por
***
como é possível que não reconheçamos a presença de algo
maior do que nós, movendo-se adiante dentro de nós e ao nosso redor?
(teilhard de chardin, “o fenômeno humano”)
***
“how c-could you?”
“it was easy”
(mickey spillane, “i, the jury”)
prólogo
***
– ambos.
– juntos?
– a situação o requer.
dona rosa olha para o verso do bilhete. ali, a lápis, estão desenhadas duas
letras maiúsculas:
“nk”
– e se eles quiserem saber o que isto significa, senhor? – dona rosa não tem
medo de fazer perguntas impertinentes. ela sabe que o pior que pode acontecer é o
comissário mycroft ignorá-las, fingindo não ter ouvido a questão. o cérebro deste
homem é como um cofre hermético; nunca deixa vazar nada que não deva estar
do lado de fora, e se mantém totalmente indiferente à possível (e provável)
existência de arrombadores à solta.
– isto significa, dona rosa – diz mycroft, preparando outra porção generosa
de rapé – que, pura e simplesmente, a caçada começou.
***
***
***
***
***
***
***
e assim, vinte e nove horas depois – ou antes – de aceitar a proposta de m,
cesário corvo geme, recuperando a consciência sobre a faixa de lama e rocha onde
a explosão de gás no pântano o projetou.
a chuva voltou a cair.
o traje stealth está em frangalhos, aberto no peito (o velcro estourou), uma
das mangas faltando e a outra reduzida a uma tira flácida de pano, unindo o
colarinho ao punho. as luvas simplesmente desapareceram, desintegradas,
deixando um formigamento desagradável nas mãos. por sorte, protegeram o anel.
calças e botas estão razoavelmente intactas – com exceção do ponto onde a
pinça do caranguejo atacou, claro. ali há um rasgo feio, as fibras misturadas ao
sangue coagulado.
tanto a faca quanto a terminator se perderam no fundo do lago.
o corpo? o corpo dói. as costas, principalmente. se o traje não fosse
acolchoado, cesário imagina que teria quebrado a coluna em pelo menos dois
lugares. dois? não, três. ou quatro? no mínimo.
o visor da máscara só transmite estática, e ele a arranca de vez. ombro e
cotovelo reclamam do movimento brusco.
girando a cabeça devagar, para não ofender as sete vértebras cervicais,
cesário corvo olha ao redor. ossos calcinados; placas de gordura branca,
solidificada, boiando na superfície de poças d’água; cinzas humanas diluídas na
chuva, escurecendo o riacho improvisado que corre dali para o pântano; lá e cá,
pedaços de vidro rústico, obsidianas sujas criadas pela força do sol.
um crânio queimado de cachorro, outro de lagarto, rolando na lama.
um mosquete dinamógeno, aparentemente intacto.
mosquete dinamógeno!
ignorando a dor, ignorando o risco de fratura, ignorando todo o resto,
cesário põe-se em pé e corre, tropeça, cambaleia e manca a direção da arma. são
poucos segundos, mas que lhe parecem horas. no intervalo, ele se lembra do
equipamento que o lançou da prisão rumo a esta realidade: o cinto, sua máquina
do tempo, e o anel de dados e comunicação.
se recorda de como o cinto, funcionando da única maneira que uma
“máquina do tempo” poderia sob as leis físicas deste universo, deslocando-se
poucos segundos ou minutos rumo ao futuro (e apenas ao futuro) e milhares ou
milhões de quilômetros pelo espaço, o levara, primeiro, à terra – às duas sedes-
irmãs do reino unido de brasil e algarve e capitais do império, faro e rio de
janeiro.
lembra-se dos corpos ainda vivos, mas inconscientes, protegidos da morte
e da putrefação por uma aura que o anel, seu instrumento de análise e
comunicação, definiu como “campo isoentrópico”. “campo isoentrópico negado
por bolha de distorção”, informou o computador do cinto, quando cesário
perguntou por que não havia sido afetado pela estranha energia.
a mesma força que envolvia, de maneira mais discreta, máquinas e
edifícios. num cosmo onde viajar no tempo é impensável, o inimigo havia
adaptado seus meios – assim como a intempol, ao criar o cinto de teletransporte –
, e congelado a tudo e a todos num único instante: um instante mais de trinta anos
depois da última viagem de cesário corvo para fora do universo.
cesário lembra-se das visitas que fez depois, de volta à terra, à África e a
calicute. em toda parte, o mesmo – máquinas travadas. vidas contidas. aves
paralisadas em pleno vôo. ondas congeladas um segundo antes de quebrar na
praia. pingos de chuva e flocos de neve flutuando no ar. relógios parados.
a despeito disso, o planeta ainda girava; o sol ainda nascia e se punha. e na
atmosfera, a partir de uma certa altitude, os fenômenos meteorológicos
prosseguiam naturalmente.
era como se uma mortalha de tempo suspenso tivesse sido usada para
embrulhar o planeta, até alguns quilômetros acima da superfície, e outros tantos
abaixo.
há quanto tempo? não havia, ainda, como responder a essa pergunta.
nenhum relógio que lhe dissesse quanto tempo havia se passado, no império,
desde sua captura pela intempol.
mas na parada seguinte, marte, principal base da marinha etérea, ele havia
encontrado prédios povoados apenas por esqueletos, armas, robôs e computadores
inoperantes; isso, por dentro.
lá fora, vagavam hordas livres de moags caçadores, alcatéias de lobos do
deserto, bandos de vampienas voando em círculos ao redor de carcaças putrefatas,
campos de fungisporos por onde corriam manadas do búfalo tricorne e rolavam os
ouriços gigantes, revoadas de metacondores circulando os picos mais altos... toda
a ecologia violenta e selvagem que fizera de marte o mundo mais perigoso do
sistema solar, e que havia sido sistematicamente suprimida por séculos de
colonização, ressurgida das cinzas.
quanto tempo teria levado para a vida nativa retomar esse nível de ímpeto
e opulência?
cesário se recorda de como o salto seguinte o pusera numa das estações
orbitais de mercúrio, onde viviam os caçadores dos grandes polvos do mar de
chumbo. lembra-se das máquinas intactas, dos corpos vivos, inertes, trancados
cada um em seu próprio halo de estase, a mesma força que, de forma mais
discreta, preservava máquinas e edifícios; a mesma força que agia na terra, mas
que estava ausente de marte.
lembra-se de sua chegada ao planeta vênus, do impacto que sentiu ao
contemplar os escombros da torre de torma. ainda mais chocante por ser o
primeiro sinal de destruição física, feia, brutal, súbita e violenta – causada não
pelo tempo ou pela natureza –a surgir diante de seus olhos, depois de tantas
imagens neutras ou assépticas.
a torre de torma: a capital deste mundo, duzentos andares acima do solo,
cinqüenta subterrâneos, os painéis refletores e coletores de energia que brilhavam
mesmo sob o céu permanentemente nublado, prontos para enfrentar os próprios
raios do sol, quando necessário.
na ponta, a antena que era como uma agulha de ouro varando o próprio
firmamento; o mastro orgulhoso onde eram amarrados os balões e dirigíveis de
gás cavorítico.
tudo ruína, metal retorcido, rocha despedaçada. o fosso dos cinqüenta
andares subterrâneos já transbordando com a água da chuva, um lago artificial de
área imensa, onde boiavam papéis, plásticos e outros restos. quanto tempo,
cesário se lembra de ter perguntado a si mesmo, quanto tempo atrás?
ele sabe que, aqui, é impossível voltar ao passado – que jamais teria sequer
imaginado o conceito, não fossem seus dez anos subjetivos como prisioneiro da
intempol – e, silenciosamente, amaldiçoa todos os que o puseram em contato com
a idéia.
o mosquete dinamógeno está em suas mãos. a lembrança dolorosa
desaparece, substituída pela firmeza de propósito. dedos experientes percorrem a
extensão da arma, testam a reserva de energia – trinta minutos em rajada contínua,
uma eternidade! –, o equilíbrio das partes. milagrosamente, tudo parece em
ordem.
cesário se vê prestes a rir, gargalhar num misto de alegria histérica e sede
de vingança, quando uma sombra mais intensa que a proporcionada pelas nuvens
pára sobre sua cabeça e, de repente, a chuva cessa.
não toda a chuva. só a que deveria estar caindo sobre ele e alguns metros
ao redor. É como se cesário tivesse entrado debaixo de uma marquise – ou, que a
marquise tivesse vindo até ele.
a reação do soldado, girando o corpo e apontando a arma para cima, é
instantânea – ou, ao menos, tão rápida quanto seu corpo debilitado o permite. não
o suficiente.
um estalo seco, um corte superficial no dorso da mão, e o mosquete
desaparece na altura, arrastado por um chicote negro rumo á clarabóia que se
abriu no fundo do que, para cesário, parece ser um iate flutuante.
– icem o humano! – ordena uma voz que mais parece um latido, falando
numa língua que é como o dialeto do português falado pelos lagartomens
venusianos, mas com um sotaque estranho, que cesário corvo não consegue
localizar. imediatamente, laços de corda são jogados da clarabóia e apertam o
tórax e os braços do brigadeiro.
sem esboçar qualquer tipo de resistência, ele se deixa erguer rumo aos
céus.
***
as ruas estreitas e cheias de curvas e esquinas, o fog que desce, a neblina
que sobe, a luz suja dos postes muito espaçados, o cheiro de gás queimado. o
whitechapel nunca foi um bom lugar para se rastrear alguém, e 1888
decididamente não é um bom ano.
mesmo assim, dawson dog insiste. corre um pouco, caminha um pouco.
respira fundo. esconde-se. observa. tateia. de vez em quando, nos becos mais
escuros, baixa o grande lenço vermelho que cobre a parte inferior de seu rosto,
revelando um pouco da pelagem branca, curta, e a ponta do focinho negro.
fareja, atento. o que é isso, sangue? ferrugem? da onde vem? para onde
sopra o vento?
frustrado, recompõe a máscara e prossegue. mais curvas, becos, ruelas. o
cheiro de gás, o cheiro de esgoto. dawson sente o peso do fracasso; um ódio
animalesco arde em seus olhos cada vez que o fog e as fezes arrancam uma pista
mais promissora de suas narinas. ele já se vê prestes a jogar fora o lenço, o chapéu
e os óculos que escondem sua cabeça de beagle e, num uivo, lançar toda sua
frustração em direção à lua (invisível), quando ouve o grito.
esquecido da delicada cirurgia que lhe deu um cérebro capaz de raciocinar
e uma garganta que articula palavras, dawson dog rosna, late e, quando corre, usa
tanto os pés calçados quanto as mãos enluvadas. as abas do sobretudo são
como a cauda que um dia teve.
foi um grito de agonia o que ele ouviu. um grito de agonia vindo de um
beco escuro do whitechapel.
os cheiros ainda são muitos, muito confusos, mas isso não pode ser uma
simples coincidência. a monstro está, tem de estar, perto!
dawson chega ao beco de onde partiu o som e vê um homem de casaco e
cartola debruçado sobre uma figura indistinta, que geme. o canzarromem sabe que
seu dever é atacar o agressor mas, um momento antes do bote, seus sentidos lhe
enviam sinais confusos. o homem de cartola, que deveria ser sua presa, tem um
cheiro que dog nunca sentiu antes – ou, se sentiu, foi há muito, muito tempo.
já a figura caída não é uma mulher, como seria de se esperar, mas um
homem. tanto o grito inicial, que fez dawson correr até ali, quanto os gemidos
subseqüentes tiveram entonação masculina. dawson dog se repreende por não ter
notado isso antes.
e, finalmente, o cheiro de monstro parte da vítima, não do agressor.
– boa-noite, senhor dog – diz o homem de cartola, voltando-se por um
instante, o suficiente para que dawson veja as feições aquilinas e os olhos muito
negros. – estava contando com a possibilidade de encontrá-lo nesta noite. para
selar nossa amizade, posso lhe oferecer um pequeno quitute, cortesia de nosso
amigo comum, senhor saucy jack?
com um gesto meio cômico, o estranho atira por cima do ombro o pênis
ensangüentado e o escroto do homem caído, que chora, soluça e implora por
piedade. dawson dog fareja o retalhe de carne e reconhece o cheiro do monstro
matador de mulheres. É com gosto, portanto, que o canzarromem devora seu
pedaço de vingança.
***
a máquina do tempo disfarçada como cigarreira de prata deixou o agente
x-8 numa estação ferroviária nos arredores de viena, em janeiro de 1910. dali ele
pegou o trem que o transportou através da ruritânia e que o deixa, agora, na
fronteira ocidental da slistrávia, um pequeno estado, incrustado numa das partes
mais inóspitas das montanhas balcânicas; um povo do qual, segundo a tradição,
nem os turcos, nem os mongóis e nem mesmo os húngaros jamais haviam obtido
vassalagem.
x-8 preferiria ter se temportado diretamente ao solo slistravo, mas era
provável que a oposição estivesse preparada para detectar qualquer fluxo anormal
de energias taquiônicas na região. então, para evitar armadilhas e obedecendo à
orientação de m, ele viaja como um nativo.
não há neve no ar, mas o gelo sobre o solo é mais do que suficiente. o
vento, frio, corta como uma navalha recém-saída do freezer.
a alfândega da slistrávia é surpreendentemente meticulosa. toda a bagagem
de x-8 é revistada, seu passaporte (com o nome fictício de “pierre wilde”,
nacionalidade francesa, legionário reformado) passa por um exame detalhado e
sua terminator – disfarçada como um velho colt seis-tiros de cano longo – é
apreendida, assim como a caixa de munição.
a pistola derringer personalizada, no entanto, passa despercebida, assim
como outras peças de equipamento.
os guardas falam francês com sotaque eslavo e vestem uniformes que,
conforme a luz, parecem meio esverdeados, mas que no geral impressionam o
olho com um matiz cinza-escuro, morto e sem brilho. x-8 – “wilde” – não
consegue deixar de associar a cor à das fardas nazistas de dali a 30 anos.
o fato de os oficiais prenderem caveiras diminutas – de prata, com olhos
de rubi – na gola da túnica, para marcar patente, não ajuda em nada. um crânio
para tenente, dois para capitão, três fazem um major.
o cocheiro que contrata (por meio dinar de ouro, oito coroas de cobre e
dois xelins de algum metal não-especificado) para levá-lo à estalagem viaja com
um soldado armado na boléia. esse guarda é um garoto de não mais de dezoito
anos que se mantém rijo, costas eretas, olhar atento, o fuzil de baioneta calada
cruzado sobre o peito. da estação à vila o caminho é ladeira acima, margeando um
desfiladeiro, e x-8 aproveita para contemplar a paisagem. eu poderia estar em
marte, ele pensa, enquanto seu olhar percorre os picos nevados, as encostas de
rocha nua, a cobertura de nuvens que paira na garganta, algumas centenas de
metros abaixo. como é que conseguiram fazer um país disto aqui?
ele ergue o vidro da carruagem, semelhante a uma pequena diligência, para
se proteger do vento frio, cortante.
o cocheiro faz uma curva fechada, afastando-se bruscamente do precipício,
e de repente x-8 se vê à porta da estalagem.
É um prédio baixo, com dois andares acima do nível térreo, feito de blocos
pedra preta. ele foi construído como um prolongamento artificial da borda do
desfiladeiro, aproveitando um esporão natural que se projetava no ar; assim,
embora a entrada do prédio esteja afastada da beira, as janelas dos quartos mais
caros, os quartos “com vista”, contemplam todo o esplendor do abismo.
o folheto turístico, amarelo e amassado, que x-8 encontrou na estação diz
que o lugar já havia sido um presídio.
olhando com atenção para a fachada do edifício é possível distinguir
marcas do que talvez um dia tenham sido gárgulas, inscrições, brasões e outros
tipos de entalhe – agora, irremediavelmente borrados pela erosão do vento.
x-8 desce da diligência, paga o cocheiro, retira a própria bagagem – sem
que ninguém, nem mesmo o porteiro do estabelecimento, se abale a ajudá-lo – e
mantém o rosto impassível quando o guarda desce da boléia e trata de
acompanhá-lo, sem dizer nenhuma palavra, no caminho até o balcão do
recepcionista.
o soldado observa de perto enquanto “monsieur wilde” se registra, anota o
número do quarto que é destinado ao agente e se coloca em sentinela ao pé da
escada quando x-8 sobe para conhecer as instalações.
o filho da mãe podia pelo menos me ajudar com a porra da mala, pensa o
homem da empresa.
***
x-10 acompanha dawson dog pelas ruas do withechapel, deixando-se
conduzir, sem palavra ou protesto, pela noite úmida, carregada de neblina.
alimentado com a carne do monstro jack, que perseguia há tempos, o
grande beagle parece mais do que disposto a agradar seu novo amigo. dawson
quer que x-10 seja recompensado pela boa ação que fez ao destruir o matador de
prostitutas. x-10, por sua parte, está interessadíssimo em conhecer o local onde
encontrará sua suposta recompensa; a residência da mulher conhecida apenas
como meretrix.
os dois chegam a um pub, o snakemen & fish, no momento animado por
uma roda de apostas que se forma ao redor de dois rufiões prontos, ao que tudo
indica, para um breve exercício de pugilato. x-10 sente uma certa decepção por
não poder ficar e assistir: um dos dois combatentes é um grandalhão ruivo, nu –
exceto pelos suspensórios – da cintura para cima, com aquela musculatura
grosseira, pouco definida e surpreendentemente poderosa que as pessoas (as que
conseguiam sobreviver, claro) desenvolviam trabalhando quatorze horas por dia
em regime de semiescravidão, antes da invenção das academias de ginástica.
o tipo tem uma boa envergadura, e uma cara que parece sólida como o
fundo de uma frigideira.
– larsen! larsen! – grita quase todo o círculo de fregueses e apostadores,
cada vez que o ruivo ergue os punhos. o outro combatente, um tipo loiro (dotado
do que os romancistas da época chamariam de “cabelos cor de areia”), olhos
castanhos úmidos e barba curta, é bem menor do que esse larsen, mas carrega uma
expressão ainda mais rígida no rosto e dá mostras de ter boa flexibilidade e
agilidade. usa uma camisa larga, aberta no peito e amarrada na cintura com uma
faixa encardida, arranjo que faz o agente da intempol pensar num arremedo de
quimono.
a torcida que acompanha essa figura, embora menor, também faz seu
barulho. pelo que x-10 consegue depreender, o sujeito chama-se “chas”.
dawson dog, porém, não pára, e x-10 se vê obrigado a ignorar o espetáculo
e apertar o passo. os dois cruzam o espaço exíguo do pub, contornando a pequena
multidão, rumo à parede de madeira mais afastada da porta da rua. este é o ponto
mais escuro de um lugar que, por si só, não prima pela iluminação abundante,
parcialmente oculto do restante do pub pelo cotovelo do balcão onde são servidas
as bebidas, cerveja choca e aguardente de batata.
x-10 sente o cheiro de umidade, mofo e tábua podre.
dawson dog toca alguns pontos da madeira esponjosa com seus dedos
cirurgicamente alongados e, sem ruído algum, parte do painel desliza, revelando
um túnel escuro que dá a impressão de se prolongar indefinidamente, rumo ao
submundo.
dog emite um som brusco, um quase-latido, à guisa de encorajamento, e
começa a descer.
dando de ombros, x-10 trata de segui-lo.
o corredor é mais curto do que a escuridão predominante fazia imaginar.
depois de duas dezenas de passos, termina numa pesada porta de aço, do mesmo
tipo que a máfia chinesa passará a usar, dentro de dez ou doze anos, para proteger
seus antros de ópio, e que a scotland yard se verá obrigada a declarar ilegal.
dawson dog tem uma chave, presa por uma corrente no pulso esquerdo. ele
aplica a chave à fechadura da porta, e instantes depois a pesada barreira metálica
gira sem ruído algum sobre dobradiças ocultas, revelando uma luxuosa ante-sala.
um candelabro pende do teto, a luz (elétrica, x-10 é capaz de jurar)
difundida por dezenas de pingentes de cristal cuidadosamente cortados. o piso é
coberto por um carpete verde, muito macio, e as paredes e o teto são acolchoados
por almofadas de tecido vermelho como sangue – seda e cetim. x-10 ouve um
clique às suas costas e percebe que dawson dog acaba de trancar a porta por onde
entraram. pelo lado de dentro, a chapa de aço também é acolchoada, e uma vez de
volta ao batente torna-se indistinguível do restante da ante-sala.
na parede oposta àquela por onde entraram há uma placa dourada, gravada
na bela caligrafia cursiva vitoriana, ainda não contaminada pelo rococó ou pelo
art-decô. ela diz:
“les putains du mal”
***
o comissário pedroso lê, desolado, o mais recente relatório deixado sobre
sua escrivaninha. algo a respeito de armas noóctonas sendo construídas num
reino balcânico durante os primeiros anos do século xx. e a noólise não só é uma
tecnologia avançada demais para o século xx, como é uma tecnologia proibida:
todos os que tiveram a infelicidade de tentar desenvolvê-la acabaram na prisão.
uma linha temporal inteira foi isolada, todo um século xxii alternativo cortado do
restante do multiverso, quando a indústria bélica de lá aprendeu a refinar as
folhas de tana e produzir tanasina-333 em quantidade.
e pedroso está sem pessoal. ele já havia despachado o último agente do
departamento i para alexandria, para investigar o informe de que eratóstenes
havia deduzido as leis de kepler e caminhava firme rumo à álgebra, ao cálculo
integral e à gravitação universal.
ele estica a mão para o interfone, pensando em pedir à secretária que lhe
traga as pasta com os currículos da garotada da academia, quando percebe que
não está mais sozinho. pedroso ergue a cabeça, pronto pra dar o maior esporro,
quem entrou sem ser anunciado, etc e tal, mas a indignação morre no fundo de
sua garganta.
– kramer. spenger – ele diz, engolindo em seco. – que posso fazer por
vocês?
– sua caixa registradora. – exige kramer.
– ah, é? só isso? – responde o comissário, irônico.
– É. só. – não há o menor traço de humor na voz de spenger.
pedroso sente um peso frio no estômago, como se um bloco de gelo tivesse
se materializado ali.
– e mais nada? – a nova tentativa de ironia soa falsa mesmo aos ouvidos
do comissário.
– estamos esperando – afirma kramer. os dois se mantêm os as pernas
levemente afastadas e as mãos nas costas, uma postura tipicamente militar.
– e da onde vem essa ordem? – pergunta pedroso, surpreso com a própria
desenvoltura.
– de lá onde o que se manda, se faz – responde spenger.
oh-oh, pensa o comissário. oh-oh. essa foi a frase usada pelo agente
alighieri, quando o mandaram para a prisão. nada bom. nada bom, mesmo. se
não fosse pela onda de frio que se propaga a partir do abdômen, pedroso estaria
suando. do jeito como as coisas estão, ele apenas treme.
