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REESTRUTURAÇÃO INDUSTRIAL

E MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA:
IMPACTOS SOBRE O MUNDO DO TRABALHO

Coordenador: José Arthur Giannotti (Cebrap)

Participantes: Luciano Coutinho (Unicamp)


Nadya Araújo Castro (Cebrap/Ufba)
Artur Barrionuevo (FGV/ABDIB)

José Arthur Giannotti — Eu passo a palavra diretamente aos expositores.


Luciano Coutinho — Os processos de trabalho estão em rápida mudança nos países
desenvolvidos em função da onda de automação avançada e de informatização dos escritó-
rios. A automação avançada vem modificando de maneira muito veloz as condições do tra-
balho fabril. Se olharmos para trás verificaremos que a velocidade dessas mudanças não é
desprezível.
Há pouco mais de quinze anos, as técnicas de automação na manufatura eram ainda
muito elementares quando comparadas às atuais: a introdução de automação de base ele-
trônica era muito incipiente, os processos de trabalho eram extremamente rígidos e levavam
à padronização obrigatória da produção, tornando as economias de escala o principal fator
de obtenção de economia na produção. A introdução da automação industrial com base ele-
trônica foi modificando esse quadro, tornando o processo cada vez mais flexível e cada vez
mais programável.
Se olharmos os três processos de trabalho fundamentais — os processos contínuos
de produção, os processos manufatureiros e os do tipo de bens de capital de encomenda em
que cada unidade é especificada de maneira muito singular e às vezes em lotes muito pe-
quenos — e compararmos suas linhas de montagem, vamos verificar que a automação pro-
duziu mudanças muito velozes nesse processo.
Nos processos contínuos de produção, inicialmente, foram sendo introduzidos con-
troles dos aparelhos individualmente: controle de um forno, de uma caldeira, de uma torre
de destilação através de controladores programáveis daquela unidade. Com o passar do tem-
po esses controladores foram ganhando coordenação por segmentos e passou-se a poder
controlar unidades maiores. Hoje, depois de um período de apenas quinze anos, as fábricas
de processo contínuo, grandes refinarias, plantas de papel e celulose, cimento — unidades
todas em que o processo não pode parar, envolvendo necessariamente transformações físi-
co-químicas contínuas e em grande escala — são automatizadas globalmente sob o coman-
do de um grande computador. Essa evolução foi possível porque o preço caiu e a capacidade
dos computadores cresceu de maneira exponencial. É extremamente significativa a queda
de preços relativa ao aumento da capacidade de informação, na medida em que os chips se
tornam cada vez mais poderosos e são produzidos em escalas formidáveis. Foi possível tor-

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nar o preço de um computador com grande potência e velocidade suficientemente mais ba-
rato para que ele possa comandar uma unidade inteira. E não é trivial que um computador
comande uma unidade inteira de produção. Ele tem que ter não só uma enorme capacidade
de processamento de dados, como também uma grande velocidade para ajustar a produção
em tempo real, enquanto ela está ocorrendo.
Hoje, nenhuma planta industrial de processo contínuo nova e de grande porte pres-
cinde de uma malha completa de automação sob comando de um computador hierárquico
de grande escala, e isso modificou completamente a forma de trabalho. Uma planta desse
tipo, que necessitava de um grande número de técnicos qualificados para controle do fluxo
do processo em cada segmento e de muita engenharia para a otimização, tem hoje tudo feito
por computador. Nessas unidades, reduziu-se brutalmente a força de trabalho, que se tornou
muito qualificada e fundamentalmente uma força de trabalho de controle de computação.
São muito mais engenheiros do que propriamente técnicos. É claro que fica uma força de
trabalho residual importante para a manutenção da fábrica inteira. E cada vez mais, no futuro,
esse tipo de unidade vai se padronizando. Para dar uma idéia, dez anos atrás, uma planta de
papel e celulose continha, no investimento total, no máximo 5% em eletrônica e informática,
e hoje, nada mais nada menos que 20% do valor de uma planta é em eletrônica e informática.
Outro tipo clássico de processo de trabalho, diametralmente oposto aos processos
contínuos de escala, são as linhas de manufatura, especialmente em bens de capital sob en-
comenda. Essas linhas eram, há dez anos, quase exclusivamente manejadas por processos
artesanais, com operários extremamente qualificados, torneiros, e as peças tinham que ser
fabricadas com especificações muito rígidas, muito cuidadosas e exigiam uma qualificação
e uma experiência fantásticas dos operários. Esse processo foi modificado, primeiro pela in-
trodução do controle numérico, que permitia que o ajuste de ferramenta da máquina fosse
feito por um comando que ainda não era computadorizado. Com o passar do tempo foi intro-
duzido o comando numérico computadorizado, uma unidade de processamento acoplada à
máquina que permitia planejar todos os passos da operação para fabricar uma peça através
de um programa. Posteriormente esses comandos numéricos foram sendo aperfeiçoados. A
capacidade deles de operar em várias dimensões, tornos com dois, três, quatro ou qualquer
quantidade de eixos, abstratamente, funcionando num espaço multidimensional com a ca-
pacidade de um computador controlar todas essas operações e obter peças extremamente
sofisticadas com troca não só de ferramenta mas, inclusive, com ajustes em relação ao des-
gaste no processo, obtendo absoluta perfeição e reduzindo a zero a margem de erro.
O passo seguinte foi o progresso no software de imageamento, que surgiu primeiro
para previsão de tempo e desenvolvimento de modelo. Isso permitiu o desenvolvimento das
estações de trabalho, bibliotecas de peças, de modo que hoje o desenvolvimento de qual-
quer peça industrial dispensa o engenheiro de usar a prancheta, ele simplesmente chama na
memória uma peça que aparece na tela da estação de trabalho; ele vai digitar as especifica-
ções de material, características que são automaticamente embutidas no programa. Todo o
desenho da peça é feito na estação de trabalho e o programa de produção é preparado au-
tomaticamente. Além de dispensar o escritório do engenheiro, o programa de produção vem
embutido no desenho. Isso é o desenho assistido por computador, associado à manufatura
assistida por computador, é o chamado CAD/CAM, que já tem um seis ou sete anos de difu-
são, já é uma coisa relativamente antiga.
Nos últimos cinco anos, o que tem ocorrido com velocidade cada vez maior é o uso
de sistemas integrados, onde vários tipos de CAD/CAM mais outros controladores lógicos de
máquinas específicas são integrados numa célula de manufatura integrada. E em algumas
poucas fábricas essas células de manufatura são integradas na fábrica inteira, que passa a ser
totalmente controlada por computadores. Isso existe em algumas poucas unidades no Japão

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e em outros países desenvolvidos, e cada vez prolifera mais à medida que novas fábricas são
instaladas e esses processos podem ser objeto de uma certa padronização. A dificuldade
nesses processos é a padronização, porque cada fábrica tem características específicas de
lay-out, máquinas etc. É extremamente difícil fazer a automação numa fábrica já existente,
porque ela exige um trabalho fantástico de engenharia de software. Na medida em que uma
fábrica inteira nasce automatizada, para determinadas operações esse processo começa a
se difundir. Mas, ainda hoje, a automação exige um desenvolvimento de engenharia de soft-
ware.
Se se comparar o perfil da força de trabalho numa fábrica de bens de capital há vinte
anos e hoje, ele é totalmente diferente. O torneiro qualificado, experiente, o artesão foi sendo
substituído e dando lugar a um técnico qualificado em desenho, computação ou um enge-
nheiro, um programador. Mudou completamente. É claro que permanece no chão-de-fábrica
um resíduo de pessoas de manutenção etc. E é claro que se desenvolveu paralelamente um
novo segmento de trabalhadores em serviços altamente qualificados de software de integra-
ção. Essa automação é altamente intensiva em serviços sofisticados.
O terceiro exemplo importante é o da linha de montagem que era o processo tipica-
mente fordista, cujo conceito foi erroneamente generalizado, mas que, stricto sensu, corres-
ponde à linha de montagem automobilística em que o taylorismo foi levado ao extremo, as
operações foram fragmentadas e parcelizadas com operações simples, repetitivas e banali-
zadas. A força de trabalho não precisava ter uma maior qualificação, podia ser ignorante e
deseducada, precisando ter apenas destreza manual para entrar na linha, pegar dois ou três
parafusos, saltar de novo da esteira, trabalhando com pistolas, equipamento elétrico, ar com-
primido etc. À medida que os sistemas de informática foram avançando e, especialmente,
foi possível casar a capacidade de processamento rápido e o desenvolvimento do software
de imageamento e de leitura de uma imagem de TV por analogia e interpretar essa imagem,
eles puderam comandar a máquina a partir daquele olho que é a câmara de TV cuja imagem
é lida num cérebro artificial que é o computador, que está lendo num software sofisticado.
A combinação dessa visão via TV com a capacidade de interpretar essa visão e dar
ordens a uma máquina para que processe uma certa operação permitiu o nascimento dos
robôs. Existiam robôs sem capacidade visual que não eram autênticos robôs, eram autôma-
tos. A robótica não podia prescindir da capacidade de visão e da capacidade de mimetizar
um gesto manual simples que um operário realizava anteriormente. E a robótica foi prolife-
rando na linha de montagem, primeiro para as operações mais insalubres de soldagem, pin-
tura, inicialmente de maneira bem rudimentar. Enquanto as máquinas ainda precisavam de
uma programação, se expropriava a capacidade de um operário. Por exemplo, nos primeiros
programas de pintura de automóvel, ao invés de um engenheiro gastar horas e horas fazendo
um programa, simplesmente se punha uma fita virgem na máquina, dava-se a pistola para o
melhor pintor da fábrica e se gravava ele trabalhando. Juntavam-se os dez melhores pintores
da fábrica e se fazia um concurso para ver quem pintava mais depressa gastando menos tin-
ta, e o que conseguisse a melhor performance teria acabado de gravar uma sequência de
movimentos que depois eram reproduzidos pela máquina, que assim expropriava a capaci-
dade acumulada de fazer isso. Depois isso foi superado pela capacidade de automação. Esse
primeiro tipo de robô ainda era um robô antropomórfico, ainda tinha que reproduzir um gesto
do tamanho de um braço humano. Logicamente, depois um braço mecânico maior poderia
fazer isso mais eficientemente e outras técnicas de programação superaram esse estágio ini-
cial. As máquinas vão deixando de ser antropomórficas e vão tendo um padrão próprio que
supera o trabalho humano. Isso tudo parece um negócio futurista e meio maluco, mas isso é
o que já mudou nos últimos quinze anos.

