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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

JOSÉ ANTONIO DOS PASSOS

UNIÃO CIVIL HOMOAFETIVA

SÃO PAULO
2007
JOSÉ ANTONIO DOS PASSOS UNIÃO CIVIL HOMOAFETIVA 2007

[
JOSÉ ANTONIO DOS PASSOS

UNIÃO CIVIL HOMOAFETIVA

O presente trabalho de conclusão de curso foi


elaborado como requisito parcial para obtenção
do titulo de Bacharel do Curso de Direito da
Universidade Anhembi Morumbi.

ORIENTADOR: CAMYLA CALIXTO AMENDOLA

SÃO PAULO
2007
P321u Passos, José Antonio dos.
União Civil Homoafetiva / José Antonio dos Passos – 2007.

Trabalho de Conclusão de Curso Direito – Universidade Anhembi


Morumbi, São Paulo, 2007.
Bibliografia: f. 52

1. União Civil. 2.Genética . 3. Homossexualidade. 4. Direito de Família.

CDD 340
JOSÉ ANTONIO DOS PASSOS

UNIÃO CIVIL HOMOAFETIVA

O presente trabalho de conclusão de curso foi


elaborado como requisito parcial para obtenção
do titulo de Bacharel do Curso de Direito da
Universidade Anhembi Morumbi.

Aprovado em

PROFESSOR CAMYLA CALIXTO AMENDOLA

PROFESSOR ELISA MARIA DE BARROS PENA

PROFESSOR PEDRO LUIZ NIGRO KURBHI


Dedico este trabalho de conclusão de curso
primeiramente a Deus que me possibilitou freqüentar os
bancos desta Universidade, a minha esposa Cíntia, e
meus filhos pela paciência e compreensão.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, que me capacitou e me deu forças para


concluir este curso, e em segundo lugar, mas não menos importante, a minha
esposa Cintia Garcia, pela paciência e companheirismo nesta jornada.
A todos os professores do curso de Direito, que auxiliaram e aconselharam,
desde o inicio.
A todos os colaboradores desta instituição, e aos meus colegas de curso, que
direta ou indiretamente contribuíram nestes anos de convivência acadêmica.
Obrigado a todos !
“Época riste a nossa, em que é mais difícil quebrar
um preconceito do que um átomo”(Albert Einstein).
RESUMO

A união civil homoafetiva, e a omissão do direito brasileiro em regulamentar esta


situação, são os objetos de estudo desse trabalho. Para alcançar os objetivos
traçados, seguiremos dois planos de estudo. Em primeiro lugar, analisar as teorias
sobre a natureza do comportamento homossexual, sua origem genética, e o seu
registro nas mais diversas culturas, com isto, reforçar que tal comportamento é
inerente a uma parcela da população do mundo. No Brasil corresponde
aproximadamente a 3% da população. Em segundo lugar, estudaremos a origem do
direito brasileiro, e a influência do direito canônico, que enraizou conceitos morais,
que em muitas vezes repudia e condena violentamente o homossexualismo. Tal
comportamento contraria garantias constitucionais, tais como, liberdade e dignidade
da pessoa humana. Conclui-se deste estudo, que a homossexualidade não é uma
escolha, e sim uma determinação biológica, de origem genética, e, portanto, um
direito natural, que deve ter aparo legal e proteção do Estado.
ABSTRACT

The “same-sex civil unions” and the present omission of the brazilian laws in
establishing norms for the same-sex couples rights, situation are the objects of study
of this research.
To reach the objective tracings, we will follow two plans of study:
1st - to analyze the current theories about the nature of the homosexual behavior.
The most recent theori say that the homosexual behavior has genetic origin, and its
register in the most diverse cultures, with this, to strengthen that such behavior is
inherent to a parcel of the population of the world.
In Brazil, it approximately corresponds around 3% of the entire population.
2nd - to study the origin of the brazilian right, and the influence of the canon law, that
takes root moral concepts, that, in many times, it repudiates and it condemns the
homosexualism violently.
Such behavior opposes constitutional guarantees, such as, freedom and dignity of
the person human being. It is concluded of this study that the homosexuality is not a
choice, but a biological determination, of genetic origin, and, therefore, a natural law,
that must have legal support and protection of the State.
Sumário

1 Introdução............................................................................................................................ 12
2 Objetivos .............................................................................................................................. 13
2.1 Justificativa....................................................................................................................... 13
2.3 Método .............................................................................................................................. 15
3 Origens Biológicas ............................................................................................................. 16
3.2 A questão genética ......................................................................................................... 17
3.3 Gene homossexual?....................................................................................................... 17
3.4 Homossexualidade na natureza ................................................................................... 18
3.5 Critérios objetivos definem o homossexualismo........................................................ 19
3.6 Falta de opção?............................................................................................................... 20
3.7 A Explicação Psicológica ............................................................................................... 22
3.8 Lesbianismo e homossexualismo masculino ............................................................. 23
4 Análise dos Resultados ..................................................................................................... 24
4.1 Quanto às origens ........................................................................................................... 24
4.2 A Perspectiva Genética.................................................................................................. 24
4.3 Influências do ambiente cultural e familiar.................................................................. 24
4.4 Lesbianismo ..................................................................................................................... 25
4.5 A perspectiva psicanalítica: Sigmund Freud............................................................... 25
4.6 A perspectiva histórica: homossexualismo através dos tempos ............................. 26
4.7 A perspectiva jurídica ..................................................................................................... 28
4.8 O casamento .................................................................................................................... 28
4.9 Evolução histórica ........................................................................................................... 29
4.10 Definição de homossexualismo .................................................................................. 31
5 União Civil Homoafetiva (Projeto de lei 1.151/95) ....................................................... 33
5.1 Tramitação na Câmara dos Deputados....................................................................... 36
5.2 Quais os direitos protegidos.......................................................................................... 36
5.3 Análise comparativa entre o projeto e o substitutivo................................................. 37
5.4 Análise crítica do projeto................................................................................................ 38
6 Direito Estrangeiro.............................................................................................................. 40
7 Conclusão e Discussão ..................................................................................................... 42
7.1 Conclusão sobre Aspectos Jurídicos do Projeto de Lei ........................................... 42
7.2 Análise Crítica sobre os Depoimentos dos Advogados Entrevistados................... 42
7.2.1 Transcrição da primeira entrevista............................................................................ 42
7.2.2 Transcrição da segunda entrevista........................................................................... 45
7.2.3 Análise dos resultados das entrevistas.................................................................... 50
8 Considerações Finais ........................................................................................................ 51
9 Referencias Bibliográficas................................................................................................. 53
12

1 Introdução

Conforme pesquisas recentes, aproximadamente 3% da população brasileira


e 11% da população mundial é homossexual. No Brasil, são aproximadamente cinco
milhões de pessoas que vivem os conflitos diários de pertencer a uma categoria cuja
orientação sexual é alvo de diferentes tipos de discriminação e violências.
Na Constituição Federal de 1988 não aparece uma única vez a palavra
“homossexual”, o mesmo ocorrendo com o Código Civil Brasileiro em vigor.
O Direito brasileiro é omisso com relação a essa questão e, na sua
indiferença, submete os homossexuais ao constrangimento de viverem como
cidadãos de segunda classe, tendo seus direitos, na maioria das vezes, negados em
franca oposição aos direitos fundamentais explícitos na Carta Magna.
Como promover o bem de todos, sem preconceitos de sexo, ou qualquer
outra forma de discriminação, é objetivo fundamental do Estado, não podemos
admitir que o ser humano seja prejudicado por sua opção sexual.
Liberdade e dignidade são princípios garantidos a todos os cidadãos
brasileiros independente do seu sexo, e a homossexualidade, conforme poderemos
verificar, não é uma escolha e sim um fenômeno natural inerente aos seres
humanos, portanto, deverá ser regulamentada juridicamente, tanto pela Constituição
Federal, e legislação ordinária.
Só assim, todos sem distinção poderão exercer plenamente seus direito. Pois
o que se deve levar em consideração não é o gênero(masculino, feminino), mas a
espécie(ser humano).
13

2 Objetivos

Este trabalho seguirá dois planos de estudos. Por um lado pretende analisar
as teorias sobre a natureza do comportamento homossexual , sua origem e
evolução ao longo da história. Em paralelo visa estudar as origens do Direito
brasileiro e, em especial as origens do “Direito de família” e o porquê desse instituto
ser tão preconceituoso e, às vezes, “homofóbico”.

2.1 Justificativa

Estudiosos geneticistas afirmam que a homossexualidade pode ter uma


determinação genética. A Psicoterapia e a Psicologia moderna refutam a teoria do
desvio patológico, aceito durante muito tempo por grandes arautos das teorias da
Psicologia, entre eles, Freud e Lacan. Na maioria dos países civilizados, o
comportamento homossexual não é mais considerado nem desvio, nem patologia e,
menos ainda, uma opção voluntária da pessoa. É compreendido como um
comportamento natural, determinado pela combinação entre a pré-disposição
genética e as influências favoráveis do ambiente sócio-cultural.
Posto isso, ocorre perguntar: como o Direito deve tratar o cidadão
homossexual, já que a Constituição Federal de 1988 afirma no artigo 5º, que todos
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza?
Entretanto, o ordenamento jurídico brasileiro, em especial em seu capítulo
sobre o Direito de família, parece ter forte influência do Direito canônico em que o
homossexualismo é violentamente condenado, pois atenta contra a ética da Igreja.
Como resolver essa questão?
O comportamento homossexual é uma realidade na sociedade moderna e,
em muitos países, o Direito respeita e reconhece essa opção, não negando a
proteção dos direitos fundamentais ao indivíduo homossexual. O cidadão
homossexual é titular dos direitos como o são os indivíduos heterossexuais. Essa
14

garantia deve ser positivada para que esses indivíduos tenham a proteção da lei e o
reconhecimento e tolerância da comunidade.
Esse trabalho busca explicar os motivos pelos quais esse reconhecimento
parece impossível, hoje, no Brasil, e quais os caminhos para que ele se torne
possível em breve.