– tudo bem, caras – ele diz, finalmente, desviando o rosto do cabo-de-
guerra desigual que vinha mantendo, a duras penas, com o olhar impiedoso de
kramer e spenger. – está aqui.
o comissário abre uma gaveta da escrivaninha e retira de lá a caixa, sua
máquina do tempo pessoal, e a entrega a kramer. o agente levanta a tampa do
aparelho, que se abre como um laptop. inspeciona o teclado, as telas. dá um
grunhido, fecha a caixa e a entrega a spenger, que abre o aparelho e, em vez de
olhar para teclado, passa um lenço branco de linho pela ranhura onde é
colocado o cartão cronal.
o lenço volta empoeirado.
– como eu esperava – diz spenger, uma ponta de desaprovação tingindo o
tom neutro da voz. –latino. negligente.
antes que pedroso possa responder, spenger coloca a caixa no bolso
esquerdo do paletó, ao mesmo tempo em que tira outra do bolso esquerdo.
– tome – diz, estendendo o novo aparelho na direção de pedroso. –
manutenção preventiva.
pedroso aceita a nova caixa com um leve tremor nas mãos.
– e o q-que mais? – balbucia, ao mesmo tempo em que aceita o
dispositivo.
– nada – diz kramer.
– nada mesmo – completa spenger. – só queremos isso: que você não faça
nada.
depois que os dois vão embora, depois que o frio na barriga passa e o
suor reprimido exsuda em profusão, enquanto enxuga as palmas das mãos num
lenço de papel, pedroso olha para o tampo de sua escrivaninha.
o relatório sobre bombas noóctonas desapareceu.
***
***
a placa que diz les putains du mal articula-se numa dobradiça oculta, e está
colocada sobre uma pequena janela de vidro fosco. dawson dog olha pelo vidro,
vê apenas o próprio reflexo. mas alguém do outro lado o reconhece, e uma nova
porta secreta se abre.
x-10 entra numa câmara ampla, longa e abobadada, com o teto dividido
em três cúpulas sustentadas por colunas esculpidas – algo que o faz pensar no
transepto de uma catedral do renascimento.
e, como numa catedral decorada por davinci ou michelangelo, tanto as
paredes ao seu redor quanto as cúpulas acima estão divididas em painéis e
cobertas de afrescos. mas, embora as formas e proporções das figuras pintadas
sejam clássicas e as cores, vibrantes, não se trata de arte sacra, mas profana: cada
painel traz uma cena erótica, quando não decididamente pornográfica, envolvendo
as feras humanas da mitologia.
aqui, sátiros violam centauros. ali, sereias engolem minotauros; lá, fúrias
envolvem nereides; mais além, lâmias penetram esfinges; acolá, medusas
acariciam quimeras.
no teto central, tífon, o titã com olhos de fogo e dedos de serpente, copula
com a mulher-demônio equidina, a mãe de todos os monstros. esse é o afresco
principal, o maior, o mais brilhante. sobre ele incidem diretamente todas as luzes
da sala.
É sob ele que fica o trono da rainha do bordel. da meretrix.
dawson dog ajoelha-se ao pé de sua senhora, e lambe-lhe
apaixonadamente a mão. a meretrix é servida por duas de suas prostitutas
especiais, uma mulher-tigre que lhe traz um jarro de vinho e uma mulher-babuíno
que carrega uma travessa do que parecem ser nacos de carne crua.
x-10 cumprimenta a senhora da casa com uma reverência. ele imagina se
ela irá reconhecê-lo. embora para ele tenham-se passado poucas semanas, a
mulher o viu pela última vez há quase onze anos. naquela época ela era uma
adolescente, e ainda atendia pelo nome de melissa mcmurdock. x-10 havia usado
seus poderes hipnóticos e um pouco de maquiagem para se fazer passar por um
duplo de cesário corvo e...
a reminiscência é cortada por um gesto da mulher. ela quer que x-10 se
aproxime.
ele caminha com cuidado, passando por entre pilhas de almofadas de seda
e cetim, espreguiçadeiras entalhadas e divãs dourados onde reclinam-se outras
mulheres-fera – com pelagens variadas, vaginas cirurgicamente dilatadas ou
contraídas, penas macias, curvas deliciosas, escamas coloridas, cascos
perfumados. não sei quanto os aristocratas desta época pagam por isso, pensa x-
10, mas é pouco.
a tecnologia para criar feras de aparência humana havia sido desenvolvida
pelo mentor do pai de melissa, em algum ponto da metade do século. os dois
homens, o velho mcmurdock e seu professor, tinham tratado a descoberta com a
falta de imaginação típica do sexo masculino, criando servos, soldados e uma ou
outra amante eventual – e individual.
É preciso uma mulher para enxergar o verdadeiro potencial das coisas,
ele pensa, assim que chega junto ao trono. dez anos mais velha, melissa perdeu
aquela sensualidade involuntária, ainda mais desejável porque desajeitada, ainda
mais proibida porque inconsciente, de que x-10 se lembra. agora ela é proibida
não por ser inocente, mas porque é sábia e perigosa; e desejável pelos mesmos
motivos, também.
melissa – meretrix – estende uma mão para que x-10 beije. ele nota que é a
mesma mão que dog lambeu, mas não se furta à cortesia. até sorri.
a mulher diz:
– meu querido dawson diz que o senhor nos prestou um grande favor,
senhor...?
– cranston. carter allard-cranston – ele diz.
– ... cranston, ao livrar as ruas de um predador descontrolado. eu agradeço.
– eu é que vos sou grato por vossa gratidão – responde x-10, com nova
mesura, imaginando até onde terá de ir com esses diálogos ridículos. – quando
soube que a grande meretrix desejava pôr um fim aos crimes do whitechapel, corri
em vosso auxílio, na esperança de, assim, me mostrar merecedor de uma
audiência convosco.
– ah! – os olhos dela se acendem com uma chama de interesse. – então o
senhor queria conhecer-nos? e por quê?
x-10 faz um gesto que abarca todo o salão, e pergunta:
– haveria motivo melhor?
a meretrix ri, um som que é puro deleite.
– jack, o monstro, vinha agindo apenas nas ruas, é verdade – ela diz – ,
mas nossa profissão tem uma longa história de solidariedade. um ataque a uma
irmã é um ataque a todas, não importa quão desafortunada a vítima. da mesma
forma, faça um favor a uma, e ganhe a gratidão de todas! e agora... – ela sorri – eu
lhe ofereço uma escolha de recompensas: duzentas libras, ou uma noite nesta
casa.
uma mulher-gazela, nua, se aproxima e deposita um saco de moedas sobre
o braço esquerdo do trono da meretrix. x-10 reconhece o tilintar do ouro (para um
conhecedor, bem distinto do da prata, e a anos-luz do níquel), mas seu olhar está
amarrado aos olhos cor de âmbar da criatura.
– acho que sei o que vai ser – diz a meretrix, com um riso baixo.
x-10 acorda algumas horas depois, com a face pousada sobre o pêlo curto,
macio e cheiroso dos quatro seios pequenos da mulher-gazela. ele nota que os
mamilos ainda estão duros, o que o faz sentir uma ponta de orgulho.
ela cheira a capim recém-cortado e almíscar; o pêlo é suave como veludo.
É uma pena deixá-la, mas o dever chama.
com um comando cibernético, ele libera a agulha biônica oculta debaixo
da unha do dedo médio da mão direita. um movimento suave introduz a agulha no
nódulo nervoso junto á base do pescoço da gazela. rapidamente, x-10 faz o
download da planta dos subterrâneos do snakemen & fish, incluindo a localização
provável do objeto que está procurando. ela também baixa um pouco de fofoca
local, como o fato de melissa ser a amante quase exclusiva do príncipe dananko
xiii, da slistrávia, e já ter dado ao monarca um filho bastardo.
antes de recolher a agulha, o agente faz o aparelho disparar um pequeno
estímulo acumputrônico, algo que deverá manter a gazela adormecida ainda por
várias horas.
e agora, à missão.
***
tatuí, sp. dia 09 de setembro de 1999.
– era necessário, irmã. era necessário. ele estava tomado pelo demo! era
necessário.
o pastor kramer diz isso numa voz ao mesmo tempo doce e cheia de
autoridade, firme e, ainda assim, plena de compaixão. amparada pelo marido, a
mulher chora.
dentro do quarto, o pastor spenger, colega de kramer, revista os
escombros do poltergeist gerado pelo filho da mulher, um garoto de onze anos
que falava em línguas, rabiscava desenhos estranhos em seus cadernos e nas
paredes. uma criança com o poder de iniciar incêndios e arremessar objetos com
um mero olhar.
depois de inúmeras tentativas de exorcismo, kramer e spenger haviam
recomendado o uso de uma bala de prata, embebida na cera de uma vela
consagrada. kramer sente uma ponta de culpa ao repetir, pela vigésima vez, que o
procedimento todo “era necessário”. no fundo, ele sabe que uma bala simples de
chumbo teria resolvido tudo da mesma maneira.
– achei – diz spenger, aparecendo na porta com um punhado de folhas
pautadas de caderno universitário amarrotadas numa das mãos. – olhe.
afastando-se do casal inconsolável, os dois pastores vão verificar os
desenhos. são hieróglifos.
– ele estava reconstituindo o livro de thoth-karnak – diz spenger. – como
trazer os mortos de volta à vida.
– exatamente – concorda kramer. – agimos na hora certa, mas o demônio
escapou. de novo. e esta já foi a ... o quê?... quarta? quinta tentativa? quando é
que vão isolar de vez esse faraó filho da puta?
spenger consulta o relógio:
– dentro de há 89 anos, se os dois “x” trabalharem direito.
– pensar que estamos nas mãos deles. dois babacas exibicionistas...
***
as ricas tapeçarias que cobrem as paredes e o piso do quarto não bastam
para disfarçar o fato de que a estalagem já foi uma prisão: as instalações
sanitárias, feitas de pesadas peças de bronze que correm em vãos abertos na
rocha, foram obviamente construídas e improvisadas por sobre fossas e canaletas
rústicas, rudimentares. e, x-8 nota com um certo humor, ninguém se deu ao
trabalho de retirar as grades da janela.
depois de trocar suas roupas de viagem por trajes mais confortáveis para a
tarefa que o aguarda – calças cáqui de bolsos amplos, botas de cano alto, camisa
de flanela cinza também cheia de bolsos, jaqueta de couro preto, fosco, revestida
com pele de carneiro tingida de preto, óculos de aviador pendurados no pescoço,
luvas, cachecol – x-8 se põe a estudar as grades. são quatro. cilindros maciços de
ferro, cada um com dois centímetros e meio de diâmetro, enferrujados por fora
mas ainda bem sólidos por dentro. encravados na rocha.
x-8 despe a jaqueta, arregaça as mangas da camisa ao máximo, agarra as
duas barras mais ao centro, puxa-as. solta-as, respira fundo, puxa de novo, desta
vez prestando atenção no som que vem do engaste do metal no parapeito.
depois, puxa mais uma vez. dando-se por satisfeito, baixa as mangas, veste
a jaqueta, tira uma primeira edição, autografada, de o prisioneiro de zenda da
mala e começa a ler.
o agente já está terminando o livro quando o sol se põe. x-8 coloca o
prisioneiro de lado e caminha de volta até a janela, pensando se deveria arrumar
também um exemplar autografado da continuação, rupert de hentzau. a conjectura
some em menos de um segundo: x-8 sabe que deve manter a mente vazia para
fazer o que é necessário.
respirando fundo, volta a agarrar as duas barras centrais da janela e, sem
das mostras do menor esforço, arranca-as do batente.
elas são pesadas, mas mesmo assim x-8 decide prendê-las a duas alças
internas de sua jaqueta, originalmente desenhadas para suportar armas brancas –
facas, punhais, espadas curtas.
sentando-se no espaço aberto sobre o parapeito, o agente contempla os
céus noturnos de slistrávia. não há muito o que ver: a camada de nuvens parece
ter-se elevado e, mesmo na altitude em que está, o agente se vê cercado por névoa
escura. não há luz alguma, nem da lua, nem das estrelas.
x-8 coloca seus óculos “de aviador” e, subitamente, a noite se enche de
uma luz mortiça, verde, que lhe permite ver parte da extensão do abismo, abaixo,
e do vazio, acima. no canto superior direito de uma das lentes, um ponto vermelho
pisca, insistente: o cursor do mapa interativo.
cuidadosamente, x-8 tateia pela superfície externa da hospedaria, em busca
de pontos de apoio. depois de alguns momentos, decide retirar as luvas – ele
conclui vai precisar da aspereza natural dos dedos, talvez até mesmo das unhas,
para sobreviver neste lugar.
em seguida, iça-se para fora e começa a descida.
o primeiro trecho da escalada exige que x-8 desça pela parede da
estalagem até o ponto onde ela se encontra com o paredão rochoso da cordilheira,
contorne o esporão de pedra que sustenta o edifício – o que significa percorrer um
trecho em inclinação negativa – e então suba pelo desfiladeiro cluj, até atingir a
muralha externa do castelo dananko. a partir dali, o ponto de luz em seus óculos
de visão noturna é que irá guiá-lo.
a temperatura é baixíssima. cristais de gelo obstruem, de tempos em
tempos, a trama do cachecol que cobre a boca e o nariz de x-8; e apenas o esforço,
constante e doloroso, de sustentar os quase cem quilos de músculo do corpo do
agente impede que as mãos nuas se congelem, embora o estresse sobre as juntas e
articulações seja obviamente ruim para a circulação do sangue.
x-8 sabe que sua única chance de salvar as pontas dos dedos (e, por tabela,
de sobrevivência) é se manter em movimento constante: se ficar parado muito
tempo num só lugar, além da circulação prejudicada há também o risco de a
umidade da pele se solidificar, literalmente soldando a carne à rocha. felizmente
suas botas têm grampos especiais que, quando necessário, ajudam no movimento
e na sustentação, permitindo trocas rápidas entre os pontos de apoio.
o percurso pela parede da antiga prisão é relativamente simples, com os
restos de velhos ornamentos e gárgulas oferecendo boa sustentação. já a transição
para o trecho de inclinação negativa – a uns 250º com a superfície aonde está – é
mais complexa.
ao final da descida, com os pés tocando o ponto onde o edifício se une ao
esporão de rocha natural e apoiando todo o peso nas mãos, x-8 usa os grampos
metálicos das botas para escavar a argamassa que recobre a linha onde a fundação
do prédio penetra na rocha. ele raspa; ele chuta. cada movimento brusco causa
mais uma esfoladura na mão, uma torção a mais nos tendões do braço, um
aumento na tensão do pulso. a dor é quente e fria ao mesmo tempo; é como se
houvesse areia fina em cada uma das articulações.
de repente, x-8 pára de chutar. pára, na verdade, de executar qualquer
movimento voluntário. se eu corpo se move, é ao sabor do vento, que uiva ao
redor.
e então respira fundo, suspira, relaxa, abre as mãos e solta o corpo ao
sabor da gravidade.
a queda é rápida. assim que o corte feito pelas botas na base do prédio
passa diante de seus olhos, x-8 ergue os braços. os dedos, em garra, mergulham na
incisão e, por um instante que é como um turbilhão de pânico e expectativa,
deslizam antes de se firmarem, deixando um rastro de pele esfolada e sangue ralo
sobre a ranhura de rocha áspera.
músculos nos braços e no tórax gritam ante o esforço de brecar a queda –
bíceps e peitorais saltam de repente, como se quisessem fugir do corpo que os
obriga a tanto. as fibras forçam a costura e os botões da camisa; o pano geme, a
linha estala.
três segundos após o início, a queda termina.
sustentado pelos braços, apoiado nas pontas dos dedos, x-8 pende sobre o
vazio. com cuidado, ele transfere todo o peso do corpo para a mão esquerda e,
sem pensar duas vezes, solta a direita. a mudança de ponto de apoio faz seu corpo
balançar de forma brusca, e o vento também não ajuda. a dor nas juntas,
principalmente no ombro, é comparável à do cavalete de tortura medieval, x-8
pensa. ou o cavalete era menos ruim?
reprimindo esses pensamentos, o agente estende o braço direito diante de
si e, com uma rápida contração do músculo logo abaixo do cotovelo, ativa o
dispositivo de mola que lança a derringer especial sobre a palma da mão;
aquecido pelo contato constante com o braço de x-8, o metal da arma não adere
aos dedos. a pequena pistola não dispara balas, mas um píton de titânio com ponta
de carbono adiamantado, preso a uma corda de teia de aranha sintética trançada,
com a espessura de um barbante.
um tiro silencioso crava o píton no paredão de inclinação negativa e, no
instante seguinte, x-8, balançando na corda, põe-se a caminho do desfiladeiro cluj.
***
a luz, insuficiente, emana de uma fonte desconhecida.
cesário corvo conhece bem a teoria e a doutrina do suplício da oubliette.
trata-se, afinal, do castigo regulamentar imposto pela marinha etérea aos culpados
do crime de alta traição. o princípio é da mais pura simplicidade: o condenado é
jogado num fosso profundo, uma cela cuja única abertura fica no teto, alto e fora
de alcance, e esquecido.
fácil assim.
“esquecido”, no caso, significa privado de todo contato humano. mas o
condenado raramente é deixado para morrer à míngua. oubliettes ficam em porões
sujos, e os condenados normalmente chegam a ela trazendo feridas abertas em
algumas partes do corpo. então, sempre há com o quê atrair vermes, insetos;
lagartos cegos e roedores preguiçosos, também.
uma água malcheirosa, barrenta, gelada, jorra de um cano colocado junto à
abertura do fosso, de tempos em tempos.
corvo sabe que a drenagem das oubliettes é planejada com cuidado: há
sempre cinco ou seis milímetros de água suja no fundo de cada cela. nunca mais,
nunca menos. manter isso deve exigir um sistema complexo de bombas, máquinas
e dutos, oculto pelo piso de pedra. talvez até, galerias.
rotas de fuga?
depois do que imagina ter sido uma semana inteira de trabalho, com as
unhas desbastadas e as pontas dos dedos em carne viva, cesário corvo conclui que
não faz diferença: nu, sem ferramentas, ele jamais conseguirá chegar às galerias,
se é que elas existem.
no que supõe ser a metade de sua segunda semana, corvo está pronto para
esquecer e ser esquecido. não se opõe mais à tortura. ao contrário, faz dela uma
companheira de viagem. parado, de cócoras, dorme quando tem sono, treme
quando sente frio, rosna e bate quando é mordido ou picado, alivia-se quando
necessário. parte de sua mente diz que ele deve se exercitar, que deve estar pronto
para a oportunidade, quando a oportunidade vier. e ele se exercita – corre, salta,
equilibra-se nas palmas das mãos, escorrega no lodo, cai, machuca-se, tenta de
novo.
alonga os músculos, flexiona as juntas. o corpo é uma máquina que roda
sozinha, ajusta-se sozinha, independentemente de uma vontade que nem está mais
lá.
ele sabe que a essência do suplício da oubliette é o esquecimento. É o que
está nos manuais. e é por isso que se sente surpreso, de certa forma quase
indignado, quando vê que, no final, as pessoas de fato não se esqueceram dele.
a plataforma que o deixou no fosso volta a descer, e nela vêm dois
lagartomens, armados com espadas e chicotes. corvo não reage quando o colocam
sobre a tábua, nem quando ela é puxada de volta à superfície. no topo, ao redor da
boca do fosso, há um destacamento completo de homens-fera. os soldados trocam
rapidamente de posição assim que cesário emerge da abertura. o fato de ele ser
capaz de se manter em pé sem ajuda parece surpreendê-los – ou talvez seja o
cheiro da crosta de imundície que cobre seu corpo.
um simiomem se aproxima e corvo sente uma picada no ombro esquerdo.
o reflexo condicionado o faz rosnar, como se reagisse a mais uma mordida de
inseto, mas antes que o som se forme em sua garganta, cesário corvo mergulha na
inconsciência.
o despertar traz de volta a lembrança de sua última aventura, que para ele
ocorreu dez anos atrás. também naquela vez ele havia perdido os sentidos;
também naquela vez ele havia acordado sentindo-se como novo, curado, forte,
refrescado.
e nutrido: surpreso, cesário corvo se dá conta de que não sente mais fome.
há diferenças, porém: na última vez, não chovia. e não havia grilhões em
seu tornozelo.
nem a arquibancada, com uma multidão de homens-fera gritando, vaiando
e aplaudindo ao seu redor.
cesário veste uma espécie de quimono de seda negra, com linhas
onduladas em ouro bordadas ao redor das mangas e colarinho. ele flutua a cerca
de quinze metros do chão da arena. o que o faz flutuar é a almofada sobre a qual
seu corpo descansa, provavelmente cheia de gás cavorítico.
a corrente que agrilhoa seu tornozelo esquerdo se prende a um dos
delicados arcos de renda que decoram o entorno da almofada. cesário corvo não
se engana: o material do estofado (e da renda) é vesícula de polvo mercuriano,
mais forte que o aço.
a almofada balança um pouco ao sabor da chuva e do vento, mas não
muito: está ancorada, por meio de uma corda grossa, a um anel metálico cravado
no chão, ao centro da arena.
na mesma altura de cesário está o que deve ser a tribuna de honra desta
platéia de monstros. nela se reclina uma mulher – linda. loira, de olhos azuis,
cabelos cheios e cacheados, o corpo quase musculoso, curvilíneo, que a armadura
de metal batido e tiras de couro faz muito pouco para ocultar. no centro da placa
peitoral, um símbolo – um crânio prateado, de olhos vermelhos.
É a mulher que m me enviou para encontrar, sem dúvida.
e o rosto lembra o da menina que ele conheceu há dez anos, a criança que
controlava os homens-fera de um mundo distante. seria ela...?
– melissa...? – ele pergunta, gritando.
os brados e vaias da multidão crescem, mesclam-se até se converterem
numa erupção única, a cacofonia concentrada num ensurdecedor aríete de som.
pedras e pedaços de pau partem de todos os níveis da arquibancada e de todos os
lados, arremessados, com desprezo e indignação, na direção na almofada
flutuante. alguns a atingem, e cesário se joga de bruços sobre a superfície,
agarrando-se aos enfeites de renda para não cair.
o balão treme e chacoalha violentamente.
– não dirija a palavra à princesa ananka de slistrávia, à rainha anh-ankh-ah
dos dois universos, animal, a menos que ela o permita – diz uma voz masculina,
retumbante, vinda de trás de uma cortina, ao fundo do camarote. É uma voz
amplificada por algum meio mecânico, que se faz ouvir em todos os pontos da
platéia ao mesmo tempo, e que também usa o dialeto dos indígenas de vênus.
as vaias são imediatamente substituídas por aplausos e assovios de
aprovação.
cesário conhece esta última voz. na última vez em que a ouviu, era a voz
de um amigo.
a cortina se parte, e uma figura metálica entra no camarote. a luz primeiro
incide sobre o tórax de vidro, dentro do qual brilha uma galáxia de luzes menores;
depois explode sobre o abdome, e na virilha, e então nos braços e pernas, todas
partes de aço, mas polidas como um espelho. finalmente, cesário corvo vê a face
do andróide. a pele falsa, de polímero rosado, foi arrancada, assim como os
cabelos e o bigode, mas não importa: é a face de um amigo, ainda que sobre sua
cabeça repouse a coroa dupla dos reinos do alto e do baixo egito. um amigo que
cesário acreditava ter deixado, morto, a um universo de distância.
