You are on page 1of 66

CECIP AVON

a gente conve
a gente se ent
Cidadania também é beleza surgiu da
parceria entre o Unifem (Fundo de
Desenvolvimento das Nações Unidas para a
Mulher) e a Avon Cosméticos Ltda..
Esta parceria publicou, em 1999, a Agenda
Unifem, com as histórias de
vida de dez brasileiras que, apesar de
enormes obstáculos, dedicam suas profissões
ao bem-estar comunitário.
Pela primeira vez, no Brasil, uma agência de
cooperação internacional que promove a
igualdade de oportunidades entre mulheres
e homens associou-se a uma grande empresa
privada interessada em desenvolver projetos
nessa área.

ersa, Os recursos adquiridos com a venda, pela


Avon, da Agenda Unifem, foram revertidos

tende para a presente publicação, que visa ao


fortalecimento da cidadania e da auto-
estima de mulheres que talvez, de outra
forma, não tivessem acesso às informações
aqui contidas. Esta é a nossa expectativa e
será nossa maior recompensa.
Você, mulher, de qualquer cor,

Você, que passa um batom e logo vira Afinal, ainda não inventaram creme
uma estrela... capaz de acabar com as rugas de
frustração de quem precisa sustentar
Você, que quando sai do banho
sozinha a família quando o marido
cheirando a sabonete, sabe que pode
ou companheiro vai embora; nem
conquistar o mundo...
existe batom que alegre o rosto de
Você que, muitas vezes, sente desejos quem é ofendida, machucada fisica-
e sonha como uma adolescente... mente, perde o emprego ou não tem
Você que se cuida e sabe que só quem acesso aos serviços públicos de saúde.
se ama é capaz de amar os outros…
Nas páginas seguintes, você vai ser
Você, minha amiga, pode descobrir apresentada a uma série de situações
uma nova maneira de se sentir linda que você pode conhecer por experi-
e poderosa. Basta cuidar tão bem ência própria ou por terem aconteci-
dos seus direitos quanto cuida da do com pessoas próximas: vizinhas,
pele, da família, da comida, do colegas de trabalho, amigas, paren-
trabalho em casa, na fábrica ou no tes… Você vai saber o que diz a lei
escritório. Esta cartilha vai mostrar sobre os fatos e como correr atrás do
como rejuvenescer e revitalizar a sua que é seu direito.
cidadania. Porque mulher que
conhece a lei, e sabe o que fazer para Boa sorte!
tirar a lei do papel, tem mil
motivos para ficar mais bonita!
idade, altura, peso ou signo…

Uma aliada de sua beleza: A LEI


Muitas pessoas dizem que em nosso país a lei só serve para proteger os mais
fortes, tanto que só pobre vai para a cadeia. É verdade que estamos muito
longe de sermos um país justo e que a luta para acabar com a impunidade
dos poderosos ainda está começando. Mas já conseguimos até afastar um
Presidente da República e colocar alguns poderosos desonestos na cadeia.
E é preciso reconhecer que, quando uma pessoa conhece a lei, é persistente e
firme, a justiça pode tardar, mas, na maioria das vezes, acaba sendo feita.
Nossos direitos estão garantidos na Constituição Federal, que é a lei maior do
país, e também nos Códigos, Leis, Decretos, Normas, etc.
Acredite: A coisa que deixa uma mulher mais bonita é se amar e ostentar
o sorriso vitorioso de quem não só respeita os direitos alheios, mas sabe fazer
com que seus direitos sejam respeitados.
I
A vida como
ela é — e como
deve ser…

“Casamento” só vale se for no papel?


Quem está separado há alguns meses
já pode pedir o divórcio? Homem
também tem direito a pensão
alimentícia? Mãe solteira pode botar
o nome do pai no registro da criança?
Exame de DNA é só para quem tem
muito dinheiro? Veja o que diz a lei.
1. União estável
“Não me casei
de papel Há seis anos, Maria e João, apaixonados, juntaram os seus
passado. Será trapinhos. No começo, tudo eram rosas. Mas o tempo foi
que eu tenho passando e o romantismo diminuindo. Agora, Maria acorda
no meio da noite, olho arregalado no escuro, cheia de
algum
dúvidas e medos: “E se João for embora? E se — Deus não
direito?” permita! — ele morrer? Não somos casados no cartório. O
que será de mim e das crianças?”

Maria não precisa perder o sono. Afinal, ela e João têm


uma união estável. São conviventes. Veja o que significa
isso.

O que é uma união estável?


É quando uma mulher e um homem, mesmo sem casar, jun-
tam-se para constituir família. Passam a viver sob o mesmo
teto sem esconder esta relação. Embora não sejam casados, a
lei os considera conviventes, pessoas que vivem juntas e têm
direitos e deveres uma para com a outra e para com os filhos que
tiveram juntos ou adotaram. O tempo mínimo de convivência,
para caracterizar uma relação estável, é cinco anos. Mas, se a
mulher engravidar do companheiro antes deste prazo, já
existe “união estável”.

Quais são os direitos e deveres dos conviventes?


• demonstrar respeito e consideração mútuos;
• dar assistência moral e material um ao outro;
• cuidar, sustentar e educar os filhos que têm juntos.

8 Cidadania também é beleza


Durante os anos de vida em comum, João
comprou uma casa, que Maria ajudou a mobiliar.
A quem pertence este patrimônio?
Os bens móveis e imóveis adquiridos pelos conviventes
durante a união estável são considerados fruto do traba-
lho e da colaboração comum. Devem ser administrados
pelos dois. Quer tenham sido comprados por um deles
sozinho ou por ambos, passam a pertencer ao casal, e em
partes iguais.
Os conviventes podem fazer, no entanto, um contrato
por escrito, deixando claro que são contrários a esta in-
terpretação.
Se a administração dos bens for motivo de briga, quem
decide sobre isto é o Juiz.

Antes de começarem a morar juntos, Maria


recebeu uma casa de herança e já possuía um
carro, e João tinha um terreninho doado por um
amigo. Estes bens também passam a pertencer
aos dois?
Não. Os bens adquiridos por compra, doação ou herança
antes do início da união continuam a pertencer apenas a
quem os comprou ou os recebeu.

E se um dos conviventes morrer?


Se um dos conviventes morre, o outro tem direito a
continuar no imóvel em que moraram, durante o tem-
po que viver enquanto não constituir nova união ou
casamento. Este direito se aplica se o casal só possui
uma casa que serve de habitação para a família.

Como passar de “conviventes” a “casados”?


A Lei facilita o casamento dos conviventes. Se ambos
estiverem de acordo, basta dirigir-se ao Oficial do Regis-
tro Civil do Cartório mais próximo e requerer a conver-
são da união estável em casamento.

Cidadania também é beleza 9


Acabou-se o que era doce. E agora, como
pessoas não casadas se separam?
Não basta dizer adeus e ir embora. Pessoas que vivem em
união estável e resolvem se separar podem fazê-lo por uma
Ação de Reconhecimento e Dissolução de União Estável, com
a assistência de um advogado ou da Justiça Gratuita, na Vara
Constituição de Família. Assim, todos os seus direitos serão assegurados:
Federal
• assistência material ao convivente que dela necessitar, a
Capítulo VII – Da família,
da criança, do adolescente título de Alimentos (veja p. 17);
e do idoso
• partilha dos bens móveis e imóveis adquiridos pelos
Art. 226 – A família, base
da sociedade, tem especial
conviventes durante a união estável, se não tiver um
proteção do Estado. (...) contrato escrito dizendo diferente;
§ 3º – Para efeito da • os filhos dos conviventes têm os mesmos direitos
proteção do Estado, é
reconhecida a união dos filhos nascidos no casamento (veja p. 12 - O que
estável entre o homem e diz a lei).
a mulher como entidade
familiar, devendo a lei Como no casamento, a separação na união estável tam-
facilitar sua conversão em bém pode ser amigável ou litigiosa. Os motivos e a for-
casamento.
ma também são os mesmos (veja p. 21).
§ 4º – Entende-se,
também, como entidade
familiar a comunidade Onde são resolvidas as ações judiciais sobre a
formada por qualquer dos união estável?
pais e seus descendentes.
Todas as questões sobre união estável devem ser resolvi-
§ 5º – Os direitos e
deveres referentes à das na Vara de Família da sua cidade. Se não houver Vara
sociedade conjugal são de Família, é possível recorrer à Vara Civil. Estas ques-
exercidos igualmente pelo tões são segredo de Justiça — só os advogados que
homem e pela mulher.
(...)
tenham procuração dos conviventes podem ver o proces-
so. Veja “pensão” e “direitos dos filhos” no roteiro de
Lei nº 8.971/94
separação e divórcio.
Regula o direito dos
companheiros a alimentos
e sucessão.
Lei nº 9.278/96
Regula o § 3º do art. 226
da Constituição Federal.
(sobre União Estável)

10 Cidadania também é beleza


2. Registro de nascimento
“Toda criança Barrigão de nove meses, Maria está sozinha no mundo. João,
tem direito de o pai da criança, tomou chá de sumiço desde que soube da
ter em seu existência do filho. Sozinha, como vai ser na hora de
registrar a criança? Que fazer?
registro de
nascimento os
nomes da mãe
Existe um prazo para se registrar um bebê?
e do pai.”
Sim! O nascimento deve ser registrado pelo pai ou pela mãe
logo que ocorra o nascimento da criança, no prazo máximo
de 15 dias.
Se o nascimento ocorreu em lugar que fique a mais de 30
quilômetros do Cartório, o prazo para o registro é de até
3 meses.

Por que é tão importante providenciar logo a


certidão de nascimento da criança?
Porque é o documento que comprova, diante da lei, que
mais uma pessoa nasceu. De todos os papéis que ela vai
acumular pela vida afora, este é o mais importante. Sem
certidão de nascimento, é impossível tirar carteira de iden-
tidade, título de eleitor, carteira de trabalho, habilitação
para o casamento e todos os outros documentos.

É preciso pagar para registrar uma criança?


Quem declarar que é pobre ou está passando necessidade
não precisa pagar para tirar certidão de nascimento (nem
certidão de óbito). O Cartório é obrigado a fornecê-la gra-
tuitamente. Não é preciso Atestado de Pobreza. E se o
Cartório não quiser registrar? Basta denunciar o fato, pro-
curando a Justiça Gratuita no Fórum da cidade.

Cidadania também é beleza 11


Uma mulher solteira, como faz para obter a
certidão de nascimento do filho?
Basta levar um documento da maternidade. Se o parto tiver
sido em casa, é preciso levar duas testemunhas.

Como a mulher solteira pode garantir que o


nome do pai da criança conste da certidão de
nascimento?
a) Se o homem assume a paternidade, não há proble-
ma: o casal, ou qualquer um, pode ir ao cartório
registrar a criança em nome dos dois.
Constituição
Federal b) A mulher solteira pode registrar seu filho sozinha,
Art. 5º – Todos são informando, no Cartório, o nome do pai da criança.
iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer Este homem passa a ser considerado como “supos-
natureza, garantindo-se to” pai. O cartório enviará ao Juiz um documento
aos brasileiros e aos contendo nome completo, profissão, identidade e
estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade residência do suposto pai, para que seja verificado
do direito à vida, à se a informação é falsa ou verdadeira.
liberdade, à igualdade, à
segurança e à O Juiz, sempre que possível, ouvirá a mãe e mandará
propriedade, nos termos uma notificação ao suposto pai, independentemente de
seguintes: (...) seu estado civil, para que ele se manifeste sobre a questão
LXXVI – são gratuitos
para os reconhecidamente
da paternidade.
pobres, na forma da lei: Quando o suposto pai confirma a paternidade por escri-
a) o registro civil de
nascimento; b) a certidão to, o Juiz autoriza o Cartório a colocar o nome do pai, e
de óbito; (...) também os dos avós paternos na certidão de nascimento.
Art. 227 (...)
§ 6º - Os filhos, havidos O que acontece quando o suposto pai nega tudo e
ou não da relação do não assume a responsabilidade, ao receber a
casamento, ou por notificação do Juiz?
adoção, terão os mesmos
direitos e qualificações, Se o suposto pai não atende à Notificação Judicial no
proibidas quaisquer prazo de 30 dias, ou nega ser o pai, o Juiz enviará o pro-
designações cesso ao representante do Ministério Público. Caso exis-
discriminatórias relativas
à filiação. tam provas suficientes, será iniciada uma Ação de In-
vestigação de Paternidade (veja p. 15).