2.2 O Problema

O presente trabalho busca responder por que o ordenamento jurídico


brasileiro é omisso em relação à questão homossexual e quais os mecanismos que
impedem o legislador de reconhecer e disciplinar essa matéria.
Serão exploradas as seguintes hipóteses:

1) O comportamento homossexual é um desvio de comportamento que


causa reação negativa entre as comunidades heterossexuais – que são a
maioria absoluta de cidadãos atendidos pelo Direito. A Carta Magna, que
representa os desejos e anseios da maioria, não regulamenta a matéria,
pois isso causaria perplexidade e desconforto entre os cidadãos.

2) O comportamento homossexual tem sua origem na genética, não sendo


uma opção do cidadão e sim uma orientação orgânica. Dessa forma, a
orientação sexual é um “direito natural” que deve ser previsto,
regulamentado e protegido pelo ordenamento jurídico como um todo.
Como o Direito brasileiro é uma derivação do Direito germânico/romano, e
está impregnado por conceitos morais oriundos do Direito canônico, é
necessário que sejam feitas emendas na Constituição e que se elaborem
leis ordinárias que garantam direitos previdenciários, patrimoniais e
processuais ao cidadão homossexual.
15

2.3 Método

Inicialmente será feito um estudo sobre as teorias que tentam explicar as


origens do comportamento homossexual. As pesquisas irão se concentrar nas
“teorias orgânicas” da origem da orientação sexual, já que estas têm efetivamente
uma implicação direta no ordenamento jurídico. Sendo o comportamento sexual
considerado um desígnio da natureza e não uma “escolha” do indivíduo, cabe ao
ordenamento jurídico a proteção deste “direito natural”.
Em paralelo serão pesquisadas as origens do Direito de família, na tentativa
de individualizar os motivos pelos quais o ordenamento jurídico não toma
conhecimento desta questão. Para tanto, serão estudados os escritos de autores
como Fustel de Coulanges, Rodrigo da Cunha Pereira, Desmond Morris e outros
antropólogos e estudiosos da história do Direito.
Para que se tenha uma dimensão prática desses estudos, e para que se
direcione essa reflexão para os aspectos sociais do problema, serão realizadas
entrevistas pautadas com advogados envolvidos diretamente com a questão.
16

3 Origens Biológicas

3.1 Pesquisando as Origens Biológicas

Na opinião de alguns biólogos, o sexo só atrapalha. Os animais que se valem


dele para procriar gastam uma parcela enorme de seu tempo à procura de sua cara-
metade, em vez de se dedicar a atividades mais úteis. E ainda correm o perigo de
serem devorados por um predador. Bem mais espertos seriam, por esse raciocínio,
os seres assexuados, como as bactérias e alguns seres do mar, que se reproduzem
por clonagem. Um pedaço da esponja-mãe, por exemplo, se separa e vira uma
esponja filha, e assim por diante.
A maioria dos cientistas, no entanto, vê o sexo como uma ferramenta
essencial para a sobrevivência das espécies. Ele garante que cada indivíduo é ao
menos levemente diferente dos seus pais, irmãos e primos, pois cada encontro
sexual gera uma combinação genética única.
A diferença conta, sobretudo, quando algo ameaça a comunidade inteira.
Uma praga, por exemplo. Os assexuados, todos muito semelhantes, são dizimados,
pois seus genes estão despreparados para resistir ao ataque. Entre os seres
gerados pelo sexo, é mais provável que alguns indivíduos sobrevivam e tenham
descendentes, graças à diversidade genética.
Denis Russo Burgierman, em matéria publicada na revista “Super
Interessante”1, comenta que 95% dos seres vivos se reproduzem sexualmente, ou
seja, pela fusão entre um óvulo e um espermatozóide, e que os 5% restantes são
espécies muito primitivas. Conclui argumentando que sem sexo, não existiriam
baleias, borboletas, orquídeas e nem nós mesmos.
No caso dos seres humanos, o sexo apresenta ainda algumas vantagens
extras. Só o Homo sapiens – além de uma espécie de macacos, os bonobos – é
capaz de fazer sexo em qualquer dia do ano, enquanto os demais mamíferos se
acasalam apenas nas épocas de cio. Só ele mantém relações sexuais por puro
prazer. O sexo para o “bicho homem” tornou-se um fim em si mesmo, sem uma

1Revista Super Interessante número 13, agosto de 1999.


17

ligação obrigatória com a geração de filhos. Isso acontece porque o bem-estar que
resulta do encontro sexual entre homem e mulher – o orgasmo – é uma experiência
incrivelmente agradável.

3.2 A questão genética

Todo nascimento desperta as mesmas perguntas: “a quem a criança se


assemelha?”, “parece mais com o pai ou com a mãe?” etc. Mal o pequeno abre os
olhos, e todos já querem saber quais características foram herdadas de cada lado da
família. Se os olhos têm a cor azul como os da avó, se o nariz é o da mãe ou se será
calvo como o pai, quando crescer.
A esse respeito, Moreira Filho considera que o que vamos passar para a
próxima geração depende dos genes contidos em alguns de nossos gametas, ao
sabor do acaso. Segundo suas pesquisas, o que torna cada ser humano um
indivíduo único é a troca de material genético entre o espermatozóide do pai e o
óvulo da mãe, e ainda, que não existem espermatozóides ou óvulos iguais.
A célula-ovo tem, no núcleo de cada uma de suas células, 23 pares de
cromossomos. Lá estão guardados os genes responsáveis pela transmissão de
características de uma geração à outra. Cromossomos e genes são feitos de ácido
desoxirribonucléicos, o DNA, uma dupla hélice enrolada de quatro substâncias –
adenina, timina, citosina e guanina – capazes de infinitas combinações. Ali está o
script para a formação e o desenvolvimento do recém-nascido, o mesmo bebê que
crescerá e, um dia, tentará reconhecer seus traços nos filhos.

3.3 Gene homossexual?

Antropólogos registram a presença de homossexuais em praticamente todas


as culturas. Na Grécia antiga, as relações sexuais entre homens eram comuns e
aceitas pela sociedade. Como os genes existentes nos povos antigos e em tribos
18

primitivas são basicamente os mesmos da sociedade moderna, pode-se supor que a


homossexualidade tenha uma determinação genética.
Denis Russo Burgierman2, afirma que uma pista surgiu em 1993, quando o
geneticista norte-americano Dean Hamer localizou uma região do cromossomo X,
chamada lócus Xq28, onde moraria um gene relacionado com a orientação sexual. A
presença desse gene tornaria o portador propenso a sentir atração sexual por
indivíduos do mesmo sexo.

3.4 Homossexualidade na natureza

O biólogo americano Bruce Bagemihl apresentou recentemente em seu livro


Biological Exuberance – Animal Homosexuality and Natural Diversity provas mais do
que convincentes, irrefutáveis, de que o velho modelo macho com fêmea para criar
filhotes é apenas uma pequena parte da história.
Bagemihl (2002) analisou 450 espécies, principalmente entre mamíferos e
aves, todas praticantes, em maior ou menor grau, de hábitos homossexuais. De
saída, ele rechaça a insinuação de que seu trabalho pretende justificar o
homossexualismo em humanos mostrando que é natural entre os animais.
Argumenta que os animais fazem muitas coisas que os humanos não acham
aceitáveis, como canibalismo e incesto. Os humanos, por sua vez, também fazem
várias coisas que eles não fazem como usar roupas e cozinhar os alimentos.
O mérito inegável do autor é ter feito a primeira pesquisa completa sobre um
assunto tão fundamental e controverso. A conclusão surpreendeu os biólogos que
ainda acreditam que só se faz sexo para produzir filhotes. Com Bagemihl, surgiu
uma idéia nova na Biologia – a de que, apesar de não gerar descendentes, o
homossexualismo faz parte do dia-a-dia de um grande número de espécies.

2 Revista Super Interessante número 13, agosto de 1999.


19

3.5 Critérios objetivos definem o homossexualismo

Para fazer uma discussão científica séria, e afastar a carga de preconceito


que vem à tona quando se toca no assunto, Bagemihl(2002) foi cuidadoso, definindo
conceitos de modo claro e objetivo. Sua proposta contempla cinco variedades de
comportamento que ele classifica como homossexual.
A primeira é o cortejo. Inclui todas as formas que os animais empregam para
se exibir e conquistar parceiros. Apresenta como exemplo o caso da lira, uma ave
australiana que age como o pavão: o macho seduz a fêmea abrindo sua grande
cauda. Mas, conforme acrescenta o autor, não é só a fêmea que é atraída.
Freqüentemente, observa-se um macho exibindo a cauda para outro. E, vez ou outro
um dos dois termina montando sobre o companheiro.
A segunda categoria é a que o autor chama de afeição. Inclui beijos,
esfregões e carinhos parecidos. São demonstrações de afeto realizadas sempre
antes ou depois de uma relação sexual, ou de contatos que, ao menos, deixam os
animais excitados.
O biólogo foi rigoroso ao excluir formas de carinho que parecem
manifestações de sexualidade, mas não são. Entre os macacos, por exemplo, sabe-
se que existe o ritual da catação de piolhos e que essa ação não tem carga erótica;
servem para manter a coesão social do bando.
Em terceiro vem à formação de casais, talvez a categoria mais surpreendente
de todas. Segundo essa pesquisa, mais de setenta espécies de aves realizam
casamentos duradouros de indivíduos do mesmo sexo. Essas uniões também são
adotadas por trinta mamíferos. Leões e elefantes machos, por exemplo, formam
laços mais duradouros do que pares heterossexuais.
Em quarto lugar vem a criação de filhotes. O biólogo constatou que nem
sempre essa atividade envolve a dupla pai e mãe. Existe uma espécie de pássaro
na América Central chamado Wilsonia citrina, vulgarmente conhecido como pássaro
cantor. Entre essa espécie, alguns machos atraem outros machos, por meio do
canto, no início do período reprodutivo, e depois eles se juntam. Constroem, então, o
ninho e cuidam dos ovos e das crias abandonados por outros indivíduos. É a mesma
situação de algumas espécies de ursos em que duas fêmeas se juntam para criar os
filhotes.
20

