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Nobres Embaixadores, É com grande prazer que o Grupo de Estudos em Organizações Internacionais – GEO – lhes dá boas vindas ao III Fórum de Discussão Universitária, onde os senhores diplomatas poderão discutir temas muito pertinentes ao nosso hemisfério americano e procurar resoluções proveitosas a todos os seus respectivos Estados e a América como um todo. Do dia 13 a 17 de junho, os senhores representarão seus países na Comissão de Segurança Hemisférica (CSH) da Organização dos Estados dos Estados Americanos, com o importante tema do armamentismo nas Américas. Este guia tem como objetivo norteá-los sobre o tema em discussão, bem como apresentar a política externa dos países que farão parte deste comitê. No entanto, será necessário um aprofundamento próprio de cada um dos delegados nos temas abordados e política externa dos países. Esperamos que além de obterem proveitosas discussões, os senhores também tenham um engrandecimento intelectual e pessoal com o evento como um todo. Para tanto, o GEO, e em principal a Mesa diretora do CSH, deseja a todos amplos e profícuos debates neste III Fórum de Discussão Universitária.

Lucas Jordani de Andrade Ana Carolina Arantes Feitosa Isadora de Gorga e Silva

4

Sumário

PARTE I: FÓRUNS 2011, ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS E OEA

1. Fóruns 2011: Desenvolvendo Alternativas para um Mundo Sustentável

5

2. As Organizações Internacionais

6

3. A Organização dos Estados Americanos

7

4. O Conselho de Segurança Hemisférica

8

 

4.1.

Observadores Permanentes e da Sociedade Civil na OEA

9

PARTE II: O ARMAMENTISMO NAS AMÉRICAS

5. Introdução

 

13

6. Os Exércitos Nacionais e o Estado Nacional

14

7. O Armamentismo

15

 

7.1.

O Armamentismo na América

17

8. A presença dos Estados Unidos no continente e as tentativas de poder de dissuasão por

parte dos países americanos

18

 

8.1. As intervenções dos Estados Unidos no continente durante o século XX e XXI

 

18

 

8.2. O poder de dissuasão e os Estados latino-americanos

21

9.

Medidas Tomadas pela OEA

22

10. Investimento Bélico X Investimento Socioeconômico

24

11. Posicionamento dos Países da OEA

25

12. Tópicos de Discussão

32

13. Referências Bibliográficas

34

5

PARTE I 1 :

FÓRUNS 2011, ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS E

OEA

1. FÓRUNS 2011: DESENVOLVENDO ALTERNATIVAS PARA UM

MUNDO SUSTENTÁVEL

desenvolvimento sustentável significa atender às necessidades

do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de

atender suas próprias necessidades” (COMISSÃO MUNDIAL PARA

O MEIO AMBIENTE E O DESENVOLVIMENTO – CMMAD,

1988:28).

(

)

Durante o final do século XX, vislumbra-se no século XXI um período de amadurecimento da globalização, em que os países caminham para uma interdependência cada vez maior, em que se percebe que estamos ligados numa rede econômica, social, cultural e ambiental e que precisamos tomar decisões em conjunto sobre o futuro do nosso Planeta.

Ficou claro que o modelo de desenvolvimento apresentado pelos países centrais coloca em risco até mesmo a sobrevivência de nossa espécie, que provoca desequilíbrios e desigualdades para a grande maioria da população que fica de fora dos processos de desenvolvimento. Já diria Mahatma Gandhi, idealizador do Satyagraha 2 e principal

Deus jamais permita que a Índia adote a

responsável pela independência da Índia, que “(

industrialização à maneira do Ocidente. A Inglaterra precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar tal prosperidade. De quantos planetas um país grande como a Índia iria precisar?”.

)

Surge então a necessidade de pensar alternativas para o modelo imposto pelos países desenvolvidos. Assim nasce o conceito de desenvolvimento sustentável. Apesar de não existir

1 Conteúdo baseado, a partir do item 2, no Guia de Estudos do Conselho Permanente do II Fórum de Discussão Universitária. 2 É um termo hindi composto por duas palavras. Satya, que significa verdade e Agraha, que significa firmeza, constância. Gandhi utiliza-se deste conceito para liderar o movimento de resistência não violenta de independência da Índia.

6

uma definição única e específica sobre o tema, acredita-se que a formulada pela Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU em 1987 foi a primeira a abranger a idéia de que a sustentabilidade não depende apenas das questões ambientais, apesar de ser o ponto fundamental de manutenção do sistema, mas que também devemos levar em consideração as questões sociais: da garantia da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos dos cidadãos, da promoção da igualdade de oportunidades; as questões econômicas:

do uso responsável e eficaz dos recursos, da organização de estruturas econômicas que respondam às necessidades dos cidadãos em sistemas estáveis e; das questões culturais: da transmissão de valores fundamentais e do sentido de responsabilidade e ordem social, bem como a garantia do direito de expressar e manter sua cultura.

Dessa forma, mostra-se a necessidade de equalizarmos desenvolvimento e sustentabilidade, sendo o nosso maior desafio pensar novas formas de crescer com responsabilidade social, de maneira igualitária e preservando os escassos recursos do nosso Planeta. Portanto, a questão que se coloca neste século é como iremos nos desenvolver sem prejudicar o outro, a Terra, as futuras gerações e a si mesmo. E é isso que nós, do secretariado dos Fóruns 2011 e do Grupo de Estudos em Organizações Internacionais esperamos dos participantes deste evento: que pautem suas discussões acerca dos temas propostos sempre se baseando nas questões de igualdade, respeito ao próximo e responsabilidade com o futuro, buscando alternativas por um mundo mais sustentável.

2. AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS

As Organizações Internacionais (OIs) ou Intergovernamentais (OIGs) podem ser definidas como “uma sociedade entre Estados, constituída através de um Tratado, com a finalidade de buscar interesses comuns através de uma permanente cooperação entre seus membros” (grifos do autor) 3 . Apesar de muito criticadas, as OIs funcionam como foro privilegiado para discussão e cooperação e são expressão máxima da ordem multilateral característica do pós-Guerra Fria. Quanto à própria organização, é relevante mencionar que funciona como sujeito mediato ou

3 SEITENFUS, Ricardo. Manual das Organizações Internacionais. Porto Alegre: Editora Livraria do Advogado,

2005.

7

secundário da ordem jurídica internacional 4 . Além disso, sua existência implica a necessidade da existência de órgãos permanentes que funcionem como uma estrutura constante de poder.

As OIs são constituídas necessariamente por Estados 5 que tem sua associação regulada

por um Tratado 6 , em outras palavras, é “um acordo firmado entre os Estados segundo as normas do Direito Internacional” 7 . Os Estados-Membros de uma OI possuem como características básicas: a existência de interesses comuns que justificam a função de cooperação interestatal das OIs; a liberdade e a voluntariedade na criação ou associação às OIs; a titularidade de diferentes “direitos e deveres” nomenclaturas 8 dentro da organização.

Como dito, é a existência de interesses comuns que dá sentido à criação de uma OI. Tal condição faz com que seja comum a união de Estados de um mesmo continente ou hemisfério, como é o caso da União Africana, da União Européia, da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), do Caricom (Comunidade do Caribe), do Nafta (Área de Livre Comércio da América do Norte) e da OEA (Organização dos Estados Americanos).

3. A ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS

A Organização dos Estados Americanos (OEA) é “uma organização internacional

governamental, criada por um ato internacional – um tratado – e, como tal, pertence ao direito internacional” 9 . É também uma organização regional e como tal não permite a participação de Estados extra-regionais como membros, apenas como observadores (situação em que estão quase cinqüenta Estados) 10 . Sua criação é fruto do longo processo histórico do pan-americanismo, iniciado na década de 1930 e intensificado no período da Guerra Fria, em que era importante para os

Estados Unidos “defender seu quintal” contra a ameaça comunista. Nesse contexto, em 30 de abril de 1948, durante a IX Conferência dos Estados Americanos, foram adotados três textos 11 que, ao entrar em vigor em 13 de dezembro de 1951, deram origem à OEA.