12 Cidadania também é beleza


Um homem casado pode reconhecer como seus
os filhos que tiver fora do casamento?
Sem dúvida! Mesmo casado, um homem pode registrar como
seus os filhos que teve fora do casamento.

De que outras formas, além do registro, os pais


podem reconhecer os filhos nascidos fora do
casamento?
Lei nº 8.069/90
Depois da Constituição de 1988, não há mais diferença Dispõe sobre o Estatuto
entre filhos nascidos dentro do casamento, fora dele ou da Criança e do
adotados. São todos igualmente legítimos. Têm os mes- Adolescente – ECA
mos direitos, como pensão alimentícia e herança. Por isso, Seção II - Da Família Natural
os pais sempre podem reconhecer filhos que nasceram Art. 25 – Entende-se por
fora do casamento e o registro de nascimento é apenas família natural a
comunidade formada pelos
um dos meios de se fazer isso. pais ou qualquer deles e
seus descendentes.
Mesmo antes de o filho nascer, ou depois da morte dos
Art. 26 – Os filhos havidos
pais, o reconhecimento é possível. Veja como: fora do casamento poderão
ser reconhecidos pelos pais,
• por escritura pública ou por qualquer documento
conjunta ou
particular que deve ser arquivado em cartório; separadamente, no próprio
termo de nascimento, por
• por testamento; testamento, mediante
escritura ou outro
• por manifestação dessa vontade diante do Juiz. documento público, qualquer
que seja a origem da
No fim das contas, fica provado que Maria não filiação.
disse a verdade e João não é o pai da criança. E Parágrafo único.
agora? O reconhecimento pode
preceder o nascimento do
A mulher pode ser processada por crime de falsidade filho ou suceder-lhe ao
ideológica e até ser presa. falecimento, se deixar
descendentes.
Maria trabalhava na roça, em um sítio bem pra lá Art. 27 – O reconheci-
do fim do mundo. Por isso, foi descobrir que não mento do estado de
tinha registro de nascimento só no dia em que filiação é direito
personalíssimo, indisponível
mudou para a cidade grande e precisou de e imprescritível, podendo
documentos.Vai ter que pagar multa? ser exercitado contra os
pais ou seus herdeiros,
De modo algum. A pessoa maior de 18 anos pode ir pes- sem qualquer restrição,
soalmente requerer seu registro de nascimento, sem pa- observado o segredo de
gar multa. Justiça.

Cidadania também é beleza 13


Se Maria tiver gêmeos, como será feito o
registro?
No caso de nascimento de gêmeos, deve constar da certidão
o nascimento das duas crianças e a ordem de seu nascimento.

Era para ser Mércia, mas alguém se confundiu e a


menina foi registrada como Mérdia.Vai ter que
Código Civil agüentar gozações pelo resto da vida?
Art. 12 – Serão inscritos
em registro público: A pessoa registrada com um nome ridículo, que provoca
I – Os nascimentos, zombaria, infelizmente vai ter que esperar até os 18 anos
casamentos, separações para poder requerer ao Juiz a mudança de nome. Mas,
judiciais, divórcios e óbitos. pelo menos, a mudança será gratuita.
(...)
Arts. 330 e seguintes
(que tratam da relação de
parentesco)

Lei 6.015/73
Dispõe sobre os registros
públicos.

14 Cidadania também é beleza


3. Investigação de
paternidade
“Quem fez Maria fez um interurbano, avisando João que estava
Mateus, que esperando filho dele. Inútil. João, que havia passado
ajude a apenas uma noite com ela, nem se lembrava mais da
moça. Quando Mateus nasce, Maria toma suas
embalar”
providências e João recebe uma notificação do Juiz,
pedindo que confirme ou não a paternidade. João não
quer nem saber: jura de pés juntos que não tem nada a
ver com a Maria nem com a criança. “Quem pariu
Mateus, que o embale”, diz. É hora de se começar uma…
investigação de paternidade.

O que é Ação de Investigação de Paternidade?


É a forma de se provar legalmente que determinado homem
é o pai biológico de alguém, quando este não quer assumir a
paternidade.

Quem pode pedir uma ação de investigação de


paternidade?
A investigação de paternidade é um direito de todos. Deve
ser requerida por uma advogada ou advogado. Quem não
tem recursos pode consegui-la, sem pagar nada, por meio da
Justiça Gratuita, no Fórum da cidade onde mora.
A mãe ou responsável por um menor de 21 anos ou incapaz
pode mover a ação em nome do filho. Maiores de 21 anos
devem mover a ação em seu próprio nome. O Ministério
Público (o Promotor ou Curador de Família) pode também
dar início à Ação de Investigação de Paternidade — ele
tem legitimidade para isto, tanto como fiscal da lei,
que é, como Curador de Família.

Cidadania também é beleza 15


A Ação de Investigação de Paternidade pode ser requerida
contra os herdeiros do suposto pai, mesmo depois de sua
morte. Mas é preciso ter certeza da paternidade alegada, caso
contrário quem entra com a ação pode ser processado.

O que é teste de DNA?


É o meio mais eficiente de se comprovar a paternidade.
Consiste no exame do sangue ou de qualquer parte do
corpo, inclusive ossos, cabelos ou unhas, e prova
cientificamente, entre outras coisas, a relação de
parentesco de sangue. O teste de DNA revela, quase com
Constituição certeza absoluta, se a paternidade alegada é real.
Federal
Art. 227 – (ver p. 12) Como requerer um exame de DNA?
Art. 229 – Os pais têm o Mesmo quem não tem condições financeiras de pagar este
dever de assistir, criar e
educar os filhos menores, e
exame (que custa muito caro: nos laboratórios particula-
os filhos maiores têm o res, cerca de 8 salários mínimos) poderá fazê-lo sem ne-
dever de ajudar e amparar nhuma despesa, procurando a Justiça Gratuita, no Fórum
os pais na velhice, carência
da cidade onde mora.
ou enfermidade.
Mas é preciso paciência e persistência. Nem todos os
Lei nº 8.560/92
Regula a investigação da
Estados brasileiros podem oferecer o serviço de Teste
paternidade dos filhos de DNA. Além disso, trata-se de um exame muito
havidos fora do casamento. procurado e as pessoas chegam a esperar por ele me-
ses, às vezes mais de um ano. Estas dificuldades, po-
rém, não devem desanimar quem precisa esclarecer os
fatos e estabelecer a verdade.

Como provar a paternidade, se o homem se


recusar a fazer o teste de DNA?
Não havendo a possibilidade de se realizar o exame peri-
cial de DNA, devem ser apresentadas outras provas da
suposta paternidade, como testemunhas que conheceram
a relação dos pais da criança durante o período em que a
mulher engravidou ou documentos (cartas, bilhetes, re-
tratos, etc.).

16 Cidadania também é beleza


4. Alimentos —
Pensão Alimentícia
“Não tenho Maria, com mais de 60 anos, pressão alta, pernas cheias de
mais condições varizes, não consegue pegar mais nenhuma faxina. Está
de me para ser despejada do quartinho alugado onde vive sozinha
com seu gato. Depende da solidariedade de amigos para
sustentar…
sobreviver. O que ninguém sabe é que Maria tem filhos e
Quem pode uma irmã, que moram em outros Estados e estão bem de
me dar a vida. E que ajudar uma pessoa da família impossibilitada
mão?” de se sustentar não é só uma questão de bom caráter. É uma
obrigação; está na lei.
Descubra o que quer dizer “Alimentos”, “Pensão de
Alimentos” ou “Pensão Alimentícia” na linguagem dos
advogados — e quem pode beneficiar-se deste direito.

O que é Pensão Alimentícia ou Alimentos?


É um valor que a pessoa tem obrigação de fornecer para al-
guém com quem tenha vínculo familiar que esteja passando
necessidade. A Pensão Alimentícia ou Alimentos pode ser ofe-
recida em dinheiro ou então providenciando-se habitação,
sustento e educação. Quem é responsável por pagar Pen-
são Alimentícia chama-se alimentante. Quem recebe, é o
alimentado.

Cidadania também é beleza 17


Quem tem direito a receber Alimentos em caso
de necessidade?
Familiares que não possuem nenhum bem nem capacidade de
sobreviver com seu próprio trabalho — o cônjuge ou com-
panheiro/a, e os parentes na seguinte ordem:
• descendentes (filhos, netos... menores de 21 anos, ou
maiores quando incapazes);

Constituição • ascendentes (pais, avós...);


Federal
• irmãos bilaterais e unilaterais (irmãos de pai e mãe ou
Art. 5º – Todos são
iguais perante a lei, irmãos só de pai ou só de mãe).
sem distinção de
qualquer natureza,
O direito a Alimentos é recíproco entre os parentes e cônju-
garantindo-se aos ges: quem tem direito a receber, tem também o dever de
brasileiros e aos oferecer, se a Roda da Fortuna girar e as posições se inverte-
estrangeiros residentes rem. Filhas e filhos têm direito a pensão alimentícia do pai e
no País a inviolabilidade
do direito à vida, à da mãe. Cada um deve contribuir na medida de seus recur-
liberdade, à igualdade, à sos.
segurança e à
propriedade, nos termos A pessoa responsável por criança ou adolescente que não viva
seguintes: (...) com a mãe e o pai, se não tiver condições de sustentá-lo sozi-
LXVII – não haverá nha, pode pedir pensão alimentícia aos parentes dele, na se-
prisão civil por dívida,
salvo a do responsável
guinte ordem: 1º) aos pais; 2º) aos avós; 3º) aos irmãos.
pelo inadimplemento
voluntário e inescusável A quem procurar, para alcançar este direito?
de obrigação alimentícia
e a do depositário infiel; Quando a pessoa que deveria oferecer pensão (alimentante)
Art. 229 – (ver p. 16) nega-se a assumir esta responsabilidade, deve-se procu-
rar um advogado ou, se não houver condições financei-
Código Civil
ras, a Justiça Gratuita, no Fórum da cidade.
Arts. 396 a 405 –
Capítulo VII –
Dos alimentos Outra possibilidade é procurar a Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB) ou uma faculdade de Direito.

Em casos urgentes, recomenda-se ir ao Juiz Cível ou


Juiz de Família (se houver na localidade) e, mesmo
sem advogado, requerer pessoalmente a pensão alimen-
tícia de que se necessita.

