como moeda, há dez anos.)

A dívida da Grécia, em maio de 2010, é de 300 bilhões de euros (o equivalente a R$ 700 bilhões). Até o final de 2010, a Comissão Europeia
estima que a Grécia terá 124,9% do PIB em dívidas públicas. Isso significa que as contas a pagar superam toda a riqueza produzida pelo
país. O limite da UE é de 70% de dívida pública.

Porém, o que tornou inevitável a ajuda para resgatar a economia grega foi o risco de um efeito dominó. A crise poderia atingir outros países
da Zona do Euro, que também estão em condições fiscais debilitadas, como Irlanda (déficit de14,3% do PIB), Espanha (11,2%) e Portugal
(9,4%).

Os déficits orçamentários desses países europeus, que tiveram de socorrer a economia injetando recursos públicos durante a crise e sofreram
queda de receitas, são os piores desde o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Antes mesmo da crise a Europa já vinha num
crescente processo de endividamento, devido aos gastos com bem-estar social e ao envelhecimento da população, que gera despesas com
saúde e previdência.

A crise financeira somente agravou a crise fiscal em curso, além de desvalorizar o euro frente ao dólar.

Soluções
O plano de ajuda para recuperar o euro foi anunciado no mesmo dia em que a União Europeia completou 60 anos de criação. Em 9 de maio
de 1950, França e Alemanha assinaram um acordo para evitar novas guerras mundiais, conhecido como Plano Schuman. Hoje, a UE possui
27 países em parcerias econômicas e políticas.

O caso da Grécia, no entanto, revelou fragilidades do bloco. Faltam mecanismos mais eficientes de controle de especulação bancária e
fiscalização das contas de países membros. O grupo também levou dois meses para decidir ajudar os gregos. Em parte, isso se deve ao preço
político cobrado dos governantes nas urnas: os europeus estão cansados de financiar, com dinheiro público, a má gestão de alguns governos
e a irresponsabilidade de investidores.

Para a Grécia e outros países equilibrarem as contas públicas, não haverá outra saída senão "cortar na própria carne", aumentando impostos
e eliminando gastos (com redução de salários e aposentadorias, por exemplo).

Para piorar, isso ocorre no momento em que as economias estão se recuperando. Países também endividados têm que assumir mais dívidas
para cobrir o rombo em Atenas. É como se um doente, tentando se curar de uma pneumonia, pegasse uma gripe.
INCÊNDIO NO INSTITUTO BUTANTAN

Brasil perde um século de pesquisa


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Foi como se uma biblioteca com livros raros ou um museu desaparecessem em meio ao fogo. Na manhã do dia 15 de maio de 2010, em
pouco mais de duas horas, um incêndio destruiu milhares de espécimes da Coleção Científica de Serpentes, Aranhas e Escorpiões
(Herpetológica e Aracnológica) do Instituto Butantan, localizado na zona oeste de São Paulo.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O galpão destruído pelo fogo continha mais de cem anos de pesquisa em diversas áreas. A coleção era considerada uma verdadeira memória
da biodiversidade brasileira. A tragédia, porém, serviu de alerta para a preservação de outros museus de zoologia existentes no país.

A causa do incêndio teria sido um curto-circuito provocado por uma sobrecarga elétrica. Na noite anterior, a chave geral do prédio fora
desligada para manutenção e religada de manhã. Os animais estavam mortos e armazenados em potes de vidro, preservados com formol ou
álcool. O material inflamável contribuiu para que o fogo se alastrasse rapidamente e destruísse completamente o local.
O acervo de aproximadamente 85 mil exemplares de cobras foi parcialmente destruído. Era a maior coleção de serpentes do mundo. Cerca
de 450 mil espécimes de aranhas e escorpiões também foram atingidos pelo fogo. Boa parte do patrimônio, coletado desde o início do século
passado, não havia sido descrito pelos biólogos. Ou seja, eram animais que sequer tinham sido classificados. Estavam lá também espécies
raras, extintas ou ameaçadas.

Alguns organismos eram os primeiros classificados de sua espécie - os chamados holótipos - e serviam, portanto, de referência para
pesquisadores de todo país. Sem a coleção, cientistas perderam anos de pesquisa acadêmica.

O acervo era ainda um registro da colonização do Estado de São Paulo e da geografia do país. As cobras, enviadas por cientistas e pela
população rural, estavam catalogadas conforme a região em que tinham sido capturadas. Muitos animais eram provenientes de áreas hoje
desmatadas.

História
O Instituto Butantan é um dos maiores centros de pesquisa do país e importante produtor de soros e vacinas. Foi criado pelo médico
sanitarista Vital Brazil (1865-1950) e instalado na Fazenda Butantan, localizada às margens do rio Pinheiros. A terra foi comprada pelo
governo do Estado em 24 de dezembro de 1899.

Brazil queria fundar um laboratório de pesquisa e produção de vacinas semelhante ao instituto de Louis Pasteur (1822-1895), na França. Na
época, o aumento da população urbana e a migração eram acompanhados de surtos de doenças em São Paulo e no Rio de Janeiro. A ciência
também havia descoberto a causa de doenças infecciosas e surgiram as vacinas. A peste bubônica, por exemplo, chegou ao país pelo porto
de Santos, no litoral paulista, em 1899. Foi esse surto de peste que motivou a abertura da instituição.

Em 1901 foram produzidos os primeiros lotes de soro antiofídico, descoberto por Vital Brazil. O soro é o único medicamento eficaz contra
picadas de cobras venenosas e salvou milhares de vidas na zona rural. Após deixar a direção do Butantan, em 1919, o sanitarista fundou o
Instituto Vital Brazil, em Niterói, no Rio de Janeiro.

Hoje, o Instituto Butantan é responsável pela produção de vacinas contra a gripe H1N1 no Brasil e desenvolve pesquisas para descobrir a
cura para doenças como a Leishmaniose e o mal de Chagas.

Proteção
O prédio onde a coleção do Butantan estava armazenada havia sido construído nos anos de 1960 e não dispunha de sistema automático de
combate a incêndio, apenas extintores comuns.

A falta de cuidados com a preservação de acervos científicos ameaça outros museus de zoologia. Segundo especialistas, o Museu de Zoologia
da Universidade de São Paulo (MZ-USP), que possui um acervo estimado em 10 milhões de exemplares de animais, e o Museu Nacional do
Rio de Janeiro (MNRJ) estão em situações semelhantes.

Os curadores do Instituto Butantan chegaram a enviar à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em dezembro de
2009, um projeto de melhorias avaliado em R$ 1 milhão. O projeto incluía um sistema de detecção de fumaça, alarme e contenção de
incêndio. Não houve tempo para que o processo fosse finalizado pela Fapesp.

Os pesquisadores desconhecem ainda a proporção exata do que foi destruído no incêndio. Os livros de tombo, que possuem todos os
registros da coleção desde 1901, foram salvos porque estavam em outro prédio.

Dois dias depois do acidente, estagiários descobriram espécimes da coleção de holótipos intactos em um armário fechado dentro do galpão,
assim como parte do acervo de aranhas. Mas como o prédio foi interditado pelo Corpo de Bombeiros, devido ao risco de desabamento, não
foi possível fazer um levantamento completo.

FICHA LIMPA

Congresso aprova lei proposta pela iniciativa popular


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Plenário do Senado Federal durante a


aprovação do projeto Ficha Limpa
A aprovação do Projeto de Lei Ficha Limpa no Senado, ocorrida no dia 19 de maio de 2010, foi considerada um avanço na política brasileira,
no sentido de criar mecanismos para combater a corrupção no país. O projeto de lei, que foi elaborado por cidadãos comuns, só entrou na
pauta de votações neste semestre e recebeu aval do Congresso devido à pressão popular, o que demonstra a rejeição do brasileiro aos
políticos desonestos.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O Projeto Ficha Limpa torna mais rigorosos os critérios que impedem políticos condenados pela Justiça de se candidatarem às eleições.
Apesar de ter recebido emendas na Câmara dos Deputados e no Senado que amenizam seu impacto, ele contribui para mudar o
comportamento da classe política.

A medida vai atingir políticos condenados por crimes graves, cuja pena de prisão é superior a dois anos, e aqueles que renunciarem o
mandato visando escapar do processo de cassação.

Falta definir se a norma será válida para as eleições de outubro deste ano, que irão eleger presidente, governadores, deputados federais e
estaduais e senadores. Também se discute se políticos já condenados pela Justiça perderão o direito de se candidatar ou se a lei só irá valer
para os que receberem sentenças a partir da vigência das novas regras.

Pressão popular
A proposta chegou ao Congresso por meio do Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLP), que é quando o projeto tem origem na sociedade
civil.

Existem cinco tipos de propostas de leis que são apreciadas pelo Poder Legislativo: emenda constitucional, projeto de lei complementar, lei
delegada, decreto legislativo e resolução. Cada iniciativa possui ritos próprios dentro das Casas legislativas e depende de um número mínimo
de votos para ser aprovada.

No caso do Projeto Ficha Limpa, trata-se de uma lei complementar. Esse tipo de projeto é feito para complementar ou regular uma regra já
estabelecida pela Constituição Federal de 1988. Para ser aprovado, precisa de votos da maioria absoluta da Câmara dos Deputados e do
Senado.

Os projetos de lei complementar e ordinária podem ser apresentados por um deputado ou um senador, por comissões da Câmara ou do
Senado, pelo presidente da República ou pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por Tribunais Superiores e pelo procurador-geral da
República.

Um caminho mais difícil é ser apresentado pelo cidadão, por meio do Projeto de Lei de Iniciativa Popular. Para isso, é preciso a assinatura de
1% dos eleitores brasileiros distribuído por, no mínimo, cinco unidades da Federação. Em cada Estado e no Distrito Federal é necessário o
apoio mínimo de 3% do eleitorado.

A proposta do Ficha Limpa foi encaminhada à Câmara dos Deputados pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) em setembro
de 2009. Foram coletadas mais de 1,6 milhão de assinaturas. A campanha começou em abril de 2008.

O que diz a lei


O Projeto Ficha Limpa altera a Lei Complementar nº 64 de 1990. Esta lei, atualmente em vigor, estabelece critérios de impedimento para a
candidatura de políticos, de acordo com a Constituição. O objetivo, segundo o texto, é proteger a "probidade administrativa" e a "moralidade
no exercício do mandato".

O Ficha Limpa proíbe que políticos condenados por órgãos colegiados, isto é, por grupos de juízes, se candidatem às eleições. Pela lei atual, o
político ficaria impedido de se candidatar somente quando todos os recursos estivessem esgotados, o que é chamado de decisão transitada
em julgado. O problema é que o trâmite pode demorar anos, o que acaba beneficiando os réus.

Um processo cível ou criminal começa a ser julgado no Fórum da cidade, onde acontece a decisão de primeira instância, que é a sentença
proferida por um juiz. Se houver recurso, o pedido é analisado por juízes do Tribunal de Justiça dos Estados. Há ainda a possibilidade de
apelar a uma terceira instância, que pode ser tanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) quanto, em se tratando de artigos da Constituição, o
Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com a Lei Complementar nº 64, somente quando esgotados todos esses recursos o político que responde a processo poderia ser
impedido de se candidatar.

Já o Projeto Ficha Limpa torna inelegível o réu que for condenado por um grupo de juízes que mantiver a condenação de primeira instância,
além daqueles que tiverem sido condenados por decisão transitada em julgado.

Quando ao prazo de inegibilidade, ele varia hoje de acordo com a infração cometida e o cargo ocupado pelo político. Com as alterações do
Ficha Limpa, o prazo é de oito anos após o fim do mandato, incluindo as eleições que ocorrerem durante o restante do mandato do político
condenado, e independe do tipo de crime cometido.

Outra mudança diz respeito aos crimes que tornam o político inelegível, caso condenado. O Ficha Limpa mantém todos os delitos previstos na
lei em vigor (como crimes eleitorais, contra a administração pública e tráfico), e inclui outros, tais como: crimes contra o patrimônio privado,
contra o meio ambiente e saúde, lavagem e ocultação de bens, crimes hediondos e praticados por organização criminosa.

Eleições de outubro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 15 dias para sancionar o projeto. Se a lei for sancionada até dia 9 de junho, antes do início das
convenções partidárias para escolher os candidatos (10 de junho), as regras poderão valer já para as próximas eleições.

No entanto, somente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai decidir, após (e se houver) a sanção, se as regras serão válidas para as eleições
de outubro ou apenas a partir das eleições municipais de 2012.

O artigo 16 da Constituição diz que uma lei só pode mudar o processo eleitoral se ela for promulgada um ano antes das eleições. Isso quer
dizer que, se o Ficha Limpa altera esse processo, ele só será considerado para o pleito de 2012. Porém, se a sanção ocorrer antes das
convenções partidárias e os magistrados entenderem que, assim, a legislação não fere a Carta Magna, será aplicado neste ano.

Polêmicas
Segundo especialistas, emendas na proposta, feitas pelo Congresso, amenizaram o impacto da redação inicial do Ficha Limpa.

Talvez a alteração mais importante seja aquela referente ao dispositivo de "efeito suspensivo" de recursos. De acordo com essa emenda, um
político condenado em segunda instância por um órgão colegiado pode apelar junto ao STF e conseguir a suspensão do recurso. Entretanto,
essa medida dará mais agilidade ao processo, que terá prioridade na tramitação.

O texto original do Ficha Limpa também foi abrandado na Câmara dos Deputados, no artigo relativo à condenação do político. De acordo com
o projeto apresentado, o político ficaria impedido de concorrer às eleições se fosse condenado na primeira instância. Com a emenda
parlamentar, a inegibilidade é aplicada somente em decisão colegiada ou de última instância.

No Senado, foi apresentada uma emenda que determina que a proibição de candidaturas só vale para sentenças proferidas após a lei ser
editada. A mudança na redação substituiu o tempo verbal: de "sido condenados" para "forem condenados". Ou seja, somente políticos que
forem condenados depois da Lei Ficha Limpa entrar em vigor serão impedidos de disputar as eleições, de acordo com a interpretação de
alguns especialistas.

Políticos como o deputado Paulo Maluf (PP-SP), que não poderia se candidatar às eleições deste ano segundo o Ficha Limpa, poderão fazer
isso graças à emenda feita ao projeto.

Na prática, o Projeto Ficha Limpa afeta um quarto dos deputados e senadores que respondem a inquéritos ou ação penal no STF. Porém, a lei
sozinha não basta. As urnas ainda são a melhor forma de barrar os maus políticos.
DESASTRE AMBIENTAL

Consequências do vazamento de petróleo no golfo


do México
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A mancha negra que se estende sobre o Oceano Atlântico, numa área equivalente a onze vezes a cidade do Rio de Janeiro, é a imagem da
maior catástrofe ambiental da história dos Estados Unidos. O vazamento de petróleo cru e de gás no golfo do México causou, além de danos
ao meio ambiente, perdas econômicas e políticas para o governo de Barack Obama. E como todas as tentativas de conter o vazamento
falharam, a mancha deve se alastrar por mais um mês, agravando a situação.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O acidente também obrigou o governo norte-americano a revisar as políticas de energia e a regulamentação do setor petrolífero que explora
o óleo mineral em águas profundas. É uma discussão que também interessa ao Brasil, que deve definir em breve as regras de exploração do
petróleo na camada pré-sal.

Na noite de 20 de abril de 2010, uma explosão na plataforma Deepwater Horizon, arrendada pela empresa British Petroleum (BP), matou 11
funcionários. Dois dias depois, a plataforma afundou a aproximadamente 80 quilômetros da costa da Louisiana, sul dos Estados Unidos. O
petróleo começou a vazar da tubulação rompida a 1,5 quilômetro da superfície do mar, formando uma enorme mancha que se aproxima do
litoral americano. Desde então, o óleo vem prejudicando a fauna marinha, o turismo e a pesca na região.

Pela sua extensão, este foi considerado o pior vazamento de petróleo da história dos Estados Unidos. Estimativas iniciais do governo e da
empresa BP apontavam o derramamento de 5 mil barris de petróleo cru por dia, o equivalente a 800 mil litros. No dia 27 de maio, porém,
devido ao alerta de cientistas, foi verificado um volume muito maior: de 12 a 25 mil barris diários.

A quantidade acumulada é quase três vezes maior que o vazamento do navio petroleiro Exxon Valdez, ocorrido no Alasca em 24 de março de
1989, até então considerado o mais grave em águas norte-americanas. Na ocasião, foram espalhados 250 mil barris (40,9 milhões de litros)
de petróleo cru no mar, provocando a morte de milhares de animais. Tudo indica que, desta vez, a catástrofe será maior para o ecossistema.

Pelicanos
O Departamento de Pesca dos Estados Unidos emitiu um boletim alertando para os danos causados a animais marinhos do golfo, tanto pelo
petróleo quanto por produtos tóxicos usados na limpeza. Segundo o documento, os componentes químicos causam irritações, queimaduras e
infecções na pele. A ingestão pode trazer problemas ao aparelho gastrointestinal, danificar órgãos e, a longo prazo, levar à morte.

Entre os animais em risco está a ave-símbolo do Estado de Louisiana, o pelicano marrom. O santuário da espécie - a ave só recentemente
saiu da lista de animais ameaçados de extinção - foi atingido pelo petróleo. Toda vez que o pelicano marrom mergulha atrás de peixes, ele
fica com as penas cobertas de óleo; desse modo, não consegue regular a temperatura corporal e morre de hipotermia.

Quatro espécies de tartarugas marinhas, além de golfinhos, cachalotes, camarões e outros crustáceos e peixes (o golfo do México é um dos
únicos viveiros, no mundo, do atum rabilho) estão entre as espécies ameaçadas. O plâncton, inclusive, organismo que está na base da cadeia
alimentar marinha, não sobrevive em contato com o petróleo.

A mancha de petróleo colocou em alerta toda área costeira de Louisiana e das regiões vizinhas da Flórida, do Mississipi e de Alabama. O
acidente também afetou a indústria pesqueira, os serviços, o comércio e até o turismo, uma vez que as praias ficaram sujas de óleo. A pesca
comercial e recreativa foi proibida. O motivo, segundo o governo, é proteger a população do consumo de moluscos contaminados com
componentes cancerígenos do petróleo.

Criadores de camarão tiveram a atividade suspensa e abriram processos judiciais contra a BP. A Louisiana é o maior Estado produtor de
camarões nos Estados Unidos.

Somados, os prejuízos para a economia podem chegar a mais de US$ 1,6 bilhão (R$ 2,9 bi), de acordo com especialistas. O Estado de
Louisiana ainda gastou cerca de US$ 350 milhões (R$ 638,9 milhões) em barreiras de contenção.

Há 31 anos, o ecossistema do golfo do México foi afetado por um acidente semelhante. Em 3 de junho de 1979, a plataforma Ixtoc I explodiu
na baía de Campeche, a 100 quilômetros da costa mexicana. Foram derramados entre 10 e 30 mil barris de petróleo por dia, até que a
tubulação foi tampada em 23 de março 1980. Traços de petróleo ainda eram visíveis três anos depois da tragédia.

Exploração
Todas as tentativas da BP para conter o vazamento falharam: a empresa tentou injetar uma mistura de lama e cimento na tubulação, colocar
uma capa de proteção, sugar o petróleo com mangueiras e cavar poços ao lado da plataforma submersa. Na mais recente tentativa, iniciada
no dia 1º de junho, a ideia era usar robôs submarinos para instalar um equipamento que pode redirecionar o fluxo para a superfície, onde o
petróleo será recolhido em navio.

Enquanto isso, por conta do acidente, o presidente Barack Obama amarga, além da queda de popularidade, uma crise política. Ele foi
acusado pela oposição republicana de demorar muito para resolver o caso e de mau gerenciamento nos esforços de contenção da mancha. A
situação do presidente foi comparada à de seu antecessor, George W. Bush, criticado pela lentidão no socorro às vítimas do furacão Katrina,
que devastou New Orleans (na mesma região) em 2005.

Em maio de 2010, pressionada pelos republicanos e contrariando ativistas ambientais, a Casa Branca deu passe livre para que as
multinacionais petrolíferas ampliassem a exploração em águas profundas. Agora, Obama foi obrigado a admitir o excesso de confiança na
autorregulamentação das empresas e adotar medidas de cancelamento da prospecção de petróleo no golfo do México, além de prorrogar a
moratória (suspensão de verbas) para a exploração na costa do Atlântico.
Como resultado do desastre em Louisiana, os Estados Unidos devem apertar o cerco às agências reguladoras do setor e obrigar a indústria a
investir em mais segurança. Assim, o custo de extração e produção de petróleo deverá sofrer aumentos, podendo afetar também os
investimentos na camada pré-sal, no Brasil, e reorientar as metas de segurança da Petrobras.

Por fim, o acidente na costa dos Estados Unidos dá novo fôlego ao debate sobre energias alternativas. O petróleo, que hoje é a principal fonte
de energia do mundo, é escasso, cada vez mais caro, cria políticas de guerra (como no Oriente Médio) e danos ao meio ambiente. Os Estados
Unidos respondem por apenas 2% das reservas do planeta e a produção interna atende a um quinto do consumo doméstico. Para o gigante
econômico, a solução se delineia, cada vez mais, num futuro em que o desenvolvimento do país seja menos movido pelo "ouro negro".
ORIENTE MÉDIO

Ataque à "Flotilha da Liberdade" isola Israel


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Na história dos conflitos no Oriente Médio, saber qual lado está com a razão, se palestinos ou israelenses, sempre envolveu um complexo
dilema moral. Nos últimos anos, porém, as respostas violentas do Estado israelense às ofensivas dos terroristas islâmicos fizeram parcela da
opinião pública deixar de ver Israel como um oásis de democracia numa região de teocracias para transformar o país apenas no algoz de 1,5
milhão de palestinos confinados na Faixa de Gaza.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O desastrado ataque a uma flotilha (frota de navios de pequeno porte) no dia 31 de maio de 2010 só serviu para dar mais força a essa visão.
Nove civis foram mortos a bordo do Mavi Marmara, navio de bandeira turca. A chamada "Flotilha da Liberdade", formada por seis
embarcações, levava, supostamente, 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a população de Gaza.

Os ativistas tentavam furar o bloqueio ao território palestino, imposto por Israel e Egito depois que o grupo terrorista Hamas passou a
controlar a Faixa de Gaza, em 2007. Entre os passageiros estavam políticos, jornalistas, religiosos e uma cineasta brasileira.

Os militares interceptaram o comboio em águas internacionais, a 52 quilômetros da costa de Israel, após os navios terem ignorado ordens
para atracarem no porto israelense de Ashdode, a fim de terem a carga inspecionada, antes de seguir viagem.

De acordo com a versão oficial, soldados desceram por meio de cordas de helicópteros no convés e foram atacados por ativistas armados de
paus, barras de ferro e facas. Um segundo grupo pediu permissão para usar armas de fogo, foi autorizado e atirou contra os ocupantes do
navio. Vídeos feitos pelos israelenses mostram soldados sendo agredidos pela tripulação, mas não a reação dos militares.

O bloqueio marítimo, quando justificado, é legitimado por leis de direito internacional. Entretanto, como a flotilha foi interceptada em águas
internacionais, a ação pode ter sido ilegal do ponto de vista jurídico.

A flotilha era liderada pelo grupo pró-palestinos Movimento Gaza Livre e pela organização turca Insani Yardım Vakfi, que o governo de Israel
acusa de ter relações com os grupos terroristas Hamas e Al Qaeda. A organização turca foi fundada em 1992 para levar ajuda a bósnios
durante a Guerra da Bósnia e Herzegovina (1992-1995), está presente em 120 países e esteve em desastres recentes, como o terremoto no
Haiti.

O objetivo do grupo era claramente desafiar o bloqueio e chamar a atenção para a causa palestina. A operação, no entanto, custou a Israel
muito mais que prejuízo político: fortaleceu o seu inimigo, o Hamas, e isolou o país.

A tensão em Gaza também voltou a aumentar nos últimos dias. No dia 5 de maio, a Marinha israelense impediu outro navio, o irlandês
Rachel Corrie, de furar o bloqueio. Não houve vítimas. Dois dias depois, tropas atiraram contra um barco palestino na costa de Gaza e
mataram pelo menos quatro pessoas. Os mortos seriam militantes do Fatah, organização política e militar rival do Hamas que controla a
Cisjordânia.

Protestos
Os protestos contra Israel se estenderam para além do mundo árabe, em manifestações e boicotes na Europa, onde o Parlamento europeu
reprovou a ação. Governos de todo o mundo, incluindo o Brasil, condenaram o ataque e pediram providências junto à Organização das
Nações Unidas (ONU). O caso teve repercussão negativa inclusive entre judeus não ortodoxos e israelenses.

Um dos maiores danos no campo diplomático foi o desgaste das relações com a Turquia, um importante aliado de Israel no Oriente Médio e
mediador de conflitos entre árabes e israelenses. A morte dos turcos (um deles com cidadania americana) levou o governo da Turquia a
retirar o embaixador de Tel-Aviv - medidas também adotadas por Egito e Jordânia, estados árabes que apoiam Israel - e ameaçar romper
laços diplomáticos. A Turquia tem governo islâmico e vinha desempenhando papel estratégico nos processos de paz na região.

A possível perda de aliados acontece num momento delicado, em que o governo israelense, junto com os Estados Unidos, tenta aprovar
novas sanções contra o Irã, devido ao programa nuclear do país. Ao mesmo tempo, Israel resiste à pressão dos vizinhos para que elimine
seus arsenais nucleares.

Passados três anos do bloqueio de Gaza, ficou claro que a medida é ineficiente. Os propósitos de Israel eram debilitar o Hamas diante os
palestinos, impedir o armamento do grupo terrorista e forçar a libertação de Gilad Shalit, soldado israelense sequestrado há quatro anos.
Nada disso foi conseguido. A população de Gaza não se rendeu pela fome, o Hamas continua recebendo armas por túneis na fronteira com o
Egito e o soldado continua capturado.

Em dezembro de 2008, Israel bombardeou a Faixa de Gaza em represália a foguetes disparados pelo Hamas contra comunidades judaicas,
deixando 1.400 mortos. Na época, parcela da opinião pública considerou o ataque israelense desproporcional.

Obama
Dessa vez, porém, o desequilíbrio no panorama do Oriente Médio pode ser maior. Prova disso é a perda de crédito com os Estados Unidos,
aliado histórico de Israel e promotor de acordos de paz. Para analistas políticos, o apoio aos israelenses se tornou um fardo para o presidente
Barack Obama, que no começo do mandato retomou o diálogo com os países árabes e rompeu com a política unilateral de seu antecessor no
cargo, George W. Bush.

Mesmo sendo um dos poucos países a não condenarem a ação, o suporte que a Casa Branca oferece ao Estado israelense - financeiro, militar
e político - nunca foi tão questionado entre a população, sobretudo entre os democratas (partido de Obama). Além disso, segundo alguns
analistas, o incidente com a flotilha deixa os americanos, que já são alvos de grupos terroristas, em desvantagem nas negociações com o
mundo árabe.
O caso lembra um ataque da marinha britânica contra o navio Êxodus, em julho de 1947, que levava sobreviventes do Holocausto. Os judeus
tentavam imigrar para a Palestina, que era então controlada pelo Reino Unido, mas não tinham autorização do governo britânico. Três judeus
foram mortos e os demais, cerca de 4.500 - entre homens, mulheres e crianças -, deportados para a Alemanha.

Na ocasião, as mortes a bordo do Êxodus favoreceram a campanha de reconhecimento do Estado judeu, criado em 1948. As manifestações
que se seguiram ao ataque despertaram a simpatia pelos judeus, que haviam sido vítimas de um dos maiores massacres da história na
Alemanha nazista. Quase 63 anos depois, a situação parece ter se invertido. O povo que levou a cultura e a democracia ocidentais para o
mundo árabe hoje é visto, por parcela da opinião pública, como Golias enfrentando Davi.

