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(P-037)

O PLANETA LOUCO
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização
PESCADO NA NET

Revisão
ARLINDO_SAN
Finalmente chegou a grande hora do pequeno Gucky
— e o sargento Harnahan descobre uma coisa inacreditável.

Estamos no ano de 1.983. O conflito entre a Terceira


Potência e os mercadores galácticos deslocou-se para o planeta
de Goszul, um mundo que se faz de louco para expulsar de vez a
frota dos mercadores...
A história da Terceira Potência em poucas palavras:
— 1.971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan
descobre a nave exploradora dos arcônidas, que lá realizou um
pouso de emergência.
— 1.972 — A Terceira Potência é instalada apesar da
resistência conjugada das grandes potências da Terra e repele
tentativas de invasão extraterrena.
— 1.975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos
acontecimentos galácticos. Perry Rhodan se defronta com os
tópsidas no setor de Vega e procura solucionar o mistério
galático.
— 1.976 — Perry Rhodan chega ao planeta Peregrino a
bordo da Stardust-III, e juntamente com Bell alcança a
imortalidade relativa — mas perde mais de quatro anos.
— 1.980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta pela posse
de Vênus.
— 1.981 — O ataque do Supercrânio representa a provação
mais difícil que a Terceira Potência já experimentou.
— 1.982 — Os mercadores galácticos descobrem a Terra...

= = = = = = = = Personagens Principais:...= = = = = = =
Perry Rhodan — Comandante da Stardust e administrador da Terra.
Reginald Bell — Amigo e confidente de Perry Rhodan.
Sargento Harnahan — Que tem na solidão do espaço um encontro
marcado pelo destino.
Borator — Que vê cair em mãos estranhas a obra de sua vida.
Topthor — Patriarca dos “superpesados”.
Tako Kakuta, Kitai Ishibashi, Tama Yokida e John Marshall — Um
comando que terá muito trabalho, mesmo depois da libertação
do planeta.
1

Os raios de sol que penetravam pelas janelas amplas da grande sala eram refletidos
pela superfície da mesa comprida em torno da qual estavam sentados treze homens. Esses
homens tinham várias coisas em comum, que revelavam pertencerem eles ao mesmo
grupo.
Todos tinham barba espessa, que cobria metade do rosto. Sob as sobrancelhas
hirsutas via-se um par de olhos em que havia uma expressão de austeridade misturada
com um ligeiro abatimento, e que emitiam um brilho de orgulho disfarçado, que talvez
chegasse à presunção. Ainda tinham em comum o grande nariz e os lábios estreitos que se
estendiam por cima de um queixo barbudo.
As enormes cabeças assentavam sobre corpos que naquele instante pareciam
encolhidos, não revelando a força que costumavam encerrar. Os punhos robustos
descansados sobre a mesa pareciam ter perdido a energia que lhes era peculiar.
Eram os antigos donos do mundo que, derrotados, aguardavam o homem que os
subjugara.
O patriarca Ragor, que ainda continuava a ser o governador do planeta de Goszul,
estava sentado no centro do grupo de treze homens. Tal qual os outros, fugira para o
interior do edifício abandonado do governo, quando o flagelo do esquecimento fez com
que os nativos se rebelassem, e os comandantes das naves da frota dos saltadores
fugissem em pânico, submetendo o planeta de Goszul a uma quarentena de cinqüenta
anos.
Ao que tudo indicava, os saltadores, também conhecidos como mercadores
galácticos, haviam perdido uma base importante.
Ragor pigarreou.
— Eles nos fazem esperar muito — observou em tom sombrio, procurando disfarçar
a impaciência através de uma fingida calma exterior.
— É o direito do vencedor — disse seu vizinho, um gigante de cabelos escuros e
maxilares salientes. — Não podemos sair do edifício; temos de esperar. Não nos deixam
outra alternativa.
— Em compensação temos tempo para pensar — resmungou Ragor, cerrando os
punhos. — Ocuparam o posto de comando de nossos robôs; isso nos deixa indefesos.
Somos apenas treze e temos um mundo contra nós.
— Um mundo que dominávamos — murmurou um gigante de cabelos escuros em
tom profético. — Que condições nos serão impostas pelos goszuls?
Ninguém respondeu. No corredor ouviram-se passos. A porta foi aberta e três
homens entraram na sala, acompanhados por um robô de mais de dois metros de altura
que, sem receber qualquer ordem nesse sentido, assumiu seu posto junto à porta.
Os recém-vindos eram muito diferentes dos treze homens que se mantinham à
espera. Eram homens como eles, mas distinguiam-se pela pele vermelha. Além disso,
faltava neles a barba e o aspecto grosseiro do corpo. Eram esbeltos, quase delicados,
embora fossem do mesmo tamanho dos saltadores. Até então pertenciam a uma raça
desprezada, a dos nativos daquele mundo, mas de uma hora para outra viram-se
transformados nos senhores e pela primeira vez defrontavam-se com os antigos
governantes na qualidade de vencedores. Seus rostos eram francos e simpáticos. A alegria
pela liberdade recém-conquistada sobrepujava o orgulho da vitória. Os trajes simples
davam mostras do estado primitivo de sua civilização, para cujo rebaixamento os antigos
dominadores haviam contribuído bastante. Com o auxílio de um exército de robôs
submissos os saltadores subjugaram e exploraram o planeta de Goszul, até que um dia
surgiu a epidemia que atacou sete dos governantes, colocando-os fora de ação. Os
doentes continuavam no hospital, com o rosto coberto de manchas coloridas e a memória
apagada. O medo da contaminação fizera com que os demais governantes se reunissem.
Mas no momento em que quatro naves estranhas pousaram no planeta e colocaram fora
de ação o exército de robôs, não lhes restou outra alternativa senão a capitulação.
As quatro naves continuavam no grande campo de pouso espacial. Eram naves de
um tipo que nunca antes havia pousado naquele mundo. Tratava-se de gigantescas esferas
com oitocentos e duzentos metros de diâmetro. Foram elas que intervieram na luta.
Ragor fitou os três homens com os olhos semicerrados e não fez menção de
levantar-se. Com um movimento indiferente apontou para as cadeiras livres que se
encontravam do outro lado da mesa. Sabia que os goszuls eram os vencedores, mas não
aceitava a idéia de que os mesmos o tivessem subjugado pessoalmente.
Estava redondamente enganado.
Os três homens continuaram de pé. O velho telepata Enzally, que se encontrava no
centro do grupo, investigou os pensamentos dos governantes. Ao lado da resignação
encontrou sinais de resistência e de esperança secreta. No momento não pôde constatar
no que se baseava essa esperança.
Por enquanto Ralv, chefe da rebelião contra os saltadores e futuro chefe do governo
do planeta unido, mantinha-se em atitude de expectativa. Deixou as primeiras palavras
por conta de Enzally.
O terceiro homem do grupo não era goszul.
Tinha pele morena, e a altura de sua figura magra excedia a de Enzally e Ralv por
mais de dez centímetros. Nos seus olhos não havia o brilho mortiço produzido pelos anos
de medo e escravidão; bem ao contrário, os mesmos fulguravam com a consciência da
força e do poder e a certeza de uma imensa superioridade mental. Os treze governantes
não conheciam o uniforme simples que aquele homem trajava. Nunca o haviam visto
naquele planeta.
Só havia uma explicação: aquele homem não era um nativo. Viera numa das quatro
naves, pertencendo à raça que havia infligido a derrota aos saltadores.
Ragor chegou à mesma conclusão, que não o deixou muito feliz.
Sentir-se-ia ainda menos feliz se soubesse que se encontrava diante de Perry
Rhodan, que tinha bons motivos para não revelar sua identidade. Nem todas as tarefas a
serem cumpridas no planeta de Goszul estavam concluídas. Muito embora, ao que tudo
indicava, os treze governantes não mantivessem qualquer espécie de contato com os
companheiros de raça que haviam fugido para o espaço, preferiu não assumir riscos.
Fez um sinal para Enzally, que se mantinha na expectativa.
— Obrigado; preferimos ficar de pé — disse o telepata, que era o único jamais
nascido naquele mundo. — Se aceitarem nossas condições, não demoraremos em chegar
a um acordo. Os senhores perderam e estão indefesos. Nem mesmo os robôs lhes
prestarão obediência, pois foram reprogramados. Sabem perfeitamente o que isso
significa. Daqui em diante obedecerão às nossas ordens, e trabalharão para nós. O resto
dos saltadores fugiu com suas naves, deixando-os desamparados. Não pretendemos matá-
los, mas vamos isolá-los. Pensamos numa ilha do oceano ocidental, onde passem bastante
tempo em um clima saudável. Ali poderão passar o resto dos seus dias num ambiente de
paz e tranqüilidade. O regresso ao seu mundo não é possível, já que não possuem
nenhuma nave.
Enzally calou-se e olhou para Ragor. Sem que os ex-governantes soubessem, seus
pensamentos estavam sendo estudados até as profundezas do subconsciente. Nada ficava
oculto ao telepata.
Os treze homens cochicharam entre si. Alguns deles falaram, mas a um gesto de
Ragor calaram-se.
— O que será feito dos sete governantes que foram atacados pelo flagelo do
esquecimento? — perguntou. — Devemos deixá-los para trás?
— Irão para a ilha com vocês.
— Querem que eles nos contaminem? — disse Ragor indignado. — Se é que a
epidemia ainda não chegou à tal da ilha, isso não demorará muito.
Perry Rhodan fez um sinal para Enzally e tomou a palavra.
— Trouxemos um soro, Ragor. A epidemia foi rebaixada ao nível de uma doença
inofensiva. Ainda bem que isso só aconteceu depois da fuga dos comandantes dos
saltadores. Aplicaremos uma injeção em vocês, e nunca adoecerão. Os sete governantes
que encontramos no hospital já sararam. Irão à ilha com vocês.
Ragor lançou um olhar atento para Rhodan.
— Vocês não são deste mundo, não é?
— Não. Meu planeta fica a mais de mil anos-luz daqui.
— Por que intervieram no conflito?
— Porque estamos interessados em que os povos oprimidos alcancem o auto
governo. Ou, em outras palavras, ajudamos os goszuls a libertar-se do colonialismo.
— Será que não terão nenhum lucro com isso?
— Teremos, sim, Ragor. Mas não há de pensar que eu lhes conte tudo. O que têm de
fazer é apenas responder a uma pergunta: querem submeter-se voluntariamente à decisão
do novo governo deste mundo, que lhes concede o exílio?
Antes de responder, Ragor lançou um rápido olhar para os companheiros:
— Se possuíssemos uma nave, poderíamos sair do planeta de Goszul?
Rhodan confirmou com um gesto.
— Se possuíssem, sim; acontece que não possuem.
Mais uma vez Ragor hesitou; mas já era tarde.
Subitamente Enzally sorriu e, dirigindo-se a Rhodan, disse:
— Já sei onde está a nave, senhor. Podemos encerrar a palestra.
Ragor lançou um olhar de perplexidade para o telepata, que sem mais aquela
revelava o mais precioso dos seus segredos. Parecia que o mundo acabara de desabar,
soterrando suas esperanças. Pretendia conseguir uma pausa, e possivelmente alguns robôs
de serviço. Com isso dentro de poucos dias o enorme couraçado que se encontrava no
estaleiro escondido nas montanhas poderia decolar. Nesse caso executaria uma operação
de retaliação e fugiria para o espaço juntamente com seus companheiros de raça.
E agora...
Enzally parou de sorrir. Com a voz fria disse:
— Obrigado, Ragor, já basta. Estou vendo que nossas intenções foram boas demais.
Serão levados à ilha ainda hoje. — Dirigindo-se a Rhodan, prosseguiu: — Pretendiam
apoderar-se de um couraçado dos saltadores, destruir o planeta de Goszul e voltar para o
setor da Via Láctea de onde vieram. São umas criaturas adoráveis.
— A mentalidade deles não sabe conformar-se com a idéia da derrota, por isso as
idéias de Ragor não podem servir de padrão para toda a raça dos saltadores. Tenho
certeza de que um dia chegaremos a um acordo com eles. Não será aqui, nem será com
estes governantes, mas com outros de sua raça. É preferível encerrarmos este capítulo.
Ralv, cumpra sua tarefa. Enzally, vamos embora. Não temos mais nada com o que
acontecerá daqui em diante. Com passos firmes Rhodan e Enzally saíram da sala.
Passaram pelo robô imóvel, cujas lentes de cristal estavam rigidamente fixadas
sobre os treze saltadores aos quais já obedecera.
E agora os levaria para o exílio.
O planeta de Goszul era o segundo dos sete mundos que gravitavam em torno da
estrela 221-Tatlira. Era o nome sob o qual constava nos mapas estelares dos saltadores.
Distava 1.012 anos-luz da Terra, sendo desconhecido dos astrônomos do planeta.
Numa ação incruenta, o Exército de Mutantes de Perry Rhodan conseguira
reconquistar aquele mundo transformado numa base dos saltadores, devolvendo-o aos
seus donos. Os quatro mutantes dirigidos por John Marshall, o telepata, fizeram irromper
uma epidemia artificial, que no primeiro estágio fazia surgir manchas na pele e
posteriormente parecia atacar o cérebro. As pessoas atacadas pela moléstia perdiam a
memória. Naturalmente havia um soro contra a doença, mas os saltadores não sabiam
disso.
Dominados de pavor, puseram-se em fuga e deixaram os vinte governantes
entregues ao seu destino.
Algumas semanas depois do início da epidemia, seus efeitos cessaram. As pessoas
atacadas recuperaram a memória, e o cérebro passou a funcionar melhor que antes. As
manchas na pele desapareceram. Mesmo as pessoas que não recebiam a injeção de soro
recuperavam a saúde, embora isso demorasse algumas semanas.
Os saltadores que haviam fugido não deixariam de notar isso; Rhodan sabia disso.
Mas também sabia do estado de pânico que devia apoderar-se daquela raça tão evoluída
no terreno da medicina. Acreditariam que o restabelecimento não passava de um simples
acaso, e por algum tempo prefeririam não pisar no planeta de Goszul.
Nesse ponto Rhodan estava enganado, mas soube disso em tempo. No momento
estava tão ocupado com os problemas do presente que não tinha tempo para pensar no
futuro.
Em algum lugar nas montanhas ficava o estaleiro secreto dos saltadores, onde os
robôs de serviço estavam dando os últimos retoques num gigante do espaço como nunca
fora construído igual. Pelo que Enzally lera nos pensamentos de Ragor, essa nave,
construída segundo os projetos mais recentes dos engenheiros mais capazes dos
saltadores, deixava para trás até mesmo as conquistas dos arcônidas.
Rhodan tinha que apossar-se dessa nave.
Só por isso ainda não saíra daquele mundo para retornar à Terra, onde tarefas muito
importantes o aguardavam.
***
A conferência de campanha foi realizada na ampla sala de comando da Stardust. A
gigantesca esfera espacial de oitocentos metros de diâmetro, cercada pelos cruzadores
Terra, Solar System e Centauro, encontrava-se no campo de pouso da Terra dos Deuses,
nome que os nativos davam ao continente em que os saltadores haviam instalado suas
bases.
Reginald Bell estava sentado ao lado de Perry Rhodan. Seus rebeldes cabelos ruivos
cortados à escovinha estavam deitados para trás, mas revelavam uma tendência
irresistível de assumir a posição vertical.
Os mutantes John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi e Tama Yokida estavam
um pouco mais afastados, sentados em dois sofás. À sua frente encontravam-se os
representantes do governo do planeta de Goszul. Ralv, o chefe da rebelião contra os
saltadores, já desempenhava as funções de chefe do governo do mundo recém-libertado.
Ao lado dele encontrava-se, quieto e humilde como sempre, o telepata Enzally, um goszul
de certa idade. Era o único mutante que o planeta havia produzido. O terceiro
representante dos nativos era Geragk, um dos subchefes dos grupos de resistência que se
opunham ao domínio dos saltadores e eram dirigidos por Ralv.
Ainda estavam presentes os comandantes dos três cruzadores, que com seus
duzentos metros de diâmetro pareciam anões perto da Stardust, mas eram construções de
uma perfeição técnica quase inconcebível. Sentado entre o major Nyssen e o major
Deringhouse, o capitão MacClears nem se parecia dar conta de sua patente inferior.
— Os vinte governantes já se encontram na ilha e com isso devem estar fora de jogo
— principiou Rhodan, lançando um ligeiro olhar para Ralv. — Espero que ninguém os
ajude a fugir, nem procure praticar qualquer ato de vingança contra eles. Com isso o
planeta de Goszul está livre e encontra-se nas mãos de seus legítimos donos. Espero que
saibam transformá-lo num belo mundo.
Ralv sentiu que essas palavras eram dirigidas a ele. Com um gesto de autoconfiança
disse:
— Confie em nós. Saberemos ser gratos, restituindo a liberdade ao nosso povo. E
não temos nada a opor a que instalem uma base neste planeta e negociem conosco.
— Nesse caso poderíamos despedir-nos — disse Bell com um gesto grandioso. —
Apenas aquela nave enorme dos saltadores...
— Apenas? — interrompeu-o Rhodan em tom enfático. — Essa nave me preocupa
bastante. Enzally vigiou os governantes e descobriu que o estaleiro fica nas montanhas, a
uns cinqüenta quilômetros daqui. Cerca de trinta robôs e especialistas em robôs
trabalham no mesmo. Gozam de independência total, não dependendo de nenhum
organismo de controle. O estaleiro é protegido por um contingente de cem robôs de
combate, que foram programados, para atacar qualquer coisa que não se pareça com um
saltador. Por isso não existe a menor possibilidade de colocá-los fora de ação por meio da
desativação de algum posto central. Devem ser dominados e desativados um por um. É
um trabalho e tanto.
— Por que faz tanta questão de apoderar-se dessa nave dos saltadores? — perguntou
Bell.
— É simples, Bell. Sabemos que é a nave mais moderna que já foi construída. Suas
instalações e sua sofisticação técnica ultrapassa qualquer coisa que possamos imaginar.
Para nós a civilização arcônida é o padrão que nos serve de guia, mas não se esqueça de
que os arcônidas dormiram durante oito mil anos. Isso não aconteceu com os saltadores,
que se separaram de seu império. Continuaram a desenvolver sua tecnologia e sob certos
aspectos alcançaram uma nítida superioridade sobre os arcônidas. Tenho certeza absoluta
de que essa nave representará uma surpresa para todos. Estou curioso; é só isso.
Bell sorriu.
— Será que realmente está apenas curioso?
Rhodan sorriu de volta, mas logo voltou a tornar-se sério.
— Vê-se, portanto, que precisamos dessa nave, nem que seja apenas para examiná-
la. Não podemos recorrer à força, pois isso levaria os robôs a destruir a nave quando não
tivessem mais nenhuma saída. Não tenho a menor dúvida de que sua programação inclui
instruções nesse sentido.
— Como poderemos impedir que ajam assim?
— Devemos usar a surpresa e blefar. Ainda não sei como faremos isso. Antes de
mais nada precisamos saber a quantas andamos. Gucky nos dará algumas informações.
Está no estaleiro desde hoje de manhã.
As palavras de Rhodan provocaram certa surpresa, pois nenhum dos presentes sabia
que o rato-castor havia recebido esse tipo de incumbência.
— Gucky? — gemeu Bell. — Gucky está no estaleiro?
Rhodan fez que sim.
— Quem melhor que nosso amiguinho para executar uma tarefa desse tipo?
Primeiro, é o mutante mais perfeito que conhecemos. Além da telepatia domina a
telecinésia e a teleportação. Saberá defender-se e colocar-se num lugar seguro sempre que
a situação se torne crítica. Além disso, não se parece com um homem; tem o aspecto de
um rato superdimensionado. É bem possível que os robôs acreditem terem diante de si
um animal inofensivo e nem se interessem por ele.
— Pelo que conheço de Gucky — disse Bell — ele ficará furioso se os robôs o
ignorarem.
— Acho que é muito inteligente para tomar uma atitude dessas — objetou Rhodan.
— Seja como for, aguardo Gucky de um momento para outro. Sabe que estamos aqui na
Stardust, aguardando as informações que ele nos trará.
Um dos oficiais que se encontrava num ponto mais afastado pigarreou.
— Pois não — disse Rhodan, convidando-o a dar sua opinião.
O major Deringhouse, que comandava o cruzador recém-construído Centauro e o
número reduzido de caças capazes de desenvolver a velocidade da luz que se
encontravam nos seus hangares deu um sorriso um tanto matreiro.
— Permite uma sugestão? Não vejo por que complicar as coisas. A qualquer
momento posso colocar os robôs fora de ação, atacando o estaleiro com cinqüenta caças
espaciais.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isso seria um procedimento puramente militarista e pouco inteligente. Um único
robô seria suficiente para detonar a carga explosiva que talvez já tenha sido preparada,
mandando para os ares o estaleiro e a nave. Precisamos de um estratagema. E o senhor há
de reconhecer que nesse terreno conseguimos acumular alguma experiência.
Deringhouse esteve a ponto de responder, mas o sorriso zombeteiro de Bell fez com
que preferisse ficar calado. Mais uma vez aquele sujeito ruivo que se encontrava ao lado
de Bell parecia saber alguma coisa que não queria contar.
— Quando Gucky deverá voltar? — perguntou John Marshall, o telepata do
pequeno grupo de mutantes que já havia atuado no planeta de Goszul. Rhodan deu de
ombros.
— Aguardo-o a qualquer momento, mas uma porção de acontecimentos pode
retardar seu regresso. Se for necessário, Tako também terá que arriscar o salto para ver
por onde anda.
O japonês Tako também era um teleportador. Bastava a força de sua vontade para
que se desmaterializasse e voltasse a transformar-se em matéria no local em que
escolhesse. Isso acontecia numa fração de tempo, motivo por que Tako podia vencer
instantaneamente qualquer distância. Exibiu seu sorriso tranqüilo e humilde e respondeu:
— Se for necessário, poderei ir imediatamente. Quem sabe se Gucky não caiu em
alguma armadilha e está precisando de auxílio?
— Vamos esperar mais trinta minutos, Tako — disse Rhodan, sacudindo a cabeça.
— Só depois disso terminará o prazo que Gucky e eu combinamos. Até lá teremos que
dar-lhe uma chance.
Bell lançou um olhar pensativo para as telas apagadas dos aparelhos de controle. Ao
que parecia sua mente estava ocupada com um problema e procurava a resposta.
Finalmente falou, saindo por completo do tema até então tratado:
— Não sei por que tanto mistério. Bem que poderiam saber quem lhes infligiu a
derrota.
— Há vários motivos para que não saibam. Como sabemos, o clã do patriarca Etztak
faz muita questão de presentear-nos com seu regime colonial. Uma vez já conseguimos
expulsá-lo do sistema solar. Não pense que com isso o assunto está liquidado. Um belo
dia voltará, e estou interessado em adiar esse fato o mais que posso. Se acreditar que
neste sistema tem diante de si outro inimigo, também muito poderoso, isso lhe dará o que
pensar. Dois inimigos num espaço relativamente reduzido representam uma situação
bastante crítica. Quando souber que também aqui foi a Terra que lhe estragou os planos,
não contará tempo para mobilizar todo o poderio dos saltadores a fim de destruir nosso
planeta.
— É verdade — respondeu Bell, captando um olhar encorajador do major
Deringhouse que, segundo parecia, também gostaria de conhecer os motivos da atitude de
Rhodan. — Mas será que temos motivos para temer os saltadores?
Rhodan esboçou um sorriso frio.
— A superioridade numérica nos esmagaria. Além disso, sempre acho preferível
realizar negociações com um inimigo que um dia poderá conduzir a um acordo que
assumir a responsabilidade por milhões de mortes. No momento não podemos concretizar
nenhuma dessas alternativas, já que Etztak e seus amigos fugiram da terrível epidemia
que nem existe. Levará muito tempo para descobrir que a doença não é perigosa.
— E os outros saltadores? — perguntou John Marshall. — Há muitos clãs e todos
eles mantêm contato entre si, embora não possuam uma pátria propriamente dita além de
suas naves. Será que não voltarão para salvar as instalações técnicas aqui existentes?
— O senhor se esquece da quarentena a que o planeta está submetido — lembrou
Rhodan. — Ninguém tem permissão para pousar no planeta de Goszul. Ao menos
nenhum saltador. — Seu sorriso aprofundou-se. — Além disso, não acredito que qualquer
saltador teria coragem de enfrentar uma doença desconhecida apenas para resgatar alguns
robôs, muito embora estes representem um elevado valor material.
— E a nave? — lembrou Bell.
Naquele momento ninguém desconfiava de que Rhodan se esquecera de muita coisa
além da nave. Só saberiam disso bem mais tarde...

