Вы находитесь на странице: 1из 193

ÂÂNNGGEELLAA CCÂÂNNDDIIDDAA PPEERREEIIRRAA DDAA SSIILLVVAA

IIMMPPAACCTTOOSS DDOO TTWWIITTTTEERR NNAA CCOOBBEERRTTUURRAA JJOORRNNAALLÍÍSSTTIICCAA DDAA CCAAMMPPAANNHHAA EELLEEIITTOORRAALL 22001100::

OO CCAASSOO DDAA AAGGÊÊNNCCIIAA EESSTTAADDOO

Universidade Metodista de Piracicaba Faculdade de Comunicação Social - Curso de Jornalismo Piracicaba, SP - 2010

ÂÂNNGGEELLAA CCÂÂNNDDIIDDAA PPEERREEIIRRAA DDAA SSIILLVVAA

IIMMPPAACCTTOOSS DDOO TTWWIITTTTEERR NNAA CCOOBBEERRTTUURRAA JJOORRNNAALLÍÍSSTTIICCAA DDAA CCAAMMPPAANNHHAA EELLEEIITTOORRAALL 22001100::

OO CCAASSOO DDAA AAGGÊÊNNCCIIAA EESSTTAADDOO

Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social Habilitação em Jornalismo, na Universidade Metodista de Piracicaba. Orientação: Prof. Paulo Roberto Botão.

Universidade Metodista de Piracicaba Faculdade de Comunicação Social - Curso de Jornalismo Piracicaba, SP - 2010

DDEEDDIICCAATTÓÓRRIIAA ÀÀqquueelleess qquuee ccoommuunniiccaamm eemm 114400 ccaarraacctteerreess

[[

]]

aa mmiinnhhaa iimmpprreessssããoo éé aa ddee qquuee oo TTwwiitttteerr eessttaavvaa cceerrttoo ee eerrrraaddoo

OO TTwwiitttteerr éé uummaa mmaanneeiirraa ddee ssee jjooggaarr tteemmppoo ffoorraa mmaassssiivvaammeennttee EEllee éé ssiimm oouuttrraa mmaanneeiirraa ddee pprrooccrraassttiinnaarr,, ddee ffaazzeerr aass hhoorraass ppaassssaarreemm sseemm qquuee ssee tteerrmmiinnee oo ttrraabbaallhhoo,, aa bbaattaallhhaa ppoorr ssttaattuuss oonnlliinnee ee ppaarraa mmaassssaaggeeaarr oo sseeuu pprróópprriioo eeggoo MMaass éé ttaammbbéémm uumm ccaannaall bbrriillhhaannttee ppaarraa ssee ttrraannssmmiittiirr nnoottíícciiaass ddee úúllttiimmaa hhoorraa,, ffaazzeerr ppeerrgguunnttaass ee ppaarraa ssee cchheeggaarr ppeerrttoo ddee ffiigguurraass ppúúbblliiccaass qquuee vvooccêê aaddmmiirraa NNeennhhuumm oouuttrroo ccaannaall ssee ccoommppaarraa àà ccaappaacciiddaaddee ddoo TTwwiitttteerr ddee ddiisssseemmiinnaarr ccoonntteeúúddoo eemm tteemmppoo rreeaall ppoorr bbooccaa aa bbooccaa ""

DDaavviidd PPoogguuee ((@@ppoogguuee)),, ccoolluunniissttaa ddee tteeccnnoollooggiiaa ddoo jjoorrnnaall TThhee NNeeww YYoorrkk TTiimmeess

AGRADECIMENTOS

A meus pais, Brasilino Pereira da Silva e Maria Benedita Romualdo da Silva, por me proporcionarem chegar até aqui meu eterno agradecimento.

Aos professores de toda a minha vida acadêmica, por toda a contribuição.

Ao Profº Paulo Roberto Botão, pela orientação do trabalho.

Ao Profº Dr. Belarmino César Costa, pela orientação do anteprojeto de pesquisa.

À Profª Drª Ana Maria Cordenonssi, pelo impulso e pela indicação de fontes de consulta.

Aos funcionários da Faculdade de Comunicação da Unimep.

Especialmente, aos amigos e colegas Aline Cristiane Joaquim (@AlynneCristiane), Camila Gusmão (@camilagusmao), Patrícia Elias (@patriciaesilva), Zamir de Bellis Junior (@zamirjr), Mayara Banow (@maybanow) e Vanessa Haas (@vanjornalismo), pela colaboração na primeira fase deste trabalho. A determinação sempre foi a base que uniu esta equipe e se tornou um apoio importante para o sucesso de nossos projetos.

À Rafael Piveta Lopes, pela compreensão nos finais de semana ausentes.

Aos pesquisadores Pedro Aguiar e Maria Cleidejane Espiridião, pela colaboração em relação à bibliografia sobre agências de notícias.

Aos jornalistas da Agência Estado: Gustavo Porto, pelas dicas iniciais; Gustavo Uribe, Ana Conceição e Carolina Freitas, pela recepção na empresa para as entrevistas; e, em especial, ao diretor executivo Roberto Lira, e à chefe de reportagem Elisabeth Lopes, pelo estímulo.

Ao jornalista Erich Vallim Vicente, editor da Tribuna Piracicabana, pelo apoio na obtenção de material da Agência Estado.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 01 Estatísticas de acesso a redes sociais no Brasil

33

Figura 02 Tweet relacionado à agenda do político/partido

61

Figura 03 Tweet relacionado à agenda do jornalista

62

Figura 04 Tweet de marketing político

62

Figura 05 Tweet relacionado a outros fatos da política

63

Figura 06 Tweet de divulgação profissional

63

Figura 07 Reply no Twitter

64

Figura 08 Retweet no Twitter

64

Figura 09 Tweet variado

65

Figura 10 Tweet relacionado ao dossiê

65

Figura 11 Tweet de José Dutra dossiê (02/06 12h21)

73

Figura 12 Tweet de José Dutra dossiê (01/06 20h23)

73

Figura 13 Tweet de Sérgio Guerra dossiê (03/06 16h06)

74

Figura 14 Tweet de José Dutra dossiê (03/06 18h21)

75

Figura 15 Tweet de Sérgio Guerra sobre Dutra (03/06 11h12)

76

Figura 16 Tweet de Sérgio Guerra sobre Dutra (03/06 11h10)

76

Figura 17 Tweet de José Dutra dossiê (02/06 12h21)

77

Figura 18 Tweet de José Dutra dossiê (03/06 15h06)

78

Figura 19 Tweet de José Dutra sobre Guerra (01/06 20h25)

79

Figura 20 Tweet de Marina Silva sobre Indio da Costa (18/07 21h07)

81

Figura 21 Site oficial Minha Marina

82

Figura 22 Tweet de Marina Silva - 1ª interação com conta de portal jornalístico

83

Figura 23 Tweet de Marina Silva - 2ª interação com conta de portal jornalístico

83

Figura 24 Tweet de José Dutra sobre Indio da Costa (17/07 14h45)

87

Figura 25 Tweet de José Dutra sobre Indio da Costa (18/07 18h46)

88

Figura 26 Reprodução do Twitter sendo usada como ilustração na matéria

89

Figura 27 Tweet de Indio da Costa PT-Farc (19/07 12h45)

90

Figura 28 Tweet de Indio da Costa PT-Farc (23/07 7h42)

91

Figura 29 Tweet de Indio da Costa PT-Farc (19/07 14h52)

92

Figura 30 Tweet de Indio da Costa PT-Farc (19/07 15h40)

92

Figura 31 Tweet de Indio da Costa PT-Farc (19/07 16h24)

92

LISTA DE TABELAS

Tabela 01 Twitters analisados na pesquisa

60

Tabela 02 Conteúdo dos tweets de Dilma Rousseff

66

Tabela 03 Conteúdo dos tweets de José Serra

66

Tabela 04 Conteúdo dos tweets de Marina Silva

67

Tabela 05 Conteúdo dos tweets de José Eduardo Dutra

67

Tabela 06 Conteúdo dos tweets de Sérgio Guerra

67

Tabela 07 Conteúdo dos tweets de José Luiz Penna

67

Tabela 08 Conteúdo dos tweets de Elisabeth Lopes

68

Tabela 09 Conteúdo dos tweets de Carolina Freitas

69

Tabela 10 Conteúdo dos tweets de Gustavo Uribe

69

Tabela 11 Pesquisa de notícias no Google primeira combinação

70

Tabela 12 Pesquisa de notícias no Google segunda combinação

71

Tabela 13 Pesquisa de notícias no Google terceira combinação

71

Tabela 14 Pesquisa de notícias no Google quarta combinação

72

Tabela 15 Grau de aparição do Twitter nas matérias analisadas

79

Tabela 16 Twitters incluídos nas pesquisa

80

Tabela 17 Conteúdo dos tweets de Dilma Rousseff

80

Tabela 18 Conteúdo dos tweets de José Serra

81

Tabela 19 Conteúdo dos tweets de Marina Silva

81

Tabela 20 Conteúdo dos tweets de José Eduardo Dutra

83

Tabela 21 Conteúdo dos tweets de Sérgio Guerra

84

Tabela 22 Conteúdo dos tweets de José Luiz Penna

84

Tabela 23 Conteúdo dos tweets de Michel Temer

84

Tabela 24 Conteúdo dos tweets de Indio da Costa

84

Tabela 25 Conteúdo dos tweets de Elisabeth Lopes

85

Tabela 26 Conteúdo dos tweets de Carolina Freitas

85

Tabela 27 Conteúdo dos tweets de Gustavo Uribe

85

Tabela 28 Pesquisa de notícias no Google quinta combinação

86

Tabela 29 Pesquisa de notícias no Google sexta combinação

86

Tabela 30 Grau de aparição do Twitter nas matérias analisadas

93

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

 

12

CAPÍTULO I DA INTERNET AO JORNALISMO ONLINE

 

17

1. A

Internet no Brasil

 

20

2. A evolução do jornalismo online no Brasil

 

21

CAPÍTULO II - REDES SOCIAIS E JORNALISMO NO TWITTER

 

25

1. As redes sociais no ciberespaço: conceito e surgimento

 

26

2. Os blogs e a geração de conversações

 

28

3. A onda dos microblogs e o fenômeno Twitter

 

30

 

3.1.

Nascimento e características do Twitter

31

4. Política e Twitter: campanha em 140 caracteres

36

5. As apropriações jornalísticas do Twitter

 

39

CAPÍTULO III

-

AGÊNCIAS

DE

NOTÍCIAS

E

POLÍTICA:

UMA

RELAÇÃO HISTÓRICA

 

42

1. Agências de notícias brasileiras

 

45

 

1.1. A experiência da Agência Estado

47

1.2. Produtos e serviços da Agência Estado

 

49

2. Cobertura política e a relação com as agências de notícias

 

52

CAPÍTULO

IV

-

IMPACTOS

DO

TWITTER

NA

COBERTURA

JORNALÍSTICA

DA

CAMPANHA

ELEITORAL

2010:

ANÁLISE

DE

CONTEÚDO DA AGÊNCIA ESTADO

 

56

1.

Análise do Caso 1: A polêmica do dossiê contra José Serra

 

66

1.1. A repercussão dos tweets sobre o dossiê no material jornalístico da Agência Estado

70

2.