18 Cidadania também é beleza


O que a lei exige, para alguém ter direito a
Alimentos?
• provar que é parente, cônjuge ou companheira/o,
apresentando testemunhas quando não puder provar
com documentos este parentesco;

• provar que o alimentado (quem tem direito aos Código Penal


alimentos) não pode prover seu próprio sustento e Dos crimes contra a
família – Capítulo III –
necessita da pensão. É importante listar as suas Dos crimes contra
despesas mensais fixas obrigatórias; assistência familiar –
Abandono material
• provar que o alimentante (quem deve pagar) tem Art. 244 – Deixar, sem
justa causa, de prover a
condições para cumprir a obrigação, sem ser preju- subsistência do cônjuge, ou
dicado em seu próprio sustento, dizendo o quanto de filho menor de 18
ele/ela ganha; (dezoito) anos ou inapto
para o trabalho, ou de
ascendente inválido ou
• informar nome completo, residência, local de valetudinário, não lhes
trabalho e profissão do alimentante; proporcionando os recursos
necessários ou faltando ao
• informar nome e endereço completos e lugar de pagamento de pensão
alimentícia judicialmente
nascimento do alimentado. acordada, fixada ou
majorada; deixar, sem
justa causa, de socorrer
E se a pessoa necessitada não tiver todas estas descendente ou
provas ao entrar com o pedido? ascendente, gravemente
enfermo:
A Lei de Alimentos é uma lei de rito especial. Ou seja:
Pena: detenção, de 1 (um)
mesmo que a pessoa, ao entrar com o pedido, tenha ofe- a 4 (quatro) anos e
recido poucas provas, o Juiz fixará um valor para os Ali- multa, de uma a dez
mentos Provisórios, que ficarão sendo devidos até sair vezes o maior salário
mínimo vigente no País.
a sentença final e definitiva da ação.
Parágrafo único – Nas
mesmas penas incide
Demora muito tempo entre o pedido de pensão quem, sendo solvente,
alimentícia e a decisão do Juiz? frustra ou ilide, de
qualquer modo, inclusive
Em geral, não. E se existir acordo entre alimentante e ali- por abandono injustificado
mentado, o Juiz poderá homologar imediatamente a pen- de emprego ou função, o
pagamento de pensão
são acertada. alimentícia judicialmente
acordada, fixada ou
majorada.

Cidadania também é beleza 19


Qual o valor da pensão alimentícia?
Não consta da legislação sobre Alimentos um valor determi-
nado. Isso vai depender da possibilidade do alimentante e da
necessidade do alimentado. Pode ser estipulado de comum
acordo ou determinado pelo Juiz.

Há alguns critérios que, em geral, são usados para estabele-


cer o valor dos Alimentos. Confira:

Lei nº 5.478/68 • Percentual dos vencimentos ou salários do/a


Lei de Alimentos alimentante;
Lei nº 6.515/77
Lei do Divórcio • Algum índice oficial do governo (exemplo: salário
Lei nº 8.971/94
mínimo, UFIR);
Alimentos para
companheira/o • Usufruto de bens do pai ou mãe (exemplo: aluguéis
de imóveis ou outro rendimento);

• Hospedagem na casa do alimentante. Neste caso, a


pensão não é paga em dinheiro nem em bens.
Em vez disso, o alimentado vive na casa do/a
alimentante que pode se responsabilizar por todas ou
determinadas despesas suas, como saúde,
alimentação, educação, vestuário, lazer;

• A pensão alimentícia pode ser revista e alterada a


qualquer tempo, mesmo depois do divórcio, desde
que a situação financeira de quem recebe ou de
quem fornece tenha mudado. Basta que a parte
interessada volte ao Cartório onde a questão foi
resolvida, com uma advogada ou advogado ou pela
Justiça Gratuita;
• De preferência, a pensão alimentícia deve ser
depositada na conta do alimentando ou de seu
representante legal.

20 Cidadania também é beleza


5. Separação, divórcio
“Ouça, vá Maria, três filhos pequenos, quinze anos de casada, marcou
viver a sua na folhinha: dia 12 de junho, há dez meses, foi a última vez
vida com outro que ela e o marido fizeram amor. João vive em viagens de
negócios, e na volta, ou a) diz que está “morto de cansado”; ou
bem…”
b) bebe até desmaiar na cama; ou c) arruma um pretexto
qualquer, briga e vai dormir na sala. Depois de muito pensar
e de muita conversa, Maria resolveu pedir a separação e
procurar ser feliz. Mas… dá para divorciar, sem primeiro
separar? Quais vão ser as conseqüências desta decisão? O que
fazer, antes da separação, para proteger os filhos e o
patrimônio da família?

O que é separação?
Separação é o ato praticado por um homem e/ou uma mulher
que estão casados e que, por algum motivo, não querem mais
viver juntos. Pode ser separação de fato (homem e mulher
deixam de morar juntos, mas não tomam nenhuma providên-
cia legal a respeito) ou separação judicial, o antigo desquite
(a separação é solicitada por meio de advogado ou da Justiça
Gratuita).

Depois de quanto tempo de casados é possível


pedir a separação?
A separação judicial só pode ser pedida depois de dois
anos de casamento. Há dois tipos de separação judicial: ami-
gável ou consensual, quando os dois concordam que “foi
bom enquanto durou” e é melhor cada um seguir seu rumo
em paz; ou litigiosa, quando há briga entre os interessados.

Cidadania também é beleza 21


Depois de quanto tempo de separação é
possível pedir o divórcio?
Para entrar com o pedido de divórcio (veja p. 24), é ne-
cessário ter dois anos de separação de fato, ou um ano de
separação judicial.

Homem e mulher estão de acordo com a


separação. Que fazer?
Quando o marido e a mulher concordam em se sepa-
rar e já obedeceram ao prazo (dois anos de casamen-
to), podem entrar com a Ação de Separação Judicial
Consensual, por meio de um só advogado ou advogada
ou da Justiça Gratuita. Será feita uma petição chama-
da “Acordo de Separação”. O Juiz pode aprová-la ime-
diatamente, na hora da audiência, se também o curador
de família concordar com a proposta.

E quando os dois brigam: um quer se separar e o


outro não?
Quando existe litígio (briga) entre as partes, só uma de-
las requererá ao Juiz a Separação Judicial Litigiosa con-
tra a outra parte. Para isto tem que explicar os motivos.
Em caso de separação litigiosa, a mulher não pode per-
manecer com o nome de casada.

Quais são os motivos para a separação judicial


litigiosa?
• Um dos cônjuges causa ao outro situações insupor-
táveis à vida em comum: trai, vive bêbado/a, é
agressivo/a e violento/a, abandona o outro do ponto
de vista material ou sexual.
• Um dos cônjuges prova que não existe vida em
comum com o outro, e que não existe mais possibi-
lidade de voltarem a morar juntos.

22 Cidadania também é beleza


O que fica decidido na separação?
Em qualquer dos tipos de separação (consensual ou litigiosa)
de pessoas casadas ou vivendo em união estável, são resolvi-
das da mesma forma as questões:
• divisão dos bens (inventário e partilha);
• guarda dos filhos menores;
• regulamentação das visitas aos filhos menores (dias
e horários de visita aos filhos);
• quem será responsável por oferecer pensão alimentí-
cia aos filhos menores e/ou cônjuge ou convivente;
• como a mulher passará a assinar seu nome (a regra é
que deverá voltar a usar o nome de solteira, entre-
tanto, caso seja uma pessoa muito conhecida com o
nome do ex-marido, pode pedir ao Juiz para conti-
nuar usando o nome de casada, se a separação não
for litigiosa).

Se a situação do casal estiver muito complicada, o


que fazer, antes da separação judicial, para evitar
maiores problemas?
Como diz o ditado, “cautela e caldo de galinha não fazem
mal a ninguém”.
Podem ser requeridas ao Juiz, antes da ação de separação,
Medidas Cautelares como:
• Separação de Corpos – declara que os cônjuges
não têm mais entre si o dever de fidelidade.
• Afastamento do Lar – determina que um dos
cônjuges/conviventes saia de casa. Pode ser o cônjuge
que pediu a Cautelar (auto-afastamento) ou o outro, se
este estiver colocando em perigo a vida da família.
• Guarda e Regulamentação de Visitas –
determina quem vai ficar com a guarda dos filhos e
em que dias e em que horários os filhos poderão ser
visitados. Também regulamenta com quem os filhos

Cidadania também é beleza 23


menores passarão suas férias escolares, as datas festivas
como Natal e Ano Novo, os seus aniversários e os dos
pais, os feriados prolongados, etc.
• Busca e Apreensão – determina a apreensão judicial
de um filho menor mantido irregularmente por um dos
Constituição pais, ou de algum bem comum que o outro cônjuge/
Federal convivente não queira entregar.
Capítulo VII – Da família,
da criança, do adolescente • Arrolamento de Bens – se um dos cônjuges/convi-
e do idoso ventes verifica que existe perigo de o outro vender ou
Art. 226 – A família, base fazer desaparecer um determinado bem, como linha
da sociedade, tem especial telefônica, terreno, automóvel ou ações, o Juiz declara
proteção do Estado.
que até o final da separação do casal, o bem ou os bens
§ 1º – O casamento é
civil e gratuita a não podem ser vendidos, emprestados, doados, modifi-
celebração. cados, etc.
§ 2º – O casamento
religioso tem efeito civil, Quando é possível requerer o divórcio e que
nos termos da lei. tipos de divórcio há?
§ 3º – Para efeito da
proteção do Estado, é O casal que estiver separado de fato, sem morar junto há
reconhecida a união estável mais de dois anos sem interrupção, pode requerer o Divór-
entre o homem e a mulher cio Direto, com o auxílio de advogado ou da Justiça Gra-
como entidade familiar,
devendo a lei facilitar sua tuita do Fórum da cidade. Se houve Separação Judicial, um
conversão em casamento. ano depois ex-marido e ex-mulher podem, de comum
§ 4º – Entende-se, também, acordo, requerer no mesmo juízo que os separou a Con-
como entidade familiar a versão da Separação em Divórcio.
comunidade formada por
qualquer dos pais e seus No momento do divórcio, o homem ou a mulher podem al-
descendentes. terar qualquer das cláusulas estabelecidas na ação de separa-
§ 5º – Os direitos e ção. É a sua última oportunidade, exceto com relação aos
deveres referentes à
sociedade conjugal são Alimentos, que podem ser alterados a qualquer momento.
exercidos igualmente pelo Em caso de divórcio direto devem ser respeitadas as mesmas
homem e pela mulher. condições obrigatórias para a separação. A partilha de bens é
§ 6º – O casamento civil obrigatória para que seja decretado o divórcio.
pode ser dissolvido pelo
divórcio, após prévia Se o interesse do Divórcio for só de uma das partes, ela pode-
separação judicial por mais rá requerer sozinha.
de um ano nos casos
expressos em lei, ou Como na separação, o divórcio pode acontecer com ou sem
comprovada separação de
fato por mais de dois anos. briga. Caso exista litígio entre as partes, será judicial. Se hou-
ver acordo, será consensual.

24 Cidadania também é beleza


Quais as principais conseqüências do divórcio?
• Se não houve separação judicial anterior, o divórcio
acaba com os deveres de um cônjuge para com o
outro.
• As partes podem casar-se novamente.

Se João casar novamente, precisa continuar


pagando pensão alimentícia a Maria e filhos?
Sim! O dever de alimentos ao ex-cônjuge e aos filhos não
se altera em função de novo casamento de quem paga a
pensão.

Se Maria passa a viver com José, ela perde a


pensão? E os filhos?
Maria perde a pensão, sim! Se um dos cônjuges recebe
pensão alimentícia e passa a viver ostensivamente com
um terceiro ou casa novamente, seu direito a pensão de
alimentos termina ali. E se a nova união acabar, não vol-
tará a ter direito à pensão do ex-marido (ou ex-mulher). Lei nº 6.515/77
Lei do Divórcio
Mas com os filhos é diferente. Eles continuam recebendo
a pensão. O divórcio não modifica os direitos e deveres Lei nº 8.408/92
Dá nova redação aos dis-
entre pais e filhos, mesmo que os pais casem novamente. positivos da Lei 6.515/77
Lei nº 9.278/96
E se Maria e João se arrependem do divórcio e Regula o § 3º do art. 226
querem voltar? da Constituição Federal
(que trata da União
Se o casal divorciado resolver reconciliar-se, pode vol- Estável)
tar a viver junto como conviventes ou se casar nova-
mente. Não existe anulação de divórcio.

