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CONCEITUANDO GÊNERO E PATRIARCADO

Terezinha Richartz

RESUMO: Feministas e intelectuais que discutem as questões relativas às relações


entre homens e mulheres em qualquer esfera da vida social, deparam-se com o
problema de usar o conceito de gênero ou o de patriarcado, ou ainda,
concomitantemente, gênero e patriarcado. O objetivo deste artigo é apresentar, de forma
superficial, algumas discussões e implicações do uso desses termos na literatura
feminista, defendendo o uso simultâneo de gênero e patriarcado como o mais adequado
para explicar as relações entre homens e mulheres na atualidade.

PALAVRAS CHAVE: patriarcado, relações de gênero, gênero.

INTRODUÇÃO: A escolha da terminologia mais adequada para explicar o que vem


ocorrendo com as relações sociais entre homens e mulheres na vida política, familiar e
social sempre foi motivo de reflexão para os teóricos da área. A escolha das categorias
gênero ou patriarcado ou o uso simultâneo de ambos traz, no seu bojo, implicações
políticas sérias que não devem ser desconsideradas. Nessa perspectiva, vale a pena uma
breve reflexão sobre o tema, principalmente, num momento em que a participação
feminina na vida social cresce significativamente e medidas como, por exemplo, cotas
para candidatas a cargos no legislativo são adotadas para favorecer o aumento do
número de mulheres nas instâncias deliberativas.

PATRIARCADO

Patriarcado traz implícita a noção de relações hierarquizadas entre


seres com poderes desiguais (SAFFIOTI, 2001). É ele que traz as ferramentas
explicativas para as desigualdades (SAFFIOTI, apud WILLIAMS). As diferenças
sexuais presentes no ser macho ou fêmea são transformadas em subordinação histórica
das mulheres. A questão da violência contra a mulher é um exemplo típico de como as
desigualdades se manifestam. Quando apanha, a mulher quase sempre é culpada por que
fez algo indevido e o agressor raramente é punido. Nesse sentido, a dominação
masculina está sempre presente.
No nó formado pelo capitalismo, racismo, patriarcado, (SAFFIOTI,
apud MACHADO, 2000) não há uma luta que se sobreponha, que seja mais importante
do que a outra. A luta de classes não é mais relevante por atingir diretamente um setor
maior da sociedade - o lado econômico de uma nação - do que a luta contra a
discriminação racial e a dominação da mulher pelo homem que atingem setores que,
embora majoritários, recebem tratamento de minorias. As lutas não podem ser
encaradas como específicas de uma única categoria. Os problemas raciais dizem
respeito a negros e brancos; o combate ao patriarcado, a homens e mulheres
(SAFFIOTI, 1987, p. 88-89). Os homens pagam um alto preço para serem machos.
Abrem mão da felicidade completa para poderem dominar. Se a mulher é inferior ao
homem, também o macho não se realiza completamente nessa relação desigual. Cabe a
ele, num país como o Brasil, com altas taxas de desemprego, prover a família das
necessidades básicas, abrindo mão de sentimentos naturais como choro, medo, tristeza e
insegurança. As sociedades socialistas, que privilegiaram a abolição da luta de classes,
não conseguiram acabar com o racismo e a inferioridade das mulheres. Significa dizer
que não adianta destruir a propriedade privada, acreditando que também serão
destruídos o racismo e o machismo. Esses preconceitos perduram porque “[...] existem
estruturas de poder, traduzidas por relações sociais de dominação-subordinação, que não
se alteram enquanto forem tratadas, de maneira simplista, como preconceitos”
(SAFFIOTI, 1987, p. 91).

O preconceito está presente, mas é apenas parte da dominação dos


brancos sobre os negros e da subordinação das mulheres. Na verdade, o preconceito não
é o fator mais importante a ser considerado. “[...]. Ele simplesmente acoberta, esconde,
dissimula relações de poder que não mereceram suficiente atenção, no momento
histórico adequado” (SAFFIOTI, 1987, p. 91).

É preciso atacar, simultaneamente, as três contradições fundamentais da sociedade


brasileira expressas na simbiose patriarcado-racismo-capitalismo (SAFFIOTI, 1987),
para que a Democracia plena possa ser construída. O ser humano deve ser respeitado e
valorizado independentemente de sua cor, sexo ou posses.