Análise do Caso 2: PT é acusado de ligação com as Farc 2.1 A repercussão dos tweets sobre a suposta ligação entre PT e Farcs

79

no material jornalístico da Agência Estado

 

85

CONSIDERAÇÕES FINAIS

100

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

104

ANEXOS

108

Anexo A Transcrição das entrevistas realizadas junto a jornalistas da Agência Estado

109

Anexo B Notícias relacionadas ao dossiê produzidas pela Agência Estado e analisadas na pesquisa

118

Anexo C Notícias relacionadas à acusação de ligação do PT com as Farc produzidas pela Agência Estado e analisadas na pesquisa

129

Anexo D Relação integral dos tweets divulgados por políticos no período analisado caso dossiê

135

Anexo E Relação integral dos tweets divulgados por jornalistas no período analisado caso dossiê

148

Anexo F Relação integral dos tweets divulgados por políticos no período analisado caso PT-Farc

156

Anexo G Relação integral dos tweets divulgados por jornalistas no período analisado caso PT-Farc

179

RREESSUUMMOO

O serviço de microblogging Twitter 1 surgiu sem a intenção de manter relação direta com o jornalismo. Apesar disso, passou a apresentar dupla faceta: conversação e informação instantânea, esta última em maior escala. O perfil de seus usuários no que se refere à colaboração/participação levou alguns grupos jornalísticos a adotá-lo como ferramenta. Blogueiros, tecnomaníacos e políticos estão entre os grupos mais ativos no microblog. Frente a esse cenário e a fim de entender a relação do jornalismo com as redes sociais, este trabalho toma como objeto o microblog Twitter para identificar seu uso pelo jornalismo enquanto uma ferramenta de captação de informações durante a cobertura das campanhas eleitorais de 2010. O foco é a relação entre personalidades políticas que usam o Twitter para divulgar suas ações e repórteres que se pautam por esses tweets 2 . Essa situação é analisada a partir da experiência da editoria de política da Agência Estado. A pesquisa apresenta uma revisão conceitual e histórica sobre o jornalismo online, as redes sociais, os blogs, os microblogs e o jornalismo de agências. A partir de um estudo de caso do Twitter que incluiu a observação de 11 perfis, é feita uma análise sobre a forma com que os tweets publicados por políticos estão sendo utilizados no material noticioso produzido pela Agência Estado. Por fim, constata-se a hipótese de que os conteúdos do Twitter vêm sendo usados pelo jornalismo como fonte, a exemplo da identificação de notícias inteiramente baseadas em falas escritas pelos políticos no microblog.

PPaallaavvrraass--cchhaavvee::

Jornalismo online, Redes sociais, Twitter, Eleições, Agências de notícias.

1 http://twitter.com/

2 Mensagem enviada pelo Twitter.

AABBSSTTRRAACCTT

The microblogging service Twitter has emerged without the intention of keep a direct relationship with journalism. However, it now provides two facets: conversation and instant information, this last on a larger scale. The profile of its users with respect to collaboration/participation has led some publishers to adopt it as a tool. Bloggers, tecnology maniacs and political personalities are among the most active groups in the microblog. Given this reality and in order to understand the relationship of journalism with social networks, this study takes the Twitter as its object for identify their use by the journalism as a tool for capturing information during the coverage of 2010 election campaigns. The intention is to analyze the relationship between political personalities that use Twitter to publicize his actions and reporters who are guided by these tweets. This situation is analyzed from de experience of the politics section of the Agência Estado. The research presents a conceptual and historical review about online journalism, social networking, blogs, microblogs and journalism agencies. From a case study of Twitter that included the observation of 11 profiles, an analysis is made about the way the tweets published by political personalities are being used in news material produced by the Agência Estado. Finally, this research concludes that there is the possibility that the contents of Twitter are being used by journalists as a source, such as the identification of news based entirely on messages by political personalities on Twitter.

KKeeyy--wwoorrddss::

Webjournalism, Social networks, Twitter, Elections, News agencies.

12

IINNTTRROODDUUÇÇÃÃOO

A produção de conteúdo na rede mundial de computadores foi democratizada com a consolidação da web 2.0, segunda geração da Internet caracterizada por apresentar plataforma aberta, que reforça o ambiente de interação e a troca colaborativa entre sites e internautas, da qual as redes sociais são um dos exemplos possíveis. Através de um blog, por exemplo, amadores se tornam produtores de conteúdo, publicam sua posição sobre fatos informados pela mídia ou lançam em primeira mão conteúdos relevantes que rapidamente se multiplicam

na web, chamando a atenção dos internautas e mesmo da imprensa. Criado em 1992 e lançado ao público em 2006, o microblog Twitter teve seu papel redirecionado por seus usuários num processo chamado de apropriação”, na medida em que passou a ser usado para fins de conversação, caracterizando-se, portanto, como uma rede social, e também para o compartilhamento de informações (ZAGO, 2009a). Hoje, o serviço pode ser apontado como uma ferramenta informativa porque possibilita tanto a circulação de informações quanto o debate acerca delas e, consequentemente, a produção de novos

conteúdos. O Twitter está no apogeu de sua popularidade e só dá sinais de que crescerá ainda mais (COMM, 2009). Seu uso estendeu-se inclusive para o campo político, com destaque para

a divulgação da campanha à presidência de Barack Obama pelo microblog, nos Estados

Unidos, em 2008. Este estudo se debruça sobre as apropriações do Twitter como agregador de informações, para analisar a repercussão delas na produção de notícias, no sentido de que o microblog pode ser usado como ferramenta na redação. Assim como os usuários podem escolher a quem irão seguir no site, os grupos de comunicação também podem fazer uso do

13

Twitter para incrementar suas coberturas e contatar fontes de informação (CARVALHO; BARRICHELLO, 2009). No Twitter, existem indivíduos centrais que, pelo grande número de seguidores, atuam como influenciadores de suas redes sociais (ZAGO, 2009a) e não se pode negar a relevância de uma informação divulgada por eles. No momento em que cresce o uso de redes sociais de comunicação e as pessoas se agrupam na Internet por nichos de interesses, o jornalismo tem a possibilidade de se pautar por informações divulgadas diretamente do perfil de grupos específicos. Assim, considerando que alguns grupos sociais recebem atenção redobrada dos jornalistas, essa análise toma como foco as mensagens divulgadas por personalidades políticas no microblog. Cabe destacar que a ideia não é associar ao jornalismo todo o conteúdo divulgado por amadores no Twitter, mas sim considerar essas práticas como um complemento da produção jornalística. Com base nessa tendência, o objeto do presente trabalho é o uso do Twitter pelos jornalistas enquanto uma ferramenta adicional para a cobertura da campanha eleitoral de 2010. Para entender como isso se desdobra foram levantadas situações em que as informações divulgadas por políticos no microblog serviram como fonte para matérias publicadas pela Agência Estado. A escolha desta empresa ocorreu em virtude de dois fatores. Primeiro porque seu material tem forte repercussão na mídia e, consequentemente, na opinião pública, já que suas notícias são replicadas por seus inúmeros assinantes, representados por jornais, portais e sites de informação de todo o país. Segundo porque a própria natureza de operação das agências de notícias pressupõe um elevado grau de uso das novas tecnologias de produção e difusão da informação, assim como a aceleração da velocidade nos processos em que estão envolvidas. O objetivo é avaliar o quanto o microblog vem sendo usado pela Agência Estado como fonte para a cobertura da campanha eleitoral e se ele se configura como uma ferramenta eficaz para o apoio do trabalho na redação, a fim de desvendar a relação que a agência mantém com a rede social. Portanto, a observação feita nesse trabalho também apresenta algumas das particularidades do jornalismo de agências, principalmente em relação à maneira de lidar com as novas formas de produção de conteúdo possibilitadas pela web.

Considerando a natureza do objeto e o fato de que o procedimento metodológico é composto pelo monitoramento do Twitter em determinados períodos e posterior interpretação, que mescla elementos qualitativos e quantitativos, esta pesquisa foi baseada na estratégia de estudo de caso. Seu enquadramento como tal se justifica pelo fato de investigar uma tendência

14

atual por meio de múltiplas fontes de consulta (M. DUARTE, 2005) e de coleta de dados, além de ter sua problemática mais relacionada à questão “como”. Acrescenta-se, ainda, o fato de que os eventos analisados não permitiram qualquer controle pela pesquisadora, além da observação passiva, já que se constituem em manifestações sociais ligadas a um fenômeno contemporâneo (YIN, 2001). Ao analisar o Twitter por meio de uma situação única seu uso por jornalistas durante a cobertura das campanhas eleitorais a estratégia dessa pesquisa representa, portanto, a investigação de um caso específico e bem delimitado. A problemática que se impôs ao estudo foi investigar de que maneira as mensagens postadas no microblog vêm sendo usadas nas notícias em meio ao grande fluxo de informações que a web proporciona e se a ferramenta acomoda o jornalista, no sentido de que o contato face a face” é posto em segundo plano e pode não haver a preocupação de checar esse conteúdo e obter mais informações junto às fontes. Além da revisão histórica e conceitual acerca do jornalismo online, das redes sociais e do jornalismo de agências, as ferramentas usadas para a coleta de dados foram a própria web como fonte principal; e a captação de entrevistas semi-abertas junto a repórteres da Agência Estado (usuários do Twitter) como fonte complementar, a fim de compreender as formas de uso do Twitter na redação. O procedimento de análise se inicia com a seleção de dois fatos políticos de repercussão nacional ocorridos durante a campanha eleitoral. Após a seleção destes dois episódios, passou-se à observação de tweets divulgados por um grupo de políticos e de jornalistas da Agência Estado durante o período de maior debate destes, realizando-se a sua confrontação com matérias jornalísticas produzidas e veiculadas pela Agência no mesmo período, em sistemática que é apresentada de forma detalhada no capítulo IX, que apresenta a análise em questão. Com esses procedimentos, procurou-se agregar o máximo de fidedignidade possível ao trabalho, para que, uma vez repetida, sua análise apresente resultados aproximados aos alcançados. Pela escolha da Internet como fonte para as coletas, os procedimentos adotados foram de fato flexíveis, já que “a volatilidade da internet, em que as mudanças se dão com inacreditável celeridade, impede a constituição do corpus por meio das amostragens tradicionais” (ADGHIRNI; MORAES, 2008, p. 242). Ao se voltar para a análise de perfis políticos no microblog, o presente trabalho mantém a característica de atualidade, já que 2010 é ano de eleições presidenciais no Brasil e, no período de análise, os políticos estiveram em ritmo de campanha, marcado por

15

informações de bastidores que puderam ser coletadas nos perfis dos candidatos que usam o

Twitter. Além disso, a Internet teve papel fundamental nesse processo, já que o Congresso

Nacional aprovou a liberação do uso da web para campanhas políticas, em setembro de 2009,

através do Projeto de Lei 5498/09 3 , sancionado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Considerando as discussões em torno do futuro do jornalismo diante da facilidade de

se produzir informação na Internet, esse trabalho avalia o comportamento do jornalista diante

de uma ferramenta diretamente ligada à web, ao ambiente de colaboração e à interação

mediada por computador, contribuindo para o debate acerca dos impactos da Internet no

jornalismo e sobre as novas formas de linguagem que a web proporciona, sem entretanto

esgotar a temática.

O primeiro capítulo deste estudo, “Da Internet ao jornalismo online”, trata do

surgimento da Internet e sua expansão pelo mundo e no Brasil. Esse aspecto histórico é

apresentado para que o nascimento e o desenvolvimento do jornalismo digital seja explicado,

desde a adaptação não muito clara à rede pela qual os veículos se submeteram, até o

entendimento de que a web exigia uma linguagem específica.

“Redes sociais e jornalismo no Twitter” é o tema do segundo capítulo, que aprofunda

o conceito de web 2.0, fala do surgimento das redes sociais, dos microblogs e seu papel na

Internet como ferramenta de participação. Também trata do nascimento do microblog Twitter,

suas possibilidades e sua apropriação como espaço de informação. O capítulo aborda a

reconstrução de sentido dessa rede social, liderada pelos grupos que a compõem, uma vez que

a pergunta What are you doing 4 ?”, lançada pelo Twitter foi convertida em What’s

happening 5 ?, ou seja, formou-se um espaço de circulação de informações de todos os tipos,

inclusive, noticiosas. O segundo momento do trabalho refere-se, portanto, à produção

colaborativa de conteúdo pelos usuários do Twitter.

O terceiro capítulo deste estudo aborda a trajetória histórica do jornalismo de agências

e seus desdobramentos no Brasil. Apresenta ainda a relação existente entre o jornalismo

político e as agências de notícias, uma vez que grande parte do conteúdo nacional publicado

pela imprensa nessa área é baseado nos serviços recebidos das agências contratadas. Este

3 O Projeto de Lei 5498/09, aprovado pela Câmara dos Deputados em 16 de setembro de 2009 determina que “é livre a manifestação do pensamento, vedado o anonimato, durante a campanha eleitoral, por meio da rede mundial de computadores - internet, assegurando o direito de resposta”. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei em 29 de setembro de 2009, que já começou a vigorar nas eleições de 2010, sendo que os candidatos puderam pedir votos pela internet a partir do dia 5 de julho de 2010. Porém, mesmo antes da campanha, fica livre toda manifestação de pensamento.

4 O que você está fazendo?

5 O que está acontecendo?

16

momento da monografia apresenta características do trabalho desenvolvido pela Agência Estado, tais como aspectos da produção de seu conteúdo, serviços ofertados e sua presença na web.

