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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ

1 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ JULIANA DE ANDRADE MARREIROS A EXPERIÊNCIA DO CORPO DE ASSESSORIA JURÍDICA

JULIANA DE ANDRADE MARREIROS

A EXPERIÊNCIA DO CORPO DE ASSESSORIA JURÍDICA ESTUDANTIL CORAJE ENQUANTO NÚCLEO DE ASSESSORIA JURÍDICA POPULAR E A SUA TRAJETÓRIA PARA A CONSTRUÇÃO DE UM CONTEXTO INÉDITO VIÁVEL.

TERESINA

2011

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JULIANA DE ANDRADE MARREIROS

A EXPERIÊNCIA DO CORPO DE ASSESSORIA JURÍDICA ESTUDANTIL CORAJE ENQUANTO NÚCLEO DE ASSESSORIA JURÍDICA POPULAR E A SUA TRAJETÓRIA PARA A CONSTRUÇÃO DE UM CONTEXTO INÉDITO VIÁVEL.

Monografia Final apresentada à Coordenadoria do Curso de Direito da Universidade Estadual do Piauí, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito.

ORIENTADOR: Prof. Msc. Marcos Daniel da Silva Rocha

TERESINA

2011

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JULIANA DE ANDRADE MARREIROS

A EXPERIÊNCIA DO CORPO DE ASSESSORIA JURÍDICA ESTUDANTIL CORAJE ENQUANTO NÚCLEO DE ASSESSORIA JURÍDICA POPULAR E A SUA TRAJETÓRIA PARA A CONSTRUÇÃO DE UM CONTEXTO INÉDITO VIÁVEL.

Aprovada em:

Trabalho apresentado à Disciplina Monografia Jurídica do Curso de Bacharelado em Direito da Universidade Estadual do Piauí.

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BANCA EXAMINADORA

Prof. Msc. Marcos Daniel da Silva Rocha (Orientador) UESPI

Prof. Msc. Gillian Santana de Carvalho Mendes (Examinadora) - UESPI

Prof. Msc.

TERESINA

2011

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Aos trabalhadores; encarcerados; favelados, sem- terra e sem-teto; homoafetivos; negros, brancos, amarelos e indígenas; crianças, adolescentes, homens e mulheres pobres de posses, mas certamente ricos de vida, todos vítimas da exclusão e violência sóciocultural deste país - porque sofredores de suas opressões são também donos de minha solidariedade, comunhão e do meu mais profundo desejo de transformação - em especial aos jovens da Vila São Francisco, Zona Norte de Teresina, que com o brilho de seus olhos pintaram no céu da esperança em meu coração um tom de azul ainda mais vibrante.

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AGRADECIMENTOS

A meus pais, pessoas que abriram mão de tanto para me proporcionar tudo o que não tiveram. Pai, pelo exemplo, cuidado, proteção e sacrifício diário em meu favor. Mãe, por onde quer que tu estejas, estás viva na minha carne, na minha memória, na minha história, no meu coração. Obrigada por todo amor que me destes e por ser eterno motivo de meu orgulho. Amo vocês.

Irmão, Osvaldo Júnior, pelo apoio incondicional, por me certificar de que nunca estarei só e por ser aquele de quem primeiro sinto falta quando tenho que me afastar de casa. Hoje, ontem e sempre. Sim tu és o bom irmão mais velho e eu a chata irmã mais nova.

Vitor, porque és o meu diário, a quem recorro a qualquer tempo. Por mais que pareça impossível, és aquele que se esforça com toda a alma para me compreender. Sem você, esta monografia jamais teria se concebido: no meu desespero, enxugastes minhas lágrimas, na minha agonia, criastes motivos pra que eu sorrisse. Fostes o meu maior incentivador e quem nunca duvidou de que eu conseguiria. ―És parte ainda do que me faz forte!‖. Obrigada pelo amor imenso. Eu amo você.

Aos amigos que, perto ou longe, me edificaram. Sou maior, a cada dia, porque sou vocês. Yasmin, João Alexandre, Jayanna, Lucivânia, Fabiano, Jackellyne, Mariah, cada um, com sua amizade; cada um, uma relação diferente; partes de um todo: eu!

Tia Conceição, minha amada segunda-mãe. É a pessoa que eu mais queria perto de mim, 24 horas por dia. Mesmo longe, eu posso sentir o tamanho do seu amor. E nada me faz sentir mais em casa, sossegada e confortável que aquele afeto todo que ela derrama quando cuida de mim. Tia Elisete, pela atenção e pela presença sempre marcante em minha vida; por me querer tão bem; por ser eternamente Teté!

Ao professor, mestre, amigo e querido Braz, porque foi quem nesta vida mais me inspirou a carregar em meus passos a utopia de viver uma sociedade livre, justa e humana. Por ter sido aquele que pegou em minha mão e disse: ―é possível!‖. Por que pela simples

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existência, todos os dias me faz acreditar. Se hoje concluo o curso de Direito e fiz AJUP, é por grande contribuição sua. Obrigada!

Às minhas famílias: Andrade e Marreiros. Por terem trazido a este mundo meus pais e por ter lhes sido ponto de apoio por toda a vida. Por me receberem sempre de braços e coração abertos, por me incentivarem e pela proteção. Em especial aos meus padrinhos, Rosarinha e Luis, pelo carinho de sempre, e madrinha Dos Anjos, dona do nome mais apropriado.

Aos Jovens Unidos da Vila São Francisco Zona Norte de Teresina, como representantes daqueles com quem desejo partilhar a luta por um outro amanhã assim como as alegrias e a beleza de um mundo novo.

Aos meus colegas de classe, pelas alegrias cotidianas que me proporcionaram. Somos artesãos de um novo direito!

E o meu agradecimento mais especial: ao Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil e a cada braço, perna, peito, cabeça, coração, ouvido, alma, etc. que o compunham. Este Corpo que teve/tem rostinhos lindos bem definidos, cujos donos são Andreia Marreiro, Glaucia Stela, Lucas Vieira, Jorge André, Heiza Maria, Ciro Monteiro, Nara Karoline, Monna Karoline, Juliana Reis, Rafaella Lustosa, Rafael e Sâmya Vaz. Ainda que seja tão difícil romper com um mundo de coisas postas e remar contra essa poderosa maré que é a estagnação, a conservação do que nos corrói e nos destrói enquanto homens, monografo em teu nome, CORAJE, porque fostes ao longo de nossa caminhada o que tantas vezes nos manteve firme em nossas escolhas; porque cativastes em nós algumas das nossas maiores motivações de ser, estar e participar (n)deste mundo.

Concluirei a graduação relembrando o que contigo vivi e de como por ti me transformei. Esse trabalho é a última porta que se fecha nesses cinco anos e, certamente, a maior janela que se abre perante os meus olhos, com vistas pra um lindo horizonte de um mundo novo, de esperança. Hoje sinto-me mais e armada: tu, CORAJE, colocastes em meu peito e em minhas mãos as possibilidades pra ver reinar a harmonia entre os homens; me apresentastes uma outra faceta do direito, esse conhecimento que desejei comungar a vida toda: ele pode sim ser instrumento de transformação. Me munistes disso e de esperanças.

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Obrigada pelos amigos que me destes, pelo conhecimento que me proporcionastes, pelas pessoas lindas que me apresentastes (Shara Jane; Nayara; Macell; Isabela; menin@s do coletivo M.E.U.; os companheiros ajupanos, Ribas e Pazzello;, Betinho; Júlia e Rebecca (SAJU-BA); Mayara e Marília (NajucUFC), Dillyane (CAJU-UFC); Márcio André e Cecilia (NajupGO), Lawrence, Sabrina, Pablo (SURJA), Ramon (P@JE) entre outros tantos, não menos lindos); por me ensinar a desbravar fronteiras e a romper paradigmas.

A Deus, pai, todo-poderoso, meu melhor amigo, minha melhor companhia, minha força: a Ti, toda a minha devoção e amor. Obrigada pelas dádivas de minha vida.

Meus amados companheiros-irmãos CORAJOS@S, este rebento é nosso. Fruto de nossa carnavalização com a vida, de nosso amor e respeito recíprocos, de nossa construção coletiva e de nossos sonhos.

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Como uma linda e fascinante aquarela compõe-se a vida. E todos somos, neste jogo de cores, ao mesmo tempo, tela e tinta. Ser tela pressupõe termos a coragem de nos esvaziar; de oferecer espaço ao novo que emergirá, ao amor que permite ser e ter vida. Ser tinta exige abandonarmos a postura passiva e omissiva perante a vida; frente à nossa história e imprimirmos nossas forças, nossas idéias na composição desta nova obra, na qual, em cada detalhe, se visualize o todo e no todo, uma nova cor.

(Josiane Veronese e Luciane Oliveira)

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RESUMO

Esta monografia tem por objetivo o relato da experiência do Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil CORAJE enquanto núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular, a fim de apresentar para a comunidade acadêmica da Universidade Estadual do Piauí a sua prática de extensão/comunicação potencialmente transformadora, bem como as possibilidades por ela ensejadas para a aproximação do direito à vida social. Para que tal experiência seja melhor narrada, foi preciso que se explicitasse a proposta da práxis crítica e emancipatória que é a Assessoria Jurídica Universitária Popular. Nesse sentido, por ser esta uma proposta de claras opções políticas pelo engajamento, mobilização e reconhecimento das lutas populares, que passam pela viabilização de um novo projeto de sociedade justa, igualitária e efetivamente democrática, sua sistematização pressupõe o desenvolvimento de teorias críticas ao direito e às suas instituições vigentes e aponta para a formulação de novas práticas e concepções jurídicas e sociais. Dessa forma, buscou-se trabalhar algumas dessas críticas de forma a revelar as opressões ocultadas pelos paradigmas políticos, culturais e jurídicos afirmados, abrindo-se o espaço para a construção de um novo paradigma. Somente de posse da crítica tornou-se possível a construção da proposta de transformação e, comungando deste objetivo, a narração da trajetória extensionista que se pretendeu realizar no presente trabalho.

críticas.

Extensão/comunicação. Transformação.

Palavraschave:

Teorias

Assessoria

Jurídica

Universitária

Popular.

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ABSTRACT

This monograph aims to report the experience of Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil - CORAJE - as the core of People's University Legal Counsel, to present to the academic community at Universidade Estadual do Piauí its practice of potentially transformative extension/communication and the possibilities for its opportunity to approach the right to social life. In order to such an experience be best told, it was necessary to explain the proposal of critical and emancipatory praxis that is the People's University Legal Counsel. In this sense, since this is a clear proposal of politic options for engagement, mobilization and recognition of people's struggles, which pass through the viability of a new project of fairly, equitably and effectively democratic society, its systematization requires the development of critical theories to the law and to its current institutions and it points to the formulation of new practices and legal and social conceptions. Thus, this monograph sought to deal with some of these criticisms in order to reveal the hidden oppression by political paradigms, cultural and legal affirmed, opening up space for the construction of a new paradigm. Only with the criticism the construction of the proposed change was possible, and communing that objective, the narrative extensionist trajectory that was intended to be accomplished in this work.

KEYWORDS: People's University Legal Counsel. Extension/communication. Transformation. Critical theories.

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DECLARAÇÃO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

A aprovação desta monografia não significará endosso do professor orientador, da banca examinadora ou da Universidade Estadual do Piauí às idéias, opiniões e ideologias constantes no trabalho, a responsabilidade é inteiramente da autora.

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LISTA DE SIGLAS

AJUP: Assessoria Jurídica Universitária Popular CAJUINA: Centro de Assessoria Jurídica de Teresina CEUT: Centro de Ensino Unificado de Teresina CORAJE: Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil ENED: Encontro Nacional de Estudantes de Direito ENNAJUP: Encontro Norte-Nordeste de Assessoria Jurídica Universitária Popular ERAJU: Encontro Regional de Assessoria Jurídica Universitária ERED: Encontro Regional de Estudantes de Direito ERENAJU: Encontro da Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária JA: Justiça e Atitude NEP Flor de Mandacaru: Núcleo de Educação Popular Flor de Mandacaru ONG’s: Organizações Não Governamentais PREX: Pró-Reitoria de Extensão RENAJU: Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária SAJU: Serviço de Assessoria Jurídica Universitária UESPI: Universidade Estadual do Piauí UFBA: Universidade Federal da Bahia UFPB: Universidade Federal da Paraíba UFPI: Universidade Federal do Piauí UFRGS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

 

16

2 DA CRÍTICA AO ADVENTO DO INÉDITO VIÁVEL: O CAMINHO NECESSÁRIO A SE PERCORRER

19

2.1 Considerações Iniciais

 

19

2.2 Críticas ao Positivismo Jurídico

 

20

2.3 Críticas ao Monismo Jurídico

26

2.4 O pluralismo jurídico: fruto da crítica ao positivismo e ao monismo jurídicos

28

2.5 Considerações sobre o tema do acesso à justiça

 

31

2.6 Do ensino jurídico à educação jurídica

32

ASSESSORIA JURÍDICA UNIVERSITÁRIA POPULAR: UMA PROPOSTA DE TRANSFORMAÇÃO

3

38

3.1

Contextualizando

a

proposta

da

Assessoria

Jurídica

Universitária

Popular

 

38

3.2

Universidade

e

Extensão/Comunicação

Popular:

novos

paradigmas

como pressupostos da Assessoria Jurídica Universitária Popular

 

40

3.2.1 Universidade: de onde se origina a Assessoria Jurídica Universitária Popular

40

3.2.2 Extensão/Comunicação Popular: prática da Assessoria Jurídica Universitária Popular

43

3.3

Educação Popular para o exercício de direitos humanos: a metodologia

da Assessoria Jurídica Universitária Popular

 

48

3.4

Princípios Norteadores da práxis da Assessoria Jurídica Universitária

Popular

 

53

3.4.1

Da criticidade:

54

14

3.4.3 Da alteridade

 

56

3.4.4 Da horizontalidade

 

58

3.4.5 Da auto-gestão e do protagonismo estudantil

 

60

3.4.6 Da interdisciplinariedade

 

61

A EXPERIÊNCIA DO PROJETO CORAJE ENQUANTO NÚCLEO DE ASSESSORIA JURÍDICA UNIVERSITÁRIA POPULAR (A TRAJETÓRIA PARA A CONSTRUÇÃO DO INÉDITO VIÁVEL)

4

64

4.1 A Origem: onde tudo começou

 

64

4.2 Formação Política

 

66

4.3 O Encontro com outros núcleos de AJUP: “não estamos sós no mundo”!.

67

4.4 A institucionalização do projeto CORAJE junto à Pró-reitoria de

Extensão da Universidade Estadual do Piauí

 

69

4.5

A II Semana do CORAJE: em busca da renovação do Corpo

 

72

4.6 O Encontro com a comunidade: a “descoberta” da Vila São Francisco – Zona Norte de Teresina

73

4.7

A eclosão da greve de professores da UESPI e o envolvimento do

CORAJE com o Movimento Estudantil

 

75

4.8

A

Adesão

à

Rede

Nacional

de

Assessoria

Jurídica

Universitária

(RENAJU)

 

77

4.9

Em suma, o CORAJE

 

78

5

CONCLUSÃO

 

80

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

82

ANEXO I Logomarca CORAJE

 

87

ANEXO II A construção da Logomarca do CORAJE

 

88

15

ANEXO IV – Cartaz do segundo ciclo de “encorajamentos”

93

ANEXO V – Cartaz do segundo ciclo de “encorajamentos”

94

ANEXO VI Proposta de oficina III ciclo de encorajamento

95

ANEXO VII Projeto enviado à PREX

107

ANEXO VIII Vila São Francisco: oficina de apresentação

134

ANEXO IX Vila São Francisco: segunda oficina

136

ANEXO X Vila São Francisco: terceira oficina

138

ANEXO XI Vila São Francisco: relatório da primeira visita

140

ANEXO XII Vila São Francisco: plano de ação

142

ANEXO XIII Resumos do Seminário de Extensão

145

ANEXO XIV Proposta do mini-curso “Crítica da Crítica Crítica: a sagrada família jurídica”

147

ANEXO XV – Proposta da “Segunda Semana do CORAJE”

157

ANEXO XVI Folder da Segunda Semana do CORAJE

170

ANEXO XVII Plano Político Pedagógico do Erenaju

172

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1 INTRODUÇÃO

O caminho para a construção do novo não é fácil. Especialmente quando o novo é essencialmente contestatório, insatisfeito e indignado que é com o que se pretende estabelecer como velho. Assim, é de indiscutível importância o papel da construção teórica apta a fundamentar a derrocada do velho, a necessidade do novo e sua razão de ser. É também fundamental que a proposta apontada para a realização do novo seja convidativa; se mostre interessante para aqueles que se inclinam a seus propósitos e, pelo menos, instigante aos que, embora ainda não inclinados, reconheçam que a produção de todo e qualquer conhecimento, principalmente o novo, é relevante. Nesse sentido, o que se pretende com o presente trabalho é a construção de um novo horizonte de possibilidades, considerado inédito viável: intenta-se a construção de novos paradigmas para a ciência, para o processo educativo, para a universidade, para a extensão

acadêmica, para o direito e sua vivência, para a sociedade, para as relações interpessoais, para

a humanidade e para o mundo. É uma proposta de propósitos grandes, ambiciosos, coletivos e

humanos. Se não há de se considerá-la revolucionária, pois que rompe com tantos outros paradigmas, há de se reconhecer seu caráter, no mínimo, inovador. E, embora pareça bastante pretensiosa, mostra-se uma proposta palpável, possivelmente realizável, uma vez que depende, inicialmente, do espírito de transformação dos grupos envolvidos na sua concretização e, a posteriori, do espírito empreendedor da liberdade e da vida humana de toda

a sociedade politizada; humanizada. Assim é a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular: desafiadora, politicamente definida, socialmente engajada, horizontalmente aplicada, desveladora, problematizadora, crítica e autocrítica, capaz de transformar o individuo que dela comunga a tal ponto de ele mesmo rever continuamente seus (pré)conceitos, influenciado pela noção de que a postura estática diante da diversidade e das vivências plurais inerentes à humanidade é tragicamente (re)produtora de injustiças. A proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular pretende, antes de tudo, resgatar o humano dentro de cada homem e colocá-lo no centro da vida social. Diante de tão densa proposta, faz-se necessária a sistematização do conhecimento que lhe alicerça, bem como do conhecimento por ela alcançado. Para a construção deste conhecimento é inexorável o desenvolvimento da crítica ao que está posto, pois não se pode propor o novo sem a apreensão do que se pretende instituir como velho, sob pena de este

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―novo‖ apenas reproduzir o que deseja superar. Nesses termos, através da metodologia de revisão bibliográfica, este trabalho traz em seu primeiro capítulo a formulação da crítica aos modelos de sociedade, direito e universidade estabelecidos, a partir de uma postura de denudação dos véus que encobrem a lamentável realidade de contrastes sociais abissais. Nesse processo de desvelamento, são apresentadas novas realidades e práticas que, embora ainda não tenham sido legitimadas pelos paradigmas tradicionais, implicam em emergente reconhecimento de suas prerrogativas por parte da sociedade civil. Assim, a partir da formulação da crítica às instituições políticas, jurídicas, sociais e culturais vigentes, surgem novas metodologias e formas de enfrentamento ao que é socialmente imposto, que, sistematizadas e condensadas, culminarão na formulação da proposta da extensão enquanto processo de comunicação, com uma práxis de cunho marcadamente político e emancipatório, como trabalhado no segundo capítulo. A Assessoria Jurídica Universitária Popular passa, dessa forma, pela crítica aos paradigmas tradicionais de teorização, produção e circulação do direito, (tais como o positivismo e o monismo jurídicos e a noção moderna de acesso à justiça), que edificam uma verdadeira muralha ideológica entre o instrumental jurídico e os diversos atores sociais; ao modelo de universidade e de concepção do conhecimento científico, pois que é neste âmbito que se inicia a sua práxis; ao modelo de extensão e ensino acadêmicos vigentes e às estruturas capitalistas mantenedoras das desigualdades sociais. Das críticas a estes padrões socialmente impostos, a proposta aqui em apreço lança mão de novos parâmetros e aponta novas metodologias para a construção de uma realidade diversa, tais como a educação popular e a sua abordagem no campo dos direitos humanos, subtraídos das maiorias, assim como a extensão popular enquanto processo de comunicação, com vistas para a organização e mobilização dos povos oprimidos e dos grupos com eles identificados, para o resgate de sua cidadania e dos preceitos democráticos. Pretende-se com esse trabalho, então, explicitar os objetivos da Assessoria Jurídica Universitária Popular de forma a apresentar para a comunidade acadêmica e não- acadêmica novas bases para a construção de um contexto inédito viável, caracterizado pela hegemonia da igualdade e da justiça entre os homens. Dessa forma, em seu terceiro capítulo, busca-se fazer um sucinto relato da trajetória do Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil CORAJE enquanto núcleo de extensão/comunicação com práxis de educação popular em direitos humanos, através da análise do projeto aprovado e institucionalizado pela Pró- Reitoria de Extensão da Universidade Estadual do Piauí e do uso de relatórios, propostas de oficinas realizadas ao longo de sua caminhada, entre outros documentos em anexo que tem

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por finalidade uma breve demonstração de sua trajetória. O intuito deste relato é o registro histórico da existência, da luta e da experiência, potencialmente transformadora e libertadora, deste projeto, para fins de documentação exigível à consolidação de sua memória. Objetiva-se cumprir, nesse sentido, com o importante papel de apresentação de medidas que possibilitem a transformação social a partir da transformação dos próprios sujeitos com ela comprometidos, bem como de destaque da função do direito enquanto poderoso instrumento utilizável nesta tão almejada mudança.

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2 DA CRÍTICA AO ADVENTO DO INÉDITO VIÁVEL: O CAMINHO NECESSÁRIO A SE PERCORRER

2.1 Considerações Iniciais

Nenhuma idéia ou proposta considerada nova, transformadora ou mesmo insurgente nasce do nada. É sabido que idéias são antes resultados de discussões e reflexões a partir de algum objeto dado ou alguma situação fática. O que será posto aqui em discussão ou sob reflexão para o posterior surgimento de uma nova idéia (quiçá revolucionária!), qual seja, a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular (a ser trabalhada no próximo capitulo), é o entendimento vigente do Direito. Na verdade, é da crítica à ciência jurídica comumente vislumbrada nos meios jurídicos e na própria Faculdade de Direito (e, por conseguinte, a todo o arcabouço teórico e ideológico dela derivado), bem como da pretensão da construção de um novo paradigma do Direito, que é concebida a nova proposta acima mencionada. Para que sejam construídos o horizonte de valores e concepções e também a compreensão de um Direito novo, faz-se necessário, então, conhecer os elementos e fundamentos que edificam a teoria e a prática da ciência jurídica (im)posta. Somente a partir desse conhecimento é possível a crítica às estruturas preponderantes e, para além das críticas, a tomada deste conhecimento para a viabilização de um projeto de sociedade diverso, dentro das perspectivas deste novo paradigma do Direito. Daí, considerando-se que a noção de paradigma consiste no estabelecimento de uma visão cravada no interior de uma ciência ou mesmo de uma compreensão de mundo a partir dos processos históricos por que passam as sociedades humanas, tem-se que o soerguimento de um paradigma só é possível com a superação de outro modelo dantes estabelecido, uma vez que ambos são incompatíveis entre si. Assim, nas palavras de Lucas Pizzolatto,

Em decorrência desse processo, podem igualmente se transformar as comunidades científicas, as ciências parciais e a própria noção global de ciência. As mudanças de paradigma, entretanto, não resultam de um desenvolvimento evolutivo e linear. Ao contrário, assemelham-se metaforicamente a revoluções. (PIZZOLATTO, 2010, p.02).

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É no bojo desse processo de mudança de paradigmas (ou revoluções) que as críticas ao modelo que se pretende superar se tornam visíveis e instrumentos necessários para o desenvolvimento e estabelecimento do novo. Nesse contexto, as ditas teorias críticas do Direito são elementos fundamentais para a produção desta nova concepção da ciência jurídica.

2.2 Críticas ao Positivismo Jurídico

Partindo-se para o conhecimento das estruturas basilares sobre as quais se funda o Direito hegemônico, observa-se que muitos são os mitos e ―verdades absolutas‖ a serem desnudados, sob um prisma mais amplo e questionador (por tanto crítico) desta ciência. O primeiro e maior mito, que merece devido desmascaramento, donde se originam outros tantos mitos que permeiam a ciência jurídica, é a teoria juspositivista. Segundo essa corrente político-filosófica, todo o direito reside e se encerra na lei (chegando mesmo a se confundirem) ou em qualquer outro meio que a ela se equipare, tais como a doutrina, jurisprudência, princípios gerais do direito e os costumes, tendo em vista que tais meios não podem contradizer a norma. É preciso que aqui se faça uma breve explanação de como tal teoria encontra plena absorção no subconsciente sócio-político-jurídico atual e de como ela se converte em verdadeiro discurso de justificação para as barbáries constantemente cometidas pelas classes que dela se utilizam. Nesse cerne, é necessário lembrar que o positivismo jurídico ganhou impulso quando da ascensão da burguesia ao poder político (instância da qual a classe era totalmente privada até então), com o advento da Revolução Francesa de 1789. O cenário sócio- econômico era propício para tal acontecimento, haja vista que o capitalismo, engendrado por este grupo, já reinava nas sociedades ocidentais. Assim, era gritante que os ―donos‖ do poder econômico e, agora, também do político, tivessem suas reivindicações levadas a cabo em todos os âmbitos, assegurando-lhes segurança em suas relações quaisquer que fossem. O positivismo enquanto corrente dominante em todos os ramos das ciências caía como uma luva nas mãos burguesas e de outra forma não poderia ser com o direito.