Por último, Bagemihl (2002) lista o contato sexual propriamente dito. Para ele,
sexo é todo o momento em que há estimulação dos órgãos genitais, e, no seu
estudo, constam observações feitas com uma espécie de macacas japonesas
(Macaca fuscata) que formam pares de fêmeas que montam uma na outra.
Com isso, o autor acredita ter deixado claro que o termo “homossexualismo”,
aplicado aos animais, não significa o mesmo que o aplicado para pessoas. Afirma
que o uso da palavra homossexual faz muita gente associar a idéia a imagens de
gays e lésbicas, e que é necessário que se aprenda a separar as coisas.
Douglas Futuyama, da Univesridade do Estado de Nova York, outro estudioso
do comportamento animal, concorda dizendo que não se pode estabelecer conexões
entre animais e seres humanos, nem afirmar que os motivos sejam os mesmos.
Mas, constata que em todas as categorias de animais pode ocorrer o
comportamento homossexual.
A existência desses hábitos entre os animais já era conhecida, mas nunca
ninguém os havia reunido em uma pesquisa.
Ainda mais relevante, Bagemihl(2002), forneceu a primeira demonstração de
que a atração homossexual é muito freqüente.

3.6 Falta de opção?

Continua Denis Russo Burgierman3, em seu artigo, perguntando: “Para que


serve o sexo? Os livros de biologia sempre tiveram uma resposta curta e simples
para essa pergunta: gerar descendentes. Então, continua o autor, como explicar as
ligações entre fêmeas e fêmeas ou entre machos e machos que, evidentemente,
não levam à procriação? Diversas idéias foram sugeridas, mas, os estudos de
Bagemihl(2002) desmontaram uma por uma.
Há quem sustente que bichos do mesmo sexo só se envolvem quando não
têm outra opção. Por exemplo, quando em uma região há muito mais machos do
que fêmeas, ou vice-versa. É o que defende o escritor e biólogo americano John

3 Revista Super Interessante número 13, agosto de 1999.


21

Alcock, da Universidade do Estado do Arizona, especialista em comportamento


animal: “O macho dirige impulsos sexuais não satisfeitos para alvos inadequados” 4.
Bagemihl (2002) admite que isso ocorre com freqüência, mas prova que não é
sempre assim.
Ele mostra que, em comunidades de girafas de maioria masculina, as fêmeas
disponíveis podem ser ignoradas pelos machos. Na verdade, alguns se recusam a
copular com elas e preferem a companhia de um igual.
O mesmo acontece entre fêmeas de outras espécies. Casais de macacas
japonesas atacam os machos que se aproximam durante suas relações
homossexuais. Ou seja, pelo menos alguns indivíduos preferem companhias do
mesmo sexo.
Outros cientistas justificam o homossexualismo atribuindo-o ao confinamento.
Animais enjaulados seriam levados a essa prática para aliviar o estresse ou porque
sofrem de distúrbios psicológicos. Essa teoria era reforçada pelo fato de que, em
muitas espécies, até há pouco tempo atrás, só se documentava atividades desse
tipo nos zoológicos. Leões, gorilas, elefantes, muitos golfinhos e aves eram tidos
como homossexuais apenas em cativeiro. Nas últimas décadas, porém, pesquisas
na natureza mostraram que a homossexualidade fora da jaula só não tinha sido
registrada antes porque não procuraram direito.
Outra teoria que Bagemihl (2002) derruba é aquela que atribui ingenuidade
aos animais. Vários estudos afirmam que, em muitas espécies, machos e fêmeas
são tão parecidos que eles próprios se confundem. Dessa maneira se justificaria o
comportamento do antílope macho adulto, que corteja companheiros mais jovens
mostrando-lhes o pescoço e depois monta neles. Para alguns biólogos, a causa do
engano seria a cor marrom dos jovens, idêntica à das fêmeas. Acontece que elas
não têm chifres e eles sim, o que torna essa explicação muito discutível.

4 Super Interessante número 13, 1999, pág. 30,31.


22

3.7 A Explicação Psicológica

O termo homossexualismo não tem o mesmo sentido para a criança e para o


adulto. De fato, como diria Freud, "é somente após a puberdade que o
comportamento sexual assume uma forma definitiva". Entretanto, é suficiente
interrogar aos homossexuais adultos quanto à sua infância para verificarmos a
precocidade de seu comportamento. Atualmente, essa opção sexual não é
considerada doença ou transtorno, a menos que cause sofrimento ao indivíduo.
Homossexualismo poderia ser definido como uma forma de comportamento no qual
há rituais ou práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo.
A origem da palavra lésbica relaciona-se à poetisa grega Safo, que vivia na
Ilha de Lesbos com outras mulheres, século VI a.C.
Poeticamente, Oscar Wilde5, definiu essa prática sexual como “O nome do
amor que não ousa dizer o seu nome”. No livro “Homoeróticos” pode-se observar
uma perspectiva religiosa, quando afirma serem os homossexuais os
anticoncepcionais de Deus6.
O que difere um homossexual de um transexual ou travesti não é a escolha
do objeto sexual e sim a forma como tais pessoas lidam com a sua identidade
sexual. Os transtornos da identidade sexual são caracterizados pela incongruência
entre o sexo consignado, ou seja, aquele que consta na certidão de nascimento do
indivíduo, e a “identidade de gênero", que é a consciência que cada um tem do sexo
ao qual pertence.
O relatório de Kinsey é o mais confiável quando se buscam dados sobre o
assunto. Segundo ele, 5% da população adulta é homossexual durante toda a vida.
Uma parte menor experimenta relações heterossexuais, todavia abandona tal
comportamento, assumindo sua homossexualidade.
Não obstante, mais de 20% dos homens e 30% das mulheres homossexuais
se casam, constituindo uma união heterossexual instável. Além disso, não se pode
esquecer a existência do homossexual situacional, que pode ocorrer entre pessoas
confinadas por longos períodos com membros do mesmo sexo, como em navios e
prisões, sendo o comportamento abandonado com a mudança do ambiente.

5 Célebre escritor irlandês do século XIX, condenado à pena de dois anos de trabalhos forçados por ser homossexual.
6 Vitiello, 2000, www.sosdoutor.com.br
23

3.8 Lesbianismo e homossexualismo masculino

O ato sexual, tanto para lésbicas como para os homens homossexuais, se


constitui em manifestações de carinho, afeto, beijos e estimulações variáveis,
levando geralmente ao clímax.
Este pode ser atingindo pela masturbação concomitante, felação, relação
anal, entre os homens ou cunilíngües, entre as mulheres. É difícil determinar num
casal, em que haja um ativo e outro passivo, quais elementos podem levar ao
clímax, pois cada um participa de forma diferente nesse processo. Quase 30% dos
homossexuais masculinos são capazes de manter relações duradouras
caracterizadas pelo afeto, amizade e fidelidade. Contudo, prevalece a prática de
contatos esporádicos com estranhos sendo que 30% de homossexuais idosos
relatam terem tido mais de mil parceiros durante a vida, um número a decrescer
devido à AIDS.
Já a lésbica é capaz de manter uma relação mais estável sendo o contato
múltiplo menos freqüente se comparada ao homossexual masculino. Além disso,
transtornos emocionais ou psiquiátricos são mais raros entre as lésbicas7.

7 Vitiello, 2000, www.sosdoutor.com.br


24

4 Análise dos Resultados

4.1Quanto às origens

Existem várias esferas do conhecimento pesquisando as origens do


homossexualismo, contudo, sua essência ainda é desconhecida.

4.2 A Perspectiva Genética

A teoria mais provável, como já foi examinado anteriormente, relaciona-


se à região Xq28 do cromossomo X, o qual contém um gene que influencia a
orientação sexual do homem. Tal gene atuaria na síntese e metabolismo dos
androgênios, influenciando, assim, nos receptores dos neurônios da área pré-óptica
8
que determinaria o comportamento sexual. Esse gene estimularia a sobrevivência
destes neurônios em fetos masculinos que viriam a ser heterossexuais e, levaria à
sua atrofia e morte em fetos femininos e em fetos masculinos que viriam a ser
homossexuais. Os genes atuariam criando a predisposição em vez de da
determinação9.

4.3 Influências do ambiente cultural e familiar

Segundo estudo feito por Bender e descritos por Vitiello no site


www.sosdoutor.com.br, com crianças de 4 a 12 anos que apresentavam conflitos de
identidade, os distúrbios do desenvolvimento psicossexual estão ligados às
dificuldades importantes das primeiras relações entre pais e filhos, e a expressão

8 3 NIHA - Terceiro Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior


.
9 Revista Super Interessante, número 13, agosto de 1999.
25

sexual vai da homossexualidade latente até a adoção do comportamento do sexo


oposto.
Segundo seu estudo, este autor distingue três grupos: no primeiro estão os
casos em que a identificação se faz com uma imagem parental dominante e
homossexual, sendo a outra imagem inadequada (resultará em uma estrutura
neurótica); o segundo grupo compreende os casos de identificação com o progenitor
do sexo oposto, quando o progenitor do sexo é odiado ou temido, ou então, ineficaz
ou ausente; no terceiro grupo figuram os casos dos indivíduos privados dos pais
durante sua primeira infância e que se identificam tardiamente com um substituto
parental do sexo oposto.
Para Bender, os distúrbios profundos de identificação, que existem em alguns
casos, não parecem provir apenas das relações com um modelo de identificação e
das anomalias do ambiente, mas também de um processo interno desorganizado,
provavelmente de origem constitucional hereditária, com situações particulares do
ambiente.