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Tudo o que eu falei até agora são coisas que já estão acontecendo na indústria e com
grande velocidade. Numa fábrica japonesa de automóveis normal, 75% das operações ante-
riormente feitas manualmente já são automatizadas por robótica. No Brasil, 5%. Obviamente,
salário muito baixo não induz à substituição. Enquanto o salário médio de um trabalhador
japonês na indústria automobilística está em torno de U$ 27,00 por hora, no Brasil, se ele al-
cançar U$ 2,50 é muito. É qualquer coisa como um oitavo ou um décimo. Mas já se padroni-
zaram algumas coisas, soldagem e pintura já são feitas por robótica.
Isso significa uma mudança muito forte nos processos fabris, que, tendencialmente,
devem se aproximar nos próximos dez ou quinze anos, de forma que no início do século XXI
já estará se conformando um novo padrão. Essa automação já estará se tornando tão densa
que é de se esperar que todas as unidades já tenham computadores de controle de processo
abrangente. A transformação do trabalho fabril será muito forte em dois sentidos.
Primeiro, no sentido de reduzi-la em termos relativos, e segundo, no sentido de mo-
dificar completamente o seu perfil e, portanto, o da classe operária clássica, da fábrica. Isso
não significa, entretanto, que vai desaparecer o trabalho na sociedade. Na verdade, novas for-
mas de trabalho, especialmente em engenharia de processo, software, integração, serviços
todos conexos, vão surgindo em torno da fábrica. Já hoje em algumas empresas japonesas o
consumidor, ao escolher o veículo que vai comprar, senta diante do terminal e digita todas
as características que ele quer, e não há mais aquela história de ter um veículo depenado
sem acessórios, depois o intermediário e depois o veículo de luxo. Isso acabou. Você pode
combinar um automóvel com um motor de alta potência com cor e interior simplificado, com
o tipo de acessório que você quiser. Todas as características são escolhidas, a preferência no
automóvel é personalizada e depois isso entra automaticamente no planejamento. E não é
como um Rolls Royce que era feito artesanalmente, e sim dentro da própria linha de produ-
ção onde os robôs vão, naquele carro, introduzir as características escolhidas, e você sai com
o carro personalizado. Existe um anúncio da Nissan que diz: "você pode escolher 100 mil ca-
racterísticas diferentes do seu veículo, o que você quiser". Esse tipo de flexibilização acaba
com a padronização e aproxima o cliente da produção. Torna-se possível modificar todo o
marketing da empresa, todo o comércio e todo o sistema de vendas muda completamente.
Mudam também os serviços auxiliares e o perfil da força de trabalho desses serviços. O sis-
tema de vendas, de marketing e de processamento começa a ser completamente diferente.
Da mesma forma, os processos modernos de integração para trás com os fornecedo-
res, nos países desenvolvidos, já vêm fazendo o chamado network, uma rede on Une em que
os fabricantes, montadores estão conectados a computadores de seus fornecedores, e, à me-
dida que os estoques das montadoras vão chegando a níveis críticos, vão sendo emitidas or-
dens para trás. O fornecedor sabe, instantaneamente, que tipo de peças ele vai ter que for-
necer, de modo que todo o sistema de suprimento também é radicalmente modificado e isso
cria todo um serviço novo de integração, de network muito sofisticado.
O que está acontecendo é que no setor de serviços há também uma radical transfor-
mação. De um lado, fica um resíduo de serviços de baixa qualificação, como os faxineiros,
mantenedores etc, de outro lado, uma nova série de serviços sofisticados de diversas natu-
rezas, ligados à área de processamento e de informação. O setor de serviços, em si próprio,
é uma coisa desconhecida, mormente no Brasil — há mais de quinze anos não se estuda o
setor de serviços no Brasil — , e eu acho que entender o perfil da sociedade futura passa de
maneira crucial por entender esse setor de serviços. Ele está se tornando cada vez mais so-
fisticado. Há um crescimento fantástico dos serviços de turismo, saúde, uma indústria de alto
valor de mercado. O indivíduo que entra na engrenagem de um hospital sofisticado não sabe
onde vai sair, há toda uma máquina, além, obviamente, dos serviços clássicos, do comércio
e do transporte, onde o impacto da revolução informática é muito forte.

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Terminei não falando de Brasil, mas vou parar por aqui e volto depois. Esses proces-
sos vão se refletir tardiamente, desigualmente e diruptivamente sobre a sociedade brasileira,
e de uma maneira certamente muito mais perversa do que a que está acontecendo lá.
Nadya Araujo Castro — Na segunda mesa deste seminário, nós começamos a discutir
os impactos da reestruturação sobre o mundo do trabalho sob a ótica do acesso aos postos
de trabalho. Nesta mesa eu creio que seria interessante retomar a questão pelo lado do uso
da força de trabalho, olhando como esta reestruturação afeta o mundo do trabalho. É claro
que essa separação só tem sentido analítico, e é preciso não perder de vista que algumas das
modificações que ocorrem são determinadas pelo mercado de trabalho. A minha exposição
será composta de duas partes: na primeira, eu vou retomar a discussão no interior da socio-
logia do trabalho; na segunda, vou tentar exemplificar brevemente o que a nossa literatura-
vem colocando com relação ao uso do trabalho na fábrica pós-fordista, moderna, ou como
se queira chamar.
Os estudos sobre sociologia do trabalho, nos últimos anos, dedicaram-se muito in-
tensamente a teorizar sobre a realidade desses novos contextos produtivos, no sentido de
que é impossível pensar o uso da força de trabalho fora das novas formas tecnológicas e de
organização da produção. A atenção analítica esteve fortemente dirigida para essas novas es-
tratégias de organização da produção, gerenciando um equilíbrio difícil e precário entre in-
corporação de tecnologia rápida e adequação do uso do trabalho humano. Nesse cenário é
interessante que um grupo de palavras mágicas aparece e passa a fazer parte tanto do jargão
acadêmico como do gerencial, coisas como kanban, justin-time, controle estatístico de pro-
cessos, controle de qualidade total. E essas novidades aparecem associadas em conjunto, e
não individualmente, a algo de que se ouve falar como um novo paradigma de organização da
produção que teria substituído o antigo paradigma taylorista-fordista. O pensamento acadêmi-
co dá a impressão de ter — às vezes muito atraído pela capacidade analítica de modelos bi-
nários — produzido uma exuberante quantidade de alternativas polares para pensar essa rea-
lidade, às vezes falando de fordismo e pós-fordismo, às vezes de produção em massa e
espacialização flexível, produção gorda e produção enxuta, máquino-fatura e sistema-fatura
etc. Mas, com essas anteposições, que questões centrais se pretendia reter com relação à or-
ganização da produção e ao uso do trabalho? O que acontecia no ponto de partida e o que
acontece no ponto de chegada desse processo?
No ponto de partida, os autores colocam o modelo da grande empresa industrial, vol-
tada para a produção em larga escala de uma quantidade limitada de produtos altamente es-
tandardizados a partir do uso de máquinas especializadas num contexto gerencial fortemen-
te hierárquico. No ponto de chegada, estariam as empresas — que poderiam ser grandes ou
pequenas mas que, via de regra, se organizavam em redes fortemente horizontalizadas —
voltadas para a produção de bens cuja natureza não somente era diversificada, mas cujo mix
devia ser fortemente cambiante, produzidos em quantidades extremanente variáveis e re-
querendo maquinaria flexível e não dedicada.
E o que se passaria com os trabalhadores? No ponto de partida da racionalização tay-
lorista prevaleceria uma forte divisão do trabalho tanto no que concerne à clássica divisão da
sociologia entre concepção e execução, quanto no que se refere à parcelização das tarefas
dos trabalhadores de linha. Por isso mesmo seriam restritos os requerimentos em termos de
qualificação da força de trabalho, que estaria envolvida em tarefas prescritivas, fortemente
rotinizadas e que seriam tão fragmentadas quanto a estrutura de cargos e a rígida hierarquia
dentro da qual essas tarefas se exerciam. No ponto de chegada, os autores são incansáveis
em enfatizar as profundas transformações que esses paradigmas incluem na natureza do tra-
balho e na natureza das relações industriais. Essas relações passariam por uma transforma-
ção da divisão e desqualificação do trabalho em direção à poliqualificação, ao múltiplo en-

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cargo, à tendência ao aumento no peso relativo dos trabalhadores não manuais sobre os ma-
nuais, mesmo no coração do setor industrial. E de modo muito mais acentuado nos serviços
de produção, consultoria, marketing, programação, projeto, design, serviços que tenderiam,
no futuro, a formar um segmento especializado na divisão social do trabalho, substituindo o
que no momento seria uma divisão técnica no interior da empresa.
Essa organização hierárquica seria substituída por uma troca mais intensa de infor-
mação entre os trabalhadores, maior responsabilidade dos trabalhadores de linha, um apro-
fundamento desse nexo fábrica-escritório no sentido de uma relação mais estreita entre pla-
nejamento e execução, o controle de qualidade se internalizando, passando a ser um
elemento do processo de produção reintegrado com a idéia do controle de qualidade total.
A ênfase no desempenho individual deixa lugar à ênfase no desempenho de equipes, as
idéias de eficiência, confiabilidade e capacidade de integração passam a ser retomadas
como atributo de coletivos, e já não mais como atributos individuais, e se consolida uma ten-
dência muito forte à externalização, subcontratação de trabalhadores.
Mais recentemente essa discussão foi tomada de assalto, e acho que no Brasil com
muito impacto, pelos resultados e divulgação da pesquisa internacional sobre a indústria au-
tomobilística, que comparou noventa plantas montadoras em quinze diferentes países, o fa-
moso estudo do MIT 1 que clamava com mais força não só pela possibilidade, mas pela ne-
cessidade, e mais, pela generabilidade das profundas transformações no mundo do trabalho
no sentido de viabilizar a chamada produção enxuta. Uma forma de produção, que, segundo
os autores deste estudo — que é quase uma propaganda — é capaz de produzir com a me-
tade do pessoal da fábrica, a metade dos espaços de produção, a metade dos investimentos
em ferramentas, a metade do tempo de desenvolvimento do produto para uma produção
três vezes maior. Essa produção enxuta, a chamada lean production, se centraria em cinco
princípios-chaves que regeriam o uso do trabalho e que seriam extremamente importantes
para se pensar o que seria essa transformação ou mesmo como ela é figurada no debate aca-
dêmico.
Em primeiro lugar, o máximo de tarefas e responsabilidades deve ser transferido para
0 trabalhador de linha. Em segundo lugar, a constituição de um sistema efetivo de detecção
imediata de defeitos que habilitaria os trabalhadores a encontrar as causas primeiras dos pro-
blemas, evitando a recorrência do defeito; produção em pequenos lotes, just-in-time, estra-
tégias tipo defeito zero sendo instrumentos fundamentais para se pensar esse sistema de de-
tecção imediata de defeitos. Em terceiro lugar, a disponibilidade de um sistema de
informações abrangente, de modo que qualquer trabalhador pudesse ter uma resposta rápi-
da para qualquer problema, entendendo de uma maneira geral o funcionamento da planta.
Em quarto lugar, a organização da força de trabalho em equipes que deveriam estar capaci-
tadas a executar qualquer uma das tarefas, ou seja, qualquer trabalhador da equipe deve ser
capaz de executar qualquer uma das tarefas que se coloque à equipe, incluindo reparo de
máquinas, verificação de qualidade de produto, estocagem e organização de material, lim-
peza e conservação de máquinas etc, e resolver todos os problemas que se colocarem. Tudo
isso culminando num forte e recíproco senso de obrigação da firma para com o trabalhador
e do trabalhador para com a firma.
Os três primeiros princípios-chaves — o da múltipla responsabilidade do trabalhador
de linha, o da efetiva detecção de defeitos e o de um sistema de informação abrangente e
uma visão de conjunto da planta — sem dúvida significariam, uma vez operando, mudanças
fundamentais na natureza do trabalho do trabalhador direto. Essas três características juntas,

1
WOMAK, JONES & ROOS, orgs. A máquina que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

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por outro lado, apontam para consequências que são bastante fortes em termos de alto grau
de qualidade, continuidade e confiabilidade do trabalho. E mais ainda, uma capacitação bas-
tante elevada para, com agilidade, responder a qualquer evento imprevisto e, por conse-
quência dessa multitarefa, uma tendência a alterar, e até a suprimir em alguns casos, o tra-
balho especializado de controle de qualidade e manutenção, o que importa num incremento
acentuado do treinamento, numa estabilização da relação de emprego — ao menos para
aquela força de trabalho que constitui o coração do processo de produção — e no desapa-
recimento da demarcação entre trabalhos que antes se distinguiam seja por seu conteúdo
seja por sua responsabilidade hierárquica, culminando no suposto de um desenvolvimento
de relações fortemente cooperativas entre trabalhadores e gerentes.
O interessante é que esse trabalho do grupo do MIT vai concluir que, no fim das con-
tas, essa formulação sobre a produção enxuta não é um elogio das receitas japonesas. O que
está em questão é mais forte, é a idéia de que há um novo modo de produzir sobre a mesa
e que esse modo de produzir é universalizável por sua racionalidade intrínseca e indepen-
dente das características de natureza societal que sustentaram as outras formas de produzir
e que sustentam a própria forma japonesa de produzir — que tanto encanto traz à reflexão
sociológica. Essa é sem dúvida uma pressuposição bastante forte que, validada, desafia a
própria pertinência de uma sociologia das relações de trabalho. Não sem razão, ela tem sus-
citado muito debate e tem estimulado pesquisadores a fazer o caminho da falsificabilidade.
Até onde essas coisas são verdadeiras ou a partir de onde elas se passam de um modo dife-
rente em contextos societais distintos?
Por exemplo, estudos de caso na Inglaterra concluíram que esse sistema just-in-time
— controle de qualidade total (CQT), como eles preferem chamar — resultou, na verdade,
num aumento do controle e numa intensificação do trabalho em vez de uma ampliação da
autonomia. E que o sucesso dessa junção just-in-time/CQT em termos da intensificação do
trabalho teria resultado em crescente supervisão e monitoramento das atividades desenvol-
vidas e numa pressão muito forte sobre as equipes e seus consumidores, pensando-se a fá-
brica como algo que passa a ser estruturado — ela mesma, internamente — como um fluxo
entre setores que interdependem uns dos outros enquanto demandantes e produtores. Ade-
mais, esse sistema teria andado de braços dados com a recusa à possibilidade de ação cole-
tiva dos trabalhadores via marginalização dos sindicatos, e com o constante acompanhamen-
to e controle do envolvimento dos trabalhadores mediante um sistema bastante eficaz de
recompensas e punições.
Por outro lado, algumas embaraçosas constatações empíricas de ampla aceitação na
literatura dos anos 80 desafiavam essas formulações sobre os novos paradigmas. Quais se-
jam, primeiro, que os efeitos sobre o emprego foram menores do que o antecipado; os im-
pactos sobre a qualificação variavam com o tipo de uso dado à nova tecnologia microeletrô-
nica. Na verdade, uma polarização das qualificações parecia mais evidente do que a mera
elevação ou redução da qualificação. E, enfim, que trabalho e novas tecnologias, na verdade,
se combinavam sob formas frequentemente muito variáveis.
No mundo intelectual francês, por exemplo, essa discussão rebate de uma maneira
muito curiosa, para citar um exemplo, no pensamento de Michel Freyssenet, que vai chamar
a atenção para o fato de que a introdução da automação resultaria antes de concepções so-
cialmente impressas nos equipamentos e que fariam com que o modo operatório e a incor-
poração do trabalho humano redundassem em formas que estariam, por assim dizer, inscri-
tas na concepção dos equipamentos. Ou, como ele prefere chamar, na forma social da
automação. É como se a gente estivesse agora levando ao outro extremo o resgate do pão da
boca dos sociólogos. Assim, o que ele pensa é que, quando essa forma social é prescritiva e
substitutiva, o uso da inteligência humana no trabalho continua a se dar de um modo bastan-