No quarto capítulo deste estudo, “Impactos do Twitter na cobertura jornalística da campanha eleitoral 2010: análise de conteúdo da Agência Estado”, são apresentados os procedimento metodológicos, que incluem a observação de perfis de personalidades políticas no microblog, a coleta de notícias produzidas pela Agência Estado baseadas nesses tweets, a análise acerca dessa produção e a citação de trechos de entrevistas realizadas junto a repórteres da AE. Finalmente, no último capítulo, são traçadas as considerações finais, retomando e aprofundando as conclusões observadas na análise. Ressalta-se neste ponto a importância da Internet e, sobretudo, das redes sociais, na produção de informação jornalística na atualidade, e da forma como as novas ferramentas de interação da chamada web 2.0 vem sendo incorporadas ao processo de produção e difusão destas informações.

17

CAPÍTULO I DA INTERNET AO JORNALISMO ONLINE

O termo Internet nasceu com a expressão inglesa INTERaction or INTERconnection between computer NETworkse se refere à rede que reúne milhares de outras redes de computadores, ou seja, um meio onde a comunicação se locomove em alta velocidade para todos os locais. Ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento dessa rede teve consequências em muitas áreas da vida em sociedade, e provocou o surgimento do webjornalismo, fenômeno que pode ser melhor compreendido a partir do conhecimento da história da Internet e seus avanços após a criação do ambiente gráfico World Wide Web. Apesar de os termos Internet e Web serem usados como sinônimos, Ward (2006) aponta o primeiro como a infraestrutura que conecta os computadores em rede mundial. Já a web é a interface que, através da Internet, possibilita a troca de dados, fotos, sons e vídeos. A Internet surgiu em 1969, quando foi criada a Arpanet, pela Advanced Research Projects Agency, organização do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que desenvolvia pesquisas de informação para o serviço militar. A Arpanet era uma rede nacional de computadores que os Estados Unidos usavam como ferramenta de comunicação de emergência em caso de ataque de outro país. No final do ano de 1974, a Arpanet chegou a ter 62 servidores, sendo que a previsão inicial era de funcionar com apenas 19 deles. Pinho (2003) cita que houve a necessidade de aperfeiçoar seu protocolo de comunicação, o NCP, para ampliar a possibilidade de conexão das máquinas.

Bob Kahn e Vinton Cerf desenvolveram e propuseram um novo conjunto de protocolos que permitia a comunicação entre diferentes sistemas. O Transmission Control Protocol (TCP) e o Internet Protocol (IP) oferecem 4 bilhões de endereços diferentes e utilizam uma arquitetura de comunicação em camadas, com protocolos distintos cuidando de tarefas distintas (PINHO, 2003, p. 27).

18

O TCP/IP foi adotado pela Arpanet e funcionou em paralelo com o NCP, até o ano de

1983, quando foi necessário usar um novo conjunto de protocolos TCP/IP para cada máquina.

A partir de 1975, a Agência de Comunicação e Defesa americana ganhou o controle da

Arpanet. Pesquisadores universitários passaram a usar a rede para trocar arquivos extensos, causando o crescimento do tráfego de dados (FERRARI, 2004).

A partir disso, surgiram novas redes, tais como Bitnet (Because It’s Time Network) e

CSNET (Computer Science Network Rede de Ciência da Computação), com o objetivo de

fornecer acesso para outras universidades e entidades de pesquisa. A Bitnet era uma rede

] utiliza

sistemas de correio eletrônico e um mecanismo conhecido como „listserv‟, que permitia aos usuários publicar artigos e subscrever mailing lists especializadas em determinados assuntos

enviando uma mensagem para um servidor de listas” (PINHO, 2003, p. 28).

A Arpanet desvinculou-se das origens militares em 1983. Na verdade, ela foi dividida

e a Milnet continuou com propósitos militares. A Arpanet em si dirigiu-se para a pesquisa e progressivamente passou a ser chamada de Internet (PINHO, 2003).

Em 1984, a National Science Foundation, um órgão independente do governo norte- americano, passou a administrar a Arpanet. Criou, então, em 1986, uma rede que conectava pesquisadores de todo o país, a NSFNET. Em 1990, já eram mais de 80 países utilizando a rede.

Até o final dos anos 80, os computadores existentes estavam ligados à academia, instalados em laboratórios e centros de pesquisa. Enquanto isso, o ambiente gráfico World

Wide Web estava sendo criado, com base em hipertexto e sistemas de recursos para a Internet.

O principal precursor deste processo foi Tim Berners Lee, que já em 1980, desenvolveu o

programa Enquire, um organizador de informações e links, e anos depois, em 1989, propôs a WWW, que impulsionou o desenvolvimento da Internet:

A Web é provavelmente a parte mais importante da Internet e, para muitas pessoas, a única parte que elas usam, um sinônimo mesmo de Internet. Mas a World Wide Web é fundamentalmente um modo de organização da informação e dos arquivos na rede. O método extremamente simples e eficiente do sistema de hipertexto distribuído, baseado no modelo cliente- servidor, tem como principais padrões o protocolo de comunicação HTTP, a linguagem de páginas HTML e o método de identificação de recursos URL (PINHO, 2003, p. 33).

acadêmica da City University de Nova York, conectada à Universidade de Yale, e [

Por Hypertext Markup Language (HTML) entende-se a linguagem padrão usada para escrever na web, nos formatos de texto, som, imagens e animação. O Hypertext Transport

19

Protocol (HTTP) é o protocolo que estabelece como programas e servidores irão interagir. O

Uniform Resource Locator (URL) permite que um serviço na web seja localizado e acessado

(PINHO, 2003).

Outros nomes foram importantes na evolução do modelo da WWW. Robert Cailliau, em 1981, colaborou com o sistema de hipertexto da CERN e com o browser 6 Samba. Em

1992, Jean François Groff também teve importante contribuição, ajudando a criar a nova

configuração gráfica da Internet.

O esforço verificado neste período foi principalmente visando garantir melhor

usabilidade à rede, ou seja, o desenvolvimento de interfaces mais amigáveis, o que foi

decisivo para a ampliação rápida do número de usuários nos anos seguintes.

Nesta perspectiva, em 1992, foi criado o College, grupo de pesquisadores que

estudava as formas de se explorar a web. O grupo foi criado pelo Software Development

Group (Grupo de Desenvolvimento de Softwares), do National Center for Supercomputer

Applications (NCSA) Centro Nacional de Aplicações para Supercomputadores. Um dos

membros, Max Andreessen criou o Mosaic, o primeiro navegador pré Netscape (FERRARI,

2004).

Alguns dados citados por Ferrari (2004) representam a dimensão do crescimento da

internet: em 1993, eram 1,7 milhão de computadores conectados no mundo, e em 1997, esse

número subiu para 20 milhões. Em 1996, foram enviados 98 bilhões de e-mails nos Estados

Unidos, face à 83 bilhões de cartas convencionais postadas nos correios.

Em 1997, o termo portal passou a ser utilizado, já que os sites de busca passaram a

agregar conteúdo e disponibilizar aplicativos na própria página de entrada. Segundo Ferrari

(2004), os portais congregam: ferramenta de busca, comunidades, comércio eletrônico, e-mail

gratuito, entretenimento e esportes, notícias, previsão do tempo, chat, discos virtuais (espaço

em seus servidores para que os usuários armazenem arquivos, que podem ser acessados via

web de qualquer lugar), home page pessoais (página inicial de um site que pode ser

personalizada), jogos online, páginas amarelas (guias de serviços, mapas, telefones úteis),

mapas, cotações financeiras, canais (demarcam assuntos estratégicos), mapa do site (mostra

todos os nomes dos canais, seções e serviços, por links), personalização.

6 Navegador da Internet, programa utilizado para visualizar páginas web.

20

1. A Internet no Brasil

De acordo com PINHO (2003), alguns embriões de redes já eram observados no Brasil em 1988. Eles interligavam universidades e centros de pesquisa do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Porto Alegre aos Estados Unidos.

A Rede Nacional de Pesquisa (RNP) teve papel importante na evolução da Internet no

Brasil. Surgido em 1989, o grupo era formado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e por representantes do meio acadêmico, ligados a instituições como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs). Essa rede aprimorou velocidades de conexões e divulgou serviços da Internet para a comunidade acadêmica (PINHO, 2003).

O Brasil entrou para a rede de computadores em 1990, junto com Argentina, Áustria,

Bélgica, Chile, Grécia, Índia, Irlanda, Coréia, Espanha e Suíça (PINHO, 2003). Esse foi

também o ano em que a Arpanet foi encerrada, dando lugar a Internet de fato, com 1.500 sub- redes e 250 mil hosts 7 .

O Ministério das Comunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil,

promulgaram, em 1995, a Portaria Interministerial 147, que lançou o Comitê Gestor da

Internet no Brasil, “[

com os objetivos de assegurar a qualidade e a eficiência dos serviços

ofertados, a justa e livre competição entre provedores e a manutenção de padrões de conduta de usuários e provedores” (PINHO, 2003, p. 39).

Neste mesmo ano, houve a abertura da Internet comercial no país. Em razão disso, a RNP expandiu os serviços de acesso, que antes eram restritos ao meio acadêmico, a todos os setores da sociedade. A criação do Centro de Informações Internet/BR pela RNP “[ ] ofereceu um importante apoio à consolidação da Internet comercial no país” (PINHO, 2003, p. 39).

]

A função de coordenar a atribuição de endereços IP foi transferida do Comitê Gestor

para a Fapesp, em 1998. Além disso, a manutenção das bases de dados na rede eletrônica

também ficou a cargo da Fundação. Para isso, a Fapesp foi autorizada a cobrar taxas de registro e de manutenção de domínios.

7 Máquinas conectadas à rede.

21

Em 1998, mais de 25% das declarações do Imposto de Renda de pessoas físicas foram processadas via internet. Esse fato deu mostras de que a rede caminhava para grande potencial de acesso no país (FERRARI, 2004). Depois que os bancos Bradesco e Unibanco ofereceram acesso gratuito à Internet, o iG lançou-se também neste mercado em 2000, fazendo com que muitos internautas deixassem de pagar seus provedores para experimentar o serviço. Com isso, o número de usuários brasileiros da Internet deu um salto. De acordo com uma pesquisa Ibope realizada em março de 2000 (FERRARI, 2004), o crescimento foi de 1,2 milhão de internautas nos dois primeiros meses do ano. O estágio atual da Internet relaciona-se às tecnologias de conexão móvel, que “consistem na transmissão de dados digitais para celulares e computadores de mão, através de redes sem fio, como por exemplo, as redes das operadoras de celulares” (FERREIRA, 2003, p. 71). Trata-se de um novo campo de exploração também para o jornalismo, na forma de difusão de conteúdo. Antes de aprofundar essa questão, é necessário retomar as mudanças pelas quais o jornalismo passou com a consolidação da Internet.

2. A evolução do jornalismo online no Brasil

Com o passar do tempo, a Internet passou a representar também um novo campo para o emprego de práticas jornalísticas. À nível mundial, a primeira experiência comercial relacionada ao jornalismo online ocorreu em 1993, quando o jornal americano San Jose Mercury News lançou sua versão digital na Internet, sendo o primeiro jornal presente na web (FERREIRA, 2003). São muitas as definições para o webjornalismo. De acordo com Gonçalves (2000 apud PINHO, 2003, p. 58):

O jornalismo digital é todo produto discursivo que constrói a realidade por meio da singularidade dos eventos, tendo como suporte de circulação as redes telemáticas ou qualquer outro tipo de tecnologia por onde se transmita sinais numéricos e que comporte a interação com os usuários ao longo do processo produtivo.

Ferrari (2004) propõe uma distinção entre os jornalistas online, aqueles que trabalham na transposição das mídias, traduzindo as notícias da linguagem impressa para a web; e

compreende todos os noticiários, sites e produtos que nasceram

jornalismo digital, que “[

]

22

Há ainda o conceito de ciberjornalismo, que inclui tarefas de criação de textos para

os produtos do meio digital, tais como criação e manutenção de um blog, mediação de

chats e fóruns (FERRARI, 2004).