4.4 Lesbianismo

Segundo, H. Deutsch, este pode ter suas particularidades: a menina, na idade


pré-puberal, pode se sentir atraída por outra menina, que é uma forma de duplo do
seu Ego. Trata-se de uma escolha amorosa narcisista, isto é, o amor experimentado
por um ser com o qual se identifica e graças a quem o amor a si mesma pode se
satisfazer.

4.5 A perspectiva psicanalítica: Sigmund Freud

Para Freud, segundo artigo do Dr. Vitiello10 ,nossa sexualidade se desenvolve


em três fases: oral, anal e fálica. Na primeira infância, a busca pelo prazer ocorre no

10 www.sosdoutor.com.br, 2000.
26

ato de mamar (fase oral). Aos três anos, o controle do esfíncter anal é a fonte de
prazer (fase anal). Dos quatro aos seis anos o prazer vem do toque no pênis ou
clitóris (fase fálica).
Durante a fase fálica a criança dirige sua busca pelo prazer para o
relacionamento com genitor do sexo oposto. Este desejo incestuoso é considerado
tabu em nossa sociedade, contudo, admitido em outras culturas. Freud admite a
homossexualidade associada ao complexo de Édipo (desejos incestuosos pela mãe,
acompanhados de culpa e temores, como o da castração; seguidores do pai da
psicanálise chamaram de complexo de Electra o desejo de filha pelo pai). Alguns
meninos tenderiam a negar seu interesse pelo sexo oposto como forma genética de
negar a atração pela mãe, devido ao medo de serem castrados pelo pai ciumento.
Nas mulheres, o lesbianismo nasceria do temor ao pênis, que as meninas
invejariam nos meninos como uma arma e instrumento de poder.
Além disso, o lesbianismo seria uma forma inconsciente de identificação com
pai. A lésbica, ao ter relações sexuais com outra mulher, estaria vivendo uma
fantasia inconsciente na qual ela vive o papel do pai enquanto a parceira vive a
identidade da mãe. Freud ainda associava a homossexualidade ao narcisismo e
ambas as formas de homossexualismo seriam maneiras diferentes do indivíduo
amar a si mesmo.

4.6 A perspectiva histórica: homossexualismo através dos tempos

Segundo relatório do Instituto Interdisciplinar de Direitos de Família – IDEF,


entre os gregos e romanos era comum que os homens, mesmo tendo suas
mulheres, mantivessem rituais homossexuais como símbolo de poder. Em Atenas,
era perfeitamente normal que um jovem fosse possuído sexualmente por um adulto,
porque seu papel na sociedade era de passividade.
Todavia, em Roma, as regras de dominação eram violentas e os parceiros
eram escolhidos entre escravos, prostitutas e prisioneiros de guerra. Os terríveis
exércitos de Tebas e Esparta possuíam unidades formadas por pares de amantes
homossexuais. Essas tropas, capazes de bravuras suicidas, eram estimuladas pelas
idéias como as de Platão, que achava que um homossexual nunca abandonaria seu
27

amante em combate e procuraria honrá-lo com feitos heróicos. Platão, assim como
Sócrates e tantos outros contemporâneos, aconselhava que todo adolescente
tivesse por preceptor um amante mais velho.
No Egito e Mesopotâmia ocorriam formas institucionalizadas e sagradas de
prostituição homossexual. Já para os judeus, a homossexualidade era vista como
um risco de subversão porque apareceria como elemento ritual em religiões
estrangeiras, incompatíveis com o monoteísmo. Além disso, pela necessidade de
expansão da população, o homossexualismo era visto como um desperdício da
atividade procriadora ("Os homossexuais são os anticoncepcionais de Deus"). Na
Bíblia, temos citações proibindo o homossexualismo masculino11, todavia, não há
referência ao lesbianismo.
No Japão, esteve em moda em vários períodos (séc. XI ao XIX) e na China
Imperial (séc. XI).
Chegou a ser institucionalizado entre os Maias no século XV. Em seitas
protestantes as posições divergem. Para os metodistas e presbiterianos atos
homossexuais são incompatíveis com o ensinamento cristão. Já na igreja episcopal
há tanta tolerância que, em 1977, uma lésbica foi ordenada nos Estados Unidos.
Formas institucionalizadas de homossexualismo têm existido entre índios da
América do Norte, tribos africanas, da Oceania e da Sibéria. A palavra lésbica
ganhou nova conotação no século XX, sendo usada para difamar a imagem das
mulheres inglesas que lutavam pelo direito de voto com o slogan "sem voto, sem
sexo". Já no século XIX, as instituições inglesas executavam em praça pública
indivíduos com características homossexuais.
Atualmente, a prática homossexual recebe crescente aderência e aceitação;
um exemplo são os desfiles gays em Nova Iorque que chegam a aglomerar mais de
um milhão de pessoas.
Em São Paulo, no ano de 2001, havia aproximadamente 35.000 ativistas, que
cobraram do Congresso a aprovação da união civil entre os homossexuais. Tal
projeto já existe a mais de dez anos na pauta de votação. Já existem países em que
esse tipo de união é reconhecida, tais como: Holanda, Bélgica, Islândia, Noruega,
Suécia, Dinamarca e até na Itália, os governos de Pisa e Florença aprovaram tal

11 Levítico 18: 22; Levítico 20: 13.


28

reivindicação, e mais recentemente, em 2007, o Estado de Nova Jersey nos Estados


Unidos aprovou a união civil homossexual.

4.7 A perspectiva jurídica

Como o ordenamento jurídico trata a questão da homossexualidade? Para se


entender isso convém que se faça um panorama geral do problema. O Direito, ao
longo da história, sempre esteve, e ainda está, em constante evolução, deparando-
se em diversas ocasiões com temas que causam controvérsia, mas que exigem
sempre a atenção do legislador seja por uma maioria da sociedade, ou por grupos
minoritários. É o que acontece com o tema ora desenvolvido, pois é polêmico, e na
opinião da maioria das pessoas vai contra os princípios morais, ofendendo institutos
que são à base da sociedade, como o matrimônio, e tantos outros aspectos. Em
razão disso, é que se faz necessário dar uma definição do que vem a ser
casamento, bem como de uma breve evolução histórica, para somente depois
passar-se a definir o que é o homossexualismo, segundo o Direito. Uma vez
abstraídos tais conceitos, poder-se-á então analisar o Projeto de Lei apresentado
para votação, que regulamenta a união estável entre homossexuais, seu
substitutivo, e como não poderia deixar de ser, fazer uma análise crítica.
Este tema vem sendo tratado no Direito brasileiro há mais ou menos a dez
anos. Assim, não convém citar o Direito estrangeiro, pois esse assunto já se
encontra regulamentado em diversos países.

4.8 O casamento

No nosso Código Civil vigente não encontramos uma definição para


casamento. No entanto, considerando a importância da igreja na definição do
casamento, faz-se oportuno trazer aqui a definição que a igreja moderna tem do
casamento, a qual encontra-se no Código de Direito Canônico, cânon 1055, em seu
parágrafo primeiro. Vejamos:
29

"Cân. 1055 - § 1. O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher


constituem entre si o consórcio de toda a vida, por sua índole natural ordenado ao
bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, entre batizados foi por Cristo
Senhor elevado à dignidade de sacramento".

Já na doutrina, são inúmeras as definições que existem para este importante


instituto. Citaremos o conceito apresentado por Bevilaqua (1916), bem como por
Barros Monteiro (1989)
"O casamento é um contato bilateral e solene, pelo qual um homem e uma
mulher se unem indissoluvelmente, legalizando por ele suas relações sexuais,
estabelecendo a mais estreita comunhão de vida e de interesses, e comprometendo-
se a criar e educar a prole, que de ambos nascer.”

"União permanente do homem e da mulher, de acordo com a lei, a fim de se


reproduzirem, de se ajudarem mutuamente e de criarem os seus filhos.”

Não sendo objetivo deste trabalho estudar o casamento, mas sim a relação
entre homossexuais, convém ater-se a citar somente esses conceitos, pois como já
foi dito anteriormente, são inúmeras as definições trazidas por diversos
doutrinadores, os quais demonstram sempre a idéia que possuem de tal instituto. O
que se pretende aqui, no entanto, é salientar que o casamento encontra sua
estrutura na união entre homem e mulher, deixando claro ser o casamento um
instituto incompatível com a união de pessoas do mesmo sexo.