***

Gucky teve bastante inteligência para pousar a uma boa distância do misterioso
estaleiro espacial, em meio à selva montanhosa.
Teve sorte. O salto para o desconhecido levou-o para um planalto pedregoso em que
cresciam algumas árvores raquíticas, que lhe proporcionariam abrigo se aparecesse
alguém. Pelos seus cálculos o estaleiro não devia ficar a mais de dois ou três quilômetros.
Como tivesse preguiça de andar, pretendia vencer essa distância com alguns saltos bem
calculados. Quem visse Gucky compreenderia por que não fazia muita questão de andar.
Parecia um gigantesco rato com o rabo achatado de um castor.
As grandes orelhas afinavam nas pontas e geralmente se mantinham de pé. O pêlo
ruivo era liso e flexível. As perninhas do animal, que tinha mais de um metro de altura,
pareciam desajeitadas. Sua inteligência era muito superior à de um homem normal.
Em seu mundo frio, que girava em torno de um sol solitário, era considerado um
fenômeno, pois os indivíduos de sua raça possuíam apenas o dom da telecinésia,
enquanto Gucky ainda era um telepata e sabia deslocar-se por meio da teleportação.
Agachado sobre as patas traseiras, o rato-castor deixou que seus olhos penetrantes
corressem para todos os lados, examinando os detalhes do terreno que oferecia pouca
visibilidade. Não captou nenhum pensamento, e isso nem era possível. Um robô não
pensa como um ser orgânico. Seus impulsos não podem ser captados, ao menos por um
cérebro telepático.
Os raios de sol dardejavam sobre a superfície rochosa. Gucky, que apreciava o frio,
começou a transpirar. Para enxergar melhor, subiu e, depois de ter atingido a altura de
vinte metros, parou no ar. Ali em cima era mais fresco. O estaleiro devia ficar ao norte.
Gucky não viu outra coisa senão encostas rochosas íngremes e grotas entrecortadas. Por
que os saltadores haviam escolhido um local desolado como este para construir uma
nave? Provavelmente se sentiam seguros por aqui.
Subitamente um relampejo atingiu seus olhos, vindo de longe. Parecia o reflexo de
um raio de sol sobre uma superfície de metal polido.
Gucky forçou a vista e reconheceu um robô que a menos de mil metros de distância
patrulhava lentamente o terreno. Encontrava-se exatamente na entrada de um dos
numerosos vales.
Não era nenhuma coincidência!
O rato-castor fixou a direção e deixou-se descer ao solo. Concentrou-se
cuidadosamente sobre uma rocha pontuda que ficava a pequena distância da entrada do
vale... e saltou.
No mesmo instante rematerializou-se atrás da rocha, respirou profundamente e saiu
a passos balouçantes, como se fosse um coelho gigante radicado nessa área que estivesse
à procura de comida. O procedimento não tinha nada de estranhável. Era quase certo que
os robôs haviam sido programados no sentido de verem seus inimigos apenas nos goszuls
nativos.
O monstro metálico prosseguiu no patrulhamento da entrada do vale que media
menos de cinqüenta metros de largura, sem interessar-se por Gucky, para quem o
espetáculo representava uma experiência vital. Se o robô não reagisse à sua aproximação,
poderia deslocar-se livremente. Era bem verdade que a idéia de não ser levado a sério não
era nada agradável, mas em outra oportunidade ele se vingaria.
A menos de trinta metros do robô Gucky ficou sentado, estudando atentamente o
inimigo. Os braços angulosos terminavam nos canos em espiral dos mortíferos radiadores
energéticos. O rato-castor sabia perfeitamente que os mesmos o volatilizariam numa
questão de segundos, se o cérebro positrônico do gigante de mais de dois metros o
considerasse como inimigo. Felizmente isso não acontecia. O robô nem sabia o que era
um rato-castor. Enquanto Gucky mantivesse uma atitude pacífica, nunca seria
identificado como possível inimigo.
A antena encolhida do robô indicava que ele não estava em contato com qualquer
central de comando, mas era dirigido por meio de comandos individuais armazenados em
seu cérebro. Bastaria aproximar-se dele para desativá-lo e paralisá-lo. Mas isso não era
tão simples assim, pois assim que o robô constatasse a presença de inteligência num ser
que não se parecesse com um saltador, esboçaria uma reação hostil. Gucky não soube
lidar com o problema. Resolveu verificar se o cérebro positrônico o registraria como ser
não dotado de inteligência.
Pôs os quatro pés no chão e foi saltitando diretamente para o vigilante silencioso,
que prosseguiu na sua ronda. Manteve-se preparado para um salto de teleportação, a fim
de poder colocar-se em segurança assim que isso se tornasse necessário.
Se Bell visse seu amiguinho nessa situação, teria soltado uma gargalhada de
escárnio. Gucky, o mutante todo-poderoso, transformado num supercoelho! Era uma
idéia mais que esquisita. Felizmente Bell não estava por perto e assim não pôde deleitar-
se com o espetáculo, que não despertou o menor interesse no robô.
Este simplesmente ignorou Gucky.
O rato-castor teve vontade de recorrer às suas energias telecinéticas para levantá-lo a
uma altura de cinqüenta metros e fazê-lo cair ao chão, como já fizera com outros robôs.
Mas tinha que ater-se à tarefa que lhe fora confiada por Rhodan. De sua parte também
ignorou o robô e, passando junto dele, saltitou vale a dentro.
Assim que tinha passado pelo monstro metálico foi saltitando de costas, para não ser
liquidado de surpresa. Mas a precaução revelou-se inútil. O robô achava que se tratava
dum animal inofensivo que ia procurar comida no vale, ou se dirigia a alguma das raras
fontes existentes naquela área desolada.
O vale logo se abriu, mas continuou seco. Apenas a vegetação mais abundante
revelava a maior umidade do solo. Gucky continuou a saltitar até que uma curva o
colocasse fora do alcance da visão do robô.
Sentiu-se aliviado. Pôde dedicar sua atenção ao que havia pela frente, e viu que
valia a pena.
O vale abriu-se a ponto de se transformar numa bacia de mais de um quilômetro de
diâmetro. As encostas rochosas íngremes formavam um obstáculo intransponível para
qualquer visitante indesejado. Ninguém poderia entrar ali e, uma vez lá dentro, não
conseguiria sair, a não ser que possuísse asas. Havia pavilhões baixos que abrigavam as
máquinas e as usinas, mas isso Gucky só percebeu em segunda linha.
A abertura existente na encosta de mais de quinhentos metros ocupou toda sua
atenção.
Tinha uma altura de mais de duzentos metros e sua largura era ao menos igual à
altura. Uma luz abundante saía da escuridão da montanha, deixando perceber o envoltório
metálico reluzente da nave espacial quase concluída, inteiramente oculta das vistas dos
curiosos. Se as informações de Rhodan fossem corretas, o túnel que penetrava na
montanha devia ter pelo menos oitocentos metros de comprimento.
Os saltadores não poderiam ter escolhido um esconderijo melhor que esse.
Uma fileira de robôs de combate bloqueava a única saída da bacia. Mantinham-se
imóveis, de frente para Gucky que, agachado entre algumas moitas, fez de conta que se
deleitava com o capim escasso que crescia entre as pedras, sem interessar-se pelos robôs
ou pela nave.
Ao que parecia, até mesmo os cérebros positrônicos acreditavam que um
vegetariano é uma criatura que não pode fazer mal a ninguém. Mais uma vez Gucky teve
de notar, cheio de ressentimento, que não era levado a sério e ninguém via nele um
intruso.
Mas de certo modo isso o deixava satisfeito.
Era bem verdade que não poderia recorrer à teleportação, pois os robôs
interpretariam tal atividade como um sinal de inteligência e reagiriam de forma adequada.
Por isso o rato-castor não teve outra alternativa senão continuar a pastar e aproximar-se
lentamente da reluzente linha de defesa.
Talvez conseguisse chegar mesmo à própria nave espacial. Quanto maior o volume
de informações que conseguisse levar a Rhodan, mais fácil se tornaria a ação que
pretendiam lançar contra o estaleiro.
Saltitou para diante, sem sentir-se muito à vontade.
Cerca de trinta robôs bloqueavam o vale. Como se formassem em semicírculo
dirigido para fora, a distância entre um e outro era de cerca de cinco metros. Era um
desperdício tremendo, pois o poder defensivo de um robô é enorme. Bastava um deles
para defender o vale contra um exército que pretendesse invadi-lo.
Concluía-se que os saltadores davam muita importância àquela nave.
Gucky não teve muito tempo para refletir. Enojado, enfiou o feixe de capim atrás do
dente roedor, esperando poder cuspi-lo dali a pouco. Tinha que guardar as aparências. No
planeta de Goszul existia um tipo de coelho, e teria que imitar o mesmo.
Gucky não pôde impedir que os pêlos da nuca se arrepiassem à vista das máquinas
de guerra, agora tão próximas, que mantinham os radiadores energéticos firmemente
apontados para a frente. Era bem possível que os robôs já estivessem há meses no mesmo
lugar, mas era evidente que não se importavam com isso. Não tinham a menor idéia de
tempo e de espaço quando incumbidos de uma tarefa de expectativa e vigilância. Dali a
mil anos ainda estariam no mesmo lugar, se não recebessem qualquer ordem em
contrário. Bem, para Gucky tudo isso não importava, desde que não tomassem
conhecimento da sua presença. Saltitou mais alguns metros e parou junto a um suculento
feixe de capim.
O robô mais próximo, que se encontrava a uns vinte metros de distância, executou
um movimento preguiçoso, dirigindo suas lentes cintilantes sobre o intruso. Seus
vizinhos não esboçaram qualquer reação.
Gucky teve uma sensação esquisita no estômago, o que não foi devido apenas à
deglutição do capim. Reuniu toda a coragem que possuía e pôs-se a devorar maiores
quantidades daquela comida repugnante, para conseguir uma semelhança ainda maior
com um coelho nativo.
Quem dera que pudesse teleportar-se! Mas com isso poderia estragar os planos de
Rhodan. Os robôs saberiam que o estaleiro fora descoberto por seres inteligentes.
Reagiriam em conformidade com esse fato, e seria bem possível que destruíssem a nave,
se não tivessem outra saída. Gucky tinha certeza de que já tinham conhecimento da fuga
dos comandantes dos saltadores.
O sabor do capim era horrível.
O feixe mais próximo encontrava-se exatamente entre os dois robôs postados diante
de Gucky. O rato-castor reuniu as últimas energias e foi saltitando em direção ao mesmo.
Conteve a respiração, para poder se desmaterializar a qualquer momento. Mas essa
medida extrema de salvação teria de ser evitada enquanto isso fosse possível.
O robô mais próximo girou lentamente em sua direção. O braço esquerdo fechou-se
num ângulo e apontou exatamente na direção de Gucky, que ainda não se atreveu a
respirar e continuou a saltitar em movimentos seguros, procurando atingir a moita de
capim que subitamente parecia bastante apetitosa.
Eram segundos de tensão quase insuportável. Será que o robô julgaria conveniente
destruir o animal aparentemente inofensivo? Se fosse assim, ele não o faria para matar o
tempo, pois um robô não conhece o tédio. Nesse caso a programação incluiria uma
proibição de entrar no vale que abrangia todo e qualquer ser vivo.
Mas, por que o robô postado na entrada não agira dessa forma?
O gosto não melhorara nem um pouco, mas Gucky teve a impressão de nunca ter
comido nada que fosse mais saboroso. Essa impressão só durou até o momento em que o
dente-roedor iniciou sua tentativa inútil de triturar o capim.
O robô dedicou um interesse visível à pastagem de Gucky. Seu braço armado
manteve-se estendido, pronto para disparar, mas se tivesse a intenção de destruir o
pequeno roedor, já o teria feito. Não havia nenhum fundamento lógico para a demora.
O raciocínio ágil de Gucky logo compreendeu isso. Num gesto heróico engoliu o
capim sem mastigar. Seu estômago quis revoltar-se, mas isso não durou muito.
Estremecendo por dentro, ignorou o robô que continuava vigilante e continuou a comer.
O cérebro positrônico do guarda metálico registrou o fato: era um ser vivo que não
se parecia com um saltador, mas também não se parecia com um goszul ou qualquer
outro ser inteligente. Era um animal que não possuía inteligência, pois de outra forma
evitaria a vizinhança das máquinas de combate. Não pensa; logo, não é perigoso. Ainda
acontece que come capim; logo, é um ser nativo deste mundo. E, como os goszuls são os
únicos inimigos que os saltadores têm neste planeta...
A conclusão era evidente: o herbívoro era um ser inofensivo.
Aliviado, Gucky notou que o braço armado se abaixou e o robô voltou a dirigir seu
olhar para a entrada do vale. O pior, que era a experiência para valer, havia sido vencido.
Agora não devia precipitar nada.
Guiando-se por essa regra, continuou a pastar tranqüilamente e quase chegou a
estourar o estômago. Saltitou em direção ao edifício mais próximo.Sentiu um estranho
calafrio nas costas, mas resistiu à tentação de olhar para trás. O que aconteceria se o robô
colocasse em funcionamento outro circuito de seu mecanismo e tomasse uma decisão
diferente? O rato-castor não se tranqüilizou muito com a idéia de que não sentiria sua
morte repentina.
Ignorou a moita de capim mais próxima e continuou a saltar. Com um alívio
indescritível dobrou pela quina do edifício alongado, colocando-se fora das vistas do
robô.
Soltou um suspiro de alívio.
A entrada do estaleiro escavado na rocha ficava a uns duzentos metros do lugar em
que se encontrava. Nesse trecho havia vários pavilhões e objetos empilhados ao ar livre.
Eram armações metálicas, peças reluzentes do casco, pequenos andaimes e caixas
enormes. Robôs de trabalho com uma programação especial predeterminada moviam-se
entre os pavilhões, executando suas tarefas. Do túnel saíam ruídos dos mais diversos
tipos, que não permitiam a menor dúvida de que ainda se estava trabalhando na
construção da nave.
Os robôs não haviam recebido contra-ordem; por isso concluiriam o trabalho.
Ninguém sabia o que aconteceria depois.
Rhodan não podia assumir o risco de permitir que os robôs saíssem para o espaço
com a nave recém-concluída, dirigindo-se para um local de encontro predeterminado.
Gucky sabia disso. Precisava descobrir quando começaria o estágio crítico.
Dez metros à esquerda abriu-se uma porta e um robô de trabalho saiu de um
pavilhão. Segurava alguns desenhos, que deviam reproduzir a nave concluída. Não trazia
armas como os robôs de combate, que Gucky via em todos os cantos. Mas nem por isso
era menos perigoso.
Sentado sobre as patas traseiras, Gucky mastigava uma folha de capim, que parecia
representar a própria imagem da bem-aventurança. Os estaleiros, os depósitos, os
pavilhões e os robôs — tudo isso não o interessava nem um pouco. Para ele só existia o
delicioso capim que encontrara naquele vale.
O robô devia ter chegado à mesma conclusão. Sem tomar conhecimento da presença
de Gucky, deslocou-se numa série de movimentos abruptos em direção ao túnel, onde se
encontrou com outros robôs, com os quais encetou uma palestra.
“Ainda bem”, pensou Gucky, cuspindo o capim com uma sensação de alívio. Pelo
menos desta vez não teve de engoli-lo. Enquanto isso não tirou os olhos do trecho que ia
até a entrada do túnel. Infelizmente isso fez com que não prestasse atenção ao que se
passava atrás dele.Ouviu passos, mas antes que tivesse tempo de virar-se, uma ponta de
bota atingiu-o pelo lado e atirou-o alguns metros para cima. Por um instante Gucky
pensou ter quebrado todos os ossos do corpo, especialmente quando aterrizou no chão de
rocha e ficou deitado, quase sem fôlego. Estava tão surpreso que nesse momento de
perigo não conseguiu teleportar-se para um lugar seguro. Além disso, conseguiu ver
quem lhe dera o pontapé.
Era um saltador.
A barba ruiva constituía indício seguro de que não se tratava de um goszul. E o
corpo maciço também revelava que pertencia à classe dos mercadores que já dominaram
o planeta. Usava botas pretas e calça apertada. Pela capa branca concluía-se que era um
cientista. Uma cabeleira desgrenhada cobria sua cabeça.
Murmurou algumas palavras num dialeto que Gucky não entendeu e continuou a
andar tranqüilamente, sem interessar-se por sua vítima. Finalmente o rato-castor teve
oportunidade de usar suas capacidades telepáticas, que há poucos segundos negligenciara
tanto. Se não tivesse procedido assim, teria notado a aproximação do saltador.
— Era só o que faltava, esses bichos andarem pelo vale. — Foi o que o saltador
disse em sua língua desconhecida. Falando em intercosmo, acrescentou: — Terei que dar
outras instruções aos robôs, senão acabamos tropeçando sobre esses comedores de capim.
Enquanto prosseguia na sua caminhada, Gucky acompanhou seus pensamentos e
descobriu que o nome do saltador era Borator e que exercia as funções de diretor-técnico
do projeto, sendo o único saltador que se encontrava no local.
Isso tinha suas vantagens. Agora, que passou a prestar atenção aos pensamentos do
saltador, não teve a menor dificuldade em seguir e captar os pensamentos do saltador,
pois não havia necessidade de classificar e interpretar um fluxo de impulsos. Em todo o
vale só havia os pensamentos daquele saltador; o resto era silêncio. Tinha que procurar
um esconderijo onde ninguém o perturbasse e pudesse perceber os pensamentos do
saltador.
Levantou devagar. Ainda sentia dores no lado. Teve de controlar-se para não vingar-
se logo do grosseirão, mas este não perderia por esperar. Aquele saltador ainda se
arrependeria amargamente da sua crueldade, foi o que Gucky prometeu a si mesmo para
acalmar seu gênio. Faria esse Borator subir para o ar cinqüenta metros e o deixaria
pendurado lá um dia inteiro. E depois...
Suas visões de futuro e de vingança foram interrompidas por novos passos. Um robô
de trabalho passou junto dele com o olhar estúpido, sem dar-lhe a menor atenção. Aí está,
pensou o rato-castor amargurado. Os robôs são mais humanos que os seres inteligentes.
Ao menos deixavam-no em paz.
Gucky encontrou um esconderijo seguro atrás de uma pilha de caixas. Ali não teria
que temer qualquer surpresa, pois antes que pudessem encontrá-lo teriam de remover a
maior parte das caixas, e ele não deixaria de perceber isso, mesmo que estivesse
dormindo.
Finalmente teve tempo e tranqüilidade para cuidar do tal do Borator. Com a maior
capacidade captou os pensamentos do mesmo, e assim conseguiu “ouvir” o que dizia aos
robôs. Não entendia as respostas destes, pois sem um receptor especial Gucky não
poderia perceber os impulsos positrônicos emitidos pelos mesmos. Assim mesmo
conseguiu descobrir coisas que eram muito importantes para os planos de Rhodan.
Soube, principalmente, que dali a seis dias o gigantesco cruzador espacial guardado
no túnel devia estar pronto e em condições de decolar.
Em condições de decolar?
Seria no dia 25 de maio de 1.984 do calendário terrestre. Era um lapso
extremamente curto, pois havia muito que fazer. Não podia perder um minuto. Gucky não
perdeu tempo. Concentrou-se para a Stardust, que se encontrava a cinqüenta quilômetros
dali... e saltou.
Materializou-se bem no colo de Bell.
2

Exatamente vinte horas-luz da estrela 221-Tatlira, doze naves de duzentos metros de


comprimento, construídas em formato cilíndrico, saíram do hiperespaço e retornaram ao
universo normal.
Havia mais uma nave, que se mantinha um tanto afastada. Media mais cem metros
que as outras, mas seu formato também lembrava o de um cilindro arredondado na
extremidade. No casco abriam-se vigias redondas e iluminadas, atrás das quais se
moviam sombras distorcidas, que assumiam proporções gigantescas. Seriam apenas
distorcidas?...
Topthor, o comandante da frota, acomodara o peso de mais de meia tonelada de seu
corpo junto aos controles de comando. Seu corpo tinha mais de metro e meio de altura,
mas a circunferência do mesmo media mais de cinco metros. Em outras palavras, a
largura era igual a altura. O crânio liso era o de um saltador, o que se via pela barba ruiva
aparada.
As telas iluminaram-se, retratando o sistema do qual a frota se aproximava à
velocidade da luz.
As mãos pesadas de Topthor descansavam sobre uma folha de plástico coberta de
caracteres estranhos. Nessa folha estavam os motivos por que mais uma vez teve de
imiscuir-se nos problemas alheios. Afinal, era este seu dever... e sua profissão.
É que o clã de Topthor, geralmente conhecido como o clã dos superpesados,
assumira na comunidade dos mercadores galácticos o papel dos bombeiros. Não
negociavam com mercadorias, mas com a guerra. Sempre que em algum lugar irrompia
um incêndio, eram chamados. Além disso, forneciam naves de comboio, mediante
pagamento de quantias predeterminadas pelos membros dos clãs interessados.
Nunca Topthor chegara a temer um inimigo, quanto mais fugir dele — com exceção
de uma única vez. Foi quando tentou atacar um planeta chamado Terra. Nessa
oportunidade suas forças foram quase totalmente destruídas pela nave esférica de Perry
Rhodan.
Topthor resolvera que jamais voltaria a lutar contra Perry Rhodan. Não era covarde,
mas gostava de viver.
Topthor esboçou um sorriso feroz quando se lembrou de Perry Rhodan. O terrano
estava longe e nada tinha que ver com aquilo que estava planejando. No planeta de
Goszul se defrontaria com outro inimigo: uma doença. Bastava precaver-se contra a
infecção. O resto seria uma tarefa de rotina. Os nativos rebeldes seriam castigados, os
robôs e o equipamento técnico contaminado seriam guardados nos porões
hermeticamente fechados da nave, e providenciaria para que a nave superavançada fosse
levada ao destino.
O planeta de Goszul estava submetido à quarentena. Só em circunstâncias muito
especiais alguém poderia pousar nele. E a tarefa que lhe fora confiada representava uma
circunstância desse tipo.
Topthor ainda estava sorrindo quando voltou a pegar o escrito e leu o texto lacônico:

“Para Topthor, comandante e patriarca do clã dos


superpesados. O planeta de Goszul está sob quarentena. Há uma
epidemia que produz uma amnésia total. É incurável. Resgatar o
equipamento técnico. Os nativos se rebelaram e devem ser
punidos. Couraçado construído em segredo, uma vez concluído,
será encaminhado para as coordenadas XXM-17. Os governantes
e dirigentes do estaleiro devem ser deixados para trás.
Em nome de todos os clãs — Etztak.”