Ao contrário dos Estados Unidos, que viu seus portais de notícias surgirem em meio a

evolução dos sites de busca, no Brasil, os sites de conteúdo nasceram dentro das grandes

empresas jornalísticas (FERRARI, 2004). Em 1995, surge o primeiro site jornalístico

nacional, ligado ao Jornal do Brasil. Logo depois, surge também a versão eletrônica do jornal

O Globo. Neste período, a Agência Estado também lançou sua página na web.

Dessa forma, os portais brasileiros têm estreita relação com o próprio surgimento da

imprensa nacional, pois estão ligados aos grandes conglomerados de mídia, geralmente

pertencentes a empresas familiares:

Empresas tradicionais como as Organizações Globo, o grupo Estado (detentor do jornal O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde), o grupo Folha (do jornal Folha de S. Paulo) e a Editora Abril se mantêm como os maiores conglomerados da mídia do país, tanto em audiência quanto em receita com publicidade. Foram eles que deram os primeiros passos na Internet brasileira, seguidos pelo boom mercadológico em 1999 e 2000, quando todas as atenções se voltaram à Nasdaq (National Association of Securities Dealers Automates Quotation), a bolsa de valores da Nova Economia. Muitos portais brasileiros atraíram investidores estrangeiros. Projetos como IG, ZipNet, O Site, Cidade Internet e StarMedia contaram com altos investimentos em dinheiro (FERARRI, 2004, p. 27).

Entre 1997 e 2000, a aposta dos sites brasileiros foi na oferta abundante de conteúdo,

em detrimento de seu aprofundamento. Essa situação mudou a partir de 2001, quando “o

mercado passou a perceber a necessidade de aliar conteúdo à qualidade, design acessível e

viabilidade financeira” (FERRARI, 2004, p. 28).

A partir do ano 2000, alguns cursos de jornalismo inseriram em sua grade acadêmica a

disciplina jornalismo digital, e ensinar os alunos a criarem textos para as novas mídias era o

objetivo. A especialização nessa área também passou a ser ofertada em algumas

universidades.

De acordo com Ferreira (2003), a Internet como mídia se consolidou de fato no ataque terrorista ocorrido em 11 de setembro de 2001 8 contra os Estados Unidos, “quando a rede mundial de computadores se firmou como um recurso de suporte, pesquisa, difusão de

8 Série de ataques suicidas comandados pela rede terrorista islâmica Al-Qaeda contra os Estados Unidos. Quatro aviões foram seqüestrados e dois deles colidiram intencionalmente contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, matando passageiros e trabalhadores dos edifícios. O terceiro avião caiu no Pentágono, nos arredores de Washington. O quarto avião caiu em um campo na Pensilvânia. Todos os passageiros seqüestrados morreram.

23

notícias e arquivamento de informações após o atentado às torres do World Trade Center” (FERREIRA, 2003, p. 70). Isso porque a web foi acessada na ocasião por pessoas do mundo todo, que estavam no trabalho na hora do ataque e não tinham acesso a aparelhos de televisão. Para entrar no mercado digital, necessariamente os jornalistas precisaram aprender a

escrever notícias para a Internet. Foi preciso preparar as redações para lidar com formatos

multimídias (fotos, áudios e vídeos) sem deixar de lado a checagem das informações. Era

preciso ainda explorar as opções ofertadas pelo meio, tais como links, instantaneidade,

interatividade e profundidade. Esses recursos a serem explorados pelo jornalismo online são

decorrentes das próprias características da Internet (ZAGO, 2008a):

a) interatividade: possibilidade de interagir com os leitores, através dos comentários e

pela própria navegação, pelo hipertexto;

b) personalização: possibilidade de que o leitor personalize o conteúdo que recebe,

adequando-o ao seu perfil;

c) hipertextualidade: uso de hiperlinks que complementam a notícia;

d) multimidialidade: apresentação do conteúdo em formatos de texto, áudio e vídeo;

e) atualização contínua;

f) memória: o armazenamento de informações na web é infinito e pode ser acessado

pelos leitores.

Portanto, o principal desafio do jornalismo online é saber explorar todas as

potencialidades oferecidas pela Internet, de forma a apresentar um conteúdo multimídia.

Dessa missão, deriva todas as fases pelas quais passou o webjornalismo no Brasil. Mielniczuc

(2003) propõe sua própria classificação para as etapas de evolução do jornalismo na web. Ela

divide a trajetória dos produtos jornalísticos para a Internet em três momentos:

I) Produtos de primeira geração ou fase da transposição: reproduziam partes dos

grandes jornais impressos. “Os produtos dessa fase, em sua maioria, são

simplesmente cópias do conteúdo de jornais existentes no papel, só que, para a

web” (MIELNICZUC, 2003, p. 33).

II) Produtos de segunda geração ou fase da metáfora: experiências que começam a

explorar as características oferecidas pela rede, mas que ainda têm como referência o

jornal impresso. Uma das potencialidades exploradas são os links, o e-mail e os

recursos de hipertexto.

III) Produtos de terceira geração ou fase do webjornalismo: iniciativas empresariais

e editoriais destinadas exclusivamente para o suporte da web. “São sites jornalísticos

que extrapolam a idéia de uma versão para a web de um jornal impresso já existente”

24

(MIELNICZUC, 2003, p. 36). Entre os recursos explorados nesta fase estão sons e animações, interatividade (chats, enquetes, fóruns de discussões), personalização do conteúdo de acordo com o usuário e utilização do hipertexto na própria narrativa textual.

As muitas evoluções da Internet trazem ao jornalismo, em pleno século XXI, a possibilidade de explorar também os dispositivos móveis. Segundo Ferreira (2003), entre as experiências já exploradas pelo jornalismo brasileiro neste sentido estão a mobilidade, que permite o recebimento de informações em qualquer lugar e a qualquer momento; a especialização do conteúdo, que leva à produção de conteúdos de interesse do leitor, em geral em curtos formatos; e a instantaneidade, que possibilita que o jornalismo envie informações no exato momento em que o público necessita. Além das transformações no campo da linguagem ocasionadas pela consolidação da web, uma outra, talvez mais importante, provocou e ainda vem provocando muitas alterações no processo de construção da notícia. Trata-se da ativa participação das fontes/leitores. Com a potencialização das ferramentas de interação, surgiram novas alternativas para o envolvimento dos leitores, acesso às fontes e participação do público no jornalismo. Os blogs fazem parte de um primeiro momento de incorporação das ferramentas de participação no jornalismo, pois permitiram uma ampliação significativa de vozes produzindo conteúdo e debatendo o conteúdo produzido pelas empresas jornalísticas. Processo semelhante ocorreu posteriormente com o Twitter, que vai também se incorporando ao jornalismo e permitindo a recombinação de informações, como será exposto a seguir.

25

CAPÍTULO II - REDES SOCIAIS E JORNALISMO NO TWITTER

As redes sociais são uma das principais vertentes da interação e participação do público através da Internet a partir do século XXI e se formam “quando uma rede de computadores conecta uma rede de pessoas e organizações”, uma tradução livre de Recuero (2009) para a frase when a computer network connects people and organizations, it is a social network”, de Garton, Haythomthwaite e Wellman (1997 apud RECUERO, 2009, p.

15).

Portanto, falar em redes sociais na Internet é avaliar os tipos de conexões estabelecidas no ciberespaço (RECUERO, 2009). Na sociedade da informação tecnológica, o estabelecimento de relações na web fica cada vez mais demarcado, aspecto este relacionado à chamada comunicação mediada por computador. Por sua vez, os atores dessa comunicação, também usuários das redes sociais, passaram a ter um papel bastante ativo na segunda geração da Internet, caracterizada pela colaboração e pela interação. No final do século XX e início do século XXI, houve a intensificação do acesso à rede mundial de computadores. Nesse espaço, verificou-se ainda a ampliação das possibilidades de interação e mesmo da produção de conteúdo no ciberespaço. Essas ações fazem parte de uma fase da plataforma web caracterizada por alguns autores como web 2.0, termo usado pela primeira vez por Tim O‟Reilly 9 para se referir a uma nova versão da Internet enquanto plataforma para o desenvolvimento de aplicativos que exploram as potencialidades da inteligência coletiva (O´REILLY, 2005 apud NUNES, 2009).

9 Tim O'Reilly é o fundador da O'Reilly Media, uma companhia de mídia e editora americana que publica livros e websites e organiza conferências sobre temas de informática. Ativista em movimentos de apoio ao software livre e código livre, O'Reilly é tido como o criador da expressão Web 2.0.

26

O princípio chave da web 2.0 é que quanto mais pessoas usam os serviços mais positivos eles se tornam. Exemplo disso é o site Youtube 10 , fundado em 2005, que se popularizou porque permite que seus usuários compartilhem vídeos em formato digital. Nesse caso, quanto mais pessoas postarem vídeos no site, maior a variedade e maior o número de acessos. Outros exemplos desta nova fase seriam os sistemas wiki 11 , os blogs 12 e a categorização dos conteúdos por meio de tags 13 . Portanto, os sites da geração 2.0 se caracterizam por plataformas de interação, “espaços abertos os quais permitem que qualquer um possa não só consumir como também produzir conteúdo” (ZAGO, 2008a, p.

13).

Alex Primo (2007, p. 01) também apresenta sua contribuição para a definição do termo web 2.0:

A Web 2.0 é a segunda geração de serviços online e caracteriza-se por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo. A Web 2.0 refere-se não apenas a uma combinação de técnicas informáticas (serviços Web, linguagem Ajax, Web syndication, etc.), mas também a um determinado período tecnológico, a um conjunto de novas estratégias mercadológicas e a processos de comunicação mediados pelo computador.

Assim, a web 2.0 se caracteriza pela possibilidade de usuários e desenvolvedores de softwares modificarem sua plataforma através de alguns aplicativos, além de compartilhar informações, comunicar, interagir, transmitir imagens, vídeos e músicas, através da banda larga. Portanto, o conteúdo disponível na rede é marcado pela inteligência coletiva (NUNES, 2009), já que os usuários não mais apenas recebem conteúdo, mas também participam de sua produção.

1. As redes sociais no ciberespaço: conceito e surgimento

Com a globalização e a evolução tecnológica, o ser humano tornou-se capaz de superar o tempo e a distância, através de meios de comunicação imediata, que conectam

11 A plataforma wiki refere-se à construção livre e coletiva de conhecimento na web. Ela permite que os usuários adicionem, removam e editem o conteúdo, fazendo uso de links, imagem ou som.

12 Contração do termo “web log”, que refere-se ao site que permite rápida atualização através de “posts”, textos estruturados de acordo com a proposta da página. Uma ou mais pessoas podem ter acesso à edição do blog, através de sistemas de criação, que oferecem ferramentas que não exigem o conhecimento em HTML.

13 Recursos usados em muitos sites de conteúdo colaborativo, e se referem a palavras-chaves, termos relevantes associados às informações de que está se tratando.

27

pessoas de locais extremos do mundo. Paralelamente à web 2.0, as redes sociais surgem para facilitar o intercâmbio de informações entre os usuários. Wasserman & Faust; Degenne e Forse (1994; 1999 apud RECUERO, 2009) definem uma rede social como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais). De acordo com Recuero (2009), os atores são, portanto, as pessoas que participam da rede, que acabam por moldá-la, através da interação entre si. De outro lado, ela caracteriza as conexões como os nós da rede, ou seja, as interações, que geralmente são percebidas pelos “rastros” que os usuários deixam na web, como um comentário que permanece visível até que seja apagado. As redes sociais surgiram na Internet em 1995, quando Randy Conrads criou o site classmates.com, que pretendia conectar ex-alunos de escolas, institutos e universidades. Em 2002, começam a surgiu sites que promovem redes de amigos e ligam as pessoas por meio de comunidades de interesse (FERRADÁS, 2009). Em 2004, a Google lança o Orkut 14 e surge também o Facebook 15 . Esses sites se constituem em espaços que abrigam as redes sociais, permitindo a seus usuários a construção de um perfil ou uma página pessoal, a inserção de comentários e a divulgação de todas essas informações. Nessa categoria, estariam ainda os fotologs 16 , os weblogs e os microblogs, como o Twitter (RECUERO, 2009).

Classificada por Comm (2009) como “revolução no segmento editorial”, a rede social agrega conteúdos criados por seu público. O autor enfatiza que, atualmente, publicar é participar.