A distância que existe entre o direito formal e o direito real é uma afronta direta à
democracia, já que, no cotidiano, o que existe na lei é diferente do que é praticado no
dia-a-dia. Para corrigir essas distorções, as ações positivas (cotas) aparecem como um
caminho para amenizar, ou quem sabe, contribuir para aumentar a democracia, de fato,
no Brasil.

GENERO

“Gênero é um empreendimento realizado pela sociedade para


transformar o ser macho ou fêmea em homem ou mulher”(LIMA JUNIOR, 2001. p. 1)
Nesse sentido, gênero é uma construção social, já que para transformar um bebê em
homem ou mulher é preciso investimento social. Essa construção é realizada
principalmente, pelas instituições sociais como família, escola e igreja. São elas que,
através dos valores culturais, começam a estabelecer papéis diferenciados para homens
e mulheres.

Para compreender relações de gênero é necessário, sempre, levar em


consideração o período histórico que está sendo analisado. É possível encontrar
concepções diferenciadas de relações de gênero, mudando-se apenas a periodicidade.
Em quase todas as sociedades humanas, gênero é organizado de forma hierarquizada, ou
seja, dando maior poder aos homens.

Dessa forma, os sistemas de gênero conhecidos por nós são também


sistemas que organizam relações de poder nas sociedades humanas, na estrutura e no
funcionamento das instituições como o Estado, a Escola, a Igreja e nos Partidos
Políticos.

Analisando como se estabelecem as relações entre homens e mulheres,


é possível mostrar como as desigualdades são construídas historicamente numa relação
de exploração-dominação e privilégio dos homens em detrimento das mulheres. Isso
quer dizer que os valores e idéias existentes na sociedade estabelecem uma hierarquia
de poder entre os sexos e faz com que a relação dominação/submissão entre homem e
mulher esteja presente em todos os lugares: na família, nas empresas, nas igrejas, nos
sindicatos, nos partidos políticos.

A identidade social, tanto a da mulher, como a do homem, é delimitada


através de distintos papéis que deverão ser cumpridos pelas diferentes categorias de
sexo. O campo de atuação das mulheres é determinado com muita precisão. Igualmente,
o homem tem seu terreno de ação fixado socialmente (SAFFIOTI, 1987). A sociedade
trabalha no sentido de tornar naturais certas atribuições sociais. Por ser naturalmente
destinada à maternidade, com um corpo perfeito, carinho e paciência na medida certa, o
espaço doméstico fica destinado à mulher. Cabe a ela socializar os filhos, mesmo
quando trabalha fora do lar para ganhar seu próprio sustento e o dos filhos, ou ainda,
para complementar o salário do marido. “Rigorosamente, os seres humanos nascem
machos ou fêmeas. É por meio da educação que recebem, que se tornam homens e
mulheres. A identidade social é, portanto, socialmente construída. [...]” (SAFFIOTI,
1987, p.10). Todas as funções naturais como a maternidade, alimentação e sono sofrem
intervenção social. É a sociedade que determina como serão os partos, o que comer,
como e quando dormir.

Essa naturalização dos processos sócio-culturais legitima a


discriminação da mulher, do negro, do pobre e do homossexual, e constitui o caminho
mais fácil e curto para ratificar a “superioridade” dos homens, assim como a dos
brancos, a dos ricos e a dos heterossexuais ( SAFFIOTI, 1987).

Confinada no espaço doméstico, a mulher tem menos oportunidade de


desenvolver a inteligência, já que os estímulos externos recebidos por ela são bem
menores do que os recebidos pelo homem. As teorias mais modernas sobre inteligência
versam, justamente, sobre a importância dos estímulos para o desenvolvimento integral
de todas as potencialidades do ser humano. A mulher, alijada da participação social
intensa, tem menos oportunidade de desenvolver seus talentos do que o homem que,
desde cedo, é convidado a desfrutar as maravilhas deste mundo.
Assim, fica evidente que a causa da baixa participação feminina nos espaços
públicos, na gerência de grandes corporações, entre os grandes cientistas, e grandes
artistas, é socialmente construída e não faz parte da natureza da mulher.

Todas as categorias sociais discriminadas, de tanto ouvirem que são


inferiores, passam a acreditar em sua própria “inferioridade”. É comum encontrarmos
negros, pobres e mulheres crendo que, de fato, são menos capazes.