Cidadania também é beleza 25


II
Preservando
o encanto e a
gentileza
Na segunda-feira, uma colega chega
ao trabalho com o olho roxo. “Caí na
cozinha e bati na quina da mesa”,
diz. Você nota que ela está deprimida
e a surpreende chorando no banheiro.
Aos poucos, ela admite que, por
motivo de ciúme, o marido a agrediu
a socos e pontapés.
Mostra outras marcas no corpo.
“E agora?!” você pergunta. A resposta,
conformada: “Ele já me pediu perdão
de joelhos. Jurou que foi a última vez.
Até buquê de rosas vermelhas comprou”.
Combate à violência fís
Este texto inspirou-se Infelizmente, casos como esse são muito comuns.
no conjunto de materiais No Brasil, de cada 5 mulheres, 3 já sofreram algum tipo
QSL - Quebrando
Silêncios e Lendas, de violência. É um drama que atinge tanto as classes
CECIP/ Ipê, 1998. mais ricas como as mais pobres, sem distinção. E a maio-
ria das agressões (70%) acontece dentro de casa. Por que
muitas mulheres são humilhadas e ofendidas, usadas como
objeto, violentadas e espancadas? Por que tantas tole-
ram, por longo tempo, tamanha violência?

Entre as causas da violência contra a mulher está a forma


diferente de se educar meninos e meninas. O menino,
em geral, é incentivado a assumir um papel ativo,
dominador, a não demonstrar medo, a ser racional. A
menina costuma aprender, desde cedo, o papel de sub-
missa, passiva, sentimental. Na nossa sociedade as carac-
terísticas do papel masculino continuam a ser mais va-
lorizadas que as do feminino, e os homens ainda são con-
siderados superiores às mulheres. Marido, namorado, pa-
rente, chefe, qualquer um, pelo simples fato de ser ho-
mem, sente-se muitas vezes no direito de impor sua von-
tade e até mesmo “disciplinar” o sexo feminino. Mas isto
já está mudando. Homens e mulheres começam a rela-
cionar-se de forma diferente, de igual para igual, respei-
tando-se e cooperando. Talvez você mesma seja uma des-
sas mulheres que ensinam os filhos homens a lavar louça
e arrumar a cama, preparando-os para, no futuro, dividir
as tarefas domésticas; que incentivam as filhas a praticar
esportes, a ousar, a assumir lideranças.

28 Cidadania também é beleza


ica, sexual e emocional
Apesar dos progressos, ainda é difícil para muitas mu-
lheres denunciar a violência que sofrem, em especial
em casa. Alguns motivos: sentem-se emocional e fi-
nanceiramente ligadas ao agressor; sentem-se culpa-
das e envergonhadas; acreditam que “ele vai mudar”.
As etapas são geralmente as mesmas: começa com
aquele clima de horror, as ofensas e gritos; depois,
vem a agressão física; em seguida, as desculpas e juras
de amor, seguidas da reconciliação. Estudos demons-
tram que o ciclo se repete: tensão, agressão cada vez
mais violenta, pedido de perdão, pazes, tensão... Mui-
tas vezes esta espiral de violência termina com o as-
sassinato da mulher. É preciso interrompê-la com fir-
meza, e quanto antes melhor.

A violência não se limita a agressões ao corpo. Mui-


tas vezes a mente é a primeira a sofrer, pela violência Nas páginas
psicológica. “Violência contra a mulher é qualquer ato seguintes,
ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano você vai
ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, conhecer as
tanto na esfera pública como na esfera privada”, é o muitas caras
que diz a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e da violência
Erradicar a Violência Contra a Mulher, chamada de Con- contra a
venção de Belém do Pará, que o Brasil e outros países mulher e as
assinaram, em 1994. Uma convenção é um documen- formas de
to internacional, e os países que o assinam se com- reagir a
prometem a torná-lo norma de comportamento pe- estes
rante o Estado e a sociedade. abusos.

Cidadania também é beleza 29


1. Foi à padaria e
esqueceu a família
João saiu de casa dizendo que ia comprar cigarro e não
voltou. Maria e os três filhos ficaram para trás. Esquecidos.
Maria chorou, mas antes que a fome batesse na porta,
batalhou, arranjou um emprego e foi à Justiça, atrás dos
seus direitos. Mesmo depois da ação de pensão alimentícia
Constituição decretada pelo Juiz, João ficou na dele. É como se a antiga
Federal família não existisse.
Art. 227 – É dever da
família, da sociedade e
do Estado assegurar à
criança e ao adolescente, Maria está sendo vítima de um crime: o Abandono materi-
com absoluta prioridade,
o direito à vida, à saúde, al* — situação em que alguém deixa de assistir pessoas pe-
à alimentação, à las quais é legalmente responsável. João não poderá “fingir-
educação, ao lazer, à se de morto” por muito tempo: a pensão alimentícia (tam-
profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao bém conhecida como alimentos e pensão de alimentos) é re-
respeito, à liberdade e à gulamentada pelo Código Civil. Se quem deve não paga, vai
convivência familiar e para a prisão (ver p. 17).
comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda
forma de negligência,
discriminação, exploração,
violência, crueldade e • Registre o fato na Delegacia (de preferência a da
opressão. Mulher) e peça cópia do Boletim de Ocorrência — BO.
Art. 229 – (ver p. 16) A Delegacia encaminhará o inquérito à Justiça, que
Código Penal iniciará uma ação penal.
Artigo 244 – (ver p. 19) • Para receber pensão alimentícia, entre com o pedido, no
Fórum de sua cidade, por meio de um advogado. Se não
tiver recursos financeiros, procure a Justiça Gratui-
ta no próprio Fórum.
• Se a sentença de pensão alimentícia já foi decretada
pelo Juiz, mas nada aconteceu, volte ao advogado e
peça para ele exigir o cumprimento da sentença.

* O crime de abandono material inclui também abandono de incapaz e abandono de recém-nascido. Além de
abandono material, também são crimes o abandono intelectual (exemplo: não providenciar que filhos
menores de 14 anos freqüentem a escola) e o abandono moral (exemplo: permitir que filhos menores
freqüentem casas de prostituição ou de jogos de azar, usar filhos para atrair caridade, na mendicância, etc.).

30 Cidadania também é beleza


2. Na mira da
vontade do outro
Constrangimento I - Depois de vários meses desempregada,
Maria conseguiu um emprego. Entretanto, ultimamente
anda nervosa com o comportamento do chefe. Com a
desculpa de que ela deve agradar os clientes, sugere que use
roupas ousadas e além do mais tem tentado levá-la a boates.
Ela sempre recusa. No último convite, o chefe falou que, se
ela continuasse se recusando a fazer o que ele queria,
perderia o emprego.

Constrangimento II - Maria não sabe mais o que fazer. João


começou a guardar em casa caixas lacradas e proíbe qualquer
pessoa de abri-las. Maria desconfia que sejam armas. Sabendo
que isto é crime e não suportando a idéia, tentou convencer
João a levá-las embora dali. Porém João, muito nervoso, disse
que se ela mexesse nas caixas lhe daria uns tapas.

Constrangimento ilegal é isso. Com violência ou grave


ameaça obriga-se uma pessoa a fazer algo contra a vonta-
de. Impede-se a liberdade de fazer ou deixar de fazer algo,
de querer e agir. No limite, a pessoa pode até ser obrigada
a conviver com quem não quer, a participar de crimes
como assaltos, guarda de armas, drogas ou objetos rouba-
dos. A grande maioria das mulheres que se encontram nas
penitenciárias foram condenadas como co-autoras em cri-
mes praticados por seus maridos, companheiros ou filhos.
Por “amor”, ajudam criminosos e se tornam criminosas. E
o amor por si mesma, não significa nada?

Cidadania também é beleza 31


• Se a vítima for você, conte o que está acontecen-
do a amigos e familiares para que mais tarde, se
necessário, possam servir de testemunhas.

• Denuncie o fato na Delegacia (de preferência a da


Mulher), e peça uma cópia do Boletim de Ocor-
Constituição rência.
Federal
Artigo 5º (...)
• Importante: Se a mulher é forçada a participar
de crimes e não denuncia isso, a Justiça pode
II – ninguém será
obrigado a fazer ou deixar considerá-la co-autora e mandá-la para a cadeia.
de fazer alguma coisa
senão em virtude de lei; • Se você tiver conhecimento de que alguém está
sendo vítima de constrangimento ilegal, denuncie
Código Penal
o caso à Polícia.
Artigo 146 – Constranger
alguém, mediante violência
ou grave ameaça, ou
depois de lhe haver
reduzido, por qualquer
outro meio, a capacidade
de resistência, a não fazer
o que a lei permite, ou a
fazer o que ela não
manda.
Pena: detenção de 3 meses
a 1 ano, ou multa.
Lei nº 8.069/90
Dispõe sobre o Estatuto da
Criança e do Adolescente –
ECA
Art. 232 – Submeter
criança ou adolescente sob
sua autoridade, guarda ou
vigilância a vexame ou a
constrangimento.
Pena: detenção de seis
meses a dois anos.

32 Cidadania também é beleza


3. Sem lenço e
sem documento
No fundo do armário, Maria guarda sua “arca do tesouro”.
Uma lata de biscoitos azul, cheia de preciosidades: cartas dos
tempos de namoro, fotos de um fim de semana inesquecível,
bilhetes escritos em guardanapos, desenhos dos filhos e outros
papéis importantes. Outro dia, ao fazer limpeza geral, o
baque no peito: a lata desapareceu. “João, foi você?”
E ele: “Levei embora. Você não precisa mais disso.”
Código Penal
Artigo 305 – Destruir,
suprimir ou ocultar, em Esconder, rasgar ou queimar documentos particulares
benefício próprio ou de
outrem, ou em prejuízo (cartas, fotografias, bilhetes) de outra pessoa para ter
alheio, documento público vantagens ou prejudicar a dona dos documentos é cri-
ou particular verdadeiro, me e o nome deste crime é Destruição de Documen-
de que não podia dispor.
tos. Se o documento é público e não é possível obter uma
Pena: reclusão de 2 a 6
anos, e multa, se o segunda via, também é crime.
documento é público, e
reclusão, de 1 a 5 anos e
multa, se o documento é
particular.

• Se você for a vítima, vá à Delegacia (de preferên-


cia a da Mulher) e preste queixa. Se souber, dê
nome, endereço e outras informações sobre o
criminoso. Indique testemunhas, se houver.
• Se foram destruídos documentos públicos (certi-
dão de nascimento, de casamento, escrituras,
carteiras de trabalho, identidade, título de eleitor,
etc.), procure tirar uma segunda via imediatamente.
• Se tiver conhecimento de que alguém está sofren-
do esta violência, denuncie o caso à Polícia.

Cidadania também é beleza 33


4. Palavras que
sujam a alma
Maria detesta a hora de ir para a escola. É que no caminho
é obrigada passar por uma obra, e os operários da
construção dizem coisas que ela acha horríveis. Maria sente
nojo do que ouve, parece que estão jogando lama em seus
ouvidos.