4 Os Estados atuam como sujeitos primários.

5 Apesar disso, nada impede que instituições privadas possam atuar como conselheiras ou consultoras.

6 O texto que dá origem a organização é chamado seu tratado constitutivo, ou seja, sua constituição.

7 SEITENFUS, Ricardo. Manual das Organizações Internacionais. Porto Alegre: Editora livraria do Advogado,

2005

8 Os fundadores são denominados membros originários, e os demais, membros ordinários ou associados.

9 ARRIGHI, Jean M. OEA – Organização dos Estados Americanos. São Paulo: Manole, 2004.

10 Art. 52 da Carta das Nações Unidas.

11 Tais textos eram “um sobre princípios (Declaração dos Direitos do Homem), um organizacional, denominado Carta de Bogotá11, e um texto jurídico – o Pacto -, sobre os processos decisórios.” (SEINTENFUS, 2005:260).

8

Como dito no tópico anterior, a criação de uma OI pressupõe a existência de objetivos comuns. Arrighi afirma que a instituição criada em 1889 tinha objetivos modestos, quase inteiramente ligados ao comércio, mas a OEA, nascida em 1948, possui objetivos 12 muito mais amplos, “que abrangem aspectos políticos, jurídicos, sociais, econômicos, culturais, relativos à segurança, à proteção do indivíduo e ao desenvolvimento” 13 . A relação entre segurança e desenvolvimento é extremamente relevante para o assunto que será aqui tratado, a segurança hemisférica, e para a própria OEA, em que “é fundamental reconhecer o vínculo entre segurança, desenvolvimento e consolidação da democracia, atentando para a relação entre paz e esse sistema político” 14 . Quanto à sua estrutura, a OEA é composta por uma Assembléia Geral, uma Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores e dois conselhos – o Conselho Permanente e o Conselho Interamericano para o Desenvolvimento Integral (CIDI) – e uma Secretaria Geral. Além dos órgãos mencionados, há ainda várias comissões especiais ou permanentes, instituídas oportunamente pelo Conselho Permanente. Dentre estas comissões há duas comissões que funcionam desde a criação da OEA: a Comissão de Assuntos Jurídicos e Políticos e a Comissão de Assuntos Orçamentários e Administrativos. Já as especiais são criadas devido a necessidades pontuais dos membros da OEA.

4. O CONSELHO DE SEGURANÇA HEMISFÉRICO

O fim da Guerra Fria inaugura um novo momento no cenário internacional. Neste período, diversas modificações são encontradas seja no plano da economia ou da política. Dentre as diversas transformações surgidas, é fato a ser destacado o processo de uma “nova agenda de segurança”, este que pode ser considerado como resultante da complexidade relacionada ao conceito de segurança.

Enquanto que no período intitulado de Guerra Fria questões relacionadas a armas nucleares monopolizavam o conceito de segurança, já na década de 1990, com o fim da bipolaridade mundial, o que se viu foi o surgimento de novos temas que passaram a fazer parte deste conceito. Exemplo disso pode ser encontrado em temas como o tráfico de drogas e de seres humanos, desastres naturais, terrorismo, pobreza extrema, manutenção da democracia, entre outros.

12 Tais objetivos encontram-se no art. 2º da Carta da OEA. 13 ARRIGHI, Jean M. OEA – Organização dos Estados Americanos. São Paulo: Manole, 2004. 14 VASCONCELLOS, Patrícia. Segurança nas Américas: A difícil construção de um consenso sobre a Segurança Hemisférica - o embate entre a OEA e os interesses nacionais, 2007.

9

Esta “nova agenda de segurança” demanda por um ambiente de cooperação e

coordenação como forma de resolver todos estes novos temas. E foi baseado nessa

complexidade que os estados-membros da OEA viram a necessidade em discutir a segurança

hemisférica.

Nesse sentido, compreendendo a importância em discutir estes novos temas que, no

ano de 1991, mais precisamente na 21ª Reunião da Assembléia Geral da Organização dos

Estados Americanos ocorrida em Santiago no Chile,

“[os] Estados-membros incumbiram o Comitê Permanente da OEA de estabelecer um grupo de trabalho com um mandato especifico a fim de estudar e fazer recomendações em cooperação em várias dimensões em segurança hemisférica, o qual resultou na criação do Comitê Especial em Segurança Hemisférica em 1995”. (RUDZIT,

2009)

De acordo com Gunther Rudzit, a Comissão de Segurança Hemisférica (CSH), possui

seis grandes blocos que englobam os diversos interesses dos Estados-membros, a saber:

Medidas de Construção de Confiança e Segurança; Preocupações de Segurança Especiais dos

Pequenos Estados Insulares; Desminagem; Cooperação em Segurança Hemisférica; Novos

Conceitos de Segurança; e Educação e Paz.

Essa separação, se por um lado demonstra a heterogeneidade de interesses dos

Estados-membros; por outro indica a importância que a CSH possui, porquanto que se tornou

o principal espaço de discussões entre Estados, relacionadas à segurança do hemisfério.

Por fim, vale ressaltar que sua significância ocorreu não somente pela necessidade dos

Estados em estarem a debater assuntos que dizem respeito às tais “novas ameaças”, mas sim

por essas “novas ameaças” representarem problemas complexos que necessitam da

participação e cooperação entre os Estados, baseando-se em princípios democráticos, os quais

fazem parte das bases formadoras da Organização dos Estados Americanos.

4.1. OBSERVADORES PERMANENTES E SOCIEDADE CIVIL NA OEA

Além de seus 33 Membros Permanentes (Cuba e Honduras não estão regularmente

inseridas), a OEA conta com a participação de outros Estados como Observadores

10

Permanentes e de Organizações da Sociedade Civil (OSC), especialmente através das Organizações Não Governamentais (ONGs). Um fato interessante, que comprova a importância crescente dos Observadores Permanentes e das OSC na OEA, é a tradição que vem se consolidando de realizar reuniões com esses setores antes das Assembléias. Os Observadores Permanentes da OEA são 15 :

Alemanha

Itália

Angola

Japão

Arábia Saudita

Cazaquistão

Argélia

Letônia

Armênia

Líbano

Azerbaidjão

Luxemburgo

Áustria

Marrocos

Bélgica

Nigéria

Benin

Noruega

Bósnia e Herzegovina

Países Baixos

Bulgária

Paquistão

China

Polônia

Chipre

Portugal

Croácia

Catar

Dinamarca

Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte

Egito

República Tcheca

Eslovênia

República da Coréia

Espanha

República da Eslováquia

Estônia

Romênia

Federação Russa

Santa Sé

Filipinas

República da Serbia

Finlândia

Sri Lanka

França

Suécia

Geórgia

Suíça

Gana

Tailândia

Grécia

Tunísia

Guiné Equatorial

Turquia

Hungria

Ucrânia

Índia

União Européia

Irlanda

Vanuatu

Islândia

Iêmen

Israel

 

Eles têm grande importância, pois, além de contribuir com os debates, são responsáveis por uma grande parte do financiamento da organização – no ano de 2005, por exemplo, suas colaborações alcançaram um montante de 11,7 milhões de dólares 16.

11

De acordo com o Art. 40 (alíneas c e d) do Regulamento do Conselho Permanente da

OEA:

c)

Os Observadores Permanentes ou seus suplentes poderão assistir às sessões públicas

do Conselho Permanente e, quando forem convidados pelo Presidente, poderão também assistir às sessões privadas. Poderão, também, assistir às sessões das comissões, ou grupos de trabalho do Conselho Permanente. Nestes casos, poderão fazer uso da palavra, se o

Presidente assim decidir.

d) Os Observadores Permanentes ou seus suplentes poderão assistir também às sessões

das subcomissões ou dos grupos de trabalho quando forem convidados pelos respectivos presidentes. Quanto às OSC, acompanhando a tendência das organizações internacionais de ampliar a participação de setores da sociedade civil, foram regularizadas na OEA em 1999, com a adoção da resolução CP/RES. 759 “Diretrizes para a Participação da Sociedade Civil nas Atividades da OEA”. Atualmente 17 a OEA conta com a participação de 314 OSC , que já estabeleceram em torno de 500 acordos de cooperação com a organização, além de contribuírem com ideias e sugestões aos Estados Membros e à Secretaria Geral da OEA 18 .

