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CURSO DE FORMAÇÃO ECOLÓGICA

Tema: História do Movimento Ambientalista no Mundo


e no Brasil e suas principais lutas.

Palestrante: Deputado Carlos Minc

Ecologia na História e Perspectivas para o Brasil

A colonização das Américas foi moldada a ferro e fogo, dirigida pela ânsia
do capital mercantil na acumulação de prata, ouro e especiarias. O
extermínio de astecas, maias e incas, que possuíam avançados sistemas de
produção agrícola e de organização social, foi uma das conseqüências desta
colonização predatória. As florestas foram queimadas e os templos e peças
sacras destruídos ou fundidos para confecção de moedas. A atividade
mineradora implantada pelos espanhóis escravizou estes povos,
desarticulou sua economia, gerou epidemias. Segundo Celso Furtado, a
população mexicana de 16 milhões da época da conquista foi reduzida a um
décimo deste total um século depois. Recentemente, os povos indígenas das
Américas se organizaram de forma mais eficiente buscando uma
sobrevivência digna e o resgate de suas origens culturais.
No início da colonização portuguesa do Brasil, a população indígena
estimada era de 5 milhões. O censo de 1997 registrou apenas 326 mil
índios que lutam pela demarcação de suas terras e pelo reconhecimento de
seus direitos.
Recentemente, anos após os direitos territoriais indígenas serem
consagrados na Constituição Federal de 1988, os fazendeiros e garimpeiros
ocuparam terras e mataram os Taxáua Makuxi e Wapixana. Mineradoras de
cassiterita agrediram o povo Ianomâmi. A Paranapanema invadiu as terras
dos Waimiri-Atroari para a mineração do ouro no Amapá. Os suicídios em
massa verificados nas aldeias Guarani em Mato Grosso foram causados pela
expansão das fazendas, desagregando sua economia, gerando doenças,
endividamento, alcoolismo e prostituição.
A economia colonial no Brasil foi movida a braço escravo. O tráfico negreiro
trouxe entre 1580 e 1850 cerca de 6 milhões de africanos. As viagens de
Angola a Pernambuco duravam de sete a oito semanas e os navios
transportavam de 300 a 600 escravos, um quinto dos quais morria no
percurso. O escravismo colonial criou o mercado de compra e venda de
escravos, o trabalho sem remuneração, castigos e ausência de vida familiar.
Três séculos de sangria produziram na África desequilíbrios regionais,
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desertos demográficos e atrofia econômica e social até nos dias de hoje.


Dos 30 países pior classificados no Índice de Desenvolvimento Humano na
ONU, 25 pertencem ao continente africano .
A destruição da Mata Atlântica foi o outro lado do escravismo colonial:
processou-se simultaneamente ao uso predatório dos escravos nas
monoculturas de cana-de-açúcar e de café , ao longo do litoral.
O brilhante trabalho de Josué de Castro, "Geografia da Fome", mostra como
a monocultura da cana-de-açúcar no Nordeste destruiu quase inteiramente
o revestimento vivo, animal e vegetal da região. Este sistema generalizou a
erosão, diminuindo o húmus formado pela decomposição orgânica e vegetal
e matou quase toda a vida nos rios da zona canavieira. O desflorestamento
da região intensificou o ressecamento das terras ao eliminar a floresta que
fixava a umidade do solo. Josué de Castro tratou de forma integrada a
dinâmica econômico-social e a questão ambiental. A desfiguração dos
ecossistemas eliminou alternativas econômicas e fontes de alimentação da
população, aumentando a miséria e a sujeição dos trabalhadores ao
coronelismo.
O mesmo sistema que triturou os negros no escravismo colonial dizimou
90% da Mata Atlântica em 500 anos de latifúndio pecuarista e monocultor
predatório. No seu definitivo livro "A ferro e fogo - A história da devastação
da Mata Atlântica", Warren Dean demonstrou como a Mata Atlântica foi
implacavelmente reduzida de 1 milhão e 84 mil hectares em 1500 para 95
mil hectares em 1990.
A questão ecológica tem base cultural e educacional. As práticas predatórias
que em nome do lucro aterraram lagoas, poluíram rios, desfiguraram praias
e queimaram florestas foram legitimadas pela herança colonial e
escravocrata.
As grandes metrópoles converteram-se em pólos de atração de capitais,
populações e problemas - tal qual colonialistas do espaço nacional drenam
recursos e geram no interior áreas de abandono e desequilíbrio. Hoje as
grandes cidades sediam a maior parte dos problemas ambientais: lixo e
esgoto sem tratamento; poluição visual , sonora e térmica; agressão à
saúde do trabalhador pela poluição química dentro das empresas; ocupação
irregular de encostas, alimentos contaminados por agrotóxicos, lixo
atômico.
Quais as perspectivas para o futuro? A informação ambiental e a consciência
ecológica avançam, mas será educação ambiental formal e informal
implantada que criará bases sólidas para novos valores e novos
comportamentos. A legislação ambiental tem avançado muito mais rápido
do que nossa capacidade de fazer as leis conhecidas e respeitadas. As
alternativas tecnológicas, econômicas e urbanísticas serão a grande defesa
do meio ambiente, que não pode depender apenas de um fiscal em cada
esquina. As tecnologias mais limpas devem ser priorizadas no momento da
tomada de decisões nos investimentos em ciência e tecnologia, o que
depende da entrada em cena dos sindicatos, associações e universidades.
As novas cidades e redes urbanas enfrentam o desafio de sua
transformação, através da ecologia urbana, em cidades do cidadão
associado, alternativa ao congestionamento , falência e envenenamento da
população. Há acúmulo teórico, científico e experimental que fundamente
tais mudanças. Mas esta autêntica revolução cultural dependerá de bases
sociais e alianças políticas que viabilizem o sonho possível e inadiável do
desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentado.
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Os desafios da Ecopolítica no Brasil