Autoras como Rowbotham (1984)Lobo (1992) Castro e Lavinas (1992)


criticam o uso do termo patriarcado já que ele “impossibilita pensar a mudança, pois
cristaliza a

dominação masculina. Condena a mulher ‘ad eterna’ a ser um objeto, incorrendo, pois,

paradoxalmente, no mesmo movimento que as articuladoras do conceito querem

denunciar” (MACHADO, 2000, p. 5). Preferem o conceito de gênero em detrimento do


de patriarcado. Gênero comporta relações sociais simbólicas, sem determinar
mecanicamente uma situação. A metamorfose do trabalho, com a incorporação das
mulheres nesse campo, só pode ser exemplificada partindo da categoria gênero (LOBO,
1992 apud MACHADO,2000, p.5). A participação cada vez maior das mulheres na
política também só é possível nessa concepção. A possibilidade de mudança, mesmo
com dificuldades, só é possível na ótica da categoria gênero.

GÊNERO E PATRIARCADO

Partindo da concepção de que gênero pressupõe igualdade e


desigualdade, ele contempla o patriarcado. Este conceito precisou de 2.500 anos
(LERNER apud SAFFIOTTI, 2001, p. 39) para se consolidar. O patriarcado é
importante para a análise de gênero, já que tem presentes “relações hierarquizadas entre
seres socialmente desiguais” (SAFFIOTI, 2001, p. 38), enquanto nas relações de
gênero é possível o estabelecimento de relações igualitárias.

As relações de gênero tornaram-se opressivas, a partir do momento em


que se começou a produzir excedente econômico e, quase concomitantemente, se fez a
descoberta da participação do homem no ato da fecundação. Segundo Johnson (apud
SAFFIOTI, 2001, p. 47), “a geração de excedentes ‘não causou desigualdade, uma vez
que a partilha é tão possível quanto a acumulação. Excedentes foram, entretanto, uma
precondição que tornou possível a desigualdade’”. Destaca a importância que o controle
do meio ambiente passa a ter para as sociedades que passam pelo processo de
sedentarização.

Para Saffioti,
o ser social, à medida que se diferencia e se torna mais complexo, muda sua
relação tanto com a esfera ontológica inorgânica como com a esfera
ontológica orgânica, elevando seu controle sobre ambas. Os seres humanos,
que tinham uma relação igual e equilibrada entre si e com os animais,
transformaram-na em controle e dominação. O patriarcado é um dos
exemplos vivos deste fenômeno (2001, p. 48).

O patriarcado tem a capacidade de deitar raízes desde o modo como o meio


ambiente é tratado até a forma como se estabelecem relações na sociedade. Como
afirma Safiotti:

1. não se trata de uma relação privada, mas civil;

2. dá direitos sexuais aos homens sobre as mulheres, praticamente sem


restrições;

3. configura um tipo hierárquico de relação, que invade todos os espaços da


sociedade;

4. tem uma base material;

5. corporifica-se;

6. representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na


violência (2001, p. 65).

Saffioti defende a idéia de usar, simultaneamente, os conceitos de gênero e


de patriarcado, esquema que também será adotado neste artigo. Apesar de algumas
feministas rejeitarem o conceito de patriarcado, ele está “no coração da engrenagem de
exploração-dominação” (SAFFIOTTI, 2001, 88) e (SAFFIOTI, apud MACHADO,
2000). Na relação homem/mulher, marido/esposa - em especial, no contrato firmado
entre ambos por ocasião do casamento - evidencia-se a relação de dominação. Ainda
hoje, apesar dos avanços na legislação, possibilitando à mulher escolher se quer ou não
acrescentar o sobrenome do seu marido ao seu nome, a maioria delas não é comunicada
oficialmente pelos juízes a respeito dessa opção. Quando conhecem a possibilidade, se
sentem coagidas pelos próprios noivos, já que, para estes, o fato de a esposa não querer
incorporar seu sobrenome significa falta de amor. No limite, antes de se casar, a mulher
tem reconhecimento social porque está sob a tutela do pai; depois, porque tem um
marido que lhe dá um nome e proteção. Essa engrenagem precisa ser desfeita para que
uma sociedade igualitária possa ser construída.