4.9 Evolução histórica

Antes das breves considerações sobre a evolução histórica do casamento, é


interessante salientar a contribuição dos ensinamentos religiosos, os quais dizem
que deve o homem unir-se a uma mulher para assim constituírem uma família, e que
ainda que não fosse o homem um ser transcendente, religioso, fixa ele seus
princípios éticos na preservação da espécie.
30

Justifica-se assim, o porquê desde os tempos mais remotos de sua existência,


o ser humano, procura encontrar uma companheira para com esta estabelecer
união, com o objetivo de procriação. Ao longo da história, encontram-se cinco
sistemas dominantes, ou seja, o ocidental, soviético, muçulmano, tradicionalista
chinês e hindu (IDEF, 2001). Dentro desses sistemas citados, o Brasil filia-se ao
sistema ocidental, visto que nosso código está baseado no Código de Napoleão.
Em sua evolução história, o casamento, dentro do sistema ocidental,
encontrou quatro etapas distintas, sendo elas:
Matrimônio consensual - era praticado pelos antigos povos, os quais não
condicionavam a validade do casamento a qualquer formalidade, sendo necessário
somente a vontade recíproca de se unirem, bastando para tanto, o mútuo
consentimento;
Matrimônio exclusivamente religioso - a partir do século X, a igreja começou a
afirmar ser o casamento entre os cristãos um sacramento, sujeitando-o às normas
eclesiásticas.
É importante ressaltar neste aspecto, que quando da realização do Concílio
de Trento, estabeleceu este a doutrina do sacramento do matrimônio, o qual está
ainda vigente, doutrina esta que influenciou em muito o atual sistema, pois tratou
dos impedimentos, da indissolubilidade;
Matrimônio legal e eclesiástico - este regime passou a vigorar desde 1836,
em diversos países, dentre eles o Brasil. Neste, facultou-se aos interessados, que
poderiam contrair o casamento segundo as normas da legislação vigente no país, ou
sob as prescrições da Igreja, subordinando o casamento na Igreja ao que dispõe a
lei canônica;
Matrimônio civil obrigatório - abandonando a idéia do casamento religioso, a
maioria das legislações passaram a dar validade tão somente ao matrimônio civil,
sendo que o religioso, embora podendo ser realizado a critério dos interessados,
não possui qualquer validade.
Essas são as considerações que devem ser salientadas, mesmo porque, não
é objetivo do presente trabalho o aprofundamento no instituto do casamento, que
merece trabalho exclusivo. Diante dessa noção preliminar do casamento, sob o
aspecto da sua conceituação e breve exposição de sua evolução histórica, pode-se
adentrar ao tema em propósito.
31

4.10 Definição de homossexualismo

Para conceituar o homossexualismo, agora do ponto de vista do Direito, é


conveniente a busca da origem etimológica da palavra, a qual é formada pela junção
de dois vocábulos, "homo" e "sexu". O vocábulo homo vem do grego "homos", o qual
significa semelhante, e o vocábulo sexual vem do latim "sexu", que é relativo ou
pertencente ao sexo. A junção dos dois vocábulos significa a prática sexual entre
pessoas do mesmo sexo.
Encontramos a seguinte definição no vocabulário de língua portuguesa:
"homossexual: diz-se de, ou indivíduo que pratica o ato sexual com pessoas do
mesmo sexo". (Aurélio – 2000).
A Medicina Legal, entretanto, define o homossexualismo como indicativo de
anormalidade do indivíduo em relação aos seus instintos sexuais, possuindo atração
sexual ou amorosa, entre pessoas do mesmo sexo, tendo às vezes repugnância ou
aversão a pessoas do sexo oposto. Temos ainda a seguinte divisão:
homossexualismo feminino e o masculino, sendo o primeiro aquele em que a relação
sexual é realizada por meio de práticas que podem provocar o orgasmo, também
conhecido como safismo, tribadismo e lesbianismo, e o segundo sendo o que se
caracteriza entre a relação de homem com homem, aonde encontram uma
satisfação carnal, também conhecido como pederastia e uranismo.
Importante esclarecer que o homossexualismo era tido pela medicina como
doença. Entretanto, a partir de 1985, o Conselho Federal de Medicina, tornou sem
efeito o código 302 da Classificação Internacional de Doenças (CID), não mais
considerando o homossexualismo como um desvio ou transtorno sexual.
Embora tenha a medicina desconsiderado o homossexualismo como uma
doença, existe hoje diversas discussões acerca do assunto, pois algumas correntes
o consideram como um desvio genético, e outras já como um desvio de conduta, ou
seja, o indivíduo torna-se um homossexual em razão do meio em que vive, da forma
que foi criado, e por vezes até, por problemas familiares.
Não existe, portanto, uniformidade, pois cada corrente defende sua posição
com fundamentos. Acredita-se que este assunto ainda terá muitas inovações, pois
com os avanços da medicina, bem como dos estudos de psicologia, aparecerão
muitos fundamentos, e quem sabe um dia uma definição mais clara da origem, ou
32

seja, se é genética ou se advém em razão do meio, da influência social – ou se de


ambos.
Este assunto, no entanto, é de interesse específico da área respectiva, sendo
que para a área jurídica o que interessa mais diretamente é saber quais as
conseqüências que podem gerar um relacionamento homossexual, bem como se
uma possível legalização desse relacionamento viria ao encontro ao que pede a
sociedade, ou se não traria problemas que contrariariam o objetivo do Direito, que é
a paz social.
Antes, porém, de avançar no estudo aqui proposto, convém salientar que o
homossexualismo existe há muito tempo, e, estudando a história, podemos
encontrar casos desde os povos primitivos. Entretanto, esta sempre foi uma questão
que contrariou a moral e os bons costumes.
Uma das bases para podermos verificar a história, tanto por ser de fácil
acesso a todos os povos, é a Bíblia, a qual desde o início, no livro do Gênesis até o
fim do Novo Testamento, condena a prática de homossexualismo.
É importante, entretanto, salientar que o ordenamento jurídico brasileiro é
“laico”, ou seja, a religião não deve (deveria) influenciá-lo. Já o conceito de
homossexualismo (ou a homossexualidade) vem sendo tratado de uma forma mais
aberta, utilizando-se dos meios de comunicação disponíveis fazendo com que a
sociedade venha aparentando aceitar melhor tão controvertida questão. O que
ocorre, aparentemente, é que se aceitam as opções sexuais dos outros, “desde que
não seja na sua própria família”. Isso demonstra que a sociedade aparenta aceitar,
mais no fundo ainda está enraizada por princípios morais e religiosos herdados de
seus antepassados.
33

5 União Civil Homoafetiva (Projeto de lei 1.151/95)

Neste capítulo, tentar-se-á demonstrar as razões pelas quais se


apresentaram esse projeto de regulamentação da união civil entre pessoas do
mesmo sexo, sua tramitação pela Câmara dos Deputados, bem como os direitos que
busca proteger.

Justificativa do projeto:
Em 26 de outubro de 1995, foi apresentado ao plenário da Câmara dos
Deputados, o projeto da então deputada Marta Suplicy, o qual buscou disciplinar a
união civil entre pessoas do mesmo sexo, tratando ainda de outras questões. Iniciou
sua justificativa com a seguinte assertiva:
"O presente Projeto de Lei visa o reconhecimento das relações entre pessoas
do mesmo sexo, relacionamentos estes que cada vez mais vêm se impondo em
nossa sociedade.”

Ao discorrer sobre suas justificativas, tratou da realidade e direitos, relação


duradoura, violência, solidariedade, homossexualidade, diferenças e semelhanças
entre união civil e casamento e aspectos jurídicos. De forma sucinta, procurar-se-á
demonstrar cada um desses itens, para em seguida propor as conclusões sobre a
justificativa apresentada.

a) realidade e direitos
Trata da expressão dos direitos inerentes a pessoa humana, acrescentando
ter os indivíduos direito à busca da felicidade. Esclarece que o projeto pretende tão
somente fazer valer o direito à orientação sexual, hetero, bi ou homossexual.

b) relação duradoura
Neste aspecto, justifica que uma relação não discriminada, mas que se torne
pública e protegida por lei, leva que as pessoas com este tipo de orientação sexual
possam assumir seu compromisso, saindo assim da clandestinidade, e
conseqüentemente da angústia que esta causa nas pessoas.
34

c) violência
No nosso país, são freqüentes as violências contra os homossexuais, sendo
que a legalização desta união levaria à diminuição de comportamentos homofóbicos
e, via de conseqüência, a constantes agressões.

d) solidariedade
Ao tornar oficial a união homossexual, poderiam esses casais encontrar mais
apoio em suas famílias. Os casais heterossexuais, quando em crise, encontram forte
apoio dos familiares, dos amigos, possuindo tratamentos os quais possibilitam a
harmonia entre ambos, afastando a possibilidade de uma separação. Já os
homossexuais, por viverem na clandestinidade, freqüentemente são afastados de
qualquer ajuda de amigos e familiares. Com isso, quando diante de uma crise de
relacionamento, não encontrando o apoio adequado, acabam rompendo a união.
Justifica ainda que o projeto não resolveria todos os problemas, mas ao menos
amenizaria a situação, levando às relações um efeito estabilizador.

e) homossexualidade
Explicita aqui algumas considerações gerais sobre o que vem a ser a
homossexualidade e como esta é hoje encarada.

f) diferenças e semelhanças entre união civil e casamento


Este é um aspecto de relevante importância para esse estudo, pois ao trazê-
lo para a justificativa, tentou-se deixar claro que não é objetivo do projeto equiparar a
união civil ao casamento, justificando também a razão por que tratamos dos
aspectos gerais do casamento em nosso trabalho. Ficou claro na justificativa
apresentada que não quer esta lei dar à união civil entre pessoas do mesmo sexo
um status igual ao casamento, mesmo porque tem esse um status único. "Os termos
matrimônio e casamento são reservados para o casamento heterossexual, com suas
implicações ideológicas e religiosas.”. Com isso, ressalta-se que não se quer
equiparar a união civil ao casamento, mas sim possibilitar que casais de gays e
lésbicas possam ser mais bem aceitos pela sociedade, bem como verem
solucionados problemas relacionados às questões legais e financeiras.
35

g) aspectos jurídicos
É importante, salientar que o projeto de lei apresentado, não contraria a
Constituição, muito pelo contrário, pois entende que a Constituição Federal veda
sim, em seu artigo 3º, inciso I e IV, a discriminação de origem, raça, cor idade,
dentre outras, bem como garante a construção de uma sociedade livre, justa e
solidária, que promova o bem de todos.