O movimento operário, quando deu sinais de vida, identificava nas


máquinas o seu inimigo. Afinal foram as máquinas que, tornando obsoletos
os instrumentos de trabalho do artesão, possibilitaram o aumento das
cadências de trabalho e substituíram milhares de trabalhadores, lançados
no desemprego. Por isso, na Europa que plantava indústrias no início do
século passado, os operários revoltados quebravam as máquinas. Os
perversos e sutis mecanismos sociais de apropriação do produto do trabalho
e de sujeição da classe trabalhadora eram ainda, em grande parte,
desconhecidos.
O movimento feminista, que despontou nos anos 1960 sacudindo os valores
estabelecidos das sociedades machistas e conservadoras da Europa e dos
EUA, tendia a identificar no homem um inimigo, no momento sexual da
penetração uma forma de dominação. Uma de suas palavras de ordem era:
“A cada estupro, uma castração.” As lutas pela igualdade de direitos, pelo
direito de dispor do próprio corpo e contra todas as formas de discriminação
colocaram posteriormente para o movimento feminista a questão de uma
nova relação solidária entre homem e mulher, fundada em um profundo
reaprendizado recíproco e conjunto.
O movimento ecológico não fugiu a esta regra. Quando os ecologistas
abriram uma fenda verde no reducionismo e economismo predominantes
em praticamente todas as principais correntes de pensamento do mundo
chamado desenvolvido, seu brado trazia a marca da recusa. A recusa do
progresso armado, a recusa da felicidade consumista veiculada nos
almanaques publicitários dos grandes magazines, a recusa do automóvel
transformando em símbolo sexual e estandarte civilizatório , a recusa em
aceitar a destruição da natureza como a necessária contrapartida do
desenvolvimento, a recusa do trabalho alienante como parâmetro de
responsabilidade ou de dignificação. Como a grande cidade havia se tornado
a sede da indústria que agredia a natureza e os cidadãos, e que produzia
em escala a poluição e o desperdício, os ecologistas pregavam a volta ao
campo, às comunidades rurais. Como a medicina moderna e a invasão
farmacêutica produziam dependências, intoxicavam, geravam novas
enfermidades, os ecologistas propunham a volta à medicina natural, à auto-
medicação, ao parto em casa. Como a televisão alienava, mentia,
transformava o cidadão num canal receptor de mensagens dirigidas do
poder, os ecologistas propunham que não se comprassem aparelhos de TV.
Como a escola oferecia uma educação bitolada, massificada, decoreba, que
atrofiava a inteligência e a imaginação das crianças, muitos ecologistas
passaram a educar seus filhos em comunidades, onde se aprendia, por
exemplo, a conhecer o canto submarino das baleias, como no belíssimo
filme Jonas que terá 20 anos no ano 2000 de Alan Jones.
Mas, da mesma forma que os operários compreenderam que destruindo
algumas máquinas não eliminavam as relações que os oprimiam, e que as
feministas elevaram para um patamar superior sua apreensão das origens
do machismo que impregna ambos os sexos, os ecologistas se deram conta
das tremendas dificuldades de organizar comunidades e mundinhos
ecológicos com leis próprias de convivialidade fraternal no meio das
sociedades tecnoburocratizadas, fundadas no industrialismo-consumismo,
na centralização e o desperdício.
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As comunidades agrícolas, sem meios de pesquisa de tecnologias


alternativas, cedo enfrentavam sérios problemas de organização precária e
de produção insuficiente. As escolinhas comunitárias careciam de material
didático alternativo, de professores com formação pedagógica e
experimentados nos diferentes campos do conhecimento. Muitos ecologistas
padeceram de graves doenças prolongadas e mesmo faleceram por
recusarem as soluções da medicina tradicional para problemas que a
medicina natural, a acupuntura ou a homeopatia ainda não apresentavam
alternativas eficientes. Não assistir à televisão alienante, afinal, não
diminuiu necessariamente o grau de alienação das comunidades isoladas,
que recusavam o contágio da civilização poluente e agressora. As ilhas dos
crusóes ecológicos nem sempre desembocaram em arquipélagos
alternativos, mas marcaram com a sua recusa uma crítica radical dos
valores da sociedade moderna e afirmaram com seus exemplos o vigoroso
desejo de viver diferente.

Caleidoscópio multidimensional

A ecologia da era da recusa tinha os olhos facetados da abelha, uma visão


fragmentar das malhas visíveis e invisíveis do tecido sócio-territorial.
O horizonte de mira não ultrapassava via de regra o bairro, a poluição
localizada, a paisagem querida da infância, desfigurada por vias rápidas e
espigões, o riacho convertido em esgoto, a pracinha em estacionamento.
Quando o alvo de atuação não era circunscrito à localidade, era apreendido
por uma luneta ecológica dirigida a uma espécie animal ameaçada de
extinção, como a baleia, aos grandes petroleiros que petrolhavam as praias,
aos remédios que comprovadamente provocavam novas doenças. Tudo isso
aparecia desconectado. Tratava-se de uma sucessão de crimes perversos e
incompreensíveis. O farol da indignação ecológica iluminava o locus da
agressão e obscurecia o funcionamento das conexões políticas e econômicas
dos processos predatórios.
Talvez tenham sido as memoráveis jornadas pacifistas e antinucleares do
final dos anos 70, início dos anos 80, na Europa nos EUA, que aproximavam
e conectaram de fato as tão diversas componentes do que conhecemos por
movimentos ecológicos a alternativos. A ameaça concreta, palpável,
próxima como um cão vivo debaixo dos lençóis, debaixo da camisa, da pele,
o Cão sem plumas de João Cabral, iluminaram à lança-chamas os elos
obscuros da moderna espoliação tecnocrática militarizada.
A ameaça nuclear-autoritária, belicosa, machista e chauvinista colocou nas
ruas, de mãos dadas, coloridos cordões de senhoras pacifistas, imigrantes
estrangeiros discriminados, hippies, físicos nucleares, feministas,
psicanalistas alternativos, comunidades rurais, ecologistas, socialistas
libertários e rebeldes de múltiplas causas.
A organização militarista da sociedade fortalece a hierarquia, as rígidas
normas, a uniformização (no seu duplo sentido), ameaça a natureza, o
direito à diferença e, em síntese, a própria vida. Esta ameaça coloriu as
praças e avenidas com tão diversos grupos sociais, ideológicos e
comportamentais. Mas afinal, o que a defesa das baleias tem a ver com os
psicanalistas? Em que a defesa das florestas se identifica com os socialistas
autogestionários? Em que o direito a dispor do próprio corpo responde às
angústias dos físicos nucleares?
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Para avaliarmos os desenhos psicodélicos do Caleidoscópio


Multidimensional, apresentamos uma adaptação livre da abordagem de Ivan
Ilitch sobre o espaço da Autonomia. Mais adiante nos apoiaremos neste
referencial para a leitura das propostas ecológicas recentes para a cidade, a
região e a Constituinte.

As encruzilhadas da economia, da ciência e da vida quotidiana.

X Socialização
Planejamento Z
Apropriação social
Coletividade Autonomia, controle
Tecnologias duras, pesadas, do tempo e do espaço
centralizadas, poluentes, pelos cidadãos. Gestão do
dominadas por especialistas, corpo e da vontade.
grande escala, soluções Liberdade de opções.
homogêneas, conexões militaristas.

Y’ Y
Heteronomia, ampliação do trabalho Tecnologias doces
alienado. Restrição dos espaços Brandas alternativas, não
convencionais. Intervenção poluentes, descentralizadas,
do estado ou do mercado diversificadas, com sistemas,
na limitação das energéticos renováveis.
liberdades dos Mercado
cidadãos. Lucro
Individualismo
Concorrência
Z’ X’ Privatização

Estes caminhos cruzados assinalados na figura traduzem algumas das


polarizações verificadas quanto às opções de organização societal, tomadas
uma a uma, em cada eixo. O desafio é a sua percepção simultânea e
integrada numa abordagem multidimensional.