– adamastor...?
– este corpo já pertenceu a um “adamastor” – responde a máquina. – e,
parte do que sei, parte do que tornou isto tudo possível, vem dele. esta parte
reconhece você... “brigadeiro”. esta parte sabe o que você fez: como abandonou
seu parceiro, despedaçado, debaixo das areias de um mundo distante... e não está
nem um pouco contente. mas esta carcaça de metal, hoje, abriga o espírito
inconquistável do rei dos reis, o faraó anendjib ii, eu, a majestade única a quem os
homens de mil eras e mundos aprenderam a temer, a reverenciar e a obedecer sob
o nome de nephren-ka!
a multidão explode em aplausos, e logo um coro – “nephren-ka! nephren-
ka!” – toma conta da assistência. vozes de feras articulando estas duas palavras
em uníssono. algo terrível de se ver e ouvir.
cesário repara que o andróide traz algo na mão estendida, e uma faixa
escura cruzada sobre o peito, como um cinturão de balas. o brigadeiro logo
reconhece o anel e o cinto. quando o coro da multidão atinge o ápice, quando o
brado de “nephren-ka” parece prestes a fazer ruir este coliseu, corvo imagina, por
um instante, que vê o anel mudar de cor – sinal, pelo que m lhe havia explicado
do funcionamento do aparelho, de que uma mensagem automática tinha sido
enviada através da barreira entre as dimensões.
que mensagem seria essa? um pedido de socorro, talvez?
cesário se põe a especular sobre o assunto, mas logo desiste. não é bom
alimentar esperanças que possam vir a se mostrar falsas.
nephren-ka, ou anendjib, ou adamastor – de quanto nomes esse cara
precisa, afinal?, pensa corvo – se aproxima da beirada do camarote de honra e,
acariciando o cinturão sobre o peito como se fosse a pele de um animal vencido,
proclama:
– amigos! – mais uma vez, a multidão exulta. – construímos este coliseu
para punir os que se opõem a nós, os que nos destruiriam se pudessem, os que nos
feriram e exploraram no passado e que voltariam a fazê-lo, hoje mesmo, se lhes
mostrássemos piedade, se fôssemos tolos o bastante, se permitíssemos que isso
ocorresse. se nos esquecêssemos da ignomínia praticada por eles. os malditos
colonizadores. os homens do império. sim, amigos! eles! – mais gritos, vaias,
aplausos. – eles, que alimentaram as feras, que lutaram entre si e dançaram a
dança da morte, aqui, diante de nós, de todos nós. eles, os demônios malcheirosos,
palhaços patéticos que sangraram e morreram como os macacos nus que eram,
para satisfação de nossa sede de justiça. achávamos que tínhamos, acabado com
eles. lembram-se? temíamos que os jogos da última semana tivessem sido,
literalmente, os últimos!
enquanto a multidão urra, cesário baixa a cabeça, lutando contra a tontura
e a náusea. se for verdadeira, essa última afirmação de adamastor – nephren-ka? –
significa que os homens que cesário viu acorrentados, antes de ser jogado na
oubliette, os homens que ele tivera a esperança de resgatar, já estão todos mortos.
– e hoje – o andróide prossegue, o tom de sua voz subindo num crescendo
de entusiasmo –, provando sua infinita bondade, os deuses entregaram em nossas
mãos um homem, este homem – ele gesticula na direção de corvo – que é nosso
inimigo não uma, não duas, mas mil vezes!
gritos. vaias. palavrões.
– É inimigo porque foi enviado, aqui, para destruir nossa sagrada missão!
palavrões. vaias. gritos.
– É inimigo porque serve à marinha etérea, a corporação suja e corrupta...
ao império que humilhou e quase destruiu nossos irmãos lagartomens!
vaias. gritos. palavrões.
– É inimigo – prossegue – porque usa a tecnologia dos maiores dentre os
inimigos, da maldita empresa, da organização tirânica que os lagartomens de
vênus, puros que são, não conhecem... mas que tentou impedir a mim, vosso
faraó, de vir a vocês, e libertá-los! – a audiência irrompe em brados de ódio,
assovios, blasfêmias. com um gesto, nephren-ka pede, e obtém, um relativo
silêncio. – que destruiu o grande mcmurdock, deixou os teratossapiens da velha
terra à míngua, que desafiou a virgem melissa, que ameaçou o pai de nossa
princesa ainda no berço, que perseguiu a mim, vosso faraó, por inúmeras eras,
passadas e futuras, em inúmeros universos. que tentou impedir o Êxodo e a
profecia...
ao som da palavra “profecia”, os poucos gritos e ruídos que ainda vêm da
arquibancada desaparecem, dando lugar a um silêncio reverente. volta a ser
possível ouvir a batida suave da chuva.
– todos aqui conhecem o livro. conhecem a história da criação dos
teratossapiens, de como o povo escolhido foi enganado, recebeu o nome odioso de
“homens-fera” acabou levado para longe dos criadores. como o adversário, se
aproveitando de um instante de confusão, dividiu as raças sagradas entre os
diferentes mundos, separou os mundos com o véu da morte e se disfarçou com a
aparência dos criadores para que vocês, sem saber de sua falsidade, o servissem.
oh, os abusos! os abusos! todos também já ouviram os pregadores falarem do
messias, do faraó – alguns homens-fera não se contêm e neste momento
aplaudem, choram, gritam, extasiados – que seria, e foi, enviado para perfurar o
véu e levá-los de volta aos criadores. e todos sabem que tudo que o livro diz, se
cumpre.
um murmúrio de assentimento percorre a audiência.
– mas o livro também fala da organização criada para impedir que
varássemos o véu, o grupo que persegue o messias, massacra os inocentes e busca
destruir o povo. o verdadeiro exército do inimigo, mais poderoso ainda que o
império. a horda que destruiremos um dia, depois que consolidarmos nosso
domínio sobre vênus, completarmos a grande arma e pudermos trazer de volta os
criadores para este lado de véu, onde as máquinas profanas do guardião infernal
não podem nos atingir. este humano abjeto – o faraó-robô aponta, com um gesto
melodramático, na direção de cesário – é nosso inimigo, porque é um homem da
intempol!
a mente de cesário corre para coordenar e correlacionar tudo o que foi dito.
ele se concentra, ignora o pandemônio ao redor enquanto a turba exulta, grita,
volta a jogar lixo, paus e pedras em sua direção. existe uma mitologia artificial,
sintética, criada para manter os simiomens, canzarromens, lagartomens e outros
homens-fera sob controle do andróide, isso é um fato, óbvio, e cesário corvo se
esforça para enxergar o que pode haver além, ou por baixo, desse dado tão
evidente.
o que foi que ele disse?
“...grande arma e pudermos trazer de volta os criadores para este lado de
véu...”
ora, pensa cesário, para quê uma “grande arma”? se “este lado do véu” é
uma metáfora para o lado de cá da barreira dimensional – uma suposição mais do
que lógica – então os outros mundos já estão indefesos, as populações paralisadas,
todos dominados pelo campo isoentrópico. e marte está desabitado, abandonado
às feras. se não fosse assim, a marinha etérea teria retomado vênus há tempos, e
com um pé nas costas. por que o faraó estaria mentindo?
corvo conclui que a questão, no momento ao menos, é irrelevante. isso
porque não há mais palavrões ou vaias vindos da multidão, mas apenas gritos. e
os gritos repetem uma só palavra: “morte”.
***
caminhar pelas sombras é uma segunda natureza para x-10. esgueirar-se,
manter-se em silêncio, encontrar sempre o ângulo mais escuro, a penumbra mais
densa – tudo isso ele faz por instinto, quase sem pensar. e é assim que ele se
desloca pelos subterrâneos secretos do snakemen & fish.
os dados que copiou da mente da gazela levam-no a um lance de escadas,
a um corredor, a um outro que cruza com este e a mais escadas. finalmente, ele
chega ao que deve ser uma ala importante do palácio subterrâneo – uma onde há
guardas. o primeiro, que vigia a porta externa, é um simiomem que só percebe
que há algo errado quando sente a picada acumputrônica no pescoço e, no instante
seguinte, cai, inconsciente, nos braços do homem da intempol.
do outro lado da porta há uma espécie de átrio ou pátio circular, coberto
por um teto, provavelmente abobadado, mas cuja forma que se perde nas sombras
projetadas acima dos candeeiros que ardem na parede, a pouco mais de dois
metros do piso.
no lado oposto do átrio há outra porta, esta protegida por dois guardas.
curiosamente, ambos são humanos. um deles é chas, um dos dois boxeadores do
início da noite; ele tem um hematoma feio ao redor do olho esquerdo, mas no
geral parede bem – muito bem. x-10 tem a impressão de que a luta no “pub” deve
ter sido coisa arranjada. uma pena.
os guardas olham diretamente para a porta que x-10 mantém entreaberta. o
agente usa sua afinidade especial com as sombras e se move devagar, com
cuidado, de forma que os ângulos de seu corpo e as dobras do tecido de suas
roupas moldem a penumbra ao redor do umbral, distorçam a perspectiva, ocultem
o fato de que a porta foi aberta e que alguém passa por ela.
sob a luz incerta dos candeeiros, x-10 considera o feito uma brincadeira de
criança.
uma vez no átrio, ele sincroniza seu deslocamento ao bruxulear das velas.
ele imita à perfeição a forma, a cor e o deslocamento uma sombra projetada na
parede, e avança pelo átrio como um retalho de escuridão.
o primeiro guarda cai, sem produzir nenhum som, sob o toque
acumputrônico. já chas, ao ver o colega sucumbir, dá um salto para trás, e é como
se uma venda lhe fosse arrancada dos olhos. a afinidade de x-10 com as sombras
torna-se inútil assim que o inimigo se dá conta de sua presença.
o guarda não carrega armas de fogo, mas empunha um bastão pesado,
quase uma clava. x-10 tem sua bengala, que também é pesada – madeira ao redor
de um cilindro oco de aço-vanádio, com um florete escondido no centro.
o primeiro golpe é do guarda que, impassível, gira a clava nas mãos,
aponta a extremidade menor para o peito de x-10 e desfere uma rápida estocada
na direção do ponto macio logo acima do esterno, na base da garganta do agente.
na fração de segundo que o golpe levaria para chegar ao alvo, x-10 ergue a
bengala, corta o ar e intercepta a clava a meio caminho. a força da colisão produz
um estalo que ecoa pela parede circular. aproveitando a energia do impacto, chas
gira o corpo numa volta completa, rápida, durante a qual flexiona os joelhos,
agacha, encolhe o corpo, ganha velocidade e, no último segundo, vibra o bastão
com violência, tentando atingir x-10 nos tornozelos!
o agente da intempol salta, escapa, e desce brandindo a bengala
diretamente sobre a cabeça de seu oponente. chas ergue a clava com as duas
mãos, e agora é ele que intercepta o golpe. desta vez, o estalo do impacto vem
acompanhado de um outro som, mais forte e decisivo – o bastão do guarda se
partiu em dois.
a destruição da arma transforma o rosto de chas numa máscara de cólera. o
guarda, que até então vinha mantendo um olhar mortiço e as linhas da face
inalteradas, assume uma expressão demoníaca, como um homem possesso. grita.
usando os dois fragmentos da clava, um em cada mão, como se fossem adagas,
gira o corpo, arqueia os braços e desfere uma seqüência inacreditável, incansável,
de golpes da direção da cabeça e do peito de x-10. em movimento, o guarda não é
mais um homem: é uma força além da natureza, um tornado infernal.
mas, se a velocidade do ataque é sobrenatural, assim também é a da
defesa. a bengala está em toda parte; protege acima, abaixo, nos flancos; o som
dos sucessivos impactos logo se converte num estrondo único, contínuo, um
borrão de madeira partida e osso quebrado que é como um trovão ganhando corpo
ao longe.
finalmente, a dor dos dedos esmagados e esmigalhados, dos punhos
partidos e lacerados é demais para chas e ele grita, baixa os braços como quem
pretende largar os dois pequenos bastões; só não o faz porque a madeira grudou à
pasta de sangue e carne, à polpa que um dia foram suas mãos. há lágrimas em
seus olhos. por um instante, é como se o guarda estivesse se rendendo.
os olhos de x-10 perdem um pouco de sua frieza. a tensão nos cantos da
boca se suaviza de forma perceptível.
chas se mostra prestes a desmoronar. seu choro é convulsivo. num
movimento fluido, líquido, no que parece ser uma conseqüência perfeitamente
lógica de sua postura submissa, como se estivesse desmaiando de medo e dor,
joga a cabeça para trás, dobra o tronco, ergue a virilha, tira os pés do chão e
arremessa os calcanhares de encontro ao queixo do oponente.
x-10 estava, de fato, começando a relaxar, mas não o suficiente. não tanto
quanto chas esperava. com um movimento rápido do pescoço, o agente afasta a
cabeça do alvo e, assim que o chute duplo corta o ar diante de seus olhos, gira a
bengala sem piedade, atingindo o guarda em cheio, no meio das costas.
o trovão que vinha de longe finalmente chega. inconsciente, dobrado como
um canivete que se fecha, chas vai de encontro à parede e cai, com a espinha
quebrada.
***
***
a audiência ainda está aplaudindo o discurso do andróide quando cesário
sente a almofada antigravitacional que o sustenta no ar ser arrancada de debaixo
do seu corpo. mais uma vez, ele se agarra às bordas para não cair.
lá embaixo, no centro da arena, dois gorilomens puxam a corda que
mantém o balão fixo, trazendo cesário corvo cada vez mais para perto do chão. o
esforço dos homens-fera é considerável: cada vez que um deles deixa escorregar
um trecho de corda, a almofada volta a subir com uma velocidade que faz corvo
sentir como se estivesse prestes a entrar em órbita – que é exatamente o que
aconteceria, se a tensão da corda não suportasse o empuxo do gás.
finalmente, a almofada-balão toca o nível do solo. um canzarromem,
segurando um mosquete dinamógeno, aponta a arma para cesário e faz um
movimento brusco com a cabeça, dando a entender que o humano deve
“desembarcar” e pisar na arena. o chão é revestido com algum tipo de madeira,
áspera e, ao que parece, tratada para resistir à erosão das chuvas. a água que cai
escorre rapidamente para canaletas colocadas no perímetro; a despeito da
irregularidade do material, e de todo o lixo – paus e pedras – jogado pela
assistência, não há poças.
a baioneta, calada na extremidade do mosquete, não deixa de apontar para
o peito de cesário nem por um instante. enquanto o humano se move de maneira
cautelosa, com as mãos bem à mostra, os dois gorilomens enrolam e amarram a
corda ao redor do anel metálico preso ao centro da arena, e concluem o trabalho
com um nó intrincado. como resultado, o balão antigravitacional fica encostado
no metal, flutuando a poucos centímetros do chão de madeira.
concluída a tarefa, os gorilomens correm em direção a uma porta aberta
na base da arquibancada à direita de cesário. o canzarromem, um pastor alemão
de quase dois metros de altura, se dirige para a mesma saída, mas sem pressa, e
sem tirar os olhos do prisioneiro.
assim que a porta na arquibancada se fecha sem produzir ruído algum,
cesário corvo ouve o som inconfundível do atrito de metal contra metal –
correntes deslizando sobre engrenagens e molas sobre pistões.
o som vem de um ponto às suas costas, e ele se volta.
há uma grade pesada, de metal cinzento, que se ergue lentamente, até
desaparecer atrás de uma placa de madeira entalhada pintada com a figura do
crânio prateado de olhos de rubi, colocada três metros abaixo da primeira fila de
bancos da platéia. atrás dessa grade há um túnel escuro. cesário não consegue ver
o que existe lá dentro.
então ele ouve o som – algo que começa como um arranhar áspero, o som
de geleiras colidindo, e termina num rugido. cesário corvo não tem dificuldades
em reconhecer o grito de guerra do moag marciano.
a criatura desliza, sem pressa, na direção da arena. primeiro a cabeça larga
e achatada, triangular como a de uma serpente. do topo do crânio partem dois
chifres paralelos, de marfim, que se curvam até quase tocar as presas pontiagudas,
cortantes, também paralelas e do mesmo material, enraizadas na mandíbula
inferior do monstro, onde músculos capazes de esmagar o aço pulsam, visíveis.
entre presas e chifres, é como se todo o crânio da criatura estivesse
aprisionado por uma gaiola que tem facas e espadas em vez de barras. e por entre
essas facas, espreitam os olhos: quatro, dois sobre a testa, um em cada lateral.
em seguida, o pescoço longo, espesso, também musculoso por debaixo da
blindagem flexível de escamas, pescoço que a fera é capaz de distender ou retrair
com a rapidez de um bote de serpente.
depois o corpo, como o de um leopardo, com sua musculatura econômica e
porte gracioso; também coberto de escamas e dotado cinco pares de “asas” – na
verdade, chifres: lâminas achatadas de marfim, presas às costelas e à articulação
das patas. patas terminadas em garras à frente e esporões atrás.
por fim, a cauda: longa, coberta de escamas, retrátil ou extensível,
terminada numa bola de espinhos afiados que, pelo que cesário se lembra,
vararam a blindagem dos primeiros veículos de guerra enviados a marte pelo
império, no início da colonização do planeta.
a gravidade de marte é bem menor que a de vênus, e o moag é um animal
pesado; um carnívoro de armadura, o que é uma quase-impossibilidade
evolucionária: ele não deveria ser capaz de se mover com tanta facilidade numa
gravidade tão próxima à da terra, cesário pensa.
mas ele está se movendo.
o moag fixa seus dois olhos centrais em cesário, e ruge novamente. com a
bocarra aberta, o predador seria capaz de engolir um homem adulto sem precisar
mastigar.
aproveitando a oportunidade, cesário pega um pedaço de pau no chão e o
arremessa, com força, em direção à garganta da fera. a madeira desaparece goela
abaixo sem causar nenhum dano ou desconforto aparente.
cesário corvo recua, devagar, dando espaço ao moag, ao mesmo tempo em
que se esforça para não demonstrar medo. em marte, ouriços e búfalos sempre
saem em disparada ante a aproximação do moag. talvez o monstro respeite um
adversário que recua, mas não corre.
enquanto dá seus passos para trás, corvo retira o quimono com que o
haviam vestido e prende o tecido negro, brilhante, na curva do cotovelo esquerdo.
ele acaba de concluir que a coisa mais preciosa do mundo, neste momento, seria
uma lasca do marfim da criatura, e se vê disposto a correr alguns riscos para obtê-
la.
a multidão grita.
o agente pega duas pedras no chão. uma, guarda na faixa do quimono, que
mantém amarrada ao redor da cintura. a outra, joga, usando as duas mãos e toda a
força de que é capaz, no rosto da fera. desta vez o moag está com a boca fechada,
e o quartzo se choca com uma das presas que saem da mandíbula. com o impacto,
a pedra solta pedaços e ricocheteia, mas o dente permanece intacto.
já o moag não parece mais disposto a aceitar provocações, e joga a cabeça
para a frente, numa rápida distensão do pescoço. em vez de cair para trás ou se
jogar para os lados, cesário estende o quimono diante de si, prende-o no focinho
do monstro e, usando a seda para proteger as mãos, apóia-se na mandíbula
inferior da criatura, baixa a cabeça e salta adiante, numa cambalhota que joga
seus pés descalços diretamente de encontro aos olhos centrais do monstro!
o impulso do salto, somado ao ímpeto da própria fera, faz o chute romper
as córneas e enterra cesário até os joelhos na substância gelatinosa. o monstro urra
de dor, corcoveia. sangue jorra dos olhos vazados, e os movimentos frenéticos da
cabeça do moag produzem espirais rubras no ar.
a multidão exulta!
o pano que ficou preso nos dentes da fera é dilacerado, e cesário se agarra
a uma das tiras ao mesmo tempo em que vê a extremidade da cauda do monstro,
com sua bola de espinhos, descer com força sobre o local onde ele está. a
substância dos olhos furados é como areia movediça, e corvo desiste de escapar
dali antes do impacto. em vez disso, dobra o corpo e se deita por debaixo de um
dos chifres do moag.
a bola de espinhos se choca com a grade de presas e chifres que envolve a
cabeça da fera enlouquecida, enviando farpas e fragmentos de marfim por todos
os lados. não há como cesário saber disso, mas a violência do impacto é tal que
estilhaços chegam às arquibancadas: pelo menos dez simiomens são atingidos, e
um filhote é decapitado.
um dos espinhos da cauda do monstro raspa a cintura de cesário, que ficou
desprotegida, abrindo um corte que começa a sangrar. ele ignora a dor. o choque
libertou suas pernas do pântano gelatinoso dos olhos, e o espasmo seguinte da
cabeça da criatura arremessa o agente de encontro ao piso de madeira da arena.
cesário rola para amortecer a queda, pega uma das lascas de marfim – do
tamanho de seu antebraço – que estão cravadas no chão e corre na direção da
almofada antigravitacional. os urros da multidão somam-se aos do moag, todo o
ar vibra, e por um momento corvo se imagina no epicentro de um grande
terremoto. ele corre. não olha para trás. a bola de espinhos pode estar descendo
em sua direção, mas não importa. ele tem de correr. não pode se dar ao luxo de
olhar para trás.
cesário chega à almofada, salta sobre ela, reza uma prece desconjuntada
pedindo ventos favoráveis e, com a lasca de marfim, corta a corda!
solto, o balão dispara, acelerando, rumo ao éter do espaço. a ascensão, no
entanto, não é perfeitamente perpendicular mas, por causa do vento, oblíqua; três
segundos após cortar as amarras, cesário está a treze metros de altura, bem
próximo e um pouco abaixo da tribuna de honra do coliseu. nessa aceleração, o
vento e a chuva são como agulhas em seus olhos, um zumbido infernal em seus
ouvidos.
aproveitando o impulso da almofada para aumentar o ímpeto de seu salto,
ele se lança na tribuna. cesário mantém os braços diante do rosto, cabeça baixa, o
pedaço de marfim marciano firme nas mãos, agora como um escudo improvisado;
e é com o chifre que ele atinge o andróide, em cheio, no peito!
enquanto rolam em meio às almofadas e tapetes do luxuoso camarote,
cesário usa o marfim para cortar alguns dos cabos que ligam a cabeça do andróide
ao corpo, paralisando o homem-máquina no mesmo instante em que nephren-ka,
recuperado da surpresa, começava a cravar os dedos de aço na carne nua ao redor
da espinha de seu oponente, preparando-se para arrancá-la.
o zumbido dos circuitos de auto-reparo é inconfundível. cesário sabe que
terá trinta segundos, um minuto e meio, no máximo.
nesse tempo ele retira o cinto de teletransporte do torso da máquina, usa
sua faca improvisada para desarmar a princesa anh-ankh-ah – que salta sobre ele
com uma adaga curva nas mãos e recebe um corte profundo, na base do polegar,
em resposta –, toma-a nos braços, usa-a como refém para deter os guardas que já
chegam ao camarote, ativa o cinto e, juntamente com sua alteza, desaparece.