No mais, o presente projeto, se transformado em lei, vem ao encontro de uma


situação que já existe de fato, há muito tempo, não podendo assim ser negado pelo
Direito. Estas foram às justificativas apresentadas pela Ex-Deputada Marta Suplicy
ao seu projeto de lei à Câmara dos Deputados.
Antes de se falar em qualquer tipo de direito, seja ele natural ou positivo, é
conveniente salientar que o homem (no sentido amplo da palavra), é um ser
naturalmente ético, primando sempre pelos bons costumes, mas em direção à sua
felicidade.
A palavra ética tem sua origem no grego, "ethos", que significa costume,
caráter, ou seja, a ética é a doutrina dos bons costumes. Já a palavra moral, deriva
do latim, e também está ligada aos princípios, orientações. Pode-se então dizer, que
o direito é espécie, da qual a moral é o gênero, pois esta é muito mais abrangente,
regrando não só os atos externos do ser humano, mas também os atos internos.
De uma forma bastante simples, podemos dizer que o direito natural é
inerente ao homem, faz parte de sua natureza. Já o direito positivo, é a expressão
legal desse direito natural. Portanto, o direito positivo deverá sempre encontrar uma
justificativa no direito natural, pois aquele deve vir ao encontro, expressar o que este
necessita.
Quando se diz que o homossexualismo existe desde o homem primitivo e até
mesmo entre a maioria dos animais que existem na natureza, e que, assim, é um
direito natural devendo ter a proteção do Estado e do Direito. Logo, ao buscar
disciplinar a união civil entre homossexuais, deve-se deixar a superficialidade dos
conceitos e buscar o aprofundamento, para saber se esse projeto, antes de atender
a um direito natural de um determinado grupo, atende aos princípios morais e éticos
de toda uma sociedade.
36

5.1 Tramitação na Câmara dos Deputados

Segue uma descrição das principais fases desse projeto que se encontra
ainda em tramitação.
Em 26 de outubro de 1995, foi o projeto apresentado em plenário pela autora,
Deputada Marta Suplicy, sendo em seguida encaminhado à mesa para despacho
inicial, tendo ainda tramitação pelas diversas comissões.
Em 1º de abril de 1996, foi novamente levado a Plenário, o qual após leitura e
publicação da matéria encaminhou à mesa, quando em 12 de junho de 1996, foi
constituída uma comissão especial destinada a apreciar e proferir parecer sobre o
projeto.
Em 26 de novembro de 1996, a comissão especial deu parecer favorável do
relator, deputado Roberto Jefferson, o qual apresentou um substitutivo. No dia 10 de
dezembro de 1996, foi então aprovado o parecer do relator, opinando pela
constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa, bem como sendo aprovado o
substitutivo.
Atualmente, encontra-se o projeto em tramitação, tendo sido levado à votação
no dia 09 de maio de 2001, sendo novamente adiado, aguardando designação de
data para discussão.

5.2 Quais os direitos protegidos

A principal proteção que busca o projeto de lei vem especificado no artigo 1º,
que trata, além do reconhecimento da união civil, da proteção dos direitos à
propriedade e sucessão, além dos outros assegurados no projeto, relativos à
previdência social, alimentos, imigração.
Já o substitutivo, inovou os direitos acrescentando os seguintes: curatela,
composição de rendas para financiamento de casa própria, e direitos relativos a
planos de saúde, seguro de grupo e inscrição de dependentes para efeitos
tributários.
37

É importante salientar a questão da sucessão, pois, pelo que se observou do


projeto apresentado, busca este incluir o parceiro na ordem da vocação hereditária,
colocando-o em terceiro lugar, em pé de igualdade com o cônjuge ou companheiro
sobrevivente. Apresenta as seguintes soluções:

a) o parceiro sobrevivente, tendo o "de cujus" herdeiros filhos, tem


direito ao usufruto da quarta parte dos bens deixados por este;
b) caso não tenha este herdeiros filhos, terá o sobrevivente direito ao
usufruto de metade dos bens;
c) tem também direito na meação caso haja colaboração.

Outro ponto que entendemos ser importante é a questão da imigração, pois


em se registrando uma união civil entre pessoas do mesmo sexo, o parceiro que não
for brasileiro, passa a ter o direito de adquirir nacionalidade brasileira.
Não obstante os direitos conferidos por este projeto, o substitutivo
apresentado vedou expressamente a possibilidade de adoção, tutela ou guarda de
crianças ou adolescentes, união com mais de uma pessoa e também a alteração do
estado civil pelos contratantes enquanto vigente o contrato.

5.3 Análise comparativa entre o projeto e o substitutivo

O substitutivo apresentado trouxe algumas alterações ao projeto original,


sendo destacadas as que podem ter mais relevância. A primeira delas diz respeito à
matéria disciplinada, pois o projeto inicial tratava de "união civil entre pessoas do
mesmo sexo", e o substitutivo passou a tratar como "parceria civil registrada entre
pessoas do mesmo sexo".
Foi acrescentado pelo substitutivo, no artigo segundo, o parágrafo segundo,
que parece ter uma redundância com o citado artigo, uma vez que repetiu aquilo que
já está disciplinado no caput.
Tem-se ainda, um aspecto que parece ser de interesse, e também essencial
para o projeto, quando vedou expressamente no artigo 3º, § 2º a adoção, tutela ou
38

guarda de crianças ou adolescentes em conjunto, mesmo que sejam filhos de um


dos parceiros.
Além desses aspectos, foi o substitutivo que ampliou a questão da sucessão,
bem como acrescentou o estabelecimento da curatela a favor do companheiro.

5.4 Análise crítica do projeto

Pelo que se pode observar, embora tanto o projeto como o substitutivo


tenham tentado deixar transparecer que não objetivam dar à relação entre pessoas
do mesmo sexo um status de casamento, não é o que está acontecendo, pois em
uma leitura mais acurada do projeto, constata-se que, de uma forma indireta, acaba
por equiparar esse tipo de união ao casamento, que, nas palavras da própria autora
do projeto, são institutos divergentes, pois possui o casamento "implicações
ideológicas e religiosas" que lhe são próprias. Essa é a posição de muitos dos seus
críticos que chegam a essa conclusão por meio das seguintes razões:
Logo no artigo 1º, assegura o direito à propriedade e à sucessão. Quanto à
propriedade não se faz qualquer questionamento, pois como se sabe, o nosso atual
sistema nunca proibiu que pessoas do mesmo sexo adquirissem em condomínio
qualquer tipo de bem, seja ele móvel ou imóvel. O problema encontra-se na
sucessão, pois somente o cônjuge ou companheiro é que entra na ordem da
vocação hereditária.
Assim, ao estender esse direito às relações entre pessoas do mesmo sexo,
começa-se a equiparar as duas instituições, oferecendo os mesmos direitos. Quando
trata dos requisitos necessários para o registro da união ou parceria em livro próprio
do Cartório de Registro Civil e Pessoas Naturais, estabelece formalidades a serem
cumpridas da mesma forma que se exige para o casamento, embora de uma
maneira mais simplificada.
O contrato deverá ainda versar sobre disposições patrimoniais, deveres,
impedimentos e obrigações mútuas, as quais sabemos serem questões que o
Código Civil preceitua para a realização do casamento.
No caso da dissolução, assim como no casamento, o projeto estabelece que
a extinção da união civil somente poderá ocorrer com decisão judicial para a mesma.
39

Sendo consensual, deverá ser homologada pelo juiz. Caso contrário, deverá haver o
pedido judicial de extinção da união. Acrescentamos ainda, neste aspecto, que pode
qualquer das partes requerer a extinção, caso demonstre a infração contratual em
que se funda o pedido.
Vemos, com as observações feitas, que mais uma vez se está estendendo os
mesmos direitos e obrigações que nascem quando do casamento à relação
homossexual, prevendo até casos de "separação consensual, litigiosa, fundada ou
não na culpa do outro".
Assim, por essas razões, os críticos mais severos entendem que o projeto
busca equiparar essas uniões ao casamento, mas com outra denominação. Data
vênia, dizem que o projeto apresentado não podendo expressamente equiparar as
relações entre pessoas do mesmo sexo ao casamento, pois levaria a paz social e a
coletividade a rejeitar liminarmente a idéia, procurou fazê-lo de forma mais branda,
dando outro nome, mas concedendo os mesmos direitos, e, quem sabe, até mais.
40

6 Direito Estrangeiro

Esse tema vem sendo tratado nos mais diversos países, e das mais diversas
formas, conforme apresentado a seguir. Em alguns países já existem leis
regulamentando a união entre homossexuais, como é o caso da Groelândia,
Hungria, Islândia, Noruega, Suécia, Holanda e Dinamarca, sendo que esta admite
inclusive a adoção de filhos do seu parceiro.
Já a Hungria, reconhece tão somente a união de fato entre homossexuais. No
Brasil, Bélgica, Finlândia e República Checa, a lei está em discussão pelo
Congresso. A Espanha, Canadá, Bélgica, Estados Unidos e França (234
prefeituras), reconhecem o contrato de união civil.
Mais recentemente, em 19 de fevereiro de 2007, nos Estados Unidos, no
Estado de Nova Jersey, entrou em vigor a lei de uniões civis de Nova Jersey. Já no
primeiro mês de união civil gay em Nova Jersey , 219 casais formaram união civil12.
As uniões civis oferecem a casais homossexuais os benefícios legais de um
casamento mas não o título.
Alguns países proíbem expressamente a discriminação por motivo de
orientação sexual, como é o caso da África do Sul, Canadá, Dinamarca, Eslovênia,
Espanha, França, Holanda, Noruega, Nova Zelândia, Polônia e Suécia. No Brasil, a
Câmara dos Deputados está apreciando a Proposta de Emenda a Constituição nº
139/95, da ex-deputada Marta Suplicy.
Existem ainda países que concedem asilo político por motivo de orientação
sexual: Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia,
Holanda, Irlanda, Noruega e Suécia. Outros concedem nacionalidade por motivo de
união civil entre homossexuais, como quer fazer o Brasil, são eles: Austrália,
Dinamarca, Holanda, Noruega, Nova Zelândia e Suécia. Por fim, alguns países
proíbem oficialmente que o homossexual sirva às forças armadas: Austrália, Bélgica,
Canadá, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Holanda, Israel, Nova Zelândia, Noruega e
Suécia.