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A essa altura, a burguesia deixou de ser uma classe revolucionária e inicia a

digestão de suas conquistas; não carece mais de instrumentos críticos e

valorativos, diante das normas formalizadas e promulgadas; pois ela já

detém o poder, inclusive nomogético. E o novo dogma leigo é decorrência

de tal situação. (LYRA FILHO, 1980, p.22).

Dessa forma, mantinham-se no ordenamento jurídico os interesses da classe dominante e qualquer aplicação, interpretação ou mesmo produção jurídica que fugisse dos limites da lei instituída pelo poder político vigente era verdadeira afronta à ―ordem estabelecida‖. Daí deriva o surgimento de todo um arcabouço teórico e filosófico no sentido de prover a assimilação e a aceitação do juspositivismo por toda a sociedade, inclusive pelas camadas oprimidas, excluídas do processo de produção dos conteúdos jurídicos. As teorizações acerca do juspositivismo reforçam seu caráter mitológico na medida em que procuram dar respostas satisfatórias às diversas demandas sociais sem correr os riscos de ofensas e ataques a seus mantos sacralizados (pelos grupos por eles privilegiados), que lhe separam da complexa realidade social. Artifícios como o da completude do ordenamento jurídico (im)posto como única forma de solução para os conflitos a ele submetidos e da segurança jurídica conferida pelas decisões arrimadas neste mesmo ordenamento vinculam o alcance da justiça somente à letra fria da lei e aos sistemas de interpretação que em nada alteram as estruturas defendidas pelos diplomas legais. Incorre-se, assim, em interminável ciclo de produção de normas em pleno acordo com o ordenamento jurídico vigente, mantendo-o hermeticamente fechado e insensível aos apelos sociais que não sejam os dominantes.

Isso é possível porque o próprio ordenamento jurídico dispõe de normas jurídicas capazes de regular o processo de produção das demais normas ( Depreende-se disso a ausência de lacunas e antinomias, cuja existência é apenas aparente, já que sua correção pode ser resolvida internamente por intermédio da interpretação, sem que seja preciso recorrer a elementos externos ao sistema. (PIZZOLATTO, 2010, p.06 e 08).

Sobre a segurança jurídica, aduz ainda o mesmo autor que

A comunidade de juristas professa a convicção de que, uma vez seguidos

corretamente os cânones métodos, princípios e institutos próprios à ciência do direito, o resultado sempre será a obtenção de respostas seguras e inequívocas que garantam a decidibilidade dos conflitos trazidos perante os juízes na forma de litígios individualizados. (PIZZOLATTO, 2010, p.08).

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É também sob o império do positivismo jurídico que nasce a figura ideológica do consenso político, o qual obsta uma visão mais profunda acerca dos reais interesses submersos na ―vontade da lei ou do legislador‖ e suprime as lutas sociais do processo histórico de construção do direito. Do consenso nada mais pode se esperar que a experiência da ―paz social‖, outro produto da idealização juspositivista e uma das maiores falácias dentro dos discursos jurídicos predominantes, uma vez que oculta nesta suposta paz toda atuação ou postura que vá de encontro às forças hegemônicas expressas pelo conteúdo normativo das leis. Logo,

Ao adotar o método sistemático na elaboração de proposições acerca do ordenamento jurídico, a ciência jurídica almeja neutralizar a diversidade de interesses concretos na formação do direito e oportunizar soluções harmônicas aos casos concretos, preservando a coesão social. (PIZZOLATTO, 2010, p.08).

Nesses moldes, o mito do consenso político encontra sua maior sustentação em um elemento eminentemente positivista, traduzido como igualdade formal de todos perante a lei. Em um contexto de luta por ―liberdade, igualdade e fraternidade‖ tal qual a Revolução Francesa, a burguesia precisava mesmo de um argumento que não só a legitimasse no exercício do poder político como também lhe servisse de pretexto para a mobilização das massas em torno dos ideais daquela classe, embora este objetivo não ficasse explícito em suas ―palavras de ordem ao movimento‖. Assim, a proclamação da igualdade formal no texto legal soava revolucionária às classes marginalizadas, acostumadas à desigualdade de toda sorte, e nada havia que se questionar no ordenamento jurídico positivado. Garantia-se, então, a obediência fiel à lei e enterrava-se qualquer chance de revolta popular contra a classe em ascensão. Nesse sentido, preciosa é a lição de Miguel Baldez quando coloca que

Homens e coisas ficam subsumidos na vontade geral (vontade da lei),

generalizada e universalizada pela abstração da realidade. Ocorre neste processo de abstração e generalização super-estrutural, a atomização e

conseqüente individualização do concreto (

sujeitos de direitos e obrigações e iguais perante a lei, e as contradições se dão no concreto, sob a mediação do Estado, entre o sujeito-operário e o sujeito-patrão (e não entre a classe trabalhadora e a classe patronal), entre sujeito-posseiro e o sujeito-grileiro (e não os sem-terra e os latifundiários),

A partir daí todos são

).

universal e abstratamente sujeitos (o operário, o patrão, o sem-terra, o latifundiário, todos sujeitos) e por isso, conceptualmente, ou em terminologia mais adequada, ideologicamente iguais perante a lei. (BALDEZ, 1989, p. 02).

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Da igualdade formal pode-se extrair mais uma construção dogmática operada pelos ditames positivistas: o mito da neutralidade do direito e de sua dicção na atual conjuntura sócio-política. Reside nesse fetiche jurídico a idéia de que as leis e seus comandos se mantém entre e acima das partes envolvidas no conflito jurídico-social e que o jurista deve atender à vontade por ela exprimida, sob pena de atentar contra a justiça desejada. Importante salientar que o desenvolvimento e a constante reafirmação dessa ficção é um dos papéis primordiais da ciência jurídica transmitida atualmente. Não por acaso, Kant já enunciava a total dissociabilidade entre filosofia e direito, concebendo dessa forma um conjunto de princípios e regras destituído de qualquer valoração e enquadrando a ciência jurídica no paradigma cientificista-racional ascendente. Da contribuição de Kant a ciência jurídica muito tirou sua lição, uma vez que, segundo suas proposições,

Cabia interpretar o mundo como universo de fatos verificáveis, dados sensíveis da experiência que se conectariam entre si em relação de causalidade. Aos cientistas, em primeiro lugar, incumbiria a tarefa de formular juízos de existência, ou seja, registrar empiricamente os fatos com a maior exatidão e meticulosidade possível; em segundo lugar, a missão de descrever objetiva e sistematicamente os fatos observados e descobrir as leis gerais responsáveis por sua conexão, abstendo-se de formular juízos de valor. O compromisso para com o ideal cientificista implicava a valorização do método e, supunha-se então, alavancaria inevitavelmente o progresso social (ANDRADE, 2003, p. 38-41).

De acordo com tais preceitos, caberia ainda aos juristas

conferir ordem e coerência ao conjunto aparentemente caótico de materiais normativos, o que requer, em atenção aos critérios de cientificidade, uma postura de neutralidade ético-axiológica ao se efetuar seu registro e análise exegética. Resulta dessa construção uma ciência parcial, teórico-conceitual e hermética, cujos protagonistas principais são os professores das faculdades de direito os doutrinadores e cujo principal produto é a doutrina. (PIZZOLATTO, 2010, p.04).

O mito na neutralidade é ainda endossado pela criação da figura do Estado-juiz, ao qual é atribuído o provimento da dicção do direito (jurisdição) ou o papel de ―boca da lei‖. Decorre daí que a lei, enquanto elemento detentor de todo o direito, considerado neutro, deve se expressar precipuamente através de um agente legitimado político-socialmente para tal, entendimento este derivado da teoria contratualista de Rosseau em conjunção com a teoria da Separação dos Poderes preceituada por Montesquieu. ―Isto só vai tornar-se possível e consolidar-se com a gestação de um ser público, por isso (por ser público) distanciado dos

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conflitos sociais e, em face deles, neutro e soberano – o estado burguês‖ (BALDEZ, 1989, p.02). Dessa forma, o juiz também é o Estado e como tal, fará suas vezes quando da sua atuação.

Interessante se faz também perceber de que forma a neutralidade científica buscada pelo direito positivo mantém íntima ligação com a neutralidade atribuída ao Estado, conforme afirma Lucas Pizzollato:

Do ponto de vista político, a neutralidade axiológica da comunidade dos juristas, perseguida em prol do ideal cientificista, atua como correia de transmissão de outro ideal, o da neutralização do poder dos juízes. Não se pode olvidar que a redução do Judiciário à incumbência de ser a "boca da lei" corresponde aos ditames da teoria da separação dos poderes. De certo modo, isso origina a ilusão ideológica da dogmática jurídica o dogmatismo. (PIZZOLATTO, 2010, p.05).

Fácil notar, de todo o exposto, que a ideologia do consenso político (supostamente pactuado entre as mais diversas camadas da sociedade) apregoada pelo Estado e por suas normas, expressões máximas de seus interesses, cumpre seu papel fundamental de omissão dos conflitos sociais na busca pela efetivação dos anseios populares mais básicos, na medida em que se ocupa de ratificar ―verdades inquestionáveis‖, como a construção da referida ―ordem social‖ a partir do exercício da jurisdição pelo juiz - representante do Estado ―neutro e imparcial‖ - e, por conseguinte, do estrito exercício da lei. Considerando-se que o Estado é composto e dirigido pelas classes dominantes, uma vez que, no atual contexto de injustiças e desigualdades sociais alarmantes, às classes oprimidas não foi sequer oportunizada a possibilidade de acesso a este ente político, é preciso que se afirme: a lei não é neutra, conseqüentemente o direito como norma também não o é, tampouco o juiz enquanto extensão do Estado poderia sê-lo. Isso porque, o Estado como maior violador dos direitos das camadas mais espoliadas e (re)produtor das opressões por elas experimentadas, nada mais é que figura representativa dos ideais das camadas espoliantes e instrumento de manuseio político para a satisfação dos privilégios que acentuam a desigualdade entre os diversos estratos sociais. Assim, nas palavras de Baldez, o juiz

não é neutro enquanto órgão do Estado, enquanto cultural e

ideologicamente comprometido com a normatividade jurídica de uma sociedade de classes. Ninguém, aliás, encarna melhor que o Juiz, esse

comprometimento estrutural com a ossatura institucional do modo de

Cabe, assim, ao juiz, no concreto do embate da

produção capitalista. (

) (

)

contradição (reduzida ao processo) entre os trabalhadores e os não- trabalhadores, a função de guardião do sistema, cuja estrutura jurídica

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repousa na ideologia da propriedade e do contrato. (BALDEZ, 1989, p. 06 e

09).

Cabe aqui também ressaltar que nenhuma decisão elaborada pela mente humana pode de se furtar da emissão de um juízo de valor. O homem, como ser social e político que é, absorve durante seu desenvolvimento em comunidade valores, ideologias e crenças das quais não se liberta até o fim de sua existência social. Partindo-se desse pressuposto, tem-se que com o juiz não poderia ser diferente e, diante do quadro da realidade social de nossos tempos, somente são candidatos à ocupação deste cargo os filhos da classe detentora do capital, seja ele econômico, social ou cultural. Forçoso concluir que o juiz dificilmente formulará decisões sem considerar toda a carga valorativa construída em sua criação e reforçada pelos espaços sociais que ocupou ao longo de sua vida, consistindo seu acúmulo político-cultural em mais um entrave à neutralidade estatal. Some-se a esta constatação um agravante, que só reforça, de forma definitiva, a parcialidade do direito positivo: a construção positivista impele, por si só, os juristas de tempos atuais à ―preguiça‖ ou ―comodidade‖ criativa, já que a referida categoria social vislumbra o encerramento de toda sua carga valorativa, política e cultural nos limites de seu conteúdo legal. Como ilustração para tal afirmação, vasta é a fonte jurisprudencial, resultado do esforço (não tão considerável) dos profissionais do direito para, em última instância, alargar ou estreitar o âmbito de incidência da norma positiva, eximindo-se inclusive da análise mais profunda do caso concreto em questão. Percebe-se, então, a quase impossibilidade do empreendimento de um debate (no sentido de confronto de idéias) durante o ato decisório do juiz, pois seus valores absorvidos já encontram total recepção no ordenamento jurídico posto. Deriva-se claramente, desta prática jurídica exaustiva, conduta em hipótese alguma neutra. Logo,

Este é o logro do positivismo jurídico levado às últimas conseqüências: o engessamento do processo de pensamento acerca de e no próprio Direito. A realidade concreta ocupa um lugar secundário, porque a lei positiva e estatal assim o determina. (DUARTE, 2009, p.110)

A desmistificação da neutralidade do direito hegemônico, seja no âmbito de sua teoria ou de sua práxis, encontra respaldo ainda na tese de que é por meio da lei que o Estado legitima sua violência, entendendo-se que a ele é resguardada a prerrogativa da coação. Esta, por sua vez, é elemento garantidor do cumprimento e da plena concretização do ordenamento jurídico (im)posto no seio social, reprimindo-se, assim, toda e qualquer forma de confronto

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com o sistema normativo positivado. Tanto assim o é que, como nos dizeres de Pizzollato, a ―coatividade consiste na marca intrínseca da juridicidade do ordenamento, ao passo que seu conteúdo resume-se à regulamentação do uso da força pelas instituições estatais em dada sociedade.‖ (PIZZOLLATO, 2010, p.06). É dessa prerrogativa estatal, que, segundo Hobbes, este ente político e soberano se apropria para exterminar toda a barbárie de uma sociedade sem lei positivamente definida (tal como a sociedade feudal) e é dela que também decorre a categorização entre o que é direito e o que não é; quem são os sujeitos de direito e quem não o são.

A coação, como dito anteriormente, consiste na força capaz de assegurar o sistema

positivista de produção e aplicação de normas jurídicas. Essa força delimita, por meio da repressão, os instrumentos entendidos por jurídicos. Tem-se aí, em suma, o elemento também assecuratório do monismo jurídico, outra grande ―verdade absoluta‖ embasada e alimentada, reciprocamente, pelo juspositivismo. Reciprocamente porque não se sabe ao certo até que ponto tais teorias não se fundem numa só, permanecendo entre elas estreita interdependência. Basta para isso perceber, que ambas as teorias ganham máxima adesão quando o modo de produção capitalista alcança seu maior índice de assimilação pelas sociedades modernas, (especialmente com o advento da Revolução Industrial), inferindo-se daí que esses preceitos teóricos nada mais são que justificativas para legitimar a apropriação do poder político e econômico pelas classes dominantes.

2.3 Críticas ao Monismo Jurídico

O monismo jurídico tem por definição a exclusividade da produção e aplicação de

regras jurídicas imputada ao Estado. O direito, então, vem a ser tudo o que se pode extrair do conjunto de normas ínsitas no ordenamento jurídico, cuja única autoria admissível é a estatal, nem mais, nem menos, certeza esta asseverada pela coercibilidade intrínseca ao ente político referido. É em torno dessa perspectiva que toda a ciência jurídica moderna se delineia, como confirma a lição de Wolkmer:

O paradigma da Dogmática Jurídica forja-se sobre proposições legais abstratas, impessoais e coercitivas, formuladas pelo monopólio de um poder público centralizado (o Estado), interpretadas e aplicadas por órgãos (Judiciário) e por funcionários estatais (juízes). (WOLKMER, 2001, p.69).

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Assim, não há sombra de dúvida a respeito da estreita relação entre positivismo e monismo jurídicos, tendo em vista que suas manifestações máximas materializam-se no Estado e seus comandos normativos. Qualquer outra manifestação destoante desses moldes deve ser eliminada ou omitida, destituída que está de juridicidade. Tamanha é a oficialidade ideológica destas afirmações que outra não poderia ser a mentalidade geral da população além da criminalização de ordem diversa que venha a ser operada no seio social, qualificada como ―informal‖, ―paralela‖ e, conseqüentemente, inadmissível, pois resulta em verdadeiro ―ataque à dignidade do Estado‖.

Assim é que a positividade do Direito se assenta na estabilidade e na

unicidade do Direito que emana do Estado. Isto proporciona ao poder estatal

o controle exclusivo dos padrões de comportamento e reduz o Direito à

ordem vigente no contexto social. Como tal, este ordenamento jurídico está imune a juízos de valor e se constitui em árbitro único de justiça. Esta positividade da ordem estatal formula, generaliza e valida o Direito estatal. (MELO, R.; 2002, p. 36).

Dada esta validade estatal de controle de todo o direito (de seu nascimento à sua concretização), conferida pelo paradigma do monismo jurídico, evidente é a máscara ideológica que encobre a realidade social hodierna, pois é sobre o argumento da dicotomia ―direito oficial‖ versus ―direito informal‖ que se funda toda a violência institucional estatal. A esse respeito, assim dispõe Furmann:

A questão da lei do mais forte se encontra na atual sociedade mascarada pelo

Direito oficial. A violência é uma violência entre classes. Quando o Estado

não adentra com seu Direito oficial nas periferias ele abre espaço para a eclosão da violência. Não é à toa que se constata nas favelas dos grandes centros do país o controle jurídico do crime organizado. (FURMANN, 2003,

p.40).

Do legado positivista e do império do monopólio estatal, donde se infere que ―o conteúdo do direito muda quando o Estado decide institucionalmente modificá-lo‖ (PIZZOLLATO, 2010, p.07) e que sujeito de direito é aquele que se encaixa na ordem positivada, a qual, em última análise, atende tão somente às reivindicações das classes dirigentes estatais, resta ainda a aferição de cultura e contracultura designada às diversas manifestações engendradas na vida social, dentro dos moldes capitalistas de percepção. Difícil ignorar que de diversidades se compõe as relações sociais, sejam elas políticas, religiosas, sexuais e, do ponto de vista macro, de classes. No centro dessas

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diversidades e na dinâmica da luta por interesses, variadas são, inevitavelmente, as expressões políticas e culturais. Faz-se indispensável, assim, uma compreensão mais profunda e reveladora dessas demonstrações na medida em que afetam a ciência jurídica, pois não pode o direito, como elemento regulador da complexa vida em sociedade, manter-se indiferente a tais fenômenos. E de fato, o direito não o faz. O juspositivismo aliado ao monismo jurídico, sustentáculos da burguesia enquanto classe administradora do Estado, definem bem qual a posição do direito hegemônico diante dos conflitos assinalados pelas diversidades acima mencionadas, com base no exercício da ―ordem justa positivada‖, à qual todos, com todas as suas diferenças, se submetem. Cria-se, então, a partir da linha ideológica estabelecida pelo monismo jurídico (que separa o Estado dos anseios populares), os conceitos de cultura jurídica, expressão esta conformada aos ditames estatais e sub-cultura jurídica, produzida fora da esfera estatal. Assim é que, numa sociedade de claras contradições sociais, frutos de um sistema que legitima a exploração do homem pelo homem e eleva uma classe, em todos os setores da vida em comunidade, em detrimento de outra é que não se pode negar a flagrante injustiça produzida no momento da feitura e dicção das leis, que contemplam somente à classe privilegiada. Dessa forma,

o Direito detém uma nova função, a de abordar a diversidade e a

complexidade. Pois uma forma garantida de chegar a um fim trágico seria imaginar que a diversidade não existe, ou esperar, simplesmente, que ela

desaparecesse. (FURMANN, 2003, p. 40)

) (

É nesse contexto de busca por ocupação dos espaços garantidores de interesses e liberdades que se desenvolve uma contracultura, com escopo de contestação à ordem estabelecida e de defesa dos direitos das classes espoliadas e marginalizadas do processo legislativo. Dá-se a essa manifestação sócio-político-cultural contra-hegemônica o nome de pluralismo jurídico.

2.4 O pluralismo jurídico: fruto da crítica ao positivismo e ao monismo jurídicos

Denominado ainda por muitos como Direito insurgente, dado seu caráter de insubordinação aos comandos vigentes, o pluralismo jurídico edifica-se sobre as críticas aos

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pilares do Estado de direito moderno, pois parte do pressuposto que, longe do alcance da justiça, o ordenamento posto não dispõe de condições normativas e filosóficas para atender aos anseios de toda a população, pondo em cheque os mitos instituídos pela cultura jurídica dominante. Porém, ser reconhecida como direito é um desafio a ser ainda vencido pela contracultura jurídica que se pretende efetivar. Nesse sentido, tem-se que

Ordenamentos jurídicos plurais são características da sociedade dividida em classes, mas o reconhecimento desse fato, por certo, possui uma potencialidade libertadora posto que exigem das parcelas subjugadas consciência sobre a sua própria situação que os grupos dominantes não estão dispostos a assumir. (OLIVEIRA, H.; 2009, p. 101)

Determinante para o surgimento das manifestações jurídicas plurais é também a absorção dos conceitos de cidadania e organização para a participação política pela mentalidade popular. É a partir do reconhecimento das classes oprimidas enquanto tal que suas lutas pela dignidade plena no convívio social ganham objetivos definidos, dentre os quais se destaca a superação de suas opressões. Há que se frisar a dificuldade de tal reconhecimento, uma vez que o capitalismo e as instituições políticas e jurídicas estabelecidas reinventam estes conceitos de acordo com suas conveniências, inviabilizando a real compreensão e alcance destes instrumentos (poderosos) de enfrentamento à ordem em vigor. De acordo com o referido processo de reinvenção ou ―ressignificação‖, a cidadania vincula-se ao poder de consumo e, por conseguinte, ao acesso ao capital cultural. Logo, aquele que está fora deste padrão encontra sua marginalização, da qual derivam a despolitização, a exploração e até mesmo a criminalidade. Nesse cerne, não obstante o confronto com o poderio estatal, cabe às comunidades espoliadas reconstruir a noção de exercício da cidadania (para além também do exercício do voto, visão superficial e insuficiente da soberania popular), retomando as rédeas de seus destinos em suas próprias mãos, que quando mais entrelaçadas, mais fortes. Esse entrelaçamento, que nós humanos tendemos a realizar com nossos iguais, fortalece e mobiliza as camadas populares, oportunizando assim a sua organização em torno de seus ideais políticos. Esse cenário de reivindicação de interesses negados, então, propicia o desenvolvimento de práticas e posturas contra-hegemônicas, donde se origina a sistematização das experiências de pluralismo jurídico. Assim, na arguta lição de Lyra Filho,

Uma conscientização crescente das contradições expostas, entre a ordem mantida e os Direitos sonegados cria tensões e impasses não superáveis com

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os veículos institucionais existentes. E, se persiste a obstrução, ‗o Direito dos espoliados e oprimidos procura sua realização fora, acima e até contra o conjunto de leis‘. (LYRA FILHO, 1984, p. 265)

Emblemáticas são, ainda, as palavras de Miguel Pressburger no que tange a consciência coletiva do povo organizado, quando aduz que

O caldo de cultura do direito insurgente é o conflito social e se revela nas estratégias dos sujeitos coletivos de alguma forma organizados. É aquela ―invenção‖ de um direito mais justo e eficiente, que vai emergindo das lutas sociais, momento histórico e teórico em que os oprimidos se reconhecem como classe distinta daqueles que os oprimem. (PRESSBURGER, 1995)

Já no sentido de abertura da ciência e das instituições jurídicas a essa produção jurídica paralela nascida no conflito de classes, ratifica ainda Antônio Carlos Wolkmer, quando destaca que a proposta do pluralismo jurídico é ―o reconhecimento de outro paradigma cultural de validade para o Direito, representado por nova espécie de pluralismo, designado como pluralismo jurídico comunitário participativo‖. (WOLKMER, 2001, p.361) ou, como também ensina Boaventura de Sousa Santos,

Reconhecer esta práxis como jurídica e este direito como direito paralelo (isto é, caracterizar a situação como pluralismo jurídico) e adotar uma perspectiva teórica julgando esse Direito não inferior ao direito estatal envolve uma opção tanto científica, quanto política. Ela implica a negação do monopólio radical de produção e circulação do Direito pelo Estado moderno. (SANTOS, apud LYRA FILHO, 1984, p.77)

Diante de todo o exposto, gritante é a necessidade do desenvolvimento e fixação do paradigma da pluralidade nas estruturas constitutivas das instituições políticas, jurídicas e culturais, uma vez que a sociedade moderna é, essencialmente, plural. Como sustentado no inicio desse capitulo, é o exaurimento das teorias legitimadoras de um paradigma que abre a possibilidade da construção de um novo modelo e outra não é a realidade do positivismo e do monismo vigentes além de seus esgotamentos, visto que somente se estruturam a partir do engessamento de suas raízes ideológicas antes aqui desveladas, restando-se impossibilitados para responder às reivindicações de todos os setores da sociedade, especialmente os mais pobres. Ou, como asseverado por Vladimir Luz,

Falar do pluralismo jurídico é, antes de tudo e contrario sensu, falar do esgotamento de um projeto jurídico político: o projeto monista. É na contradição estabelecida com os fundamentos e com a lógica do projeto

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monista que exsurge o tema do pluralismo seja como oposição teórico- prática a tal modelo, seja através do reconhecimento de sua existência social e histórica em vários momentos da organização jurídica do mundo ocidental, ou, por fim, como proposta de uma nova legitimidade político-jurídica emancipatória, oriunda não apenas do Estado, mas dos valores e das práticas dos movimentos sociais no contexto da periferia do capitalismo contemporâneo. (LUZ, 2008, p. 25).