COLÔMBIA

Eleições renovam esperança de futuro sem


guerrilhas
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
No dia 20 de junho de 2010, os colombianos foram às urnas para escolher o substituto do presidente Álvaro Uribe Vélez. A despeito de quem
irá ocupar o cargo, as políticas mais duras contra o narcotráfico saem vencedoras no país.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O candidato governista Juan Manuel Santos, ex-ministro da Defesa, lidera a disputa contra o candidato do Partido Verde, Antanas Mockus,
que aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, realizado em 30 de maio, Santos obteve 46,6% dos
votos e Mockus, 21,5%.

Esse quadro eleitoral pode ser explicado pela relação do poder político com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc),
organização terrorista de linha comunista que surgiu em 1964, inspirada na Revolução Cubana. A partir dos anos 1980, o grupo passou a
controlar a produção e o comércio de cocaína na Colômbia. Estima-se que, de 1980 até o começo deste século, três milhões de colombianos
tenham sido deslocados de suas regiões por conta da guerra contra o tráfico.

Outra fonte de financiamento dos guerrilheiros é o sequestro. O caso mais famoso é o da candidata presidencial e senadora Ingrid
Betancourt, resgatada em 2 de julho de 2008, depois de seis anos em cativeiro na selva colombiana, junto com outras 14 pessoas.

Quando Uribe assumiu a presidência, em 2002, adotou uma política "linha dura" contra os militantes das Farc, do Exército de Libertação
Nacional (ELN) - o segundo maior grupo guerrilheiro do país - e de grupos paramilitares.

A medida foi empregada depois que seu antecessor no cargo, o presidente Andrés Pastrana Arango, falhou ao tentar fazer um acordo de paz
com a guerrilha. Em novembro de 1998, Pastrana concedeu uma área do tamanho da Suíça para as Farc, como um gesto de confiança.
Porém, os guerrilheiros continuaram os ataques e aumentaram a produção de cocaína, além de estabelecer um poder paralelo na região.

Mudanças na área de segurança pública foram decisivas para a eleição e, depois, reeleição de Uribe. Ele venceu a oposição com a promessa
de desmantelar o poderio militar dos narcoterroristas.

Tensão na fronteira
A repressão contou com apoio financeiro e militar dos Estados Unidos, aliança que rendeu a Uribe uma posição de antagonismo político em
relação aos governos da Venezuela e do Equador, vizinhos alinhados à esquerda.

Durante a crise das bases militares, o governo venezuelano "congelou" as relações comerciais com a Colômbia, agravando a crise econômica
que afetava os colombianos. A razão disso foi a intenção de Uribe de ampliar a presença de tropas americanas em bases nas fronteiras, com
o motivo alegado de combater o tráfico.

Acusações do envolvimento do presidente Hugo Chávez com as Farc (baseadas na apreensão de armamento venezuelano com os
guerrilheiros) também afetaram as relações diplomáticas entre ambas as nações.

Um ataque ao acampamento das Farc no Equador, em março de 2008, foi outro episódio que acarretou uma crise política entre Colômbia,
Equador e Venezuela. A ação, no entanto, resultou na morte de Raúl Reyes, o segundo no comando das Farc. Outras operações também
contribuíram para o prestígio do presidente colombiano e de seu candidato, entre elas a libertação de Ingrid Betancourt. Soma-se a isso o
saldo positivo da estratégia de repressão. Os índices de homicídios caíram de 66 para cada grupo de 100 mil habitantes, em 2002, para 32
em 2009. Os sequestros passaram de 2.882, no ano em que Uribe foi eleito, para 86 em 2009, segundo dados oficiais.

Ao mesmo tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) passou de US$ 232 para US$ 500 bilhões (o terceiro maior da América do Sul) em quase
oito anos.

Como a casa em ordem, Uribe terminou o mandato com 70% de aprovação e tentou se candidatar para um terceiro mandato. A Justiça
colombiana, no entanto, impediu sua candidatura com base na Constituição de 1991, que limita o mandato a oito anos consecutivos.

A primeira eleição sem a sombra das Farc, depois de 40 anos de conflitos, teve um peso na campanha: todos os candidatos prometeram dar
continuidade à política de segurança - e o herdeiro político de Uribe é o primeiro colocado nas pesquisas.

Corrupção
Mas o mesmo trunfo do presidente alimentou a oposição, tornando um candidato antes sem expressão uma força nas urnas. Isso ocorreu por
dois motivos. Primeiro, um escândalo conhecido como "falsos positivos". Em 2008, militares atraíam desempregados para a selva e os
executavam, para depois identificar os corpos como de terroristas mortos. Assim, eles insuflavam artificialmente as estatísticas favoráveis ao
governo e recebiam recompensa por supostos guerrilheiros mortos. Um grupo de 62 promotores investiga cerca de 2 mil mortes suspeitas.

O escândalo levou à destituição de 40 militares, incluindo três generais. E, como o conservador Juan Manuel Santos foi ministro da Defesa,
ele agora é questionado pelos assassinatos cometidos pelo Exército colombiano.

Durante o segundo mandato de Uribe, um escândalo atingiu o alto escalão do Exército e parcela (um terço) do Congresso colombiano,
incluindo aliados do presidente. Os políticos e militares foram acusados de envolvimento com narcotraficantes e paramilitares. Políticos foram
presos entre 2006 e 2007 e até mesmo um senador, primo do presidente, foi investigado.
O segundo motivo desfavorável ao candidato da situação é que o combate ao narcoterrorismo, principal sucesso do governo, deixou de ser
prioritário para a maioria dos colombianos. Os eleitores estão mais preocupados com questões sociais, como, por exemplo, o desemprego,
que atinge 12% da população, uma das maiores taxas da América Latina (no Brasil, o índice é de 7%), segundo dados do Departamento
Administrativo Nacional de Estatística (DANE). Outra preocupação é o precário sistema de saúde na Colômbia.

Esses fatores deram força para a campanha de Mockus, que em março tinha apenas 9% das intenções de voto e, depois, chegou a um
empate técnico com o rival. Com um discurso contra a corrupção e focado na educação, ele acabou surgindo como o candidato que
representa um avanço em direção ao futuro sem as Farc. Principalmente para jovens eleitores, que o apoiam em redes sociais como Twitter e
Facebook.

Mockus foi um prefeito popular da capital Bogotá e ficou conhecido por ações extravagantes, como trocar guardas de trânsito por mímicos
que advertiam os motoristas com cartões vermelhos e amarelos. O problema é que seu partido tem apenas 5% das cadeiras do Senado e 1%
da Câmara dos Deputados. Caso seja eleito, terá de fazer alianças políticas com adversários.

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)

Escritor defendeu comunismo e contestou dogmas


católicos
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Provocador tanto na escrita quanto na militância política, José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias,
no dia 18 de junho de 2010. Foi nessa ilha espanhola que o escritor, único Prêmio Nobel em língua portuguesa, escolheu para se autoexilar
de Portugal e viver com a terceira mulher, a escritora espanhola Pilar del Rio.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Saramago escreveu dezenas de livros, entre romances, poesias, ensaios, peças de teatro, diários, crônicas e memórias. Sua obra foi
traduzida para cerca de 42 línguas. Um dos seus mais famosos romances, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), provocou embates com
a Igreja Católica e levou o governo português a boicotar a indicação da obra para um prêmio europeu, fato que contribuiu para que o escritor
deixasse o país.

Além de escritor, Saramago também foi uma das vozes mais críticas do sistema capitalista e apoiou regimes comunistas, como o cubano.
Ateu e comunista até o fim da vida, não se furtou, porém, de expressar uma visão quase mística em alguns de seus livros e de apontar as
mazelas do próprio Partido Comunista Português, do qual era membro desde o final dos anos 1960.

Segundo a Fundação José Saramago, a causa da morte foi falência múltipla de órgãos, decorrente de um câncer que o acometia desde 2007.
O corpo do escritor foi velado em Lisboa, onde recebeu homenagens e foi cremado em 20 de junho.

No dia seguinte, jogadores da seleção portuguesa prestaram homenagens ao romancista durante a partida contra a Coreia do Norte, na Copa
do Mundo da África do Sul. A pátria, enfim, acolheu seu mais célebre escritor desde Fernando Pessoa.

Começo difícil
O reconhecimento, entretanto, chegou somente após os 50 anos de idade. José de Sousa Saramago era neto e filho de camponeses. Nasceu
em 16 de novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, na província de Ribatejo, a 100 km de Lisboa. Tinha dois anos de idade quando a
família se mudou para a capital. Sem recursos, não pôde cursar uma universidade.

Antes de se dedicar somente aos livros, exerceu atividades de serralheiro, funcionário público, jornalista e tradutor - traduziu, entre outros, o
poeta francês Charles Baudelaire e o escritor russo Léon Tostói.

Publicou seu primeiro romance, Terra do Pecado, em 1947. Neste mesmo ano, nasceu sua filha, Violante, do primeiro casamento, com a
pintora Ilda Reis. Em 1970, se divorciou e iniciou um relacionamento com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega. Em 1986 conheceu a
jornalista e tradutora espanhola Pilar del Rio, com quem se casou dois anos depois - ela aos 36 e ele com quase 66 anos de idade.

O prestígio internacional como escritor viria aos 60 anos com o romance Memorial do Convento. Em 1986 publicou O Ano da Morte de
Ricardo Reis, considerado por muitos críticos (e, ao que parece, pelo próprio autor) como seu melhor livro. Mas foi pelo polêmico O
Evangelho Segundo Jesus Cristo que ficaria mais conhecido.

O romance, que humaniza a figura de Jesus, foi condenado pela Igreja Católica. No Brasil e em Portugal, países católicos, também houve
reações contrárias. No ano seguinte à publicação, António Sousa Lara, secretário de Estado e Cultura no governo de Cavaco Silva, impediu a
candidatura da obra para o Prêmio Literário Europeu. "O livro não representa Portugal nem os portugueses", disse na ocasião. Por conta do
clima "inquisitorial", Saramago deixou o país em 1993, para viver nas Canárias com sua mulher.

À parte as desavenças políticas e religiosas, o trabalho como romancista lhe rendeu vários prêmios. Em 1995, recebeu o Luís de Camões,
considerado o mais importante em literatura portuguesa, pelo livro Ensaio Sobre a Cegueira, adaptado para o cinema pelo diretor brasileiro
Fernando Meirelles, em 2008. O Nobel de Literatura foi anunciado em 1998, quando Saramago tinha 76 anos, o primeiro e único conquistado
por um escritor da lusofonia, ou seja, dos países nos quais o português é falado: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique,
Portugal, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Timor-Leste e Macau (uma Região Administrativa Especial da República Popular da China).

Revolução dos Cravos


As desavenças com a Igreja Católica (e com as religiões cristãs em geral) ganhariam novo ímpeto com a publicação do último romance de
Saramago, Caim, em 2009. No livro, o escritor analisa a história de Caim e Abel no Antigo Testamento. Durante o lançamento mundial da
obra, se referiu à Bíblia como "um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", o que lhe rendeu
acusações de superficialidade na leitura e intenções publicitárias com a provocação.

Como intelectual, foi um vigoroso opositor da sociedade capitalista desde os anos 1960. A militância no Partido Comunista Português, ao qual
também não poupou críticas, visando sua modernização, o levou a defender - e, em raríssimas ocasiões, atacar - governos como o de Fidel
Castro.

Portugal, do mesmo modo que outros países europeus - Alemanha, Itália e Espanha -, foi governado por um partido fascista durante parte da
primeira metade do século 20. A ditadura salazarista foi instaurada em 1926, depois de um golpe militar, e durou quase meio século.
Oliveira Salazar governou por meio de um partido único, o União Nacional, de 1933 até 1968, quando se afastou por motivos de saúde. Seu
sucessor, Marcelo Caetano, foi deposto pela Revolução dos Cravos, em abril de 1974. A revolução foi um movimento pacífico simbolizado pelo
cravo vermelho, flor que era colocada no cano dos fuzis dos soldados que participavam da revolta (cravos vermelhos também foram
depositados sobre o corpo de Saramago, no velório em Lisboa).

Numa época de divisões ideológicas, Saramago se opôs ao salazarismo e filiou-se ao Partido Comunista em 1969. Em seguida, iniciou a
carreira de jornalista. Quando foi nomeado diretor-adjunto do jornal português Diário de Notícias, em 1975, perseguiu e demitiu colegas que
não seguiam sua linha de esquerda. No mesmo ano, saiu do jornal para dedicar-se aos livros.

A atuação política de Saramago, contudo, continuou rendendo polêmicas. Em 2003, depois de décadas de aprovação, ele condenou Fidel
Castro pela execução de três cubanos que haviam sequestrado um barco para tentar fugir para os Estados Unidos. Em artigo publicado no
jornal espanhol El País, escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico".

No ano anterior, uma declaração provocara mal-estar entre os judeus. Durante visita à cidade palestina Ramallah, o escritor comparou a
ocupação de territórios palestinos na Cisjordânia com o campo de concentração nazista de Auschwitz: "É preciso dizer que o que acontece na
Palestina é um crime que nós podemos parar. Podemos compará-lo ao que aconteceu em Auschwitz".

No Brasil, onde sempre foi acolhido por escritores e políticos, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, identificou-se com causas
sociais. Chegou a participar como jurado, em Brasília, de um tribunal internacional simbólico para julgar o massacre de trabalhadores sem-
terra em Eldorado dos Carajás (PA), ocorrido três anos antes. Pelo mesmo motivo, recusou um doutorado honoris causa (dentre dezenas que
recebeu) concedido pela Universidade do Belém do Pará.

Ponto final
O papel de contestador, na vida pública, refletia, de certa maneira, a escrita de Saramago, ousada na forma e cujas histórias interagiam
criticamente com seu tempo. Em obras como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ele usa uma pontuação peculiar: evita pontos finais,
marcando o ritmo e as pausas com vírgulas, e substitui o travessão como indicativo de diálogos por uma letra inicial maiúscula. Como nessa
passagem:

"Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai
custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os
homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que
te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de
renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas (...)"

A intenção dessa escrita - iniciada com o romance Levantado do Chão - era deixar o texto mais próximo da tradição oral.

Saramago também misturava, em suas narrativas, fatos históricos e ficção para construir parábolas, como em Memorial do Convento, A
Jangada de Pedra e A Viagem do Elefante. Em Ensaio sobre a Cegueira, por exemplo, que conta a história de uma estranha doença que deixa
a população de uma cidade cega, o escritor usa a premissa da privação do sentido para apontar os defeitos da sociedade de consumo, que
coloca em primeiro plano as aparências. Somente depois de cegos os personagens conseguem enxergar as qualidades que os distinguem
como seres humanos.

Saramago deixou um livro inacabado, Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas!, que fala sobre o tráfico de armas. O título é uma
referência a um verso do dramaturgo português Gil Vicente. Ainda não há previsão para a publicação do romance.

Livros mais importantes


 Levantado do Chão (Bertrand Brasil)
 Memorial do Convento (Bertrand Brasil)
 O Ano da Morte de Ricardo Reis (Companhia das Letras)
 História do Cerco de Lisboa (Companhia das Letras)
 O Evangelho segundo Jesus Cristo (Companhia das Letras)
 Ensaio sobre A Cegueira (Companhia das Letras)
 As Intermitências da Morte (Companhia das Letras)

Adaptações para o cinema


 A jangada de pedra
 A maior flor do mundo
 Ensaio sobre a cegueira
 Embargo

ÍNDIOS

Políticas de proteção completam um século no Brasil


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há cem anos foi criado no Brasil o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão que inaugurou a política indigenista no país. Apesar dos erros
cometidos pelo Estado na tentativa de integrar comunidades indígenas à sociedade, o serviço foi pioneiro na demarcação de terras, o que
garantiu a sobrevivência das tribos. O SPI foi substituído, em 1967, pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Vestígios arqueológicos indicam a presença de índios num período entre 11 e 12 mil anos atrás no Brasil. Estima-se que, quando os
portugueses chegaram, há mais de 500 anos, existiam até 10 milhões de nativos, que falavam cerca de 1.300 línguas. Com a colonização do
território nacional, aldeias foram dizimadas por bugreiros - sertanejos contratados por colonos para caçar bugres (indígenas) - ou por
doenças contagiosas adquiridas pelo contato com o homem branco, contras as quais os nativos não tinham imunidade.

Hoje, de acordo com dados da Funai, existem cerca de 460 mil índios no país, vivendo em 225 comunidades. Além destes, estima-se que há
entre 100 e 190 mil índios vivendo fora de suas tribos.

A despeito desse total de índios corresponder a 0,25% da população brasileira, as 488 terras indígenas delimitadas perfazem 12,41% do
território nacional. Restaram 180 línguas diferentes faladas pelas etnias, excluindo-se aquelas em uso por comunidades isoladas, que ainda
não foram estudadas.

Marechal Rondon
O SPI foi fundado em 20 de junho de 1910 por meio do decreto nº 8.072, assinado pelo presidente Nilo Peçanha. A direção ficou a cargo de
Cândido Mariano da Silva Rondon, militar e sertanista descendente de índios, mais conhecido como marechal Rondon.

No final do século 19, Rondon foi responsável pela instalação de milhares de quilômetros de linhas telegráficas no interior do país. Nesse
trabalho, entrou em contato com dezenas de tribos, sempre de maneira pacífica. Seu lema era "Morrer, se preciso for. Matar, nunca".

À frente do SPI, Rondon mudou a forma de tratamento dos índios, que antes eram considerados um entrave para o desenvolvimento da
nação. Para proteger os índios, foram feitas as primeiras demarcações de terra. Ele também defendeu a instauração de reservas como o
Parque do Xingu, primeiro território indígena criado pelo governo, em 1961.

No entanto, o pensamento positivista que norteou os trabalhos de Rondon é hoje considerado um equívoco. Segundo o positivismo, doutrina
filosófica fundada por Augusto Comte no século 19 e muito influente entre intelectuais brasileiros no período que vai do fim da monarquia às
primeiras décadas da república, a humanidade passaria por fases evolutivas, da origem primitiva à civilização moderna.

Para os positivistas, os índios eram selvagens que viviam em estado primitivo e que precisavam ser civilizados. Como fazer isso?
Incorporando-os à vida do Brasil rural e ensinando-lhes valores ocidentais. Na ata de criação do SPI consta o nome do órgão como Serviço de
Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais. O objetivo era, portanto, aproveitar a mão de obra indígena na agricultura e
adaptar os nativos ao convívio em sociedade.

Para isso foram criadas escolas e oficinas de trabalho - e também se construíram casas. As aldeias foram fragmentadas, separando famílias e
misturando etnias. Com isso, o SPI impediu o extermínio da população nativa, protegendo fisicamente os índios em áreas demarcadas. Mas o
projeto de integração foi prejudicial para a cultura indígena.

A partir dos anos 1950, antropólogos como Darcy Ribeiro e o sertanista Orlando Villas Bôas ajudaram a mudar essa visão etnocêntrica.
Atualmente, os antropólogos entendem que os índios possuem cultura própria, que é considerada patrimônio da humanidade. O
conhecimento que eles têm da floresta, por exemplo, vem ajudando cientistas no estudo de plantas para uso medicinal e na proteção do
meio ambiente.

Para o governo, a melhor forma de preservar os costumes das comunidades é por meio de terras demarcadas. O processo de demarcação
ganhou fôlego nos anos 1970, quando surgiram os primeiros movimentos de defesa dos índios.

A nova política indigenista foi finalmente incorporada à Constituição Federal de 1988, cujo Artigo 231 diz: "São reconhecidos aos índios sua
organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo
à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens".

A Funai mantém, desde 1987, uma unidade especializada em localização e proteção de tribos isoladas. Mas sua política, agora, é a de
retardar ao máximo o contato com o homem branco.
MASSACRE DE SREBRENICA

Maior genocídio do pós-guerra completa 15 anos


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há 15 anos aconteceu na cidade de Srebrenica, na antiga Iugoslávia, o maior massacre cometido na Europa desde o fim da Segunda Guerra
Mundial. Em apenas uma semana, entre os dias 11 e 15 de julho de 1995, 8.373 bósnios muçulmanos foram mortos por tropas sérvias.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Os crimes foram cometidos durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), iniciada após a queda do regime comunista na antiga Iugoslávia. Até
hoje os corpos das vítimas, exumados de valas comuns, são identificados por meio de análises de DNA. O general Ratko Mladic, um dos
responsáveis pelo massacre, continua foragido.

A região dos Bálcãs, onde ocorreram os conflitos, é marcada por histórias de invasões estrangeiras e disputas de cunho étnico, religioso e
nacionalista. Nesse contexto, desavenças políticas, combinadas com a ineficiência da comunidade internacional na mediação da guerra,
compuseram o palco para o genocídio.

A Guerra da Bósnia teve ampla cobertura da imprensa internacional e mostrou cenas semelhantes ao holocausto dos judeus na Alemanha
nazista: cidades sitiadas, campos de concentração, mortes em massa e posteriores julgamentos dos criminosos no Tribunal Internacional de
Haia.

Antecedentes
Durante 500 anos, os Bálcãs foram dominados pelo Império Turco-Otomano. Com a assinatura do Tratado de Berlim de 1878, Romênia,
Sérvia e Montenegro se tornaram independentes e foi criado o principado da Bulgária.

No começo do século 20, eclodiram lutas por independência. Em 1914, Franz Ferdinand, herdeiro do Império Austro-Húngaro, foi assassinado
junto com sua mulher por um extremista sérvio-bósnio em Sarajevo. A Áustria declarou guerra à Sérvia, dando início à Primeira Guerra
Mundial (1914-1918).

Após a guerra, surgiram os Reinos dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (incluindo a Bósnia-Herzegóvina), unificados sob o nome de Iugoslávia
(que significa "terra dos eslavos do sul") pelo príncipe regente Alexandre Karadjordjevic.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas invadiram a Bósnia, fragmentando novamente o território. Ao final da guerra, com a derrota
do Eixo, a Iugoslávia, sob o governo comunista de Josip Broz Tito, se torna uma federação que reúne seis repúblicas - Croácia, Eslovênia,
Macedônia, Montenegro, Sérvia e Bósnia-Herzegóvina.

A queda do Muro de Berlim, em 1989, desencadeia o colapso dos Estados comunistas no Leste Europeu, entre eles a Iugoslávia. Do mesmo
modo como aconteceu em outros países, a ditadura que mantinha a aliança multinacional não foi sucedida por uma democracia ou pela
formação de um Estado civil. Pelo contrário, fez reacender antigas dissensões entre identidades regionais, étnicas e religiosas, em grupos que
se mobilizaram politicamente para defender seus territórios.
Apesar de viverem em comunidades diferentes, bósnios muçulmanos, sérvios ortodoxos e croatas católicos compartilhavam não somente
origens históricas e geográficas, mas também um modo de vida. No entanto, com a desestabilização política do país, grupos nacionalistas
catalisaram as diferenças existentes, utilizando-as para promover os massacres que se seguiram.

Em 1991, a população da Bósnia era composta por 43,7% de muçulmanos, 31,4% de sérvios e 17,3% de croatas. Em Srebrenica, a
população era de maioria muçulmana (72,9%), contra uma minoria sérvia (25,2%) e poucos croatas (0,1%). No mesmo ano, Eslovênia e
Croácia declararam independência, seguidas pela Bósnia. Os sérvios, porém, não aceitaram o Estado da Bósnia e, liderados por Radovan
Karadzic, ocuparam 70% do país e deram início a uma campanha de "limpeza étnica" para formar a República Sérvia.

Genocídio
Para fugir da guerra, milhares de bósnios se refugiaram em cidades como Srebrenica, que se tornou um enclave muçulmano. Na tentativa de
prevenir crimes de genocídio, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, em 16 de abril de 1993, a
Resolução 819, por meio da qual a cidade de Srebrenica (e seus arredores) foi considerada Área de Segurança, onde não poderiam ocorrer
mais ataques.

A segurança da população ficou a cargo de soldados holandeses da Unprofor (Forças de Proteção das Nações Unidas) e os bósnios foram
desarmados. Os holandeses, contudo, não puderam conter a ofensiva sérvia.

Assim, quase dois anos depois, no começo de julho de 1995, Srebrenica foi recapturada pelos sérvios depois de renderem a base da ONU. Os
bósnios pediram a devolução de suas armas para combater os sérvios e não foram atendidos. O comando holandês, por sua vez, solicitou
reforço aéreo à ONU, porém os soldados foram feitos reféns para evitar bombardeios.

No dia 11 de julho, o líder servo-bósnio Ratko Mladic entrou na cidade, consolidando a conquista. A capital Sarajevo resistiu por quatro anos
ao cerco, considerado o mais duradouro na história moderna.

Os muçulmanos foram feitos prisioneiros e separados em dois grupos: cerca de 23 mil mulheres e crianças foram deportadas para territórios
muçulmanos, enquanto homens e adolescentes foram detidos em armazéns e caminhões. Em seguida, os homens foram enfileirados e
executados por soldados sérvios e grupos paramilitares. Os corpos foram enterrados em valas comuns.

Após o massacre, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardeou as posições sérvias. Os Estados Unidos pressionaram os
líderes bósnios, sérvios e croatas para um acordo de paz, que saiu em 21 de novembro 1995. O Acordo Dayton (chamado assim por ter sido
assinado na Base Aérea de Dayton, no estado americano de Ohio) reconheceu dois Estados autônomos: a República Sérvia da Bósnia e a
Federação da Bósnia-Herzegóvina ou Federação Muçulmano-croata. Mas já era tarde demais: o genocídio havia "limpado" territórios antes
compartilhados por ambas as culturas.

Julgamentos
O massacre de Srebrenica foi oficialmente reconhecido em 2004 pelo Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, nos Países Baixos. A Corte
também começou a julgar os responsáveis pelo crime.

Radovan Karadzic foi preso em 22 de julho de 2008 e está sendo julgado pelo Tribunal de Haia por crimes de guerra. Outras 21 pessoas
foram indiciadas e algumas condenadas a penas superiores a 30 anos ou prisão perpétua.

O presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, morreu na cela, em 11 de março de 2006, enquanto era julgado. O general Ratko Mladic foi
indiciado mas até hoje não foi preso.

Em 2003, foi inaugurado o Memorial Cemitério de Potocari, em Srebrenica, onde foram sepultadas mais de 5 mil vítimas do massacre que
puderam ser identificadas por peritos da Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas (ICMP). Os corpos foram descobertos em mais de
70 valas. Em março de 2010, o Parlamento Sérvio pediu desculpas às famílias das vítimas.

DIREITOS HUMANOS

Cuba liberta presos políticos


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado em 16 de julho de 2010, às 14h38 Pressionada por autoridades internacionais, a ditadura cubana decidiu libertar 52 presos
políticos no período entre julho e outubro de 2010. O primeiro grupo, composto por 11 dissidentes e seus familiares, chegou à Espanha entre
os dias 12 e 15 de julho, onde os exilados foram recebidos como imigrantes comuns.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

De acordo com dados da Comissão Cubana de Direitos Humanos, órgão independente que não é reconhecido pelo governo comandado pelo
ditador Raúl Castro, a ilha possui 167 presos políticos, o menor número desde a Revolução Cubana, em 1959. Portanto, se todos os 52 forem
soltos, restarão ainda 115 pessoas encarceradas por crimes de consciência.

Desde 1998, quando 101 presos foram postos em liberdade, por ocasião da visita do papa João Paulo 2º, não se libertava em Cuba um grupo
tão numeroso.

O anúncio da libertação foi feito em 7 de julho, pelo Arcebispado de Havana. As negociações com o governo foram intermediadas pelo cardeal
Jaime Ortega e pelo ministro espanhol de Assuntos Exteriores, Miguel Ángel Moratinos.