12 http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u105678.shtml
20/03/2007 - 16h37.
41

Embora tratando neste capítulo de Direito estrangeiro, é interessante salientar


que no Brasil, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em julgamento datado de 13 de
fevereiro de 1992, reputou legal a exclusão das fileiras da corporação de
componente homossexual, por comprometer a honra e o decoro da classe.
42

7 Conclusão e Discussão

7.1 Conclusão sobre Aspectos Jurídicos do Projeto de Lei

Ao concluir o presente estudo sobre o projeto da Deputada Marta Suplicy,


chegamos a uma conclusão provisória. No momento, diante do contexto social em
que vivemos, não pode ser o projeto apresentado convertido em lei, mesmo porque
provavelmente contrariaria os princípios morais e éticos de nossa sociedade e teria
resistência popular.
Também é preciso considerar que a bancada de evangélicos, ferozes
opositores à discussão da matéria, é muito significativa nas casas do Congresso
Nacional. O substitutivo realmente parece emprestar certa fragilidade ao instituto na
medida em que não assume as semelhanças entre união estável e casamento. As
justificativas são frágeis, pois o nosso ordenamento jurídico nunca proibiu a
constituição de patrimônio comum, existindo formas legais de se resguardar tais
direitos.
Finalmente, esta é uma conclusão provisória, por não ser neste mundo nada
definitivo, e a constante evolução do ser humano e da sociedade em que vivemos
pode levar a novas conclusões. No mais, não existe nenhum impeditivo que alguém
venha a propor um projeto que seja adequado, atenda às reais necessidades dos
homossexuais, e não fira institutos há muito protegidos.

7.2 Análise Crítica sobre os Depoimentos dos Advogados Entrevistados

7.2.1 Transcrição da primeira entrevista

Entrevista por pauta, a título de ensaio, feita no dia 10/09/2002 por José
Antônio Passos. Os entrevistados autorizaram a publicação da entrevista na íntegra
com menção de seus nomes.
43

Entrevistados:
Dr.Fredi Moise, advogado da Defensoria Homossexual de São Paulo
Dr.Fernando Coresma Azevedo, advogado da Defensoria Homossexual de
São Paulo.

José Antônio - Dean Hamer, um geneticista americano localizou uma região


do cromossomo X, chamada Lócus Xq28, onde moraria um gene relacionado com a
orientação sexual. A presença desse gene tornaria o portador propenso a sentir
atração sexual por indivíduos do mesmo sexo.

José Antônio - Os senhores acreditam na tese genética da origem da


homossexualidade?

Fredi - Acredito que exista uma pré-disposição genética, mas a influência do


ambiente também é importante, tem que ter uma combinação dos dois fatores.
Fernando – A genética é mais forte, é difícil explicar a libido, o desejo, não é
uma escolha e sim uma orientação sexual.

José Antônio – Com base nessa tese, os senhores acreditam que a


homossexualidade é um “direito natural”?

Fredi – Sim acho que é um direito natural.


Fernando – Independente de ser genético ou sócio cultural a pessoa tem o
direito de manifestar sua sexualidade, afinal, como previsto no texto constitucional:
somos todos iguais perante a lei.

José Antônio - O cidadão homossexual é titular de direitos?

Fredi – Ele contribui para a sociedade, com deveres e direitos, portanto deve
ser tratado como cidadão.
Fernando – Cobra-se impostos e outros deveres, mas não se garante os
direitos dos homossexuais.
44

José Antônio - Por que a Constituição brasileira não menciona o


homossexual?

Fredi – A Constituição trata o cidadão como um todo, seria segregação tratar


o homossexual diferente, é preciso apenas no lugar de “sexo” no artigo 5º do texto
constitucional, colocar “orientação sexual”.
Fernando – Não queremos ser tratados de forma particular ou diferente, só
queremos respeito e segurança, que é um direito de todos.

José Antônio – Por que o Código Civil brasileiro não prevê a possibilidade de
união estável entre pessoas do mesmo sexo?

Fredi – O Código Civil brasileiro é muito antigo e preconceituoso, deveria ser


mudado e adaptado à realidade brasileira, como o código internacional do CID , que
já não prevê como doença a homossexualidade desde 1985.
Fernando – Simplesmente por ser preconceituoso e por falta de
conhecimento de causa.

José Antônio – Por que o projeto de lei da então Deputada Marta Suplicy
não foi apreciado, ou se foi, não foi aprovado?

Fredi / Fernando – Não foi apreciado por questões políticas, fizeram uma
troca de votação na Assembléia, substituíram a pauta da união estável entre
homossexuais por uma sobre questão tributária com os evangélicos da Assembléia.
Há muito preconceito aqui no Sudeste, diferente do Sul do país onde o INSS já
reconhece como dependente, dando direito a pensão ao parceiro homossexual.

José Antônio - O ordenamento jurídico brasileiro é homofóbico?

Fredi / Fernando – Esta questão é muito difícil de responder, pois precisaria


de pelo menos um dia inteiro para se falar de todos os aspectos que cercam a
questão.
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José Antônio - Os senhores acreditam que o Código Civil, no capítulo do


Direito de família, sofre influência do Direito canônico?

Fredi / Fernando – Sim, todo o ordenamento jurídico brasileiro tem influência


do Direito canônico, mesmo que não se perceba, tornando-o preconceituoso e
omisso com questões que deveriam ser práticas, como o patrimônio.

José Antônio - Existe alguma possibilidade de que o projeto de lei da


Deputada Marta Suplicy seja aprovado algum dia?

Fredi – Acredito que se forem feitos alguns acertos e algumas adaptações


este projeto poderá ser aprovado.
Fernando – Acho que não, é conceitualmente muito falho.

José Antônio - Regulamentada a união estável fica regulamentada


igualmente a questão da adoção por casais homossexuais?

Fredi / Fernando – Não necessariamente. Tem que existir uma lei que
regulamente isso, a lei tem que prever a adoção além da união. Mesmo porque nem
todo casal homossexual sonha em adotar um filho e constituir uma família
tradicional, mas, se quiserem, acho que seria apropriado termos este direito
regulamentado também.

José Antônio – Obrigado senhores!

7.2.2 Transcrição da segunda entrevista

Entrevista com o Sr. João Silvério Trevisan, escritor e jornalista e profundo


conhecedor das questões ligadas ao Direito.

José Antônio - Admitindo que a Constituição de um país reflete os anseios e


valores de um povo, e que esses valores são construídos ao longo do tempo com
46

base na experiência desse povo e nas suas tradições mais relevantes, sua história,
seus mitos, e sua religião;
Admitindo, ainda, que nossa Constituição de 88 reflita, efetivamente, o desejo
desse povo, bem como nossos códigos e leis primárias e secundárias, perguntamos:

Será que a discriminação aos homossexuais e a homofobia não estão


fundamentados nesses valores morais e religiosos?

João Silvério Trevisan: Claro que estão fundamentados nos valores


fundamentais e religiosos, os quais estão fundamentados, muito freqüentemente, em
preconceitos que não têm nada a ver com aquilo que a sociedade deve oferecer aos
seus cidadãos. Então, acho que todas as leis estão em permanente mutação, elas
têm que ser revistas porque existe uma história, porque existe uma cultura em
construção histórica, em evolução histórica, e, nesse sentido, eu acho que as
posturas tanto morais quanto religiosas, e, sobretudo morais (porque as religiosas
têm que ser colocadas de escanteio de fato), considerando aquela história da
teocracia, (eu não dou muita importância para a presença religiosa em Constituição),
mas os valores morais eu acho que estão em permanente estado de construção e
evolução. Nesse sentido, é bom nós tomarmos alguns exemplos, como o caso das
mulheres e o caso dos escravos. Houve um momento em que era legítimo ter
escravos e hoje, para nós, é chocante e escandaloso que tenha havido esse
determinado momento e que pessoas interessantíssimas pudessem estar envolvidos
com a escravidão, como, por exemplo, membros da hierarquia católica. Segundo
lugar, a situação das mulheres, você tome um exemplo do não reconhecimento do
status civil das mulheres, o direito a voto, por exemplo. Se nós não admitíssemos as
possibilidades de mudança, nesse enfoque ético, as mulheres estariam até hoje com
a saia abaixo do joelho e estariam submissas aos seus maridos, aos seus pais, sem
possibilidade de votar, e isso hoje para nós é considerado um absurdo. Então, são
dois exemplos aos quais eu remeto para que se entenda a condição do
homossexual.

José Antônio - Não será esse preconceito uma realidade legítima, com
raízes profundas em um povo com formação judaico-cristã? Legítima no sentido de
expressão da vontade popular.
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João Silvério Trevisan: É, aí eu acho que você tem que se perguntar o que
é a vontade popular e quem é que faz a vontade popular. Existe uma interação entre
as duas coisas: a vontade popular e a criação de leis. A vontade popular não nasce,
não cai do céu e não tem uma herança genética. A vontade popular é resultado de
um determinado momento histórico e de uma determinada vivência, digamos, ética
onde entram, inclusive, os valores religiosos. Então, nessa vontade popular você tem
que considerar os preconceitos existentes, porque essa vontade popular, vox populi,
não é sagrada, nem imutável. Muito pelo contrário, ela tem que ser levada em
consideração para a construção de leis, mas existe uma interação entre “as
vontades populares” porque a democracia levanta exatamente essa possibilidade de
que hajam as mais diversificadas vontades populares. Então, quando você
menciona essa vontade popular, você de certo modo está generalizando, como se
fosse uma voz única. O resultado do que nós chamaríamos de “voz popular” é
justamente o embate de várias posições, de uma diversidade enorme de posições
relacionadas com a expressão das necessidades de um povo. Esse resultado só é –
hoje nós compreendemos isso claramente, ainda que não estejamos aplicando de
uma maneira totalmente necessária – nós hoje podemos compreender que a
expressão da vontade popular resulta de um jogo democrático em que várias
vontades se entremeiam e se entretecem, por exemplo, as eleições. Tem muita
gente que não gostou da vitória do Lula, outros que não tinham gostado da vitória do
Fernando Henrique, então a vontade popular acaba sendo uma imposição da
maioria, sim, mas é uma maioria relativa, pois, toda maioria é composta de minorias.
O sistema eleitoral você tem a maioria ganhando, mas através de um debate.
Primeiro é o partido que escolhe o candidato, depois são os partidos que
apresentam vários candidatos; depois você tem o primeiro turno, o segundo turno,
então você vai tentando um diálogo com essa vontade popular até chegar a um
resultado chamado “vontade popular”, que é resultante de fricções. Então eu acho
que não posso dizer, absolutamente, que, os muçulmanos por terem tido uma raiz
muçulmana, sejam absolutamente imutáveis, tanto quanto nós, por termos uma raiz
judaico-cristã, tenhamos que ser imutáveis. Se nós formos aprofundar a questão de
um ponto de vista ou de um lado religioso (não sei se as outras perguntas vão mexer
nisso), existe o perigo muito grande e muito problemático de entrarmos num
esquema de teocracia, e essa teocracia se tornaria então uma expressão de uma
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vontade abstrata que é uma vontade que não está historicamente refletida. Peguem
o caso da Bíblia: se nós formos aplicar a Bíblia, o judaísmo bíblico hoje em dia, nós
vamos continuar tendo escravos, vamos matar nossos inimigos, as mulheres vão ter
que ser oferecidas aos seus hóspedes, os pais vão ter absoluto direito sobre as
filhas...Então, a Bíblia é a expressão de momentos históricos determinados, por isso
é que esta questão do judaico-cristã é uma questão absolutamente cheia de
reticências e absolutamente discutível, e perigosa por isso, quando se tenta
absolutizar essa questão.

