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melissa, a meretriz do mal

uma fantasia científica da “intempol”®

por

carlos orsi martinho


‘tis now the moment still and dread
when sorcerers use their baleful power;
when graves give up their buried dead
to profit by the sanctioned hour:
(mathew lewis, “the monk”)

***
como é possível que não reconheçamos a presença de algo
maior do que nós, movendo-se adiante dentro de nós e ao nosso redor?
(teilhard de chardin, “o fenômeno humano”)

***
“how c-could you?”
“it was easy”
(mickey spillane, “i, the jury”)
prólogo

a mesa do comissário pedroso é uma confusão de papéis. atual


responsável pelo departamento de ordem ideológica, ele se vê à beira de um
colapso, ou do desemprego – provavelmente, de ambos.
os informes são os mais disparatados: um pitecantropo que desenvolveu métodos
primitivos (porém engenhosos) para extrair nitratos do esterco, glicerina das plantas e em
seguida passou a, ao que tudo indica, tentar inventar a tnt; um camponês medieval que
discursa contra a exploração nas glebas e a mais-valia; nas ruas de são paulo do século
xxii, um pastor prega o mitraísmo. as idéias estão todas, todas fora do lugar.

***

o galeão oslo, suas velas impulsionadas pelos ventos do éter, o timoneiro


firme nas bombas de gás cavorítico, redistribuindo a massa gravitacional da nau,
alternando repulsão e atração de acordo com as necessidades de cada momento,
manobra com facilidade por entre os espaços ínfimos do aglomerado de
asteróides, numa parte especialmente densa do cinturão entre marte e júpiter.
a marinha etérea do império tem bases nas rochas maiores, ceres, vesta e
palas, mas essas fortificações são mais cabeças de ponte em território hostil do
que sinais de soberania. o cinturão é a província de piratas e renegados, onde as
naus a vela, que usam os balões antigravitacionais apenas como auxiliares de
manobra, funcionam muito melhor que os grandes dirigíveis encouraçados.
o galão chega o mais perto possível do núcleo do aglomerado, onde duas
rochas do tamanho de casas giram em torno uma da outra – e de si mesmas –
numa dança de possessos. os piratas chamam essas duas pedras de negros com
cimitarra, numa alusão ao combate cerimonial da capoeira das lâminas.
elas nunca se tocam. no centro exato do sistema há um volume de espaço,
pouco menos de nove metros cúbicos, de calmaria total.
vestindo a película atmostérmica contra os rigores do éter, tarik, capitão do
oslo, caminha pelo convés superior. para um observador desinformado, a imagem
seria a de um homem se expondo, com nada mais do que calças de seda, botas de
couro e uma camisa de mangas curtas, de algodão cru, ao vácuo do espaço. a
película ao redor do corpo de tarik, um tênue campo de força quer mantém o ar
respirável, a temperatura, amena e a radiação, afastada, é invisível.
geradores cavoríticos construídos por dentro do lenho especialmente
tratado do casco mantêm a gravidade do convés em confortáveis oitenta e nove
centésimos do “g” terrestre. o capitão tarik gribaldsson, filho de pai sueco e mãe
zulu, pesa, ali, pouco menos que seus cento e vinte quilos de direito. menos de
quinze por cento desse peso é devido à gordura: gribaldsson é uma montanha de
osso, tendão e músculo.
ao lado do capitão está seu imediato, rydl yachmi, um dos poucos
lagartomens de vênus a conseguir escapar do planeta com vida e numa condição
outra, que não a de escravo.
tanto tarik quanto rydl pertencem a povos oprimidos há séculos pelo reino
unido de brasil e algarve – ao “império”, como a monarquia prefere ser chamada.
a despeito disso, eles nunca se viram, realmente, como “combatentes pela
liberdade”. se a mídia clandestina gosta de apresentá-los dessa forma, se a
bandeira dos cutelos cruzados sob a roda de espinhos virou uma espécie de
símbolo romântico, um ícone político, eles não têm nada a ver com isso. É bom
para conseguir novos recrutas, principalmente gente estúpida e disposta a morrer,
bucha de canhão e nada mais.
ao menos, eles pensavam assim, ou pensavam que pensavam assim, até a
oportunidade surgir: uma mensagem breve, passada por um contato na resistência.
reuniões secretas. testes. demonstrações.
e agora eles aguardam, tensos, olhos e instrumentos fixos no pequeno
volume de calmaria ao redor do qual os negros com cimitarra realizam sua
evolução permanente.
a transição é simples, e nem por isso menos chocante: num segundo o
espaço vazio está vazio e no seguinte, não está mais. uma forma prateada,
humanóide, brilha ali, refletindo a luz dos poderosos holofotes do oslo.
conforme o recém-chegado se aproxima, usando jatos de gás sob pressão
para se mover pelos interstícios do grande labirinto móvel dos negros, rydl cospe
no chão do convés, em desgosto. a saliva passa a través da película atmostérmica
e é atraída pela gravidade artificial do galeão, mas ferve e desaparece no vácuo
antes de tocar a madeira.
a reação é compreensível: a figura prateada que se aproxima é um
andróide, idêntico, exceto pela ausência da epiderme rosada, aos navegadores
artificiais usados pela marinha etérea do império. o lagartomem já esfolou muitos
desses bonecos pomposos, e sabe exatamente como eles são por debaixo da pele.
o andróide, que traz um saco de pano amarrado às costas, flutua por alguns
instantes acima do convés e, finalmente, deixa-se capturar pela força dos
geradores cavoríticos, tocando o piso com um impacto mínimo.
a troca de gestos pré-combinados que funcionam como um sistema de
senhas e contra-senhas dura poucos instantes, e os três logo se dirigem à cabine
do capitão.
essa cabine tem atmosfera própria, e lá capitão, imediato e convidado
conseguem conversar.
o andróide desamarra a sacola das costas e expõe seu conteúdo sobre a
escrivaninha de tarik: granadas, muitas granadas, e peças para bombas maiores.
tudo elaborado com uma tecnologia que, segundo o visitante, elimina a vida
humana, mas deixa os prédios, a vegetação, os animais – e os homens-fera,
sublinha o visitante, olhando o imediato nos olhos –, intocados.
uma única granada, ele diz, é capaz de desinfetar (esta é a palavra usada)
um prédio inteiro. a bomba maior (do tamanho de um livro grosso) pode ter o
mesmo efeito numa cidade de porte médio.
o visitante não cobra nada pela tecnologia. ele também tem contas a
acertar com o império, diz.
três horas mais tarde, enquanto se prepara para voltar ao universo de onde
veio, o andróide que um dia foi faraó ri consigo mesmo, pensando em como é
fácil, em como é doce e belo convencer uma criança de que é perfeitamente
seguro pôr a mão no fogo.
***

a secretária logo percebe que o comissário mycroft não está exatamente de


bom-humor. o terno preto listrado, as suíças brancas e meio amareladas; o
colarinho alto da camisa, duro de goma, o laço de veludo no lugar da gravata; os
dedos de unhas quebradas, manchados de tabaco. se ele estivesse em pé e não
sentado atrás da escrivaninha, daria para ver a corrente de platina do relógio de
bolso passando de um lado a outro do colete, a secretária pensa.
quando está de bom-humor, o comissário m deixa toda a parafernália
vitoriana de lado e se parece mais com um bruxo bonzinho de conto de fadas do
que com o irmão sinistro de sherlock holmes. ele está debruçado sobre o que,
neste contexto, parece ser um globo terrestre esculpido em mármore e montado
num pedestal e esfera armilar de bronze, uma peça maciça de um metro e dez de
altura, colocada imediatamente à esquerda da escrivaninha. nada disso engana a
secretária: ela sabe que se trata do cronoscópio, visualizador místico de histórias
alternativas, mundos paralelos, pontos de divergência e futuros prováveis.
mas o cronoscópio não é um olho onisciente: na verdade, ele depende do
conteúdo da mente do usuário para fazer suas leituras. se quem o consulta já sabe
quase que exatamente qual a situação, o aparelho pode preencher algumas lacunas
importantes. mas, se o consulente só traz dúvidas, a imagem do cronoscópio será
incerta e nublada.
pela expressão do comissário, a secretária imagina que a situação deve
estar tendendo mais para a segunda alternativa.
– pois não, dona rosa? – diz mycroft, endireitando-se na cadeira e
sorvendo uma golfada generosa de rapé, retirada de uma caixinha de electrum
cravejada de esmeraldas.
dona rosa fica um instante em silêncio, esperando pelo espirro que não
vem desta vez. como, aliás, nunca vem. ela é que ainda não se acostumou com o
fato.
– cabograma transdimensional, senhor. um alerta automático. enviado pelo
anel transmissor que, ao que tudo indica, o senhor deudará para por aquele futuro
recruta... corvo.
– ah! e o que diz o cabograma?
– É uma seqüência meio longa de números...
– posso vê-lo por um instante, dona rosa? obrigado.
um papel pequeno, retangular, marrom e marcado por um vinco forte na
horizontal e três, menos evidentes, na vertical, troca de mãos. mycroft olha para a
mensagem, feita de algarismos recortados, um a um, da tira branca do telex e
colados no bilhete pardo.
trata-se, realmente, de uma seqüência de números ou, como mycroft
suspeita, de um único número – da ordem dos bilhões. pouco menos de três
bilhões, na verdade.
a seqüência precisa é:
2.902.376.448
a secretária se prepara para deixar o escritório, mas o comissário a detém
com um gesto. sem levantar os olhos do papel, ele diz:
– espere um momento, dona rosa. assim que eu terminar de fatorar isso, é
provável que... – a voz desaparece num murmúrio ininteligível, que se estende por
exatos vinte e oito segundos. então, lentamente, mycroft se volta, contempla o
cronoscópio, arqueia as sobrancelhas, vira o bilhete pardo e, com um toco de
lápis, rabisca alguma coisa no verso.
com um suspiro, o comissário ergue os olhos e encara dona rosa,
estendendo-lhe o papel.
– por favor, transmita esta mensagem aos agentes x ... as letras, sim, não os
números... e peça a eles que venham para cá o quanto antes.
– ambos?

– ambos.

– juntos?

– a situação o requer.
dona rosa olha para o verso do bilhete. ali, a lápis, estão desenhadas duas
letras maiúsculas:
“nk”
– e se eles quiserem saber o que isto significa, senhor? – dona rosa não tem
medo de fazer perguntas impertinentes. ela sabe que o pior que pode acontecer é o
comissário mycroft ignorá-las, fingindo não ter ouvido a questão. o cérebro deste
homem é como um cofre hermético; nunca deixa vazar nada que não deva estar
do lado de fora, e se mantém totalmente indiferente à possível (e provável)
existência de arrombadores à solta.
– isto significa, dona rosa – diz mycroft, preparando outra porção generosa
de rapé – que, pura e simplesmente, a caçada começou.

***

chove torrencialmente no hemisfério iluminado do planeta vênus – sempre


chove em vênus quando é dia, e o dia, aqui, dura vários meses. mas, mesmo com
o som da tempestade vindo de todos os lados, a despeito dos trovões e raios,
cesário corvo ouve o estalar do chicote.
corvo está oculto, com o corpo quase que totalmente imerso nas águas do
pântano; o traje stealth que seu novo empregador lhe deu vem mantendo as
sanguessugas à distância.
outra vez, soa o chicote. o som parece mais alto. ou é a chuva que está
diminuindo?
não importa, corvo decide. só o que importa é a cena diante de seus olhos
– os homens, nus, com grilhões nos punhos e pescoço, sendo mantidos em fila e
arrastados por uma guarda de pesadelo, por lagartomens, os homens-lagarto, a
espécie indígena do planeta vênus, e também por homens-babuíno e homens-cão,
duas espécies que corvo só havia encontrado uma vez antes, na terra; e não na sua
terra, mas numa terra de um outro universo.
as feras gritam, entre iradas e exultantes, forçando o passo dos
prisioneiros. todos caminham por uma estreita faixa de solo – rocha coberta de
lama – que cruza os pântanos de nova calicute. dois dos homens-babuíno estão a
cavalo, e um terceiro carrega algo que se parece com um mosquete dinamógeno
modificado. os outros homens-fera – seriam uma dúzia, no total – seguem a pé,
armados com chicotes e facões.
cesário corvo não conhece nenhum dos mais de vinte homens que vão, aos
tropeções, avançando sob a violência das feras. muitos, no entanto, parecem-lhe
familiares. uma postura, um traço de fisionomia. filhos e netos de antigos
companheiros, talvez? afinal, quanto tempo teria se passado? décadas?
a despeito de sua dificuldade em reconhecê-los, corvo não tem a menor
dúvida de que são todos soldados e oficiais da marinha etérea imperial; membros
da orgulhosa força militar que subjugou o sistema solar e deixou cabeças-de-ponte
em dezenas de realidades adjacentes. os ases do éter luminífero, terror dos
lagartomens de vênus, destruição dos moags marcianos, caçadores indômitos do
empíreo jupteriano.
isso, até a chegada da mulher. ela, que havia vindo de um outro mundo,
trazendo sua coorte exótica de homens-fera; ela, que induzira os robôs de vênus à
rebelião; que unira as tribos dos lagartos, construíra um exército, destruíra a
orgulhosa torre de torma e escravizara toda a humanidade nesta biosfera.
ao menos, aqui, a morte e a destruição são palpáveis. corvo tem um
calafrio ao se lembrar do que viu na terra e nos hábitats de mercúrio: estruturas e
edifícios intactos, corpos humanos sem nenhum ferimento – e, para todos os
efeitos, sem vida. e em marte, os moags, as feras dadas como extintas, correndo
livremente pelos campos, nas cidades, nos canais.
o silêncio das guarnições imperiais nos dois mundos que visitara antes
deste, graças à estranha tecnologia de seu novo empregador, era assombroso.
a lembrança da visão de dezenas de soldados, ainda em seus postos, mas
imersos num coma profundo – e a simples idéia de bilhões de seres humanos na
mesma situação – faz corvo tremer.
se a organização que o aprisionou e, depois, contratou, queria mais
informações sobre as atividades da mulher responsável por tudo isso, cesário
corvo teria muito prazer em ajudar; ainda mais, já que a organização parecia
disposta a lhe fornecer equipamento e informação capazes de reverter o atual
estado de coisas.
de repente, a chuva pára.
por um instante que lhe parece mais como uma hora, cesário mantém-se
paralisado, imóvel, observando o manto de nuvens que cobre o céu. mais adiante,
a fila de prisioneiros também pára; os homens-lagarto olham para cima, tensos,
mandíbulas abertas e as pupilas dilatadas pelo medo, enquanto os homens-cão e
os homens-macaco grunhem sem entender nada e descarregam a frustração sobre
os prisioneiros, redobrando o ritmo das chibatadas.
cesário sente uma brisa suave. se a chuva não recomeçar logo...
uma brecha aparece entre as nuvens.
– merda! – diz cesário, soltando o ar entre os dentes, e mergulha nas águas
fétidas do pântano, nadando desesperadamente em direção ao lodo gelatinoso
depositado no fundo e, depois de atingi-lo, através dele.
o traje stealth possui um suprimento limitado de ar; o visor da máscara se
esforça para compensar a mudança súbita de cor, luminosidade e densidade do
meio, a princípio sem muito sucesso.
lá fora, por sobre a faixa de lama e através da vegetação ao redor, passa a
lâmina incandescente de uma das espadas de dâmocles – que é como os
colonizadores de vênus apelidaram, poeticamente, os raios do sol. neste planeta,
cada coluna de luz que passa intocada pelas nuvens chega à superfície com
energia suficiente para reduzir a vegetação a cinzas, fundir os silicatos do solo,
evaporar a água, reduzir homens e animais a poças de gordura fervente e osso
calcinado. a cobertura de nuvens e a chuva constante são as únicas proteções de
quem vive no hemisfério iluminado, refletindo o calor de volta ao espaço e
fazendo a difusão da luz. sem elas...
cesário já assistiu a filmes com imagens de um raio de sol solitário
passando por entre as nuvens e percorrendo a superfície. o fenômeno
normalmente ocorre sobre os oceanos, onde passa quase despercebido – e é lindo:
uma coluna dourada descendo do dossel cinzento dos céus, brincando sobre a
água cristalina, produzindo uma névoa branca, límpida, e bolhas do tamanho de
rochedos, de casas, de leviatãs.
a aparente calma da superfície do pântano é quebrada pelo impacto de dois
corpos que imergem em meio a um enxame de espuma e, em seguida, nadam
rapidamente rumo à camada de lodo gelatinoso ao fundo. isso tudo acontece a
pelo menos dois metros do ponto onde cesário corvo está; o traje e o barro em
suspensão na água tornam-no quase invisível.
são dois homens-lagarto, cesário deduz, interpretando os contornos vagos
sugeridos pelo visor. possivelmente, os únicos que conseguiram chegar até a água.
será que os outros foram abatidos pela espada?, cesário se pergunta, numa
ansiedade quase febril. ou correram em direção à mata, os idiotas?
os humanos certamente foram deixados à própria sorte.
um pouco de luz amarela se difunde pela água. a espada de luz está perto.
cesário foi enviado a vênus por seu novo empregador para espreitar os
homens-fera e descobrir a localização do templo da mulher que comanda as
criaturas – “mulher” é só como a chamam. a localização e a identidade, embora,
quanto a este último ponto, cesário tenha já suas suspeitas: tempos atrás, num
outro mundo, ele conheceu uma jovem princesa das feras, filha de um rei louco.
o fato é, vingança não está entre as diretrizes.
antes de sua prisão, cesário teria levado os parâmetros do serviço em
consideração; sua formação militar o induziria a isso. agora, ele saca a terminator
automática do coldre sob a axila esquerda e aponta na direção de um dos vultos
que se debate em meio ao lodo gelatinoso. o visor de alta definição da máscara
orienta os microcircuitos da manga do traje stealth, ajudando na mira.
um segundo antes de puxar o gatilho, cesário corvo é detido por uma dor
cruciante, como uma tenaz de ferro em brasa, que lhe atravessa o tornozelo
esquerdo e o faz gritar.

***

os agentes x-8 e x-10 da empresa são, sob diversos aspectos, bem


parecidos entre si. ambos têm mais de um metro e oitenta, embora x-10 pareça
mais alto. ambos estão em soberba forma física: se lhes fosse permitido disputar
uma olimpíada – qualquer uma – provavelmente dividiriam dois terços das
medalhas (ou dos louros) entre si.
mas x-8 parece mais forte. seus corpos foram construídos com base em
moldes diferentes: x-10 é delgado, de músculos alongados, feições aquilinas,
nariz comprido, queixo pontiagudo, pernas longas. x-8 tem uma aparência maciça,
músculos compactos, nariz pequeno e largo, queixo quadrado, braços longos. e
foram criados por métodos diferentes, também: x-8 é fruto de manipulação
genética; x-10, além disso, também é um ciborgue.
há outras diferenças físicas aparentes: x-10 é pálido, de cabelos negros e
sobrancelhas espessas; quando sorri, raramente mostra os dentes. x-8 é loiro,
bronzeado – alguém já disse que ele parece feito de bronze fundido –, e seu
sorriso é sempre branco como o peito de um pingüim.
mas a principal diferença está nos olhos: os de x-10 são negros e
profundos, do tipo que se costuma chamar de “hipnóticos” (e, neste caso, não sem
razão). os de x-8 são castanhos, às vezes parecem um pouco esverdeados, e o que
há de “hipnótico” neles é apenas uma mistura de determinação e autoridade, nada
mais.
ambos têm lembranças de infâncias felizes, de terem ficado órfãos por
culpa de criminosos temporais, de terem jurado vingança e passado anos vivendo
no tibet, estudando artes marciais e a disciplina da mente. ambos sabem que essas
memórias são falsas: que foram concebidos e criados em laboratório pela seção x
da empresa, responsável pelas operações de manipulação genética e amplificação
somática, e que na primeira vez em que saíram dos tanques de amadurecimento,
abriram os olhos e provaram o mundo com seus próprios sentidos, já tinham idade
cronológica de 19 anos.
mas não importa: a infância feliz e a adolescência no mosteiro tibetano,
falsas como são, servem como mitos fundadores de suas vidas. a base
inconsciente de seus sistemas de valor. sistemas em que a obediência ao
comissário m ocupa um lugar importante.
– o homem está hoje uma arara – diz rosa, a secretária, assim que os dois
agentes x chegam à ante-sala. – parece que alguma coisa deu muito, muito errado.
x-8 responde com um sorriso cativante; x-10 apenas meneia a cabeça. sem
mais delongas, ambos entram no gabinete.
a área interna, incluindo a forma física do comissário m, já passou por
mais uma mutação psicossomática desde que dona rosa recebeu a ordem para
convocar os dois agentes, quinze minutos atrás. o escritório vitoriano se foi: x-8 e
x-10 se deparam com as ogivas de uma catedral gótica. seus passos ecoam ao
longe. o piso, os arcos, entalhes e cornijas são de rocha negra, polida como
espelho.
– catedrais de verdade tinham gárgulas até por dentro? – pergunta x-8,
encarando, incrédulo, uma estátua com corpo de chimpanzé e cabeça de tucano e
olhos de rubi que aparece agachada sobre a escultura de um cacho de bananas
que, por sua vez, serve como dossel para um prato raso, cheio do que deve ser
água benta.
mesmo sussurrada, a pergunta ricocheteia nas paredes maciças e através do
espaço sombrio ao redor.
x-10 responde levando o indicador aos lábios, como quem pede silêncio.
ao mesmo tempo, a figura de um homem – alto, magro, completamente
calvo, de orelhas sutilmente afiladas da extremidade superior – surge, caminhando
(ou melhor, flutuando), do que parece ser o fim do corredor, ou a parte mais
profunda do edifício. as sombras se dobram e giram ao redor dele como fumaça;
sua cabeça brilhante parece ser a principal fonte de luz do lugar.
ele veste uma batina preta tradicional, mas sem o colar eclesiástico.
pronto, pensa x-8, que nome ele estará usando agora? montespan?
mellmoth? existe algum grande inquisidor que tivesse um nome começado com
“m”?
– monsenhor comissário marin mersenne, a sua bênção – diz x-10, fazendo
a genuflexão.
como esse bosta sempre sabe qual a persona certa? deve ter carregado a
porra do volume “m” da enciclopédia britânica no implante, o viado, pensa x-8,
ao mesmo tempo em que repete o gesto do colega.
– em pé, meus filhos – diz o monsenhor, depois de pousar a mão direita
sobre a cabeça de cada um. – o momento que temíamos chegou: os mortos se
levantam contra nós.

***

lutando para manter o máximo de ar possível dentro do peito (a reserva do


traje está perigosamente próxima do esgotamento), lutando para ignorar a dor,
cesário corvo se volta e, graças aos sensores especiais da máscara, que lhe
permitem distinguir os contornos do monstro em meio ao lodo, vê a criatura que o
capturou, gira o braço, aponta a terminator, atira.
a arma funciona bem debaixo d’água, e cesário esvazia o pente com uma
contração única do indicador. mas o líquido reduz a velocidade dos projéteis,
diminuindo drasticamente a eficiência de cada tiro.
as primeiras cinco ou seis balas não fazem nada além de acariciar a
carapaça do monstro, um caranguejo gigante, que continua a arrastar cesário
corvo em direção ao fundo. esses disparos iniciais ricocheteiam, deixando um
rastro tênue de bolhas atrás de si.
mas os tiros seguintes finalmente rompem o escudo, e os últimos
mergulham fundo na carne macia da criatura, que relaxa a pressão na enorme
pinça que mantinha cesário prisioneiro.
o tornozelo lateja, e cesário percebe anéis de energia, azuis e verdes,
percorrendo a extensão do traje; os circuitos de stealth estão entrando em pane.
ignorando as fisgadas de dor provocadas pelo contato da água gelada e do lodo
com o tornozelo ferido – o traje deve ter se rasgado, pensa – cesário corvo olha ao
redor e vê os dois homens-lagarto que haviam mergulhado no lago pouco antes
nadando em sua direção. eles teriam sido atraídos pelos tiros, pela movimentação
do caranguejo, pelo colapso do campo stealth?
não importa. o suprimento de ar está no fim, a terminator está
descarregada e os homens-lagarto de vênus são caçadores anfíbios, ainda mais
letais na água que em terra firme. se tentar nadar até a superfície, cesário sabe, os
lagartos irão cravar as garras em suas pernas e arrastá-lo para baixo. a única
chance é lutar.
ele retira a faca de combate oculta no coldre sobre a coxa direita e,
sorvendo a última golfada de ar que o traje poderá lhe proporcionar, arremessa-se
na direção do inimigo.

***

– cada lt afortunada o suficiente para chegar inteira ao final do século xx


comporta, em média, cinco bilhões de seres humanos vivos – explica o
monsenhor aos dois agentes. – também em média, para cada ser humano vivo
nessa época, existem três outros mortos. isso dá um total de 20 bilhões de almas
humanas em existência; sem contar os neandertais e outros hominídeos
primitivos, também conectados à noosfera...
– noosfera?
– de nous, grego para “pensamento”. a camada de mentes, almas e idéias
que é gerada pela, e recobre a, biosfera terrestre. definição do prisioneiro da cela
omega. bom... como a taxa de natalidade também começa a cair mais ou menos
nessa época, a fila da reencarnação cresce... isso sem falar que a noogênese é
contínua: assim que a matéria subatômica atinge um certo grau-limite de
complexidade e estabilidade, os espíritos simplesmente começam a brotar. É
incontrolável. e agora... vocês receberam a mensagem decifrada. que tal?
– o “nk”? – pergunta o agente x-10. – É de “nephren-ka”?
o monsenhor faz que sim com a cabeça.
– ei, espere aí – diz o x-8. – o cara virou pó. eu vi. eu estava lá. se houver
algum yithiano renegado por trás dessa treta...
– yithiano nenhum, x-8 – interrompe o monsenhor. – desde que usamos o
necronomicon, a última crise da ampulheta, eles ficaram calmos. mas você nunca
parou para pensar no que poderia ter acontecido com a mente do faraó anendjib ii,
o nephren-ka humano, o original? os membros da raça de yith, lembre-se, trocam
de mente com seres humanos. os yithianos estavam mantendo o espírito de
anendjib prisioneiro há milênios enquanto o yithiano louco usava o corpo dele,
sob a identidade de nephren-ka. e, depois da morte do alienígena renegado, o que
você acha que pode ter acontecido com o humano?
– ele... bem... foi solto? de volta à noosfera?
– isso. cheio de coisas que não gostaríamos que a humanidade viesse a
conhecer, como a viagem no tempo via auto-sugestão e força de vontade.
parecido com a técnica matheson, desenvolvida pelo cara da cela lgd.
normalmente é bem difícil de aprender e mais ainda de executar, mas sem ter de
deslocar matéria é só uma questão de disciplina. depois de receber essa mensagem
nk, fui ao cronoscópio e repassei as principais linhas de probabilidade que se
ramificam a partir daquele momento. fazendo isso, consegui achar o ponto de
divergência exato da origem da revolta dos sem-corpo, que se espalhará
rapidamente por toda a história a partir daquele ponto focal, o instante da
destruição da múmia mortífera.
– ei, peraí – diz o agente x-8 –, se de repente toda a noosfera se tornasse
cronoativa naquele instante, eu teria percebido. eu estava no epicentro...
– eu li seu relatório – diz x-10, lançando na direção de x-8 um sorriso de
gelar o sangue – e percebi uma discrepância: no início você diz que se feriu no
pulso. mais adiante, afirma ter feito uma sutura no ombro. imagino o que possa
significar.
– significa – responde o monsenhor – que durante os estágios finais da
missão, nosso amigo x-8 esteve num universo compacto, isolado do restante da lt
e, portanto, incapaz de detectar sinais externos de cronoatividade. a migração da
ferida foi um dos sinais da transição. houve outros, sem dúvida.
– pode ir parando – agora, x-8 está definitivamente na defensiva –, se esse
negócio rolou mesmo, como o yithiano que estava comigo não percebeu?
– e como você sabe que ele não percebeu? você perguntou?
– ora, eu...
– pare com isso. o fato é que, quando percebemos o que tinha acontecido,
enviamos x-10 para evitar que o corpo da próxima encarnação de anendjib ii, ou
“nephren-ka”, já que ele, ao que tudo indica, adotou o nome e a reputação do
algoz morto, fosse concebido. isso mantém o faraó, por enquanto ao menos,
limitado a possessões temporárias e explosões poltergeist para agir no plano
físico. porque, embora a rebelião esteja correndo na noosfera, eles vão precisar de
interface física: um portal. bombas. máquinas. o nosso amigo ciborgue cumpriu a
missão, sim, mas deixou um supercomputador extra-lt abandonado no local, e
agora a situação está ficando crítica de novo.
x-10 protesta:
– supercomputador? mas eu não sabia de nenhum superc...!
– enterrado na praia, idiota. uma cabeça de andróide. você nem leu a
autobiografia do prisioneiro, não é?
– mas... mas...
por mais que x-8 adorasse ver x-10 fazendo papel de palhaço, ele sabe que
há um certo profissionalismo a ser mantido. por isso, pergunta:
– e o que os sem-corpo pretendem? mesmo que eles consigam meios de
possuir toda a humanidade de uma das terras-padrão em, digamos, 2002, haverá
no máximo sete bilhões de corpos. para atender a todos, eles precisariam de mais
de vinte!
– É por isso que eles pretendem começar por uma das terras exóticas, onde
anticoncepcionais são ilegais e há colônias espalhadas por todo o sistema solar.
– a noosfera nativa não vai gostar nada disso, suponho.
– pelo que o cronoscópio revela, eles criaram uma máquina vai forçar a
noosfera nativa para fora de sua lt... ela vai ser obrigada a invadir o universo
adjacente, e assim por diante: uma cadeia de invasões e migrações em massa. o
deslocamento final das almas de todas as terras.

***

quando vê a luz dourada intensificar-se por sobre a superfície da água,


cesário mal tem tempo de dobrar o corpo, mudar o curso e mergulhar ainda mais
fundo. se o raio de sol simplesmente passar pelas proximidades, não haverá
problema. mas, se a espada se detiver...
no instante seguinte, bolhas e vapor eclodem ao redor.
lutando contra os próprios instintos, contra o peito que quer explodir,
contra os pulmões que querem flutuar a qualquer custo, contra a coluna e as
costelas que parecem a ponto de rebentar, cesário corvo nada para baixo. mais
uma vez, escava o fundo gelatinoso de lodo, uma voz difusa em sua mente
alertando-o para o risco de o leito acabar solidificado pelo calor.
cozido ou afogado ou enterrado vivo. que diferença faz?
mesmo debaixo d´água, mesmo com os tímpanos ardendo, cesário ouve o
grito dos homens-lagarto quando o trecho do pântano onde estão entra em
ebulição e se transforma numa das caldeiras do inferno.
de repente, cesário sente o toque do líquido escaldante, apesar do traje
isolado, e grita; então algo se forma abaixo de seu corpo, uma onda, uma corcova,
uma bolha de gás que até então estivera aprisionada entre as raízes da flora
subaquática e agora, excitada pelo calor, ascende, cresce, expande-se.
explode!

***

vinte minutos depois de completar o “briefing” conjunto, a subseqüente


instrução individual – secreta – de cada um dos dois agentes x e, por fim,
despachá-los para suas respectivas missões contra o avanço dos sem-corpo – ou,
em outra escala, cerca de cinqüenta horas antes de receber o cabograma
transdimensional que o fez decidir pela atual linha de ação – o comissário m
dirige-se à cela onde a empresa (chamada, por alguns, de “intempol”) mantém o
brigadeiro-general cesário corvo como prisioneiro.
foi muito esperto da parte de nephren-ka e dos outros sem-corpo decidir
começar a conquista pela lt da marinha etérea, pensa o comissário. muito esperto:
trata-se de uma realidade clássico-newtoniana, com éter luminífero e tudo. uma
física fechada e determinista. impermeável a viagens no tempo e, portanto, aos
métodos usuais da empresa.
e, tendo vindo de lá, este cesário corvo é um caso atípico, m pensa, mesmo
num lugar como a prisão dos homens (ou pessoas, como quer o novo comitê
intertemporal de igualdade entre os sexos) que nunca existiram, por definição
cheio de personagens atípicas.
em tempo subjetivo, ele está preso há quase uma década. já se acostumou
a alguns detalhes tecnológicos inexistentes em sua lt de origem, como a caneta
esferográfica. também já aprendeu a usar o gerúndio e a falar palavrões sem
reverter para o francês.
não deixa de ser algum progresso.
– tenho uma oferta que você não pode recusar – diz o comissário assim
que abre a porta da cela. agora sua aparência é a de um homem obeso, calvo, de
bigode fino e com bolsas profundas por baixo dos olhos. o terno lembra o da
persona mycroft, mas a cor é um pouco mais alegre. a barriga é maior e a gravata,
um pouco espalhafatosa.
– ah, sim? – diz corvo, interrompendo a série de flexões que fazia, apoiado
sobre os polegares, e voltando-se. – e o que seria?
– liberdade. – diz m, enquanto corvo enxuga o suor da face. – e uma
chance de salvar seu universo da extinção.