Apropriação Social

O eixo XX’ expressa a oposição clássica Esquerda-Direita, ou Socialismo-


Capitalismo segundo os parâmetros de referência formulados em meados
do século XIX. No sentido X’ o Capital é justificado coo um empreendimento
privado referendado no mercado livre, testado na concorrência que penaliza
os projetos ineficientes e anti-sociais. O lucro é a premiação social do risco
e do êxito empresarial, e sua contrapartida é a criação de empregos e a
oferta de produtos de boa qualidade, sendo seus preços formados pela
oferta e pela procura. O sentido oposto X aponta a propriedade privada dos
meios de produção como a base da sujeição do trabalho e das relações de
exploração, e defende uma opção coletivista. O mecanismo do lucro
dirigindo os investimentos é responsabilizado pelas crises cíclicas que
lançam milhões de trabalhadores no desemprego e na miséria. A orientação
socialista defende a apropriação social da produção pela coletividade, o que
supõe a socialização do aparato econômico e o planejamento como meio da
sociedade orientar a produção segundo suas aspirações.
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O princípio do planejamento social como eixo diretor da economia transferiu


para o interior do aparato de estado a luta pela reorganização da vida
econômica e social. Este aparato se robusteceu progressivamente,
resistindo as previsões sobre sua tendencial diluição. Ao contrário, a ação
do estado no socialismo realmente existente penetrou mais a fundo na
normação da vida cotidiana, dos princípios éticos e morais, na disciplinação
de corpos e mentes. A apropriação coletiva do produto social esbarrou
também no desenvolvimento de estruturas tecnológicas fundadas no
gigantismo, na reificação da divisão do trabalho e subordinadas ao comando
de especialistas. Para o funcionamento desta engrenagem produtiva
complexa, Lenin apelou para o taylorismo e Trotsky para a militarização do
trabalho. A autogestão dos produtores associados sobre as fábricas e a
sociedade encontrou barreiras intransponíveis no estado asfixiante e nos
complexos tecnológicos centralizados, hierarquizados, poluentes, em suma,
reprodutores das relações sociais de sujeição e de apropriação do mais-
trabalho que os haviam engendrado. O confronto contido no eixo XX’ foi
basicamente centrado sobre o estatuto da propriedade das unidades
econômicas e sobre suas leis gerais de funcionamento. A natureza e as
implicações qualitativas das opções tecnológicas estiveram ausentes neste
debate secular. Ofuscada também foi a discussão das condições necessárias
para o exercício real da autogestão e para a ampliação dos espaços de
autonomia e de liberdade.

Tecnologia, dominação e autogestão

O eixo YY’ trata das opções tecnológicas e de seus impactos sobre a


organização territorial e o patrimônio ecológico e acerca do poder de
controle efetivo dos cidadãos sobre as decisões econômicas. Certos
contornos desta problemática foram delineados na Revolução Cultural
Chinesa com os grandes debates acerca da oposição Campo-Cidade, da
oposição Trabalho Intelectual – Trabalho Manual, da subordinação da
Agricultura à Indústria. A grande manipulação de massas, o autoritarismo e
o esquematismo dominantes sufocaram a percepção destas contradições. A
questão ecológica e a autonomia não foram suscitadas, e as oposições
acima mencionadas foram enfrentadas burocraticamente. Por exemplo,
obrigando-se aos cientistas e intelectuais a participarem dos trabalhos de
faxina por certas horas, sob coação.
A estrutura tecnológica, e as contradições que ela incorpora, resistiram sem
muito esforço à tentativa de subvertê-las por métodos administrativos
autoritários. Esta concepção levada às últimas conseqüências fundamentou,
anos mais tarde, a trágica evacuação forçada de Pnon-Phen pelo Kmer
Vermelho. Esta via de enfrentar o mal (a cidade corrompida) pela raiz não
deixa de lembrar o primarismo dos operários que partiam as máquinas
opressoras há dois séculos atrás...
A discussão sobre a organização territorial do aparato econômico e da sua
gestão vieram à tona na Iugoslávia a partir do seu rompimento com a URSS
em 1948. Em 1950 são criados comitês de gestão no interior dos conselhos
operários, democratizando o poder nas unidades produtivas. A reforma de
1965 aumentou a margem de independência das fábricas em relação ao
governo, abriu a economia ao capital externo e produziu elevadas taxas de
crescimento econômico.
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Este crescimento no entanto seguiu os padrões tecnológicos capitalistas


vigentes na Europa, cuja conseqüência foi a de aumentar as desigualdades
regionais existentes na Iugoslávia, aumentar muitíssimo o êxodo da
população para a Alemanha e de multiplicar rapidamente os índices de
poluição.
Em 1947 a relação do rendimento por habitante entre as regiões mais
desenvolvidas e as mais pobres na Iugoslávia era de 3 para 1; em 1967
esta relação passa a ser de 5 para 1. Em 1971 havia 672 mil trabalhadores
iugoslavos no estrangeiro, sendo 413 mil fixados na Alemanha Federal,
segundo as estatísticas oficiais. O investimento estrangeiro se concentrou
nas indústrias químicas, metalúrgicas e na borracha, sem medidas de
proteção quanto aos impactos sócio-ambientais.
Estas informações, ainda que superficialmente analisadas, indicam que o
aumento do controle dos produtores diretos sobre o processo produtivo
apenas ao nível das unidades econômicas, por si só, não garante a
reconversão da sociedade, das desigualdades, das injustiças, da poluição,
do alargamento dos espaços globais de autonomia. A questão da tecnologia,
por exemplo, não pode ser deixada de lado. Em resposta ao aumento da
poluição, ao gigantismo e à contraprodutividade social dos grandes
complexos industriais, surgiram nos países capitalistas várias correntes
questionando o crescimento a qualquer custo, rediscutindo a eficácia das
chamadas economias de escala, ou economias de aglomeração, e rejeitando
opções tecnológicas poluentes, concentradoras ou fundadas no consumo
voraz de matérias-primas não renováveis.
A partir do Relatório Meadows – Os Limites do Crescimento, obra coletiva do
M.I.T. adotada pelo Club de Roma em 1972, reconheceu-se que o
desperdício e a poluição deixaram de representar apenas um problema para
a população, para as condições de vida e de consumo, e passaram a afetar
as próprias bases de reprodução da esfera produtiva. Proliferaram estão
idéias sobre a descentralização da economia e da diminuição da escala das
unidades, como a proposta de Schumacher, em Small is beautifull (O
Negócio é ser Pequeno – Zahar, 1980). Surgiram diversas propostas de
tecnologias adaptadas, de desenvolvimento a partir da escala local,
formuladas em fins da década de 70 por geógrafos como Friedmann, Stohr
e Taylor. Estes foram os mesmos que, 15 anos antes, haviam apoiado os
pacotes tecnológicos e grandes projetos do Banco Mundial na África e na
Ásia, que redundaram em conhecidos fracassos, previstos com grande
antecedência por René Dumont.
Pensadores e cientistas de diversas áreas, com preocupações sócio-
ambientais, começaram a dirigir esforços para pesquisas de fontes
alternativas de energia, a partir do sol, do mar, dos ventos, do calor da
terra (geotérmica). Agrônomos desenvolveram pesquisas na área da
agricultura orgânica e ecológica; engenheiros estudaram formas de
aumentar a durabilidade dos produtos e promover a reciclagem dos
resíduos e dejetos, em oposição às práticas predatórias de produção da
obsolescência precoce planejada.
Toda esta busca de alternativas tecnológicas trouxe embutida uma carga
subversiva considerável, e ao mesmo tempo enfrentou os fortes limites
impostos pelo funcionamento do sistema. O professor René Dumont, em
uma aula dada em Paris, em 1974, nos falava destes limites ao comentar a
existência de uma base militar americana na África, movida à energia solar.
A fonte de energia menos poluente, mais democrática, mais
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descentralizável sustentava uma base militar imperialista de dominação