De acordo com a Resolução CP/RES 840 “Estratégias para Incrementar e Fortalecer a Participação das OSC nas atividades da OEA” 19 , as OSC têm o direito de:

Ter conhecimento e acesso às atividades da agenda hemisférica nas áreas temáticas definidas pelos Estados Membros;

Desenvolver e executar projetos com a Secretaria Geral da OEA, para a formulação de políticas públicas em benefício do desenvolvimento econômico, social e cultural da sociedade na região das Américas;

Criar alianças estratégicas entre a sociedade civil, a OEA e empresas do setor privado para o desenvolvimento das diferentes atividades que são levadas a cabo nas áreas

16 PONTES Quinzenal.

desenvolvimento tecnológico. Disponível em: <http://ictsd.org/i/news/pontesquinzenal/5330/>. Acesso em

09/05/10.

Assembléia Geral da OEA busca iniciativas para fortalecer

17 Dados de 3 de Fevereiro de 2010.

18 OEA. Sociedad Civil. Disponível em: <http://www.oas.org/es/sre/dai/sociedad_civil/nosotros.shtml>. Acesso em 08/05/10. 19 OEA, Departamento de Asuntos Internacionales. Manual para la Participación de la Sociedad Civil en la Organización de los Estados Americanos y en el Proceso de Cumbres de las Américas. Washington DC, 2008.

12

temáticas a cargo da Secretaria Geral e seus órgãos técnicos, com o fim de prover assistência técnica, capacitação e serviço mútuo para melhores práticas;

Estabelecer uma participação organizada, legítima e forte por parte das OSC na região e no sistema interamericano;

Formular propostas para o esboço e a execução de políticas públicas em benefício da comunidade das Américas;

Institucionalizar um diálogo direto com os governos e as diferentes organizações e organismos do sistema interamericano e internacional, em um espaço amplo de opiniões e aportes de todos os atores no sistema interamericano;

Participar em consultas virtuais, através da Internet, com as entidades governamentais e as OSC, para identificar os desafios e as iniciativas nos diferentes âmbitos da OEA.

13

PARTE II:

O ARMAMENTISMO NAS AMÉRICAS

5. INTRODUÇÃO

Os exércitos nacionais existem desde antes da criação do Estado-moderno, surgiram como forças para a defesa e conquistas do interesse nacional e, portanto, como um dos mais fundamentais pilares para a soberania nacional. No entanto, a exemplo de períodos de forte corrida armamentista e a conhecida paz armada, como os períodos anteriores à primeira e à segunda guerras mundiais, os crescentes gastos e aumento dos contingentes militares terminaram por devastar o continente europeu e tirar a vida de milhões de cidadãos. Posteriormente, na guerra fria, a corrida armamentista mostrou seu período mais crítico, onde, a qualquer momento, a rivalidade entre as duas superpotências globais – Estados Unidos e União Soviética – poderia culminar em uma guerra nuclear capaz de destruir o planeta. Apesar de o continente Americano ser uma região relativamente pacífica, nos últimos anos vem ocorrendo um crescente investimento nos setores de defesa por parte da maioria dos países. Na América Latina, temos o Brasil com os maiores gastos no setor, com aproximadamente US$ 27,124 bilhões em 2009, o que representa um aumento de 16% no orçamento referente ao ano de 2008; em seguida, a Colômbia com um gasto de US$ 10,055 bilhões; e o Chile em terceiro, com gastos de US$ 5,683 bilhões. Neste plano ainda existem grandes disparidades entre a capacidade militar de pequenos países da região, como Uruguai e Bolívia, além, é claro, das pequenas ilhas caribenhas e o caso emblemático da Costa Rica, que deixou de ter exército nacional após uma sangrenta guerra civil nos anos 40, decidindo por abolir em sua constituição as forças armadas do país. Por fim, com o maior poderio bélico mundial, os Estados Unidos, que, sozinhos, totalizam mais de 50% dos gastos globais 20 com defesa (aproximadamente US$ 600 bilhões). Em vista do panorama político e social dos países americanos, torna-se importante esta discussão no âmbito da Organização dos Estados Americanos, de forma que uma diminuição nos gastos militares dos países membros poderia representar um maior investimento em áreas sensíveis aos países em desenvolvimento, como a saúde, educação e projetos sociais; da

20 Os gastos militares globais foram totalizados em aproximadamente US$ 1.531 trilhão.

14

mesma forma que, por parte dos países desenvolvidos, uma diminuição de gastos com as forças armadas pode representar mais dinheiro para investimento direto aos países pobres do continente ou em suas próprias áreas sociais. Outro sério problema é o de uma possível corrida armamentista entre países com atritos políticos e históricos. Diversas nações do continente têm procurado investir em equipamentos sofisticados e de alto poderio bélico, o que pode causar sentimentos de desequilíbrio de poder regional. Dessa forma, a discussão é necessária para se avaliar de que maneira os países membros podem mutuamente procurar uma solução em prol da paz, tornando-a mais sólida e duradoura no continente, além de procurar melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos.

6. OS EXÉRCITOS NACIONAIS E O ESTADO NACIONAL

A história do ser humano, diz Delmas, “é praticamente a história da guerra. Vinte e cinco séculos de China não contam, ao todo, dois séculos de paz. Vinte séculos de Ocidente, apenas um pouco mais” 21 . Assim, e através de análises de outras obras e momentos, pode-se considerar que a guerra, ou seja, o uso da violência para resolução de conflitos, é parte da essência humana. Ainda nessa linha de raciocínio, tomamos o Estado, que é uma criação humana e, por assim ser, reflete o homem. Interpretando muito sucintamente Hobbes, Locke e Rousseau, o Estado foi criado como resposta ao Estado de Natureza, em que o homem, ao sentir-se ameaçado ou desafiado por outro, tornava-se violento para defender seus interesses. Porém, a partir da criação do Estado e do contrato social, os homens abdicam de seu direito de praticar violência. Em outras palavras, o Estado é o único detentor legítimo da força a fim de garantir a liberdade do individuo e de seus bens. Transportando essa máxima para a esfera internacional, temos que os Exércitos Nacionais são os responsáveis legítimos por garantir a liberdade do povo ao qual se reportam. Em caso de conflito, em que os interesses se chocam, os Estados, através de seus exércitos próprios, utilizam-se da guerra, da violência legitimada, para fazer com que o perdedor aja conforme a vontade do vencedor. E mesmo na paz, ou na tendência ao cenário de paz, os Exércitos Nacionais cumprem um importante papel. Uma situação desejável para garantir a paz é o chamado equilíbrio de poder, no qual todas as nações têm a mesma participação e influência no cenário, e, portanto,

15

não há a eminência de dominação por parte de um outro Estado ou coalizão de Estados sobre os demais. Aqui, a presença do Exército Nacional é responsável por coibir a ação de outros Estados, que poderiam atacar e dominar, por não encontrar resistência, os desprovidos de força.