Todos os presos beneficiados com a medida fazem parte do "Grupo dos 75", constituído por 75 dissidentes presos em março de 2003 durante
a "Primavera Negra", como ficou conhecido um dos muitos períodos de severa repressão. Eles foram processados por atividades subversivas
e condenados a penas que variam de 14 a 27 anos de prisão. Alguns deles já haviam sido libertados por apresentarem graves problemas de
saúde.

Greve de fome
A pressão internacional começou após a morte de Orlando Zapata Tamayo, ocorrida no dia 23 de fevereiro de 2010, após 85 dias em greve
de fome. Zapata tinha 42 anos e era um dos mais importantes dissidentes políticos do "Grupo dos 75". Ele jejuava em protesto contra as
condições desumanas dos cárceres de Havana.

No dia seguinte à morte de Zapata, outro detento, Guillermo Fariñas, iniciou greve de fome em homenagem ao companheiro e para pedir a
libertação de outros 26 presos políticos que estavam doentes. À época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita oficial a Cuba, foi
criticado por não se solidarizar com os ativistas e por compará-los a presos comuns.

Fariñas interrompeu o jejum de alimentos sólidos e líquidos, mantido por 134 dias, depois que o presidente Raúl Castro se comprometeu a
soltar os 52 presos. Mesmo assim, de acordo com os médicos que o acompanham, ele corre risco de morrer em decorrência de complicações
associadas ao período de abstinência. "O primeiro gole de água que deu depois de tanto tempo provocou em seu ressecado esôfago a
sensação de uma língua de fogo que o queimava por dentro", disse Yoani Sánchez em seu blog, o Generatión Y (ver livro indicado abaixo).

Adversário histórico
O governo dos Estados Unidos, histórico opositor do regime castrista, aprovou a operação que beneficia cubanos reconhecidos como presos
de consciência pela Anistia Internacional. Segundo Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado americano, foi um "acontecimento
positivo" e "um avanço para um respeito maior aos direitos humanos e às liberdades fundamentais em Cuba".

A imprensa internacional, porém, foi cética quando a uma eventual abertura do regime comunista, em vigor desde que Fidel Castro, Che
Guevara e o Exército Rebelde tomaram a capital em 1º de janeiro de 1959, depondo o ditador Fulgencio Batista.

Em abril de 1961, os Estados Unidos fizeram uma tentativa frustrada de invasão na Baía dos Porcos, em Cuba, aumentando a tensão com a
antiga União Soviética. O episódio foi um dos mais emblemáticos da Guerra Fria (1945-1989). Nas décadas seguintes, Washington impôs um
embargo comercial à ilha, cujo regime comunista resistiu até mesmo ao esfacelamento da União Soviética e à abertura econômica na China.

Fidel deixou a presidência em 2006, passando o cargo a seu irmão, Raúl Castro. Os diálogos visando a suspensão do bloqueio foram
retomados com a chegada de Barack Obama à Casa Branca. Os americanos exigem, como contrapartida ao fim do embargo, avanços na área
de direitos humanos.

Próximos da lista
Os 11 presos que chegaram à Espanha fazem parte de uma primeira leva de 20 dissidentes que foram autorizados a deixar o país. Outros
seis cubanos consultados pela Igreja Católica decidiram permanecer em Cuba após serem soltos. O governo cubano, contudo, não ofereceu
garantias de que eles não sofrerão represálias.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Espanha, os exilados não receberam status de asilados políticos para que possam trabalhar
no país. Outros ativistas, que continuam em Cuba, acreditam que essas medidas sejam os primeiros passos para reformas políticas.

CASAMENTO GAY

Argentina é o primeiro país latino-americano a


oficializar união
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A Argentina aprovou, em 16 de julho de 2010, o casamento gay, tornando-se o primeiro país na América Latina (o segundo no continente,
depois do Canadá) e o décimo no mundo a legalizar a união entre pessoas do mesmo sexo. A lei, que deve ser sancionada pela presidente
Cristina Kirchner, é um avanço na defesa dos direitos dos homossexuais.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Depois de passar na Câmara dos Deputados no dia 5 de maio, a lei foi sancionada no Senado por 33 votos a favor, 3 abstenções e 23 votos
contrários. O debate entre os parlamentares durou 14 horas. Fora do Legislativo, grupos que se opunham à proposta (formados por
católicos) e de apoio aos homossexuais fizeram protestos.

Diferentemente de países como Uruguai e Colômbia, que somente autorizam as uniões civis de casais gays, a nova legislação argentina
reconhece também direitos e benefícios jurídicos e sociais. Para isso, ela substituiu, no Código Civil, os termos "marido e mulher" por
"contratantes", igualando os direitos de casais gays e heterossexuais.

Entre as mudanças, está o recebimento total da herança, no caso de morte de um dos cônjuges, permissão para adoção de crianças (antes,
somente um dos membros da relação podia adotar), uso de sobrenome comum para crianças adotadas ou para filhos naturais de um dos
parceiros, e direito, para o casal, de receber pensão, pagar impostos e pedir crédito.

A capital Buenos Aires e outras quatro cidades argentinas já permitiam o matrimônio civil entre pessoas do mesmo sexo.

Outros nove países possuem leis específicas sobre casamento gay, válidas para todo o território nacional: Holanda, Espanha, Bélgica, África
do Sul, Canadá, Noruega, Suécia, Portugal e Islândia. Em Portugal, a lei que autoriza o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi
promulgada no dia 17 de maio de 2010. Na Islândia, a norma entrou em vigor no dia 27 de junho.

Nos Estados Unidos, seis estados permitem o casamento gay: Massachusetts, Connecticut, Iowa,Vermont, New Hampshire e Washington,
D.C. A Cidade do México também aprovou recentemente uma lei semelhante.

Justiça
No Brasil, casais homossexuais precisam recorrer à Justiça para conseguir os mesmos direitos válidos para uniões heterossexuais. Com isso,
ficam à mercê de decisões pontuais de juízes de comarcas, ou seja, não há uma padronização quanto às sentenças.

Uma das decisões judiciais mais conhecidas foi a da tutela do filho da cantora Cássia Eller, após a morte da artista, em 29 de dezembro de
2001. A Justiça do Rio de Janeiro concedeu a guarda provisória da criança para a parceira da artista, Maria Eugênia Vieira Martins, que viveu
com Cássia durante 14 anos.

Existem projetos de leis sobre união estável e direitos civis de homossexuais que tramitam no Congresso brasileiro desde 1995. O que
impede que sejam votados é o lobby de políticos conservadores ou ligados a setores religiosos, além da rejeição de parcela do eleitorado.

A despeito disso, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo é reconhecida como o segundo maior evento homossexual do mundo, atrás apenas
da passeata realizada em Nova York.

Minorias
Até meados do século 20, a homossexualidadeera considerada crime grave em países da Europa, como Reino Unido e Portugal. Um dos
julgamentos mais célebres da história foi o do escritor irlandês Oscar Wilde, autor de O retrato de Dorian Gray. Ele foi julgado em 1895 por
sodomia e comportamento indecente, e condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados. Os homossexuais também sofreram
perseguições na Alemanha nazista e na Rússia stalinista.

Além de constar dos códigos penais de alguns países, a homossexualidade era vista como uma doença, reconhecida até recentemente pela
Organização Mundial da Saúde. Em 1954, o matemático inglês Alan Turing, precursor dos computadores, matou-se depois de ser obrigado
pela Justiça a fazer um tratamento médico que envolvia a castração química.

A partir dos anos 1980, os gays foram estigmatizados como disseminadores da Aids, chamada na época de "peste gay". Com o aumento de
casos entre heterossexuais, foi constatado que a doença não estava relacionada à natureza ou à orientação sexual dos pacientes, mas, sim, a
condutas de risco.

Boa parte da mudança de valores e dos avanços sociais para a minoria gay se deve aos movimentos de direitos civis. O marco dessa luta
foram os conflitos de Stonewall, nos Estados Unidos, iniciados em 28 de junho de 1969. Foi a primeira vez que a comunidade gay se uniu
contra a perseguição do Estado. Os distúrbios entre manifestantes e policiais começou em frente ao bar Stonewall Inn, localizado no bairro
Greenwich Village.

Hoje, sabe-se que a homossexualidade, como qualquer outro comportamento humano, resulta de uma combinação de fatores genéticos,
sociais e culturais. Com base nisso, a maioria dos países industrializados criou estatutos legais que garantem a união civil de casais do
mesmo sexo e leis que penalizam os crimes contra homossexuais. Apesar disso, países como Irã, Argélia e Paquistão ainda consideram a
homossexualidade crime.

GUERRA DO GOLFO - 20 ANOS

Da invasão do Kuait à ocupação americana do Iraque


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há 20 anos começou a Guerra do Golfo, um dos maiores conflitos do Oriente Médio. Na madrugada do dia 2 de agosto de 1990, tropas
iraquianas, sob o comando de Saddam Hussein, invadiram o vizinho Kuait, rico em petróleo. A reação da comunidade internacional foi
imediata, com sanções econômicas e uma ofensiva militar - liderada pelos Estados Unidos - que arrasou o Iraque.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A guerra foi sucedida pela invasão americana do Iraque em 2003, por conta dos atentados do 11 de Setembro. A ocupação militar, que deve
terminar em 2011, mudou o panorama geopolítico da região.

Causas da guerra
Depois de quase quatro séculos sob domínio do Império Otomano, o Iraque se tornou colônia do Reino Unido ao final da Primeira Guerra
Mundial. O regime monárquico instaurado durou de 1921 a 1958, quando a família real foi assassinada em decorrência de um golpe de
Estado.

Em julho de 1968, o Partido Socialista Árabe Baath, do líder sunita Saddam Hussein, chegou ao poder. Ele foi eleito presidente em 1979,
cargo que ocuparia por 24 anos. Nesse período, o Iraque se envolveu em três guerras no Golfo Pérsico.

A primeira Guerra do Golfo foi travada contra o Irã (1980-1988) depois que a Revolução Islâmica, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini,
depôs a monarquia iraniana. Durante o conflito, Saddam teve apoio militar dos Estados Unidos, que temia a influência do fundamentalismo
islâmico sobre o Oriente Médio.

O governo americano, na época, ignorou o uso de armas químicas e biológicas pelas tropas iraquianas, incluindo o massacre de curdos. Mais
tarde, usaria isso como justificativa para invadir o país.

Ao final da guerra, tanto o Irã quanto o Iraque estavam arruinados. A situação econômica do Iraque foi ainda agravada pela queda do preço
do petróleo nos anos 1980 - o país é o 10º no ranking de produtores e 11º no de exportadores de petróleo no mundo. Além disso, estava
endividado, ao contrário do vizinho Kuait (13º produtor e 6º exportador mundial do minério), que explorava as jazidas existentes nas
proximidades da fronteira iraquiana.

Nesse contexto, a invasão do Kuait teve razões econômicas e territoriais. O governo do Iraque acusava o vizinho de provocar a queda do
preço do petróleo ao vender mais do que a cota permitida pela Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP).
Saddam também queria que o Kuait perdoasse uma dívida contraída durante a Guerra Irã-Iraque e cobrava uma indenização de US$ 2,4
bilhões por suposta exploração ilegal em campos petrolíferos iraquianos.

Outro motivo foi a divisão da fronteira entre os dois países, assunto de controvérsias desde o fim do Império Otomano, quando o Reino Unido
demarcou os territórios. O governo iraquiano alegava que, antes da colonização inglesa, o Kuait pertencia à província de Basra, localizada ao
sul do país.

Invasão
Ao invadir o Kuait, em 2 de agosto de 1990, dando início à segunda Guerra do Golfo, Saddam subestimou a reação da comunidade
internacional e do governo americano, seu antigo aliado na guerra contra o Irã.

Para Saddam, a guerra era uma forma de sanar as finanças do país e adquirir poder no mundo árabe. Para os Estados Unidos, era a
oportunidade de ocupar militarmente a região e garantir o domínio sobre parte do petróleo árabe.

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou a invasão e aprovou uma resolução que impunha sanções
econômicas ao Iraque. Ao mesmo tempo, a Liga Árabe iniciou as negociações para tentar resolver o conflito por meio da diplomacia, sem
alcançar sucesso.

Em 28 de agosto, o governo iraquiano anexou o Kuait como sua 19ª província. No dia seguinte, a ONU deu um ultimato: até o dia 15 de
janeiro de 1991 as tropas deveriam se retirar; caso isso não ocorresse, haveria ofensiva militar. Para cumprir esse ultimato, formou-se uma
coalizão de 34 países liderados pelos Estados Unidos: entre eles, Reino Unido, França, Arábia Saudita, Egito e Síria. Um contingente de 750
mil soldados foi mobilizado contra 200 mil soldados iraquianos.

No dia 17 de janeiro de 1991 começou o ataque aéreo contra Bagdá, capital iraquiana. Entre os dias 25 e 28 de fevereiro foi desencadeada a
"Operação Tempestade no Deserto", com forças da ONU comandadas pelo general americano Norman Schwarzkopf.

Os bombardeios eram acompanhados pela TV em todo o mundo. Na chamada "guerra cirúrgica", mísseis "inteligentes" atingiam alvos
militares e a infraestrutura de Bagdá. Ao término da operação, os soldados iraquianos foram expulsos do Kuait e Bagdá aprovou o cessar-
fogo no dia 3 de março.

Consequências
A família real do Kuait, que havia deixado o país antes da invasão, retornou após o fim do conflito. Cerca de mil civis morreram na guerra e
outros 300 mil deixaram o país. O Exército iraquiano também danificou 737 poços de petróleo, provocando danos ambientais em toda região
do Golfo Pérsico. O Kuait levou mais de dois anos para reparar os danos causados à sua indústria petrolífera.

No Iraque, a guerra deixou 3.664 civis mortos - e o país ficou em ruínas. Para piorar, durante os anos 1990 foram impostas sanções
comerciais e financeiras, a fim de que o governo desmantelasse sua indústria bélica e pagasse indenizações de guerra, o que impediu a
reconstrução do país.

Em 20 de março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque com apoio do Reino Unido. O governo de George W. Bush acusou Saddam
de ligação com os atentados de 11 de Setembro e de possuir armas de destruição em massa, fatos que nunca foram comprovados. Segundo
especialistas, o real motivo da guerra seria garantir o controle das reservas de petróleo.

O ditador iraquiano foi deposto, capturado ao final de 2003 e condenado à morte em dezembro de 2006. Para os Estados Unidos, contudo, foi
apenas o começo de uma das guerras mais longas, caras e mortíferas de sua história, só perdendo para o conflito do Vietnã.

A guerra do Iraque já custou US$ 736 bilhões aos cofres americanos (contra US$ 286 bilhões gastos no Afeganistão) e deixou um saldo de
4.731 soldados mortos, sendo 4.413 americanos (contra um total de 1.968 mortos, sendo 1.207 americanos, no Afeganistão).

A morte de americanos em atentados terroristas em Bagdá e os escândalos decorrentes de abusos cometidos contra presos iraquianos na
prisão de Abu Ghraib tiveram repercussão interna e mancharam a imagem da Casa Branca.

Por isso, com a eleição de Barack Obama para a presidência da República em 2009, a estratégia foi mudada. Ele prometeu retirar a maior
parte dos combatentes até 31 de agosto de 2010. Hoje, existem aproximadamente 85 mil soldados americanos no Iraque. Metade do
contingente deve permanecer e ser removido gradualmente até 31 de dezembro de 2011. Depois disso, o Iraque conquistará de novo sua
independência.

BOMBA ATÔMICA - 65 ANOS

Explosões em Hiroshima e Nagazaki inauguraram


era nuclear
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Eram 8h15 da manhã do dia 6 de agosto de 1945 quando os habitantes da cidade japonesa de Hiroshima viram um enorme clarão seguido de
um colossal estrondo. Pela primeira vez, uma bomba de fissão nuclear era usada numa guerra contra uma população civil. Isso aconteceria
somente mais uma vez na história: três dias depois, em Nagazaki, atingida por outro artefato desenvolvido pelos norte-americanos.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Estima-se que 140 mil pessoas tenham morrido em Hiroshima e outras 70 mil em Nagazaki, sem contar sobreviventes que morreram nas
décadas seguintes em decorrência dos efeitos nocivos da radiação.

Os ataques marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e deram início à era nuclear e à corrida armamentista entre dois blocos
dominantes e antagônicos, os Estados Unidos e a ex-União Soviética. Foi um dos períodos mais tensos da história, já que havia o risco do
mundo ser devastado por um confronto com armas atômicas.

Passados 65 anos das explosões em Hiroshima e Nagazaki, a comunidade internacional tenta impedir o armamento de países como Irã e
Coreia do Norte. O perigo, hoje, é que a bomba possa ser usada por extremistas religiosos ou terroristas.

Projeto Manhattan
O governo dos Estados Unidos financiava pesquisas sobre a fissão nuclear (base das primeiras bombas atômicas) desde o começo da
Segunda Guerra Mundial. Alertado pelo físico Albert Einstein (1879-1955) de que os alemães poderiam construir a bomba antes dos Aliados,
o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1933 a 1945) inaugurou o Projeto Manhattan em 1942.

O projeto secreto reuniu os maiores cientistas da época - muitos deles europeus que fugiam dos nazistas, como o próprio Einstein - para
produzir e detonar três bombas atômicas. A primeira delas foi testada em 16 de julho de 1945 no deserto de Alamogordo, próximo da base
de Los Alamos, no Estado do Novo México.

Menos de um mês depois, o presidente Harry Truman (1945 a 1953) autorizou o uso das outras duas contra os japoneses. Na ocasião, os
alemães já haviam se rendido aos soviéticos, mas o Império do Japão ainda resistia no Pacífico. Anos antes, o ataque japonês à base
americana de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, foi responsável pela entrada dos americanos na guerra.

A bomba, que explodiu em Hiroshima, foi apelidada de "Little Boy" e tinha a potência de 20 mil toneladas de TNT. Ela estava a bordo de um
bombardeio B-29 chamado Enola Gay (em homenagem a mãe de um dos quatro tripulantes), que partiu da ilha Tinian, no Oceano Pacífico,
na madrugada do dia 6 de agosto.

A terceira bomba tinha o apelido de "Fat Boy". O alvo inicial era Kokura, mas devido ao céu nublado, que impediria avaliar visualmente os
danos causados, os militares optaram pela cidade de Nagazaki, que reunia a maior comunidade cristã do Japão.

As cidades destruídas eram importantes portos japoneses e centros industriais. Elas foram escolhidas por terem sido pouco atingidas pelos
bombardeios dos Aliados, o que permitiria verificar melhor o potencial das novas armas.

Ninguém sabia, até então, o que era aquela bomba. Prova disso é o fato de os jornais japoneses a chamarem, nos dias seguintes, de "bomba
especial" dos americanos. Somente em Hiroshima, um terço da população morreu e 90% das construções ruíram. Após os ataques, o
Imperador Hiroíto aceitou a rendição do Japão, pondo fim à guerra.
Para os militares americanos, os ataques abreviaram o término da guerra e, assim, pouparam a vida de milhares de soldados e civis.
Historiadores, entretanto, acreditam que a rendição japonesa era iminente e, por isso, a bomba era desnecessária. A questão, porém, ainda é
muito polêmica.

Guerra Fria
A devastação das cidades japonesas mudou o curso da história. Era a primeira vez que o homem possuía tecnologia de destruição em massa,
o que ameaçava a vida no planeta. No período que se seguiu, por quase 50 anos, os Estados Unidos e a União Soviética travaram uma
disputa ideológica e estratégica que ficou conhecida como Guerra Fria.

O auge dos conflitos aconteceu no começo dos anos 1960, quando os russos instalaram ogivas em Cuba, a poucos quilômetros da costa
americana, em represália à presença de mísseis americanos na Turquia. Os Estados Unidos fizeram uma tentativa frustrada de invasão da
ilha, colocando as superpotências nos limites de uma guerra nuclear.

Apesar disso, os países investiram em arsenais atômicos mais como uma forma de dissuasão do que propriamente com a intenção de usá-los
em guerras. Os Estados Unidos, que até 1949 eram a única nação a possuir uma bomba atômica, produziram armas ainda mais poderosas.
Uma delas foi a bomba-H ou bomba de hidrogênio (baseada na fusão nuclear), testada em 1952 e cinco mil vezes mais potente do que a
usada em Hiroshima . Mesmo assim, evitou o emprego de armamento nuclear nas guerras da Coreia (1950-1953) e do Vietnã (1959-1975).

O primeiro Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares (TNP) foi assinado em 1967 pelas cinco potências nucleares oficiais: Estados
Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França. Outros acordos bilaterais possibilitaram a redução do número de ogivas existentes no mundo nos
anos 1970, e muitos países abandonaram programas nucleares com fins militares, incluindo a Argentina e o Brasil.

Além das bombas, havia o perigo da radioatividade. Em 28 de março de 1979, o derretimento parcial de um reator nuclear na base
americana em Three Mile Island, no Estado da Pensilvânia, liberou partículas radioativas na atmosfera. O pior dos desastres ocorreu em 26
de abril de 1986, na explosão de quatro reatores em Chernobyl, na Ucrânia, contaminando boa parte da Europa Oriental.

O fim da Guerra Fria, porém, trouxe o risco de programas clandestinos em países politicamente instáveis, como o Paquistão, ou ameaçados
por extremistas religiosos, como o Irã. A Coreia do Norte, que realizou testes nucleares ano passado, usa as bombas para conseguir
dividendos diplomáticos e financeiros.

Hoje, teme-se uma nova corrida armamentista no Oriente Médio, uma das regiões mais conflituosas do mundo. Por isso, há uma pressão da
Organização das Nações Unidas e de países árabes para que o Irã desista de seu programa nuclear e para que Israel se desfaça de seus
arsenais.

De acordo com estimativas do Boletim de Cientistas Atômicos, o mundo possui hoje 23.574 artefatos nucleares, contra 32.512 em 2000. A
Rússia vem em primeiro lugar, com 12.987, seguida dos Estados Unidos (9.552), França (300), Reino Unido (192) e China (176), incluindo
estimativas em Israel (200), Paquistão (90), Índia (75) e Coreia do Norte (2).

PENA DE MORTE: APEDREJAMENTO

Condenação de iraniana gera protestos no mundo


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A condenação à morte por apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadí Ahstiani provocou uma onda de manifestações contrárias ao
presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad , acusado de violação dos direitos humanos . Após sofrer pressão internacional, o governo iraniano
manteve a pena capital para a mulher acusada de adultério, mas anunciou que mudaria a execução para enforcamento.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Sakineh, 43 anos, é viúva e tem dois filhos, com idades de 17 e 22 anos. Ela foi condenada em 15 de maio de 2006 por um tribunal de
Tabriz, maior cidade da província do Azerbaijão Ocidental, por manter "relacionamento ilícito" com dois homens. O caso teria ocorrido após a
morte de seu marido. A pena imposta foi de 99 chibatadas.

Em setembro do mesmo ano, ela foi julgada novamente pelo crime e sentenciada à morte por apedrejamento. Este é considerado um dos
métodos de execução mais cruéis que existem. De acordo com o Código Penal iraniano, a mulher é enterrada de pé até o peito ou o pescoço
e recebe pedradas, atiradas por populares. As pedras não podem ser muito pequenas, a ponto de causarem poucos danos, nem muito
grandes, de modo a prolongar a agonia do condenado. Casos de homens executados por lapidação são raros no país.

O Irã adotou a prática após a Revolução Iraniana de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khoemini (1900-1989). A revolução depôs o regime
monárquico e instituiu a autoridade máxima religiosa. A República Islâmica do Irã é o único regime do mundo que emprega sistematicamente
a lapidação como pena de morte.

Sentença de morte
Segundo dados da ONG Comitê Internacional Contra o Apedrejamento, outros 24 iranianos receberam a mesma sentença e aguardam serem
executados. A Anistia Internacional aponta o número de 11 pessoas, sendo 8 mulheres.

Em 31 anos, de acordo com a ONG, mais de 150 pessoas foram mortas no país por apedrejamento (há uma lista de 136, no site da
entidade). O número de mortos teria aumentado após a coalizão conservadora que empossou o presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2005.
A entidade registrou também um aumento drástico das execuções no período de oito semanas entre as eleições presidenciais de 12 de junho
até a posse de Ahmadinejad para o segundo mandato, em 5 de agosto do ano passado.

Os dados não são precisos devido ao acobertamento do governo iraniano. Segundo estimativas de 2009 da Anistia Internacional, o Irã possui
o segundo maior número de réus executados no mundo (388), perdendo apenas para a China, com mil mortes no ano (número que
ultrapassa as 714 execuções registradas pela Anistia em 18 países, em 2009).

A região do Oriente Médio possui a maior taxa per capta de execuções no mundo. Além do Irã, foram registradas mortes no Iraque (120),
Arábia Saudita (69), Estados Unidos (52), Yemen (30), Sudão (9), Vietnã (9), Síria (8) e Japão (7). Apenas no Japão e nos Estados Unidos os
números são oficiais. Para os demais países, a organização adotou a estimativas mínimas. Os métodos utilizados nas sentenças foram a
forca, o fuzilamento, a decapitação, a lapidação, a eletrocussão e a injeção letal.

Para especialistas, a lapidação é usada com fins políticos no Irã, para aterrorizar os inimigos políticos e conter protestos contra o governo.
Em alguns casos, a acusação é baseada em argumentos religiosos, que lembram a Inquisição. O próprio julgamento de Sakineh é alvo de
desconfianças por falta de provas e restrições à defesa. Até mesmo o advogado de defesa da iraniana teve que buscar asilo político na
Noruega para escapar da perseguição do governo.

No último dia 8 de agosto, o Irã anunciou a condenação de um rapaz de 18 anos, preso há dois anos em Tabriz, por ser homossexual. A pena
prevista na legislação pode ser de chibatadas ou morte por apedrejamento ou enforcamento. No dia seguinte, uma mulher afegã foi
chicoteada e executada a tiros, em público, por cometer suposto adultério, no Afeganistão.

Os tribunais do Afeganistão, Paquistão e Somália também preveem a morte por apedrejamento. Em outubro de 2009, islâmicos somalis
executaram por apedrejamento, em público, uma mulher de 23 anos acusada de adultério.

Asilo político
Após o anúncio da pena de Sakineh, ocorreram protestos em várias capitais européias e americanas, com simulações de lapidações. Órgãos
internacionais de defesa dos direitos humanos iniciaram campanhas para reverter a condenação do governo iraniano, que é signatário de
tratados internacionais.

Para justificar a pena de morte, o Estado informou que a ré também foi condenada por assassinato - ela teria participado, segundo a Justiça
iraniana, da morte do marido.

No dia 31 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu anteriormente o polêmico programa nuclear iraniano, disse que
concederia asilo político à Sakineh no país. O Itamaraty formalizou a oferta, mas o governo do Irã rejeitou no dia 10 de agosto. A rejeição
aconteceu no mesmo dia em que o governo brasileiro firmou um decreto que aprova as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU),
com sanções contra o Irã, por conta do programa nuclear .

A legislação iraniana prevê que a pena pode ser revertida para encarceramento caso a família do marido perdoe a condenada pelo crime. Se
isso não acontecer, ela pode ser morta nos próximos dias.
AQUECIMENTO GLOBAL

Mudanças climáticas: catástrofes no Paquistão e na


Rússia
José Renato Salatiel*
Especil para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado em 25/8/10, às 8h24 Qual seria a relação entre a onda de calor que cobriu Moscou, a capital russa, com uma espessa neblina de
fuligem, e as chuvas que causaram inundações no Paquistão ? Para cientistas que estudam as mudanças no clima da Terra, ambas as
tragédias, ocorridas nos meses de julho e agosto deste ano, poderiam ser efeitos do aquecimento global.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

No Paquistão, as piores enchentes em 80 anos deixaram mais de 1.600 mortos e afetaram 20 milhões de pessoas - aproximadamente 11%
da população do país, que possui 177 milhões de habitantes. As inundações destruíram casas, plantações e danificaram a infraestrutura de
cidades.