O crime de Importunação Ofensiva ao Pudor ocorre mui-


to freqüentemente. Todos os dias mulheres como Maria são
importunadas na rua, por desconhecidos. Eles lhes dirigem
palavras ofensivas, de baixo calão e chegam a “passar a mão”
em seu corpo. Este tipo de violência é uma contravenção penal,
que pode ser punida com multa.
Decreto-lei
nº 3.688/41
Lei de Contravenções Penais
Art. 61 – Importunar
alguém, em lugar público
ou acessível ao público,
de modo ofensivo ao • Chame testemunhas, procure descobrir o nome do
pudor. agressor e dê queixa na Delegacia, de preferência na
Pena: multa Delegacia da Mulher.
• Caso seja importunada por algum trabalhador no
local de trabalho dele, a responsabilidade é também
da empresa e ela vai responder na Justiça pelo
comportamento de seus empregados.
• Você pode mover uma ação de indenização por
danos morais contra o indivíduo ou contra a
empresa (se tiver sido ofendida por um trabalhador
em serviço), com a assistência de um advogado ou,
caso não tenha recursos financeiros, com a assistên-
cia da Justiça Gratuita de sua cidade.

34 Cidadania também é beleza


5. Cão que ladra
pode morder
Maria tem tudo para se sentir feliz: terminou o curso que
queria, encontrou um trabalho que lhe dá realização
profissional, tem um namorado que adora, mas de uns
tempos pra cá as coisas não andam bem entre eles. Por
diversas vezes João tem feito ameaças com palavras e
gestos. Diz que Maria está tendo um “caso” com o chefe.
Maria está ficando apavorada pois emprego está difícil e
decidiu que, para ela, amor não é isto.

Muitas mulheres já morreram por não levar a sério coisas


assim. Ameaçar é crime. Significa causar medo ou pro-
meter fazer algum mal a alguém. Muitas vezes quem faz
a ameaça é o próprio marido ou companheiro, com pala-
vras ou gestos. Empunhar uma arma, tesoura, faca, ma-
chado, martelo, é ameaçar. Ameaças simbólicas, como co-
locar um caixão de defunto em frente da casa, enviar uma
caveira ou desenho de punhal, também são graves.
Código Penal
Artigo 147 – Ameaçar
alguém, por palavra,
escrito ou gesto, ou • Se quem ameaça é alguém de sua casa, saia imedia-
qualquer outro meio tamente de perto e procure ajuda com vizinhos,
simbólico, de causar-lhe amigos, familiares ou mesmo desconhecidos. Grite
mal injusto e grave. por socorro.
Pena: detenção, de 1 a 6 • Vá à Delegacia (de preferência a da Mulher) e faça
meses, ou multa. uma queixa. Lembre-se: só a vítima pode prestar
Parágrafo único – queixa. Ou então seu representante legal, se ela for
Somente se procede menor ou incapaz.
mediante representação
(só a vítima pode • Indique testemunhas, se houver.
prestar queixa, ou seu • Peça cópia do Boletim de Ocorrência (BO).
representante legal, se
ela for menor ou • Se a ameaça vier de estranhos, ao dar queixa descreva em
incapaz). detalhes quem está ameaçando: altura, cor, tipo de
cabelo, olhos, roupa, tatuagem, cicatriz, etc.

Cidadania também é beleza 35


6. Quando até o lar
pode virar prisão
Logo depois do casamento, Maria achava lindo quando o
marido não deixava que ela saísse para fazer compras e
insistia em acompanhá-la a todos os lugares. “Quer ir ao
supermercado? Não precisa, amor, eu providencio”.
“Quer falar com sua mãe? Pode deixar, eu dou o recado”.
“João me adora”, dizia para si mesma, “toma conta de
mim, quer me poupar. E não me deixa sozinha nunca”.
Mais tarde, o que antes a envaidecia começou a incomodar,
Código Penal e muito. Um dia insistiu e João foi claro: “Você não vai sair
Artigo 148 – Privar sozinha. E para evitar a tentação, vou levar a chave da
alguém de sua liberdade,
mediante seqüestro ou casa...”
cárcere privado.
Pena: reclusão, de 1 a 3
anos. Privar uma pessoa de sua liberdade, prendendo-a em sua pró-
§ 1º – A pena é de pria casa ou em qualquer outro local — hospital, casa de
reclusão, de 2 a 5 anos: saúde, etc. — é mantê-la em cárcere privado.
I – se a vítima é
ascendente, descendente Não interessa o motivo do crime: raiva, ciúme, inveja. Não
ou cônjuge do agente; importa o parentesco. Ninguém pode interferir na liberdade
II – se o crime é
praticado mediante de ir e vir de outra pessoa. E mais: se a vítima for filha ou
internação da vítima em filho, mãe ou pai, avó ou avô, marido, mulher, companheiro,
casa de saúde ou hospital; companheira, o crime é mais grave.
III – se a privação da
liberdade dura mais de
15 dias.
§ 2º – Se resulta à
vítima, em razão de • Se a vítima é você: procure por todos os meios fazer com
maus-tratos ou da que a Delegacia (de preferência a da Mulher) tome
natureza da detenção, conhecimento do fato. Recorra a vizinhos, parentes, a
grave sofrimento físico ou quem passar por perto, telefone ou escreva, e registre
moral. queixa.
Pena: reclusão, de 2 a 8
anos. • Não tenha vergonha de dizer a parentes e amigos que seu
marido ou companheiro a mantém presa dentro de casa.
• Se a vítima desta violência é outra pessoa (amiga,
vizinha ou parente), comunique à Polícia.

36 Cidadania também é beleza


7. Empurrões rumo
à “porta de saída”
Sem mais alegria nem esperança, cansada de maus-tratos
e certa de que João não gosta mais dela, Maria acha que
não há mais saída. Todas as suas tentativas de mudar, de
melhorar a situação, deram em nada. Chegou ao fundo
do poço. Ontem, na hora de dormir, Maria começou a
pensar alto, maldizendo a vida. Foi quando João gritou:
“Por que você não se mata logo de uma vez? É tão fácil,
basta abrir o gás. Ou então use o meu revólver, está aqui
na gaveta…”

Quando uma pessoa aconselha ou ajuda outra a cometer sui-


Código Penal cídio, está praticando o crime de Induzimento ou Instiga-
Art. 122 – Induzir ou ção ao Suicídio. Se Maria realmente se suicidar, João terá
instigar alguém a participado do seu gesto de duas formas: moral e material-
suicidar-se ou prestar-lhe
auxílio para que o faça. mente. Tem participação moral, porque colocou na cabeça
Penas: reclusão de 2 a 6 da mulher a idéia da autodestruição, e tem participação ma-
anos, se o suicídio se terial por haver sugerido formas de suicídio e até mesmo se
consuma; ou reclusão de oferecido para emprestar a arma.
1 a 3 anos, se da
tentativa de suicídio
resultar em lesão
corporal de natureza
grave.
Parágrafo único – A pena • Se você tem idéias de suicídio, procure ajuda médica;
é duplicada: converse com pessoas amigas e participe ou crie um
I – se o crime é grupo de mulheres para discutir seus problemas.
praticado por motivo Juntas, será mais fácil encontrar soluções. Procure
egoístico; ajudar alguém que esteja em situação pior que a sua
II – se a vítima é menor (este alguém existe, sim, pode acreditar!). E lembre-
ou tem diminuída, por se: a vida sempre vale a pena!
qualquer causa, a
capacidade de resistência. • Se estiver diante de uma mulher que está envolvida
em uma relação violenta, você deve: socorrê-la
imediatamente, levando-a para um hospital; sugerir a
ela que busque apoio psicológico; denunciar o caso na
Delegacia (de preferência, na da Mulher).

Cidadania também é beleza 37


8. Um co(r)po até
aqui de mágoa
“Burra! É uma toupeira mesmo! Cerveja quente, de novo!
Não presta nem para fritar um ovo! Olha o que eu faço
com essa gororoba!” A gritaria de João e o barulho de pratos
e copos quebrados atravessa as paredes do apartamento. Os
vizinhos, orelhas em pé, escutam os sons da guerra conjugal.
Agora, é a voz de Maria, desesperada: “Pára, pelo amor de
Deus, você está me machucando!” No apartamento ao lado,
comentários:
“Nossa, parece que a coisa é séria! E se a gente fosse lá?”
“Que que é isso?! Em briga de marido e mulher, ninguém
mete a colher. Deixa quieto. Eles terminam se ajeitando”.

Indiferente, a comunidade é cúmplice da violência e contri-


bui para que João continue a praticar o crime de Lesões Cor-
porais, impunemente. Lesar é ofender, atingir a mente ou o
corpo de uma pessoa.
A lesão psíquica, na mente, acontece quando a mulher é
humilhada e sua auto-estima é ferida por insultos, compara-
ções, ironias. É um delito que não deve ser tolerado.
A lesão física acontece quando o corpo da mulher é agredi-
do por beliscões, tapas, empurrões, mordidas, socos, chutes;
é queimado, cortado, perfurado por armas de fogo. Nosso
Código diz que lesão corporal é crime e como tal deve ser tra-
tado. O agressor pode ir para a prisão.
A mulher não pode continuar a ser vítima de lesões psicoló-
gicas e corporais dentro de sua própria casa. Apesar do sofri-
mento que este crime provoca, as vítimas se calam e as pes-
soas da convivência do casal também silenciam. É preciso
mudar esse quadro.

38 Cidadania também é beleza


Geral:
Denuncie todo e qualquer crime de lesão corporal
contra mulheres à Delegacia, à imprensa e às organi-
zações feministas e de Direitos Humanos. Só a
sensibilização e conscientização da sociedade poderão
mudar a cultura machista e fazer com que as mulheres
deixem de apanhar.

Se a vítima for você:


• peça socorro a pessoas que possam evitar a agres-
são: parentes, amigos, vizinhos, etc.;
• não se lave nem se medique antes de dar queixa;
• se estiver machucada, vá a um hospital onde há Código Penal
plantão policial que anotará a agressão. Peça um Art. 129 – Ofender a
atestado detalhado dos ferimentos; integridade corporal
ou a saúde de
• vá a uma Delegacia (de preferência a da Mulher) e outrem.
preste a queixa, exigindo o Boletim de Ocorrência Pena: detenção, de 3
(BO) e uma guia para exame de corpo de delito no meses a 1 ano.
Instituto/ Departamento Médico-Legal — IML ou Lesão Corporal de
DML. Esse exame é fundamental para que você Natureza Grave.
Pena: reclusão, de 1
possa processar o agressor criminalmente e depois a 5 anos.
exigir uma indenização pelos danos que causou. Se
Lesão Corporal
tiver testemunhas da agressão, dê o nome e endere- Seguida de Morte.
ço delas para deporem a seu favor; Pena: reclusão, de 4
a 12 anos.
• procure grupos de mulheres ou de Direitos Huma-
nos para lhe darem apoio, inclusive na parte
jurídica, por meio de um advogado.

Se você presencia uma agressão:


• socorra a vítima e leve-a a um hospital, se estiver
muito machucada;
• oriente-a para proceder da forma indicada acima.