***
e assim, vinte e nove horas depois – ou antes – de aceitar a proposta de m,
cesário corvo geme, recuperando a consciência sobre a faixa de lama e rocha onde
a explosão de gás no pântano o projetou.
a chuva voltou a cair.
o traje stealth está em frangalhos, aberto no peito (o velcro estourou), uma
das mangas faltando e a outra reduzida a uma tira flácida de pano, unindo o
colarinho ao punho. as luvas simplesmente desapareceram, desintegradas,
deixando um formigamento desagradável nas mãos. por sorte, protegeram o anel.
calças e botas estão razoavelmente intactas – com exceção do ponto onde a
pinça do caranguejo atacou, claro. ali há um rasgo feio, as fibras misturadas ao
sangue coagulado.
tanto a faca quanto a terminator se perderam no fundo do lago.
o corpo? o corpo dói. as costas, principalmente. se o traje não fosse
acolchoado, cesário imagina que teria quebrado a coluna em pelo menos dois
lugares. dois? não, três. ou quatro? no mínimo.
o visor da máscara só transmite estática, e ele a arranca de vez. ombro e
cotovelo reclamam do movimento brusco.
girando a cabeça devagar, para não ofender as sete vértebras cervicais,
cesário corvo olha ao redor. ossos calcinados; placas de gordura branca,
solidificada, boiando na superfície de poças d’água; cinzas humanas diluídas na
chuva, escurecendo o riacho improvisado que corre dali para o pântano; lá e cá,
pedaços de vidro rústico, obsidianas sujas criadas pela força do sol.
um crânio queimado de cachorro, outro de lagarto, rolando na lama.
um mosquete dinamógeno, aparentemente intacto.
mosquete dinamógeno!
ignorando a dor, ignorando o risco de fratura, ignorando todo o resto,
cesário põe-se em pé e corre, tropeça, cambaleia e manca a direção da arma. são
poucos segundos, mas que lhe parecem horas. no intervalo, ele se lembra do
equipamento que o lançou da prisão rumo a esta realidade: o cinto, sua máquina
do tempo, e o anel de dados e comunicação.
se recorda de como o cinto, funcionando da única maneira que uma
“máquina do tempo” poderia sob as leis físicas deste universo, deslocando-se
poucos segundos ou minutos rumo ao futuro (e apenas ao futuro) e milhares ou
milhões de quilômetros pelo espaço, o levara, primeiro, à terra – às duas sedes-
irmãs do reino unido de brasil e algarve e capitais do império, faro e rio de
janeiro.
lembra-se dos corpos ainda vivos, mas inconscientes, protegidos da morte
e da putrefação por uma aura que o anel, seu instrumento de análise e
comunicação, definiu como “campo isoentrópico”. “campo isoentrópico negado
por bolha de distorção”, informou o computador do cinto, quando cesário
perguntou por que não havia sido afetado pela estranha energia.
a mesma força que envolvia, de maneira mais discreta, máquinas e
edifícios. num cosmo onde viajar no tempo é impensável, o inimigo havia
adaptado seus meios – assim como a intempol, ao criar o cinto de teletransporte –
, e congelado a tudo e a todos num único instante: um instante mais de trinta anos
depois da última viagem de cesário corvo para fora do universo.
cesário lembra-se das visitas que fez depois, de volta à terra, à África e a
calicute. em toda parte, o mesmo – máquinas travadas. vidas contidas. aves
paralisadas em pleno vôo. ondas congeladas um segundo antes de quebrar na
praia. pingos de chuva e flocos de neve flutuando no ar. relógios parados.
a despeito disso, o planeta ainda girava; o sol ainda nascia e se punha. e na
atmosfera, a partir de uma certa altitude, os fenômenos meteorológicos
prosseguiam naturalmente.
era como se uma mortalha de tempo suspenso tivesse sido usada para
embrulhar o planeta, até alguns quilômetros acima da superfície, e outros tantos
abaixo.
há quanto tempo? não havia, ainda, como responder a essa pergunta.
nenhum relógio que lhe dissesse quanto tempo havia se passado, no império,
desde sua captura pela intempol.
mas na parada seguinte, marte, principal base da marinha etérea, ele havia
encontrado prédios povoados apenas por esqueletos, armas, robôs e computadores
inoperantes; isso, por dentro.
lá fora, vagavam hordas livres de moags caçadores, alcatéias de lobos do
deserto, bandos de vampienas voando em círculos ao redor de carcaças putrefatas,
campos de fungisporos por onde corriam manadas do búfalo tricorne e rolavam os
ouriços gigantes, revoadas de metacondores circulando os picos mais altos... toda
a ecologia violenta e selvagem que fizera de marte o mundo mais perigoso do
sistema solar, e que havia sido sistematicamente suprimida por séculos de
colonização, ressurgida das cinzas.
quanto tempo teria levado para a vida nativa retomar esse nível de ímpeto
e opulência?
cesário se recorda de como o salto seguinte o pusera numa das estações
orbitais de mercúrio, onde viviam os caçadores dos grandes polvos do mar de
chumbo. lembra-se das máquinas intactas, dos corpos vivos, inertes, trancados
cada um em seu próprio halo de estase, a mesma força que, de forma mais
discreta, preservava máquinas e edifícios; a mesma força que agia na terra, mas
que estava ausente de marte.
lembra-se de sua chegada ao planeta vênus, do impacto que sentiu ao
contemplar os escombros da torre de torma. ainda mais chocante por ser o
primeiro sinal de destruição física, feia, brutal, súbita e violenta – causada não
pelo tempo ou pela natureza –a surgir diante de seus olhos, depois de tantas
imagens neutras ou assépticas.
a torre de torma: a capital deste mundo, duzentos andares acima do solo,
cinqüenta subterrâneos, os painéis refletores e coletores de energia que brilhavam
mesmo sob o céu permanentemente nublado, prontos para enfrentar os próprios
raios do sol, quando necessário.
na ponta, a antena que era como uma agulha de ouro varando o próprio
firmamento; o mastro orgulhoso onde eram amarrados os balões e dirigíveis de
gás cavorítico.
tudo ruína, metal retorcido, rocha despedaçada. o fosso dos cinqüenta
andares subterrâneos já transbordando com a água da chuva, um lago artificial de
área imensa, onde boiavam papéis, plásticos e outros restos. quanto tempo,
cesário se lembra de ter perguntado a si mesmo, quanto tempo atrás?
ele sabe que, aqui, é impossível voltar ao passado – que jamais teria sequer
imaginado o conceito, não fossem seus dez anos subjetivos como prisioneiro da
intempol – e, silenciosamente, amaldiçoa todos os que o puseram em contato com
a idéia.
o mosquete dinamógeno está em suas mãos. a lembrança dolorosa
desaparece, substituída pela firmeza de propósito. dedos experientes percorrem a
extensão da arma, testam a reserva de energia – trinta minutos em rajada contínua,
uma eternidade! –, o equilíbrio das partes. milagrosamente, tudo parece em
ordem.
cesário se vê prestes a rir, gargalhar num misto de alegria histérica e sede
de vingança, quando uma sombra mais intensa que a proporcionada pelas nuvens
pára sobre sua cabeça e, de repente, a chuva cessa.
não toda a chuva. só a que deveria estar caindo sobre ele e alguns metros
ao redor. É como se cesário tivesse entrado debaixo de uma marquise – ou, que a
marquise tivesse vindo até ele.
a reação do soldado, girando o corpo e apontando a arma para cima, é
instantânea – ou, ao menos, tão rápida quanto seu corpo debilitado o permite. não
o suficiente.
um estalo seco, um corte superficial no dorso da mão, e o mosquete
desaparece na altura, arrastado por um chicote negro rumo á clarabóia que se
abriu no fundo do que, para cesário, parece ser um iate flutuante.
– icem o humano! – ordena uma voz que mais parece um latido, falando
numa língua que é como o dialeto do português falado pelos lagartomens
venusianos, mas com um sotaque estranho, que cesário corvo não consegue
localizar. imediatamente, laços de corda são jogados da clarabóia e apertam o
tórax e os braços do brigadeiro.
sem esboçar qualquer tipo de resistência, ele se deixa erguer rumo aos
céus.

***
as ruas estreitas e cheias de curvas e esquinas, o fog que desce, a neblina
que sobe, a luz suja dos postes muito espaçados, o cheiro de gás queimado. o
whitechapel nunca foi um bom lugar para se rastrear alguém, e 1888
decididamente não é um bom ano.
mesmo assim, dawson dog insiste. corre um pouco, caminha um pouco.
respira fundo. esconde-se. observa. tateia. de vez em quando, nos becos mais
escuros, baixa o grande lenço vermelho que cobre a parte inferior de seu rosto,
revelando um pouco da pelagem branca, curta, e a ponta do focinho negro.
fareja, atento. o que é isso, sangue? ferrugem? da onde vem? para onde
sopra o vento?
frustrado, recompõe a máscara e prossegue. mais curvas, becos, ruelas. o
cheiro de gás, o cheiro de esgoto. dawson sente o peso do fracasso; um ódio
animalesco arde em seus olhos cada vez que o fog e as fezes arrancam uma pista
mais promissora de suas narinas. ele já se vê prestes a jogar fora o lenço, o chapéu
e os óculos que escondem sua cabeça de beagle e, num uivo, lançar toda sua
frustração em direção à lua (invisível), quando ouve o grito.
esquecido da delicada cirurgia que lhe deu um cérebro capaz de raciocinar
e uma garganta que articula palavras, dawson dog rosna, late e, quando corre, usa
tanto os pés calçados quanto as mãos enluvadas. as abas do sobretudo são
como a cauda que um dia teve.
foi um grito de agonia o que ele ouviu. um grito de agonia vindo de um
beco escuro do whitechapel.
os cheiros ainda são muitos, muito confusos, mas isso não pode ser uma
simples coincidência. a monstro está, tem de estar, perto!
dawson chega ao beco de onde partiu o som e vê um homem de casaco e
cartola debruçado sobre uma figura indistinta, que geme. o canzarromem sabe que
seu dever é atacar o agressor mas, um momento antes do bote, seus sentidos lhe
enviam sinais confusos. o homem de cartola, que deveria ser sua presa, tem um
cheiro que dog nunca sentiu antes – ou, se sentiu, foi há muito, muito tempo.
já a figura caída não é uma mulher, como seria de se esperar, mas um
homem. tanto o grito inicial, que fez dawson correr até ali, quanto os gemidos
subseqüentes tiveram entonação masculina. dawson dog se repreende por não ter
notado isso antes.
e, finalmente, o cheiro de monstro parte da vítima, não do agressor.
– boa-noite, senhor dog – diz o homem de cartola, voltando-se por um
instante, o suficiente para que dawson veja as feições aquilinas e os olhos muito
negros. – estava contando com a possibilidade de encontrá-lo nesta noite. para
selar nossa amizade, posso lhe oferecer um pequeno quitute, cortesia de nosso
amigo comum, senhor saucy jack?
com um gesto meio cômico, o estranho atira por cima do ombro o pênis
ensangüentado e o escroto do homem caído, que chora, soluça e implora por
piedade. dawson dog fareja o retalhe de carne e reconhece o cheiro do monstro
matador de mulheres. É com gosto, portanto, que o canzarromem devora seu
pedaço de vingança.

***
a máquina do tempo disfarçada como cigarreira de prata deixou o agente
x-8 numa estação ferroviária nos arredores de viena, em janeiro de 1910. dali ele
pegou o trem que o transportou através da ruritânia e que o deixa, agora, na
fronteira ocidental da slistrávia, um pequeno estado, incrustado numa das partes
mais inóspitas das montanhas balcânicas; um povo do qual, segundo a tradição,
nem os turcos, nem os mongóis e nem mesmo os húngaros jamais haviam obtido
vassalagem.
x-8 preferiria ter se temportado diretamente ao solo slistravo, mas era
provável que a oposição estivesse preparada para detectar qualquer fluxo anormal
de energias taquiônicas na região. então, para evitar armadilhas e obedecendo à
orientação de m, ele viaja como um nativo.
não há neve no ar, mas o gelo sobre o solo é mais do que suficiente. o
vento, frio, corta como uma navalha recém-saída do freezer.
a alfândega da slistrávia é surpreendentemente meticulosa. toda a bagagem
de x-8 é revistada, seu passaporte (com o nome fictício de “pierre wilde”,
nacionalidade francesa, legionário reformado) passa por um exame detalhado e
sua terminator – disfarçada como um velho colt seis-tiros de cano longo – é
apreendida, assim como a caixa de munição.
a pistola derringer personalizada, no entanto, passa despercebida, assim
como outras peças de equipamento.
os guardas falam francês com sotaque eslavo e vestem uniformes que,
conforme a luz, parecem meio esverdeados, mas que no geral impressionam o
olho com um matiz cinza-escuro, morto e sem brilho. x-8 – “wilde” – não
consegue deixar de associar a cor à das fardas nazistas de dali a 30 anos.
o fato de os oficiais prenderem caveiras diminutas – de prata, com olhos
de rubi – na gola da túnica, para marcar patente, não ajuda em nada. um crânio
para tenente, dois para capitão, três fazem um major.
o cocheiro que contrata (por meio dinar de ouro, oito coroas de cobre e
dois xelins de algum metal não-especificado) para levá-lo à estalagem viaja com
um soldado armado na boléia. esse guarda é um garoto de não mais de dezoito
anos que se mantém rijo, costas eretas, olhar atento, o fuzil de baioneta calada
cruzado sobre o peito. da estação à vila o caminho é ladeira acima, margeando um
desfiladeiro, e x-8 aproveita para contemplar a paisagem. eu poderia estar em
marte, ele pensa, enquanto seu olhar percorre os picos nevados, as encostas de
rocha nua, a cobertura de nuvens que paira na garganta, algumas centenas de
metros abaixo. como é que conseguiram fazer um país disto aqui?
ele ergue o vidro da carruagem, semelhante a uma pequena diligência, para
se proteger do vento frio, cortante.
o cocheiro faz uma curva fechada, afastando-se bruscamente do precipício,
e de repente x-8 se vê à porta da estalagem.
É um prédio baixo, com dois andares acima do nível térreo, feito de blocos
pedra preta. ele foi construído como um prolongamento artificial da borda do
desfiladeiro, aproveitando um esporão natural que se projetava no ar; assim,
embora a entrada do prédio esteja afastada da beira, as janelas dos quartos mais
caros, os quartos “com vista”, contemplam todo o esplendor do abismo.
o folheto turístico, amarelo e amassado, que x-8 encontrou na estação diz
que o lugar já havia sido um presídio.
olhando com atenção para a fachada do edifício é possível distinguir
marcas do que talvez um dia tenham sido gárgulas, inscrições, brasões e outros
tipos de entalhe – agora, irremediavelmente borrados pela erosão do vento.
x-8 desce da diligência, paga o cocheiro, retira a própria bagagem – sem
que ninguém, nem mesmo o porteiro do estabelecimento, se abale a ajudá-lo – e
mantém o rosto impassível quando o guarda desce da boléia e trata de
acompanhá-lo, sem dizer nenhuma palavra, no caminho até o balcão do
recepcionista.
o soldado observa de perto enquanto “monsieur wilde” se registra, anota o
número do quarto que é destinado ao agente e se coloca em sentinela ao pé da
escada quando x-8 sobe para conhecer as instalações.
o filho da mãe podia pelo menos me ajudar com a porra da mala, pensa o
homem da empresa.

***
x-10 acompanha dawson dog pelas ruas do withechapel, deixando-se
conduzir, sem palavra ou protesto, pela noite úmida, carregada de neblina.
alimentado com a carne do monstro jack, que perseguia há tempos, o
grande beagle parece mais do que disposto a agradar seu novo amigo. dawson
quer que x-10 seja recompensado pela boa ação que fez ao destruir o matador de
prostitutas. x-10, por sua parte, está interessadíssimo em conhecer o local onde
encontrará sua suposta recompensa; a residência da mulher conhecida apenas
como meretrix.
os dois chegam a um pub, o snakemen & fish, no momento animado por
uma roda de apostas que se forma ao redor de dois rufiões prontos, ao que tudo
indica, para um breve exercício de pugilato. x-10 sente uma certa decepção por
não poder ficar e assistir: um dos dois combatentes é um grandalhão ruivo, nu –
exceto pelos suspensórios – da cintura para cima, com aquela musculatura
grosseira, pouco definida e surpreendentemente poderosa que as pessoas (as que
conseguiam sobreviver, claro) desenvolviam trabalhando quatorze horas por dia
em regime de semiescravidão, antes da invenção das academias de ginástica.
o tipo tem uma boa envergadura, e uma cara que parece sólida como o
fundo de uma frigideira.
– larsen! larsen! – grita quase todo o círculo de fregueses e apostadores,
cada vez que o ruivo ergue os punhos. o outro combatente, um tipo loiro (dotado
do que os romancistas da época chamariam de “cabelos cor de areia”), olhos
castanhos úmidos e barba curta, é bem menor do que esse larsen, mas carrega uma
expressão ainda mais rígida no rosto e dá mostras de ter boa flexibilidade e
agilidade. usa uma camisa larga, aberta no peito e amarrada na cintura com uma
faixa encardida, arranjo que faz o agente da intempol pensar num arremedo de
quimono.
a torcida que acompanha essa figura, embora menor, também faz seu
barulho. pelo que x-10 consegue depreender, o sujeito chama-se “chas”.
dawson dog, porém, não pára, e x-10 se vê obrigado a ignorar o espetáculo
e apertar o passo. os dois cruzam o espaço exíguo do pub, contornando a pequena
multidão, rumo à parede de madeira mais afastada da porta da rua. este é o ponto
mais escuro de um lugar que, por si só, não prima pela iluminação abundante,
parcialmente oculto do restante do pub pelo cotovelo do balcão onde são servidas
as bebidas, cerveja choca e aguardente de batata.
x-10 sente o cheiro de umidade, mofo e tábua podre.
dawson dog toca alguns pontos da madeira esponjosa com seus dedos
cirurgicamente alongados e, sem ruído algum, parte do painel desliza, revelando
um túnel escuro que dá a impressão de se prolongar indefinidamente, rumo ao
submundo.
dog emite um som brusco, um quase-latido, à guisa de encorajamento, e
começa a descer.
dando de ombros, x-10 trata de segui-lo.
o corredor é mais curto do que a escuridão predominante fazia imaginar.
depois de duas dezenas de passos, termina numa pesada porta de aço, do mesmo
tipo que a máfia chinesa passará a usar, dentro de dez ou doze anos, para proteger
seus antros de ópio, e que a scotland yard se verá obrigada a declarar ilegal.
dawson dog tem uma chave, presa por uma corrente no pulso esquerdo. ele
aplica a chave à fechadura da porta, e instantes depois a pesada barreira metálica
gira sem ruído algum sobre dobradiças ocultas, revelando uma luxuosa ante-sala.
um candelabro pende do teto, a luz (elétrica, x-10 é capaz de jurar)
difundida por dezenas de pingentes de cristal cuidadosamente cortados. o piso é
coberto por um carpete verde, muito macio, e as paredes e o teto são acolchoados
por almofadas de tecido vermelho como sangue – seda e cetim. x-10 ouve um
clique às suas costas e percebe que dawson dog acaba de trancar a porta por onde
entraram. pelo lado de dentro, a chapa de aço também é acolchoada, e uma vez de
volta ao batente torna-se indistinguível do restante da ante-sala.
na parede oposta àquela por onde entraram há uma placa dourada, gravada
na bela caligrafia cursiva vitoriana, ainda não contaminada pelo rococó ou pelo
art-decô. ela diz:
“les putains du mal”

***
o comissário pedroso lê, desolado, o mais recente relatório deixado sobre
sua escrivaninha. algo a respeito de armas noóctonas sendo construídas num
reino balcânico durante os primeiros anos do século xx. e a noólise não só é uma
tecnologia avançada demais para o século xx, como é uma tecnologia proibida:
todos os que tiveram a infelicidade de tentar desenvolvê-la acabaram na prisão.
uma linha temporal inteira foi isolada, todo um século xxii alternativo cortado do
restante do multiverso, quando a indústria bélica de lá aprendeu a refinar as
folhas de tana e produzir tanasina-333 em quantidade.
e pedroso está sem pessoal. ele já havia despachado o último agente do
departamento i para alexandria, para investigar o informe de que eratóstenes
havia deduzido as leis de kepler e caminhava firme rumo à álgebra, ao cálculo
integral e à gravitação universal.
ele estica a mão para o interfone, pensando em pedir à secretária que lhe
traga as pasta com os currículos da garotada da academia, quando percebe que
não está mais sozinho. pedroso ergue a cabeça, pronto pra dar o maior esporro,
quem entrou sem ser anunciado, etc e tal, mas a indignação morre no fundo de
sua garganta.
– kramer. spenger – ele diz, engolindo em seco. – que posso fazer por
vocês?
– sua caixa registradora. – exige kramer.
– ah, é? só isso? – responde o comissário, irônico.
– É. só. – não há o menor traço de humor na voz de spenger.
pedroso sente um peso frio no estômago, como se um bloco de gelo tivesse
se materializado ali.
– e mais nada? – a nova tentativa de ironia soa falsa mesmo aos ouvidos
do comissário.
– estamos esperando – afirma kramer. os dois se mantêm os as pernas
levemente afastadas e as mãos nas costas, uma postura tipicamente militar.
– e da onde vem essa ordem? – pergunta pedroso, surpreso com a própria
desenvoltura.
– de lá onde o que se manda, se faz – responde spenger.
oh-oh, pensa o comissário. oh-oh. essa foi a frase usada pelo agente
alighieri, quando o mandaram para a prisão. nada bom. nada bom, mesmo. se
não fosse pela onda de frio que se propaga a partir do abdômen, pedroso estaria
suando. do jeito como as coisas estão, ele apenas treme.
– tudo bem, caras – ele diz, finalmente, desviando o rosto do cabo-de-
guerra desigual que vinha mantendo, a duras penas, com o olhar impiedoso de
kramer e spenger. – está aqui.
o comissário abre uma gaveta da escrivaninha e retira de lá a caixa, sua
máquina do tempo pessoal, e a entrega a kramer. o agente levanta a tampa do
aparelho, que se abre como um laptop. inspeciona o teclado, as telas. dá um
grunhido, fecha a caixa e a entrega a spenger, que abre o aparelho e, em vez de
olhar para teclado, passa um lenço branco de linho pela ranhura onde é
colocado o cartão cronal.
o lenço volta empoeirado.
– como eu esperava – diz spenger, uma ponta de desaprovação tingindo o
tom neutro da voz. –latino. negligente.
antes que pedroso possa responder, spenger coloca a caixa no bolso
esquerdo do paletó, ao mesmo tempo em que tira outra do bolso esquerdo.
– tome – diz, estendendo o novo aparelho na direção de pedroso. –
manutenção preventiva.
pedroso aceita a nova caixa com um leve tremor nas mãos.
– e o q-que mais? – balbucia, ao mesmo tempo em que aceita o
dispositivo.
– nada – diz kramer.
– nada mesmo – completa spenger. – só queremos isso: que você não faça
nada.
depois que os dois vão embora, depois que o frio na barriga passa e o
suor reprimido exsuda em profusão, enquanto enxuga as palmas das mãos num
lenço de papel, pedroso olha para o tampo de sua escrivaninha.
o relatório sobre bombas noóctonas desapareceu.
***

capturado, cesário corvo é espancado, despido, humilhado, acorrentado e,


novamente, espancado. os homens-fera que tripulam o balão revestem seus maus-
tratos de algo mais profundo do que a brutalidade simples dos animais, ou a
maldade prática, estudada, indiferente, que muitas vezes se reserva aos
prisioneiros de guerra.
no porão escuro da aeronave, entre caudas que são chicotes e garras que
são facas, cesário corvo percebe que está sendo vítima de uma modalidade feroz,
ainda que impessoal, de vingança.
– esses desgraçados faziam coisa pior com nossas mães – ele ouve uma
das criaturas, um dos homens-macaco (ou simiomens, como prefere chamá-los),
dizer.
– muito pior – um outro, desta vez um canzarromem, concorda.
já os lagatomens nativos se mantêm em silêncio. corvo havia imaginado
que, se alguém estivesse interessado em vingança contra os representantes da
monarquia una biplanetária e seu império solar, esses seriam os homens-réptil.
durante os quase quarenta minutos de sua viagem – seu suplício – pelos
ares, o brigadeiro se mantém firme na esperança de ser recolhido a alguma grande
cela comum, onde poderá reencontrar velhos camaradas da marinha etérea e,
talvez, informar-se quanto ao destino de sua nação.
essa esperança se frustra logo após a chegada da nave a seu porto de
destino.
uma rampa é colocada junto à porta para desembarque de carga do grande
balão, porta que se abre com um rangido ensurdecedor. com os braços amarrados
atrás de si, presos por correntes a uma barra de metal que lhe pressiona a coluna e
passa por entre cotovelos, corvo é incentivado a descer rápido, muito rápido, por
simionens que o empurram com facas e lanças.
o brilho que se filtra pelas nuvens ofusca-o e a chuva, aqui reduzida a uma
garoa fina e onipresente, levemente ácida, arde em suas muitas feridas. uma das
lanças dos guardas corta um pouco mais fundo, o agente escorrega, cai, rola
rampa abaixo.
a área ao redor está coberta por uma camada fina de serragem, tornada
macia e fétida pela chuva constante. depois de alguns segundos, cesário corvo
consegue reunir força suficiente para erguer meio corpo, colocando-se de joelhos.
sua cabeça está leve, e é como se o resto do corpo não existisse. a cabeça, sozinha,
flutua num oceano escuro de chuva fina.
diante e acima de seus olhos, vestindo uma armadura feita de placas de
metal dourado atadas por tiras couro, corvo vê um canzarromem. diferente dos
outros, este parece ter raça definida. cesário logo a reconhece: trata-se de um
beagle. que seria um animal belo e simpático, “garboso”, como diria um dono de
canil que corvo conheceu no passado, não fosse pela cicatriz tão feia na lateral do
focinho, e a ausência do olho esquerdo.
em algum lugar no fundo de sua mente, parte de cesário corvo ri.
– coronel dawson – diz uma voz às costas do prisioneiro – , este homem
trazia...
corvo não ouve o resto do diálogo. por algum motivo, os sons de fundo –
os passos, o estalar do couro molhado, o abrir e fechar de patas convertidas em
mãos, o resfolegar de focinhos, o cair da chuva – avançam, em sua mente, para o
primeiro plano, afogando as palavras, transformando-as em onomatopéias sem
sentido. o que ainda lhe resta de consciência objetiva supõe que os homens-fera
estejam falando a respeito dos retalhos de seu traje stealth, do anel e do cinco que
permitem a viagem entre as dimensões.
tudo o que lhe foi tomado.
em determinado momento, cesário imagina ouvir, em meio à doce sinfonia
de ruídos sem sentido, a palavra “tecnologia” e, algum tempo depois, para ele
poderiam ter sido horas, “intempol”. em seguida é erguido, arrastado através de
um corredor de celas (dentro das quais, ele sonha ou imagina, pessoas, não
muitas, algumas, levantam-se e gritam seu nome) e, em seguida, num lugar onde
não chove mais, se vê caindo – não – sendo baixado em um tipo qualquer de
elevador primitivo. levado, gentilmente, ao fundo de um poço. uma cela solitária.
uma oubliette.

***

a placa que diz les putains du mal articula-se numa dobradiça oculta, e está
colocada sobre uma pequena janela de vidro fosco. dawson dog olha pelo vidro,
vê apenas o próprio reflexo. mas alguém do outro lado o reconhece, e uma nova
porta secreta se abre.
x-10 entra numa câmara ampla, longa e abobadada, com o teto dividido
em três cúpulas sustentadas por colunas esculpidas – algo que o faz pensar no
transepto de uma catedral do renascimento.
e, como numa catedral decorada por davinci ou michelangelo, tanto as
paredes ao seu redor quanto as cúpulas acima estão divididas em painéis e
cobertas de afrescos. mas, embora as formas e proporções das figuras pintadas
sejam clássicas e as cores, vibrantes, não se trata de arte sacra, mas profana: cada
painel traz uma cena erótica, quando não decididamente pornográfica, envolvendo
as feras humanas da mitologia.
aqui, sátiros violam centauros. ali, sereias engolem minotauros; lá, fúrias
envolvem nereides; mais além, lâmias penetram esfinges; acolá, medusas
acariciam quimeras.
no teto central, tífon, o titã com olhos de fogo e dedos de serpente, copula
com a mulher-demônio equidina, a mãe de todos os monstros. esse é o afresco
principal, o maior, o mais brilhante. sobre ele incidem diretamente todas as luzes
da sala.
É sob ele que fica o trono da rainha do bordel. da meretrix.
dawson dog ajoelha-se ao pé de sua senhora, e lambe-lhe
apaixonadamente a mão. a meretrix é servida por duas de suas prostitutas
especiais, uma mulher-tigre que lhe traz um jarro de vinho e uma mulher-babuíno
que carrega uma travessa do que parecem ser nacos de carne crua.
x-10 cumprimenta a senhora da casa com uma reverência. ele imagina se
ela irá reconhecê-lo. embora para ele tenham-se passado poucas semanas, a
mulher o viu pela última vez há quase onze anos. naquela época ela era uma
adolescente, e ainda atendia pelo nome de melissa mcmurdock. x-10 havia usado
seus poderes hipnóticos e um pouco de maquiagem para se fazer passar por um
duplo de cesário corvo e...
a reminiscência é cortada por um gesto da mulher. ela quer que x-10 se
aproxime.
ele caminha com cuidado, passando por entre pilhas de almofadas de seda
e cetim, espreguiçadeiras entalhadas e divãs dourados onde reclinam-se outras
mulheres-fera – com pelagens variadas, vaginas cirurgicamente dilatadas ou
contraídas, penas macias, curvas deliciosas, escamas coloridas, cascos
perfumados. não sei quanto os aristocratas desta época pagam por isso, pensa x-
10, mas é pouco.
a tecnologia para criar feras de aparência humana havia sido desenvolvida
pelo mentor do pai de melissa, em algum ponto da metade do século. os dois
homens, o velho mcmurdock e seu professor, tinham tratado a descoberta com a
falta de imaginação típica do sexo masculino, criando servos, soldados e uma ou
outra amante eventual – e individual.
É preciso uma mulher para enxergar o verdadeiro potencial das coisas,
ele pensa, assim que chega junto ao trono. dez anos mais velha, melissa perdeu
aquela sensualidade involuntária, ainda mais desejável porque desajeitada, ainda
mais proibida porque inconsciente, de que x-10 se lembra. agora ela é proibida
não por ser inocente, mas porque é sábia e perigosa; e desejável pelos mesmos
motivos, também.
melissa – meretrix – estende uma mão para que x-10 beije. ele nota que é a
mesma mão que dog lambeu, mas não se furta à cortesia. até sorri.
a mulher diz:
– meu querido dawson diz que o senhor nos prestou um grande favor,
senhor...?
– cranston. carter allard-cranston – ele diz.
– ... cranston, ao livrar as ruas de um predador descontrolado. eu agradeço.
– eu é que vos sou grato por vossa gratidão – responde x-10, com nova
mesura, imaginando até onde terá de ir com esses diálogos ridículos. – quando
soube que a grande meretrix desejava pôr um fim aos crimes do whitechapel, corri
em vosso auxílio, na esperança de, assim, me mostrar merecedor de uma
audiência convosco.
– ah! – os olhos dela se acendem com uma chama de interesse. – então o
senhor queria conhecer-nos? e por quê?
x-10 faz um gesto que abarca todo o salão, e pergunta:
– haveria motivo melhor?
a meretrix ri, um som que é puro deleite.
– jack, o monstro, vinha agindo apenas nas ruas, é verdade – ela diz – ,
mas nossa profissão tem uma longa história de solidariedade. um ataque a uma
irmã é um ataque a todas, não importa quão desafortunada a vítima. da mesma
forma, faça um favor a uma, e ganhe a gratidão de todas! e agora... – ela sorri – eu
lhe ofereço uma escolha de recompensas: duzentas libras, ou uma noite nesta
casa.
uma mulher-gazela, nua, se aproxima e deposita um saco de moedas sobre
o braço esquerdo do trono da meretrix. x-10 reconhece o tilintar do ouro (para um
conhecedor, bem distinto do da prata, e a anos-luz do níquel), mas seu olhar está
amarrado aos olhos cor de âmbar da criatura.
– acho que sei o que vai ser – diz a meretrix, com um riso baixo.
x-10 acorda algumas horas depois, com a face pousada sobre o pêlo curto,
macio e cheiroso dos quatro seios pequenos da mulher-gazela. ele nota que os
mamilos ainda estão duros, o que o faz sentir uma ponta de orgulho.
ela cheira a capim recém-cortado e almíscar; o pêlo é suave como veludo.
É uma pena deixá-la, mas o dever chama.
com um comando cibernético, ele libera a agulha biônica oculta debaixo
da unha do dedo médio da mão direita. um movimento suave introduz a agulha no
nódulo nervoso junto á base do pescoço da gazela. rapidamente, x-10 faz o
download da planta dos subterrâneos do snakemen & fish, incluindo a localização
provável do objeto que está procurando. ela também baixa um pouco de fofoca
local, como o fato de melissa ser a amante quase exclusiva do príncipe dananko
xiii, da slistrávia, e já ter dado ao monarca um filho bastardo.
antes de recolher a agulha, o agente faz o aparelho disparar um pequeno
estímulo acumputrônico, algo que deverá manter a gazela adormecida ainda por
várias horas.
e agora, à missão.

***
tatuí, sp. dia 09 de setembro de 1999.
– era necessário, irmã. era necessário. ele estava tomado pelo demo! era
necessário.
o pastor kramer diz isso numa voz ao mesmo tempo doce e cheia de
autoridade, firme e, ainda assim, plena de compaixão. amparada pelo marido, a
mulher chora.
dentro do quarto, o pastor spenger, colega de kramer, revista os
escombros do poltergeist gerado pelo filho da mulher, um garoto de onze anos
que falava em línguas, rabiscava desenhos estranhos em seus cadernos e nas
paredes. uma criança com o poder de iniciar incêndios e arremessar objetos com
um mero olhar.
depois de inúmeras tentativas de exorcismo, kramer e spenger haviam
recomendado o uso de uma bala de prata, embebida na cera de uma vela
consagrada. kramer sente uma ponta de culpa ao repetir, pela vigésima vez, que o
procedimento todo “era necessário”. no fundo, ele sabe que uma bala simples de
chumbo teria resolvido tudo da mesma maneira.
– achei – diz spenger, aparecendo na porta com um punhado de folhas
pautadas de caderno universitário amarrotadas numa das mãos. – olhe.
afastando-se do casal inconsolável, os dois pastores vão verificar os
desenhos. são hieróglifos.
– ele estava reconstituindo o livro de thoth-karnak – diz spenger. – como
trazer os mortos de volta à vida.
– exatamente – concorda kramer. – agimos na hora certa, mas o demônio
escapou. de novo. e esta já foi a ... o quê?... quarta? quinta tentativa? quando é
que vão isolar de vez esse faraó filho da puta?
spenger consulta o relógio:
– dentro de há 89 anos, se os dois “x” trabalharem direito.
– pensar que estamos nas mãos deles. dois babacas exibicionistas...