Seis milhões de paquistaneses que sobreviveram às cheias (incluindo 3,5 milhões crianças) correm o risco de contraírem doenças, como a
cólera, devido à contaminação da água.

Em visita ao país no dia 15 de agosto, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki Moon , disse que o desastre é o
maior que já viu na vida, e autorizou o envio emergencial de US$ 459 milhões (R$ 811 milhões) para o Paquistão.

Já na Rússia, a maior onda de calor em mil anos causou mortes e prejuízos ao país. Desde o começo da seca, em maio, 52 pessoas
morreram, e a taxa de mortalidade em Moscou dobrou devido ao calor e à fumaça de incêndios florestais.

A temperatura na capital atingiu o recorde de 39 graus, no dia mais quente já registrado. Os níveis de monóxido de carbono chegaram ao
dobro do aceitável, obrigando os russos a usarem máscaras nas ruas.

Os incêndios ainda destruíram um quarto das terras usadas para o cultivo de cereais (a Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de
trigo, centeio e cevada). Para garantir o abastecimento doméstico, o governo suspendeu as exportações até o final do ano.

Havia também o perigo dos incêndios chegarem à usina de Mayak, nos Montes Urais, e Chernobyl , locais onde ocorreram desastres
nucleares nos anos de 1957 e 1986, respectivamente. O fogo poderia espalhar partículas radioativas presentes no solo contaminado desses
lugares.

O calor também bateu recordes e provocou incêndios em países europeus como Portugal e Grécia, além de inundações na China . Para
especialistas, esses eventos teriam sido parcialmente provocados pelo aquecimento global, resultado do efeito estufa .

Terra mais quente


O efeito estufa ocorre quando a energia do Sol se acumula na atmosfera terrestre, elevando a temperatura do planeta. Ele é causado pela
emissão de seis tipos de gases, como dióxido de carbono (CO2) , metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) . O dióxido de carbono é o mais
abundante e duradouro na atmosfera. Ele é liberado pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão natural), que constituem a
principal fonte de energia das economias mundiais.

O efeito estufa é um fenômeno natural e necessário para a vida no planeta, pois permite que a Terra retenha o calor indispensável para a
sobrevivência dos seres vivos. O problema é que, com o aumento da poluição a partir do século 19, houve um desequilíbrio nesse processo, o
que provocou o aquecimento global.

Alertados por cientistas, os governos mundiais começaram a se preocupar com questões ambientais nos anos 1980. O último relatório do
Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em 2007, apontou que a temperatura no mundo
subiu 0,74% no período de 1906 a 2005, devido à atividade humana. E, se nada for feito, haverá um aumento em 4 graus Celsius até 2100.

Se isso acontecer, espécies de animais e vegetais serão extintas, haverá prejuízo para a agricultura, falta de água, ondas de calor e
ocorrência de tufões e furacões . O derretimento das calotas polares elevará o nível dos oceanos, inundando as regiões costeiras do planeta.

Kyoto
Segundo a Organização Meteorológica Mundial da ONU, 2010 pode ser o ano mais quente desde o início dos registros de temperatura em
meados do século 19 XIX, ultrapassando o recorde de 1998.

Para os cientistas, o risco de ocorrerem ondas de calor semelhantes às que mataram 35 mil pessoas na Europa em 2003 é, hoje, duas vezes
maior por conta das alterações climáticas no planeta. A comunidade científica estuda, agora, métodos e tecnologias mais precisas na previsão
de catástrofes como as ocorridas no Paquistão e na Rússia, além de buscar acordos que permitam a redução de poluentes.

A maior dificuldade, no entanto, é contar com o consenso entre as duas maiores potências econômicas do planeta -Estados Unidos e China -,
que são, também, os países mais poluidores do planeta.

Em dezembro do ano passado, foi realizado, em Copenhague, capital da Dinamarca, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças
Climáticas (COP 15). O objetivo era estabelecer metas internacionais - que irão substituir o Protocolo de Kyoto após 2012 - de redução da
emissão de gases causadores do efeito estufa.

Após duas semanas de negociações, a COP 15 terminou com um acordo tímido entre Estados Unidos, China, Brasil, África do Sul e Índia. Os
participantes concordaram com a necessidade de se limitar o aquecimento global em 2 graus Celsius. Porém, não houve avanço no que
concerne a metas assumidas por governos ou garantias da assinatura do documento que substituirá o Protocolo de Kyoto.

De concreto, foi criado um fundo anual de 100 bilhões de dólares até 2020 para ajudar os países pobres a colaborarem com planos de
combate ao aquecimento global.

HUMOR NA POLÍTICA

Eleições mantêm candidatos folclóricos, mas


censuram humoristas
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado em 31 de agosto de 2010, às 8h37

Mesmo com a censura aos programas humorísticos, as eleições gerais de 2010 preservam o aspecto mais burlesco da tradição democrática
com as campanhas dos candidatos folclóricos, que contam com votos de protesto ou com a própria fama para conseguirem uma vaga no
Congresso.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Desde a Antiguidade, o humor faz parte da democracia como instrumento de crítica aos governantes. No Brasil, a atual legislação proíbe a
veiculação de piadas feitas na TV com políticos, ao passo que os partidos acolhem os tipos mais excêntricos e "celebridades" como
candidatos.

De acordo com a resolução nº 23.191 de 2009, que atualiza a Lei Eleitoral nº 9.504 de 1997, é vetado aos programas de emissoras de rádio
e TV "usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido
político ou coligação" (Art. 45, II).

A desobediência à norma prevê a aplicação de multas às emissoras nos valores de R$ 21 mil a R$ 106 mil, duplicadas em caso de
reincidência. A lei entrou em vigor nas eleições deste ano, que irão eleger presidente, governadores de 26 Estados e do Distrito Federal e
representantes da Câmara dos Deputados e do Senado .

No último dia 22 de agosto, artistas realizaram um protesto no Rio de Janeiro contra a lei que censura o humor político durante o período
eleitoral. A manifestação foi organizada pelo movimento Humor Sem Censura.

Para os humoristas, a legislação contraria a liberdade de expressão e afeta programas de TV como o Casseta & Planeta (Globo), CQC (Band)
e Pânico (Rede TV!).

No dia 26 de agosto, o ministro Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a regra por meio de uma liminar pedida pela
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). O ministro argumentou que a lei contraria a liberdade de expressão.

A liminar será analisada pelo Supremo, para ser revogada ou ratificada pelos demais ministros. Até que seja julgada, os programas
humorísticos estão liberados para fazer piadas com políticos.

No Brasil, o humor em política remonta aos tempos do Império, quando revistas e jornais traziam caricaturas e faziam chacotas sobre a vida
na Corte. Até no período da ditadura militar (1964-1985), com a imprensa "amordaçada" pelo regime, publicações alternativas usavam o
humor como forma de romper a censura e atacar os generais.

A prática, porém, é muito mais antiga. Na Grécia, berço da democracia ocidental, a comédia surgiu no teatro grego em 488 a.C. As poucas
comédias de Aristófanes que foram preservadas revelam ironias contra os políticos da época. Pelo menos um deles, Cleón, teria recorrido à
Justiça para tentar silenciar o dramaturgo grego.

A tradição foi mantida na Roma antiga, na Idade Média e no Renascimento , até os dias atuais. Nas sociedades democráticas, como os
Estados Unidos, os candidatos respeitam e até mesmo participam de programas humorísticos. É o caso, por exemplo, da caracterização de
Sarah Palin, candidata a vice de John McCain , feita pelo programa humorístico Saturday Night Live nas eleições presidenciais de 2008.

Macaco Tião
Há também, no Brasil, a tradição de expressar o descontentamento com a baixa qualidade de candidatos por meio do voto em figuras
caricatas e em animais. É uma forma de protesto bem humorado que tem sido usada, atualmente, como estratégia de partidos políticos
"nanicos".

Em 1958, o "candidato" mais votado nas eleições para vereador foi Cacareco, um rinoceronte do Zoológico de São Paulo. O animal conseguiu
100 mil votos, cinco mil a mais do que o partido mais votado naquela eleição. O caso foi considerado um emblema na história do voto nulo
no país.

Outro "candidato" famoso foi o Macaco Tião, um chipanzé do Zoológico do Rio de Janeiro. A candidatura do macaco à Prefeitura do Rio, em
1988, foi lançada pelos humoristas do Casseta & Planeta, que à época editavam uma revista (Casseta Popular) e um tablóide (O Planeta
Diário). O chipanzé obteve 400 mil votos e ficou em terceiro lugar entre os doze candidatos que disputavam a eleição.
Isso só foi possível porque, na ocasião em que Cacareco e Macaco Tião concorreram, os eleitores escreviam o nome dos candidatos em
cédulas de papel, o que permitia a contagem de votos para os animais.

A partir das eleições de 1996, as cédulas foram substituídas por urnas eletrônicas. Com isso, ficou impossível votar em candidatos que não
fossem reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Começaram, então, a proliferar personagens como Enéas Carneiro, que ficou conhecido pelo bordão "Meu nome é Enéas!". Ele disputou três
eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998) e chegou a ficar em terceiro lugar.

Nas próximas eleições, além de candidatos conhecidos por envolvimento em casos de corrupção, como Paulo Maluf, Fernando Collor e Jader
Barbalho , o eleitor ainda encontrará uma lista de artistas e "celebridades", como a Mulher Pêra, Maguila, Marcelinho Carioca, Ronald Esper e
Tati Quebra-Barraco, entre outros.

Um dos mais representativos é o palhaço Tiririca, candidato a deputado federal. Ele afirmou ter sido convidado pelo PR, e confessou não ter a
mínima noção do que faz um parlamentar.

Para os partidos, esses candidatos, que canalizam o descontentamento de parte do eleitorado ou usam a fama para conquistar eleitores, são
vistos como uma oportunidade de atrair votos para a legenda. Ou seja, os partidos, que deveriam filtrar as candidaturas "exóticas", são os
que mais as estimulam. E, diferente dos votos nulos para animais de zoológico, alguns deles conseguem se eleger para o Congresso, como
Clodovil, Aguinaldo e Frank Aguiar.
MASSACRE NO MÉXICO

Imigrantes vivem pesadelo na fronteira com os


Estados Unidos
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A fronteira do México com os Estados Unidos sempre foi retratada como um território violento e sem regras nos filmes de faroeste. Nos
últimos anos, a ação de cartéis do narcotráfico tornou a realidade muito mais dramática que a ficção, sobretudo para milharesde imigrantes
ilegais que partem em busca do "sonho americano".

Direto ao ponto: Ficha-resumo

No dia 24 de agosto, os corpos de 72 estrangeiros (58 homens e 14 mulheres) foram encontrados pela Marinha mexicana numa fazenda
situada próximo à cidade de San Fernando, no Estado de Tamaupilas, ao norte do México. Foi a maior chacina já registrada no país.

Entre os mortos estavam dois brasileiros. Os demais eram cidadãos de Honduras , El Salvador, Guatemala e Equador . O grupo tentava
cruzar a fronteira com o Texas quando foi capturado pelos traficantes.

Apenas um jovem equatoriano sobreviveu ao massacre. Luis Freddy Lala Pomavilla se fingiu de morto e, mesmo ferido na garganta,
conseguiu pedir ajuda aos militares.

Ele contou que os imigrantes ilegais foram sequestrados por integrantes do grupo Los Zetas ("Os Zs"), um dos cartéis de drogas que
dominam a região. Os criminosos teriam proposto aos estrangeiros que trabalhassem como matadores de aluguel por um salário de US$ 1
mil por quinzena. Como recusaram a oferta, foram amarrados, amordaçados e fuzilados contra uma parede.

Jean Charles
Os brasileiros mortos moravam em cidades vizinhas a Governador Valadares (MG). A região é um dos principais pólos de exportação de mão
de obra para os Estados Unidos e Europa desde os anos 1960.

Hermínio Cardoso dos Santos, 24 anos, e Juliard Aires Fernandes, 20 anos, vinham de famílias pobres e deixaram o campo em busca de uma
vida melhor nos Estados Unidos. Suas histórias são parecidas com a do brasileiro Jean Charles de Menezes , morto a tiros por policiais no
metrô de Londres em 22 de julho de 2005, após ter sido confundido com um terrorista (veja filme indicado abaixo).

Milhares de imigrantes tentam atravessar todos os anos os 3,2 mil km de fronteira que separam o México dos Estados Unidos. Para isso,
precisam vencer 1,2 mil km de muro, patrulhas e obstáculos naturais, como o Rio Grande e regiões desérticas. Os clandestinos pagam
quantias a guias chamados "coiotes", que os levam através da fronteira.

De acordo com dados do Pew Hispanic Center, em 2008 havia 11,9 milhões de imigrantes ilegais vivendo nos Estados Unidos. Deste total,
76% eram hispânicos, a maioria composta por mexicanos (59%). Estimativas indicam que a comunidade brasileira é de cerca de 1,2 milhão
de pessoas, sendo 20% ilegais. No Arizona, o governo aprovou, em abril, uma lei que torna crime a imigração ilegal. A lei foi alvo de
protestos de grupos de defesa dos direitos civis e é contestada na Justiça. O Estado do Arizona é a principal porta de entrada de estrangeiros
sem documentos no país.

Violência
Nos últimos anos, porém, o domínio de traficantes tem tornado a travessia ainda mais perigosa. Eles sequestram e obrigam os clandestinos a
transportarem drogas ou cometerem outros crimes. Os que se recusam a prestar serviços aos cartéis ou a pagar o resgate por suas vidas são
executados.

Em 2009, pelo menos 10 mil foram vítimas de sequestro, segundo a Comissão de Direitos Humanos . Dados oficiais do governo mexicano
também apontam 28 mil mortes desde 2006, quando o presidente Felipe Calderón iniciou uma ofensiva contra o tráfico.

A chacina de Tamaupilas foi a terceira ocorrida somente este ano. Outros 55 corpos foram encontrados em maio no Estado de Guerrero e, em
julho, 51 vítimas na cidade de Monterrey, próximo ao Texas.

Ciudad Juárez, localizada na fronteira com El Paso (Texas), é considerada a cidade mais violenta, onde mais de 4.500 pessoas foram mortas
desde 2008.

As mortes resultam tanto do confronto de traficantes com militares como consequência da guerra entre os cartéis. Eles assumiram o controle
do tráfico de drogas na América do Sul, um negócio estimado entre US$13,6 a US$ 48,4 bilhões anuais, com o declínio dos cartéis
colombianos - Medellin e Cali - nos anos 1980.
Estima-se que 90% da cocaína dos Estados Unidos entre no país através da fronteira mexicana. 70 % de todo tipo de droga ilegal que circula
no país provém das quadrilhas mexicanas.

Os principais cartéis em atividade são: Cartel de Sinaloa, Cartel do Golfo, Família Michoacana, Beltrán Levya, Cartel de Juarez e Los Zetas.

O Los Zetas é considerado o mais violento grupo paramilitar em atividade no México. Ele foi fundado por desertores das Forças Especiais do
Exército mexicano. No começo, seus integrantes foram contratados como mercenários pelo Cartel do Golfo em operações contra os zapatistas
, nos anos 1990.

Entre os crimes atribuídos ao grupo está o assassinato de dois prefeitos mexicanos no mês de agosto. O corpo de Edelmiro Cavazos, prefeito
de Santiago (Estado de Nuevo Leon), foi encontrado em 18 de agosto. O prefeito de Hidalgo (Estado de Tamaulipas), Marco Antonio Leal
Garcia, foi executado a tiros no dia 29 de agosto. O cartel também foi responsabilizado por atentados a bomba na mesma região em que
ocorreu a chacina.

Para conter a onda de violência, o governo mexicano colocou, desde 2008, mais de 30 mil soldados nas ruas. Em 2007, o presidente
Calderón e o presidente George W. Bush assinaram um acordo conhecido como Iniciativa Mérida, um plano de combate ao tráfico na América
Central de cerca de US$ 1,5 bilhão, a serem gastos em três anos. O plano foi aprovado em junho do ano seguinte no Congresso americano.
Ele inclui a compra de helicópteros, treinamento de policiais e implementação de tecnologia contra o crime organizado. Até março desde ano,
apenas 9% do total destinado foi gasto.
FIM DA GUERRA DO IRAQUE

Desafio agora é manter estabilidade política e


segurança no país
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Após mais de sete anos, os Estados Unidos terminaram uma das guerras mais caras e polêmicas de sua história. No último dia 31 de agosto,
cumprindo uma promessa de campanha, o presidente Barack Obama anunciou o térmico da missão de combate no Iraque. Os iraquianos
enfrentam agora o desafio de manter a segurança e compor um governo em meio a desavenças étnicas que dividem a nação.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A Operação Liberdade Iraquiana começou em 20 de março de 2003, durante o governo de George W. Bush (2001-2009). O motivo alegado
para a invasão, a suposta existência de armas de destruição em massa, nunca foi comprovado. O objetivo era destituir o ditador Saddam
Hussein do poder e estabelecer um regime democrático. Por trás disso, havia o interesse no controle das reservas de petróleo iraquianas e no
domínio estratégico na região.

Na época, Bush tinha apoio da população para promover sua "guerra contra o terror". A campanha foi iniciada após osataques às torres
gêmeas do World Trade Center (Nova York), em 11 de setembro de 2001. Nos anos seguintes, porém, o país se envolveu em duas guerras,
no Afeganistão e no Iraque, e enfrentou a maior crise econômica desde a Grande Depressão (1929-1933).

Somente a guerra no Iraque custou US$ 744 bilhões (R$ 1,3 trilhão) e matou mais de 4.419 militares (até 3 de agosto) e 100 mil civis
iraquianos. A imagem dos Estados Unidos também foi prejudicada devido a denúncias de maus tratos a presos iraquianos na prisão de Abu
Ghraib e operações violentas nas ruas de Bagdá.

Era, portanto, uma guerra que só acumulava despesas. Os prejuízos eram tanto financeiros quanto políticos. O desgaste de Bush, agravado
pela demora ao socorro às vítimas do furacão Katrina em 29 de agosto de 2005, foi decisivo para a eleição de Obama no ano passado.
Dentre os compromissos do novo presidente estavam retirar os combatentes do Iraque e concentrar esforços na economia doméstica.

Para completar a retirada, no último dia 1º de setembro o governo americano deu início à Operação Novo Amanhecer. Um efetivo de 49.700
soldados (dos 64 mil remanescentes) irá permanecer no Iraque para treinar a polícia e o Exército locais. Obama enfatizou que os soldados
deixarão definitivamente o país até o final de 2011. Para isso, pediu pressa na composição de um novo governo no Iraque.

Não será fácil reconstruir o país. O Iraque, assim como a maioria dos países do Oriente Médio , não possui tradição democrática. Além disso,
décadas de guerras destruíram a infraestrutura necessária para o desenvolvimento. E há disputas entre grupos étnicos que impedem a
formação de um Estado. A unificação do país só foi possível, até hoje, por meio da ditadura.

Era Saddam
O Iraque é um país rico em petróleo, mas pouco desenvolvido devido a séculos de guerra e ocupação estrangeira. Depois de quatro séculos
dominado pelo Império Otomano, passou a ser colônia do Reino Unido após o término da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Quatro
décadas mais tarde, o período de transição da monarquia foi marcado por sucessivos golpes de Estado.

Os conflitos terminaram com a chegada do partido de Saddam Hussein ao poder, em 1968. O ditador assumiu a presidência em 1979,
iniciando um dos regimes mais violentos do Oriente Médio. Na ocasião, em plena Guerra Fria (1945-1991), ele tinha apoio dos Estados
Unidos. A razão disso era a rivalidade com o Irã, país dos aiatolás que pregava o fim de Israel e desafiava os americanos.

Durante o governo de Saddam, o Iraque enfrentou três guerras do Golfo Pérsico que devastaram a economia do país: a primeira contra o Irã
(1980-88), a segunda com a invasão do Kuwait (1990-91) e, finalmente, a ocupação dos Estados Unidos (2003-2010). O ditador iraquiano foi
deposto e capturado ao final de 2003. Ele foi condenado à morte em dezembro de 2006 pelo assassinato de 148 muçulmanos xiitas na vila de
Dujail, ocorrido em 1982.

A sociedade iraquiana é formada por três grupos étnicos e religiosos que brigam entre si há séculos. Os árabes perfazem entre 75% e 80%
da população, de 29 milhões de habitantes. Os curdos estão entre 15 e 20% desse total. A principal religião é a muçulmana, dividida entre
xiitas (60 a 65%) e a minoria sunita (32% a 37%).

Os sunitas governaram o país desde a sua criação, em 1920. Essa situação mudou a partir de outubro de 2005, quando os iraquianos
aprovaram uma Constituição mediante um referendo nacional. Em dezembro foi composto o Parlamento, no primeiro governo constitucional
no país em quase 50 anos, de maioria xiita. As diferenças étnicas vieram à tona em atentados violentos até 2007.

Impasse político
Nas eleições parlamentares de 7 de março deste ano , a coalizão xiita do primeiro-ministro Nouri al Maliki, o Estado de Direito, terminou em
segundo lugar, atrás da aliança Iraqiya, do ex-premiê Iyad Allawi (que tem apoio dos sunitas). A Aliança Nacional Iraquiana, de xiitas
radicais, ficou em terceiro lugar na disputa.

Houve denúncias de fraudes e recontagem de votos, mas os números permaneceram inalterados. O resultado nas urnas obrigou os partidos a
negociarem a composição de um novo governo, secular e multiétnico.

No entanto, passados seis meses das eleições, não foi sequer nomeado um novo primeiro ministro. Os três blocos não se entenderam e não
surgiu um outro nome, além de Maliki, para concorrer ao cargo.

Enquanto isso, uma nova onda de violência tomou conta das ruas de Bagdá. A duas semanas da retirada das tropas, um ataque deixou pelo
menos 59 mortos. Outras 12 pessoas morreram em ataques de homens-bomba contra um complexo militar, depois do fim da missão. Os
atentados colocam em dúvida as garantias do governo iraquiano de que o país tem condições de cuidar da própria segurança.

OCIDENTE E ISLÃ

Choque entre duas culturas define mundo


contemporâneo
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Na véspera dos 9 anos dos atentados do 11 de Setembro , a ameaça de um pastor americano de queimar o Alcorão mobilizou lideranças
mundiais para evitar uma crise entre o Ocidente e o Islã. Na Europa, o Senado francês aprovou uma lei polêmica que proíbe o uso de véu por
muçulmanas, seguindo uma tendência conservadora entre governos europeus.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Cada vez mais, o antagonismo entre as modernas nações capitalistas e países islâmicos se torna fonte de conflitos políticos e religiosos no
mundo pós-Guerra Fria .

Terry Jones era um desconhecido pastor de uma igreja na cidade de Gainesville, de 114 mil habitantes, no Estado da Flórida. Ele chamou a
atenção da imprensa internacional ao anunciar que queimaria exemplares do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, no aniversário dos
ataques de 2001. A intenção do religioso era protestar contra o projeto de construção de um centro islâmico próximo ao Marco Zero, local
onde era situado o World Trade Center.

Temendo reações de extremistas islâmicos, autoridades como o Papa Bento 16, o presidente Barack Obama e o secretário-geral das Nações
Unidas, Ban Ki-moon , além de chefes de Estado da Europa, pediram que o religioso desistisse do ato. Ao mesmo tempo, três pessoas
morreram em manifestações contrárias ao pastor no Afeganistão. A pressão, porém, surtiu efeito, e Jones desistiu de queimar o livro
sagrado.

Episódios como esse têm se tornado mais comuns nos últimos anos. Em 1989, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie ficou famoso depois
do Irã decretar uma fatwa (sentença de morte) contra ele. Rushdie foi acusado de blasfêmia em seu romance Os Versos Satânicos. Desde
então, passou a viver escondido e sob proteção policial, mesmo após o Irã suspender a condenação em 1998, atendendo aos apelos da
comunidade internacional.

Em 30 de setembro de 2005, o jornal Jyllands-Posten, de maior tiragem na Dinamarca, publicou 12 caricaturas intituladas "As faces de
Maomé". As charges provocaram manifestações violentas, incêndios em embaixadas dinamarquesas e uma crise diplomática com países
árabes. O redator-chefe do jornal, que foi ameaçado de morte, pediu desculpas publicamente, enquanto outros jornais europeus publicaram
as caricaturas em defesa da liberdade de expressão e de imprensa.

Mais recentemente, países europeus votaram leis restritivas aos costumes islâmicos em ações consideradas hostis pelos 15 milhões de
muçulmanos que vivem no continente. Em 29 de novembro de 2009, a Suíça aprovou, mediante referendo, a construção de minaretes -
torres de mesquita de onde se chamam os muçulmanos para as orações diárias.

No último 14 de setembro, o Senado francês aprovou uma lei que proíbe o uso de véus islâmicos integrais - a "burka" e o "niqab" - em
espaços públicos do país. Os parlamentares alegam questões de segurança, além de respeito aos direitos das mulheres.

Mas a lei, que deve entrar em vigor no próximo ano, causou controvérsia no país que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa. O
islamismo é a segunda maior religião da França, atrás somente do catolicismo.

A norma prevê multa de 150 euros para quem desacatar a proibição do uso da vestimenta. Estimativas apontam que cerca de 2 mil mulheres
usam o véu no país. Propostas semelhantes foram aprovadas na Bélgica e na Dinamarca (proibição parcial), e entraram em discussão na
Itália, Espanha, Reino Unido, Holanda e Áustria.

Raízes comuns
Islã ou civilização islâmica se refere aos povos que seguem a religião do islamismo, cujos fiéis são chamados muçulmanos ou islamitas. O
islamismo foi fundado pelo profeta Maomé no século 7, na Arábia. Ele possui raízes comuns com outras duas religiões monoteístas, o
cristianismo e o judaísmo.

Apesar de essa religião ter surgido entre os árabes, eles representam apenas 15% dos muçulmanos no mundo. O islamismo é predominante
em mais de 50 países do Oriente Médio , Ásia, África e Europa, estando espalhado em comunidades em todo o mundo, inclusive no Brasil.

O Alcorão (ou Corão) é o livro sagrado dos muçulmanos. Eles consideram que a obra foi ditada a Maomé pelo arcanjo Gabriel.

Uma das principais diferenças dos países islâmicos em relação ao Ocidente é justamente não separar religião de Estado. O Alcorão serve de
base para organização social, política e jurídica ("sharia"). Por esta razão, enquanto a maioria dos povos ocidentais adotou a democracia , os
povos islâmicos vivem, em sua maior parte, em teocracias. A Turquia é um dos raros países de maioria muçulmana que também é secular e
democrático.

Outro ponto de discórdia diz respeito a liberdades civis e direitos humanos, considerados uma conquista no mundo moderno. Uma
interpretação mais rigorosa do Alcorão acaba confrontando alguns destes valores ocidentais.

Por conta desse estranhamento, para o Islã a cultura ocidental é materialista, decadente e imoral. Os ocidentais, por sua vez, costumam
associar os muçulmanos a grupos terroristas, como a Al-Qaeda , o Hamas e o Hezbollah , e à violência contra mulheres e minorias. Ambas as
visões, é claro, são equivocadas na maioria das vezes.
Cruzadas
As diferenças religiosas, culturais e políticas entre os povos islâmicos e os ocidentais se acentuaram a partir da segunda metade do século
20. Dessa forma, os principais conflitos do mundo contemporâneo, como as guerras do Iraque e do Afeganistão, possuem causas na
animosidade entre as duas civilizações. A origem da discórdia, porém, é bem mais antiga.

Entre os séculos 7 e 8, os árabes dominaram o Oriente Médio, o Norte da África, a Pérsia e a Índia Setentrional. A reação da Cristandade
começou no século 11, com a conquista do Mediterrâneo e o início das Cruzadas (1095). Por um século e meio, os cristãos resistiram em
potentados na Terra Santa, até a invasão dos turcos otomanos, que retomaram o controle da região dos Bálcãs e do Oriente Médio.