Cidadania também é beleza 39


9. Invasores de corpos (I)
Maria estava encantada com o primeiro namorado. Parecia
uma doce criatura, e ela não viu nada de mais em aceitar o
convite para assistir à decisão de um campeonato no
apartamento dele. Chegou trazendo pipoca, guaraná e uma
bandeira do seu time, que João usou para amarrar suas
mãos e amordaçá-la. Arrancou-lhe a roupa e fez com ela o
que bem entendeu. Depois: “Está chorando por quê? Você
Código Penal
Atentado violento ao
continua virgem”.
pudor
Art. 214 – Constranger
alguém, mediante
violência ou grave
O que aconteceu no apartamento de João foi o crime de Aten-
ameaça, a praticar ou tado Violento ao Pudor. Atentado violento ao pudor é
permitir que com ele se um ato de natureza sexual praticado contra a vontade da ví-
pratique ato libidinoso tima, com violência ou grave ameaça. O atentado violento
diverso da conjunção
carnal: ao pudor é também chamado de ato libidinoso diferente
Pena: reclusão de 6 da conjunção carnal. Ou seja: abrange tudo, menos a pe-
(seis) a 10 (dez) anos. netração do pênis na vagina: forçar a mulher a fazer sexo anal
ou oral, passar a mão nas suas coxas, seios ou qualquer outra
parte íntima, sem a sua permissão.
O essencial aqui é a falta de consentimento. Se a mulher (ou
homem) não aceita ou não quer fazer algo, não se pode obrigá-
la (lo). Se alguém forçar, seja ela prostituta e o homem um
cliente, seja ela casada e o homem seu marido ou compa-
nheiro, este alguém estará cometendo o crime de atentado
violento ao pudor.
Esta história de dizer que a mulher “provocou” e o homem
“foi obrigado a fazer o que fez para não passar por incompe-
tente”, não cola mais...
Só a pessoa que sofre este tipo de crime pode denunciá-lo (ou
seu representante legal, se ela for menor ou incapaz).

40 Cidadania também é beleza


10. Invasores de corpos (II)
Madrugada, Maria está dormindo, quando sente o peso de
um corpo em cima do seu. A mão do padrasto lhe cobre a
boca. Paralisada de medo e dor, suando frio, ela o escuta
sussurrar: “Se contar pra mãe, te mato…”

Nenhuma mulher está a salvo do crime de Estupro. Moças,


Código Penal idosas, meninas, casadas, solteiras, prostitutas, religiosas —
Estupro qualquer uma de nós pode ser a próxima vítima. E o
Art. 213 – Constranger
estuprador, muitas vezes, não é um desconhecido, mas al-
mulher à conjunção
carnal, mediante violência guém de nosso círculo mais próximo: amigo, colega, chefe,
ou grave ameaça. marido, companheiro, parente (pai, padrasto, irmão, primo,
Pena: reclusão, de 6 tio...).
(seis) a 10 (dez) anos.
O estupro é diferente do atentado violento ao pudor. Estu-
pro é relação sexual, com penetração vaginal, de um homem
com uma mulher, contra a vontade dela, usando de violência
ou grave ameaça. A violência pode ser:
• física – o criminoso usa de força física para dominar;
• psicológica – ele provoca medo, pânico ou ameaça
causar algum mal à mulher ou a outra pessoa de seu
interesse, deixando-a inerte, sem condições de reagir à
investida sexual.

Cidadania também é beleza 41


• Se houver condições, grite por socorro.
ATENÇÃO!

Cuidados • Se o criminoso for um desconhecido, tente


pessoais, ida à prestar bem atenção em tudo que possa contri-
Delegacia e ao buir para o seu futuro reconhecimento (aspecto
IML ou DML físico, cor dos cabelos, dos olhos, roupa que está
são iguais para vestindo, detalhes como tatuagem, cicatrizes,
os crimes de sinais).
atentado
violento ao • Não se lave nem se medique por conta própria
pudor e até ser examinada por um médico.
estupro.
Utilize este
roteiro para • Guarde a roupa que estava vestindo, sem lavá-la,
ambos. e leve-a para ser também examinada no Instituto
ou Departamento de Medicina Legal – IML ou
DML.

• Vá imediatamente à Delegacia (de preferência a


Delegacia da Mulher) para prestar queixa,
solicitando cópia do Boletim de Ocorrência (BO)
e a Guia para ser examinada no Instituto ou
Departamento de Medicina Legal – IML ou DML.

• Se estiver machucada, vá direto para um hospital


(público ou particular). Lá você encontrará um
plantão policial que anotará sua queixa. Peça ao
médico que lhe atendeu um atestado com a
descrição minuciosa da agressão que você sofreu.

• No IML ou DML, peça cópia do exame de corpo


de delito (laudo pericial). O exame médico não é
pago e pode ser feito a qualquer hora. Mesmo
que o atentado violento ao pudor ou o estupro
não tenham deixado marcas de violência (no caso

42 Cidadania também é beleza


de o criminoso, por exemplo, ter apontado
alguma arma para a mulher) é necessário que a
mulher faça o exame de corpo de delito, no IML
ou DML.

• Resolvidas as questões na Delegacia e no IML ou


DML, procure, o mais rápido possível, um
serviço de saúde da mulher. Faça exame para
saber se houve contaminação de doenças
sexualmente transmissíveis e AIDS.

• Em caso de estupro, se vier a engravidar e tiver


prova documental de que foi violentada (por isso E a lei que fala da
o Boletim de Ocorrência da Delegacia de Polícia mulher que engravidou
e o laudo dos exames no IML ou DML são de um estupro?
essenciais) poderá, caso queira, solicitar a um
médico que faça o aborto. É importante saber Código Penal
que toda mulher que engravida de um estupro, se Artigo 128 – Não se
quiser, tem o direito de interromper a gravidez pune o aborto praticado
com toda segurança, na rede pública de saúde. por médico:
Este tipo de atendimento já foi regulamentado Aborto necessário
pelo Ministério de Saúde. Na própria Delegacia I – se não há outro
você pode obter mais informações. (veja p. 59) meio de salvar a vida da
gestante;
Aborto no caso de
• Caso o médico se recuse a praticar o gravidez resultante de
abortamento, leve o fato ao conhecimento de um estupro
Promotor Público ou Juiz criminal, por meio de II – se a gravidez
um advogado ou da Justiça Gratuita. resulta de estupro e o
aborto é precedido de
consentimento da gestante
• Recorra a organizações de mulheres, conselhos ou, quando incapaz, de
estaduais e municipais dos direitos da mulher, seu representante legal.
que existem em muitas cidades. Você pode
receber (ou ser encaminhada para) apoio
psicológico e jurídico, inclusive quando há
necessidade e vontade de fazer a interrupção da
gravidez. Procure esses grupos. Denuncie. O
silêncio é cúmplice da violência!

Cidadania também é beleza 43


11.A violência definitiva
João limpa o revólver cuidadosamente e o carrega: “Não
quer ser minha, não vai ser de ninguém”. No escritório,
Maria trabalha de coração leve, feliz por finalmente ter
juntado coragem para terminar o namoro: “Chega de cenas
de ciúme, chega de ser controlada por um homem! Estou
livre!” Às cinco da tarde, despede-se das amigas e sai à rua
pensando no curso de inglês que vai começar à noite. O tiro
interrompe seus sonhos e sua vida.

Muitos assassinos de mulheres ainda se defendem dizendo


que praticaram o crime de Homicídio “para lavar a honra”
ou “por amor não correspondido”. Esta defesa, que antes era
levada a sério nos tribunais, hoje não é mais aceita. Por trás
da mudança está o trabalho do movimento de mulheres, que
desde a década de 70 vem conscientizando a sociedade, que
aderiu ao slogan “quem ama não mata”.

Se você se defrontar com uma vítima de homicídio:

• Não mexa no corpo da vítima e nos objetos do


local do crime.

• Chame a Polícia.

• Denuncie o crime à imprensa e às organizações


feministas e de Direitos Humanos.

44 Cidadania também é beleza


• Acione grupos de mulheres e a mídia (jornal, rádio,
TV), sensibilizando a opinião pública para que o
processo tenha um acompanhamento, até o
julgamento, de forma a que o assassino não fique
impune. Este crime é de ação pública, ou seja, o
Estado, por meio do Promotor Público, acusa o
Código Penal
criminoso. Caso a família da vítima queira e tenha
Artigo 121 – Matar
condições, pode contratar um advogado particular alguém.
para acompanhar o processo e atuar no julgamento Pena: reclusão de 6 a
como Assistente da Promotoria. 20 anos.

• No dia do julgamento é importante mobilizar a


opinião pública, com a ajuda da mídia e com a
presença de muitas pessoas para assistir ao julga-
mento. Isto ajudará para que o criminoso não fique
impune.

Cidadania também é beleza 45


III
À saúde, cidadã!

Você, mulher que defende com unhas e


dentes a sua saúde e a de sua família,
conheça e lute pelo direito a:
• Receber assistência médica gratuita
pelo SUS
• Receber orientações sobre
planejamento familiar
• Prevenir-se e tratar-se em caso de
DST e HIV/AIDS
• Prevenir-se e tratar-se em caso de ser
vítima de violência
• Participar na definição e fiscalização
das políticas públicas de saúde
O direito
Ainda está escuro quando Maria e João saem para o
trabalho. Eles estão entre os milhões de brasileiros que
moram em habitações irregulares, sem infra-estrutura
adequada: loteamentos clandestinos, favelas e cortiços.
O barraco de Maria fica em uma favela. Tiroteios entre
policiais e traficantes e entre gangues de traficantes
fazem parte da rotina. Não há esgoto doméstico e a
ligação com a rede de energia elétrica é clandestina.
Maria, o marido, a sogra e mais três crianças ajeitam-
se como podem na sala e no único quarto. Para chegar
às 8 horas em seus locais de trabalho, Maria e João
precisam acordar às 4 da manhã. O que os dois
ganham não é suficiente para a família se alimentar
direito. Falta carne, leite, queijo, frutas. No bairro de
Maria e João não há o que fazer no fim de semana.
Maria quer que os filhos estudem, mas o mais velho, de
13 anos, decidiu largar a escola na 5ª série para vender
balas aos motoristas nos sinais de trânsito e ajudar em
casa. Antes de dormir, Maria sempre agradece por
todos em casa estarem com saúde. “Deus nos livre de
ficar doentes!”, diz.

Saúde não é apenas ausência de doença, como aconte-


ce com Maria e sua família. Saúde é muito mais que
isso: é sentir bem-estar físico e mental; é morar em con-
dições satisfatórias, com higiene, segurança e infra-es-
trutura básica; é alimentar-se bem e regularmente; é
trabalhar com segurança, satisfação e recebendo salá-

48 Cidadania também é beleza


à saúde
rio digno; é ter tempo para praticar esportes e lazer;
é ter oportunidade de estudar e aprender; é ter assis-
tência à saúde não só curativa, mas também preventi-
va em todas as fases da vida. Tudo isso significa boa
qualidade de vida e, portanto, saúde integral.

Saúde para o povo: obrigação do Estado!


Quando nossa Constituição diz: “a saúde é di-
reito de todos e dever do Estado” está afirman-
do que todas as brasileiras e todos os brasileiros
têm direito a condições de vida saudáveis e ao
acesso a serviços de saúde. E o Estado (nos ní-
veis federal, estadual e municipal) tem obriga-
ção de garantir isso.
Mesmo quem não paga o INSS têm direito de ser
atendida/o, sem pagar nada, nos hospitais da rede
pública de saúde. Isso não é favor nenhum. Afinal,
público é o que é de todos, é o que é do povo.
Os hospitais públicos — como as escolas públicas —
não são do governo. Pertencem ao povo, que paga im-
postos para utilizá-los. O Governo (Federal, Estadual e
Municipal) está sendo pago — pelo povo — para admi-
nistrar estes serviços.
Deputadas, deputados, vereadoras e vereadores também
estão recebendo dinheiro do povo, para representar sua
comunidade e buscar recursos para os serviços públicos.
Quando conseguem alguma verba para construção e ma-
nutenção de um posto de saúde, por exemplo, não estão
fazendo favor, e sim cumprindo sua obrigação.