***
as ricas tapeçarias que cobrem as paredes e o piso do quarto não bastam
para disfarçar o fato de que a estalagem já foi uma prisão: as instalações
sanitárias, feitas de pesadas peças de bronze que correm em vãos abertos na
rocha, foram obviamente construídas e improvisadas por sobre fossas e canaletas
rústicas, rudimentares. e, x-8 nota com um certo humor, ninguém se deu ao
trabalho de retirar as grades da janela.
depois de trocar suas roupas de viagem por trajes mais confortáveis para a
tarefa que o aguarda – calças cáqui de bolsos amplos, botas de cano alto, camisa
de flanela cinza também cheia de bolsos, jaqueta de couro preto, fosco, revestida
com pele de carneiro tingida de preto, óculos de aviador pendurados no pescoço,
luvas, cachecol – x-8 se põe a estudar as grades. são quatro. cilindros maciços de
ferro, cada um com dois centímetros e meio de diâmetro, enferrujados por fora
mas ainda bem sólidos por dentro. encravados na rocha.
x-8 despe a jaqueta, arregaça as mangas da camisa ao máximo, agarra as
duas barras mais ao centro, puxa-as. solta-as, respira fundo, puxa de novo, desta
vez prestando atenção no som que vem do engaste do metal no parapeito.
depois, puxa mais uma vez. dando-se por satisfeito, baixa as mangas, veste
a jaqueta, tira uma primeira edição, autografada, de o prisioneiro de zenda da
mala e começa a ler.
o agente já está terminando o livro quando o sol se põe. x-8 coloca o
prisioneiro de lado e caminha de volta até a janela, pensando se deveria arrumar
também um exemplar autografado da continuação, rupert de hentzau. a conjectura
some em menos de um segundo: x-8 sabe que deve manter a mente vazia para
fazer o que é necessário.
respirando fundo, volta a agarrar as duas barras centrais da janela e, sem
das mostras do menor esforço, arranca-as do batente.
elas são pesadas, mas mesmo assim x-8 decide prendê-las a duas alças
internas de sua jaqueta, originalmente desenhadas para suportar armas brancas –
facas, punhais, espadas curtas.
sentando-se no espaço aberto sobre o parapeito, o agente contempla os
céus noturnos de slistrávia. não há muito o que ver: a camada de nuvens parece
ter-se elevado e, mesmo na altitude em que está, o agente se vê cercado por névoa
escura. não há luz alguma, nem da lua, nem das estrelas.
x-8 coloca seus óculos “de aviador” e, subitamente, a noite se enche de
uma luz mortiça, verde, que lhe permite ver parte da extensão do abismo, abaixo,
e do vazio, acima. no canto superior direito de uma das lentes, um ponto vermelho
pisca, insistente: o cursor do mapa interativo.
cuidadosamente, x-8 tateia pela superfície externa da hospedaria, em busca
de pontos de apoio. depois de alguns momentos, decide retirar as luvas – ele
conclui vai precisar da aspereza natural dos dedos, talvez até mesmo das unhas,
para sobreviver neste lugar.
em seguida, iça-se para fora e começa a descida.
o primeiro trecho da escalada exige que x-8 desça pela parede da
estalagem até o ponto onde ela se encontra com o paredão rochoso da cordilheira,
contorne o esporão de pedra que sustenta o edifício – o que significa percorrer um
trecho em inclinação negativa – e então suba pelo desfiladeiro cluj, até atingir a
muralha externa do castelo dananko. a partir dali, o ponto de luz em seus óculos
de visão noturna é que irá guiá-lo.
a temperatura é baixíssima. cristais de gelo obstruem, de tempos em
tempos, a trama do cachecol que cobre a boca e o nariz de x-8; e apenas o esforço,
constante e doloroso, de sustentar os quase cem quilos de músculo do corpo do
agente impede que as mãos nuas se congelem, embora o estresse sobre as juntas e
articulações seja obviamente ruim para a circulação do sangue.
x-8 sabe que sua única chance de salvar as pontas dos dedos (e, por tabela,
de sobrevivência) é se manter em movimento constante: se ficar parado muito
tempo num só lugar, além da circulação prejudicada há também o risco de a
umidade da pele se solidificar, literalmente soldando a carne à rocha. felizmente
suas botas têm grampos especiais que, quando necessário, ajudam no movimento
e na sustentação, permitindo trocas rápidas entre os pontos de apoio.
o percurso pela parede da antiga prisão é relativamente simples, com os
restos de velhos ornamentos e gárgulas oferecendo boa sustentação. já a transição
para o trecho de inclinação negativa – a uns 250º com a superfície aonde está – é
mais complexa.
ao final da descida, com os pés tocando o ponto onde o edifício se une ao
esporão de rocha natural e apoiando todo o peso nas mãos, x-8 usa os grampos
metálicos das botas para escavar a argamassa que recobre a linha onde a fundação
do prédio penetra na rocha. ele raspa; ele chuta. cada movimento brusco causa
mais uma esfoladura na mão, uma torção a mais nos tendões do braço, um
aumento na tensão do pulso. a dor é quente e fria ao mesmo tempo; é como se
houvesse areia fina em cada uma das articulações.
de repente, x-8 pára de chutar. pára, na verdade, de executar qualquer
movimento voluntário. se eu corpo se move, é ao sabor do vento, que uiva ao
redor.
e então respira fundo, suspira, relaxa, abre as mãos e solta o corpo ao
sabor da gravidade.
a queda é rápida. assim que o corte feito pelas botas na base do prédio
passa diante de seus olhos, x-8 ergue os braços. os dedos, em garra, mergulham na
incisão e, por um instante que é como um turbilhão de pânico e expectativa,
deslizam antes de se firmarem, deixando um rastro de pele esfolada e sangue ralo
sobre a ranhura de rocha áspera.
músculos nos braços e no tórax gritam ante o esforço de brecar a queda –
bíceps e peitorais saltam de repente, como se quisessem fugir do corpo que os
obriga a tanto. as fibras forçam a costura e os botões da camisa; o pano geme, a
linha estala.
três segundos após o início, a queda termina.
sustentado pelos braços, apoiado nas pontas dos dedos, x-8 pende sobre o
vazio. com cuidado, ele transfere todo o peso do corpo para a mão esquerda e,
sem pensar duas vezes, solta a direita. a mudança de ponto de apoio faz seu corpo
balançar de forma brusca, e o vento também não ajuda. a dor nas juntas,
principalmente no ombro, é comparável à do cavalete de tortura medieval, x-8
pensa. ou o cavalete era menos ruim?
reprimindo esses pensamentos, o agente estende o braço direito diante de
si e, com uma rápida contração do músculo logo abaixo do cotovelo, ativa o
dispositivo de mola que lança a derringer especial sobre a palma da mão;
aquecido pelo contato constante com o braço de x-8, o metal da arma não adere
aos dedos. a pequena pistola não dispara balas, mas um píton de titânio com ponta
de carbono adiamantado, preso a uma corda de teia de aranha sintética trançada,
com a espessura de um barbante.
um tiro silencioso crava o píton no paredão de inclinação negativa e, no
instante seguinte, x-8, balançando na corda, põe-se a caminho do desfiladeiro cluj.

***
a luz, insuficiente, emana de uma fonte desconhecida.
cesário corvo conhece bem a teoria e a doutrina do suplício da oubliette.
trata-se, afinal, do castigo regulamentar imposto pela marinha etérea aos culpados
do crime de alta traição. o princípio é da mais pura simplicidade: o condenado é
jogado num fosso profundo, uma cela cuja única abertura fica no teto, alto e fora
de alcance, e esquecido.
fácil assim.
“esquecido”, no caso, significa privado de todo contato humano. mas o
condenado raramente é deixado para morrer à míngua. oubliettes ficam em porões
sujos, e os condenados normalmente chegam a ela trazendo feridas abertas em
algumas partes do corpo. então, sempre há com o quê atrair vermes, insetos;
lagartos cegos e roedores preguiçosos, também.
uma água malcheirosa, barrenta, gelada, jorra de um cano colocado junto à
abertura do fosso, de tempos em tempos.
corvo sabe que a drenagem das oubliettes é planejada com cuidado: há
sempre cinco ou seis milímetros de água suja no fundo de cada cela. nunca mais,
nunca menos. manter isso deve exigir um sistema complexo de bombas, máquinas
e dutos, oculto pelo piso de pedra. talvez até, galerias.
rotas de fuga?
depois do que imagina ter sido uma semana inteira de trabalho, com as
unhas desbastadas e as pontas dos dedos em carne viva, cesário corvo conclui que
não faz diferença: nu, sem ferramentas, ele jamais conseguirá chegar às galerias,
se é que elas existem.
no que supõe ser a metade de sua segunda semana, corvo está pronto para
esquecer e ser esquecido. não se opõe mais à tortura. ao contrário, faz dela uma
companheira de viagem. parado, de cócoras, dorme quando tem sono, treme
quando sente frio, rosna e bate quando é mordido ou picado, alivia-se quando
necessário. parte de sua mente diz que ele deve se exercitar, que deve estar pronto
para a oportunidade, quando a oportunidade vier. e ele se exercita – corre, salta,
equilibra-se nas palmas das mãos, escorrega no lodo, cai, machuca-se, tenta de
novo.
alonga os músculos, flexiona as juntas. o corpo é uma máquina que roda
sozinha, ajusta-se sozinha, independentemente de uma vontade que nem está mais
lá.
ele sabe que a essência do suplício da oubliette é o esquecimento. É o que
está nos manuais. e é por isso que se sente surpreso, de certa forma quase
indignado, quando vê que, no final, as pessoas de fato não se esqueceram dele.
a plataforma que o deixou no fosso volta a descer, e nela vêm dois
lagartomens, armados com espadas e chicotes. corvo não reage quando o colocam
sobre a tábua, nem quando ela é puxada de volta à superfície. no topo, ao redor da
boca do fosso, há um destacamento completo de homens-fera. os soldados trocam
rapidamente de posição assim que cesário emerge da abertura. o fato de ele ser
capaz de se manter em pé sem ajuda parece surpreendê-los – ou talvez seja o
cheiro da crosta de imundície que cobre seu corpo.
um simiomem se aproxima e corvo sente uma picada no ombro esquerdo.
o reflexo condicionado o faz rosnar, como se reagisse a mais uma mordida de
inseto, mas antes que o som se forme em sua garganta, cesário corvo mergulha na
inconsciência.
o despertar traz de volta a lembrança de sua última aventura, que para ele
ocorreu dez anos atrás. também naquela vez ele havia perdido os sentidos;
também naquela vez ele havia acordado sentindo-se como novo, curado, forte,
refrescado.
e nutrido: surpreso, cesário corvo se dá conta de que não sente mais fome.
há diferenças, porém: na última vez, não chovia. e não havia grilhões em
seu tornozelo.
nem a arquibancada, com uma multidão de homens-fera gritando, vaiando
e aplaudindo ao seu redor.
cesário veste uma espécie de quimono de seda negra, com linhas
onduladas em ouro bordadas ao redor das mangas e colarinho. ele flutua a cerca
de quinze metros do chão da arena. o que o faz flutuar é a almofada sobre a qual
seu corpo descansa, provavelmente cheia de gás cavorítico.
a corrente que agrilhoa seu tornozelo esquerdo se prende a um dos
delicados arcos de renda que decoram o entorno da almofada. cesário corvo não
se engana: o material do estofado (e da renda) é vesícula de polvo mercuriano,
mais forte que o aço.
a almofada balança um pouco ao sabor da chuva e do vento, mas não
muito: está ancorada, por meio de uma corda grossa, a um anel metálico cravado
no chão, ao centro da arena.
na mesma altura de cesário está o que deve ser a tribuna de honra desta
platéia de monstros. nela se reclina uma mulher – linda. loira, de olhos azuis,
cabelos cheios e cacheados, o corpo quase musculoso, curvilíneo, que a armadura
de metal batido e tiras de couro faz muito pouco para ocultar. no centro da placa
peitoral, um símbolo – um crânio prateado, de olhos vermelhos.
É a mulher que m me enviou para encontrar, sem dúvida.
e o rosto lembra o da menina que ele conheceu há dez anos, a criança que
controlava os homens-fera de um mundo distante. seria ela...?
– melissa...? – ele pergunta, gritando.
os brados e vaias da multidão crescem, mesclam-se até se converterem
numa erupção única, a cacofonia concentrada num ensurdecedor aríete de som.
pedras e pedaços de pau partem de todos os níveis da arquibancada e de todos os
lados, arremessados, com desprezo e indignação, na direção na almofada
flutuante. alguns a atingem, e cesário se joga de bruços sobre a superfície,
agarrando-se aos enfeites de renda para não cair.
o balão treme e chacoalha violentamente.
– não dirija a palavra à princesa ananka de slistrávia, à rainha anh-ankh-ah
dos dois universos, animal, a menos que ela o permita – diz uma voz masculina,
retumbante, vinda de trás de uma cortina, ao fundo do camarote. É uma voz
amplificada por algum meio mecânico, que se faz ouvir em todos os pontos da
platéia ao mesmo tempo, e que também usa o dialeto dos indígenas de vênus.
as vaias são imediatamente substituídas por aplausos e assovios de
aprovação.
cesário conhece esta última voz. na última vez em que a ouviu, era a voz
de um amigo.
a cortina se parte, e uma figura metálica entra no camarote. a luz primeiro
incide sobre o tórax de vidro, dentro do qual brilha uma galáxia de luzes menores;
depois explode sobre o abdome, e na virilha, e então nos braços e pernas, todas
partes de aço, mas polidas como um espelho. finalmente, cesário corvo vê a face
do andróide. a pele falsa, de polímero rosado, foi arrancada, assim como os
cabelos e o bigode, mas não importa: é a face de um amigo, ainda que sobre sua
cabeça repouse a coroa dupla dos reinos do alto e do baixo egito. um amigo que
cesário acreditava ter deixado, morto, a um universo de distância.
– adamastor...?
– este corpo já pertenceu a um “adamastor” – responde a máquina. – e,
parte do que sei, parte do que tornou isto tudo possível, vem dele. esta parte
reconhece você... “brigadeiro”. esta parte sabe o que você fez: como abandonou
seu parceiro, despedaçado, debaixo das areias de um mundo distante... e não está
nem um pouco contente. mas esta carcaça de metal, hoje, abriga o espírito
inconquistável do rei dos reis, o faraó anendjib ii, eu, a majestade única a quem os
homens de mil eras e mundos aprenderam a temer, a reverenciar e a obedecer sob
o nome de nephren-ka!
a multidão explode em aplausos, e logo um coro – “nephren-ka! nephren-
ka!” – toma conta da assistência. vozes de feras articulando estas duas palavras
em uníssono. algo terrível de se ver e ouvir.
cesário repara que o andróide traz algo na mão estendida, e uma faixa
escura cruzada sobre o peito, como um cinturão de balas. o brigadeiro logo
reconhece o anel e o cinto. quando o coro da multidão atinge o ápice, quando o
brado de “nephren-ka” parece prestes a fazer ruir este coliseu, corvo imagina, por
um instante, que vê o anel mudar de cor – sinal, pelo que m lhe havia explicado
do funcionamento do aparelho, de que uma mensagem automática tinha sido
enviada através da barreira entre as dimensões.
que mensagem seria essa? um pedido de socorro, talvez?
cesário se põe a especular sobre o assunto, mas logo desiste. não é bom
alimentar esperanças que possam vir a se mostrar falsas.
nephren-ka, ou anendjib, ou adamastor – de quanto nomes esse cara
precisa, afinal?, pensa corvo – se aproxima da beirada do camarote de honra e,
acariciando o cinturão sobre o peito como se fosse a pele de um animal vencido,
proclama:
– amigos! – mais uma vez, a multidão exulta. – construímos este coliseu
para punir os que se opõem a nós, os que nos destruiriam se pudessem, os que nos
feriram e exploraram no passado e que voltariam a fazê-lo, hoje mesmo, se lhes
mostrássemos piedade, se fôssemos tolos o bastante, se permitíssemos que isso
ocorresse. se nos esquecêssemos da ignomínia praticada por eles. os malditos
colonizadores. os homens do império. sim, amigos! eles! – mais gritos, vaias,
aplausos. – eles, que alimentaram as feras, que lutaram entre si e dançaram a
dança da morte, aqui, diante de nós, de todos nós. eles, os demônios malcheirosos,
palhaços patéticos que sangraram e morreram como os macacos nus que eram,
para satisfação de nossa sede de justiça. achávamos que tínhamos, acabado com
eles. lembram-se? temíamos que os jogos da última semana tivessem sido,
literalmente, os últimos!
enquanto a multidão urra, cesário baixa a cabeça, lutando contra a tontura
e a náusea. se for verdadeira, essa última afirmação de adamastor – nephren-ka? –
significa que os homens que cesário viu acorrentados, antes de ser jogado na
oubliette, os homens que ele tivera a esperança de resgatar, já estão todos mortos.
– e hoje – o andróide prossegue, o tom de sua voz subindo num crescendo
de entusiasmo –, provando sua infinita bondade, os deuses entregaram em nossas
mãos um homem, este homem – ele gesticula na direção de corvo – que é nosso
inimigo não uma, não duas, mas mil vezes!
gritos. vaias. palavrões.
– É inimigo porque foi enviado, aqui, para destruir nossa sagrada missão!
palavrões. vaias. gritos.
– É inimigo porque serve à marinha etérea, a corporação suja e corrupta...
ao império que humilhou e quase destruiu nossos irmãos lagartomens!
vaias. gritos. palavrões.
– É inimigo – prossegue – porque usa a tecnologia dos maiores dentre os
inimigos, da maldita empresa, da organização tirânica que os lagartomens de
vênus, puros que são, não conhecem... mas que tentou impedir a mim, vosso
faraó, de vir a vocês, e libertá-los! – a audiência irrompe em brados de ódio,
assovios, blasfêmias. com um gesto, nephren-ka pede, e obtém, um relativo
silêncio. – que destruiu o grande mcmurdock, deixou os teratossapiens da velha
terra à míngua, que desafiou a virgem melissa, que ameaçou o pai de nossa
princesa ainda no berço, que perseguiu a mim, vosso faraó, por inúmeras eras,
passadas e futuras, em inúmeros universos. que tentou impedir o Êxodo e a
profecia...
ao som da palavra “profecia”, os poucos gritos e ruídos que ainda vêm da
arquibancada desaparecem, dando lugar a um silêncio reverente. volta a ser
possível ouvir a batida suave da chuva.
– todos aqui conhecem o livro. conhecem a história da criação dos
teratossapiens, de como o povo escolhido foi enganado, recebeu o nome odioso de
“homens-fera” acabou levado para longe dos criadores. como o adversário, se
aproveitando de um instante de confusão, dividiu as raças sagradas entre os
diferentes mundos, separou os mundos com o véu da morte e se disfarçou com a
aparência dos criadores para que vocês, sem saber de sua falsidade, o servissem.
oh, os abusos! os abusos! todos também já ouviram os pregadores falarem do
messias, do faraó – alguns homens-fera não se contêm e neste momento
aplaudem, choram, gritam, extasiados – que seria, e foi, enviado para perfurar o
véu e levá-los de volta aos criadores. e todos sabem que tudo que o livro diz, se
cumpre.
um murmúrio de assentimento percorre a audiência.
– mas o livro também fala da organização criada para impedir que
varássemos o véu, o grupo que persegue o messias, massacra os inocentes e busca
destruir o povo. o verdadeiro exército do inimigo, mais poderoso ainda que o
império. a horda que destruiremos um dia, depois que consolidarmos nosso
domínio sobre vênus, completarmos a grande arma e pudermos trazer de volta os
criadores para este lado de véu, onde as máquinas profanas do guardião infernal
não podem nos atingir. este humano abjeto – o faraó-robô aponta, com um gesto
melodramático, na direção de cesário – é nosso inimigo, porque é um homem da
intempol!
a mente de cesário corre para coordenar e correlacionar tudo o que foi dito.
ele se concentra, ignora o pandemônio ao redor enquanto a turba exulta, grita,
volta a jogar lixo, paus e pedras em sua direção. existe uma mitologia artificial,
sintética, criada para manter os simiomens, canzarromens, lagartomens e outros
homens-fera sob controle do andróide, isso é um fato, óbvio, e cesário corvo se
esforça para enxergar o que pode haver além, ou por baixo, desse dado tão
evidente.
o que foi que ele disse?
“...grande arma e pudermos trazer de volta os criadores para este lado de
véu...”
ora, pensa cesário, para quê uma “grande arma”? se “este lado do véu” é
uma metáfora para o lado de cá da barreira dimensional – uma suposição mais do
que lógica – então os outros mundos já estão indefesos, as populações paralisadas,
todos dominados pelo campo isoentrópico. e marte está desabitado, abandonado
às feras. se não fosse assim, a marinha etérea teria retomado vênus há tempos, e
com um pé nas costas. por que o faraó estaria mentindo?
corvo conclui que a questão, no momento ao menos, é irrelevante. isso
porque não há mais palavrões ou vaias vindos da multidão, mas apenas gritos. e
os gritos repetem uma só palavra: “morte”.

***
caminhar pelas sombras é uma segunda natureza para x-10. esgueirar-se,
manter-se em silêncio, encontrar sempre o ângulo mais escuro, a penumbra mais
densa – tudo isso ele faz por instinto, quase sem pensar. e é assim que ele se
desloca pelos subterrâneos secretos do snakemen & fish.
os dados que copiou da mente da gazela levam-no a um lance de escadas,
a um corredor, a um outro que cruza com este e a mais escadas. finalmente, ele
chega ao que deve ser uma ala importante do palácio subterrâneo – uma onde há
guardas. o primeiro, que vigia a porta externa, é um simiomem que só percebe
que há algo errado quando sente a picada acumputrônica no pescoço e, no instante
seguinte, cai, inconsciente, nos braços do homem da intempol.
do outro lado da porta há uma espécie de átrio ou pátio circular, coberto
por um teto, provavelmente abobadado, mas cuja forma que se perde nas sombras
projetadas acima dos candeeiros que ardem na parede, a pouco mais de dois
metros do piso.
no lado oposto do átrio há outra porta, esta protegida por dois guardas.
curiosamente, ambos são humanos. um deles é chas, um dos dois boxeadores do
início da noite; ele tem um hematoma feio ao redor do olho esquerdo, mas no
geral parede bem – muito bem. x-10 tem a impressão de que a luta no “pub” deve
ter sido coisa arranjada. uma pena.
os guardas olham diretamente para a porta que x-10 mantém entreaberta. o
agente usa sua afinidade especial com as sombras e se move devagar, com
cuidado, de forma que os ângulos de seu corpo e as dobras do tecido de suas
roupas moldem a penumbra ao redor do umbral, distorçam a perspectiva, ocultem
o fato de que a porta foi aberta e que alguém passa por ela.
sob a luz incerta dos candeeiros, x-10 considera o feito uma brincadeira de
criança.
uma vez no átrio, ele sincroniza seu deslocamento ao bruxulear das velas.
ele imita à perfeição a forma, a cor e o deslocamento uma sombra projetada na
parede, e avança pelo átrio como um retalho de escuridão.
o primeiro guarda cai, sem produzir nenhum som, sob o toque
acumputrônico. já chas, ao ver o colega sucumbir, dá um salto para trás, e é como
se uma venda lhe fosse arrancada dos olhos. a afinidade de x-10 com as sombras
torna-se inútil assim que o inimigo se dá conta de sua presença.
o guarda não carrega armas de fogo, mas empunha um bastão pesado,
quase uma clava. x-10 tem sua bengala, que também é pesada – madeira ao redor
de um cilindro oco de aço-vanádio, com um florete escondido no centro.
o primeiro golpe é do guarda que, impassível, gira a clava nas mãos,
aponta a extremidade menor para o peito de x-10 e desfere uma rápida estocada
na direção do ponto macio logo acima do esterno, na base da garganta do agente.
na fração de segundo que o golpe levaria para chegar ao alvo, x-10 ergue a
bengala, corta o ar e intercepta a clava a meio caminho. a força da colisão produz
um estalo que ecoa pela parede circular. aproveitando a energia do impacto, chas
gira o corpo numa volta completa, rápida, durante a qual flexiona os joelhos,
agacha, encolhe o corpo, ganha velocidade e, no último segundo, vibra o bastão
com violência, tentando atingir x-10 nos tornozelos!
o agente da intempol salta, escapa, e desce brandindo a bengala
diretamente sobre a cabeça de seu oponente. chas ergue a clava com as duas
mãos, e agora é ele que intercepta o golpe. desta vez, o estalo do impacto vem
acompanhado de um outro som, mais forte e decisivo – o bastão do guarda se
partiu em dois.
a destruição da arma transforma o rosto de chas numa máscara de cólera. o
guarda, que até então vinha mantendo um olhar mortiço e as linhas da face
inalteradas, assume uma expressão demoníaca, como um homem possesso. grita.
usando os dois fragmentos da clava, um em cada mão, como se fossem adagas,
gira o corpo, arqueia os braços e desfere uma seqüência inacreditável, incansável,
de golpes da direção da cabeça e do peito de x-10. em movimento, o guarda não é
mais um homem: é uma força além da natureza, um tornado infernal.
mas, se a velocidade do ataque é sobrenatural, assim também é a da
defesa. a bengala está em toda parte; protege acima, abaixo, nos flancos; o som
dos sucessivos impactos logo se converte num estrondo único, contínuo, um
borrão de madeira partida e osso quebrado que é como um trovão ganhando corpo
ao longe.
finalmente, a dor dos dedos esmagados e esmigalhados, dos punhos
partidos e lacerados é demais para chas e ele grita, baixa os braços como quem
pretende largar os dois pequenos bastões; só não o faz porque a madeira grudou à
pasta de sangue e carne, à polpa que um dia foram suas mãos. há lágrimas em
seus olhos. por um instante, é como se o guarda estivesse se rendendo.
os olhos de x-10 perdem um pouco de sua frieza. a tensão nos cantos da
boca se suaviza de forma perceptível.
chas se mostra prestes a desmoronar. seu choro é convulsivo. num
movimento fluido, líquido, no que parece ser uma conseqüência perfeitamente
lógica de sua postura submissa, como se estivesse desmaiando de medo e dor,
joga a cabeça para trás, dobra o tronco, ergue a virilha, tira os pés do chão e
arremessa os calcanhares de encontro ao queixo do oponente.
x-10 estava, de fato, começando a relaxar, mas não o suficiente. não tanto
quanto chas esperava. com um movimento rápido do pescoço, o agente afasta a
cabeça do alvo e, assim que o chute duplo corta o ar diante de seus olhos, gira a
bengala sem piedade, atingindo o guarda em cheio, no meio das costas.
o trovão que vinha de longe finalmente chega. inconsciente, dobrado como
um canivete que se fecha, chas vai de encontro à parede e cai, com a espinha
quebrada.

***

a história, da forma como é conhecida em 1910, diz que o principado de


slistrávia nunca foi conquistado por estrangeiros desde os tempos do império
romano, o que é verdade: houve invasões, mas nenhuma delas chegou realmente a
subjugar toda a nação.
a história também diz que o castelo dananko, principal fortaleza do país,
nunca foi tomado por inimigos.
isso já não é bem assim.
o castelo deve seu nome atual à linha de monarcas que reina sobre o país
desde que dananko i expulsou as tropas invasoras de pedro, o coxo, príncipe da
moldávia, em 1576. pedro era bisneto de vlad drácula, o empalador da valáquia, e
chegou a passar uma noite no castelo, que era exatamente aonde as forças da
resistência slistrava queriam que ele estivesse. dananko, um jovem capitão de
cavalaria, conhecia bem a história de sua terra, tal como era contada em 1576, e
sabia que a fortaleza tinha sido construída por um ramo dissidente dos
muçulmanos ismaelitas, os assassinos, quatrocentos anos antes.
os ismaelitas slistravos tinham marchado para a pérsia, por volta de 1250,
a fim de lutar ao lado de seus irmãos de fé contra as invasões mongóis, e deixado
o forte abandonado – eles provavelmente sabiam que suas chances de sobreviver à
batalha e, sobrevivendo, de voltar à europa, eram, na melhor das hipóteses,
mínimas.
naquela época e até a vitória da resistência sobre os moldavos, a
construção era conhecida como castelo do vale cluj, por causa do desfiladeiro que
ficava junto à muralha norte e do rio de mesmo nome, que passava lá embaixo.
o primeiro dananko sabia da conexão entre o castelo e os assassinos; mais
do que isso, sabia que a fortaleza era, toda ela, percorrida por corredores secretos
que davam em passagens secretas que se abriam para salas ocultas e em alçapões
escondidos; que os ismaelitas haviam escavado a própria rocha do desfiladeiro e
criado um verdadeiro labirinto sob as fundações da fortaleza, labirinto que levava
a um jardim das delícias subterrâneo onde, segundo a lenda, os assassinos
seviciavam as virgens capturadas nas redondezas e realizam o ritual sangrento de
adoração de seu ídolo baphomet, todos sob os efeitos do haxixe.
em resumo, dananko sabia que o castelo era uma perfeita máquina de
guerrilha. melhor ainda: o capitão possuía um mapa.
não é de se estranhar, portanto, que pedro, o coxo, tenha passado só uma
noite lá dentro.
embora cópias incompletas tenham sido feitas, o mapa original de dananko
desapareceu da história duas gerações após o estabelecimento da dinastia.
“desapareceu da história”, como normalmente acontece, significa que o
pergaminho foi confiscado pela intempol e retirado do continuum. e é com uma
cópia digital dele implantada no cérebro que x-8 completa a escalada do
desfiladeiro cluj.
ele contorna uma última curva, abraçado à parede rochosa que se mantêm
a um ângulo de pouco menos de noventa graus com a horizontal. o agente é grato
pela diferença: esses um ou dois graus, que sejam, tiram toneladas de suas costas.
e a posição atual do paredão o protege do vento e das agulhas de gelo, o granizo
fino.
ele está cerca de sessenta metros abaixo da muralha externa do castelo.
mais três passos e seus pés finalmente tocam a superfície plana, a plataforma
estreita que marca a entrada da caverna. de repente, o cursor vermelho que o
guiara até ali chega ao centro de seu campo de visão, pisca com uma intensidade
que parece ter algo de definitivo em si e desaparece. claro, o primeiro mapa estava
programado para levá-lo só até ali.
logo em seguida, porém, o visor dos óculos se enche de linhas azuladas,
paralelas e ortogonais; um novo ponto, desta vez alaranjado, passa a piscar no que
parece ser o centro de uma câmara enterrada no fundo de um labirinto, um lugar
muito longe. É a sobreposição do mapa das catacumbas em que x-8 está prestes a
entrar com o sinal do rastreador que x-10 deve ter plantado por ali, em 1888.
a troca súbita de cores e padrões, além da longa exposição à luz verde do
visor noturno, faz os olhos de x-8 doerem. ele sente um formigamento familiar
por dentro das pálpebras, e uma pressão enorme na testa. quando fecha os olhos, o
mundo vira um deserto de feltro negro onde furiosas amebas explosivas lutam
pela sobrevivência.
queira ou não, está na hora de descansar. a vista, pelo menos.
reconhecendo o fato, x-8 remove os óculos especiais, respira fundo e passa
a massagear a testa e as têmporas com uma seqüência precisa de movimentos,
seguindo os preceitos de um velho mestre oriental, iniciado nas técnicas de
relaxamento do primeiro império khmer.
terminada a rotina, o agente retira uma caixa de fósforos de um dos bolsos
impermeáveis de sua jaqueta – na viagem a 1910, para evitar anacronismos muito
óbvios e contando com a visão noturna dos óculos, ele não havia levado nenhuma
lanterna elétrica –, acende um palito e inspeciona a caverna sob a luz da chama.
a abertura é mais larga do que profunda. ela termina numa espécie de
grade de rocha esculpida – na verdade, uma lápide polida e varada por diversos
furos, todos em forma de losango. deve ser um dos dutos de ventilação do antigo
jardim das delícias dos assassinos, x-8 pensa. e o mecanismo de abertura deve
estar...
o mecanismo de abertura está logo à esquerda da grade, e não poderia ser
mais evidente: um crânio humano esculpido em rocha, com os olhos vazados e a
mandíbula aberta. mesmo à luz fraca do fósforo (o terceiro) é possível ver que,
dentro da boca, há duas grandes pedras vermelhas – rubis?
a caveira com olhos de rubi é a marca da família dananko, não dos
assassinos. sinal, para x-8, de que a oposição conhece a rota que ele está usando.
ou será que não? o príncipe atual é um rapaz de 23 anos, dananko xiv; um pobre
coitado totalmente dominado pela mãe, uma matrona britânica de má reputação
que ignora por completo as tradições venerandas da família: uma certa condessa
melissa
ao menos, é o que dizem os registros.
a entrada de ventilação, certamente apenas mais uma dentre várias, pode
ter sido descoberta por qualquer um dos treze monarcas anteriores, reformada
para abrigar o selo da dinastia e esquecida em seguida. afinal, o castelo existe há
quase oitocentos anos e os danankos estão no poder há menos de quatrocentos.
muita coisa pode acontecer nesse meio-tempo.
de qualquer forma, a operação do mecanismo parece óbvia o bastante: a
caveira está com as órbitas vazias, e há dois rubis de tamanho compatível dentro
da boca esculpida. então, basta pegar os rubis e...
x-8 recua, de repente, soltando um grunhido, que é a coisa mais parecida
com uma interjeição a que ele se permite, nas condições atuais. o fósforo cai de
sua mão e a caverna fica totalmente às escuras.
o agente não perde tempo: risca outro fósforo e, com cuidado para não
transpor a barreira dos dentes da estátua, estuda a mandíbula da caveira de pedra.
ele imagina se não foi enganado pelo jogo de luz e sombra: a escultura é
rugosa, e bastante fiel ao modelo natural. o artista tentou reproduzir cada sutura,
depressão e linha dos ossos – pequenas irregularidades que, sob a luz do fósforo,
projetam grandes sombras alongadas.
e os rubis, com seus reflexos vermelhos, também não ajudam.
mas, não: as manchas rubras e enegrecidas que x-8 pensou ter visto nos
dentes de pedra não são só escuridão, nem meras projeções do rubi: trata-se de
ferrugem e sangue coagulado, provavelmente.
e, no fundo da boca, atrás dos rubis, o que é aquela coisa coberta de
sombras e luz vermelha? uma flor seca?
uma mão humana. decepada. mumificada pelo frio e pelo ar rarefeito.
agora, x-8 pondera, se a mão ficou ali, onde está o resto do cadáver?
porque tem de haver um cadáver. um homem com uma mão só jamais
conseguiria descer a montanha. será isso? ele cambaleou até a plataforma e caiu?
ou foi capturado?
x-8 observa os dentes do crânio de pedra com mais atenção. há algo mais
ali, além de sangue antigo. algumas das manchas mais escuras não são
avermelhadas e sim, âmbar.
ele encosta o fósforo numa delas. a substância queima com uma chama
amarela, intensa, e exala uma nuvem de fumaça aromática.
x-8 mal tem tempo de prender a respiração e, assim, salvar a própria vida.
então o dono da mão foi amputado e envenenado. ele certamente entrou
em choque, e nunca teve tempo de se recuperar. deve ter cambaleado para trás,
e...
ao concluir o raciocínio, o agente se dá conta de que, desde que entrou na
caverna, só inspecionou a grade de pedra e o espaço à esquerda – onde estão o
crânio e os rubis. uma pessoa que estivesse de frente para a caveira estaria de
costas para o nicho à direita. se cambaleasse para trás, ela iria parar...
no único lugar aonde eu ainda não olhei.
x-8 apaga o fósforo, que já está quase a lhe queimar os dedos, vira-se, de
forma a encarar o outro lado da caverna, e acende um novo palito.
lá está, amarrotado de encontro à pedra, o corpo. mesmo seco e enrugado,
o rosto ainda preserva as feições originais.
– putaquipariu. mas que merda que você foi arrumar, né, pedroso? – diz x-
8, dirigindo-se ao cadáver.
ele conhece a figura, de vista e de folhear os arquivos de pessoal da
intempol: o morto é o comissário pedroso, responsável pelo departamento i, ou a
“inquisição” da empresa. o setor dedicado a coibir idéias e tecnologias
anacrônicas. alguém devia ter avisado o cara para ficar fora deste caso, pensa x-8.
aqueles psicopatas, spenger e kramer, costumavam ser bons nisso. intimidação.
no mínimo, pedroso queria um aumento. se mostrar pra chefia. pobre
coitado.
enquanto esses pensamentos cruzam sua mente, x-8 revista o corpo. o
cartão cronal, com a tarja de código que dá acesso ao mecanismo de viagem no
tempo, ainda está lá, oculto no bolso secreto do paletó. a “caixa registradora”, a
máquina do tempo em si, também está lá, caída aos pés do morto, mas é evidente
que foi desmontada.
uma rápida inspeção revela que o circuito de armstead-gonzález, o
coração da tecnologia, tinha sido removido.
– brilhante, pedroso – x-8 diz, olhando nos olhos ressecados da múmia,
que são como duas ameixas secas enfiadas de mau jeito dentro das órbitas; a
língua, também ressecada e escurecida, pendendo da boca aberta, parece uma
banana caramelizada. e x-8 não quer nem imaginar com o que os dentes são
parecidos. apenas completa: – simplesmente brilhante, cara.