Topthor colocou a folha de plástico sobre a mesa. A tela que se estendia acima dela
mostrava com toda nitidez o sol pequeno e amarelento de Tatlira, cercado de vários
pontos luminosos. Eram os planetas.
Um deles era o planeta de GoszuL.
Inclinou-se para a frente e, com um simples movimento, ligou o comunicador, que o
colocaria em contato com a sala de comando das outras naves. Dali a uns trinta segundos
outra tela subdividida em doze campos distintos começou a iluminar-se.
Em cada um desses campos surgiu um rosto que o fitava numa atitude de
expectativa.
Todos eram saltadores superpesados. Há muitos milênios, quando os saltadores
ainda viviam em planetas, não em naves, o clã dos superpesados escolhera um mundo em
que a gravitação era muito elevada. Em virtude disso, no curso das gerações surgiram
alterações físicas, que facilitavam a adaptação às condições reinantes no novo mundo. Foi
assim que surgiu o clã dos superpesados.
Os doze saltadores cujos rostos surgiram na tela usavam barbas aparadas e tinham
olhos inteligentes, mas frios e perscrutadores. Os lábios cerrados pareciam traços
vermelhos. As centenas de quilos de seus corpos não eram retratadas na tela.
Topthor não pôde reprimir um ligeiro sorriso quando fitou os rostos de seus
comandantes. Sabia que não temiam a morte nem o diabo, mas tinham um medo terrível
de uma doença incurável. Mas, para falar com franqueza, ele mesmo também não se
sentia muito bem. Mas nunca confessaria uma coisa dessas.
— O objetivo está à nossa frente — disse com sua voz retumbante, que já fizera
com que muitos patriarcas aumentassem espontaneamente a oferta para a proteção aos
seus comboios. — Vocês conhecem a tarefa e sabem que a mesma não é fácil. Antes de
mais nada temos de ocupar o estaleiro espacial, para evitar que ele seja atacado ou
mesmo destruído pelos nativos. Não sei como esses habitantes primitivos de Goszul
poderiam enfrentar cem robôs de combate, mas alguém preveniu Etztak para que não os
subestimasse. Só depois de cumprida essa parte poderemos cuidar do resgate do
equipamento técnico e dos robôs. — Esboçou um sorriso preguiçoso. — Acho estranho
que Etztak não faça muita questão do lucro material. Isso me dá o que pensar.
Um dos doze saltadores gesticulou violentamente, mostrando que apoiava as
palavras de Topthor. Realmente a atitude de Etztak era suspeita e dava o que pensar.
Topthor fez um sinal ao comandante.
— Pois não, Rangol. O que houve?
— Será que subestimamos os goszuls? Em nossos fichários constam como
subdesenvolvidos pacíficos e sem ambições. Sua tecnologia é antiquada e muitíssimo
inferior à nossa. Não compreendo por que Etztak teve que fugir...
— Esqueceu-se da epidemia? — lembrou Topthor. — Quando me lembro dela,
também não me sinto muito feliz. Pode-se perder a memória.
— Assim mesmo vamos pousar lá? — perguntou outro.
— Recebemos licença especial do conselho do clã. Nossos trajes especiais nos
protegerão contra a contaminação. E por enquanto deixaremos sair exclusivamente os
robôs, que farão o trabalho mais pesado. Ainda teremos que providenciar para que
ninguém consiga sair do sistema.
— Sempre pensei que os goszuls não possuíssem naves espaciais.— E não possuem
mesmo. Mas ordens são ordens. Deve haver outras naves, além daquela que vamos
buscar. Seja como for, vamos bloquear o sistema e manteremos contato entre nós. Apenas
duas das nossas naves pousarão. A de Rangol e a minha.
Rangol não parecia muito satisfeito. A distinção com que fora agraciado não parecia
deixá-lo muito alegre, mas manteve-se calado. Era preferível não irritar Topthor.
— Mais alguma pergunta?
Ninguém teve perguntas.
— Muito bem — disse Topthor. — Meu navegador lhes fornecerá as coordenadas
que calculou. Daqui a quatro horas nos separaremos. As estações de rádio ficarão
permanentemente em recepção. Fim.
A tela de doze campos apagou-se no mesmo instante em que a comunicação foi
interrompida. O restante da palestra foi conduzida pelo navegador que se encontrava na
sala de telegrafia.
Topthor reclinou-se na poltrona e com os olhos semicerrados contemplou o sistema
solar de Tatlira, do qual se aproximava à velocidade da luz.
Com uma certa preocupação perguntou de si para si o que o aguardaria por lá.

***

Quando Gucky contou que chegara a comer capim para convencer os robôs de que
era uma criatura inofensiva, Bell irrompeu numa gargalhada homérica. Não conseguiu
acalmar-se e provavelmente teria morrido sufocado se tivesse tempo para isso. Acontece
que não teve.
Subitamente a voz de Gucky tornou-se aguda e estridente.
— Você acha que gostei disso? Se você não parar logo de se divertir à custa da
situação miserável que tive de enfrentar, você vai ver uma coisa, seu monstro ruivo.
Então?
O “então” estava tão carregado de expectativa que Bell logo estacou, lembrando-se
de situações semelhantes, em que levara a pior. Afinal era um homem normal, não dotado
de capacidades telecinéticas. Respirando com dificuldade, parou de rir e disse com a voz
ofegante:
— Não tive a intenção de ofendê-lo. E depois? Os robôs caíram nessa, acreditando
que você fosse uma espécie de coelho?
Gucky confirmou com o rosto muito sério.
— Mais ou menos. De qualquer maneira consegui atravessar a fileira de guardas e
entrar no estaleiro. O projeto está sendo dirigido por um certo Borator. É um saltador.
Era uma surpresa.
— Quer dizer que não teremos que lidar apenas com os robôs — disse Rhodan em
tom pensativo. — Isso dificulta a solução do problema, mas não muito. Antes de mais
nada teremos que reduzir esse Borator à impotência; só depois disso poderemos pensar
em colocar os cento e trinta robôs fora de combate sem chamar a atenção. Acho que
conseguiremos isso com o novo radiador de impulsos de reprogramação. Infelizmente a
ação do aparelho é apenas individual, isto é, temos que pegar os robôs um por um e dar-
lhes outra programação. Se os outros perceberem, e não há a menor dúvida de que
perceberão, haverá dificuldades.
— Ainda sou de opinião que devemos lançar um ataque de surpresa com os nossos
caças e destruir os robôs — interveio o major Deringhouse.
Rhodan nem sequer deu uma resposta.
E essa resposta não faria o menor sentido, pois naquele instante uma luzinha
vermelha acendeu-se junto ao intercomunicador. Ouviu-se um zumbido. E a tela
iluminou-se. Nela surgiu o rosto preocupado do tenente Fisher, que estava de plantão na
sala de telegrafia.
Rhodan apertou um botão, estabelecendo o contato.
— O que houve, Fisher? É alguma coisa importante? Estamos em conferência e...
— É importante, sim senhor. Nossos rastreadores estruturais registraram transições
nas imediações do sistema. Ao que parece, os saltadores que fugiram estão de volta.
Rhodan ficou perplexo por dois segundos, mas logo recuperou o autocontrole.
— Acho que isso não é possível. Fisher. Verifique as coordenadas exatas das
transições e seu número. Avise-me assim que houver alguma novidade.
— Sim senhor.
O contato entre a sala de comando e a sala de telegrafia foi mantido. Ao que tudo
indicava, Rhodan não estava disposto a perder-se em especulações vazias; por isso Gucky
prosseguiu no seu relato. Evidentemente os presentes não lhe dedicavam a mesma
atenção. Todos pensavam nas naves espaciais surgidas tão de repente, e que se
aproximavam do planeta de Goszul.
Quem seriam? O que queriam?
O tenente Fisher não os deixou na incerteza por muito tempo.
— São treze naves. Comprimento de cerca de duzentos metros e o formato típico
das unidades dos saltadores. Saíram do hiperespaço a uma distância aproximada de um
dia-luz. Pela intensidade dos abalos conclui-se que executaram um salto de mais de três
mil anos-luz. Aproximam-se em formação compacta e à velocidade da luz. Voltarei a
entrar em contato com o senhor.
Rhodan fitou os presentes.
— Então são os saltadores! Não compreendo. Será que são os mesmos?
— Não devem ser — disse Bell em tom convicto. — O pessoal de Etztak deve estar
farto da lição; não voltará. Além disso, pegaram a doença e não se lembram de nada.
— Acontece que já tiveram tempo de mandar algumas naves de guerra. Mas
acredito que ainda não saibam com quem estão lidando. Gostaria de saber o que querem
por aqui.
Subitamente Gucky interveio com a voz nervosa e estridente:
— Querem a nave que está para ser concluída. É claro que vem buscar a nave.
Rhodan não conseguiu disfarçar a surpresa.
— Talvez você tenha razão, Gucky. Mas você não disse que de qualquer maneira os
robôs enviariam a nave para as coordenadas já fixadas? Estou pensando numa coisa. A
nave seria tripulada pelos robôs? Ou será que estes ficariam para trás?
— Não sei. Não tive tempo para descobrir tudo.
— Esse detalhe seria muito interessante. Se os robôs receberam a incumbência de
abandonar o planeta de Goszul no couraçado recém-construído, já saberíamos o motivo
do surgimento dessa frota. Ela deve impedir que os robôs executem a tarefa.
Os saltadores não querem que a epidemia... não, não havia nenhuma lógica nisso. Se
os saltadores supõem que o transmissor da moléstia também se fixa sobre o metal, terão
que concluir fatalmente que a nave está contaminada. Não sei por quê, mas acho que há
algum bicho escondido em tudo aquilo. Bem que gostaria de saber onde está esse bicho.
— Não gosto de bichos menos ainda que de capim — chiou Gucky em tom
confiante — mas estou disposto a colaborar para a boa causa e procurar o bicho.
Rhodan sorriu.
— Isso pode ser fácil, mas também pode ser muito difícil, pois a mentalidade dos
saltadores é completamente diferente da nossa. Talvez a verdade nos decepcione quando
a descobrirmos. Um momento, a sala de telegrafia está chamando. O que houve, Fisher?
— Captamos sinais de telegrafia. Ainda não foram decifrados, mas se parecem com
os dos saltadores. Se não estiverem transmitindo em código, poderei fornecer o texto
dentro de dez minutos.
Bell encostou o indicador esquerdo ao nariz, o que era um sinal de que refletia
profundamente. Rhodan lançou-lhe um olhar curioso. Gucky exibiu o dente roedor e deu
um sorriso de deboche. Para o rato-castor um Bell pensante parecia uma coisa muito
engraçada. Os outros mantiveram-se na expectativa.
— Então? — perguntou Rhodan.
Bell levantou os olhos.
— Lembrei-me de uma coisa — anunciou ao auditório que ouvia ansiosamente. —
Se é que uma frota dos saltadores se aproxima desse planeta, e se esses saltadores não
sabem que estamos aqui, devemos pensar em dar o fora. Resta saber para onde
poderíamos ir. Não podemos cogitar de uma transição, pois ela trairia nossa presença. Os
hangares do espaçoporto são muito pequenos. Então, o que vamos fazer? Mergulhar na
terra?
Os outros ocupantes da sala olharam-se surpresos. Bell acertara em cheio. Estavam
por ali, desenvolvendo seus planos, esquecidos de que, dentro de vinte horas o mais
tardar, os antigos donos desse mundo estariam de volta para executar seus planos ainda
desconhecidos. Os saltadores ainda estavam acreditando que tudo aquilo não passara
duma epidemia que infetara os nativos. E Rhodan pretendia fazer com que continuassem
nessa crença.
— Os três cruzadores cabem nos hangares subterrâneos — disse Rhodan. —
Gostaria de tê-los por perto, mesmo que os saltadores resolvam pousar. Teremos meios de
evitar que verifiquem o que há nos hangares. Qualquer indicação da presença da
epidemia será suficiente para isso. Resta a Stardust. Para ela não existe nenhum hangar. E
se fosse para o espaço, os instrumentos dos saltadores logo constatariam sua presença —
por alguns segundos Rhodan concentrou-se nas suas reflexões. Subitamente olhou para
Ralv. — Conhece seu planeta? — o goszul confirmou com um lento aceno de cabeça. —
Muito bem. Qual é a profundidade dos seus mares?
O rosto de Ralv não parecia muito inteligente, pois não compreendia por que
Rhodan estava interessado em conhecer a profundidade dos mares. Mas Bell já havia
compreendido.
— Quer deitar a Stardust no oceano? — perguntou espantado. — É uma idéia
simples que nunca me teria ocorrido. Ótimo. Assim poderei dedicar-me à pesquisa
submarina. Sempre tive vontade de fazer isso.
— Você não terá tempo para isso — disse Rhodan.
Ralv confabulou com Enzally e Geragk.
— A trinta quilômetros da costa ocidental começa o grande fosso. Sua profundidade
média é de três mil metros.
— É exatamente do que precisamos — confirmou Rhodan. — Se a Stardust estiver
coberta por uma camada de água de dois quilômetros de espessura, ninguém conseguirá
localizá-la. E para a tripulação é indiferente que a nave seja cercada pela água ou pelo
espaço vazio.
Gucky atravessou a sala a passos balouçantes e plantou-se diante de Rhodan. O
dente roedor parecia brilhar numa atitude provocadora, mas os olhos castanhos de cão
pareciam exprimir a fidelidade e a ternura de sempre.
— Será que sou um rato da água? — piou em tom recriminador.
Rhodan esboçou um sorriso condescendente.
— Pela sua cauda achatada poderíamos ser levados a concluir que seu habitat é a
água — disse em tom irônico. — Aliás, é de admirar que você venha de um mundo em
que quase não existe água. Bem, vou tranqüilizá-lo. Ninguém disse que você mergulhará
junto com a Stardust. Preciso de você na superfície.
Bell interrompeu-o.
— O que vamos fazer? Os três cruzadores serão escondidos nos hangares
subterrâneos, e a Stardust ficará embaixo da água. Até aí muito bem. Mas o que
acontecerá conosco?
— Conosco? — Rhodan exibiu um sorriso franco.
Parecia divertir-se a valer, o que deixou Bell ainda mais aborrecido. Também
Deringhouse, Nyssen e MacClears pareciam não ver motivo para alegrar-se pelo simples
fato de que, por assim dizer, teriam de bater em retirada.
Apenas Enzally, Marshall e Gucky, que eram telepatas, sorriram como que por
comando.
— O que acontecerá conosco? — prosseguiu Rhodan. — É muito simples, meus
caros. Nós nos faremos de loucos.
Mal os cruzadores Solar System, Terra e Centauro haviam desaparecido nos
gigantescos pavilhões subterrâneos existentes embaixo do campo de pouso, o tenente
Fisher veio com uma nova notícia que não deixou que o nervosismo esfriasse.
— Outra novidade. A frota se divide. Ainda estão a quinze horas-luz, mas já se
dividem. Ao que parece querem bloquear todo o sistema.
Rhodan, que ouviu a notícia por meio de um pequeno aparelho embutido na
pulseira, esperou alguns segundos antes de responder. Encontrava-se numa das
extremidades do campo de pouso, olhando como as portas camufladas dos hangares se
fechavam lentamente.
Os cruzadores haviam desaparecido da superfície do planeta, e alguns robôs
reprogramados dos saltadores foram colocados nos controles. Quem quisesse abrir o
hangar, teria que entender-se com eles.
— Diga ao major Deringhouse que me mande um bom piloto em um caça espacial.
Quando a Stardust estivesse no fundo do oceano, não seria possível acompanhar os
movimentos da frota inimiga. No entanto, Rhodan não pretendia deixar entregues ao
acaso os acontecimentos que se aproximavam. Ao que tudo indicava, sua suposição de
que a frota dos saltadores iria pousar em formação compacta não se realizaria.
Dali a um minuto, uma abertura relativamente pequena abriu-se no envoltório da
Stardust. Um torpedo esguio saiu por ela e pousou a poucos metros de Rhodan. A
carlinga abriu-se e um rosto masculino ainda jovem contemplou Rhodan com um sorriso
de expectativa.
— O sargento Harnahan apresentando-se para a missão especial.
Rhodan retribuiu o sorriso.
— As coisas não serão nada fáceis para o senhor, sargento. Mantenha contato pelo
rádio com o tenente Fisher. Observe a frota dos saltadores e mantenha-nos informados
sobre sua movimentação. Permaneça no espaço, evitando qualquer encontro com os
saltadores. É muito importante que ninguém desconfie da sua presença. O senhor será
nosso olho, Harnahan, pois nossos instrumentos de observação estarão cegos. Muitas
felicidades.
— Obrigado — respondeu o sargento, fechando a carlinga. Dali a um segundo o
campo antigravitacional fez com que o caça disparasse para o alto. Pouco depois
Harnahan ligou os propulsores e num instante desapareceu na atmosfera azul.
Rhodan seguiu-o com os olhos e sentiu-se um pouco melhor. Os caças espaciais,
pequenos e pouco numerosos, eram foguetes que desenvolviam a velocidade da luz e só
podiam abrigar um piloto. Seu armamento consistia num canhão de impulsos rigidamente
montado na proa e numa instalação para a criação de campos protetores. A cabine
pressurizada possuía equipamento de condicionamento de ar e uma minúscula comporta
de ar. As pequenas asas do aparelho de proa pontuda permitiam vôos na atmosfera, isso
se o piloto não preferisse utilizar o equipamento antigravitacional, que fora acrescentado
recentemente.
Alguns dos caças ainda possuíam equipamentos de observação ultra-sensíveis. Era o
caso do aparelho do sargento Harnahan.
Bell aproximou-se. Viu que Rhodan olhava para cima e seguiu seu exemplo. Depois
de algum tempo sacudiu a cabeça.
— Você acaba abrindo um buraco no ar de tanto olhar, meu caro. Harnahan já se
encontra a muitos quilômetros de distância e não o ouvirá mais se você chamar. Acho que
devemos cuidar da Stardust. Está na hora de fazê-la desaparecer.O comando da nave
esférica foi confiado ao major Nyssen, que logo a levou ao lugar indicado, situado a cerca
de trinta quilômetros da costa. Dentro de poucos minutos fez o monstro mergulhar nas
ondas do oceano. A precária ligação pelo rádio mantida com Rhodan representava o único
contato com o mundo exterior, que foi preparado febrilmente para entrar em cena.
Entraria em cena para apresentar uma comédia, que tinha um fundo muito sério.
Rhodan distribuiu os papéis.
— Gucky vai assumir a direção do comando que se encarregará do estaleiro. O
teleportador Tako Kakuta e o telecineta Tama Yokida irão com ele. Levem o novo
aparelho e tratem de paralisar os robôs. As novas instruções podem esperar. Eu mesmo
providenciarei essa parte. Ralv e seus homens receberão instruções de Marshall, que já
sabe o que deve fazer. Não sabemos quais são os planos dos saltadores. Até ignoramos se
pretendem pousar. Por isso devemos estar preparados. Ficarão admirados ao notar o que
pode acontecer quando a população de um planeta perde a memória — e com ela o medo.
— Será a moléstia de novo? — perguntou Kitai Ishibashi, o sugestor do Exército de
Mutantes.
— Não é bem isso — disse Rhodan com um sorriso. — Seria muito complicado e
levaria muito tempo. Desta vez temos de agir depressa, pois dentro de dez horas os
saltadores poderão estar aqui. Marshall pedirá a Ralv e seus homens que apliquem uma
tatuagem em cerca de dez mil goszuls e...
— Uma tatuagem? — disse Bell, respirando com dificuldade.
— Isso mesmo — confirmou Rhodan. — O líquido que será usado é inofensivo
mas, uma vez aplicado na pele, faz com que dentro de uma hora a pele apresente lindas
manchas. Até parece que a pessoa caiu numa lata de tinta. Foi mais ou menos o aspecto
que tiveram os nativos quando apanharam a doença. Se as pessoas pintadas se fizerem de
doidas, a impressão causada será perfeita. Kitai providenciará para que os goszuls sejam
bons artistas.
O sugestor japonês sorriu.
— É a coisa mais fácil deste mundo. Os saltadores ficarão admirados ao verem do
que é capaz um homem sem memória.
Podia mesmo contar sua vantagem. Como sugestor que era, podia impor sua
vontade aos goszuls, ajudando-os a representar o seu papel. Se fosse necessário, os
goszuls desempenhariam o papel de artistas sem saberem.
O major Deringhouse olhou pela janela do edifício de um pavimento em que se
haviam instalado. O sol já se encontrava junto ao horizonte e não demoraria a
desaparecer.
Os saltadores deviam chegar ao raiar do dia.
Suspirou.
— O que devo fazer?
Rhodan lançou-lhe um olhar ligeiro.
— É possível que o senhor não tenha nada a fazer. Isso depende da evolução dos
acontecimentos, especialmente dos planos que os saltadores pretendem executar e o risco
que estão dispostos a assumir. O senhor dispõe de cinco caças espaciais bem escondidos
nas montanhas mais próximas e de cinco pilotos. Com isso o senhor não pode enfrentar
as naves dos saltadores, mas sim uma expedição que os mesmos resolvam colocar no
planeta. Aguarde minhas ordens; em hipótese alguma deve agir por conta própria.
Bell empertigou-se.
— E eu? O que é que eu vou fazer?
— Sinto decepcioná-lo — disse Rhodan. — Você ficará comigo, e perto de mim
provavelmente não acontecerá muita coisa.
— Quer dizer que mais uma vez vou ficar no quartel-general — resmungou Bell,
contrariado. — Enquanto os outros vivem aventuras e saem da batalha com a auréola de
heróis, nós ficamos mofando por aqui. Vamos ficar mesmo por aqui? — de repente
parecia muito preocupado. — Não venha me dizer que vamos ficar no campo de pouso.
O que acontecerá se os saltadores pousarem e vierem até aqui?
— Nesse caso você terá sua aventura — disse Rhodan com um sorriso amável.
— Vamos dar o fora — disse Gucky, lançando um olhar convidativo para Tako.
Tama, o telecineta, levantou-se. Como não soubesse executar a teleportação,
dependia da carona de Gucky ou de Tako.
— Tenham cuidado — recomendou Rhodan e deu a Tako uma pequena caixa
metálica em forma de cubo, na qual havia vários botões e escalas. — Peguem os robôs
um por um. — Fez um sinal para Gucky: — Não devem desconfiar de nada, senão darão
o alarma.
— Não se preocupe. Agiremos que nem os ratos — chilreou Gucky.
Bell sorriu.
— Para você isso não deve ser nada difícil.
Gucky lançou-lhe um olhar de desprezo antes de segurar a mão de Tako e Tama.
Subitamente uma parede reluzente parecia interpor-se entre eles e os outros membros do
grupo, e logo desapareceram.
No mesmo instante materializaram-se nas montanhas, atrás de uma pilha de caixas.
Rhodan fez sinal para que Marshall se aproximasse.
— Inicie imediatamente o seu trabalho. Ralv está informado. Se os saltadores
pousarem em outro ponto do planeta, o azar será nosso, mas dificilmente isso acontecerá.
A única coisa que lhes interessa é este continente. Afinal, este espaçoporto é o único que
existe no planeta de Goszul.
Marshall confirmou com um aceno de cabeça e retirou-se. Um carro que já o
aguardava levou-o, juntamente com seu equipamento, à cidade portuária não muito
distante, onde Ralv já o esperava com seu grupo de homens dedicados.
As únicas pessoas que ficaram para trás foram Rhodan, Bell, Deringhouse e Kitai, o
sugestor, que só mais tarde seguiria Marshall.
— E agora? — perguntou Deringhouse, entediado. — Será que vamos criar raízes
aqui?
— Não — respondeu Rhodan. — Só ficaremos aqui até que os saltadores pousem.
3