José Antônio - Seria então legítimo alterar as leis sem uma consulta a esse
povo?

João Silvério Trevisan: Essa consulta eu acho que é feita através de


representantes do povo. Acho que a consulta pode ser feita, sim, diretamente por
meio de plebiscitos, só que eu acho que em alguns momentos a lei não é resultado
da vontade da maioria; a lei é uma coisa extremamente, em alguns momentos ou em
algumas circunstâncias, impalpável. Se você fosse reger do ponto de vista da lei
exclusivamente pela maioria, provavelmente nós teríamos que voltar pra uma
situação que fosse confortável ao machismo brasileiro, por exemplo. Porque a
grande maioria da população brasileira é machista, considerando o substrato
falocrático patriarcal em que nós estamos instalados até hoje. Então eu acho que a
lei é resultado de uma intuição a respeito das necessidades, não necessariamente
da maioria, mas da necessidade de todas minorias que compõem a maioria. As leis
numa sociedade democrática têm que responder não a uma maioria que seja
massacrante, mas a uma maioria que seja composta de inúmeras minorias, que é a
idéia da diversidade; então você teria que (se quisessem fazer consultas) fazer
consultas nessa diversidade, porque a única consulta legítima seria a consulta em
cima das diferenças, porque você não tem outro parâmetro, outro referencial. O que
é bom pra mim enquanto macho, humano, enquanto branco, enquanto
homossexual, certamente não é bom para o meu amigo que é negro, heterossexual
etc., que tem uma série de diferenças, ou então para uma mulher, ou para um índio,
ou para um favelado, ou para alguém que paga alugue... Acho que as leis têm que
contemplar a diversidade antes de mais nada.
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José Antônio - Mas seria justo para com os homossexuais se esta consulta
resultasse na legitimação do preconceito baseado em valores equivocados ou
ultrapassados? Admitindo que sejam, efetivamente, equivocados.

João Silvério Trevisan: Não. Eu acho que esta pergunta está respondida na
anterior, porque eu realmente não acho válido que exista uma resposta da maioria
através da consulta popular. Então, o que haveria nesse caso seria uma consulta ao
cidadão homossexual e para que isso aconteça, cidadão e cidadã homossexual têm
que ser reconhecidos enquanto parte dessa diversidade.

José Antônio - E, finalmente, deve o Direito se ocupar da vida e das


escolhas sexuais das pessoas, ou isso é um resquício do Direito canônico e da
teocracia que dominou o mundo ocidental durante quase 1000 anos?

João Silvério Trevisan: Eu acho que isso é uma discussão viável, uma
discussão importante, por exemplo, Michel Foucault faria essa pergunta e
responderia não, não é legítimo.
O Direito é uma ciência, um compêndio de resultantes legais para contemplar
as necessidades de uma sociedade. Então, se o Direito contempla necessidades
heterossexuais – e ele contempla brutalmente – eu não vejo por que não contemplar
as necessidades dos homossexuais, não no sentido de colocar a orientação
homossexual debaixo do rigor da lei, mas no sentido de estar oferecendo o
reconhecimento desse status homossexual, assim como os heterossexuais têm esse
status. Se a sociedade não tivesse nenhum tipo de interesse em legislar a respeito
de orientação sexual, acho que tudo bem, não teria, portanto nenhum sentido em
que ela legislasse sobre as questões homossexuais. Mas, como ela tem uma
legislação, a meu ver, necessária – pois essa é uma expressão da vida em
sociedade – a sua sexualidade tem uma expressão social, como por exemplo, o
casamento, que é resultado de um pacto entre duas pessoas que têm um
determinado tipo de relacionamento sexual. Acho que nesse sentido seria
necessário que a sociedade também reconhecesse o status homossexual. Muita
gente acha que é uma interferência, como você disse aí, voltar a uma espécie de
teocracia, que seria uma, se é que assim posso chamar, direitocracia, mas, nós
teríamos que repensar todo o sistema legal se tivéssemos que nos contrapor a essa
50

visibilidade homossexual dentro do Direito também. Se nós nos contrapusermos a


essa visibilidade homossexual, teremos que nos contrapor à visibilidade
heterossexual – e isso é impossível, porque a vivência sexual tem um reflexo social,
e é nesse momento em que o Direito entra para organizar as relações sociais.

7.2.3 Análise dos resultados das entrevistas

Nas duas entrevistas acima tivemos a oportunidade de referendar nossas


conclusões a propósito da questão homossexual e o Direito. No primeiro caso, os
advogados familiarizados com os problemas jurídicos dos homossexuais
manifestaram seu desejo de que a orientação sexual das pessoas seja respeitada
independente de legislação particular. Sustentam que uma legislação específica
poderia contribuir mais com o preconceito e que é possível uma situação de
igualdade de direitos dentro do que o direito positivado já prevê. Acharam assertiva
nossa conclusão de que o direito à orientação sexual é um direito natural e, portanto
objeto de Direito a ser positivado.
Na segunda entrevista pode-se perceber um tom mais emocional do
jornalista, que tem uma posição mais sociológica da questão e prefere assumir uma
postura de aparente indiferença em relação ao problema, e, principalmente, em
relação às instituições que construíram e defendem a posição preconceituosa.
As entrevistas foram muito úteis na medida em que serviram de reorientação
às nossas pesquisas e nos permitiram mudar o foco em relação a provável
verdadeira origem da indiferença do Direito.
Essa origem passa pelos valores implícitos na legislação que, na forma de
princípios morais, deixam expressos critérios de certo e errado, bom e ruim. Esses
princípios estão na estrutura da lei e têm sua origem no Direito canônico e esse, por
sua vez, está fundamentado em valores característicos de antigas civilizações.
51

8 Considerações Finais

Vimos que o comportamento homossexual não é uma escolha e sim uma


orientação biológica determinada geneticamente pelo cromossomo X, chamada
lócus Xq28. Também vimos que existe o comportamento homossexual em várias
espécies de animais e em especial nos mamíferos. Também foi demonstrado que o
comportamento homossexual é tão antigo na história do homem quanto a escrita e o
cristianismo.
Isso posto, pode-se afirmar, com pouca probabilidade de erro, que o
homossexualismo em todas as suas variações é um fenômeno natural inerente aos
seres humanos, e, portanto, um direito natural. O homem tem direito à vida, tem
direito à liberdade, tem direito à privacidade, à segurança, à alimentação, à família e
a exercer sua orientação sexual, seja ela qual for.
Mas ocorre que existe um forte componente religioso que interfere na questão
sexual por meio de seus códigos morais e éticos que foram criados e perpetuados
pelas religiões que têm forte influência no ordenamento jurídico brasileiro, pois esse
é baseado no Direito romano que teve na Igreja Católica sua fiel depositária durante
toda a Idade Média.
Assim, vive-se um dilema a propósito dessa questão. Por um lado, a liberação
moral e a evolução da sociedade evidenciam a grande quantidade de pessoas
homossexuais na sociedade brasileira e mundial. Essas pessoas fazem parte da
sociedade, pagam impostos, votam e exercem sua cidadania, mas, em
contrapartida, são discriminadas, agredidas e humilhadas diariamente por conta da
omissão da lei.
Conforme a literatura sobre o tema e a opinião dos diversos entrevistados
para essa pesquisa, o homossexual não deve ser entendido como uma nova
categoria de cidadão e não deseja uma lei especial para si. Mas, para que haja
respeito, seus direitos devem ser positivados e protegidos pelo Estado e pelas
autoridades.
Jurandir Freire, em reflexão sobre o assunto, é assertivo quando diz que
“nenhum preconceito poderá ser renunciado racionalmente apenas por ser mostrada
52

a estupidez de suas crenças, sobretudo se continuarmos levando a sério os


fundamentos desta crença”. (Pereira, 1999, p.62).
O jurista Rodrigo da Cunha Pereira (1999), a propósito do assunto, nos brinda
com a seguinte observação: “Indaga-se sempre, exaustiva e inutilmente se a
homossexualidade é orgânica, psicológica ou histórico antropológica. Em minha
opinião, a única coisa interessante na noção de homossexualidade é analisar como
uma crença tão tola tornou-se plausível a ponto de merecer tanta atenção erudita.”
(Pereira, 1999, p.23)
53

9 Referencias Bibliográficas

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PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito de família. Belo Horizonte: Del Rey.1999


54

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