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te estreito, conquanto a produção e os equipamentos possam ter se tornado flexíveis. Ou


seja, essa flexibilidade adquirida pelos equipamentos não se transpõe naturalmente em ter-
mos de um uso flexível e amplo da inteligência humana no trabalho. Para ele, as formas apa-
rentemente enriquecedoras do trabalho, fundadas numa polivalência horizontal — mais in-
formação para o desempenho de uma mesma tarefa — ou numa polivalência vertical — no
sentido de múltiplas tarefas diferenciadas para um mesmo trabalhador — , podem perder
essa virtualidade qualificante quando são empregadas em modelos de automação prescrita
que são, segundo ele crê, os atualmente dominantes.
Em primeiro lugar, porque essa extensão horizontal no volume de informações ma-
nejadas pode ser apenas uma falsa aparência da adoção de sistemas automatizados que cen-
tralizam mais informações de qualidade mais complexa, as quais, quando são manejadas
pelo trabalhador, o são em condições em que ele memoriza menos e se apropria menos dos
fenômenos em curso, e ele acha que é exatamente isso que se passa com a experiência da
automobilística.
Em segundo lugar, a politarefa tampouco é necessariamente qualificante, dado que
ela pode ser o resultado apenas de uma simplificação prévia de várias atribuições que são
agora assumidas por um mesmo trabalhador. É o caso, por exemplo, de simplificar tarefas de
primeira manutenção, de controle de qualidade e de reuni-las depois como uma polifunção.
Para ele — levando esse raciocínio ao limite — uma forma de organização do trabalho efeti-
vamente qualificante supõe uma nova forma de organização dos equipamentos qualificados
que os faça extrovertidos, legíveis e apreensíveis no seu mecanismo interior para àquele que
os opera. Ele acha que isso requer, na verdade, mais que um novo padrão da produção, isso
requer um novo pacto societal.
Alguns autores, por outro lado, procuraram refletir numa direção que também é in-
teressante sobre o que há de comum entre essas várias experiências internacionais em dire-
ção a uma nova forma de organização da produção. Ou seja, refletindo sobre o que há de
comum, é possível pensar o reverso de uma maneira diferencial, o que pode ser o miolo, o
coração dessa nova forma de produzir. Com relação às estratégias de gestão da produção e
de uso do trabalho, há alguns aspectos que parecem hoje interessantes, que são consensuais
e que unificariam essas experiências de flexibilização e renovação no uso do trabalho.
Em primeiro lugar, em todas essas realidades nacionais as experiências se basearam
no uso de uma força de trabalho de alto nível de formação tanto escolar quanto técnica, em
realidades onde sobretudo a escola pública é de qualidade inquestionável.
Em segundo lugar, as relações de trabalho se caracterizaram nesses países pela es-
tabilidade no emprego, pelas escassas diferenças salariais — quando mais se comparadas
com as largas tabelas de diferença salarial nas nossas empresas — e pela pouca rigidez na
definição dos postos de trabalho, além da significativa importância do trabalho organizado
em equipes.
Em terceiro lugar, é consensual na sociedade, no caso desses países, que regras de
negociação salarial são deliberações estáveis e acordos trabalhistas são invioláveis, e que é
legítima a ação reivindicativa dos trabalhadores. Ela não é vista, como às vezes se costuma
pensar no Brasil, como uma ação antipatriótica, antinacional.
Em quarto lugar, havia baixo nível de desemprego. E em quinto, é possível — ou foi
historicamente possível, e tem sido possível ainda — a intervenção negociada dos trabalha-
dores na adoção de novas tecnologias.
Se nós nos voltamos para pensar o caso brasileiro, o que encontramos? E aqui eu pas-
so rapidamente à segunda parte do argumento. Para pensar o caso brasileiro, pelo menos
dois macrocondicionantes devem ser previamente destacados. O primeiro é a idéia de que
a natureza da organização industrial no Brasil, ela própria põe, neste momento, barreiras ou

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pelo menos dificuldades para a sua renovação. É diferente discutir a renovação industrial em
plantas industriais que são, em sua imensa maioria, implantações já consolidadas e pensar
isso quando se trata da introdução de novas plantas que nascem flexíveis. Nós estamos fa-
lando de um parque onde a imensa maioria das unidades é de implantação já consolidada,
que são típicas indústrias fortemente verticalizadas como resultado de um enorme esforço
substitutivo de importações. Isso, sem dúvida, redefine o âmbito de possibilidades para a in-
corporação de métodos mais flexíveis de gerenciamento da produção.
O segundo elemento decorre da própria natureza do sistema de relações industriais.
De fato, a implantação desse chamado modelo taylorista-fordista no Brasil tem especificida-
des que são decisivas para a discussão atual. Primeiro — e sobre isso há uma reflexão de Nil-
ton Varga1 que já é clássica no debate brasileiro — , quando nós tentamos ser contemporâ-
neos, isto é, quando tentamos incorporar o modo taylorista-fordista de organização da
atividade industrial, essa foi uma tentativa temporã. Nós não tínhamos nem os trabalhadores,
nem os empresários permeáveis a esse espírito de Taylor. Dessa sorte, só quando já se pre-
nunciava uma crise de lucratividade nos anos 70 é que esse fordismo cobrou todo o seu viço
na realidade brasileira, com a consolidação dos grandes investimentos multinacionais.
O estudo de Elizabeth Silva2 sobre a automobilística, comparativo com a Inglaterra,
é
rico em comparações sobre essa especificidade em termos de mercado de trabalho, rela-
ções industriais, autoritarismo na relação Estado-sindicato, que fez com que a organização
da produção rígida de massa viesse a se impor no Brasil — e isso é muito importante — livre
de todas as contrapartidas sociais que a legitimaram no chamado fordismo genuíno, o fordis-
mo norte-americano, no qual se estabeleceu com o trabalhador um compromisso, não ape-
nas enquanto consumidor, mas um compromisso de cidadania e de respeito a suas formas
organizacionais. Nesse contexto, o movimento sindical era um interlocutor legítimo e pôde
ter uma intervenção nesse processo, coisa que não acontece em termos das negociações
das condições de uso e remuneração do trabalho entre nós.
A partir daqui eu só apresento o que seria o fio da argumentação, deixando o restante
para a discussão. Na segunda parte da argumentação, o que eu queria fazer era tomar o caso
da automobilística, basicamente o caso das montadoras, para chamar a atenção para o que
se põe na literatura da sociologia do trabalho no Brasil em termos das principais mudanças
no perfil da força de trabalho, ou seja, a composição em termos de trabalhadores de produ-
ção e manutenção, trabalhadores mensalistas e horistas, mais ou menos qualificados, mais
ou menos escolarizados. Pensar também como essas novas estratégias de reorganização da
produção estão entrando nesse mundo do trabalho automatizado nas empresas montadoras
e que limites elas encontram, especialmente tendo em vista a natureza das relações indus-
triais, a qualificação da força de trabalho.
Artur Barrionuevo — Em função da minha experiência como participante da Câmara
Setorial da indústria de bens de capital, eu creio que seria interessante centrar a minha ex-
posição no que vem acontecendo no setor nesta conjuntura de recessão profunda combina-
da com uma ameaça de abertura comercial ainda muito incipiente.
Inicialmente, porém, eu gostaria de acrescentar alguns comentários em relação ao
que já foi dito nas duas exposições anteriores. Quando se observa o comportamento das

69

1 VARGA, Nilton. "Gênese e difusão do taylorismo no Brasil". In: Anpocs.Ciências sociais hoje. São Paulo: Anpocs, 1985.

2 SILVA, Elizabeth Bertolaia. "Estratégias de qualidade e produtividade na fabricação de carros no Brasil e na Inglaterra". Anais do seminário
"Padrão Tecnológico e Políticas de Gestão: O Processo de Trabalho na Indústria Brasileira". USP, maio/dez. 1988.
CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

grandes empresas é preciso ver que hoje existe urna mudança gerencial profunda e que vai
bem além da mudança no processo fabril. Essa tendência de flexibilização, de descentraliza-
ção e de terceirização, que aqui no Brasil é uma coisa ainda incipiente ou até mal interpre-
tada, uma tendência de as grandes organizações se tornarem cada vez mais descentraliza-
das, é algo que vai muito além do processo de fabricação. Todo o processo gerencial também
está sendo descentralizado e flexibilizado. Inclusive, uma das grandes tendências que a gen-
te tem tido nos dois últimos anos é a do chamado pelos administradores de down sizing, que
é um corte de gerências médias, tanto em nível de produção como, principalmente, em nível
gerencial, para tornar as empresas mais flexíveis. Algumas empresas multinacionais que
operam no Brasil já estão implantando esse sistema de extrema descentralização que existe
nos países desenvolvidos.
É interessante porque nós estamos falando do modelo japonês de trabalho coletivo,
a importância dentro do ranking de remuneração de alguém com capacidade de resolver
problemas coletivos, e em certas empresas eles introduzem no sistema de remuneração,
além da performance coletiva, a capacidade individual dentro de cada grupo e que foge da
hierarquia tradicional. Ou seja, de acordo com a eficiência — que é medida por algum parâ-
metro dependendo da atividade que é cumprida pelo funcionário — , a remuneração varia
independentemente da hierarquia formal que possa haver dentro da organização. Além do
mais, está-se assistindo também, dentro das empresas mais avançadas, a um processo de
repensar as atividades não só secundárias — como vigilância, restaurante, essas coisas bem
acessórias dentro de uma fábrica — , mas até algumas atividades que devem ou não ser rea-
lizadas dentro da empresa. Eu creio que é correta a idéia de que o processo de informatiza-
ção hoje está, na verdade, sendo combinado com o trabalho normal e de maneiras diferentes
dependendo do tipo de processo que se está realizando.
A indústria de bens de capital sob encomenda tem algumas semelhanças com a in-
dústria automobilística, e algumas dessemelhanças. A semelhança é de ser uma indústria de
montagem. Basicamente, o bem de capital sob encomenda é um bem de grande porte que
é usado para as indústrias básicas do tipo química, siderurgia, papel e celulose, ou para ser-
viços de utilidade pública como geração de energia elétrica. São equipamentos de grande
porte do tipo caldeiraria, máquinas mecânicas e máquinas elétricas, todas elas dependentes
de projetos específicos para serem realizadas. Nesse sentido existe uma tendência avassala-
dora em direção ao CAD, mas a indústria brasileira está atrasada nesse ponto em relação aos
países desenvolvidos. E também no impacto em termos de informatização dentro do proces-
so de produção, que é muito mais lento, muito menor, tendo em vista, em parte, a remune-
ração salarial que é muito diferente. Embora a mão-de-obra dentro da indústria de bens de
capital, e em particular de bens de capital sob encomenda, tenha um salário médio bem
mais elevado do que a média da indústria, se você comparar esses salários com os salários
dos países desenvolvidos eles são muito baixos, chegam a 10% ou 20% no máximo.
Mesmo assim, pode até parecer paradoxal, mas eu acho que hoje, se você pensar no
futuro da indústria de bens de capital sob encomenda e na forma que estão tomando esses
novos processos de produção, de combinação de trabalho com informatização, o Brasil ain-
da é um país que tem vantagens comparativas em relação aos países desenvolvidos. Não
apenas porque tenha uma mão-de-obra desqualificada barata, mas porque tem mão-de-obra
qualificada muito barata. Um engenheiro aqui custa um terço do que custa na Alemanha, ou
até menos. Essa indústria, por ser trabalho-intensiva em relação a outras indústrias — como
a indústria química ou siderúrgica ou de papel e celulose — , no caso brasileiro, por ter o país
um certo nível de qualificação do trabalho tanto em termos dos chamados trabalhadores
qualificados como os engenheiros, ou semiqualificados como os operários especializados, é
uma indústria competitiva.