2.5 Considerações sobre o tema do acesso à justiça

No bojo desse processo de exaurimento das estruturas jurídicas e políticas predominantes, inegável é também o esgotamento do Judiciário no que diz respeito à resolução de conflitos de interesses. Este assunto é trazido aqui à tona não só pela inefetividade quantitativa do referido órgão estatal, cuja experiência por si só já fere os princípios políticos institucionalizados constitucionalmente e o próprio exercício da cidadania, mas, principalmente, por não ser o Estado eficazmente capaz de solucionar tais conflitos, posto que, como visto anteriormente, ele conserva em sua existência política a garantia dos interesses classistas da burguesia moderna. Entende-se, dessa forma, que o tema do acesso à justiça não se encerra no acesso ao Judiciário (que oficialmente se intitula de Justiça), o qual trata a persecução deste ideal de forma principiológica, como elemento de ordem jusnaturalista (que, aliás, tem em sua positivação verdadeiro pressuposto de existência), mas encontra sua maior razão de ser no centro dos processos históricos de busca pela concretização das promessas democráticas de universalização da dignidade social e da soberania popular. Trata-se, então, de participação efetiva na dinâmica política da sociedade por parte de todos os grupos que a compõem, donde se almeja a vivência plena da justiça social. Assim, contrapõe-se à idéia de justiça (consubstanciada nos códigos jurídicos) enquanto resultado positivo obtido ao fim dos litígios pontuais, individualizados e, em sua maioria, de caráter econômico (dada a coisificação e quantificação das relações sociais hodiernas), a idéia de justiça enquanto objetivo primordial e concreto dentro da perspectiva da efetivação de direitos mínimos e fundamentais subtraídos das populações espoliadas, efetivação esta possibilitada quando tais classes apropriam-se da consciência político-jurídica de luta por esses direitos. Urgente, pois, é a comida no prato das pessoas; o pleno acesso à saúde, preventiva ou curativa, por todos (prerrogativas das quais depende o completo existir, o bem maior da vida), bem como a igualdade de oportunidade à educação (inclusive política)

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de qualidade, de condições ao trabalho e à moradia e o exercício da liberdade, ―não uma liberdade do ‗eu‘, limitada sempre pelas liberdades circundantes, que necessitam ser controladas pela força; mas uma liberdade do ‗nós‘, em que as realizações individuais só fazem sentido porque cercadas pelas coletivas‖ (DUARTE, 2009, p. 114). Diante deste fatídico quadro de reais contradições e injustiças sociais, tem-se que a lei positiva, estatal, fria e parcial foge de qualquer aproximação material da realidade circundante. Inadmissível, então, é a manutenção da vida social sob seu império e a presunção de inafastabilidade da concepção de direito desta mesma lei. Ou seja,

Todas estas questões complexas e contraditórias são também jurídicas. Só com esta compreensão ampliada do jurídico podemos perceber porque os serviços legais não respondem às demandas sociais e porque estas concepções são reforçadas através de uma educação jurídica técnica-formal. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008, p. 05)

2.6 Do ensino jurídico à educação jurídica

Desse modo, emergente também é a crítica à construção e propagação da ciência jurídica nas Faculdades de Direito contemporâneas. Não se pode negar que aos juristas é reservado escasso espaço de criação e problematização do conhecimento adquirido durante o processo de consolidação de seus valores políticos, culturais e profissionais, quando da sua formação acadêmica. Isso porque a lógica técnico-formal de mera transmissão de preceitos prontos e acabados, produto do legado positivista no marco da ciência racional de neutralidade ético-axiológica, não permite qualquer debate ou construção dialética entre os elementos políticos, sociais, culturais e propriamente jurídicos que compõem o direito. É evidente, neste diapasão, a intencionalidade do ―ensino do direito‖: a manutenção das estruturas capitalistas sustentadas pelo ordenamento jurídico estatal, reforçada ainda no processo de formação dos futuros juristas, onde todo o aparato da cultura jurídica oficial será professado no intuito da ―criação‖ de novos adeptos. Logo, se o Estado, dirigido pelas classes dominantes e representante-mor de seus interesses, é o profeta da doutrina jurídica, as faculdades de direito modernas são eficazes templos de culto e adoração das ―sagradas normas jurídicas positivas‖. Assim é que o direito (im)posto recruta seu exército de ―operadores do direito‖, cuja função precípua é a técnica maçante de subsunção do fato impugnado à norma correspondente sem qualquer intervenção criativa do sujeito (que deixa de ser pensante e passa a ser mero reprodutor do conhecimento pré-estabelecido), assim

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como o discurso jurídico, amplamente difundido em suas cátedras acadêmicas, cumpre sua função de alargamento do abismo que separa a sociedade da lei. Nesse cenário,

exige-se do operador do direito que internalize o saber paradigmático. As práticas pedagógicas das faculdades de direito enquanto agências privilegiadas de socialização dos membros da comunidade jurídica, especialmente ao nível de graduação, atrelam-se à necessidade de contínua reprodução do paradigma. A dogmática jurídica constitui o direito a ser estudado e ensinado nas faculdades de direito. (PIZZOLATTO, 2010, p. 07).

Assevera ainda Lorena Duarte:

E o direito perde o pouco que lhe resta do elemento criativo, da condição de ser não coisa, mas processo histórico. Perde sua capacidade de câmbio porque perde a habilidade da dialética, do diálogo, da construção e reconstrução. (DUARTE, 2009, p. 109)

Necessário se faz salientar que todo o discurso absorvido na Academia, através da transmissão vertical da dogmática jurídica, compactua com a construção do muro ideológico que separa o direito da realidade social na medida em que se cristaliza na sua práxis, somente operacionalizada pelos detentores deste conhecimento os juristas que raramente emergem das camadas populares. Desse modo, tal discurso se transforma na linguagem de uma categoria, diferenciada e privilegiada, uma vez que somente a ela pertence o discernimento do exercício de direitos. Como pode um indivíduo fora desta categoria saber ter legitimidade para a busca da tutela de seus interesses quando esse conhecimento não circula ou não é comunicado? Pior: como pode um indivíduo pobre fazê-lo, quando esse direito oficial, manipulado por uma casta, sequer faz parte de sua realidade? Some-se a isso toda a mística que permeia a cultura jurídica de domínio do poder e inadequação social, desde sua linguagem rebuscada e inacessível até as vestimentas, posturas e tratamentos usuais nos ambientes jurídicos. Todos esses são elementos e condutas reproduzidos nas faculdades de direito, podendo-se daí inferir que é neste ambiente de produção, sistematização e circulação do conhecimento que o direito primariamente veste sua carapuça opressora e se transforma em verdadeira vitrine da sociedade capitalista de contradições profundamente demarcadas. Sobre este pano de fundo, o jurista tradicional incorre em grave risco de também ele contribuir para a manutenção das opressões, quando assume sua passividade diante dos dogmas erigidos pela ciência jurídica, tornando-se mero produto do fordismo positivo-academicista, onde

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muitos dos nossos cursos de Direito ainda se limitam ao ensino baseado

quase exclusivamente nos códigos e sob uma ótica puramente positivista. Tolhem a capacidade crítica, estreitando os horizontes do saber jurídico e correm o risco de formar advogados periféricos, rábulas de diplomas.

) (

Reproduz-se o advogado tradicional, mas não se forma o jurista orgânico que contribui para as transformações sociais. (MELO, L.; 2011, p. 28).

Válido ressaltar que, embora o jurista enquanto resultado deste sistema de produção em série creia piamente naquilo que repete,

essa crença dos operadores, entretanto, não é consciente, é, na verdade, uma visão superficial e irrefletida da realidade, supostamente científica, que foi mostrada a eles pelo ensino tradicional e que não concebe alternativas epistemológicas. A ideologia que eles repetem é, segundo Marx e Engels, a irreflexão da consciência acarretada pela propaganda dos que a forjaram. (RIBEIRO, 2007)

Assim, é desse contexto de inquestionável urgência da transformação dos padrões formais e burocráticos de manifestações do direito que nasce a proposta de uma ciência jurídica nova, capaz de apontar para um projeto de sociedade livre, justa e igualitária. Esse paradigma de um novo direito tem como mola propulsora a inegável necessidade de ruptura também com as estruturas hierárquicas e elitistas sobre as quais se assenta o Estado moderno, irrompendo-se, em conseqüência, com o próprio sistema capitalista. Frisa-se, no entanto, que, longe de apontar soluções pragmáticas para a resolução definitiva dos conflitos de classe, não se busca aqui definir que novo contexto social emergirá dessa ruptura, caracterizando-o, no atual momento histórico, como inédito-viável. Explica-se. Seria este horizonte inédito exatamente porque não se sabe em que moldes definidos se constituirá esse novo contexto político, cultural, jurídico e social, porém, sabe-se que é viável, pois se pauta na construção de uma vida social baseada nos valores coletivos adquiridos ao longo dos processos históricos por que passam os homens e no respeito às diferenças vivenciadas no centro da dinâmica das relações sociais. Assim, no seio deste modelo de sociedade que se pretende alcançar, desenvolve-se uma nova concepção do direito, pois

Superado o Direito burguês, chega a possibilidade de um que de fato atenda às necessidades sociais e possibilite a realização das potencialidades, pautado pela liberdade individual realizada nas coletivas e acompanhado pela superação do modo de produção capitalista. Passa-se de um direito polarizado na emanação de normas por uma classe (ou grupos) dominantes e concentrado no Estado para um conjunto de normas organizacionais realizador e transformador das relações sociais, realizador da justiça não

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como norte ideal e estagnado, mas como justiça social, encampada na história das lutas políticas, econômicas e sociais. (DUARTE, 2009, p. 115).

É nesse ponto desta tese que se fala na transmutação da noção do direito enquanto

elemento mantenedor das estruturas desiguais vigentes na concepção do direito enquanto poderoso instrumento utilizável no processo de transformação da realidade social. É deste entendimento que comungam as teorias jurídicas insurgentes e é em torno deste eixo teórico e de seus desdobramentos que se pretende fundamentar uma nova ciência jurídica, alterando-se, consideravelmente, os mecanismos de sua circulação nos meios acadêmicos. Logo, é numa concepção dialética do direito, onde ―o humano, a sociedade, tem prioridade sobre a norma positivada ou uma idéia de justo‖ (FURMANN, 2003, p.38) que se funda essa nova perspectiva jurídica.

É preciso definir que o direito se torna potencial instrumento de mudança social

quando utilizados pelos sujeitos oprimidos, organizados politicamente para esta finalidade. São esses sujeitos, cujos direitos essenciais lhe são negados no paradigma tradicional de sociedade, os legítimos para o manuseio deste arsenal jurídico libertador, como confirma Raissa Melo:

Esta ―apropriação do Direito e do seu instrumental jurídico pelos movimentos populares‖ nos parece um sinal de novos tempos, em que o Direito deixa de ser domínio das classes privilegiadas, para ser também um instrumental de trabalho e de luta das classes populares. (MELO, R.; 2002, p. 59).

No abandono das concepções neutras do direito e na assunção de uma concepção política deste instrumento é que se baseia o novo discurso da ciência jurídica, donde também se originam conceitos e terminologias novos. Não se fala mais em ―operadores do direito‖, pois o direito não é maquina inerte, que depende da provocação humana para se movimentar, mas sim força viva e constantemente reconstruída nas mudanças históricas realizadas pela humanidade. Assim, fala-se em ―atores do direito‖, profissionais comprometidos com a transformação paradigmática de tal forma que se confundem com os grupos marginalizados, com eles participando da luta pela efetivação dos seus direitos historicamente lesados. Altera- se ainda, nesse novo horizonte da ciência jurídica, o termo classe social por sujeitos ou atores sociais, capazes de transformar a realidade que os circunda e, em substituição à luta de classes, emerge a atuação dos movimentos populares (ou sociais) organizados. Transformado o discurso da ciência jurídica, transformam-se também os moldes em que ela se dará no contexto acadêmico. Rompe-se com o ―ensino jurídico‖ e enfatiza-se a

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educação jurídica, concebida, no âmbito em questão, a partir do estreitamento da conexão entre prática e teoria, bem como do efetivo funcionamento do pouco realizado tripé universitário, caracterizado pelo elo entre ensino, pesquisa e extensão. Entretanto, cabe aqui frisar que a adoção deste novo paradigma nas faculdades de direito implica na negação à visão tradicional do referido elo. Trata-se não de produções ou vivências apartadas em cada um destes setores da vida acadêmica para posterior união de resultados, mas de vivências simultâneas e interligadas, tendo como fim a produção de um saber holístico, crítico e dialético.

Frise-se que a proposta de abertura do ―ensino do direito‖ não terá alcançado seu verdadeiro propósito se todos seus mecanismos não estiverem voltados à construção de uma nova concepção da ciência jurídica, engajada nas lutas sociais para realização de direitos pelos grupos deles desapropriados. A educação jurídica que se pretende circular no espaço acadêmico passa, assim, por uma profunda revisão de conceitos e metodologias, bem como questiona a validade de toda a engrenagem positivista que obstaculiza uma compreensão mais ampla e sensível do direito, permitindo-lhe efetivo alcance à realidade complexa e plural da sociedade. Propõe-se, então, a abertura do instrumental jurídico aos apelos dos grupos oprimidos, conferindo-lhes legitimidade política para a confecção de seu arcabouço jurídico- cultural, como fruto de sua participação no desenvolvimento de sua própria história. Nessas circunstâncias, vencer o paradigma tradicional para a viabilização de um novo projeto de vivência acadêmica do direito requer integração entre os agentes sociais de aquém e além dos limites da faculdade de direito, pois se entende que é nessa integração que a militância por uma sociedade mais justa se fortalece e, no centro dela mesma, promove a transformação não só da conjuntura social que se pretende ultrapassar, mas, e anteriormente, dos sujeitos envolvidos neste processo de mudança. Assim, é imprescindível o debate e o diálogo dentro e fora da universidade, para que se tenha uma nova abordagem do direito apta a contemplar os objetivos concretos desta militância. Retomando a idéia do início deste capítulo, toda e qualquer abertura para o novo só se torna possível com a formulação da crítica. A partir deste marco, vislumbra-se uma infinidade de possibilidades e lançam-se as bases para a edificação do inédito, tornando-lhe viável. Da crítica ao positivismo jurídico e aos seus mitos inerentes, eficazmente elaborados pelas classes dominantes, nasce a necessidade emergente de mudança das estruturas que os sustentam e da fundação de um outro panorama jurídico, baseado em novas práticas, abordagens e concepções, para que o direito viva e não somente sirva ao engessamento de

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suas próprias vísceras. É esse o cenário novo que dá ensejo à prática da Assessoria Jurídica Universitária Popular.

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3 ASSESSORIA JURÍDICA UNIVERSITÁRIA POPULAR: UMA PROPOSTA DE TRANSFORMAÇÃO

3.1 Contextualizando a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular

e

―entre os dentes segura a primavera‖. Essa alusão à poesia de João Ricardo e João Apolinário explica metaforicamente o nascer, o viver e o existir de uma prática de direito crítico. Isso porque ela nasce da insatisfação com a realidade posta pelo paradigma tradicional de manutenção de injustiças, cresce e se desenvolve na luta pela construção de um outro paradigma, assim, resistindo ao hegemônico, e se sustenta no ideal da plenitude da igualdade entre os homens no respeito às suas diferenças. Como uma dessas práticas críticas de direito, a Assessoria Jurídica Popular desenvolve-se no seio da contestação ao velho, da busca pelo novo e do desejo de libertação dos sujeitos oprimidos de sua subjugação, em um processo emancipatório galgado no diálogo e na solidariedade como ―reconhecimento do outro como igual‖ e não como ―uma postura de superioridade sempre que a diferença acarrete inferioridade, e como diferente, sempre que a igualdade lhe ponha em risco a identidade‖. (GORSDORF, 2010, p.12). Nesse sentido, a proposta de Assessoria Jurídica Popular se respalda em uma postura crítica perante as estruturas dogmatizadas pela compreensão do direito vigente e o próprio mundo de exploração, usurpação e negação da condição humana dos grupos marginalizados. Faz-se necessário então elucidar no que consiste essa proposta, mais especificamente a da Assessoria Jurídica Universitária Popular, uma vez que é na universidade que se constrói a ―fala‖ e a vivência inspiradoras para o presente trabalho. Assim, falar de uma prática crítica de direito no âmbito da universidade passa pela crítica ao direito hegemônico e à própria instituição de onde parte esta prática. Não obstante todo o questionamento concernente à ciência jurídica e à sua aplicação na vida cotidiana, trabalhado no capitulo anterior, cabe aqui reafirmar a crítica aos moldes em que ela se dá nos meios acadêmicos, como forma de enfatizar o desencadeamento da educação jurídica, em substituição ao ensino jurídico tradicional. Desse modo, no intuito da fundação do paradigma da educação jurídica como meio de formação para a desconstrução das desigualdades instituídas, é necessário romper com a hegemonia da educação bancária incrustada no ensino

―E no centro da própria engrenagem, inventa a contra mola que resiste (

)‖

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técnico-formal do direito, haja vista sua finalidade de preservação de tais desigualdades. Isso por que

Questionar, negar a legitimidade das estruturas jurídicas arcaicas não é algo possível na ―educação bancária‖, pois, pelo ensino tradicional, meramente expositivo, cabe ao aluno apenas assimilar a realidade teórica transmitida pelo professor. Memorizar e repetir são as saídas possíveis, já que serão essas as atividades mentais a serem exigidas nas avaliações, usualmente caracterizadas como ―provas‖. Mantida a prevalência das aulas expositivas como procedimento didático-pedagógico, muito pouco se pode fazer para alterar o atual estado das coisas em matéria de ensino jurídico, pois que, tais perfis de competências e habilidades são referenciais inadequados à formação profissional competente para atender as demandas sociais atuais. (MARTÍNEZ, 2005, p.2-3).

Daí, no processo de enfrentamento à catedrática difusão do conhecimento jurídico desenvolve-se a noção de uma construção dialética do direito dentro das faculdades, a partir do debate promovido nas salas de aula, apto a expor a realidade distorcida pelos institutos teórico-jurídicos vigentes, bem como da integração entre a síntese deste debate, a pesquisa e a extensão acadêmicas, pois que

Pesquisa e extensão são ausências injustificáveis no processo do ensinar, ausências que fecham portas à realidade. A volta da escola à rua a consolidação da união entre ensino, pesquisa e extensão permite o confronto entre as teorias e o mundo, e permite arejar o discurso do ensino. (CORTIANO JUNIOR, 2002, p. 237-8).

Ressalta-se, ainda, a intenção de abertura do ensino jurídico para uma cultura de agregação das produções subjugadas, percebidas agora como fiéis retratos da realidade social de seus autores, assim como a abertura para a sua politização também através do uso crítico e socialmente engajado do arsenal jurídico preexistente. Nesse sentido,

a politização do ensino jurídico significa o encontro com as pautas populares através tanto da atuação nos tradicionais espaços jurídicos de forma socialmente engajada (―Uso Alternativo de Direito‖ e ―Positivismo de Combate‖) como de atividades que reconheçam o povo como produtor de normas socialmente eficazes e legítimas (Pluralismo Jurídico) (RIBEIRO,

2007).

É que não se pode negar o diferencial resultante do manuseio alternativo das estruturas normativas em nome das reivindicações dos movimentos sociais articulados, tampouco que, em um processo de mudança de paradigmas, a transição é inevitável. Não se

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rompe com as bases de um padrão estabelecido definitivamente sem um processo (que poderá ser lento) de assimilação das novas bases em ascensão. Assim, as mudanças se dão de dentro para fora, e o primeiro passo seria a ―subversão do instituído‖. Nesse cerne, úteis se fazem as interpretações e o uso alternativo do direito posto, tais como o método que as correntes acima mencionadas propõem. Todavia, frise-se que uma concepção nova do direito baseia-se mais firmemente nas práticas jurídicas plurais, dado seu caráter efetivamente libertador. Do contexto acima exposto, é apreensível que a educação jurídica, portanto,

Vai causar problema porque, no campo do conhecimento, o que não causa problema não é conhecimento. Vai incomodar os professores, que serão questionados sobre a pertinência do que fazem em termos de formar um profissional capaz de intervir alternativamente. Vai criticar o atual currículo, muito distante da aprendizagem minimamente adequada. Vai repensar a vida acadêmica, que não pode significar aulas copiadas que apequenam o aluno como reprodutor de conhecimento alheio. Vai ressaltar o papel da pesquisa, tanto como modo de produção de conhecimento, quanto como base educativa essencial. (PEDRO DEMO apud CARVALHO, 2002, p. 224-5).

Dessa forma, a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular se origina no bojo da edificação de um novo paradigma para a concepção de direito a ser vislumbrada na Academia, uma vez que ela perpassa por um novo pensamento acerca da universidade e de seu papel na realidade de contrastes desumanos que nos circunda. Repensando-se os mecanismos que compõem o atual ensino do direito nas faculdades e obtendo-se como resultado novas proposições para a produção de um saber jurídico discursivo, combativo e emancipatório, visto por uma perspectiva política de comprometimento com a transformação social, repensa-se a própria universidade e sua metodologia de formação de profissionais, na medida em que se questiona sua validade e os moldes em que se alcança sua verdadeira finalidade. Assim, é na proposta de um direito novo afirmado em uma universidade nova, inserida em um projeto de sociedade diverso, que se fundamenta a Assessoria Jurídica Universitária Popular.

3.2 Universidade e Extensão/Comunicação Popular: novos paradigmas como pressupostos da Assessoria Jurídica Universitária Popular

3.2.1 Universidade: de onde se origina a Assessoria Jurídica Universitária Popular

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Partindo-se da premissa que a Assessoria Jurídica Universitária Popular consiste em uma prática extensionista desenvolvida a partir de uma postura crítica do direito e de suas estruturas (re)produtoras de desigualdades sociais, bem como do lócus de sua atuação, qual seja, a via de mão dupla ínsita na relação universidade-sociedade, mister se faz lançar um olhar crítico também sobre a Universidade enquanto instituição social. Assim, considerando-se a origem histórica da universidade, datada da Idade Média (contexto em que o conhecimento era produzido, manipulado e apropriado exclusivamente pelo clero - categoria social detentora de privilégios tanto quanto a aristocracia feudal), assim como o processo de adaptação desta instituição às transformações impetradas pelas sociedades humanas, observa-se que a definição do seu papel social encontrou afirmação universal quando do advento da Revolução Francesa e, por conseguinte, da legitimação republicana nos Estados modernos. Nessas circunstancias,

A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber em face da religião e do Estado, portanto, na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão. Em outras palavras, sobretudo depois da Revolução Francesa, a universidade concebe-se a si mesma como uma instituição republicana e, portanto, pública e laica. (CHAUÍ, 2003, p.5).

A partir destas constatações históricas, infere-se que a universidade enquanto instituição social terá seu papel fundado nas bases do contexto (espaço e tempo) político- cultural em que se insere e na forma de Estado vigente. Assim, deflagra-se verdadeira crise de legitimidade da função social que a universidade moderna vem desempenhando, na medida em que ela se desvincula dos ideais democráticos e republicanos (também afastados das próprias estruturas estatais), transmutando-se de instituição em organização social, subserviente aos interesses particulares de parcela mínima e beneficiada da população. Daí, entende-se por organização social um conceito que se contrapõe ao de instituição social, como definido por Marilena Chauí, que assim aduz:

Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma prática social determinada de acordo com sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios (administrativos) particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a

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operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo

Não lhe compete discutir ou questionar sua

própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a

organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe. A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. (CHAUÍ, 2003, p.5-15).

particular que a define. (

)

Nesse sentido, a universidade, como reflexo de seu tempo, traduz na sua própria formação interna as estruturas dominantes e mantém-se afastada dos propósitos de democratização e universalização do conhecimento e de sua produção. No seio do modo de produção capitalista, o ser humano, no exercício de suas relações sociais, é concebido de forma fragmentada e assim também é o conhecimento. Como parte desta lógica, a universidade cede aos interesses sociais fragmentados, mais especificamente aos dos grupos detentores do capital econômico e cultural. Desenvolve-se em suas práticas o utilitarismo mercadológico do saber com o intuito de sastifazer as necessidades mais imediatas das relações de consumo e, dessa forma, não mais produz-se conhecimento, mas tão somente reproduz-se. Isso porque tais relações são efêmeras e a mera operacionalização do conhecimento, justificada pela urgência de sua aplicação na vida cotidiana, não lhe permite uma compreensão mais profunda ou crítica. A universidade transforma-se em fábrica de respostas prontas às demandas contempoâneas fugazes, ao passo que perde seu caráter construtivo, formador (e não somente informador) e despolitiza-se. Nesse cenário, mais uma vez leciona Marilena Chauí de forma escalacedora:

A visão organizacional da universidade produziu aquilo que, segundo

Freitag (Le naufrage de l'université), podemos denominar como universidade operacional. Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microorganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual. A heteronomia da universidade

autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas/aula, a diminuição

do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de

publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e

relatórios etc. (CHAUÍ, 2003, p.5-15).