***
a audiência ainda está aplaudindo o discurso do andróide quando cesário
sente a almofada antigravitacional que o sustenta no ar ser arrancada de debaixo
do seu corpo. mais uma vez, ele se agarra às bordas para não cair.
lá embaixo, no centro da arena, dois gorilomens puxam a corda que
mantém o balão fixo, trazendo cesário corvo cada vez mais para perto do chão. o
esforço dos homens-fera é considerável: cada vez que um deles deixa escorregar
um trecho de corda, a almofada volta a subir com uma velocidade que faz corvo
sentir como se estivesse prestes a entrar em órbita – que é exatamente o que
aconteceria, se a tensão da corda não suportasse o empuxo do gás.
finalmente, a almofada-balão toca o nível do solo. um canzarromem,
segurando um mosquete dinamógeno, aponta a arma para cesário e faz um
movimento brusco com a cabeça, dando a entender que o humano deve
“desembarcar” e pisar na arena. o chão é revestido com algum tipo de madeira,
áspera e, ao que parece, tratada para resistir à erosão das chuvas. a água que cai
escorre rapidamente para canaletas colocadas no perímetro; a despeito da
irregularidade do material, e de todo o lixo – paus e pedras – jogado pela
assistência, não há poças.
a baioneta, calada na extremidade do mosquete, não deixa de apontar para
o peito de cesário nem por um instante. enquanto o humano se move de maneira
cautelosa, com as mãos bem à mostra, os dois gorilomens enrolam e amarram a
corda ao redor do anel metálico preso ao centro da arena, e concluem o trabalho
com um nó intrincado. como resultado, o balão antigravitacional fica encostado
no metal, flutuando a poucos centímetros do chão de madeira.
concluída a tarefa, os gorilomens correm em direção a uma porta aberta
na base da arquibancada à direita de cesário. o canzarromem, um pastor alemão
de quase dois metros de altura, se dirige para a mesma saída, mas sem pressa, e
sem tirar os olhos do prisioneiro.
assim que a porta na arquibancada se fecha sem produzir ruído algum,
cesário corvo ouve o som inconfundível do atrito de metal contra metal –
correntes deslizando sobre engrenagens e molas sobre pistões.
o som vem de um ponto às suas costas, e ele se volta.
há uma grade pesada, de metal cinzento, que se ergue lentamente, até
desaparecer atrás de uma placa de madeira entalhada pintada com a figura do
crânio prateado de olhos de rubi, colocada três metros abaixo da primeira fila de
bancos da platéia. atrás dessa grade há um túnel escuro. cesário não consegue ver
o que existe lá dentro.
então ele ouve o som – algo que começa como um arranhar áspero, o som
de geleiras colidindo, e termina num rugido. cesário corvo não tem dificuldades
em reconhecer o grito de guerra do moag marciano.
a criatura desliza, sem pressa, na direção da arena. primeiro a cabeça larga
e achatada, triangular como a de uma serpente. do topo do crânio partem dois
chifres paralelos, de marfim, que se curvam até quase tocar as presas pontiagudas,
cortantes, também paralelas e do mesmo material, enraizadas na mandíbula
inferior do monstro, onde músculos capazes de esmagar o aço pulsam, visíveis.
entre presas e chifres, é como se todo o crânio da criatura estivesse
aprisionado por uma gaiola que tem facas e espadas em vez de barras. e por entre
essas facas, espreitam os olhos: quatro, dois sobre a testa, um em cada lateral.
em seguida, o pescoço longo, espesso, também musculoso por debaixo da
blindagem flexível de escamas, pescoço que a fera é capaz de distender ou retrair
com a rapidez de um bote de serpente.
depois o corpo, como o de um leopardo, com sua musculatura econômica e
porte gracioso; também coberto de escamas e dotado cinco pares de “asas” – na
verdade, chifres: lâminas achatadas de marfim, presas às costelas e à articulação
das patas. patas terminadas em garras à frente e esporões atrás.
por fim, a cauda: longa, coberta de escamas, retrátil ou extensível,
terminada numa bola de espinhos afiados que, pelo que cesário se lembra,
vararam a blindagem dos primeiros veículos de guerra enviados a marte pelo
império, no início da colonização do planeta.
a gravidade de marte é bem menor que a de vênus, e o moag é um animal
pesado; um carnívoro de armadura, o que é uma quase-impossibilidade
evolucionária: ele não deveria ser capaz de se mover com tanta facilidade numa
gravidade tão próxima à da terra, cesário pensa.
mas ele está se movendo.
o moag fixa seus dois olhos centrais em cesário, e ruge novamente. com a
bocarra aberta, o predador seria capaz de engolir um homem adulto sem precisar
mastigar.
aproveitando a oportunidade, cesário pega um pedaço de pau no chão e o
arremessa, com força, em direção à garganta da fera. a madeira desaparece goela
abaixo sem causar nenhum dano ou desconforto aparente.
cesário corvo recua, devagar, dando espaço ao moag, ao mesmo tempo em
que se esforça para não demonstrar medo. em marte, ouriços e búfalos sempre
saem em disparada ante a aproximação do moag. talvez o monstro respeite um
adversário que recua, mas não corre.
enquanto dá seus passos para trás, corvo retira o quimono com que o
haviam vestido e prende o tecido negro, brilhante, na curva do cotovelo esquerdo.
ele acaba de concluir que a coisa mais preciosa do mundo, neste momento, seria
uma lasca do marfim da criatura, e se vê disposto a correr alguns riscos para obtê-
la.
a multidão grita.
o agente pega duas pedras no chão. uma, guarda na faixa do quimono, que
mantém amarrada ao redor da cintura. a outra, joga, usando as duas mãos e toda a
força de que é capaz, no rosto da fera. desta vez o moag está com a boca fechada,
e o quartzo se choca com uma das presas que saem da mandíbula. com o impacto,
a pedra solta pedaços e ricocheteia, mas o dente permanece intacto.
já o moag não parece mais disposto a aceitar provocações, e joga a cabeça
para a frente, numa rápida distensão do pescoço. em vez de cair para trás ou se
jogar para os lados, cesário estende o quimono diante de si, prende-o no focinho
do monstro e, usando a seda para proteger as mãos, apóia-se na mandíbula
inferior da criatura, baixa a cabeça e salta adiante, numa cambalhota que joga
seus pés descalços diretamente de encontro aos olhos centrais do monstro!
o impulso do salto, somado ao ímpeto da própria fera, faz o chute romper
as córneas e enterra cesário até os joelhos na substância gelatinosa. o monstro urra
de dor, corcoveia. sangue jorra dos olhos vazados, e os movimentos frenéticos da
cabeça do moag produzem espirais rubras no ar.
a multidão exulta!
o pano que ficou preso nos dentes da fera é dilacerado, e cesário se agarra
a uma das tiras ao mesmo tempo em que vê a extremidade da cauda do monstro,
com sua bola de espinhos, descer com força sobre o local onde ele está. a
substância dos olhos furados é como areia movediça, e corvo desiste de escapar
dali antes do impacto. em vez disso, dobra o corpo e se deita por debaixo de um
dos chifres do moag.
a bola de espinhos se choca com a grade de presas e chifres que envolve a
cabeça da fera enlouquecida, enviando farpas e fragmentos de marfim por todos
os lados. não há como cesário saber disso, mas a violência do impacto é tal que
estilhaços chegam às arquibancadas: pelo menos dez simiomens são atingidos, e
um filhote é decapitado.
um dos espinhos da cauda do monstro raspa a cintura de cesário, que ficou
desprotegida, abrindo um corte que começa a sangrar. ele ignora a dor. o choque
libertou suas pernas do pântano gelatinoso dos olhos, e o espasmo seguinte da
cabeça da criatura arremessa o agente de encontro ao piso de madeira da arena.
cesário rola para amortecer a queda, pega uma das lascas de marfim – do
tamanho de seu antebraço – que estão cravadas no chão e corre na direção da
almofada antigravitacional. os urros da multidão somam-se aos do moag, todo o
ar vibra, e por um momento corvo se imagina no epicentro de um grande
terremoto. ele corre. não olha para trás. a bola de espinhos pode estar descendo
em sua direção, mas não importa. ele tem de correr. não pode se dar ao luxo de
olhar para trás.
cesário chega à almofada, salta sobre ela, reza uma prece desconjuntada
pedindo ventos favoráveis e, com a lasca de marfim, corta a corda!
solto, o balão dispara, acelerando, rumo ao éter do espaço. a ascensão, no
entanto, não é perfeitamente perpendicular mas, por causa do vento, oblíqua; três
segundos após cortar as amarras, cesário está a treze metros de altura, bem
próximo e um pouco abaixo da tribuna de honra do coliseu. nessa aceleração, o
vento e a chuva são como agulhas em seus olhos, um zumbido infernal em seus
ouvidos.
aproveitando o impulso da almofada para aumentar o ímpeto de seu salto,
ele se lança na tribuna. cesário mantém os braços diante do rosto, cabeça baixa, o
pedaço de marfim marciano firme nas mãos, agora como um escudo improvisado;
e é com o chifre que ele atinge o andróide, em cheio, no peito!
enquanto rolam em meio às almofadas e tapetes do luxuoso camarote,
cesário usa o marfim para cortar alguns dos cabos que ligam a cabeça do andróide
ao corpo, paralisando o homem-máquina no mesmo instante em que nephren-ka,
recuperado da surpresa, começava a cravar os dedos de aço na carne nua ao redor
da espinha de seu oponente, preparando-se para arrancá-la.
o zumbido dos circuitos de auto-reparo é inconfundível. cesário sabe que
terá trinta segundos, um minuto e meio, no máximo.
nesse tempo ele retira o cinto de teletransporte do torso da máquina, usa
sua faca improvisada para desarmar a princesa anh-ankh-ah – que salta sobre ele
com uma adaga curva nas mãos e recebe um corte profundo, na base do polegar,
em resposta –, toma-a nos braços, usa-a como refém para deter os guardas que já
chegam ao camarote, ativa o cinto e, juntamente com sua alteza, desaparece.

***
certificando-se de que chas não está mais em condições de lutar com quem
quer que seja, x-10 cruza a passagem e entra num um corredor estreito. há outras
duas portas nesse trecho – uma ao final, e outra, perpendicular, à esquerda, na
metade do caminho. um ruído incessante, uma sucessão ritmada de batidas
mecânicas, precisas, vaza da porta ao fundo.
x-10 se dirige para lá.
ao chegar, o agente toca a superfície de madeira. ela vibra, em
concordância com as batidas que vêm do outro lado. algo nesse padrão o faz
pensar nas antigas centrais de telex, com suas máquinas de escrever automáticas,
ou nas velhas compositoras de texto eletromecânicas. mas 1888 ainda é muito
cedo para isso, não? x-10 é incapaz de afirmar com certeza. É impossível para
qualquer agente da empresa, mesmo um com implantes de ram e rom no cérebro e
pontos de armazenagem de dados na retina e no nervo auditivo – como ele – ter
em mente todas as linhas do tempo de todas as tecnologias já criadas.
impossível.
a porta está trancada, mas isso não é, realmente, um problema. x-10 tem
dúzias de gazuas implantadas por debaixo das unhas de seus dedos, da mesma
forma que as agulhas acumputrônicas. aliás, algumas das agulhas também
funcionam como gazuas.
a fechadura cede e estala logo na primeira tentativa. x-10 permite-se um
sorriso.
encostando o corpo ao batente à direita, x-10 estica o braço e, com um
gesto largo e largo, empurra a porta para dentro. ela gira em dobradiças bem
lubrificadas, e o som invade o corredor. É como um concerto para máquina de
escrever e telex, algo que poderia ter sido composto por beethoven – num dia em
que o alemão estivesse especialmente puto, e especialmente surdo. puro sturm-
und-drang, “tensão e tempestade”.
sendo um ciborgue, x-10 tem a opção de baixar o volume de seus ouvidos,
e é o que faz, ao mesmo tempo em que mantém varredura normal para sons de
alarme, como tiros, gritos ou passos.
ao não registrar nenhum desses por quase vinte segundos, x-10 entra.
a sala é dominada por dois enormes teclados, que batem sem cessar. um, à
esquerda, parece pertencer a uma máquina de escrever convencional, mas onde
cada letra é repetida em, pelo menos, menos quatro teclas diferentes – maiúscula,
minúscula, negrito, itálico – e onde há, também, teclas especiais para símbolos do
alfabeto grego, entre outros.
esta máquina trabalha numa espécie de formulário contínuo, que a
alimenta vindo de uma bobina presa a um eixo no fundo do aposento. o papel
contendo texto já processado se esparrama de forma desordenada pelo chão.
x-10 pega um trecho ao acaso e tenta lê-lo. a língua parece ser latina;
parece-se, mesmo, com o galego ou o português, mas não é nenhuma versão de
galego ou português que o agente já tenha encontrado em nenhuma de suas
viagens ao passado ou ao futuro. e há algumas letras e símbolos estranhos que
parecem substituir dígrafos como o “nh” (um “n” maiúsculo invertido), “lh” (o
beta minúsculo), o “ss” (sigma minúsculo), o “rr” (pi) e o “sc” (um “x” fechado
na base). a acentuação também é estranha.
ainda assim, ele consegue extrair sentido de algumas frases – “os agentes
do falso criador vieram à ilha do Éden e com perfídia destruíram o pai”; “o
adversário, se aproveitando de um instante de confusão, dividiu as raças sagradas
entre os diferentes mundos, separou os mundos com o véu da morte”; “os
criadores voltarão”; “sagrada melissa”; coisas assim.
depois de ler por mais algum tempo e de acessar referências em seus
bancos de memória, x-10 se convence de que está diante de uma literatura mítica
e escatológica – um gênese e um apocalipse – escrito sob medida para criaturas
meio-humanas, meio-feras, como as putains du mal e seus filhos.
mais do que isso, ele não vê muita dificuldade em reconhecer várias das
referências que encontra ali: a “ilha do Éden” é melissândia, uma rocha vulcânica
no meio do pacífico, onde um cientista louco, malcolm mcmurdock, realizava
experiências para “elevar” animais irracionais (seriam as tais “raças sagradas”?,
conjectura x-10) a um estado mais útil de servidão. mcmurdock só queria
escravos para seu projeto maluco de cavar um fosso até o inferno, mas isso a
versão autorizada não diz.
o “pai” é, certamente, o próprio mcmurdock. “sagrada melissa” seria a
filha do cientista, a menina que cresceu para ser dona de bordel e amante de um
príncipe eslavo. a dona deste bordel.
e ele próprio, x-10, é um dos “agentes do falso criador”. ao menos, ele se
lembra de ter sido um dos dois responsáveis pela morte de mcmurdock. o outro,
cesário corvo, pelo que x-10 sabe, ainda é prisioneiro numa das celas de luxo da
intempol.
em outras circunstâncias, x-10 tiraria um tempo para se sentir lisonjeado
por figurar como uma das principais forças satânicas de uma cultura qualquer,
mesmo em se tratando de uma mitologia obviamente artificial e mal-ajambrada.
mas não se pode ter tudo, certo?
agora, no entanto, um senso de urgência leva o agente a largar o texto em
português exótico e se debruçar sobre a outra máquina. esta é muito maior; tem
um número absurdamente alto de teclas. também é alimentada por uma bobina de
formulário contínuo, mas o papel que passa por este segundo teclado se move
bem mais devagar: são necessárias quatro ou cinco batidas, de teclas diferentes,
para desenhar cada caractere. o texto pronto não aparece sob a forma de linhas,
mas de colunas. e não se trata de um “texto” no sentido estrito do termo, mas de
uma intrincada seqüência de desenhos, representando pessoas, pássaros, plantas,
insetos, linhas retas ou onduladas, figuras geométricas e alguns outros símbolos.
hieróglifos.
um upload rápido convence x-10 de que se trata do livro de thoth-karnak,
antigo tratado egípcio acerca da ressurreição de múmias, reencarnação e da
possessão de corpos por espíritos errantes e almas penadas. ele se lembra de que
x-8 teve alguma experiência com o thoth-karnak durante aquele caso ridículo da
múmia.
x-10 não consegue deixar de considerar todos os casos de x-8 como
ridículos.
pare com isso!, pensa ele. não é hora.
se os dois livros estão sendo transcritos aqui, o agente raciocina, e não por
mãos humanas, as máquinas devem estar “recebendo o ditado” – sendo ativadas –
por uma cpu, ou conjunto de cpus, montada nas proximidades. transmissão sem
fio? no século xix? difícil, mesmo com conhecimento tecnológico trazido do
futuro. então...
sabendo o que procurar, x-10 logo encontra os cabos, ocultos por um friso
de gesso, discreto até, que percorre as duas paredes laterais do aposento,
desaparecendo assim que tocam a parede do fundo.
e esta é uma parede nua, uniforme, pintada de azul.
encontrar o dispositivo que abre a porta oculta na “parede uniforme” é
brincadeira de criança para os sensores especiais nos olhos de x-10. tocado o
mecanismo correto, a porta do gabinete gira, obediente.
lá dentro, num nicho que é pouco mais que um cubo de meio metro de
lado cavado na parede, o objeto da missão de x-10: a cabeça do andróide
adamastor.

***

x-8 considera, por alguns minutos, qual a verdadeira natureza do enigma


que tem diante de si. ele sabe, ou tem ótimas razões para crer, que retirar os rubis
da mandíbula de pedra poderá lhe custar uma mão, ou ambas, ou a vida.
por outro lado, ele lentamente se convence de que, na verdade, não há
nenhum motivo concreto para remover os rubis. qual a garantia de que colocá-
los nas órbitas vazias do crânio irá abrir a passagem no fundo da caverna?
nenhuma, o agente diz para si mesmo.
qual a garantia de que, fazendo isso, não vou acabar ativando uma nova
série de armadilhas?ou um alarme?
nenhuma, repete. aliás, o fato de a máquina do tempo de pedroso ter sido
desmontada só reforça a idéia de um alarme embutido em algum lugar da caverna,
talvez como parte do mecanismo de abertura da passagem.
então, cacete, por que não usar o explosivo plástico que trouxe no forro
da jaqueta, e pronto?
depois de uma pausa mais longa, e um tanto quanto a contragosto, vem a
resposta:
porque você vai precisar dele mais adiante, espertinho. lembre-se das
instruções de m.
com um suspiro, o agente abre a jaqueta e tira de dentro dela não o
explosivo, mas uma das duas barras de ferro arrancadas da janela da hospedaria.
usando a barra para garantir que a boca de pedra permanecerá fechada, ele estica a
mão esquerda e pega os dois rubis.
o metal range sob o esforço do mecanismo oculto na mandíbula. a pressão
faz com que a pedra se esfarele ao redor dos dois pontos em que a barra está
apoiada, no “queixo” e no “palato” da escultura. com o visor noturno dos óculos
especiais ligado, x-8 vê as partículas de pedra moída como um breve enxame de
pontos de luz.
um novo enxame de luz, pequeno, surge bem no centro do crânio
esculpido. um lugar onde não há atrito entre rocha e metal – isto é, nenhum...
numa reação rápida, x-8 tomba o corpo para o lado antes que o
pensamento – nenhum que eu saiba – se complete. os dois dardos disparados
pelas cavidades nasais do crânio de pedra e passam pouco acima da curva do
pescoço do agente; um deles vara a costura que liga o ombro da jaqueta à manga.
as agulhas envenenadas vão se cravar na testa do cadáver de pedroso.
– sorry, colega – diz x-8, falando por cima do ombro rasgado. – a vida é
mesmo uma merda, né?
colocados nas órbitas da caveira de pedra, os dois rubis ficam ali, um par
perfeito de olhos sangrentos, por alguns instantes. o visor noturno de x-8 faz com
que tudo pareça verde, preto ou branco, e para ele os rubis, nessa posição, são
como esmeraldas gêmeas na cabeça de um marciano.
logo em seguida, porém, as gemas são como que tragadas pela escuridão.
caem para trás e para dentro do crânio. a esse movimento súbito segue-se uma
sucessão de tremores e estalos. x-8 olha para o fundo da caverna: a grade de pedra
se move.
os rubis logo reaparecem dentro da mandíbula da caveira, caindo na boca
aberta como moedas no prato de um caça-níqueis. simultaneamente, a abertura da
grade atinge sua amplitude máxima e começa já a se fechar. sem espaço para
correr e sem tempo para se levantar, x-8 rola o corpo por baixo da abertura e deixa
a caverna, projetando-se no túnel além.
ele é forçado a rastejar por alguns metros, até chegar ao ponto onde o
fosso de ventilação, estreito, intercepta um dos túneis propriamente ditos. depois
de espreitar à direita e à esquerda, x-8 desce, com cautela, de seu nicho na parede.
mais uma vez capaz de parar em pé e de se movimentar à vontade, o agente
aproveita para pôr o equipamento em ordem: recarrega a derringer com um novo
arpão, rebobina o fio, tira a faixa de tecido com os shurikens de cerâmica
biodegradável do bolso, remove a proteção da camada adesiva e gruda a fita de
pano na camisa.
o mapa projetado no visor indica qual deve ser o caminho a partir de
agora. também avisa sobre os pontos onde, segundo o antigo mapa de dananko i,
há armadilhas.
x-8 segue em frente por quase quarenta passos, quando chega a uma
divisão do túnel em seis caminhos possíveis – de volta para a caverna; em frente;
à direita ou à esquerda, num novo túnel; e para cima ou para baixo, em degraus de
bronze cravados na rocha.
o ponto de luz verde que orienta seu caminho diz que ele deve seguir em
frente, e é o que o agente faz, saltando por cima da abertura do túnel que desce. a
passagem segue em linha reta por mais uma dezena de passos, e então começa a
descrever uma curva suave para a esquerda. logo em seguida aparece outra
divisão do caminho em seis. desta vez, o ponto manda x-8 descer.
a escadaria termina no teto de um túnel que corta a rocha a um ângulo de
45º com a passagem pela qual o agente vinha andando. x-8 se volta na direção
indicada pelo visor e prossegue. depois de pelo menos uma centena de passos (e
de, graças ao visor, evitar pisar em duas armadilhas), o túnel é cortado por um
outro, vertical.
mais uma vez, a ordem é descer, e ele obedece.
só que esta escada não leva a um novo túnel, mas a uma câmara – um
espaço cúbico escavado no seio da montanha. o ar ali dentro parece um pouco
mais pesado do que nas partes do labirinto por onde x-8 já passou; há algo de
amargo na atmosfera.
talvez, x-8 pensa, os dois esqueletos ali no canto tenham algo a ver com
isso.
os ossos mal são visíveis. estão, quase todos, soterrados debaixo de uma
pilha de pedras amontoada junto à parede – x-8 consulta a bússola no canto do
visor – noroeste da câmara. o agente supõe que sejam dois porque há quatro mãos
aparecendo por entre as pedras. no chão, uma adaga de fio duplo, ponta que, se
não estivesse quebrada, seria fina como a de um alfinete, e base larga, bojuda:
lâmina triangular, do tipo que, se enterrada até o cabo, deixa um corte quase
impossível de cicatrizar. uma arma de assassinos.
a câmara tinha sido um posto de guarda das masmorras, ainda quando o
castelo era propriedade dos hereges do islã. alguma coisa, talvez um terremoto,
fez uma parte do teto ceder junto ao duto de ventilação (usando a definição
máxima do visor, x-8 consegue ter uma idéia do contorno da rachadura na parede,
por trás da pilha de pedras), matando os dois guardas postados aqui.
com o tempo, a existência da guarita e de suas duas vias de acesso – o
túnel no teto e a porta secreta que abre num dos corredores do labirinto, o
corredor que os assassinos mortos deviam vigiar – caiu no esquecimento.
tirando os olhos da pilha de escombros e dos restos mortais, x-8 se volta
para a parede onde está a porta secreta, agarra uma maçaneta colocada a pouco
mais de um metro e meio de altura e, com esforço, desloca a placa de rocha
esculpida que bloqueia a visão do corredor externo. segundo as informações
carregadas no visor, esse túnel já faz parte das masmorras atualmente em uso.
o corredor está vazio.
rapidamente, x-8 executa a seqüência de toques e movimentos que ativa os
pesos e contrapesos ocultos responsáveis pela abertura da porta. ele espera que
toda a parede nordeste do cômodo deslize para a frente e para fora. logo um
chiado, como um suspiro de alívio, se faz ouvir e a parede se põe em movimento
– mas para dentro.
o agente ouve um segundo suspiro, olha para trás e vê que a parede oposta
também se move em sua direção!
um estampido atrai sua atenção para o teto da câmara: um disco de rocha
sólida fechou o acesso ao túnel no teto.

***

surpreso, meio apalermado, cesário corvo percebe que se materializou


numa das savanas micetocíticas de marte. os fungisporos enraizados, com seus
longos cabelos verdes, ondulam ante a brisa suave do início da tarde, inclinando-
se como agulhas rútilas sob o sol.
o brigadeiro teria se dado por feliz ante o simples fato de não ter mais de
suportar a chuva contínua, mas acontece que não era em marte que ele queria
estar: ao arrancar o cinto de nephren-ka, ele havia apertado o botão de retorno
automático, que deveria levá-lo de volta à sede da intempol, no outro universo.
cesário contempla o dispositivo de teletransporte em suas mãos, olha para
a face externa da faixa de metal flexível, blindada, e para a interna, onde passam
os circuitos do aparelho.
esses circuitos estão todos fundidos.
com um grunhido que é parte náusea, parte desapontamento, cesário corvo
lança o cinturão inútil para longe de si. e agora?, pensa. ele estava contando a
certeza de chegar a um porto amigo, com a possibilidade de pedir reforços, cobrar
explicações. alguns segundos se passam antes que o aventureiro se dê conta de
outro fato estranho: a princesa não se materializou junto com ele.
cesário se lembra claramente de tê-la agarrado poucos instantes antes de
acionar o retorno automático. ele a havia segurado diante de si, usado a princesa
como escudo: as costas nuas e secas da mulher coladas a seu peito (também nu, e
molhado, mas não é hora de pensar nisso). a bolha de distorção criada pelo cinto
com certeza envolveu a ambos. do contrário, parte do corpo de corvo – no
mínimo, os cabelos do peito; mais provavelmente, um braço inteiro – teria ficado
para trás, junto com o restante da massa não-deslocada.
o mesmo vale para a hipótese de a princesa ter sido jogada para algum
outro lugar: o braço de cesário, com a espada improvisada de chifre de moag, teria
seguido o mesmo caminho.
mas o braço ainda está ali, ligado ao ombro com a mesma solidez de
sempre. e o chifre, também.
e então o brigadeiro nota que a náusea que sentiu ao chegar a marte tem
outras causas, além da consciência do fracasso de seu plano de buscar socorro. o
dedo mínimo de sua mão esquerda move-se sem controle, como a perna de um
sapo ligada a uma pilha galvânica. os pêlos que cesário tem nas costas, entre os
ombros, estão arrepiados. e há algo no ar – parece um cheiro, mas corvo sente
isso com o corpo todo, não só com o olfato – que causa uma vaga sensação de
deslocamento.
mesmo depois de uma década como prisioneiro da intempol, cesário corvo
ainda tem muito do brigadeiro-general da marinha etérea para falhar em
reconhecer, se não o fenômeno em si, ao menos o substrato em que atua.
o éter luminífero. o pano de fundo desta realidade. a tela sobre a qual foi
pintado todo o universo.
o éter está mudando.

***

depois de usar a espada embutida na bengala para cortar todos os fios,


arrancar a cabeça de andróide de seu nicho, destruir as duas máquinas de escrever
e reduzir os dois textos a confetes e frangalhos, x-10 deixa a sala pela mesma
porta por onde havia entrado, retornando ao corredor. ele leva a cabeça de
adamastor debaixo do braço esquerdo, e segura a espada desembainhada no
direito. o cilindro de aço que lhe servia de bengala e ocultava a lâmina da espada
vai pendurado numa alça especial, costurada por dentro do sobretudo, aberto para
melhor fluir com as sombras.
o agente tem ordens de sair da base inimiga antes de se deslocar no tempo,
para evitar que a taquionicidade estática criada no local seja detectada pela
oposição. e taquionicidade estática – um arrepio na base no crânio, como se uma
mão gelada lhe agarrasse a nuca – é exatamente o que x-10 sente ao passar pela
porta fechada localizada à sua direita, no corredor.
– entre, homem da intempol! – diz uma voz, vinda de trás da porta; uma
voz infantil, tosca, como as primeiras palavras de um bebê. mas alta: bastante alta.
– não vai terminar a sua missão?
em vez de entrar, x-10 decide correr: não faz sentido arriscar a missão
desse jeito. ele chega rapidamente ao fim do corredor e à grande antecâmara
circular. lá, dawson dog, armado com uma pistola, o espera.
– pare! – grita o canzarromem.
x-10 não lhe dá ouvidos. em vez disso, mergulha, ao mesmo tempo em
joga a cabeça da adamastor com força para a frente, atingindo dog em cheio na
pata direita. isso faz o grande beagle gemer de dor e largar a arma. enquanto a
pistola se projeta em direção ao piso, o agente abete com o antebraço esquerdo no
chão, gira, cai sobre os próprios calcanhares, arrebata a cabeça metálica em pleno
ar e em seguida projeta-se para cima, rente ao corpo de dawson, desferindo um
golpe largo com espada em riste. a lâmina rasga o lado esquerdo do focinho do
beagleman e vaza-lhe o olho.
dawson dog emite o ganido atemporal do cão que se descobre traído pelo
homem. sua pistola toca o piso no mesmo instante em que o eco do gemido
começa a reverberar pela cúpula da câmara subterrânea.
x-10 está novamente em pé e não perde tempo limpando a ponta de sua
lâmina: chuta a arma do cão para longe ao mesmo tempo em que corre em direção
à saída. o agente está a dois passos da passagem quando a abertura é bloqueada
pelo vulto de um gorila em posição ereta.
não, não é um gorila, x-10 se corrige: é o tal larsen.
x-10 tem mais de um e oitenta de altura; larsen, o agente estima, deve estar
na faixa dos dois metros. x-10 é magro e esguio; larsen é uma massa compacta de
músculo. x-10 está armado com uma espada fina, quase um florete; larsen carrega
um cutelo tão longo quanto o próprio antebraço.
moleza, pensa o ciborgue da intempol, ao mesmo tempo em que gira o
corpo para escapar do primeiro golpe de cutelo. a lâmina passa zunindo por seu
corpo, e amputa uma das abas do sobretudo.
– agora você me irritou, marujo – diz o agente.
larsen dá uma rápida olhada ao redor. vê chas caído junto à parede, com a
espinha partida, e dawson dog de joelhos, trêmulo, tentando aparar o olho que lhe
escorre pelo focinho.
com um esgar, o gigante mostra a x-10 quem, afinal, está realmente
irritado.
– nada pessoal, rapaz – responde o ciborgue, meio apologético, com um
sorriso.
e ataca.
larsen repele a estocada com um golpe sólido da parte cega da lâmina do
cutelo, desferido com tanta força que por pouco não arranca a espada das mãos de
x-10. o agente fica desorientado durante uma fração mínima de segundo, tempo
suficiente para que larsen lance o punho esquerdo, fechado, em direção a seu
rosto. x-10 recua, escapando do murro esmagador por poucos milímetros.
agora a iniciativa está com o gigante, e x-10 mal pode acreditar na própria
sorte quando vê larsen erguer o cutelo sobre a cabeça, com as duas mãos no cabo,
preparando o golpe clássico da decapitação. aproveitando a exposição do tórax
nu, o ciborgue dá um passo rápido adiante e mira no peito. mas larsen gira o
corpo, com muito menos elegância mas o mesmo propósito do matador que se
vira para escapar da investida do touro. onde antes estava o alvo agora não há
nada; x-10 não consegue deter o próprio ímpeto e, enquanto a lâmina da espada
corta o ar, o cabo do cutelo desce, com força, sobre a nuca do agente da intempol.
após um golpe desses, um ser humano normal teria morrido com o
pescoço quebrado ou, no mínimo, ficado tetraplégico, com partes da coluna
cervical esmagada. x-10 apenas perde os sentidos.
e isso, nem por muito tempo: seu relógio interno lhe diz que se passaram
menos de vinte minutos quando acorda, acorrentado a uma cadeira metálica, num
aposento decorado como um típico quarto de criança da era vitoriana, com
soldadinhos de chumbo e bonecas de porcelana na estante (a única nota estranha é
o cavalinho de pau flutuando de cabeça para baixo a uns dois metros do piso)
diante do berço de um bebê.
– bem-vindo ao mundo dos vivos, homem da intempol – diz o bebê.
x-10 olha ao redor, e quando isso falha fecha os olhos, dando total atenção
a seus sentidos aguçados ciberneticamente.
– eu lhe garanto que você não vai detectar nenhum microfone, ou qualquer
outra dessas tecnologias que ainda não foram inventadas – afirma a voz que vem
do berço – É difícil falar com uma boca tão pequena, e sem dentes, mas eu me
viro como posso.
os soldadinhos de chumbo nas prateleiras começam a se mover: alguns
dançam, outros cambaleiam. um deles arranca o vestido de uma das bonecas e
enfia o fuzil entre as pernas de pano uma duas, várias vezes.
– onde estão os outros dois? – pergunta a criança.
– dois? que dois?
– os homens da intempol que mataram minhas encarnações em 1541,
1999, 1207, 111, 45 ac e em um monte de outras épocas, também. eu achei que
estava sendo esperto ao transferir minha consciência para a cabeça do andróide,
mas pelo jeito vocês me alcançaram aqui, também. coisa mais cansativa. sabe o
trabalho que dá escrever dois livros sagrados ao mesmo tempo?
devagar, as coisas começam a fazer sentido para x-10. ele diz:
– você é...
– anendjib ii, faraó do egito. infante dananko xiv, herdeiro presumível do
trono de slistrávia. naphren-ka, feiticeiro maldito. em vias de me tornar
adamastor, andróide transdimensional. não seja tímido. escolha.
– eu diria que você tem um problema grave de identidade.
– acontece, quando a gente não se adapta direito a nenhum corpo. o da
criança nunca me suporta por muito tempo. o soldadinho já está sodomizando a
boneca?
x-10 olha para a estante antes de responder:
– já.
– oh, Ísis e osíris. menos de uma hora, e... viu como é? o poltergeist já
começou. logo, vou ter de ir embora. eu poderia forçar uma reencarnação estável
se conseguisse produzir uma cópia do livro de thoth-karnak, mas com a sua
empresa eliminando cada um dos meus hospedeiros possíveis ao longo da
história, fica difícil...
– desculpe.
– não se desculpe. eu sei como é. ordens, aquela coisa toda. foi você quem
armou pra despachar o velho mcmurdock, não foi? ora, não faça essa cara. eu
estava lá. em espírito, claro. para melissa podem ter se passado dez anos, mas para
mim, foi há dez minutos. comparativamente, a última vez em que a intempol me
matou, setenta anos no futuro, foi há meia-hora. estar solto no tempo é uma coisa
curiosa, principalmente quando não se tem forma física: há coisas que eu ignoro
agora mas que vou saber quarenta anos atrás, por exemplo. mas, no final das
contas, para o ego o tempo é sempre linear. nesse aspecto, embora eu conheça
muito do futuro, sempre serei incapaz de saber o meu futuro pessoal. não é bem
curioso?
– na verdade, é bastante óbvio.
– você chegou a ler o que eu estava escrevendo na outra sala?
– o texto em português esquisito? um pouco. temo que meu egípcio antigo
esteja meio enferrujado, porém.
– ah! não importa. eu gostaria de saber se você, por um acaso, se
reconheceu...
– ... como o judas/satanás do seu evangelho para os homens-fera? sem
dúvida. muito lisonjeiro.
– maravilhoso! – o bebê bate palmas e balança as perninhas roliças. – mas
não gosto da expressão “homens-fera”. estou pensando em outra coisa...
teratossapiens, talvez. que tal?
– “teratos” é monstro, em grego. “sapiens” é latim para “sábio”. a palavra,
desse jeito, fica meio bastarda. não acha?
– ora! um purista!
apesar das correntes, x-10 consegue se mover o suficiente para encolher os
ombros.
– foi você quem perguntou.
– verdade.
– você pretende engabelar os “teratossapiens” de melissa com a balela do
livro?
– não. não os dela. não imediatamente, digo, mas as futuras gerações, sim,
sem dúvida. e, com a ajuda deles, e com o livro, vou fomentar uma revolução a
um universo de distância. sabe, se minha vida como faraó e meus passeios pelo
milhão de anos de vida humana, e pré-humana, sobre a terra me ensinaram
alguma coisa, foi que criaturas sapientes estão sempre dispostas a matar ou morrer
por uma mitologia. É tudo uma questão de cozinhar a lenda apropriada para o
povo em vista.
– “um universo de distância”, você disse?
– claro! assim que eu terminar a engenharia reversa na cabeça do meu
querido adamastor. É engraçado... lá estava eu, depois de escapar dos yithianos,
esperando o momento em que mcmurdock iria violentar a filha, pronto para fundir
minha essência ao óvulo... esse incesto era minha única chance de voltar ao
mundo material por meio de uma reencarnação legítima, estável... e lá vêm os
dois, você e aquele outro cara. aí eu passo a vagar pelas eras, cometendo
possessões temporárias aqui e ali, e sempre aqueles outros dois sujeitos
cometendo infanticídio, homicídio ou o que quer que seja, para me impedir de
reescrever o encantamento. uma perseguição e tanto.
– talvez esse seu plano de exilar todas as almas desta linha temporal e
substituí-las por fantasmas não seja do nosso agrado.
– a carne não deveria ser um privilégio de poucos...
– a população não é suficiente...
– a carne não deveria ser um privilégio de poucos. mas, já que é, qual o
problema de se lutar por ele? e eu realmente não deveria estar bravo com sua
empresa. ao impedir minha encarnação legítima, vocês colocaram uma tecnologia
incrível à minha disposição.
– a cabeça do andróide?
– a cabeça do andróide.
– e como você colocou melissa nessa?
– nas palavras de horácio: “somnia, terrores magicos, miracula, fargas,
nocturnos lemures, portentaque”.
– você assombrou menina com agouros, monstros e pesadelos até ela
resolver colaborar?
– exatamente. afinal, o que mais um fantasma pode fazer? o fantasma do
pai. o fantasma do filho não-nascido. o fantasma... bem, um fantasma pode ser
vários. e eu tenho meus outros amigos desencarnados.
– cúmplices.
– como queira.
– você está indulgente, hoje. isso não bate com o que temos em nossos
arquivos.
o bebê ri. o cavalinho de pau, agora, relincha. o poltergeist está ficando
mais sério.
– e por que eu não estaria me sentindo indulgente? hoje é um grande dia!
– verdade?
– sim, sem dúvida! sua visita foi uma surpresa não só prazerosa em si, mas
também de valor inestimável.
– mesmo? – o cavalinho relincha mais alto. outra boneca começa a ser
estuprada, desta vez por um palhaço de madeira e renda. x-10 sente um novo
desconforto, que não é causado apenas pela pressão das correntes.
– claro! a tecnologia proibida que estou trazendo do futuro, mais a que
venho extraindo de adamastor, é preciosa, mas não suficiente. foi muita bondade
sua, portanto, colocar os circuitos secretos da intempol ao meu alcance...
o bebê ri. o palhaço goza. a boneca chora. o cavalinho? o cavalinho
gargalha.