sobre povos do Terceiro Mundo. Moral: a tecnologia não é neutra, mas ela
por si só não faz milagres.
O possível potencial transformador das tecnologias alternativas foi, no
entanto, detectado pelo Relatório Meadows, que procurou restringi-lo: “uma
solução técnica pode ser definida como uma solução que requer uma
mudança nas técnicas das ciências naturais, exigindo pouco ou nada no que
diz respeito às mudanças nos valores humanos ou nas idéias de
moralidade” (Meadows, Donella e alli – Limites do Crescimento, ed.
Perspectiva, S. Paulo, 1978, p. 148). Ocorre que a inovação tecnológica é
também uma inovação nos processos de dominação social, e está
impregnada de significância cultural, ética e política. Por isto a discussão do
eixo YY’, travada de forma independente dos outros eixos, assume um
caráter a-histórico e mistificador.
A importante distinção feita por Bettelheim entre a propriedade jurídica
definida nas leis, e a propriedade real, fundada no direito efetivo do cidadão
dispor, influir, determinar o que será produzido, como, para quem, a que
preço, em que processo de trabalho (Calcul Economique et Formes de
Propriété, ed. Maspero, 1973, Paris) abre nova perspectiva para a relação
entre tecnologia e autogestão efetiva. Afinal, nem todo aparato se presta à
apropriação real autogestionária.
André Gorz mostra que mantidas as formas tecnológicas vigentes no
sistema capitalista e no socialismo realmente existente, tanto os meios de
produção, como uma parte considerável da própria produção, não se
prestam à apropriação coletiva, real e concreta por parte dos produtores
diretos associados (A. Gorz – Adieux au proletariat, ed. Galillée, Paris,
1980).

Autonomia – a Reversão da Lógica produtivista

Por fim, temos a discussão da autonomia e da heteronomia no eixo ZZ’,


introduzida pelos pensadores libertários, críticos do socialismo realmente
existente e das sociedades capitalistas pós-industriais , como Ivan Ilitch,
André Gorz e Jean_Pierre Dupuy. Este campo de reflexão não se prende à
estrutura da propriedade e da distribuição dos bens (contida em XX’) ou às
bases tecnológicas da produção (YY’); trata das esferas da vida cotidiana
auto-reguladas pelos cidadãos, dos horizontes dos espaços de liberdade.
A autonomia é a capacidade, a margem de ação, o poder dos indivíduos,
comunidades e grupos sociais de disporem e decidirem sobre sua educação,
seu lazer, sobre o seu meio ambiente, sua alimentação, suas tendências
religiosas, sexuais, sua forma de atuação política e sindical, sem coação e
restrições impostas pelos poderosos mecanismos do mercado, ou pela ação
normativa do Estado.
Os espaços heterônomos são, ao contrário, aqueles em que as normas de
funcionamento são reguladas pelo poder do Estado, das empresas, das
grandes instituições, e que escapam do poder de reversão ou de controle
dos grupamentos individualizados. É a esfera do trabalho assalariado, do
funcionamento das repartições, dos organismos policiais, da produção
massificada e dos serviços estandartizados oferecidos no mercado.
A autonomia é o poder de opor à hetero-regulação centralizada uma auto-
regulação descentralizada: a adoção sempre que possível de soluções
técnicas e econômicas controláveis pela comunidade, não destruidoras do
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meio ambiente vital, passíveis de serem autogeridas pelos trabalhadores e


moradores das regiões.
A imposição das soluções heterônomas amplia a desqualificação das
atividades que não são organizadas e dirigidas diretamente para a produção
mercantil de escala. Desqualifica o saber do autodidata, da memória oral da
comunidade, o saber secular das medicinas tradicionais, o espaço vivido nos
bairros que é desfigurado pelas autoestradas.
A sucessiva captura de atividades realizadas no seio da família, da
comunidade e da cooperação pela esfera mercantil é acompanhada pelo
estabelecimento de novas normas e códigos de poder, pelo aumento da
disciplina e da hierarquia nas decisões, e pela crescente militarização de
distintas instâncias do tecido societal. Em síntese: pelo fortalecimento do
estado e do capital, e pela sujeição dos produtores, consumidores e
comunidades a esta lógica inexorável, por alguns chamada progresso.
O eixo XX’ elude esta dimensão. A direita e esquerda clássica se debatem
entre o plano e o mercado, sem discutir a imposição de modelos
estandartizados de vida, de consumo, de comportamentos castradores da
vontade e da imaginação das pessoas e grupos comunitários. A
disciplinação de corpos e mentes, o consumismo e o apelo ao produtivismo
aproximam mais do que afastam estas correntes, que se digladiam quanto
ao estatuto da propriedade (jurídica) dos meios de produção.

O Desafio da Ecopolítica

A moderna ecologia política do Terceiro Mundo enfrenta problemas distintos


daqueles que se apresentam aos Verdes da Europa: trata-se de defender
políticas alternativas e soluções ecológicas para os graves problemas dos
nossos povos: a fome, a miséria, o desemprego, a alienação e a estrutura
agrária. O desafio é o de dirigir a ação política de forma a responder
SIMULTANEAMENTE orientações no sentido da apropriação social (X), das
tecnologias alternativas (Y) e da autonomia (Z) nos eixos da economia, da
ciência e da vida cotidiana.
Caso o programa ecopolítico secundarize a orientação da apropriação social,
ele se moverá no espaço X’ ZY, de modernização e democratização do
capitalismo. Por outro lado, a esquerda tradicional que absolutiza o eixo X
em nome do primado do econômico e da luta de classes, é cegamente
acrítica do espaço XY’Z’, universo do socialismo realmente existente,
fundado na tecnologia heavy e na heteronomia regida pela filosofia
reguladora do estado. A proposta Verde de ecodesenvolvimento, ao situar-
se no espaço definido pelas orientações XYZ, avança políticas da reforma
agrária ecológica e da reforma urbana ecológica, entre outras.