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O processo de despolitização da prática educacional peculiar à universidade moderna passa também pelo afastamento quase que integral desta instituição da realidade desigual em que se insere. O conhecimento permanece restrito ao âmbito de suas salas de aula, laboratórios e núcleos de práticas institucionalizados, bem como aprisionado em suas cátedras, ou, como na metáfora de Boaventura de Sousa Santos, consubstancia-se no ―isolamento da universidade na torre de marfim insensível aos problemas do mundo contemporâneo, apesar de sobre eles ter acumulado conhecimentos sofisticados e certamente utilizáveis na sua resolução.‖ (SANTOS, 1994, p.200). Nesse contexto de questionamento da validade das práticas educativas realizadas pela universidade, propõe-se então a eclosão de um processo de ―desmuralização‖ ou ―desconfinamento‖ das experiências vividas no âmbito acadêmico, com a finalidade de promover uma construção do conhecimento que seja política, democrática e afinada com os anseios de um mundo que grita por liberdade. Assim, a extensão universitária, como um dos tripés acadêmicos, detém papel fundamental no desenvolvimento desse saber crítico, uma vez que a ela concerne a característica intrínseca de combinação, em uma dinâmica dialógica de troca de vivências, entre as produções desencadeadas dentro e fora dos limites da universidade.

3.2.2

Popular

Extensão/Comunicação

Popular:

prática

da

Assessoria

Jurídica

Universitária

Este é o ponto central de ―delimitação‖ da proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular: a extensão universitária concebida enquanto processo de comunicação de caráter popular. Porém, antes da análise mais detida acerca dos elementos basilares que fundamentam essa proposta de transformação da realidade social, é necessária uma avaliação crítica também da atividade extensionista, haja vista sua inserção em um contexto de sobreposição de uma cultura hegemônica de promoção de cruéis contradições em detrimento de uma cultura marginalizada e repreendida. Hodiernamente, entende-se a universidade como templo de produção e circulação de conhecimentos devidamente legitimados (pois este é o lugar próprio para tais práticas) ou como mero reduto de intelectuais, responsáveis pela criação e sistematização de resultados- soluções para as necessidades mais urgentes da vida cotidiana. Na melhor das hipóteses, e em

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uma perspectiva politico-social, é na universidade que se ―formam‖ ―cidadãos legítimos‖, aptos a contribuir com o desenvolvimento da sociedade quando do exercício e manuseio dos conhecimentos técnicos adquiridos em sua experiência acadêmica. Assim, o conhecimento socialmente afirmado e reconhecido encerra-se nos muros internos das faculdades, que, diga- se de passagem, propagam-no de forma fragmentada e diretamente ligada às exigências do mercado. Suas problematizações ficam a critério do relevante ou irrelevante, instituídos pelas questões emergenciais. Ganha respaldo científico o indivíduo que se sobressai quantitativa e ―qualitativamente‖ na resolução destas questões, em uma disputa acirrada pela competitividade absorvida pela universidade. Em um contexto de tantas restrições às produções espontâneas e não científicas (portanto, não legítimas) e de devoção aos êxitos logrados por méritos individuais ou mesmo de uma categoria privilegiada, a dimensão política das atividades acadêmicas se perde e urge a necessidade de sua reestruturação. Nesse sentido, são concebidas novas metodologias para as práticas educativas efetuadas pela universidade efetivamente democrática que se pretende construir e a extensão universitária adquire o conteúdo político indispensável a essa construção. Isso porque

A ―abertura ao outro‖ é o sentido profundo da democratização da universidade, que vai muito além da da democratização do acesso da universidade e da permanência nesta. Numa sociedade cuja quantidade e qualidade de vida assenta em configurações cada vez mais complexas de saberes, a legitimidade da universidade só será cumprida quando as atividades, hoje ditas de extensão, se aprofundarem tanto que desapareçam enquanto tais e passem a ser parte integrante das atividades de investigação do ensino.(SANTOS, 1994, p.225).

Nesses termos, propõe-se uma extensão universitária que não corrobore com as estruturas (re)produtoras de desigualdades, pautada na troca de experiências entre os sujeitos (ou atores sociais) envolvidos em um processo dialógico e na consequente obtenção de proposições que apontem para o desenvolvimento de uma práxis emancipatória de tais sujeitos, identificados politicamente pelo debate dialético de que se fazem participantes. Nessa troca de experiências, ressalta-se, portanto, que

É necessário imiscuir-se tanto em questões internas vividas pela faculdade, como em questões externas, principalmente aquelas ligadas ao acesso à justiça. Aproxima-se, por um lado, da atividade desempenhada pelos movimentos sociais. Em poucas palavras, politizam-se a entidade e os estudantes. Insere-os na realidade, não como mero expectador, mas como sujeito atuante. (CARVALHO, 2002, p. 232).

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Desse modo, a politização da extensão acadêmica trilha um caminho que choca com a atividade tradicional de extensão em que os estudantes comumente atuam, consistente

na relação hierárquica de prestação de serviços às comunidades ditas carentes e admitida pela entidade universitária como sua prática de ―responsabilidade social‖. Parte-se do pressuposto de que esta entidade deve dar o devido retorno à sociedade, em especial as instituições de ensino público, porque sustentadas por esta mesma sociedade. No entanto, trata-se de um retorno restrito, que se baseia na intervenção das técnicas adquiridas na ―formação‖ acadêmica na realidade posta sem qualquer consideração pelo conhecimento construído e vivenciado nas relações sociais, principalmente aquele desenvolvido nas periferias, categorizado pejorativamente de ―senso comum‖. Esse entendimento decorre da legitimação do conhecimento científico originado nas academias, ao passo que se vislumbra um processo de desconstrução do conhecimento originado em âmbito diverso. Assim, a extensão tradicional caracteriza-se por uma relação de interdependência entre estudantes (detentores da técnica) e comunidade (paciente; receptora do serviço). Deriva-se daí uma situação de mera assistência, onde os assistidos jamais terão acesso aos instrumentos de que precisam para a resolução de seus conflitos, uma vez que o seu manuseio

é exclusividade da categoria afirmada socialmente para tal no caso em estudo, os juristas.

Entretanto, não se busca condenar totalmente esta prática, desde que realizada no intuito de atendimento das reivindicações levantadas pelas bandeiras de luta dos movimentos sociais ou de necessidades emergentes suscitadas no bojo da relação entre os sujeitos envolvidos, mas busca-se enfatizar que essa práxis não contribui para um projeto emancipatório de construção

da liberdade pautado na luta pela efetivação de direitos sonegados, na medida em que não há

o diálogo necessário para tanto. Parte-se, então, para uma concepção dialética da extensão acadêmica, baseada numa relação dialógica entre estudantes e comunidade, promovendo-se assim a ―desmuralização‖ do conhecimento do direito desenvolvido na universidade, bem como a absorção da produção jurídica edificada pelos grupos marginalizados, possibilitando-se a abertura democrática desta instituição de que falava Boaventura de Sousa Santos. Assim é que essa nova concepção da extensão contribui para o redimensionamento político das atividades acadêmicas e a Assessoria Jurídica Universitária Popular, que tendo em vista a realização de tais práticas, se materializa como práxis de direito crítico ou insurgente. Nesses moldes, visualiza-se a prática extensionista não como ―extensão‖ propriamente dita, haja vista que tal expressão encerra na sua mais primitiva acepção o sentido de ―tentáculo‖, ―ponte‖, ―via de acesso‖, que no caso alcança a comunidade com seus

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conhecimentos prontos e acabados e sobre ela os derrama. A proposta é de construção coletiva de um direito afeto às demandas dos sujeitos historicamente exilados de sua produção. Portanto, nessas circunstâncias, fala-se em extensão como um processo de comunicação. Isso porque, a despeito das teorias acerca do tema, a comunicação se realiza efetivamente pelo diálogo; pelo entendimento mútuo entre os interlocutores relacionados. A partir da descoberta de elementos comuns, constrói-se a identidade entre os sujeitos e fala-se ―a mesma língua‖, consolidando-se a comunicação, ou como, nas palavras de Ribas citando Freire, a

comunicação eficiente exige que os sujeitos interlocutores ―incidam sua ‗ad- miração‘ sobre o mesmo objeto; que o expressam através de signos lingüísticos pertencentes ao universo comum a ambos, para que assim compreendam de maneira semelhante o objeto da comunicação.‖ (RIBAS, 2008, p.90).

Essa compreensão da extensão enquanto comunicação é introduzida pelo brilhante educador Paulo Freire em sua teorização acerca da metodologia da Educação Popular, trabalhada e apregoada em suas Pedagogias de libertação. Assim,

Paulo Freire (1979: 22), ao interpretar as diferenciadas possibilidades conceituais de extensão, mostra que o termo aparece como ―transmissão‖; sujeito ativo (de conteúdo); entrega (por aqueles que estão ‗além do muro‘, ‗fora do muro‘), sendo comum falar-se em atividades extramuros; messianismo (por parte de quem estende); superioridade (do conteúdo de quem entrega); inferioridade (dos que recebem); mecanismo (na ação de quem estende); invasão cultural (através do conteúdo que é levado, refletindo a visão do mundo daqueles que levam, superpondo à daqueles que passivamente recebem). Sugere, finalmente, extensão como comunicação. (NETO, 2006, p.82).

De posse do conceito de extensão enquanto comunicação, prática esta componente da proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular, cabe agora esclarecer o conteúdo popular que determina esta atividade de direito crítico. Muitas são as conotações introduzidas pela palavra popular, indo desde seu entendimento como ―cultura de massa‖ até a definição de algo como folclórico, nascido do povo e de suas tradições. No entanto, a Assessoria Jurídica Universitária Popular se reconhece como tal (como popular) porque é de sua própria natureza de prática contra-hegemônica ou insurgente fazer uma clara opção política pelos grupos oprimidos, marginalizados e destituídos de direitos básicos.

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É em defesa da cultura, das reivindicações e das vivências populares, desprezadas ou relegadas a segundo plano, que a Assessoria Jurídica Universitária Popular atua, abrindo espaço para a construção dialógica que enseje o reconhecimento de suas experiências e a tomada de consciência necessária por parte desses grupos para a luta organizada por direitos. Assim, popular é a postura política de resistência às estruturas opressoras vigentes, ou, como nos dizeres de Melo Neto,

O popular adquire, a partir da ótica da cultura do povo, um significado específico no mundo em que é produzido, baseando-se no resgate cultural

Ser popular é ter clareza de que há um papel político nessa

definição. Essa dimensão política deve estar voltada à defesa dos interesses

dessas maiorias ou das classes majoritárias. (

significa estar relacionando as lutas políticas com a construção da hegemonia da classe trabalhadora (maiorias), mantendo o seu constituinte permanente, que é a contestação. É estar se externando através da resistência às políticas de opressão e adicionadas com políticas de afirmação social. Uma ação é popular quando é capaz de contribuir para a construção de direção política dos setores sociais que estão à margem do fazer político. (NETO, 2006, p.16 e 25).

Ser popular, portanto,

desse povo. (

)

)

A pretensão emancipatória da proposta da Assessoria Jurídica Universitária

Popular é, portanto, produto direto de seu caráter popular, uma vez que tem por objetivo não

somente a construção de uma consciência crítica das camadas oprimidas perante o mundo que não lhe reconhece a humanidade, mas principalmente a viabilização de condições para que estas classes organizem-se politicamente para o efetivo exercício da cidadania que lhes é inerente. Nesse cerne,

É preciso também que o indivíduo prepare-se para a ação, para desenvolver metodologias que exercitem o cidadão para a crítica e para a ação. E, para que essa ação? Sua direção precisa apontar no sentido de afirmação de sua própria identidade como indivíduo, como grupo ou como classe social. Busca ainda promover as mudanças que são necessárias à construção de uma outra sociedade - mesmo que arriscando a ordem para que todos tenham direitos e possibilitar que a justiça, efetivamente, seja igual para todos. (NETO, 2006, p.25-6).

É notório, nesse contexto, que o conceito de cidadania identifica-se com o

processo de inserção das comunidades excluídas na vida política da sociedade de forma democrática, direta e participativa, que culmine na sua luta pela garantia de direitos. Porém, para o pleno exercício desse atributo a elas conferido, embora tantas vezes negado, é imprescindível a formação de uma mentalidade crítica por essas camadas. Inegável, nesse

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contexto, a consciência de resistência coletivamente desenvolvida pelos movimentos sociais organizados, que de sua politização extraem a necessidade da mobilização em torno de seus anseios. Inegável também se faz a urgência da concessão de legitimidade político-jurídica a estes grupos, uma vez que

os movimentos sociais são sujeitos da negação neste mundo de capitalismo

globalizado. Idéia da negação vinculada à exclusão do acesso a direitos, negação quando da não reparação das violações de direitos humanos, negação quando da falta de proteção dos direitos conquistados. Negação do reconhecimento social e político dos movimentos sociais como demandantes de direitos e do reconhecimento jurídico, como sujeitos de direitos.

(GORSDORF, 2010, p.10).

Todavia, como dito anteriormente, a mobilização dos indivíduos alijados de condições básicas para uma vida digna em torno da superação de suas opressões só se inicia a partir de uma visão de mundo ampla e questionadora, capaz de responder às demandas por esses indivíduos instauradas. A Assessoria Jurídica Universitária Popular aponta para a construção dessa visão crítica a partir do diálogo entre as duas pontas que configuram a relação de comunicação, com vistas para uma atuação política conjunta. Mas, afinal, como essa dinâmica dialógica funciona? Esse questionamento encontra respostas na metodologia da Educação Popular de cunho libertador preconizada por Freire, instrumento utilizável para a realização deste diálogo propositivo que se pretende empreender. Isso por que

O que está no centro das concepções e práticas educativas populares

libertadoras, não é apenas o esforço para contribuir com o desenvolvimento

de uma consciência crítica das pessoas envolvidas. Envolve também as

alternativas concretas de organização (política, social e mesmo econômica) e mobilização (participação) das desfavorecidas no sentido de ultrapassarem

as condições de pobreza e de falta de poder. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008, p.05).

Assim, passa-se ao estudo desta metodologia que vai ao encontro da proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular, pois que coadunam do mesmo objetivo: a transformação social.

3.3 Educação Popular para o exercício de direitos humanos: a metodologia da Assessoria Jurídica Universitária Popular

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Antes do estudo desta prática educativa emancipatória, é necessária uma ligeira consideração acerca do termo ―metodologia‖ empregado neste trabalho. Embora muitos sejam os estudiosos da práxis da educação popular que a defendam como método, preferiu-se aqui considerá-la como metodologia. Isso porque o método encontra maior respaldo nas teorias cientificistas racionais, que o compreendem como procedimento investigativo de ponderação e de parâmetros lógicos para a busca da verdade. A metodologia, por outro lado, ganha o status de arte, de construção do pensamento a partir das percepções humanas, não unicamente racionais, mas também emocionais, filosóficas, culturais ou uma soma de todas elas. Ou, como na denotação apresentada pelo Dicionário Priberam de Língua Portuguesa, metodologia é a ―arte de dirigir o espírito na investigação da verdade‖ (PRIBERAM, Dicionário Priberam de Língua Portuguesa [em linha], 2011, http://www.priberam.pt/default.aspx [consultado em

2011-02-08]).

Longe de tentar minimizar a importância da cientificidade na aplicação da metodologia em análise, pretende-se apenas enfatizar seu caráter agregador de valores que ultrapassem o território lógico-racional da compreensão humana. Assim, a educação popular como prática educativa caracterizada por seu cunho político e emancipatório se funda também no extravasamento de sensações vividas na troca de experiências (afetação) entre os sujeitos participantes da relação dialógica por ela preconizada. Nesse sentido, aduz Leandro Ribeiro:

No processo de construção do saber científico o ser humano é tanto sujeito como objeto desse conhecimento. O engajamento, as paixões, as propensões tornam a neutralidade um mito que distancia o pesquisador do essencial dever de reconhecer seus limites e a partir da crítica constante tentar rompê- los. A atividade educativa, tão mais propensa à emotividade em face da sua primordial sociabilidade (o processo de ensino-aprendizagem é plurissubjetivo e dialógico), é a ponte para a transformação do educando, do educador e do meio que os abriga. É necessário que o educador compreenda- se como orientador do processo de aprendizagem que formará seres livres e autônomos. O amor é essencial para se compreender e respeitar o outro e suas diferenças de modo a permitir-lhe ―ser sujeito da sua própria história‖. ―Fixando-se nos predicados perde-se o sujeito. Não se enxerga o essencial, pois se vê pré-conceitos possíveis dominadores, bárbaros, etc. Não se enxerga, por questões históricas e culturais. A des-construção dessa cegueira passa pelo emocional e a chave principal é o amor. Porque, grifando o que Freire fala, ‗quem não ama não compreende o próximo, não o respeita.‘‖ (RIBEIRO, 2007).

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Nesse contexto, introduz-se a metodologia da educação popular como o instrumento teórico, pedagógico e marcadamente afetivo utilizável no processo de comunicação a que se propõe o paradigma extensionista enquanto prática de direito crítico. Consiste, assim, a educação popular no exercício do diálogo-afetação pelos sujeitos sociais atuantes no processo de emancipação de si mesmos, especialmente os sujeitos destituídos da prerrogativa de ―dizer sua palavra‖, deslegitimada pelo contexto político social vigente. Portanto, a educação popular passa primordialmente pelo resgate do reconhecimento da cultura popular e de seus autores enquanto sujeitos ativos e construtores de suas próprias percepções e história. Trata-se, então, da revelação daquilo que é sócio-politicamente ocultado, como bem define Boaventura de Sousa Santos:

a racionalidade e a eficácia hegemônicas acarretam uma contração do

mundo ao ocultarem e desacreditarem todas as práticas, todos os agentes e

saberes que não são racionais ou eficazes segundo os seus critérios. A ocultação e o descrédito destas práticas constituem um desperdício de experiência social, quer da experiência social que já se encontra disponível, quer da experiência social que, não estando ainda disponível, é contudo

A sociologia das ausências é uma pesquisa que

visa demonstrar que o que não existe é, na verdade, ativamente produzido como não-existente, isto é, como uma alternativa não-credível ao que existe.

O seu objeto empírico é considerado impossível à luz das ciências sociais convencionais, pelo que a sua simples formulação representa já uma ruptura com elas. O objetivo da sociologia das ausências é transformar objetos impossíveis em possíveis, objetos ausentes em presentes. (SANTOS, apud ALFONSIN, Sujeitos, tempo e lugar da prática jurídico-popular emancipatória que tem origem no ensino do direito, p.08).

realisticamente possível. (

) (

)

Nesse sentido, o diálogo proposto pela educação popular pressupõe que os atores nele envolvidos, educando e educador, acrescentam-se reciprocamente e ocupam, dessa forma, as duas pontas da relação de forma simultânea, pois desta relação emerge a noção de saberes equiparados e horizontais como fruto do reconhecimento das criações populares enquanto produções legítimas. Deriva-se ainda desse reconhecimento o respeito ao saber do outro, uma vez que sua troca se baseia na horizontalidade entre os sujeitos. Abandonam-se, dessa forma, as concepções pedagógicas tradicionais de educação, uma vez que se supera a noção de educador como disciplinador e sujeito ativo do processo educativo e de educando como objeto ou receptor de um conhecimento superior e validado. Dessa forma, a educação popular rompe com as práticas intervencionistas na realidade dos grupos oprimidos (ou práticas de ―aculturação‖), impossibilitando a sobreposição de um saber sobre outro e busca desnudar as realidades encobertas pelas

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máscaras capitalistas e opressoras por meio da problematização introduzida pelo debate entre os indivíduos relacionados no diálogo. Nessas circunstâncias, leciona Freire a respeito das práticas educativas acima contrapostas:

A ―bancária‖ insiste em manter ocultas certas razões que explicam a maneira como estão sendo os homens no mundo e, para isto, mistifica a realidade. A problematizadora, comprometida com a libertação, se empenha na

a primeira nega o diálogo, enquanto a segunda tem nele

o selo do ato cognoscente, desvelador da realidade (

prática ―bancárias‖, imobilistas, ―fixistas‖, terminam por desconhecer os homens como seres históricos, enquanto a problematizadora parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. (FREIRE, 1987, p.72).

A concepção e a

desmitificação. (

)

).

Tem-se aí definido o elemento político da metodologia da educação popular que a mantém em afinidade com a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular, onde ―se reafirma como fundamental o princípio do diálogo, oferecendo condições para a promoção do pluralismo das idéias‖ (NETO, 2006, p.26). Em verdade, é nesse pluralismo de idéias que reside a factível intersecção entre as duas propostas, uma vez que ambas estão comprometidas com a transformação da realidade posta a partir da legitimação da construção jurídica operada pelas populações periféricas e com seu efetivo exercício, consolidando-se, desse modo, a pluralidade social. Como instrumento de afirmação desta pluralidade social, a educação popular encontra sua máxima expressão nas postulações freirianas quando aduzem que ―ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo‖; ―Não há educadores puros. Nem educandos. De um lado e do outro do trabalho em que se ensina-e-aprende, há sempre educadores-educandos e educandos-educadores. De lado a lado se ensina, de lado a lado se aprende.‖ (FREIRE, 1987, p.68). Verifica-se nesses postulados que educandos e educadores possuem suas construções e visões de mundo, passíveis de trocas, aperfeiçoamento ou mesmo de mudanças, haja vista o propósito dialético dos debates ensejados pela práxis da educação popular. É na construção dialética resultante deste debate que se desenvolve o caráter emancipatório da metodologia aqui proposta. Forçoso salientar que, em consonância com os postulados freirianos acima mencionados, a educação popular não comporta ações ―conscientizadoras‖ ou ―libertadoras‖ dotadas de messianismo, pois ninguém conscientiza ou liberta ninguém. Conferir validade a essas ações seria o mesmo que negar a horizontalidade preceituada pela prática educativa sob estudo. A abordagem pedagógica da educação popular, desse modo, deve ser forjada com e

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para os sujeitos oprimidos. Assim, fala-se na construção coletiva de uma visão crítica da qual educandos e educadores são autores, sendo a fonte para tal construção a própria troca de vivências e a consolidação de uma identidade política entre tais sujeitos. Nesse sentido, prevalece o coletivo em detrimento do individual e a ―nova consciência‖ construída será a própria arma para a luta por direitos e justiça social, objetivos em torno dos quais os sujeitos identificados mobilizar-se-ão. Nesse contexto de formulação de uma práxis emancipatória dos sujeitos nela envolvidos - baseada na comunicação através do diálogo que se pretende afirmador da pluralidade flagrante da sociedade moderna de classes e que tem por finalidade a edificação de um novo paradigma político-social, viabilizada pela organização e participação coletiva dos grupos oprimidos na vida política e jurídica - é que se insere a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular enquanto prática extensionista/comunicativa de direito insurgente. Assim, essa proposta de resistência aos métodos acadêmicos de ensino usualmente empregados destoa de sua didática acrítica e questiona mais uma vez os padrões tradicionais da prática jurídica, pois

O estudante de Direito objeto reproduz o método de ensino que conhece na Universidade quando atua nas atividades de extensão. Sem uma reflexão crítica acaba por tratar a questão da democratização do conhecimento jurídico apenas pelo método bancário. (FURMANN, 2003, p. 22).

Observa-se, logo, o elemento potencialmente contestatório proposto pela Assessoria Jurídica Universitária Popular, forjado na pretensão de superação das injustiças instituídas não só pela afirmação do paradigma ―bancário‖ de educação, plenamente absorvido pelas práticas extensionistas tradicionais, mas também pelas estruturas de domínio e poder vigentes. Nesse sentido, a educação popular como metodologia determinante da práxis da Assessoria Jurídica Universitária Popular visa a problematização da realidade e a condução das classes marginalizadas ao enfrentamento dessas estruturas, com o escopo do resgate de sua cidadania e da busca pela viabilização de condições básicas para a plenitude de sua dignidade, os direitos humanos. Das pautas do diálogo emancipatório e do elemento político de contestação à realidade posta apregoadas pela educação popular, derivam-se alguns princípios norteadores da prática da Assessoria Jurídica Universitária Popular, pontos de partida em comum vislumbrados pelos sujeitos que a vivenciam.