— Estava escurecendo quando Gucky e seus dois companheiros materializaram-se


junto à pilha de caixas. Felizmente não havia ninguém por perto. Correram para trás das
caixas e esconderam-se. Por enquanto estavam em segurança.
— Será que trabalham de noite? — cochichou Tama.
Aquele ambiente estranho deixava-o apavorado. Tinha a impressão de ser observado
constantemente por olhos invisíveis.
— Os robôs não conhecem cansaço — esclareceu o rato-castor. — Tenho certeza de
que Borator não faz nenhuma pausa. Sabe o que aconteceu no planeta de Goszul e fará o
possível para colocar-se em segurança. A nave se enquadra perfeitamente em seus planos,
que não são difíceis de adivinhar.
— Você acha que pretende fugir nela?
— Naturalmente. Fique quieto, ouço alguém que se aproxima — aguardou alguns
segundos e cochichou: — É o saltador. Estou captando seus pensamentos. Ainda não está
dormindo.
Os três transformaram-se em sombras imóveis agachadas atrás das caixas. Gucky
perscrutou a escuridão.
“Mais cinco dias”, pensou Borator num misto de satisfação e impaciência. “Aí terá
chegado a hora. Malditos patriarcas! Deixaram-me aqui, esperando que contraísse a
doença e esquecesse que estou construindo uma nave para eles. Estão redondamente
enganados. Se acreditam que entregarei isto conforme o figurino estão fazendo um
cálculo errado. A doença não chegou até aqui. Logo, posso levar alguns robôs de
combate e alguns especialistas. Não há perigo... ficarão admirados... que baixeza...”
Satisfeito, Gucky sorriu. Não havia motivo para preocupar-se: a suposição de que
dali a cinco dias a nave fosse dirigir-se para as coordenadas preestabelecidas não tinha
fundamento. Borator pretendia fazer um negócio todo seu. Talvez pretendesse mesmo
usar a nave para fundar um novo clã.
Aos cochichos informou os companheiros e acrescentou:
— Borator vai para a cama. Talvez consiga descobrir mais alguma coisa.
Poderíamos deixar que concluísse tranqüilamente a sua obra, mas infelizmente não temos
tempo. Quando os saltadores pousarem, o estaleiro deverá estar em nosso poder. Esperem
aqui. Vou sondar a situação.
Era uma expressão ensinada por Bell. Havia várias, mas esta ao menos era
publicável.
Os dois japoneses não se sentiram muito à vontade ao saberem que ficariam sós
naquele ambiente desconhecido. Prometeram que em hipótese alguma sairiam do lugar.
Face a isso, Gucky teleportou-se tranqüilamente atrás de Borator.
O saltador estava dobrando a quina de um depósito; passando por alguns robôs que
patrulhavam a área, dirigiu-se à pequena casa que lhe servia de residência, situada em
local um pouco distante. Gucky julgou preferível não pôr mais uma vez à prova a
indiferença dos robôs diante dos coelhos. Teleportou-se diretamente para a casa, onde
aguardou o saltador na sombra de algumas moitas ressequidas.
Borator pensava ininterruptamente enquanto atravessava a área fronteira iluminada
pelas lâmpadas.
Pensava numa porção de coisas, menos nos planos que pretendia executar.
Despreocupado, mas dominado pela impaciência, foi caminhando, sem desconfiar de que
seus pensamentos estavam sendo captados. Passou a poucos metros de Gucky, abriu a
porta do bangalô e acendeu a luz. A luminosidade atingiu a moita em que Gucky estava
escondido. Mas Borator só pensava numa coisa: dormir. Estava cansado.
“Ainda bem”, pensou ligeiramente, “que os robôs não sabem o que é cansaço.
Quem sabe se não conseguiriam colocar a nave em condições de decolar no prazo de
quatro dias.”
Gucky aguardou impaciente. Concentrando-se muito, quase chegava a enxergar
através dos olhos de Borator, vendo o que este fazia: Uma refeição ligeira, um chuveiro
frio e a cama.
Os pensamentos tornaram-se cada vez mais confusos até resvalarem para o irreal.
Borator estava dormindo.
Gucky não perdeu mais tempo. Preferiu não usar suas faculdades especiais. Como
qualquer outra criatura, entrou pela janela aberta e desceu cautelosamente para o soalho
da casa. Borator roncava, fazendo um barulho terrível, que para o rato-castor vinha a
calhar. Antes de acordar o saltador tinha que tomar algumas precauções. Teve a impressão
de ter ouvido um ruído no corredor.
Será que Borator arranjara um robô particular de vigilância?
A porta estava apenas encostada. Gucky esgueirou-se pela penumbra. Por uma fresta
de porta a luz penetrou no corredor, refletindo-se nas costas metálicas do robô, que se
mantinha imóvel.
Gucky segurou firmemente o radiador de impulsos. O novo instrumento seria posto
à prova. Tomara que fosse bom. Sem mover-se, apontou diretamente para a parte traseira
do crânio do monstro e comprimiu o botão. Deixou-o nessa posição exatamente cinco
segundos, depois voltou a soltá-lo.
Se o negócio estivesse funcionando, o robô devia estar desativado. Não reagiria
mais e, a qualquer momento, poderia ser reprogramado sem o menor problema. Não
poderia intervir mais nos acontecimentos.
E quem poderia intervir senão Borator?
Antes de cuidar do saltador, Gucky precisava ter certeza de que seu tratamento fora
coroado de êxito.
Segurando firmemente o aparelho, dirigiu-se para o corredor e plantou-se bem à
frente do robô. Contemplou suas lentes amortecidas e procurou descobrir qualquer sinal
de vida nas mesmas. Mas o cérebro positrônico não registrou sua presença. O robô não
reagiu.
Muito satisfeito, Gucky resolveu cuidar de Borator.
Naquele mesmo instante notou que o saltador não estava roncando mais. Reforçou
sua potência de recepção telepática a fim de captar os pensamentos de Borator. Era isso
mesmo. O saltador acabara de acordar e estava desconfiado. Pretendia verificar o que
estava havendo. Pelo que Gucky pôde constatar, estava armado com um radiador
energético.
Era claro que o rato-castor poderia colocar-se em segurança através da teleportação,
mas isso seria contrário à sua natureza e representaria um perigo, pois o saltador poderia
ver nisso uma advertência e tomar medidas adequadas.
A luz acendeu-se. Borator surgiu na porta e seus olhos piscaram ao contemplar a
cena que se oferecia diante dele. Seu robô estava imóvel no meio do corredor, e diante do
monstro estava sentado o bicho no qual hoje dera um pontapé. O que estava segurando
nas patas? Uma caixa? Desde quando um animal tem inteligência suficiente para penetrar
numa casa com uma caixa nas patas?
Borator formulou tantas perguntas que se esqueceu de agir. Foi o que Gucky fez por
ele.
Uma força irresistível tirou a pistola de radiações da mão do saltador e fez com que
ela flutuasse em direção ao teto, onde se acomodou no canto superior, apontando o cano
para Borator, que acompanhou o fenômeno com os olhos arregalados. Os fragmentos
confusos de idéias que Gucky conseguiu captar revelavam que começava a duvidar da
sua sanidade mental. Bem, essa impressão podia ser reforçada.
Amargurado, Gucky lembrou-se do pontapé que levara e resolveu unir o útil ao
agradável. Borator nem compreendeu o que estava acontecendo quando subitamente
perdeu o apoio dos pés. Depois de executar um giro de noventa graus ficou pendurado na
horizontal, acima do chão, sem conseguir mover-se. Numa fascinação desesperada
contemplou o brilho emitido pelo dente roedor do “coelho” e, com o que ainda lhe
restava de raciocínio, refletiu se o mesmo poderia ser responsável pelas coisas
incompreensíveis que estavam acontecendo.
Devia ser assim, pois o animal saltitou bem por baixo dele e pôs-se a rasgar
metodicamente a coberta, transformando-a em tiras, que foram amarradas umas às outras,
formando uma corda. Enquanto isso a estranha caixa metálica foi colocada no chão.
Gucky voltou para junto de Borator e começou a amarrar o mesmo segundo todas as
regras da arte. Isso não representou nenhum problema para ele, pois o saltador continuava
a flutuar um metro acima do chão.
Enquanto isso, o robô manteve-se imóvel, como se não tivesse nada com isso, o que
de certa forma não deixava de ser verdade.
A corda foi enrolada em torno de Borator. Gucky teve a cautela de deixar livre um
pedaço de corda, a fim de segurar o saltador. Depois bateu amistosamente na parte
traseira do robô, enfiou a caixa embaixo de um dos braços, a pistola de radiações, que
desceu lentamente, embaixo do outro, e saiu caminhando tranqüilamente.
Borator seguiu-o como um balão. Parecia seguro apenas pela corda que Gucky tinha
na mão. Os fluxos de energia telecinética emitidos pelo rato-castor deixaram-no duro,
mas Gucky tinha certeza de que o pavor que o saltador sentia bastava para produzir esse
efeito.
Tako e Tama quase morreram de susto quando viram o pacote flutuar em sua
direção. Gucky segurava-se na corda, como se receasse ser arrastado para longe. O dente
roedor brilhava de contentamento.
— Este está bem guardado — chilreou satisfeito. — Tama o vigiará. Enquanto isso
Tako e eu inutilizaremos os robôs.
Borator baixou ao solo onde permaneceu imóvel. Mantinha os olhos fechados.
— Desmaiou. É uma pena. Ainda terei tempo de ocupar-me com ele. Não durma,
Tama.
— O nervosismo não me deixaria dormir — protestou o telecineta diante da
suspeita. — Não demorem muito.
— São noventa e nove robôs. Isso não pode ser liquidado de um instante para outro.
Gucky segurou a mão de Tako... e os dois desapareceram.
Tama, que não se sentia muito bem, ficou para trás; e também o saltador, que
naquele momento não sentia coisa alguma.
O primeiro robô de combate não representou nenhum problema. Estava postado
junto do maior dos depósitos e formava o início de uma fileira bastante espalhada. Gucky
e Tako conseguiram aproximar-se a poucos metros sem serem vistos. Ainda bem que as
lentes do robô estavam dirigidas para a saída do vale, pois ninguém pensava que pudesse
haver um inimigo no interior do mesmo.
Rhodan os avisara de que o alcance do aparelho ainda era limitado; sua eficiência só
era garantida num raio de trinta metros. Mas havia uma vantagem. A atuação de cada
robô era independente da dos outros, mas orientavam-se pelos atos dos demais. Se um
deles deixasse Gucky passar sem problemas, o guarda mais próximo concluiria que
Gucky não representava nenhum perigo. Face a isso sua vigilância seria reduzida.
Foi nesse fato que Gucky baseou seus planos.
— Fique aqui — cochichou para Tako quando estavam parados na sombra do
depósito. — Daqui você vê tudo. Se houver algo de imprevisto, teleporte para junto de
Tama. Providencie para que o saltador seja levado para junto de Rhodan. Depois traga
Tama. Ninguém deverá preocupar-se comigo. Saberei cuidar de mim.
Tama segurou-o pela mão.
— Não vejo o que poderia acontecer. Afinal, tenho o radiador. Com ele posso
inutilizar qualquer...
— Você não vai fazer nada disso — interrompeu-o Gucky. — Se usarmos o
radiador, até o mais estúpido dos robôs saberá o que está acontecendo. Se nos limitarmos
a teleportar na semi-escuridão, desaparecendo sem mais aquela, talvez pensem que somos
fantasmas. De qualquer maneira, não saberão o que fazer. Tenha paciência!
Conseguiremos.
Os arcos voltaicos esparsos lançavam uma luz débil sobre o terreno cheio de
obstáculos. Era claro que as armaduras reluzentes dos robôs eram mais fácil de ser
percebida que o pêlo ruivo de Gucky, que. até parecia uma camuflagem especialmente
feita para a oportunidade.
Como já se disse, o primeiro robô não representou nenhum problema.
Com um ligeiro feixe de radiações, Gucky transformou-o numa estátua inútil. Ficou
parado aguardando novos impulsos, que não surgiram.
A mesma coisa aconteceu com o segundo robô, com o terceiro e com os demais que
estavam espalhados pela área do estaleiro, esperando que acontecesse alguma coisa.
Quando aconteceu, não o perceberam mais.
Em menos de trinta minutos Gucky colocou fora de ação cinqüenta robôs de
combate. Era a metade. Além de mais cinqüenta robôs de combate havia os trinta
trabalhadores que, segundo supunha com toda razão, estariam no interior do estaleiro,
trabalhando a toda potência na conclusão da nave.
— Vamos cuidar da fila de guardas postados na entrada do vale. Infelizmente a
distância entre um e outro é de apenas cinco metros. Mas descobri um jeito de pô-los a
dormir.
Colocaram-se em posição e o rato-castor iniciou seu trabalho. Vindo de trás,
aproximou-se da fila de guardas, cuidando para não ser visto. Isso não era muito difícil,
pois no local a escuridão era muito maior que no estaleiro.
Até a metade da fileira tudo correu bem. Mas no momento em que Gucky estava
aplicando seu tratamento ao robô número 15, o número 16 virou-se pesadamente e dirigiu
o raio do holofote embutido na testa para a fonte do ruído que devia ter “ouvido”.
De um instante para outro Gucky viu-se banhado em luz.
Numa fração de segundo o robô constatou que era o mesmo animal que vira durante
o dia e que, portanto, devia ser inofensivo. Acontecia que segurava uma caixinha
brilhante entre as patas, e a lente de cristal da mesma estava apontada de forma bastante
suspeita para o robô vizinho.
O animal devia ser dotado de inteligência; logo, era um inimigo.
A reação do robô foi instantânea, mas o raio energético fulminante só atingiu o chão
ressequido e o capim crestado pelo sol.
Gucky materializou junto a Tako, que estava duro de pavor.
— Tivemos azar — cochichou para o japonês. — Tomara que não dêem o alarma.
Os primeiros quinze robôs da fila não se interessaram pelo que estava acontecendo.
Mantiveram-se imóveis e apáticos, enquanto os demais ligaram os holofotes e puseram-se
a examinar o terreno. Não encontraram nada, mas isso não os tranqüilizou. De qualquer
maneira, nenhum deles fez menção de sair do lugar.
— Não posso aparecer mais por ali — murmurou Gucky, decepcionado, mas logo
assobiou baixinho. — Tako, afinal sou um telecineta — era uma afirmativa chocante, e
Tako reagiu de forma adequada.
— Todo mundo sabe disso. E daí?
— Ainda não compreendeu? Posso fazer o nosso instrumento, o tal do radiador de
impulso, sair por aí sozinho. Os robôs são estúpidos; limitam sua busca ao solo. Acontece
que esta caixa sabe voar. Usarei o controle remoto para narcotizá-los. Como é que não me
lembrei disso antes!
— A necessidade estimula a criatividade — comentou Tako.
Admirado, viu como Gucky lidava com a situação.
O próprio Gucky não fez nada. Agachado na sombra do depósito, mantinha os olhos
fitos na caixinha brilhante, que subitamente perdeu o peso e, deslocando-se alguns metros
acima do solo, foi-se aproximando da fileira de guardas.
Repentinamente o número 16 suspendeu as buscas e ficou reduzido à imobilidade. O
vizinho logo o imitou. Não demorou cinco minutos para que toda a fileira de robôs de
combate estivesse transformada num grupo de inofensivas estátuas metálicas que já não
possuíam vida própria. Numa tranqüilidade estóica aguardariam o momento em que
alguém lhes concedesse uma nova programação e uma nova vida.
Nem que demorasse mil anos.
Gucky trouxe o aparelho de volta. Pediu a Tako que não saísse do lugar e no mesmo
instante desapareceu. Dali a um minuto, quando voltou, a entrada do vale também estava
livre de guardas.
— Ainda faltam dezenove que estão no estaleiro. Não teremos dificuldade em
liquidá-los. Por enquanto não mexeremos nos robôs especializados. Queremos que
terminem a construção da nave. Vamos embora! É o último round!
Já era meia-noite quando Gucky conseguiu terminar o trabalho. Noventa e nove
robôs haviam sido reduzidos à inatividade. Apesar de todos os esforços não conseguiu
encontrar o último deles. Em algum ponto da área ainda havia uma dessas perigosas
máquinas. Mas o tempo era muito precioso para que se pudessem gastar algumas horas
na busca.
Os robôs de trabalho não se deixaram perturbar pelos acontecimentos. Sem
preocupar-se com nada, executavam suas tarefas, esforçando-se para manter-se dentro do
prazo fixado por Borator, o diretor do projeto.
Não seria Gucky que iria impedi-los.Tama suspirou aliviado quando Tako e Gucky
voltaram. Durante uma hora tivera que ouvir o falatório de Borator, que despertara do
desmaio. No princípio o saltador proferiu ameaças absurdas, passando depois a formular
ofertas tentadoras em troca da libertação. Tama preferiu não responder, para evitar que o
saltador descobrisse sua identidade. Que Borator quebrasse a cabeça para descobrir quem
pusera as mãos nele.
Quando o saltador viu Gucky, calou-se abruptamente. Provavelmente sua
consciência o acusava por causa do pontapé.
— Podemos dar o fora — disse o rato-castor, ocultando a preocupação causada pelo
robô que ainda se mantinha em algum lugar, aguardando a oportunidade de lutar por seus
chefes. — O resto ficará por conta de Rhodan. Tako, você vai cuidar de Tama. Ainda bem
que não tivemos necessidade de lançar mão dele. Eu me incumbirei de Borator. Já
conhecemos as coordenadas do salto: A sala de conferências de Rhodan no espaçoporto.
Fizeram os preparativos.
De um instante para outro o lugar em que se encontravam ficou vazio. Só a grama
pisada dava testemunho dos seres corpóreos que ali estiveram há pouco e agora pareciam
dissolvidos no ar.