Hoje em dia, após um século marcado por grandes guerras 22 , muito se fez no sentido de evitar que conflitos de interesses levassem povos ao campo de batalha. As Organizações Internacionais e os Blocos de Cooperação – como a ONU, a OEA, o Mercosul, dentre outros –, bem como o desenvolvimento de teorias de negociações e diplomacia, são exemplos disto. Observa-se que a cooperação em geral, seja ela econômica, comercial ou tecnológica, tende a criar situações de interesses comuns e pacíficos entre as nações. Dessa forma, alguns exércitos nacionais de determinados países passaram a ter diferentes tarefas. Um exemplo positivo é do exército brasileiro que tem se destacado no Haiti onde desempenha funções sob a Missão de Paz da ONU, a MINUSTAH (Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haiti). Lá, o exército é responsável por manter a ordem e ajudar a reconstruir o país. Outro exemplo de nova atribuição do Exército Nacional é a luta contra “civis”. A princípio o conflito dava-se no âmbito Estado-Estado, mas hoje muitas são as situações de violação de soberania por parte de civis de outros Estados. Um exemplo disto são as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que não constituem um órgão oficial do Estado mas nem por isso causam pouca tensão entre a Colômbia e demais países da região, como o Equador. Especificamente nesse caso, temos uma situação de conflito interno de um país que se expandiu, afetando outros, e cuja solução torna-se cada vez mais complexa. De toda a forma, os gastos com os Exércitos Nacionais só fazem crescer através dos tempos. Com a invenção de novas tecnologias bélicas, não só de armas propriamente ditas, mas aviões e satélites de monitoramento, os Estados têm buscado manter seus exércitos atualizados, independentemente de estarem ou não envolvidos em guerras. Mesmo países como Brasil, México, Chile e outros, têm aumentado progressivamente seus gastos. Falaremos mais dessa temática na parte referente ao Armamentismo nas Américas.

7. O ARMAMENTISMO

22 A saber: I Guerra Mundial (1914-1918), II Guerra Mundial (1939-1945), e Guerra Fria (1945-1989).

16

São várias as definições encontradas para “Armamentismo” e de alguma forma todas elas se complementam. Sendo assim, analisaremos duas destas buscando uma percepção mais generalizada e global do significado do termo. Podemos considerar que a mais simples e básica definição de Armamentismo é o ato de um Estado se armar, ou seja, o ato de um Estado investir e aumentar a sua capacidade bélica. Essa definição certamente não está incorreta, contudo, é extremamente restrita, pois para se entender a fundo o que representa esse ato de se armar do Estado, bem como o motivo desse processo, devemos buscar definições mais ricas e abrangentes. Temos então outra definição que dirá que armamentismo é a teoria que advoga o armamento das nações, como meio de evitar as guerras 23 . À primeira vista essa definição parece um tanto errônea e equivocada. Como o armamento das nações poderia evitar guerras uma vez que as armas são justamente para fazê-las? Muitas são as teorias que falam da guerra e não nos cabe discuti-las aqui. Porém para entender a idéia, utilizar-nos-emos do exemplo da Guerra Fria, que certamente é o exemplo mais cabível para explicar o armamento como forma de evitar a guerra. Sabemos que os Estados Unidos e a União Soviética nunca tiveram um enfrentamento direto, apesar dos casos do Vietnam, Coréia, entre outros. E isso se deu porque em uma possível guerra entre ambas as potências, a destruição seria tamanha que não haveria um vencedor. Isto se acentuou mais ainda em função da posse de armas nucleares, cuja quantidade era suficiente para destruir todo o planeta Terra. No entanto, observamos que o armamentismo nem sempre evita a guerra, ainda que a intenção original dos Estados seja esta. A exemplo da II Guerra Mundial, Hitler começou a armar a Alemanha com a desculpa de sentir-se ameaçado pelo poder bélico dos Estados vizinhos e de necessitar do chamado “espaço vital” 24 . Na verdade, o Führer tinha intenções não declaradas de expandir seu domínio e quando as demais nações se deram conta da ameaça alemã, já era tarde e a solução foi declarar guerra. Observa-se dessa forma que o armamentismo é capaz de evitar a guerra desde que nenhum Estado tenha pretensões expansionistas e/ou imperialistas, como foi o caso da Alemanha Nazista. Em outras palavras, desde que o armamentismo tenha como objetivo a defesa do próprio Estado, haverá paz. Contudo, como saber se um Estado visa à segurança e

23 Ver http://www.opticalhost.com.br/dicionario/A/armamentismo.html Acesso em 19/05/2011. 24 Conceito criado por Friedrich Ratzel, que estabelece que um Estado necessita de um determinado espaço geográfico mínimo para existir.

17

não à guerra? Falemos então da questão chave que é gerada pelo armamentismo, que é a desconfiança mútua entre Estados. Em uma situação hipotética, se um Estado X aumenta seus gastos com segurança sem motivos aparentes, é normal que surja no Estado Y uma desconfiança de que o Estado X possa ter intenções de atacar. O Estado Y então, para se precaver, passará a adquirir armas para se sentir seguro. Com isso, o Estado X, que poderia não ter intenções de atacar, passa a sentir-se ele próprio ameaçado aumentando mais ainda os seus gastos com armas; gerando-se um ciclo vicioso. É assim que têm origem as chamadas corridas armamentistas, que nada mais são do que esse ciclo vicioso em que nações, sentindo-se ameaçadas, aumentam progressivamente seus gastos com segurança, criando um constante cenário de tensão, que prejudica as relações de cooperação e o próprio desenvolvimento interno do Estado: afinal quando se destinam mais recursos para a segurança haverá menos recursos para outros setores como educação, saúde, assistência social etc. Nota-se pelo exposto que a questão do armamentismo está intimamente ligada à questão da transparência e confiança entre Estados. Nesse sentido, as Organizações Internacionais, como a OEA, têm papel importantíssimo, uma vez que auxiliam na comunicação entre os Estados, que devem acordar entre si sobre as maneiras de sempre manter seu compromisso com a paz e a cooperação.

7.1. O ARMAMENTISMO NA AMÉRICA

O continente americano é extremamente heterogêneo, e com relação ao armamentismo não seria diferente 25 . Temos como exemplo, ao norte, os Estados Unidos que é de longe o país mais beligerante do mundo; na América Central, alguns países como São Cristóvão e Névis possuem exércitos que não chegam a mil integrantes 26 ; e na América do Sul, cujos países apresentam um histórico relativamente pacífico nos últimos 100 anos, discute-se um possível início de corrida armamentista. Segundo dados da Sipri 27 (Instituto Internacional de Investigação para a Paz), só na América do Sul os gastos militares cresceram 5,8% em 2010, atingindo a marca de 63,6 bilhões de dólares. Já os Estados Unidos gastaram sozinhos quase 700 bilhões de dólares,

25 Para mais informações acerca de países determinados, consultar a parte de “Posicionamento dos Países da OEA” do presente Guia de Estudos.

26 Ver http://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/sc.html Acesso em 19/05/2011.

27 Ver http://www.sipri.org/ Acesso em 19/05/2011.

18

registrando, portanto, um crescimento de 1,3%. Ainda assim, este é o menor aumento desde

2001.

Por estes e outros dados, não é surpresa que líderes e estudiosos se preocupem. A Colômbia, país muito criticado por seu relacionamento de cooperação militar com os Estados Unidos, tentou discutir na UNASUL 28 a suposta corrida armamentista na América do Sul, em que não obteve sucesso. E falando sobre estas críticas, fica evidente que o problema reside na falta de clareza das informações e no caráter secreto dos acordos que foram firmados. Sob outra perspectiva, alguns analistas acreditam que os crescentes investimentos em segurança dos países americanos, especialmente na América do Sul, são reflexo do desenvolvimento da região. Para estes, as condições passadas simplesmente não possibilitavam tais gastos, porém hoje, além de terem mais dinheiro, esses países têm também necessidade de modernizar seus exércitos; necessidade essa que vem da esfera interna do Estado que se justifica, dentre outras situações, pelo combate ao crime organizado. Como se vê, o assunto é complexo e gera grandes divergências de opinião. Além disto, reforçamos, a região é muito diversa e dessa forma exige que a solução seja, da mesma forma, diversa. Devem ser analisados todos os pontos de vista e possibilidades para assim traçar um acordo que beneficie a todos e crie um cenário pacífico e cooperativo entre as nações americanas.