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3.4 Princípios Norteadores da práxis da Assessoria Jurídica Universitária Popular

Toda caminhada tem seu ponto de partida com vistas a um ponto de chegada. São muito prováveis os percalços no meio do caminho, que podem desvirtuar ou ratificar o destino que se pretende alcançar. A Assessoria Jurídica Universitária Popular é, tanto quanto uma prática, uma longa e árdua jornada, permeada por uma série de desafios e dificuldades. Dentre muitas destas dificuldades experimentadas na atuação política pressuposta pela AJUP (Assessoria Jurídica Universitária Popular), talvez a manutenção de sua postura contestatória seja a maior delas, inerente que é à sua característica de insurreição ao mundo de coisas postas, inquestionáveis, supressor da igualdade e das várias humanidades existentes. Sustentar uma posição de oposição perante as ―verdades‖ deste mundo significa, muitas vezes, se opor ao histórica e culturalmente instituído; àquilo que por tantas vezes absorvemos, seja por nossas vivências, seja pelas imposições sociais, que nos empurram suas validades goela abaixo; conservar essa postura implica, antes de tudo, nos esvaziarmos de nós mesmos, de nossas pré-concepções e dar lugar a uma nova construção a ser operada a cada oportunidade de diálogo e de confronto com o desumano. Não é tarefa fácil, especialmente porque refazermo-nos constantemente e abandonar certezas nos conduz ao desconhecido e, portanto, ao que nos assusta. Entretanto, apesar dos obstáculos subjetivos aqui expostos, trata-se de uma escolha, uma opção a favor daquilo que se acredita ser possível para a viabilização do que parecer ser impossível. Essa é a bandeira levantada por aqueles que compõem um núcleo de AJUP enquanto atividade extensionista/comunicativa de direito insurgente. Nestas circunstâncias, não se pode olvidar a necessidade de planejamento, sistematização e organização de conhecimentos e ações aptos ao desenvolvimento desta práxis crítica e é nesse esforço que a AJUP encontra parâmetros de atuação, quer dizer, referenciais práticos que, longe de ser vinculantes, podem ser tomados como norte para seus atos. Isso porque a AJUP, como uma metodologia de enfrentamento aos postulados absolutizantes e ao engessamento das instituições, propõe uma constante avaliação de seus métodos na busca pela adequação de sua prática aos sujeitos que dela participam e às suas demandas. Nesse sentido, procura-se aqui relacionar alguns desses primeiros passos (pontos de partida), que podem vir a ser excelente arsenal na superação dos inúmeros desafios verificados na condução das atividades de grande parte dos núcleos de extensão-comunicação em direitos humanos (AJUP‘s), presentes em muitas universidades brasileiras. Vale ressaltar

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que essas construções práticas encontram apoio em referenciais teóricos que servem de sua fundamentação, bem como na crítica ao modelo de sociedade moderno e no reconhecimento do outro como igual, tendo vista o projeto de emancipação social e de transformação da realidade circundante.

3.4.1 Da criticidade:

De todo o conteúdo exposto nesse trabalho, há de se perceber a flagrante conduta de resistência ao paradigma moderno de educação (especialmente a acadêmica), de cultura jurídica vigente e de sociedade (marcada por contradições e sobreposição de uma casta à outra) pertinente à práxis proposta pela Assessoria Jurídica Universitária Popular. É indispensável a compreensão crítica da conjuntura social existente para a construção de um paradigma que tenha por finalidade a superação de suas estruturas falidas e conservadoras. Assim, a AJUP enquanto movimento de luta para a concretização deste novo paradigma, não pode se furtar deste exame crítico, que passa, inexoravelmente, pela (re)invenção, (re)formulação e (re)dimensionamento de conceitos e práticas para a transformação do estado em que se encontram as coisas. Nesse cerne, salienta-se a legitimação do excluído pelo sistema político, jurídico e social dominante a partir do reconhecimento da cultura e saber populares, bem como de sua produção jurídica, afirmando-se, assim, a indubitável pluralidade de idéias, vozes, e experiências que caracteriza a sociedade brasileira.

3.4.2 Da paixão (ou afetividade)

A AJUP é um fazer político, movimento contínuo em busca da realização de um projeto de sociedade justa, igualitária e democrática. A busca desses ideais pressupõe ação conjunta e motivada, que acaba por prescindir de elementos de coesão entre os seus atores. Ao contrário do que possa transparecer essa prescindibilidade, esses elementos emergem de forma natural entre aqueles que coadunam de tão desafiadora escolha, pois que o estreitamento entre afins numa realidade conflituosa em que tantas vezes se ganha e se perde

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é inevitável. Isso se deve à paixão, esse sentimento que sustenta a força necessária para não se declinar da atuação política com os povos oprimidos. É a paixão pela vida humana que cativa

a luta e não se pode descartá-la do processo de confronto com os obstáculos socialmente impostos.

Nós que defendemos idéias contestatórias da ordem posta, sabemos o quanto é duro esse caminho, o quanto somos punidos socialmente pelas nossas opções políticas. Para suportar esta dureza, essas pressões, é preciso que sejamos apaixonados pelos nossos ideais e pelas nossas práticas individuais e coletivas que buscam realizá-los. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008,

p.09).

O paradigma capitalista tratou de apartar a emotividade das relações hodiernas, relegando a sensibilidade e a afetividade a segundo plano. Como legado, a ciência moderna herdou o mesmo pensamento e insiste em adotar o parâmetro lógico-racional de concepções das atividades humanas, conferindo-lhes fragmentariedade e negando-lhes totalidade, abortando uma visão holística deste homem. Entretanto,

Não somos só razão e por vezes nem agimos no governo dela; ser humano é reconhecer-se complexo (não somos regidos por leis naturais físico- biológicas) e dentro dessa características encontrar-se. Fica a pergunta, por que valorizar tanto a razão? (RIBEIRO, 2007).

É preciso perceber que ―a compreensão do mundo só é possível a partir das nossas vivências, em relação às quais não existe uma diferenciação entre uma vivência racional e uma vivência emocional, as duas acontecem ao mesmo tempo, o tempo todo. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008, p.09). Numa visão revolucionária para o paradigma científico de circulação e produção do conhecimento, a práxis proposta pela AJUP revitaliza-se permanentemente à medida que a paixão impulsiona sua realização, caracterizando-se assim pela afetividade intrínseca ao processo dialógico com vistas a um mundo que permita a realização inteira da condição humana. Compreende-se a paixão, dessa forma, como um elemento fomentador da prática libertária e emancipatória e no centro desta prática o diálogo a paixão promove o amor, esse sentimento que, antes de ser sentido, urge por ser instituído como instrumento para uma sociedade destituída de dor e miséria. Isso porque no diálogo objetivado pela realização da liberdade nasce o respeito ao outro e às suas vivências, que evolui para afinidade, companheirismo e interesse pela felicidade do próximo, sentimentos próprios de uma relação de amor. Assim,

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Discutir a questão do amor, na sua dimensão pessoal e social é quebrar um tabu. Queremos criar uma sociedade amorizada e amorizante. Quebrar esse tabu, trabalhar essa dimensão, significa colocar o amor como a condição para se viver numa sociedade onde as pessoas são diferentes, sem serem necessariamente divergentes. (BETTO, 2002, p.33)

Nesse contexto de adoção do amor como meta ou paradigma para as relações humanas, ―a emoção e o prazer são vistos como um elemento indissociável da política. Reconhecendo a extensão como uma atividade política, o princípio do apaixonamento nos diz que esta atividade precisa ser feita com afeto, alegria e prazer‖. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008, p.10).

3.4.3 Da alteridade

Derivada do amor e da fraternidade entre os homens, a alteridade ganha um caráter político quando assumida pelos sujeitos que lutam por dias melhores para todos. Isso porque o exercício da alteridade se dá quando nos colocamos no lugar do outro para experimentar a sua dor, sua opressão. Quando saímos da nossa zona de conforto e segurança para ocuparmos um lugar sombrio e sem perspectivas que outros humanos ocupam, é mais fácil entendermos suas condutas, suas vivências, seu ser e estar no mundo e, dessa forma, assumirmos as suas posturas de revolta e indignação, dois importantes alimentos para o espírito revolucionário de que se precisa pra manter a luta viva em nós.

A alteridade é sentimento que nutre o desejo por justiça social antes mesmo de

qualquer sistematização de ações ou teorias para a prática emancipatória, pois que é ela fator determinante para a escolha política pela defesa e conquista dos direitos dos oprimidos. Como

elemento que origina o desejo de transformação, a alteridade permeia, então, toda a práxis da AJUP. Isso se evidencia também na relação dialógica desenvolvida entre o sujeito estudante e os sujeitos comunidade, no momento da troca de experiências baseada no respeito ao outro e às suas diferenças. Assim, no momento que sentimos, pensamos e agimos como o oprimido, nos tornamos igual a ele e essa igualdade culmina na solidariedade e no compartilhamento de anseios; cria-se a identidade necessária para a luta organizada.

A esse nível da relação de proximidade criada entre os sujeitos nela envolvidos,

oportunizada inicialmente pelo exercício da alteridade, a afetação em relação à realidade

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grotesca em que as comunidades excluídas se inserem é inevitável, assim como a abertura para o extravasamento da afetividade. Desse modo,

A(o)s aluna(o)s começam tais práticas ―abraçando junto‖ esse povo - como diz Edgar Morin, interpretando a etimologia da palavra com-preender - ―trocando o seu próprio lugar social‖ por aquele onde esse mesmo povo vive e sofre, freqüentando as assembléias das associações de moradores, por exemplo, os acampamentos e os assentamentos dos sem-terra, as festas, os cultos, o rico folclore onde ele celebra sua convivência, mesmo sob o aguilhão das muitas carências que o vitimam. (ALFONSIN, Sujeitos, tempo

e lugar da prática jurídico-popular emancipatória que tem origem no ensino do direito p.03)

Desse modo, ocupar o lugar social do outro é ato peculiar ao ser humano, uma vez que só é possível pela afetação, pelo sentir o outro e suas particularidades. Assim é também o fazer político comprometido com a superação das desigualdades e do sofrimento alheio. Negligenciar o envolvimento emotivo intrínseco à alteridade das práticas educativas emancipatórias é retirar a motivação do conteúdo político deste empreendimento para a busca da liberdade. Essa compreensão de mundo vista pelos olhos da afetividade enseja a necessidade de sensibilização dos profissionais do direito quando da sua atuação. Almeja-se, dessa forma, a indissociabilidade entre emoção e razão na produção e circulação do conhecimento bem como a formação de profissionais e seres humanos sensíveis ao sofrimento de seus iguais. Nesse sentido,

é através da identificação com os que sofrem e lutam, da percepção de que o crescimento de um homem representa o crescimento de toda a espécie, e de que, na realidade brasileira, o fim da ditadura não determinou a ampla difusão da democracia e da justiça social que se constrói o homem e a mulher nova. (RIBEIRO, 2007)

Busca-se, então, a formação de

―juízes e juristas recusando a suposta neutralidade da lei e de seus agentes, neutralidade que cimenta e agrava as injustiças estabelecidas; Juízes e juristas comprometidos com o futuro, não com o passado, com a busca apaixonada da Justiça, não com as cômodas abdicações, com a construção de um mundo novo, não com a defesa de estruturas que devem ser sepultadas; Juízes e juristas atentos aos gemidos dos pobres, insones ante o sofrimento das multidões marginalizadas; Juízes e juristas que morram de dores que não são suas, profetas da Esperança, bem aventurados por terem fome e sede de

justiça; [

]‖

(HERKENHOFF, apud RIBEIRO, 2007)

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3.4.4 Da horizontalidade

Assim como o exercício da alteridade coloca seres humanos sob as mesmas

sensações provocadas pelas manifestações de suas vivências, permanecendo, nessas circunstâncias, empareados, o diálogo com o respeito ao saber e à produção do outro promove

a horizontalidade entre os que dialogam. Nesse contexto, rompe-se com as relações de

hierarquia e poder, que vinculam os indivíduos à submissão, seja política, cultural ou social. A horizontalidade das relações é, portanto, o maior legado da rica e humana metodologia da Educação Popular, uma vez que dela emanam a construção coletiva, o compartilhamento de idéias, desejos e vivências e ocasiona a igualdade e formação da identificação entre os sujeitos relacionados. A organização para a participação popular na vida

política da sociedade passa, então, pela desconstrução de comandos ou de figuras autoritárias, pois se presume que todos podem contribuir igualmente. No campo da prática extensionista/comunicativa a que se propõe a AJUP, a educação popular e o seu preceito maior de horizontalidade das relações provocam reflexões e

autocrítica por parte dos assessores jurídicos populares a respeito de sua atuação dentro e fora de seus núcleos de extensão. Essa postura reflexiva (auto-avaliativa) se deve à dificuldade que temos em romper com a cultura do autoritarismo e da ingerência nas ações humanas coletivas

e, na persecução do respeito ao outro e suas diferenças, criam-se alternativas para que se

vislumbre a efetiva horizontalidade entre os homens. Nesse sentido, os estudantes praticantes da AJUP recorrem a conhecimentos outros, que estimulem a percepção, a problematização e o debate entre eles e a comunidade. Nada melhor do que a arte e o uso de elementos lúdicos para a viabilização do diálogo entre duas realidades distintas, pois que tais elementos constituem-se em simbologia e linguagem comuns a ambas as partes, facilitando a comunicação. Assim é que

Nunca é demais lembrar que comunicar é, antes de mais nada, ―tornar comum‖ um determinado assunto, e poucos assuntos interessam tanto ao povo como os relacionados com os seus direitos. Se isso for impedido pelo tecnicismo da linguagem erudita e sofisticada ou pelo pedantismo, as práticas jurídicas de emancipatórias não terão feito nada, pois não alcançarão o que mais se espera delas, ou seja, que o povo mesmo supere sua consciência ingênua, substituindo-a por uma consciência crítica, e seja o primeiro sujeito responsável pela defesa de sua dignidade e a conquista de sua cidadania. (ALFONSIN, Sujeitos, tempo e lugar da prática jurídico- popular emancipatória que tem origem no ensino do direito p.03)

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Consolidando-se a comunicação entre as pontas da relação extensionista ajupana, passa-se à construção da identidade política entre as mesmas, que decorrerá diretamente do livre exercício da afetividade e da alteridade, como ressaltado anteriormente. A arte, como elemento que promove o belo, porque desperta em quem a aprecia suas emoções e afetações, exerce, então, papel fundamental na construção desta identidade. Dialogar não é fácil, porque exige a arte de ouvir e de falar sem ferir o espaço do outro. Desse modo, dialogar é também arte e nisto reside mais um motivo para a expressão artística na formação da afinidade política pretendida pela educação popular. Nesse contexto, lançar mão de artifícios próprios da arte é a tônica da prática educativa emancipatória. O lúdico, como dito antes, é linguagem captada por todos e como tal, permite a problematização do mundo por meio da participação efetivamente democrática, onde cada um contribui com o que sabe, com o que tem, com o que vive ou viveu. A inserção do elemento lúdico no diálogo a ser construído pressupõe, então, criatividade e sensibilidade para que seja convidativo à aprendizagem e para que haja adequação do debate que se quer oportunizar acerca da realidade que circunda os sujeitos envolvidos. Assim,

convocar a arte no trabalho da educação em direitos humanos significa compreender a educação como arte, como processo subjetivo no qual as expressividades emotivas e estéticas são fundamentais para a aprendizagem. Não fazemos mais do que constatar o óbvio, ainda que isso seja, atualmente, um levante político que ande contra a corrente da vertente hegemônica da educação. (OLIVEIRA, A.; 2008, p.13).

Nessas circunstâncias, a compreensão do processo educativo enquanto arte remete ao seu uso como forma de promoção da horizontalidade entre estudantes e comunidade, haja vista que seus signos passam pela cognoscência de ambos. O teatro, a pintura, a poesia, a música, o cinema, etc., tornam-se, desse modo, instrumentos utilizáveis de forma criativa para a construção do debate problematizador e emancipatório, evocando para isso os sentidos e as várias formas de percepção expressadas pelo homem. Para o uso desses elementos, a AJUP geralmente encontra solução na elaboração e realização de oficinas e dinâmicas aptas a desenvolver o diálogo. Essas atividades primam pela horizontalidade, pois partem da construção coletiva, da soma de impressões e opiniões (percepções), que poderão se externalizar livremente. Essa estruturação que compõe a prática educativa proposta pela Educação Popular é contrária às formas tradicionais de debates e de ensino, pois abandona a concepção

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hierárquica do educador e de receptáculo do educando, agora equiparados, bem como a cultura de mera transmissão de conhecimentos pré-estabelecidos.

3.4.5 Da auto-gestão e do protagonismo estudantil

Na abolição da cultura de autoritarismo, fundamentada pela horizontalidade, originam-se concepções práticas de desenvolvimento das atividades e da organização interna dos núcleos de extensão ou de AJUP. Pela prerrogativa do respeito ao saber do outro, busca- se a auto-gestão dos núcleos de Assessoria Jurídica Universitária Popular, uma vez que se confere ao saber e à postura coletivos grande parte do potencial transformador da realidade posta. Nesse cerne, não há a figura do líder, do diretor ou do gerenciador das atividades extensionistas ajupanas, pois que todos desempenham esse papel conjuntamente, irrompendo- se com a burocracia que só retarda toda e qualquer ação. Os sujeitos expressam-se livre e harmoniosamente, sem necessidade de permissão ou concessão. Logo,

O ideal é que não existam hierarquias internas nas atividades de extensão, rompendo a tradição burocrático-hierarquizada da estrutura universitária.

Assim, o conhecimento produzido e sua gestão se tornam coletivos; (

coletivo não se submete à ordem ou às idéias de uma pessoa pela simples condição hierárquica; a integração é solidária e não existindo hierarquias

verticais entre os estudantes, cargos e funções são apenas distribuições de

atividades e não posições hierárquicas; (

sem hierarquias se refletirá na atividade de extensão, na atividade com a comunidade, possibilitando a participação da própria comunidade na organização do projeto de extensão; a quebra da hierarquia serve de exemplo para a comunidade e educa para a participação. (FURMANN, 2003, p. 48).

um espaço interno democrático e

o

)

)

O desenvolvimento auto-gestionado dos núcleos de AJUP pressupõe então autonomia e independência das atividades e dos sujeitos nelas inseridos. Essa premissa acaba por afirmar os estudantes como os legítimos para o exercício destas atividades, estando eles em igualdade de condições e de acúmulos, ou experiências. Além do que são eles que se insurgem contra as práticas tradicionais de ensino e rompem com as imposições apresentadas no seu caminho acadêmico escolhido. Nesse sentido, é válido salientar que

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A assessoria jurídica popular universitária nasce da ―indignação ética‖. Primeiro, com um ensino do direito de estudantes cansados de tanta repetição, de tanta ―dogmática ruim‖ e de tanta doutrinação. Segundo, indignação com a prática jurídica, com o atendimento nos escritórios ―modelos‖ muito longe dos ideais de acesso à justiça. Por fim, com a realidade brasileira, em que a igualdade formal não corresponde aos anseios da utopia estudantil. (RIBAS, 2008, p. 93-4).

A juventude, a sede de transformação e a disposição para a resistência são marcas inafastáveis do espírito estudantil combativo e engajado. Os estudantes organizados encontram força e união para a construção do novo, pois que eles sonham com este novo; fazem dele a utopia a que Ribas se referia, ou, como nos dizeres de Assis,

Trata-se de uma utopia: sonho possível que deve ser perseguido, mais do que propriamente conseguido. Um estado de espírito transgressor e esperançoso, cujo fim último é a conscientização dos seres humanos, função social máxima de qualquer educação. (OLIVEIRA,A.; 2008, p.13).

3.4.6 Da interdisciplinariedade

Assim como a horizontalidade está para a Educação Popular a interdisciplinariedade está para a prática da AJUP. A Assessoria Jurídica Universitária Popular tende a contribuir de sobremaneira para a construção de novos paradigmas científicos na medida em que propõe a horizontalidade entre saberes, não somente o dos sujeitos envolvidos nessa práxis, mas também os saberes produzidos pelos variados ramos do conhecimento. Nesse cerne, é preciso retomar a crítica à fragmentariedade imposta pelo capitalismo à produção cultural e até mesmo às relações sociais que definem a vida humana. As formulações feitas a respeito do homem e de seu desenvolvimento ao longo de sua história o compreendem por ângulos de visões específicos, delimitados, e sua existência passa a ser determinada pelo isolacionismo dos vários setores do conhecimento que apontam respostas e teorias válidas apenas para seus padrões e critérios pré-estabelecidos, deslegitimados pelas demais ciências. Assim, o homem ganha enfoques diferentes para cada ciência e eles jamais convergirão para uma compreensão global do sujeito em apreço. Em um mundo de competições e de sobreposições (em contraposição á horizontalidade), as ciências não se

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furtaram destas contribuições paradigmáticas, julgando-se auto-suficientes e aptas às resoluções dos problemas que instigam sua produção. O direito, supervalorizado por atribuir a si a exclusividade para a resolução dos conflitos sociais, não foge dos padrões científicos modernos. Nesse sentido, ―essa postura diante do conhecimento é um desafio ainda maior quando nos deparamos com os paradigmas tradicionais do direito, sua pretensa auto- suficiência e prepotência expressa em princípios como a ‗verdade real no processo‘‖. (NEP Flor de Mandacaru - UFPB, 2008, p.14). Esquece-se a ciência jurídica moderna de que o objeto de estudo e investigação que reivindica para si tem causas sociais, políticas, históricas e culturais, questões estas correlatas à incidência do jurídico em sua resolução. Dessa forma, a horizontalidade entre os vários ramos do saber só tem a enriquecer o conhecimento e a busca pela verdade que as ciências tanto almejam. No caso das ciências sociais, entender os fenômenos sociais manifestados implica em uma compreensão humanística global, de cunho sociológico, antropológico, histórico, político e jurídico, sob pena de descontextualização e inadequação dessa compreensão à realidade social circundante. Nesse cerne, aduz Pizzolatto na defesa da sociologia jurídica enquanto saber interdisciplinar:

Ao se contextualizar socialmente o direito, entende-se muito mais sobre a sociedade na qual ele opera e consegue-se identificar com mais clareza os interesses em jogo, avaliar as conseqüências de determinadas decisões, aproximar o direito da vida cotidiana e dos anseios das pessoas comuns e pensar novos mecanismos de luta social, instrumentos de regulação e

técnicas de resolução de conflitos. (

Afinal, as marcas do direito na

sociedade são sua diversidade, sua incoerência, sua incompletude, bem como sua inter-relação com a política, a economia, a religião e assim por diante. (PIZZOLATTO, 2010, p.07).

)

Baseada na horizontalidade apregoada pelo diálogo democrático e emancipatório, a AJUP propõe, assim, a correlação entre os vários setores do conhecimento humano quando de sua práxis. A própria metodologia que a inspira, qual seja, a educação popular, é postulação pedagógica de cunho político e educacional, oferecendo contribuições inclusive epistemológicas ao propor novos paradigmas para a prática do ensino acadêmico e de base, bem como para o pensamento científico moderno. É preciso enxergar o bicho homem como um todo, um corpo íntegro, um conjunto de membros que antes de serem membros, são parte de um todo. Assim é o espírito coletivo, que pauta a liberdade e o êxito do ―eu‖ na realização do ―nós‖ e é desse espírito que as ciências precisam comungar. Nesse sentido, o saber interdisciplinar é mostra viva do respeito

63

ao diverso, de coexistência e tolerância ao que se apresenta novo. É consunção da coesão coletiva em nome de um ideal maior: o bem estar humano. O fazer político da AJUP é, portanto, uma arte: a arte da educação, do diálogo, do respeito, da horizontalidade, da harmonia, do encontro, do comum, do amar. Muito embora a arte pretendida por sua práxis tantas vezes pareça surreal em dias de auto-afirmação e de valorização das glórias individuais, ela se faz objetivo diário na jornada de uma extensão/comunicação de educação popular em direitos humanos. Fazer AJUP é levantar quase todos os dias enxergando a poesia da ―flor que nasce no asfalto‖ ou da flor de

mandacaru - que ―é a delicadeza na seca, nos mostrando que pode haver beleza na maior das

a anunciação de tempos melhores, quando a chuva próxima entranhar a

adversidades. (

terra castigada.‖ - como um ideal possível, uma utopia norteadora. Assim é que a Assessoria Jurídica Universitária Popular contribui para a viabilização do inédito e, como na metáfora do início deste capítulo, ―entre os dentes segura a primavera‖, de flores de mandacaru, de asfalto, de deserto

)

E se de flores, apesar de seus espinhos, não fosse feito o mundo?

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4 A EXPERIÊNCIA DO PROJETO CORAJE ENQUANTO NÚCLEO DE ASSESSORIA JURÍDICA UNIVERSITÁRIA POPULAR (A TRAJETÓRIA PARA A CONSTRUÇÃO DO INÉDITO VIÁVEL)

4.1 A Origem: onde tudo começou.

Dentro dos parâmetros e da metodologia da proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular, surgiu na Universidade Estadual do Piauí o projeto (ou núcleo) de extensão/comunicação de educação popular em direitos humanos CORAJE Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil (anexo I) cuja não longa, mas inacabada experiência será parcialmente relatada neste trabalho. Vale ressaltar que não é possível descrever toda sua trajetória, pois que não se deu de forma contínua ou sistemática, sendo essa característica um dos grandes desafios a ser vencidos por grande parte dos núcleos de AJUP. Procura-se, então, narrar algumas das experiências mais relevantes para o desenvolvimento deste projeto que já conta com pouco mais de três anos de existência. O Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil (CORAJE) nasceu da insatisfação de um grupo de estudantes do curso de bacharelado em Direito da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) com a prática do ensino jurídico realizada de modo a se distanciar quase que completamente da realidade de flagrantes desigualdades e injustiças sociais. Eram estudantes que se iniciavam na vida acadêmica com uma perspectiva política da Universidade e do Direito, onde o debate, a problematização e a adequação social da ciência em que se inseriam fossem um convite ou uma provocação à efetiva construção de um conhecimento engajado e apto a transformar a realidade contrastante da sociedade brasileira e, mais especificamente, da sociedade piauiense, marcada por um quadro de pobreza e calamidade gritantes. Reconheciam estes estudantes seu papel ativo nos rumos que a ciência jurídica poderia tomar e, dessa forma, pretendiam assumir a postura de participação concreta na construção de uma nova concepção do Direito, da Universidade e da sociedade. Não conformados com as promessas não cumpridas pelo ―Estado democrático de direito‖ - assentadas na Constituição de 1988 e encasteladas na redoma sagrada da lei - e enxergando ao longo de sua jornada acadêmica tão somente a defesa da função social da propriedade numa legislação que silencia sobre o latifúndio, direitos fundamentais sem garantias e um direito penal sem crimes reais, regidos pela questionável ―vontade do legislador‖, concluíram estes

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estudantes não ser nem razoável a acomodação diante das suas perguntas sem respostas. E era indubitável: o direito ministrado na sala de aula, sistematizado nos manuais jurídicos e condensado no VADE MECUM não podia responder às suas indagações mais inquietantes. Na tentativa de irromper com a apatia tão cara aos acadêmicos de direito, bem

como com a tradicional aplicação do ensino jurídico na academia e com as próprias estruturas (e não só físicas) que baseavam a vida da instituição universitária, esses estudantes encontraram alternativas para se movimentarem na militância do Centro Acadêmico.