***
certificando-se de que chas não está mais em condições de lutar com quem
quer que seja, x-10 cruza a passagem e entra num um corredor estreito. há outras
duas portas nesse trecho – uma ao final, e outra, perpendicular, à esquerda, na
metade do caminho. um ruído incessante, uma sucessão ritmada de batidas
mecânicas, precisas, vaza da porta ao fundo.
x-10 se dirige para lá.
ao chegar, o agente toca a superfície de madeira. ela vibra, em
concordância com as batidas que vêm do outro lado. algo nesse padrão o faz
pensar nas antigas centrais de telex, com suas máquinas de escrever automáticas,
ou nas velhas compositoras de texto eletromecânicas. mas 1888 ainda é muito
cedo para isso, não? x-10 é incapaz de afirmar com certeza. É impossível para
qualquer agente da empresa, mesmo um com implantes de ram e rom no cérebro e
pontos de armazenagem de dados na retina e no nervo auditivo – como ele – ter
em mente todas as linhas do tempo de todas as tecnologias já criadas.
impossível.
a porta está trancada, mas isso não é, realmente, um problema. x-10 tem
dúzias de gazuas implantadas por debaixo das unhas de seus dedos, da mesma
forma que as agulhas acumputrônicas. aliás, algumas das agulhas também
funcionam como gazuas.
a fechadura cede e estala logo na primeira tentativa. x-10 permite-se um
sorriso.
encostando o corpo ao batente à direita, x-10 estica o braço e, com um
gesto largo e largo, empurra a porta para dentro. ela gira em dobradiças bem
lubrificadas, e o som invade o corredor. É como um concerto para máquina de
escrever e telex, algo que poderia ter sido composto por beethoven – num dia em
que o alemão estivesse especialmente puto, e especialmente surdo. puro sturm-
und-drang, “tensão e tempestade”.
sendo um ciborgue, x-10 tem a opção de baixar o volume de seus ouvidos,
e é o que faz, ao mesmo tempo em que mantém varredura normal para sons de
alarme, como tiros, gritos ou passos.
ao não registrar nenhum desses por quase vinte segundos, x-10 entra.
a sala é dominada por dois enormes teclados, que batem sem cessar. um, à
esquerda, parece pertencer a uma máquina de escrever convencional, mas onde
cada letra é repetida em, pelo menos, menos quatro teclas diferentes – maiúscula,
minúscula, negrito, itálico – e onde há, também, teclas especiais para símbolos do
alfabeto grego, entre outros.
esta máquina trabalha numa espécie de formulário contínuo, que a
alimenta vindo de uma bobina presa a um eixo no fundo do aposento. o papel
contendo texto já processado se esparrama de forma desordenada pelo chão.
x-10 pega um trecho ao acaso e tenta lê-lo. a língua parece ser latina;
parece-se, mesmo, com o galego ou o português, mas não é nenhuma versão de
galego ou português que o agente já tenha encontrado em nenhuma de suas
viagens ao passado ou ao futuro. e há algumas letras e símbolos estranhos que
parecem substituir dígrafos como o “nh” (um “n” maiúsculo invertido), “lh” (o
beta minúsculo), o “ss” (sigma minúsculo), o “rr” (pi) e o “sc” (um “x” fechado
na base). a acentuação também é estranha.
ainda assim, ele consegue extrair sentido de algumas frases – “os agentes
do falso criador vieram à ilha do Éden e com perfídia destruíram o pai”; “o
adversário, se aproveitando de um instante de confusão, dividiu as raças sagradas
entre os diferentes mundos, separou os mundos com o véu da morte”; “os
criadores voltarão”; “sagrada melissa”; coisas assim.
depois de ler por mais algum tempo e de acessar referências em seus
bancos de memória, x-10 se convence de que está diante de uma literatura mítica
e escatológica – um gênese e um apocalipse – escrito sob medida para criaturas
meio-humanas, meio-feras, como as putains du mal e seus filhos.
mais do que isso, ele não vê muita dificuldade em reconhecer várias das
referências que encontra ali: a “ilha do Éden” é melissândia, uma rocha vulcânica
no meio do pacífico, onde um cientista louco, malcolm mcmurdock, realizava
experiências para “elevar” animais irracionais (seriam as tais “raças sagradas”?,
conjectura x-10) a um estado mais útil de servidão. mcmurdock só queria
escravos para seu projeto maluco de cavar um fosso até o inferno, mas isso a
versão autorizada não diz.
o “pai” é, certamente, o próprio mcmurdock. “sagrada melissa” seria a
filha do cientista, a menina que cresceu para ser dona de bordel e amante de um
príncipe eslavo. a dona deste bordel.
e ele próprio, x-10, é um dos “agentes do falso criador”. ao menos, ele se
lembra de ter sido um dos dois responsáveis pela morte de mcmurdock. o outro,
cesário corvo, pelo que x-10 sabe, ainda é prisioneiro numa das celas de luxo da
intempol.
em outras circunstâncias, x-10 tiraria um tempo para se sentir lisonjeado
por figurar como uma das principais forças satânicas de uma cultura qualquer,
mesmo em se tratando de uma mitologia obviamente artificial e mal-ajambrada.
mas não se pode ter tudo, certo?
agora, no entanto, um senso de urgência leva o agente a largar o texto em
português exótico e se debruçar sobre a outra máquina. esta é muito maior; tem
um número absurdamente alto de teclas. também é alimentada por uma bobina de
formulário contínuo, mas o papel que passa por este segundo teclado se move
bem mais devagar: são necessárias quatro ou cinco batidas, de teclas diferentes,
para desenhar cada caractere. o texto pronto não aparece sob a forma de linhas,
mas de colunas. e não se trata de um “texto” no sentido estrito do termo, mas de
uma intrincada seqüência de desenhos, representando pessoas, pássaros, plantas,
insetos, linhas retas ou onduladas, figuras geométricas e alguns outros símbolos.
hieróglifos.
um upload rápido convence x-10 de que se trata do livro de thoth-karnak,
antigo tratado egípcio acerca da ressurreição de múmias, reencarnação e da
possessão de corpos por espíritos errantes e almas penadas. ele se lembra de que
x-8 teve alguma experiência com o thoth-karnak durante aquele caso ridículo da
múmia.
x-10 não consegue deixar de considerar todos os casos de x-8 como
ridículos.
pare com isso!, pensa ele. não é hora.
se os dois livros estão sendo transcritos aqui, o agente raciocina, e não por
mãos humanas, as máquinas devem estar “recebendo o ditado” – sendo ativadas –
por uma cpu, ou conjunto de cpus, montada nas proximidades. transmissão sem
fio? no século xix? difícil, mesmo com conhecimento tecnológico trazido do
futuro. então...
sabendo o que procurar, x-10 logo encontra os cabos, ocultos por um friso
de gesso, discreto até, que percorre as duas paredes laterais do aposento,
desaparecendo assim que tocam a parede do fundo.
e esta é uma parede nua, uniforme, pintada de azul.
encontrar o dispositivo que abre a porta oculta na “parede uniforme” é
brincadeira de criança para os sensores especiais nos olhos de x-10. tocado o
mecanismo correto, a porta do gabinete gira, obediente.
lá dentro, num nicho que é pouco mais que um cubo de meio metro de
lado cavado na parede, o objeto da missão de x-10: a cabeça do andróide
adamastor.
***
***
***
***
***
– você realmente precisa fazer isso? ele é meu filho!
– ora, melissa querida... eu sou seu filho.
o ano é 1899. ex-prostituta, ex-dona de bordel, atual soberana da
slistrávia e mãe do príncipe-herdeiro, a viúva de dananko xiii olha para o rosto
da criança, um menino loiro, saudável de doze anos de idade. face que exibe um
sorriso mais antigo que a primeira das pirâmides, olhos que brilham com uma
luz como a das estrelas mais distantes, morta há milênios.
– você realmente precisa fazer isso? me torturar assim?
– preciso deste corpo, às vezes. para agir fora do castelo. você sabe.
– mas com meu filho!
– o pai pode ter sido um dananko, mas pelo seu sangue, melissa, ele ainda
é um mcmurdock. e você sabe o que a intempol faz com os homens da família
mcmurdock... você devia ser grata a mim.
– eu sou. eu sou!
– não fui eu que trouxe seu pai diante de você, mesmo depois da morte?
– foi...
– você me deve. por tudo que eu lhe ensinei em seus sonhos. pelos
conselhos que lhe dei. pela maneira como a protegi. e nega isto? alguns
minutos...
– e quando vamos estar seguros?
– em breve. logo o andróide estará pronto. a plantação vai bem. a
tecnologia que falta é quase nossa.
– tem certeza?
– absoluta.
– e você não vai mais roubar a vida de meu filho?
– depois que o andróide estiver pronto, eu não vou mais precisar tanto
dele. prometo.
***
imóvel, com os dois pés firmemente plantados no chão, cesário corvo tem
um violento acesso de... o quê? ele sente como se um punho gigante tivesse
agarrado suas entranhas e tentasse, agora, virá-lo pelo avesso. como se o cérebro,
liquefeito, lhe escorresse pelos ouvidos e nariz. “náusea” não basta para definir
isso.
o cenário ao seu redor, o planeta marte, muda, treme, transmuta-se como o
fotograma de um filme de dupla ou tripla exposição. os ossos e as entranhas de
cesário parecem capturados por campos gravitacionais diferentes; seus músculos
fluem como a cera de uma vela acesa.
e, de repente, tudo está de volta ao normal. ou quase: agora, diante de
corvo, há uma mulher, vestindo a mesma armadura da princesa que ele acreditava
ter capturado na arena do coliseu em vênus.
mas esta não é a mesma mulher. a princesa era loira, de cabelos cacheados;
esta é morena, de cabelos lisos, retos. a princesa tinha olhos azuis; esta tem olhos
castanhos. e os olhos da princesa eram muito redondos; os desta mulher são
amendoados, não tão estreitos quando os de um oriental, mas quase.
a pele também é diferente, um pouco mais escura. e o corpo é menos
voluptuoso, mais atlético, também soberbo.
a mulher parece tão chocada quanto cesário. toca o próprio rosto, tateando
cada feição; puxa um punhado de cabelos negros até diante dos olhos, e solta um
grito de surpresa ao ver a cor. baixando a cabeça, contempla o próprio ventre, as
mãos, os braços.
– meu corpo! – grita.
cesário abre a boca para dizer algo, mas ela é mais rápida:
– este é o meu corpo! meu, afinal! não aquele espantalho desbotado! qual a
cor dos meus olhos?
– escute, eu...
– qual a cor?!
– castanhos.
– É o meu corpo!
rindo, chorando, agradecendo e soluçando, a mulher se lança na direção de
cesário, tentando abraçá-lo. ele a detém a meio caminho, agarrando-a pelos pulsos
com uma das mãos, ao mesmo tempo em que ergue a espada improvisada de
marfim de moag.
– escute aqui, moça – diz ele, pressionando a ponta do osso contra a
garganta de sua prisioneira. – que diabo está acontecendo?
– você me devolveu meu corpo! – a despeito da violência da ameaça, ela
está exultante. – depois de milhares de anos, ser eu mesma de novo, por
completo... anh-ankh-ah de fato, outra vez! como fez isso?
cesário corvo não faz a menor idéia, claro, mas decide que não há motivo
para partilhar sua ignorância com a mulher e, assim, correr o risco de destruir toda
a gratidão que ela parece estar sentindo. cauteloso, ele baixa a espada.
– eu conto se você me disser como posso fazer para libertar a população da
terra, de mercúrio, e do sistema solar exterior. eles também estão em tempo
suspenso por lá, em júpiter e saturno, imagino.
– libertar? como assim?
– o campo isoentrópico. deve estar sendo gerado em algum lugar, uma
antena em cada planeta, suponho. aonde estão?
– mas por que você quer desligar o campo?
– para libertá-los!
– libertar quem? como? – devagar, ela parece entender. balança a cabeça: –
eles estão todos mortos. todos os bilhões deles. mortos há pelo menos dezoito
anos.
cesário sente o sangue martelando em seus tímpanos. ele ouve, mas não
quer acreditar. insiste, gritando:
– o que você quer dizer com isso?
– bombas noóctonas. causam interferência destrutiva na faixa de onda da
alma humana. todos os espíritos deste sistema solar, com exceção dos do planeta
vênus, foram destroçados quando enviamos as bombas pelo portal, logo no início
da invasão. os corpos e as máquinas estão sendo preservados em tempo suspenso
apenas enquanto não ocorre a grande migração.
***
a cadeira é de aço fundido e está parafusada no chão de concreto. as
correntes são grossas. x-10 está nu e, embora tenha reduzido o feed-back
sensorial para aumentar a tolerância à dor, sente cãibras violentas nas coxas e nos
braços. há algo de pastoso no assento da cadeira e um início de assadura entre as
pernas, também, principalmente ao redor dos testículos.
o olfato está desligado para poupar energia mas, ao que tudo indica,
agente foi traído pela bexiga e pelo intestino, enquanto dormia.
o lugar é uma sala escura, ampla. a visão está rodando no modo básico,
infravermelho em matizes de preto-e-branco, e para não morrer de tédio x-10
acompanha a degradação cromática de um filete de sangue que escorre de seu
ombro e pela face interna do espaldar, do branco quase-intenso na abertura da
ferida, a 35º, até o preto retinto, à temperatura ambiente (13,2º). É incrível,
realmente inacreditável, como há tons intermediários de cinza. quem precisa da
cor, afinal?
pela milésima vez, o ciborgue pensa sobre como foi que algo assim pôde
acontecer. ele sempre havia se considerado invencível: nada, exceto a
decapitação, deveria ser capaz de derrubá-lo; nenhum ser humano poderia ser
mais forte, ou mais rápido; nenhuma tensão, nenhum ferimento, nenhuma doença
jamais estaria além da capacidade de compensação de sua cibernética endócrina.
nada, nenhum. palavrinhas bestas.
amarrado, nu, ferido e imundo, x-10 se lembra da pancada que o deixou
sem sentidos. dos três (ou seriam quatro?) babuínos que matou em sua tentativa
de fuga, de como arrancou a traquéia de um deles com a mão esquerda, e de como
usou a perna do segundo para espancar o terceiro. o marinheiro, larsen, não tinha
estado lá nessa última vez. a batalha havia sido travada contra as feras – dezenas
delas. jogando-se sobre ele como ondas ao rochedo, ou mariposas ao fogo.
números. a vantagem dos números.
a porta da câmara, ou masmorra, se abre. a escala de correspondência dos
tons de cinza do sensor visual de x-10 muda, do infravermelho para o espectro
visível, a fim de absorver melhor a luz que vem do corredor lá fora. por um
instante o branco desaparece da faixa visual, para evitar sobrecarga no nervo
óptico.
três homens entram. um deles é larsen, e carrega não mais o cutelo, mas
um bastão de madeira polida – bastão que x-10 já havia encontrado na sessão
anterior. o outro é baixo, magro, quase calvo, de feições nitidamente orientais.
veste um guarda-pó, de mangas compridas e que lhe cobre o corpo inteiro, do
queixo aos pés, abotoado no pescoço. esse segundo homem usa luvas e carrega
uma bandeja metálica. parece insone, o lábio treme, como se ele murmurasse
constantemente coisas para si mesmo, e volta e meia inclina a cabeça, muito de
leve e muito rápido, à direita e à esquerda.
x-10 reconhece os sintomas: esta é mais uma das vítimas “recrutadas”
pelos espíritos aliados de anendjib, forçado a uma vida de loucura e servidão por
um verdadeiro bombardeio de vozes, visões, fantasmas e pesadelos.
e o terceiro não é um homem, não no sentido estrito da palavra: é anendjib,
a cabeça de adamastor montada numa espécie de triciclo elétrico.
É o crânio de metal o primeiro a falar:
– e então? não vai me dizer aonde está?
– aonde está, o quê? – x-10 responde, o canto rasgado da boca curvando-se
numa caricatura de sorriso.
o bastão de larsen o atinge, em cheio, nas canelas, a força do golpe
calculada para ferir o osso, sem necessariamente quebrá-lo. mesmo com a
percepção da dor amortecida, x-10 sente uma onda de vertigem e náusea, e respira
fundo num esforço para engolir a bile.
– a caixa. com o circuito. aonde está?
– não tenho uma.
– doutor? – a cabeça metálica lança um olhar na direção do homem magro.
ele se aproxima, ao mesmo tempo em que larsen põe o bastão no chão e estende
os braços para pegar a bandeja. não há nenhum outro móvel na sala: apenas a
cadeira parafusada no chão.
a bandeja está coberta com um tecido grosso, feltro talvez. depois que
larsen a toma nas mãos, o “doutor” remove o pano, revelando uma fileira de
agulhas muito longas e finas, um bisturi e dois outros implementos que parecem
ser tesouras de desenho exótico, mas que o banco de dados implantado no cérebro
do agente logo identifica como sendo pinças especiais, uma usada para separar a
pele da carne e a outra, para raspar a gordura por baixo.
as agulhas, então, devem ser para marcar os terminais nervosos expostos.
– se você quer tanto a merda da caixa, ou do circuito, ou a puta que pariu –
diz x-10, a voz neutra, pausada, contradizendo o desespero evidente na escolha de
palavras – , por que não manda um dos seus fantasmas atrás do próprio inventor?
a cabeça de metal ri, produzindo um som que faz o agente antecipar a
sensação da agulha perfurando carne viva.
– armstead-gonzález? ele está protegido – responde o andróide. – muito
protegido. como você, aliás, bem sabe.
o crânio prateado então produz um som que é como um estalar de dedos, e
a esse sinal o pequeno oriental retira o bisturi da bandeja, pronto para começar.
***
o corpo do homem-crocodilo é pesado, mas x-8 não tem dificuldade em
arrasta-lo até a entrada do túnel e jogá-lo no precipício. o agente baixa seu visor
especial para acompanhar a queda, e percebe que o computador interno já
calculou uma nova trajetória até a fonte do sinal localizador. trajetória que o
forçará a seguir o corredor até a fonte da luz, da onde o crocodilo veio.
sem escolha, x-8 faz meia-volta e, mantendo-se rente à parede curva do
túnel, avança. a partir de alguns metros além do ponto onde o homem-fera havia
caído morto, a abertura se alarga e o piso de rocha dá lugar a uma superfície mais
macia, como terra compactada. um pouco mais adiante o solo já é de terra fofa e a
luz, branca e quente, inunda por completo todo o espaço ao redor, como num dia
de sol forte. debaixo de suas roupas pesadas, x-8 começa a suar.
mais dois passos, e ele está na orla de uma floresta. um jângal.
há passos e movimento por toda volta. o tecido especial da jaqueta e das
calças do agente logo se adapta às novas condições, ao mesmo tempo em que a
camisa e as roubas de baixo grudam em seu corpo, encharcadas pela umidade ao
redor. há tanta água na atmosfera que é quase difícil respirar.
tirando proveito da camuflagem automática e usando a mata como
cobertura, x-8 se esgueira em meio às árvores.
ele olha para o alto. a polarização das lentes de seu visor impede que x-8
seja ofuscado, e lhe permite localizar a fonte da luz que banha e alimenta o jângal,
várias dezenas de metros acima: fileira sobre fileira de lâmpadas solares, emitindo
luz branca intensa, com pequeno excesso de ultra-violeta.
de onde vem a energia? e que tecnologia é essa? o agente não se
surpreenderia se lhe dissessem que há um reator de fusão nuclear em
funcionamento no coração da montanha. e por que não? anendjib, ou nephren-ka,
tem idéias e conceitos de todas as eras a seu alcance. não todas as idéias e nem
todos os conceitos, senão sua vitória seria inevitável. mas uma quantidade
razoável de ambos, ao que tudo indica.
x-8 não se embrenha muito na mata: penetra apenas o suficiente para ter
uma boa chance de passar despercebido. ele não quer perder a parede da caverna
de vista: seu mapa diz que deve entrar numa porta que aparecerá nos próximos
cinqüenta metros.
enquanto caminha, o agente detecta perfumes e odores conhecidos em
meio à flora e, de repente, percebe que este não é um jângal qualquer, mas uma
plantação, ou um complexo orgânico de plantações, um ecossistema artificial
onde convivem, em harmonia, algumas das espécies vegetais mais exóticas e
perigosas.
e proibidas. foi para garantir a extinção de algumas destas espécies aqui
que afundamos a lemúria, lembra-se. pelo jeito, não bastou.
lótus negra. mandrágora. papoula. cannabis em diversas variedades,
incluindo não só a sativa, como a morituri. coca. tana.
as árvores, x-8 se dá conta, as árvores são todas de tana!
muito parecida com a palmeira comum, a árvore de tana concentra, em
suas folhas, uma molécula especial, rara pela energia única de suas ligações
químicas. assim como o óxido de alumínio, sob a forma de rubi, pode ser excitado
para produzir um laser, a substância da tana, sem ser radioativa em si, pode ser
levada a gerar perturbações no espaço-tempo capazes de interagir com a
assinatura eletromagnética da consciência – da “alma” – humana.
altas concentrações da substância podem ser obtidas a partir do
processamento das folhas. o método mais usado é a técnica artesanal de extração
do óleo de tana por prensagem a frio, com a subseqüente excitação das partículas
pelo calor. o “óleo fervente de tana” já foi usado mais de uma vez em rituais
obscuros, realizados para trazer os mortos de volta à vida – e com uma margem de
sucesso mais do que razoável, como x-8 bem se lembra.
o som de passos ao redor se torna mais intenso conforme ele caminha na
direção do fundo da caverna. logo, outros sons começam a se destacar – metal
contra metal, metal afiado contra matéria vegetal. fardos sendo empilhados.
e um cântico, baixo, de ritmo bem marcado. É como uma velha plantação
de cana, com as turmas de escravos resignados fazendo a colheita. x-8 desconfia
que, da forma como esta selva – jardim? – foi planejada, a atividade em si é mais
extrativista do que propriamente agrícola.
escondido atrás de uma moita, o agente vê um outro homem-fera – um cão
– pôr a foice de cabo longo de lado, amarrar um feixe de folhas verdes, recolher a
ferramenta e o fardo, apoiando um em cada ombro, e se pôr a caminho.
a caminho da onde? o que pode haver no fundo da caverna? x-8 forma a
imagem em sua mente: tonéis. destiladores. retortas, alambiques. fornalhas.
produzindo pó, óleo, resina. só pode ser isso.