***

Ralv e Enzally não tiveram a menor dificuldade em reunir no mesmo dia mais de
cinco mil goszuls.
Todos eles se declararam dispostos a desempenhar o papel que lhes fora destinado.
Os preparativos não consumiram muito tempo. Depois disso os nativos “infeccionados”
foram colocados em veículos especiais e levados ao espaçoporto, onde foram alojados
nos extensos edifícios da administração a fim de prepararem-se para a entrada em cena.
Nesse meio tempo chegaram Gucky, os dois japoneses e o prisioneiro. Com isso os
planos de Rhodan modificaram-se um pouco. Mandou que John Marshall, Enzally e
duzentos elementos “contaminados” fossem até o vale em que ficava o estaleiro. Ali
aguardariam até que os saltadores chegassem — se é que chegariam. O sugestor Kitai
submetera-os a tratamento, incutindo em sua mente o que deviam fazer. Os telepatas John
Marshall e Enzally cuidariam para que tudo desse certo.
Faltavam seis horas para a chegada dos saltadores.
O sargento Harnahan ainda não dera nenhuma notícia. Foi o que o tenente Fisher
transmitiu da Stardust, quando Rhodan entrou em contato com ele. De resto tudo estava
em ordem, e era muito interessante observar a vida nas profundezas do mar. Havia alguns
animais muito interessantes, para os quais a pressão da água...
Rhodan não estava interessado nas formas de vida existentes nas camadas mais
profundas do mar e mandou que Fisher avisasse assim que chegasse alguma mensagem
de Harnahan. E interrompeu o contato.
Onde estaria Harnahan?

***

Numa aceleração tremenda, totalmente compensada pelos campos energéticos, o


pequeno caça avançou pelo espaço. O planeta de Goszul mergulhou com uma velocidade
inacreditável no negrume cósmico. Poderia se dizer que caía no abismo. Em torno dele as
inúmeras estrelas brilhavam, enquanto as galáxias distantes, cuja luz levara milhões de
anos para chegar ali, emitiam uma fraca luminosidade.
Mais uma vez Harn, que era o nome pelo qual os conhecidos chamavam Harnahan,
experimentou a sensação excitante da solidão absoluta em meio ao espaço. Nem por isso
deixou de examinar todos os detalhes que observava ao seu redor e de absorvê-los em sua
mente. Aliás, sua missão era exatamente esta.
O planeta Goszul transformou-se numa estrela reluzente, iluminada em cheio por
seu sol. Harn modificou ligeiramente sua rota para colocar-se na sombra do planeta. Se
surgisse alguma emergência isso não adiantaria muito, mas sempre concorria para
tranqüilizá-lo.
Os saltadores deviam encontrar-se a várias horas-luz de distância. Seria inútil ligar
os instrumentos naquela hora. Devia procurar uma posição favorável, que lhe permitisse
uma boa observação. Também era importante que não pudesse ser descoberto com muita
facilidade.
Tirou do bolso o mapa especial que Rhodan lhe havia dado. O mesmo continha uma
representação esquemática do sistema no momento em que se encontravam.
Logo teve a atenção despertada para o quarto planeta. Devia possuir ao menos
cinqüenta luas pequenas, que circulavam em torno dele nas órbitas mais variadas.
À primeira vista, Harn achou que esse sistema de pequenas proporções não era nada
simpático.
Voltou a corrigir a rota e, desenvolvendo uma velocidade próxima à da luz, correu
velozmente em direção ao novo objetivo.
Dali a menos de uma hora teve que desacelerar a nave, para não colidir com uma
das pequenas luas. O sistema podia ser comparado com uma mistura de anéis de Saturno
com o círculo de asteróides. Os fragmentos de um antigo planeta gêmeo, ou de uma lua
maior, circulavam a esmo em torno do quarto planeta. Não formavam um círculo
ordenado como os fragmentos da antiga lua de Saturno, mas também não descreviam
órbitas em torno do sol como o círculo de asteróides. Mantinham-se junto ao astro de que
provinham.
Não era fácil orientar-se naquele setor do espaço.
Pelos seus cálculos a frota dos saltadores devia encontrar-se a dez horas-luz. Havia
tempo de sobra para dar uma olhada por ali, procurando um bom esconderijo.
Muitos dos fragmentos tinham menos de um quilômetro de diâmetro, enquanto
outros chegavam a cinqüenta quilômetros. Manobrando cautelosamente, conduziu o
pequeno foguete em meio à confusão dos fragmentos que se deslocavam lentamente,
gozando em cheio a satisfação de ser o único ser vivo naquela desolação.
Já retirara as placas protetoras de metal, de modo que a carlinga deixava livre a
visão. Realizava um vôo puramente visual, sem instrumentos. A pequena nave reagia
prontamente à menor pressão dos dedos. A cabine era apertada, mas o excelente
equipamento de condicionamento de ar fazia com que a permanência nela se tornasse
suportável.
Harn tomou um tablete energético das reações de emergência e bebeu um gole de
água. O suprimento de oxigênio e de alimentos bastava para três meses, o que
evidentemente era uma simples precaução. Mas também proporcionava uma
tranqüilidade que não era de desprezar.
Uma lua relativamente grande aproximou-se de lado. Sua superfície irregular e
entrecortada mostrava extensas cadeias de montanhas e vales profundos, nos quais nunca
penetrava a luz do sol distante nem os reflexos débeis do planeta. Pelos cálculos de Harn,
seu diâmetro devia ser de cerca de oitenta quilômetros; seu tamanho correspondia ao de
um respeitável asteróide.
Se mais tarde alguém perguntasse a Harnahan por que escolhera justamente essa lua
como ponto de observação, receberia as respostas mais contraditórias. Ora diria que foi
por causa da conformação favorável da superfície, que oferecia ótimos esconderijos, e de
outras vezes afirmaria de pés juntos que um sentimento inexplicável literalmente o havia
arrastado para baixo. De qualquer maneira, a escolha de Harnahan não poderia ter sido
mais feliz.
O sargento deu duas voltas em torno da lua antes de descobrir uma cadeia de
montanhas apropriadas aos seus propósitos.
Lentamente e com a maior cautela foi dirigindo o caça para a superfície e pousou no
cume achatado de uma montanha relativamente elevada, que excedia as outras por
algumas centenas de metros. Era um platô que permitia a visão para todos os lados e, em
virtude da acentuada curvatura da superfície daquela lua, deixava livre um setor de mais
de setenta por cento do céu. E não era tudo.
No centro do pequeno platô havia uma depressão. Seu tamanho era exatamente o
necessário para abrigar o caça espacial. Se Harn se desse ao trabalho de colocar
cuidadosamente algumas rochas sobre o aparelho, ninguém descobriria o foguete, mesmo
que passasse a vinte metros de altura.
Harn examinou cuidadosamente o terreno antes que manobrasse a nave para a
depressão, mediante o campo gravitacional ativado a uma potência mínima. Uma vez lá,
atingiu a posição de repouso. A carlinga mal e mal sobressaía da abertura pouco
profunda.
O gravímetro indicava 0,01g. Era muito pouco. Harn teria que agir com cautela para
não executar um movimento precipitado, que faria com que ultrapassasse a velocidade de
fuga, passando a circular em torno da lua como se fosse um satélite dela.
Olhou para o relógio. Estava na hora de instalar-se com um certo conforto.
Com um movimento rápido, fechou o capacete de seu traje pressurizado. Com
algum esforço, enfiou-se no pequeno compartimento do solo da cabina, que servia de
comporta de ar. Não levou nenhuma arma. Para quê. Por ali não podia haver ninguém que
pudesse ameaçá-lo. Além disso, precisava conservar as mãos livres, pois não seria nada
fácil empilhar a massa ainda respeitável das rochas, leves como uma penugem, em torno
da carlinga e por cima do corpo da nave.
Não era a primeira vez que Harn se encontrava no espaço, e nem mesmo a
gravitação reduzida da lua o impressionava. Mas desta vez as coisas eram diferentes. Mal
saiu de baixo do foguete e levantou-se, o cume da montanha começou a afundar diante
dele como se o tivesse afastado com um pontapé. Subiu quase cinqüenta metros e deu
uma cambalhota lenta. O céu girou em torno dele e por um instante terrível perdeu o
senso de orientação e acreditou estar caindo nas profundezas do Universo. Com alguns
movimentos bem calculados reduziu seu movimento de rotação. A superfície da lua
voltou a situar-se bem embaixo dele e aproximou-se lentamente. Estava caindo.
A menos de duzentos metros do foguete pousou suavemente na encosta da
montanha. Segurou-se instintivamente numa rocha. Dali a pouco riu. Foi um riso alegre e
despreocupado. O riso de um menino que conseguiu pregar uma peça a alguém.
Visando o cume da montanha, empurrou-se cautelosamente. A uns três metros do
solo subiu encosta acima como um projétil e logo se viu sobre o platô. Aterrizou junto ao
foguete.
Não tinha mais a menor dúvida de que conseguiria deslocar-se ordenadamente sobre
a superfície do planeta. Era apenas uma questão de hábito e adaptação.
Havia rochas em quantidade. Harn pegou-as uma por uma e colocou-as sobre o
foguete, de tal forma que só a cúpula sobressaía acima delas. Era praticamente impossível
que a mesma fosse descoberta por alguém que se encontrasse no espaço. Por outro lado,
Harn tinha uma oportunidade única de inspecionar todo o sistema, pois o lento
movimento de rotação da lua possibilitava a visão para todos os lados. E não haveria a
menor dificuldade em decolar numa questão de segundos, pois os blocos de pedra não
representavam nenhum acréscimo de carga para os potentes propulsores da nave.
Deslizariam de cima dela e cairiam na lua.
Harn olhou para o relógio. Ainda dispunha pelo menos de cinco horas antes que
chegasse o momento crítico. Talvez fosse conveniente entrar em contato com a Stardust
para informar Fisher sobre o ponto em que resolvera instalar-se. Mas não havia pressa.
Não seria preferível aproveitar a chance única de ver um mundo estranho e
desabitado, onde andar devia ser um prazer enorme?
Por um instante pensou em pegar a pistola de radiações que se encontrava na nave.
O recuo da mesma lhe permitiria corrigir a velocidade e a direção dos saltos. Mas desistiu
do seu intento. Mesmo que se enganasse nos seus cálculos, nada lhe poderia acontecer. A
gravitação era tão reduzida que nem mesmo a queda mais profunda poderia produzir
qualquer ferimento.
Lançou mais um olhar para o foguete bem camuflado e, com um ligeiro impulso,
disparou obliquamente para o céu negro, formando um astro independente, praticamente
libertado de qualquer gravitação que o prendesse a um outro mundo. Calculara o salto de
maneira a atravessar o vale que separava a montanha dos cumes mais próximos, um
pouco mais baixos. Bem embaixo passaram rochas íngremes e grotas entrecortadas. Não
seria nada agradável pousar ali, mas um único impulso bastaria para colocá-lo em
segurança.
O ligeiro temor revelou-se infundado. O vôo fora tão bem calculado que pousou são
e salvo no cume da montanha mais próxima.
Aqui o panorama não era muito diferente daquele que se descortinava da primeira
montanha. Deu mais dois saltos, o último dos quais fez com que ele avançasse mais de
trezentos metros em linha reta, e chegou à planície. Durante dez minutos contentou-se em
subir simplesmente na vertical e, criando coragem, empurrava-se cada vez com mais
força.
Pelos seus cálculos alcançou uma altura recorde de cento e cinqüenta metros antes
que começasse a descer lentamente. Depois procurou quebrar o recorde mundial em salto
a distância, o que não foi nada difícil. Numa parábola esticada atingiu a marca dos
quinhentos metros, o que não era de desprezar. Quando contasse a façanha aos colegas,
estes se roeriam de inveja ou o chamariam de mentiroso.
As tentativas levaram-no para junto de uma cadeira de montanhas que chamava a
atenção pela encosta lisa, que se apresentava como uma parede. Devia ter uns dois
quilômetros de altura. Depois de um exame cuidadoso, Harn constatou algumas
saliências na encosta, motivo por que decidiu que, para coroar sua aventura, venceria este
obstáculo e, uma vez atingidos os píncaros da encosta, realizaria um longo vôo.
A coisa não foi tão simples como ele imaginara. Depois do impulso subiu quase na
vertical, mas não conseguiu aproximar-se do paredão o suficiente para encontrar um
apoio. Quando a força do impulso cessou, foi descendo com a encosta quase ao alcance
da mão. A experiência nos ensina muita coisa. A segunda tentativa fez com que ele
pousasse sobre uma estreita faixa de rocha que sobressaía do paredão cem metros acima
da planície. Se estivesse nessa situação numa montanha da Terra, Harn se agacharia e
esperaria que os guardas montanheses viessem resgatá-lo. Mas aqui as coisas eram
diferentes. Olhou para a terrível profundeza e não sentiu a menor tontura.
Acima dele o paredão não era tão liso como acreditara. Dali a cinqüenta metros
havia uma saliência. Fixou-a e saltou. Seus dedos agarraram-se a rocha nua e sem o
menor esforço conseguiram levantar o corpo.
Outro salto.
Em menos de trinta minutos chegou ao cume. O panorama ultrapassou todas as
perspectivas. Não havia nenhuma atmosfera que pudesse turvar os horizontes. As pontas
das montanhas que afundavam atrás da curvatura pareciam tão próximas que se tinha a
impressão de poder alcançá-las num único salto. Dois quilômetros abaixo de Harn
estendia-se a grande planície. Se desejasse, poderia realizar um velho sonho da
juventude, saltando para lá. Quantas vezes não desejara isso quando, depois de escalar
uma montanha à custa de muito esforço e suor, via os vales e os lagos estenderem-se lá
embaixo. Agora poderia fazê-lo, se quisesse. Do outro lado da planície viu uma
montanha. Ficava longe para quem quisesse andar. Mas Harn voaria.
Harn sentiu-se tomado por uma espécie de embriaguez. Com um grito de alegria
empurrou-se vigorosamente e deslizou a pequena distância dos cumes, que eram pouco
acidentados. Mas não eram muito largos. Do outro lado a encosta não era tão íngreme,
mas em compensação estava entrecortada de rochas e grotas.
Subitamente as montanhas terminaram num paredão.
Harn aproximou-se cautelosamente e olhou para baixo. Tinha a impressão de que a
bacia que se estendia abaixo dele ficava em nível mais baixo que a planície da qual viera,
mas talvez fosse uma simples impressão causada pelas encostas quase verticais que
cercavam a depressão quase por completo.
Harn ficou uns dez minutos junto ao precipício, desfrutando a vista que na Terra lhe
daria ao menos um calafrio. Finalmente resolveu realizar o velho sonho.
Abriu os braços e tomou ligeiro impulso. Empurrou-se na beira do abismo e como
um passarinho foi planando para o nada.
Começou a cair aos poucos. Bem atrás dele o paredão foi deslizando para cima,
enquanto ele mesmo ia descendo numa queda sempre mais vertical, em direção ao fundo
da bacia, que se aproximava lentamente.
Demorou muito, muito mesmo até que os pés tocassem o chão. Fizeram-no com
uma elegância que teria impressionado qualquer observador. Harn já adquirira alguma
experiência em assumir qualquer posição que desejasse durante a queda muito lenta.
Estava quase no meio da bacia, um pouco mais próximo à cadeia de montanhas. O
chão era liso e plano. À direita via-se um setor da grande planície, através da qual acabara
de saltar.
Mas a montanha que se encontrava diante dele era mais interessante. Era uma bola
de formato regular e de pouca altura. O topo era arredondado, lembrando a proa de uma
nave espacial. De resto a montanha era lisa, sem apresentar saliência. Chegava a dar a
impressão de ter sido trabalhada artificialmente; é claro que essa idéia não passava de
rematada tolice. Ninguém poderia viver aqui, e ninguém se daria ao trabalho de modificar
o formato de uma montanha.
Depois de um exame mais atento, viu alguma coisa regular no pé da elevação
piramidal. Ficava bem no centro. Era quadrado, como se fosse uma porta.
Seria uma porta que conduzia para o interior da rocha? Harn chamou a si mesmo de
idiota e efetuou o primeiro salto, contendo a força do impulso. Percorreu menos de trinta
metros antes de pousar no solo.
A porta continuava no mesmo lugar!
Na verdade, não era nenhuma porta. Parecia antes uma chapa de metal incrustada no
paredão.
Mais um salto. Aquela porta maluca ainda se encontrava a cem metros. Harn
respirou profundamente, lembrou-se vagamente de que seu suprimento de oxigênio dava
para mais três horas, e saltou pela última vez.
Pousou bem na frente da chapa de metal.
Diante da chapa, três degraus penetravam montanha adentro. Terminavam diante da
porta.
Na soleira da porta havia uma esfera que brilhava em todas as cores do arco-íris.
— Seja bem-vindo, Harnahan — disse alguma coisa no cérebro de Harn. — Esperei
muito por você.
4