Pessoas medianas como eu e você o tipo de gente que não estudou jornalismo na universidade, que nunca gastou anos como aprendiz de repórter cobrindo casos policiais locais, e que nunca havia sido bom nem mesmo para fazer rascunhos, o que se dirá para construir frases estão escrevendo sobre assuntos de que gostam e partilhando seus pontos de vista (COMM, 2009, p. 02).

14 O Orkut é um site de rede social muito popular no Brasil. Foi criado por Orkut Buyukkokten, em 2001, e lançado pelo Google em 2004. Caracteriza-se pela criação de perfis e comunidades focadas no interesse pessoal.<http://www.orkut.com>.

15 O Facebook foi lançado em 2004 e criado para ser uma rede de alunos que estavam entrando na universidade. Idealizado pelo americano Mark Zuckerberg, o site funciona através de perfis e comunidades, além da possibilidade de se acrescentar aplicativos. <http://www.facebook.com>

16 Os fotologs são sistemas de publicação de fotografias e pequenos textos, que ainda permitem o envio de comentários. Sua expansão foi impulsionada pela popularização das câmeras digitais. O site Fotolog foi criado em 2002, por Scott Heiferman e Adam Seifer. < http://www.fotolog.com.br/>

28

Outros exemplos de redes sociais se espalham pelo ambiente virtual. Os grupos de

discussão são um deles, são sites segmentados criados para que seus membros discutam

determinado assunto entre si. Há ainda os sites especializados no compartilhamento de

fotografias, e que foram impulsionados pela facilidade das câmeras digitais. Exemplo deles é

o Flickr 17 , que permite a criação de listas de amigos, com quem você compartilha imagens e

comentários. O sucesso do conteúdo criado por usuários é tão grande que todos os dias

imagens são licenciadas no site (COMM, 2009).

Para Recuero (2009), as redes sociais podem ser de dois tipos: emergentes,

mantidas pelo sistema e que exigem menos esforço dos atores, e as redes de filiação ou de

associação, marcadas pela interação dos atores com as ferramentas, ou seja, sua manutenção

depende do usuário.

2. Os blogs e a geração de conversações

Como já explicitado, a Internet possui características que facilitam a comunicação e a

interação entre os indivíduos, além de agregar recursos como o hipertexto, a multimidialidade

e a instantaneidade. Dessas três características derivam o surgimento dos blogs e das

ferramentas wikis.

Os weblogsou simplesmente “blogs” surgiram em 1997 e são conceituados como

páginas com temática definida e escritas por um único autor ou por coletivo de autores

(ZAGO, 2009b). Contração do termo “web log”, os blogs se referem a sites que permitem

rápida atualização através de posts, textos estruturados de acordo com a proposta da página.

Sua edição ocorre através de sistemas de criação, que oferecem ferramentas que não exigem o

conhecimento em HTML. Os blogs exercem basicamente a função de um diário online,

podendo ser atualizado quantas vezes seu usuário quiser, sem limite de caracteres e podendo

exibir os comentários dos leitores.

O crescimento dos blogs foi impulsionado pelo lançamento da ferramenta Pitas, em

1999, que permitia a criação e a publicação de blogs gratuitamente. No mesmo ano, a empresa Pyra lançou o Blogger 18 , ainda hoje um dos mais utilizados serviços de criação e atualização dos blogs e que se caracteriza pela facilidade de operação (ZAGO, 2008a).

18 http://www.blogger.com

29

Inicialmente produzidos como uma espécie de filtro das informações da web, pois indicavam links acrescidos de comentários sobre as páginas, os blogs passaram a ser usados como verdadeiros diários virtuais após a popularização das ferramentas de publicação. Essas mesmas ferramentas contribuíram para o surgimento da blogosfera:

o espaço virtual resultante da união de todos os blogs em uma conversação única. Os blogueiros passaram a citar outras pessoas, através da inclusão de links para os seus sites, o que criava uma rede de referenciações mútuas entre blogs (ZAGO, 2008a, p. 19).

Os blogueiros geralmente escrevem textos na intenção de que seus leitores comentem

e agucem a discussão. Um blogueiro bem sucedido não só cria conteúdo como também gera

debates. Para Comm (2009), publicar na web significa também participar, gerar conversações

que podem resultar em comunidades: “essa é a real beleza da mídia social, e [

social sempre poderá ter como resultado firmes conexões entre os participantes” (COMM, 2009, p. 03). Porém, nem todos os blogueiros são especialistas, a grande maioria são pessoas comuns, que compartilham suas ideias e imagens com o mundo. A própria criação de um blog não é nada complexa. Basta se cadastrar em qualquer serviço de blog, como Blogger ou Wordpress 19 , e há inúmeras ferramentas que facilitam as postagens. Cunha (2004) ressalta que escrever em blogs não é sinônimo de fazer jornalismo, já que muitos blogs são marcados pela informalidade da linguagem e por conteúdos pouco confiáveis. Por outro lado, seu sucesso já é um indicador de que o cidadão tem consumido informação que já não passa, necessariamente, pela mediação do jornalista.

a mídia

]

De modo geral, os blogs podem ser identificados por algumas características, apontadas por Zago (2008a) como: apresentação das informações em ordem cronológica

inversa, publicação de microcontéudo, porções de conteúdo produzidas especificamente para

a web e que podem ser acessadas fora do contexto original, informalidade e impessoalidade

do espaço, interatividade e atualização constante. A autora aponta ainda formatos diferentes entre os blogs, diferenciados pelo conteúdo produzido: tumblelogs, cujas postagens fazem uso predominantemente de fotos, citações, diálogos e vídeos; videologs ou vlogs, que são blogs com postagens em formato de vídeos; fotologs, utilizados para imagens e fotografias;

audiologs, em que predominam arquivos de áudio, os chamados podcasts 20 ; microblogs, cujas postagens são mensagens curtas, como será detalhado na seção seguinte.

19 http://wordpress.org/ 20 Reprodução periódica de áudio na web.

30

3. A onda dos microblogs e o fenômeno Twitter

Os serviços de microblogging apresentam a questão da agilidade no compartilhamento

de conteúdo. Eles são o oposto da maioria dos sites de redes sociais: enquanto estes tendem a

promover que seus membros insiram o máximo de conteúdo possível, os microblogs

delimitam o conteúdo que será inserido, acreditando que isso incentiva a criatividade

(COMM, 2009).

Zago (2008a) aponta uma diferenciação entre os termos microblog e microblogging. O

primeiro refere-se ao formato que congrega blog, rede social e mensagens instantâneas em

rápidas postagens. O caráter de rede social vem do fato de haver interação social, já que os

usuários possuem um perfil e uma lista de contatos que dá margem para a interação. Por

outro lado, existe a possibilidade de troca de mensagens curtas entre seus membros,

caracterizando assim a faceta de conversação por mensagens instantâneas do site. Já o termo

microblogging diz respeito à ação de postar os textos curtos.

Ainda na definição de Zago (2008a, p. 25), os microblogs são ferramentas de

publicação derivadas dos blogs, mas [

blogs, cuja diferença mais marcante diz respeito ao tamanho das atualizações, que

costuma ser limitado a no máximo 200 caracteres, em formato predominantemente de texto”.

O termo microblogging teria sido usado pela primeira vez, em 2002, no blog de Natalie Solent 21 , quando ela se referiu a postagens curtas (ZAGO, 2008b). A onda dos microblogs teve inicio em 2006 com o Jaiku 22 , seguido pelo Pownce 23 , em meados de 2007, e atualmente com o Twitter.

Os microblogs possuem limitação no que se refere à quantidade de caracteres

permitida, já que a ideia é viabilizar a publicação também por dispositivos móveis como o

celular. Em geral, possuem as mesmas funcionalidades de um blog, mas de forma

simplificada. Nos blogs, por exemplo, a conversação é marcada apenas pelos comentários,

enquanto que nos microblogs os próprios posts se constituem em interação entre os usuários.

com funcionalidades reduzidas em relação aos

]

22 O Jaiku foi fundado 2006 por Jyri Engeström e Petteri Koponen, na Finlândia, e lançado em julho de 2006. Adquirida pelo Google em 2007, a ferramenta passou a ser acessível apenas para usuários convidados. As atualizações podem ser feitas por IM, SMS, pela web ou pelo celular. Além disso, seus usuários podem compartilhar suas atividades onlinede outros sites, como Flickr, Last.fm, blogs e Twitter. <http://www.jaiku.com/>

23 O Pownce é um servidor para microblogging aberto ao público em 2008. Criado por Kevin Rose, Leah Culver e Daniel Burka, tem como diferencial a possibilidade de enviar arquivos, links e eventos. <http://pownce.com/>

31

Outros microblogs menos utilizados também podem ser citados, tais como o Spoink 24 , que permite o envio de áudio; o Yammer 25 , de cunho corporativo, cujos usuários postam sobre o que estão trabalhando; e o Plurk 26 , cujas postagens aparecem na horizontal, como uma linha do tempo.

Os microblogs apresentam ainda características comuns aos blogs, mas em formato

simplificado: microconteúdo, informalidade, interatividade e velocidade (ZAGO, 2008a).

Fidalgo e Canavilhas (2009, p. 115-116) apontam a tendência de que a Internet seja a

principal fonte de informação e que o acesso à rede seja feito cada vez mais a partir dos

celulares. Nesse sentido, o autor destaca as possibilidades oferecidas pelo Twitter:

Um dos possíveis modelos de informação noticiosa na Internet móvel, combinando comunicação pessoal com informação noticiosa, é o modelo do Twitter. O serviço de microblogging oferece a possibilidade de seguir indivíduos, instituições e jornais, de responder diretamente e de postar urbi et orbi as suas experiências e pensamentos. Em um modelo que copia o SMS, de texto curto, reduzido a 160 caracteres, os tweets são textos de, no máximo, 140 caracteres. As mensagens sucintas ajustam-se ao tipo de vida móvel e fragmentada do cotidiano contemporâneo. Sem tempo para ler grandes textos, pressionados por mil e um afazeres, os indivíduos, sobretudo os jovens, preferem mensagens curtas e secas.

Todos esses atrativos oferecidos pelo Twitter atualização via celular, mensagens

curtas e possibilidade de criar vínculos úteis com os seguidores fizeram do microblog um

dos mais populares da categoria.

3.1 Nascimento e características do Twitter

O Twitter é um site que traz um serviço de microblogging, permitindo que os usuários

postem pequenos textos de até 140 caracteres, através de SMS (short message service) pelo

celular ou de IM (instant messenger), pela web, por Internet móvel ou por e-mail (ZAGO,

2008a).

Foi idealizado e criado pelo americano Jack Dorsey, um programador de softwares

para rastreamento de táxis, em 1992. Implantado como um serviço interno em março de 2006

pela empresa Obvious (São Francisco, EUA), de Evan Williams (o mesmo criador do

Blogger), só foi lançado a público em outubro de 2006. A ideia surgiu durante uma conversa

informal entre Dorsey e Williams e se constituía em criar um aplicativo instantâneo que

tivesse como foco o que as pessoas estão fazendo e que unisse o recurso de SMS à web

32

(AGUIAR; PAIVA, 2009; COMM, 2009). O microblog começou a se popularizar em 2007, quando se desvinculou da empresa, e depois de conquistar o prêmio South by Southwest Web 27 , no mesmo ano. Um dos serviços

que atrai os usuários do microblog é a característica de plataforma aberta, que permite o uso

de aplicativos que ampliam as possibilidades do site.

Além disso, o Twitter não só permite atualizações instantâneas pela Internet, como também através de dispositivos móveis. Seus usuários podem enviar e receber mensagens SMS de seus aparelhos para o microblog de onde quer que estejam.

Um novo mundo de possibilidades é aberto para quem tuita pelo celular, porque mesmo a mobilidade do laptop não se compara ao que você pode fazer quando carrega a internet no bolso. Ele traz contexto para as trocas de informação: você está no bar, no shopping, no aeroporto e pode compartilhar pequenas jóias do cotidiano, uma frase solta e mesmo uma imagem ou um vídeo quando o equipamento tiver câmera (SPYER, 2009, p. 34).

O poder dessa associação com o sistema SMS é demonstrado por Comm (2009, p. 29):

Em abril de 2008, James Buck (twitter.com/jamesbuck), um estudante de jornalismo da Universidade da Califórnia em Berkeley, foi preso com seu intérprete, Mohammed Maree, enquanto fotografava uma manifestação contra o governo do Egito. Sentado no carro da polícia, Buck conseguiu usar seu celular para mandar uma única palavra de mensagem – “preso” – para seus seguidores no Twitter. Imediatamente, eles alertaram a embaixada norte-americana e sua faculdade, que sem demora conseguiu um advogado para ele. James continuou a fazer atualização sobre sua prisão, por meio do Twitter, e foi solto no dia seguinte quando anunciou no Twitter, com a palavra “livre”.

