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Caros Colegas Professores

Todos à manifestação nacional no dia 15 de Novembro contra o modelo de


avaliação atomista, complicado e burocrático, imposto pelo Ministério aos
professores.
Por uma avaliação simples, holista e produtiva, que não confunda o acto de
avaliar com o de formar!
Este modelo de avaliação, imposto pelo Ministério, é perverso e contraprodutivo. O
legislador, desconhecendo a realidade e a prática do ensino, assim como o contexto em
que se desenrola, decretou medidas que aparentemente são muito justas e racionais mas
que, por efeito de composição, levadas a cabo por um conjunto enorme de pessoas,
produzem efeitos contrários ao esperado e, por isso, se revelam absurdas quando postas
em prática.
Jean-Pierre Dupuy, o maior filósofo francês vivo, inspirado nos trabalhos de Ivan
Illich, demonstrou que a contraprodutividade do trabalho resulta, na maior parte das
vezes, desta mentalidade tecnocrática, utilitarista e consequencialista, que procura
sempre e sempre mais meios para atingir os fins. De tanta preocupação com os meios, o
trabalho perde-se nas “técnicas” e nos “instrumentos”, nos “recursos”, na “preparação”
e nas “estratégias” e, quanto ao fim propriamente dito, esse fica esquecido ou não é
atingido por causa do desperdício de tempo nos meios. Vou dar um exemplo simples
dos transportes. Imaginem que toda a população de um determinado território se
convence, por efeito mimético, que o automóvel é o meio mais racional, muito mais
rápido e confortável para fazer as suas deslocações do que os transportes públicos.
Todos, fazendo o mesmo e às mesmas horas, entopem as ruas e estradas e ninguém
anda: demora-se muito mais tempo do que andar de bicicleta ou até mesmo a pé.
Conclusão: uma decisão aparentemente racional, inteligente e correcta revelou-se
absurda e contraprodutiva, perversa.
O mesmo se passará e já se passa com este modelo de avaliação: ele insiste tanto
nos “meios” para o ensino, nas “estratégias”, nas “preparações” e “planificações”, nos
“recursos” e nas “técnicas” que o fim (o ensino e a aprendizagem) ficará num lugar
muito secundário o que, como tem sucedido, se irá provar nas provas internacionais dos
nossos estudantes. Os professores vão gastar muito mais tempo do horário normal de
trabalho por semana (35 horas) a dizer e a explicar o que vão fazer e, depois, a explicar
o que fizeram e como o fizeram do que a ensinar e a ajudar os alunos a prender. Daí
resultará uma enorme contraprodutividade que os resultados dos exames não conseguirá
disfarçar.
E porque sucede assim? Porque o modelo é extremamente complicado: confunde o
acto de avaliar com o acto de formar. Embora toda a avaliação deva ter implicações na
formação contínua do professor, avaliar e formar devem ser actos distintos, o que não se
verifica. Com este modelo, será legítimo perguntar se o trabalho dos orientadores de
estágio foi em vão já que tudo o que se fez antes está posto em causa! Mais, os próprios
orientadores serão avaliados/formados pelos seus avaliadores, pondo em causa o
trabalho com os seus formandos!!! Há aqui qualquer coisa de muito perverso e absurdo,
para já não falar no facto de um licenciado poder avaliar/formar um doutorado!
A avaliação do professor deve incidir apenas sobre 4 factores gerais: a progressão
dos seus alunos que se mede pela comparação dos resultados médios entre uma
avaliação diagnóstica exaustiva e completa à partida e uma avaliação sumativa aferida à
chegada, podendo professor retirar uma ou outra turma cuja motivação para os estudos é
abaixo de zero, pela pontualidade/assiduidade como funcionário do Estado, pela sua
formação e estudos/publicações no domínio científico e pedagógico, pela participação
na vida cultural da escola. O resto é pura perda de tempo e demagogia. Os professores
sabem como dar aulas, o que sucede é que muitas vezes não têm os meios humanos
(alunos e pais), organizacionais (complicação burocrática e gestão centralizada) e
condições materiais para o poder fazer com qualidade. Quantas salas estão equipadas
com projecção multimédia?!
Temos que dar um empurrão definitivo a este monstro absurdo mascarado de
pedagogia científica!

Zeferino Lopes, Prof. Na Escola Secundária de Penafiel

Assino por baixo, com um pequeno acrescento:

Será que os colegas ficaram acéfalos ?


Será que têm medo ???
O ensino devia dar sede/fome e… NÃO O SENTIMENTO DE VÓMITO QUE
PAIRA NO AR !!!

José Pires ( Made in Vinhais) - Ericeira