Até então, e durante a maior parte da história da humanidade, o contato entre povos foi escasso e pouco duradouro. O motivo eram as
dificuldades para se transpor as barreiras geográficas. Isso começou a mudar a partir dos séculos 15 e 16, com a expansão colonial.

As principais nações imperialistas, como Inglaterra, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos, travaram guerras e promoveram
campanhas expansionistas até o século 20. O imperialismo europeu levou seus valores ocidentais - oriundos de dois importantes
movimentos, a Reforma Protestante e o Iluminismo - ao mundo árabe. Décadas depois, os Estados Unidos fariam o mesmo em guerras no
Golfo Pérsico .

Acontece que tais iniciativas, promovidas mediante o poderio bélico, só alimentaram movimentos nacionalistas e de independência nos países
árabes, que passaram a ver o ocidental como inimigo. Um bom exemplo disso é a Guerra do Iraque, que constituiu uma tentativa, até agora
fracassada, de implantar a democracia à força. Como resultado dessas intervenções, os americanos se tornaram o principal alvo de grupos
extremistas como a Al- Qaeda, suspeita dos atentados de 11 de Setembro.

Fundamentalismo
Mas como o Islã ganhou importância no panorama geopolítico do mundo moderno? Até poucas décadas atrás, durante a Guerra Fria, o
mundo era dividido em três blocos econômicos e ideológicos distintos: havia o Primeiro Mundo, representado pelos Estados Unidos; o bloco
socialista, liderado pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o chamado Terceiro Mundo, formado por países pobres e
não alinhados (entre eles o Brasil).

Neste contexto, o islamismo surgiu em sua versão fundamentalista como movimento religioso e intelectual, nos anos 1970, e se espalhou
rapidamente pelo Oriente Médio, África, Ásia e Europa. Para isso, contou com o financiamento de potências árabes, ricas em petróleo, e
ocidentais, que os viram como alternativa a movimentos nacionalistas e comunistas.

Com o colapso dos regimes comunistas no final dos anos 1980, os choques culturais com o Islã substituíram a antiga disputa entre as
superpotências.

Isso ocorreu primeiro devido à crescente importância das nações árabes, decorrente da alta do preço do petróleo, até os anos 1980, e depois
em razão do crescimento populacional. O aumento da população de jovens também alimentou o fundamentalismo. Depois de doutrinados, os
jovens se espalharam pelo Ocidente e, com a maior proximidade entre os povos, foram acentuadas as diferenças religiosas e de valores
culturais.

Em segundo lugar, enquanto na maior parte da Europa a queda de ditaduras socialistas deu lugar a regimes democráticos, em países
islâmicos, ausentes de tradição democrática, o fundamentalismo foi adotado. Um exemplo foi a Revolução Iraniana de 1979, que precedeu o
fim do comunismo. Com a esquerda combalida, a afirmação de identidades regionais em torno do islamismo emergiu como principal resposta
ao processo de globalização .

Os ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos foram o ponto alto desse embate cultural. Desde então, a tensão entre os povos islâmicos
e ocidentais tem ditado manobras diplomáticas e políticas, com um forte - e perigoso - apelo a radicais de ambos os lados.

60 ANOS DA TV NO BRASIL

Da improvisação ao vivo à era digital


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
No cotidiano dos brasileiros, nenhum outro meio de comunicação foi mais presente ou influente do que a TV. Mesmo famílias que vivem em
moradias simples, sem acesso à infraestrutura básica, como água encanada e esgoto, possuem um aparelho de TV no qual assistem a
telejornais, novelas e jogos de futebol.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Aos 60 anos, a TV brasileira acumula elogios como uma das melhores do mundo. Ao mesmo tempo, a regulamentação do setor é uma das
mais defasadas e propícias à manutenção de oligopólios de mídia. O fato, entretanto, é que a TV continua soberana em 95% dos lares
brasileiros em plena era da internet.

A primeira emissora de televisão no Brasil, a TV Tupi, foi inaugurada há 60 anos, em 18 de setembro de 1950. No começo, os programas
eram ao vivo e caracterizados pela improvisação, experimentação em linguagem (adaptada do rádio e do teatro) e falta de aparelhos
receptores, devido ao alto custo. Nessa época, o rádio era o principal meio eletrônico de informação e entretenimento dos brasileiros.

O idealizador da TV brasileira foi Assis Chateaubriand (1892-1968), dono dos Diários Associados, um império de comunicação que incluía
dezenas de jornais, revistas e rádios. Ele importou equipamentos e técnicos dos Estados Unidos e instalou duas antenas em São Paulo, uma
no prédio do Banespa e outra na sede da empresa, no bairro Sumaré.

Como não havia televisores no país, o empresário contrabandeou 200 aparelhos, que foram dados de presentes a amigos e financiadores.
Outros 22 receptores foram colocados em vitrines de 17 lojas do centro de São Paulo, para que as pessoas pudessem assistir da rua.

Na noite de estreia, o programa seria ao vivo - como era toda programação até os anos 1960. Para isso, foram feitos ensaios com semanas
de antecedência. A inauguração teve direito a discurso presidencial e bispo benzendo as máquinas. Contudo, pouco antes do programa
inaugural ir ao ar, uma das três câmeras pifou, atrasando o evento em mais de uma hora.

Pouquíssimas pessoas puderam ver as imagens onduladas, pouco nítidas e em close de rostos desconhecidos à época, como Hebe Camargo e
Lima Duarte. Além da falta de aparelhos receptores, a transmissão tinha um alcance de apenas cem quilômetros.

Improviso
Nos dias seguintes, foi montada às pressas uma programação, que incluía programas de variedades, teleteatros e um noticiário, o "Imagens
do Dia". A grade de programação tinha apenas cinco horas, das 17h às 22h. E, como tudo era encenado ao vivo, havia grandes intervalos
entre os programas para permitir a troca de cenário e aparelhagem.

Programas como "O Céu é o Limite", de perguntas e respostas, repetiam o sucesso no rádio ou copiavam shows apresentados na TV
americana.

Em 1951 começam a ser produzidos no país receptores da marca Invictus. Assis Chateaubriand lançou uma campanha publicitária para
estimular a compra, mas o preço era muito alto para a classe média: uma televisão custava até três vezes mais que uma vitrola (toca-
discos). Ao final deste ano, havia 7 mil televisores em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde foi inaugurada a Tupi Rio.

Até os anos 1960, novas emissoras foram inauguradas, como a TV Excelsior, a Globo, a Bandeirantes e a Rede Record. Nesse período, a TV
Tupi entrou em decadência por motivos financeiros. A emissora teve a concessão cassada em 1980, pois a renovação exigia que tivesse os
impostos pagos e ausência de processos judiciais e trabalhistas.

A partir dos anos 1970, a TV brasileira adquiriu um perfil mais empresarial . A Globo foi o primeiro canal de televisão a operar em rede. A
emissora se tornou, ainda, especialista em telenovelas, o principal produto televisivo de exportação do país. A Copa de 70 também
impulsionou a venda de aparelhos (a TV em cores surgiu em 1972).

Atualmente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 95% dos domicílios no país possuem aparelho de TV,
porcentagem maior que a de geladeiras (92%) ou mesmo de casas atendidas com abastecimento de água (83,9%) e rede coletora de esgoto
(52,5%). Os dados são referentes ao ano de 2008.

Poder
As primeiras transmissões de TV foram feitas na Alemanha, em 1935. No ano seguinte, foram criadas emissoras no Reino Unido e nos
Estados Unidos. O Brasil, primeiro país da América do Sul a ter transmissão televisiva, adotou um modelo americano de TV comercial. Na
Europa, ao contrário, o veículo surgiu com um perfil público e educativo.

O modelo comercial, que tem influência sobre o conteúdo da programação, foi alvo por muitos anos da crítica de teóricos da comunicação.
Para eles, a TV era um mero instrumento de controle social e político.

Durante o regime militar (1964-1986), a TV teve um papel importante na integração do Brasil. Por isso, o governo favoreceu a concentração
dos veículos de comunicação nas mãos de poucos grupos empresariais. Esse quadro predomina até os dias atuais.

De acordo com o Projeto Donos da Mídia, os conglomerados que operam as cinco maiores redes privadas - Globo, Band, SBT, Record e Rede
TV! - também controlam, direta ou indiretamente, alguns dos mais importantes meios de comunicação do país. O serviço de radiodifusão
brasileiro é regulamentado mediante um sistema de outorgas. As outorgas são concedidas por meio de licitações apreciadas pelo Congresso e
sancionadas pelo presidente da República.

O problema é que, na maior parte das vezes, são os próprios senadores e deputados ligados a empresas de comunicação que concedem ou
renovam as concessões. Além disso, muitos políticos são donos de rádios e TVs, mas usam o nome de "laranjas" para burlar o artigo nº 54
da Constituição Federal, que proíbe a prática .

Com esse histórico, a TV brasileira entrou no século 21 com importantes desafios tecnológicos pela frente. Hoje ela possui dezenas de canais
por assinatura, sinal digital (cuja transmissão foi iniciada em 2 de dezembro de 2007) e a possibilidade de convergência com outras mídias,
como celulares e computadores. Isso irá permitir uma maior interação com o público e, aos poucos, mudar a maneira como assistimos à TV.
ENTENDA POR QUE AS ELEIÇÕES NO BRASIL IMPORTAM NO CENÁRIO INTERNACIONAL

Fabrícia Peixoto
Da BBC Brasil
Em Brasília

Uma democracia gigante, com 135 milhões de eleitores, e com um sistema de votação elogiado internacionalmente, o Brasil deverá atrair a
atenção mundial durante a escolha de seu próximo presidente, no dia 3 de outubro.
O interesse pelo pleito, no entanto, vai além de uma simples curiosidade pelo processo eleitoral do país: o mundo quer saber quem
governará uma nação de economia ascendente e com um papel geopolítico cada vez mais forte.
Por outro lado, a maior projeção do país também chama a atenção internacional para questões internas – e muitas vezes nem tão positivas,
como a violência e a pobreza.
As preparações para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016, além da exploração das reservas do pré-sal, completam o
quadro de um país que tende a estar com sua imagem cada vez mais exposta à comunidade internacional.
Veja os principais motivos que levam as eleições brasileiras a serem alvo de atenção internacional.

Economia
Poucos países deixaram a crise financeira internacional para trás de forma tão rápida quanto o Brasil. O Produto Interno Bruto (PIB) deverá
crescer perto de 7,5% este ano, após uma retração de 0,2% em 2009 – resultado que, apesar de negativo, ficou acima da média,
considerando as principais economias do mundo.
Mas não é só a rápida recuperação que vem animando investidores estrangeiros. Com um crescimento médio de 4,8% de 2002 a 2008, o
Brasil tem conseguido aliar expansão econômica com inflação sob controle.
O resultado é uma crescente classe média com apetite para o consumo, que tem sido o principal motor da economia do país. Somente no 1º
semestre deste ano, a demanda interna cresceu 8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Mas o próximo governo também terá desafios: a taxa de juros do país, descontada a inflação, é uma das maiores do mundo. A carga
tributária chega a 36% do PIB, a maior da América Latina, e o país investe pouco, o equivalente a 17,9% do PIB – quando na China e na
Índia chega-se a 43% e 34%, respectivamente.
Mas o ambiente macroeconômico favorável, somado a projetos vultosos (dentre eles a exploração de petróleo em camadas profundas e a
realização da Copa do Mundo em 2014) deixam os investidores otimistas quanto ao Brasil. Muitos deles, inclusive, já veem o país entre as
cinco maiores economias do mundo em um prazo de 15 anos.

Papel geopolítico crescente


Os defensores da diplomacia brasileira costumam dizer que o Brasil “mudou seu patamar” nas relações internacionais e que não existe mais
“mesa” em que o país não esteja representado.
Ainda que essa maior participação seja motivo de controvérsia entre os especialistas, o fato é o que o Brasil vem se tornando cada vez mais
atuante em determinados fóruns internacionais, sobretudo quando o assunto é economia e meio ambiente.
Um exemplo desse novo papel geopolítico está na participação do país no G20 financeiro, que ganhou destaque em função da crise
internacional de 2008.
O Brasil tem sido uma das principais vozes dentre os emergentes em busca de uma nova ordem econômica mundial, com maior peso para
esses países em organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
Dono da maior floresta tropical do mundo e grande usuário de energia limpa, o Brasil também se tornou presença constante nas discussões
sobre mudança do clima no âmbito das Nações Unidas.
Em novembro do ano passado, o país figurou, ao lado de Estados Unidos, União Europeia, China, Índia e África do Sul, entre os principais
negociadores da reunião de Copenhague sobre mudanças climáticas.
Os mais críticos, no entanto, argumentam que, apesar dessa maior participação, o país está longe de alcançar resultados concretos, já que o
sistema internacional continua sendo conduzido pelas grandes potências.

Política externa mais agressiva


Não é apenas nos fóruns internacionais que o Brasil tem tido papel mais agressivo: a política externa bilateral também se acentuou nos
últimos anos, com maior destaque para as relações Sul-Sul.
De olho em uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, o país vem buscando um maior alinhamento com governos de
regiões até então pouco exploradas pelo Itamaraty, caso da África e do Oriente Médio.
Recentemente, o Brasil atraiu os holofotes internacionais ao intermediar, junto com a Turquia, um acordo nuclear com o Irã, gerando certa
insatisfação no governo americano.
Ao mesmo tempo em que é saudada pela diplomacia brasileira, a aproximação com o governo de Mahmoud Ahmadinejad tem gerado uma
série de críticas a Brasília, que não estaria usando sua influência junto ao país persa para tentar atenuar supostos abusos em direitos
humanos.
O aprofundamento das relações com países africanos também tem sido uma importante marca da diplomacia brasileira, interessada não
apenas em ampliar seu leque de aliados políticos, mas também diversificar suas opções de investimento no exterior.
Por outro lado, alguns analistas costumam apontar um certo “excesso” nas pretensões brasileiras. O argumento é de que a diplomacia
brasileira estaria colocando a ideologia política à frente dos interesses econômicos e comerciais do país.

População
Com uma população de 191 milhões de pessoas, o Brasil é o quinto maior do mundo nessa categoria, atrás apenas de China, Índia, Estados
Unidos e Indonésia.
Considerando a taxa média de fecundidade entre 2002 e 2006, que foi de 1,5 filho por mulher, o Brasil chegará ao ano de 2020 com uma
população de 207 milhões de pessoas, segundo estimativas.
Apesar da tendência de queda, a parcela dos jovens no país ainda é expressiva: cerca de 32,8% da população é formada por pessoas com
até 19 anos de idade. Há dez anos, porém, essa mesma parcela era de 40%.
Esse crescimento impõe uma série de desafios ao país, dentre eles uma melhor estrutura em transporte e moradia. De acordo com a ONU, o
Brasil tem 55 milhões de pessoas vivendo em favelas ou em outros tipos de moradias inadequadas.

Agricultura e pecuária
Se por um lado o Brasil ainda deixa a desejar quando o assunto é a produtividade na indústria, o mesmo não se pode dizer do campo: o país
é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e ainda tem um alto potencial de expansão.
Nos últimos dez anos, a produção total de alimentos saiu de 80 milhões de toneladas para quase 150 milhões – um crescimento de 87%. O
país é o maior exportador mundial de suco de laranja, açúcar, frango, carne bovina e café, além de ser o segundo maior em soja.
Diante do crescimento da população mundial e da necessidade de abastecer um maior número de pessoas com uma dieta cada vez mais
diferenciada, alguns especialistas têm apontado o Brasil como “celeiro” do mundo.
O apelido leva em consideração não apenas o que o país produz e exporta atualmente, mas principalmente seu potencial de expansão:
segundo as Nações Unidas, o Brasil tem 50 milhões de hectares de terra sob cultivo e outros 300 milhões de hectares aráveis, mais do que
qualquer outro país.
Mas apesar do espaço “de sobra”, a expansão do cultivo deverá esbarrar em alguns desafios, como a qualidade de vida no campo e a pressão
sobre áreas protegidas.
Para muitos ambientalistas, uma possível alta nos preços das commodities, somada a uma fiscalização ineficiente, podem colocar em risco os
biomas da Amazônia e do Cerrado.

Desafios sociais
O Brasil vem conseguindo melhorar seus principais indicadores sociais nos últimos anos, muitas vezes em consequência do crescimento
econômico e de uma inflação sob controle.
De 2003 a 2008, cerca de 32 milhões de brasileiros deixaram as classes D e E, ingressando nas classes A, B e C, segundo estimativas da
Fundação Getúlio Vargas (FGV).
No que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que considera riqueza, educação e expectativa de vida ao nascer, o país
tem melhorado seu desempenho a cada ano, mas ainda está na 75ª posição dentre 115 países – praticamente o mesmo patamar verificado
em 2002.
Quando a desigualdade de renda é contabilizada, o país tem um desempenho pior do que a média da América Latina, segundo a ONU.
As diferenças regionais também constituem um dos principais desafios do país nos próximos anos. Um levantamento recente do IBGE mostra
que 99,8% das cidades do Estado de São Paulo eram servidas com rede de esgoto em 2008, enquanto no Piauí apenas 4,5% dos municípios
eram atendidos.
Outro tema que costuma atrair a atenção internacional para o Brasil, a violência ainda tem indicadores que colocam o Brasil no topo dos
rankings mundiais.
Ainda que o indicador tenha melhorado nas capitais, a taxa média de homicídios ainda é alta: 25,2 para cada grupo de 100 mil habitantes.
CAMPANHA 2010

Escândalos políticos e marasmo dão o tom


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
As eleições gerais do próximo dia 3 de outubro serão as maiores da história do país. Um total de 135 milhões de brasileiros irá às urnas
escolher entre mais de 20 mil candidatos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os políticos concorrem a cargos de presidente da
República, governador, senador e deputados estadual, federal e distrital.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A despeito da importância, a campanha eleitoral foi marcada pelo marasmo, com pouca empolgação dos eleitores e sem debates políticos em
torno de propostas detalhadas de governo. O clima só mudou nos bastidores, com denúncias de escândalos de corrupção e com o destaque
para candidatos folclóricos que disputam uma vaga no Congresso.

Para as vagas do Luiz Inácio Lula da Silva.

Também serão escolhidos os ocupantes do Poder Legislativo. O Senado Federal é composto por 81 parlamentares com mandato de oito anos
e direito a reeleições sem limites. Cada Estado tem direito a três representantes.

Um terço das cadeiras é renovado numa eleição e os outros dois terços, quatro anos depois. Em 2006 foram escolhidos 27 senadores e, este
ano, portanto, serão 54 - dois para cada Estado e mais Distrito Federal. Em São Paulo, por exemplo, os senadores Aloizio Mercadante (PT) e
Romeu Tuma (PTB) terminam o mandato este ano, enquanto o de Eduardo Suplicy (PT) vai até 2014.

Para o Senado, vigora o chamado sistema majoritário, em que vencem os candidatos que obtiverem mais votos (o mesmo sistema válido
para presidente e governadores).

Na Câmara dos Deputados, cada Estado possui um número de cadeiras proporcional à sua população. São 513 deputados federais que
cumprem mandato de quatro anos e também podem se reeleger sem limites. Há um número mínimo de oito (Distrito Federal, Roraima, Acre
e Sergipe, entre outros) e um máximo de 70 parlamentares (São Paulo) para cada Estado.

A escolha segue o sistema de proporcionalidade, o mesmo válido para os deputados estaduais de 26 Assembleias Legislativas e da Câmara
Legislativa do Distrito Federal (total de 1.057 cadeiras).

A proporcionalidade funciona por meio do cálculo do total de votos recebidos divido pelo número de vagas no Estado, obtendo-se o quociente
eleitoral. Se um Estado tiver 1 milhão de votos e houver 10 vagas, o quociente será 100 mil. Este será, consequentemente, o número mínimo
de votos que um partido ou coligação terá que atingir para eleger um deputado. Se um partido obtiver 200 mil votos, por exemplo, ele irá
eleger dois parlamentares, que serão os dois mais votados da legenda.

Presidenciáveis
As próximas eleições serão, também, as primeiras sem a participação do presidente Lula desde 1989. Nesta data foi realizada a primeira
eleição direta para presidente desde o golpe militar de 1964. A votação terminou com a vitória, no segundo turno, do presidente Fernando
Collor de Mello, que sofreria impeachment dois anos após iniciar o mandato.

Mesmo com a estabilidade econômica e melhoria nos indicadores sociais, o próximo presidente terá importantes desafios pelo frente. O país
ainda possui graves distorções sociais e regionais que são um entrave para o desenvolvimento. Um dos números mais representativos do
atraso, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que apenas 59% dos domicílios brasileiros possui rede
de esgoto ou fossa séptica. Isso agrava problemas ambientais e de saúde pública.

Porém, as eleições presidenciais deste ano são as mais desestimulantes desde a redemocratização do Brasil, segundo especialistas. Ela ficou
mais uma vez polarizada entre candidatos de dois partidos: Dilma Rousseff (PT), que conta com 50% das intenções de votos, e José Serra
(PSDB), com 27%. A terceira colocada é a candidata Marina Silva (PV), com 13% das intenções de votos, de acordo com pesquisas mais
recentes.

Amparada pela popularidade recorde de quase 80% do presidente, Dilma Rousseff pode ser eleita já no primeiro turno. Os candidatos, no
entanto, apresentam discursos semelhantes e, com isso, praticamente esvaziam o debate, de onde estão ausentes propostas conflitantes ou
temas polêmicos.

Soma-se a isso o fato de nenhum deles ter apresentado programas de governo detalhados, isto é, especificando como conseguirão realizar
todas as promessas de campanha.

A campanha só "esquentou" com denúncias de corrupção no governo. O primeiro caso foi a quebra de sigilo fiscal da filha de José Serra
(PSDB), supostamente por adversários políticos com intenções eleitorais. Outra foi de um suposto esquema de tráfico de influência
envolvendo a família da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, sucessora de Dilma, e os Correios.

Já na reta final, ocorreram novos embates entre o Governo Federal e a imprensa. Criticado por atuar como "cabo eleitoral" e usar a máquina
pública para eleger sua sucessora, Lula reclamou da cobertura tendenciosa dos meios de comunicação. As empresas de comunicação
reagiram, apontando uma tendência de censura, em voga atualmente em países como Venezuela e Argentina.

Palhaço
As eleições de outubro serão importantes também porque devem renovar as Casas legislativas, responsáveis por propor leis, aprovar
orçamentos e fiscalizar os atos do Executivo.

O grande destaque ficou por conta da aprovação da lei da Ficha Limpa. A lei proíbe a candidatura de políticos que tenham sido condenados
ou que tenham renunciado para evitar processo de cassação. O projeto foi aprovado em 19 de maio no Senado, mas ficou a dúvida a respeito
de se valeria já para estas eleições ou somente a partir das próximas. O impasse deverá ser decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas, mesmo assim, a lei já serviu para dar ao eleitor mais um instrumento de fiscalização e de "filtro" de candidaturas.

O lado negativo das eleições do Legislativo deste ano foi a "explosão" de candidatos folclóricos, cujo maior representante é o palhaço Tiririca,
candidato a deputado federal pelo PR. Com uma atitude debochada e a suspeita de que seja analfabeto (o que anularia sua candidatura), ele
pode ser o parlamentar mais votado no país, segundo pesquisas de intenção de voto.

Tiririca representa uma tradição brasileira de expressar o descontentamento com a política votando em figuras caricatas. Até os anos 1980,
fizeram sucesso os votos nulos para o rinoceronte Cacareco (1958) e o Macaco Tião (1988). Com a substituição das cédulas de papel por
urnas eletrônicas, a partir de 1996, surgiram os candidatos folclóricos, como Enéas Carneiro (conhecido pelo bordão "Meu nome é Enéas!") e
artistas como Clodovil e Frank Aguiar.
Para os partidos, candidatos famosos são chamarizes de votos para a legenda. Para a população, infelizmente, na maior parte das vezes
resultam em piora na qualidade do Congresso.

REUNIFICAÇÃO DA ALEMANHA

Vinte anos depois, diferenças ainda dividem o país


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Durante quase três décadas, a Alemanha viveu uma condição tão surreal que parecia digna de roteiro dos filmes alemães dos anos 1920,
como O Gabinete do Dr. Caligari ou Nosferatu. Após os nazistas perderem a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o país foi dividido em
dois, com nomes, bandeiras, moedas, hinos, tudo diferente.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

E, pior, quem estava de um lado da fronteira não podia atravessar para o outro para rever os parentes ou amigos. Os alemães do lado Leste,
o "primo pobre", eram impedidos de sair por um muro de 155 km de extensão que cortava a capital, Berlim, ao meio.

O lado Oeste, rico e democrático, recuperou-se do fim da guerra, mas no outro, a situação ficou bem diferente. Faltavam artigos de primeira
necessidade e o povo era oprimido por uma das polícias secretas mais eficientes do mundo, a Stasi.

A queda do Muro de Berlim (construído em 1961 e derrubado em novembro de 1989) foi um dos maiores eventos do século 20. Em uma
noite, os alemães derrubaram o muro que cindia o país em dois, dando fim à Guerra Fria e início à queda dos regimes comunistas no Leste
Europeu e ao mundo globalizado.

Onze meses depois, em 3 de outubro de 1990, ocorreu a reunificação da Alemanha, por meio de acordos. Nesta data, a antiga República
Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, foi dissolvida e o território anexado à República Federal da Alemanha (RFA), ou Alemanha
Ocidental, pondo fim à divisão do país.

Nascia, ali, a maior potência econômica da Europa, que, apesar disso, ainda luta para se reconciliar com o passado. Após 20 anos, a
Alemanha permanece dividida econômica, social e politicamente. O Leste, da antiga RDA, continua defasado em relação ao Oeste, o que
mostra que o processo de reunificação ainda não terminou.

Império Alemão
A Alemanha não existia antes de 1871. Após a derrota do imperador francês Napoleão Bonaparte , em 1815, o antigo Sacro Império
Romano-Germânico foi dividido pelo Congresso de Viena em 39 Estados soberanos.

Em comum, esses povos compartilhavam a mesma raiz cultural e língua alemã, além da economia predominantemente agrária e política
feudal. Os reinos dominantes eram a Prússia, governada pelos Hohenzollern, e a Áustria, dos Habsburgos.

A primeira tentativa de unificação dos reinos aconteceu em 1848. Neste ano, ocorreram revoltas populares por toda a Europa contra as
monarquias absolutistas. Contudo, os monarcas da Prússia e da Áustria conseguiram se manter por mais tempo no poder, adiando a
unificação.

Nos anos seguintes, foi o próprio governo da Prússia, mais desenvolvida e industrializada que a Áustria, que liderou o movimento de
unificação. Para isso, foi fundamental o apoio de setores da burguesia.

Quando o rei Guilherme 1º assumiu o trono, em 1862, ele nomeou o primeiro-ministro Otto von Bismarck para iniciar o processo. Mas foram
necessárias três guerras contra a Dinamarca, Áustria e França, ao fim das quais, em janeiro de 1871, Guilherme I foi coroado primeiro kaiser
(imperador) do Império alemão (1871-1918).

O império unificou a Alemanha em um Estado moderno, como exceção da Áustria. Seguiu-se um período de expansão colonialista e
crescimento econômico, que terminou com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Derrotada na guerra, a Alemanha sofreu uma revolução
que depôs o imperador Guilherme II e proclamou a República de Weimar (1919-1933).

Porém, a situação do país era precária no pós-guerra, principalmente pelas condições impostas pelo Tratado de Versalhes. O ambiente, por
outro lado, era propício para inflamar o sentimento nacionalista dos alemães, e, assim, levar ao poder o partido nazista de Adolf Hitler , que
desencadearia a Segunda Guerra Mundial.