Reforma Agrária Ecológica

A reforma agrária ecológica entrelaça a transformação radical da estrutura


latifundiária com a mudança efetiva do modelo agrícola. Trata-se de
extinguir o monopólio da terra e o poder político dos velhos e novos
coronéis e suas milícias privadas, mas de superar simultaneamente o
modelo de agricultura predatória, organizada a partir da monocultura, do
desmatamento, do uso intensivo de agrotóxicos e do empobrecimento tanto
do fundo de fertilidade dos solos quanto da diversidade dos ecossistemas.
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A reforma agrária ecológica pressupõe, como condições políticas básicas, o


reforço do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, do movimento
sindical rural e das organizações cooperativas, democratizadas e
redimensionadas. Pressupõe o redirecionamento de toda a estrutura de
pesquisa científica e tecnológica no sentido de opções fundadas no combate
biológico às pragas, no manejo ecológico dos solos, nos sistemas de
agricultura integrada.
As cooperativas criadas a partir de uma reforma agrária ecológica podem
organizar sistemas policulturais, reintegrando agricultura, pecuária e
silvicultura, em autênticos arquipélagos energéticos, produzindo energia
através do álcool de cana, de sorgo, da mandioca, e biogás a partir de
dejetos animais. A utilização do vinhoto em tanques de aguapé e, em
seguida, como base da piscicultura, evita a poluição dos rios e incrementa a
produção de proteína animal e vegetal. O biodigestor alimentado de esterco
produz, além do biogás, biofertilizante, substituindo o fertilizante importado
e aumentando a autonomia das unidades agrícolas autogeridas.
Estas cooperativas integradas permitem a modernização da pecuária, com
confinamento de gado alimentado com resíduos da produção, produção de
álcool, grãos, aquacultura e piscicultura. Esta complementaridade evita a
competição, e também a poluição e a dependência externa. Garante
emprego todo o ano, e não apenas na safra, como no sistema atual que
mantém 2 milhões de bóia-frias, desempregados 6 meses do ano.
Este sistema se organiza a partir dos princípios da reciclagem, ou
reaproveitamento, diversidade, complementariedade, autonomia e
descentralização. Ele é uma alternativa à agricultura química e à
especialização de grandes áreas de sistemas monocultores. Tal sistema só
será viável com a democratização do crédito agrícola, eliminação de várias
etapas especulativas da comercialização, reforço do poder local e dos
mercados regionais. E isto tudo depende do avanço das propostas
ecopolíticas nos diversos campos.
Estas propostas não se encontram apenas nas cabeças dos pensadores
ecologistas, libertários e alternativos. O IV Congresso Nacional dos
Trabalhadores Rurais, da CONTAG, reuniu-se em Brasília em abril de 1985,
com cerca de 4 mil delegados; eu participei como observador convidado e
verifiquei, com grande alegria, a ressonância destas teses no movimento
sindical: seis páginas das resoluções são consagradas à reforma agrária
ecológica. Transcrevo algumas resoluções para ilustrar:
128 – que seja implantado um serviço de pesquisa que indique alternativas
viáveis, que atenda ao interesse da pequena propriedade como um todo,
estimulando novos sistemas de produção, utilizando recursos naturais.
129 – que as tecnologias preconizadas para os pequenos produtores
considerem suas condições econômicas e sociais, como também as
condições ecológicas da região, e que a introdução da mecanização não seja
prejudicial à ocupação da mão de obra, incentivando-se o uso da tração
animal, adubação orgânica, controle biológico de pragas e a policultura.
132 – que seja implantado o zoneamento agroclimático, com participação
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, de modo que o plantio de culturas
temporárias, permanentes e o reflorestamento recaia somente em áreas
indicadas pelo zoneamento.
140 – que o movimento sindical apoie as legislações estaduais e municipais
relativas à proteção do meio ambiente e uso de agrotóxicos. Que seja
reforçada a legislação relativa à proteção do meio ambiente, estabelecendo
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sanções e penalidades mais rigorosas para os casos de aplicação de


defensivos que causam prejuízos a terceiros e aos bens públicos, como
também para os casos de poluição dos rios por detritos industriais.
141 – que a distribuição e uso dos defensivos sejam submetidos a severo
controle através da proibição da fabricação daqueles comprovadamente
tóxicos, especialmente os clorados, como também a proibição de
importação daqueles já condenados em outros países; será
responsabilidade da Contag realizar o levantamento destes produtos e
divulgá-los aos Sindicatos de Trabalhadores Rurais.
145 – que na implantação de destilarias de álcool nos municípios sejam
previamente definidos os depósitos de vinhoto.
147 – que seja proibida a propaganda de agrotóxicos.
151 – que o governo crie um departamento especializado em controle
biológico de pragas para todo o país.
174 – que as cooperativas sejam descentralizadas, de forma a facilitar a
participação dos associados, tanto na administração, quanto nas eleições,
sem interferência do governo.
206 – que seja substituída a polícia florestal por um conselho florestal que
possua um corpo técnico formado por profissionais especializados com
função educativa de preservação ecológica.
A grande consciência ecológica expressa neste congresso que representou 6
milhões de trabalhadores rurais talvez seja uma boa resposta para aqueles
que insistem que a causa ecológica é restrita às elites nos países
subdesenvolvidos, onde a maioria sequer tem emprego, educação e
assistência médica. São precisamente estes trabalhadores rurais que se
intoxicam com os agrotóxicos, e que se endividam com os preços destes
insumos – que sempre sobem mais rápido do que os preços dos produtos
agrícolas que vendem, reproduzindo a chamada troca desigual e a
conhecida deterioração das relações de troca.
Os trabalhadores rurais não usam, nas suas resoluções, a terminologia do
ecodesenvolvimento ou o conceito de reforma agrária ecológica, mas suas
propostas apontam para as soluções fundadas na descentralização,
autonomia, cooperativismo, ecotécnicas, reciclagem, diversidade cultural,
controle direto dos produtores, que constituem precisamente o cerne da
concepção ecopolítica de reforma agrária.
Ao mesmo tempo que avançam na luta pela terra, os trabalhadores rurais
têm participado da criação de Centros de Tecnologia Alternativa com o apoio
da Fase – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, dos
Sindicatos, e de várias outras entidades. No nordeste, um dos centros que
está mais avançado é o de Feira de Santana; em Ouricuri, Pernambuco e
em Quixeramobim, Ceará, foram também implantados Centros de
Tecnologias Alternativas que pesquisam e difundem para os pequenos
agricultores as soluções tecnológicas melhor adaptadas aos ecossistemas
regionais, de mais baixo custo, usando insumos locais, diminuindo a
dependência de compras externas.
Na região sul é onde os CTAs estão mais desenvolvidos, com generalização
de hortas biológicas, biodigestores, combate biológico às pragas. Em Minas
Gerais, os agricultores da comunidade de Passagem que utilizaram os
compostos orgânicos no plantio do milho obtiveram produtividade superior à
alcançada com os adubos químicos. O Sindicato de Trabalhadores Rurais de
Virgolândia, também em Minas, se esforça na busca de alternativas
tecnológicas para os agricultores, para manter sua condição de produtores,
12

pois o modelo tecnológico adotado no país tem levado esta gente a


abandonar suas atividades pelos altos custos da produção ou pelo
endividamento bancário.