A vivência experimentada por eles nesta entidade, concebida para a atuação

política dos estudantes no âmbito da universidade, lhes oportunizou debates, discussões, ciclos de estudos e a certeza da dúvida quanto aos mecanismos jurídicos empregados para a busca da justiça. Entretanto, ainda não satisfeitos com a ação política do Centro Acadêmico, a qual pressupunha e lhes impunha a representação de todo o corpo discente do curso de direito,

perceberam os limites de sua atuação e a necessidade de aprofundamento político e teórico para a compreensão do papel do direito no projeto de transformação da sociedade. Nesse

contexto de buscas e descobertas teóricas, a proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular foi a grande saída para suas angústias.

A AJUP foi apresentada de forma concreta a esse grupo de estudantes em dos

encontros estudantis regionais, o ERED (Encontro Regional de Estudantes de Direito), no ano de 2007, realizado nas dependências da Universidade Federal do Piauí. Nesses encontros

anuais, há o espaço para o debate acerca da Assessoria Jurídica Universitária Popular, o ERAJU (Encontro Regional de Assessoria Jurídica), onde se trocam experiências e se

problematizam a conjuntura social vigente, propondo-se assim uma formação política dos núcleos participantes. Desse encontro, aquele grupo de estudantes insatisfeitos saiu disposto a iniciar um projeto de extensão popular de educação em direitos humanos. Nessa ocasião, também lhes foram apresentados outros núcleos de AJUP no Piauí, tais como o projeto MANDACARU, da Faculdade CEUT; o projeto JA (Justiça e Atitude), do Instituto Camilo Filho e o projeto CAJUINA (Centro de Assessoria Jurídica de Teresina), da Universidade Federal do Piauí, cujas experiências compartilhadas e a contribuição ímpar foram fundamentais para a realização da I Semana do CORAJE, evento realizado no campus Poeta Torquato Neto, UESPI, nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2007, que marcou o inicio da caminhada deste núcleo de AJUP.

A I Semana do CORAJE teve como intuito a apresentação da proposta da

Assessoria Jurídica Universitária Popular para a comunidade acadêmica da Universidade Estadual Piauí, bem como o convite e abertura do projeto a quem quisesse somar forças para a

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construção do núcleo. Foi um evento gerido por estudantes, como o é a AJUP, e contando com a realização de oficinas, discussões, dinâmicas, momentos de sensibilização (assim como a apresentação da logomarca do Projeto se mostrou, Anexo II) e de pequenas cenas teatrais que retratavam violações de direitos humanos, a I Semana do CORAJE lhe rendeu a

participação de cerca de dezenove estudantes atuantes (algo raro de acontecer nos núcleos de AJUP, devido sua proposta inovadora, que nem sempre é aceita pelos discentes). Era preciso propagar essa proposta insurgente a tantos estudantes quantos fossem possíveis. Partindo dessa premissa e da noção de coletividade e democracia, como um núcleo originado na Universidade Estadual do Piauí o projeto CORAJE não podia se eximir de alcançar os demais campi da instituição. Nesse sentido, foi realizado o mesmo evento no campus Clóvis Moura (vide folder, anexo III), também situado na capital teresinense, onde o curso de direito também era ofertado.

(slogan do evento), era

compartilhada e desenvolvida por mais braços e pernas que agora compunham um corpo: o

Corpo de Assessoria Jurídica Universitária Popular.

Assim, ―aquela idéia de sociedade justa e igualitária

4.2 Formação Política.

Tinha-se ali um núcleo de AJUP iniciado, composto pela indignação com o paradigma posto de sociedade e universidade e por mentes ávidas por participar da construção de um novo direito. Porém só a vontade de construir não era suficiente, especialmente quando se trata de uma proposta tão inovadora e combativa. Dessa forma, urgia a carência de estudos e fundamentação para prática ensejada pela Assessoria Jurídica Universitária Popular. Nesse contexto, foi concebido um ciclo de discussões com a finalidade de politização do movimento extensionista que se propunha, onde, por meio de oficinas e do diálogo entre os participantes, questionava-se a realidade encoberta e desprezada pelos instrumentos legais positivados. Assim, essas rodas de diálogos ―instituídas‖ pelo projeto como uma prática contínua e periódica foram intituladas de ―Encorajamentos‖ (vide folders, anexos IV e V) e, para além de sua intenção de formação política, tinha uma conotação de estimulo aos estudos envolvidos à práxis educativa emancipatória. Como apresentada pela metodologia da educação popular de Paulo Freire, metodologia esta adotada pela AJUP, a dinâmica dos ―Encorajamentos‖ primava pelo diálogo

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aberto, construído pelas percepções coletivas e pelo uso de recursos artísticos que facilitassem a discussão (vide proposta de oficina para o III Ciclo de ―Encorajamentos‖, anexo VI). O desenvolvimento das idéias para a concretização das oficinas exigia muita criatividade, bem como pressupunha leitura e sistematização de conteúdos para que os objetivos do debate fossem alcançados, ou seja, a sensibilização, a ampliação da visão crítica sobre o mundo e preparação para a práxis extensionista/comunicativa com a comunidade. Na verdade, a idéia dos ―Encorajamentos‖ consistia basicamente na inserção dos estudantes na prática da Assessoria Jurídica Universitária Popular, bem como na construção do acúmulo político e na fundamentação teórica dos acadêmicos. Nesse sentido, eram trabalhados por ocasião destes ciclos de debates temas como acesso à justiça, ensino jurídico, direitos humanos e educação popular, de forma pedagogicamente introdutória. De posse de tão importantes construções coletivas do conhecimento, os discentes assessores jurídicos populares estariam minimamente munidos de arma poderosa para a conquista de espaços fomentadores de diálogo dentro e fora do âmbito das atividades do núcleo de AJUP, prontos para a luta por conquista e defesa de direitos de oprimidos e por um novo modelo de sociedade, baseado na harmonia e na efetiva dignidade da humanidade.

4.3 O Encontro com outros núcleos de AJUP: “não estamos sós no mundo”!

Depois da formação política necessária para a construção da visão crítica indispensável ao desenvolvimento das atividades ajupanas, não raro era possível que o projeto se percebesse subversivo e seus componentes, sozinhos na realidade acadêmica que se encontravam. Não sozinhos porque abandonados pela instituição universitária, ainda que esse fosse um quadro real, mas sozinhos porque únicos; praticantes de uma ação política raramente abraçada pelo estudante moderno e, por tanto, rechaçados social e culturalmente. Nesse cenário, surgia a necessidade de desbravar o mundo em busca de outros iguais, companheiros de afazeres e luta políticos, para na afinidade natural entre os assessores jurídicos populares construir um laço mais forte com o objetivo de transformação social. Era uma necessidade justificada por outras necessidades: de diálogo, de compartilhamento de experiências, de referenciais, de ampliação de horizontes, pois que o reconhecimento de uns com os outros só poderia contribuir para o fortalecimento da união para a superação das velhas e conservadoras estruturas opressoras.

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Assim, partindo-se da construção coletiva, é que não se podia permanecer no isolacionismo. Dessa forma, o projeto CORAJE partia em busca de parcerias políticas, especialmente indo ao encontro de outros núcleos de AJUP. Eram encontros regionais e nacionais, sempre anuais, como por exemplo, o ERED (Encontro Regional de Estudantes de Direto) e ENED (Encontro Nacional de Estudantes de Direito), com espaços mais restritos, e o ENNAJUP (Encontro Norte-Nordeste de Assessoria Jurídica Universitária Popular) e ERENAJU (Encontro da Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária). Esses últimos, espaços de intensa vivência e politização dos estudantes praticantes da AJUP, e os demais, são fundamentais para a reiteração e revitalização da práxis de direito crítico, uma vez que são pensados, debatidos e construídos pelos assessores jurídicos universitários populares, requerendo-lhes, mais uma vez, acúmulo político e teórico para a fundamentação de tal prática. São espaços que também propiciam o afloramento da sensibilização política e da externalização da afetividade, bem como o respeito às vivências alheias, combustíveis imprescindíveis à prática extensionista/comunicativa de educação em direitos humanos. Desse modo, esses encontros pretendem ser verdadeiro espelho do que se pretende realizar quando do diálogo com a comunidade não acadêmica. Nesse cenário de soma de forças e de percepção de outros núcleos semelhantes, com vistas para mesma prática, formou-se no ano de 1996, em Niterói, no Rio de Janeiro, a RENAJU Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária composta naquela ocasião pelos SAJU‘s (Serviços de Assessoria Jurídica Universitária) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e da UFBA (Universidade Federal da Bahia), pioneiros na prática da AJUP. Hoje composta por cerca de trinta núcleos de AJUP, a RENAJU tem por objetivo principal a integração destes projetos e o fortalecimento e incentivo à prática extensionista de direito insurgente. O projeto CORAJE participou concretamente de muitos desses espaços ao longo desses anos, porém sem aderir à RENAJU. Após o ENNAJUP Recife, de 2007, e o ERENAJU São Luis, de 2008, o núcleo problematizou internamente a RENAJU e sua atuação de forma crítica e naquele momento percebeu a configuração de um espaço, contraditoriamente, pouco aberto ao diálogo entre núcleos com perspectivas diversas da práxis ajupana. Eram empregados indiscriminadamente termos como ―socialismo‖, ―marxismo‖, ―esquerda‖ e ―revolução‖ como elementos indissociáveis da AJUP e, embora o CORAJE se percebesse plenamente como um núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular, não coadunava dessa postura de clausura em seus próprios institutos, quase que divinizados, sob pena de reprodução das práticas vigentes a que tanto se critica. Era preciso,

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na compreensão do projeto CORAJE, uma constante autocrítica e auto-avaliação de suas

próprias posições para que se praticasse a verdadeira horizontalidade e o respeito às

diferenças.

Dessa forma, ainda que não fosse membro da Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária Popular, o projeto CORAJE mantinha relação com outros núcleos e buscava participar dos mencionados encontros, para que não perdesse de vista a construção coletiva e o fortalecimento da união para a viabilização do novo.

4.4 A institucionalização do projeto CORAJE junto à Pró-reitoria de Extensão da Universidade Estadual do Piauí

Embora seja a Assessoria Jurídica Universitária Popular uma prática marcada pelo

protagonismo estudantil, onde a militância discente engajada busca a paridade de vivências e

de acúmulos, com respeito ao saber do outro, e se alimenta de utopias políticas as quais pauta

diariamente em sua formação acadêmica, é válido ressaltar que a extensão é atividade que

precisa de recursos materiais para que sua prática se desenvolva, assim como o é a pesquisa e

o ―ensino‖. Esse foi a primeiro estímulo ao projeto CORAJE para a busca da

institucionalização de suas práticas: um núcleo composto somente por estudantes, em sua maioria sem rendas, que enxergava a necessidade de expandir suas atividades e de dialogar dentro e fora da Universidade (como nos encontros estudantis). Fez-se necessário também o reconhecimento do projeto perante a Administração Superior da UESPI na medida em que o núcleo desempenhava atividades que exigiam concessões da instituição, bem como a validação dessas atividades para a comunidade acadêmica. Nesse sentido, ainda que a institucionalização implicasse em alguns percalços à práxis a que se propunha, o projeto CORAJE deu o primeiro passo para este procedimento institucional e burocrático. Explica-se: a aprovação do projeto pela Pró-reitoria de Extensão (PREX) da Universidade Estadual do Piauí dependia da assinatura de um docente da instituição que assumiria, assim, a função de coordenador do projeto. Dessa condição imposta duas eram as conseqüências. Primeiro: era preciso encontrar um professor na área do direito que conhecesse a proposta do projeto e a aceitasse, o que se mostrava quase impossível, uma vez que a maior parte do corpo docente corrobora com a cultura jurídica vigente. Segundo: aceitar

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a coordenação de um professor acarretaria na imposição hierárquica de um indivíduo sobre os demais, conduta essa que feria a proposta da AJUP. Porém, de posse dessa informação, o projeto CORAJE persistiu no seu intento e buscou na professora Doutora Shara Jane Holanda Costa Adad - à época professora da UESPI, hoje professora da UFPI, pessoa aberta à proposta da AJUP e, portanto, extremamente compreensiva com suas práticas - uma orientadora (e não uma coordenadora), que partilhasse seus conhecimentos com os estudantes membros do núcleo e que preenchesse o requisito formal para a institucionalização da prática extensionista, qual seja, a sua assinatura constante no projeto. Dessa forma, após uma longa caminhada para o alcance do seu objetivo, que muitas vezes representou inúmeras idas e vindas à PREX, conversas com os professores componentes desta Pró-reitoria, bem como com a própria Pró-reitora, à época a professora Maria do Socorro da Costa Machado, o projeto CORAJE foi finalmente aprovado e institucionalizado pela UESPI. Nesse cerne, forçoso é o estudo do projeto remetido e aprovado pela PREX (anexo VII), com a análise de seus objetivos, metodologia, resultados e perspectivas. No que tange aos objetivos colocados no projeto, seus resultados foram satisfatórios, pois que a curta experiência de aproximação com a comunidade (a ser relatada à frente) possibilitou a interação entre universidade e sociedade assim como a discussão de situações de opressão, como se pode perceber nas oficinas realizadas na Vila São Francisco Zona Norte de Teresina (anexos VIII, IX e X). Já no que diz respeito aos resultados esperados, embora o núcleo de extensão/comunicação tenha trabalhado nesse sentido, alguns não foram possíveis ser visualizados, haja vista o curto período de interação entre a comunidade e o CORAJE. Assim, dentre os resultados elencados no projeto, somente tornou-se plenamente real o de ―Despertar uma visão crítica nos acadêmicos de Direito, a fim de que eles o compreendam como um instrumento de transformação social.‖. Todavia, espera-se que a relação com comunidade tenha despertado em seus habitantes a construção coletiva para a efetivação dos Direitos Humanos e do acesso fácil, democrático e consciente à Justiça‖ (vide projeto, anexo VII).

No que concerne à metodologia explicitada no projeto submetido à analise da PREX, as interações mencionadas neste item se deram efetivamente, como exemplificado pela oficina proposta para o III ciclo de ―encorajamentos‖ (anexo VI), momentos esses proporcionados exatamente para os fins ali perquiridos. Já a pesquisa de campo não foi realizada da forma como se planejava, pois que não se trabalhou junto a ONG‘s, sindicatos ou com órgãos estatais, mas tão somente com a comunidade e, inicialmente, com a associação de

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moradores da Vila São Francisco Zona Norte. A escolha da comunidade se deu de acordo com o prescrito no projeto, uma vez que se baseou na percepção das demandas enfrentadas pela população local e, nessa ocasião, foi possível vislumbrar a viabilização da atuação extensionista pretendida pelo núcleo (nesse sentido, segue em anexo o relatório da primeira visita à comunidade escolhida, a Vila São Francisco, Zona Norte de Teresina, anexo XI). Também não foi possível a formação de núcleos temáticos de acordo com as demandas da comunidade, como proposto no projeto, devido ao curto período de interação com a Vila São Francisco, ainda que essa tenha sido a intenção do núcleo, conforme mostra o plano de ação elaborado para a prática de extensão/comunicação do CORAJE. (anexo XII). E no tocante à interação com a comunidade e ao aprofundamento dos estudos sobre os temas relativos à pratica desejada pelo núcleo, cabe salientar que as atividades ocorreram de acordo com projeto, culminando tais estudos na produção de alguns artigos, devidamente apresentados no II Seminário de Extensão - ―Extensão Universitária: grandes áreas, demandas e responsabilidade social‖ (anexo XIII). Ainda que houvesse uma docente assinado o projeto como coordenadora, a professora Doutora Shara Jane Holanda Costa Adad, a função por ela desempenhada se aproximou mais de uma orientadora, cujas valiosas lições dadas nos seus encontros com os membros do núcleo (embora esporádicos) e o incentivo à pesquisa e à sistematização das atividades do projeto foram relevantes para o desenvolvimento do CORAJE. Dessa forma, não se seguiu à risca, na prática, o proposto no projeto no que concerne à coordenação ou colaboração. Com relação à Disseminação dos Resultados esperada pelo projeto, algumas metas foram alcançadas, outras não. A produção de textos que denotassem a prática do projeto foi realizada (anexos XIII), assim como a realização de oficinas de interação com a comunidade (anexos VIII, IX e X) e no âmbito da própria universidade, tais como os ―encorajamentos‖, as Semanas do CORAJE, o mini-curso intitulado ―A crítica da crítica crítica: a sagrada família jurídica‖, ministrado pelos mestres e Assessores Jurídicos Populares Luiz Otávio Ribas e Ricardo Prestes Pazello (anexo XIV), entre outros eventos, como forma de fomentar o debate e apresentar a proposta da AJUP para a comunidade acadêmica. Entretanto, não se concretizou uma produção mais densa, que resultasse na confecção de uma revista científica ao fim dos ciclos de interação com a comunidade, como desejado pelo projeto.

A avaliação das atividades também não cumpriu com o que se pretendia no projeto, uma vez que não se baseou em freqüências de participação dos membros do núcleo

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ou dos moradores da comunidade. Foi através da relatoria de algumas atividades, bem como da sistematização das impressões dos assessores jurídicos populares do CORAJE sobre tais eventos que se procedeu a avaliação das práticas do projeto. É valido ressaltar que embora não tenham sido condensadas ou até mesmo registradas essas impressões ou avaliações, o grupo buscou incessamente realizar a autocrítica quando de sua auto-avaliação, a fim de avançar em sua práxis e desempenhar melhor suas tarefas. O cronograma proposto no projeto não foi cumprido, haja vista que a atividade extensionista proposta pela AJUP é um trabalho de médio e longo prazo e que o CORAJE demorou a se aproximar da comunidade por motivos a serem em breve tratados neste trabalho. A Universidade Estadual do Piauí, não mais ignorando a existência do projeto, então, contribuiu, de forma restrita (de acordo com seus recursos, diga-se de passagem, precários), para o desenvolvimento das atividades do CORAJE. Foram apoios como a concessão de algumas verbas para o deslocamento dos membros aos encontros de estudantes e de assessorias, bem como de infra-estrutura básica e alguns espaços físicos nas suas dependências para a realização de eventos e encontros. Embora o projeto aprovado pela PREX da Universidade Estadual do Piauí não tenha sido efetivamente concretizado em todos os seus termos, restou ao projeto CORAJE a sensação de ter realizado, dentro de seus limites e possibilidades, a práxis emancipatória proposta pela AJUP, vislumbrando em sua atuação a tentativa de alcançar seus propósitos de transformação social.

4.5 A II Semana do CORAJE: em busca da renovação do Corpo

Com a certeza de que o desafio de vivenciar a experiência da Assessoria Jurídica Popular era constante e trabalhoso, se fazia necessário que o Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil crescesse, se fortalecesse e se renovasse. Isso porque a atividade extensionista proposta pela AJUP é árdua, haja vista seu engajamento às maiorias oprimidas e sua conduta de combate aos privilégios legitimados pelo paradigma capitalista de sociedade. Nesses termos, será sempre preciso a adição de forças para essa luta permanente, enquanto as injustiças perdurarem. Some-se a essas circunstâncias a provisoriedade da atuação dos estudantes em um núcleo de assessoria jurídica universitária popular, dada sua estadia temporária no âmbito

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acadêmico, correspondente ao prazo para a conclusão da graduação. Nesse sentido, se é desejo que o núcleo permaneça ativo na universidade, ainda que alguns de seus membros tenham que se desligar, é preciso renovar o corpo discente que dele faz parte. Nesse intuito, foi realizada a II Semana do CORAJE, no campus Poeta Torquato Neto, UESPI, em Teresina, com a proposta de convidar mais uma vez a comunidade acadêmica a construir a extensão por ele pretendida (ver proposta e folder da II Semana

anexos XV e XVI). Todavia, renovar também não é fácil. Por mais que se procure trabalhar com a afetividade, com o rompimento da frieza e das barreiras incrustadas em nossos gestos e ações pela criação, cultura e educação que recebemos ao longo de nossas vidas, renovar pressupõe envolvimento político, entrega e vontade subjetiva de subversão e transformação do instituído para a construção do novo. É preciso inclinação, desejo e afinidade com os propósitos de mudança social. Dessa forma, não obstante a carga política e afetiva acumulada quando de sua realização, a II Semana do CORAJE não logrou êxito em sua tentativa de renovação, pois que

o Corpo infelizmente permaneceu o mesmo de antes, sem braços e pernas a mais, dispostos a extensionar/comunicar.

4.6 O Encontro com a comunidade: a “descoberta” da Vila São Francisco – Zona Norte de Teresina.

Depois das vivências e acúmulos adquiridos ao longo dos ―encorajamentos‖ e da interação com outros núcleos de AJUP, o projeto CORAJE já se julgava (na verdade, ansiava) capaz de estabelecer a relação de extensão/comunicação com a comunidade para a prática da educação popular em direitos humanos. Por mais que sentisse necessidade de aprofundamento teórico, o núcleo partia da idéia de que o diálogo é uma constante construção, pois que se materializa espontaneamente e de acordo com as demandas dos interlocutores. Dessa forma, o projeto convenceu-se de que jamais estaria completamente preparado para a atividade a que

se propunham e que, portanto, não havia mais porque hesitar: era hora de colocar a ―cara‖ no mundo e dar o primeiro passo rumo à ―desmuralização‖ e compartilhamento do conhecimento

e do desejo de transformação. Entretanto, havia obstáculos: qual seria a comunidade eleita para o desenvolvimento de sua práxis de educação popular? Que critérios seriam utilizados para a

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escolha da comunidade? Por onde começar? Como proceder? Essas são questões suscitadas no desenrolar da AJUP que denotam a iniciação e inexperiência dos acadêmicos na construção de uma proposta nova, até então por eles desconhecida; são características próprias de uma atividade autônoma, gerenciada por estudantes. São experiências que servirão de aprendizado e de parâmetro para toda a prática da AJUP. Assim, com o propósito de responder a essas questões e de iniciar de fato a extensão/comunicação, os membros do projeto dirigiram-se à sede da Prefeitura Municipal da cidade de Teresina para a coleta de alguns dados objetivos acerca de comunidades periféricas da capital. Eram dados como localização, renda per capta, infra-estrutura do bairro, etc. Tentou-se analisar comunidades de todas as regiões da cidade e de posse desses dados, os membros se dividiriam em grupos para visitação às comunidades selecionadas. Contudo, quanto mais se concretizava a possibilidade de aproximação da comunidade, mais dúvidas e inquietações eram levantadas. Era preciso estar atento para a forma de abordagem ou de aproximação da comunidade, evitando-se posturas intervencionistas. O espaço da comunidade é o espaço do outro e, como tal, não pode e nem deve ser invadido. Nesse sentido, foram sistematizados alguns tópicos norteadores para o diálogo que se pretendia empreender, com o intuito de ―sentir‖ a comunidade e suas demandas, partindo-se da percepção do ambiente e da fala de seus moradores. Era tudo muito empírico, porém, baseado na horizontalidade e no respeito ao outro e à sua realidade. O ponto de chegada, como pontuado em debate interno do núcleo, seria a associação de moradores de cada bairro, se houvesse, ou a liderança representativa destes sujeitos. Isso porque se esperava desse primeiro contato a visualização de um panorama sócio-politico-cultural da comunidade e acreditava-se que tais movimentos representativos da localidade seriam o ponto de convergência de seus conflitos e interesses. Assim foi feito e ao fim das visitações, optou-se pela Vila São Francisco, situada na zona norte da capital piauiense.