Topthor não manteve contato pelo rádio com as onze naves de sua frota, pois não
quis assumir qualquer risco. O alcance das ondas audiovisuais era bastante limitado, de
maneira que não havia perigo de que alguém pudesse ouvi-los.
— Falta meia hora — disse Topthor, cumprimentando o rosto de Rangol que surgiu
na tela. — Ali reduziremos a velocidade. Voaremos diretamente para o espaçoporto do
planeta Goszul e pousaremos lá. O que vamos fazer depois depende das circunstâncias.
— Por que não cuidamos em primeiro lugar do estaleiro? Afinal, temos as
coordenadas.
— A nave ainda não está pronta e não vai fugir. A direção do projeto está a cargo de
um certo Borator. Dizem que é um elemento de confiança. Bem, nas circunstâncias atuais
isso não quer dizer muita coisa.
Surgiu uma pausa prolongada, durante a qual cada um dos interlocutores estava
mergulhado em seus pensamentos, que diferiam bastante. A união só surgiria no
momento em que o perigo se tornasse agudo.
O planeta Goszul cresceu, enquanto a velocidade das duas naves diminuía
rapidamente. Enquanto isso, conforme sabia Topthor, as onze naves restantes circulavam
em torno do sistema, cuidando para que ninguém saísse dele... ou penetrasse nele.
Poucos minutos depois, a linha costeira do continente que os nativos chamavam de
Terra dos Deuses saiu da sombra do planeta, penetrando na zona iluminada pelos raios
refulgentes do sol. Um novo dia estava começando lá embaixo.
Topthor fez um sinal para Rangol.
— Estamos chegando em boa hora. Não faço a menor idéia do que os nativos
poderão ter feito com o planeta sem dono, mas será preferível agirmos com cautela. Se a
epidemia se alastrou ainda mais teremos que lidar com gente louca, talvez com rebeldes.
Mas seja como for, teremos que desincumbir-nos de nossa tarefa.
— Será que não podemos ser contaminados?
— Em hipótese alguma. Antes de mais nada vamos desembarcar robôs, que serão
trancados nos compartimentos especiais juntamente com o material que for resgatado.
Depois serão expostos ao vácuo. Acho que nem mesmo a mais resistente das bactérias
sobreviverá a isso.
— É uma boa idéia — disse Rangol. — Não posso imaginar um desinfetante mais
eficiente que o espaço cósmico.
— Dificilmente haverá — confirmou Topthor. — Atenção, daqui a pouco vamos
pousar. Pelo que vejo o espaçoporto parece estar vazio. Não há ninguém por ali.
As duas naves baixaram lentamente sobre o campo de pouso abandonado e
finalmente tocaram o solo. Topthor teve a impressão de que toda vida se extinguira no
planeta de Goszul. A grande área vazia estendeu-se diante de seus olhos, que a
examinavam atentamente. Também nos edifícios que margeavam o campo de pouso não
parecia haver o menor resquício de vida. Ao leste, o sol surgiu por cima das colinas,
mergulhando as últimas sombras numa luz ofuscante. O colosso superpesado, acomodado
junto aos controles da Top I, afastou as preocupações com um simples gesto.
— Faremos sair cinqüenta robôs de trabalho e igual número de robôs de combate —
disse, dirigindo-se a Rangol. Ligou o intercomunicador para entrar em contato com os
postos de comando da nave. — Talvez os goszuls se tenham recolhido às montanhas. É
estranho que não haja nenhum robô de vigilância.
Os oficiais de plantão responderam ao chamado. Sem tirar os olhos dos edifícios
distantes, Topthor ordenou:
— Vamos colocar em terra cinqüenta robôs de trabalho e igual número de máquinas
de combate destinadas à proteção dos mesmos. Utilizem a escotilha de carga que já foi
preparada. Rangol, assuma o telecomando dos trabalhadores, Eu cuidarei do contingente
de proteção.
Dali a dez minutos cem robôs pesados atravessaram a passos retumbantes as rampas
e pisaram na superfície do planeta contaminado, no qual não parecia existir mais
nenhuma vida. Agruparam-se em duas unidades e puseram-se em marcha. Seus destinos
eram os edifícios da administração e os postos de controle dos robôs estacionados no
planeta.
Como um enorme toco, Topthor estava sentado na poltrona disforme,
acompanhando a ação. Através do aparelho de tele direção assumiu o controle direto dos
robôs de combate. Não queria que uma eventual decisão ficasse a cargo dos cérebros
positrônicos.
Por enquanto não aconteceu nada. A surpresa de Rhodan ainda se faria esperar.
Quando o exército teleguiado havia percorrido aproximadamente metade do
caminho, alguma coisa começou a mover-se entre as árvores raquíticas plantadas diante
dos edifícios. Topthor logo percebeu. Eram goszuls, os nativos desse mundo.
Reconheceu-os pelo catálogo ao qual recorrera para informar-se sobre o mundo em que
teria de ser executada a tarefa.
Uma tela amplificadora permitiu-lhe ver ainda mais.
Verdadeiras massas de gente saíram das portas bem abertas e corriam em direção
aos robôs, como se quisessem derrubá-los.
Por dois segundos Topthor ficou perplexo, mas depois viu alguma coisa que fez um
calafrio passar por suas costas largas. Nos rostos dos goszuls viam-se os sinais
inconfundíveis da terrível epidemia. Manchas vermelhas e azuis espalhavam-se pelas
bochechas, pela testa e pelo pescoço. Alguns dos nativos estavam sem camisa. Seus
peitos pareciam caixas de tintas.
As mãos de Topthor tremeram quando verificou o tele controle dos robôs de
combate. Era um caráter sem escrúpulos, que não recuava diante de nada, mas a idéia de
usar robôs contra um bando de selvagens desarmados causava-lhe repugnância. Além
disso, as leis de seu clã não permitiam tal procedimento.
Mas acabou assustando-se.
Formando uma frente ampla, os robôs de combate que os saltadores haviam deixado
no planeta avançaram atrás dos goszuls. Seus radiadores energéticos encontravam-se em
posição horizontal, prontos para disparar. No primeiro instante tinha-se a impressão de
que tangiam diante de si os goszuls, que naquele instante alcançaram a formação de
combate de Topthor, e passaram por elas, correndo em direção às duas naves pousadas.
Dentro de mais alguns minutos alcançaram-nas e começaram a dançar em torno delas
com uma terrível gritaria.
Topthor sentiu-se abalado. Então era isso que acontecia com seres dotados de
alguma inteligência que perdem a memória. Não sabiam mais o que vinha a ser uma nave
espacial, ignoravam o perigo que a mesma podia representar. Parecia um bando de cegos
que corria para a desgraça.
A mão esquerda, que já se encontrava sobre os botões dos radiadores da nave,
recuou com um ligeiro tremor. Não. Topthor não atiraria contra um grupo de seres
indefesos. Estava disposto a enfrentar qualquer inimigo de igual para igual e, sempre que
pudesse, o destruiria, mas atacar seres indefesos, doentes... isso não!
Rhodan suspirou aliviado no seu esconderijo. Fosse quem fosse esse Topthor,
naquele instante fizera com que o juízo a seu respeito fosse favorável. Era um inimigo, e
Rhodan tinha contas a ajustar com ele, mas não era nenhum monstro que se compraz em
derramar o sangue de seres inocentes.
Topthor não sabia que acabara de salvar sua vida.
Voltou a dedicar sua atenção aos robôs e perguntou de si para si o que teria
acontecido com as unidades deixadas no planeta.
Será que a moléstia os afetara? Até parecia que era assim, pois não havia explicação
para seu estranho comportamento. Topthor não poderia saber que todos os robôs
existentes no planeta de Goszul haviam sido reprogramados, a fim de transformar-se em
servos fiéis de Perry Rhodan.
Aliás, nem sabia quem era seu inimigo. Supunha que Rhodan se encontrasse na
Terra, um planeta situado a 1.012 anos-luz, e um belo dia pretendia ajustar contas com
ele. Pelo que pensava, aqui só estava enfrentando o flagelo do esquecimento. Acontece
que os próprios robôs passaram a atacá-lo.
E o fizeram com uma precisão espantosa.
A primeira salva energética foi tão surpreendente que Topthor não reagiu com a
necessária rapidez. Antes que pudesse ordenar ao grupo de cinqüenta robôs que ativasse
os campos protetores energéticos, metade do mesmo já se derretera sob o fogo contínuo
dos atacantes. Obedecendo ao seu comando, os que restavam defenderam-se
desesperadamente, mas nada puderam fazer face à superioridade do inimigo. Um campo
energético atrás do outro sucumbiu sob os disparos dos radiadores, e com eles os
respectivos robôs.
Dentro de cinco minutos a companhia foi destruída. Nada aconteceu aos robôs de
trabalho.
Havia nisso uma contradição que deu o que pensar a Topthor.
Se é que as unidades de robôs contaminadas do planeta de Goszul haviam perdido o
juízo positrônico, se não sabiam mais o que estavam fazendo, como se explicava que
destruíam apenas os robôs de combate? Por que não atacavam os trabalhadores? Ainda
deviam possuir uma memória.
Ou estariam sendo dirigidos por alguém?
Mas por quem...?
Topthor percebeu que pela primeira vez em sua longa vida algo como o medo
começou a apossar-se dele. Era um medo terrível e indefinido, para o qual não encontrava
explicação.
Transmitiu aos robôs de trabalho o comando de retornar à nave.
Os cinqüenta colossos obedeceram. Fizeram meia-volta e puseram-se em marcha de
volta para a nave. Mas não foram longe. Os robôs de combate foram mais rápidos.
Bloquearam sua retirada e com seus corpos robustos empurraram-nos para a periferia do
campo de pouso.
Topthor teve que assistir inerme ao aprisionamento dos seus trabalhadores. Nunca
esqueceria o espetáculo.
Os olhos muito arregalados de Rangol contemplaram-no da tela. A cor morena de
sua pele cedera lugar a um cinza-sujo. A ponta da barba tremia.
— O que é isso, Topthor? Como podia acontecer...?
— Não sei! — respondeu Topthor laconicamente e fitou os goszuls, que
continuavam no seu berreiro, dançando em torno das naves e sacudindo os braços, como
se estivessem cumprimentando um grupo de deuses vindo do céu. — Não sei mesmo. Os
robôs também devem ter enlouquecido. Como estarão as coisas no estaleiro?
— Será que vale a pena resgatar máquinas loucas? — perguntou Rangol.
Topthor não respondeu. Por algum tempo continuou a contemplar a multidão maluca
que se comprimia entre as naves, lançou um olhar para os edifícios, onde os últimos
robôs estavam desaparecendo entre as árvores, e ligou o telecomunicador.
— Preparar ambas as naves para a decolagem. Devemos salvar pelo menos o
cruzador que se encontra nas montanhas. Em hipótese alguma deve cair em mãos
estranhas. Oportunamente serão informados sobre as respectivas coordenadas.
Decolaremos dentro de trinta segundos com o antígravo, para que os nativos não sejam
machucados.
Tão silenciosamente como tinham vindo, as duas naves voltaram a subir.
Lá embaixo, no campo de pouso, os cinco mil goszuls berravam que nem uns
malucos e agitavam os braços. Parecia um bando de loucos, mas naquele instante os
homens de Ralv não estavam representando.
Estavam satisfeitos de verdade.
A repentina retirada deixou Rhodan surpreso.
— Será que a força de elite dos saltadores foge tão depressa? — disse admirado,
procurando compreender o procedimento do inimigo. — Devem ter um medo terrível da
doença, principalmente porque acreditam que a mesma também ataca os robôs.
— Seria uma tolice rematada afirmar que um cérebro positrônico... — principiou
Bell em tom professoral, mas logo se calou. Olhou para Rhodan com uma expressão não
muito inteligente. — Não venha me dizer que você pensa que os saltadores acreditam
numa coisa dessas.
— Parece que sim, não acha?
Bell mergulhou em reflexões. Enquanto isso Rhodan pôs-se a mexer no seu
minúsculo aparelho de rádio.
— Alô, Marshall. Conte a qualquer momento com o aparecimento dos saltadores.
Provavelmente serão apenas duas naves. Pelo que deduzimos das mensagens que
conseguimos captar, trata-se de nosso velho amigo Topthor e de um certo Rangol. Estão
poupando os nativos, mas provavelmente usarão todos os recursos contra os robôs para
apoderar-se da nave. Para eles vale mais que todos os robôs do planeta de Goszul.
— Estamos preparados — respondeu o telepata. — Os robôs de combate aqui
estacionados foram reprogramados de acordo com suas indicações. Agora são nossos.
Também Borator, que neste meio tempo chegou aqui, desempenha seu papel com toda
arte.
— Que papel que nada — respondeu Rhodan. — Kitai influenciou o saltador,
fazendo dele um excelente aliado. Borator acredita que age por sua livre e espontânea
vontade. Topthor ficará admirado quando se encontrar com ele. Mais uma coisa,
Marshall. Todo mundo tem que fazer de conta que está trabalhando sob as ordens dos
saltadores. Perderam a memória, mas estão concluindo a construção da nave. A falta de
lógica dos acontecimentos acabará por confundir Topthor.
— Tomara.
— Não tenha a menor dúvida — asseverou Rhodan e desligou. Refletiu por um
instante e chamou a Stardust.
— Alô, Fisher. Tudo em ordem? Como vão seus animais submarinos?
— Ficam nadando em torno das escotilhas, fazendo como se quisessem entrar.
Infelizmente não temos permissão para dar um passeio no fundo do mar, mas...
— A proibição continua de pé. Já há alguma notícia de Harnahan?
— Por enquanto não deu sinal de vida.
— Não compreendo. Será que a camada de água é muito espessa e as ondas,
intencionalmente expedidas a baixa potência, não podem penetrar nela? Deve haver
alguma explicação para o silêncio de nosso caça espacial.
— Harnahan é um homem de confiança e...
— Avise-me assim que der alguma notícia — interrompeu Rhodan e suspendeu o
contato.
O dispositivo automático ligaria seu aparelho assim que Fisher chamasse.
Rhodan dirigiu-se ao major Deringhouse.
— Que tipo de pessoa é o sargento Harnahan, Deringhouse?
O major arregalou os olhos.
— O que quer dizer com isso?
— Bem, pode-se confiar nele? É um homem frio e objetivo, um sonhador, um
espírito teórico, um realista? De que forma agiria se dependesse exclusivamente de si
mesmo?
Deringhouse estreitou os olhos.
— Não sei como responder à sua pergunta. Só sei dizer que o sargento Harnahan é
um excelente piloto e um homem de confiança. Por que iria adotar no espaço uma atitude
diferente daquela que costuma ter quando se encontra conosco?
— Perguntei por perguntar, major. Esqueça.
Deringhouse sabia perfeitamente que Rhodan não fazia perguntas inúteis. De
repente também achou que não era nenhum absurdo estabelecer uma ligação entre o
caráter do piloto e a notícia há tanto tempo esperada. As idéias mais loucas podiam vir à
mente de um homem que se encontrasse a sós num minúsculo foguete perdido na
imensidão do espaço.
— É possível que Harnahan seja um espírito romântico — disse, rompendo o
silêncio.
Rhodan mal levantou os olhos ao dar um aceno quase imperceptível da cabeça.
— Era o que eu imaginava. Bem, veremos como Harnahan explicará seu silêncio
prolongado.
Bell preferiu guardar sua opinião para si.

***

No primeiro instante, Harn pensou que acabara de perder o juízo e estava vendo e
ouvindo alucinações.
Quanto ao ouvido, era bem mais fácil acreditar numa ilusão dos sentidos. Com a
vista a coisa era diferente. A esfera reluzente continuou no mesmo lugar. Permaneceu
diante dos pés de Harnahan, imóvel e como que em expectativa. Tinha aproximadamente
o dobro do tamanho de uma bola de futebol.
Parecia ser de metal, mas se alguém contasse a Harn que era de gesso, estaria
inclinado a acreditar nisso. De repente teve a impressão de que alguma coisa estava
acontecendo ao seu cérebro. Sentiu que não era nada de mal, e não havia nenhum tom de
ameaça naquela pesquisa que procurou misturar o consciente e o subconsciente.
Subitamente voltou a soar a voz silenciosa, que já acreditara ter ouvido:
— Não, Harnahan, seu estado é perfeitamente normal. O que você vê e sente é pura
realidade. Comecei a sentir seus pensamentos quando você se aproximava deste mundo.
Não quis assustá-lo; por isso resolvi esperar que você me descobrisse.
Harn teve a impressão de que a esfera estava modificando os reflexos coloridos de
sua superfície polida. Aos poucos foi se tornando preta como o espaço cósmico. As
estrelas distantes refletiam-se nela como nas águas profundas de um lago. Ao fitá-la com
mais atenção, Harn percebeu que as estrelas aumentavam de tamanho e se aproximavam.
— Não se espante, Harnahan, mas sou capaz de oferecer a imagem ótica dos meus
pensamentos. O que deseja ver? A nave em que veio? O planeta do qual decolou? Ah, não
é seu mundo, pelo que vejo.
Harn viu que as estrelas se deslocavam na superfície negra e, perplexo, contemplou
a cúpula reluzente de seu caça. Parecia que se encontrava vinte metros acima do cume da
montanha.
— Que coisa incrível! — exclamou. — Como é possível? Que técnica é capaz...?
— A natureza encerra tesouros muito mais ricos que a tecnologia.
A frase gravou-se em seu cérebro com a força do fogo. O ser estranho devia tê-la
formulado em pensamento. Aos poucos Harn começou a compreender que a esfera que
tinha diante de si não era uma obra-prima da tecnologia de alguma raça desconhecida.
Era um membro da raça.
A esfera vivia.
— É claro que vivo, Harnahan, mas estou só. Não existe outro ser da minha raça, a
não ser que o acaso o tenha criado, como fez comigo. Todo início de vida tem sua origem
no acaso divino, Harnahan. Pela sua escala de tempo tenho cerca de cinco milhões de
anos.
“Enlouqueci; não há dúvida!”, pensou Harnahan desesperado. Mas a esfera
continuava no mesmo lugar. Deitada aos seus pés, voltou a exibir na superfície
fortemente abaulada a profusão das estrelas. E a esfera também pensava, e pensava de tal
forma que ele entendia. Era inteligente e possuía capacidades telepáticas. Bastava pensar
para que ela o compreendesse.
— Sim, compreendo e sei qual é o motivo da sua presença. São os mercadores
galácticos. Ajudarei você e Perry Rhodan.
Harn ficou estupefato.
— O que sabe a respeito de Rhodan? — perguntou em voz alta no interior de seu
capacete. De repente teve a idéia louca de que a pequena esfera que via diante de si
poderia ser uma nave espacial em miniatura, na qual se abrigassem inteligências
incrivelmente pequenas.
— Sei quase tudo a respeito de Rhodan. Mas não se preocupe. Comigo qualquer
saber está em boas mãos. Mais uma coisa: sou capaz de viver em qualquer lugar, mesmo
no vácuo. Minha forma esférica é a mais favorável das formas. A ausência de pressão e a
pressão elevada são por ela compensadas com a maior facilidade.
Naquele mundo sem atmosfera Harnahan defrontou-se com o maior dos milagres
jamais visto por um olho humano. Acima dele fulgurava a luz das estrelas, trazendo à sua
consciência a solidão infinita em que se encontrava. Estava só e teria que lidar com o
impossível.
— Sua raça é muito poderosa, Harnahan, mas mesmo a mais poderosa das raças tem
suas fraquezas. Até eu. Há sete séculos estou nesta lua e armazeno energias para
prosseguir na minha viagem pelo Universo. A radiação das estrelas é fraca. Basta para
manter-me vivo e guardar uma parcela insignificante. Terei que aguardar mais um
milênio para prosseguir na minha viagem.
— Não compreendo, aliás, já não estou compreendendo mais nada — gemeu Harn,
amargurado pela incapacidade de compreender o incompreensível. — Quem... o que é
você?
Uma súbita alegria tomou conta do cérebro de Harnahan. Teve a impressão de que a
esfera estava rindo. Mas respondeu a pergunta.
— Você está aqui para esperar as naves dos saltadores, que pretendem atacar um
mundo indefeso. Os terranos querem ajudar os seres indefesos. Estou disposto a não lhes
negar meu apoio, desde que receba um pagamento adequado.
— Um pagamento? — disse Harn quase sem fôlego.
— Isso mesmo. Um pagamento em energia. Vocês têm bastante. Eu os ajudo na luta
contra os saltadores, e em compensação vocês me dão energia. Ao menos o suficiente
para que possa chegar mais perto do sol. Uma vez lá, poderei cuidar de mim.
“Rhodan!”, pensou Harn. “Não posso fazer nenhuma concessão. Se ele recusar. Mas
que motivos teria para recusar?”
— Eu os ajudarei — interrompeu-o a esfera.
— Como?
— Isso depende da situação. O mínimo que posso fazer é comunicar a posição das
naves a qualquer instante. Naturalmente terei que limitar-me às mensagens óticas. Minhas
reservas de energia não são suficientes para uma intervenção pessoal. Vá buscar sua
nave!
— Minha nave? Para quê? Está camuflada, para que os saltadores não a descubram.
— Você pode entrar em contato com Rhodan sem recorrer à nave?
Harn sacudiu a cabeça.
— O que acontecerá se eu for descoberto por uma nave dos saltadores?
— Minhas reservas energéticas bastam para lidar com uma situação desse tipo —
prometeu o ser estranho. — Vá buscar sua nave.
Harn olhou para o relógio. Já era tarde. Seu passeio sobre os morros e os vales havia
consumido muito tempo. E agora a longa conversa com... com quem mesmo? Suspirou.
— Não estarei de volta antes de uma hora, e ali poderemos esperar a qualquer
momento que alguém descubra esta lua por acaso e comece a inspecionar a mesma.
— Pois então esse alguém se arrependerá por acaso — foi a resposta. — Vá logo,
senão ficará mesmo tarde. Depois responderei a todas as perguntas formuladas por você.
Por mais alguns segundos Harnahan, mergulhado em pensamentos, fitou a esfera
que emitia um brilho negro. Depois virou-se sem dizer uma palavra e com um forte
impulso afastou-se do solo.
Com três saltos transportou-se à planície.

***

Foi Gucky em pessoa que levou de volta ao vale do estaleiro o saltador Borator, que
antes fora submetido a rigoroso interrogatório telepático e ao tratamento do sugestor
Kitai. Borator recebera suas diretivas. Algumas manchas coloridas no rosto indicavam
que a epidemia do esquecimento já estendia seus tentáculos em direção ao seu cérebro.
Ao menos era o que Topthor e seus companheiros deviam acreditar.
Procurou John Marshall e transmitiu-lhe as últimas instruções de Perry Rhodan. O
pequeno entrevero no espaçoporto provara que os saltadores temiam a epidemia mais do
que se ousara esperar. Além de tudo estavam acreditando que a epidemia do
esquecimento atacava não apenas os cérebros humanos, mas também os positrônicos.
Era principalmente esse fato que devia ter representado um choque terrível para
Topthor. Gucky fez questão de salientar esse ponto.
— Devemos evitar o derramamento de sangue — disse, contemplando o vale, que
continuava bloqueado por uma fileira de robôs de combate. Por enquanto a tarefa dos
duzentos goszuls consistia em ajudar os robôs de trabalho na construção da nave, a fim de
reduzir o prazo de conclusão. Fizeram o papel de nativos contaminados, que ainda não
tinham enlouquecido. — Basta meter um susto tremendo nesse Topthor. Rhodan acredita
que nesse caso não voltará a aparecer tão depressa.
— Dificilmente poderemos evitar o derramamento de sangue se ele resolver pousar
aqui — objetou Marshall. Conhecia a mentalidade inescrupulosa dos saltadores, e
acreditava que numa força de choque especial como a dos superpesados a falta de
escrúpulos seria ainda maior. — Será que não poderemos defender-nos? Combinamos
que Topthor e seus homens seriam rechaçados com todos os meios de que dispomos. Será
que os planos foram modificados?
Gucky sorriu e acenou com a cabeça. O dente roedor ficou à vista, brilhando no seu
esplendor solitário. Esse dente também era responsável pelo ligeiro chiado com que
Gucky pronunciava as palavras, embora dominasse perfeitamente várias línguas.
— Sim, houve algumas modificações. Topthor foi mais decente do que prevíamos.
Não mandou atirar contra os goszuls indefesos. Nosso chefe lhe dá um elevado crédito
por isso. Por isso nossa divisa é mais do que antes a seguinte: apenas vamos fazer blefe
com Topthor. Temos que nos cuidar para que não obtenha qualquer indicação sobre nossa
identidade. De qualquer maneira não posso aparecer diante desse sujeito, pois é bem
possível que Etztak lhe tenha contado alguma coisa a meu respeito. Afinal, vocês são
gente bastante...
Sobre a mesa havia uma caixinha, e de repente ela começou a zumbir.
Marshall lançou um olhar de excusas para Gucky e acionou a tecla de recepção.
Uma voz na qual o rato-castor identificou a de Borator, o homem que se encontrava sob
domínio hipnótico, disse em tom exaltado:
— Ataque por um robô de combate... junto à saída do vale. Quatro goszuls foram
mortos. Os outros conseguiram fugir.
Por um segundo Marshall ficou estarrecido. Depois venceu o susto.
— Um robô de combate? Não é possível! Todos os robôs foram reprogramados e
jamais atacarão um goszul. Quais foram as providências que tomou?
Borator estava convencido de ser o verdadeiro diretor do projeto. Por ordem de
vários clãs estava construindo a primeira nave de uma nova série. Dentro de quatro dias,
ou talvez três, concluiria o trabalho e entregaria a obra.
— Dei ordem às forças de bloqueio que destruam o robô descontrolado assim que
ele apareça. Como se explica essa falha da positrônica infalível?
— Não tenho a menor idéia, Borator. Verificarei pessoalmente o que houve. Cuide
do seu trabalho.
Gucky respirou profundamente.
— A positrônica infalível... Pois é justamente isso. Os robôs são infalíveis. É
totalmente impossível que um robô reprogramado por nós se descontrole e passe a atacar
nossos homens. Logo, trata-se de um robô que ainda não foi reprogramado. É aquele que
não encontrei quando estive aqui pela primeira vez. Ainda bem que não demorou em dar
sinal de sua presença. Logo estarei de volta, John...
— Um instante! — de um salto Marshall pôs-se de pé, mas o lugar à sua frente
estava vazio. Gucky acabara de teleportar-se para outro lugar.
John Marshall começou a adivinhar onde ficaria esse lugar.
Colocou o radiador de impulsos portátil no cinto do macacão e saiu correndo.
Passando pela primeira fileira de guardas, entrou no vale e fez votos de não chegar tarde.
Procurou em vão estabelecer contato telepático com Gucky. O rato-castor devia estar tão
ocupado que não tinha tempo para concentrar-se em mensagens telepáticas.