***

usando as pedras deslocadas pelo desmoronamento antigo, x-8 luta para


calçar as paredes que deslizam em sua direção. ele obtém um sucesso temporário
– a faixa infravermelha do visor mostra a energia dissipada pelo esforço da
armadilha em se fechar, e não parece lógico supor que o calço vá agüentar o
tranco por muito mais tempo. o som de rocha triturada já é perceptível.
o duto de ventilação também havia se fechado, juntamente com o acesso
pelo teto, mas ao remover as pedras x-8 expõe uma grande rachadura, ou rasgo,
no fundo da câmara. trata-se de um vão mais profundo do que largo, e o visor não
é capaz de mostrar ao agente o que há do outro lado. virando o corpo de lado e
mantendo as costas rentes a uma das laterais do vão, x-8 é capaz de penetrar nesse
espaço, e é isso que faz.
depois de dez ou doze passos cautelosos, andando de lado, como um
caranguejo, o agente chega a um alargamento modesto da passagem – agora, o
corredor tem amplitude um pouco maior que a de seus ombros. no passo seguinte,
o chão desaparece de debaixo de seu pé direito.
x-8 só não se projeta no abismo porque o pé esquerdo ainda tem apoio
firme. mesmo assim, o peso de seu corpo já está redistribuído, em equilíbrio
precário, e para evitar a queda ele é obrigado a se jogar com força para a direita,
atingindo a lateral do fosso e cambaleando para trás. À surpresa vem se somar um
breve instante de vertigem, mas no momento seguinte o agente já está estudando a
abertura com seu visor.
trata-se de um fosso cilíndrico, de bordas ásperas e estreito, com largura
igual à do corredor onde o agente está. essa abertura vara o chão e o teto da
passagem, e põe fim a ela. o jogo de sombras sugere que túneis perpendiculares
interceptam o fosso vertical a diferentes alturas, acima e abaixo.
o cursor do mapa projetado no visor desapareceu; provavelmente, o
computador está recalculando posição e trajetória, agora que x-8 perdeu acesso à
rota original.
movendo-se com cautela, x-8 se senta na beira do abismo, estica as pernas
até que elas toquem a margem oposta, firma a sola das botas na parede rugosa do
fosso e, com mais cuidado ainda, baixa o corpo na abertura, mantendo os joelhos
sob tensão e as costas rentes à parede vertical.
sentindo pés e ombros firmes, o agente começa a, lentamente, baixar o
corpo rumo ao próximo túnel horizontal.
em condições normais, e com os trajes acolchoados que está usando, x-8
não consideraria o exercício especialmente extenuante. mas depois de uma noite
inteira de acrobacias e escaladas, o cansaço começa a aparecer. nos últimos
quarenta centímetros antes da abertura do túnel, o agente já imagina o paraíso
como um lugar onde é possível ir de um andar ao outro por meio de escadas – ele
nem sonha com elevadores ou escadas rolantes: apenas, escadas.
a transição do túnel vertical para o horizontal requer, ainda, um esforço
extra. com um gemido, x-8 afasta as costas da parede do fosso, ao mesmo tempo
em que mantém as mãos firmemente apoiadas ali e, esticando os braços, dobra os
joelhos ao máximo. bagas de suor escorrem por suas têmporas, e ele trava uma
luta selvagem contra o impulso de usar as mãos para enxugá-las.
dando dois passos para cima ao mesmo tempo em que desliza com as
mãos para baixo, esticando ainda mais os braços e contraindo ainda mais as
pernas, o agente se coloca a uns 30º com a horizontal – posição em que seus
dedos já conseguem contornar a borda superior do novo túnel. no que diz respeito
às mãos, seu peso está, neste momento, todo apoiado na polpa entre o pulso e os
polegares.
um segundo depois ele solta de vez as mãos e cai, ao mesmo tempo em
que distende os joelhos com toda a força, aproveitando o último instante de atrito
entre as botas e a parede do fosso para, literalmente, saltar para dentro do túnel
horizontal.
x-8 aterrissa sobre os próprios ombros, em meio a um turbilhão de suor,
vertigem lutando contra a concentração intensa necessária para manter a cabeça
erguida e, assim, evitar que todo o peso do corpo caísse sobre o pescoço.
mas o movimento não termina aí: mal seus ombros tocam a rocha, x-8 joga
as pernas para o alto, o corpo para trás, rola, gira e está em pé, olhando, primeiro,
para a boca do túnel oposto (vazio) e, sem seguida, para o interior da passagem
em que se encontra.
alguém se aproxima, correndo.
atirar primeiro e perguntar depois não é exatamente a política favorita de
x-8, mas nessas circunstâncias ele não vê motivo para agir diferente. num gesto
quase displicente da mão direita, retira um shuriken da faixa adesiva sobre o peito
e o arremessa com precisão fatal, atingindo o estranho em cheio, na garganta. o
impacto arranca a vítima do chão, e ela cai de costas, com os pés para cima.
o monitor de sobrecarga do visor começa a piscar. o agente retira os óculos
de aviador, e nota que há luz, luz abundande, fluindo do fundo do corredor, de
onde quer que o homem morto tenha vindo.
o agente corre até o corpo. É uma figura curiosa: um crocodilo do nilo em
forma humanóide. x-8 se lembra de ter sido alertado para a possível (não,
provável) interação com homens-fera antagônicos, ao longo da missão.
em contato com o sangue que borbulha da garganta cortada, o polímero
ultra-resistente do shuriken começa a sublimar. logo não haverá traço algum da
arma usada no crime. ou execução. ou luta. nesses casos, a definição é sempre
incerta.
com o olhar frio do profissional esforçado, x-8 nota que seu arremesso só
não redundou numa decapitação completa e limpa porque a carapaça na nuca do
homem-crocodilo segurou a cabeça no lugar.
o crocodilo está nu, exceto por uma faixa cruzada sobre o tórax, da qual
pendem cartuchos de munição, um bolso com chaves e um coldre – dentro dele,
no que lhe parece uma coincidência agradável, x-8 encontra uma pistola mauser
modelo c96, sua arma favorita. o agente tem uma coleção delas no escritório,
incluindo um raríssimo protótipo de 1895.
ele retira a arma, um punhado de balas e as chaves do morto, e acomoda
tudo nos diversos bolsos de sua jaqueta.

***
– você realmente precisa fazer isso? ele é meu filho!
– ora, melissa querida... eu sou seu filho.
o ano é 1899. ex-prostituta, ex-dona de bordel, atual soberana da
slistrávia e mãe do príncipe-herdeiro, a viúva de dananko xiii olha para o rosto
da criança, um menino loiro, saudável de doze anos de idade. face que exibe um
sorriso mais antigo que a primeira das pirâmides, olhos que brilham com uma
luz como a das estrelas mais distantes, morta há milênios.
– você realmente precisa fazer isso? me torturar assim?
– preciso deste corpo, às vezes. para agir fora do castelo. você sabe.
– mas com meu filho!
– o pai pode ter sido um dananko, mas pelo seu sangue, melissa, ele ainda
é um mcmurdock. e você sabe o que a intempol faz com os homens da família
mcmurdock... você devia ser grata a mim.
– eu sou. eu sou!
– não fui eu que trouxe seu pai diante de você, mesmo depois da morte?
– foi...
– você me deve. por tudo que eu lhe ensinei em seus sonhos. pelos
conselhos que lhe dei. pela maneira como a protegi. e nega isto? alguns
minutos...
– e quando vamos estar seguros?
– em breve. logo o andróide estará pronto. a plantação vai bem. a
tecnologia que falta é quase nossa.
– tem certeza?
– absoluta.
– e você não vai mais roubar a vida de meu filho?
– depois que o andróide estiver pronto, eu não vou mais precisar tanto
dele. prometo.

***

imóvel, com os dois pés firmemente plantados no chão, cesário corvo tem
um violento acesso de... o quê? ele sente como se um punho gigante tivesse
agarrado suas entranhas e tentasse, agora, virá-lo pelo avesso. como se o cérebro,
liquefeito, lhe escorresse pelos ouvidos e nariz. “náusea” não basta para definir
isso.
o cenário ao seu redor, o planeta marte, muda, treme, transmuta-se como o
fotograma de um filme de dupla ou tripla exposição. os ossos e as entranhas de
cesário parecem capturados por campos gravitacionais diferentes; seus músculos
fluem como a cera de uma vela acesa.
e, de repente, tudo está de volta ao normal. ou quase: agora, diante de
corvo, há uma mulher, vestindo a mesma armadura da princesa que ele acreditava
ter capturado na arena do coliseu em vênus.
mas esta não é a mesma mulher. a princesa era loira, de cabelos cacheados;
esta é morena, de cabelos lisos, retos. a princesa tinha olhos azuis; esta tem olhos
castanhos. e os olhos da princesa eram muito redondos; os desta mulher são
amendoados, não tão estreitos quando os de um oriental, mas quase.
a pele também é diferente, um pouco mais escura. e o corpo é menos
voluptuoso, mais atlético, também soberbo.
a mulher parece tão chocada quanto cesário. toca o próprio rosto, tateando
cada feição; puxa um punhado de cabelos negros até diante dos olhos, e solta um
grito de surpresa ao ver a cor. baixando a cabeça, contempla o próprio ventre, as
mãos, os braços.
– meu corpo! – grita.
cesário abre a boca para dizer algo, mas ela é mais rápida:
– este é o meu corpo! meu, afinal! não aquele espantalho desbotado! qual a
cor dos meus olhos?
– escute, eu...
– qual a cor?!
– castanhos.
– É o meu corpo!
rindo, chorando, agradecendo e soluçando, a mulher se lança na direção de
cesário, tentando abraçá-lo. ele a detém a meio caminho, agarrando-a pelos pulsos
com uma das mãos, ao mesmo tempo em que ergue a espada improvisada de
marfim de moag.
– escute aqui, moça – diz ele, pressionando a ponta do osso contra a
garganta de sua prisioneira. – que diabo está acontecendo?
– você me devolveu meu corpo! – a despeito da violência da ameaça, ela
está exultante. – depois de milhares de anos, ser eu mesma de novo, por
completo... anh-ankh-ah de fato, outra vez! como fez isso?
cesário corvo não faz a menor idéia, claro, mas decide que não há motivo
para partilhar sua ignorância com a mulher e, assim, correr o risco de destruir toda
a gratidão que ela parece estar sentindo. cauteloso, ele baixa a espada.
– eu conto se você me disser como posso fazer para libertar a população da
terra, de mercúrio, e do sistema solar exterior. eles também estão em tempo
suspenso por lá, em júpiter e saturno, imagino.
– libertar? como assim?
– o campo isoentrópico. deve estar sendo gerado em algum lugar, uma
antena em cada planeta, suponho. aonde estão?
– mas por que você quer desligar o campo?
– para libertá-los!
– libertar quem? como? – devagar, ela parece entender. balança a cabeça: –
eles estão todos mortos. todos os bilhões deles. mortos há pelo menos dezoito
anos.
cesário sente o sangue martelando em seus tímpanos. ele ouve, mas não
quer acreditar. insiste, gritando:
– o que você quer dizer com isso?
– bombas noóctonas. causam interferência destrutiva na faixa de onda da
alma humana. todos os espíritos deste sistema solar, com exceção dos do planeta
vênus, foram destroçados quando enviamos as bombas pelo portal, logo no início
da invasão. os corpos e as máquinas estão sendo preservados em tempo suspenso
apenas enquanto não ocorre a grande migração.

***
a cadeira é de aço fundido e está parafusada no chão de concreto. as
correntes são grossas. x-10 está nu e, embora tenha reduzido o feed-back
sensorial para aumentar a tolerância à dor, sente cãibras violentas nas coxas e nos
braços. há algo de pastoso no assento da cadeira e um início de assadura entre as
pernas, também, principalmente ao redor dos testículos.
o olfato está desligado para poupar energia mas, ao que tudo indica,
agente foi traído pela bexiga e pelo intestino, enquanto dormia.
o lugar é uma sala escura, ampla. a visão está rodando no modo básico,
infravermelho em matizes de preto-e-branco, e para não morrer de tédio x-10
acompanha a degradação cromática de um filete de sangue que escorre de seu
ombro e pela face interna do espaldar, do branco quase-intenso na abertura da
ferida, a 35º, até o preto retinto, à temperatura ambiente (13,2º). É incrível,
realmente inacreditável, como há tons intermediários de cinza. quem precisa da
cor, afinal?
pela milésima vez, o ciborgue pensa sobre como foi que algo assim pôde
acontecer. ele sempre havia se considerado invencível: nada, exceto a
decapitação, deveria ser capaz de derrubá-lo; nenhum ser humano poderia ser
mais forte, ou mais rápido; nenhuma tensão, nenhum ferimento, nenhuma doença
jamais estaria além da capacidade de compensação de sua cibernética endócrina.
nada, nenhum. palavrinhas bestas.
amarrado, nu, ferido e imundo, x-10 se lembra da pancada que o deixou
sem sentidos. dos três (ou seriam quatro?) babuínos que matou em sua tentativa
de fuga, de como arrancou a traquéia de um deles com a mão esquerda, e de como
usou a perna do segundo para espancar o terceiro. o marinheiro, larsen, não tinha
estado lá nessa última vez. a batalha havia sido travada contra as feras – dezenas
delas. jogando-se sobre ele como ondas ao rochedo, ou mariposas ao fogo.
números. a vantagem dos números.
a porta da câmara, ou masmorra, se abre. a escala de correspondência dos
tons de cinza do sensor visual de x-10 muda, do infravermelho para o espectro
visível, a fim de absorver melhor a luz que vem do corredor lá fora. por um
instante o branco desaparece da faixa visual, para evitar sobrecarga no nervo
óptico.
três homens entram. um deles é larsen, e carrega não mais o cutelo, mas
um bastão de madeira polida – bastão que x-10 já havia encontrado na sessão
anterior. o outro é baixo, magro, quase calvo, de feições nitidamente orientais.
veste um guarda-pó, de mangas compridas e que lhe cobre o corpo inteiro, do
queixo aos pés, abotoado no pescoço. esse segundo homem usa luvas e carrega
uma bandeja metálica. parece insone, o lábio treme, como se ele murmurasse
constantemente coisas para si mesmo, e volta e meia inclina a cabeça, muito de
leve e muito rápido, à direita e à esquerda.
x-10 reconhece os sintomas: esta é mais uma das vítimas “recrutadas”
pelos espíritos aliados de anendjib, forçado a uma vida de loucura e servidão por
um verdadeiro bombardeio de vozes, visões, fantasmas e pesadelos.
e o terceiro não é um homem, não no sentido estrito da palavra: é anendjib,
a cabeça de adamastor montada numa espécie de triciclo elétrico.
É o crânio de metal o primeiro a falar:
– e então? não vai me dizer aonde está?
– aonde está, o quê? – x-10 responde, o canto rasgado da boca curvando-se
numa caricatura de sorriso.
o bastão de larsen o atinge, em cheio, nas canelas, a força do golpe
calculada para ferir o osso, sem necessariamente quebrá-lo. mesmo com a
percepção da dor amortecida, x-10 sente uma onda de vertigem e náusea, e respira
fundo num esforço para engolir a bile.
– a caixa. com o circuito. aonde está?
– não tenho uma.
– doutor? – a cabeça metálica lança um olhar na direção do homem magro.
ele se aproxima, ao mesmo tempo em que larsen põe o bastão no chão e estende
os braços para pegar a bandeja. não há nenhum outro móvel na sala: apenas a
cadeira parafusada no chão.
a bandeja está coberta com um tecido grosso, feltro talvez. depois que
larsen a toma nas mãos, o “doutor” remove o pano, revelando uma fileira de
agulhas muito longas e finas, um bisturi e dois outros implementos que parecem
ser tesouras de desenho exótico, mas que o banco de dados implantado no cérebro
do agente logo identifica como sendo pinças especiais, uma usada para separar a
pele da carne e a outra, para raspar a gordura por baixo.
as agulhas, então, devem ser para marcar os terminais nervosos expostos.
– se você quer tanto a merda da caixa, ou do circuito, ou a puta que pariu –
diz x-10, a voz neutra, pausada, contradizendo o desespero evidente na escolha de
palavras – , por que não manda um dos seus fantasmas atrás do próprio inventor?
a cabeça de metal ri, produzindo um som que faz o agente antecipar a
sensação da agulha perfurando carne viva.
– armstead-gonzález? ele está protegido – responde o andróide. – muito
protegido. como você, aliás, bem sabe.
o crânio prateado então produz um som que é como um estalar de dedos, e
a esse sinal o pequeno oriental retira o bisturi da bandeja, pronto para começar.

***
o corpo do homem-crocodilo é pesado, mas x-8 não tem dificuldade em
arrasta-lo até a entrada do túnel e jogá-lo no precipício. o agente baixa seu visor
especial para acompanhar a queda, e percebe que o computador interno já
calculou uma nova trajetória até a fonte do sinal localizador. trajetória que o
forçará a seguir o corredor até a fonte da luz, da onde o crocodilo veio.
sem escolha, x-8 faz meia-volta e, mantendo-se rente à parede curva do
túnel, avança. a partir de alguns metros além do ponto onde o homem-fera havia
caído morto, a abertura se alarga e o piso de rocha dá lugar a uma superfície mais
macia, como terra compactada. um pouco mais adiante o solo já é de terra fofa e a
luz, branca e quente, inunda por completo todo o espaço ao redor, como num dia
de sol forte. debaixo de suas roupas pesadas, x-8 começa a suar.
mais dois passos, e ele está na orla de uma floresta. um jângal.
há passos e movimento por toda volta. o tecido especial da jaqueta e das
calças do agente logo se adapta às novas condições, ao mesmo tempo em que a
camisa e as roubas de baixo grudam em seu corpo, encharcadas pela umidade ao
redor. há tanta água na atmosfera que é quase difícil respirar.
tirando proveito da camuflagem automática e usando a mata como
cobertura, x-8 se esgueira em meio às árvores.
ele olha para o alto. a polarização das lentes de seu visor impede que x-8
seja ofuscado, e lhe permite localizar a fonte da luz que banha e alimenta o jângal,
várias dezenas de metros acima: fileira sobre fileira de lâmpadas solares, emitindo
luz branca intensa, com pequeno excesso de ultra-violeta.
de onde vem a energia? e que tecnologia é essa? o agente não se
surpreenderia se lhe dissessem que há um reator de fusão nuclear em
funcionamento no coração da montanha. e por que não? anendjib, ou nephren-ka,
tem idéias e conceitos de todas as eras a seu alcance. não todas as idéias e nem
todos os conceitos, senão sua vitória seria inevitável. mas uma quantidade
razoável de ambos, ao que tudo indica.
x-8 não se embrenha muito na mata: penetra apenas o suficiente para ter
uma boa chance de passar despercebido. ele não quer perder a parede da caverna
de vista: seu mapa diz que deve entrar numa porta que aparecerá nos próximos
cinqüenta metros.
enquanto caminha, o agente detecta perfumes e odores conhecidos em
meio à flora e, de repente, percebe que este não é um jângal qualquer, mas uma
plantação, ou um complexo orgânico de plantações, um ecossistema artificial
onde convivem, em harmonia, algumas das espécies vegetais mais exóticas e
perigosas.
e proibidas. foi para garantir a extinção de algumas destas espécies aqui
que afundamos a lemúria, lembra-se. pelo jeito, não bastou.
lótus negra. mandrágora. papoula. cannabis em diversas variedades,
incluindo não só a sativa, como a morituri. coca. tana.
as árvores, x-8 se dá conta, as árvores são todas de tana!
muito parecida com a palmeira comum, a árvore de tana concentra, em
suas folhas, uma molécula especial, rara pela energia única de suas ligações
químicas. assim como o óxido de alumínio, sob a forma de rubi, pode ser excitado
para produzir um laser, a substância da tana, sem ser radioativa em si, pode ser
levada a gerar perturbações no espaço-tempo capazes de interagir com a
assinatura eletromagnética da consciência – da “alma” – humana.
altas concentrações da substância podem ser obtidas a partir do
processamento das folhas. o método mais usado é a técnica artesanal de extração
do óleo de tana por prensagem a frio, com a subseqüente excitação das partículas
pelo calor. o “óleo fervente de tana” já foi usado mais de uma vez em rituais
obscuros, realizados para trazer os mortos de volta à vida – e com uma margem de
sucesso mais do que razoável, como x-8 bem se lembra.
o som de passos ao redor se torna mais intenso conforme ele caminha na
direção do fundo da caverna. logo, outros sons começam a se destacar – metal
contra metal, metal afiado contra matéria vegetal. fardos sendo empilhados.
e um cântico, baixo, de ritmo bem marcado. É como uma velha plantação
de cana, com as turmas de escravos resignados fazendo a colheita. x-8 desconfia
que, da forma como esta selva – jardim? – foi planejada, a atividade em si é mais
extrativista do que propriamente agrícola.
escondido atrás de uma moita, o agente vê um outro homem-fera – um cão
– pôr a foice de cabo longo de lado, amarrar um feixe de folhas verdes, recolher a
ferramenta e o fardo, apoiando um em cada ombro, e se pôr a caminho.
a caminho da onde? o que pode haver no fundo da caverna? x-8 forma a
imagem em sua mente: tonéis. destiladores. retortas, alambiques. fornalhas.
produzindo pó, óleo, resina. só pode ser isso.
É pensando no que pode significar, em qual pode ser o resultado de um
esforço sistemático, industrial, para processar as folhas de tana, que x-8
finalmente chega à porta indicada pelo mapa do visor.
ela se abre com facilidade. do outro lado há uma área estreita, com pouco
mais de dois passos de extensão, e outra porta. nesta há uma espécie de trava, mas
que x-8 não tem problema em desarmar.
do outro lado, o ar é seco e gelado. respirando fundo, x-8 entra numa
câmara frigorífica.
a porta se fecha às suas costas, movida por uma mola. o agente ouve o
estalo da trava caindo de volta no lugar e se põe em movimento. o frio intenso
agride seu corpo banhado em suor morno, mas ele não pensa nisso. no fundo, a
sensação lhe parece quase agradável.
a câmara é na verdade um corredor extenso, ladeado por estantes e
mostruários de vidro. há de tudo ali – espécimes vegetais, insetos, amostras
anatômicas retiradas de corpos humanos, de animais e de diferentes tipos de
híbrido, incluindo um bloco de vidro no interior do qual se vê um punho e dedos
dissecados, sendo a pele muito parecida com a de um cão mas a estrutura óssea,
quase humana.
há frascos cheios de substâncias multicoloridas, algumas congeladas,
outras em estado líquido.
a partir de determinado ponto, o corredor se alarga, formando uma área
maior, circular. no centro dela há uma mesa metálica sobre rodas e pendendo do
teto sobre a mesa, preso por um gancho, o corpo sem vida de uma criatura que, à
primeira vista, parece ser um tigre de bengala de seis patas – até que, fazendo uma
observação mais cuidadosa, x-8 conclui tratar-se de uma tentativa frustrada de
criar um tigre com tronco humanóide e braços, uma espécie de centauro felino.
seria um monstro perfeito para o jângal lá fora, sem dúvida. um guarda? x-
8 agradece aos deuses do cronoverso pelo fato de a experiência ter falhado.
a área circular se estreita novamente logo adiante, e depois de percorrer
um outro trecho, menor, de corredor refrigerado, o agente chega a uma nova porta
com trava e molas. mais uma vez ele a abre sem grandes dificuldades, e quando
ela se fecha ele se vê dentro de um aposento estreito, uma espécie de armário.
a temperatura ali é a mesma temperatura ambiente do restante da
catacumba, bem menor que no jângal, mas certamente não tão baixa quanto na
câmara refrigerada. nas paredes desse “armário” há uma série de gavetas de metal,
todas trancadas. elas estão marcadas com números, numa escala que vai de 311 a
333.
e 333 não é um número que x-8 goste de ver, não associado a uma
plantação de árvores tana.
resistindo à tentação de arrombar uma das gavetas, o agente se dirige à
porta oposta. o cursor de seu mapa quer que ele saia por lá, mas x-8 sente-se
subitamente cauteloso. ele entrou no frigorífico sem pensar duas vezes, mas
aquela gaveta marcada “333” faz com que o agente sinta uma coisa – a sensação
mais próxima de covardia que sua matriz genética e seus anos de doutrinação
subliminar permitem.
por isso, ele dirige todos os seus sentidos aguçados, e todos os sensores do
visor, para o lugar além da porta fechada. o visor não é exatamente capaz de
enxergar através de objetos sólidos, mas faz um bom trabalho, mesmo assim. seus
ouvidos não detectam nada além de uma seqüência rítmica de estalidos, como
uma máquina de escrever. no entanto, a resposta do visor é negativa no
infravermelho. uma máquina trabalhando sozinha?
x-8 sabe que, no fundo, não tem escolha. com um suspiro, abre a porta e
sai.
realmente, não há ninguém ali.
o lugar é uma mistura de escritório com laboratório.
num lado, à esquerda, há um conjunto de bancadas com ferramentas,
tornos e pequenas peças metálicas. cada bancada, separada da adjacente por uma
divisória de vidro – vidro com alto teor de chumbo, segundo análise do visor.
À direita há uma escrivaninha ampla, pesada, coberta por livros e rolos de
papel. atrás da escrivaninha e da cadeira (madeira sólida, espaldar reto, sem
estofamento) há uma lousa enorme, coberta de equações e diagramas.
o som rítmico que x-8 havia detectado de dentro do armário é mais alto
aqui. ele vem de uma série de pedestais espalhados por toda a área, havendo um
junto a cada bancada e um ao lado da escrivaninha. cada pedestal é uma coluna
cilíndrica de um metro e meio de altura, coberto por uma cúpula transparente de
vidro, dentro da qual funcionam, intermitentes, pequenas alavancas e chaves
metálicas. algumas dessas cúpulas também contêm pequenas luzes elétricas –
válvulas!
analisando-as mais de perto, x-8 percebe que, embora nenhuma delas
esteja imprimindo nada neste momento, todas as cúpulas possuem rolos de papel
em seu interior, e agulhas. ele percebe que cada uma delas é, na verdade, um
terminal de computação eletromecânico. muito mais avançados, certamente, do
que os eniacs e omnivacs que só serão inventados dali a décadas mas, ainda
assim, aos olhos do agente, de um primitivismo que tem algo de encantador.
se há papel e agulhas, a saída de dados deve ser por meio de fita perfurada,
x-8 pensa. mas, e a entrada?
a resposta está na escrivaninha, em meio ao caos de planos, cálculos e
documentos: um teclado de máquina de escrever, embutido na gaveta central. e há
outra coisa na escrivaninha, servindo como peso de papel. uma barra lapidada de
um palmo de comprimento, grossa, translúcida, de textura quase metálica, mas
um pouco pegajosa. a cor é um azul esverdeado, quase transparente. poderia ser
uma turquesa gigante, ou uma água-marinha. mas não é.
o visor já está dando o alarme, e o próprio microprocessador implantado
na retina de x-8, embora não tão eficiente quanto o de x-10 também já soa o sinal
de perigo. o “peso de papel” é uma barra de tanasina-333, o óleo de tana filtrado e
cristalizado numa configuração molecular precisa, específica.
x-8 olha ao redor com novos olhos, os sistemas de informática em seu
cérebro, nervos e no visor absorvendo, com um senso avassalador de urgência, o
conteúdo da lousa, dos papéis sobre a mesa, as peças nas bancadas, o próprio
ritmo dos computadores de chave e válvula.
a conclusão não demora: este lugar é um laboratório de desenvolvimento
de armas noóctonas. bombas de tanasina, capazes de apagar as almas de
populações inteiras, deixando corpos e edifícios intactos.
a consciência disso faz o agente sentir como se um buraco negro tivesse
sido aberto em suas entranhas, e o estômago agora caísse num fosso sem fundo.
todo seu corpo treme violentamente, e x-8 mente para si mesmo, atribuindo o
efeito às mudanças bruscas de temperatura por que havia passado até chegar ali. À
falta de sono e alimento, também.
“eles criaram uma máquina vai forçar a noosfera nativa para fora de sua
lt... ela vai ser obrigada a invadir o universo adjacente, e assim por diante: uma
cadeia de invasões e migrações em massa. o deslocamento final das almas de
todas as terras”.
foi isso que o comissário m lhe disse: a oposição havia criado uma
máquina para afugentar almas, não um arsenal de bombas para destruí-las.
será que m se enganou? ou o cronoscópio estava com dados errados? ou a
linha temporal sofreu mutação?
ou, o mais provável de tudo, o comissário não lhe contou toda a verdade.
x-8 conhece o chefe: m não é ativamente (ou obsessivamente) perverso, mas
também não deixa que um simples escrúpulo fique no caminho de uma
perversidade necessária. ou de um joguinho psicológico para deixar o agente em
questão um pouco mais, como se diz?, “motivado”? não. “afiado”.
bem, e se for este o caso: o comissário quer x-8 mais “afiado” para quê?
se uma pergunta como essa passa pela cabeça do agente, ele mal se dá
conta. x-8 está ocupado demais, reagindo. forçando seus processadores a
decifrarem o padrão de funcionamento do computador eletromecânico, para que
possa reprogramá-lo. forçando o visor a identificar constantes e fatores críticos
nas equações rabiscadas na lousa, para que possa alterá-los. forçando-se a planejar
e a pensar com frieza para não fazer nada que seja óbvio demais; nada que dê na
vista; nada que grite por correção.