Como se deu essa escolha? Como parte da visita, era imprescindível que o projeto se mostrasse para a comunidade de forma aberta e clara, ou seja, que sua proposta fosse efetivamente demonstrada e que seus propósitos fossem captados por essa comunidade. Na ocasião da visita à Vila São Francisco, os estudantes sentiram o entusiasmo dos líderes comunitários a respeito da proposta da AJUP e logo foram contagiados nesse primeiro contato (vide anexo XI), fato que não aconteceu de forma perceptível quando da visita às outras comunidades. Parecia, dessa forma, que o projeto tinha encontrado a comunidade e que a

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comunidade tinha encontrado o projeto e nessa reciprocidade esperava-se a formação de um forte vínculo e, derivados dele, bons frutos. Escolhida a comunidade, o núcleo se deteve à formulação de um plano político e pedagógico de aproximação da comunidade (anexo XII), que se realizaria por meio de oficinas, dinâmicas e diálogo. Concomitantemente, o projeto passou a fazer visitas esporádicas à comunidade, porém sem estabelecer a relação extensionista/comunicativa de forma efetiva. Após longo tempo para a construção deste plano, o núcleo sentia-se receoso de intentar nova visita-comunicação com a Vila São Francisco, dessa vez para iniciar suas atividades, pois que já sentiam que o seu relativo afastamento poderia ter ―esfriado‖ o inicio da relação. Ademais, as pessoas que compunham a Associação de moradores à época da primeira visita não ocupavam mais aqueles cargos e encontravam-se, de certa forma, afastados dos moradores da comunidade. Assim, era como se tivesse perdido o elo inicial estabelecido entre o projeto CORAJE e a Vila São Francisco. O processo de aproximação da comunidade escolhida voltava à estaca zero. Era preciso restabelecer o vínculo. Após algumas tentativas frustradas de retomada da relação, o núcleo conseguiu promover contato com o grupo de jovens da Igreja Católica do bairro. Interessados em ver vingar a parceria entre o projeto e a comunidade, os jovens marcaram novos encontros, onde se deram as primeiras oficinas (anexos VIII, IX e X), que tratavam da necessidade da construção coletiva e tentavam frisar a proposta da assessoria jurídica popular bem como a importância de uma convivência harmoniosa e saudável entre CORAJE e Vila São Francisco, com respeito às limitações e diferenças de cada grupo. Infelizmente, se tornava cada vez mais inviável conciliar todas as atividades do projeto, excepcionalmente pelo desligamento de grande parte de seus membros devido à proximidade da conclusão de suas graduações e conseqüentes demandas pessoais. Desse modo, as visitas à comunidade passaram a ser escassas e o fim do primeiro ciclo de atividades (oficinas) foi inevitável. Entretanto, a pouca troca de experiência entre os dois grupos foi demasiadamente enriquecedora e inspiradora, ratificando para os membros do núcleo o potencial transformador do diálogo baseado na horizontalidade e no respeito ao espaço do outro.

4.7 A eclosão da greve de professores da UESPI e o envolvimento do CORAJE com o Movimento Estudantil.

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Era o inicio de tempos difíceis para o projeto CORAJE: não bastasse a não renovação de membros do núcleo, houve ainda relativa dispersão de outros membros que o compunham, por motivos diversos. O Corpo começava a se desintegrar (experiência também muito vivida pela maioria dos núcleos de AJUP). Eis que, em meados de 2008, a conjuntura política interna da Universidade Estadual do Piauí apontava para a paralisação de suas atividades acadêmicas. Era o estopim para o movimento grevista, que denunciava as mazelas históricas que assolavam a instituição e o quadro geral de abandono visível em sua própria estrutura física. Diante desta triste realidade, era gritante a necessidade de movimentação estudantil no sentido de apoio ao movimento reivindicatório em curso, uma vez que cabe também aos estudantes organizados e politizados a luta por uma universidade de qualidade, apta à construção do saber, por meio da plena funcionalidade de suas atividades, bem como da oportunização do debate e do desempenho do papel desta instituição na transformação social. Na falta de condições mínimas até para sua existência enquanto instituição de ensino superior, a UESPI urgia (e definitivamente ainda urge) por um redimensionamento político e estrutural e pela revitalização de seus espaços. Nessas circunstâncias, intenso foi o rompimento dos estudantes de vários cursos com o silêncio e a inércia reinantes no âmbito acadêmico que, dessa forma, mobilizaram-se e foram às ruas na busca pela concretização dos apelos da instituição universitária em que se inseriam. O projeto CORAJE, como um movimento também organizado de estudantes que tinha como algumas de suas bandeiras a reformulação social e universitária, então, incorporou-se ao movimento estudantil de forma concreta. Desse modo, grande foi o envolvimento político de alguns dos poucos membros que ainda restavam no projeto, acarretando assim na suspensão de suas atividades extensionistas propriamente ditas. Não se pode negar que a participação no movimento de politização e de renovação da universidade é pauta patente dentre as prerrogativas ajupanas, implicando, dessa forma, na inarredável participação do projeto CORAJE nesta empreitada no contexto político e histórico que se desenhava.

Ao fim da greve, muitas ainda eram as reivindicações a serem levantadas, surgindo assim a necessidade de constantes diálogos e discussões entre os discentes uespianos a esse respeito. Nesse cenário de profunda redefinição do papel dos estudantes na universidade e na construção de um projeto de sociedade justa e igualitária, era urgente também a reconfiguração do DCE (Diretório Central dos Estudantes), órgão este

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eminentemente político, que na realidade da Universidade Estadual do Piauí era gerido por um grupo de pessoas que sequer fazia parte da relação de discentes da instituição e que tinha como único objetivo a confecção de documentos estudantis que lhes revertessem lucros, diga- se de passagem, vultosos. A intensa movimentação pela destituição do DCE ilegítimo e pela causa da reestruturação universitária resultou na instituição do Coletivo M.E.U. (Movimento Estudantil da UESPI), cuja parte de seus membros provinha do projeto CORAJE. A entrega às atividades emergentes do Coletivo de estudantes da Universidade Estadual do Piauí por parte de alguns dos membros do CORAJE e a não renovação de seu quadro de extensionistas acabaram por fragilizar a sistematização e realização da prática de educação popular em direitos humanos do núcleo e o projeto atravessou uma crise que culminou na sua quase total desintegração. Longe da intenção de ressaltar as conseqüências negativas que o envolvimento do projeto na movimentação estudantil na universidade pode ter acarretado, busca-se esclarecer o quão difícil é a militância em nome da viabilização de novos paradigmas que tenham por escopo a instituição do desenvolvimento e da plena dignidade humanos. Especialmente quando se trata de uma militância estudantil, que não conta com apoio, seja financeiro, cultural, ou social, dos demais setores da sociedade. Entretanto, para além de lamentações, é de se salientar o ganho de vida, de experiência e de companheirismo que se adquire quando do engajamento político do estudante universitário nas lutas por aspirações sociais de justiça.

4.8 A Adesão à Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária (RENAJU)

Ainda que o CORAJE estivesse na iminência de seus últimos suspiros, seus membros encontraram forças pra persistir nas atividades do projeto e retomaram-nas após um reencontro que tinha como finalidade a decisão dos rumos da prática extensionista do núcleo. Nesse encontro optou-se por um maior comprometimento dos membros com o projeto e uma de suas primeiras ações foi a participação em mais um dos encontros de Assessoria Jurídica Universitária: o ENNAJUP Fortaleza, em 2009. Movidos pelo desejo de fortalecimento do vinculo entre os acadêmicos do núcleo e as atividades ajupanas, os membros do projeto viram nesse encontro a possibilidade de acúmulo político e de vivências que inspirassem e dessem fôlego para sua prática. Mas como não podia ser diferente, a pauta da atuação da RENAJU era discussão permanente nos espaços

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desses encontros. Na construção de novas perspectivas para o projeto, o CORAJE, então, retomou o debate acerca da possibilidade de adesão à RENAJU, porém com o intuito de problematizá-la dentro dos limites de sua atuação. Embora o projeto se considerasse uma das vozes dissonantes dentro do imenso e não tão heterogêneo grupo de assessorias jurídicas universitárias populares, o CORAJE acreditava ser por demais relevante a atuação política em rede dos núcleos de AJUP. Veio então o ERENAJU Teresina, em 2010, o encontro próprio para a discussão e construção da RENAJU. O CORAJE, como um dos núcleos de AJUP da cidade sede do encontro naquele ano, não podia se esquivar não só da participação, mas também da efetiva construção do evento (anexo XVII). Nesse sentido, o diálogo acerca de sua configuração no quadro de núcleos pertencentes à rede voltava à tona e de forma definitiva. Nessas circunstâncias, os integrantes remanescentes do projeto, após incansáveis conversas, optaram pela adesão do núcleo à RENAJU, materializada pelo envio de uma carta à rede comunicando tal decisão (anexo XVIII) e pela deliberação dos demais projetos presentes no ERENAJU acerca do tema. Estava consagrada, então, a participação do projeto CORAJE nas decisões, construções e rumos da Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária.

4.9 Em suma, o CORAJE.

Afinal, o que é ou quem são o CORAJE? O que foi ou que pretendeu ser? O CORAJE ainda é? Essas são perguntas reincidentes ao longo da atuação do Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil. Não há como se furtar delas e da busca de suas respostas. Afinal, são de pessoas, humanos, com propósitos grandes e até revolucionários, que se compõe um núcleo de AJUP. Contudo, são pessoas que vêm e que vão. Essa é uma característica peculiar à AJUP: embora sempre tão carente de braços e pernas fortes e dispostos a lutar, ela não pode se desfazer da transitoriedade da contribuição de seus assessores. Daí, são muitas e diferentes as concepções que dão forma a cada núcleo; cada núcleo é o que seus componentes pensam, são e fazem enquanto parte integrante dele. O CORAJE pretendeu ser um núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular enquanto extensão/comunicação de educação popular em direitos humanos, prática essa que

79

visa a emancipação e transformação social e o reconhecimento da cultura popular como legítima, bem como sua libertação das opressões existentes, em uma atuação conjunta de exercício de alteridade e de amor. Hoje o Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil é composto por poucos, porém comprometidos estudantes de direito, que lutam por fazer o projeto permanecer ativo na vida acadêmica. Ontem foi um grupo de estudantes de direito não menos comprometidos, sonhadores e idealizadores, que nutridos por sua utopia de ver nascer na terra tempos de constante primavera, tomaram iniciativas, derrubaram muros, entregaram-se, cresceram, dialogaram, transformaram a si mesmos e a outros que se permitiram transformar. Esses estudantes, CORAJOSOS (adequadamente alcunhados), são hoje homens e mulheres novos, munidos de esperanças e possibilidades para a construção do inédito viável. Foram militantes da vida humana ontem, o são hoje e certamente o serão sempre. ―Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos. E sonhos não envelhecem.‖

80

5 CONCLUSÃO

―Nunca se vence uma guerra lutando sozinho‖, já cantava e embalava a outros o poeta Raul Seixas. Não à toa essa foi a canção escolhida para tema da I Semana do Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil: ela, com seus demais versos, representa muito da vivência de um núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular. O verso acima destacado, especialmente, é por demais emblemático, pois denota a necessidade de interação de pessoas e integração de um corpo, com braços e pernas ativos, para a construção de uma nova realidade sociocultural, para que outros tempos sejam possíveis. Esta canção nos revela, dessa forma, a força potencialmente transformadora que reside em um empreendimento coletivo, na união de esforços, na comunhão de ideais. A proposta da Assessoria Jurídica Universitária Popular se estrutura a partir dessas premissas e aponta para conversão das relações sociais individualistas em construções que tenham por finalidade o bem-estar comum. Nesse sentido, a Assessoria Jurídica Universitária Popular procura instaurar um projeto de sociedade efetivamente democrática, baseado no fortalecimento da organização dos sujeitos de direitos e no reconhecimento da cultura popular como uma criação legítima, simultânea a qualquer outra produção realizada no seio social e a ela equiparada. No processo de sistematização das implicações relacionadas pela AJUP, evidencia-se seu conteúdo crítico, uma vez que no centro de sua metodologia verifica-se uma nova conduta humana, baseada no respeito ao saber e às vivências do outro, conduta esta que vai de encontro às práticas estabelecidas e afirmadas pelo capitalismo. Assim, a horizontalidade intentada pela práxis educativa emancipatória pressupõe a superação das regras positivistas de compreensão do direito e o redimensionamento político do conhecimento jurídico, de modo a aproximá-lo da realidade social e dos anseios dos grupos oprimidos.

Nesse cerne, verificou-se nesse trabalho que a prática inovadora e libertária da AJUP também se contrapõe às práticas extensionistas jurídicas tradicionais, na medida em que apresenta a construção dialógica do direito como forma de ultrapassar a cultura de subjugamento do conhecimento do outro. Pauta-se nessa proposta a horizontalidade e reconhece-se o outro como igual, adotando o pluralismo de idéias e construções como paradigma a ser estabelecido. Nesse sentido de abertura ao saber e à produção do outro, evidenciou-se o questionamento também da validade do papel desempenhado pela universidade enquanto

81

instituição social, pois que na vigência da fragmentariedade da construção do conhecimento e do seu aprisionamento ao âmbito acadêmico, esta instituição não mantém qualquer afinidade com a realidade posta, que negligencia e omite as opressões experimentadas pelas classes marginalizadas, apartadas de seus frutos acadêmicos. Dessa forma, buscou-se esclarecer neste trabalho que a Assessoria Jurídica Universitária Popular prima pela formação de uma identidade política desenvolvida pelo diálogo entre discentes e comunidade, para que a partir dessa construção dialética, esses sujeitos possam ser responsáveis por seu próprio caminhar histórico, pelo seu fazer político, libertando-se de suas amarras opressoras, que lhe submetem á indignidade e à subvida. Objetiva-se, portanto, a mobilização política dos atores sociais engajados no projeto de transformação social e o resgate de sua condição humana materializado na efetivação dos direitos humanos e no exercício da cidadania. Estes são também os ideais do projeto CORAJE Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil uma vez que consiste ele em núcleo de extensão/comunicação de educação popular em direitos humanos e, como tal, adota a metodologia ajupana. Procurou-se, então, relatar sua trajetória em torno destes ideais e a sua atuação política capaz de transformar à universidade, ao direito nela construído e, de forma intensa, aos estudantes nele inseridos, agora assessores jurídicos populares. Longe de atribuir a si a pretensão de encerrar em suas propostas a solução para o mundo de injustiças e de opressão do homem pelo homem com que nos deparamos, a Assessoria Jurídica Popular pretende tornar possível a utopia da igualdade, liberdade e fraternidade, enterrada nos discursos revolucionários de 1789, na França, apontando encaminhamentos e práticas político-pegagógicas para a viabilização do inédito: homens e mulheres, todos eles, vivendo sob a plenitude humana de ser e estar no mundo.

82

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86

WOLKMER, Antonio Carlos. Pluralismo jurídico: fundamentos de uma nova cultura no direito. 3. ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 2001.

87

ANEXO I Logomarca CORAJE

87 ANEXO I – Logomarca CORAJE

88

ANEXO II A construção da Logomarca do CORAJE

CORAJE Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil

1. Introdução

Cliente: CORAJE Objeto: Logomarca Data: Setembro de 2007

A proposta é bifocal, sendo os objetos: A Justiça e a população. A intercalação dos

dois nos remete a idéia de ―Justiça Popular‖, patamar constitucional regido pelo livre acesso

ao judiciário. A idéia de ―corpo‖ está agregada ao ―popular‖, pois nada mais massivo que o

povo.

2. Composição

A composição segue o uso de linha artística. Estilizando e unido sutilmente duas

imagens. Outro ponto é o alto contraste entre a cor forte da fonte e a simplicidade do

grafismo. Uma breve leitura do grafismo nos dá a idéia de movimento. Movimento que segue

o sentido esquerda-direita. Para funcionar de conta-peso e equilíbrio, passa a compor a marca

o nome ―CORAJE‖, para o qual foi escolhida fonte de curvatura orgânica.

3. Justificativa

A imagem

O desenho em linha artística traz a imagem da justiça.

escolhida fonte de curvatura orgânica. 3. Justificativa A imagem O desenho em linha artística traz a

89

O detalhe a ser observado é que a figura de Têmis surge espontaneamente das marcas

dum rosto:

figura de Têmis surge espontaneamente das marcas dum rosto: A justaposição da imagem de Têmis e

A justaposição da imagem de Têmis e o rosto de um brasileiro qualquer, que traz na

face as marcas da luta e do labor, é a combinação perfeita de: ―justiça‖ e ―povo‖. Uma justiça que nos reflete o rosto de cada cidadão. Um rosto cansado, assim como uma justiça ainda incompleta, onde ambos almejam a plenitude do seu propósito.

onde ambos almejam a plenitude do seu propósito. O nome ―Coraje‖ passa a incorporar este ―rosto‖.

O nome ―Coraje‖ passa a incorporar este ―rosto‖. Delimitando com o ―C‖ um esboço de orelha, e com o ―E‖ secionado uma parte do nariz.

As cores

O vermelho é a cor acolhida pelo direito. E também denota ―paixão‖, pois como espectro curto tem intensidade e demora mais tempo na lembrança. A variação ―vinho‖ faz

90

com que as partes assim coloridas do nome também se integrem ao gráfico. Visto que o ―vinho‖ é composto por preto e vermelho, tornando estes elementos comuns à imagem.

Complementos

Um detalhe que merece destaque é a gota que escorre do olho esquerdo e faz pingo no ―J‖, ou o inverso. A lágrima representa a justiça que escapa dos pratos de Têmis, tanto quanto as injustiças choradas por nosso povo. Lágrima que agora encontra amparo num nome:

CORAJE.

3. Orçamento

Item

Valor

Quantidade

Total

Criação Logomarca.

R$ 000,00

01

R$ 000,00

Total final: R$ 000,00

Obs.: Todas as propostas aqui elencadas devem passar por apreciação e estão sujeitas modificações, adições e subtrações de conteúdo.

P.S.: Como eu estou temporariamente fora do mercado, esta proposta vai como escambo. Se for aprovada vocês apenas ficam me devendo um favor.

Zorbba Igreja

91

ANEXO III Primeira Semana do CORAJE

91 ANEXO III – Primeira Semana do CORAJE

92

92

93

ANEXO IV Cartaz do segundo ciclo de encorajamentos

93 ANEXO IV – Cartaz do segundo ciclo de “ encorajamentos ”

94

ANEXO V Cartaz do segundo ciclo de encorajamentos

94 ANEXO V – Cartaz do segundo ciclo de “ encorajamentos ”

95

ANEXO VI Proposta de oficina III ciclo de encorajamento

PROPOSTA DE OFICINA

TEMA: “Direitos Humanos, Cidadania e Movimentos Sociais”

OBJETIVO:

De início, a proposta inicial era a realização de 02 oficinas, uma abordando ―Direitos Humanos e Cidadania‖ e outra ―Participação e Mobilização Popular e Movimentos Sociais‖, entretanto por imprevistos em relação a tempo e planejamento, decidiu-se por fazer um encorajamento só que pudesse abarcar os referidos temas. O objetivo passou a ser a problematização do(s) discurso(s) dos Direitos Humanos, dentro da ótica da cidadania, e perceber os atores sociais envolvidos no processo de ressignificação deste conceito, a partir da efetivação dos Direitos Humanos, quais sejam os Movimentos Sociais. Suscitar as diversas formas colocadas como de cidadania, criticar a idéia de cidadania (que geralmente se reduz no ato de votar) e ampliá-la para um conceito de cidadania coletiva que insurge através da pressão e mobilização dos movimentos Sociais. Em outras palavras,

"explica-se, assim, porque o conceito liberal de cidadani circunscreve-se ao âmbito da representação em detrimento da participação. É que esta implica a necessidade de associação dos cidadãos (o que fere o pressuposto liberal do homem atomizado) e implica, também a politização da sociedade civil (o que fere o pressuposto liberal da sociedade civil como lugar destinado às relações econôpmicas privadas)" (ANDRADE, 2003).

Por fim, estimular nos participantes a reflexão sobre a realidade, no tocante às violações constantes de Direitos Humanos, e nos questionarmos acerca das possibilidades colocadas como de mudança dessa realidade, tal como reafirmar as ações dos Movimentos Sociais e Populares na construção de estatégias para efetivação dos Direitos Humanos. Valendo-se de GOHN,

"A consciência gerada no processo de participação num movimento social leva ao conhecimento e reconhecimento das condições de vida de parcelas de população, no presente e no passado. Os encontros e seminários contribuem para a formação desta visão que historiciza os problemas. Este conhecimento leva à identificação de uma dimensão importante no cotidiano das pessoas, a do ambiente construído, do espaço gerado e apropriado pelas classes sociais na luta cotidiana" (GOHN, 2004)

96

METODOLOGIA:

1º momento: Exibição dos vídeos:

Sonho real Uma História de Luta pela moradia (Trecho 10 minutos);

História de Luta pela moradia ( Trecho – 10 minutos) ; Imagem do Filme 'Sonho Real'

Imagem do Filme 'Sonho Real'

Nas terras do bem-virá (Trailer 5 minutos).

 Nas terras do bem-virá ( Trailer – 5 minutos). Imagem do Filme 'Nas Terras do

Imagem do Filme 'Nas Terras do bem-virá

A idéia é iniciar a oficina com um momento de sensibilização dos participantes, através dos filmes, que denunciam as violações dos direitos humanos na sociedade, bem como entender o processo de mobilização popular como fator de transformação.

2º momento: Propiciando a discussão (7 minutos). Breve explanação sobre a idéia da oficina, os vídeos passados, e pedir para que se apresentem. Espalham-se vários recortes pelo chão, entre foto, poema e textos diversos sobre a temática. Cada participante fica livre para ler e refletir sobre os recortes, durante o intervalo de tempo, que é marcado através da música “Primavera nos Dentes” da Banda “Secos e Molhados”

3º momento: Discussão livre sobre a temática da oficina. Um participante, voluntariamente, escolherá um recorte que lhe chamou sua atenção, explica o motivo, e as reflexões que fez. Ao longo da fala de cada um, a idéia é que cada um, através das falas dos outros, mostre que recorte(s) lhe chamou mais atenção e a discussão se aprofunde. Os facilitadores deverão ter a sensibilidade de conduzir a discussão para as temáticas apontadas, além de pontos previamente elencadas pelo CORAJE.

97

MATERIAL UTILIZADO:

Música

Primavera Nos Dentes (Secos & Molhados) Composição: João Ricardo/João Apolinário

Quem tem consciência pra se ter coragem Quem tem a força de saber que existe

E no centro da própria engrenagem

Inventa a contra mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado Quem já perdido nunca desespera

E envolto em tempestade decepado

Entre os dentes segura a primavera (fonte: http://letras.terra.com.br/secos-molhados/70265/)

Recortes

1)

Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujeira e dos urubus. Cresceu, sofreu, trabalhou duro; conheceu homens, teve filhos.

Num livrinho, anotava com letra ruim suas tarefas e seus dias.

Um jornalista leu esses livros por acaso e Carolina Maria de Jesus converteu-se numa escritora famosa. Seu livro Quarto de Despejo, diário de cinco anos de vida num sórdido subúrbio da cidade de São Paulo, foi lido em quarenta países e traduzido para treze idiomas.

Cinderela do Brasil, produto do consumo mundial, Carolina Maria de Jesus saiu da favela, correu mundo, foi entrevistada e fotografada, premiada pelos críticos, agasalhada pelos cavalheiros e recebida por presidentes.

Passaram-se os anos. No inicio de 1977, numa madrugada de domingo, Carolina Maria de Jesus morreu em meio ao lixo e aos urubus. Ninguém lembrava da mulher que escrevera: “A fome é a dinamite do corpo humano.”

98

Ela, que tinha vivido de restos, pôde ser, fugazmente, uma eleita. Foi permitido a ela sentar-se à mesa. Depois da sobremesa, rompeu-se o encanto. Enquanto seu sonho transcorria, o Brasil continuava sendo um país onde a cada dia, 100 trabalhadores ficam lesados por acidentes de trabalho e onde quatro de cada dez crianças que nascem, são obrigadas a converterem-se em mendigos, ladrões ou mágicos para sobreviver.

Ainda que as estatísticas sorriam, as pessoas estão arruinadas. Em sistemas organizados ao contrário,,quando a economia cresce, cresce com ela a injustiça social. No período de maior êxito do "milagre" brasileiro, aumentou a taxa de mórtalidade infantil nos subúrbios da cidade mais rica do país. A subita prosperidade da petróleo no Equador trouxe televisão a cores em vez de escolas e hospitais

2)

―[

]

no plano geral, a principal contribuição dos diferentes tipos de movimento sociais

brasileiros dos últimos vinte anos foi na reconstrução do processo de democratização do país.

E não se trata apenas da reconstrução do regime político, da retomada da democracia e do fim do regime militar. Trata-se da reconstrução ou construção de valores democráticos, de novos rumos para a cultura do país, do preenchimento de vazios na condução da luta pela redemocratização, constituindo-se como agentes interlocutores que dialogam diretamente com a população e com o Estado.

[Os movimentos sociais] são fenômenos históricos decorrentes de lutas sociais.

Colocam atores específicos sob as luzes da ribalta em períodos determinados. Com as mudanças estruturais e conjunturais da sociedade civil e política, eles se transformam. Como numa galáxia espacial, são estrelas que se acendem enquanto outras estão se apagando, depois de brilhar por muito tempo. São objetos de estudo permanente. Enquanto a humanidade não resolver seus problemas básicos de desigualdades sociais, opressão e exclusão, haverá lutas, haverá movimentos. E deverá haver teorias para explicá-los: esta é a nossa principal tarefa e responsabilidade, como intelectuais e cidadãos engajados na luta por transformações sociais em direção a uma sociedade mais justa e livre. Com o tempo, portanto, as reivindicações são substituídas por ações políticas, refletindo o exercício de uma cidadania ativa, entendida esta como a realização autêntica da soberania popular, que pressupõe uma participação política do povo com real possibilidade de

decisão e transformação‖

) (

99

3)

O analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

4)

“O problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-se de um problema não- filosófico, mas político”

5)

as lutas dos trabalhadores por seus direitos, compreendendo-se popularcomo

algo ou atitude que podem trazer consigo um procedimento que incentive a participação das pessoas, ou seja, um meio de veiculação e promoção para a busca da cidadania, para a luta pelos direitos humanos. Popular como medidas ou políticas para ampliação de canais de participação das pessoas. Popular como todo tipo de atitude que possibilite a tomada de decisão da pessoa, ouvindo-se e implementando-se decisões e possibilitando novas formas de intervenção nos seus ambientes de vida.