70
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

No caso das empresas multinacionais, elas já tinham percebido, já sabiam que o Bra-
sil seria uma boa base para produzir determinado tipo de equipamento. Existe até um movi-
mento de migração de equipamentos de certos países europeus como Itália e Alemanha
para o Brasil tendo em vista essas vantagens. A abertura inclusive está facilitando esse tipo
de migração, porque no Brasil havia muitos componentes que não tinham economia de es-
cala para se tornarem competitivos, e a indústria de bens de capital se tornava não competi-
tiva por não poder comprar uma série de componentes que, no caso brasileiro, ou eram de
qualidade ruim ou tinham um preço extremamente elevado.
As empresas estão tendo a possibilidade de utilizar as vantagens montadoras que
existiam no país e, ao mesmo tempo, comprar os componentes necessários fora. Isso não
quer dizer que se vá inviabilizar a indústria brasileira de componentes e que fiquemos aqui
só com a montagem. Na indústria de componentes — que são, inclusive, bens seriados — há
uma grande parcela que é competitiva e está se adaptando às exigências de qualidade e de
produtividade internacional, mas uma parcela não é competitiva e simplesmente seria suca-
teada.
Em relação ao que as empresas estão fazendo para se adaptarem, elas estão menos
investindo em novos equipamentos e mais implantando o sistema de qualidade total. E aqui
eu vou usar o nome sistema de qualidade total em oposição ao nome controle de qualidade
que é a visão anterior. O controle é a idéia de que depois de feita a produção alguém vai con-
trolar e vai refazer os erros que porventura tiverem sido cometidos para minimizar as falhas
durante o processo. A idéia de sistema de qualidade total é que não se vai fazer errado. Pode
até ocorrer o erro, mas nesse casos o processo não continua. Por que as empresas estão fa-
zendo isso? Em parte porque isso aumenta a qualidade, e na indústria de bens de capital sob
encomenda quem não tem qualidade não tem marca e não compete no mercado interna-
cional a médio e longo prazo. Isso aumenta a produtividade e, além disso, as exigências de
qualidade no comércio internacional estão aumentadas.
Existe um sistema de qualidade chamado ISO 9000 que é uma tendência não só no
Brasil mas em nível internacional. Mais que um padrão de medida de qualidade, ele é um
sistema que envolve a auditoria de todo o processo de fabricação para ver se as empresas
estão produzindo com qualidade. Dependendo do tipo de empresa e de processo, se faz o
projeto ou não, há uma certificação diferente, são as normas ISO 9001, ISO 9002, até 9004. E
a tendência mais forte depois que começou o processo de abertura foi caminhar no sentido
da ISO 9000, e é claro que isso exige treinamento. As empresas reclamam da abertura com
recessão mais por causa da recessão e menos por causa da abertura, porque isso certamente
reduz sua capacidade de investimento. E não estou falando de investimento em capital físi-
co, mas principalmente na área de recursos humanos.
Uma distorção da industrialização de substituição de importações foi que as empre-
sas se tornaram excessivamente verticalizadas. Elas produzem muitas coisas dentro de uma
mesma fábrica, sendo que a tendência internacional é especializar as plantas, embora não a
empresa. Está havendo um processo de melhoria do relacionamento com os fornecedores,
apesar de ele ser lento. Existe uma tentativa de terceirizar, ou seja, passar para fora atividades
industriais que podem ser feitas melhor por outras empresas. Isso muitas vezes significa, in-
clusive, transformar parte dos empregados em empresários, mas de modo que eles formem
novas empresas. Esse não é um processo simples, muitas vezes tem sido utilizado de manei-
ra pouco séria, pura e simplesmente para reduzir custos trabalhistas, mas é possível ir além
disso. Essa tendência de especialização é internacional e eu acho que ocorre no Brasil tam-
bém.
Outra coisa que está acontecendo em termos das relações de trabalho é que algu-
mas empresas já estão colocando um sistema de participação, não digo nos lucros, mas nos

71
CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

ganhos de eficiência, com resultados que às vezes são muito surpreendentes. Mesmo consi-
derando falhas de formação da mão-de-obra, por causa também das falhas da educação pú-
blica, as empresas que têm implementado isso de maneira profunda têm conseguido ganhos
muito interessantes.
Existe o caso de uma empresa nacional, do Paraná, onde se conseguiu em dois anos
quase dobrar a produtividade. É claro que não é só pelo investimento em recursos humanos,
a parte de informática é importante, mas eu acho que a mudança nas relações de trabalho
também jogou um papel muito importante — a desverticalização da hierarquia, ou seja, a re-
dução de graus hierárquicos, a possibilidade de maior fluxo de informação entre trabalhado-
res e engenheiros.
Se a gente fosse tirar hoje um retrato da indústria de bens de capital — e eu estou
falando dos bens de capital sob encomenda, que é uma indústria bastante concentrada — ,
há em torno de sessenta ou setenta empresas contribuindo com quase 100% dos bens de
capital sob encomenda no Brasil. O grau de concentração nas quatro maiores empresas é
superior a 50%. Há três segmentos principais, caldeiraria, equipamentos mecânicos e equi-
pamentos elétricos, e em cada segmento as quatro maiores empresas respondem por mais
de 50% do valor da produção. Eu não posso falar a mesma coisa da indústria de bens seria-
dos, que é muito mais diversificada em termos da demanda que atende — máquinas têxteis,
máquinas-ferramentas etc. — , tem vinte e tantos segmentos principais que são atendidos por
essa indústria e o número de fabricantes deve variar entre 1500 e 2000.
Sobre a perspectiva que os próprios empresários têm a respeito da competitividade
da indústria no futuro, eles vêem isso com otimismo desde que sejam resolvidas algumas ex-
ternalidades que são muito importantes para a indústria de bens sob encomenda, principal-
mente a questão do financiamento. Porque eles estão levando em consideração a vantagem
comparativa em termos salariais. E aqui eu ressalto de novo: em relação à própria mão-de-
obra qualificada há uma vantagem comparativa. Eles esperam que, se as outras medidas fo-
rem tomadas e essa reestruturação industrial-financeira acontecer, a indústria se desenvolva.
Vou retomar o tema da Câmara Setorial de bens de capital para comparar com a da
automobilística, que está sendo apresentada como um exemplo. Primeiro, a ABDIB [Associa-
ção Brasileira para o Desenvolvimento das ndústrias de Base] não é um sindicato e não se
envolve diretamente em negociações salariais, mas as empresas obviamente sim. O que dá
para sentir sobre a relação capital-trabalho é que, na maior parte das empresas, a negociação
com os sindicatos tende a ser esporádica e muito concentrada em torno dos dissídios. Existe
um desconfiança muito grande dos empresários em relação aos sindicatos. Nesse próprio
processo de descentralização e de participação dos trabalhadores nos resultados das empre-
sas, existe desconfiança quando há participação dos sindicatos. Isso faz parte de uma longa
tradição da sociedade brasileira de não reconhecer o que o outro pensa. Tanto assim que na
Câmara Setorial de bens de capital, que chegou a funcionar razoavelmente durante seis ou
sete meses até o final do governo Collor, não se chegou sequer a colocar a idéia da partici-
pação dos trabalhadores; a questão das relações trabalhistas ficou de fora.
É claro que a questão das relações trabalhistas é vista também pelos empresários
como uma coisa que não diz respeito à estratégia da indústria como um todo — que estava
sendo discutida na Câmara Setorial — , mas mais à questão de produção, de qualidade e pro-
dutividade, e mesmo assim com resistências. E é contraditório, porque o sistema de qualida-
de total pressupõe participação, sem participação não tem como impor qualidade total. Ou
existe adesão e apoio dos trabalhadores ao sistema, ou ele não funciona; não adianta colocar
uma série de pessoas muito qualificadas em administração porque elas não vão dar conta.
Existem exemplos nos EUA, como o da Motorola, onde se tentou implantar sistemas de qua-
lidade à força e não funcionou. E quando foram avaliar por que, descobriram que havia tra-

72
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

balhadores que nem sequer falavam inglês, um problema de comunicação no chão-de-fábri-


ca. Aqui no Brasil isso acontece de maneira até mais grave.
Além da desconfiança, há o problema da estrutura institucional da legislação traba-
lhista que é inadequada. A CLT pune as empresas que quiserem montar sistemas de tercei-
rização ou de participação dos trabalhadores nos resultados. Por exemplo, se se começa a
dar bonificações durante um certo tempo como ganho de produtividade, isso acaba sendo
incorporado ao salário e não pode ser variável. As empresas que estão fazendo isso correm
o risco de, no futuro, sofrer ações trabalhistas alegando que essas remunerações eram na
verdade salário disfarçado e que, se a empresa não pagou num determinado mês, é porque
ela estava provocando uma redução do salário nominal, o que é proibido por lei.
Por último, esse acordo da indústria automobilística está sendo muito festejado, mas
eu acho que ele também tem problemas. Primeiro, dificuldades de extensão desse modelo.
Não é só porque a indústria automobilística tem um grau de concentração que não se encon-
tra nem mesmo na indústria de bens de capital sob encomenda, que é das mais concentra-
das. É muito diferente pegar setenta empresas ou cinco para negociar. Por mais que as quatro
maiores de cada segmento, ou as doze maiores, tenham mais de 50% do mercado, para que
um acordo desses funcione é preciso ter uma adesão muito significativa que eu acho difícil
de conseguir em bens sob encomenda. Em bens seriados então, em que são 2 mil produto-
res, eu acho que, conhecendo a estrutura de representação empresarial e a fluidez que ela
tem, é praticamente impossível querer estabelecer regras muito rígidas de fixação de salários
e preços, considerando essa dispersão e o grau de legitimidade da representação.
Outro problema que eu vejo é que a indústria brasileira, por causa do fechamento da
economia e do tamanho do mercado, tem uma tendência forte à formação de cartéis ou ao
que se chama em administração industrial de conluio tácito para a fixação de margens de
lucro. E isso é péssimo porque, se você quer uma indústria que seja inovadora, ela precisa
de competição. É óbvio que uma indústria automobilística compete de maneira mais con-
centrada. Mas mesmo assim, essa tendência gerencial de descentralização está vinculada ao
aumento de produtividade e qualidade, e se se começa a estabelecer parâmetros muito rígi-
dos de negociação entre trabalhadores e empresas numa Câmara Setorial, como metas de
investimento, produtividade e salário, a tendência será a de ossificar o funcionamento das
empresas e dificultar uma maior descentralização que eu vejo como algo positivo em termos
de produtividade e qualidade.
Eu acho que ao discutir as Câmaras Setoriais é preciso pensar qual o papel que elas
devem cumprir e até onde elas devem ir para não ter impactos negativos no sentido de evitar
essas tendências de maior competitividade e descentralização.
José Arthur Giannotti — Antes de abrir o debate para o público eu gostaria de propor
uma questão aos expositores, em particular à Nadya. Do ponto de vista da sociologia é evi-
dente que essas novas tecnologias alteram relações sociais básicas na fábrica e na socieda-
de. Do meu ponto de vista, eu pergunto se há uma alteração fundamental na concepção do
trabalho tal como ela é desenvolvida a partir do século XVIII. Eu não vejo muita diferença, e
isso é o interessante.
Até o século XVII predomina a idéia grega da phronesis, a prudência, a moral no tra-
balho e a teoria; nós temos saberes diferentes, o saber teórico é o saber visual, muito mais
articulador simbólico do que provavelmente esse saber a que o Luciano estava aludindo. Isso
surge no século XVIII. No kantismo, no momento em que se pensa que a relação de finalida-
de é uma relação orgânica, há uma dominação do todo sobre a parte, e portanto temos aí
uma integração geral, inclusive o trabalho não mais como produtor, como obtenção de um
objeto, mas o processo de trabalho sendo parte do processo produtivo com uma identidade
maior.