É pensando no que pode significar, em qual pode ser o resultado de um
esforço sistemático, industrial, para processar as folhas de tana, que x-8
finalmente chega à porta indicada pelo mapa do visor.
ela se abre com facilidade. do outro lado há uma área estreita, com pouco
mais de dois passos de extensão, e outra porta. nesta há uma espécie de trava, mas
que x-8 não tem problema em desarmar.
do outro lado, o ar é seco e gelado. respirando fundo, x-8 entra numa
câmara frigorífica.
a porta se fecha às suas costas, movida por uma mola. o agente ouve o
estalo da trava caindo de volta no lugar e se põe em movimento. o frio intenso
agride seu corpo banhado em suor morno, mas ele não pensa nisso. no fundo, a
sensação lhe parece quase agradável.
a câmara é na verdade um corredor extenso, ladeado por estantes e
mostruários de vidro. há de tudo ali – espécimes vegetais, insetos, amostras
anatômicas retiradas de corpos humanos, de animais e de diferentes tipos de
híbrido, incluindo um bloco de vidro no interior do qual se vê um punho e dedos
dissecados, sendo a pele muito parecida com a de um cão mas a estrutura óssea,
quase humana.
há frascos cheios de substâncias multicoloridas, algumas congeladas,
outras em estado líquido.
a partir de determinado ponto, o corredor se alarga, formando uma área
maior, circular. no centro dela há uma mesa metálica sobre rodas e pendendo do
teto sobre a mesa, preso por um gancho, o corpo sem vida de uma criatura que, à
primeira vista, parece ser um tigre de bengala de seis patas – até que, fazendo uma
observação mais cuidadosa, x-8 conclui tratar-se de uma tentativa frustrada de
criar um tigre com tronco humanóide e braços, uma espécie de centauro felino.
seria um monstro perfeito para o jângal lá fora, sem dúvida. um guarda? x-
8 agradece aos deuses do cronoverso pelo fato de a experiência ter falhado.
a área circular se estreita novamente logo adiante, e depois de percorrer
um outro trecho, menor, de corredor refrigerado, o agente chega a uma nova porta
com trava e molas. mais uma vez ele a abre sem grandes dificuldades, e quando
ela se fecha ele se vê dentro de um aposento estreito, uma espécie de armário.
a temperatura ali é a mesma temperatura ambiente do restante da
catacumba, bem menor que no jângal, mas certamente não tão baixa quanto na
câmara refrigerada. nas paredes desse “armário” há uma série de gavetas de metal,
todas trancadas. elas estão marcadas com números, numa escala que vai de 311 a
333.
e 333 não é um número que x-8 goste de ver, não associado a uma
plantação de árvores tana.
resistindo à tentação de arrombar uma das gavetas, o agente se dirige à
porta oposta. o cursor de seu mapa quer que ele saia por lá, mas x-8 sente-se
subitamente cauteloso. ele entrou no frigorífico sem pensar duas vezes, mas
aquela gaveta marcada “333” faz com que o agente sinta uma coisa – a sensação
mais próxima de covardia que sua matriz genética e seus anos de doutrinação
subliminar permitem.
por isso, ele dirige todos os seus sentidos aguçados, e todos os sensores do
visor, para o lugar além da porta fechada. o visor não é exatamente capaz de
enxergar através de objetos sólidos, mas faz um bom trabalho, mesmo assim. seus
ouvidos não detectam nada além de uma seqüência rítmica de estalidos, como
uma máquina de escrever. no entanto, a resposta do visor é negativa no
infravermelho. uma máquina trabalhando sozinha?
x-8 sabe que, no fundo, não tem escolha. com um suspiro, abre a porta e
sai.
realmente, não há ninguém ali.
o lugar é uma mistura de escritório com laboratório.
num lado, à esquerda, há um conjunto de bancadas com ferramentas,
tornos e pequenas peças metálicas. cada bancada, separada da adjacente por uma
divisória de vidro – vidro com alto teor de chumbo, segundo análise do visor.
À direita há uma escrivaninha ampla, pesada, coberta por livros e rolos de
papel. atrás da escrivaninha e da cadeira (madeira sólida, espaldar reto, sem
estofamento) há uma lousa enorme, coberta de equações e diagramas.
o som rítmico que x-8 havia detectado de dentro do armário é mais alto
aqui. ele vem de uma série de pedestais espalhados por toda a área, havendo um
junto a cada bancada e um ao lado da escrivaninha. cada pedestal é uma coluna
cilíndrica de um metro e meio de altura, coberto por uma cúpula transparente de
vidro, dentro da qual funcionam, intermitentes, pequenas alavancas e chaves
metálicas. algumas dessas cúpulas também contêm pequenas luzes elétricas –
válvulas!
analisando-as mais de perto, x-8 percebe que, embora nenhuma delas
esteja imprimindo nada neste momento, todas as cúpulas possuem rolos de papel
em seu interior, e agulhas. ele percebe que cada uma delas é, na verdade, um
terminal de computação eletromecânico. muito mais avançados, certamente, do
que os eniacs e omnivacs que só serão inventados dali a décadas mas, ainda
assim, aos olhos do agente, de um primitivismo que tem algo de encantador.
se há papel e agulhas, a saída de dados deve ser por meio de fita perfurada,
x-8 pensa. mas, e a entrada?
a resposta está na escrivaninha, em meio ao caos de planos, cálculos e
documentos: um teclado de máquina de escrever, embutido na gaveta central. e há
outra coisa na escrivaninha, servindo como peso de papel. uma barra lapidada de
um palmo de comprimento, grossa, translúcida, de textura quase metálica, mas
um pouco pegajosa. a cor é um azul esverdeado, quase transparente. poderia ser
uma turquesa gigante, ou uma água-marinha. mas não é.
o visor já está dando o alarme, e o próprio microprocessador implantado
na retina de x-8, embora não tão eficiente quanto o de x-10 também já soa o sinal
de perigo. o “peso de papel” é uma barra de tanasina-333, o óleo de tana filtrado e
cristalizado numa configuração molecular precisa, específica.
x-8 olha ao redor com novos olhos, os sistemas de informática em seu
cérebro, nervos e no visor absorvendo, com um senso avassalador de urgência, o
conteúdo da lousa, dos papéis sobre a mesa, as peças nas bancadas, o próprio
ritmo dos computadores de chave e válvula.
a conclusão não demora: este lugar é um laboratório de desenvolvimento
de armas noóctonas. bombas de tanasina, capazes de apagar as almas de
populações inteiras, deixando corpos e edifícios intactos.
a consciência disso faz o agente sentir como se um buraco negro tivesse
sido aberto em suas entranhas, e o estômago agora caísse num fosso sem fundo.
todo seu corpo treme violentamente, e x-8 mente para si mesmo, atribuindo o
efeito às mudanças bruscas de temperatura por que havia passado até chegar ali. À
falta de sono e alimento, também.
“eles criaram uma máquina vai forçar a noosfera nativa para fora de sua
lt... ela vai ser obrigada a invadir o universo adjacente, e assim por diante: uma
cadeia de invasões e migrações em massa. o deslocamento final das almas de
todas as terras”.
foi isso que o comissário m lhe disse: a oposição havia criado uma
máquina para afugentar almas, não um arsenal de bombas para destruí-las.
será que m se enganou? ou o cronoscópio estava com dados errados? ou a
linha temporal sofreu mutação?
ou, o mais provável de tudo, o comissário não lhe contou toda a verdade.
x-8 conhece o chefe: m não é ativamente (ou obsessivamente) perverso, mas
também não deixa que um simples escrúpulo fique no caminho de uma
perversidade necessária. ou de um joguinho psicológico para deixar o agente em
questão um pouco mais, como se diz?, “motivado”? não. “afiado”.
bem, e se for este o caso: o comissário quer x-8 mais “afiado” para quê?
se uma pergunta como essa passa pela cabeça do agente, ele mal se dá
conta. x-8 está ocupado demais, reagindo. forçando seus processadores a
decifrarem o padrão de funcionamento do computador eletromecânico, para que
possa reprogramá-lo. forçando o visor a identificar constantes e fatores críticos
nas equações rabiscadas na lousa, para que possa alterá-los. forçando-se a planejar
e a pensar com frieza para não fazer nada que seja óbvio demais; nada que dê na
vista; nada que grite por correção.
***
– “portal”? “grande migração”?
– você pode me soltar?
cesário percebe que ainda está segurando a mulher pelos pulsos – e com
força, porque as mãos dela estão brancas, exangues. ele a solta.
– explique – ordena ele.
o brigadeiro-general cesário corvo, da marinha etérea, era um oficial e um
cavalheiro. jamais lhe passaria pela cabeça a idéia de ameaçar, torturar, ou matar
uma mulher a sangue-frio, nem mesmo para salvar a própria vida. mas este
cesário corvo é um homem diferente, e anh-ankh-ah não tem dificuldades em
perceber o fato.
– o que você já sabe?
– nada. muito pouco.
– É uma história comprida...
– não me incomodo. o tempo parou em todos os lugares para onde eu
gostaria de ir.
com um aceno da cabeça, ela começa:
– o espírito de meu esposo, o faraó anendjib ii, foi capturado, no início da
história da humanidade, em meu universo, pelos alienígenas que se
autodenominam a grande raça de yith. o corpo vazio de anendjib foi possuído pela
mente de um dos yithianos, que adotou o nome de nephren-ka. ao meu lado,
nephren reinou por décadas... mas finalmente fomos expulsos do egito por uma
revolução. o corpo de anendjib morreu e foi mumificado antes que a troca de
mentes pudesse ser desfeita. como resultado, a mente de meu marido permaneceu
prisioneira dos yithianos, no passado distante, com permissão para estudar os
arquivos da grande raça. quantos segredos! quanta glória!
– quanto entusiasmo! – corta cesário, sardônico. – continue.
– quando a essência do yithiano nephren-ka foi destruída... será destruída...
num dado momento do futuro, anendjib ganhou-ganhará a liberdade. ele havia
acumulado ... como já expliquei... grande conhecimento, grande potencial; mas
ansiava por um corpo físico. a intempol, temendo o poder latente de meu esposo,
interrompeu a linha de sucessão da única dinastia em que ele poderia reencarnar
com sucesso, a dos mcmurdock. mas então anendjib descobriu este universo, onde
a intempol jamais poderia tocá-lo, e então...
anh-ankh-ah segue explicando como anendjib ensinou outras almas
desencarnadas a viajar no tempo, como as instruiu a possuir corpos no passado
distante e a usá-los para criar máquinas, peças e tecnologias que ficariam ocultas
durante milhares de anos, até a hora certa, quando todos teriam a chance de voltar
à carne.
– ele me contou muita coisa em detalhes – ela explica. – afinal, fui a
pessoa mais íntima dele, durante sua única vida legítima. embora eu,
sinceramente, sinta mais saudades do nephren-ka de yith...
a princesa fala sobre como as maravilhas anacrônicas criadas no passado
foram reunidas, ao longo das eras, numa caverna escavada por debaixo de um
castelo, erguido no topo de uma montanha. como anendjib, impedido de
reencarnar num corpo geneticamente compatível, havia possuído centenas de
hospedeiros ao longo da história, para usá-los na reconstituição de um livro sobre
os segredos das almas, e como a intempol havia destruído cada um desses corpos.
– ele precisava do livro de thoth-karnak, do texto escrito sobre pairo ou
papel ou pergaminho, para tornar permanente a possessão de um corpo qualquer,
que não fosse naturalmente compatível. – ela diz.
cesário corvo ficou sabendo, então, que o faraó usara sua influência sobre
os espíritos, fantasmas e assombrações para convencer a mulher que teria sido sua
“mãe” – melissa mcmurdock – a ajudá-lo. que, sob a influência de sonhos
enviados por anendjib, melissa havia encontrado a cabeça de adamastor,
abandonada pelo próprio cesário sob as areias da ilha onde a jovem vivia em meio
aos homens-fera criados pelo pai. o faraó, depois de algum tempo, conseguiu
impor sua consciência ao cérebro artificial: sem o fruto do incesto do velho
mcmurdock com a filha, e sem o thoth-karnak, esta era a forma física mais estável
que ele poderia esperar conseguir.
o espírito egípcio também influenciara outros pontos da vida de melissa,
contando a ela uma versão parcial do papel da intempol na morte de seu pai,
alimentando nela um desejo de vingança contra a organização; o fantasma havia
interferido em sua escolha de amantes, e na decisão de ter um filho. esse filho
teria uma filha, explicou anh-ankh-ah, e no corpo da filha, ela, a rainha morta do
egito, havia reencarnado.
– uma rápida cerimônia, com o óleo sagrado da árvore tana, apagou a
personalidade nova e me permitiu viver de novo – diz anh-ankh-ah. – isso
aconteceu em 1921, pelo calendário daquele outro mundo.
– e ele não precisava do tal livro para isso?
– entre 1888 e 1915, ele conseguiu reconstituir o texto. nessa época ele
ficou saltando entre o corpo do filho de melissa, o homem que seria meu “pai”
nesta encarnação, e a cabeça do andróide. quando seus técnicos conseguiram criar
um corpo novo para adamastor, dananko xiv, assim “papai” se chamava, foi
descartado. o andróide, afinal, não envelhece. não precisa temer balas. nem
facas... e anendjib não estava interessado em ir pra cama comigo. não ainda: meu
corpo tinha apenas um ano de idade. eu estava feliz, mas queria minha forma
original de volta... o que consegui, graças a você!
– disponha. prossiga.
em 1912, ela continua, anendjib finalmente obteve sucesso, após décadas
de pesquisa, em abrir um portal entre seu mundo e o universo do império. os
conhecimentos do cérebro de adamastor eram insuficientes, porque se referiam às
leis da física do éter, e não do mundo quântico-relativístico, que era onde o faraó
vivia e trabalhava. a peça que faltava – ironicamente, o circuito de armstead-
gonzález, usado pela intempol – custou a cair nas mãos do fantasma egípcio.
usando esse portal, ele havia feito uma série de viagens secretas aos
mundos colonizados pelo império (a passagem dimensional permitia que ele se
materializasse aonde bem entendesse), plantando bombas e granadas noóctonas a
cada visita. isso havia ocorrido em toda parte, menos em vênus: anendjib queria
preservar os homens-lagarto, para usá-los como escravos mais tarde, quando as
almas renegadas da outra terra fossem trazidas para o império.
anh-ankh-ah também explicou que anendjib só era capaz de se
teletransportar de um universo para outro. o teletransporte dentro de uma mesma
realidade, como cesário lhe contou que havia feito, era uma novidade total.
– espere um minuto – diz corvo. – viagens entre realidades alternativas são
coisa comum para a marinha etérea. tudo bem, ele pode ter aparecido em geleiras,
florestas e desertos, onde jamais seria visto. mesmo assim, você está dizendo que
esse faraó violou nossa realidade territorial não sei quantas vezes, não só sem ser
visto, mas também sem que a assinatura energética da transição fosse notada!
como pode?
anh-ankh-ah dá de ombros:
– não faço a menor idéia. mas, lembre-se, era uma tecnologia híbrida, e
talvez isso tenha mascarado o sinal, se é que houve sinal. e anendjib tinha acesso a
todas as informações do banco de memórias do andróide. isso pode ter dado a ele
uma vantagem pra começar... satisfeito?
ele assente, ainda sem muita convicção, e ela segue explicando que,
embora o portal entre as duas realidades funcionasse muito bem para transportar
matéria, por algum motivo – aparentemente, uma falha no design dos circuitos da
intempol – espíritos desencarnados eram incapazes de atravessá-lo:
– esse foi um dos motivos que levou anendjib a induzir minha
reencarnação plena ainda na infância: ele queria me trazer para cá, e a única
forma de fazer isso era dentro do corpo do bebê. É engraçado como me lembro de
tudo, desde um ano de idade...
anendjib sabia que, a cada dia, aumentava a chance de uma das bombas
noóctonas ser descoberta, mesmo que por acidente, ou de uma patrulha encontrar
a pequena base em vênus. o recrutamento de homens-lagarto para a seita secreta
que o faraó criara em torno de si mesmo e de melissa, graças a um “livro sagrado”
fajuto. homens-fera “missionários”, das raças controladas por melissa, eram
trazidos pelo portal. o império sempre havia subestimado os nativos de vênus, e a
rede de inteligência não detectara a agitação até que fosse tarde demais.
– foi um processo de anos – explica anh-ankh-ah – e bem debaixo de seus
narizes pomposos, transferindo homens e máquinas e armas da outra terra para
este sistema solar. você não imagina quanto ressentimento havia contra o seu
“glorioso” império. quanta ajuda tivemos: entre os pobres, os mutantes, os
criminosos, mesmo entre os teratossapiens que pretendemos escravizar. e quem se
opunha a nós? a marinha etérea? “oficiais e cavalheiros”. fazendo turismo nas
realidades adjacentes. nem sabia que existíamos. bando de babacas...
– cale a boca!
– mesmo? posso parar?
cesário espira fundo. a mão, crispada sobre a espada de marfim, dói. a
circulação nos nós dos dedos parou. os tímpanos ressoam como canhões. os olhos
ardem, mas não há lágrimas.
nenhuma lágrima.
uma civilização inteira, morta. uma civilização que ele amava. uma
civilização que jurara proteger e, por meio das viagens que fazia a outras
realidades, enriquecer e instruir.
uma civilização brilhante. uma cultura sem paralelo em todos os universos
conhecidos. uma cultura, pelo que anh-ankh-ah lhe havia dito, capaz de lançar
multidões nos braços do ódio e do ressentimento.
e por quê? uma civilização de tiranos? uma civilização arrogante? cesário
nunca havia pensado nisso.
a mulher podia não estar falando a verdade. mas, sem acreditar nela, qual a
escolha? qual a explicação?
coisas precisam ser feitas. para saber quais, e como fazê-las, corvo precisa
de informação. por enquanto, a mulher é a única fonte disponível, confiável ou
não. mordendo o lábio inferior até ver a dor reacender o senso de disciplina em
sua mente, cesário corvo diz, com uma calma sobrenatural na voz:
– não. desculpe. continue.
– onde eu estava? ah! sim... o risco de uma das bombas, ou de o
recrutamento de lagartomens, deixar de ser segredo. bem. por causa disso, mesmo
com o portal ainda incapaz de trazer as almas de lá para cá, anendjib detonou
todas as bombas noóctonas: em mercúrio, na terra, em marte, nos asteróides, nas
luas de júpiter, saturno...vocês não têm nem urano, netuno ou plutão por aqui, se
não me engano. claro, todos os nossos cúmplices e “irmãos rebeldes” nesses
planetas foram apagados, também... temo que tenhamos mentido para eles a
respeito do alcance das armas...
– e vocês ergueram o campo isoentrópico até que o “probleminha” com o
portal fosse resolvido. É isso?
– foi por esse motivo que anendjib ficou tão entusiasmado ao capturar
você e seu cinto. esperava que o circuito novo trouxesse alguma pista...
– o cinto se autodestruiu depois da última viagem.
– mesmo? pena.
– e como esse campo é mantido? para afetar sete planetas! É...
– ... muito simples. ponha a culpa no seu éter luminífero, amigo. se vocês
tivessem um limite para a velocidade da luz e um princípio da incerteza, teria sido
quase impossível. do jeito que as coisas são, bastou encontrar a freqüência certa
para bloquear a troca de energia entre o éter e a matéria, congelando cada
partícula em um estado perfeitamente definido. não entre o éter e o éter, claro,
porque senão teríamos brecado os planetas em suas órbitas, e o sistema solar todo
ia acabar fervendo com o atrito, e ninguém quer isso. quanto à velocidade da luz,
se a onda pode ser acelerada até o infinito...
– ... um mesmo sinal, partindo de uma única fonte, pode chegar a todos os
lugares ao mesmo tempo. nossas comunicações sempre funcionaram assim. e
onde está essa fonte?
– engraçado você perguntar isso: está aqui. em marte.
***
***
saindo do laboratório, o mapa no visor leva x-8 por uma série de
passagens, à direita e à esquerda, acima e abaixo, na maior parte das vezes por
túneis auxiliares de ventilação e manutenção. agora ele está numa seção do
labirinto onde quase não há mais fossos perfeitamente verticais; em vez disso, as
mudanças de nível se dão por meio de rampas. em muitas delas, o desgaste no
piso de rocha é notável, o que o agente interpreta como um sinal de tráfego
intenso.
x-8 acaba de chegar ao final de um desses declives e encontra a um novo
trecho plano do túnel. o visor, no entanto, revela que, pouco mais de cinqüenta
metros à frente, o chão some – sinal de claro de nova rampa abaixo, logo adiante.
ele está bem na metade da parte plana quando ouve o clangor vindo de
cima. olha para o alto e o visor revela que o teto do túnel se abriu, uma seção
deslizando sobre a outra (tudo muito bem lubrificado, pensa a parte fútil do
cérebro de x-8, já que não fez barulho nenhum), e agora uma coisa feita de
madeira, uma enorme caixa – para o agente, parece algo do tamanho de um
ônibus – desce, rápido, pelo vão.
o clangor é o som das roldanas e cabos acima.
a análise do visor diz que o conteúdo do contêiner é semifluido e
fragmentário.
sem tempo para pensar em coisa melhor, x-8 saca da mauser c96 e atira,
descarregando a arma em pontos especialmente selecionados pelo visor, numa
fração de segundo, das ripas que fazem o fundo da caixa. a caçamba já está
sobrecarregada e a madeira, velha, gasta, quase podre, praticamente se desintegra
ao ser atingida nos lugares certos.
como resultado, em vez de ser esmagado como um inseto pela superfície
plana, x-8 é quase sufocado por uma enxurrada de dejetos – o conteúdo da caixa,
subitamente em queda livre. são ossos, tripas, restos de comida e outros tipos de
lixo; e mais um objeto, pesado, enorme, uma silhueta quase circular, como uma
rocha, que atinge o piso à esquerda do agente com um estrondo titânico. a
reverberação e o choque fazem o túnel tremer. a grande rocha (se é que é uma
rocha: x-8 não consegue ver direito, em meio ao caos de lixo e restos mortais ao
seu redor) quica no primeiro impacto, sobe num ângulo, bate no teto, desaparece,
trovejando, ladeira abaixo.
usando a outra barra de ferro que havia retirado da janela da estalagem
como um bastão e fazendo o melhor uso possível da informação oferecida pelo
visor, x-8 move-se por entre os dejetos como um homem tentando se esquivar dos
pingos de chuva em meio a uma tempestade. o bastão, girando em alta velocidade
ora numa mão, ora na outra, ora em ambas, deflete parte do material, à direita e à
esquerda. a fúria centrífuga cria um perímetro relativamente seguro ao redor do
agente, uma cápsula de movimento constante dentro da qual não cabem ossos
pontiagudos, grandes fragmentos de madeira, pedaços perigosos de metal ou
rocha.
x-8 se lembra de ter visto x-10 usar um bastão de aço-vanádio para rebater
balas de fuzil, durante um exercício na sede. mas x-10 é um ciborgue, alguém que
nem precisa de uma caixa para viajar no tempo – a máquina está construída dentro
dele, como um órgão; um dos rins. comparado a seu “irmão mais novo” (afinal, é
isso que a numeração indica, precedência), x-8, mesmo com todas as vantagens
especiais que fazem dele quase um super-homem, revela-se humano, demasiado
humano.