8. A PRESENÇA DOS ESTADOS UNIDOS NO CONTINENTE E AS

TENTATIVAS DE PODER DE DISSUASÃO POR PARTE DOS PAÍSES

AMERICANOS

8.1. AS

INTERVENÇÕES

DOS

ESTADOS

UNIDOS NO CONTINENTE

DURANTE OS SÉCULOS XX E XXI

É inegável que os Estados Unidos exercem dentro do continente americano uma ampla influência econômica e política, no entanto é no poderio de suas forças armadas que o país demonstra sua verdadeira hegemonia militar. Os Estados Unidos contam não somente com os maiores gastos militares do continente, mas também mundial, sendo o único país do planeta

28 Ver http://internacionalizando-direito.blogspot.com/2009/08/sob-criticas-colombia-quer-debater.html Acesso em 19/05/2011.

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com capacidade de reação militar aérea, naval, terrestre e nuclear imediata em qualquer parte do globo.

O histórico de presença americana também conta com inúmeras intervenções armadas no continente, todas capitaneadas pela Doutrina Monroe criada em 1823, originando a presença norte-americana; além da idéia da “América para os americanos” e da questão da proeminência e futura hegemonia dos Estados Unidos no Hemisfério. É em 1898 com o início da guerra hispano-americano onde os Estados Unidos intervieram pela libertação de Cuba contra a colonização espanhola, que o país “inaugura” uma série de intervenções nas Américas, principalmente na América Central insular e Caribe, intervenções estas que ficaram conhecidas como “Guerra das Bananas”. Com o governo Roosevelt (1903-1909) se inicia a conhecida política do big stick, sendo o nome retirado de um provérbio indígena ouvido por Roosevelt em viagem a África:

“Quando fores visitar teu adversário fale em voz baixa, mas leve um porrete na mão” 29 . A política norte-americana nesta época também foi caracterizada pela

] [

autorização em 1903, para a instalação de uma base militar em Guantánamo; o apoio à insurreição separatista do Panamá em relação à Colômbia, que culmina com a formação do novo Estado e a cessão, em novembro de 1903, do controle da zona do canal aos Estados Unidos 30 ; e o desembarque na República Dominicana em 1905, em aplicação ao Corolário Roosevelt, assumindo a administração das aduanas com o objetivo de garantir o pagamento da dívida externa 31 .

assinatura da Emenda Platt, em 1902, estabelecendo tutela sobre Cuba e a

Esta política intervencionista se modifica com os períodos que antecederam a Segunda Guerra

e a “Política de Boa Vizinhança” do governo de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) com

uma flexibilidade maior em relação aos governos latino-americanos, principalmente em questões de apoio econômico e político, com o intuito do não-alinhamento destes países com as potências do Eixo.

Com o início da Guerra Fria e o medo da invasão comunista nos países latino- americanos, os Estados Unidos tomam medidas muitas vezes de apoio a governos totalitários

de direita, e procuram derrubar democracias ligadas à esquerda como, por exemplo, no Chile

e na Guatemala. Muitos outros países em que houve golpes antidemocráticos, houve também

apoio, em certa medida, do governo americano. No pós-guerra fria, no entanto, ficou caracterizada uma maior integração norte- americana com os países latinos e, em certa maneira, um relativo maior equilíbrio entre as

29 BOERSNER, 1990, p.196

30 O Canal do Panamá retornou ao controle do Estado panamenho através de acordos feitos pelo governo do presidente James Earl Carter em 1977.

31 AYERBE, 2002, P.54.

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relações destes países. Um grande exemplo é dado dentro do âmbito da Organização dos Estados Americanos, que vem se mostrando cada vez mais como um local de discussão ampla entre os diversos temas que são de interesse aos Estados das Américas em conjunto. Deve ser visto que os exércitos muitas vezes não tem um papel unicamente de proteção do território nacional, mas também são usados muitas vezes como meios para obtenção do interesse nacional. Entre os casos mais recentes relacionados à presença militar americana dois podem ser considerados: a reativação da Quarta Frota e a criação de diversas bases americanas em território colombiano. O primeiro caso se trata da questão da reativação da Quarta Frota dos Estados Unidos, uma divisão da marinha americana responsável por operações no Atlântico sul. A quarta frota foi criada no contexto da Segunda Guerra e suas operações foram encerradas tempos após o seu término. No entanto, a partir de 1º de Julho de 2008 esta divisão da Marinha foi reativada, ganhando um comando de alto nível com sede na cidade de Mayport, na Flórida, tendo responsabilidade pelos mares da América Latina e Caribe. Esta medida causou diversos protestos por parte dos países latino-americanos, para alguns esta medida seria em razão da existência de regimes com vertentes antiamericanas no continente, ou então de interesses estratégicos. Países como Brasil e Venezuela já indicaram que será inaceitável a presença americana dentro de seus territórios marítimos. No caso do Brasil, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, considerou a possibilidade de um patrulhamento de águas brasileiras pela frota americana algo inaceitável e que esse patrulhamento é assegurado somente ao Brasil, que está inclusive com planos de desenvolvimento de submarinos nucleares e rearmamento de sua frota com este propósito. A Venezuela, por outro lado, planeja a compra de submarinos e fragatas russas para integrar sua frota. Os Estados Unidos, em contra partida, afirmam que a reativação da frota não implicará em mudança nenhuma em termos operacionais, mas que a reativação seria para ampliar de forma eficaz o combate ao narcotráfico e missões de cooperação em segurança Outro ponto de grande controvérsia foi em relação às bases militares norte-americanas criadas e posicionadas na Colômbia. Este país, principalmente a partir do governo de Álvaro Uribe, tem desenvolvido e recebido auxílio militar direto americano em conjunto com o reaparelhamento e ampliação de suas próprias forças militares. Medidas tomadas, segundo estes governos, com o intuito de combater as FARC e o narcotráfico dentro da Colômbia.

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A presença americana na Colômbia já havia criado graves períodos de tensão na

vizinhança, principalmente em relação à Venezuela, que se via ameaçada com a possibilidade de uma intervenção ou ataque tanto americano quanto colombiano ao seu país. A questão na região também se tornou crítica quando o governo colombiano, sem permissão, invadiu e bombardeou bases estratégicas das FARC em território equatoriano sem a permissão deste país. Esta operação militar foi executada em primeiro de março de 2008 e causou uma séria crise diplomática, com a retirada de embaixadores da Venezuela e Equador do Estado colombiano e o posicionamento de tropas venezuelanas na região fronteiriça do país e posterior suspensão das relações comerciais com a Colômbia 32 . Posteriormente esta crise foi amenizada em discussões de âmbito regional, mas este foi um claro exemplo de como estas ações podem além de causar o armamentismo, ocasionar uma guerra. As relações com os Estados Unidos, no entanto não retrocederam no sentido de maior apoio militar, pois posteriormente os países assinaram uma série de acordos para a instalação de bases americanas em território Colombiano. Apesar de ser esta uma ação abarcada pela soberania colombiana, diversos países sul-americanos foram extremamente contrários a estas novas bases. Um dos países mais preocupados com o caso foi o governo brasileiro, que se

preocupou com a proximidade destas bases americanas com bases em território amazônico brasileiro, uma área considerada pelo Brasil como de grande cobiça internacional.

O que deve ser observado nestes diversos casos é que tanto a presença americana

quanto o próprio crescimento do poderio militar de certos países da região podem acarretar atritos diplomáticos e no próprio crescimento e desenvolvimento das forças armadas de países vizinhos e de países que se sentem ameaçados de alguma forma – o que seria, muitas vezes, tentativas de construção de um poder de dissuasão, como será abordado a seguir.

8.2.

O

PODER

DE

DISSUASÃO

E

OS

PAÍSES

LATINO-

AMERICANOS

Este tipo de poder é descrito como um meio de dissuadir uma possível guerra ou a intenção de ataque externo através do poder de coerção das forças armadas de um país. Por exemplo, uma potência militar como os Estados Unidos dificilmente receberia um ataque direto, haja vista deter o maior poderio militar do planeta. Outro exemplo é a razão pela qual é

32 Para maiores informações relacionados à crise diplomática descrita e a questão das FARC, ver o Guia de Estudos do I Fórum de Discussão Universitária do GEO.