Muro de Berlim
O fim da segunda guerra, mais uma vez, deixou a Alemanha derrotada e em ruínas. Em 1949, a nação foi dividida em duas áreas de regimes
políticos e econômicos diferentes. O lado ocidental era controlado pelos Aliados, enquanto o lado oriental ficou com a antiga União Soviética.
Berlim, a capital, também tinha seu lado ocidental e oriental.

Logo as divergências sociais entre as duas Alemanhas se tornaram evidentes. O Oeste capitalista progredia, ao passo que no Leste havia
escassez de produtos e liberdade. Por isso, eram constantes as fugas de alemães para a parte ocidental.

Para conter as fugas foi construído, em 13 de agosto de 1961, um muro dividindo o país, transformando a RDA numa prisão para 17 milhões
de alemães.

Já ao final dos anos 1980, a situação dos regimes comunistas era insustentável no Leste Europeu. Prevendo isso, o líder soviético Mikhail
Gorbatchev (1985-1991) iniciou duas reformas, uma política (a glasnost), e outra econômica (a perestroika). As duas juntas levaram à
dissolução da União Soviética em 1991.

Sem o apoio militar dos soviéticos para conter as revoluções, os governos comunistas na Europa começaram a cair um por um. Primeiro a
Polônia, por meio de eleições gerais em 1988. No ano seguinte foi a vez da Hungria, com uma abertura promovida pelo próprio governo.

Com as fronteiras sendo abertas aos poucos, ficou impossível para a Alemanha Oriental sustentar o muro por mais tempo. Os protestos
cresciam por todo país, até que, finalmente na noite de 9 de novembro de 1989, o muro veio abaixo.

Dissolução
No ano seguinte, em 18 de março, foram realizadas as primeiras eleições livres na RDA, com o tema da reunificação dominando os debates.
A essa altura, o país já se esfacelava, o que obrigou o governo a fazer uma equiparação monetária, tornando o marco a moeda oficial
também no Leste.

Foram assinados dois tratados antes da reunificação: um entre as Alemanhas e outro com as potências estrangeiras de ocupação, o Tratado
"2 + 4", que devolvia ao país sua soberania. Em 3 de outubro de 1990, após votação na Câmara Popular, o governo da RDA reconheceu a
dissolução do país e sua integração à República Federal da Alemanha.

Depois das comemorações, os alemães começaram a enfrentar as dificuldades. Era preciso integrar a população do lado oriental, que, sem
qualificação, não conseguia emprego ou bons salários. Outro problema foi a ascensão de grupos neonazistas.

Hoje, o lado Leste ainda é mais pobre que o Oeste. De acordo com o governo, a renda anual per capta dos alemães da antiga RDA é quase 5
mil euros (R$ 11.550) menor. As taxas de desemprego também são maiores e os indicadores sociais, piores no antigo lado comunista. E
mesmo a representação política no Leste, que possui um quinto da população, é menos expressiva. A sensação é de que a reunificação ainda
não se completou.
70 ANOS DE JOHN LENNON

O legado do ex-Beatle
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Na noite do dia 8 de dezembro de 1980, John Lennon voltava para casa acompanhado da mulher, Yoko Ono. Na entrada do edifício Dakota,
em Nova York, onde o casal morava, um homem o chamou: "Sr. Lennon!". Antes que pudesse se virar, foi atingido por quatro disparos de
revólver calibre 38 e caiu sangrando na portaria do prédio.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O autor dos disparos era o ex-segurança Mark David Chapman, de 25 anos, que cumpre pena de prisão perpétua. Seis horas antes, ele havia
conseguido um autógrafo do músico na capa do disco "Double Fantasy", o último da carreira de Lennon. Nas mãos, além da arma, Chapman
trazia um exemplar de "O Apanhador no Campo de Centeio", livro de J. D. Salinger que, assim como o ex-Beatle, virou símbolo de uma era.

Se estivesse vivo, John Lennon teria completado 70 anos no último dia 9 de outubro. Em dezembro, serão 30 anos da morte do músico.
Mesmo após a morte, ele continua sendo um sucesso comercial e uma personalidade que influencia gerações.

O assassinato de Lennon marcou o fim de uma época de idealismo, contestação política, experimentação com drogas, misticismo oriental e
liberação sexual. Um período que teve outros "mártires", como Jimi Hendrix e Janis Joplin , mas nenhum tão emblemático quanto ele.

Em apenas duas décadas, Lennon viveu o melhor e o pior da fama. Nos anos 1960, era o mais talentoso dos Beatles, um rapaz alegre e
irônico que ditava a moda e o comportamento da geração "paz e amor". Nos anos 1970, já casado com a artista plástica japonesa Yoko Ono,
engajou-se em campanhas pacifistas e se envolveu em polêmicas. Nos últimos anos de vida, era um pacato pai de família.

Garotos de Liverpool
John Winston Lennon nasceu em 9 de outubro de 1940 em Liverpool, cidade portuária da Inglaterra. Era a Segunda Guerra Mundial (1939-
1945) e a cidade sofria com os bombardeios nazistas. O nome do meio era uma homenagem a Winston Churchill , primeiro-ministro durante
a guerra.

John era filho de um marinheiro, Alfred, que abandonou a família quando ele tinha 4 anos de idade. A mãe, Julia, deixou o menino aos
cuidados da irmã para viver com outro homem. O jovem só reencontraria a mãe anos mais tarde, em 1952, quando ganhou dela sua
primeira guitarra. Mas a companhia durou pouco: Julia morreu atropelada em 1958.

Dois anos antes, Lennon conheceu seu futuro parceiro musical, James Paul McCartney . Paul era dois anos mais novo, vinha também de uma
família de classe média e a mãe havia morrido de câncer quando ele tinha 14 anos. Além das tragédias familiares, os dois tinham em comum
o gosto pela música.

Eles tocavam juntos numa banda criada em 1956, chamada Quarrymen - nome inspirado na escola que frequentavam, a Quarry Bank High
School. Mais tarde, George Harrison (morto em 2001) se juntaria ao grupo. A banda tocava em bares e fazia pequenas turnês pela Europa.

Em 1960, o nome do grupo foi mudado para The Beatles (Os Besouros), em homenagem à banda de Buddy Holly, The Crickets (Os Grilos).
No ano seguinte, os rapazes foram vistos no famoso bar Cavern Club pelo empresário Brian Epstein, que os levou a assinarem os primeiros
contratos de gravação.

Antes de gravarem os primeiros sucessos, o baixista da banda, Stuart Sutcliffe, deixou o grupo para se casar e se dedicar à pintura. E outro
integrante, o baterista, foi substituído por Richard Starkey Jr., ou Ringo Starr , completando a formação dos Beatles, com John Lennon e
George Harrison nas guitarras e Paul McCartney no baixo.

Entre 1962 e 1963, os Beatles lançaram seus primeiros compactos e álbum, alcançando enorme sucesso na Inglaterra e Estados Unidos. Em
apenas oito anos eles reescreveram a história da indústria e da cultura da música pop internacional. Ficaram famosos no mundo inteiro -
mais do que Jesus Cristo, numa das controversas frases de John - e receberam da rainha Elizabeth a Ordem do Império Britânico, uma
condecoração tradicional.

Depois da morte do empresário, em 1967, Paul McCartney tentou assumir os negócios da banda, dando início às desavenças. O grupo se
dissolveu em 1970, deixando 13 discos com músicas que inspiram milhares de pessoas no mundo todo.

Paz e amor
Para os críticos, outro motivo da separação dos Beatles foi a influência de Yoko Ono na vida de John Lennon. Eles se conheceram em 1966. O
ex-Beatle era casado com Cynthia Powell e tinha um filho, Julian Lennon. Dois anos depois, começaram um relacionamento amoroso que
provocou o divórcio do músico.

De certo modo, Yoko ajudou-o a se livrar de dois casamentos que o deixavam frustrado, um com a mulher e outro com os Beatles. Ao lado
de Yoko, Lennon fez uma bem sucedida carreira solo como músico e ativista político.

Ficaram famosos os "bed ins", coletivas de imprensa em cama de hotéis, promovidos pelo casal em campanhas contra as guerras. Lennon
gravou duas músicas que se tornaram símbolo do pacifismo, "Give Peace a Chance" ("Dê uma chance à paz") e "Imagine", cujos versos
diziam "Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz".

Por sua atuação política, o casal foi vigiado pelo FBI, a polícia federal americana. Eles também foram presos com drogas e ameaçados de
expulsão dos Estados Unidos.

Após o nascimento de Sean Lennon, em 1975, Lennon abandonou a profissão para se dedicar à família. Ele só rompeu o autoexílio cinco anos
depois, para gravar o último disco, poucos meses antes de ser assassinado.

Neste ano, as comemorações vêm acompanhadas por uma nova onda de popularidade de John Lennon. Elas incluem o relançamento dos
álbuns e o licenciamento para diversos produtos, entre eles uma caneta Montblanc enfeitada com pedras preciosas e o uso da imagem do ex-
Beatle para vender até carro. Detentora dos direitos autorais de Lennon, Yoko Ono se defende dizendo que essa é a melhor maneira de
manter viva a memória do marido. Discussões à parte, o fato é que John Lennon está mais vivo do que nunca.
MINEIROS DO CHILE

O resgate que emocionou o mundo


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
No dia 5 de agosto, um desmoronamento deixou 33 operários presos na mina de San José, situada no deserto do Atacama, no Chile . Eles
ficaram incomunicáveis, a 700 metros de profundidade, durante 17 dias, até serem descobertos pelas equipes de sondagem.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Começou, então, a ser planejada uma operação de resgate, inédita em tais condições, prevista para durar até quatro meses. Entre os dias 12
e 13 de outubro, 70 dias após o acidente, todos os mineiros foram resgatados com vida.

Da galeria onde estavam confinados, os operários enviavam vídeos em que demonstravam otimismo e organização. Eles cantavam o hino
nacional chileno e mandavam mensagens para os familiares, que aguardavam acampados no terreno da mineradora. O resgate foi
transmitido ao vivo pela internet e por canais de televisões de todo o mundo.

O presidente do Chile, Sebastián Piñera , em meio a uma crise de popularidade, assumiu o compromisso de salvar todos os trabalhadores
presos. Ele acompanhou os trabalhos no local e recebeu os mineiros que, um a um, eram retirados de dentro de uma cápsula metálica usada
para fazer o salvamento.

A eficácia do governo e a lição de solidariedade dos chilenos contribuíram para compor uma imagem positiva do país. Até então, o Chile era
lembrado, principalmente, pela ditadura de Augusto Pinochet , uma das mais violentas na América Latina.

O acidente na mina de San José também chamou atenção para os riscos da falta de segurança nas mineradoras. O minério é uma das
principais riquezas do Chile. A mineração corresponde a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) e um terço de todo o cobre do mundo é
proveniente do país. A tecnologia empregada no salvamento servirá agora de modelo para futuros resgates.

Sobrevivência
O período de 17 dias de isolamento foi o mais difícil para os 33 operários presos na mina. Para sobreviver, eles consumiam apenas duas
colheres de atum em lata e meio copo de leite por dia. A água era retirada de máquinas de refrigeração e eles dormiam espalhados em
túneis.

No refúgio de 52 metros quadrados, a temperatura era de 35 graus e a umidade do ar atingia 85%. Havia pouca ventilação, poeira e
ausência de luz solar. Neste ambiente insalubre, eram grandes os riscos dos mineiros contraírem infecções e doenças respiratórias.

Além disso, não se sabia o que poderia acontecer com um ser humano submetido a um período prolongado de confinamento em grupo. Eles
poderiam sofrer estresse e depressão. Os efeitos só haviam antes sido estudados em astronautas em missões espaciais. Por isso, o governo
chileno contou com apoio de especialistas da Nasa, a agência espacial americana.

Depois que foram descobertos no abrigo, os trabalhadores receberam alimentos, água e medicamentos por três sondas de oito centímetros
de diâmetro. Eles também podiam se comunicar com familiares e serem avaliados por equipes de médicos e psicólogos.

Resgate
Pela quantidade de pessoas, tempo de clausura e profundidade (comparável à altura de duas torres Eiffel ), o resgate no Chile foi inédito no
mundo. A solução escolhida para salvar os funcionários foi construir cápsulas de metal, que seriam inseridas na mina através de dutos.

Modelos de cápsulas foram usados em pelo menos duas outras ocasiões, na Alemanha : no salvamento de três mineiros em 1955, presos a
855 metros de profundidade, e em 1963, quando outros 11 foram resgatados a 58 metros abaixo do solo.

As cápsulas chilenas, porém, eram mais sofisticadas. Elas tinham rádio-comunicador, cinto biométrico (que monitora as funções vitais) e
tubos de oxigênio . Foram construídas três cápsulas de 58 centímetros de diâmetro, batizadas de Fênix: uma usada para teste, uma reserva
e a que fez a retirada dos homens.

O primeiro mineiro a ser retirado, Florencio Ávalos, saiu por volta das 0h10 do dia 13 de outubro. Em 21 horas e 44 minutos, todos os
demais foram salvos. Mesmo os que saíram à noite tiveram que usar óculos escuros para não causar danos às vistas, privadas de luz por
tanto tempo.

A operação foi acompanhada pela TV e pela internet por cerca de um bilhão de pessoas no planeta. Mil e quinhentos jornalistas de 33 países
cobriram o evento. A movimentação aqueceu o mercado na cidade mais próxima, Copiapó, e a fama está "engordando" as contas bancárias
dos familiares dos mineiros.

Heróis
Os 33 mineiros se tornaram conhecidos mundialmente e foram considerados heróis no Chile. Eles receberam prêmios, viagens, ofertas de
trabalho e venderam direitos de entrevistas exclusivas e a publicação de suas histórias em livro. Para isso, fizeram um pacto de não revelar
detalhes do confinamento. Dificilmente irão voltar a exercer a antiga profissão.

A mina San José foi fechada pelo governo e os bens da mineradora foram bloqueados na Justiça. Cerca de 300 funcionários trabalhavam no
local. As famílias pedem indenizações de US$ 12 milhões e o governo quer que a mineradora arque com parte das despesas da operação de
resgate, de custo estimado em US$ 20 milhões.

Em 2007, um trabalhador morreu no mesmo local e a mina ficou interditada por um ano. Depois do último acidente, o governo prometeu
aumentar a fiscalização no setor e revisar padrões de segurança na indústria mineradora do país.
Após o resgate no Chile, ocorreram outros três acidentes em minas na China, Equador e Colômbia. No caso mais grave, 37 mineiros
morreram numa mina de carvão em Yuzhou, na província de Henan, no centro da China .. A mineração no país é considerada a mais
arriscada do mundo, com o registro de 2,6 mil mortes desde 2009.

No Equador, outro desmoronamento matou quatro mineiros a 150 metros de profundidade em Portovelo, na província de El Oro, próximo à
fronteira com o Peru. Na Colômbia, dois operários foram soterrados a 60 metros na mina de carvão La Esperanza, no departamento de
Boyacá.
PROTESTOS NA FRANÇA

A revolta dos jovens contra as mudanças nas


aposentadorias
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há duas semanas as ruas da França foram tomadas por estudantes e sindicalistas que protestaram contra a reforma da previdência, proposta
pelo presidente Nicolas Sarkozy .

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Pela mudança, aprovada pelo Senado no dia 22 de outubro, a idade mínima para se pedir aposentadoria passa de 60 para 62 anos. Para a
aposentadoria integral, a idade foi elevada de 65 para 67 anos.

Com o envelhecimento da população causando o aumento dos gastos públicos, devido ao pagamento de pensões, a medida se tornou
urgente em toda a Europa. Ainda mais depois da crise econômica mundial, que há dois anos derrubou as finanças da UE (União Europeia). .

Outros governos já fizeram reformas, aumentando a idade em que o trabalhador pode pedir a aposentadoria. Dessa forma, ele teria um
tempo de vida profissional maior para custear o sistema previdenciário, e o governo conseguiria reduzir suas despesas.

Mas, se a reforma é necessária, por que os franceses se manifestaram contra o projeto de Sarkozy? Greves afetaram os transportes, os
serviços, os portos e as refinarias, causando prejuízos ao país e desabastecimento em postos de combustíveis. Houve confrontos nas ruas
entre polícia e manifestantes. Até a cantora Lady Gaga teve que cancelar a apresentação que faria em Paris.

Maio de 68
A questão foi política. O presidente francês, com seu jeito arrogante, impôs o projeto de reforma sem discutir com entidades de classes e
outros setores da sociedade. Os sindicatos de esquerda, que são fortes na Europa, reagiram.

Para eles, a aposentadoria aos 60 anos é uma conquista e praticamente um símbolo da luta de classes. O sistema previdenciário atual vigora
desde 1983, período do governo de Francois Mitterrand , que era socialista. E, além disso, os sindicalistas reclamam que os encargos da
previdência recaem sobre os mais pobres.

Sarkozy, que vinha num processo de queda de popularidade (com aprovação de 25% dos franceses), decidiu enfrentar a oposição. Mas ele
não contava com os jovens, que são um fator de desequilíbrio social desde o Maio de 68 . Os estudantes secundaristas, que ainda não
entraram no mercado de trabalho, também foram às ruas protestar contra o projeto.

Os garotos, com idades entre 16 e 18 anos, acreditam que o aumento do tempo de trabalho vai reduzir os postos para os mais jovens.
Mesmo que no futuro eles sejam beneficiados com a reforma, para eles é mais urgente garantir agora um emprego.

Outro motivo é que eles fazem parte da parcela dos franceses que mais detestam o presidente Sarkozy. Eles o acham vaidoso, conservador e
reprovam suas leis anti-imigrantes e política favorável aos mais ricos.

E os estudantes não estão sozinhos. Numa consulta feita recentemente, quase 70% da população da França apoia as greves e os protestos.
O presidente, que deve disputar a reeleição em 2012, não teve como recuar nas reformas que, tudo indica, serão apenas as primeiras de
uma série que os Estados europeus terão pela frente.

Falência do Estado
A expectativa de vida maior do trabalhador era para ser sinônimo de desenvolvimento e progresso. E, na verdade, é. Uma população mais
velha poupa mais e melhora a economia do país.

O problema é que, na Europa, o Estado de bem-estar social paga quase todas as aposentadorias (95% contra 39% nos Estados Unidos ) e
outros benefícios para o trabalhador, como generosos seguros-desemprego.

Com isso, a situação fiscal dos governos entrou em colapso. Como eles irão sustentar uma população inativa que cresce a cada dia, ao passo
que as pessoas têm menos filhos? Estimativas apontam que, daqui a três décadas, um terço da população europeia vai estar aposentada,
sobrando apenas dois terços de mão-de-obra no continente.

A crise econômica, que obrigou os governos a gastarem mais para salvar suas instituições financeiras, apenas apressou as reformas. Elas só
não haviam sido feitas antes para evitar o desgaste político - afinal, nenhum europeu quer perder as garantias de proteção do Estado.

Uma solução seria diminuir o valor das aposentadorias, mas isso deixaria os idosos mais pobres. Então, governos como a França têm optado
por elevar o tempo de contribuição. O Reino Unido aumentou recentemente de 65 para 66 anos a idade mínima para aposentadoria, a partir
de 2020. Medidas semelhantes foram adotadas na Itália, Espanha, Alemanha e Grécia. Todos, porém, estão enfrentando a oposição dos
sindicatos e partidos de oposição.

Mais protestos
As greves francesas são um sintoma de uma mudança na economia europeia, que está transformando o Estado de bem-estar social. Ela vem
acompanhada de aumento de impostos e redução dos gastos fiscais, com corte em benefícios. Num continente de tradição de lutas sociais,
será uma tarefa árdua para os governantes. Por isso, a aprovação das reformas na França não foi o último capítulo dessa novela. O texto
final da reforma foi sancionado na Assembleia Nacional no dia 27 de outubro e a lei deve ser promulgada em novembro.

Enquanto isso, a oposição, representada pelo Partido Socialista, deve recorrer à Corte Constitucional para vetar o projeto. Os sindicalistas,
junto com os estudantes, marcaram novos protestos, mas as paralisações perderam força em todo o país.
Dilma é primeira mulher eleita presidente no Brasil
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Sob a égide do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a economista Dilma Rousseff (PT) se tornou a primeira mulher eleita presidente na
história do Brasil. Ela obteve 56% dos votos válidos no segundo turno, no dia 31 de outubro, contra 44% do ex-governador de São Paulo,
José Serra (PSDB). Agora, a presidente tem pela frente os desafios de governar um país emergente, que pode vir a ser uma das cinco
maiores economias do mundo, mas que ainda enfrenta graves distorções sociais e regionais.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A vitória da petista se deve, especialmente, à popularidade do presidente que atuou como principal cabo eleitoral da campanha de Dilma. Ela
foi escolhida por Lula como candidata depois que o escândalo do "mensalão" derrubou a cúpula do partido, em 2006.

O maior mérito da campanha, portanto, é do próprio presidente. Após oito anos de governo, ele não somente conseguiu eleger sua sucessora
no cargo como terminará o mandato como o governante mais bem avaliado desde a redemocratização do país. Sua gestão foi marcada por
avanços sociais inéditos, como a ascensão de 32 milhões de brasileiros à classe média, e por casos de corrupção envolvendo o PT.

A disputa presidencial foi a sexta desde o fim do regime militar (1965-1985) e a primeira sem a participação de Lula como candidato. A
campanha foi pontuada por escândalos, ataques pessoais, boatos na internet, debates religiosos e a neutralidade da candidata Marina Silva
(PV), terceira colocada no primeiro turno.

Um dos episódios mais polêmicos envolveu uma suposta agressão sofrida por José Serra durante uma caminhada em Campo Grande, zona
oeste do Rio de Janeiro. Ele teria sido atingido na cabeça por um rolo de fita adesiva, em meio a uma briga entre militantes tucanos e
petistas. Outros destaques foram as denúncias de corrupção contra Erenice Guerra, sucessora de Dilma na Casa Civil, e contra Paulo Vieira
de Souza, o Paulo Preto, ligado a José Serra.

Estreante
Dilma é uma estreante nas urnas. Antes dela, o único candidato que conseguiu se eleger presidente sem ter disputado uma única eleição foi
o marechal Eurico Dutra, em 1945, com o apoio de Getúlio Vargas.

Conhecida por ser rígida, exigente e dedicada ao trabalho, Dilma, por outro lado, contava com pouco carisma junto ao eleitorado. Sua
candidatura começou a ser construída em 2008 dentro do governo. No Planalto ela ocupou os cargos de ministra de Minas e Energia (2003-
2005) e, após a queda de José Dirceu, de ministra-chefe da Casa Civil. O carro-chefe da campanha foi o vínculo da candidata com programas
do governo, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Luz para Todos. O primeiro, lançado em 2007, é um pacote de
investimentos em infraestrutura que visa melhorar a economia. O segundo, criado em 2003, teve como objetivo levar luz elétrica à zona
rural.

Mulheres
Ao ser eleita presidente, Dilma Rousseff entrou para um grupo seleto de mulheres que ocupam cargos políticos de liderança no mundo. Hoje,
17 mulheres possuem o título de presidente ou primeira-ministra de um total de 192 nações, segundo o estudo "As Mulheres do Mundo", da
Organização das Nações Unidas (ONU)

Entre as principais lideranças femininas está a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e a menos conhecida Ellen Johnson Sirleaf, presidente
da Libéria e a primeira eleita no continente africano. Na história, entre as mais famosas estavam a primeira ministra britânica Margaret
Thatcher, a "dama de ferro" que governou o Reino Unido de 1979 a 1990, e Indira Gandhi, primeira ministra indiana.

Na América Latina, Dilma será a 11ª mulher a chegar à Presidência. Dos 33 países latino-americanos, nove tiveram mulheres à frente do
Executivo: Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Guiana, Haiti, Panamá e Nicarágua. Oito delas foram eleitas e três cumpriram o
cargo interinamente.

Na Argentina, duas mulheres já foram presidentes. Maria Estela Martinez de Perón, a "Isabelita" Perón, foi a primeira. Ela assumiu o lugar do
marido morto, do qual era vice, em 1974. Já Cristina Kirchner sucedeu o marido, Nestor Kirchner, e é a atual presidente do país. Outra
presidente de destaque na região foi Michelle Bachelet, no Chile.

A costarriquenha Laura Chinchilla, eleita este ano, é uma das três mulheres (junto com Kirchner e Dilma) que hoje estão na Presidência da
República, na América Latina.

No Brasil, a presença feminina na política aumenta a cada eleição, mas mesmo assim o índice é pouco expressivo. A eleição presidencial
deste ano trouxe, pela primeira vez, duas mulheres entre os candidatos mais voltados: Dilma Rousseff e Marina Silva. Anteriormente,
concorreram ao cargo Lívia Maria Pio de Abreu, em 1989 (17.º lugar), e Heloísa Helena, em 2006 (3.º lugar).

Para o Congresso foram eleitas este ano oito senadoras - aumentando para 12 o total de parlamentares do sexo feminino no Senado (num
total de 81 senadores) - e 43 deputadas federais, sendo que duas candidatas ficaram entre os cinco parlamentares mais votados no país. O
índice, porém, é um dos mais baixos no cenário mundial.

Copa do Mundo
A nova presidente terá importantes desafios pela frente para consolidar o Brasil como potência econômica. Entre eles, manter a estabilidade
econômica, herança do Plano Real, e ampliar as conquistas na área social, legadas pela era Lula.

No caminho da petista há dois megaeventos que exigirão investimentos em infraestrutura: a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em
2016 (que, apesar de ocorrerem em outro governo, irão demandar uma preparação no mandato de Dilma). Para isso, será preciso ampliar,
por exemplo, os aeroportos do país, para receber atletas e turistas.

Especialistas indicam também a necessidade de se fazerem duas reformas: uma na previdência, ou seja, nas aposentadorias, e outra no
sistema tributário, referente aos impostos. A primeira é necessária para impedir que o Brasil fique na mesma situação insustentável da
Europa, onde o envelhecimento da população vem causando prejuízos aos cofres públicos. A segunda reforma deve corrigir os altos impostos
pagos no país, que dificultam, por exemplo, o aumento de empregos formais.

No campo político, Dilma terá que fazer um governo independente do presidente Lula, cujo papel, a partir de 1º de janeiro de 2011, quando
passará a faixa presidencial para sua sucessora e herdeira política, ainda é uma incógnita.
REUNIÃO DO G20
Entenda o que é a "guerra cambial"
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O G20, grupos das vinte maiores economias do mundo, se reúne esta semana, entre os dias 10 e 12 de novembro, em Seul, capital da
Coreia do Sul. O principal assunto do encontro será a chamada "guerra cambial". A disputa monetária vem afetando sobretudo países
emergentes, como o Brasil.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

"Guerra cambial" é um conjunto de medidas econômicas adotada por governos para desvalorizar suas moedas. Os países fazem isso porque,
com a moeda nacional "fraca", os produtos para exportação ficam mais baratos no mercado internacional e, assim, ganham competitividade.

Para entender como isso acontece e como prejudica países como o Brasil, vamos primeiro analisar as estratégias dos dois maiores
protagonistas da "guerra cambial": os Estados Unidos e a China. Não por acaso, são também, atualmente, as duas maiores potências
econômicas mundiais.

Os economistas entendem que a disputa se iniciou quando os Estados Unidos colocaram mais dólares em circulação no mercado. Somente no
dia 3 de novembro, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), anunciou a "injeção" de US$ 600 bilhões (R$ 1 trilhão) nos
mercados até 2011.

É a mesma coisa, por exemplo, se um país tivesse uma safra muito grande de milho numa determinada estação. Com mais milho na praça, o
produto seria desvalorizado, isto é, seu preço iria cair nas feiras livres e supermercados. Com a moeda acontece o mesmo. Com mais dólares
em circulação, o dinheiro americano se desvaloriza frente às outras moedas, como o real.