Pode-se pensar que o limite de 140 caracteres por postagem impostos pelo Twitter tem

o objetivo de diversificar, aguçar a criatividade, porém essa regra só vale porque as

operadoras de celulares fixam o limite máximo de 160 caracteres para os SMS. E essa limitação caiu no gosto do público: “Os leitores esperam que o conteúdo no Twitter seja

pequeno. Esperam poder ler e absorver tudo de uma só mordida: o conteúdo é de um lanche, e não refeições de três pratos com café” (COMM, 2009, p. 109).

Segundo monitoramento divulgado pela StatCounter, em abril de 2010, o Twitter é a mídia social mais acessada no Brasil, com 55,84% (conforme gráfico abaixo). No mesmo

período do ano passado, o Orkut liderava em número de acessos. A nível mundial, o Twitter aparece na terceira posição entre as ferramentas mais acessadas, com 7,15%. A metodologia

27 Festivais de cinema e música que acontece no Texas, EUA. O evento inclui lançamento de ferramentas ligadas à tecnologia.

33

empregada pelo StatCounter para medir o tráfego nas redes sociais baseia-se em um código instalado em mais de três milhões de sites no mundo inteiro. Esse código é capaz de identificar se um usuário passou pela rede social e seu país de origem, a partir do IP.

Figura 01 Estatísticas de acesso a redes sociais no Brasil

01 – Estatísticas de acesso a redes sociais no Brasil A proposta do Twitter é de

A proposta do Twitter é de uma ferramenta de comunicação, um canal onde o usuário

pode informar outras pessoas sobre sua vida e seu trabalho (COMM, 2009). Sua estrutura é constituída de seguidores (followers) e pessoas a seguir (following). Cada usuário escolhe

quem deseja seguir e pode ser seguido por outros: “[

TV, no qual você pode escolher dentre milhões de vidas para seguir, em vez dos indivíduos estranhos que os produtores enfiam na casa do Big Brother” (COMM, 2009, p.124). Os usuários geralmente personalizam suas páginas no Twitter, com inserção de plano de fundo, imagem e definição da “bio”, que é a descrição de quem você é e faz. O conceito de “seguir” constitui-se, aqui, em receber as frases públicas de 140 caracteres postadas pelos usuários a quem se segue. A essas mensagens chama-se tweets. Mas o Twitter não se constitui apenas um mural de postagens. O site abre outras possibilidades, tais como a comunicação com os seguidores, através do envio de mensagens particulares e de referência a uma pessoa ao usar @ antes do nome, sendo que todos os seus seguidores poderão ver essa citação. Ao

é um pouco como um reallity show da

]

34

responder a um seguidor ou contatá-lo, é necessário usar o botão reply28 . Há ainda a possibilidade de retransmitir tweets de outros usuários, através da opção retweet29 .

Uma das coisas que faz o Twitter ser uma ferramenta tão poderosa é o fato de que uma informação colocada no site pode rapidamente se espalhar como um vírus. Quando uma pessoa assinala um bom tweet, pode passar essa mensagem para seus próprios seguidores, e logo estará se espalhando por todo o Twitterverso e além (COMM, 2009, p. 107).

Para Comm (2009), existem dois tipos de tweets: os de conversações, que foram concebidos para disseminar discussões; e os de transmissão, que servem para levar aos seguidores informações cotidianas. Dentro dessas duas linhas, existem outras categorias:

tweets com o objetivo de divulgar links ou fotos, de publicar pensamentos ou ações recém realizadas, tweets com uma pergunta ou solicitação de ajuda, e tweets de diversão, que promovem a distração dos seguidores. O Twitter têm ainda uma função que permite o conhecimento sobre os termos mais citados a nível mundial. Trata-se da lista Trending topics, que aparece no canto direito da página inicial do microblog, após o login. Nesta lista, aparecem as hash tags, palavras-chaves destacadas pelo símbolo # mais mencionadas pelos usuários naquele momento. Os tweets foram concebidos para que se descreva o que se está fazendo no momento. Originalmente criado a partir da pergunta What are you doing?”, que remetia a trivialidades do cotidiano, a ferramenta foi além dessa proposta e foi apropriado por seus usuários, tanto para fins de conversação, marketing e até para troca de informações de relevância jornalística. (CARVALHO; BARRICHELLO, 2009; RECUERO, 2009; ZAGO, 2008a), tanto que a pergunta original foi alterada para What’s happening?”, ou seja, “O que está acontecendo?”. Processo semelhante ao que ocorreu com os blogs, na medida em que pessoas comuns criaram seus blogs inicialmente como diários virtuais e muitas vezes chamam a atenção pelo conteúdo informativo que produzem. Surgiram, com isso, especialistas blogueiros em diversas áreas que passaram a atuar como influenciadores na rede. Da mesma forma, no Twitter, usuários mais participativos passaram a se destacar:

a capacidade de obter boas respostas no Twitter é uma de suas maiores

vantagens. Todo o site age como um fórum gigantesco, no qual especialistas

em toda sorte de assunto estão dispostos a oferece seus conselhos a praticamente qualquer um que os solicite (COMM, 2009, p. 86).

[ ]

Além do caráter jornalístico, que será detalhado adiante, o uso do microblog vem sendo apropriado também para a autopromoção. De acordo com Primo (2009) vivemos em

28 Replicar, responder.

29 Retransmitir, repassar.

35

uma sociedade narcisista, que busca alcançar fama e celebridade. Atualmente, a esfera digital tem contribuído para essa busca pelo status, as pessoas usam a Internet como forma de alcançar o reconhecimento pela mídia. No Brasil, um dos casos mais conhecidos é o da curitibana Tessália Serighelli, que mantinha a personagem @twittess. Em pouco tempo, ela atingiu mais de 40 mil seguidores, conseguindo levar essa popularidade à outros veículos, já que foi entrevistada por revistas de renome como Playboy e Vip, e ainda foi uma das selecionadas para participar do reality show mais conhecido do Brasil, o Big Brother Brasil, na décima edição em 2010. Esse caso pode ser relacionado à afirmação de Primo (2009, p.12- 13), a respeito da fama instantânea obtida na Internet:

Cabe agora comentar a clara presença de posturas narcísicas na blogosfera e o desejo pela fama. Apesar do potencial oferecido pelas mídias sociais para a produção de conteúdos diferentes do que oferece a mídia de massa, com facilidade encontram-se produções que buscam justamente reproduzir na

Sendo os blogs e o Twitter meios de

comunicação, poder-se-ia esperar que logo apareceriam celebridades da blogosfera e da twittosfera.

internet o padrão da grande mídia [

].

A produção colaborativa de conteúdo através do Twitter se dá também nos momentos marcados por tragédias. Nesse sentido, pode-se citar o tremor ocorrido em São Paulo, em abril de 2008, e as enchentes que atingiram Santa Catarina, no final do mesmo ano. Os usuários dessas regiões recorreram ao microblog para divulgar suas impressões, em tempo real, sobre o caso. Outro episódio nesta linha é citado por Comm (2009) e refere-se ao ataque terrorista ocorrido em Mumbai, na Índia, em novembro de 2008, quando as primeiras fotos e manchetes sobre o assunto não vieram de veículos jornalísticos, mas sim do Twitter, postadas por pessoas comuns que estavam no local. O fato rendeu, inclusive, uma matéria na CNN, intitulada “Twittando o terror: como a mídia social reagiu a Mumbai”.

nada melhor do que isso para demonstrar como a tecnologia mudou a

maneira como nos comunicamos e interagimos. [

que simples cidadãos têm o poder de conduzir informações para as massas

como nunca antes. As maiores redes de mídia não conseguem noticiar tão rapidamente ou com tamanha precisão como aqueles que estão na cena em que se desenrolam os acontecimentos (COMM, 2009, p. 22).

Vivemos uma época em

[ ]

]

Outra vertente é o uso do microblog como ferramenta de marketing, para difundir marcas e promover a publicidade de determinados produtos. Comm (2009) não só afirma o poder do Twitter como instrumento de marketing, como também apresenta um manual detalhado de como divulgar o negócio pelo microblog, que inclui a construção do perfil de modo a atrair seguidores, o tipo de pessoa a quem seguir e como postar mensagens atrativas.

36

Afinal, segundo o autor, “seguidores são potenciais compradores”. Atualmente, já existem postagens no Twitter que se constituem em verdadeiras promoções, sendo oferecidos códigos de desconto, de duração limitada. Spyer (2009) também ressalta essa tendência do uso do Twitter pelas empresas como um canal direto com o consumidor:

a idéia de seguir uma pizzaria pelo Twitter só soa estranha até você descobrir que essa é a pizzaria na esquina da sua casa. O estabelecimento poderá, obviamente, receber pedidos, mesmo quando você estiver saindo do trabalho ou no trânsito, para não precisar esperar pela comida, e não só isso. Aqueles anúncios de promoções que dependiam de panfletos impressos dão lugar a tuitadas, podendo informar mudanças nas horas de funcionamento, ofertas, produtos novos e eventos. Da mesma maneira, empresas internacionais, com presença em centenas de cidades, terão a oportunidade de promover a comunicação dentro de mercados locais (SPYER, 2009, p. 49).

Além do empresarial, o meio político também já percebeu o potencial do microblog no que se refere à audiência. Nesse sentido, cabe destacar a campanha do então candidato à presidência dos Estados Unidos Barack Obama, que dedicou estratégia específica para a web, em 2008, em especial para as redes sociais, como o Twitter. A iniciativa rendeu a mobilização de muitos eleitores militantes na esfera online e Obama conseguiu montar uma rede de influência muito maior do que seu adversário republicano, o senador John McCain, a quem derrotou nas urnas.

4. Política e Twitter: campanha em 140 caracteres

A presença de Obama no Twitter e em outras redes sociais e sua posterior chegada à presidência dos Estados Unidos marcou o início do que pode ser chamado de período 2.0 das campanhas eleitorais. Graeff (2009) destaca o fato de que essa evolução não tem a ver com a mera utilização das redes sociais pelos políticos, mas sim com o uso participativo dessas novas mídias pelos cidadãos. Ao invés de apenas receberem conteúdo, os usuários de redes sociais opinam e alguns se engajam na defesa de seus políticos e partidos. Esse é o grande diferencial das redes sociais: substituir a simples recepção por ações que se desdobram. O que poucas pessoas sabem é que existe um exemplo de uso bem sucedido da Internet em campanhas eleitorais anterior ao de Barack Obama. Nas eleições de 2004, o pré- candidato democrata, Howard Dean, foi o “primeiro candidato em uma corrida presidencial a conseguir de fato usar a internet como mais que uma ferramenta de comunicação de mão única” (GRAEFF, 2009, p. 07). Durante as eleições internas (chamadas prévias) que definem

37

o candidato que concorrerá nas eleições, Dean usou a internet para mobilizar simpatizantes e levantar fundos. Ele usou o serviço online Meetup, onde os usuários criam grupos de acordo com a localidade e com os interesses, que se reúnem esporadicamente. Dentro do site, já havia alguns grupos que se reuniam para conversar sobre a candidatura de Dean. Aproveitando o fato, a campanha incluiu na página do site do candidato um link para a sua página no Meetup, fazendo com que o número de participantes nos encontros disparasse de 2.700 para 8 mil pessoas, chegando a 190 mil durante a campanha. Por problemas na organização da campanha, Dean perdeu algumas das eleições primárias e desistiu da disputa em fevereiro de 2004. Talvez por não ter resultado em vitória, como no caso de Obama, sua experiência não é amplamente relembrada. Nos Estados Unidos, em razão de o voto não ser obrigatório, o candidato precisa antes de tudo convencer as pessoas a se registrarem para votar e comparecer para confirmar o voto no dia da eleição. O que Barack Obama fez foi focar sua campanha nos jovens, e sua arma para isso foram justamente as redes sociais. A campanha mostrou uma juventude com desejo de participar da política, a seu modo: com o uso de Facebook, Twitter e compartilhando vídeos no YouTube. No Brasil, um dos primeiros exemplos de uso das redes sociais em campanhas ocorreu em 2002, quando a equipe de José Serra, que concorria à presidência, criou o Pelotão 45, formado por um grupo de voluntários internautas.