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extremamente complicado iniciar um conflito contra a Coréia do Norte, que possui um grande exército e armamentos nucleares, entre diversos outros casos. Isto também pode se aplicar a diversos países nas Américas, a maior parte das vezes ocorrendo em diferentes proporções, mas em geral os Estados sempre procuram ou aspiram ter uma força equiparável ou superior à de seus vizinhos ou igualitária à das grandes potências a nível global. Muitas vezes, é neste sentido que se empreende uma corrida armamentista:

diversos Estados tentando se equiparar ou superar seus atuais ou possíveis rivais no sistema internacional global ou regional. Um dos exemplos mais evidentes e que já foi citado, seria o do Brasil, um país de proporções continentais, sendo o 5º maior em população e território, e detentor de uma enorme quantia de riquezas naturais. O governo brasileiro acredita que a cobiça internacional, principalmente das potências globais, traz a necessidade de forças armadas bem equipadas, além da capacidade de desenvolvimento e construção de novas tecnologias bélicas. Uma superioridade brasileira relativa a seus vizinhos regionais também seria importante para a projeção do território nacional e mesmo para legitimar ações do Estado. O país sempre procurou o sentido da cooperação, mesmo militar, em relação aos outros países da região, inclusive países como Argentina e Chile. Em outras regiões das Américas, no entanto, atritos político-ideológicos munidos de desconfiança mútua podem gerar uma aparente necessidade de se obter superioridade militar em relação aos vizinhos, de forma que quando isto se torna mútuo entre os possíveis rivais, podem-se desencadear corridas armamentistas 33 .

9. MEDIDAS TOMADAS PELA OEA

No ano de 1995, tomou lugar do Comitê Especial da OEA o Comitê de Segurança Hemisférica (CSH), transformando-se em um dos comitês permanentes da Organização, a fim de estudar e fazer recomendações em cooperação em várias dimensões em segurança hemisférica. Baseados nessa preocupação com a segurança e com o armamentismo, alguns Estados começaram a pensar numa medida para limitação e controle das armas convencionais. O CSH então, começou a considerar a aprovação de uma estrutura legal que estabelecesse tal medida, mas apenas para a notificação de compra de grandes sistemas de armas cobertas pelo Registro

33 Uma exemplificação mais particular sobre este ponto está descrita no “Posicionamento dos Países da OEA”, presente neste Guia.

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de Armas das Nações Unidas. Tal registro engloba a aquisição de cinco categorias de equipamentos militares: tanques de batalha, veículos de combate blindados, artilharia de grande calibre, aviões de combate, helicópteros de ataque, navios de guerra com deslocamento acima de 750 toneladas (e qualquer embarcação com mísseis ou torpedos com alcance acima de 25 km) e mísseis e seus lançadores com um alcance de ao menos 25 km. Esse processo foi a preparação para a assinatura da Convenção Inter-Americana de Transparência na Aquisição de Armas Convencionais 34 por dezenove países na Trigésima- Nona Assembleia Geral da OEA, que aconteceu no ano de 1999. De Acordo com esta Convenção, todos os Estados Partes devem fazer um relatório anual, tendo registradas neste suas importações e exportações de armas convencionais referentes ao ano anterior, esclarecendo ainda a qualidade e o tipo de armas convencionais em cada transação. Além disso, os Estados Partes precisam declarar à OEA 35 :

notificação de aquisição através de importação. Esta notificação deve ser feita o mais tardar noventa dias após a incorporação do armamento importado ao inventário das forças armadas;

notificação de aquisição através de produção nacional. Esta notificação ao depositário também deve ser feita no mais tardar noventa dias depois da incorporação do equipamento ao seu inventário.

Um dos problemas com relação a estes últimos tópicos é que algumas armas e equipamentos só podem ser enviados ao relatório após estarem completos, ou seja, até receberem todas as peças que contêm. Esse procedimento pode levar anos, fazendo com que tais armas demorem a serem consideradas como prontas para o combate. Em 2009, foi realizada, na cidade de Lima (Peru), a 40ª Assembléia Geral Ordinária da Organização dos Estados Americanos, sob o lema “Paz, Segurança e Cooperação na América”, em que foi discutido o tema do armamentismo no continente, proposto pelo país anfitrião. Neste encontro, a Organização comprometeu-se a promover a transparência e o controle de compras de armamento; promover um ambiente propício para o controle do armamento; um limite às armas convencionais; e a não proliferação das armas de destruição em massa. Os chefes da diplomacia e os ministros dos 33 Estados-Membros ativos,

34 Disponível em http://www.oas.org/juridico/portuguese/treaties/A-64.htm Acesso em 19/05/2011. 35 Exemplo: relatório de declaração do Brasil, disponível em http://scm.oas.org/pdfs/2009/CP21508P.pdf Acesso em 19/05/2011.

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convidaram os países a assinar ou ratificar a Convenção. Entretanto, apenas 13 países fazem parte da mesma. É preciso refletir, portanto, sobre que maneira essas medidas atingem diretamente os Estados e qual seria a melhor forma de se chegar, se não ao consenso, a pelo menos uma idéia comum. De nada vale um ou dois Estados buscarem a redução de seus gastos enquanto outros maiores estiverem comprando armamentos por eles e pelos outros. Apenas a união e a compreensão dos Estados-Membros podem levar a um acordo eficaz que reflita em melhorias para todas as nações.

10.

INVESTIMENTO

SOCIOECONÔMICO

BÉLICO

X

INVESTIMENTO

Um dos pontos de discussão mais pertinentes da opinião pública internacional é a questão do investimento bélico em detrimento do investimento socioeconômico. O armamentismo ultrapassa as barreiras da questão da segurança e invade o campo social: até que ponto é viável gastar bilhões de dólares em armas, apenas pela corrida armamentista ou pelo prazer de poder dizer-se forte, ao invés de investir no bem-estar da própria população e, por que não, na dos Estados vizinhos? Essa questão também foi discutida na 40ª Assembléia Geral Ordinária, em Lima. O presidente peruano Alan García foi um dos que defendeu a redução dos gastos dos países latino-americanos para fins militares e uma reutilização desses recursos no combate à pobreza e na proteção do meio ambiente, baseado em dados que mostram que, desde a fundação da OEA, os gastos com a compra de armas no continente americano chegou a 100 bilhões de dólares, sendo que nem 5% dessas armas foram usadas em conflitos. El Salvador, em seu relatório do ano de 2008 apresentado à OEA, mostrou ter gastado mais de 120 milhões de dólares com armamento. É preciso analisar até que ponto é viável a um Estado gastar muito dinheiro com investimento bélico quando seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) ainda não atingiu uma meta ideal, quando ainda há grande índice de analfabetismo e baixíssimo PIB (Produto Interno Bruto). Com uma parte desse montante seria possível investir na economia e em projetos sociais. Entretanto, é claro que um país não abre mão de parte de seu investimento sozinho. Ele precisa ter certeza de que outros também o fazem para que não se sinta fragilizado. E se todos o fizessem talvez pequenos países com dificuldade de desenvolver-se econômica e socialmente pudessem atender melhor às necessidades de seus cidadãos.

25

11. O POSICIONAMENTO DOS PAÍSES DA OEA

CARICOM

(ANTÍGUA

E

BARBUDA,

BAHAMAS,

BARBADOS,

BELIZE,

DOMINICA, GRANADA, GUIANA, HAITI, JAMAICA, SANTA LÚCIA, SÃO

CRISTÓVÃO E NÉVIS, SÃO VICENTE E GRANADINAS, SURINAME, TRINIDAD E

TOBAGO).