Ecologia Urbana

A reforma urbana ecológica aponta para uma cidade mais democrática,


mais humana e mais respirável: a cidade do cidadão. Não é apenas a cidade
onde os aluguéis e transportes sejam mais baratos e cada família tenha
direito a um lote, mas também uma cidade mais arborizada, mais silenciosa
(e mais alegre), menos verticalizada, menos agressiva, menos fumacenta. A
cidade verde, das ciclovias, das áreas de lazer, com suas referências
históricas defendidas da especulação imobiliária.
A cidade do cidadão não será regida pela elevação dos gabaritos, nem pela
apropriação de suas áreas de expansão pelos espertos proprietários de
terrenos espectantes; não será a cidade do automóvel, comandada pelos
interesses do transporte privado, poluidor, engarrafador, que exige a
abertura de sucessivas vias rápidas que transformam bairros de residência
em bairros de passagem. Será a cidade regida pelo Direito de Vizinhança,
onde os cidadãos sejam consultados sobre as alterações do uso do solo
projetadas para cada obra importante em suas ruas.
A Assembléia Permanente de Defesa do Meio Ambiente do Rio de Janeiro
lançou o Decálogo de Defesa Ecológico do Rio, para interferir politicamente
na sucessão municipal de 1985. Cerca de 30 grupos ecológicos, associações
de geógrafos e biólogos, e a Famerj ao longo de 3 meses de discussões
elaboraram uma proposta imediata de atuação ecopolítica. O programa é
exeqüível e foi assinado em campanha pelo atual prefeito, embora não
esteja sendo aplicado.
Este Decálogo não contempla todos os fundamentos da reforma ecológica,
dado que esta supõe condições políticas, sociais e culturais que não estão
dadas. É um programa de curto prazo de defesa do patrimônio ambiental da
população, da democratização da qualidade de vida e da ampliação dos
direitos dos cidadãos. Transcrevemos na íntegra o Decálogo, por ser um
documento histórico, já que pela primeira vez o movimento ecológico no
Brasil conseguiu expressar uma visão de intervenção globalizante na
ecologia urbana, ainda que de forma esquemática e com horizonte temporal
limitado.

Decálogo para a Defesa Ecológica Do Rio de Janeiro

1 – Uso do solo
Reativar a COMISSÃO MUNICIPAL DE ZONEAMENTO, garantindo a
participação das Associações de Moradores e das entidades de defesa do
meio ambiente. A participação popular nos planos, propostas e programas
permitirá o controle sobre os empreendimentos públicos e privados quanto
aos seus impactos sócio-ambientais que afetam a saúde da população e o
patrimônio cultural-ambiental. Esta Comissão será articulada com Câmaras
das Administrações Regionais, ouvindo a população dos bairros concernidos
por obras. Aprovar e ampliar o DIREITO DE VIZINHANÇA, garantindo aos
moradores o prévio conhecimento das obras projetadas para seus bairros e
seus respectivos impactos sócio-ambientais.
13

2 – Transportes
Tratar os transportes como um serviço público, tal como o abastecimento de
água, a iluminação pública, etc. e não subordiná-lo à lógica do lucro, que
acarreta freqüentemente no seu não-funcionamento à noite, no mal
atendimento aos bairros populares, e no não controle da emissão de
poluentes, principal fator de poluição do ar na cidade. Rever os contratos de
concessão às empresas particulares, para evitar a superposição de linhas, o
que produz engarrafamentos, aumenta a poluição sonora e do ar.
Estabelecer o sistema de calhas exclusivas para transporte público.
Controlar rigorosamente a emissão de poluentes. Incentivar e manter meios
de transportes, como bondes, microônibus, etc. Substituir o diesel por gás
natural nos veículos de transporte público e na totalidade da frota da
Comlurb. Substituir no prazo máximo de 4 anos a frota de ônibus do
município por ônibus adequados a toda a população, inclusive aos
deficientes, idosos, grávidas e crianças, do tipo Padron com câmbios
automáticos (menos barulhentos) e controle de velocidade.

3 – Desmatamentos, queimadas e encostas


Elaborar e executar imediatamente um plano de emergência de contenção
de encostas. Revisão do corpo técnico da diretoria do Instituto de
Geotécnica, que possui maioria de técnicos de formação geotécnica e carece
de pessoal na área biológica. Elevar a taxação municipal sobre os grandes
lotes desmatados em encostas e conceder incentivos fiscais aos
proprietários que mantiverem áreas florestadas. Realizar convênios de
órgãos da Prefeitura (Departamento de Parque e Jardins, etc.) com o IBDF
para fiscalização sistemática de áreas protegidas por lei, com vistas a
reprimir a ocorrência de desmatamentos ilegais e queimadas. Delegar
competência, através de conveniamento, às associações de defesa do meio
ambiente para fiscalizar desmatamentos e queimadas. Reativar o
Departamento de Parques e Jardins e o Horto Municipal; criar viveiros de
mudas nas regiões do município. Implementar um plano de arborização das
vias públicas e das áreas municipais, consultando a Comissão Municipal de
Zoneamento Urbano e dando preferência a árvores frutíferas. Criar e
implementar o Programa CADA FAMÍLIA UMA ÁRVORE, reduzindo 1% do
IPTU por árvore, para quem plantar e mantiver árvores em frente de sua
casa.

4 – Drenagem de águas pluviais e esgotos sanitários


Ampliar, aperfeiçoar e estender para todo o município a organização de
mutirões, pagos pela Prefeitura, utilizando os desempregados de cada
bairro e favela. Construção e manutenção de instalações adequadas para
drenagem das águas pluviais, segundo um cronograma apresentado à
população dos bairros e discutido com as associações de moradores.
Instalação de fossas sépticas e de biodigestores, com programas de
educação e de apoio para sua utilização e conservação.