73
CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

No meio de tanta mudança, não mudou nada no metabolismo do homem com a na-
tureza? Porque no fundo aparece sempre a idéia de que nós não temos mais uma produção
do objeto, mas temos um grande mecanismo, um grande organismo em que o trabalho con-
siste muito mais em estimular mudanças nesse organismo do que propriamente em se em-
prenhar do trabalho artesão na produção do objeto. E isso já foi pensado a partir da finalidade
sem fim da obra de arte, a partir da indistinção básica entre teoria e prática, a partir do kan-
tismo.
Eu sei, é estranho, ou a filosofia avançou muito na percepção da nova relação que o
homem passou a ter com a natureza ou, ao contrário, nós estamos cegos para o que está
acontecendo atualmente. Eu gostaria de um comentário sobre isso.
Leonardo Gomes de Mello e Silva — Na discussões sobre política industrial no Brasil,
tem-se levantado a necessidade da extensão do fordismo, não do ponto de vista do processo
de trabalho, isto é, do que o fordismo significa como separação entre concepção, execução
e linha de montagem, mas no que ele significa em termos de extensão da capacidade de
consumo. Eu queria que o prof. Luciano e a profa Nadya comentassem como é que essas no-
vas formas de produção vão se conectar com essa questão da extensão ou não do consumo.
Roseli Martins Coelho — O Artur disse que os sindicatos não participam da Câmara
Setorial de bens de capital. Eu pergunto que sindicatos são esses e quais as razões para a
ausência deles na Câmara Setorial. Você acha que a maior ou menor concentração do setor
influencia a postura dos sindicatos?
Alvaro Comin — Eu gostaria que o prof. Luciano Coutinho comparasse o estágio de
evolução tecnológica da indústria nacional com o da internacional e, em particular, eu gos-
taria que ele comentasse o seguinte aspecto. Quando o presidente Collor afirmou que os nos-
sos carros eram carroças a indústria automobilística se defendeu creditando esse atraso à re-
serva de mercado na informática, que nos impediria de estar no mesmo estágio que o Japão.
Eu queria que você [Luciano Coutinho], como defensor da reserva de informática, comen-
tasse isso. Sob esse aspecto, eu queria também que você comentasse quais as possibilida-
des de um país como o Brasil ingressar nessa modernidade tecnológica produzindo ao me-
nos uma parte dessa tecnologia. Nós temos capacidade de produzir alguma coisa? Em que
segmentos?
Gostaria que a profª Nadya, que conhece bastante a literatura internacional, comen-
tasse, do ponto de vista das transformações no processo de trabalho, que tipo de impacto
elas podem trazer sobre a organização sindical dos trabalhadores. Para o dr. Artur, uma per-
gunta e um comentário: na Câmara Setorial automobilística, em geral, os setor de bens de
capital foi apontado como o setor mais frágil na hipótese de uma abertura comercial muito
radical. Seria o menos preparado e, possivelmente, o mais seriamente afetado. Gostaria da
sua avaliação sobre isso. O comentário é apenas para relativizar a sua afirmação de que o
setor automobilístico é altamente concentrado porque são só quatro grandes montadoras,
lembrando que este setor é composto também pela indústria de autopeças que é bastante
diversificada e conta com milhares de empresas e que, no entanto, foi capaz de se fazer re-
presentar sindicalmente.
Nadya Araujo Castro — Com relação à questão sore o impacto das inovções sobre a
organização sindical, me parece que ele será enorme. Em primeiro lugar, há mudanças im-
portantes no perfil do trabalhador que vai ser representado pelas organizações sindicais. Esse
trabalhador muda e muda muito. Muda em termos de estrutura de emprego, em termos de
composição etária, da composição por nível de escolaridade, por nível de participação no

74
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

processo produtivo, por tipo de relação de trabalho. Isso quanto ao trabalhador permanente,
direto.
Uma segunda linha de discussão que me parece interessante é essa que está aberta
a partir da acentuação da externalização do trabalho, da subcontratação, da terceirização, ou
que nome se queira dar a isso. As tarefas centrais no processo produtivo passam a ser exer-
cidas, às vezes dentro da própria planta, mas por trabalhadores que estão contratualmente
fora da planta. Eu acho que isso é um elemento extremamente importante, não só pelo efeito
quantitativo, já que se reduz o tamanho da base dependente do sindicato, mas sobretudo em
termos das relações sociais que se tecem aí. Agora, a questão mais importante se coloca a
partir dessas mudanças organizacionais. Está cada vez mais claro que a tendência dos anos
80, que era em termos de renovação de equipamentos, vai se tornando mais e mais comple-
xa em termos de renovação na organização da produção e, sobretudo, na forma pela qual o
trabalhador se incorpora ao processo de trabalho — ou seja, como é tecida a relação de com-
promisso e lealdade entre empresa e trabalhador.
Parece que está havendo uma segmentação e esses trabalhadores que estão no co-
ração do processo produtivo das empresas estão ganhando em termos materiais; mas o que
me parece mais interessante é que as empresas acenam concretamente com benefícios ma-
teriais diante dos quais os sindicatos não têm tido o que dizer. Quando se põe sobre a mesa
a questão dos prêmios de produção — com todo o limite que a legislação impõe, e a força
com que as empresas têm se arriscado em enfrentar esse limite — , fica evidente a centrali-
dade da bonificação e dos prêmios de produção nãão só como elemento de aumento de pro-
dutividade, mas como elemento real de barganha. Ou seja, o trabalhador sabe que tem algo
efetivamente a ganhar no compromisso com a empresa, algo material muito claro.
Me parece que nessas novas formas de gestão há elementos simbólicos e há elemen-
tos materiais, uns e outros extremamente efetivos em termos dessa política de incorporação
do trabalhador individual, e é aí que eu queria chegar. Diante do sindicato o trabalhador pode
passar a perceber que tem algo a ganhar como indivíduo, e ele não sabe se o caminho muito
longo da mobilização sindical fará o mesmo efeito ou não. Não é à toa que a gente encontra
empresas que são muito eficazes em termos de dessindicalização. Se eu não estou errada, a
FIAT conseguiu dessindicalizar quinhentos trabalhadores no ano passado ou retrasado. É pre-
ciso pensar sobre isso.
José Arthur Giannotti — Esse processo implica uma consciência de maior participa-
ção do trabalhador na fábrica enquanto tal ou o trabalho continua sendo para ele uma coisa
exterior?
Nadya Araujo Castro — Esse processo convive com um contexto onde as relações
entre chefias e subordinados, no chão-de-fábrica, ainda são prevalentemente autoritárias.
Tudo parece muito civilizado na mesa da Câmara Setorial, mas daí ao chão-de-fábrica parece
que tem um caminho muito longo que a gente precisa aclarar. Há todo um esforço de mo-
dernização gerencial que passa não só pelo enxugamento dessas chefias intermediárias,
mas por desenvolver uma outra cultura de gerenciamento do trabalho, porque você está tra-
tando de um mundo que é fortemente autoritário e tem uma compreensão do trabalho como
um trabalho prescrito. E na realidade de um quadro de relações industriais onde os sindica-
tos não têm para o patronato legitimidade enquanto instrumento de negociação, a organiza-
ção coletiva no chão-de-fábrica é extremamente reduzida e a cultura gerencial é fortemente
autoritária.
Ao lado disso, o nível de qualificação e alfabetização também é baixo; nós sabemos
de empresas que alfabetizam seus trabalhadores para poder depois começar o treinamento
mais refinado. A gente está tratando de um mundo complexo onde o ajuste desses modelos

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CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

não é necessariamente automático. Essa incorporação dos trabalhadores pode, às vezes, não
passar por um envolvimento real, pode passar por um envolvimento simbólico. Há envolvi-
mento material mas, extensivamente, essa inteligência humana no trabalho — que poderia
ser incorporada como virtualidade dessas novas formas técnicas e organizacionais — está
sendo usada de maneira muito parcial e seletiva, tanto quanto os equipamentos o são. A in-
corporação da automação e de seus impactos pode ser muito localizada, seletiva e parcial,
para certos trabalhadores, em certos momentos.
Artur Barrionuevo — As duas perguntas que me foram feitas são complementares. A
primeira é por que os sindicatos não participaram da Câmara Setorial de bens de capital. As
Câmaras Setoriais surgiram do governo para a sociedade. O governo Collor, no início, apesar
de ter tido mentores intelectuais de esquerda, tinha uma visão que parecia a do James Bu-
chanan sobre a public choice, de que qualquer participação de algum segmento social no
governo ou Estado era para conseguir vantagens ou coisas que, no final, acabavam prejudi-
cando a sociedade como um todo. Quando assumiu o Marcílio Marques Moreira, quem assu-
miu a Secretaria de Economia foi a Dorotthea Werneck, e ela é que acabou dando mais es-
paço para as Câmaras Setoriais. A Câmara Setorial da indústria automobilística começou com
a participação dos trabalhadores, mas eu acho que talvez tenha sido a única ou uma das pou-
cas que, desde o início, tenha tido a participação dos trabalhadores.
No início, essa relação de Câmara Setorial era muito mais uma relação entre governo
e empresas onde a questão da relação de trabalho não era uma coisa central. A Câmara Se-
torial surgiu, primeiro, para discutir descongelamento de preços, mas isso acabou rápido e
se começou a discutir as necessidades de cada setor industrial em termos de estratégia de
desenvolvimento. Começou apenas com os empresários, sem os trabalhadores. E eu acho
que tanto pelo lado do governo como pelo lado dos empresários não houve essa vontade
muito forte de, inicialmente, incluir os trabalhadores. No caso da indústria automobilística foi
diferente. Já existia uma representação forte que pressionou para participar.
Em relação à outra questão, de que o setor de autopeças é diversificado e ele tam-
bém participa de uma Câmara Setorial, acho que tem uma coisa importante. Embora a auto-
peças seja fundamental na indústria automobilística, não dá para negar também que o nú-
cleo na indústria automobilística são as montadoras. Inclusive, há estudos que mostram que
a competitividade entre os países se dá através dos complexos industriais. Existe a indústria-
chave e as indústrias correlatas, de fornecedores, equipamentos, componentes. A primeira
tem o produto e as outras são o processo. Ela é quem direciona e define a capacidade da
indústria automobilística para se integrarem nível internacional e ser viável. Do lado dos tra-
balhadores havia também uma concentração da produção muito forte no ABC que favoreceu
o processo de negociação. Por que os sindicatos não participaram na indústria de bens de
capital? Primeiro porque ou você trabalha com as centrais sindicais ou você teria que traba-
lhar com sindicatos do Brasil inteiro. É claro que uma parte está na Grande São Paulo, mas
há várias indústrias no interior de São Paulo, algumas em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no
Rio Grande do Sul, no Paraná etc. É uma indústria muito mais diversificada em termos de
plantas do que a automobilística, o que dificulta um processo de negociação.
A última observação é que na Câmara Setorial da automobilística se chegou à con-
clusão de que o segmento mais frágil em face da abertura comercial seria o de bens de ca-
pital. Eu concordo com isso e acho que especialmente a parte seriada é frágil e há segmentos
que talvez não tenham fôlego para se tornarem competitivos. Possivelmente vai haver uma
reorganização da indústria de bens de capital. É claro que é preciso estimular que aqueles
segmentos que podem se tornar competitivos o façam e reabsorvam as perdas de emprego
que vão ocorrer em outros. Agora, eu também não superestimaria esse impacto negativo da
abertura sobre o setor de bens de capital. Em bens de capital sob encomenda eu tenho tran-