de repente, um impacto mais forte arranca a barra das mãos do agente, ao
mesmo tempo em que ele ouve um grito, masculino, de dor.
a chuva pútrida pára.
x-8 está enterrado até os tornozelos em lixo. não apenas rejeitos de
cozinha e restos de limpeza, mas restos mortais de vida sapiente, também.
ao menos, é assim que ele interpreta o crânio neandertalesco caído junto à
sua perna direita (não há erro possível: a experiência ensinou x-8 a reconhecer um
neandertal a quilômetros), e a mão, de três dedos mais um óbvio polegar opositor,
derrubado um pouco adiante.
luz vaza pela abertura no teto. embora mantenha o visor baixado, x-8
estima que a iluminação disponível, ali, deve ser equivalente à de um final de
entardecer.
há vozes gemendo ao redor.
a principal fonte de gemidos é uma criatura, parecida com um gorila das
de espinha ereta, caída a alguma distância adiante de x-8. a barra de ferro do
agente está cravada no flanco desse homem-gorila, um pouco abaixo da axila.
provavelmente foi o impacto do corpo em queda que arrancou o bastão das mãos
do homem da intempol.
o visor informa a x-8 que o cara não vai durar muito.
as demais lamentações vêm de seres semelhantes, pelo menos quatro, três
outros gorilóides e o último com uma crista de penas e um bico curto e duro,
como uma cacatua. eles provavelmente tinham estado sobre a pilha de lixo, talvez
orientando quem quer que estivesse controlando os cabos e roldanas. É provável,
portanto, que uma equipe de investigação, ou resgate, já esteja a caminho.
matar um adversário desorientado, ferido e desarmado não é algo que x-8
se orgulhe em fazer, mas o agente também é um homem prático. usando os
shurikens, ele rapidamente despacha os homens-fera caídos, garantindo que todas
as mortes tragam o mínimo possível de dor. o shuriken é uma arma boa para isso.
em seguida, ele se dirige à borda da área plana, aonde tem início o novo
declive. desta vez, o gradiente é bem acentuado, e a rocha parede
excepcionalmente lisa – um escorregador, claro. depois de descer até o patamar, a
caixa (que, x-8 reconhece, não era de fato uma caixa ou contêiner, como havia
imaginado, mas uma espécie plataforma, ou bandeja) seria inclinada,
provavelmente com a retração de parte dos cabos, e o lixo deslizaria até seu
destino final.
o cursor do mapa informa que o objetivo da missão também se encontra lá,
escorregador abaixo.
x-8 está prestes a dizer algo de não muito edificante para si mesmo quando
recebe um alerta de perímetro e, antes que tenha tempo de reagir, sente uma
pressão forte na garganta – uma chave de pescoço aplicada por um braço
poderoso!
o agente tenta se libertar desferindo cotoveladas para trás, mas o atacante
se esquiva e, no instante seguinte, x-8 ouve um estalo forte junto à orelha
esquerda – olhando de esguelha, ele vê o rosto monstruoso de uma cacatua dotada
de tamanho, membros humanos e da capacidade de expressar fúria, também muito
humana, pelo olhar!
um novo estalo, e desta vez x-8 vê que o som é produzido pelo bico do
adversário, que se abre e se fecha em busca do sangue que pulsa por baixo da pele
tenra do pescoço. kakatuwa, x-8 se lembra, é malaio para “tenazes”.
o agente agarra o braço – musculoso, coberto de uma pelagem densa,
branca – com as duas mãos e puxa para a frente, com força, ao mesmo tempo em
que se curva e usa o quadril para dar impulso ao corpo do adversário.
o golpe improvisado, desajeitado, de judô funciona e o homem-pássaro é
jogado por cima do agente e sobre o declive do escorregador. antes mesmo que o
arremesso se complete, porém, o bico se fecha no cotovelo dobrado de x-8 e
ambos, homem e homem-fera, caem, lutando e deslizando, na prancha de rocha
polida que corre rumo à escuridão.
***
anh-ankh-ah acorda com o nascer do dia e se levanta, deixando seu amante
ainda adormecido sobre a relva. eles estão em marte há quase uma semana, e esta
foi a quarta noite em que “dormiram juntos”, na acepção mais geral do termo.
nua, a mulher sorri enquanto faz deslizar a palma da mão direita sobre os
pêlos muito finos, quase invisíveis, do braço esquerdo. ter o próprio corpo de
volta. voltar a sentir com ele. naquela outra mulher, a loura que também era ela –
ananka – as coisas não eram assim. não importa que a mente seja a mesma:
diferentes corpos em diferentes encarnações, reflete anh-ankh-ah, são como
vinhos: cada um com seus pontos fortes e fracos; cada um com suas ênfases e
deleites particulares.
a rainha então se dá conta de como havia sentido falta, não só de ter um
homem deitado junto a si (e não uma máquina como o andróide anendjib, ou um
animal “evoluído”), mas também – e principalmente – do perfume grosseiro
produzido pela mistura do cheiro forte de sêmen e saliva de homem com o suor
almiscarado deste corpo. apenas deste, unicamente deste, o corpo em que ela
havia nascido para sua única vida natural, há tanto milhares de anos, em um outro
planeta de um outro universo.
corpo cujo ressurgimento lhe parece um dos menores mistérios de sua
situação atual.
entre os grandes mistérios a rainha conta, como o maior de todos, a
questão de o que fazer a partir de agora. cesário ainda dorme – ela sabe que o
exauriu – e não seria difícil tomar o pedaço de chifre de moag que ainda é a
principal arma e ferramenta do acampamento improvisado em que vivem e
trespassar-lhe o peito.
há três semanas, ou um mês, este teria sido um curso de ação natural. mas
aqui? agora? quais as chances de uma rainha do egito e de vênus sobreviver,
sozinha, seminua e armada apenas com uma cimitarra improvisada de marfim, nas
savanas marcianas?
anh-ankh-ah caminha em direção à fogueira que arde no centro do
acampamento, e sobre a qual cesário ergueu uma armação de gravetos. sobre os
gravetos há três tiras de couro, todas empapuçadas com um tipo de pasta vegetal
que cesário corvo retirou da casca de uma árvore frondosa, de folhas amarelas.
durante boa parte da noite anterior, após o jantar – à base da carne do mesmo
animal, um micetófago do tamanho de um bezerro mas mais parecido com um
gato de cascos, da onde tinham vindo as tiras – o fogo havia queimado uma esfera
feita de pêlos (os bigodes e a penugem da cauda do animal morto) e algumas das
ervas que brotavam da base dos fungisporos, o que havia produzido uma fumaça
terrível.
– curtume marciano – cesário havia dito, à guisa de explicação. – É
importante manter a flexibilidade.
– para quê?
– para podermos voar!
e ele não explicara mais nada, mas havia guardado a carcaça do bicho
morto debaixo de uma grande pedra. “para apodrecer no calor e podermos usá-la
amanhã à noite”, dissera o brigadeiro.
depois do primeiro dia em marte, e de anh-ankh-ah lhe dizer que a fonte
do campo de estase que dominava quase todo o sistema solar se encontrava no
alto do monte olimpo, cesário havia se retraído – era quase possível visualizá-lo
como um molusco em sua concha.
ele só saíra desse estupor uma vez durante toda a manhã, para perguntar o
que tinha acontecido com a guarnição da marinha etérea que vivia no interior da
montanha, já que todo o olimpo havia sido escavado para servir de base a um
complexo militar.
– granadas noóctonas – dissera a rainha. – amarradas ao corpo de piratas
suicidas, ou contrabandeadas por traidores pagos.
ela havia dito, ainda, que não adiantava nada saber que a fonte do raio
estava no olimpo porque, primeiro, desligar a emissão apenas faria com que
bilhões de cadáveres congelados começassem a apodrecer; segundo porque,
embora eles, anh-ankh-ah e cesário, estivessem em marte (a fauna e a flora
deixava pouca dúvida quanto a isso), nenhum dos dois fazia a menor idéia de
onde, em marte, poderiam estar.
o olimpo poderia estar a norte, a sul, leste ou oeste, a poucos quilômetros
ou em outro hemisfério. talvez nas antípodas.
– conheço as estrelas – tinha dito o brigadeiro, antes de voltar ao estupor.
quatro horas antes do anoitecer ele havia despertado subitamente, como
num estalo. e então entrara num frenesi de atividade: cavara um fosso ao redor da
área onde estavam, usando o pedaço de chifre; limpara o solo ao redor dos
fungisporos mais altos, com a mesma ferramenta; e, sem dizer uma palavra,
afastara-se, para voltar com o sol já posto – carregando um saco improvisado
cheio de pedras de tamanho variados, uma serpente aquática morta e um outro
saco, feito do estômago de um animal morto, cheio de água.
– encontrei um rio aqui perto – explicara.
então havia feito fogo, usando algumas pedras para obter faísca e talos
secos de fungisporo como combustível, e os dois tinham comido um churrasco de
cobra-do-rio. À noite, cesário se pusera a observar as duas pequenas luas e as
estrelas.
no dia seguinte o mesmo roteiro tinha se repetido, com a única diferença
de que cesário havia usado uma das pedras para fazer marcas ao longo do chifre
recurvado, e à noite utilizara o novo “instrumento” em suas observações do céu,
medindo a altura dos diferentes astros assim que surgiam sobre o horizonte.
no terceiro dia ele havia se embrenhado por entre as árvores que cresciam
do outro lado do rio, e levara anh-ankh-ah consigo. no caminho, mostrara a ela os
diversos pontos de referência que permitiriam a qualquer um deles retornar ao
local do acampamento. nesse dia tinham trazido de volta gravetos, galhos,
algumas frutas e caçado o estranho gato de cascos.
À noite, fizeram amor pela primeira vez.
agora, pouco depois do amanhecer do sétimo dia, cesário acorda, vira-se
para a rainha e sorri. a despeito de si mesma, anh-ankh-ah não consegue deixar de
sentir uma certa ternura em relação àquele sorriso. É um sentimento estranho –
tendo vivido por duas vezes em quase seis mil anos; tendo sido, em ambas as
oportunidades, a amante de tiranos sanguinários; tendo desfrutado ao máximo dos
prazeres que nascem dessa condição, a rainha não sabe exatamente como lidar
com o calor suave que emana de todas as paixões, mesmo das mais urgentes,
sentidas por este homem.
por um lado, é como se esse calor tocasse partes da psique da rainha até
então adormecidas; mas há também outras parcelas de seu espírito, as mais
ligadas ao exercício do poder e à infinidade de perversidades, grandes e pequenas,
que o acompanham, que parecem à beira da inanição e que gritam gritos mudos
de desespero.
o sorriso de cesário desaparece rápido, no entanto. depois de tomar dois
goles de água da bacia feita com a calota do crânio de um búfalo tricorne que
tinham encontrado morto, um esqueleto descarnado, em meio à savana
micetocítica, o homem assume uma expressão preocupada. É como se a
lembrança do animal morto lhe trouxesse algo de desagradável à mente.
– eu vou embora hoje – diz ele. – mas acho que você é capaz de se virar...
não?
anh-ankh-ah demora alguns segundos para registrar o significado dessas
palavras.
– você “vai embora”? como assim?
– para o olimpo. acho que já sei a direção geral.
ela dá de ombros:
– certo. então nós vamos embora, é isso?
ele respira fundo. sorri sem sinceridade e diz:
– eu vou. mas você vai ficar bem.
– você vai me deixar sozinha? aqui?
– você sabe se virar. aprendeu bem nos últimos dias. É uma mulher forte,
e...
É como se alguma coisa quente e pesada atingisse anh-ankh-ah em cheio
no peito. não é apenas o medo de ficar sozinha na imensidão da sanava, nem o
desconforto agudo do ser humano privado da companhia de seus semelhantes;
nem mesmo a ferida no ego da sedutora desprezada.
É tudo isso e algo mais. mas, se algo dessa tempestade interior chega à
superfície, trata-se apenas de uma mudança na luz dos olhos – um brilho
subitamente mais frio.
– e posso saber por que você acha que eu não gostaria de ir ao olimpo? –
diz a rainha, dando a entender que, se assim quiser, irá a qualquer lugar. sua voz é
calma e o tom, perfeitamente normal, como o de quem reafirma uma obviedade.
cesário precisa de alguns instantes para reorganizar os pensamentos antes
de retomar a conversa, perguntando:
– você tem algo contra comer carne crua?
a hesitação na resposta é imperceptível:
– não.
– e não tem medo de voar...
– claro que não.
– será uma viagem desconfortável...
– prefiro decidir isso por conta própria.
cesário acha engraçado isso, a “mulher independente” que não quer ser
deixada à própria sorte de jeito nenhum. se ela soubesse o que a espera...
– tudo bem – diz ele, cedendo após de um período curto de silêncio. – mas
depois não diga que não avisei.
***
***
***
o crânio descomunal que estrondeia pela rampa como uma rocha em
avalanche não tem a mandíbula inferior: começa nos dentes incisivos superiores,
cada um do tamanho do antebraço de um homem adulto, expande-se, à direita e à
esquerda, num hemisfério achatado, muito branco, sólido e maciço (a despeito das
suturas do osso), quebrado apenas pelas narinas e órbitas.
x-8 gira o corpo no ar, primeiro jogando os pés para frente, depois rolando
os ombros, não há mira nenhuma, não há cálculo consciente mas apenas a
intuição especial criada e gravada em suas células pela seção x, afiada em uma
dezena de missões e, agora, alimentada pelo fluxo enlouquecedor de dados
despejado pelo visor.
o que era um vôo desajeitado logo se converte numa parábola alongada,
elegante. o impulso inesperado da explosão, adestrado.
o crânio gigante roda e gira sem controle. uma fração de segundo antes do
contato, x-8 estica os braços. a rotação está levando seu porto seguro para longe, e
ele grita no instante exato em que suas mãos se agarram na protuberância
supraorbital – há algo de neandertalesco neste crânio.
a parábola suave se transforma numa curva brusca para baixo: o crânio
gira a arrasta o agente consigo. as botas de x-8 se chocam com as maçãs do
grande rosto descarnado, os joelhos sobem, pés escoiceando, pernas dobram-se,
distendem-se, descem, as costas doem, meio corpo já dentro da órbita, dois terços,
os braços exaustos, músculos imersos no ácido gerado pelo esforço. ombros e
cotovelos espocam, mãos se soltam um quinto de segundo antes de a testa
monstruosa se chocar novamente com o piso rochoso.
x-8 está dentro do crânio.
esticando braços e pernas ele encontra uma posição estável, com as palmas
das mãos e as solas dos pés pressionando a curvatura interna da cavidade
craniana.
descerebrado, pensa o agente, num estalo, sem saber se a referência é feita
a si mesmo ou ao espaço onde se encontra.
antes que tenha tempo de destrinchar as complexidades do próprio senso
de humor, x-8 sente um frio súbito na barriga, um arrepio na espinha – sensação
que sua mente traduz num instante: queda livre.
o crânio deixou a rampa, saltou no vazio.
***
***
ao anoitecer, cesário retira a pedra que escondia a carcaça e as vísceras do
animal morto no dia anterior. ele cambaleia com o cheiro, mas anh-ankh-ah, não;
ela enche os pulmões, e ri.
– silêncio – diz o militar. – quieta. não queremos assustar nosso transporte.
cesário corvo faz o melhor para não deixar transparecer o quanto se sente
perturbado pela nova faceta da mulher, sua ex-refém e, ao menos até a noite
anterior, amante. ela é louca, ele tem certeza. mas é claro que é, diz uma voz
interior. se metade do que ela contou for verdade, a vida ao lado do alienígena,
milhares de anos atrás, a possessão do corpo de um bebê, o reinado como consorte
de um andróide, a súbita troca de corpos (da qual cesário é testemunha) – bem,
quem não estaria?
o pensamento o entristece. ela não é uma mulher totalmente má. se fosse
possível mantê-la equilibrada, talvez...
um grito corta a noite, vindo do alto, e depois outro. o céu é de um azul
escuro e avermelhado, como vinho tinto num copo de turquesa lapidada. a faixa
brilhante da via-láctea é a única fonte de luz, e é o que basta.
– vamos – diz cesário, arrastando a rainha para dentro do fosso escavado
ao redor do acampamento. assim como ela, o militar também está com o corpo
coberto pelo sangue do animal abatido mais cedo. mas o sangue já está seco, e o
fedor das vísceras expostas se sobrepõe ao cheiro mais sutil de ferro oxidado que
ambos exalam.
ao menos, é o que cesário espera.
mais dois gritos vêm do céu, e um terceiro, este quase ao nível do solo.
cesário está com a funda pronta na palma da mão, e anh-ankh-ah, também.
– espere até que haja uns quatro ou cinco – diz o militar, num sussurro.
a rainha assente com a cabeça.
logo, as vampienas descem.
são animais do tamanho de cães adultos, e cães de raças robustas, como
boxers ou são-bernardos. seus focinhos são longos e afilados, cheios de dentes
miúdos, pontiagudos; o pêlo é curto e sujo, ralo em certos lugares. os animais
parecem-se mais com lobos.
e têm asas – grandes asas de morcego, que se dobram sobre as costas até
ficarem quase invisíveis, mas que estendidas chegam a mais de três metros de
envergadura.
as primeiras vampienas a chegar uivam de prazer ao encontrar o banquete
de restos, e seus uivos atraem outras mais.
lentamente, certificando-se de que ainda está contra o vento, cesário se
levanta, fica em pé no fosso, começa a girar a funda.
anh-ankh-ah faz o mesmo.
– na cabeça! – ele grita, ao mesmo tempo em que deixa voar a primeira
pedra.
as vampienas ouvem o grito, e começam a se dispersar um segundo tarde
demais. um projétil atinge uma delas em cheio na cabeça, rachando-lhe o crânio;
outra estende as asas para alçar vôo e é tolhida por uma pedra em alta velocidade
no esterno.
no instante seguinte, o bando já partiu em revoada, ganindo, deixando as
duas colegas, uma morta e uma ferida, para trás.
conforme cesário se aproxima, torna-se evidente que o animal atingido no
peito está sofrendo, e sofrendo muito: sua respiração é ruidosa, agoniada, como se
um pulmão tivesse sido esmagado – o que provavelmente é o caso.
usando o dente de moag, cesário põe um fim à dor da criatura.
em seguida, ao mesmo tempo em que usa uma das mãos para segurar
aberta a asa da vampiena morta, passa a outra por baixo da nuca da criatura e
puxa, com força – até ouvir um estalido úmido.
no instante seguinte, o corpo de lobo rola facilmente para fora das asas,
que se revelam como um animal à parte – algo como uma arraia, talvez, mas uma
arraia dos céus.
privada do organismo simbionte, a criatura-asa treme, e de pontos que
poderiam ser descritos como seus “ombros” e a base de sua “coluna”, distendem-
se línguas brancas, rijas, que primeiro cospem um líquido negro, malcheiroso, e
em seguida iniciam um som desagradável de sucção.
sem demonstrar repugnância, cesário ergue o animal-asa e joga-o por
sobre os ombros nus, veste-o, como se o simbionte fosse a capa de um traje
cerimonial.
as línguas brancas se retraem ao contato da carne alienígena mas, atraídas
pelo cheiro de sangue coagulado, pelo hálito saturado de carne crua, projetam-se
novamente – o líquido negro funciona como um anestésico local poderoso, e a
delicada cirurgia de conexão com nervos, músculos e vasos sangüíneos,
aperfeiçoada pelos milênios de evolução da vida no planeta marte, adapta-se, com
menos problemas do que se poderia imaginar, à fisiologia terrestre.
em menos de duas horas – horas de febre, sede e delírio, horas em que
defecou e urinou sem controle, horas em que seu paladar e outros sentidos foram
alterados, redefinidos, reprogramados – cesário corvo se vê transformado numa
criatura alada.
anh-ankh-ah, seguindo suas instruções, havia passado pelo mesmo
processo. agora, os dois dormem; na manhã seguinte, farão um primeiro vôo de
reconhecimento e, depois, partirão em busca do monte olimpo.
***
o impacto do grande crânio sobre a água ejeta x-8 por uma das órbitas, e
no instante seguinte o agente se vê afundando no líquido gelado, denso como uma
sopa velha, recém-mexida, da cor do pus, e iluminado, aqui e ali, pelo brilho de
vermes fluorescentes que devoram os pedaços mais apetitosos lixo recém-
chegado. x-8 tenta não imaginar qual criatura estaria acima dos tais vermes na
cadeia alimentar dali de dentro do fosso.
o cursor dos óculos do agente começa a piscar feito louco, indicando um
ponto abaixo de onde x-8 está – abaixo, muito abaixo. literalmente, o fundo do
poço.
o grande crânio, veículo abandonado, afunda paralelamente a x-8, o
“rosto” voltado para cima, narinas abertas e olhos vazados soltando enormes
bolhas de ar que logo se desfazem numa chuva invertida de balas de prata. de
quem teria sido aquela cabeça? uma experiência genética frustrada, talvez, como
o homem-tigre guardado no laboratório do jângal.
sorte minha que foi frustrada, pensa o agente.
cerrando bem os lábios para não provar nenhuma gota daquela água
imunda, x-8 projeta-se rumo à massa de lodo e pedaços de osso. o cursor indica
um ponto exato, e chegando ali o agente se põe a escavar com a ponta dos dedos
da mão direita.
de repente, o cursor pára. congela. x-8 tem algo na mão, algo entre a ponta
do indicador e a polpa do polegar.
um dente. um dente do siso, com uma obturação dourada na face lateral
interna. x-8 pressiona o ponto de ouro, que cede um pouco, menos de um
milímetro. logo em seguida, a água começa a ferver.
há poucas coisas realmente mais assustadoras do que ver um campo de
fisiotempo antientrópico em pleno funcionamento, e é por isso que x-8 fecha os
olhos. ele não está preocupado em nadar de volta à superfície, em respirar; não é
necessário. enquanto o campo estiver atuando, nada, nenhum processo orgânico
degenerativo terá como ocorrer. mesmo sendo imune aos efeitos mais radicais das
energias liberadas pelo dente, x-8 sabe que pode contar com esse pequeno
benefício: para seus pulmões, em seu sangue, a partir de agora, o tempo não
passa.
no fosso ao redor, o impacto da bola de fisiotempo negativo é muito mais
dramático. x-8 não vê, mas imagina: células e tecidos coagulando-se a partir dos
restos em suspensão na água, vermes regurgitando e explodindo com o resultado
de semanas, meses e anos de digestão invertida, depósitos de cálcio arrancados da
própria rocha e fluindo rumo ao torvelinho onde começa a tomar forma um
esqueleto, primeiro, e em seguida tendão e músculo.
a água se afasta e reflui, ferve e congela, derrete, desaparece, escoa pelas
fissuras do piso; o lodo e o lixo viram cinzas, pó, vapor, vento, vão-se embora;
bolhas de ar descem, crescem, fundem-se, expandem-se, o ar gira, aquece-se, sobe
e leva o calor para longe.
os blocos de pedra que compõem as paredes do fosso agora estão
perfeitamente polidos, negros como um espelho de vidro vulcânico. premido pelo
silêncio repentino, x-8 abre os olhos e contempla o homem ao seu lado, a figura
rediviva do agente x-10. o ciborgue, reconstituído a partir dos elementos do
passado, respira fundo, pisca duas vezes e diz:
– da próxima vez que algum viado quiser um caralho de uma bosta de uma
âncora praquela merda do cronoscópio, que aqueles cornos arrumem um outro
filho-da-puta pra foder, ou vão todos tomar no cu!