Cidadania também é beleza 49


1. Direito ao atendimento
pelo SUS

Constituição
Federal Saúde para quem precisa
Art. 196 – A saúde é O atendimento à população brasileira na área da saúde está
direito de todos e dever
do Estado, garantido organizado no Sistema Único de Saúde (SUS).
mediante políticas sociais
e econômicas que visem O SUS é o conjunto de ações e serviços de saúde prestados
à redução do risco de por órgãos e instituições federais, estaduais e municipais
doença e de outros na rede pública de saúde, formada por postos de saúde,
agravos e ao acesso
universal e igualitário às
pronto-socorros e hospitais. Muitos hospitais e casas de
ações e serviços para sua saúde particulares participam do SUS por meio de convê-
promoção, proteção e nios, e também têm obrigação de atender gratuitamente.
recuperação. (...)
Art. 198 – As ações e
serviços públicos de saúde
integram uma rede Assistência integral
regionalizada e
hierarquizada e O SUS tem um programa especial para a mulher. É o PAISM
constituem um sistema – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher.
único, organizado de
acordo com as seguintes Este programa deve atender as mulheres em todas as fases
diretrizes: de sua vida: da infância à velhice. Além de oferecer serviços
I – descentralização, com de saúde, o PAISM também propõe atividades educativas.
direção única em cada
esfera de governo; Assim, a mulher passa a conhecer melhor seu corpo, sua se-
II – atendimento integral, xualidade, os problemas de saúde mais comuns e as manei-
com prioridade para as ras de evitá-los.
atividades preventivas,
sem prejuízo dos serviços
assistenciais;
III – participação da
comunidade.

50 Cidadania também é beleza


Há algumas situações cruciais na vida de toda mulher, em
que ela deve ter atendimento específico assegurado pelo SUS:
• pré-parto (pré-natal), parto e pós-parto (puerpério);
• casos de infertilidade;
• escolha de como evitar uma gravidez;
• prevenção e cuidado do câncer de mama e cérvico-
uterino;
• menopausa;
• cirurgia plástica para refazer mama(s) amputada(s),
total ou parcialmente, para tratamento de câncer.

Lei nº 8.080/90
Dispõe sobre as condições
Infelizmente, o PAISM ainda não está
para a promoção, implantado em todos os municípios
proteção e recuperação da
saúde, a organização e o brasileiros. Motivo principal: falta de
funcionamento dos vontade política dos governantes.
serviços correspondentes e
dá outras providências. Junte-se a outras mulheres de sua
comunidade e reivindique da(o)
Prefeita(o) e vereadores o
cumprimento da Lei.
A melhor maneira para lutar pelo
PAISM e por programas de saúde
integral é participando do Conselho de
Saúde de sua cidade. (veja p. 63)

Cidadania também é beleza 51


2. Direito ao
planejamento familiar:
quantos filhos você
quer ter, e quando?

Foi-se o tempo em que se empurrava para Deus a respon-


sabilidade por decidir o número de filhos de um casal.
Hoje, a mulher e o homem podem até pedir que Deus os
ilumine, mas a decisão é deles. É possível planejar a quan-
tidade de filhos de acordo com o desejo e as possibilidades
de cada família. É possível evitar a gravidez ou provocá-
la, quando a mulher, por problema dela ou do marido/
companheiro, não consegue ter filhos.
O planejamento familiar é um direito de todas as pes-
soas. Para que mulheres e homens possam exercer esse di-
reito, o SUS, por meio da Rede Pública de Saúde (Postos
de Saúde e Hospitais), precisa oferecer informação e aces-
so a todos os métodos e técnicas para ter ou evitar filhos,
sem risco à vida e à saúde das pessoas. A liberdade de op-
ção é essencial. O casal deve conhecer os métodos e técni-
cas disponíveis e decidir pelo que achar melhor.
Todo planejamento familiar deve ser acompanhado e ava-
liado. Mulheres e homens devem ser informados sobre os
riscos, vantagens, desvantagens e eficácia de todos os mé-
todos oferecidos.

52 Cidadania também é beleza


Esclareça O que é infertilidade?
suas dúvidas: É não poder ter filhos.
o básico
sobre O que é contracepção?
planejamento É evitar filhos.
familiar O que são métodos contraceptivos?
São meios de evitar uma gravidez.

Quais são os métodos contraceptivos


(ou anticoncepcionais) naturais mais
conhecidos?
• método da tabela − serve apenas para as mulheres
que têm menstruação regular;
• coito interrompido − quando se interrompe a
relação sexual antes da ejaculação do parceiro.

Quais são os métodos contraceptivos


(ou anticoncepcionais) artificiais?
Bem mais seguros que os naturais, os métodos artificiais
são:
• pílula anticoncepcional;
• diafragma;
• DIU (dispositivo intra-uterino);
• esponjas;
• camisinhas (que além de evitar a gravidez, previnem
as doenças sexualmente transmissíveis).
Todos estes recursos podem ser obtidos gratuitamente na
rede pública de saúde.

Qual é o método contraceptivo


(ou anticoncepcionais) ideal?
Não existe um método ideal — existe o método ideal
para cada mulher ou homem. A equipe
multiprofissional de saúde vai orientar a mulher,
individualmente, para que ela faça a melhor escolha,

Cidadania também é beleza 53


tendo em vista suas condições de saúde, sua idade e outros
fatores que vão tornar o método seguro, sem riscos para a
sua saúde. A mesma orientação deve ser dada ao homem.

O aborto pode ser considerado como um


método contraceptivo?
Não. A mulher que tem uma vida sexual ativa e que não
quer ter filhos deve procurar orientação médica e usar um
método contraceptivo seguro. No entanto, pode-se recor-
rer ao aborto em casos extremos, para salvar a vida da ges-
Constituição
Federal tante ou quando a gravidez é decorrente de estupro. (veja
Art. 226 – A família, base p. 61)
da sociedade, tem
especial proteção do O que acontece a quem induz ou instiga
Estado. (...) mulheres ou homens a fazer esterilização
§ 7º – Fundado nos cirúrgica?
princípios da dignidade da
pessoa humana e da É crime querer convencer uma mulher ou homem a fazer
paternidade responsável, o
planejamento familiar é esterilização cirúrgica. Quem faz isto pode ir para a cadeia,
livre decisão do casal, caso a denúncia seja feita em uma Delegacia. É crime tam-
competindo ao Estado bém exigir atestado de esterilização ou atestado de gravidez da
propiciar recursos
educacionais e científicos mulher trabalhadora para ela ser admitida ou continuar em um
para o exercício desse emprego.
direito, vedada qualquer
forma coercitiva por parte Programa de educação sexual para
de instituições oficiais ou adolescentes — evitando a gravidez precoce
privadas. (...)
No Brasil, o problema da gravidez na adolescência é tão gra-
ve que o Ministério da Saúde resolveu desenvolver, dentro
do Programa Saúde do Adolescente – PROSAD, um módulo
sobre a sexualidade e a saúde reprodutiva.
O PROSAD é dirigido a todos os jovens entre 10 a 19 anos e
caracteriza-se pela integralidade das ações e pelo enfoque pre-
ventivo e educativo.
Segundo o Ministério, o PROSAD está implantado em to-
dos os estados brasileiros, portanto cobre da(o) Prefeita(o) de
sua cidade as ações do PROSAD, em especial as ações
educativas.

54 Cidadania também é beleza


As escolas também podem ter um papel muito importante
nesta área. Existe a possibilidade de serem incluídas nos seus
currículos matérias de educação sexual. Mães e pais devem
participar das reuniões com professores e alunos e exigir o
ensino deste tema, sem discriminação de qualquer natureza
e visando levar a alunas e alunos conhecimentos básicos so-
bre a sexualidade humana, drogas, doenças sexualmente
transmissíveis e a AIDS.
Pesquisas e debates, bem como campanhas sobre estes te-
mas, também podem ser realizados, envolvendo as famílias e
a comunidade.

O Estado, por meio do SUS e em parceria


com o sistema educacional, tem o dever
de oferecer a todas as pessoas essas e ou-
tras informações sobre o Planejamento
Familiar.
Lei nº 9.263/96
Regula o § 7º do art.
Procure saber, na Secretaria de Saúde ou 226 da Constituição
Federal, que trata do
na Prefeitura do seu Município, tudo so- planejamento familiar
bre o Programa de Planejamento Fa- (...)

miliar oferecido pelo SUS. Portaria nº 144/97


do Ministério da Saúde
– Secretaria de
Se ainda não existir em sua comunidade, Assistência à Saúde.
Regulamenta a
organize com amigas e amigos uma cam- esterilização de homens
panha para que seja criado. É importante e mulheres.

cobrar esse serviço do Poder Público. Você


tem direito a ele.

Cidadania também é beleza 55


3. Direito à prevenção e
tratamento da AIDS:
(con)vivendo com a AIDS

Desde o final da década de 70, quando a Síndrome da


Imunodeficiência Adquirida — AIDS — foi identificada pela
primeira vez, passamos a conviver com uma das maiores ame-
aças à saúde pública dos últimos séculos. A AIDS acaba com
o sistema de defesa do organismo. A pessoa fica exposta a
infecções e a algumas variedades de câncer, que podem matá-
la.
O vírus HIV da AIDS é transmitido pelos seguintes fluidos
do corpo: sangue, sêmen e secreção vaginal.
A epidemia atinge igualmente homens e mulheres, hete-
rossexuais, homossexuais ou bissexuais. Uma grande quan-
tidade de mulheres casadas está sendo contaminada pelos
próprios maridos.
Até o momento, não se descobriu nenhum remédio ca-
paz de curar a AIDS. Na década de 90, entretanto, surgi-
ram o AZT e outros medicamentos que podem retardar
a evolução da doença e que devem ser distribuídos gra-
tuitamente aos doentes usuários do SUS.
Esclareça
suas Quais as principais situações de risco de
dúvidas: transmissão do vírus HIV da AIDS?
o básico a) Relação sexual (vaginal, anal ou oral) sem proteção;
sobre
prevenção b) transfusões de sangue;
da AIDS c) injeções com agulhas ou seringas contaminadas;

56 Cidadania também é beleza


d) transmissão do vírus da mãe portadora para o filho
durante a gravidez, na hora do parto ou durante o
aleitamento.
Não existe risco de contágio nos contatos sociais com um O vírus HIV
doente: abraçar, beijar, apertar a mão, usar o mesmo vaso não se
sanitário, tomar água no mesmo copo ou usar os mesmos transmite por
pratos ou talheres, nada disso representa perigo. abraço, aperto
de mão, uso
Quais as formas mais eficazes de se prevenir compartilhado
contra o vírus HIV da AIDS? de pratos,
copos, talheres.
a) Usar sempre a camisinha nas relações sexuais, mesmo Nada disso
entre esposos, companheiros ou namorados fixos; representa
perigo!
b) Usar apenas agulhas descartáveis nas injeções e sangue
testado nas transfusões;
c) Mulheres que engravidam devem exigir o pedido do
teste anti-HIV, durante os exames do pré-natal.
d) Usuários de droga injetável não devem compartilhar
agulhas nem seringas com outra pessoa.

Mulheres portadoras do vírus HIV ou com AIDS


podem ter filhos?
Podem, mas seus filhos têm a possibilidade de nascer com o
vírus HIV. Caso engravidem, é importantíssimo um acom-
panhamento rigoroso no pré-natal, fazendo todos os exames
e tratamentos exigidos.
A amamentação deve ser evitada pois é também uma forma
possível de transmissão do vírus para a criança.

Como alguém pode saber se está com AIDS?


A pessoa pode sentir-se ótima, ter aparência saudável, e ser
portadora do vírus HIV da AIDS. Até três meses após a con-
taminação, o teste não diz se a pessoa tem ou não o vírus
HIV da AIDS, entretanto, se for portadora, já pode conta-
minar parceiras ou parceiros sexuais. Só há um meio de se
descobrir a verdade: fazendo um exame de sangue.