***

Quando se materializou mais ou menos no ponto em que o vale descrevia uma


curva, Gucky viu um grupo de uma dezena de goszuls que corria em sua direção.
Gesticulavam com os braços e soltavam gritos de pavor.
Gucky esforçou-se em vão para descobrir o que deixara os nativos tão desatinados.
Não viu nenhum robô descontrolado.
Antes que os goszuls chegassem ao lugar em que se encontrava, deu um salto de
algumas centenas de metros e se materializou atrás deles. O guarda que informara
Borator sobre a ocorrência devia encontrar-se na saída do vale. Era o primeiro robô que
Gucky desativara naquele dia.
Mas por enquanto o rato-castor encontrou uma coisa diferente.
Os cadáveres de quatro goszuls apontavam-lhe o caminho.
Era por aqui que devia estar escondido o robô não reprogramado, e que por isso
mesmo continuava a agir obstinadamente segundo as ordens dos saltadores. Só assim se
explicava que escapara à operação geral de limpeza.
A ausência de um mecanismo de tele direção fizera com que agisse
independentemente. No seu esconderijo pôde observar que o vale e o estaleiro foram
ocupados pelos goszuls e por alguns desconhecidos. Também testemunhara a
reprogramação de seus colegas.
A rigor devia atacar o estaleiro e o contingente de robôs transformados em inimigos,
mas até mesmo uma máquina pensante tem um certo instinto de autoconservação, desde
que seu construtor o julgue conveniente.
RK-176 sabia que não teria a menor chance contra os noventa e nove colegas.
Talvez conseguisse destruir dez ou vinte deles num ataque de surpresa, mas depois disso
havia uma certeza absoluta de que sucumbiria sob a superioridade. Era necessário que
levasse para o mundo exterior a notícia do que estava acontecendo por aqui. Os
governantes precisavam conhecer os fatos que se passavam no vale. Na saída do vale
havia um único guarda. Se conseguisse eliminar o mesmo, o caminho para a cidade
estaria livre.
Pôs-se a caminho e foi ter diretamente com os vinte goszuls. Os nativos haviam
passado naquele instante pelo guarda postado na entrada do vale, que já conheciam. Já
não estranhavam os robôs. RK-176 agiu com uma rapidez enorme e com uma irreflexão
fora do comum quando abriu fogo contra os nativos inocentes e matou quatro deles. Só
teve consciência de seu erro quando o resto do grupo fugiu aos gritos.
Era tarde para voltar atrás.
O guarda robotizado da entrada do vale testemunhara o fato.
RK-176 deixou os goszuls em paz e dirigiu-se para a passagem estreita entre as
rochas, onde a figura solitária do guarda surgia nitidamente na sombra de algumas
moitas. Dali a pouco a caça ao mesmo teria início.
Se tivesse condições para isso, teria dado um sorriso amargo. Mas era um robô e não
sabia sorrir. Em compensação a consciência não lhe doía.
Sabia muito bem o que devia fazer.
Seus braços de combate estavam na horizontal, em posição de tiro. Manteve os
olhos rígidos fitos no novo inimigo e marchou em direção ao guarda.
O receptor embutido em seu corpo permitiu a RK-176 constatar que seu
aparecimento já não era nenhum segredo.
Gucky chegou com alguns minutos de atraso.
Encontrou os destroços derretidos de um robô e junto aos mesmos traços de moitas
e capim queimado. Até mesmo na rocha lisa notavam-se os vestígios dos disparos
energéticos. Mas do robô revoltado não se via nada. Devia ter uma vantagem
considerável.
Gucky lançou um olhar de lástima para o montão de destroços e teleportou para o
cume da montanha, rochas que se elevavam quinhentos metros acima da planície. Dali se
enxergava quase até o mar, se o tempo estivesse bem limpo.
Hoje não estava. Mas a visibilidade bastava.
A uns quatro ou cinco quilômetros dali movia-se um pontinho negro, que vez ou
outra, quando refletia os raios solares, emitia um brilho prateado. Deslocava-se rápida e
firmemente na direção sudoeste.
Era ele!
Gucky sorriu cheio de expectativa. Seu instinto lúdico triunfou sobre as boas
maneiras. Finalmente tinha uma oportunidade de dar uma demonstração de sua arte. Era
uma pena que não havia nenhum espectador.
Bem, isso poderia ser mudado...
RK-176 marchava numa velocidade considerável, mas evidentemente sua
velocidade não bastava para escapar de um teleportador do tipo de Gucky. Nem
desconfiava de que estava sendo perseguido e acreditava que sua tentativa de fuga fora
bem sucedida.
Seu cérebro positrônico ainda procurava por uma explicação lógica dos
acontecimentos que se desenrolaram no estaleiro. Não a encontrou.
Gucky materializou dez metros atrás do robô e concentrou-se inteiramente na sua
capacidade telecinética. Os fluxos invisíveis de seu espírito atingiram o monstro metálico
e imobilizaram-no.
RK-176 parou imediatamente. Parecia que de um instante para outro estava
condenado à imobilidade por uma falha de seu mecanismo. Mas o caso não era este. Pelo
contrário: o dispositivo positrônico passou a desenvolver uma atividade febril, mas não
encontrava resposta às perguntas que formulava.
— Você matou quatro pessoas — disse Gucky em intercosmo, cuidando para que o
robô não pudesse executar nenhum movimento. — Por isso será transformado em sucata.
Tem alguma coisa a dizer antes disso?
RK-176 respondeu com a voz metálica:
— Agi de acordo com as ordens que recebi. Nenhum goszul pode permanecer nas
proximidades do estaleiro. Quem é você?
— Acredito que você gostaria de saber. Bem, eu lhe permito uma meia-volta. Mas se
quiser atirar contra mim, avise antes. Pois nesse caso o assunto será liquidado logo.
Era claro que o robô tentaria matá-lo. Gucky tinha certeza absoluta disso. O robô
não poderia agir de outra forma.
E ele o fez assim que viu o rato-castor.
As duas descargas energéticas passaram longe de Gucky.
— Você acaba de proferir sua própria sentença de morte — chiou Gucky, fitando as
lentes do monstro. — Agora você vai aprender a voar...
RK-176 não estava regulado para o vôo. Seu cérebro registrou o fato inexplicável de
que a gravidade do planeta diminuiu de uma hora para outra e que aparentemente ele
mesmo já não pesava nada. E não era só isso: ficara mais leve que o ar.
RK-176 subiu como um balão.
Gucky teleportou-se de volta para a entrada do vale e a partir dali dirigiu sua vítima
com muita habilidade e alegria. O que aumentava o efeito do espetáculo era o fato de que
RK-176 disparava ininterruptamente os dois canhões de radiações, procurando conseguir
um impacto casual.
Marshall apareceu correndo na curva da entrada do vale e viu que seu esforço seria
recompensado. O espetáculo que presenciou bem que valia uma corrida.
A menos de trinta metros Gucky escava sentado numa moita de capim, lembrando
um aeromodelista que, com a alegria do construtor, faz seu artefato teleguiado descrever
curvas no céu. No fundo, Gucky não era outra coisa.
O robô subiu a mais de quinhentos metros e parou. Não passava de uma mancha
pequenina que se destacava contra o céu e sem parar espelia raios energéticos refulgentes.
Ainda bem que Gucky segurava sua vítima de tal maneira que se tinha a impressão de
que o robô pretendia derrubar alguma estrela invisível.
Subitamente o ponto começou a cair e aumentou rapidamente. Gucky virou-se e deu
um sorriso amável para Marshall.
— Daqui a pouco você vai ouvir um estouro — profetizou. — Esse negócio vai
explodir. Nunca experimentei de uma altura dessas.
— Por que vai destruí-lo? — perguntou John, que sabia perfeitamente que o rato-
castor notara sua vinda por via telepática e por isso não estava surpreso. — Qualquer
robô pode ser reprogramado...
— Este não — disse Gucky, sacudindo a cabeça e acompanhando a queda cada vez
mais rápida do monstro metálico, que continuava a disparar loucamente. — Seria muito
complicado. Você tem a mania de estragar qualquer alegria que eu tenha...
— Mas...
John calou-se. Também ficou fascinado pelo espetáculo. E sabia que Gucky não era
tão fácil de convencer. Devia ter uma raiva tremenda daquele robô que descia numa
velocidade enorme e atingiu o solo a quinhentos metros do lugar em que se encontravam.
No primeiro instante teve-se a impressão de que nada aconteceria. O peso de RK-
176 fez com que o mesmo penetrasse profundamente no solo rochoso. O fenômeno foi
reforçado pelo fato de que os radiadores energéticos que continuavam a disparar haviam
derretido a rocha, motivo por que o robô caiu praticamente numa poça de lava
incandescente.
Subitamente sentiram-se ofuscados por um raio. Por alguns segundos uma nuvem
branca em forma de cogumelo cobriu o lugar, até que ela se dissipasse com o vento.
Gucky suspirou fortemente.
— Foi uma bela derrubada!
Indignado, John Marshall aproximou se e colocou a mão sobre o ombro do rato-
castor. Para isso teve que abaixar-se.
— Nunca pensei que você se alegrasse tanto com a destruição.
— Às vezes gosto.
De repente Gucky olhou para o céu azul e estreitou os suaves olhos castanhos. Sem
mudar de tom, prosseguiu:
— Segure minha mão. Vou saltar para o estaleiro. É preferível que venha comigo.
John sabia que Gucky não teria nenhuma dificuldade em levá-lo consigo. Mas antes
que isso acontecesse, também olhou para o céu.

***

A pouca altura a nave cilíndrica dos saltadores, que tinha mais de duzentos metros
de comprimento, passou por cima das montanhas que até então a haviam ocultado.
Topthor fez um sinal para Rangol.
— Descerei sozinho. No vale não há bastante espaço, por isso pousarei no platô. A
comissão de investigação descerá para o vale numa nave auxiliar. O senhor ficará de
prontidão numa altitude de dez quilômetros. Mantenha-se em contato com o posto de
rádio.
— Pretende sair da nave, Topthor?
— Acompanharei minha gente. Observe os acontecimentos. Mas não ataque nem
ponha em risco minha pessoa e a dos meus homens. Ao menor sinal de contaminação
nossos planos serão modificados.
Os comandos dos superpesados foram transmitidos pelo intercomunicador às
diversas seções da nave, que desceu lentamente e em posição horizontal sobre o platô,
separado do estaleiro por uma encosta íngreme de quinhentos metros.
Mal a nave pousou, suas escotilhas abriram-se. Um robô de combate massudo saiu
e, sustentado pelo campo antigravitacional, flutuou cinqüenta centímetros acima do chão
rochoso. Homens que envergavam trajes protetores saíram apressadamente da grande
nave e entraram numa nave muito menor. Os enormes vultos quadráticos dos
superpesados pareciam medonhos e ameaçadores. Assemelhavam se a tocos gigantescos,
mas seus movimentos eram de uma tremenda rapidez e agilidade.
As escotilhas da nave-mãe fecharam-se. Preparado para a luta, mantinha-se na
expectativa para entrar em ação assim que Topthor o ordenasse. O rádio embutido no
capacete manteve-o em contato permanente com o comandante substituto.
Foi o último a entrar na cabina apertada da nave de guerra.
Sem provocar o menor ruído subiu dois metros, deslocou-se em direção ao abismo e
foi descendo lentamente. Topthor não se preocupava com o que fazia o piloto ou os vinte
superpesados que o acompanhavam, todos armados até os dentes. Só se interessou pela
tela.
Então era lá embaixo que ficava o estaleiro em que estava sendo construída aquela
nave misteriosa que, segundo diziam seus construtores, iria conquistar o Universo.
Topthor não fazia a menor idéia sobre as vantagens do artefato cuja construção estava
sendo concluída, mas começou a desconfiar de que as ligeiras indicações que ouvira vez
por outra não eram conversa fiada.
Desceram lentamente.
Topthor reconheceu perfeitamente a primeira fileira de guardas robotizados, que
luzia frente para a saída do vale. Era tal qual Etztak lhe contara. Ao que parecia, tudo
estava em ordem. Não havia nenhuma epidemia, nenhum autômato rebelde, nenhum
goszul que enlouquecera...
Topthor lembrou-se de que no estaleiro não trabalhava nenhum nativo. Borator
comandava apenas robôs. Pelo menos até hoje. Ninguém sabia se amanhã ainda seria
assim.
Topthor ainda acreditava estar manipulando todos os fios, sem desconfiar de que
não passava de uma marionete presa a um fio puxado por outra pessoa.
Por Perry Rhodan.
Sentados no seu esconderijo, John Marshall, Kitai, o sugestor e Gucky
acompanhavam com um interesse enorme o pouso dos superpesados.
O trabalho no estaleiro prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Borator estava
sentado no seu escritório, transmitindo instruções. A decolagem experimental estava
prevista para depois de amanhã. Os robôs trabalhavam a toda velocidade. Ainda bem que
contavam com o apoio dos goszuls. Lá fora a sombra de uma nave de guerra dos
saltadores foi descendo para o vale. Mal tocou o solo, os vultos enormes dos
superpesados saíram das escotilhas. Suas mãos enormes seguravam os radiadores de
impulsos, prontos para disparar. Os trajes espaciais estavam fechados, mas o aparelho de
comunicação externo permitia comunicação direta.
Borator levantou a cabeça, fez de conta que já os esperava e levantou-se. Estava
sendo dirigido pela vontade de Kitai quando saiu do escritório e se aproximou dos
superpesados. Não demonstrou a menor surpresa.
— Então, Topthor, vocês vieram para levar a nave? Foi Etztak que os mandou?
Quando viu o rosto salpicado do técnico, Topthor foi baixando o radiador. Seu traje
protetor o resguardaria da contaminação; não tinha a menor dúvida. Mas nem por isso
livrou-se da sensação desagradável de se ver diante de um inimigo desconhecido e
imprevisível.
— O senhor pegou a doença, Borator? — perguntou, recuando cinqüenta
centímetros. Pelo canto do olho viu um grupo de goszuls acompanhado de alguns robôs
sair do estaleiro escavado na rocha e, sem demonstrar o menor interesse pelos
superpesados, dirigir-se para o pavilhão mais próximo. — O que é que esses nativos estão
fazendo por aqui? Também estão contaminados?
Borator confirmou com um simples aceno de cabeça, como se apenas se tratasse de
uma indisposição passageira.
— Estamos todos contaminados, mas ainda não perdemos a memória. A
deterioração do cérebro demora algumas semanas. Até lá a nave estará pronta. Quanto
aos goszuls, não tive outra alternativa senão recorrer a eles. Os robôs não dariam conta do
trabalho até que... bem, até que eu perca a memória. — Borator apontou para um robô de
guerra que se encontrava nas proximidades. — Não sou só eu, Topthor. Os robôs também
estão perdendo a memória. Depois que isso acontecer, não poderemos contar mais com
eles.
Topthor recuou mais um passo. Lançou um olhar de advertência aos homens que
tinham vindo com ele.
— Quando é que a nave deverá ficar pronta, Borator?
— Dentro de uma semana aproximadamente. Vocês poderão levá-la.
— E quando... quero dizer, quanto tempo demorará até que o senhor perca a
memória?
— Talvez seja amanhã. Não sei. Seria conveniente que vocês se preparassem para
prosseguir nos trabalhos.
— Prosseguir nos trabalhos? Quer que sejamos contaminados?
— Isso já aconteceu — disse Borator em tom indiferente.
O superpesado empalideceu atrás do visor de seu capacete.
— Estamos usando trajes protetores!
Borator esboçou um sorriso frio.
— Também passei a usar quando houve o primeiro caso aqui no vale. Veja se
adiantou alguma coisa. O caso é que vocês deverão sacrificar seu bem-estar pessoal e
fazer tudo para salvar esta nave. Em hipótese alguma ela deve cair em mãos estranhas.
— Um bacilo nunca pode atravessar um traje protetor — disse Topthor, voltando ao
tema que mais o interessava. — E antes de voltarmos ao interior de nossa grande nave,
seremos expostos ao vácuo. Não há bacilo que resista a isso.
— Vocês poderão expor seus trajes ao vácuo, mas não seus corpos — respondeu
Borator em tom indiferente. — Não se iludam. Vocês estão perdidos da mesma forma que
eu e todos os robôs e goszuls deste mundo. A única coisa que podem fazer é levar a nave
ao espaço e conduzi-la ao ponto de transição com as escotilhas abertas. Depois terão que
deixá-la entregue a sua própria sorte. Os saltadores saberão encontrá-la. É possível que,
quando isso acontecer, a nave já não esteja contaminada. Quanto a vocês, Topthor, é bem
possível que daqui a uma semana nem se lembrem de seu nome...
— Borator! — a voz de Topthor saiu com uma potência digna de sua estatura. —
Não vim para ouvir essas tolices. Neste vale todo mundo está trabalhando. Ainda não vi
nenhum louco.
— Já temos alguns — respondeu Borator em tom tranqüilo e apontou o queixo
cabeludo para a direita, onde um robô de combate estava saindo de trás de um dos
depósitos. — Vocês não acreditarão, mas a coisa se manifesta em primeiro lugar nos
cérebros positrônicos. Ali está... olhem e escutem...
Contrariado, Topthor olhou na direção do pesado robô, que se aproximava
lentamente, passando a poucos metros deles. O monstro metálico não se interessou pelos
superpesados que acabavam de pousar. Nem chegou a olhá-los.
Enquanto passava por eles, cantarolava baixinho. Era uma melodia monótona e
despretensiosa. Em compensação as palavras eram proferidas em intercosmo e podiam
ser facilmente entendidas:

Quem sou eu...?


... Não passo da busca e do martírio,
Da sede e da saudade
Dever e angústia sem saída
Mas no fim tudo serão saudades e sede
Num lago azul, quero despejar-me...

A boca de Topthor abriu-se. Até parecia que a barba estava pesando demais,
puxando o queixo para baixo. Começou a tremer como vara verde. Com grande
dificuldade conseguiu murmurar:
— O que... é isso...?
— É uma poesia — esclareceu Borator. — Foi o próprio RK-064 que a compôs. A
melodia também é dele.
Os vinte superpesados que se encontravam atrás de Topthor recuaram passo a passo
até atingir a escotilha da nave de guerra. Ao menor sinal desapareceriam com a
velocidade de um relâmpago. Acontece que Topthor estava chocado, mas não derrotado.
Seus dedos crisparam-se em torno da arma.
— Por que não destroem RK-064?
John Marshall sorriu no seu esconderijo, quando transmitiu a pergunta de Topthor a
Kitai. Kitai sugeriu a resposta a Borator, que foi quase instantânea.
— Por que iria destruí-lo? Se o fizesse, teria que destruir todos os preciosos robôs
que estão por aqui. O fim chegará de uma forma ou de outra, e enquanto não nos
atacarem não vejo motivo para destruí-los. Aliás, o robô de trabalho RA-007 está
compondo um drama.
Gucky quase escorregou para baixo da mesa de tanto que riu ao ouvir esta resposta.
Esbaforido, chiou:
— Vocês não conseguirão expulsar Topthor com uma tolice desse calibre. Não seria
preferível que eu o transformasse numa nave espacial? Minhas energias bastam para
transportá-lo à lua mais próxima. Quando estiver lá, seu pessoal poderá buscá-lo.
— Não se atreva! — cochichou John, furioso. — Topthor é um realista e um espírito
frio. Logo suspeitaria de que se defrontava com um golpe telecinético e, portanto, com
Perry Rhodan. Para ele um robô poeta é muito pior, pois não o compreende. Continue,
Kitai. Acho que daqui a pouco Topthor estará nas devidas condições.
Evidentemente a cultura dos saltadores conhecia o drama, mas até então Topthor não
se ocupara com essas coisas, que não trazem nenhum lucro. Perplexo, contemplou o rosto
manchado de seu interlocutor e subitamente sentiu um medo terrível. Tremeu por todo o
corpo e mal pôde sustentar-se sobre as pernas maciças.
— Quais são os efeitos da doença sobre o homem?
Antes que Borator tivesse tempo de responder, um goszul saiu de trás de um prédio.
Até parecia que vinha de encomenda. Aproximou-se do grupo dos superpesados, que em
condições normais lhe teria metido tamanho susto que teria desmaiado assim que visse
aqueles monstros. Mas naquela hora nem parecia estranhar a presença.
— Veja — conseguiu murmurar Borator antes que o goszul se interpusesse entre ele
e Topthor. Era um nativo de cabelos escuros. Trazia o peito nu, coberto de manchas azuis
e vermelhas. Também o rosto estava todo colorido. A doença já devia ter consumido seu
cérebro, pois nem percebeu o perigo que os superpesados representavam.
Tirou o radiador de impulsos das mãos trêmulas de Topthor e, com um sorriso nos
lábios, pôs-se a brincar com o mesmo. Antes que alguém pudesse impedi-lo, o raio
energético verde-pálido subiu obliquamente e gaseificou um pedaço do paredão de rocha.
Espantado, o goszul sacudiu a cabeça e devolveu a arma a Topthor, antes que este
tivesse tempo de realizar sua intenção de pôr-se em segurança com um salto para trás.
Foi isso que mais o assustou.
Rindo para si mesmo, o nativo continuou na sua caminhada, passando entre as
fileiras indecisas dos superpesados sem mostrar o menor sinal de medo.
Borator acenou a cabeça para Topthor.
— Você viu, Topthor. Quem pega a doença esquece tudo. Não sabe mais que existe
o perigo. Confia no pior inimigo, e assim fica à mercê do mesmo. Se a raça dos saltadores
perder a memória e não souber mais quem são seus inimigos, estará perdida.
As mãos debilitadas de Topthor seguraram a arma.
— A gente também se esquece dos seus inimigos?
— Até esquecemos nosso nome — confirmou Borator. De repente prosseguiu num
tom muito objetivo: — Permite que lhe mostre a nave? Dentro de uma semana terão que
levá-la ao espaço. Tomara que não adoeçam antes disso. Decerto dispõem de gente que
possa substituí-los se for necessário. O último grupo que restar colocará a nave no rumo.
Topthor perguntou:
— O que acontecerá conosco?
Borator fez um gesto indefinido
— Isso depende de vocês, Topthor. Dentro de uma semana o mais tardar seu espírito
estará morto, mesmo que o corpo continue vivo. O que importa? O importante é que
nossa tarefa seja cumprida, e que a nave seja entregue aos clãs...
— Não aceitei a tarefa de pegar uma doença e me arruinar — exclamou Topthor.
Seu corpo tremia. — Esses patifes me mandaram para a perdição e esperam que com isso
poderão economizar minha recompensa. É claro! Eu me esquecerei que tenho alguma
coisa a cobrar. Mas não contaram com Topthor quando fizeram suas contas. Eles mesmos
que venham buscar a nave. Transmita-lhes o recado, Borator, se é que até lá ainda se
lembrará dele — dirigiu-se a seus homens. — Vamos para a nave! Desistimos da
execução da tarefa. — Voltando a dirigir-se a Borator, perguntou: — Acredita que
estamos contaminados?
O rosto do técnico parecia desolado.
— Receio que isso seja um fato consumado, Topthor.
O superpesado berrou uma praga e seguiu seus homens para o interior da cabina
relativamente pequena da nave grosseira. A escotilha fechou-se. Dali a alguns segundos a
nave subiu na vertical e logo desapareceu acima do paredão.
Gucky saiu de baixo da mesa.
— E daí? — chilreou decepcionado. — Foi só isso? Nenhum fogo de artifício?
Nenhuma demonstração telecinética? Nada?
John suspirou aliviado e bateu no ombro de Kitai.
— Foi um serviço bem feito, meu caro. Borator foi um excelente ator. É pena que
ele não saiba disso.
— Então? — perguntou Gucky, subindo à mesa. — Eu lhe fiz uma pergunta, John.
O telepata acariciou o pêlo espesso do rato-castor.
— Fique satisfeito porque conseguimos liquidar o assunto por essa forma. Muitas
vezes os meios pacíficos produzem um efeito mais duradouro que um lindo fogo de
artifício com muita morte e destruição. Só os vivos não esquecem.
Gucky procurou absorver a idéia.
Enquanto isso a sombra gigantesca da nave cilíndrica desprendeu-se do platô e,
acelerando loucamente, disparou para o céu azul.
Topthor convocou as doze naves restantes.
Só onze responderam.
6