Já o conceito de gênero, apesar das aparências, não é ideologicamente


neutro. Ele tramita mais facilmente entre as feministas porque não faz referência à
exploração-dominação dos homens sobre as mulheres, presente no conceito de
patriarcado. Sem esse conteúdo, tão presente na vida social, é mais fácil chegar a uma
sociedade igualitária tão almejada pelas feministas.
Para Saffioti, é necessário trabalhar, ao mesmo tempo, com os conceitos
de gênero e de patriarcado em virtude de:

1. a utilidade do conceito de gênero, mesmo porque ele é muito mais amplo


do que o de patriarcado, dando conta dos 250 mil anos da humanidade;

2. o uso simultâneo dos conceitos de gênero e de patriarcado, já que um é


genérico e o outro específico dos últimos seis ou sete milênios;

3. a impossibilidade de mera e redutora substituição de um conceito por


outro, o que tem ocorrido nessa torrente bastante ideológica dos últimos anos
( 2001, p. 80-81).

Para Lia Zanotta Machado (2000) “gênero e patriarcado são conceitos


distintos não opostos”. O patriarcado possui um conceito fixo contendo, no seu bojo, a
dominação masculina. Já o conceito de Gênero remete a relações não fixas entre
homens e mulheres. Nesse sentido, as relações sócio-simbólicas são construídas e
podem ser transformadas. Segundo Machado (2000, p. 4)

O conceito de gênero não implica o deixar de lado o de patriarcado. Ele abre


a possibilidade de novas indagações, muitas vezes não feitas porque o uso
exclusivo de patriarcado parece conter já, de uma só vez, todo um conjunto
de relações : como são e porque são. Trata-se de um sistema ou

forma de dominação que, ao ser (re)conhecido já (tudo) explica : a


desigualdade de gêneros. O conceito de gênero, por outro lado, não contém
uma resposta sobre uma forma histórica. Sua força é a ênfase na produção
de novas questões e na possibilidade de dar mais espaço para dar conta das
transformações na contemporaneidade. [..].

Saffiotti defende a simbiose patriarcado-racismo- capitalismo apontando


a importância do uso do conceito de gênero:

A construção de gênero pode, pois, ser compreendida como um processo


infinito de modelagem-conquista dos seres humanos , que tem lugar na
trama das relações sociais entre mulheres, entre homens e entre mulheres e
homens. [...] O resgate de uma ontologia relacional deve ser, portanto, parte
integrante de uma maneira feminista de fazer ciência. (1992, p.211).

Figura 1 – Mapa Conceitual sobre patriarcado e gênero.


CONCLUSÃO

A importância de usar simultaneamente os conceitos de gênero e


patriarcado justifica-se pelo fato de que o patriarcado explica a exploração-dominação
tão presente na vida de muitas mulheres ainda hoje. Por outro lado, como as relações de
gênero são construídas socialmente e, passíveis de mudança, abrem espaço para as lutas
-em busca de maior igualdade entre homens e mulheres. Ao se organizarem e lutarem
por transformação, conquistando mais espaço no âmbito político e social, as mulheres
criam as condições para alterar paulatinamente as relações de poder.

LISTA BIBLIOGRÁFICA

LIMA JUNIOR, Luiz Pereira de. Gênero e Educação. Conc. João Pessoa, v.4, n 6, p.1-
180 Jul./Dez. 2001 Disponível em:
http://www.adufpbjp.com.br/publica/conceitos/6/art_01.PDF. Acesso em: 01 jun. 2004.

MACHADO, Lia Zanotta. Perspectivas em confronto: relações de genero ou


patriarcado contemporâneo? Brasília, [s. n.], 2000. Disponível em:
http://www.unb.br/ics/dan/Serie284empdf.pdf. Acesso em : 31 mai. 2004

SAFFIOTI, H. Gênero e patriarcado. Inédito, jan/ 2001.

---------------- O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. 120 p

WILLIAMS, Lúcia Cavalcanti de Albuquerque. Uma questão de direitos da mulher: o


combate e a prevenção de violência doméstica. [S. l.]: [s. n.], [2000?]. Disponível em:
<ttp://216.239.51.104/search?q=cache:qRBb7Je7CEAJ:www.cech.ufscar.br/laprev/direi
to>. Acesso em: 30 mai. 2004.

Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP. Professora de Graduação e Pós


graduação da CNEC/FACECA.
Na concepção de Saffioti o nó é formado pelas “subestruturas” de gênero, classe e raça
/etnia, ou seja, é um “novelo” construído historicamente pelo patriarcado, capitalismo,
racismo. (2001, p. 58)