A

partir de um monitoramento da cobertura noticiosa, de críticas e sugestões,

o

comando de campanha enviava ao pelotão missões para serem executadas

online: votar na enquête de um site de determinada maneira, rebater acusações em um fórum de discussão etc. (GRAEFF, 2009, p. 35).

Mas os políticos brasileiros ainda apresentam pouca familiaridade com a Internet, explicada por Graeff (2009) pelo fato de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impunha muitas restrições ao uso da web antes da Lei 5498/09, aprovada para as campanhas de 2010. O domínio das mídias sociais pelos políticos brasileiros deve se potencializar a partir das eleições de 2010, frente à liberação da propaganda política na web. A presença de candidatos já pode ser percebida no microblog Twitter. Motivados pelo bem sucedido exemplo de Obama, os candidatos fazem sua campanha particular reduzida ao espaço de 140 caracteres. Entre eles estão os candidatos à presidência, José Serra (twitter.com/joseserra_), Dilma Rousseff (twitter.com/dilmabr) e Marina Silva (twitter.com/silva_marina), entre outros. A presença deles no microblog será analisada adiante.

38

A importância do Twitter enquanto canal de comunicação com o eleitor reside no fato de que “o candidato pode levar dados em primeira mão que ajudem o eleitor a formar sua opinião e também motivem os participantes da rede a repassar essa informação” (SPYER, 2009, p. 69). Além disso, o microblog permite que o candidato se mostre ao eleitor como alguém além da figura pública, na medida em que pode expressar pensamentos, emoções e atividades do dia a dia. Cabe citar três episódios do campo político que repercutiram no Brasil e tiveram o Twitter como cenário. O primeiro deles aconteceu em junho de 2009, quando os brasileiros comandaram um movimento no microblog que pedia a renúncia de José Sarney, por seu envolvimento em várias denúncias de corrupção. Para isso, os usuários postavam mensagens de protesto acompanhadas da tag #ForaSarney. Para mobilizar também internautas de outros países, os brasileiros escreveram na ferramenta What the trend, disponibilizada pelo Twitter para que seus usuários entendam o motivo de uma tag estar na lista das mais citadas. Em inglês, os brasileiros justificaram que o político era um ex-presidente do país, na época senador do Amapá e que havia se envolvido em escândalos de nepotismo. Explicaram ainda que o termo “fora” estava ligado à exigência de renúncia pela população. A estratégia funcionou e twitteiros de todo o mundo passaram a retransmitir as mensagens, mantendo a manifestação na lista dos Trending Topics. O segundo episódio diz respeito a uma mensagem postada pelo senador Aluísio Mercadante, do Partido dos Trabalhadores, em agosto de 2009. Pelo Twitter, ele anunciou em primeira mão sua saída da liderança do partido em “caráter irrevogável". Mercadante condenava a postura do Partido dos Trabalhadores (PT) em apoiar o arquivamento das denúncias de corrupção contra José Sarney (então presidente do Senado), no Conselho de Ética. A repercussão da mensagem foi imediata, tanto entre os usuários do microblog quanto entre os veículos de comunicação. Mais tarde, Mercadante escreveu outra mensagem, dizendo ter sido chamado pelo presidente Lula para uma conversa antes de sua renúncia oficial. Após essa conversa, Mercadante decidiu permanecer no cargo e reconheceu o erro em outra mensagem no Twitter, sendo criticado por twitteiros, outros políticos e pela mídia. O que interessa destacar neste caso é a repercussão que um tweet postado no calor dos fatos adquiriu, tendo provocado inclusive uma resposta imediata do presidente Lula, que convocou Mercadante. Outro episódio, talvez o caso mais relevante no que se refere ao uso do Twitter nas campanhas eleitorais de 2010, foi protagonizado pelo presidente do Partido Trabalhista

39

Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, que divulgou no microblog, em junho deste ano, que o vice-candidato à presidência na chapa de José Serra seria Álvaro Dias (Partido da Social Democracia Brasileira PSDB-PR). A declaração causou desconforto no mundo político, pois o partido Democratas (DEM), aliado na chapa de Serra, não havia sido consultado. Mais tarde, após desistência de Álvaro Dias, o nome de Indio da Costa, filiado ao DEM, foi anunciado. Assim, a declaração precipitada de Jefferson no Twitter provocou alterações no cenário político. São esses tipos de informações postadas por políticos no Twitter que o trabalho se propõe a analisar, na medida em que elas são acompanhadas pelos repórteres que, ao notarem relevância, têm a possibilidade de checar os fatos até que se chegue efetivamente a uma notícia. Mais do que isso, o Twitter permite que o jornalista visualize até mesmo a reação dos usuários aos textos postados pelos políticos; é uma espécie de termômetro. Isso sem contar que a ferramenta permite a conversação aberta e em tempo real entre candidatos de posições opostas, dando margem a debates. Como se vê, o Twitter vem sendo utilizado para múltiplos fins não só na política, no ambiente corporativo e pelo marketing, mas também por jornalistas e seus meios de comunicação, aspecto a ser detalhado na seção seguinte.

5. As apropriações jornalísticas do Twitter

Com a web 2.0 e o surgimento de novas tecnologias, as práticas colaborativas de produção de conteúdo se proliferaram, facilitadas por recursos como câmeras acopladas a celulares, possibilidade de edição e publicação de áudio e vídeo na Internet. O público, que antes apenas recebia um conteúdo pronto, passa a participar na produção de informação, já que os recursos agora podem ser utilizados por amadores. Isso ocorre também nos sites de redes sociais e, no caso do Twitter, tanto os usuários podem receber atualizações feitas por veículos jornalísticos que possuem perfil no microblog quanto o próprio conteúdo enviado pelos seguidores comuns pode apresentar informações de caráter jornalístico. Embora não se caracterize jornalismo propriamente dito, o uso do Twitter para a divulgação de informações de interesse público por pessoas comuns pode servir ao jornalismo enquanto ferramenta para complementar a produção tradicional:

quando alguém compartilha informações sobre um determinado

acontecimento com seus contatos em uma rede social, esse indivíduo pode não estar necessariamente praticando um ato de jornalismo de modo

[ ]

40

consciente, embora sua atualização possa vir a ter caráter jornalístico, na medida em que o conteúdo possa vir a ser de interesse para muitos (ZAGO,2009a, p. 04-05).

Esse aspecto se relaciona ao conceito de jornalismo cidadão, expressão criada pelo jornalista norte-americano Dan Gillmor para designar as pessoas que não possuem formação jornalística, mas, uma vez que acessam as ferramentas de produção, podem produzir conteúdo para um espaço pessoal ou colaborar com um veículo (CASTILHO; FIALHO, 2009). Segundo os autores, esse movimento foi iniciado pelos blogs que, ao focarem em questões comunitárias nas postagens, fizeram com que a mídia redefinisse o espaço que dava às notícias locais.

A grande diferença da era digital em relação à era analógica é que a

captura do conhecimento tácito não é mais feita exclusivamente pelos chamados especialistas, entre eles os jornalistas. Os equipamentos digitais e a Internet colocaram nas mãos de pessoas sem formação acadêmica as

ferramentas necessárias para também executar essa função, criando simultaneamente a necessidade de colaboração, quase uma alquimia, entre as multidões que conhecem pouco e os poucos que conhecem muito (CASTILHO; FIALHO, 2009, p. 139).

[ ]

Exemplo dessa prática no Twitter aconteceu nas eleições do Irã em 2009, quando boa parte da mídia local e internacional não pôde divulgar os acontecimentos por conta da censura ditatorial do governo, então a população fez sua parte e, em tempo real pelo microblog, informou ao resto do mundo sobre o que acontecia. Outro episódio nesta linha aconteceu na China em maio de 2008, país onde as notícias precisam ser aprovadas pelo governo antes de serem distribuídas pelas agências internacionais. Na ocasião, os usuários do Twitter anunciaram em tempo real a ocorrência de um terremoto, “furando a Grande Muralha da Internet na China e também os principais veículos de comunicação do mundo” (SPYER, 2009, p. 57).

Casos assim ilustram um novo sentido dado ao jornalismo, na medida em que se destaca o jornalismo participativo/colaborativo, quando o público passa a ser fornecedor de informações e referência para a elaboração de pautas. O jornalismo pode se basear nesses conteúdos para iniciar um processo de checagem e até produzir notícias com base neles. É o

que afirmam Carvalho e Barrichello (2009, p. 12): “[

a mídia não é mais um território

delimitado. No Twitter todos estão fazendo mídia, comentando o que diz a mídia, interagindo e, mais do que isso, participando da produção dos conteúdos”. Ao divulgarem informações

relevantes no microblog, os cidadãos estão chamando a atenção da mídia, tornando a ferramenta indispensável aos veículos de comunicação:

]

41

as apropriações que se faz do Twitter revelam as potencialidades de uso

do site como um agregador de informações, especialmente no que diz respeito àquelas jornalisticamente relevantes. Tanto o usuário da ferramenta de microblog pode escolher quem irá seguir no site, para assim “filtrar” e direcionar sua navegação na web, quanto os demais meios de comunicação podem se utilizar do serviço para incrementar suas coberturas ou mesmo acessar fontes de informações (BARRICHELLO; CARVALHO, 2009, p.

[ ]

11).

Um outro aspecto também presente no Twitter são situações próximas do chamado jornalismo hiperlocal, descrito por Shaw e Wagstaff (2007 apud ZAGO, 2009b), que consiste na divulgação de acontecimentos de um bairro, um quarteirão, uma comunidade e até mesmo de uma rua. Ocorre que os próprios moradores vêm divulgando esses fatos no microblog, contando os últimos acontecimentos que podem mudar o curso do dia, de forma participativa. Portanto, os repórteres podem ser pautados por informações divulgadas por perfis de interesse no Twitter. A atenção a esses tweets constitui, portanto, uma forma de apoio à produção jornalística, desde que a apuração não seja descartada.

42

- RELAÇÃO HISTÓRICA

CAPÍTULO III

AGÊNCIAS

DE

NOTÍCIAS

E

POLÍTICA:

UMA

As agências de notícias surgiram em meio a um cenário de evolução tecnológica, no século XIX, representado pela invenção do telégrafo. Em razão disso, sua produção sempre esteve ligada ao emprego de novas tecnologias que possibilitaram velocidade na difusão das informações. Em pleno século XXI, marcado pela popularização da Internet e pela era da informação, os veículos de mídia recorrem cada vez mais ao conteúdo produzido pelas agências de notícias. Historicamente ligadas ao desenvolvimento tecnológico, as agências, assim como os meios de comunicação em geral, não podem ignorar o fenômeno das redes sociais, tais como o Twitter. A partir dele, já é possível observar uma nova forma de se produzir informação jornalística, tendo como fonte as mensagens divulgadas por determinadas personalidades presentes no microblog. Essa tendência já é realidade também na produção das agências de notícias, neste estudo representadas pela Agência Estado. Antes de aprofundar essa questão no capítulo seguinte, cabem algumas considerações conceituais e históricas sobre o jornalismo de agências. Fornecedoras de conteúdo noticioso para seus clientes, que podem ser órgãos de imprensa, instituições governamentais e privadas, as agências de notícias abastecem grande parte das empresas jornalísticas, em especial veículos da pequena imprensa e websites de notícias, que não possuem estrutura para deslocar repórteres aos grandes centros do poder econômico e político nacional São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília , e tampouco para enviar correspondentes para a cobertura internacional, como destaca Ferrari (2004, p. 19): “A

43

partir de 2001, o conteúdo jornalístico presente nos portais da internet diminui, passando a ser originário de um grupo restrito de fontes, como por exemplo, agências de notícias”. De acordo com Pinho (2003, p. 117), “as agências de notícias são empresas especializadas de informação que elaboram e distribuem, regularmente e de forma ininterrupta, noticiário geral ou especializado, fotografias e features, destinados exclusivamente aos seus assinantes”. Uma classificação de Erbolato (2002 apud SILVA JUNIOR, 2006a), determina que as agências de notícias são meios indiretos de informação, já que teoricamente seu material não é distribuído diretamente ao leitor, mas aos veículos de comunicação, como rádio, televisão, jornal impresso e sites noticiosos, que se encarregam de fazê-lo chegar aos receptores. O autor ressalva que essa classificação serve para uma categorização teórica, já que:

graças à diversidade de alternativas e serviços pelos quais as agências de

notícias distribuem conteúdo nos dias atuais, uma mesma notícia da agência

pode estar sendo recebida por um jornal, que pode retrabalhá-la; diretamente

a um cliente; ou ainda, estar presente no site da agência e estar sendo

acessada de forma aberta por um internauta. Todavia, a categorização é válida para contextualizar o caráter de descentralização da produção dos jornais posto pela relação com as agências, ainda no século XIX (SILVA JUNIOR, 2006a, p. 70).