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REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

quilidade em dizer que uma parcela muito significativa é competitiva. Na parte de bens se-
riados, depende. Os menos informatizados e que não fazem parte de grupos internacionais
vão ter mais dificuldades. Eles, provavelmente, vão ter que se especializar no que forem mais
competitivos.
Também penso que quando se fala no atraso da indústria automobilística a questão
da informática e de bens de capital em parte é verdade. Mas, de outra parte, a péssima rela-
ção com os fornecedores que eles desenvolveram durante toda a sua história, e idem com
os trabalhadores, isso é culpa da própria indústria automobilística. E isso tudo, mudando, po-
deria trazer, mesmo com mais ineficiência nos bens de capital, um grau significativo de au-
mento de produtividade a que não se chegou. Para mim isso é muito mais uma justificativa
pelo fato de se ter ficado parado durante tantos anos do que um fato real.
O problema básico do setor de bens de capital hoje é a crise. Se você não tiver um
nível mínimo de demanda e uma perspectiva de demanda futura os empresários não vão in-
vestir no setor. Eles precisam desesperadamente de algum nível de demanda para, inclusive,
realizar as modificações necessárias. Eu acho que esse acordo é extremamente benéfico
para o segmento de bens de capital.
Luciano Coutinho — As perguntas são realmente muito abrangentes, difíceis. Primei-
ro, a pergunta do Giannotti que em parte a Nadya respondeu. Eu acho que a substância do
trabalho do século XVIII para cá não mudou mesmo, o trabalho continua, pelo menos até
onde a gente pode ver, submetido ao capital, é um trabalho que está dentro do processo de
reprodução do capital e, nesse sentido, não tem nada que ver com a concepção pré-kantia-
na. Agora, há uma mudança na forma de subordinação do trabalho. Se eu pegar a tendência
do modelo ideal ao qual essa automação levará, podemos discutir o ritmo e o tempo, mas
ela vai levar — com uma certa perversidade de truculências, problemas e desigualdades no
caminho — a uma mudança na forma de subordinação do trabalho. O trabalho está deixando
de ser um puro apêndice da máquina, no sentido do filme Tempos modernos, do Chaplin, e
vai passando a ser um ator coadjuvante, vamos dizer assim, com autonomia muito limitada
para interagir com o sistema de máquinas.
O sistema de máquinas não é rígido, mas programavel, inteligente, flexível e isso exi-
ge uma força de trabalho que, embora subordinada ao sistema, esteja inserida num grande
mecanismo inteligente que exige que o trabalhador seja um ator coadjuvante e não mais
uma mera peça. Isso em termos de tendências. Agora, é claro que no processo brasileiro se
está muito longe disso e que o uso dessa faculdade é muito limitado. E ainda hoje, mesmo
nos países desenvolvidos, a capacidade de reprogramação, de reorganização, tudo isso está
dentro de um espaço limitado.
No fordismo havia um processo absolutamente autoritário de produção e subordina-
ção. Agora temos um processo que continua a ser autoritário, mas que passa a ser relativiza-
do. A forma de organizar-se em células para atender às metas passa a ser flexibilizada, e isso
já é uma autonomia relativa, mas o trabalho continua acorrentado e subordinado ao capital.
Nesse sentido, não há uma mudança de substância profunda no trabalho. Sobre a antevisão
de Marx nos Grundrísse de que a automação leva a uma tal potência que enfim liberta o tra-
balho da produção, disso ainda estamos muito longe.
Quanto à pergunta sobre a questão brasileira, eu acho que a primeira lição que se tira
é que no Brasil o impacto da modernização é muito diferenciado por indústria e por tipo de
processo de trabalho. Essa panacéia do fordismo, de tomar uma definição stricto sensu do
fordismo e querer generalizar, leva a muitas simplificações. Eu tenho uma encrenca teórica
antiga quanto à teoria do fordismo enquanto modo de acumulação de capital, mas agora que
ela virou uma panacéia para explicar relações de trabalho, generaliza um modelo. Mas há

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CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

coisas que são muito diferentes no processo de trabalho, não são uniformes. Vale a pena ver
por dentro da indústria como isso está acontecendo.
Em uma pesquisa recente que estamos realizando com uma amostra de 450 empre-
sas fica claro que os impactos da modernização são diferentes. Esse processo não vai acon-
tecer da noite para o dia, e no Brasil ele tem a especificidade de ser muito mais defensivo.
As inovações organizacionais estão sendo introduzidas mas em cima de uma estrutura de
produção antiga, em geral reestruturando o lay-out, tentando mudar sem avançar muito na
automação. Há um ajuste muito violento das estruturas hierárquicas, há cortes de níveis in-
termediários de gestão que estão sendo feitos de maneira brutal.
Isso também foi detectado numa pesquisa que foi feita pela CEPAL. Foram entrevis-
tadas as cinquenta maiores multinacionais e, nos últimos seis meses, o corte de trabalho é,
em média, de 33% da força de trabalho, e em alguns casos de mais da metade da força de
trabalho. O corte de gerentes intermediários é brutal, também pelas empresas líderes. É um
ajuste muito rápido que está sendo feito, por causa da violência da recessão, que obrigou a
fazer um down sizing, por causa também da perspectiva da abertura. Isso obriga a fazer uma
escolha de linhas, uma escolha de atividades onde se tem certeza de ser competitivo; sacri-
fica-se outras coisas e corta-se brutalmente, de uma maneira cirúrgica, a gerência interme-
diária. É um movimento defensivo mas que está sendo feito com muita rapidez e isso está
criando um desemprego novo, com novas características. Especialmente em São Paulo isso
ainda não está sendo muito percebido. Eu me lembro de vários sociólogos do trabalho que
comemoravam a grande mobilidade ascendente que a industrialização brasileira permitiu, a
criação de novos postos de trabalho, de uma nova classe média com altos salários. Nós esta-
mos assistindo agora a uma mobilidade descendente e impiedosa de vários segmentos, por-
que o demitido não tem volta. Ele sai de uma estrutura de gerência antiga, aqueles postos de
trabalho desaparecem da estrutura administrativa e não voltam mais, assim como postos de
trabalho que começam a desaparecer por queima de linha de produção e não só por rees-
truturação.
A segunda coisa é que evidentemente você tem um espaço econômico para a exten-
são do fordismo, mas é claro que no Brasil, com doze anos de crise, há uma repressão de
consumo de massa violenta. Nós temos uma sociedade em que o consumo de massa está
restrito a uma terça parte da população, se tanto, no Centro-Sul do país. Mas é evidente que
você tem, em primeiro lugar, os 50 milhões de pobres analfabetos totalmente marginaliza-
dos, e tem um pedaço que está no informal terceirizado — aquela situação intermediária de
uma ocupação permanente que dá renda mas não está no regime previdenciário, no regime
formal de trabalho. Tem uma sociedade com um potencial enorme.
Não é à toa que a redução de carga tributária e a redução do preço do automóvel pa-
drão devem provocar uma explosão de demanda muito forte em torno dos modelos padrão
— o que não é grande mérito da indústria automobilística, porque eles não melhoraram a
produtividade, eles reduziram o preço do carro que era 11 mil dólares há pouco tempo, de-
penaram uma série de acessórios mais caros, reduziram a carga tributária e o preço caiu para
7 mil dólares. O que mostra que, se você fabricar um carro ainda mais barato por eficiência,
você tem um mercado de massa brutal no país, e estandardizado. Não precisa a sofisticação
dos carros da Nissan, nós estamos muito longe disso. Ao contrário, você pode até baixar, es-
tandardizar e atender a um mercado reprimido que está aí clamando para consumir. Há um
espaço muito grande para o consumo de massa, a produção de massa estandardizada, em
grande escala. Inclusive porque, com a precariedade do sistema de transporte coletivo, o
transporte através do automóvel é uma demanda real. Existe a possibilidade não só para esse
setor como para o consumo reprimido em várias coisas.

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REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

Quando se observam os dados de consumo per capita, constata-se que caiu o con-
sumo de metros de tecido por habitante, caiu o consumo per capita de pares de sapato, caiu
o número de quilos de carne consumida. Isso nos anos 80. Já havia um nível de consumo
relativamente baixo e ainda caiu, fisicamente. Isso mostra um empobrecimento. Se você
melhorar a economia com algum governo decente, que faça uma política de descompressão
salarial, o consumo de massa cresce pesadamente e há uma etapa de transição que permi-
tiria fazer escala de produção, permitiria que as empresas se rentabilizassem para, num outro
estágio, fazer as transformações. Existe certamente uma transição longa a ser percorrida no
Brasil.
Agora, os efeitos dessa reestruturação no que diz respeito a estruturas organizacio-
nais, gerenciais, já estão acontecendo em paralelo e de modo predominantemente perverso.
Segundo o estudo do sindicato dos metalúrgicos feito em conjunto com o DIEESE, a terceiri-
zação está sendo violenta e perversa, porque tira o sujeito da fábrica, joga ele para fora a um
custo muito mais baixo de remuneração por trabalhador, com uma precariedade muito
maior, porque a empresa maior pode deixar de contratar, sem encargos sociais. Não é ainda
uma terceirização virtuosa que está fazendo um network neste momento. Eu acho que na
situação brasileira os efeitos perversos são mais fortes hoje que os efeitos virtuosos. Isso leva
a uma nova polarização.
Por outro lado, há novos salários altos nos serviços sofisticados de programação e
pode-se ter um novo tipo de dualismo. Um dualismo que começa dentro da classe média alta
assalariada, que foi a classe do "milagre", e agora um pedaço dela entra em mobilidade des-
cendente e tem os novos ascendentes. Você tem aí uma polarização nova na distribuição de
renda e cuja manifestação, eu desconfio, é muito mais forte no setor de serviços. Eu até acho
que a academia brasileira está devendo um estudo profundo sobre o setor de serviços. Só
para vocês lembrarem, uma panorâmica geral: serviços novos importantes de engenharia
em suas diversas modalidades, de consultoria em suas diversas modalidades, serviços de
mídia e show business, que são uma coisa crescente no mundo inteiro, serviços de publici-
dade, de processamento de dados e informática em suas diversas modalidades, editoração
eletrônica de textos, design, contabilidade, informação. É curioso ver a quantidade de peque-
nas empresas de editoração, de processamento de textos, tudo coisa pequena, coisas novas
que estão surgindo aí no mercado. Obviamente, além dos impactos dessas mudanças sobre
os serviços convencionais do tipo bancos, finanças, seguros, comércio, transportes, serviços
de limpeza etc. Esse animal heterogêneo e extremamente complicado que é o setor de ser-
viços precisa ser reestudado.
A última pergunta foi a provocação feita sobre a questão da informática e da indústria
automobilística. Houve uma discussão muito forte num certo momento por causa da intro-
dução da injeção eletrônica. Eu tive uma briga muito dura com a indústria automobilística
porque eu queria que a injeção eletrônica, que é uma coisa relativamente banal, fosse feita
pela indústria de capital nacional. Estava dentro do alcance tecnológico das empresas e eu
quis enquadrar na reserva de mercado. Eles não quiseram de jeito nenhum, porque queriam
que fosse a Bosch, que fosse a Delta. Obviamente isso criou um problema grave. O bico in-
jetor para motor a álcool é um problema tecnicamente complicado que eles não domina-
vam, não havia tecnologia desenvolvida. Até desenvolver não só os sensores, mas a parte me-
tálica, demorou um ano e meio. Por isso, houve uma queda de braço muito dura, eles foram
forçados a licenciar para duas empresas nacionais depois de uma duríssima negociação; ob-
viamente por causa dessa negociação eu passei a ser alvo de críticas pesadas durante muito
tempo por parte das montadoras.
Quando entrou o Collor e caiu a reserva de mercado, as multinacionais desmancha-
ram rapidamente os contratos e são eles que agora fornecem a injeção eletrônica. Houve um