Quando Harnahan decolou com sua pequena nave, pensou que estivesse sonhando.
Estaria doente, sofrendo os sintomas tantas vezes relatados da febre espacial? Era
possível que a embriaguez da solidão o tivesse atingido, e que sua experiência não
passasse de um sonho inspirado no desejo, que se formara no seu subconsciente.
Mas não; ali estava a voz misteriosa. A quilômetros de distância penetrava em seu
cérebro.
— Deixe as dúvidas para depois, Harnahan. Agora você não tem tempo para isso.
Uma nave dos saltadores dirige-se para esta lua. Se não quiser morrer, apresse-se. Pouse
no meu vale.
Harn apressou-se. Dali a menos de um minuto desceu para o vale em que havia
encontrado a esfera. Continuava no mesmo lugar, mas a imagem de sua superfície estava
alterada.
— Fique na nave, Harnahan. Você verá tudo. Não tenha medo. Nada lhe acontecerá.
Já os saltadores...
A esfera encontrava-se a dez metros de Harn. Viu perfeitamente o que se passava em
sua superfície. Viu uma nave com o formato cilíndrico dos veículos espaciais dos
saltadores. Percebeu que passava junto à superfície de uma lua — seria a sua? — como se
estivesse procurando alguma coisa. Teve a impressão de que a esfera estava maior e
continuava a inchar. Também parecia emitir um brilho mais saciado.
Saciado...?
A suspeita tremenda que Harn passou a conceber naquele instante ainda se
confirmaria. No momento não teve tempo para refletir sobre problemas desse tipo: Tirou
os olhos da esfera e fitou a planície.
A nave dos saltadores vinha diretamente para o lugar em que Harn se encontrava.
Levantou ligeiramente a popa para ultrapassar a barreira das montanhas. Ao mesmo
tempo acelerou repentinamente. A qualquer momento teria que surgir do outro lado da
cumeeira.
E surgiu.
Ansioso, Harn aguardou o desenrolar dos acontecimentos. Se o comandante não
estivesse dormindo, já devia ter visto o pequeno caça espacial. Num movimento
automático Harn colocou a mão sobre o acelerador manual. Num golpe poderia fazer o
foguete disparar para o alto...
A nave dos saltadores continuou na mesma rota inclinada em direção ao céu
estrelado. Harn teve a impressão de que a velocidade estava sendo reduzida aos poucos.
— Ultrapassou a velocidade de fuga da lua e não descerá mais abaixo da mesma.
Faço votos de que os outros saltadores a encontrem, senão seus ocupantes estão perdidos.
Perplexo, Harn fitou a enorme nave que diminuía rapidamente até desaparecer atrás
das rochas íngremes. Seus olhos treinados perceberam que não dispunha de propulsão,
sendo mantida em movimento apenas pela força da sua massa. Assim que saísse do
campo de gravitação da lua, viajaria em queda pela imensidão do espaço, até que
penetrasse no campo de gravitação de uma lua maior, de um planeta ou mesmo de um sol.
— Você destruiu os propulsores? — perguntou, olhando para a esfera, cujo diâmetro
já chegava a meio metro. — Os homens que se encontram nessa nave estão perdidos.
— Não destruí os propulsores — foi a resposta formulada em pensamento. —
Apenas subtraí toda a energia de que dispõe a nave. Só deixei intactas as baterias de
emergência, para que possam dispor da eletricidade necessária para o condicionamento
de ar. De resto a nave não dispõe de nenhuma energia. Não tem propulsão, nem armas,
nem hipertransmissores, coisa alguma. Se quisesse poderia subtrair sua energia. Acontece
que estou interessado no tal do Perry Rhodan. Quando sair do sistema, enviar-lhe-ei uma
mensagem. Um dia aguardo sua visita. Tanto faz que seja em dez anos ou em cinqüenta.
Não tenho pressa. O que não quero é esperar mil anos. Aliás, a esta altura talvez seriam
apenas oitocentos.
Harn ligou o minicomunicador, cuja ajustagem hipersincronizadas permitia a
comunicação instantânea até uma distância de duas semanas-luz. Enquanto o aparelho
realizava a regulagem automática, disse:
— Informarei Rhodan sobre nosso encontro. Por enquanto permita que o informe
sobre a minha posição.
— Informe-o sobre sua posição, mas é bom que saiba que a guerra no segundo
planeta do sistema já está decidida. Os saltadores estão fugindo. Não têm mais o menor
interesse em cumprir sua tarefa. Você pode voltar. De qualquer maneira, logo receberá
ordens para isso.
O tenente Fisher respondeu de bordo da Stardust:
— Ora essa, Harnahan! Por que não deu notícias? Pode voltar. Não precisamos mais
de indicações de posição. Os saltadores deram o fora. Onde o senhor se meteu?
— Numa das luas do quarto planeta. Posso falar com Rhodan?
— Infelizmente não é possível. Eu lhe direi que dentro em breve o senhor estará de
volta. Apresse-se.
— Mas...
— Não tenho mais tempo, sargento. A Stardust está emergindo. Chame mais tarde.
Fim.
O alto-falante emudeceu. Harn desligou e abriu a comporta de ar. Dali a dois
minutos encontrava-se diante da esfera. Fitou a superfície negra e viu uma porção de
naves cilíndricas que entravam em formação. Eram onze naves, que se agrupavam em
círculos em torno de outra, maior. À esquerda do grupo via-se um planeta.
— É o último planeta do sistema — esclareceram os impulsos mentais. — Eles se
reúnem para sair daqui o mais depressa possível. Mas captaram o pedido de socorro da
nave desaparecida e vão procurá-la.
Harn inclinou-se como se quisesse tocar a esfera, mas não teve coragem.
— Que ser é você? — exclamou. — O que sabe fazer?
— Eu sou eu, Harn. É a única coisa que posso dizer. Quer ver o que sei fazer? Olhe,
que eu lhe mostro...
Na superfície da esfera surgiu um mar agitado... um torvelinho... e subitamente Harn
viu a Stardust emergir das profundezas e deslizar lentamente sobre as cabeças brancas das
ondas. A nave logo chegou à costa e pousou no espaçoporto. Os três cruzadores já haviam
saído dos hangares subterrâneos. Em todos os lados viam-se os tripulantes reunidos com
os nativos, que ainda traziam as manchas coloridas no rosto, mas de resto pareciam
absolutamente normais.
— Você é um receptor de televisão vivo — cochichou Harn emocionado e
acrescentou: — Qual é o seu alcance?
A esfera não respondeu, mas o quadro de sua superfície alterou-se.
Harn viu que abandonava o sistema. Era ao menos o que parecia.revelar a imagem.
Com uma velocidade milhões de vezes superior à da luz disparou para o infinito até que,
perplexo, contemplou o giro da galáxia. Devia ter percorrido dezenas de milhares de
anos-luz...
Retornou em velocidade vertiginosa e viu-se de novo na superfície da lua. Sabia que
não saíra do lugar, mas...
— Enxergo qualquer ponto da galáxia e posso transmitir a visão a outros.
Infelizmente só posso comunicar-me a uma distância de duzentos anos-luz. Às vezes
consigo chegar mais longe. Como vê, minha capacidade é limitada.
Subitamente Harn teve a impressão de que estava fazendo um frio terrível no seu
traje aquecido. Começou a compreender o poder desse ser esférico, que parecia ser feito
de energia compacta e se alimentava com a luz das estrelas. E com a energia dos
conversores das naves espaciais. E compreendeu que nunca se defrontara com um ser
mais benevolente.
— Volte para junto de seus amigos, Harnahan. Informe Rhodan a meu respeito, mas
mantenha silêncio diante dos outros. Devo descansar e poupar minhas forças, pois as
estrelas estão muito distantes. Passe bem, Harnahan. Ainda nos encontraremos.
Harn lançou mais um olhar para a esfera. Depois virou-se abruptamente e voltou ao
foguete. Passou pela comporta e fechou a escotilha.
Quando ligou o campo antigravitacional e começou a subir, seu olhar pousou sobre
o brilho negro da esfera deitada diante da porta metálica que conduzia para o interior da
montanha. Sacudiu a cabeça. Um dia descobririam tudo que havia atrás dessa porta... se é
que realmente era uma porta.
Quando o vale mergulhou no espaço e o céu estrelado o acolheu, voltou a ficar a sós
em sua cabina apertada.
7

O gigante saiu lentamente de sua prisão subterrânea. Os campos antigravitacionais


mantinham-no suspenso alguns metros acima do solo. De ambos os lados os goszuls e os
robôs cuidavam para que a superfície reluzente não entrasse em contato com a rocha.
Borator corria nervosamente de um lado para outro. Falava com as mãos, com os pés e às
vezes com a boca, pois essa nave era a coroação de sua vida, embora não compreendesse
tudo que os técnicos haviam executado através dos robôs especializados. Com Rhodan
aconteceu a mesma coisa. Sabia que só o estudo meticuloso das plantas que Borator lhe
entregara permitiria uma idéia sobre os segredos encerrados naquela nave, segredos que
teriam que ser desvendados.
Uma coisa era certa: a propulsão funcionava segundo os princípios arcônidas e as
modificações introduzidas na mesma eram insignificantes. Por isso não seria difícil
pilotar a nave recém-construída. As experiências teriam que ficar para depois, quando
houvesse mais tempo. Rhodan tinha pressa de sair do planeta de Goszul.
Um único homem encontrava-se no interior do gigantesco cilindro, cujo
comprimento — eram nada menos que 780 metros — penetrou no vale.
Era Reginald Bell.
Apesar de uma resistência feroz, Rhodan o nomeara comandante do cruzador
recém-conquistado. Bell poderia gostar de tudo, menos brincar com forças
desconhecidas. Mas quando salientaram que era a única pessoa à qual a nave poderia ser
confiada, acabou concordando.
O diâmetro da nave era de duzentos metros. Faltava montar parte das instalações
internas, mas Rhodan até chegava a alegrar-se com isso. Não sabia quem poderia
acomodar-se nas poltronas dos superpesados. Lá em Terrânia os engenheiros e os
técnicos cuidariam desses detalhes. Bell desligou os campos antigravitacionais e respirou
aliviado quando o ligeiro solavanco lhe revelou que voltara a ter chão firme sob os pés.
Saiu da sala de comando e dali a poucos minutos estava junto à escotilha de saída, pela
qual se poderia fazer passar um elefante. Estava radiante.
— Borator, você acaba de construir um belo navio. Meus parabéns!
— Está satisfeito, senhor? — disse o saltador muito feliz. Continuava submetido à
influência de Kitai e acreditava firmemente que era dono das suas decisões. Dali a poucos
dias ficaria muito admirado quando numa ilha solitária vinte saltadores investissem
contra ele com uma série de perguntas. Tal qual eles, não encontraria nenhuma resposta.
— É uma bela nave — confirmou Rhodan, que se mantinha mais afastado,
conversando com Ralv. — Nós a levaremos.
— Vocês voltarão? — perguntou Ralv, que já fora promovido ao posto de chefe de
governo do mundo libertado. — Vocês prometeram...
— Instalaremos um entreposto comercial neste planeta — tranqüilizou-o Rhodan.
— Meus encarregados chegarão dentro de poucas semanas. O equipamento de guerra dos
saltadores bastará para protegê-los. Com ele poderão rechaçar qualquer inimigo que
procure escravizar seu mundo. Acho que pelos próximos cinqüenta anos dos saltadores
não os incomodarão. É quanto dura a quarentena.
Bell aproximou-se.
— Está bem, vou pilotar isso — disse com um sorriso. — Quando decolaremos?
— Dentro de três horas. Eu lhe recomendaria que levasse “isso” ao espaçoporto.
Aproveite a oportunidade para fazer um pequeno vôo experimental. Gucky irá com você,
para que possa trazê-lo de volta, se for necessário. Afinal, você não é nenhum
teleportador.
— Gucky! — resmungou Bell, contrariado. — Sempre tem que ser o Gucky. Bem,
que venha comigo, a não ser que esteja com medo.
O rato-castor já se encontrava na escotilha tamanho elefante.
— Eu, medo? — gritou a voz estridente por cima da figura assustada de Bell. —
Nunca tive medo. O único medo que posso ter é de que você possa criar juízo, seu Bell
das cerdas.
Pelo rosto de Bell tinha-se a impressão de que ele estava prestes a chorar. Sua voz
quase chegava a ser suplicante quando se dirigiu a Rhodan:
— O que vou fazer com ele, Perry?
— Leve-o até a Terra. Vocês voarão juntos. Talvez assim tenham oportunidade de
adaptar-se um ao outro. Dizem que uma viagem a sós pelo Universo é muito saudável
para esse tipo de problema...
Bell afastou-se a passos pesados. Seus cabelos ruivos, que no curso da aventura
estavam encostados à cabeça, encontravam-se em posição quase vertical.
Sem olhar para trás, desapareceu no interior da nave em companhia de Gucky. A
escotilha fechou-se com um ruído surdo.
John Marshall, que se encontrava por ali, aproximou-se.
— Hum! — resmungou. — Não sei se isso vai dar certo. Afinal, Gucky também é
telepata.
Rhodan sorriu seguro de si.
— Vez por outra lembrará Bell desse fato — disse em tom irônico enquanto
contemplava a pesada nave que, leve como uma pluma, levantou-se do solo e subiu na
vertical. Quando chegou à beira do platô, acelerou vertiginosamente e disparou para o
céu azul. Dentro de poucos segundos desapareceu.
Borator seguiu-a com um olhar pensativo.
A frota de Rhodan cruzou a órbita do quarto planeta e, deslocando-se à velocidade
da luz, aproximou-se do ponto de transição previamente calculado. Os cruzadores Terra e
Centauro flanqueavam a Stardust, enquanto o Solar System e a mais recente aquisição de
Bell, o cruzador apresado dos saltadores seguiam-na a uma distância de 0,00001
segundos-luz.
Além de Rhodan só havia uma pessoa na sala de comando da Stardust. Era
Harnahan.
À esquerda deles o quarto planeta passou rapidamente. As numerosas luas do
mesmo eram minúsculos pontos de luz, e ninguém saberia dizer em qual delas Harnahan
pousara.
Rhodan não deixou perceber a menor dúvida quando perguntou:
— Essa esfera, qual é mesmo seu alcance telepático?
— Duzentos anos-luz, é o que ela diz.
— É estranho — disse Rhodan de si para si. — Sempre se acreditava que a telepatia
não conhece limitações no que diz respeito ao seu alcance. Ao que parece, nem sempre é
assim. Também Marshall não pode estabelecer contato daqui para a Terra. De qualquer
maneira, duzentos anos-luz...
Subitamente sentiu. Parecia uma mão suave que se colocava sobre sua cabeça e
exercia uma pressão delicada. Uma coisa estranha surgiu em sua mente, expelindo suas
próprias idéias. Com ligeiro olhar certificou-se de que o piloto do caça estava passando
pela mesma experiência.O estranho ser esférico estava estabelecendo contato.
— Já está acreditando, Perry Rhodan? Ele lhe disse que estou esperando você? Não,
antes de mais nada, volte à Terra; é mais importante. Mas não se esqueça de mim, Perry
Rhodan, mesmo que seja imortal. Eu o espero. Se necessário, esperarei por uma pequena
eternidade.
— Quem é você? — perguntou Rhodan.
Harnahan “sentiu” o sorriso alegre, tal qual Rhodan.
— Vocês humanos são uma raça curiosa, e a curiosidade é a mola propulsora de seu
progresso civilizatório. Acredito que será a curiosidade que um dia o levará para junto de
mim. Até lá. Passe bem, Perry Rhodan. Muito obrigado.
Rhodan ficou perplexo.
— Obrigado? Por quê?
Mais uma vez sentiu a risada mental.
— Pela energia que consegui tirar de sua nave. Não tirei demais. Não será suficiente
para um vôo mais longo. Acredito que ainda me ouvirá melhor. Muitas felicidades para
você... e para o planeta Terra.
O quarto planeta ficou para trás, e com ele as luas do mesmo.
— Como poderei chamá-lo? — perguntou Rhodan.
Não houve resposta. A estranha inteligência manteve-se em silêncio. Rhodan voltou
a tentar, mas o contato não surgiu. Olhou para Harnahan.
— Quero sua opinião, sargento. Quero sua opinião com toda a sinceridade. Que ser
é este? Vive realmente? É apenas energia, ou será também espírito? Afinal, o senhor o
viu? Poderá representar um perigo?
Harnahan olhou para a amplidão semeada de estrelas. Um traço suave brincou em
torno de seus lábios estreitos. Havia um brilho úmido em seus olhos, quando sacudiu
lentamente a cabeça.
— Não posso dar resposta a nenhuma das suas perguntas. Apenas tenho resposta
para uma delas. A última. Jamais este ser representará um perigo para nós. Sim, eu o vi; e
também o senti. Mas não senti nada de mal e não tive medo. Não, este ser esférico não
representa nenhum perigo para nós. Pelo contrário.
Perry Rhodan também olhou a profusão de estrelas. Lá adiante a algumas horas-luz
de distância, ficava o ponto de transição Num golpe o cosmos morreria e desapareceria,
para ressurgir poucos segundos depois, a mais de mil anos-luz daquele ponto.
Virou-se e fitou o rosto de Harnahan.
— Muito bem — disse em tom suave e com uma vibração estranha na voz habituada
a comandar. — Sinto a mesma coisa que o senhor. Se o ser esférico não representa
nenhum perigo, talvez possa nos ajudar um dia. E precisaremos de auxílio, quando...
Calou-se.
Mas Harnahan, que afinal era apenas um humano, ficou curioso.
— Quando precisaremos de auxílio?
Rhodan respondeu com um sorriso condescendente:
— Receio que precisemos quando os saltadores perceberem que não perderam a
memória. E isso poderá acontecer dentro de algumas semanas — o sorriso desapareceu
tão depressa como surgira. — Vamos cuidar de Bell. Dentro de algumas horas...
O rosto de Bell surgiu na tela.
— O que houve, Perry?
— Uma transição experimental de três mil anos-luz. Está preparado?
Bell confirmou com um gesto de resignação. O dente roedor sorridente de Gucky
surgiu atrás dele.
— Está bem. Mas tenho certeza de que tudo funciona perfeitamente e...
— Está pronto? — interrompeu-o Rhodan.
— Pronto — Bell olhou por cima do ombro. — Gostaria de saber quem não está
sempre pronto na situação em que me encontro. Ai!
Bell começou a subir e desapareceu da tela. Gucky ocupou seu lugar. Parecia o rato
Jerry ampliado. O dente roedor brilhava de alegria.
— É sempre ele que começa — disse Gucky em tom ingênuo. — Quer que o
teleporte para o inferno?
Rhodan exibiu um rosto severo, mas em sua voz notava-se um riso contido.
— Não faça isso, Gucky. Ainda precisaremos de Bell por algum tempo. Além disso,
o diabo não gostaria nem um pouco da concorrência que iria receber. Nunca ouviu falar
em concorrência desleal?
— Não — respondeu o rato-castor, sacudindo as longas orelhas. — Nunca ouvi
falar. O que é isso?
— É o ato praticado por um telecineta que deixa um homem normal morrer de fome
junto ao teto — trovejou a voz de Bell de algum lugar. — Desça-me imediatamente,
senão vou... vou... está bem, Gucky, não vou fazer coisa alguma. Vamos fazer as pazes?
As pernas de Bell surgiram na tela, e dali a pouco estava novamente acomodado em
sua poltrona diante do painel da nave que já pertencera aos saltadores. De boa vontade,
Gucky cedeu-lhe o lugar.
— Que tal uma transição experimental? — perguntou Rhodan.
Bell estava radiante.
— Terei o maior prazer, cavalheiro. Não há nada que eu gostaria mais de fazer.
Quanto tempo deverei esperar?
Em algum lugar, a três mil anos-luz de distância, um rato-castor chiou admirado e
sacudiu a cabeça.
Rhodan acenou com a cabeça como alguém que compreende tudo.
— Está bem. Vamos embora!
O sargento Harnahan olhou para a tela de popa e procurou um planeta que
mergulhava no espaço. Era um planeta que possuía numerosas luas de pequenas
dimensões. Em seus olhos brilhava o anseio eterno pelo conhecimento.
Afinal, era mesmo um espírito romântico e sonhador...

***
**
*

O Planeta Louco encenou a loucura para libertar-se dos


seres que o oprimiam.
O estratagema da doença aparentemente incurável, usado
para repelir os mercadores galácticos, foi coroado de um êxito
fulminante. Finalmente Perry Rhodan pode preparar o Avanço
Para Árcon, há tanto planejado...
Avanço Para Árcon é o título do próximo volume da série
Perry Rhodan.

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