O CARICOM, Comunidade do Caribe, cuja composição apresenta 14 países, possui ao todo uma população de menos de 16 milhões de pessoas, e tem como principal fonte de riqueza o turismo. Por sua posição estratégica de ligação entre as Américas do Norte e do Sul o território é rota constante de traficantes e transportadores de narcóticos. Outros problemas da região são a corrupção e a violência. Dessa forma, em 2010 foi lançada a Iniciativa de Segurança da Bacia do Caribe (CBSI) 36 que através de um estreitamento com os Estados Unidos representado pela cooperação técnica e o reforço policial, visa a sanar os problemas do crime. Hilary Clinton, secretária de Estado dos Estados Unidos, disse que “A CBSI significa trabalhar em conjunto, não apenas para aumentar as forças de segurança nacionais e os esforços contra o tráfico, mas também para nos concentrarmos em parcerias mais amplas para a segurança do cidadão e inclusão social” 37 . Ressalta-se por fim que os países do CARICOM possuem exércitos nacionais, porém estes são proporcionais a sua população e tamanho 38 . As Bahamas, por exemplo, que tem uma população de 313 mil habitantes, PIB de 7.538 bilhões e PIB per capita de 28.600 dólares, o maior dentre os outros países caribenhos, gastou em 2009, 0,7% de seu PIB com seu contingente militar que é constituído por 120 mil homens.

ARGENTINA

36 Ver http://www.state.gov/p/wha/rt/cbsi/ Acesso em 19/05/2011.

37 Ver http://www.dialogo-americas.com/pt/articles/rmisa/features/regional_news/2010/06/14/feature-03 (acesso em 19/05/2011).

38 Para mais dados de todos os países do CARICOM ver: https://www.cia.gov/library/publications/the-world- factbook/index.html (acesso em 19/05/2011).

26

A República Argentina declarou ter ficado mais de 10 anos sem comprar armamentos, sendo que atualmente, gasta menos de 1% de seu PIB na compra dos mesmos. O país alega, também, que não vai comprar armas ou gerar uma corrida armamentista na região.

BOLÍVIA

A Bolívia gastou 2% do seu PIB em armamentos em 2009, segundo o SIPRI. O país apesar de não ter um vasto exército, tem procurado modernizá-lo com a compra de armamentos, helicópteros e aeronaves, vindos principalmente da China e da Rússia. Suas forças armadas, em particular a aeronáutica, têm sido empregadas no combate ao tráfico de drogas dentro do país.

BRASIL

A República Federativa do Brasil é considerada como a segunda maior força militar do continente, somente atrás dos Estados Unidos. O país conta com um grande contingente militar, e pelas suas proporções continentais e riquezas naturais vastas (em principal suas recentemente descobertas fontes petrolíferas no pré-sal, suas fontes de água potável e a riqueza contida na região Amazônica). O Brasil considera essencial ter forças armadas preparadas e tecnologicamente avançadas. O Ministério da Defesa brasileiro em conjunto com o Governo Federal recentemente está preparando o Plano de Articulação e Equipamento da Defesa (Paed), que tem como objetivo triplicar a capacidade militar do país para os próximos 20 anos, com um custo orçado em R$ 60 bilhões. Entre as medidas desejadas pelo governo se encontram a criação de um sistema de controle espacial, a compra de veículos aéreos não tripulados, fragatas e tanques de guerra, além do aumento do contingente militar brasileiro para 400 mil, que hoje é de 288 mil. Também estão previstos o desenvolvimento de Sistemas de Guerra cibernética, a obtenção e desenvolvimento de submarinos tanto nucleares como convencionais e a criação de estaleiros. No setor da aeronáutica o governo planeja o desenvolvimento de mísseis Ar-Ar e Ar-Solo, bem como o desenvolvimento de tecnologia espacial. Apesar dos investimentos no setor o governo brasileiro, principalmente o setor das forças armadas considerou preocupante a presença da quarta frota e inadmissível uma possível tentativa por parte do governo americano de patrulhamento de águas brasileiras, para tanto estão previstos investimentos na marinha. As bases americanas na Colômbia também

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incomodam o governo brasileiro por estarem localizadas próximas a uma região considerada estratégica.

CANADÁ

No Canadá sempre esteve presente em, e fazem parte da sua política externa, políticas em prol do desarmamento, sendo conhecido como um Estado pacífico. No entanto, o Canadá conta com o terceiro maior orçamento militar das Américas além de contar com amplos apoio e cooperação por parte dos Estados Unidos, com suas forças armadas. O Canadá tem entre os seus pilares de relações com as Américas 39 o desenvolvimento da segurança comum no que tange o combate às drogas, ao terrorismo, aos desastres naturais e à instabilidade regional dos países.

CHILE

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, descartou uma política armamentista do seu país e pretensões expansionistas na região. O governo chileno alegou que se limitará a manter e fortalecer a capacidade de dissuasão das forças armadas, em um contexto de transparência e busca da homologação (dos gastos em defesa) com seus países vizinhos. Atualmente o Chile gasta em armamentos mais de 700 milhões de dólares, e é acusado por seus vizinhos de ser o país que tem um dos maiores gastos da América Latina.

COLÔMBIA

A Colômbia tem sido duramente criticada por seu acordo de cooperação bilateral com os Estados Unidos que permite que tropas americanas acessem bases militares dentro do território colombiano. O caráter sigiloso dos termos e finalidades desse acordo tem causado tensão entre países sul-americanos como a Venezuela, a Bolívia e o Equador, cuja política é de não alinhamento ao país norte-americano 40 . Nesse contexto, a Colômbia tenta atenuar a situação, justificando que o acordo visa apenas à melhoria no combate às FARC e não representa um aumento no contingente

39 Ver http://www.international.gc.ca/americas-ameriques/engagement.aspx?lang=eng (acesso em 19/05/2011). 40 Mais em: http://mundorama.net/2009/09/09/o-imbroglio-das-bases-militares-na-colombia-repercussoes-para- o-escopo-regional-por-artur-andrade-da-silva-machado/ Acesso em 19/05/2011.

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estadunidense na América do Sul. De qualquer maneira, a tensão continua haja vista fatos recentes, como o desrespeito da fronteira equatoriana por parte da Colômbia e a confirmação da Suécia de que bazucas encontradas em posse das FARC em 2008 tinham sido vendidas para a Venezuela 20 anos antes.

COSTA RICA

A política externa da Costa Rica caracteriza-se por sua postura de neutralidade bélica, na busca pela pacificação das Américas e pelo combate ao armamentismo. O governo critica os gastos militares na América Latina, uma vez que a região apresenta escolaridade média de sete anos, e pobreza que atinge a mais de 200 milhões de habitantes. Considerado um país desarmado, apresentou um projeto de resolução no Conselho Permanente da OEA, em 2007, em que se compromete a

Continuar promovendo no Hemisfério um ambiente propício para a transparência e eficiência em gastos militares e a promoção de um apoio maior ao desenvolvimento humano nas Américas, que permita dedicar mais recursos ao desenvolvimento econômico e social dos Estados membros, o que é um dos propósitos essenciais da Carta da Organização dos Estados Americanos, levando em consideração o cumprimento dos compromissos internacionais, bem como as legítimas necessidades de segurança e defesa dos Estados membros 41 .

EQUADOR

Possivelmente um dos casos mais reais e extremos da problemática gerada pelas FARC foi a invasão do Equador pela Colômbia em 2008 que culminou com um ataque a um acampamento da guerrilha e a morte de diversos guerrilheiros. Coincidência ou não, de 2008 para 2009, os investimentos em armamento passaram de 2,8% para 3,4% do PIB 42 equatoriano. No entanto, o Equador tem se esforçado no sentido de promover “medidas como a homologação de gastos militares, ações conjuntas para enfrentar desastres naturais e troca de conhecimentos sobre tecnologia militar” 43 . O país se mostra, portanto, extremamente a favor do compartilhamento e clareza dos dados referentes aos gastos militares dos países americanos.

41 Extraído do Projeto de Resolução a respeito da transparência e eficiência em gastos militares e promoção de um apoio maior ao desenvolvimento humano nas Américas, de 18/04/2007. 42 Dados retirados da base de dados do SIPRI: http://milexdata.sipri.org/result.php4 (acesso em 19/05/2011). 43 Ver http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2011/01/17/unasul-compartilha-mais-informacao-militar- segundo-equador.jhtm (acesso em 19/05/2011).