5 – Lagos, restingas e manguezais


Não conceder Alvarás de Construção nas orlas das lagoas, restingas e
manguezais, implementando a Lei 3.438, de 17/07/1941. Reexaminar
licenças concedidas, submetendo os relatórios obrigatórios de impacto
ambiental à Comissão Municipal de Zoneamento Urbano. Implementar e
14

expandir a criação de áreas municipais de proteção e de preservação


ambiental.
Estimular, através de convênios, estudos e projetos, a recuperação dos
ecossistemas de lagoas, restingas e manguezais.

6 – Poluição Sonora
Subordinar a instalação de atividades, eixos viários, etc. ao estudo prévio
dos impactos da poluição sonora, nos planos de zoneamento, consultada a
população através da Comissão Municipal de Zoneamento Urbano. Cumprir
rigorosamente a Lei 646 que determina a gradação de nível de tolerância do
ruído segundo o tipo de zona urbana (na zona residencial estes níveis de
tolerância têm de ser muito mais restringidos). Implementar uma
fiscalização eficiente; aplicar multas exemplares e divulgá-las à população.
Ajudar a tornar a cidade silenciosa e alegre. Estimular proteção acústica
para atividades e a despoluição sonora no interior dos locais de trabalho
(12% dos metalúrgicos sofrem de surdez adquirida).

7 – Preservação do patrimônio histórico e natural


Consultar as comunidades e associações de moradores para a inventariação
dos locais, objetos e elementos constitutivos da memória dos bairros para a
definição do patrimônio histórico, cultural e paisagístico, incorporando
também o gosto e o afeto da população como fatores de definição dos bens
de valor estético e cultural. Incrementar a criação de corredores culturais
em várias regiões da cidade. Estender e ampliar continuamente o
tombamento de bens e áreas de valor histórico, cultural e natural. Defender
intransigentemente as áreas tombadas contra a sua descaracterização
provocada pela especulação imobiliária.

8 – Saúde pública, consumo e abastecimento alimentar urbano


Incrementar os Conselhos Comunitários de Saúde, e através deles
promover amplas discussões com médicos sanitaristas, técnicos e com as
populações locais acerca das causas das doenças, incluindo as determinadas
por condições sócio-ambientais e redutíveis por saneamento básico. Adotar
e divulgar medidas de prevenção contra as doenças endêmicas. Realizar
esforço conjunto do Município e do Estado para instalação rápida e
coordenada de saneamento básico em todos os bairros; idem para
incrementar o controle de vetores (roedores e insetos) sobretudo nas
favelas e bairros populares. Apoiar, aperfeiçoar e dinamizar programas que
garantam a propriedade da terra para os moradores e a urbanização das
favelas, como forma de incentivar a mobilização da população no empenho
de defesa do seu meio ambiente. Articular convênios e cooperação com o
governo estadual para proceder ao contínuo e efetivo controle da qualidade
dos alimentos consumidos pela população, desde a sua produção até a sua
comercialização. Consultar permanentemente as associações de defesa do
consumidor e verificar imediatamente todas as denúncias feitas, tomando
publicamente as medidas pertinentes. Implementar campanhas de
educação por uma alimentação mais simples, barata e saudável, advertindo
contra os riscos de agrotóxicos e aditivos, como por exemplo os corantes e
acidulantes.
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9 – lixo urbano
Promover a coleta diária de lixo em todas as favelas a partir do 1º semestre
de 1986. Promover a localização mais adequada dos aterros de lixo urbano,
impedindo vazamento para a Baía de Guanabara, rios e lagoas. Incrementar
a reciclagem sistemática do lixo urbano. Incentivar as atividades de
papeleiros e garrafeiros com vistas à reciclagem. Incentivar também a
construção de biodigestores para o aproveitamento do gás metano. Utilizar
os recursos da Comlurb para o apoio permanente das obras e mutirões
comunitários.

10 – Educação ambiental
reformulação dos programas de ciências e de geografia para propiciar um
conhecimento mais profundo dos ecossistemas e da importância da
preservação ambiental. Abrir as escolas para a comunidade,
democratizando seu funcionamento e ampliando sua participação nos
problemas concretos do bairro e da cidade. Promover o estudo da história
dos bairros nas escolas. Projetar filmes e organizar debates sobre a ecologia
e as formas de proteger a vida e o meio ambiente, com participação de
entidades ecológicas. Desenvolver sistemáticas campanhas públicas através
dos veículos de comunicação social acerca das agressões verificadas contra
o meio ambiente e a população, como os desmatamentos, as queimadas, a
privatização de praias e a agressão à fauna e à saúde pública. Divulgar os
procedimentos que devem ser adotados para a defesa deste nosso tesouro
vivo que é a natureza. Realizar campanhas para comprometer clubes,
escolas, empresas e órgãos públicos com a preservação ambiental,
repartindo os custos da conservação de praças e jardins, parques e vias
públicas, em troca da permissão de colocação de discreta propaganda.
Começar as campanhas com o exemplo dos órgãos públicos, que hoje são
poluidores, corruptíveis, permitem construções ilegais em encostas,
concedem Alvarás a empresas sem análise da declaração de impactos
ambientais, em suma, são cúmplices da degradação do nosso espaço vital e
convivencial.
A leitura do Decálogo nos remete aos eixos cruzados da economia, da
tecnologia e da vida cotidiana que adotamos como quadro de referência.
Tomemos como exemplo o ponto 2, com as propostas para os transportes.
O tratamento dos transportes coletivos como um serviço público, fornecido
pelo estado, nos coloca no eixo XX´ com a orientação para a apropriação
social. As propostas de uso do microônibus, de ônibus com chassis
padronizados e de mudança do combustível do diesel para o gás natural,
80% menos poluente, nos colocam no eixo YY´ com a orientação para as
tecnologias mais compatíveis com o meio ambiente e com a saúde dos
cidadãos. As propostas de degraus mais baixos, roletas mais largas,
funcionamento à note, atendimento dos bairros populares situam-se no eixo
ZZ´ com a orientação da autonomia. Se um indivíduo mora em bairros onde
o ônibus não passe à noite, sua capacidade autônoma de deslocamento, de
participação em atividades políticas ou culturais noturnas fica totalmente
bloqueada. O mesmo vale para crianças, mulheres grávidas e deficientes,
para quem o desenho do ônibus inviabiliza ou torna extremamente penoso
o transporte.
Esta abordagem simultânea é um bom exemplo metodológico dos princípios
do ecodesenvolvimento. Este supõe para sua viabilização uma série de
condições culturais e políticas que se reúnem no bojo de lutas sociais, de
16

