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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA

GS Nº 70008595852

2004/CÍVEL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL COTAS CONDOMINIAIS. EM PRINCÍPIO É DEVER DE TODO

COTAS CONDOMINIAIS. EM PRINCÍPIO É DEVER DE TODO CONDÔMINO PARTICIPAR DAS DESPESAS COMUNS DO CONDOMÍNIO. QUALQUER OBRIGAÇÃO É EXIGIVEL ATÉ O ESFORÇO MÁXIMO LEGITIMAMENTE ESPERADO DO OBRIGADO. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA GARANTIA DA DIGNIDADE HUMANA. SE O QUE ESTÁ EM JOGO É O PAGAMENTO DAS COTAS CONDOMINIAIS OU A SOBREVIVÊNCIA DE FILHO EM ESTADO VEGETATIVO EM DECORRÊNCIA DE ACIDENTE, SOBRELEVA JUÍZO DE VALORAÇÃO FAVORÁVEL À SEGUNDA. POSSIBILIDADE, EM SITUAÇÃO EXTREMA E SEGUNDO O CASO CONCRETO, DE INTERVENÇÃO JUDICIAL NA RELAÇÃO JURÍDICA DE DIREITO MATERIAL, COM VISTAS A, EQUACIONANDO-A, BUSCAR A SATISFAÇÃO DO DÉBITO, SEM AFRONTAR O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. DESCONSIDERAÇÃO DA NATUREZA “PROPTER REM” DA OBRIGAÇÃO, RELATIVAMENTE ÀS PARCELAS VENCIDAS NOS TRÊS MESES ANTERIORES À INTERVENÇÃO JUDICIAL. ESCALONAMENTO DE PAGAMENTO DAS COTAS RECENTES. INEXISTÊNCIA DE MORA ANTE À IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO. APELAÇÃO PROVIDA.

APELAÇÃO CÍVEL

DÉCIMA NONA CÂMARA CÍVEL

Nº 70008595852

COMARCA DE PORTO ALEGRE

IVONE GROSS DE LIMA

APELANTE

CONDOMINIO

EDIFICIO

APELADO

RESIDENCIAL JARDIM DO SALSO I

BLOCO PETUNIA

A CÓ R DÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Décima Nona

Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em prover a

apelação.

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Custas na forma da lei.

GS N º 70008595852 2004/CÍVEL Custas na forma da lei. Participaram do julgamento, além do signatário,

Participaram do julgamento, além do signatário, os eminentes Senhores DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (PRESIDENTE) E DES. MÁRIO JOSÉ GOMES PEREIRA.

Porto Alegre, 28 de setembro de 2004.

DES. GUINTHER SPODE, Relator.

R E L AT Ó RI O

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR)

IVONE GROSS DE LIMA recorreu da sentença que julgou procedente a ação de cobrança de cotas condominiais que lhe move CONDOMÍNIO EDIFÍCIO RESIDENCIAL JARDIM DO SALSO I – BLOCO PETUNIA.

Em suas razões a apelante admite estar inadimplente junto ao Condomínio, conseqüência de uma situação inesperada, pois seu filho sofreu um acidente de motocicleta em 1992, e leva uma vida vegetativa irreversível. Atualmente, com 25 anos de idade, não fala, usa fraldas e utiliza medicação de valor elevado, dependendo de cuidados, exigindo acompanhante 24 horas. Diante disto, todos os ganhos da autora que percebe o equivalente a R$1.000,00 mensais, trabalhando, em média, 12 horas por dia, são dirigidos para custear os gastos com o filho, não tendo como auferir rendimentos extras. Pede por um acordo de parcelamento que possa pagar dentro de suas possibilidades, afirmando que não pretende auferir vantagem da situação de

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL seu filho. Requer o provimento do recurso a

seu filho. Requer o provimento do recurso a fim de que não incida correção monetária, tampouco juros de mora e multa convencional, a fim de possibilitar o pagamento do débito.

O apelo foi contra-arrazoado.