O governo americano adotou essa medida porque precisava exportar mais para recompor sua economia, afetada pela crise financeira
internacional de 2008. Como o mercado interno não dava conta disso, pois as pessoas estão desempregadas ou poupando mais do que
gastando, a solução foi apelar para o mercado externo.

Para isso, é preciso tornar os preços mais competitivos (principalmente em relação aos chineses). Daí as medidas para "enfraquecer" a
moeda.

Desse modo, um brasileiro que pagava três vezes mais por um produto americano, em dólar, hoje, com a moeda americana a menos de R$
2, paga, o mesmo produto, bem mais barato, ou seja, este se torna mais atrativo para o consumidor.

China
Mas o grande vilão da história, dizem os especialistas, é a China. O país desvalorizou primeiro sua moeda, o yuan, por meio do câmbio fixo.
Câmbio fixo significa que a cotação da moeda local é controlada pelo Estado. Ou seja, é o governo que determina o quanto vale o dinheiro
em relação ao dólar. É o contrário do que acontece na maioria dos países, onde se adota o chamado câmbio livre, que é quando a cotação é
definida pelas operações no mercado financeiro.

Soma-se a isso o fato da China ser o maior exportador mundial e está criado um problema e tanto. A reação dos demais países, como os
Estados Unidos, foi o que deu início à "guerra cambial".

Recentemente, até o presidente Luis Inácio Lula da Silva reclamou da "guerra cambial" travada entre a China e os Estados Unidos. E ele não
está sozinho nessa queixa. A desvalorização da moeda americana prejudica as economias de outros países, tanto no mercado externo (pois
os produtos ficam mais caros e perdem na concorrência com os estrangeiros) quanto no interno, pois as importações ficam mais baratas.

Imagine um empresário brasileiro que vende uma câmera digital por R$ 300 no mercado nacional. Aí chega ao Brasil um produto chinês que
custa US$ 90, o que dá pouco mais de R$ 150 - a metade do que custa o mesmo artigo brasileiro. Mesmo que o empresário reduza os custos
de produção para tentar tornar seu eletrônico mais competitivo com o chinês, ele não irá conseguir. Sua única opção será demitir
funcionários. Fazendo isso, ele cria um "efeito dominó": com mais gente desempregada, cai o consumo e outras empresas também vendem
menos.

Para evitar um estrago maior, alguns governos promoveram intervenções cambiais (isto é, na moeda) e fiscais (em tributos). O objetivo é
frear a queda do dólar e do yuan. Países emergentes, com economias estáveis e, por isso, atrativas para investidores, ficam mais vulneráveis
à "guerra cambial".

O governo brasileiro, entre outras medidas, elevou de 2% para 4% (e depois, para 6%) o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Este
imposto é cobrado sobre investimentos estrangeiros em rendas fixas, como títulos do governo. Na prática, o ajuste visa a conter a enxurrada
de dólares no país.

Negociações
Porém, a solução definitiva, segundo economistas, depende da manutenção do câmbio livre com algumas medidas de controle por parte dos
governos. Isso vai depender de negociações entre os líderes mundiais. A China, por exemplo, teria que valorizar mais a sua moeda.

Para discutir estas propostas, o G20 reúne, em seu quinto encontro, presidentes e ministros da Fazenda do mundo todo. Representando o
Brasil, estarão presentes, além de Lula, a presidente eleita, Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda Guido Mantega.

O G20 foi criado em 1999 com o objetivo de propor soluções em conjunto para a economia mundial. O primeiro encontro foi realizado em
Berlim, capital da Alemanha. Juntos, os países membros representam 90% do PIB (Produto Interno Bruto) e 80% do comércio globais, assim
como dois terços da população mundial.

A Coreia do Sul é o primeiro país asiático e o único que não faz parte do G8 (grupos das oito maiores economias do mundo) a sediar a
cúpula. Ao final do evento, a presidência do G20 será passada para a França.

CÓLERA NO HAITI

Epidemia já matou mais de mil


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Quase um ano depois de ser arrasado pelo pior terremoto de sua história, o Haiti sofre com uma epidemia de cólera que matou, até agora,
1.110 pessoas. De acordo com o governo, 18,3 mil haitianos foram hospitalizados com sintomas da doença desde outubro. O caos na saúde
pública provocou protestos que deixaram três mortos na capital, Porto Príncipe, a poucas semanas das eleições presidenciais e legislativas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O país vizinho, a República Dominicana, e o Estado da Flórida, nos Estados Unidos, constataram os primeiros casos de contaminação, o que
significa que a bactéria está se disseminando.

O Haiti é um dos países mais pobres do mundo, com índices recordes de mortalidade infantil, desnutrição e contaminação por Aids. Oitenta
por cento da população de 9 milhões de habitantes vive abaixo da linha de pobreza. O país situa-se na Hispaniola, uma das maiores ilhas do
Caribe, na América Central.

A precária situação do Haiti é resultado de 200 anos de instabilidade política e catástrofes naturais. A tragédia mais grave aconteceu em 12
de janeiro, quando um terremoto de grau 7 na escala Richter devastou Porto Príncipe.

O tremor deixou 250 mil mortos e afetou um terço da população. Nem mesmo o palácio presidencial escapou da destruição. Desde então, 1,3
milhão de sobreviventes vivem em acampamentos improvisados. Já na época, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um alerta para
risco de epidemias.

Os primeiros casos de cólera foram registrados no começo de outubro na região de Artibonite, onde 595 pessoas morreram. Até então, o
surto estava isolado. Em novembro, porém, o furacão Tomás, com chuvas e ventos de 140 km por hora, trouxe enchentes e deslocou grupos
de desabrigados. Isso fez com que a doença se espalhasse rapidamente pelo restante do país.

Seis das 10 províncias do Haiti já registraram focos da doença. Os hospitais estão superlotados e a Organização das Nações Unidas (ONU)
estima que 270 mil haitianos sejam contaminados pela doença nos próximos anos. No dia 16 de novembro, o governo da República
Dominicana, país vizinho, confirmou o primeiro caso de cólera desde o início da epidemia.

Bactéria
Cólera é uma infecção diarreica aguda, causada pela exposição ou ingestão de comida e água contaminadas pela bactéria Vibrio cholerae. A
doença provoca febre, diarreia e vômitos, levando o paciente a se desidratar. Se não for tratada, a vítima morre em poucas horas.

Em 80% dos casos a cólera é tratada com reidratação e antibióticos. Existem também dois tipos de vacinas com eficácia de até dois anos de
imunidade. Com os cuidados necessários, a taxa de mortalidade é inferior a 1%. Medidas sanitárias e de higiene pessoal - como lavar as
mãos e os alimentos antes do consumo - impedem que a moléstia se alastre.

O problema no Haiti é que, após o terremoto, as pessoas passaram a viver em favelas superlotadas, sem rede de esgoto, acesso a água
potável, limpeza urbana ou condições mínimas de higiene. Além disso, há 40 anos não havia registro de cólera no país, e a geração atual de
haitianos possui baixa imunidade à doença.

Juntos, estes fatores contribuem para a incidência grave em 40% dos casos, bem superior aos 25% em surtos considerados típicos da
enfermidade. Em todo o mundo, estima-se que, por ano, haja de 3 a 5 milhões de contaminados e de 100 a 120 mil mortes atribuídas à
cólera. Os dados são da OMS.

Países pobres e em guerra são focos constantes da doença desde o século 19, quando foram documentados os primeiros casos no delta do
rio Ganges, na Índia. Desde então, ocorreram sete pandemias com milhões de mortos em todos os continentes. A primeira grande epidemia
aconteceu em Bangladesh, em 1816, e se espalhou pela Índia, China e Mar Cáspio. Somente na Alemanha, em 1832, 8 mil pessoas
morreram.

A última epidemia começou na Ásia, em 1961, chegou à África em 1971 e na América em 1991. Entre 2004 e 2008, a OMS registrou
aumento em 24% dos casos de cólera, em comparação ao período de 2000 a 2004. O caso mais grave desse último ciclo epidêmico
aconteceu em Zimbábue, na África, em 2008, e ainda não foi controlado. Até o começo deste ano, havia 99 mil casos confirmados e mais de
4 mil mortes.

Na Nigéria, outras 1.500 pessoas morreram e 40 mil foram infectadas desde janeiro deste ano, na pior epidemia de cólera no país em duas
décadas. Países vizinhos também foram contaminados devido às fortes chuvas e inundações.

Eleições
Desde o dia 15 de novembro, haitianos protestam contra os soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah),
que é comandada pelo governo brasileiro. Pelo menos três civis morreram em confrontos com militares.

Parte da população acredita que soldados da missão de paz seriam responsáveis pela contaminação. Os haitianos também se queixam da
crise da saúde, que dificulta o atendimento aos doentes. Autoridades locais apontam interesses políticos por trás das manifestações, a poucas
semanas das eleições para presidente e parlamentares. A votação está marcada para dia 28 de novembro.

Os conflitos obrigaram o Exército do Nepal, que tem mil soldados no país, a reforçar a própria segurança. O motivo foi um boato de que a
epidemia teria iniciado em fossas sépticas usadas pelos militares. Contudo, exames nos soldados descartaram os rumores.

A ONU pediu US$ 164 milhões (R$ 282 mi) para agências humanitárias e doadores. A verba será empregada em programas do governo para
combater a doença, principalmente na adoção de medidas sanitárias e de higiene.
REVOLTA DA CHIBATA - 100 ANOS

Marinheiros exigem tratamento justo


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Há cem anos, em 22 de novembro de 1910, um grupo de marinheiros negros se rebelou contra os castigos físicos aplicados na Marinha
brasileira. Eles assumiram o controle de quatro navios de guerra ancorados na baía de Guanabara e ameaçaram bombardear o Rio de
Janeiro, então capital do país. O motim durou seis dias.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A Revolta da Chibata, como ficou conhecida a insurreição, foi liderada por João Cândido Felisberto, um marinheiro de 30 anos, negro e
semianalfabeto. Ele e os demais revoltosos foram perseguidos, presos e, em sua maioria, mortos nos anos seguintes à tomada dos
encouraçados.

Até hoje, o episódio é um dos mais polêmicos da história da República Velha (1889-1930). João Cândido, que morreu pobre e esquecido em
1969, tornou-se um dos mais importantes heróis negros do Brasil, ao lado de Zumbi dos Palmares. Mas a legitimidade dos feitos do
Almirante Negro foi contestada pela Marinha, e a anistia póstuma aos integrantes do movimento só foi concedida em 2008.

Tensão racial
No começo do século 20, o Brasil era um país a caminho da modernidade. A capital, o Rio de Janeiro, tinha 870 mil habitantes e passava por
uma reforma urbana promovida pelo prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913). O sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) iniciava a
vacinação em massa contra a varíola, fato que desencadeou a Revolta da Vacina, em 1904.

No país, ocorria a transição do regime escravocrata para o capitalismo industrial, e do poder monárquico para a República. Nas Forças
Armadas, depois de um período de decadência que sucedeu a Guerra do Paraguai (1864-1870), a Marinha decidiu renovar a frota,
comprando 14 navios dos mais modernos fabricados à época, na Inglaterra.

Porém, no Brasil não havia mão de obra qualificada o suficiente para operar as embarcações. E, a bordo dos navios, imperava ainda o
rigoroso código disciplinar da monarquia. Os castigos corporais haviam sido banidos com a Proclamação da República, em 1889, mas a
pressão dos oficiais fez com que fossem reincorporados à rotina militar no ano seguinte.

Assim, a vida militar reproduzia as tensões da divisão racial da sociedade brasileira: de um lado os marinheiros negros, mal pagos e sem
instrução, e de outro, os oficiais brancos, vindos da elite, com o agravante de os marujos serem submetidos ao açoite, mesmo tendo a
escravidão sido abolida em 1888.

Nessas condições, João Cândido e seus colegas começaram a tramar o motim em 1909, quando estavam na Inglaterra. Lá, eles
acompanharam a construção do encouraçado Minas Gerais - o mais moderno da esquadra brasileira - num estaleiro britânico. Com isso,
aprenderam a manobrá-lo. E também foram influenciados pelos movimentos europeus de revoltas militares. A mais famosa foi a dos
marinheiros russos no encouraçado Potemkin, em 1905 (ver filme indicado abaixo). O plano era assumir o controle dos navios dez dias
depois da posse do presidente Hermes da Fonseca, em 15 de novembro de 1910. Mas um acontecimento precipitou o movimento.

Cachaça
Na madrugada de 21 de novembro, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, o "Baiano", foi condenado a receber 250 chibatadas no Minas
Gerais (cem mais do que o normal). O açoite aconteceu em frente à tropa perfilada, ao som de tambores. A punição foi aplicada porque o
marujo havia ferido, com uma navalha, um cabo que o havia delatado por entrar com dois litros de cachaça a bordo.

No dia 22, indignados com o castigo, 2.379 marinheiros se amotinaram e tomaram os navios Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro, que
estavam ancorados na baía de Guanabara. Seis oficiais foram mortos pela tripulação, incluindo o comandante do Minas Gerais.

Em seguida, os marujos apontaram 80 canhões para a capital e exigiram melhores condições de trabalho, fim dos castigos e anistia aos
revoltosos. Um dos canhões chegou a disparar e atingir um cortiço, matando duas crianças.

O clima de guerra deixou a população carioca em pânico. Pressionado pelo povo e por políticos da oposição, o governo cedeu. No dia 27 de
novembro, o presidente Hermes da Fonseca e os parlamentares assinaram a anistia, pondo fim ao movimento. O governo também prometeu
acabar com os açoites.

Envenenados
Na prática, contudo, a Marinha começou a perseguir todos os envolvidos no levante. Dois dias depois, os marinheiros começaram a ser
expulsos por decreto, sob acusação de indisciplina, ou presos, assim que desembarcavam. Muitos foram torturados e fuzilados.

Os marujos presos, entre eles João Cândido, foram levados para a Fortaleza de São José da Ilha das Cobras. No mesmo presídio, em
dezembro, houve um levante do Batalhão Naval, rapidamente sufocado pelos militares. Outros 97 marujos foram levados para trabalhos
forçados em seringais na Amazônia. No meio da viagem, sete deles foram fuzilados, acusados de conspiração.

No presídio naval, João Cândido e outros 17 marinheiros foram encarcerados em uma cela sem ventilação. Na véspera do Natal de 1910, os
carcereiros jogaram cal virgem no calabouço. Um dia depois, 16 haviam morrido envenenados. Somente o líder da revolta e outro preso
sobreviveram.

Em 1911, João Cândido foi internado no Hospital dos Alienados (o hospício da época). No ano seguinte, ele foi julgado e absolvido pela
Justiça. Expulso da Marinha, morreu como vendedor de peixes. Durante o Estado Novo (1937-1945) e o regime militar (1964-1985), a
Revolta da Chibata era considerada assunto proibido pelo governo. Aos poucos, no entanto, o nome de João Cândido virou símbolo de lutas
políticas, inspirando até um samba-protesto dos anos 1970, "O Mestre-Sala dos Mares", composto por João Bosco e Aldir Blanc (ver link
abaixo).

O Almirante Negro também ganhou estátua na Praça XV, no centro do Rio, e seu nome batizou um petroleiro. A anistia póstuma aos
revoltosos foi assinada em 2008 pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva. A família de João Cândido luta até hoje por uma indenização do
Estado.
RIO CONTRA O TRÁFICO

Polícia ocupa morros e desmantela facção


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Em uma operação inédita, a polícia com o apoio das Forças Armadas ocupou na manhã do último domingo (28 de novembro) o Complexo do
Alemão, um conjunto de favelas controladas por traficantes no Rio de Janeiro. Durante uma semana, a imprensa internacional acompanhou a
ofensiva do Estado para recuperar áreas dominadas pelo crime organizado na cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de
2016.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A invasão marcou uma nova estratégia do governo. Ela consiste em reaver os territórios perdidos para as facções criminosas, depois de três
décadas de descaso dos governantes. A intenção, não assumida pelas autoridades, é deixar a cidade mais segura para receber os
megaeventos.

Os traficantes se instalaram há 30 anos nos morros cariocas. A partir dos anos 1960, o crescimento urbano desordenado gerou condições
favoráveis para o narcotráfico. A própria topologia dos morros favorece os bandidos, pois dificulta acesso da polícia e dá aos traficantes uma
visão privilegiada dos principais acessos.

A ofensiva das forças policiais começou após uma série de atentados ocorridos desde 21 de novembro. A mando dos traficantes, vândalos
queimaram 106 veículos em retaliação contra a instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em 13 comunidades. As UPPs foram
criadas há dois anos. Elas consistem em postos permanentes da Polícia Militar em favelas que antes eram domínios do narcotráfico e de
milícias.

Na quinta-feira (dia 25), policiais entraram na Vila Cruzeiro, favela vizinha ao Complexo do Alemão, e expulsaram centenas de homens
armados. As imagens dos criminosos correndo por uma estrada de terra foi a mais emblemática de toda a operação. Foram mobilizados cerca
de 2.600 policiais - civis, militares e federais - e integrantes das Forças Armadas. Entre os 800 soldados do Exército que participaram da
manobra, 60% fizeram parte da missão de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti.

Também foram usados mais de 15 veículos blindados da Marinha, para vencer barricadas nas ruas feitas pelas quadrilhas. Ao todo, 50
pessoas morreram em uma semana de ataques de bandidos e investidas policiais.

Tim Lopes
As Forças Armadas são usadas em confrontos com criminosos no Rio desde a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, a Eco-92. Em
1994, soldados do Exército e fuzileiros navais ocuparam morros e favelas na Operação Rio. Mas a medida nunca ocorreu na proporção atual e
em uma área tão extensa.

O Complexo do Alemão é o quartel-general do Comando Vermelho (CV), uma das organizações criminosas mais temidas e antigas do país. O
complexo reúne 18 favelas e quase 90 mil habitantes espalhados em uma área de 186 hectares na Serra da Misericórdia, zona norte do Rio.
A região concentra 40% dos crimes cometidos na cidade.

Depois de dar um ultimato para que os traficantes se entregassem, os policiais entraram nas comunidades e vasculharam casas a procura de
drogas, armas e suspeitos. Não houve resistência. Foram apreendidas toneladas de drogas, mais de cem armas e centenas de motos. Oito
pessoas foram presas.

A prisão mais importante foi a do traficante Elizeu Felício de Souza, conhecido como "Zeu", um dos homens condenados pelo assassinato do
jornalista Tim Lopes, da TV Globo. Ele foi denunciado pelos próprios moradores. Tim Lopes foi sequestrado em 2 de junho de 2002 na Vila
Cruzeiro por traficantes da quadrilha de Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco. O jornalista foi esquartejado e teve o corpo queimado em
pneus.

Presos políticos
O Comando Vermelho surgiu durante o regime militar, em 1979, quando presos políticos se misturaram com presos comuns no presídio
Cândido Mendes, na Ilha Grande, aprendendo os métodos de organização dos grupos de esquerda clandestinos e da guerrilha urbana. De
início, o objetivo era organizar a vida nas celas e impedir roubos e estupros por parte de outros detentos.

Fora das grades, os presos começaram a empregar as mesmas técnicas para promover roubos a bancos e sequestros. Eles também
instituíram uma “caixinha” que as quadrilhas eram obrigadas a dar aos líderes, para financiar fugas e subornar carcereiros. O próximo passo
foi assumir o controle da venda de drogas nos morros. O Comando Vermelho fez acordos com carteis colombianos para distribuir cocaína,
acompanhando o aumento do consumo da droga no país.

Ao mesmo tempo, os lucros provocaram desavenças internas na facção. Entre os anos 1980 e 1990 surgiram grupos rivais, como o Terceiro
Comando e os Amigos dos Amigos (ADA). A disputa pelo negócio de venda de drogas gerou uma onda de violência que tornou o Rio uma das
cidades com os maiores índices de criminalidade no país. Hoje, a maioria dos líderes do CV está presa ou morta. Entre os líderes mais
conhecidos estão Fernandinho Beira-mar, Marcinho VP e Elias Maluco.

Milícias
Após a ocupação do morro, o governador Sérgio Cabral deu um prazo de sete meses para a instalação de uma UPP e pediu ao Ministério da
Defesa que os militares permaneçam no local até outubro de 2011. O presidente Luis Inácio Lula da Silva garantiu apoio.

O que o episódio deixou claro é que o Estado, apesar de ter deixado a população pobre abandonada por décadas, pode desarticular o tráfico
nos morros. Isso foi feito com a retomada dos territórios, a transferência de detentos perigosos para presídios federais, a prisão de familiares
de traficantes e o bloqueio de suas contas bancárias.

A operação também contribuiu para mudar a imagem da polícia do Rio, reconhecida como a mais violenta do mundo. Mesmo com as
denúncias de abusos de poder por parte dos policiais, a população aprovou a invasão das favelas.

O próximo desafio do governo será estender a estratégia para outras comunidades, inclusive aquelas sob o controle de milícias. As milícias
apareceram no final dos anos 1970, quando comerciantes da zona oeste passaram a pagar proteção a policiais contra traficantes. No começo
de 2000, as milícias se tornaram grupos paramilitares formados por policiais na ativa ou na reserva. Eles expulsaram os traficantes e
implantaram um esquema de cobrança por proteção e serviços clandestinos de luz, gás e TV a cabo.

Hoje, as milícias dominam 41,5% das 1.006 favelas cariocas, contra 55,9% do tráfico e 2,6% das UPPs, de acordo com levantamento do
Nupevi (Núcleo de Pesquisas das Violências) da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Na última semana, o Rio mostrou que é
possível mudar esta estatística.
NOBEL DA PAZ 2010

Premiação de ativista pressiona China


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Uma cadeira vazia representou o vencedor do prêmio Nobel da Paz na cerimônia realizada em Oslo, na Noruega. O motivo é que o agraciado
deste ano, o dissidente chinês Liu Xiaobo, está preso. Ele foi condenado a 11 anos de prisão por crimes políticos.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A China é hoje a segunda economia do mundo e um dos poucos regimes comunistas remanescentes do século 20. Xiaobo é um dos ativistas
políticos mais conhecidos do país. Ele enfrenta sua quarta detenção por conta de manifestações em defesa de liberdades civis. Sua mulher, a
também dissidente Liu Xia, cumpre prisão domiciliar.

Foi a segunda vez na história que nenhum representante de um laureado preso pôde ir à cerimônia. Em 1935, o prêmio foi entregue ao
pacifista alemão Carl von Ossietzky (1889-1938), que estava detido em um campo de concentração nazista por contrariar Adolf Hitler.

A escolha deste ano enfureceu o governo chinês. O Partido Comunista Chinês, que governa desde o país 1949, reagiu de duas formas.
Externamente, usou a diplomacia para tentar boicotar a cerimônia – aderiram, entre outros, Rússia, Cuba e Venezuela. Internamente,
bloqueou sites de notícias, interrompeu a transmissão do evento e reprimiu simpatizantes.

É o segundo ano consecutivo em que o Nobel da Paz gera polêmicas. No ano passado, o laureado foi o presidente norte-americano Barack
Obama, mesmo com os Estados Unidos envolvidos em duas guerras, no Iraque e no Afeganistão.

A decisão deste ano foi, mais uma vez, política. O objetivo do comitê do Nobel foi sinalizar a China de que a hegemonia no mercado e nas
finanças deve vir acompanhada de avanços na área de direitos humanos. Nada indica, porém, que os governantes chineses irão libertar os
dissidentes.

Praça da Paz Celestial


O professor de Literatura e escritor Liu Xiaobo, de 54 anos, ficou conhecido quando foi preso pela primeira vez após os protestos em prol da
democracia em 1989. Nessa época, no clima do colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu, estudantes chineses ocuparam a praça da
Paz Celestial (Tiananmen). A repressão ao movimento, em 4 de junho de 1989, deixou mais de 7 mil mortos, segundo fontes extra-oficiais.

Xiaobo ficou quase dois anos na cadeia por aderir à greve estudantil. Foi preso novamente em 1995 e 1996. No final de 2008, sofreu a
quarta detenção. Desta vez, por ser o principal autor da “Carta 8”, documento que pedia a democratização e reformas políticas na China. O
movimento foi inspirando na “Carta 77”, emblema do movimento pela democracia na Tchecoslováquia na década de 1970.

A “Carta 8” foi assinada por cerca de 10 mil chineses e publicada por ocasião do 60ª aniversário da Declaração Universal dos Direitos
Humanos.

Por escrever o manifesto, Xiaobo foi condenado em dezembro de 2009. A Justiça chinesa é subordinada ao Partido Comunista e, por isso,
raramente absolvem réus acusados de crimes contra o Estado. A sentença foi criticada pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por
grupos de defesa dos direitos humanos.

Atualmente, o ativista cumpre a pena numa prisão localizada a 500 quilômetros ao norte de Pequim. Somente sua mulher tem autorização de
visitá-lo na cela, mas ela também está detida, em prisão domiciliar. O casal não se vê desde o dia 7 de setembro.

Confúcio da Paz
O Prêmio Nobel foi idealizado por Alfred Nobel, industrial sueco que inventou a dinamite. O objetivo era reconhecer contribuições de valor à
humanidade em cinco áreas distintas: física, química, medicina, literatura e trabalhos pela paz.

A premiação ocorre desde 1901 na cidade de Estocolmo - capital da Suécia e sede da Fundação Nobel-, com exceção da entrega do Nobel da
Paz, que acontece em Oslo, capital da Noruega.

O Nobel da Paz é concedido para pessoas ou organizações cujas ações promoveram a paz entre as nações e contribuíram para solucionar a
conflitos. Entre os mais famosos laureados com o prêmio estão Martin Luther King (1964), Madre Teresa de Calcutá (1979), Dalai Lama
(1989), Mikhail Gorbatchev (1990) e Nelson Mandela (1993).

Outros dissidentes também foram agraciados com o prêmio, entre eles o físico soviético Andrei Sakharov (1975), o líder sindical Lech Walesa
(1983) e a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi (1991).

O governo chinês criticou duramente a escolha do Nobel da Paz deste ano e suspendeu as relações comerciais com a Noruega. O Ministério
de Relações Exteriores da China chamou de "teatro político" a decisão do comitê.

Em resposta, a China criou seu próprio prêmio, o Confúcio da Paz. O nome se refere ao filósofo chinês que originou a doutrina do
confucionismo. A condecoração foi oferecida a Lien Chan, ex-vice-presidente de Taiwan.

Valendo-se de sua influência comercial e diplomacia, Pequim tentou convencer outros países a boicotarem a cerimônia de entrega do prêmio.
Além da China, não compareceram à solenidade representantes de outros 16 países: Afeganistão, Arábia Saudita, Autoridade Palestina,
Iraque, Irã, Cazaquistão, Paquistão, Siri Lanka, Vietnã, Cuba, Venezuela, Egito, Marrocos, Sudão, Tunísia e Rússia.

Ausente
Poucos chineses souberam da premiação. O governo chinês censurou a transmissão ao vivo da cerimônia pelos canais internacionais de
notícias, como a BBC e a CNN. A imprensa local, controlada pelo Estado, não fez nenhuma menção ao evento. Sites da internet também
foram bloqueados, impedindo que quase 400 milhões de internautas chineses (o maior número de usuários da rede no mundo) acessarem
conteúdo que fizessem referência ao Nobel.

Ao mesmo tempo, colaboradores e simpatizantes foram detidos ou impedidos de deixar o país. Deste modo, nenhum representante de
Xiaobo pode ir à Noruega receber a medalha e cheque de US$ 1,5 milhão.