lutas pela reorientação da pesquisa tecnológica, de lutas cotidianas pelo


alargamento dos espaços autônomos dos cidadãos.
Este tratamento, ainda que sumário, permite uma releitura da secular
discussão entre a Privatização versus a Estatização das empresas, esta
tantas vezes reificada e identificada como propriedade dos cidadãos.
No caso do Rio, a encampação por parte do governo estadual de cerca de
20% da frota de transporte coletivos privados, que se seguiu às demandas
do Decálogo Ecológico, das lutas da Famerj e das associações de moradores
da Baixada, manteve inalteradas várias características do seu
funcionamento. Por exemplo, o turno único de motoristas, o mal
funcionamento à noite, a fumaça negra, regulável com simples ajustes de
motores, os ônibus sobre desconfortáveis chassis de caminhão. O enfoque
proposto de abordagem conjunta e simultânea dos eixos da apropriação
social, da tecnologia alternativa e da autonomia abre um viés que suplanta
a clássica paralisia do movimento social face às empresas públicas. Estas
são geralmente poupadas pela esquerda ortodoxa e economicista que tem
seu horizonte limitado à esfera da apropriação jurídica, que as empresas
públicas, em tese, garantem à população. A Assembléia Permanente de
Defesa do Meio Ambiente do Rio lançou o programa S.O.S. Baía de
Guanabara, depois de 5 meses de estudos aprofundados de todas as causas
da poluição e da destruição da baía. Chegamos à conclusão que os
principais responsáveis eram justamente os órgãos públicos, como o
Ministério do Interior, que realizava aterros ilegais, a Comlurb, que não
recolhia o lixo da Baixada, e que jogado nos rios chegava à baía, e a Cedae,
que lançava esgotos sem tratamento na baía. Entre as empresas poluidoras
a principal é justamente a Petrobrás, através das refinarias de Manguinhos
e de Duque de Caxias, embora ela gaste vultuosos recursos de publicidade
em defesa da ecologia do país, do verde e amarelo.
Estas questões todas colocam para a corrente ecopolítica uma preocupação
mais ampla com o desdobramento das lutas ecológicas, que se expressam
em algumas teses que serão defendidas na Assembléia Nacional
Constituinte. Vejamos a seguir algumas delas.

A Ecopolítica na Constituinte

A ecopolítica não se restringe à defesa da natureza. Uma sociedade


militarizada, racista e machista contraria todos os princípios da ecologia
política, e implica, inclusive, na relação predatória com o patrimônio
ambiental da população, base da sua qualidade de vida. O leque das
propostas ecopolíticas vai desde a democratização dos meios de
telecomunicação e a permissão de rádios livres, até o fim aos subsídios para
o complexo industrial militar. Muitas destas propostas implicam na
ampliação da cidadania, através da invenção de direitos, liberdade e da
autonomia. Enumeramos a seguir algumas das propostas mais diretamente
relacionadas com a luta ecológica:
1º - o desenvolvimento econômico deve atender à expectativa de justiça
social e de preservação do equilíbrio ecológico, ou seja, do
ecodesenvolvimento. Em nome do crescimento não se pode permitir que
vidas humanas sejam ceifadas ou mutiladas, e que ecossistemas sejam
irremediavelmente afetados.
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2º - a Constituição em matéria ambiental deve corresponder ao erguimento


de uma paliçada defensiva dos indivíduos e associações perante o poder
econômico e o poder do Estado.
3º - a Constituição deve explicitar:
a – o direito de todo cidadão a gozar de um ambiente sadio e equilibrado,
desfrutando de qualidade de vida, e ao cidadão deve ser assegurada a
tutela sobre o seu patrimônio ambiental;
b – a concessão de recursos, créditos e incentivos deve ser condicionada
aos estudos prévios dos impactos ambientais dos projetos e às atitudes dos
estabelecimentos em relação à defesa ambiental, levando-se em conta a
sua função social;
c – a preservação e manejo dos recursos naturais deve ser de utilidade
pública e de interesse social, contando para tal com a participação e o
controle da sociedade, e feito sem que seja lesado o interesse geral da
comunidade.
4º - as políticas nacionais de pesquisa científica e tecnológica devem estar
prioritariamente dirigidas à produção de tecnologias ecologicamente
seguras, à reciclagem, ao uso de fontes de energia não poluentes e ao
ecodesenvolvimento. As tecnologias passíveis de serem descentralizadas e
apropriadas pelas comunidades e cooperativas, á reconversão dos projetos
agressores à população e ao meio ambiente e à tecnologia da despoluição.
5º - descentralização do Controle e da Gestão do Meio Ambiente. A União
edita normas gerais de defesa ambiental e proteção à saúde pública, mas os
estados membros devem ter competência para adequar as normas
nacionais às necessidades e peculiaridades de cada região. Quanto ao
controle dos projetos com impacto nas águas, no solo e no ar, os municípios
devem Ter poder de prévia análise desses impactos, e de estabelecer
exigências defensivas para sua implantação.
6º - que seja prevista na Constituição a forma plebiscitária de consulta,
para os grandes projetos ou programas que atinjam significativamente a
qualidade de vida das populações regionais.
7º - que seja assegurada, às entidades de defesa do meio ambiente não-
governamentais, a paridade em todos os órgãos colegiados ambientais
oficiais, em relação aos representantes do Estado, ou seja, que a sociedade
civil tenha representação igual à do Estado nos órgãos deliberativos de
controle do meio ambiente.
8º - definição precisa para os delitos ecológicos. Reconhecimento do
ecocídio como crime, objeto inadiável de justiça penal universal.
Caracterização destes delitos como crimes de perigo concreto.
9º - obrigatoriedade de informação regular à população de todas as
repercussões ambientais, poluição, agressão, originadas por empresas
públicas e por empresas privadas. Divulgação pública das penalidades
impostas e dos prazos dados à implantação de sistemas de controle de
poluição e de reciclagem.
10º - estabelecimento de limites ao direito de propriedade, restringindo seu
uso às normas e condições estabelecidas para a garantia do patrimônio
ambiental da sociedade, da saúde pública e dos direitos ecológicos dos
cidadãos, enumerados acima.
11º - reorganização do sistema nacional de contabilidade, de forma a que
sejam computados os custos ambientais inerentes às grandes obras e
projetos. Ao lado dos valores de amortização ou depreciação dos prédios e
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equipamentos, a sociedade deve computar a depreciação ecológica inerente


às atividades econômicas.
12º - estabelecimento de taxas para o uso empresarial do meio ambiente,
destinadas ao Fundo de Depreciação Ecológica. Este será aplicado na
reconstituição das condições ambientais.
Estas teses estão sendo objeto de intensa discussão no movimento
ecológico e nos diversos segmentos organizados da sociedade. Elas
apontam no sentido da transparência de informações, na descentralização
do exercício da gestão pública e no aumento dos direitos de cidadania.
Nosso país só terá um desenvolvimento ecologicamente viável numa
sociedade profundamente democrática, onde a população tenha poder de
fato sobre a organização da economia e do uso do espaço; onde tenha o
poder de inventar novos direitos que ampliem seus espaços de autonomia e
da liberdade.