Sobreveio despacho (fl.101) em que foram intimados os Procuradores para comparecerem na tentativa de conciliação que foi realizada em meu Gabinete na data de 25/05/2004, que restou inexistosa.

É o relatório.

V O TO S

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR)

Eminentes colegas, preocupou-me sobremaneira o caso trazido pela presente apelação. Não que se trate de matéria de alta indagação jurídica, porquanto o cerne da controvérsia, se é que existe controvérsia, não desborda de nenhum outro caso assemelhado tão comum nesta Corte.

A preocupação que muito me afligiu derivou da situação pessoal

da apelante. É daquele tipo de ocorrência que nenhum ser vivo está livre. Nenhuma pessoa que tenha filhos está livre de passar pelo sofrimento o qual passa a apelante.

A apelante teve seu filho acidentado com motocicleta tendo ele

passado a viver vegetativamente. A partir deste acidente passou a enfrentar óbvias dificuldades para o custeio da saúde de seu filho, optando por inadimplir o condomínio, mas manter a saúde e cuidados com o filho.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL Ante este comovente quadro, fugindo a habitualidade da

Ante este comovente quadro, fugindo a habitualidade da imensa maioria das apelações, designei audiência de tentativa de conciliação, em um último esforço para um desiderato mais feliz à demanda. Malgrado a tentativa, infrutífera foi a composição do litígio, razão porque apresento os autos à mesa.

O apelo interposto pela condômina Ivone não possui substância jurídica. Deriva apenas de sua situação pessoal fática, não sendo possível alcançar o que postula em apelo. A sua postulação radica exclusivamente na expunção de correção monetária, juros de mora, multa contratual, bem ainda postula o parcelamento da dívida.

Impossível, como já dito, alcançar o postulado pela apelante. A correção monetária, não é nenhum acréscimo à dívida, mas apenas e tão- somente a recomposição dos valores pelas perdas da inflação. Os juros moratórios e a multa pelo inadimplemento encontram-se previstos na convenção condominial, fazendo lei entre as partes. Aliás, tais exigências são plenamente legais, porquanto a lei além de não vedar a sua incidência são expressamente previstos na legislação.

De outro norte, o parcelamento da dívida não pode ser oposto ao credor. Inexiste formulação jurídica capaz de obrigar ao credor a aceitar o pagamento parcelado do débito. É bem verdade que o bom senso e até o espírito de humanidade que deve prevalecer entre as relações, devem se fazer presentes em todos os atos da vida social.

Por

fim,

concito

mais

uma

vez

as

partes,

em

especial

a

comunidade condominial do edifício autor, ao entendimento.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL Espero que este acórdão seja lido em uma

Espero que este acórdão seja lido em uma das assembléias do condomínio autor. Rogo especialmente aos demais condôminos a reverem seus posicionamentos, para que sejam transigentes, compreensivos com situações como a presente. Nunca saberemos quando seremos escolhidos por Deus para carregar um fardo tão pesado quanto o ora atribuído à apelante.

Nunca a proposta de improvimento de uma apelação me comoveu tanto, mas mesmo lamentando cumpro com o meu dever de prestar a jurisdição pelo único caminho que até agora encontrei.

Estou propondo o improvimento do apelo.

DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (PRESIDENTE) – Na condição de Vogal não tive oportunidade de examinar os autos. Em razão disto e tendo em conta a preocupação demonstrada pelo Relator devido à peculiar situação pessoal enfrentada pela Apelante, em regime de discussão, peço vista.

DES. MÁRIO JOSÉ GOMES PEREIRA – Do mesmo modo que Vossa Excelência, Senhor Presidente, gostaria de refletir melhor sobre o processo. Aguardarei a vista.

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR) – Sr. Presidente.

Penso que a melhor alternativa, por ora, seja efetivamente termos um pouco mais de tempo para nos debruçar sobre o processo, buscando encontrar a solução mais justa possível.