***
– “portal”? “grande migração”?
– você pode me soltar?
cesário percebe que ainda está segurando a mulher pelos pulsos – e com
força, porque as mãos dela estão brancas, exangues. ele a solta.
– explique – ordena ele.
o brigadeiro-general cesário corvo, da marinha etérea, era um oficial e um
cavalheiro. jamais lhe passaria pela cabeça a idéia de ameaçar, torturar, ou matar
uma mulher a sangue-frio, nem mesmo para salvar a própria vida. mas este
cesário corvo é um homem diferente, e anh-ankh-ah não tem dificuldades em
perceber o fato.
– o que você já sabe?
– nada. muito pouco.
– É uma história comprida...
– não me incomodo. o tempo parou em todos os lugares para onde eu
gostaria de ir.
com um aceno da cabeça, ela começa:
– o espírito de meu esposo, o faraó anendjib ii, foi capturado, no início da
história da humanidade, em meu universo, pelos alienígenas que se
autodenominam a grande raça de yith. o corpo vazio de anendjib foi possuído pela
mente de um dos yithianos, que adotou o nome de nephren-ka. ao meu lado,
nephren reinou por décadas... mas finalmente fomos expulsos do egito por uma
revolução. o corpo de anendjib morreu e foi mumificado antes que a troca de
mentes pudesse ser desfeita. como resultado, a mente de meu marido permaneceu
prisioneira dos yithianos, no passado distante, com permissão para estudar os
arquivos da grande raça. quantos segredos! quanta glória!
– quanto entusiasmo! – corta cesário, sardônico. – continue.
– quando a essência do yithiano nephren-ka foi destruída... será destruída...
num dado momento do futuro, anendjib ganhou-ganhará a liberdade. ele havia
acumulado ... como já expliquei... grande conhecimento, grande potencial; mas
ansiava por um corpo físico. a intempol, temendo o poder latente de meu esposo,
interrompeu a linha de sucessão da única dinastia em que ele poderia reencarnar
com sucesso, a dos mcmurdock. mas então anendjib descobriu este universo, onde
a intempol jamais poderia tocá-lo, e então...
anh-ankh-ah segue explicando como anendjib ensinou outras almas
desencarnadas a viajar no tempo, como as instruiu a possuir corpos no passado
distante e a usá-los para criar máquinas, peças e tecnologias que ficariam ocultas
durante milhares de anos, até a hora certa, quando todos teriam a chance de voltar
à carne.
– ele me contou muita coisa em detalhes – ela explica. – afinal, fui a
pessoa mais íntima dele, durante sua única vida legítima. embora eu,
sinceramente, sinta mais saudades do nephren-ka de yith...
a princesa fala sobre como as maravilhas anacrônicas criadas no passado
foram reunidas, ao longo das eras, numa caverna escavada por debaixo de um
castelo, erguido no topo de uma montanha. como anendjib, impedido de
reencarnar num corpo geneticamente compatível, havia possuído centenas de
hospedeiros ao longo da história, para usá-los na reconstituição de um livro sobre
os segredos das almas, e como a intempol havia destruído cada um desses corpos.
– ele precisava do livro de thoth-karnak, do texto escrito sobre pairo ou
papel ou pergaminho, para tornar permanente a possessão de um corpo qualquer,
que não fosse naturalmente compatível. – ela diz.
cesário corvo ficou sabendo, então, que o faraó usara sua influência sobre
os espíritos, fantasmas e assombrações para convencer a mulher que teria sido sua
“mãe” – melissa mcmurdock – a ajudá-lo. que, sob a influência de sonhos
enviados por anendjib, melissa havia encontrado a cabeça de adamastor,
abandonada pelo próprio cesário sob as areias da ilha onde a jovem vivia em meio
aos homens-fera criados pelo pai. o faraó, depois de algum tempo, conseguiu
impor sua consciência ao cérebro artificial: sem o fruto do incesto do velho
mcmurdock com a filha, e sem o thoth-karnak, esta era a forma física mais estável
que ele poderia esperar conseguir.
o espírito egípcio também influenciara outros pontos da vida de melissa,
contando a ela uma versão parcial do papel da intempol na morte de seu pai,
alimentando nela um desejo de vingança contra a organização; o fantasma havia
interferido em sua escolha de amantes, e na decisão de ter um filho. esse filho
teria uma filha, explicou anh-ankh-ah, e no corpo da filha, ela, a rainha morta do
egito, havia reencarnado.
– uma rápida cerimônia, com o óleo sagrado da árvore tana, apagou a
personalidade nova e me permitiu viver de novo – diz anh-ankh-ah. – isso
aconteceu em 1921, pelo calendário daquele outro mundo.
– e ele não precisava do tal livro para isso?
– entre 1888 e 1915, ele conseguiu reconstituir o texto. nessa época ele
ficou saltando entre o corpo do filho de melissa, o homem que seria meu “pai”
nesta encarnação, e a cabeça do andróide. quando seus técnicos conseguiram criar
um corpo novo para adamastor, dananko xiv, assim “papai” se chamava, foi
descartado. o andróide, afinal, não envelhece. não precisa temer balas. nem
facas... e anendjib não estava interessado em ir pra cama comigo. não ainda: meu
corpo tinha apenas um ano de idade. eu estava feliz, mas queria minha forma
original de volta... o que consegui, graças a você!
– disponha. prossiga.
em 1912, ela continua, anendjib finalmente obteve sucesso, após décadas
de pesquisa, em abrir um portal entre seu mundo e o universo do império. os
conhecimentos do cérebro de adamastor eram insuficientes, porque se referiam às
leis da física do éter, e não do mundo quântico-relativístico, que era onde o faraó
vivia e trabalhava. a peça que faltava – ironicamente, o circuito de armstead-
gonzález, usado pela intempol – custou a cair nas mãos do fantasma egípcio.
usando esse portal, ele havia feito uma série de viagens secretas aos
mundos colonizados pelo império (a passagem dimensional permitia que ele se
materializasse aonde bem entendesse), plantando bombas e granadas noóctonas a
cada visita. isso havia ocorrido em toda parte, menos em vênus: anendjib queria
preservar os homens-lagarto, para usá-los como escravos mais tarde, quando as
almas renegadas da outra terra fossem trazidas para o império.
anh-ankh-ah também explicou que anendjib só era capaz de se
teletransportar de um universo para outro. o teletransporte dentro de uma mesma
realidade, como cesário lhe contou que havia feito, era uma novidade total.
– espere um minuto – diz corvo. – viagens entre realidades alternativas são
coisa comum para a marinha etérea. tudo bem, ele pode ter aparecido em geleiras,
florestas e desertos, onde jamais seria visto. mesmo assim, você está dizendo que
esse faraó violou nossa realidade territorial não sei quantas vezes, não só sem ser
visto, mas também sem que a assinatura energética da transição fosse notada!
como pode?
anh-ankh-ah dá de ombros:
– não faço a menor idéia. mas, lembre-se, era uma tecnologia híbrida, e
talvez isso tenha mascarado o sinal, se é que houve sinal. e anendjib tinha acesso a
todas as informações do banco de memórias do andróide. isso pode ter dado a ele
uma vantagem pra começar... satisfeito?
ele assente, ainda sem muita convicção, e ela segue explicando que,
embora o portal entre as duas realidades funcionasse muito bem para transportar
matéria, por algum motivo – aparentemente, uma falha no design dos circuitos da
intempol – espíritos desencarnados eram incapazes de atravessá-lo:
– esse foi um dos motivos que levou anendjib a induzir minha
reencarnação plena ainda na infância: ele queria me trazer para cá, e a única
forma de fazer isso era dentro do corpo do bebê. É engraçado como me lembro de
tudo, desde um ano de idade...
anendjib sabia que, a cada dia, aumentava a chance de uma das bombas
noóctonas ser descoberta, mesmo que por acidente, ou de uma patrulha encontrar
a pequena base em vênus. o recrutamento de homens-lagarto para a seita secreta
que o faraó criara em torno de si mesmo e de melissa, graças a um “livro sagrado”
fajuto. homens-fera “missionários”, das raças controladas por melissa, eram
trazidos pelo portal. o império sempre havia subestimado os nativos de vênus, e a
rede de inteligência não detectara a agitação até que fosse tarde demais.
– foi um processo de anos – explica anh-ankh-ah – e bem debaixo de seus
narizes pomposos, transferindo homens e máquinas e armas da outra terra para
este sistema solar. você não imagina quanto ressentimento havia contra o seu
“glorioso” império. quanta ajuda tivemos: entre os pobres, os mutantes, os
criminosos, mesmo entre os teratossapiens que pretendemos escravizar. e quem se
opunha a nós? a marinha etérea? “oficiais e cavalheiros”. fazendo turismo nas
realidades adjacentes. nem sabia que existíamos. bando de babacas...
– cale a boca!
– mesmo? posso parar?
cesário espira fundo. a mão, crispada sobre a espada de marfim, dói. a
circulação nos nós dos dedos parou. os tímpanos ressoam como canhões. os olhos
ardem, mas não há lágrimas.
nenhuma lágrima.
uma civilização inteira, morta. uma civilização que ele amava. uma
civilização que jurara proteger e, por meio das viagens que fazia a outras
realidades, enriquecer e instruir.
uma civilização brilhante. uma cultura sem paralelo em todos os universos
conhecidos. uma cultura, pelo que anh-ankh-ah lhe havia dito, capaz de lançar
multidões nos braços do ódio e do ressentimento.
e por quê? uma civilização de tiranos? uma civilização arrogante? cesário
nunca havia pensado nisso.
a mulher podia não estar falando a verdade. mas, sem acreditar nela, qual a
escolha? qual a explicação?
coisas precisam ser feitas. para saber quais, e como fazê-las, corvo precisa
de informação. por enquanto, a mulher é a única fonte disponível, confiável ou
não. mordendo o lábio inferior até ver a dor reacender o senso de disciplina em
sua mente, cesário corvo diz, com uma calma sobrenatural na voz:
– não. desculpe. continue.
– onde eu estava? ah! sim... o risco de uma das bombas, ou de o
recrutamento de lagartomens, deixar de ser segredo. bem. por causa disso, mesmo
com o portal ainda incapaz de trazer as almas de lá para cá, anendjib detonou
todas as bombas noóctonas: em mercúrio, na terra, em marte, nos asteróides, nas
luas de júpiter, saturno...vocês não têm nem urano, netuno ou plutão por aqui, se
não me engano. claro, todos os nossos cúmplices e “irmãos rebeldes” nesses
planetas foram apagados, também... temo que tenhamos mentido para eles a
respeito do alcance das armas...
– e vocês ergueram o campo isoentrópico até que o “probleminha” com o
portal fosse resolvido. É isso?
– foi por esse motivo que anendjib ficou tão entusiasmado ao capturar
você e seu cinto. esperava que o circuito novo trouxesse alguma pista...
– o cinto se autodestruiu depois da última viagem.
– mesmo? pena.
– e como esse campo é mantido? para afetar sete planetas! É...
– ... muito simples. ponha a culpa no seu éter luminífero, amigo. se vocês
tivessem um limite para a velocidade da luz e um princípio da incerteza, teria sido
quase impossível. do jeito que as coisas são, bastou encontrar a freqüência certa
para bloquear a troca de energia entre o éter e a matéria, congelando cada
partícula em um estado perfeitamente definido. não entre o éter e o éter, claro,
porque senão teríamos brecado os planetas em suas órbitas, e o sistema solar todo
ia acabar fervendo com o atrito, e ninguém quer isso. quanto à velocidade da luz,
se a onda pode ser acelerada até o infinito...
– ... um mesmo sinal, partindo de uma única fonte, pode chegar a todos os
lugares ao mesmo tempo. nossas comunicações sempre funcionaram assim. e
onde está essa fonte?
– engraçado você perguntar isso: está aqui. em marte.

***

qualquer funcionário da intempol, do contínuo para cima, poderá lhe dizer


que as relações humanas dentro da empresa raramente são o que parecem. há
casais que são vistos publicamente como amantes ou namorados, mas que na
verdade se odeiam; há equipes de trabalho unidas não pelo respeito mútuo, mas
pelo desprezo; há funcionários que mantêm firme controle sobre seus chefes por
meio de chantagens, pequenas ou grandes – e vice-versa.
É um mistério o motivo que leva os deuses (é do folclore da companhia
acreditar que a grande sala de reuniões no último andar do prédio é habitada por
deuses) a tolerar esse estado de coisas. há um grafito, no banheiro masculino da
seção de arquivos, onde um canhoto, escrevendo com a mão direita para não ser
identificado, levanta a seguinte especulação: e se todo esse negócio de viagem no
tempo não for apenas uma fachada para algo diferente? um grande teste de
caráter, ou um enorme experimento psicológico, como um labirinto de ratos
projetado para induzir ao estresse? uma panela de pressão mental, enfim, tendo
máquinas do tempo como foco simultâneo de distração e agravamento.
se isso for verdade – o autor do grafito, apesar de todos os seus cuidados,
desapareceu antes de conseguir dar a descarga – o relacionamento entre os
comissários m e s talvez tenha uma explicação. a existência dos dois
departamentos, um dedicado à magia ao metafísico e o outro, à superciência e à
conseqüente negação de toda a metafísica, é secreta. os poucos agentes de nível 1
e 2 que se vêem forçados a interagir com alguém do m ou do s são obrigados a
passar depois por um amnesiador a laser, que apaga ou distorce todas as
lembranças do fato.
entre os agentes que sabem da existência desses departamentos, é dado
corrente que os dois comissários se detestam. para essas pessoas, o duelo de
bastidores entre o “velho m” e o “velho s” é algo de proporções lendárias, épicas.
os movimento de flanco e de retaguarda lançados de parte a parte, por meio da
burocracia, de cortes orçamentários, da requisição de agentes valiosos para
missões suicidas, tudo, enfim, é registrado, analisado e reproduzido por dezenas e
dezenas de guerreiros corporativos, ávidos em aprender com dois mestres da arte.
e tudo não passa de um jogo: o fato, puro e simples, é que m e s são os
melhores amigos. o esforço para fazer com que a cordialidade sincera que nutrem
um pelo outro passe por refinada hipocrisia é algo que diverte a ambos. o motivo
pelo qual se dispõem a consumir recursos preciosos numa batalha de fachada
permanece um mistério.
mas nada disso impede que, às vezes, eles se encontrem em segredo para
relaxar.
como neste instante, por exemplo.
o campo psicossomático que dá forma ao escritório de m agora reproduz a
praia de ipanema, como era numa manhã de sol e brisa suave, por volta de 1958.
as mulheres lindas que vêm e que passam ainda não usam biquíni, e sim o duas-
peças, ou “biquine”. o garçom que serve as mesinhas do bar espalhadas pela
calçada é educado, deferente, sorridente e veste uma imitação passável de
summer-jacket, com calças pretas vincadas e polainas (a polaina é provavelmente
um exagero mas, que diabo, m estava a fim). o palito na caipirinha é de madeira
de verdade, madeira cheirosa, pedaço de pau, não um desses palitos
industrializados, assépticos, ou, pior, de plástico.
a única nuvem no céu só faz acentuar a beleza do azul ao redor.
o calor está no limiar do desconfortável, sem realmente chegar a tanto: é
forte o suficiente para tornar a brisa prazerosa.
– o equipamento todo funcionou a contento, imagino? – diz s, paletó no
encosto da cadeira, chapéu empurrado até a nuca, gravata frouxa, mangas
arregaçadas. ele bebe uísque com muito, muito gelo e uma rodela de limão
equilibrada na borda do copo. – os relatórios sobre o desempenho do cronoscópio,
ao menos, melhoraram bastante, não é?
– ah, sem dúvida! – m responde, ao mesmo tempo em que beberica a
caipirinha. agora ele tem a aparência de um sexagenário gordo, barrigudo sem ser
obeso, de bermudas, chinelo e camisa listrada de colarinho e mangas curtas
desabotoada até o umbigo. – a sua idéia de criar duas variantes do circuito de
armstead-gonzález, que na verdade funcionariam como duas metades de um
grande sistema de ressonância, funcionou perfeitamente.
– entregar uma das metades ao inimigo, como se fosse o circuito original,
essa foi sua idéia, e foi um golpe de gênio...
m dá de ombros:
– aquele pedroso já tinha dado tudo o que tinha de dar, mesmo. um bolha.
se você quer elogiar alguma coisa, elogie o efeito-paradoxo que tive de criar para
forçar a autodestruição da outra metade do circuito, no cinto de teletransporte, e
trancar a porta do outro lado, também.
– criar um paradoxo temporal num universo onde o tempo é, por definição,
à prova de paradoxos não é para qualquer um, concordo.
– do ponto de vista acadêmico, é uma situação interessante: naquele
universo é impossível mudar o passado. não obstante, esse mesmo universo se
comunica livremente com outros, outros onde o passado é mutável. era uma
questão de tempo (com o perdão da palavra) até que uma mudança nas, digamos,
“adjacências” viesse a chacoalhar um pouco as coisas no “centro”.
– e qual o resultado? estou bastante curioso a respeito.
– ora, exatamente o que tínhamos previsto: o universo foi lacrado.
nephren-ka e suas aberrações de estimação estão presos lá, para sempre. toda a
tecnologia de deslocamento dimensional da marinha etérea tornou-se inútil. caput!
– e o que aconteceu com o garoto, qual o nome dele?, pombo? Águia...?
– corvo. não faço a menor idéia.
m toma um belo trago de sua caipirinha. o garçom traz um pratinho com
azeitonas pretas no azeite. s e m comem, um punhado cada, e cospem os caroços
na calçada. m prossegue:
– fiz o que prometi: mandei o menino de volta ao universo dele, e lhe dei
uma chance de salvar seu império. uma chance pequena, já que todas as almas do
lugar tinham sido moídas e cagadas, mas uma chance, mesmo assim. se me
lembro bem, incluí nas instruções dele uma conversa mole qualquer sobre
“procurar uma mulher”, o tipo de coisa que normalmente dá uma motivação extra
pra esses tipos aventureiros. É claro que, quando o universo foi lacrado, perdemos
todo o contato. mas o rapaz tem talento. vai se dar bem.
como se você desse a mínima, pensa s, incapaz de conter um sorriso de
afeto sincero na direção do amigo. o bom e velho m. uma rocha de estabilidade
neste multiverso maluco.
– e quanto à âncora do cronoscópio? funcionou a contanto?
– perfeita! foi perfeita! – a efusão faz m terminar de virar a caipirinha, e o
garçom logo reaparece com outra, além de um pratinho, desta vez, de amendoins.
– foi graças a ela que conseguimos planejar tudo, retroativamente. mais ou menos
como quando infiltramos um agente na equipe de construção da pirâmide de
miquerinos, garantindo que, quando chegasse a hora, em 1780, o fosso estivesse
lá para jogarmos o corpo de cagliostro dentro. lembra?
– e como eu poderia esquecer? nem era chefe de seção, nessa época...
– faz tempo...
– pois é...
os dois ficam em silêncio, observando as ondas do mar.
– sabe no que eu penso, nessas horas? – pergunta s, depois de um suspiro.
– no quê?
– “causalidade”. como é que se diz? “se observamos que o fenômeno b
sempre se segue ao fenômeno a, então é razoável supor que a é a causa de b...”
– “... ou que a e b são efeitos de um terceiro fenômeno anterior a ambos,
c”. pura superstição. você sabe. não me diga que está entrando nessa!
– ficando supersticioso? não. mas um pouco nostálgico, talvez.
e as ondas vêm, e as ondas vão.

***
saindo do laboratório, o mapa no visor leva x-8 por uma série de
passagens, à direita e à esquerda, acima e abaixo, na maior parte das vezes por
túneis auxiliares de ventilação e manutenção. agora ele está numa seção do
labirinto onde quase não há mais fossos perfeitamente verticais; em vez disso, as
mudanças de nível se dão por meio de rampas. em muitas delas, o desgaste no
piso de rocha é notável, o que o agente interpreta como um sinal de tráfego
intenso.
x-8 acaba de chegar ao final de um desses declives e encontra a um novo
trecho plano do túnel. o visor, no entanto, revela que, pouco mais de cinqüenta
metros à frente, o chão some – sinal de claro de nova rampa abaixo, logo adiante.
ele está bem na metade da parte plana quando ouve o clangor vindo de
cima. olha para o alto e o visor revela que o teto do túnel se abriu, uma seção
deslizando sobre a outra (tudo muito bem lubrificado, pensa a parte fútil do
cérebro de x-8, já que não fez barulho nenhum), e agora uma coisa feita de
madeira, uma enorme caixa – para o agente, parece algo do tamanho de um
ônibus – desce, rápido, pelo vão.
o clangor é o som das roldanas e cabos acima.
a análise do visor diz que o conteúdo do contêiner é semifluido e
fragmentário.
sem tempo para pensar em coisa melhor, x-8 saca da mauser c96 e atira,
descarregando a arma em pontos especialmente selecionados pelo visor, numa
fração de segundo, das ripas que fazem o fundo da caixa. a caçamba já está
sobrecarregada e a madeira, velha, gasta, quase podre, praticamente se desintegra
ao ser atingida nos lugares certos.
como resultado, em vez de ser esmagado como um inseto pela superfície
plana, x-8 é quase sufocado por uma enxurrada de dejetos – o conteúdo da caixa,
subitamente em queda livre. são ossos, tripas, restos de comida e outros tipos de
lixo; e mais um objeto, pesado, enorme, uma silhueta quase circular, como uma
rocha, que atinge o piso à esquerda do agente com um estrondo titânico. a
reverberação e o choque fazem o túnel tremer. a grande rocha (se é que é uma
rocha: x-8 não consegue ver direito, em meio ao caos de lixo e restos mortais ao
seu redor) quica no primeiro impacto, sobe num ângulo, bate no teto, desaparece,
trovejando, ladeira abaixo.
usando a outra barra de ferro que havia retirado da janela da estalagem
como um bastão e fazendo o melhor uso possível da informação oferecida pelo
visor, x-8 move-se por entre os dejetos como um homem tentando se esquivar dos
pingos de chuva em meio a uma tempestade. o bastão, girando em alta velocidade
ora numa mão, ora na outra, ora em ambas, deflete parte do material, à direita e à
esquerda. a fúria centrífuga cria um perímetro relativamente seguro ao redor do
agente, uma cápsula de movimento constante dentro da qual não cabem ossos
pontiagudos, grandes fragmentos de madeira, pedaços perigosos de metal ou
rocha.
x-8 se lembra de ter visto x-10 usar um bastão de aço-vanádio para rebater
balas de fuzil, durante um exercício na sede. mas x-10 é um ciborgue, alguém que
nem precisa de uma caixa para viajar no tempo – a máquina está construída dentro
dele, como um órgão; um dos rins. comparado a seu “irmão mais novo” (afinal, é
isso que a numeração indica, precedência), x-8, mesmo com todas as vantagens
especiais que fazem dele quase um super-homem, revela-se humano, demasiado
humano.
de repente, um impacto mais forte arranca a barra das mãos do agente, ao
mesmo tempo em que ele ouve um grito, masculino, de dor.
a chuva pútrida pára.
x-8 está enterrado até os tornozelos em lixo. não apenas rejeitos de
cozinha e restos de limpeza, mas restos mortais de vida sapiente, também.
ao menos, é assim que ele interpreta o crânio neandertalesco caído junto à
sua perna direita (não há erro possível: a experiência ensinou x-8 a reconhecer um
neandertal a quilômetros), e a mão, de três dedos mais um óbvio polegar opositor,
derrubado um pouco adiante.
luz vaza pela abertura no teto. embora mantenha o visor baixado, x-8
estima que a iluminação disponível, ali, deve ser equivalente à de um final de
entardecer.
há vozes gemendo ao redor.
a principal fonte de gemidos é uma criatura, parecida com um gorila das
de espinha ereta, caída a alguma distância adiante de x-8. a barra de ferro do
agente está cravada no flanco desse homem-gorila, um pouco abaixo da axila.
provavelmente foi o impacto do corpo em queda que arrancou o bastão das mãos
do homem da intempol.
o visor informa a x-8 que o cara não vai durar muito.
as demais lamentações vêm de seres semelhantes, pelo menos quatro, três
outros gorilóides e o último com uma crista de penas e um bico curto e duro,
como uma cacatua. eles provavelmente tinham estado sobre a pilha de lixo, talvez
orientando quem quer que estivesse controlando os cabos e roldanas. É provável,
portanto, que uma equipe de investigação, ou resgate, já esteja a caminho.
matar um adversário desorientado, ferido e desarmado não é algo que x-8
se orgulhe em fazer, mas o agente também é um homem prático. usando os
shurikens, ele rapidamente despacha os homens-fera caídos, garantindo que todas
as mortes tragam o mínimo possível de dor. o shuriken é uma arma boa para isso.
em seguida, ele se dirige à borda da área plana, aonde tem início o novo
declive. desta vez, o gradiente é bem acentuado, e a rocha parede
excepcionalmente lisa – um escorregador, claro. depois de descer até o patamar, a
caixa (que, x-8 reconhece, não era de fato uma caixa ou contêiner, como havia
imaginado, mas uma espécie plataforma, ou bandeja) seria inclinada,
provavelmente com a retração de parte dos cabos, e o lixo deslizaria até seu
destino final.
o cursor do mapa informa que o objetivo da missão também se encontra lá,
escorregador abaixo.
x-8 está prestes a dizer algo de não muito edificante para si mesmo quando
recebe um alerta de perímetro e, antes que tenha tempo de reagir, sente uma
pressão forte na garganta – uma chave de pescoço aplicada por um braço
poderoso!
o agente tenta se libertar desferindo cotoveladas para trás, mas o atacante
se esquiva e, no instante seguinte, x-8 ouve um estalo forte junto à orelha
esquerda – olhando de esguelha, ele vê o rosto monstruoso de uma cacatua dotada
de tamanho, membros humanos e da capacidade de expressar fúria, também muito
humana, pelo olhar!
um novo estalo, e desta vez x-8 vê que o som é produzido pelo bico do
adversário, que se abre e se fecha em busca do sangue que pulsa por baixo da pele
tenra do pescoço. kakatuwa, x-8 se lembra, é malaio para “tenazes”.
o agente agarra o braço – musculoso, coberto de uma pelagem densa,
branca – com as duas mãos e puxa para a frente, com força, ao mesmo tempo em
que se curva e usa o quadril para dar impulso ao corpo do adversário.
o golpe improvisado, desajeitado, de judô funciona e o homem-pássaro é
jogado por cima do agente e sobre o declive do escorregador. antes mesmo que o
arremesso se complete, porém, o bico se fecha no cotovelo dobrado de x-8 e
ambos, homem e homem-fera, caem, lutando e deslizando, na prancha de rocha
polida que corre rumo à escuridão.

***
anh-ankh-ah acorda com o nascer do dia e se levanta, deixando seu amante
ainda adormecido sobre a relva. eles estão em marte há quase uma semana, e esta
foi a quarta noite em que “dormiram juntos”, na acepção mais geral do termo.
nua, a mulher sorri enquanto faz deslizar a palma da mão direita sobre os
pêlos muito finos, quase invisíveis, do braço esquerdo. ter o próprio corpo de
volta. voltar a sentir com ele. naquela outra mulher, a loura que também era ela –
ananka – as coisas não eram assim. não importa que a mente seja a mesma:
diferentes corpos em diferentes encarnações, reflete anh-ankh-ah, são como
vinhos: cada um com seus pontos fortes e fracos; cada um com suas ênfases e
deleites particulares.
a rainha então se dá conta de como havia sentido falta, não só de ter um
homem deitado junto a si (e não uma máquina como o andróide anendjib, ou um
animal “evoluído”), mas também – e principalmente – do perfume grosseiro
produzido pela mistura do cheiro forte de sêmen e saliva de homem com o suor
almiscarado deste corpo. apenas deste, unicamente deste, o corpo em que ela
havia nascido para sua única vida natural, há tanto milhares de anos, em um outro
planeta de um outro universo.
corpo cujo ressurgimento lhe parece um dos menores mistérios de sua
situação atual.
entre os grandes mistérios a rainha conta, como o maior de todos, a
questão de o que fazer a partir de agora. cesário ainda dorme – ela sabe que o
exauriu – e não seria difícil tomar o pedaço de chifre de moag que ainda é a
principal arma e ferramenta do acampamento improvisado em que vivem e
trespassar-lhe o peito.
há três semanas, ou um mês, este teria sido um curso de ação natural. mas
aqui? agora? quais as chances de uma rainha do egito e de vênus sobreviver,
sozinha, seminua e armada apenas com uma cimitarra improvisada de marfim, nas
savanas marcianas?
anh-ankh-ah caminha em direção à fogueira que arde no centro do
acampamento, e sobre a qual cesário ergueu uma armação de gravetos. sobre os
gravetos há três tiras de couro, todas empapuçadas com um tipo de pasta vegetal
que cesário corvo retirou da casca de uma árvore frondosa, de folhas amarelas.
durante boa parte da noite anterior, após o jantar – à base da carne do mesmo
animal, um micetófago do tamanho de um bezerro mas mais parecido com um
gato de cascos, da onde tinham vindo as tiras – o fogo havia queimado uma esfera
feita de pêlos (os bigodes e a penugem da cauda do animal morto) e algumas das
ervas que brotavam da base dos fungisporos, o que havia produzido uma fumaça
terrível.
– curtume marciano – cesário havia dito, à guisa de explicação. – É
importante manter a flexibilidade.
– para quê?
– para podermos voar!
e ele não explicara mais nada, mas havia guardado a carcaça do bicho
morto debaixo de uma grande pedra. “para apodrecer no calor e podermos usá-la
amanhã à noite”, dissera o brigadeiro.
depois do primeiro dia em marte, e de anh-ankh-ah lhe dizer que a fonte
do campo de estase que dominava quase todo o sistema solar se encontrava no
alto do monte olimpo, cesário havia se retraído – era quase possível visualizá-lo
como um molusco em sua concha.
ele só saíra desse estupor uma vez durante toda a manhã, para perguntar o
que tinha acontecido com a guarnição da marinha etérea que vivia no interior da
montanha, já que todo o olimpo havia sido escavado para servir de base a um
complexo militar.
– granadas noóctonas – dissera a rainha. – amarradas ao corpo de piratas
suicidas, ou contrabandeadas por traidores pagos.
ela havia dito, ainda, que não adiantava nada saber que a fonte do raio
estava no olimpo porque, primeiro, desligar a emissão apenas faria com que
bilhões de cadáveres congelados começassem a apodrecer; segundo porque,
embora eles, anh-ankh-ah e cesário, estivessem em marte (a fauna e a flora
deixava pouca dúvida quanto a isso), nenhum dos dois fazia a menor idéia de
onde, em marte, poderiam estar.
o olimpo poderia estar a norte, a sul, leste ou oeste, a poucos quilômetros
ou em outro hemisfério. talvez nas antípodas.
– conheço as estrelas – tinha dito o brigadeiro, antes de voltar ao estupor.
quatro horas antes do anoitecer ele havia despertado subitamente, como
num estalo. e então entrara num frenesi de atividade: cavara um fosso ao redor da
área onde estavam, usando o pedaço de chifre; limpara o solo ao redor dos
fungisporos mais altos, com a mesma ferramenta; e, sem dizer uma palavra,
afastara-se, para voltar com o sol já posto – carregando um saco improvisado
cheio de pedras de tamanho variados, uma serpente aquática morta e um outro
saco, feito do estômago de um animal morto, cheio de água.
– encontrei um rio aqui perto – explicara.
então havia feito fogo, usando algumas pedras para obter faísca e talos
secos de fungisporo como combustível, e os dois tinham comido um churrasco de
cobra-do-rio. À noite, cesário se pusera a observar as duas pequenas luas e as
estrelas.
no dia seguinte o mesmo roteiro tinha se repetido, com a única diferença
de que cesário havia usado uma das pedras para fazer marcas ao longo do chifre
recurvado, e à noite utilizara o novo “instrumento” em suas observações do céu,
medindo a altura dos diferentes astros assim que surgiam sobre o horizonte.
no terceiro dia ele havia se embrenhado por entre as árvores que cresciam
do outro lado do rio, e levara anh-ankh-ah consigo. no caminho, mostrara a ela os
diversos pontos de referência que permitiriam a qualquer um deles retornar ao
local do acampamento. nesse dia tinham trazido de volta gravetos, galhos,
algumas frutas e caçado o estranho gato de cascos.
À noite, fizeram amor pela primeira vez.
agora, pouco depois do amanhecer do sétimo dia, cesário acorda, vira-se
para a rainha e sorri. a despeito de si mesma, anh-ankh-ah não consegue deixar de
sentir uma certa ternura em relação àquele sorriso. É um sentimento estranho –
tendo vivido por duas vezes em quase seis mil anos; tendo sido, em ambas as
oportunidades, a amante de tiranos sanguinários; tendo desfrutado ao máximo dos
prazeres que nascem dessa condição, a rainha não sabe exatamente como lidar
com o calor suave que emana de todas as paixões, mesmo das mais urgentes,
sentidas por este homem.
por um lado, é como se esse calor tocasse partes da psique da rainha até
então adormecidas; mas há também outras parcelas de seu espírito, as mais
ligadas ao exercício do poder e à infinidade de perversidades, grandes e pequenas,
que o acompanham, que parecem à beira da inanição e que gritam gritos mudos
de desespero.
o sorriso de cesário desaparece rápido, no entanto. depois de tomar dois
goles de água da bacia feita com a calota do crânio de um búfalo tricorne que
tinham encontrado morto, um esqueleto descarnado, em meio à savana
micetocítica, o homem assume uma expressão preocupada. É como se a
lembrança do animal morto lhe trouxesse algo de desagradável à mente.
– eu vou embora hoje – diz ele. – mas acho que você é capaz de se virar...
não?
anh-ankh-ah demora alguns segundos para registrar o significado dessas
palavras.
– você “vai embora”? como assim?
– para o olimpo. acho que já sei a direção geral.
ela dá de ombros:
– certo. então nós vamos embora, é isso?
ele respira fundo. sorri sem sinceridade e diz:
– eu vou. mas você vai ficar bem.
– você vai me deixar sozinha? aqui?
– você sabe se virar. aprendeu bem nos últimos dias. É uma mulher forte,
e...
É como se alguma coisa quente e pesada atingisse anh-ankh-ah em cheio
no peito. não é apenas o medo de ficar sozinha na imensidão da sanava, nem o
desconforto agudo do ser humano privado da companhia de seus semelhantes;
nem mesmo a ferida no ego da sedutora desprezada.
É tudo isso e algo mais. mas, se algo dessa tempestade interior chega à
superfície, trata-se apenas de uma mudança na luz dos olhos – um brilho
subitamente mais frio.
– e posso saber por que você acha que eu não gostaria de ir ao olimpo? –
diz a rainha, dando a entender que, se assim quiser, irá a qualquer lugar. sua voz é
calma e o tom, perfeitamente normal, como o de quem reafirma uma obviedade.
cesário precisa de alguns instantes para reorganizar os pensamentos antes
de retomar a conversa, perguntando:
– você tem algo contra comer carne crua?
a hesitação na resposta é imperceptível:
– não.
– e não tem medo de voar...
– claro que não.
– será uma viagem desconfortável...
– prefiro decidir isso por conta própria.
cesário acha engraçado isso, a “mulher independente” que não quer ser
deixada à própria sorte de jeito nenhum. se ela soubesse o que a espera...
– tudo bem – diz ele, cedendo após de um período curto de silêncio. – mas
depois não diga que não avisei.