– sempre imaginei que a ressurreição inspirasse sentimentos melhores nas
pessoas...
– porra!
– tá, tá. vinte e dois anos morto. sem falar na tortura que veio antes. mas
esse vocabulário exótico é realmente necessário?
o olhar de x-10 é tão duro que faz x-8 sentir como se um martelo
hidráulico tivesse acabado de lhe cravar dois pregos de dez centímetros através
dos olhos e direto na nuca.
– espero que esses vinte e dois anos tenham servido pra alguma coisa, ao
menos – diz x-10, num murmúrio venenoso.
– É. sim. sem dúvida. com o seu siso dando um ponto focal pro
cronoscópio, m conseguiu uma visão muito boa de todo o plano do faraó, e
achamos todos os pontos críticos aonde atacar. arranjamos para que a oposição
pusesse as mãos numa versão adulterada do circuito de armstead-gonzález e...
– tá. entendi. acho. parece que também vi isso tudo... ah, esquece – x-10
respira fundo mais uma vez e passa a apalpar as roupas, reconstituídas juntamente
com seu corpo. – estou desarmado!
– tome – diz x-8, e lhe entrega os shurikens restantes. – você sabe usar,
imagino. – em seguida, apalpa os bolsos até encontrar dois objetos, um par de
anéis de ouro com duas opalas enormes no engaste, que também entrega ao
colega. – o cronoscópio disse que você vai precisar dessas jóias também. sei lá
por quê. aliás, como estão as coisas na noosfera?
x-10 aceita os anéis e as estrelas de cerâmica em silêncio, sem responder
às perguntas ou à provocação. agora é sua vez de testar os bolsos. a maioria está
vazia, mas num deles há um velho relógio de prata.
maquinalmente, sem prestar muita atenção no que está fazendo, x-8
retoma seu resumo dos eventos até então, e diz ao colega que ele não está mais
nas masmorras de londres, mas da slistrávia. x-10 não revela surpresa.
– para onde, agora? – pergunta, apenas.
x-8 pega a cigarreira de dentro de um bolso secreto especial, até então
lacrado, oculto numa das coxas da calça. abre o estojo, aperta um botão, e o
holograma da fileira de cigarros presa à face interna da tampa desaparece,
revelando uma tela onde se lêem duas linhas de coordenadas, seguidas por uma
descrição dos parâmetros de cada um na nova fase da missão – parâmetros que só
puderam ser definidos graças ao “farol” cronoscópico proporcionado pela
presença de x-10, primeiro vivo, em londres, e depois por seus restos mortais, na
slistrávia, ao longo de mais de uma década, e pelo passeio de x-8 pelas
catacumbas.
– a de cima é a minha. a segunda é o seu “cálculo renal”.
– acho que vou morrer de rir – diz x-10, num tom entediado.
– ah, não outra vez!
a única resposta é outro olhar de rebite. em seguida os dois conversam
mais um pouco, sobre trabalho, e então ambos desaparecem em pleno ar.
***
de repente, a superfície refletora do espelho gira quase 90 graus,
escancarando-se como uma porta! um assovio baixo corta o ar dentro da suíte
real. um dos guardas cai para trás, morto, como se tivesse sido golpeado por um
fantasma.
cravada em seu peito, uma estrela farpada de polímero começa a
vaporizar-se.
É a consciência do impacto – a noção instintiva, vaga, de que alguma
coisa atingiu um dos guardas, matou-o, um reconhecimento súbito que aflora à
mente antes mesmo que o corpo comece a cair – que faz dananko xiv saltar, um
grito contido na garganta, sobre o segundo vigia. um reflexo súbito, provocado
pelo movimento brusco do espelho, havia chamado a atenção deste canzarromem,
e por uma fração de segundo o rifle havia deixado de apontar para a família real
de slistrávia. o salto do príncipe se encaixa nessa fagulha de tempo, e o guarda é
tomado de surpresa.
surpresa, no entanto, não é o suficiente. o golpe que dananko desfere no
focinho da criatura sai desajeitado, sem efeito, e a disputa que se segue, pela
posse do rifle, mostra-se francamente desigual.
num primeiro momento a arma parece ceder sem problemas ao puxão
firme de dananko, mas no instante seguinte as patas do homem-cão cravam-se
com firmeza ao redor do cano e da culatra; dananko controla uma parte do cano
mais perto da mira, e o gatilho.
o esforço faz o príncipe sentir como se tivessem injetado vidro moído e
ácido em seus braços, lâminas microscópicas dilacerando músculo e tendão – ele
visualiza as fibras dos bíceps rebentando uma a uma, como cordas de um piano. a
sensação, em ambos os cotovelos, é de que a junta está sendo arrancada.
aos poucos, a tensão começa a ceder – o esforço já não é tanto, a arma se
aproxima, um milímetro, um centímetro, depois outro. e outro. um formigamento,
acompanhado por uma onda de calor, percorre-lhe os braços, sinal de que os
músculos reconhecem e saúdam o progressivo relaxamento.
no entanto, as patas do canzarromem continuam firmemente crispadas ao
redor do metal e da coronha. e, conforme a arma se aproxima, junto vem a cabeça
da criatura: a mandíbula salivante, entreaberta, os dentes afiados, enfileirados
numa paródia de sorriso triunfante.
um rastro de eletricidade fria percorre a espinha de dananko e o príncipe é
atingido pela consciência aguda, pela sensação inescapável, frenética, do sangue
pulsando nos grandes vasos do próprio pescoço – o pescoço nu, desprotegido, do
qual a bocarra se aproxima cada vez mais.
armadilha!
o corpo do adversário tensiona-se ao máximo, e em seguida relaxa por
completo, o grande focinho mergulhando na direção da garganta de dananko. mas
a boca, escancarada, não se fecha; e o único ferimento que o príncipe sofre é um
arranhão provocado pelo dente canino que lhe arranha a curva da mandíbula, um
pouco abaixo da orelha esquerda.
cravada na base da coluna cervical do canzarromem, uma estrela de
polímero começa a se desmanchar ao sabor da brisa fresca que entra pela
passagem secreta do espelho.
***
a viagem rumo ao olimpo, segundo a estimativa de cesário corvo, deverá
durar duas semanas. nesse período, o oficial da marinha etérea vive uma situação
inusitada (como se voar com as asas de um simbionte marciano já não fosse
inusitado o bastante) de dissociação de personalidade.
psicologicamente, ele sabe que os novos hábitos alimentares, nascidos da
simbiose com as asas, devem ser, são, repugnantes; mas a interface nervosa altera
paladar e olfato. agora, a matéria em decomposição lhe parece deliciosa.
assim, ele sabe que devia detestar o que, na verdade, adora. ocorre-lhe que
tanto mártires religiosos quanto estripadores psicopatas talvez enfrentem o mesmo
problema.
cesário e anh-ankh-ah avistam o monte poucos dias depois do início da
viagem. mas, quando se trata da maior montanha do sistema solar, avistá-la não
significa, necessariamente, estar perto.
É uma visão majestosa: se os dois não estivessem voando nem muito
baixo, a ponto de se verem entre as copas das árvores, e nem alto demais, o
olimpo torna-se, pura e simplesmente, todo o horizonte. há momentos em que
marte parece um planeta côncavo, com a superfície adiante – o gigantesco
paredão vulcânico – a dobrar-se para cima até o infinito.
no oitavo dia de viagem, eles são perseguidos, por algumas horas, por um
trio de metacondores. vampienas não são parte da dieta regular desses grandes
predadores alados mas, assim como os tubarões dos mares da terra, os rapinantes
marcianos simplesmente não sabem disso: apenas perseguem tudo o que se move
pelo ar, indiscriminadamente.
milênios de evolução haviam gravado uma série de manobras evasivas no
sistema nervoso autônomo dos simbiontes, e cesário e anh-ankh-ah logo se vêem
incapazes de controlar qualquer aspecto do vôo, com exceção da direção geral de
deslocamento; piruetas, loopings, mergulhos e passagens rasantes ocorrem sem
nenhum controle consciente por parte dos dois.
após menos de meia hora de caçada, os três metacondores, confusos e
irritados, decidem partir em busca de presa mais fácil.
terminada a fuga, o casal de humanos se vê tomado por uma euforia
inexplicável. cesário, ao menos, esperava uma enxaqueca, causada pelo fato de o
sangue em seu corpo ter sido jogado da cabeça para os pés e de volta pelo menos
uma dúzia de vezes, graças à força centrífuga gerada pelas manobras das asas;
estômago embrulhado e vômito também não o teriam surpreendido.
nada.
e, pelo sorriso que vê no rosto da rainha, anh-ankh-ah também sente o
mesmo prazer inexplicável. aliás, não só um prazer, mas uma estranha excitação.
estranha? não é verdade. uma excitação que ambos conheciam muito bem. tanto
que, menos de um minuto depois, já estão voando bem perto um do outro.
por alguns segundos, cesário imagina se essa atração também não seria um
efeito orquestrado pelas asas. parece-lhe que, biologicamente, faz sentido o
simbionte induzir os hospedeiros a se reproduzirem após uma situação de perigo –
uma forma de tentar garantir que, se o casal não escapar da próxima vez, haverá
filhotes para dar continuidade à simbiose.
se a idéia de manipulação dos sentimentos em escala hormonal o
incomoda, todo pensamento desagradável – a bem dizer, todo e qualquer
pensamento – desaparece assim que a boca de ank-ankh-ah, molhada a despeito
do vento seco e intenso, abre-se sobre a sua.
***
x-8 caminha, solitário, pelo grande salão do castelo. vazio, o lugar parece a
tumba de um gigante, e funciona como uma enorme caverna de eco.
mas ele sabe que o lugar não está vazio há muito tempo: há, na atmosfera,
aquela carga familiar de ausências recentes. o visor confirma a impressão
subjetiva, ao detectar um rastro infravermelho no ar e na rocha ao redor; o salão
esteve abarrotado de – pessoas? – há menos de trinta segundos.
o agente também sente o arrepio na nuca, o formigamento no palato que,
para o viajante experimentado, indicam deslocamento temporal recente: a
taquionicidade estática. x-8 materializou-se ali, vindo de uma década no passado,
há poucos instantes, mas a assinatura energética que seus instintos detectam não é
a sua. há algo muito, inacreditavelmente, maior sufocando por completo o rápido
decaimento dos poucos táquions que o homem da intempol arrastou consigo.
refinando a leitura do visor para o espectro das partículas virtuais pós-
metafísicas, x-8 descobre um verdadeiro tornado de parsônios, já em via de
dissipar-se. o parsônio é o táquion mais raro, envolvido no deslocamento entre
realidades paralelas.
o agente da intempol sorri. as coordenadas estavam certas: anendjib e todo
o exército de homens-fera havia acabado de partir. e o equipamento indispensável
para manter o canal entre as realidades aberto tinha ficado ali, no salão.
desprotegido.
seguindo as indicações do visor, x-8 cruza as sombras dos grandes arcos, a
caminho do painel de controle principal. ele ainda se lembra do final da conversa
com x-10, dez anos, quinze segundos atrás. algo que lhe deu calafrios.
tinha sido pouco antes de ambos ativarem seus respectivos equipamentos
de viagem no tempo – x-8, a cigarreira, x-10, o rim biônico que mantivera sua
verdadeira função oculta até durante dissecação ordenada pelo faraó.
– você já ouviu falar em “eternidade teológica”? – perguntara o ciborgue,
de repente.
– acho que não...
– É a “eternidade” como um dos atributos de deus. significa, aspas, “a
posse simultânea de todos os seus instantes”, fecha aspas. É a capacidade de estar
em todos os momentos ao mesmo tempo.
– onipresença cronológica, digamos.
– isso.
silêncio.
– e daí? – perguntara x-8.
– bom... eu morri.
– sei.
– o que significa que minha alma esteve na noosfera.
– É. faz sentido.
– e quando o campo antientrópico do dente foi ativado, eu voltei.
– exatamente.
– e o campo funciona... ele arrastou partes de mim, átomos e moléculas e o
resto, de diversos pontos do continuum. e a consciência, ou fragmentos dela, da
noosfera. o fato é que tenho uma lembrança... uma sensação... no instante de
ativação do dente, eu fui eterno. teologicamente eterno.
os dois haviam ficado quietos, então. o que o ciborgue dizia era difícil de
entender, mas até onde x-8 conseguia ir, a coisa, fantástica como era, não deixava
de fazer sentido. se havia retalhos de x-10 espalhados por toda a linha temporal, e
se todos tinham sido reunidos num único ponto, num único momento... só era
difícil imaginar o efeito que aquele segundo de “eternidade” teria causado na
cabeça do colega.
as lembranças de x-8 são interrompidas por um som grave, áspero, vindo
da escuridão além do arco em ogiva para onde o agente se dirige. É algo parecido
com um trovão distante, mas há também uma qualidade animal no ruído – como
um rugido.
o visor se ajusta rapidamente, passando da visão submicroscópica de
partículas pós-metafísicas para a visão noturna simples. x-8 mal tem tempo de
saltar para o lado antes que as pedras de granito – do piso onde estava – sejam
pulverizadas num estrondo!
como se o mundo estivesse em câmera lenta, o agente vira o rosto para
direita, e contempla o ponto de impacto: há uma clava ali – algo feito de pelo
menos três carvalhos adultos, inteiros, amarrados juntos. uma das extremidades da
arma está, claro, em meio à nuvem de rocha pulverizada e cacos de granito
produzida pelo impacto.
a outra é segura por uma mão colossal – os dedos são quase do tamanho de
homens. erguendo os olhos, x-8 permite que o visor lhe revele a cabeça da
criatura. É um rosto humano, gigantesco, sem dúvida, com dois olhos, nariz, boca.
o que há de estranho a respeito dos olhos?
ah, claro: a protuberância supraorbital.
depois de disparar uns três ou quatro chutes mentais na própria bunda por
ter achado que o equipamento iria estar desprotegido, x-8 olha para os dois olhos
castanhos, enormes, e diz:
– eu e seu avô já viajamos bastante juntos, sabia?
a resposta é um rugido ensurdecedor.
***
um tremor perpassa o aposento, como se uma parte distante do castelo
tivesse sido atingida por um obus. ao mesmo tempo, x-10 deixa seu refúgio atrás
do espelho.
a princesa sílvia está ajoelhada ao lado do marido. lágrimas escorrem pelo
rosto da mulher, o peito convulsionado por soluços. o príncipe, no entanto, não
parece estar em choque, e nem muito ferido. se sua mente tem alguma dificuldade
em ligar a figura de chapéu e sobretudo que emerge da passagem secreta com a
morte dos dois canzarromens, ou alguma dúvida quanto às intenções amistosas do
novo visitante, ambas as questões se resolvem, em seu íntimo, em menos de um
segundo; há uma antiga memória, uma intuição de camaradagem, de inimizades e
ódios comuns, que lhe diz para confiar neste homem.
o príncipe se ergue rapidamente para saudar seu salvador.
– obrigado, obrigado, senhor!
– não há de quê – diz x-10, com um sorriso que parece sincero, a despeito
do olhar distante. ele aceita a mão estendida do monarca, e o aperto que oferece,
apesar de seco, é quente, energético. – minha satisfação em dispor dessas
aberrações é maior do que sua alteza poderia imaginar, acredite.
a princesa sílvia, já de pé, ignorando a profusão de lágrimas que lhe
escorre pela face, volta-se para o ciborgue. ela só consegue balbuciar:
– quem são... o-que-são...
x-10 estende as duas mãos diante de si, com as palmas voltadas para
dentro, de forma que as pedras de seus dois anéis, duas opalas de fogo, estejam
voltadas para o casal real. os olhos do agente brilham como fornalhas de um fogo
frio, sufocante. por baixo das unhas dos dedos médios de ambas as mãos, as
agulhas de narcótico preparam-se para deixar a bainha.
com uma voz profunda, paternal, uma voz que é a voz de um deus bom e
gentil, mas firme, x-10 diz:
– relaxem... eu vou explicar tudo, mas primeiro é preciso que relaxem...
vocês passaram por muita, muita coisa... agora é melhor relaxar... príncipe
dananko... princesa sílvia... ouvem minha voz? então... relaxem...
***
os olhos de cesário corvo passam a lhe pregar peças.
ou, ao menos, é isso que ele imagina quando, primeiro, uma figura, uma
figura humana (ou vagamente humana ou, como a frase afinal lhe parece melhor,
de contornos humanos) surge do nada, em pleno ar, cai por alguns metros à sua
direita, desaparece. como se nunca tivesse existido.
depois, anh-ankh-ah grita, dá uma pirueta no ar, as asas batendo num ritmo
desesperado. cesário vira-se para observá-la: há uma espécie de vulto, uma
mancha escura que surge e desaparece ao redor da mulher, acima, abaixo, dos
lados e em todas as direções, sempre dando a impressão de estar caindo, mas sem
nunca cair, de fato; a sombra permanece apenas uma fração ínfima de segundo em
cada posição, e mesmo sem ser invisível é quase transparente em sua velocidade.
o fragmento de imagem que esse espectro deixa na retina também é de um
contorno humano.
as correntes de ar são estranhas – pequenas explosões quase inaudíveis,
deslocamentos súbitos, golpes inesperados de vento. como se dezenas de
pequenos vácuos surgissem e fossem preenchidos a cada instante.
sentindo um nó na garganta, um senso de catástrofe a apreensão, um medo
surdo a que já se acreditava imune, cesário desvia seu vôo para aproximar-se,
lentamente, cauteloso, da rainha. o dente de moag está firme e pronto em sua mão,
mas ele se concentra em transmitir alguma naturalidade à maneira com que
transporta a arma, a fazer o objeto parte da paisagem. nada hostil.
alerta, mas não hostil.
cesário sente um deslocamento de ar sobre si, vira-se, não há mais nada
lá. mentira: há algo. um odor. cheiro de réptil.
a lembrança da captura pelos lagartomens, da oubliette venusiana, quase
lança corvo num frenesi, mas ele se controla. respira fundo uma, duas, tantas
vezes até que a batida forte do coração não lhe pareça mais que uma massagem
suave pelo lado de dentro das costelas.
anh-ankh-ah grita!
há um deslocamento brusco de ar, um tremor maior na atmosfera.
cesário olha, e ela não está mais lá. assim. a mulher alada, que voava a
menos de dois metros de seu flanco direito, não está mais lá.
um rosto surge diante da face de cesário. um rosto negro, de boca fechada,
lábios crispados, olhos cinzentos. antes mesmo que a presa do moag possa atacar,
a face desaparece, e a ponta de marfim marciano corta um redemoinho de vento.
e então um peso se abate sobre cesário, tolhe-lhe as asas, o brigadeiro
perde sustentação, gira, cai e continua a cair, a atmosfera é um fosso no qual
cesário corvo se vê arremessado, para onde é arrastado pelo peso que lhe
imobiliza as asas e se recusa a deixá-lo.
no décimo de segundo seguinte, ele se vê deitado num corredor metálico,
imobilizado de encontro ao solo – num golpe de jujutsu? – por um negro de olhos
cinzentos, quase azuis, e praticamente nu. seu captor usa apenas um pano
vermelho amarrado ao redor da cintura, uma faixa espessa de couro cruzada sobre
o músculo peitoral esquerdo, braçadeiras e sandálias do mesmo material. há uma
marca – uma cicatriz de fogo – em relevo no peitoral direito, contraído, nu. um
desenho abstrato, feito de duas curvas senóides, cruzadas e levemente estilizadas,
dando a impressão de um par de tenazes entreabertas, ou algemas.
mesmo depois de décadas, cesário corvo ainda é capaz de reconhecer o
ideograma: a marca do pirata, capturado e punido.
um pouco adiante, anh-ankh-ah sofria a mesma indignidade, só que nas
mãos de um lagartomem – também com a marca do pirata estampada no peito nu.
o corredor em que se encontram é alto e largo, e a curva do teto dá a
impressão de suportar grandes pressões. todas as superfícies, acima, aos lados e
abaixo, são de um tom metálico fosco, como aço escovado ou prata envelhecida.
– bem-vindos ao complexo olimpo – diz uma voz de mulher, amplificada,
que parece emanar das próprias paredes. – tarik, rydl, podem deixá-los. eles são
nossos convidados. talvez venham a ser nossos aliados.
o pirata humano e o lagartomem se afastam, em silêncio, dos dois
prisioneiros, que se erguem devagar, flexionando os músculos (e,
inconscientemente, as asas) com cuidado. anh-ankh-ah parece chocada, e cesário
imagina que a expressão em seu próprio rosto não seja muito melhor. porque
ambos haviam reconhecido a voz...
a voz! na prisão, cesário corvo jamais havia deixado de ouvi-la, ressoando
na memória, uma música ao fundo de sua mente. e agora! aqui! seria ela? a
menina – não, não mais: a mulher – seria...
– melissa? melissa mcmurdock, é você?