Popular, assim, assume um cristalino posicionamento político e filosófico diante do mundo, arrastando para si a dimensão propositivo-ativa de encontro com os direitos das pessoas, com os direitos humanos. Popular como expressão de todo conjunto de atitudes em condições de assumir as lutas do povo e voltadas aos interesses das maiorias, resgatando a visão da mudança necessária para melhoria do mundo dos

das pessoas”

“(

)

direitos

e

da

vida

100

6)

100 6)

101

7)

101 7)

102

8)

A

educação ocupa lugar central na acepção coletiva da cidadania. Isto porque ela

se constrói no processo de luta que é, em si próprio, um movimento educativo. A cidadania não se constrói por decretos ou intervenções

externas, programas ou agentes pré-configurados. Ela se constrói como um processo interno, no interior da prática social em curso, como fruto do acúmulo das experiências engendradas. A cidadania coletiva é constituidora de novos sujeitos históricos: as massas urbanas espoliadas e as camadas médias expropriadas.

A cidadania coletiva se constrói no cotidiano através do processo de identidade

político-cultural que as lutas cotidianas geram.

O século XVIII trará mudanças nestas concepções. O racionalismo ilustrado, ao colocar toda ênfase na razão e nomear a história como evolução do espírito e autonomiada razão, propõe modificar a ordem social e política atuando sobre a consciência e a instrução. O sonho de transformação, através de uma razão ilustrada, ampliava o leque dos cidadãos, dos não-proprietários, passava pela constituição das classes populares como cidadãos, sujeitos de direitos. O fundamental estava numa reforma política, onde o homem se tornasse sujeito histórico capaz de modificar a realidade. E, para tal, ele precisava ser livre e consciente. A questão da cidadania se resumiria a uma questão educativa. Dentro desta questão estavam várias tarefas eminentemente pedagógicas. As diferenças sociais eram vistas como diferenças de capacidade.

O espaço e o tempo têm dimensões amplas no meio rural, à medida que fazem parte do universo de referência do cotidiano vivido. No urbano, estas categorias são desapropriadas do controle das pessoas. O tempo não é mais o meu, mas o do cronômetro da fábrica ou da instituição onde trabalho. Os espaços são restritos. O privado quase inexiste e o pouco que há tem que ser defendido com unhas e dentes contra as agressões e violência da cidade grande. O espaço público é um discurso. Na realidade ele se constitui mais em zonas de controle e disciplinamento do que em manifestações de apropriação coletiva. A consciência destas diferenças e a vontade de apropriação de espaços públicos, para atividades grupais ou o mero exercício de manifestações individuais, como uma praça para a prática de esportes, constitui um aprendizado que contribui para o desenvolvimento da consciência de cidadania no sentido do uso da coisa pública

103

9)

103 9)

104

10)

É difícil descrever com precisão qual a percepção que tem a pobreza dela mesma. Não se

trata apenas do estado de carência dos meios necessários à subsistência. Muito mais que isto,

os pobres se percebem muitas vezes, e suas metáforas expressam o sentido, de ―doença‖, de ―chaga social‖, de estigma. Como afirmam os próprios pobres em seu imaginário: ―a pobreza se confunde com sujeira, com desânimo, com impotência, com falta de interesse‖. O sentimento de impotência se revela na expressão : “quando se chega ao fundo da pobreza, se tem a sensação de se estar afogando e que se precisa de alguém para sair disto”. O pobre vê-

se como alguém que , reconhecendo suas carências básicas, não está, quase sempre, em

condições de superar a sua privação. Neste sentido, vale salientar, ao nível do simbólico, uma imagem que se cristaliza no Brasil, sobre a região Nordeste, muito difundida nos meios de comunicação e trabalhada no imaginário do brasileiro: uma região não rentável, onde cidades

e cidadãos são em geral pobres, ignorantes, ―atrasados‖ . Esta imagem –preconceito tem repercussões na vida social.

O estigma opera como um mecanismo de discriminação social. Reproduz a pobreza na

consciência daquele que é pobre, ao gerar culpa sobre a sua condição de pobre. Ser pobre numa sociedade que valoriza o êxito econômico e a ostentação conspícua, é o pior que pode

suceder a alguém. No passado, valores como a solidariedade, a decência, a honestidade, outorgavam prestígio social, mas, com o advento do mercado, perderam todo valor, porque não são susceptíveis de nenhum tipo de intercâmbio (Sennet, 1999). Portanto, ser pobre significa algo mais que uma mera condição social (Hernández, 2000,:138).

105

REFERÊNCIAS DOS RECORTES:

[1] GALEANO, Eduardo. Veias Abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

[2] GOHN, Maria da Glória. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

[3] http://www.consciencia.net/2004/mes/01/brecht-analfabeto.html

[4] BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 7. reimpressão. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

[5] MELO NETO, José Francisco. Educação popular em direitos humanos. In:

SILVEIRA, Rosa Maria Godoy et al. (Orgs.) Educação em Direitos Humanos:

fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2007.

[6] Arquivo pessoal

[7] MARTINEZ, Paulo. Constituição: legalidade versus realidade. São Paulo:

Moderna, 1991.

[8] GOHN, M.G. Movimentos sociais e educação. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

[9] VIANA, Natália. A Limpeza em Ribeirão Bonito. In: Revista Caros Amigos. Set.

2005. Número 25.

[10] LIMA, Jaime Benvenuto; ZETTERRSTRÖM, Lena (orgs.). Extrema pobreza no Brasil: A situação do direito à alimentação e moradia adequada. São Paulo: Loyola,

2002. 252 p. (Problemas sociais). ISBN 8515024594.

106

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema penal máximo versus cidadania mínima: códigos de violência na era da globalização. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003.

AZEVEDO, A. L. B. ; VALENCA, M. A. ; ANDRADE, A. G.

assessorias jurídicas populares junto aos movimentos sociais e às organizações populares. In: Congresso Latino-Americano de Direitos Humanos e Pluralismo Juridico, 2008, Florianópolis. Anais Do Congresso Latino-Americano De Direitos Humanos e Pluralismo Jurídico. Florianópolis : Editora Dom Quixote, 2008. v. 1.

Sobre a atuação das

GOHN, M.G. Movimentos sociais e educação. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

OLIVEIRA, Luciano. Os Direitos Sociais e Econômicos como Direitos Humanos:

problemas de efetivação.

107

ANEXO VII Projeto enviado à PREX

107 ANEXO VII – Projeto enviado à PREX

108

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO, ASSUNTOS ESTUDANTIS E COMUNITÁRIOS CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CCSA CURSO: BACHARELADO EM DIREITO

PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

APLICADAS – CCSA CURSO: BACHARELADO EM DIREITO PROGRAMA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA Teresina, Piauí. Março / 2008

Teresina, Piauí.

Março / 2008

109

Nunca se vence uma guerra Lutando sozinho, Cê sabe que a gente precisa entrar em contato Com toda essa força contida que vive guardada ( ) Coragem, Coragem, Se o que você quer é Aquilo que pensa e faz Coragem, Coragem, Que eu sei que você pode mais”

110

Lista de Siglas e Abreviaturas

AJUP Assessoria Jurídica Universitária Popular.

RENAJU Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias Populares.

ERENAJU Encontro da Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias

Populares.

ENNAJUP Encontro Norde-Nordeste de Assessorias Jurídicas Universitárias

Populares.

FENED Federação Nacional de Estudantes de Direito.

ENED Encontro Nacional de Estudantes de Direito.

ENAJU Encontro Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias.

ERED Encontro Regional de Assessorias Jurídicas Universitárias.

ERAJU Encontro Regional de Assessorias Jurídicas Universitárias.

111

SUMÁRIO

Lista de Siglas e Abreviaturas

110

1. Identificação da Responsável pelo Projeto:

112

2. Áreas Temáticas e Linhas de Extensão:

113

3. Resumo do Projeto:

114

4. Abstract:

115

5. Órgãos Envolvidos:

116

6. Recursos Humanos:

116

7. Localização:

118

8. Público Alvo:

118

9. Prazo de Execução:

118

10. Justificativa:

119

11. Objetivos:

121

12. Resultados Esperados:

122

13. Metodologia:

123

14. Plano de Trabalho Individual:

125

15. Disseminação dos Resultados:

126

16. Avaliação:

127

17. Cronograma

128

18. Recursos Financeiros:

129

112

1. Identificação da Responsável pelo Projeto:

Professora Doutora Shara Jane Holanda Costa Adad Centro de Ciências da Educação Campus Poeta Torquato Neto

Lotação:

matrícula:

Titulação:

cargo:

Endereço para correspondência:

Telefone para contato:

E-mail:

Celular:

Fax:

113

2. Áreas Temáticas e Linhas de Extensão:

Área Temática Principal:

Área Temática Secundária:

Linha de Extensão:

Direitos Humanos (3) Educação (4) Direitos Individuais e Coletivos (12)

114

3. Resumo do Projeto:

O Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil CORAJE se propõe a ser um programa de extensão acadêmica voltado para a educação popular em Direitos Humanos, cujo intuito é mitigar as formas e situações de violação destes direitos. O CORAJE pretende trabalhar com camadas menos abastadas da sociedade, para tentar garantir a efetivação dos direitos individuais e coletivos, de forma não assistencialista, mas emancipatória, no sentido de atuar como instrumento para que a comunidade, utilizando-se da consciência jurídico-política que possui, comprometa-se a se mobilizar para enfrentar suas dificuldades e as resolver, diferenciando-se assim da mera transmissão de conhecimento jurídico. O Projeto será uma forma de diálogo dos universitários com a sociedade. Para isso estimular-se-ão os estudantes através de leituras de um referencial teórico de Direito crítico e transformador que foge do dogmatismo e tecnicismo. Assim, pretensamente, o CORAJE vem a ser um programa jurídico-pedagógico que visa provocar mudanças em comunidades, pela efetivação dos direitos humanos, bem como mudanças na universidade, ao cultivar-se o hábito de refletir a função do Direito como meio para alcançar o ideal de uma sociedade justa e igualitária.

115

4. Abstract:

The Corp of Student Legal Assessor - CORAJE is about a proposal of program of university extension directed toward the education in Human Rights, in order to mitigate the ways and situations of violations of those rights. The CORAJE wants to work with less affluent sections of society to try to ensure the implementation of the individual and collective rights, of a not assistant form, but emancipator in order to serve as a tool for the community, using the legal and political consciousness that has, commit themselves to be mobilized to address their problems and resolve them, differentiating itself so the mere transmission of legal knowledge. The project will be a form of dialogue of the college students with the society. For this, it will stimulate students through reading of a theoretical benchmark of critical and transformer law, fleeing thus of the dogmatic and technical right. So, allegedly, the CORAJE has to be a legal and educational program that aims to cause changes in communities, through the implementation of human rights, as well as changes in the university, cultivating the habit of reflecting the function of law as a means to achieve the ideal of a just and egalitarian society.

116

5. Órgãos Envolvidos:

Pró-Reitoria De Extensão, Assuntos Estudantis e Comunitários (PREX).

Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA).

Coordenação do Curso de Direito

Execução: Comunidade Universitária

Apoio: Centro Acadêmico de Direito (CAD)

6. Recursos Humanos:

6.1.

Docente:

Profª Shara Jane Holanda Costa Adad Matrícula nº:

Lotação:

Endereço eletrônico:

Carga Horária:

Função: Coordenadora

6.1.

Discentes:

Andréia Marreiro Barbosa Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaboradora

Glaucia Stela Neve Tavares Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaboradora

Glauco Ventura Alves Neri Curso: Bacharelado em Direito Turno: Tarde Carga Horária: 10 h/a Função: Colaborador.

117

Jorge André Paulino da Silva Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaborador.

Juliana de Andrade Marreiros Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaboradora.

Lucas Vieira Barros de Andrade Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaborador.

Thiago Francisco Borges de Oliveira Curso: Bacharelado em Direito Turno: Noite Carga Horária: 10 h/a Função: Colaborador.

118

7. Localização:

As atividades de estudo referentes a embasamento teórico dar-se-ão no próprio campus Poeta Torquato Neto. As atividades de campo, por sua vez, dar-se-ão em bairro na Zona Norte de Teresina. A comunidade será escolhida pelos extensionistas ao longo da execução do projeto.

8. Público Alvo:

Diretamente:

Os estudantes do curso de Direito, uma vez que o CORAJE surge como uma alternativa de extensão universitária, e que pretende fomentar novas idéias sobre a Ciência do Direito. Uma parcela da comunidade, tendo em vista que a proposta é trabalhar com um grupo-amostra que seja um elo entre a Assessoria e a comunidade

Indiretamente:

A população da comunidade trabalhada como um todo.

9. Prazo de Execução:

Não há um prazo limitado de execução pelo fato de ser um programa continuado de educação, além do fato de ser um trabalho com uma comunidade, esta também interferirá no tempo do trabalho, que não se limita a ações pontuais e objetivos a curto prazo.

119

10. Justificativa:

Insatisfeitos com o Ensino Jurídico tradicional, percebendo a não- democratização dos Direitos na sociedade, os quais beneficiam os mais abastados em detrimento das classes mais oprimidas, alguns alunos do curso de Direito, da Universidade Estadual do Piauí, começaram a buscar formas alternativas de ver e realizar o Direito, a fim de utilizá-lo como instrumento fomentador da cidadania. Tais estudos os levaram a um conhecimento maior sobre Educação Popular 1 e Direitos Humanos 2 , bem como sobre leituras jurídicas voltadas para um Direito crítico e emancipatório 3 . Nesse contexto, conheceram relevantes trabalhos já realizados por Assessorias Jurídicas Universitárias Populares (doravante AJUP´s) 4 , que também foram estímulos para formação da nossa proposta, um projeto de extensão voltado para o trabalho com os objetivos de estimular a cidadania, e concretizar o Direito de uma forma diferente. Em virtude dos estudos feitos, o CORAJE tem como referencial teórico,estudos jurídicos que priorizem um Direito Crítico que perpasse o positivismo jurídico tradicional e o técnico-dogmático, tais como os estudos de Roberto Lyra Filho 5 , entre outros, da Nova Escola Jurídica Brasileira. Marilena Chauí descreve-a como “uma nova filosofia jurídica baseada em uma sociologia jurídica” 6 . A partir desta abordagem, o CORAJE busca a interdisciplinaridade, tanto por acreditar que o Direito não é neutro na sociedade, como o ensino tradicional prega, quanto por saber que ele também não é o único meio de transformação social. Assim, o CORAJE alia-se à educação popular, especialmente (mas não unicamente) à

1 DEMO, Pedro; GADOTTI, Moacir; BRANDÃO, Carlos Rodrigues (v. bibliografia)

2 O Que São Direitos Humanos?; Educando para os Direitos Humanos; Do Direito a Ter Direitos (v. bibliografia)

3 Direito Achado na Rua (v. bibliografia)

4 No Piauí, apenas como exemplo, temos os projetos: CAJUINA Centro de Assessoria Jurídica de Teresina, da UFPI Universidade Federal do Piauí; JA Justiça e Atitude, do ICF Instituto Camillo Filho; NAJUP Mandacaru Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular, do Centro de Ensino Unificado de Teresina CEUT; e o SAJUPP - Serviço de Assessoria Jurídica Universitária Popular de Picos da Universidade Estadual do Piauí campus de Picos.

5 O Que é o Direito?; Direito do Capital e Direito do Trabalho; O direito que se ensina errado; Karl, Meu Amigo:

Diálogo com Marx sobre o Direito (v. bibliografia)

6 CHAUÍ, Marilena. Roberto Lyra Filho ou da dignidade política do direito, Revista Direito & Avesso (1982),

p.28.

120

desenvolvida pelo pedagogo Paulo Freire 7 , para a prática crítica surgida com a reflexão dos estudantes do curso. Desta forma, o CORAJE pretende trabalhar em comunidades periféricas, de forma que a temática principal do contato com o restante da população seja percebida pelos alunos ao longo da pesquisa de campo. Daí a escolha do grupo pela não-delimitação inicial da comunidade a ser trabalhada e de se ter a temática específica de Direitos Humanos, pois as próprias comunidades darão as respostas aos alunos, e estes as escolherão de acordo com a necessidade e com os objetivos almejados pelo grupo com que irão desenvolver o programa. Nas comunidades, o CORAJE trabalhará com grupos de pessoas que mantenham um papel relevante na região, sejam chefes de associação de moradores, sejam donas de casa, sejam crianças e adolescentes e, respeitando os saberes da população, utilizará uma linguagem jurídica popular simples, entretanto não simplista. Trabalhando com estes grupos de pessoas, espera-se, que conscientizando-os das violações dos Direitos Humanos, consigam eles meios e mobilização necessários para lutar pela efetivação destes direitos, bem como repassar isto à comunidade, pois, “é preciso transmutar a linguagem jurídica para a linguagem do povo, tornando-a compreensível e real” 8 .

7 Pedagogia da Autonomia; Pedagogia do Oprimido; Pedagogia da Indignação; Extensão ou Comunicação?(v. bibliografia) 8 ARAUJO, Maurício Azevedo de; OLIVEIRA, Murilo Sampaio. Programa Juristas Leigos. In: Revista da AATR, nº 1, Salvador-BA, abril de 2003.

121

11. Objetivos:

Buscar uma interação entre a Universidade e a Sociedade;

Estimular os estudantes a pesquisar e refletir o Direito e o seu papel na sociedade;

Discutir, junto com a comunidade, os mais diversos problemas sociais que afetam a nossa realidade.

122

12. Resultados Esperados:

Construir coletivamente a efetivação dos Direitos Humanos em comunidades periféricas de Teresina;

Proporcionar um acesso democrático, fácil e consciente à Justiça;

Despertar uma visão crítica nos acadêmicos de Direito, a fim de que eles o compreendam como um instrumento de transformação social.

123

13. Metodologia:

O Projeto CORAJE trabalhará, inicialmente, da seguinte forma:

Interações:

É o momento inicial do projeto, nele reunir-se-ão os alunos do curso, no intuito de suscitar discussões sobre temas diversos e necessariamente introdutórios para o projeto, tais como: Educação Popular, Direitos Humanos, Assessoria Jurídica Popular, Movimentos Sociais, Ensino, Pesquisa e Extensão. As discussões dar-se-ão na forma de oficinas, ciclo de debates, palestras, valendo-se de vídeos, revistas, textos, dinâmicas, e outros meios.

Pesquisa de Campo:

Os estudantes pesquisarão, neste momento, em bairros periféricos de Teresina, a fim de perceber quais são as violações de Direitos Humanos sofridas por suas comunidades e como elas ocorrem. A pesquisa de campo dar-se-á tanto em órgãos públicos, como em entidades paralelas, como associações de moradores, ONG´s, sindicatos, movimentos sociais, e diretamente com a comunidade;

Escolha da comunidade:

Com os conhecimentos adquiridos na pesquisa de campo e a percepção dos problemas enfrentados pelas comunidades, o grupo discutirá acerca dos temas e abordagens a serem realizadas. Assim dentre os bairros visitados, escolherá um em que se vislumbre uma atuação viável. Além disso, decidir-se-á o local na comunidade onde acontecerão as atividades;

124

Formação dos Núcleos:

A Formação dos núcleos acontecerá após o conhecimento da realidade das comunidades visitadas e de acordo com as demandas percebidas, serão formados núcleos temáticos aprofundados (v.g., Meio Ambiente, Direitos Trabalhistas, etc.)

Aprofundamento de Estudos:

Ciclos de estudos, cuja temática versem prioritariamente, sobre Direitos Humanos, Educação Popular e Acesso à Justiça, e sobre os diversos aspectos relacionados a estes temas. Este ciclo de estudos será realizado em reuniões, na Universidade, através de debates de textos e jurisprudências. Espera-se que após este ciclo sejam produzidos textos, artigos, ou qualquer atividade que possa expor o conseqüente conhecimento adquirido;

Interação com a comunidade:

Ao utilizarem-se dos conhecimentos adquiridos com as interações e com o ciclo de estudos, haverá o contato com a comunidade. Respeitando-se o saber popular, deverá haver uma relação entre estudante e comunidade, de forma que o direito seja construído do modo mais pedagógico e igualitário possível. Esta relação deve ser baseada em um modelo não hierarquizado com a comunidade que não será vista como um objeto, mas como um sujeito desta relação e, por isso, estará no mesmo patamar dos estudantes. Buscando o modo mais envolvente, valendo-se de cartilhas, cordel, textos, músicas, dinâmicas, apresentações teatrais, vídeos, sempre se buscará colocar os participantes comunitários como sujeitos da construção dos seus Direitos, e não como receptores de modelos solidamente concebidos.

125

14. Plano de Trabalho Individual:

14.1. Coordenador:

Tem a função de acompanhar as atividades do grupo, fazer relatórios ou analisar os relatórios produzidos pelos extensionistas, orientar o embasamento teórico no ciclo de estudos, indicar bibliografias, construir, junto com os demais alunos, as oficinas, as interações; orientar metodologicamente a produção de textos e artigos bem como a Revista pretendida, no fim do ciclo.

14.2. Colaborador:

Tem a função de participar de todas as atividades; terá o compromisso de orientar os demais alunos nas oficinas e interações, produção e divulgação de relatórios ao fim do ciclo de oficinas e interações. e responderá pelo projeto no corpo discente da Universidade.

126

15. Disseminação dos Resultados:

Acredita-se que os objetivos do CORAJE serão disseminados da seguinte forma:

Produção de textos, e / ou artigos pelos participantes, a fim de apresentarem as experiências e aprendizados obtidos ao longo da realização do projeto e, desta forma, estimular a adesão de outras pessoas;

Realização de eventos como, por exemplo, debates, palestras, mini-cursos, e oficinas, construídos juntamente com a comunidade e voltados para ela;

Produção de uma revista ao fim de um ciclo de interações com a comunidade e estudos, que contenha relatórios das práticas realizadas e uma compilação dos textos produzidos antes e depois da visita à comunidade;

Participação em eventos na Universidade, buscando sempre mostrar o projeto aos alunos, a fim de motivá-los a participar. Faz-se importante a presença de membros do Projeto nos Encontros da RENAJU Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária, que é a união de entidades vinculadas a Instituições de Ensino Superior que prestam Assessoria Jurídica Popular. Esta rede configura-se hoje como uma possibilidade de trocas de idéias e experiências. A RENAJU realiza dois encontros anuais, o ERENAJU e o ENNAJUP, ambos tendo como sede uma das entidades membros. Além deles existem espaços da RENAJU nos encontros da FENED, são eles: O ENAJU, realizado durante o ENED e o ERAJU, realizado durante o ERED. 9

9 Vide Lista de Siglas e Abreviaturas. Dos encontros citados, os discentes proponentes do CORAJE já participaram do ERAJU, do ENAJU, e do ENNAJUP, todos no ano de 2007. A diferença do ERANAJU e ENNAJUP para o ENAJU e ERAJU é que os primeiros são encontros de formação política e debate sobre os mais variados temas pertinentes as AJUP´s; já os segundos são espaços para difusão das idéias das AJUP´s para o maior número possível de estudantes.

127

16. Avaliação:

A avaliação será feita por relatórios, em que constarão: a freqüência e participação dos estudantes e dos participantes da comunidade; as atividades desenvolvidas e a metodologia utilizada e a recepção dos estudantes e comunitários em relação ao projeto.

128

17. Cronograma

 

AGO

SET

OUT

NOV

DEZ

JAN

FEV

MAR

ABR

MAI

JUN

JUL

AGO

SET

07

07

07

07

07

08

08

08

08

08

08

08

08

08

Semana do CORAJE

 

X

                       

Interação

 

X

X

                     

Ciclo de Estudos

   

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

Pesquisa de Campo

     

X

X

                 

Definição dos Núcleos

         

X

               

Interação com a Comunidade

           

X

X

X

X

X

X

   

Produção de Trabalhos Referentes à

                     

X

X

 

Atuação do CORAJE

Construção da Revista

                       

X

X

ENNAJUP

     

X

                   

ERENAJU

             

X

           

129

18. Recursos Financeiros:

Micro-computador;

Livros;

Impressora;

Pen-drive com gravador de voz;

Resmas de papel A4.

TABELA ANUAL

 

a) Material de Consumo (material de expediente, descartáveis, etc):

 

Prioridade

Q ted

Discriminação

Vlr unitário (R$)

Vlr total

Barbante

10

rolos

 

R$ 4,30

R$ 43,00

Papel A4 p/ impressora

10

 

R$ 13,50

R$ 135,00

resmas

Papel ofício 02

3 resmas

 

R$ 15,00

R$ 45,00

Micro-Computador

1

 

R$ 1.450

R$ 1.450,00

Pen-drive com gravador de voz

1

 

R$ 169

R$ 169,00

Cartolina

50

 

R$ 0,40

R$ 20,00

Cartucho

p/

5

 

R$ 49,00

R$ 245,00

impressora colorido

Cola para papel

10

 

R$ 5,15

R$ 51,50