No assento vazio, com a foto de Xiaobo ao fundo, foram deixada a medalha e o diploma. A atriz norueguesa Liv Ullman leu o discurso que o
escritor pronunciou em seu julgamento. Um dos trechos diz: "Eu, cheio de otimismo, aguardo ansioso pelo advento de uma China livre no
futuro. Pois não existe força que possa por fim à busca humana pela liberdade, e a China, no final das contas, será uma nação regida pela lei,
onde os direitos humanos serão supremos."
ERA LULA (2003-2010)

Governo foi marcado por melhorias sociais e


escândalos políticos
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Ao deixar o cargo de presidente no próximo dia 1º de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva terá legado, em oito anos de governo, avanços nos
setores de economia e inclusão social. Índices históricos de crescimento econômico e redução da pobreza garantiram ao ex-metalúrgico 83%
de aprovação popular – o maior patamar entre presidentes desde o fim da ditadura – e a eleição de sua sucessora, Dilma Rousseff, uma
estreante nas urnas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo


Mas o balanço da “era Lula” tem suas tragédias. Escândalos de corrupção abalaram o primeiro mandato (2003-2006), mancharam a imagem
do Partido dos Trabalhadores (PT) e contribuíram para que o Congresso seja hoje a instituição de menor credibilidade entre os brasileiros.

Na economia, o maior mérito do governo petista foi a manutenção da política dos governos anteriores. Crítico do Plano Real, Lula, ao chegar
ao Planalto, deu continuidade ao programa que controlou a inflação. A medida assegurou a estabilidade econômica e possibilitou que outras
questões importantes, como saúde, educação e segurança pública, fossem discutidas.

O PIB (Produto Interno Bruto), que representa a soma de todas as riquezas de um país, teve um crescimento médio anual de 4,0% nos dois
mandatos. O índice é quase o dobro do registrado no período de 1981 a 2002 (2,1%). Assim, o Brasil passou de 12º lugar para 8º no ranking
das maiores economias do mundo.

Neste contexto, a redistribuição de renda foi o principal destaque. Programas sociais como o Bolsa Família, a expansão do crédito e o
aumento de empregos formais e do salário mínimo (que passou de R$ 200 em 2002 para R$ 510, em 2010) permitiram a ascensão de
classes mais pobres.

O efeito também foi sentido no setor empresarial: a maior renda do trabalhador converteu-se em compras. A alta no consumo, por sua vez,
estimulou investimentos no comércio e na indústria, inclusive em contratações, realimentando o ciclo. O resultado foi a redução em 43% do
número de pobres (brasileiros com renda per capital mensal inferior a R$ 140), que caiu de 50 milhões para 29,9 milhões desde 2003.

Política externa
No cenário internacional, o governo petista surpreendeu – para o bem e para o mal. Quando foi chamado de “o cara” pelo presidente norte-
americano Barack Obama, Lula já desfrutava do prestígio de ser uma liderança internacional. Durante seu governo, o Brasil reforçou laços
políticos e comerciais, sobretudo na América do Sul, África e Ásia.

Na diplomacia, a posição do governo em relação a regimes ditatoriais como Cuba e Irã abalou a imagem do país no exterior. O próprio Lula
contribuiu para isso. Primeiro, ele comparou os protestos no Irã com queixas de um time derrotado. Depois, em visita a Cuba quando da
morte de um preso político em greve de fome, comparou os dissidentes a presos comuns. Foram também vergonhosas as posturas do Brasil
em fóruns internacionais com respeito a área de direitos humanos, como no caso da iraniana condenada a pena de morte, e no apoio ao
projeto nuclear do Irã.

“Mensalão”
O pior aspecto do governo Lula, contudo, foram os sucessivos escândalos políticos. Na oposição, o PT se mostrava como uma alternativa ao
fisiologismo político, o corporativismo e a corrupção que reinava entre os partidos. Uma vez no poder, aderiu às mesmas práticas. O
“mensalão”, em 2005, foi o divisor de águas na era Lula. O esquema envolvia o pagamento de propinas a parlamentares em troca de apoio
ao governo em votações no Congresso. Na época, o presidente contava com apenas 31% de aprovação.

As denúncias derrubaram o principal ministro de Lula, José Dirceu (Casa Civil), e toda a cúpula do PT. No segundo mandato, Lula refez sua
base política e “construiu” a candidata Dilma Rousseff para sucedê-lo no cargo. Atualmente, 38 envolvidos no caso respondem a processos
por diversos crimes.

Na seqüência, houve a Operação Sanguessuga da Polícia Federal, que expôs políticos que desviavam verbas públicas destinadas à compra de
ambulâncias. Ás vésperas das eleições de 2006, outra “bomba”: um grupo de petistas, chamados pelo próprio presidente de “aloprados”, foi
flagrado tentando comprar um falso dossiê contra o candidato tucano José Serra.

No segundo mandato ocorreram novos escândalos, como o caso dos cartões corporativos – funcionários do Planalto que faziam uso irregular
de cartões de crédito oficiais – e um suposto esquema de tráfico de influência envolvendo a família da ex-ministra da Casa Civil, Erenice
Guerra.

Saldo
Em oito anos no governo, Lula se consolidou como um fenômeno político graças ao seu apelo junto às camadas mais pobres da população.
Porém, sua sucessora na Presidência vai herdar problemas que, se não forem resolvidos, podem comprometer o progresso do país.

Na Educação, 14 milhões de brasileiros com idade acima de 15 anos são analfabetos. Na Saúde, faltam leitos hospitalares, médicos e o país
enfrenta uma epidemia de dengue que contaminou, somente este ano, quase 1 milhão de pessoas. Em pleno século 21, 56% dos domicílios
não possuem rede de esgoto, e a infraestrutura deficitária (estradas, ferrovias, portos e aeroportos) ainda é um entrave para o
desenvolvimento.

Lula também deixou de fazer reformas importantes, como a da previdência, a agrária e a tributária. O legado contabiliza ainda um Estado
mais caro em razão de contratações feitas para atender interesses políticos e partidários. Em resumo, Lula continuou o projeto de um país
socialmente mais justo e de moeda estável. Mas, ao mesmo tempo, manteve o que há de pior na política brasileira.

RETROSPECTIVA 2010

Relembre os principais fatos que marcaram o ano


José Renato Salatiel*
Uma mulher na Presidência da República, no Brasil? Barack Obama com problemas de popularidade? Um ex-hacker desafiando a maior
potência econômica e militar do planeta? Mineiros que viram celebridades?

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O ano de 2010 trouxe algumas novidades surpreendentes, além velhos conhecidos – tragédias naturais, aquecimento global, tráfico de
drogas e violações dos direitos humanos. O certo é que o modo como a história foi escrita, neste ano, irá influenciar nossas vidas nos
próximos.

No Brasil, a política foi o grande destaque em 2010. Depois de oito anos, a "era Lula" termina com a eleição de Dilma Rousseff. Inexperiente
nas urnas, a ex-ministra da Casa Civil chegou ao Palácio do Planalto amparada pela popularidade recorde do presidente Lula.

Nem mesmo os sucessivos escândalos de corrupção envolvendo o PT abalaram a confiança dos eleitores. A vitória da petista foi um reflexo
da estabilidade econômica do país e dos avanços na área social. Em 2011, ela terá que governar com autonomia para resolver problemas
deixados pela gestão anterior, sobretudo nas áreas de educação, saúde e infraestrutura.

Para boa parte dos brasileiros, contudo, o ano será lembrado pelo fiasco da seleção brasileira na Copa do Mundo na África do Sul. A teimosia
do técnico Dunga custou uma derrota nas quartas de final para o futebol holandês, adiando os sonhos do hexacampeonato para a Copa no
Brasil, em 2014.

Fora dos campos, a população teve preocupações bem mais sérias. As chuvas provocaram enchentes e deslizamentos de terras que mataram
dezenas de pessoas no Estado do Rio de Janeiro, nos meses de janeiro e abril.

Tráfico
A violência no Rio foi notícia, mais uma vez, na imprensa internacional. Primeiro em julho, com a prisão do goleiro Bruno, astro do Flamengo
envolvido na morte da ex-amante Eliza Samúdio.

Depois, entre os dias 25 e 28 de novembro, com a retomada de áreas controladas por facções criminosas no Complexo do Alemão. Agora, o
governo tem pela frente o desafio de manter a segurança nos morros, rompendo uma tradição de décadas de descaso político.

A Justiça também foi elogiada pela rápida resposta no caso da morte da menina Isabella Nardoni, 5 anos, ocorrida em março de 2008. O
casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foi condenado em 27 de março por um júri popular, num dos julgamentos mais esperados de
2010.

EUA x China
Nos Estados Unidos, este será provavelmente um ano que o presidente Obama gostaria de esquecer. No meio do mandato, restava pouco da
vitória triunfante do primeiro negro na Casa Branca. Os pacotes de estímulo à economia não surtiram efeito e ele ainda perdeu a maioria
democrata na Câmara dos Deputados, nas eleições legislativas de novembro.

Porém, uma promessa de campanha foi cumprida: os Estados Unidos começaram a retirar as tropas de combate do Iraque. A guerra, que já
dura sete anos, deixou mais de 4 mil soldados mortos e custou bilhões de dólares aos cofres públicos.

Já no final do ano, o ex-hacker Julian Assange roubou a cena, divulgando em seu site, o Wikileaks, 250 mil documentos secretos da
diplomacia norte-americana e causando a maior “saia justa” em Washington.

A China, que neste ano ultrapassou o Japão e se tornou a segunda maior economia mundial, foi outra oponente de peso ao Império
Americano. Os conflitos ocorreram no campo das finanças, com a “guerra fiscal”, e no ciberespaço, com o ataque de hackers.

Para Pequim, a posição de destaque no mercado veio acompanhada de cobranças em política, meio ambiente e direitos humanos. O recado
mais contundente foi a indicação do Prêmio Nobel da Paz para o dissidente Liu Xiaobo. Preso, ele não pode receber a condecoração no dia 10
de dezembro. Foi representado por uma cadeira vazia.

As críticas também foram duras contra o Irã. O governo de Mahmoud Ahmadinejad teve que voltara trás e adiar a condenação da iraniana
Sakineh Mohammadie Ashtiani, que seria apedrejada até morte por crime de adultério.

Haiti
2010 ainda emocionou o mundo por duas tragédias na América Latina. Em 12 de janeiro, um dos terremotos mais violentos da história
devastou a capital do Haiti, Porto Príncipe, matando 230 mil pessoas. Na sequência, uma epidemia de cólera se espalhou pelo país mais
pobre do continente, que não conseguiu se reerguer dos escombros.

Já a segunda tragédia deve um final feliz. O resgate de 33 mineiros presos em uma mina no Chile, em 13 de outubro, foi acompanhado por
meios de comunicação de todo o mundo. Eles ficaram 60 dias soterrados a 700 metros de profundidade e se tornaram celebridades
internacionais. Para o bem ou para o mal, foi um ano inesquecível.

RETROSPECTIVA DA DÉCADA

Atentados terroristas retrataram começo de século


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizado em 17/01/11, às 9h05

Os ataques às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York, em 2001, compuseram a imagem mais emblemática da primeira década
do século 21. Os atentados deram início a uma década de guerras contra o terrorismo. Os primeiros dez anos do século também trouxeram
uma das piores crises econômicas da história, os efeitos do aquecimento global e a expansão do acesso a novas tecnologias.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Para o historiador Eric Hobsbawm, dois acontecimentos definiram o começo e o fim do século passado. O século 20 teria iniciado com a
Primeira Guerra Mundial, em 1914, e terminado com a queda dos regimes comunistas no Leste Europeu.

Poderíamos dizer, do mesmo modo, que o atual foi inaugurado com os ataques aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. O
presidente George W. Bush, recém empossado, respondeu a eles dando início a duas guerras no Afeganistão e no Iraque.

O Afeganistão foi invadido para obrigar o país muçulmano a entregar Osama Bin Laden, líder da rede Al Qaeda. Responsabilizado pelos
atentados aos Estados Unidos, o terrorista até hoje não foi capturado. No Iraque, a justificativa para a deposição do ditador Sadam Hussein
foi a existência de armas de destruição em massa, que nunca foram encontradas.

A partir de então, o medo de novos ataques terroristas se espalhou pelo mundo. Em 2004, dois atentados mataram centenas de pessoas no
metrô de Madri, na Espanha, e na cidade de Beslan, na Rússia. Em julho do ano seguinte, explosões vitimaram 52 pessoas em Londres, no
Reino Unido. O pânico levou a polícia londrina a executar o brasileiro Jean Charles de Meneses, confundido com um terrorista no metrô.

Economia
Outro grande acontecimento da década foi a crise econômica internacional, a pior desde 1929. O marco foi a falência do banco americano
Lehman Brothers, em 15 de setembro 2008. Os efeitos da crise incluíram um longo período de recessão em países europeus e,
indiretamente, a eleição de Barack Obama, o primeiro negro a ocupar o cargo em Washington.

Em meio ao caos no mercado financeiro, a China ultrapassou o Japão e se tornou a segunda maior potência econômica do planeta. Ao mesmo
tempo, o regime comunista de Pequim virou alvo de críticas por violações dos direitos civis e degradação do meio ambiente.
Junto com a economia, o aquecimento global foi o assunto que mais reuniu líderes mundiais na década. Em fevereiro de 2007, um relatório
da ONU (Organização das Nações Unidas) culpou a ação humana pelas mudanças climáticas. Os efeitos, porém, já eram sentidos em todo o
planeta: ondas de calor na Europa, enchentes no Sudeste Asiático e furacões na América. Houve ainda outras catástrofes naturais graves que
devem ser mencionadas como os terremotos que devastaram o Chile e o Haiti em 2010.

Os cientistas ainda anunciaram o sequenciamento do genoma humano (2001), abrindo caminho para cura de doenças, e a primeira pandemia
do século (2009), a gripe suína. Na área de tecnologia, o crescimento da internet, o surgimento das redes sociais e a sofisticação dos
aparelhos celulares e computadores transformaram as relações humanas.

Brasil
No Brasil, a década começou com a chegada do primeiro sindicalista à Presidência. Se, como disse Maquiavel, a manutenção do poder se faz
equilibrando virtudes naturais do governante (virtú) e a própria sorte (fortuna), pode-se dizer que Luiz Inácio Lula da Silva teve ambas.

Eleito em 2002, conseguiu dois feitos notáveis: manteve a economia nos eixos e melhorou a distribuição de renda. Além disso, o petista
sobreviveu a escândalos políticos como o “mensalão”, em 2005, e tirou proveito da descoberta de reservas de pré-sal e da escolha do país
para sediar a Copa de 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Mesmo assim, o Brasil atravessou a década com problemas antigos, de infraestrutura, saneamento, educação e saúde. Alguns deles até
piores, como a violência urbana. Numa versão nacional do terrorismo, as duas maiores metrópoles do país foram vítimas de ondas de
ataques do crime organizado: São Paulo, em 2006, e Rio de Janeiro, em 2010.

Pela TV, os brasileiros acompanharam “novelas reais” como o sequestro de Sílvio Santos, as mortes do prefeito de Santo André, Celso Daniel,
e do repórter da TV Globo Tim Lopes, e os julgamentos de Suzane von Richthofen e do casal Nardoni.

Houve também as tragédias aéreas. A colisão de um avião da Gol com um jato da Embraer matou 155 pessoas (2006), e a queda de um
Airbus da TAM ao lado do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, deixou 199 mortos (2007).

Os dez primeiros anos do século 21 terminaram no país com a eleição de Dilma Rousseff, a primeira mulher na Presidência da República.

NOVO PAÍS

Sudaneses fazem referendo para decidir separação


José Renato Salatiel*
Uma nova nação deve surgir na África nos próximos meses. A população do Sudão iniciou no último dia 9 de janeiro um referendo que deve
aprovar a separação entre as regiões Sul e Norte do país. Divisões étnicas, tribais e religiosas causam conflitos que duram décadas no
território. Agora, a disputa por reservas de petróleo ameaça dar início a outra guerra.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A votação vai até o dia 15 e o resultado será anunciado em 22 de janeiro. É preciso um comparecimento de 60% dos eleitores. Se for
aprovado nas urnas – há estimativa de 90% a favor –, será criado em julho o 193º país do mundo.

O novo país pode se chamar Sudão do Sul, Novo Sudão ou Kush, nome de uma das primeiras civilizações que habitavam a região. A cidade
de Juba será a capital.

O Sudão é o maior país do continente africano. A região Norte é de maioria árabe e mulçumana, enquanto no Sul há predomínio da
população negra e cristã. Houve duas guerras pela independência do Sul. A primeira começou em 1955 e terminou em 1972, após um acordo
de paz.

Os conflitos recomeçaram em 1983 e só foram interrompidos com um cessar-fogo em 2005, entre o Exército e os rebeldes sulistas do SPLA
(Exército Popular de Libertação do Sudão). Estima-se que a guerra civil tenha deixado 2,5 milhões de mortos e 5 milhões de refugiados. Um
acordo estabelecido com o último cessar-fogo conferiu ao Sul autonomia do governo central de Cartum.

Caso se torne um país, o Sudão do Sul será um dos mais pobres do mundo. A região é pouco maior que o Estado de Minas Gerais e possui
8,5 milhões de habitantes. Segundo dados da ONU, 90% da população vive abaixo da linha da pobreza. Até 85% da população adulta é
analfabeta, metade não tem acesso à água potável e quase não há estradas ligando o território.

Petróleo
O Sudão, contudo, é rico em petróleo, o que pode vir a ser a fonte de novos conflitos. As reservas são conhecidas há três décadas.
Recentemente, descobriu-se que são muito maiores, de até 6,7 bilhões de barris (em comparação, calcula-se que o pré-sal de Tupi, no Brasil,
tenha entre 5 e 8 bilhões de barris).

Os termos do acordo de paz, firmado há seis anos, incluíam a divisão igualitária dos rendimentos com a exportação do minério entre as
regiões Norte e Sul, até 2011. A renegociação do acordo após o referendo é um dos pontos mais delicados no processo de separação.

Apesar de o Sul concentrar 80% das reservas, a exportação do produto depende do acesso ao Mar Vermelho, que é feito pelo Norte do país.
Além disso, o distrito de Abyei, localizada na fronteira, é rico em petróleo. A população local fará um referendo para saber se junta-se ao
Norte ou ao Sul.

Há ainda outro componente delicado na transição: os caprichos de um ditador. O Sudão é governado por Omar Bashir, acusado de genocídio
em Darfur, região oeste do país. Os conflitos étnicos em Darfur começaram em 2003 e deixaram 50 mil mortos. Há uma ordem de prisão do
Tribunal Penal Internacional contra Bashir por crimes de guerra.

O ditador deu indícios de que aceitará o resultado das urnas, mas disse também que o Sul não está preparado para constituir um Estado
independente. Pelo menos 30 pessoas morreram em ataques nos primeiros dias de votação. Analistas temem que o plebiscito prejudique o
cessar-fogo. O país vizinho, Quênia, se prepara para uma eventual onda de refugiados.

Kosovo
Outras regiões do mundo, caracterizadas por diferenças étnicas, religiosas e linguísticas, lutam pela independência. Entre as mais conhecidas
estão o País Basco, localizado entre a França e a Espanha; a Chechênia, que tenta se desligar da Rússia; e o Tibete, que luta contra o
domínio chinês. Em 2008, o Kosovo, na península balcânica, declarou independência da Sérvia. Ele foi reconhecido pelos Estados Unidos e
alguns países da União Europeia.
TRAGÉDIA NO RIO

O maior desastre natural do país


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Chuvas intensas que caíram na região serrana do Rio de Janeiro provocaram o pior deslizamento da história do Brasil. Até o último dia 18 de
janeiro, o número de mortos chegava a 710 em quatro cidades. Outras 7.780 pessoas estão desalojadas – morando em casa de vizinhos ou
familiares – e 6.050 desabrigadas. Um total de 207 estão desaparecidas.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A tragédia foi causada por um fenômeno raro que combina fortes chuvas com condições geológicas específicas da região. Porém, ela foi
agravada pela ocupação irregular do solo e a falta de infraestrutura adequada para enfrentar o problema, que se repete todos os anos no
país.

O número de vítimas superou o registrado em Caraguatatuba, em 1967. Na época, tempestades e deslizamento de terra mataram 436
pessoas na cidade do litoral norte de São Paulo. Nesse mesmo ano, uma enchente deixou 785 mortos no Rio.

Na madrugada do último dia 12 de janeiro, uma enxurrada de toneladas de lama, pedras, árvores e detritos desceu a montanha arrastando
tudo pelo caminho. Os rios se encheram rapidamente, inundando as cidades.

A destruição foi maior nas cidades Nova Friburgo e Teresópolis, que contabilizam o maior número de mortos. Essas cidades turísticas
recebem visitantes na temporada, que aproveitam o clima ameno da serra.

Ruas foram cobertas por um mar de lama, com corpos espalhados, casas destruídas e carros empilhados. A queda de pontes em rodovias
deixou cidades isoladas, e os moradores ficaram sem luz, água e telefone.

Em Nova Friburgo, o rio subiu mais de cinco metros de altura e a enchente derrubou casas. Em Teresópolis, o cenário era devastador.
Condomínios, chácaras, pousadas e hotéis de luxo foram arrasados pelas avalanches de terra.

A estrutura de atendimento às vítimas entrou em colapso. O IML (Instituto Médico Legal) e os cemitérios ficaram lotados. Parentes das
vítimas tiveram que fazer enterros às pressas em covas rasas.

Uma das imagens mais impressionantes foi a de uma mulher sendo salva da inundação. Ela foi içada por uma corda do alto de um prédio,
enquanto o cachorro que trazia nos braços era arrastado pela enxurrada.

Causas
O ar quente e úmido vindo da Amazônia gerou nuvens carregadas no Sudeste. Na região serrana do Rio, as montanhas formaram uma
espécie de barreira que impediu a passagem de nuvens e concentrou a chuva numa única área.

Somente em Nova Friburgo, onde a chuva foi mais intensa, em 12 dias o volume foi 84% a mais do que o previsto para todo mês de janeiro.

A água da chuva foi responsável por dois fenômenos distintos. Primeiro, a cheias nas nascentes dos rios, no alto das montanhas, que causou
as enchentes. O sistema de drenagem dos municípios era obsoleto e não conseguiu escoar as águas.

E, mais grave, os deslizamentos. O solo das encostas é constituído por uma camada fina de terra e vegetação sobe a rocha. Quando fica
encharcado, se descola da montanha, descendo feito uma avalanche. A grande inclinação das montanhas fez com que o deslizamento
atingisse até 150 quilômetros por hora, aumentando a potência de destruição.

Boa parte das mortes, contudo, poderia ter sido evitada com políticas públicas. Durante décadas, os governos foram omissos – quando não
estimularam – os loteamentos em áreas de risco permanente. Na rota da lama que desceu das encostas havia dezenas de imóveis, desde
favelas até hotéis e casas de alto padrão.

Aquecimento global
O aquecimento global está por trás das mudanças climáticas que explicam os contrastes de seca e enchentes em várias partes do mundo. No
Brasil, os prejuízos financeiros e as mortes se acumulam a cada verão.

No ano passado, 283 pessoas morreram no Estado do Rio entre os meses de janeiro e abril. As catástrofes aconteceram em Angra dos Reis,
Niterói (Morro do Bumba), na capital e em outras cidades. Em São Paulo, a chuva destruiu a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga. Em
2008, houve 135 mortes em Santa Catarina.

Compete aos governos municipais regulamentar e fiscalizar o uso do solo. O objetivo é impedir a construção de moradias nas encostas e
zonas de risco. Já os governos estadual e federal precisam investir em programas preventivos e encontrar soluções menos burocráticas para
garantir que os recursos cheguem até as cidades.

Um exemplo foi a liberação imediata de R$ 780 milhões da União para ajudar na reconstrução dos municípios afetados pelas chuvas deste
mês. A verba foi liberada por meio de uma medida provisória assinada pela presidente Dilma Rousseff. O valor gasto com a recuperação,
todavia, é superior ao que seria gasto com prevenção. Sem falar nas vidas perdidas.
CRISE NA TUNÍSIA

Levantes ameaçam regimes árabes


José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Pela primeira vez na história, um líder árabe foi deposto por força de movimentos populares. Isso aconteceu na Tunísia, país mulçumano
localizado ao norte da África. O presidente Zine Al-Abdine Bem Ali renunciou em 14 de janeiro após um mês de violentos protestos contra o
governo. Ele estava há 23 anos no poder.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Há décadas que governos árabes resistem a reformas democráticas. Agora, analistas acreditam que a revolta na Tunísia pode se espalhar por
países do Oriente Médio e ao norte da África. O Egito foi o primeiro a enfrentar manifestações inspiradas pela “revolução do jasmim” (flor
nacional da Tunísia).
O novo ativismo no mundo árabe é explicado pela instabilidade econômica e pelo surgimento de uma juventude bem educada e insatisfeita
com as restrições à liberdade

Na Tunísia, os protestos começaram depois da morte de um desempregado em 17 de dezembro do ano passado. Mohamed Bouazizi, 26
anos, ateou fogo ao próprio corpo na cidade de Sidi Bouzid. Ele se autoimolou depois que a polícia o impediu de vender frutas e vegetais em
uma barraca de rua.

O incidente motivou passeatas na região, uma das mais pobres da Tunísia, contra a inflação e o desemprego. A partir daí, o movimento se
espalhou pelo país e passou a reivindicar também mudanças políticas.

O governo foi pego de surpresa e reagiu com violência. Estima-se que mais de 120 pessoas morreram em confrontos com a polícia. Na
capital Tunis foi decretado estado de emergência e toque de recolher. Mesmo assim, milhares de manifestantes tomaram as ruas.

Ben Ali foi o segundo presidente da Tunísia desde que o país se tornou independente da França, em 1956. Ele ocupava o cargo desde 1987,
quando chegou à presidência por meio de um golpe de Estado. Em 2009, foi reeleito com quase 90% dos votos válidos para um mandato de
mais cinco anos.

Depois de dissolver o Parlamento e o governo, Bem Ali deixou o país junto com a família, rumo à Arábia Saudita. No seu lugar, assumiu o
primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi, um aliado político. Por isso, na prática, o regime foi mantido, e os manifestantes continuam em
frente ao Palácio do Governo. Eles exigem a saída de todos os ministros ligados ao ex-presidente, que ainda ocupam cargos-chave no
governo de transição.

Egito
Sob certos aspectos, a Tunísia é o país mais europeu do continente africano, com classe média e liberal, alta renda per capta e belas praias
mediterrâneas. Mas também possui um dos governos mais corruptos e repressivos de toda a região. A história do país é parecida com as
demais nações árabes: foi domínio otomano, colônia europeia e, depois, ditadura. A falta de liberdades civis em países como a Tunísia
sempre foi compensada por progresso econômico. Crises recentes como a do Irã, desencadeadas por jovens descontentes com os rumos
econômicos e políticos do país, mostram que a população chegou ao seu limite.

Há o risco da revolta se espalhar por países vizinhos como Egito, Líbia, Síria, Iêmen, Omã, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes
Unidos. Na Líbia e em Omã, por exemplo, o ditador Muammar Gaddafi e o sultão Qaboos bin Said, respectivamente, estão no poder há mais
de 40 anos.

Os primeiros protestos inspirados pela Tunísia aconteceram no Egito. Em 25 de janeiro, policiais e manifestantes entraram em choque nas
ruas da capital Cairo. Eles pediam a saída do presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no comando. Pelo menos quatro pessoas morreram.

O movimento, chamado "dia da revolta" foi inspirado pela "revolução do jasmim" e organizado por meio do Twitter e do Facebook, a exemplo
dos protestos iranianos, ocorridos em 2009.

Não se sabe, por enquanto, quais as consequências destes distúrbios em países como o Egito. O impasse também persiste na Tunísia, onde,
até agora, o regime persiste, mesmo com a saída do presidente. A ausência de lideranças políticas deixa o país sem alternativas para compor
um novo governo. Mas pelo menos um tabu foi quebrado, numa região em que ditadores só eram depostos mediante golpes de Estado ou
invasões estrangeiras.