***
a clava do gigante desce mais uma vez, e outra, sempre arrancando
estilhaços de rocha do piso. x-8 salta e rodopia, algumas vezes cavalgando as
ondas de choque e, em outras, simplesmente sendo arrastado por elas.
farpas de granito movem-se em redemoinhos ao seu redor; o dorso de
ambas as mãos e a testa do agente estão cobertos de pequenos cortes, incisões
ínfimas de ardem como picadas de abelha.
o monstro é lento. relativamente, ao menos. x-8 acredita que, em termos de
resistência física e velocidade, poderia continuar a se esquivar por horas, ainda.
mas...
primeiro, esse é o tipo de estratégia que não leva a lugar nenhum. segundo,
há alguns instantes o visor começou a lhe mostrar o relógio de tempo de missão –
a escala abstrata que permite aos agentes, mesmo atuando em épocas ou
realidades diferentes, “sincronizar” seus esforços. as instruções de x-8 exigem que
o equipamento de viagem interdimensional do castelo seja destruído num horário
tm específico, e o tempo começa a se esgotar.
terceiro, não vai demorar muito para que os estilhaços reduzam seu corpo
a frangalhos.
pensando em tudo isso, o agente retira o que resta de sua jaqueta e a enrola
no antebraço direito.
a clava desce mais uma vez, e mais uma vez x-8 salta uma fração de
segundo antes do impacto com o piso – só que desta vez ele não pula parta trás ou
parta os lados, mas diretamente para cima. a crista da onde de choque o atinge na
sola dos pés, arremessando-o ainda mais para cima, e ele dobra o corpo,
recebendo a lufada seguinte em cheio no peito. esse novo impulso faz com que
seu corpo comece a girar e ele é jogado não para longe do gigante, mas em sua
direção!
x-8 cai agachado, apoiado na ponta dos pés e dos dedos, sobre a base da
clava do monstro, um pouco acima da empunhadura. a criatura urra com raiva e
frustração, e para o agente a dor causada pela vibração do grito nos tímpanos é
ainda pior que as lascas de pedra cravadas pelo corpo.
o grande neandertal sente a diferença de peso na clava e começa a agitá-la
no ar, com força e cada vez mais rápido, na tentativa de “desgrudar” o passageiro
indesejável. x-8 crava os dedos na madeira até que começa a sangrar por debaixo
das unhas, contrai os músculos ao máximo – e não solta.
de repente, a clava pára. involuntariamente, x-8 prende a respiração. tudo
depende do que a criatura fará agora. se o monstro resolver apenas usar o polegar
da mão esquerda para esmagar o agente ali onde está, como um carrapato, tudo foi
inútil. mas, se por outro lado...
a clava volta a se deslocar, mas de forma mais lenta, cuidadosa. x-8
também se move, circulando e escalando a arma, como faria num desfiladeiro
perfeitamente horizontal.
a clava pára mais uma vez, quase ao mesmo tempo em que x-8 chega ao
topo. quase todos os galhos dos carvalhos foram pulverizados pelos sucessivos
impactos, mas ainda há o suficiente para o agente se firmar, enroscando pernas e
cotovelos nos tocos que lhe parecem mais resistentes.
rezando aos deuses de todas as eras por um pouco mais de firmeza nas
mãos, x-8 puxa alguns fios do rasgo onde, dez anos ou uma hora atrás, tinha
estado a manga da jaqueta. alguns dos fios que saem são prateados; outros,
transparentes.
com uma destreza surpreendente, ignorando o suor e o sangue que lhe
escorrem nos olhos, x-8 faz um dos fios prateados varar e trespassar um dos fios
transparentes. o resultado imediato é um breve pulso de luz branca.
a clava agora desce, devagar. o agente engole em seco e se esforça para
não começar a tremer, nem a chorar. agora, que está tudo dando certo. curioso, o
monstro é. todos os hominídeos são. É isso aí.
o neandertal gigante quer ver o intruso. quer olhar para a criaturazinha
impertinente que pegou carona em sua clava. a arma desce até que x-8 se vê no
mesmo nível dos olhos do monstro. nem mesmo a sombra da projeção
supraorbirtal é capaz de mantê-los no escuro, agora. um deles, o esquerdo, está
comprimido, as dobras de pele no canto parecem trincheiras. tudo o que se vê da
pupila é um brilho frio, cruel, com uma insinuação rubra de fúria mal contida –
este, x-8 conclui, é o olho de odiar.
o olho direito, em contraste, está arregalado. a íris, castanho-esverdeada, é
perfeitamente visível, assim como o branco ao redor e a pupila negra ao centro. a
x-8, essa pupila parece querer engoli-lo. este, pensa o agente, é o olho de
perguntar.
calma, garoto. a resposta vem aí.
e a boca? a boca, como a de todo primata, macaco ou hominídeo curioso,
está aberta. não escancarada, mas aberta. É suficiente.
com cuidado, mas também com força, x-8 arremessa a jaqueta, dez
segundos antes do forro explosivo finalmente ir pelos ares, por entre os lábios e os
dentes do grande neandertal.
***
o chão da suíte ainda treme diversas vezes depois de a família real de
slistrávia ter mergulhado no sono hipnótico induzido pelas duas opalas psiônicas e
pelas drogas. os tremores vêm em intervalos que, se não são exatamente
regulares, ainda assim têm algo de previsível.
de repente, os abalos cessam por completo. quando o choque seguinte não
vem no momento esperado, x-10 sente uma leve irritação, a reação instintiva do
homem de hábitos regulares diante de uma quebra na rotina.
ao tomar consciência do fato, x-10 sorri.
o bebê ananka, em seu berço, chora. x-10 não pôde fazer nada para ajudá-
la: as drogas são muito fortes para um recém-nascido.
e então o bebê começa a berrar. até então, a menina estivera chorando
numa espécie de melodia triste, mas contida; agora, grita no mais completo
desespero.
por quê?
a resposta vem logo em seguida, uma explosão colossal seguida por um
abalo que faz o agente pensar se o castelo não foi atingido por um míssil scud.
mas os mísseis scud ainda não foram inventados!
x-10 retira o relógio do bolso interno da capa, abre a tampa do estojo – de
prata – e olha para o misterioso quarto ponteiro, o que marca os segundos tm. ele
acaba de cruzar o doze.
então, x-8 conseguiu. no último segundo. como sempre.
embora x-10 não saiba, nesse mesmo instante tm, a um universo dali,
cesário corvo usa o cinto de teletransporte desenvolvido pelo departamento s para
se projetar de um vênus alternativo para um marte também alternativo.
uma infinidade de ondas, todas em interferência construtiva, todas em
ressonância, perpassam o multiverso. uma porta é trancada, e a chave se perde
para sempre.
x-10 tem um estranho déjà-vu de seu momento de eternidade.
e a porta do quarto se escancara com um estrondo.
– puta que pariu!
a figura para no batente é um homem. alto, de corpo atlético. nu, exceto
pelos punhos da camisa e um par de botas. e está todo pintado de vermelho: na
verdade, coberto de sangue.
– olá, x-8! parece que deu tudo certo. quer tomar um banho?
– eu disse: puta que pariu!
– e eu ouvi.
– e você quer que eu tome um banho?!
– compreendo que você não tenha uma escolha objetiva entre estar ou não
estar puto da vida. mas você tem uma escolha objetiva entre feder ou não feder.
– e se eu quiser ficar fedido? fedidamente fedido? fedido pelo resto da
bosta da vida fodida?
– isso vai incomodar o bebê.
É só então que x-8 nota o berço, e a criança que chora – o bebê não tem
mais fôlego para gritar – lá dentro.
– ananka?
x-10 confirma:
– ananka.
x-8 respira fundo e diz:
– tá. vou tomar a porra do banho.
***
um painel, até então indistinguível do restante da parede de aço escovado
do corredor, afunda alguns milímetros em sua moldura e em seguida desliza para
a esquerda até sumir por baixo do revestimento circundante. o movimento revela
uma superfície cristalina, plana, na qual uma imagem começa a tomar forma.
primeiro, o fundo: líquido, translúcido. duas fileiras de bolhas sobem, sem
muita pressa, à direita e à esquerda. um aquário. em seguida, o objeto que deve
ser o foco principal de atenção desta imagem: um emaranhado de fios dourados e
tubos transparentes, armado ao redor de um pedaço de carne.
um cérebro humano.
– olá, cesário – diz a voz que ressoa pelo corredor. – que bom que você se
lembra de mim.
cada vez que um som é emitido pelos alto-falantes, um dos tubos presos ao
cérebro sofre uma pequena dilatação, voltando a contrair-se na pausa entre a
sílaba que termina e a próxima.
– melissa? isso é você?
– isso? cesário, na última vez em que nos encontramos você foi mais
cortês. não vá dizer que só estava interessado em meu corpo...
uma gargalhada explode pelas paredes. o brigadeiro ouve com atenção,
esperando pelo sinal de mania, de loucura, mas não detecta nada.
– mas vocês homens sempre envelhecem melhor. para a mulher, é ninfeta
num dia, bruxa velha no outro... muito, muito injusto – o tubo continua a pulsar
no ritmo exato das palavras. – quanto tempo se passou para você, por falar nisso?
– dez anos.
– para mim foi quase um século! bem, menos. uns setenta anos. sessenta.
ainda assim... meu pai morreu. você devia ter ficado para se explicar, sabe? isso
teria evitado muita confusão.
cesário não se contém mais:
– deus, menina, o que aconteceu com você?
– “menina”? que simpático! obrigada. quanto à sua pergunta... simples, na
verdade. há uns vinte anos, mais ou menos, anendjib concluiu que o sistema de
controle do olimpo precisava de uma cpu de alto nível para controlar todas as
funções desta base. porque é aqui que o grande plano segue adiante, certo? aquele
playground em vênus é só isso mesmo, um playground. e naquela época eu já
havia... como é mesmo que se diz...? “sobrevivido à minha utilidade...”
– então ele resolveu usar os circuitos do seu cérebro? mas você está...
consciente...
– ah. uma coisa pela qual, acredito, você é responsável.
– eu?
– a história, querido cesário. o universo. nenhum deles é mais o que
costumava ser antes de você chegar a marte. ou vai me dizer que não percebeu? o
“novo corpo” desta mulher ao seu lado, que deveria ser minha neta, mas não é. ou
a facilidade com que tarik e rydl usaram o teletransporte para capturar vocês dois.
teletransporte de alta precisão!
cesário fala como alguém tentando descrever uma imagem mal-e-mal
divisada, os fragmentos de uma grande estátua vistos meio a uma densa neblina:
– eu senti... algo. e notei a mudança em anh-ankh-ah... ela própria notou...
– este é o meu corpo – diz a rainha. – como era. como foi. como sempre
deveria ter sido. e, sim... você é minha avó. e também não é. você era a avó
daquele outro corpo...
– bem-vindos, crianças! – diz melissa, com um riso que soa como o
choque suave de taças de cristal. – bem-vindos a um mundo reformado.
reformado, devo dizer, por uma peça de equipamento que vocês trouxeram até
nós!
cesário se lembra do instante de desorientação que sentiu ao se
materializar em marte, tantos dias atrás. lembra-se da surpresa ao constatar que
não havia se projetado entre as dimensões, mas entre os planetas. e, claro, há o
novo corpo de anh-ankh-ah...
– meu cinto interdimensional?
– uma armadilha... ao ativá-lo, você apenas fechou uma cadeia cósmica de
eventos, encenados aqui e em outras partes do multiverso. uma corrente que
lacrou esta realidade para todo o sempre. aliás, a mudança foi retroativa: esta
realidade sempre esteve lacrada. ninguém jamais entrou, e nem saiu, daqui. É por
isso que o corpo de anh-ankh-ah não é o corpo de ananka: ananka jamais existiu
entre nós. como poderia?
– mas eu me lembro de minhas viagens! – aturdido, cesário nem se dá
conta do fato de que está gritando. – visitei outras realidades!
– você estava no foco da reconstrução. É natural que se lembre.
– e você melissa? como você se lembra? e, se este universo sempre esteve
lacrado, da onde vieram você, anendjib, os homens-fera?
– eu não estava no foco, mas perto dele. todo este planeta estava, por falar
nisso. e não é só: há sondas e sensores aos quais estou ligada, e satélites. a
estrutura da realidade não pode ser reescrita sem que traços disso fiquem
registrados nos níveis cósmico e subatômico. muito do que lhe contei até agora, e
boa parte de minhas “memórias” sobre nosso “encontro” na outra terra, deduzi a
partir dessas observações.
– anendjib.
– ah, sim! quanto a anendjib e os homens-fera que um dia foram meus,
tenho bancos de memória aqui sobre uma expedição arqueológica liderada por
malcolm mcmurdock às pirâmides de vênus, e que acabaram...
– pirâmides? nunca houve pirâmides em vênus!
– nesta versão remasterizada do universo, sempre houve pirâmides em
vênus. os deuses do egito vieram de lá. os homens-fera não são produtos de
manipulação genética, mas descendentes da raça divina. meu pai não era um
biólogo psicopata, mas um arqueólogo... psicopata, temo dizer.
– você não parece muito abalada com isso.
– setenta anos há mais e um corpo a menos ajudam a pôr as coisas em
perspectiva. onde eu estava? ah, sim: a marinha etérea enviou você a vênus para
investigar as atividades de meu pai, que havia acabado de libertar anendjib, aliás
nephren-ka, de um fosso de animação suspensa, juntamente com anh-ankh-ah.
você me seduziu, descobriu que o doutor mcmurdock e o casal de múmias
pretendiam dominar o império juntos; matou meu pai, mas caiu no fosso e ficou
congelado até...
– não me lembro de nada disso! nunca seduzi você!
– minhas lembranças são diferentes... – haveria um certo desapontamento
na voz? – as lembranças que realmente tenho, não as que reconstituí a partir da
oscilação da radiação de fundo. você foi bom. mesmo. muito bom.
depois de quase meio minuto de silêncio, cesário volta à carga:
– agora, espere um pouco. e como...
– não estou dizendo que não haja paradoxos – diz melissa, com o tom de
voz de quem põe ponto final na discussão. – eles abundam, mesmo no nível
subatômico. mas há outros aspectos mais urgentes.
– quais?
– o que você faria se eu lhe dissesse que é possível trazer toda a população
do sistema solar, do império, de volta à vida?
***
x-8 acaba de contar a x-10 como jogou a jaqueta, pronta para explodir, na
boca do grande monstro.
– a cabeça do desgraçado estourou feito um chafariz, ele caiu de costas e
esmagou os computadores que a chefia me mandou destruir. strike! mas, sabe...
– sim?
os dois estão nas mesinhas de calçada de um bistrô, com vista para a torre
eiffel. É um dia lindo, de céu azul, e o ar está seco na medida certa, o suficiente
para manter a garganta receptiva para o melhor vinho nouveau da safra do ano
anterior. a temperatura também é perfeita, nem frio e nem quente demais.
dentro de vinte e dois segundos, uma menina de quinze anos que um dia
vai crescer para virar brigitte bardot vai passar por ali e sorrir um sorriso lindo nas
direção deles.
este é um fcp, ou fragmento de continuum perfeito. há um catálogo deles
na empresa – nenhum jamais dura mais do que uma hora e meia (há os que têm
meros dez segundos), mas cada um é uma jóia a ser visitada por agentes de folga.
cada um dos fragmentos de tempo e espaço em que viver vale, objetivamente, a
pena.
outros agentes da intempol acham estranho que x-8 e x-10, implicantes
como são um com o outro, escolham gozar de seus fcps juntos. mas, como x-8 já
disse, “o fato de eu achar o cara um puta mala não impede que eu goste dele”.
– se o objetivo da missão era destruir aquela máquina, naquele instante,
por que a chefia não me mandou direto pra lá? pra que o roteiro todo?
– você tinha que ativar o meu dente antientrópico, não se esqueça.
– mesmo assim...
– olha – x-10 respira fundo, estala a língua no céu da boca. solta o ar. –
lembra o que eu contei, sobre o instante de eternidade, logo que meu corpo se
reconstituiu?
– sua “onipresença no tempo”?
– isso. sabe, é uma sensação danada de esquisita... saber exatamente tudo o
que vai acontecer, mas não adianta nada, porque tudo está acontecendo e, pior, já
aconteceu. o instante da prevenção é o mesmo segundo da consumação, um
negócio de louco. isso me fez pensar em deus, se é que o cara realmente existe.
digo, como é que ele pode fazer alguma coisa se, de onde ele está, sempre é tarde
demais? e o mesmo vale pra gente, de certa forma. entende?
– quase. acho.
– pense assim: o zé mané da esquina, para ele o tempo é uma linha reta,
ligando o ponto a, o passado, ao ponto b, o futuro. É uma linha reta, um corredor
estreito: ele não tem espaço para se virar. ele não consegue nem andar de costas.
no que lhe diz respeito, é como se a cada passo um pedaço do teto caísse,
obstruindo o trecho do corredor que ficou para trás. e o corredor adiante está
sempre escuro, as luzes só se acendem quando o nosso mané chega lá. deste
ponto-de-vista, o tempo é totalmente determinístico. tudo bem?
x-8 assente com a cabeça.
– agora, veja o nosso ponto-de-vista. o ponto-de-vista da intempol. nós não
estamos mais na reta. nós estamos no plano. conseguimos ter acesso a todas as
retas, a qualquer ponto de qualquer uma delas, podemos ver quais são paralelas,
quais se cruzam. podemos apagá-las. podemos criar novas. como estamos uma
dimensão acima do zezinho da padaria, ficamos com a impressão de que o tempo,
longe de ser totalmente determinístico, é infinitamente maleável. só que...
– só que?
– quem disse que o plano é a última dimensão que há? que não existe um
terceiro ponto-de-vista, ainda mais privilegiado, da onde fica claro que o
determinismo, ou um certo determinismo, ainda faz parte do jogo?
– o cronoscópio?
– pode apostar, o cronoscópio. ou melhor: o cronoscópio é apenas um
mapa dessa região superior. ela, em si, é...
– saquei: a tal da eternidade.
– a própria. e é por isso, acho, que temos essas missões enroladas, em vez
de, em de simplesmente irmos ao instante certo, no local exato, para deixar uma
casca de banana no chão e pronto!, adeus império romano. no nosso nível nós
enxergamos os fios, mas não o controle remoto.
– pensamentozinho de mer...!
– sei. e daí? e o que você pretende fazer a respeito?
– tomar outro vinho, bolas.
***
– as bombas noóctonas não eram de verdade.
cesário corvo ouve. a partir deste momento ele é, literalmente, “todo
ouvidos”. as palavras emitidas pelo cérebro de melissa de repente têm forma.
sabor. cheiro. textura. nada mais existe. apenas as palavras.
ele não faz perguntas. sabe que a explicação virá. É inevitável.
– pelo que pude concluir, isso também está ligado à mudança que fez de
mim, de anendjib e de anh-ankh-ah nativos deste universo. só posso especular que
alguma coisa aconteceu no nosso “novo passado”, um erro ou uma sabotagem,
que fez das armas noóctonas meras armas de choque. eu revi os planos: há um
equívoco no projeto. estou quase certa de que ele não estava lá antes. assim como
a tecnologia do teletransporte de alta precisão não estava aqui, antes. eu posso...
– a intempol. – corvo murmura para si mesmo. de alguma forma, por
algum motivo, os canalhas tinham feito isso. cesário sabe que foi usado num
plano para transformar os mundos do império numa prisão para conter anendjib,
anh-ankh-ah e os homens-fera. sabe que foi manipulado. mas agora sabe também
que, por alguma razão, o manipulador, o carcereiro, lhe atirou esta coisa, como o
caçador que deixa a carcaça para os cães. a intempol lhe deu um osso. um osso
precioso.
– eu posso, a bem da verdade – melissa prossegue, sem notar o breve
sussurro de cesário – , trazer todos de volta à “vida” num instante. agora mesmo.
basta alterar a freqüência do campo de estase e enviar um novo choque pelo éter.
– e por que você não faz isso? – cesário pergunta, levantando a cabeça que
lhe parece muito leve, muito vazia. – por quê?
– porque anendjib saberia que eu estou consciente aqui. ele não sabe:
escondi isso muito bem. para ele, meu cérebro é apenas mais um circuito... há
anos venho planejando. tarik e rydl também foram traídos por ele. eu os trouxe até
aqui. o próprio teletransporte é um segredo só meu. e por um outro motivo: esse
seu “império”... você realmente acha que ele merece viver de novo?
pela primeira vez, cesário realmente olha para os dois homens que
permanecem em silêncio no corredor. o negro e o lagartomem. escória colonial, é
o primeiro pensamento que lhe ocorre. mas ele então se lembra do que anh-ankh-
ah havia dito – como tinha sido fácil manipular o ódio das outras raças do sistema
solar.
– seu império era uma merda, cesário – diz a rainha, como se lesse seus
pensamentos. – se é para pisar nos outros, faça como anendjib, que ao menos
inspira alguma devoção nos trouxas. vocês, nem isso.
– eu não quero que meus homens-fera sejam escravos de ninguém. nem
por medo, nem por devoção – diz melissa. – nunca mais. então, tenho uma
proposta para você, brigadeiro-general cesário corvo: liberte os homens-fera de
vênus. destrua anendjib. treine e eduque meu povo até que ele possa tratar com a
sua “civilização humana” de igual para igual. e então, só então, trarei essa tal de
“civilização” de volta à vida. que tal?
cesário cogita pedir um tempo para pensar, mas no instante seguinte, antes
de poder dizer qualquer coisa, já não pensa em nada. É como se sua identidade
tivesse entrado em colapso, esmagada pelo peso de tudo o que ouviu, fez e sentiu
nos últimos minutos, horas, dias. como se a nova responsabilidade lançada sobre
seus ombros fosse a partícula final, a gota que faltava.
todos os sons e imagens de uma vida em dois – não, três – universos se
reduzissem a um único ponto focal. e em seguida a singularidade explode, um
“big bang” da alma que está além das palavras, mas que é pura determinação.
– eu aceito – ele se ouve dizer.
– Ótimo – não há emoção na voz de melissa. – e a rainha...?
– vai ser sangrento – diz anh-ankh-ah. – e divertido. tô nessa.
– Ótimo – repete melissa. – acho que podemos, então, conduzir nossos
novos aliados a seus aposentos.
***
mais tarde, depois de tomar um banho e vestir calças novas e botas novas,
mas sem camisa – ele ainda não decidiu se quer ou não ficar com as asas – cesário
corvo ouve uma leve batida na porta do apartamento que, ao que tudo indica, será
seu novo lar.
– entre.
a porta se abre. por ela passa um cão humanóide, um beagle com uma
cicatriz feia no lugar de um dos olhos. ele veste o que parece ser uma farda leve,
de descanso, e carrega uma pasta debaixo do braço.
– meu nome é dawson dog – diz a criatura, apresentando-se. – a senhora
melissa pediu que eu o colocasse a par de nossas atividades de infiltração nas
forças do faraó. posso me sentar?
– mas é claro.
enquanto o canzarromem arruma a papelada sobre a mesa no centro da
pequena sala que é a única área social do apartamento, cesário tenta se lembrar de
aonde foi que viu esse tal dawson antes.
a imagem está lá. só é difícil saber exatamente aonde. mas, ele pensa, o
que importa? boa parte de suas aventuras passadas na verdade nunca aconteceram.
suas memórias são, para todos os efeitos, de um universo morto.
e a maior de todas as aventuras, conduzir o parto do universo que há de
sucedê-lo, encontra-se adiante – quase que ao alcance da mão.
***
epílogo
na sala da chefia do departamento i, agora há duas escrivaninhas. a mesa
do comissário pedroso foi retirada ontem.
numa das mesas, a placa dourada com letras negras dis “spenger”. na
outra, diz “kramer”.
os dois novos comissários encontram-se todos os dias na porta do
escritório, cumprimentam-se e se dirigem, cada um, ao respectivo lugar.
ultimamente o departamento i tem tido pouco trabalho, então kramer se dedica a
construir castelos de cartas, que spenger se dedica a derrubar com um estilingue
de elástico e clipes de papel.
o castelo cai. os dois sorriem. e riem.
comissariados compartilhados não são norma dentro da intempol. cedo
ou tarde, um deles vai cair e o departamento i voltara a ser o que sempre deveria
ter sido, uma monarquia.
kramer quer o cargo. spenger, também.
kramer constrói castelos. spenger os derruba.
ambos riem. e sorriem.
em algum lugar, no andar de cima, alguém ri muito, muito mais.
Гораздо больше, чем просто документы.
Откройте для себя все, что может предложить Scribd, включая книги и аудиокниги от крупных издательств.
Отменить можно в любой момент.