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EL SALVADOR

El Salvador foi um dos primeiros países da América Latina a promover ações pelo desarmamento de civis no continente, devido ao seu histórico de guerras civis que tiveram término apenas em 1992. O trabalho começou em 1999 com pesquisas sobre armas e a relação delas com o fenômeno da violência, o que foi imprescindível para nortear o programa nacional do desarmamento. O país gastou em 2008 cerca de 124 milhões de dólares na compra de armamentos.

ESTADOS UNIDOS

Os Estados Unidos são detentores do maior poderio militar do mundo: o país, sozinho, representa mais da metade dos gastos com defesa globais – aproximadamente 515,400 bilhões de dólares. O país conta com as mais poderosas forças armadas, não somente convencionais, sendo estas as únicas capazes de projeção global imediata, mas também com um dos maiores arsenais nucleares do mundo, além deter um dos mais avançados programas aeroespaciais. A definição dos Estados Unidos como maior potência global está intimamente ligada ao seu grande poder militar; o país é líder no desenvolvimento tecnológico desta área, sendo a indústria bélica parte importante de sua economia, exportando boa parte destes aparatos para várias nações do mundo, inclusive países das Américas. O país foi responsável por um altíssimo número de intervenções no continente americano, e também tem sido duramente criticado por sua presença militar na América Latina atualmente. No entanto, para o governo americano, as forças armadas são imprescindíveis para garantir a segurança do país e os interesses americanos mundo afora. Em grande parte programas para o reaparelhamento e desenvolvimento militar de certos países estão ligados à presença americana na região, em certos casos, com tentativas de formação de poderes de dissuasão.

GUATEMALA

A República da Guatemala apresenta atualmente um gasto de cerca de 140 milhões de dólares em armamentos, mesmo em vista dos seus baixos níveis sócio econômicos.

MÉXICO

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O México, por suas proporções, tem forças armadas consideráveis dentro do continente, no entanto teve poucos investimentos no setor: 0,5% do PIB em 2006. As forças armadas têm sido empregadas no combate às drogas principalmente no sentido de extensivo patrulhamento das fronteiras do país. O país, contudo, tem procurado desde os anos 90 uma modernização de seus aparatos militares, incluído o aumento do seu contingente militar por conta da expansão das suas responsabilidades 44 . O país também tem mantido sistemas de cooperação militar com o Canadá, principalmente em questões do combate ao narcotráfico e a participação mexicana em missões de paz da ONU.

NICARÁGUA

A Nicarágua, de acordo com seu último relatório enviado à OEA, como manda a

Convenção Inter-Americana de Transparência na Aquisição de Armas Convencionais, gasta em média 32 milhões de dólares com armamentos.

PANAMÁ

O Presidente da República do Panamá, Ricardo Martinelli, já manifestou seu apoio

contra o armamentismo na América Latina. O problema do sistema, entretanto, é que tal

Estado apresenta imensos problemas com relação ao tráfico de drogas, o qual, conseqüentemente, é um dos maiores financiadores do tráfico de armas convencionais.

PARAGUAI

O atual Presidente do Paraguai, Fernando Lugo, declarou que condena todos os países

que atualmente estão envolvidos numa corrida armamentista e já demonstrou as intenções pacíficas de suas políticas de governo, ratificando o desejo do país de manter unidade e integração com a América Latina.

PERU

44 Informações

sobre

o

histórico

militar

mexicano:

31

Os principais problemas de segurança do Peru são o narcotráfico e o crime organizado. Assim sendo, e para melhor combater esses problemas, o Estado tem investido e modernizado sua força militar. Em maio de 2011, noticiou-se, por exemplo, um acordo entre o governo peruano e a Rússia para a compra de helicópteros Mi-171 e Mi-35, sendo oito ao todo 45 . Externamente, ainda que se observem determinados atritos pontuais ao longo da história entre o Peru e alguns outros países 46 , aparentemente o país mantém uma postura pacífica e cooperativa. Não obstante, o Estado adquiriu uma quantia não divulgada de tanques de guerra chineses, bem como aviões tucanos brasileiros que poderiam caracterizar uma tentativa de gerar força dissuasiva, afinal muitos dos países vizinhos têm poder bélico superior ao peruano. No ano de 2010, o Peru ficou entre os Estados que mais gastaram com armamento no continente americano, ao lado de Brasil, Chile e Colômbia 47 . Ressalta-se por fim que o presidente peruano, Alan García, tem se preocupado com a questão e tem discutido com Equador, Chile e Bolívia a redução mútua dos gastos militares.

URUGUAI

O Presidente do Peru, Alan García, pediu ao Presidente uruguaio, José Mujica, que levante a bandeira do desarmamento regional. Em resposta, Mujica aceitou a proposta dizendo que melhor seria deixar de gastar tanta “prata” em armas quando se deve investir esses recursos em propostas sociais. O Uruguai gasta, atualmente, quase 2% do seu PIB com defesa e armamentos.

VENEZUELA

A República Bolivariana da Venezuela chegou a gastar em 1990 e 1998 respectivamente, 2,7 e 2,5% do PIB com armamento; porém, nos últimos cinco anos, esse índice não passou de 2,0%. Não obstante, o presidente Hugo Chávez, no final de 2009, solicitou ao exército de seu país para se preparar para a guerra contra a Colômbia. O temor de Chávez residia na proximidade entre o vizinho e os Estados Unidos, e na ocasião o presidente

45 Ver: <http://portuguese.ruvr.ru/2011/05/03/49780270.html> (acesso em 19/05/2011). 46 A saber: Argentina, Chile e Venezuela. 47 Ver: <http://correiodobrasil.com.br/dispara-o-gasto-militar-na-america-latina/230042/> (acesso em

32

venezuelano chegou a declarar: “Não faça um erro, Sr. Obama, ao ordenar um ataque contra a Venezuela através da Colômbia” 48 . Já em 2010, Chávez cortou relações diplomáticas com a Colômbia depois de ter sido acusado de dar asilo a guerrilheiros das FARC em território venezuelano. As relações só foram restabelecidas quando o mandato de Álvaro Uribe terminou e Juan Manoel Santos, com quem Chávez aparentemente mantém uma boa relação de amizade, subiu ao poder. Ainda assim, a Venezuela não está nada satisfeita com a cooperação entre Colômbia e Estados Unidos. O sentimento de constante ameaça que a situação gera no governo venezuelano tem justificado seus gastos armamentistas e os discursos radicais de Chávez que sugere um inimigo externo comum para a população fazendo com que esta se foque nos problemas externos em detrimentos dos internos.

12. TÓPICOS DE DISCUSSÃO

Certos países já realizaram acordos bilaterais e políticas próprias para diminuir seus gastos com defesa, porém, de que forma os países membros da OEA podem diminuir mutuamente seus gastos com suas forças armadas?

Como os países poderiam evitar uma possível corrida armamentista no continente e obter uma maior transparência em gastos com armamentos sem que isto fira a soberania nacional?

Diversos países do continente sofrem com problemas sociais e econômicos. De que forma é possível reverter os gastos com defesa para sanar tais problemas? E de que forma os países desenvolvidos também podem reverter estes gastos em investimentos ao países em desenvolvimento?

33

12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Apoya Panamá propuesta de Perú contra el armamentismo. Disponível em:

<http://ntrzacatecas.com/noticias/mundo/2009/11/26/apoya-panama-propuesta-de-peru-

contra-el-armamentismo/>. Acesso em 15/05/2011. Argentina no compra armamento desde hace 15 años. Disponível em:

<http://www.perfil.com/contenidos/2009/09/07/noticia_0029.html>. Acesso em 15/05/2011.

AYEBER, L. F. Estados Unidos da América: a construção da hegemonia. Editora UNESP, São Paulo, 2002.

34

Bolivia to receive combat aircraft from China. Disponível em: <http://www.china-defense- mashup.com/bolivia-to-receive-combat-aircraft-from-china.html>. Acesso em 02/05/ 2011. Chávez avalia relações com Colômbia por bases americanas. Disponível em:

<http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,chavez-avalia-relacoes-com-colombia-por-

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