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CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

certo atraso na introdução desta tecnologia por causa dessa discussão. Mas é evidente que
não é isso o que explica o atraso da indústria automobilística. Eu consegui me vingar da in-
dústria automobilística quando nós produzimos aquele relatório de 89-90 — na verdade pe-
gamos a metodologia do MIT — e fizemos o primeiro retrato da indústria automobilística, que
aliás não foi assinado pela Unicamp, porque se fosse já seria suspeito. Era um relatório do
MIT pegando todos os índices de produtividade, que mostrou que nós éramos os mais atra-
sados do mundo, que demorávamos 48 horas para montar um carro enquanto o Japão mon-
tava em dezessete. E, além do mais, tínhamos um mix de produto velhíssimo: a idade média,
naquele tempo, era de treze anos. E nós fizemos uma crítica muito forte com esse relatório,
que foi desqualificado. A Anfavea chegou a ligar para o MIT para dizer que eles estavam tra-
balhando com pessoas inidôneas e que deveriam mudar. Foi feita uma pressão muito forte
dizendo que aquele relatório era absurdo, que a indústria automobilística brasileira era com-
petitiva, era moderna.
Depois mudou o quadro, inclusive por pressão sindical. Porque foi a iniciativa do sin-
dicato de ir lá conversar com as matrizes — o Vicentinho foi lá e disse: "nós temos que en-
contrar um futuro para essa indústria" — que mudou o quadro. Então passam agora a usar o
relatório daquele tempo para dizer: o magnífico relatório preparado pela equipe do prof. Lu-
ciano Coutinho mostra que a indústria está atrasada. A informática virou durante muito tem-
po a Geni da competitividade brasileira. Todo mundo tinha que jogar pedra nela. Uma das
coisas mais absurdas que é repetida diariamente é que a informática atrasou a automação
industrial brasileira.
Desde 1985, qualquer máquina que tivesse um componente de informática não pas-
sava mais pela CEI (Comissão Especial de Informática]. Porque não era possível tirar o com-
putador de dentro da máquina e colocar o nacional. Qualquer máquina de comando numé-
rico computadorizado não passava pela área de informática. Se, por acaso, viessem pedir
autorização à CEI, a guia era devolvida à Cacex, que consultava o Sindimaq, que dizia que
tinha um produtor nacional que poderia fazer, e aí interrompia a importação. É claro que o
produtor nacional estava aprendendo a fazer aquilo, oferecia com um preço mais caro mas,
na verdade, quem levava a culpa éramos nós da política de informática.
Alexandre Comin — Eu queria fazer uma pergunta ao Artur. Como é que o segmento
de bens de capital está vendo essas mudanças e, em particular, se vocês pensam que as Câ-
maras Setoriais podem ser um instrumento interessante para articular novas políticas indus-
triais relativas à questão dos bens de capital. Como pensar, não na Câmara Setorial dos bens
de capital, que talvez não fosse o caso, mas dentro das Câmara Setoriais dos outros setores,
a possibilidade de os interesses do setor de bens de capital se articularem de uma forma di-
ferente do passado, quando havia uma relação um pouco menos transparente com o Estado,
com empresas públicas na política industrial. Hoje as Câmaras Setoriais permitem que se dis-
cuta isso mais abertamente, talvez em benefício do próprio setor de bens de capital.
A outra questão diz respeito ao Acordo das Montadoras em relação aos bens de ca-
pital. Depois de ler a íntegra da lei que saiu sobre a questão da abertura, fiquei com a impres-
são de que o setor de bens de capital ia chiar muito com a permissão de importar cerca de
50% das exportações do ano anterior. No caso da FIAT, por exemplo, uma enorme quantidade
de tornos e outros equipamentos podem ser importados. Queria que você falasse um pouco
mais sobre isso. E eu desdobro a pergunta para o Luciano, para abordar a questão da infor-
mática. Aparentemente a industrialização vai no sentido de uma intensidade cada vez maior
de informatização dos processos industriais, que se desdobra em atividades não industriais
de serviços de apoio. Queria que você falasse um pouco mais especificamente sobre as mu-
danças na área de informática com o governo Collor, que basicamente reorientou as empre-
sas no sentido de adquirir tecnologia, formar joint-uentures estratégicas com grandes fabri-

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REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

cantes estrangeiros etc. Nesse quadro, é fácil pensar no desenvolvimento dos serviços de
apoio, quando cada vez mais se reforçam os laços de dependência, por exemplo, da Itautec
com a IBM? Como você está vendo isso dada a importância estratégica que você mesmo res-
saltou desses serviços e da internacionalização desses serviços?
Para encerrar, uma pergunta para a Nadya. Você vê nas Câmaras Setoriais a possibi-
lidade de um padrão de inovação gerencial e de organização da força de trabalho diferente
do que houve nos últimos cem anos no Brasil?
Edward Amadeo — Eu queria fazer uma observação sobre dois pontos que me cha-
maram a atenção. Um foi mencionado pelo Artur e é o problema da rigidez imposta pelos
parâmetros fixados na Câmara Setorial relativamente a certas exigências da flexibilização
que levariam a negociações mais descentralizadas. O outro foi levantado antes sobre o pro-
blema da representação trabalhista ou da representação sindical diante dessas modifica-
ções, que dão ao trabalhador individual um grau de autonomia muito grande relativamente
ao sindicato.
Eu creio que isso aponta para as limitações dessa estrutura de Câmaras Setoriais, se
elas forem vistas como modelos únicos de representação e negociação entre fornecedores
e empresas, sindicatos e empresas e assim por diante. Simplesmente porque, de fato, há ob-
jetivos diferentes, e para isso tem que haver mecanismos e instituições de representação di-
ferentes. Claramente, o ponto levantado pelo Artur é correto, a relação entre performance
das empresas e bonificações, a flexibilização do trabalho através de diferentes formas é al-
guma coisa que não pode sair da empresa; se possível, tem que ser feita na planta. Mas isso
implica um tipo de representação dos agentes que nós não temos desenvolvido no Brasil,
que é a comissão de fábrica. Câmara Setorial sim, mas a Câmara Setorial impõe restrições à
modernização industrial que levam à necessidade de aceitação e desenvolvimento de um
outro tipo de instituição que é a comissão de fábrica, e isso, do meu ponto de vista, encontra
muita resistência por parte do setor empresarial.
O mesmo ocorre quando se pensa, simetricamente, no que acontece da Câmara Se-
torial para cima. De novo, você tem demandas por formas de representação dos agentes que
não podem ser atendidas pelo fórum restrito da Câmara Setorial. Me refiro explicitamente a
um tipo de organismo que se debruce sobre problemas da relação capital-trabalho e, por ex-
tensão, a problemas de ordem mais geral, de políticas públicas que venham, de alguma for-
ma, a minorar e a se preocupar com os efeitos dessa modernização. Eu creio que o desen-
volvimento relacionado do desemprego e de outras formas precárias de emprego são
assuntos de responsabilidade de um fórum mais elevado que as Câmaras Setoriais.
Para terminar, recentemente o dr. Edson Musa, do grupo Rhodia, propôs a criação da
CUP, a Central Única dos Patrões. Essa proposta ia no sentido da criação de um órgão de re-
presentação dos sindicatos patronais com uma visão estratégica que claramente não é de-
senvolvida pela estrutura convencional de federações e confederações e que poderia cum-
prir o mesmo papel que a CUT cumpriu nos anos 80, como uma organização abrangente dos
trabalhadores. Com isto eu quero chamar a atenção para o fato de que nós estamos entrando
num processo de representação de interesses de uma forma muito empiricista. As Câmaras
Setoriais surgiram quase que como uma resposta ad hoc para problemas como estabilização
depois da abertura da economia, mas eu acho que, se se considerar essa problemática da
representação de interesses segundo um enfoque um pouco mais abrangente e um pouco
menos curto-prazista, vai se perceber que há necessidade de mudanças institucionais na for-
ma de representação de interesses, tanto no sentido de caminhar para a descentralização na
negociação de alguns temas como de centralização na negociação de outros.

81
CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

Elson L. S. Pires — A minha pergunta é para o Luciano Coutinho. Você colocou que
o aumento de salário teria induzido mudanças nos processos fabris nos países desenvolvi-
dos. Queria que você refletisse um pouco como é que aparecem a relação entre salários e
ganhos de produtividade e a determinação dos salários, nessa reestruturação industrial. Da
mesma forma, queria quer você desenvolvesse um pouco mais a sua idéia de mobilidade
descendente do trabalho no Brasil, também fruto desse processo, haja visto que há uma
preocupação dos sindicatos de como tentar ajustar o excedente de mão-de-obra que saiu da
indústria automobilística.
Luciano Coutinho — Com relação à questão das Câmaras Setoriais, eu creio que o
seu desenho inicial foi feito de maneira casuística, ad hoc, o que dá uma certa substância às
críticas que foram feitas ao seu neocorporativismo. Existem coisas absolutamente absurdas
nas Câmaras Setoriais e a própria Dorothea Werneck tem responsabilidade, é bom que ela
esteja percebendo isso de fora agora. Existem Câmaras Setoriais como a automobilística e a
da indústria química que abrangem todo um complexo. Mas existe também a Câmara Seto-
rial do livro. Um pequeno lobby foi ao ministro e disse que o problema do livro era de com-
petitividade e qualidade. O livro, não é nem a indústria gráfica. Ou seja, existem coisas abso-
lutamente ridículas no sistema de Câmaras Setoriais, e é necessário haver uma reforma
nesse sistema, porque elas só têm sentido em grandes complexos setoriais. Se o que se quer
é fazer das Câmaras Setoriais um locus de decisão de estratégia de modernização tecnológi-
ca e criação de horizontes de investimento — digamos, de organização de expectativas para
investimento, de desenvolvimento de cooperação com os fornecedores, com os usuários,
com os trabalhadores — , então é preciso ter uma concepção abrangente das Câmaras Seto-
riais. E depois, eventualmente, criar subcâmaras ou coisa semelhante.
A Câmara Setorial realmente tem que ser repensada, assim como a agenda das Câ-
maras Setoriais tem que ser repensada, e eu acho que a participação dos trabalhadores é ab-
solutamente essencial. A contratação coletiva do trabalho tem que ser feita no nível setorial
mais amplo para estabelecer condições gerais de salário, o piso-base, uma série de outras
conquistas gerais da classe. Mas você tem que ajustar isso para baixo, e para isso é necessá-
rio existir comissão de fábrica. A questão da comissão de fábrica também é fundamental do
ponto de vista da automação. A lei de informática, a primeira, tinha um artigo que tomava
obrigatória a criação de comissão de fábrica e o Figueiredo vetou. Nessa segunda lei que foi
aprovada, eu introduzi de novo esse artigo que também foi vetado pelo Collor. Aliás, não hou-
ve nenhuma mobilização por parte dos sindicatos, mas foi uma tentativa. O empresariado
brasileiro, mesmo o mais moderno, mesmo o mais progressista, ficou furibundo com a pro-
posta de comissão de fábrica e com a idéia de que elas devessem também examinar o pro-
cesso de automação. Eu recebi vários recados de empresários nacionais pedindo para nãoa
incluir a proposta da comissão de fábrica. Há alguns anos a agenda sindical era só salário.
Atualmente ela vem se tornando mais complexa: já incorporou a questão do emprego, do
investimento, da modernização etc.
A comissão de fábrica tem que lidar com a questão específica do sistema de remu-
neração. Existem 37 projetos de lei de regulamentação, os mais estapafúrdios, alguns pre-
vêem porcentagens fixas, participação acionária. O sistema japonês é um sistema de remu-
neração por desempenho, por metas de desempenho que têm um componente variável.
Agora existe uma fobia nos Estados Unidos — inclusive as grandes consultoras estão criando
payment for performance plans — para vender essas técnicas para as empresas. No caso bra-
sileiro existem empresas à margem da CLT praticando isso. A tendência tem sido a de fazer
o prêmio de produtividade, até como uma forma mais direta de a empresa vincular de ma-
neira muito controlada o ganho de desempenho, o ganho de produtividade e o prêmio de
remuneração, para evitar que se descole uma coisa da outra. É essa a discussão que está pre-

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REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