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DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI

(Prosseguindo no julgamento depois da vista)

vênia

considerações:

Peço

ao

eminente

relator

para

vênia considerações: Peço ao eminente relator para deduzir as seguintes DOS FATOS INCONTROVERSOS Entretanto, e

deduzir

as

seguintes

DOS FATOS INCONTROVERSOS

Entretanto, e em

compensação, os fatos fundamentais são incontroversos, o que na dicção do

art.333, III do C.P.C. fazem a prova dispensável.

A prova, no presente feito não é substanciosa.

São fatos incontroversos do processo: o débito, que não é contestado pela apelante que se limita a alegar impossibilidade de pagamento nos termos postos, e exigido na cobrança, propondo-se a pagar o débito, mediante condições compatíveis com suas dificuldades; as dificuldades para o cumprimento da obrigação, embora condominial, representadas pelas despesas decorrentes de a demandada viver no apartamento onde mantém um filho em condições vegetativas, com o séqüito de despesas daí decorrentes. Aos 18 anos, em 1995, mercê de acidente, abateu-se a tragédia sobre a vida da apelante. São fatos alegados e não contestados, portanto, também, incontroversos.

O CASO CONCRETO:

Trata-se de débito condominial ao qual a apelante opõe impossibilidade de pagamento, ao menos nas condições normais, sob pena de não poder custear as despesas excepcionais que mantém para a sobrevida do filho inválido e em condições vegetativas. Como disse, a prova poderia ter sido mais bem tratada, de modo a desenhar melhor e de forma mais veemente a

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL situação de fato. Contudo, feita a alegação, não

situação de fato. Contudo, feita a alegação, não houve qualquer contradita ao alegado, pelo condomínio. Ao contrário, houve admissão e até “compreensão” para com a situação da apelante (fl. 68).

Assim, a situação que se coloca para o julgador é a seguinte: em

se tratando de débito condominial, em que há obrigação “propter rem”, na qual

o próprio imóvel ( no caso, residência de mãe e filho inválido ) responde pelo

débito, há espaço para a intervenção judicial, no sentido de disciplinar essa relação de direito material ? Penso que há e passo a justificar.

ENFRENTAMENTO DO CASO CONCRETO.

Estabelecendo a premissa primeira de minhas conclusões devo

invocar o disposto no art. 1º, III da Constituição Federal, onde erigido o respeito

à dignidade da pessoa humana como princípio e valor fundamental. A partir da

vigência desse dispositivo, nenhuma lei, nenhuma decisão judicial que afrontar

a dignidade da pessoa humana, tem validade. É balizamento fundamental, seja

para a elaboração da lei, seja para sua interpretação e aplicação. Custaria muito a admitir que qualquer juiz tivesse que proferir decisão que soubesse injusta, por mais que fundamentado em dispositivos legais aplicáveis à generalidade das situações. Aqui o que se apresenta para a apelante é a opção (se assim se pode dizer) entre pagar o condomínio ou manter o sustento do filho inválido. Alguém contestaria que afirmar, como valor, a predominância do primeiro, em detrimento do segundo, estaria a afrontar as condições mínimas de dignidade que a Constituição assegura a qualquer cidadão? Penso que não.

Em segundo lugar e tendo como pano de fundo desta decisão o antes anunciado, cumpre se examine a possibilidade de intervenção judicial na

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL relação de direito material em questão, visto que

relação de direito material em questão, visto que manifesta a impossibilidade de cumprimento de suas obrigações condominiais por parte da apelante. Sabido que, mormente a partir da vigência do novo Código Civil, a impossibilidade do cumprimento da obrigação para o credor pode determinar a resolução do contrato via judicial. Nesse sentido, quase diariamente, desfazemos contratos de compra e venda de imóvel em que o devedor não mais tem condições para continuar efetuando os pagamentos. Como lembra RUY ROSADO DE AGUIAR JÚNIOR, no seu festejado EXTINÇÃO DOS CONTRATOS POR INCUMPRIMENTO DO DEVEDOR, 2ª ed., pág. 237, “Nas relações individuais que versam sobre necessidades elementares do indivíduo (moradia, alimentação, vestuário, etc.) estão contratos que sofrem crescente influência do direito público (locação, parcelamento do solo, financiamento