Cidadania também é beleza 57


Quando é recomendável fazer o teste anti-HIV/
AIDS?
Normalmente as pessoas devem fazer o teste por recomen-
dação médica, porém existem momentos que podem ser con-
siderados de risco e que precisam ser observados, como por
exemplo: quando se faz sexo sem camisinha, quando se usa
droga injetável em “turma” e a agulha e seringa são dividi-
das com outras pessoas ou quando se recebe transfusão de
sangue.
Pode-se fazer o teste nos hospitais, Centros de Referência para
DST/HIV/AIDS do SUS ou nos Centros de Testagem Anô-
nima. Este exame é gratuito e sigiloso, ninguém precisa sa-
ber que foi feito.

O que fazer ao se descobrir com HIV ou AIDS?


O mais importante é tentar não se desesperar, pois é pos-
sível viver muitos anos com o vírus HIV da AIDS, desde
que o tratamento adequado seja seguido. Procure apoio
nos amigos e em organizações que trabalham o HIV/AIDS
que existem em muitas cidades.
Você pode saber o endereço desses grupos na Secretaria
A solidariedade de Saúde de seu Estado ou Município e, mesmo sem estar
é uma arma com o vírus da AIDS, pode ser voluntária e ajudar muitas
poderosa contra pessoas.
o preconceito.

58 Cidadania também é beleza


4. Direito ao tratamento
dos agravos resultantes
da violência sexual:
mulheres e adolescentes
colando os cacos

As mulheres que sofrem violência sexual devem saber,


em primeiro lugar, que não tiveram culpa pelo que acon-
teceu e que denunciar pode ajudar a evitar que outras
mulheres passem o que elas passaram.
A violência sexual representa um dos maiores proble-
mas enfrentados pelas mulheres, por sua brutalidade e
pela humilhação que causa às vítimas. Não apenas o
corpo físico é agredido, mas também a alma, deixando
cicatrizes difíceis de serem apagadas. O pior é que a mai-
oria dos casos de violência ocorre no espaço doméstico.
O estupro, a mais terrível das agressões, atinge sobretu-
do meninas, adolescentes e mulheres jovens.
Atento a este problema, o Ministério da Saúde editou uma
Norma Técnica que regulamenta o atendimento às pesso-
as que sofrem violência sexual.

Cidadania também é beleza 59


Esclareça Como localizar rapidamente a unidade de saúde
suas adequada?
dúvidas: Todas as unidades de saúde que tenham serviços de gineco-
o básico logia e obstetrícia devem estar capacitadas para atender ca-
sobre sos de violência sexual. Autoridades policiais, postos de saú-
atendimento de, serviços gerais de emergência e secretarias de saúde de-
à vítima de vem ter a relação das unidades de saúde que tratam desta
questão. Você pode também encontrá-la em algumas esco-
violência las e entidades da sociedade civil.
sexual
Quais os primeiros cuidados de um serviço de
saúde, ao atender uma mulher vítima de
violência?
Ela deve ser informada sobre o que será realizado em
cada etapa do atendimento e sobre a importância de cada
conduta. Sua opinião ou recusa em relação a algum procedi-
mento deve ser respeitada. Caso a mulher não aceite ser aten-
dida por um profissional do sexo masculino, deve-se com-
preender a dificuldade que ela apresenta nesse momento. Tal
atitude não pode ser interpretada como uma agressão ao pro-
fissional em questão.
Norma Técnica sobre
Prevenção e Tratamento Que formas de atendimento a mulher deve
dos Agravos Resultantes receber?
da Violência Sexual Contra
Mulheres e Adolescentes • Entrevista e registro da sua história, com ênfase na
do Ministério da Saúde – parte relativa ao episódio de violência (quem foi o
Brasília, 1999 – que
regulamenta o agressor, quando, onde e como aconteceu);
atendimento às vítimas
de violência sexual, por
• Atendimento médico — exame clínico (envolvendo
meio do SUS. exame ginecológico, coleta de amostras para diag-
Edição, distribuição e nóstico de infecções genitais e coleta de material para
informações: identificação do agressor);
Ministério da Saúde –
Tel. (61)223 5591 • Acompanhamento psicológico;
ou 315 2515
Fax (61) 322 3912 • Exames laboratoriais;
www.saude.gov.br/
Programas e Projetos/
• Informações sobre os direitos garantidos na legislação
Saúde da Mulher brasileira;

60 Cidadania também é beleza


• Orientações para que registre a ocorrência em uma
Delegacia (de preferência na da Mulher, onde deve
ser exigido o Boletim de Ocorrência Policial e a
realização de Exame de Corpo de Delito). No
entanto, a vítima não deve ser obrigada a isto.

Por que os exames laboratoriais são


Constituição
importantes? Federal
Os exames permitem verificar se a mulher foi contaminada Art. 3º – Constituem
pelo criminoso. Incluem: objetivos fundamentais da
República Federativa do
• sorologia para sífilis; Brasil: (...)
IV – promover o bem de
• sorologia anti-HIV (vírus da AIDS); todos, sem preconceitos
de origem, raça, sexo,
• sorologia para hepatite B. cor, idade e quaisquer
outras formas de
A mulher tem direito de receber todas as explicações so- discriminação. (...)
bre estes exames e sobre as doenças que poderá ter con- Art. 5º – Todos são iguais
traído. perante a lei, sem
distinção de qualquer
Como evitar uma gravidez em conseqüência de natureza, garantindo-se
estupro? aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no
Os serviços médicos de saúde podem oferecer às víti- País a inviolabilidade do
direito à vida, à
mas medicamentos que, tomados até 72 horas depois liberdade, à igualdade, à
do estupro, provocam a interrupção de uma eventual segurança e à
gravidez (contracepção de emergência). propriedade, nos termos
seguintes:
O que a mulher poderá fazer, se engravidar em I – homens e mulheres
decorrência de um estupro? são iguais em direitos e
obrigações, nos termos
Ela tem direito de escolher se vai interromper a gravi- desta Constituição;
dez ou não. II – ninguém será
obrigado a fazer ou
Se a mulher escolher interromper a gravidez, ela terá, deixar de fazer alguma
obrigatoriamente, que assinar uma autorização para a coisa senão em virtude
de lei;
realização do abortamento. O documento deverá ser
III – ninguém será
de seu próprio punho, assinado na presença de duas submetido a tortura nem
testemunhas que não sejam integrantes da equipe do a tratamento desumano
hospital. Em caso de incapacidade, a autorização será ou degradante; (...)
assinada por seu representante legal.

Cidadania também é beleza 61


A mulher ou seu representante legal poderão ser
responsabilizados criminalmente caso as declarações
constantes no Boletim de Ocorrência (BO) forem fal-
sas.

Como devem proceder os profissionais da


unidade de saúde, ao atender uma mulher que
deseja interromper a gravidez por estupro?
Buscando o bem-estar físico e emocional da mulher, e de acor-
do com as normas técnicas estabelecidas pelo Ministério da
Saúde. A mulher deve ser tratada com dignidade e respeito.
É preciso ter sempre em mente que ela é uma vítima e
defendê-la contra os que tentam convencê-la de que, ao pra-
ticar o aborto, se transforma em “assassina”. A mulher deve
Código Penal ser aconselhada a retornar ao serviço de saúde entre 15 e 30
Art. 128 – Não se pune o dias depois, ou antes, se necessário, para acompanhamento
aborto praticado por médico e psicológico.
médico:
Aborto necessário Existe um prazo para a interrupção da gravidez
I – se não há outro
meio de salvar a vida da
por estupro?
gestante; Sim. A mulher só pode interromper uma gravidez de até 20
Aborto no caso de semanas. Depois disso, o caminho é oferecer a ela acompa-
gravidez resultante de
estupro nhamento pré-natal e psicológico.
II – se a gravidez
resulta de estupro e o Quais as alternativas, caso a mulher não queira
aborto é precedido de interromper a gravidez?
consentimento da gestante
ou, quando incapaz, de Se a mulher opta por manter a gravidez, mas não se sente em
seu representante legal. condições de ficar com a criança, pode entregá-la para ado-
Norma Técnica do ção. Neste caso, vai passar por todos os procedimentos rela-
Ministério da Saúde,
Brasília, 1998
tivos à gravidez, como a realização de pré-natal.
Em qualquer caso — ficar com a criança, optar pela adoção
ou pelo abortamento — a mulher deve ter acompanhamen-
to psicológico e, se quiser, pode freqüentar grupos de apoio a
mulheres vítimas de violência.

62 Cidadania também é beleza


5. Direito de controlar
políticas e ações de saúde:
a sociedade faz a hora

Defenda o direito à saúde! Você pode participar da vida polí-


tica de sua comunidade sem exercer cargo de vereadora, de-
putada, prefeita ou outro qualquer.
Participar é ter o PODER de DECIDIR — qualquer pes-
soa pode participar e controlar as políticas e ações de saú-
de de sua comunidade. É um direito que está escrito em
nossa Constituição e para isto basta fazer parte ou acom-
panhar o Conselho de Saúde que existe no seu Estado e
Município.
Ao acompanhar o trabalho dos diversos Conselhos, você es-
tará participando da vida política de sua cidade, e poderá in-
fluenciar as políticas públicas de saúde, educação, moradia e
muitas outras.

Esclareça O que é um Conselho de Saúde?


suas É um grupo composto por no mínimo 10 e no máximo 20 pes-
dúvidas: soas, indicadas por órgãos, entidades ou associações, e nome-
o básico adas pelo Poder Executivo (Governador ou Prefeito). Os Con-
sobre selhos têm a responsabilidade de formular e controlar a exe-
Conselhos cução da política de saúde, nos níveis federal, estadual e mu-
de Saúde nicipal. Do total de conselheiros, 50% são representantes dos
usuários do SUS; 25% são trabalhadores de saúde e 25% são
prestadores de serviços (público e privado). Os membros de
um conselho de saúde não recebem nenhum pagamento pela
sua participação e seu trabalho é considerado de relevância
pública.

Cidadania também é beleza 63


Quem pode representar os usuários do SUS no
Conselho de Saúde?
• Representante(s) de entidades congregadas de sindica-
tos de trabalhadores urbanos e rurais;
• Representante(s) de movimentos comunitários organi-
zados na área da saúde;
• Representante(s) de conselhos comunitários, associações
de moradores ou entidades equivalentes;
• Representante(s) de associações de portadores de
deficiências;
• Representante(s) de associações de portadores de
patologias;
• Representante(s) de entidades de defesa do
Constituição
consumidor.
Federal
Art. 198 – As ações e
serviços públicos de saúde
integram uma rede
regionalizada e
hierarquizada e constituem
um sistema único,
organizado de acordo com
as seguintes diretrizes:
(…)
III – participação da
comunidade. Você, que é usuária do SUS, participe
Resolução nº 33/92
Recomendações para a
do Conselho de Saúde do seu
Constituição e Estruturação
de Conselhos Estaduais e município! Informe-se na Secretaria
Municipais de Saúde
(anexo) Municipal de Saúde.

64 Cidadania também é beleza


CECIP AVON

Você, minha amiga, pode descobrir uma


nova maneira de sentir-se linda e
poderosa. Basta cuidar tão bem dos seus
direitos como cuida da pele, da família, da
comida, do trabalho em casa, na fábrica
ou no escritório. Esta cartilha vai
mostrar como rejuvenescer e revitalizar
a sua cidadania. Porque mulher que
conhece a LEI, e sabe o que fazer para
tirar a lei do papel, tem mil motivos para
ficar mais bonita!

D I S T R I BU I Ç Ã O G R AT U I TA