dominando hoje no mundo. E há aí toda uma agenda a ser pensada sobre qual deveria ser a
posição dos sindicatos e o sobre o que propor na mesa de negociações.
Voltando à questão da informática, o governo Collor tomou uma posição destrutiva e
hostil em relação à informática desde o começo. O problema, na verdade, é o seguinte. O
ciclo de produto na informática é muito rápido. Havia dois anos de vigência da lei e as em-
presas contavam com isso em seu planejamento. Entra um presidente novo e diz que vai aca-
bar — o ajuste foi instantâneo, imediato. Ao contrário de outros, a informática se ajustou mui-
to cedo, desindustrializando rapidamente e vendendo ao capital estrangeiro a estrutura de
prestação de serviços e a rede de assistência ao usuário que era o único ativo que eles ainda
tinham para vender. Já que não queriam mais investir em desenvolvimento de produto, a saí-
da era pegar o produto de fora e vender aqui. Isso foi feito de maneira muito rápida.
Mas a informática continua existindo no Brasil como um setor. Reduziu muito forte-
mente o faturamento, reduziu o preço, mas continua existindo em vários segmentos impor-
tantes. Primeiro, no mercado cativo de automação industrial, pois os grandes grupos bancá-
rios mantiveram a estratégia e, apesar de tudo, o Itaú — que tinha planos muito ambiciosos
— reduziu mas manteve o coração, o controle da automação bancária, porque eles acham
que é estratégico para o negócio não ter que depender de soluções externas. Eles já tinham
uma base importante de automação bancária e estão mantendo. Apesar de terem feito uma
diversificação de linha de produtos com produtos importados — montaram quase até em re-
gime de CKD com várias empresas — , esse negócio foi feito de maneira inteligente porque
eles não ficaram dependentes de uma única fonte de fornecimento. Há o caso da Itautec,
que é uma das poucas empresas que ainda mantêm uma estratégia própria. Você conta nos
dedos de uma mão as empresas de capital nacional que mantêm a estratégia independente,
classificadas até no relatório da Unicamp como estratégias de alto risco, porque todas as ou-
tras praticamente desindustrializaram e começaram a comercializar produtos de fora.
Há outro segmento interessante e que ainda tem força que é o de telecomunicações,
por causa do Projeto Trópico, que permitiu que as empresas nacionais mantivessem alguma
vida. A política de telecomunicações começou a se rearticular agora com o governo Itamar,
a ganhar alguma forma, e a proteger de novo alguns produtos com tecnologia nacional, o que
começa a dar a esse segmento uma certa margem via poder de compra. E o terceiro segmen-
to é a automação industrial. A automação industrial é muito intensa em horas técnicas de en-
genharia de integração. E como a nossa engenharia de integração é muito mais barata, na
verdade quando uma empresa grande vai pensar em localização ela não olha mais para custo
homem/hora do operário, mas ela olha também para o custo homem/hora da engenharia.
Engenharia barata é uma vantagem importante em relação à localização. A engenharia bra-
sileira é barata e você precisa conhecer as especificidades locais para poder ajustar. A auto-
mação industrial é uma das áreas onde houve concentração, e uma parte da mão-de-obra
qualificada de engenharia e de outros segmentos está começando a vir para a engenharia de
automação.
Acho importante criar uma "Central Única dos Patrões". Na verdade, uma das pecu-
liaridades engraçadas da política brasileira é que você teve um avanço muito grande na qua-
lidade das lideranças sindicais e a qualidade da liderança empresarial é antediluviana, muito
atrasada, e com baixa capacidade de formulação.
Nadya Araujo Castro — Começo pela questão sobre as Câmaras Setoriais e a eventual
emergência de um novo padrão de organização do trabalho. Eu retomo a idéia de que o mo-
delo de relações industriais é muito pouco afeito à negociação e ao reconhecimento de uma
equidade mínima entre negociadores. É tão inusitado que em qualquer momento patrões e
empregados possam sentar à mesa para discutir qualquer coisa sem grandes quedas de bra-
ço, que isso acaba despertando um sentimento de ufanismo. Esse sentimento contamina os

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CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

que sentaram à mesa, passa para os pesquisadores que estudam o tema e se generaliza em
certos setores mais esclarecidos da sociedade.
O Amadeo pôs o dedo numa ferida que é bem importante, que é pensar que isso é
um mecanismo, e como tal ele tem limites. É preciso ver que limites são esses, em que con-
dições ele funciona e é eficaz enquanto mecanismo e para que outras condições ele não tem
eficácia. Mas eu acho que, pela forma tão autoritária como se teceram as relações industriais
no Brasil, o que está se passando nas Câmaras Setoriais é extremamente importante para
pensar a emergência de um outro padrão de organização do trabalho. Toco em dois aspectos.
Primeiro, o fato de se ter posto na mesa e registrado no último acordo que os planos
de investimento são elementos passíveis de publicização e discussão. Quando se pensa a
empresa brasileira, há um limite muito rígido entre o que é público e o que é privado. É es-
candaloso esse sentido de privacidade que a empresa tem com relação a coisas que são ab-
solutamente banais fora do país. Eu fiquei chocada uma certa feita quando entrei numa em-
presa francesa e falei com a funcionária que faz a propaganda do que é a empresa e de como
ela funciona para qualquer ser humano. Uma das coisas que ela projetou foram dois ou três
slides sobre acidentes de trabalho, dados sobre doenças profissionais, ou seja, informações
empíricas que aqui são consideradas coisas do maior segredo e que são mantidas a portas
muito fechadas pelas empresas; as CIPAs — e às vezes o governo — têm dificuldade para ter
acesso a elas. Coisas banais que eram postas num slide para qualquer um que chega pela
primeira vez na porta da empresa e diz: "eu quero saber como é que vocês funcionam". E
isso era na Rhône-Poulenc, uma planta da Rhodia. Então, eu acho que o simples fato de que
essa questão esteja em pauta e de que isso possa ser algo posto sobre a mesa numa nego-
ciação é muito importante para pensar outro padrão de relações de trabalho. A medida da
importância disso, eu senti muito claramente quando o Cláudio Vaz disse ontem que, assim
como os sindicatos tiveram problemas de organizar sua base, os empresários também tive-
ram; tiveram sérias defecções quando empresários se acharam sujeitos a pôr em discussão
as suas estratégias de investimento, de renovação tecnológica e de uso do trabalho, porque
eles pensavam que, a partir daquele momento, passava a ser um dado constitutivo da cons-
trução dessas estratégias discuti-las. E isso era algo que não estava no horizonte do possível.
Nesse sentido, as Câmaras Setoriais têm um efeito pedagógico na formação desses mesmos
atores para se chegar a constituir algo que às vezes é banal em outros contextos societários
mas que aqui não é.
E é decisivo para pensar isso para baixo, no chão-de-fábrica. Outra vez eu me remeto
à fábrica. Lembro de novo a fala do Cláudio Vaz: uma coisa é a liderança, outra coisa o chão-
de-fábrica; nós pensamos de um jeito, os que nós dirigimos pensam de outro, os gerentes
agem muito pior na hora de tecer as relações com os trabalhadores. A gente tem que cons-
truir essa mudança a partir da direção dessa liderança empresarial. E é muito importante que
isso esteja sobre a mesa, onde estão sentadas lideranças empresariais e de trabalhadores
que são absolutamente legítimas por referência aos coletivos que eles representam e são
perfeitamente reconhecidas reciprocamente. É muito interessante que se tenha conseguido
chegar através da Câmara Setorial a levantar pontos, que cada um dos segmentos tenha che-
gado à reunião da Câmara Setorial com pontos críticos no que diz respeito à gestão das rela-
ções de trabalho, ao uso do trabalho e que estes pontos tivessem sido discutidos e consen-
suados. Se de uma agenda que, no total, tinha 118 pontos, chegou-se ao consenso em torno
de 114! Não de como encaminhá-los, mas eram questões vitais, pontos de fricção centrais
tanto para patrões quanto para empregados quanto para o Estado, e que deveriam estar so-
bre a mesa. A impressão que eu tenho é que isso é absolutamente novo em termos políticos.
Isso descortina um outro estilo de comportamento estratégico desses atores no que diz res-
peito às relações de trabalho. É evidente que as coisas que estão aí extrapolam em muito o

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REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E NEGOCIAÇÕES CAPITAL-TRABALHO

espaço das Câmaras Setoriais — seja pra cima, seja para baixo, seja no sentido de uma ne-
gociação de centrais, seja no sentido de representação coletiva nos locais de trabalho. Mas
esse é o papel delas.
Quando da preparação da participação sindical na Câmara Setorial automotiva, foi
feito um documento onde se discute exatamente essa questão do mercado sob várias pers-
pectivas. Um dos pontos onde ele vai tocar muito forte é a questão do mix de produtos, e vai
tocar isso pensando exatamente que, se se intervém nesse mix, é possível redirecionar as
tendências de crescimento dessa indústria automobilística no sentido de avançar para fatias
ainda não exploradas de mercado. Quando se fala no carro popular, pode-se ter uma expec-
tativa muito maior sobre isso. E o que eu acho mais interessante politicamente no documen-
to é que ele trata da questão não do modo que seria o natural a um sindicalista almejar —
uma política radical de redistribuição de renda que desse ao trabalhador o poder de partici-
par enquanto consumidor na saída do fordismo. Ou seja, na superação do fordismo, se esta-
ria discutindo qual a possibilidade de reorientar o modelo de crescimento industrial para do-
tar o trabalhador da capacidade de ser um consumidor. Mas o interessante é que o
documento sindical diz o seguinte: "nós não estamos querendo tudo isso, nós estamos que-
rendo simplesmente, neste momento, que se amplie esse mercado" — e é possível ampliar
em direção às camadas mais baixas da classe média ou dotar de um segundo, terceiro, quar-
to carro as camadas que já são consumidoras — "para pelo menos se conseguir garantir o
nível de emprego e sustar as perdas do salário real".
É interessante que essa discussão sobre pôr ou não na mesa de negociação a figura
do trabalhador enquanto consumidor aparece, vem à tona e é pensada numa conjuntura de
negociação. Temos ou não temos capacidade de pensar nessa direção? Acho bem interes-
sante isso. Não vamos fazer panacéia com a Câmara Setorial, mas ela é um mecanismo que
propicia essa discussão, sobretudo porque está assentada sobre atores que têm vinte anos
de enfrentamento e reconhecimento recíproco.
Artur Barrionuevo — Eu vou me limitar à pergunta sobre a importância das Câmaras
Setoriais e à questão da formulação de política industrial tendo em vista a importância estra-
tégica do setor de bens de capital. Se política industrial ou participação em qualquer mesa
significa procurar dar proteção, de novo, para segmentos de bens de capital para proteger da
concorrência estrangeira, eu sou contra e a ABDIB também. A posição clara da ABDIB é fa-
vorável à abertura e à permissão de importação. E é favorável à manutenção dessa taxa de
20% ou até menos. Quando estamos falando em formular política industrial em momento al-
gun estamos reivindicando maior proteção de mercado. E não deve haver proteção inclusive
para não prejudicar a competitividade de vários complexos setoriais, para favorecer apenas
o segmento produtor de bens de capital.
Existe uma definição básica que tem sido usada contrapondo capitalismo de merca-
do e capitalismo de network, de rede, que seria mais o capitalismo japonês. Essa é a questão
dos fornecedores em um grupo industrial, e se as Câmaras Setoriais ajudarem a melhorar
essa relação entre os usuários dos bens de capital e os produtores isso será excelente. Quan-
to ao ponto específico de importar 50% das exportações em bens de capital, se isso é preju-
dicial ou não, existe uma outra cláusula no acordo que diz que, dos investimentos, uma par-
cela do que é comprado fora sem imposto de importação tem que ser comprada na mesma
proporção internamente. Dessa maneira você garante uma demanda para os segmentos de
bens de capital. Nesse sentido é que eu acho que o acordo é positivo, ao garantir esse au-
mento de demanda num momento em que a indústria de bens de capital se encontra num
nível muito deprimido de atividades.
Só para terminar e frisar de novo essa questão da abertura, houve um trabalho no fi-
nal dos anos 60, chamado Industrial trade, onde se examinavam sete casos muito fechados

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CADERNOS DE PESQUISA N° 1 - JUNHO 1994

de industrialização substitutiva de importações mostrando os viéses que esse tipo de indus-


trialização estava trazendo. Um viés antiexportação, pelo câmbio valorizado; um viés contra
a agricultura; um viés a favor da concentração de renda, porque em geral a margem das em-
presas era muito maior do que se o mercado fosse competitivo; e uma despreocupação mui-
to grande com produtividade e tecnologia, já que se dispunha de um mercado excessiva-
mente protegido e por tempo ilimitado. Esse estudo mostrou que essas tendências estavam
em todas as estratégias de desenvolvimento via substituição de importações. Que essa estra-
tégia foi muito mais uma resposta à crise de 30, quando já havia o processo incipiente de in-
dustrialização, e que, embora ela tivesse tido sucesso parcial, estava trazendo esse tipo de
distorções. No Brasil, depois desse diagnóstico, demorou-se mais quase trinta anos para to-
mar alguma atitude em relação a essas distorções. Como as coisas iam indo bem em termos
de crescimento quantitativo, as questões foram sendo postergadas.
Dentro do setor de bens de capital existem posições antagônicas. Há alguns segmen-
tos que não são competitivos e que votariam contra a abertura. Inclusive, se eles pudessem,
voltariam atrás no que já se avançou. Outros são favoráveis porque sentem que a sua sobre-
vivência depende da abertura, depende de alguma estratégia alternativa à substituição de
importações. Na minha opinião essa alternativa vai ser a integração num bloco regional mais
amplo, algo semelhante ao NAFTA [North American Free Trade Agreement] o que necessa-
riamente implica abertura. E nesse caso vai ser preciso ver quais os segmentos em que há
competitividade para ampliar a produção e em quais não há competitividade e vai ter que
diminuir mesmo. Mas há segmentos que acreditam que o futuro é o passado redivivo, e não
é. Não há mais condições de voltar à situação que vigorou da década de 50 até o final dos
anos 70. Não dá para ficar causando danos nem prejuízos à estrutura industrial como um todo
por causa desses segmentos específicos. E, nesse sentido, a posição do setor de bens de ca-
pital é perigosa porque, justamente por ser estratégico, alguns vão dizer que se deve manter
segmentos ineficientes. Eu penso o contrário, justamente por ser estratégico não se pode dar
proteção excessiva.

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