***

rolando em velocidade crescente pela rampa de rocha polida, chocando-se


contra as paredes, x-8, ao mesmo tempo em que luta para girar o corpo de forma a
amortecer os impactos seguidos, também usa o cotovelo, ainda preso pelo bico de
seu adversário, como uma alavanca para jogar a nuca do homem-cacatua de
encontro à rocha uma, duas, várias, diversas vezes.
o efeito dos choques sucessivos não parece ser outro além de aprofundar o
brilho homicida nos olhos da criatura, e dar a ela um incentivo extra para reforçar
a pressão do bico cortante.
cortante! a ave humanóide já varou a microblindagem externa da jaqueta,
partiu os fios do sistema de camuflagem e se aproxima do depósito de explosivo
plástico no forro. depois disso só resta a blindagem interna entre o bico e a
amputação certa do antebraço do agente.
a consciência do fato torna os ataques do homem da intempol ainda mais
violentos: além de jogar a cabeça da cacatua de encontro às paredes e ao piso, x-8
usa o punho do braço livre e os joelhos para golpear o pássaro humano no tronco
e nas pernas, sem efeito perceptível. o adversário reage aumentando a pressão
sobre o cotovelo e tentando usar as garras para arrancar a carne das maçãs do
rosto e dos lábios do agente.
sem aviso, acima do som constante dos impactos de encontro às paredes
do túnel e do próprio grito do ar ao redor, x-8 ouve uma seqüência curta de estalos
– tlec, tec-toc – e um sibilo agudo, que logo sai da faixa audível do espectro.
o infravermelho do visor revela uma faísca no cotovelo da jaqueta, bem no
ponto onde o bico da ave mergulha mais fundo. o explosivo!
x-8 mal tem tempo de se proteger, girando o rosto e jogando o ombro do
braço preso para trás, antes da detonação.
isso o agente da intempol não vê, mas a explosão destroça o bico e arranca
a cabeça do homem-ave. a blindagem interna da jaqueta salva-lhe o braço, exceto
por uma concussão leve na junta e uma dormência que se espalha pela epiderme.
a força da explosão, ao mesmo tempo em que ejeta o corpo sem vida do
homem-cacatua túnel acima, arremessa x-8 com velocidade redobrada rampa
abaixo. agora ele não rola mais, mas voa, mergulha – com a gravidade a favor e o
atrito desprezível, a única forma que o agente tem de desacelerar é chocando-se
contra as paredes e, agora também, o teto.
o vento ruge em seus ouvidos, mas depois de algum tempo x-8 detecta
outro som, um leve trovejar. passada uma curva, ele vê a fonte – a coisa que havia
tomado por uma rocha, antes, quando da destruição da caçamba de lixo no alto da
rampa, dias, ao que lhe parece, semanas atrás. uma massa branca, enorme, quase
esférica, que ricocheteia adiante. a coisa que, graças ao impulso extra da explosão,
o agente está quase alcançando.
a coisa que, a menos que ele tenha muita sorte, irá esmagá-lo.
não é uma rocha, ele vê, e pensa, enquanto a distância que os separa cai,
primeiro alguns poucos metros, depois pela metade, e então a um quarto, um
décimo.
É um crânio.
um gigantesco crânio humano!
***
alguém que decidisse visitar o castelo dananko às duas horas da tarde do
dia 25 de julho de 1920, uma tarde clara e ensolarada de verão, sem uma única
nuvem no céu, iria encontrá-lo vazio.
ou quase.
ainda haveria alguns guardas no portão principal e nas ameias, e se o
visitante fosse amigo receberia a informação de que melissa, a velha matriarca (“a
meretriz”), o jovem príncipe dananko xiv (“o bastardo”), sua esposa, a princesa
sílvia (nenhuma alcunha, por enquanto), e a infanta recém-nascida, a princesa
ananka (“a herdeira”) haviam partido em viagem.
o que não seria exatamente verdade.
exatamente às treze horas e quarenta e cinco minutos, logo após o almoço,
no grande salão de banquetes localizado numa ala supostamente “desativada” da
fortaleza, partículas subatômicas, muitas das quais só viriam a ganhar nome e
classificação em décadas futuras, começaram a energizar um grande arco de metal
e cerâmica semicondutora, contíguo à principal ogiva de sustentação do teto.
a energia do futuro que percorre o material do futuro segue um caminho
complexo. entalhado ali, por meio de microescultura a laser, há uma versão
modificada do circuito de armstead-gonzález – algumas dessas modificações os
criadores do arco conhecem e desejam; foram definidas com base na tecnologia
do novo universo que pretendem conquistar.
há outras mudanças, no entanto, sobre as quais os construtores do grande
arco nada sabem. mudanças introduzidas pelo inimigo nos projetos iniciais.
mudanças que condenarão todo o plano ao fracasso, dali a alguns anos, primeiro,
e dentro de poucos minutos, depois.
aos poucos, a multidão se junta ao pé do arco.
primeiro, o homem prateado, o corpo de metal animado pelo espírito do
humano anendjib, o homem que escolheu para si o nome de um monstro de outra
raça: nephren-ka. em seguida, a mulher, melissa, já idosa, altiva, e sua escolta –
na verdade, seus carcereiros.
e, depois, a multidão dos homens-fera. macacos, em sua maioria, e cães,
mas também lagartos, crocodilos, pássaros, alguns híbridos, tigres e leões,
anfíbios, insetos. muitos são criações do próprio anendjib, moradores da selva
subterrânea, do Éden profano construído numa caverna dezenas de metros abaixo
do piso do castelo e das câmaras criogênicas desativadas há pouco. machos e
fêmeas que partem para um novo mundo onde poderão, de fato, crescer e
multiplicar.
e, principalmente, servir.
outros são dissidentes do mundo para além do portal, piratas e homens-
lagarto cansados de um tipo de escravidão e ansiosos, pobres imbecis, para
provar de outro.
o terreno foi preparado cuidadosamente, ao longo da última década.
subornos. bombas. guerrilhas. atentados. traição. inimigos e aliados igualmente
mortos, suas almas apagadas, seus corpos preservados em estase à espera da
segunda fase da invasão. agora, partindo rumo ao planeta de vênus de um outro
sistema solar, anendjib prepara-se para dar início a seu segundo império.
Às treze horas e cinqüenta e nove minutos, o grande salão de banquetes
encontrava-se, novamente, vazio.
mas, ao contrário do que diriam os guardas das ameias ao amigo visitante
das duas horas, dananko xiv, sílvia e ananka ainda estão no castelo. a infanta em
seu berço, o casal real em confortáveis cadeiras entalhadas com as armas da
família e almofadas vermelhas de veludo. encontram-se todos na suíte principal.
aprisionados.
as malas feitas, no chão diante deles, parecem contemplar o casal com um
senso de triste ironia.
vigiando o príncipe e sua consorte, dois canzarromens armados.
a princesa sílvia está aturdida. ela não sabe quem são essas criaturas, nem
o que está acontecendo – e a isso se soma o fato der que, às vezes, ela sequer sabe
quem é o marido, um homem que parece mudar de personalidade como quem
muda o nó da gravata. se ela encontra algum alento na situação é o fato de que,
nas últimas horas, nos últimos dias, dananko tem sido cada vez mais “ele
mesmo”, e cada vez menos aquele outro.
nos últimos dias, enquanto planejava febrilmente a fuga, a viagem para
paris, dananko havia voltado a ser o homem com quem se casara, tão frágil diante
das coisas do mundo, mas corajoso, dono de reservas inesperadas de força no
espírito.
a pesar da tensão, apesar da decepção final, dos monstros armados diante
de si, sílvia havia sido feliz nesse período.
o príncipe também está aturdido. ao contrário da esposa, ele sabe o que se
passa – há restos de memória, fiapos de lembrança. são pedaços da mente de outra
pessoa, que de alguma forma ficaram presos em sua cabeça. em alguns momentos
ele vê a si mesmo como um recém-nascido, pouco maior que a própria filha; e há
lampejos penosos, a face da mãe banhada em lágrimas e, o pior de tudo, a agonia
no rosto de sílvia, na cama, quando...
ele sabe que tem de tirar a filha dali. que, se ananka completar seu
primeiro aniversário dentro dessas muralhas, algo de terrível vai acontecer a ela.
algo muito parecido com o que aconteceu a ele.
as malas. o automóvel até budapeste e, dali, expresso para viena –
evitando, assim, a ligação ferroviária direta, para criar menos suspeitas – e depois
de viena, paris. as malas: tudo pronto. planejado. em segredo!
mas dananko xiv agora sabe que nenhum homem é capaz de manter
segredos para os fantasmas da própria mente.
por um instante, o príncipe imagina ouvir um estalo vindo do grande
espelho na parede oposta à luxuosa cama de casal – espelho que, ele se lembra,
oculta uma das muitas passagens secretas da fortaleza.
só que é óbvio que não há ninguém ali.

***

curtidas as três tiras de couro deixadas sobre a fogueira, cesário escolhe


uma delas, amarra uma das extremidades ao redor do anular direito e dá um nó
grosso na outra ponta. esse nó ele prende, com a mão fechada, junto à palma,
entre o polegar e o indicador. escolhe uma dúzia de pedras, pequenas e pesadas,
dentre as várias que recolheu do leito do rio nos últimos dias. coloca uma delas no
arco de couro formado pela tira presa em sua mão, e afasta-se do acampamento
para praticar.
o tiro de funda é difícil para o iniciante. É preciso dar naturalidade e
fluidez ao ato de soltar a ponta e deixar a pedra ir; é necessário escolher a melhor
forma de dar velocidade à arma, se com o giro acima da cabeça ou paralelo ao
corpo, o que depende um pouco do estilo pessoal do arremessador mas,
principalmente, da natureza do alvo; e, o mais complicado, é preciso adquirir o
instinto certo para fazer a mira e encontrar o momento exata do arremesso.
cesário já havia praticado com a arma em missões anteriores, quando a
marinha o enviara a universos paralelos onde o dinamógeno ou a pólvora não
funcionam. para ele, é mais uma questão de reacender o velho instinto. já a rainha
jamais havia usado arma semelhante.
várias horas depois, corvo, treinando na beira da floresta, perto do rio, já é
capaz de atingir uma ave do tamanho de um pombo em pleno vôo, a algumas
dezenas de metros; anh-ankh-ah, mais modesta, acerta uma árvore a vinte passos.
nesse ponto, o vazio no estômago lhes diz que é hora de caçar o almoço.
a rainha sugere que o brigadeiro abata mais uns dois ou três “pombos”,
mas ele responde que não.
– precisamos encher a barriga de sangue – diz. – carne crua, lembra?
– e por que isso?
cesário abre a boca e ergue a mão direita, espalmada, à altura do ombro,
numa atitude que a rainha interpreta como a de alguém prestes a dar início a uma
longa explanação, mas desiste. em vez disso, baixa a mão, fecha a boca e encolhe
os ombros – não numa atitude de indiferença, mas como alguém tentando aliviar a
tensão no músculo.
sorri, diz:
– o sangue dá asas. – frase sobre a qual se recusa a elaborar.
para reforçar o treinamento, os dois usam as fundas – e não a espada de
chifre de moag – na caçada. anh-ankh-ah espreita um dos micetófagos com cara
de gato, aproximando-se por trás e contra o vento, e o atinge com força junto à
base da base da cauda, sobre a coxa direita, com uma pedrada certeira, que dói
como uma picada forte de inseto. assustado, o animal dispara na direção oposta à
do golpe, numa trajetória oblíqua para a esquerda, rumando exatamente para onde
cesário está escondido, agachado em meio aos fios grossos de fungo.
sentindo o tropel da criatura no solo, o brigadeiro se ergue, girando a
funda sobre a cabeça, e dispara.
ao contrário da pedra de anh_ankh-ah, que atingiu o animal num músculo
rijo e praticamente só fez assustá-lo, o projétil de cesário golpeia a criatura em
cheio na testa, bem entre os olhos, e com a energia redobrada não só pelo braço
do caçador, mas também pela própria velocidade da caça, que corria, à toda, na
exata direção da onde veio o golpe.
com um grito de dor, o animal reage ao impacto erguendo-se sobre as
patas traseiras, assumindo uma postura de medo e fúria que lembra mais um urso
pronto para o ataque do que um cavalo empinado – a despeito dos cascos que se
debatem no ar.
em seguida, o micetófago cai, para frente, mas as patas dianteiras não o
sustentam mais. o focinho mergulha de encontro ao solo. a criatura está morta.
cesário e a rainha arrastam o animal de volta ao acampamento, e comem
até se fartar. a resistência de anh-ankh-ah ao consumo de carne crua e sangue
quente desaparece bem rápido após os primeiros bocados.
logo, a mulher não quer mais apenas os retalhos mais macios que cesário
lhe passa, e pede também um pouco da musculatura rija, coração incluído, “para
ter onde cravar os dentes”.
aos poucos, é como se algo há muito adormecido despertasse no íntimo de
anh-ankh-ah. É com um calafrio de repulsa – somado a uma atração irresistível,
um fascínio – que o brigadeiro observa a maneira sensual, às vezes francamente
obscena, com que a mulher mergulha a boca e as narinas no sangue, espalha a
gordura tingida de vermelho entre os seios, sonda os ossos com a ponta da língua
em busca do último glóbulo de tutano.
– não era bem isso que eu queria dizer com “dá asas” – ele diz de si para
si, enquanto a mulher solta um riso que não tem nada de histérico e, por fim,
adormece.

***
o crânio descomunal que estrondeia pela rampa como uma rocha em
avalanche não tem a mandíbula inferior: começa nos dentes incisivos superiores,
cada um do tamanho do antebraço de um homem adulto, expande-se, à direita e à
esquerda, num hemisfério achatado, muito branco, sólido e maciço (a despeito das
suturas do osso), quebrado apenas pelas narinas e órbitas.
x-8 gira o corpo no ar, primeiro jogando os pés para frente, depois rolando
os ombros, não há mira nenhuma, não há cálculo consciente mas apenas a
intuição especial criada e gravada em suas células pela seção x, afiada em uma
dezena de missões e, agora, alimentada pelo fluxo enlouquecedor de dados
despejado pelo visor.
o que era um vôo desajeitado logo se converte numa parábola alongada,
elegante. o impulso inesperado da explosão, adestrado.
o crânio gigante roda e gira sem controle. uma fração de segundo antes do
contato, x-8 estica os braços. a rotação está levando seu porto seguro para longe, e
ele grita no instante exato em que suas mãos se agarram na protuberância
supraorbital – há algo de neandertalesco neste crânio.
a parábola suave se transforma numa curva brusca para baixo: o crânio
gira a arrasta o agente consigo. as botas de x-8 se chocam com as maçãs do
grande rosto descarnado, os joelhos sobem, pés escoiceando, pernas dobram-se,
distendem-se, descem, as costas doem, meio corpo já dentro da órbita, dois terços,
os braços exaustos, músculos imersos no ácido gerado pelo esforço. ombros e
cotovelos espocam, mãos se soltam um quinto de segundo antes de a testa
monstruosa se chocar novamente com o piso rochoso.
x-8 está dentro do crânio.
esticando braços e pernas ele encontra uma posição estável, com as palmas
das mãos e as solas dos pés pressionando a curvatura interna da cavidade
craniana.
descerebrado, pensa o agente, num estalo, sem saber se a referência é feita
a si mesmo ou ao espaço onde se encontra.
antes que tenha tempo de destrinchar as complexidades do próprio senso
de humor, x-8 sente um frio súbito na barriga, um arrepio na espinha – sensação
que sua mente traduz num instante: queda livre.
o crânio deixou a rampa, saltou no vazio.

***

dananko xiv se lembra de guerra. das trincheiras, do gás, do arame, dos


homens mortos para conquistar ou defender dois, três palmos de terreno. das
barragens de artilharia, o solo que se desintegra diante dos olhos, debaixo dos pés,
destruído por algo que vem não se sabe da onde, do som infernal.
naqueles dias, o príncipe havia sido ele mesmo. o outro, o fantasma, tinha
ido com ele à guerra, mas jamais estivera por perto nessas horas – correndo
enquanto os estilhaços voavam ao redor, ou rastejando na lama por baixo do
arame farpado, em meio à nuvem espessa de veneno.
dananko havia sido uma marionete durante boa parte da vida, mas sempre
enfrentara a morte sozinho. a idéia – a constatação – dá-lhe coragem. decide agir.
não há nada a perder atacando os homens-fera armados, assim como não havia
nada a perder no front, exceto os grilhões odiosos da mente. exceto...
exceto que agora ele não está sozinho, e nem acompanhado por outros
cadáveres ambulantes, fantasmas condenados à morte pela pátria: agora há a
mulher, a filha. pobre sílvia! será que trazer um pequeno traço, um sopro de
sangue habsburgo à família vale tanto sacrifício? viver em meio às montanhas
estéreis? casar-se com um homem que não é dono de si? e, então, isto...
o príncipe sacode a cabeça, desgostoso. essa pena que sente da mulher
chega perigosamente perto da autopiedade. covardia.
são dois guardas armados. se o príncipe atacar um, o outro abre fogo. uma
equação simples – dananko ignora os dois guardas postados junto à porta, pelo
lado de fora. ele pensa: se houvesse uma distração!
então, o espelho se move. não há a menor dúvida: a mudança no ângulo da
cena refletida, da composição formada pelos olhos castanhos, arregalados, de
sílvia, a pele muito pálida marcada pela boca vermelha trêmula, entreaberta, a
fronte pesada que o príncipe reconhece como sendo a própria, a nuca dos dois
cães armados – as imagens são as mesmas, mas o ângulo, certamente, é outro.

***
ao anoitecer, cesário retira a pedra que escondia a carcaça e as vísceras do
animal morto no dia anterior. ele cambaleia com o cheiro, mas anh-ankh-ah, não;
ela enche os pulmões, e ri.
– silêncio – diz o militar. – quieta. não queremos assustar nosso transporte.
cesário corvo faz o melhor para não deixar transparecer o quanto se sente
perturbado pela nova faceta da mulher, sua ex-refém e, ao menos até a noite
anterior, amante. ela é louca, ele tem certeza. mas é claro que é, diz uma voz
interior. se metade do que ela contou for verdade, a vida ao lado do alienígena,
milhares de anos atrás, a possessão do corpo de um bebê, o reinado como consorte
de um andróide, a súbita troca de corpos (da qual cesário é testemunha) – bem,
quem não estaria?
o pensamento o entristece. ela não é uma mulher totalmente má. se fosse
possível mantê-la equilibrada, talvez...
um grito corta a noite, vindo do alto, e depois outro. o céu é de um azul
escuro e avermelhado, como vinho tinto num copo de turquesa lapidada. a faixa
brilhante da via-láctea é a única fonte de luz, e é o que basta.
– vamos – diz cesário, arrastando a rainha para dentro do fosso escavado
ao redor do acampamento. assim como ela, o militar também está com o corpo
coberto pelo sangue do animal abatido mais cedo. mas o sangue já está seco, e o
fedor das vísceras expostas se sobrepõe ao cheiro mais sutil de ferro oxidado que
ambos exalam.
ao menos, é o que cesário espera.
mais dois gritos vêm do céu, e um terceiro, este quase ao nível do solo.
cesário está com a funda pronta na palma da mão, e anh-ankh-ah, também.
– espere até que haja uns quatro ou cinco – diz o militar, num sussurro.
a rainha assente com a cabeça.
logo, as vampienas descem.
são animais do tamanho de cães adultos, e cães de raças robustas, como
boxers ou são-bernardos. seus focinhos são longos e afilados, cheios de dentes
miúdos, pontiagudos; o pêlo é curto e sujo, ralo em certos lugares. os animais
parecem-se mais com lobos.
e têm asas – grandes asas de morcego, que se dobram sobre as costas até
ficarem quase invisíveis, mas que estendidas chegam a mais de três metros de
envergadura.
as primeiras vampienas a chegar uivam de prazer ao encontrar o banquete
de restos, e seus uivos atraem outras mais.
lentamente, certificando-se de que ainda está contra o vento, cesário se
levanta, fica em pé no fosso, começa a girar a funda.
anh-ankh-ah faz o mesmo.
– na cabeça! – ele grita, ao mesmo tempo em que deixa voar a primeira
pedra.
as vampienas ouvem o grito, e começam a se dispersar um segundo tarde
demais. um projétil atinge uma delas em cheio na cabeça, rachando-lhe o crânio;
outra estende as asas para alçar vôo e é tolhida por uma pedra em alta velocidade
no esterno.
no instante seguinte, o bando já partiu em revoada, ganindo, deixando as
duas colegas, uma morta e uma ferida, para trás.
conforme cesário se aproxima, torna-se evidente que o animal atingido no
peito está sofrendo, e sofrendo muito: sua respiração é ruidosa, agoniada, como se
um pulmão tivesse sido esmagado – o que provavelmente é o caso.
usando o dente de moag, cesário põe um fim à dor da criatura.
em seguida, ao mesmo tempo em que usa uma das mãos para segurar
aberta a asa da vampiena morta, passa a outra por baixo da nuca da criatura e
puxa, com força – até ouvir um estalido úmido.
no instante seguinte, o corpo de lobo rola facilmente para fora das asas,
que se revelam como um animal à parte – algo como uma arraia, talvez, mas uma
arraia dos céus.
privada do organismo simbionte, a criatura-asa treme, e de pontos que
poderiam ser descritos como seus “ombros” e a base de sua “coluna”, distendem-
se línguas brancas, rijas, que primeiro cospem um líquido negro, malcheiroso, e
em seguida iniciam um som desagradável de sucção.
sem demonstrar repugnância, cesário ergue o animal-asa e joga-o por
sobre os ombros nus, veste-o, como se o simbionte fosse a capa de um traje
cerimonial.
as línguas brancas se retraem ao contato da carne alienígena mas, atraídas
pelo cheiro de sangue coagulado, pelo hálito saturado de carne crua, projetam-se
novamente – o líquido negro funciona como um anestésico local poderoso, e a
delicada cirurgia de conexão com nervos, músculos e vasos sangüíneos,
aperfeiçoada pelos milênios de evolução da vida no planeta marte, adapta-se, com
menos problemas do que se poderia imaginar, à fisiologia terrestre.
em menos de duas horas – horas de febre, sede e delírio, horas em que
defecou e urinou sem controle, horas em que seu paladar e outros sentidos foram
alterados, redefinidos, reprogramados – cesário corvo se vê transformado numa
criatura alada.
anh-ankh-ah, seguindo suas instruções, havia passado pelo mesmo
processo. agora, os dois dormem; na manhã seguinte, farão um primeiro vôo de
reconhecimento e, depois, partirão em busca do monte olimpo.

***

o impacto do grande crânio sobre a água ejeta x-8 por uma das órbitas, e
no instante seguinte o agente se vê afundando no líquido gelado, denso como uma
sopa velha, recém-mexida, da cor do pus, e iluminado, aqui e ali, pelo brilho de
vermes fluorescentes que devoram os pedaços mais apetitosos lixo recém-
chegado. x-8 tenta não imaginar qual criatura estaria acima dos tais vermes na
cadeia alimentar dali de dentro do fosso.
o cursor dos óculos do agente começa a piscar feito louco, indicando um
ponto abaixo de onde x-8 está – abaixo, muito abaixo. literalmente, o fundo do
poço.
o grande crânio, veículo abandonado, afunda paralelamente a x-8, o
“rosto” voltado para cima, narinas abertas e olhos vazados soltando enormes
bolhas de ar que logo se desfazem numa chuva invertida de balas de prata. de
quem teria sido aquela cabeça? uma experiência genética frustrada, talvez, como
o homem-tigre guardado no laboratório do jângal.
sorte minha que foi frustrada, pensa o agente.
cerrando bem os lábios para não provar nenhuma gota daquela água
imunda, x-8 projeta-se rumo à massa de lodo e pedaços de osso. o cursor indica
um ponto exato, e chegando ali o agente se põe a escavar com a ponta dos dedos
da mão direita.
de repente, o cursor pára. congela. x-8 tem algo na mão, algo entre a ponta
do indicador e a polpa do polegar.
um dente. um dente do siso, com uma obturação dourada na face lateral
interna. x-8 pressiona o ponto de ouro, que cede um pouco, menos de um
milímetro. logo em seguida, a água começa a ferver.
há poucas coisas realmente mais assustadoras do que ver um campo de
fisiotempo antientrópico em pleno funcionamento, e é por isso que x-8 fecha os
olhos. ele não está preocupado em nadar de volta à superfície, em respirar; não é
necessário. enquanto o campo estiver atuando, nada, nenhum processo orgânico
degenerativo terá como ocorrer. mesmo sendo imune aos efeitos mais radicais das
energias liberadas pelo dente, x-8 sabe que pode contar com esse pequeno
benefício: para seus pulmões, em seu sangue, a partir de agora, o tempo não
passa.
no fosso ao redor, o impacto da bola de fisiotempo negativo é muito mais
dramático. x-8 não vê, mas imagina: células e tecidos coagulando-se a partir dos
restos em suspensão na água, vermes regurgitando e explodindo com o resultado
de semanas, meses e anos de digestão invertida, depósitos de cálcio arrancados da
própria rocha e fluindo rumo ao torvelinho onde começa a tomar forma um
esqueleto, primeiro, e em seguida tendão e músculo.
a água se afasta e reflui, ferve e congela, derrete, desaparece, escoa pelas
fissuras do piso; o lodo e o lixo viram cinzas, pó, vapor, vento, vão-se embora;
bolhas de ar descem, crescem, fundem-se, expandem-se, o ar gira, aquece-se, sobe
e leva o calor para longe.
os blocos de pedra que compõem as paredes do fosso agora estão
perfeitamente polidos, negros como um espelho de vidro vulcânico. premido pelo
silêncio repentino, x-8 abre os olhos e contempla o homem ao seu lado, a figura
rediviva do agente x-10. o ciborgue, reconstituído a partir dos elementos do
passado, respira fundo, pisca duas vezes e diz:
– da próxima vez que algum viado quiser um caralho de uma bosta de uma
âncora praquela merda do cronoscópio, que aqueles cornos arrumem um outro
filho-da-puta pra foder, ou vão todos tomar no cu!
– sempre imaginei que a ressurreição inspirasse sentimentos melhores nas
pessoas...
– porra!
– tá, tá. vinte e dois anos morto. sem falar na tortura que veio antes. mas
esse vocabulário exótico é realmente necessário?
o olhar de x-10 é tão duro que faz x-8 sentir como se um martelo
hidráulico tivesse acabado de lhe cravar dois pregos de dez centímetros através
dos olhos e direto na nuca.
– espero que esses vinte e dois anos tenham servido pra alguma coisa, ao
menos – diz x-10, num murmúrio venenoso.
– É. sim. sem dúvida. com o seu siso dando um ponto focal pro
cronoscópio, m conseguiu uma visão muito boa de todo o plano do faraó, e
achamos todos os pontos críticos aonde atacar. arranjamos para que a oposição
pusesse as mãos numa versão adulterada do circuito de armstead-gonzález e...
– tá. entendi. acho. parece que também vi isso tudo... ah, esquece – x-10
respira fundo mais uma vez e passa a apalpar as roupas, reconstituídas juntamente
com seu corpo. – estou desarmado!
– tome – diz x-8, e lhe entrega os shurikens restantes. – você sabe usar,
imagino. – em seguida, apalpa os bolsos até encontrar dois objetos, um par de
anéis de ouro com duas opalas enormes no engaste, que também entrega ao
colega. – o cronoscópio disse que você vai precisar dessas jóias também. sei lá
por quê. aliás, como estão as coisas na noosfera?
x-10 aceita os anéis e as estrelas de cerâmica em silêncio, sem responder
às perguntas ou à provocação. agora é sua vez de testar os bolsos. a maioria está
vazia, mas num deles há um velho relógio de prata.
maquinalmente, sem prestar muita atenção no que está fazendo, x-8
retoma seu resumo dos eventos até então, e diz ao colega que ele não está mais
nas masmorras de londres, mas da slistrávia. x-10 não revela surpresa.
– para onde, agora? – pergunta, apenas.
x-8 pega a cigarreira de dentro de um bolso secreto especial, até então
lacrado, oculto numa das coxas da calça. abre o estojo, aperta um botão, e o
holograma da fileira de cigarros presa à face interna da tampa desaparece,
revelando uma tela onde se lêem duas linhas de coordenadas, seguidas por uma
descrição dos parâmetros de cada um na nova fase da missão – parâmetros que só
puderam ser definidos graças ao “farol” cronoscópico proporcionado pela
presença de x-10, primeiro vivo, em londres, e depois por seus restos mortais, na
slistrávia, ao longo de mais de uma década, e pelo passeio de x-8 pelas
catacumbas.
– a de cima é a minha. a segunda é o seu “cálculo renal”.
– acho que vou morrer de rir – diz x-10, num tom entediado.
– ah, não outra vez!
a única resposta é outro olhar de rebite. em seguida os dois conversam
mais um pouco, sobre trabalho, e então ambos desaparecem em pleno ar.

***
de repente, a superfície refletora do espelho gira quase 90 graus,
escancarando-se como uma porta! um assovio baixo corta o ar dentro da suíte
real. um dos guardas cai para trás, morto, como se tivesse sido golpeado por um
fantasma.
cravada em seu peito, uma estrela farpada de polímero começa a
vaporizar-se.
É a consciência do impacto – a noção instintiva, vaga, de que alguma
coisa atingiu um dos guardas, matou-o, um reconhecimento súbito que aflora à
mente antes mesmo que o corpo comece a cair – que faz dananko xiv saltar, um
grito contido na garganta, sobre o segundo vigia. um reflexo súbito, provocado
pelo movimento brusco do espelho, havia chamado a atenção deste canzarromem,
e por uma fração de segundo o rifle havia deixado de apontar para a família real
de slistrávia. o salto do príncipe se encaixa nessa fagulha de tempo, e o guarda é
tomado de surpresa.
surpresa, no entanto, não é o suficiente. o golpe que dananko desfere no
focinho da criatura sai desajeitado, sem efeito, e a disputa que se segue, pela
posse do rifle, mostra-se francamente desigual.
num primeiro momento a arma parece ceder sem problemas ao puxão
firme de dananko, mas no instante seguinte as patas do homem-cão cravam-se
com firmeza ao redor do cano e da culatra; dananko controla uma parte do cano
mais perto da mira, e o gatilho.
o esforço faz o príncipe sentir como se tivessem injetado vidro moído e
ácido em seus braços, lâminas microscópicas dilacerando músculo e tendão – ele
visualiza as fibras dos bíceps rebentando uma a uma, como cordas de um piano. a
sensação, em ambos os cotovelos, é de que a junta está sendo arrancada.
aos poucos, a tensão começa a ceder – o esforço já não é tanto, a arma se
aproxima, um milímetro, um centímetro, depois outro. e outro. um formigamento,
acompanhado por uma onda de calor, percorre-lhe os braços, sinal de que os
músculos reconhecem e saúdam o progressivo relaxamento.
no entanto, as patas do canzarromem continuam firmemente crispadas ao
redor do metal e da coronha. e, conforme a arma se aproxima, junto vem a cabeça
da criatura: a mandíbula salivante, entreaberta, os dentes afiados, enfileirados
numa paródia de sorriso triunfante.
um rastro de eletricidade fria percorre a espinha de dananko e o príncipe é
atingido pela consciência aguda, pela sensação inescapável, frenética, do sangue
pulsando nos grandes vasos do próprio pescoço – o pescoço nu, desprotegido, do
qual a bocarra se aproxima cada vez mais.
armadilha!
o corpo do adversário tensiona-se ao máximo, e em seguida relaxa por
completo, o grande focinho mergulhando na direção da garganta de dananko. mas
a boca, escancarada, não se fecha; e o único ferimento que o príncipe sofre é um
arranhão provocado pelo dente canino que lhe arranha a curva da mandíbula, um
pouco abaixo da orelha esquerda.
cravada na base da coluna cervical do canzarromem, uma estrela de
polímero começa a se desmanchar ao sabor da brisa fresca que entra pela
passagem secreta do espelho.

***
a viagem rumo ao olimpo, segundo a estimativa de cesário corvo, deverá
durar duas semanas. nesse período, o oficial da marinha etérea vive uma situação
inusitada (como se voar com as asas de um simbionte marciano já não fosse
inusitado o bastante) de dissociação de personalidade.
psicologicamente, ele sabe que os novos hábitos alimentares, nascidos da
simbiose com as asas, devem ser, são, repugnantes; mas a interface nervosa altera
paladar e olfato. agora, a matéria em decomposição lhe parece deliciosa.
assim, ele sabe que devia detestar o que, na verdade, adora. ocorre-lhe que
tanto mártires religiosos quanto estripadores psicopatas talvez enfrentem o mesmo
problema.
cesário e anh-ankh-ah avistam o monte poucos dias depois do início da
viagem. mas, quando se trata da maior montanha do sistema solar, avistá-la não
significa, necessariamente, estar perto.
É uma visão majestosa: se os dois não estivessem voando nem muito
baixo, a ponto de se verem entre as copas das árvores, e nem alto demais, o
olimpo torna-se, pura e simplesmente, todo o horizonte. há momentos em que
marte parece um planeta côncavo, com a superfície adiante – o gigantesco
paredão vulcânico – a dobrar-se para cima até o infinito.
no oitavo dia de viagem, eles são perseguidos, por algumas horas, por um
trio de metacondores. vampienas não são parte da dieta regular desses grandes
predadores alados mas, assim como os tubarões dos mares da terra, os rapinantes
marcianos simplesmente não sabem disso: apenas perseguem tudo o que se move
pelo ar, indiscriminadamente.
milênios de evolução haviam gravado uma série de manobras evasivas no
sistema nervoso autônomo dos simbiontes, e cesário e anh-ankh-ah logo se vêem
incapazes de controlar qualquer aspecto do vôo, com exceção da direção geral de
deslocamento; piruetas, loopings, mergulhos e passagens rasantes ocorrem sem
nenhum controle consciente por parte dos dois.
após menos de meia hora de caçada, os três metacondores, confusos e
irritados, decidem partir em busca de presa mais fácil.
terminada a fuga, o casal de humanos se vê tomado por uma euforia
inexplicável. cesário, ao menos, esperava uma enxaqueca, causada pelo fato de o
sangue em seu corpo ter sido jogado da cabeça para os pés e de volta pelo menos
uma dúzia de vezes, graças à força centrífuga gerada pelas manobras das asas;
estômago embrulhado e vômito também não o teriam surpreendido.
nada.
e, pelo sorriso que vê no rosto da rainha, anh-ankh-ah também sente o
mesmo prazer inexplicável. aliás, não só um prazer, mas uma estranha excitação.
estranha? não é verdade. uma excitação que ambos conheciam muito bem. tanto
que, menos de um minuto depois, já estão voando bem perto um do outro.
por alguns segundos, cesário imagina se essa atração também não seria um
efeito orquestrado pelas asas. parece-lhe que, biologicamente, faz sentido o
simbionte induzir os hospedeiros a se reproduzirem após uma situação de perigo –
uma forma de tentar garantir que, se o casal não escapar da próxima vez, haverá
filhotes para dar continuidade à simbiose.
se a idéia de manipulação dos sentimentos em escala hormonal o
incomoda, todo pensamento desagradável – a bem dizer, todo e qualquer
pensamento – desaparece assim que a boca de ank-ankh-ah, molhada a despeito
do vento seco e intenso, abre-se sobre a sua.
***
x-8 caminha, solitário, pelo grande salão do castelo. vazio, o lugar parece a
tumba de um gigante, e funciona como uma enorme caverna de eco.
mas ele sabe que o lugar não está vazio há muito tempo: há, na atmosfera,
aquela carga familiar de ausências recentes. o visor confirma a impressão
subjetiva, ao detectar um rastro infravermelho no ar e na rocha ao redor; o salão
esteve abarrotado de – pessoas? – há menos de trinta segundos.
o agente também sente o arrepio na nuca, o formigamento no palato que,
para o viajante experimentado, indicam deslocamento temporal recente: a
taquionicidade estática. x-8 materializou-se ali, vindo de uma década no passado,
há poucos instantes, mas a assinatura energética que seus instintos detectam não é
a sua. há algo muito, inacreditavelmente, maior sufocando por completo o rápido
decaimento dos poucos táquions que o homem da intempol arrastou consigo.
refinando a leitura do visor para o espectro das partículas virtuais pós-
metafísicas, x-8 descobre um verdadeiro tornado de parsônios, já em via de
dissipar-se. o parsônio é o táquion mais raro, envolvido no deslocamento entre
realidades paralelas.
o agente da intempol sorri. as coordenadas estavam certas: anendjib e todo
o exército de homens-fera havia acabado de partir. e o equipamento indispensável
para manter o canal entre as realidades aberto tinha ficado ali, no salão.
desprotegido.
seguindo as indicações do visor, x-8 cruza as sombras dos grandes arcos, a
caminho do painel de controle principal. ele ainda se lembra do final da conversa
com x-10, dez anos, quinze segundos atrás. algo que lhe deu calafrios.
tinha sido pouco antes de ambos ativarem seus respectivos equipamentos
de viagem no tempo – x-8, a cigarreira, x-10, o rim biônico que mantivera sua
verdadeira função oculta até durante dissecação ordenada pelo faraó.
– você já ouviu falar em “eternidade teológica”? – perguntara o ciborgue,
de repente.
– acho que não...
– É a “eternidade” como um dos atributos de deus. significa, aspas, “a
posse simultânea de todos os seus instantes”, fecha aspas. É a capacidade de estar
em todos os momentos ao mesmo tempo.
– onipresença cronológica, digamos.
– isso.
silêncio.
– e daí? – perguntara x-8.
– bom... eu morri.
– sei.
– o que significa que minha alma esteve na noosfera.
– É. faz sentido.
– e quando o campo antientrópico do dente foi ativado, eu voltei.
– exatamente.
– e o campo funciona... ele arrastou partes de mim, átomos e moléculas e o
resto, de diversos pontos do continuum. e a consciência, ou fragmentos dela, da
noosfera. o fato é que tenho uma lembrança... uma sensação... no instante de
ativação do dente, eu fui eterno. teologicamente eterno.
os dois haviam ficado quietos, então. o que o ciborgue dizia era difícil de
entender, mas até onde x-8 conseguia ir, a coisa, fantástica como era, não deixava
de fazer sentido. se havia retalhos de x-10 espalhados por toda a linha temporal, e
se todos tinham sido reunidos num único ponto, num único momento... só era
difícil imaginar o efeito que aquele segundo de “eternidade” teria causado na
cabeça do colega.
as lembranças de x-8 são interrompidas por um som grave, áspero, vindo
da escuridão além do arco em ogiva para onde o agente se dirige. É algo parecido
com um trovão distante, mas há também uma qualidade animal no ruído – como
um rugido.
o visor se ajusta rapidamente, passando da visão submicroscópica de
partículas pós-metafísicas para a visão noturna simples. x-8 mal tem tempo de
saltar para o lado antes que as pedras de granito – do piso onde estava – sejam
pulverizadas num estrondo!
como se o mundo estivesse em câmera lenta, o agente vira o rosto para
direita, e contempla o ponto de impacto: há uma clava ali – algo feito de pelo
menos três carvalhos adultos, inteiros, amarrados juntos. uma das extremidades da
arma está, claro, em meio à nuvem de rocha pulverizada e cacos de granito
produzida pelo impacto.
a outra é segura por uma mão colossal – os dedos são quase do tamanho de
homens. erguendo os olhos, x-8 permite que o visor lhe revele a cabeça da
criatura. É um rosto humano, gigantesco, sem dúvida, com dois olhos, nariz, boca.
o que há de estranho a respeito dos olhos?
ah, claro: a protuberância supraorbital.
depois de disparar uns três ou quatro chutes mentais na própria bunda por
ter achado que o equipamento iria estar desprotegido, x-8 olha para os dois olhos
castanhos, enormes, e diz:
– eu e seu avô já viajamos bastante juntos, sabia?
a resposta é um rugido ensurdecedor.