Com o desenvolvimento tecnológico e o fortalecimento do capitalismo no século XIX, as primeiras agências de notícias surgiram, impulsionadas pelo crescimento dos jornais impressos. Face ao cenário em que nasceram, a lógica da produção jornalística que orienta o sistema das agências se insere no modo de produção capitalista e de mercado (MARQUES,

2005).

Um passeio pela história das agências é também uma forma de acompanhar

o surgimento de novas tecnologias de comunicação o que inclui as

descobertas na área de transportes, que resultaram na redução de distância e

melhoria das trocas de informações e mercadorias em um tempo cada vez mais curto (MARQUES, 2005, p. 26).

[ ]

O banqueiro francês Charles-Louis Havas foi o fundador da primeira agência de notícias de quem se tem relato, Agence de Feuilles Politiques et Correspondance Générale, mais tarde rebatizada com seu próprio nome. A agência começou a funcionar no ano de 1835, embora desde o ano de 1832, Havas mantinha um escritório de tradução, que a princípio prestava serviços informativos financeiros para clientes e capitalistas franceses, como cotações de mercadorias e matérias-primas, previsões de colheita, decisões políticas e questões tributárias. Em 1835, Havas transformou seus informantes em repórteres,

44

distribuindo conteúdo sobre diplomacia, finanças e política para a imprensa (MARQUES,

2005).

Com a invenção do telégrafo, no século XIX, as agências puderam aumentar suas redes de atuação, expandindo a cobertura internacional e estreitando a ligação com o

jornalismo.

Ao mesmo tempo em que fornecem a ferramenta que alimenta o jornal com notícias mais imediatas de centros urbanos mais distantes, as agências de notícias criam a rede pela qual seus serviços poderão ser obtidos. A crescente interdependência dos centros urbanos de então fornecia e era, ao mesmo tempo para o mercado de notícias, a sede e a água por informações (SILVA JUNIOR, 2006a, p. 60).

Em 1848, surgiu nos Estados Unidos a Associated Press (AP), que nasceu em forma de uma cooperativa, quando representantes de seis jornais usaram um único telégrafo para

unificar o noticiário vindo de fora da região, já que a tecnologia era considerada cara (PINHO, 2003). Hoje, a AP é uma das cinco maiores agências mundiais.

A partir de Havas, outras agências começam a aparecer, quando ex-colaboradores da empresa passaram a se aventurar no negócio por volta de 1850, criando seus empreendimentos

na Inglaterra (Reuters, fundada por Paul Julius Reuter) e na Alemanha (Wolff, fundada por Bernhard Wolff). O mundo passa a ser dividido em áreas de exploração de notícias:

Em 1859, em parceria com a Havas, a Reuters, inglesa, e a Wolff, alemã, fazem acordo de troca de serviços. Em 1880, as três agências, juntas, controlam a produção de notícias na Europa Ocidental (Portugal, Espanha, Itália, Países Baixos e Bélgica), mais colônias francesas e britânicas, Império Otomano e América do Sul. Este cartel, ou monopólio, de agências fornece o essencial da informação aos jornais, ministérios, bancos, agências de câmbio (MARQUES, 2005, p. 18).

Foram as agências surgidas entre 1830 e 1860 que mais se engajaram na defesa do chamado new jornalism 30 ”, que deveria reportar apenas fatos e excluir completamente o caráter opinativo que predominava até então, principalmente no noticiário político, com teor propagandístico (TRAQUINA, 2004). Silva Junior (2008, p. 06) atesta a importância das agências na ação de circular notícias e afirma ser necessário o estudo da vinculação destes organismos como modelos que interagem com o jornalismo. O autor sustenta que as agências:

a) interagem com a produção de notícias para o jornalismo há, pelo menos, 160 anos;

b) sua estruturação como modelos de negócios e geração de notícias se deu em rede;

30 Novo jornalismo.

45

c) fornecem grandes parcelas de conteúdos que circulam nos jornais, sites de notícias e agentes do mercado. No século XX, as agências têm novamente suas rotinas alteradas com a evolução tecnológica no campo da comunicação, quando o rádio e a televisão se solidificam, a informática permite o armazenamento de textos e surge a Internet. Marques (2005, p. 26) atesta as principais inovações com que contavam as agências nas décadas de 1970 e 80:

sistemas a cabo, serviços telefônicos e de teletipo, circuitos de rádio e transmissão via satélite. Tudo isso fortaleceu a relação já existente entre estas empresas e as tecnologias para a produção e difusão de informações.

1. Agências de notícias brasileiras

As principais agências de notícias brasileiras surgiram entre os anos 1960 e 1970 e possuem caráter diferenciado em relação às agências internacionais. Ao invés de abastecerem o noticiário nacional com informações colhidas por correspondentes ao redor do mundo, as agências brasileiras estão ligadas aos conglomerados de comunicação já existentes. Todo o conteúdo internacional é obtido por meio de parcerias com agências estrangeiras, que visa a troca de notícias, de fotografias e serviços (MARQUES, 2005). Assim, acabam se constituindo em meras “reprodutoras” de conteúdo de seus jornais impressos ou fornecedoras, já que produzem notícias para abastecer inclusive os veículos pertencentes ao grupo.

não só nunca houve uma agência brasileira de atuação global,

preocupada em cobrir os fatos do exterior para alimentar o noticiário

internacional da imprensa doméstica, como tampouco as agências que existiram se importaram em informar sobre o Brasil para fora (AGUIAR, 2009, p. 13).

[ ]

Mesmo de considerável importância, a bibliografia brasileira sobre o assunto é extremamente escassa. Segundo Pedro Aguiar (2009), as agências do país falam do Brasil para o Brasil e o baixo interesse pela pesquisa acadêmica neste ramo reflete o mercado de trabalho que, por sua vez, é pequeno.

Graças a isso, aliado à manutenção das agências como campo de mercado diminuto para jornalistas (embora de maior remuneração média, segundo dados de 1999 do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo), não há livros nacionais sobre jornalismo de agências, não se ensina essa especialização nas faculdades de jornalismo e pouco se lembra da importância destas empresas para as condições de produção da notícia, para a conformação do discurso jornalístico, para a construção cotidiana das „visões de mundo‟ da opinião pública e para a manutenção de hegemonias (AGUIAR, 2009, p. 03).

46

No Brasil, a primeira agência de notícias surgiu na área governamental na década de 1930, quando foi criada a Agência Nacional no período da ditadura militar do governo de Getúlio Vargas. A AN surgiu a partir do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e enviava para os diversos jornais e rádios do país notícias relacionadas às atividades do presidente. A partir de 1979, no governo de João Figueiredo, sua nomenclatura foi mudada para Empresa Brasileira de Notícias (EBN), passando a cobrir também os ministérios, o Banco Central, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário e órgãos da administração federal. Até 1985, a EBN existia em paralelo com a Radiobrás, que respondia pela distribuição de material radiofônico e televisivo (SILVA JUNIOR, 2006b). Nessa época, a sede da EBN ficava situada em Brasília, mas já possuía sucursais em outras capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Belém e Recife. Em 1985, no governo de José Sarney, a EBN se fundiu com a Radiobrás, tornando-se a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Somente após esse momento é que os serviços da EBN foram transformados na Agência Brasil, atuante até então. Hoje, a Agência Brasil é um departamento da Radiobrás e faz cobertura regular do governo em Brasília. Segundo Silva Junior (2006b), a agência prepara materiais que são distribuídos para a mídia comercial e para uso interno da Radiobrás. Oferece 11 serviços que são disponibilizados na Internet, tais como: Brasil Agora, Economia, Política, Nacional, Agenda do Presidente da República, Brasilian News, Fotografia, Radioagência Nacional, TV Brasil.

Outras duas agências de notícias brasileiras surgiram após a Agência Nacional. Em 1931, Assis Chateaubriand fundou a Agência Meridional para distribuir os conteúdos dos jornais de seu grupo Diários Associados, que era mantido através de contribuições de seus próprios donos. Em 1966, foi fundada a AJB, para revender as notícias do Jornal do Brasil. Marques (2005, p. 21) assinala que a AJB “foi a primeira a colocar na rede, em 1995, um serviço de notícias em tempo real no país, com edições diárias na Internet, e o primeiro sistema eletrônico de transmissão de fotos”. As maiores agências brasileiras são fontes de negócios para os já existentes grupos de comunicação nacionais, quase sempre familiares. A Agência Estado está ligada ao Grupo Estado, responsável também pela edição de O Estado de S. Paulo, foi fundada em 1970 e ocupa o lugar de mais importante agência do país. Por ser a empresa escolhida para testar as hipóteses deste estudo, será melhor detalhada adiante. Sua maior concorrente, a Agência O Globo, foi fundada em 1974, sendo ligada às Organizações Globo, pertencente à família

47

Marinho. A agência comercializa o conteúdo dos jornais O Globo, Extra e Diário de S. Paulo, e O Globo On-Line (MARQUES, 2005). A Folhapress foi criada em 1994 e está ligada ao Grupo Folha da Manhã, pertencente à família Frias. Não possui um caráter de agência noticiosa, mas de reprodutora de notícias dos jornais impressos do grupo, porém foi pioneira na disponibilização de um banco de imagens online de fotojornalismo. No Brasil, existem ainda “pequenasagências de notícias, que possuem um serviço especializado e alternativo. Entre elas está a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), criada em 1993, com a missão de contribuir para a promoção dos direitos da criança e do adolescente através dos meios de comunicação. Há ainda a Agência Lance Press, pertencente ao jornal Lance!, e a BRpress, criada em 1997, que fornece material noticioso para a Internet e é mais focada em colunas e artigos. A Carta Maior, fundada em 2001, é uma agência de notícias que publica material para veículos informativos de entidades e organizações sociais e acadêmicas. Existem ainda agências especializadas em meio ambiente como a ECOpress, Amazon Press e a Envolverde; e especializadas em análise econômica e em políticas públicas, como a Agência Dinheiro Vivo. Além dessas, é possível citar ainda a Agência Câmara, a Agência Senado, Agência FAPESP, a Agência Migrantes, a Agência de Notícias da AIDS e a Agência de Notícias do Cooperativismo (ANC). Ao contrário das grandes agências, que também abastecem com conteúdo os veículos do próprio grupo ao qual pertencem, essas se preocupam exclusivamente com a venda e a circulação da informação a clientes genéricos.

1.1. A experiência da Agência Estado

A Agência Estado (AE) foi fundada no ano de 1970, com o propósito de auxiliar as outras mídias do Grupo Estado, que pertence à família Mesquita e abrange o jornal O Estado de S. Paulo (1875), a Rádio Eldorado (1958) e o Jornal da Tarde (1966). Mais tarde, a AE passou a fornecer notícias e imagens para pequenos e médios jornais e emissoras de rádio, passando a lidar com clientes externos (SILVA JUNIOR, 2006b).

48

A empresa começou a ganhar autonomia no final dos anos 1980, quando foi transformada em uma unidade de negócios e “conectou-se ao mundo produzindo e distribuindo informações através de fax, satélite, FM, pagers e linhas dedicadas(MARQUES, 2005, p. 21-22). De acordo com Saad (2003 apud MARQUES, 2005, p. 22), a Agência Estado abastece os mercados de mídia e de new mídia:

No primeiro, estão incluídos o mercado interno, formado pelas empresas do grupo - jornais Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado - e o mercado externo, constituído pelos jornais e emissoras de rádio e de TV assinantes. A new mídia inclui o tempo real notícias em tempo real e notícias de tempo diferido material produzido para ser publicado na mídia eletrônica sem a pressa do tempo real (MARQUES, 2005, p. 22).

A modernização da redação da AE foi iniciada também no final dos anos 1980 e, no início da década seguinte, a empresa já possuía as tecnologias necessárias para atua