***
um tremor perpassa o aposento, como se uma parte distante do castelo
tivesse sido atingida por um obus. ao mesmo tempo, x-10 deixa seu refúgio atrás
do espelho.
a princesa sílvia está ajoelhada ao lado do marido. lágrimas escorrem pelo
rosto da mulher, o peito convulsionado por soluços. o príncipe, no entanto, não
parece estar em choque, e nem muito ferido. se sua mente tem alguma dificuldade
em ligar a figura de chapéu e sobretudo que emerge da passagem secreta com a
morte dos dois canzarromens, ou alguma dúvida quanto às intenções amistosas do
novo visitante, ambas as questões se resolvem, em seu íntimo, em menos de um
segundo; há uma antiga memória, uma intuição de camaradagem, de inimizades e
ódios comuns, que lhe diz para confiar neste homem.
o príncipe se ergue rapidamente para saudar seu salvador.
– obrigado, obrigado, senhor!
– não há de quê – diz x-10, com um sorriso que parece sincero, a despeito
do olhar distante. ele aceita a mão estendida do monarca, e o aperto que oferece,
apesar de seco, é quente, energético. – minha satisfação em dispor dessas
aberrações é maior do que sua alteza poderia imaginar, acredite.
a princesa sílvia, já de pé, ignorando a profusão de lágrimas que lhe
escorre pela face, volta-se para o ciborgue. ela só consegue balbuciar:
– quem são... o-que-são...
x-10 estende as duas mãos diante de si, com as palmas voltadas para
dentro, de forma que as pedras de seus dois anéis, duas opalas de fogo, estejam
voltadas para o casal real. os olhos do agente brilham como fornalhas de um fogo
frio, sufocante. por baixo das unhas dos dedos médios de ambas as mãos, as
agulhas de narcótico preparam-se para deixar a bainha.
com uma voz profunda, paternal, uma voz que é a voz de um deus bom e
gentil, mas firme, x-10 diz:
– relaxem... eu vou explicar tudo, mas primeiro é preciso que relaxem...
vocês passaram por muita, muita coisa... agora é melhor relaxar... príncipe
dananko... princesa sílvia... ouvem minha voz? então... relaxem...

***
os olhos de cesário corvo passam a lhe pregar peças.
ou, ao menos, é isso que ele imagina quando, primeiro, uma figura, uma
figura humana (ou vagamente humana ou, como a frase afinal lhe parece melhor,
de contornos humanos) surge do nada, em pleno ar, cai por alguns metros à sua
direita, desaparece. como se nunca tivesse existido.
depois, anh-ankh-ah grita, dá uma pirueta no ar, as asas batendo num ritmo
desesperado. cesário vira-se para observá-la: há uma espécie de vulto, uma
mancha escura que surge e desaparece ao redor da mulher, acima, abaixo, dos
lados e em todas as direções, sempre dando a impressão de estar caindo, mas sem
nunca cair, de fato; a sombra permanece apenas uma fração ínfima de segundo em
cada posição, e mesmo sem ser invisível é quase transparente em sua velocidade.
o fragmento de imagem que esse espectro deixa na retina também é de um
contorno humano.
as correntes de ar são estranhas – pequenas explosões quase inaudíveis,
deslocamentos súbitos, golpes inesperados de vento. como se dezenas de
pequenos vácuos surgissem e fossem preenchidos a cada instante.
sentindo um nó na garganta, um senso de catástrofe a apreensão, um medo
surdo a que já se acreditava imune, cesário desvia seu vôo para aproximar-se,
lentamente, cauteloso, da rainha. o dente de moag está firme e pronto em sua mão,
mas ele se concentra em transmitir alguma naturalidade à maneira com que
transporta a arma, a fazer o objeto parte da paisagem. nada hostil.
alerta, mas não hostil.
cesário sente um deslocamento de ar sobre si, vira-se, não há mais nada
lá. mentira: há algo. um odor. cheiro de réptil.
a lembrança da captura pelos lagartomens, da oubliette venusiana, quase
lança corvo num frenesi, mas ele se controla. respira fundo uma, duas, tantas
vezes até que a batida forte do coração não lhe pareça mais que uma massagem
suave pelo lado de dentro das costelas.
anh-ankh-ah grita!
há um deslocamento brusco de ar, um tremor maior na atmosfera.
cesário olha, e ela não está mais lá. assim. a mulher alada, que voava a
menos de dois metros de seu flanco direito, não está mais lá.
um rosto surge diante da face de cesário. um rosto negro, de boca fechada,
lábios crispados, olhos cinzentos. antes mesmo que a presa do moag possa atacar,
a face desaparece, e a ponta de marfim marciano corta um redemoinho de vento.
e então um peso se abate sobre cesário, tolhe-lhe as asas, o brigadeiro
perde sustentação, gira, cai e continua a cair, a atmosfera é um fosso no qual
cesário corvo se vê arremessado, para onde é arrastado pelo peso que lhe
imobiliza as asas e se recusa a deixá-lo.
no décimo de segundo seguinte, ele se vê deitado num corredor metálico,
imobilizado de encontro ao solo – num golpe de jujutsu? – por um negro de olhos
cinzentos, quase azuis, e praticamente nu. seu captor usa apenas um pano
vermelho amarrado ao redor da cintura, uma faixa espessa de couro cruzada sobre
o músculo peitoral esquerdo, braçadeiras e sandálias do mesmo material. há uma
marca – uma cicatriz de fogo – em relevo no peitoral direito, contraído, nu. um
desenho abstrato, feito de duas curvas senóides, cruzadas e levemente estilizadas,
dando a impressão de um par de tenazes entreabertas, ou algemas.
mesmo depois de décadas, cesário corvo ainda é capaz de reconhecer o
ideograma: a marca do pirata, capturado e punido.
um pouco adiante, anh-ankh-ah sofria a mesma indignidade, só que nas
mãos de um lagartomem – também com a marca do pirata estampada no peito nu.
o corredor em que se encontram é alto e largo, e a curva do teto dá a
impressão de suportar grandes pressões. todas as superfícies, acima, aos lados e
abaixo, são de um tom metálico fosco, como aço escovado ou prata envelhecida.
– bem-vindos ao complexo olimpo – diz uma voz de mulher, amplificada,
que parece emanar das próprias paredes. – tarik, rydl, podem deixá-los. eles são
nossos convidados. talvez venham a ser nossos aliados.
o pirata humano e o lagartomem se afastam, em silêncio, dos dois
prisioneiros, que se erguem devagar, flexionando os músculos (e,
inconscientemente, as asas) com cuidado. anh-ankh-ah parece chocada, e cesário
imagina que a expressão em seu próprio rosto não seja muito melhor. porque
ambos haviam reconhecido a voz...
a voz! na prisão, cesário corvo jamais havia deixado de ouvi-la, ressoando
na memória, uma música ao fundo de sua mente. e agora! aqui! seria ela? a
menina – não, não mais: a mulher – seria...
– melissa? melissa mcmurdock, é você?

***
a clava do gigante desce mais uma vez, e outra, sempre arrancando
estilhaços de rocha do piso. x-8 salta e rodopia, algumas vezes cavalgando as
ondas de choque e, em outras, simplesmente sendo arrastado por elas.
farpas de granito movem-se em redemoinhos ao seu redor; o dorso de
ambas as mãos e a testa do agente estão cobertos de pequenos cortes, incisões
ínfimas de ardem como picadas de abelha.
o monstro é lento. relativamente, ao menos. x-8 acredita que, em termos de
resistência física e velocidade, poderia continuar a se esquivar por horas, ainda.
mas...
primeiro, esse é o tipo de estratégia que não leva a lugar nenhum. segundo,
há alguns instantes o visor começou a lhe mostrar o relógio de tempo de missão –
a escala abstrata que permite aos agentes, mesmo atuando em épocas ou
realidades diferentes, “sincronizar” seus esforços. as instruções de x-8 exigem que
o equipamento de viagem interdimensional do castelo seja destruído num horário
tm específico, e o tempo começa a se esgotar.
terceiro, não vai demorar muito para que os estilhaços reduzam seu corpo
a frangalhos.
pensando em tudo isso, o agente retira o que resta de sua jaqueta e a enrola
no antebraço direito.
a clava desce mais uma vez, e mais uma vez x-8 salta uma fração de
segundo antes do impacto com o piso – só que desta vez ele não pula parta trás ou
parta os lados, mas diretamente para cima. a crista da onde de choque o atinge na
sola dos pés, arremessando-o ainda mais para cima, e ele dobra o corpo,
recebendo a lufada seguinte em cheio no peito. esse novo impulso faz com que
seu corpo comece a girar e ele é jogado não para longe do gigante, mas em sua
direção!
x-8 cai agachado, apoiado na ponta dos pés e dos dedos, sobre a base da
clava do monstro, um pouco acima da empunhadura. a criatura urra com raiva e
frustração, e para o agente a dor causada pela vibração do grito nos tímpanos é
ainda pior que as lascas de pedra cravadas pelo corpo.
o grande neandertal sente a diferença de peso na clava e começa a agitá-la
no ar, com força e cada vez mais rápido, na tentativa de “desgrudar” o passageiro
indesejável. x-8 crava os dedos na madeira até que começa a sangrar por debaixo
das unhas, contrai os músculos ao máximo – e não solta.
de repente, a clava pára. involuntariamente, x-8 prende a respiração. tudo
depende do que a criatura fará agora. se o monstro resolver apenas usar o polegar
da mão esquerda para esmagar o agente ali onde está, como um carrapato, tudo foi
inútil. mas, se por outro lado...
a clava volta a se deslocar, mas de forma mais lenta, cuidadosa. x-8
também se move, circulando e escalando a arma, como faria num desfiladeiro
perfeitamente horizontal.
a clava pára mais uma vez, quase ao mesmo tempo em que x-8 chega ao
topo. quase todos os galhos dos carvalhos foram pulverizados pelos sucessivos
impactos, mas ainda há o suficiente para o agente se firmar, enroscando pernas e
cotovelos nos tocos que lhe parecem mais resistentes.
rezando aos deuses de todas as eras por um pouco mais de firmeza nas
mãos, x-8 puxa alguns fios do rasgo onde, dez anos ou uma hora atrás, tinha
estado a manga da jaqueta. alguns dos fios que saem são prateados; outros,
transparentes.
com uma destreza surpreendente, ignorando o suor e o sangue que lhe
escorrem nos olhos, x-8 faz um dos fios prateados varar e trespassar um dos fios
transparentes. o resultado imediato é um breve pulso de luz branca.
a clava agora desce, devagar. o agente engole em seco e se esforça para
não começar a tremer, nem a chorar. agora, que está tudo dando certo. curioso, o
monstro é. todos os hominídeos são. É isso aí.
o neandertal gigante quer ver o intruso. quer olhar para a criaturazinha
impertinente que pegou carona em sua clava. a arma desce até que x-8 se vê no
mesmo nível dos olhos do monstro. nem mesmo a sombra da projeção
supraorbirtal é capaz de mantê-los no escuro, agora. um deles, o esquerdo, está
comprimido, as dobras de pele no canto parecem trincheiras. tudo o que se vê da
pupila é um brilho frio, cruel, com uma insinuação rubra de fúria mal contida –
este, x-8 conclui, é o olho de odiar.
o olho direito, em contraste, está arregalado. a íris, castanho-esverdeada, é
perfeitamente visível, assim como o branco ao redor e a pupila negra ao centro. a
x-8, essa pupila parece querer engoli-lo. este, pensa o agente, é o olho de
perguntar.
calma, garoto. a resposta vem aí.
e a boca? a boca, como a de todo primata, macaco ou hominídeo curioso,
está aberta. não escancarada, mas aberta. É suficiente.
com cuidado, mas também com força, x-8 arremessa a jaqueta, dez
segundos antes do forro explosivo finalmente ir pelos ares, por entre os lábios e os
dentes do grande neandertal.

***
o chão da suíte ainda treme diversas vezes depois de a família real de
slistrávia ter mergulhado no sono hipnótico induzido pelas duas opalas psiônicas e
pelas drogas. os tremores vêm em intervalos que, se não são exatamente
regulares, ainda assim têm algo de previsível.
de repente, os abalos cessam por completo. quando o choque seguinte não
vem no momento esperado, x-10 sente uma leve irritação, a reação instintiva do
homem de hábitos regulares diante de uma quebra na rotina.
ao tomar consciência do fato, x-10 sorri.
o bebê ananka, em seu berço, chora. x-10 não pôde fazer nada para ajudá-
la: as drogas são muito fortes para um recém-nascido.
e então o bebê começa a berrar. até então, a menina estivera chorando
numa espécie de melodia triste, mas contida; agora, grita no mais completo
desespero.
por quê?
a resposta vem logo em seguida, uma explosão colossal seguida por um
abalo que faz o agente pensar se o castelo não foi atingido por um míssil scud.
mas os mísseis scud ainda não foram inventados!
x-10 retira o relógio do bolso interno da capa, abre a tampa do estojo – de
prata – e olha para o misterioso quarto ponteiro, o que marca os segundos tm. ele
acaba de cruzar o doze.
então, x-8 conseguiu. no último segundo. como sempre.
embora x-10 não saiba, nesse mesmo instante tm, a um universo dali,
cesário corvo usa o cinto de teletransporte desenvolvido pelo departamento s para
se projetar de um vênus alternativo para um marte também alternativo.
uma infinidade de ondas, todas em interferência construtiva, todas em
ressonância, perpassam o multiverso. uma porta é trancada, e a chave se perde
para sempre.
x-10 tem um estranho déjà-vu de seu momento de eternidade.
e a porta do quarto se escancara com um estrondo.
– puta que pariu!
a figura para no batente é um homem. alto, de corpo atlético. nu, exceto
pelos punhos da camisa e um par de botas. e está todo pintado de vermelho: na
verdade, coberto de sangue.
– olá, x-8! parece que deu tudo certo. quer tomar um banho?
– eu disse: puta que pariu!
– e eu ouvi.
– e você quer que eu tome um banho?!
– compreendo que você não tenha uma escolha objetiva entre estar ou não
estar puto da vida. mas você tem uma escolha objetiva entre feder ou não feder.
– e se eu quiser ficar fedido? fedidamente fedido? fedido pelo resto da
bosta da vida fodida?
– isso vai incomodar o bebê.
É só então que x-8 nota o berço, e a criança que chora – o bebê não tem
mais fôlego para gritar – lá dentro.
– ananka?
x-10 confirma:
– ananka.
x-8 respira fundo e diz:
– tá. vou tomar a porra do banho.

***
um painel, até então indistinguível do restante da parede de aço escovado
do corredor, afunda alguns milímetros em sua moldura e em seguida desliza para
a esquerda até sumir por baixo do revestimento circundante. o movimento revela
uma superfície cristalina, plana, na qual uma imagem começa a tomar forma.
primeiro, o fundo: líquido, translúcido. duas fileiras de bolhas sobem, sem
muita pressa, à direita e à esquerda. um aquário. em seguida, o objeto que deve
ser o foco principal de atenção desta imagem: um emaranhado de fios dourados e
tubos transparentes, armado ao redor de um pedaço de carne.
um cérebro humano.
– olá, cesário – diz a voz que ressoa pelo corredor. – que bom que você se
lembra de mim.
cada vez que um som é emitido pelos alto-falantes, um dos tubos presos ao
cérebro sofre uma pequena dilatação, voltando a contrair-se na pausa entre a
sílaba que termina e a próxima.
– melissa? isso é você?
– isso? cesário, na última vez em que nos encontramos você foi mais
cortês. não vá dizer que só estava interessado em meu corpo...
uma gargalhada explode pelas paredes. o brigadeiro ouve com atenção,
esperando pelo sinal de mania, de loucura, mas não detecta nada.
– mas vocês homens sempre envelhecem melhor. para a mulher, é ninfeta
num dia, bruxa velha no outro... muito, muito injusto – o tubo continua a pulsar
no ritmo exato das palavras. – quanto tempo se passou para você, por falar nisso?
– dez anos.
– para mim foi quase um século! bem, menos. uns setenta anos. sessenta.
ainda assim... meu pai morreu. você devia ter ficado para se explicar, sabe? isso
teria evitado muita confusão.
cesário não se contém mais:
– deus, menina, o que aconteceu com você?
– “menina”? que simpático! obrigada. quanto à sua pergunta... simples, na
verdade. há uns vinte anos, mais ou menos, anendjib concluiu que o sistema de
controle do olimpo precisava de uma cpu de alto nível para controlar todas as
funções desta base. porque é aqui que o grande plano segue adiante, certo? aquele
playground em vênus é só isso mesmo, um playground. e naquela época eu já
havia... como é mesmo que se diz...? “sobrevivido à minha utilidade...”
– então ele resolveu usar os circuitos do seu cérebro? mas você está...
consciente...
– ah. uma coisa pela qual, acredito, você é responsável.
– eu?
– a história, querido cesário. o universo. nenhum deles é mais o que
costumava ser antes de você chegar a marte. ou vai me dizer que não percebeu? o
“novo corpo” desta mulher ao seu lado, que deveria ser minha neta, mas não é. ou
a facilidade com que tarik e rydl usaram o teletransporte para capturar vocês dois.
teletransporte de alta precisão!
cesário fala como alguém tentando descrever uma imagem mal-e-mal
divisada, os fragmentos de uma grande estátua vistos meio a uma densa neblina:
– eu senti... algo. e notei a mudança em anh-ankh-ah... ela própria notou...
– este é o meu corpo – diz a rainha. – como era. como foi. como sempre
deveria ter sido. e, sim... você é minha avó. e também não é. você era a avó
daquele outro corpo...
– bem-vindos, crianças! – diz melissa, com um riso que soa como o
choque suave de taças de cristal. – bem-vindos a um mundo reformado.
reformado, devo dizer, por uma peça de equipamento que vocês trouxeram até
nós!
cesário se lembra do instante de desorientação que sentiu ao se
materializar em marte, tantos dias atrás. lembra-se da surpresa ao constatar que
não havia se projetado entre as dimensões, mas entre os planetas. e, claro, há o
novo corpo de anh-ankh-ah...
– meu cinto interdimensional?
– uma armadilha... ao ativá-lo, você apenas fechou uma cadeia cósmica de
eventos, encenados aqui e em outras partes do multiverso. uma corrente que
lacrou esta realidade para todo o sempre. aliás, a mudança foi retroativa: esta
realidade sempre esteve lacrada. ninguém jamais entrou, e nem saiu, daqui. É por
isso que o corpo de anh-ankh-ah não é o corpo de ananka: ananka jamais existiu
entre nós. como poderia?
– mas eu me lembro de minhas viagens! – aturdido, cesário nem se dá
conta do fato de que está gritando. – visitei outras realidades!
– você estava no foco da reconstrução. É natural que se lembre.
– e você melissa? como você se lembra? e, se este universo sempre esteve
lacrado, da onde vieram você, anendjib, os homens-fera?
– eu não estava no foco, mas perto dele. todo este planeta estava, por falar
nisso. e não é só: há sondas e sensores aos quais estou ligada, e satélites. a
estrutura da realidade não pode ser reescrita sem que traços disso fiquem
registrados nos níveis cósmico e subatômico. muito do que lhe contei até agora, e
boa parte de minhas “memórias” sobre nosso “encontro” na outra terra, deduzi a
partir dessas observações.
– anendjib.
– ah, sim! quanto a anendjib e os homens-fera que um dia foram meus,
tenho bancos de memória aqui sobre uma expedição arqueológica liderada por
malcolm mcmurdock às pirâmides de vênus, e que acabaram...
– pirâmides? nunca houve pirâmides em vênus!
– nesta versão remasterizada do universo, sempre houve pirâmides em
vênus. os deuses do egito vieram de lá. os homens-fera não são produtos de
manipulação genética, mas descendentes da raça divina. meu pai não era um
biólogo psicopata, mas um arqueólogo... psicopata, temo dizer.
– você não parece muito abalada com isso.
– setenta anos há mais e um corpo a menos ajudam a pôr as coisas em
perspectiva. onde eu estava? ah, sim: a marinha etérea enviou você a vênus para
investigar as atividades de meu pai, que havia acabado de libertar anendjib, aliás
nephren-ka, de um fosso de animação suspensa, juntamente com anh-ankh-ah.
você me seduziu, descobriu que o doutor mcmurdock e o casal de múmias
pretendiam dominar o império juntos; matou meu pai, mas caiu no fosso e ficou
congelado até...
– não me lembro de nada disso! nunca seduzi você!
– minhas lembranças são diferentes... – haveria um certo desapontamento
na voz? – as lembranças que realmente tenho, não as que reconstituí a partir da
oscilação da radiação de fundo. você foi bom. mesmo. muito bom.
depois de quase meio minuto de silêncio, cesário volta à carga:
– agora, espere um pouco. e como...
– não estou dizendo que não haja paradoxos – diz melissa, com o tom de
voz de quem põe ponto final na discussão. – eles abundam, mesmo no nível
subatômico. mas há outros aspectos mais urgentes.
– quais?
– o que você faria se eu lhe dissesse que é possível trazer toda a população
do sistema solar, do império, de volta à vida?

***
x-8 acaba de contar a x-10 como jogou a jaqueta, pronta para explodir, na
boca do grande monstro.
– a cabeça do desgraçado estourou feito um chafariz, ele caiu de costas e
esmagou os computadores que a chefia me mandou destruir. strike! mas, sabe...
– sim?
os dois estão nas mesinhas de calçada de um bistrô, com vista para a torre
eiffel. É um dia lindo, de céu azul, e o ar está seco na medida certa, o suficiente
para manter a garganta receptiva para o melhor vinho nouveau da safra do ano
anterior. a temperatura também é perfeita, nem frio e nem quente demais.
dentro de vinte e dois segundos, uma menina de quinze anos que um dia
vai crescer para virar brigitte bardot vai passar por ali e sorrir um sorriso lindo nas
direção deles.
este é um fcp, ou fragmento de continuum perfeito. há um catálogo deles
na empresa – nenhum jamais dura mais do que uma hora e meia (há os que têm
meros dez segundos), mas cada um é uma jóia a ser visitada por agentes de folga.
cada um dos fragmentos de tempo e espaço em que viver vale, objetivamente, a
pena.
outros agentes da intempol acham estranho que x-8 e x-10, implicantes
como são um com o outro, escolham gozar de seus fcps juntos. mas, como x-8 já
disse, “o fato de eu achar o cara um puta mala não impede que eu goste dele”.
– se o objetivo da missão era destruir aquela máquina, naquele instante,
por que a chefia não me mandou direto pra lá? pra que o roteiro todo?
– você tinha que ativar o meu dente antientrópico, não se esqueça.
– mesmo assim...
– olha – x-10 respira fundo, estala a língua no céu da boca. solta o ar. –
lembra o que eu contei, sobre o instante de eternidade, logo que meu corpo se
reconstituiu?
– sua “onipresença no tempo”?
– isso. sabe, é uma sensação danada de esquisita... saber exatamente tudo o
que vai acontecer, mas não adianta nada, porque tudo está acontecendo e, pior, já
aconteceu. o instante da prevenção é o mesmo segundo da consumação, um
negócio de louco. isso me fez pensar em deus, se é que o cara realmente existe.
digo, como é que ele pode fazer alguma coisa se, de onde ele está, sempre é tarde
demais? e o mesmo vale pra gente, de certa forma. entende?
– quase. acho.
– pense assim: o zé mané da esquina, para ele o tempo é uma linha reta,
ligando o ponto a, o passado, ao ponto b, o futuro. É uma linha reta, um corredor
estreito: ele não tem espaço para se virar. ele não consegue nem andar de costas.
no que lhe diz respeito, é como se a cada passo um pedaço do teto caísse,
obstruindo o trecho do corredor que ficou para trás. e o corredor adiante está
sempre escuro, as luzes só se acendem quando o nosso mané chega lá. deste
ponto-de-vista, o tempo é totalmente determinístico. tudo bem?
x-8 assente com a cabeça.
– agora, veja o nosso ponto-de-vista. o ponto-de-vista da intempol. nós não
estamos mais na reta. nós estamos no plano. conseguimos ter acesso a todas as
retas, a qualquer ponto de qualquer uma delas, podemos ver quais são paralelas,
quais se cruzam. podemos apagá-las. podemos criar novas. como estamos uma
dimensão acima do zezinho da padaria, ficamos com a impressão de que o tempo,
longe de ser totalmente determinístico, é infinitamente maleável. só que...
– só que?
– quem disse que o plano é a última dimensão que há? que não existe um
terceiro ponto-de-vista, ainda mais privilegiado, da onde fica claro que o
determinismo, ou um certo determinismo, ainda faz parte do jogo?
– o cronoscópio?
– pode apostar, o cronoscópio. ou melhor: o cronoscópio é apenas um
mapa dessa região superior. ela, em si, é...
– saquei: a tal da eternidade.
– a própria. e é por isso, acho, que temos essas missões enroladas, em vez
de, em de simplesmente irmos ao instante certo, no local exato, para deixar uma
casca de banana no chão e pronto!, adeus império romano. no nosso nível nós
enxergamos os fios, mas não o controle remoto.
– pensamentozinho de mer...!
– sei. e daí? e o que você pretende fazer a respeito?
– tomar outro vinho, bolas.

***
– as bombas noóctonas não eram de verdade.
cesário corvo ouve. a partir deste momento ele é, literalmente, “todo
ouvidos”. as palavras emitidas pelo cérebro de melissa de repente têm forma.
sabor. cheiro. textura. nada mais existe. apenas as palavras.
ele não faz perguntas. sabe que a explicação virá. É inevitável.
– pelo que pude concluir, isso também está ligado à mudança que fez de
mim, de anendjib e de anh-ankh-ah nativos deste universo. só posso especular que
alguma coisa aconteceu no nosso “novo passado”, um erro ou uma sabotagem,
que fez das armas noóctonas meras armas de choque. eu revi os planos: há um
equívoco no projeto. estou quase certa de que ele não estava lá antes. assim como
a tecnologia do teletransporte de alta precisão não estava aqui, antes. eu posso...
– a intempol. – corvo murmura para si mesmo. de alguma forma, por
algum motivo, os canalhas tinham feito isso. cesário sabe que foi usado num
plano para transformar os mundos do império numa prisão para conter anendjib,
anh-ankh-ah e os homens-fera. sabe que foi manipulado. mas agora sabe também
que, por alguma razão, o manipulador, o carcereiro, lhe atirou esta coisa, como o
caçador que deixa a carcaça para os cães. a intempol lhe deu um osso. um osso
precioso.
– eu posso, a bem da verdade – melissa prossegue, sem notar o breve
sussurro de cesário – , trazer todos de volta à “vida” num instante. agora mesmo.
basta alterar a freqüência do campo de estase e enviar um novo choque pelo éter.
– e por que você não faz isso? – cesário pergunta, levantando a cabeça que
lhe parece muito leve, muito vazia. – por quê?
– porque anendjib saberia que eu estou consciente aqui. ele não sabe:
escondi isso muito bem. para ele, meu cérebro é apenas mais um circuito... há
anos venho planejando. tarik e rydl também foram traídos por ele. eu os trouxe até
aqui. o próprio teletransporte é um segredo só meu. e por um outro motivo: esse
seu “império”... você realmente acha que ele merece viver de novo?
pela primeira vez, cesário realmente olha para os dois homens que
permanecem em silêncio no corredor. o negro e o lagartomem. escória colonial, é
o primeiro pensamento que lhe ocorre. mas ele então se lembra do que anh-ankh-
ah havia dito – como tinha sido fácil manipular o ódio das outras raças do sistema
solar.
– seu império era uma merda, cesário – diz a rainha, como se lesse seus
pensamentos. – se é para pisar nos outros, faça como anendjib, que ao menos
inspira alguma devoção nos trouxas. vocês, nem isso.
– eu não quero que meus homens-fera sejam escravos de ninguém. nem
por medo, nem por devoção – diz melissa. – nunca mais. então, tenho uma
proposta para você, brigadeiro-general cesário corvo: liberte os homens-fera de
vênus. destrua anendjib. treine e eduque meu povo até que ele possa tratar com a
sua “civilização humana” de igual para igual. e então, só então, trarei essa tal de
“civilização” de volta à vida. que tal?
cesário cogita pedir um tempo para pensar, mas no instante seguinte, antes
de poder dizer qualquer coisa, já não pensa em nada. É como se sua identidade
tivesse entrado em colapso, esmagada pelo peso de tudo o que ouviu, fez e sentiu
nos últimos minutos, horas, dias. como se a nova responsabilidade lançada sobre
seus ombros fosse a partícula final, a gota que faltava.
todos os sons e imagens de uma vida em dois – não, três – universos se
reduzissem a um único ponto focal. e em seguida a singularidade explode, um
“big bang” da alma que está além das palavras, mas que é pura determinação.
– eu aceito – ele se ouve dizer.
– Ótimo – não há emoção na voz de melissa. – e a rainha...?
– vai ser sangrento – diz anh-ankh-ah. – e divertido. tô nessa.
– Ótimo – repete melissa. – acho que podemos, então, conduzir nossos
novos aliados a seus aposentos.

***

mais tarde, depois de tomar um banho e vestir calças novas e botas novas,
mas sem camisa – ele ainda não decidiu se quer ou não ficar com as asas – cesário
corvo ouve uma leve batida na porta do apartamento que, ao que tudo indica, será
seu novo lar.
– entre.
a porta se abre. por ela passa um cão humanóide, um beagle com uma
cicatriz feia no lugar de um dos olhos. ele veste o que parece ser uma farda leve,
de descanso, e carrega uma pasta debaixo do braço.
– meu nome é dawson dog – diz a criatura, apresentando-se. – a senhora
melissa pediu que eu o colocasse a par de nossas atividades de infiltração nas
forças do faraó. posso me sentar?
– mas é claro.
enquanto o canzarromem arruma a papelada sobre a mesa no centro da
pequena sala que é a única área social do apartamento, cesário tenta se lembrar de
aonde foi que viu esse tal dawson antes.
a imagem está lá. só é difícil saber exatamente aonde. mas, ele pensa, o
que importa? boa parte de suas aventuras passadas na verdade nunca aconteceram.
suas memórias são, para todos os efeitos, de um universo morto.
e a maior de todas as aventuras, conduzir o parto do universo que há de
sucedê-lo, encontra-se adiante – quase que ao alcance da mão.

***

epílogo
na sala da chefia do departamento i, agora há duas escrivaninhas. a mesa
do comissário pedroso foi retirada ontem.
numa das mesas, a placa dourada com letras negras dis “spenger”. na
outra, diz “kramer”.
os dois novos comissários encontram-se todos os dias na porta do
escritório, cumprimentam-se e se dirigem, cada um, ao respectivo lugar.
ultimamente o departamento i tem tido pouco trabalho, então kramer se dedica a
construir castelos de cartas, que spenger se dedica a derrubar com um estilingue
de elástico e clipes de papel.
o castelo cai. os dois sorriem. e riem.
comissariados compartilhados não são norma dentro da intempol. cedo
ou tarde, um deles vai cair e o departamento i voltara a ser o que sempre deveria
ter sido, uma monarquia.
kramer quer o cargo. spenger, também.
kramer constrói castelos. spenger os derruba.
ambos riem. e sorriem.
em algum lugar, no andar de cima, alguém ri muito, muito mais.

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