Essa visão de RAISER, de um Direito

imobiliário para a casa própria, etc)

Privado como sistema aberto, com campos escalonados de interesses, em que se situam áreas de maior ou menor publicização, serve para mostrar a resolução (e a revisão dos contratos) como ato que deve atender à maior ou menor influência publicística, conforme o ‘papel’ vital desempenhado pelo contrato em exame e sua situação na vida de relação”.

Aqui se trata, de um lado, de disciplinar o direito do condomínio a haver da apelante sua participação nas despesas comuns. De outro, de garantir para a apelante o direito de sustento do próprio filho inválido e a própria moradia, sabendo-se, como se sabe, que a execução de eventual decisão que lhe for desfavorável vai comprometer o próprio imóvel residencial. É, de um lado, o débito condominial a exigir satisfação e de outro a alegada impossibilidade de pagamento feita pela apelante. Nesse espaço de divergência é que se faz indispensável a atuação judicial, disciplinando a relação de modo a manter, quanto possível, o equilíbrio da mesma.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL No dizer de Ruy Rosado, citando Clóvis do

No dizer de Ruy Rosado, citando Clóvis do Couto e Silva, “ Há impossibilidade quando existe obstáculo invencível ao cumprimento da obrigação, seja de ordem natural ou jurídica.” Aqui não se trata de impossibilidade objetiva, mas de impossibilidade que atinge, particularmente, o devedor, no caso a apelante. Não tenho dúvidas em afirmar que, submetida a verdadeira “escolha de Sofia”, para a apelante, ao menos no momento, se faz impossível atender às despesas condominiais. Tal não lhe pode ser exigido, pena de violência ao princípio constitucional maior e mais fundamental, do respeito à dignidade da pessoa humana. A aduzir que a apelante sempre se houve com boa-fé, jamais negando o débito ou utilizando qualquer forma procrastinatória de pagamento. Deve, quer pagar, apenas pede condições para fazê-lo. Segundo Clóvis do Couto e Silva no belíssimo livro O Direito Privado Brasileiro, sendo organizadora a Dra. VERA MARIA JACOB DE FRADERA, “O princípio da boa-fé endereça-se sobretudo ao juiz e o instiga a formar instituições para responder aos novos fatos, exercendo um controle corretivo do Direito estrito, ou enriquecedor do conteúdo da relação obrigacional, ou mesmo negativo em face do Direito postulado pela outra parte. A principal função é a individualizadora, em que o juiz exerce atividade similar à do pretor romano, criando o ‘direito do caso’. O aspecto capital para a criação judicial é o fato de a boa-fé possuir um valor autônomo, não relacionado com a vontade. Por ser independente da vontade, a extensão do conteúdo da relação obrigacional já não se mede com base somente nela, e sim, pelas circunstâncias ou fatos referentes ao contrato, permitindo-se ‘construir’ objetivamente o regramento do negócio jurídico, com a admissão de um dinamismo que escapa, por vezes, até mesmo ao controle das partes.”

Ainda discorre a Profª Vera: “como princípio fundamental, ele confere ao juiz poderes para criar novas soluções, dando-lhe um suporte

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL sistemático que afasta o simples julgamento por eqüidade,

sistemático que afasta o simples julgamento por eqüidade, e determina uma profunda objetivação no conceito de negócio jurídico.” (pág. 93)

Parece-me, pois, estarmos, neste caso concreto, diante de situação que nos leva a abandonar o silogismo lógico jurídico para servirmo- nos desses princípios antes deduzidos, com o que se encontra segurança para intervir legitimamente na relação jurídica de direito material.

A INTERVENÇÃO JUDICIAL NA RELAÇÃO DE DIREITO MATERIAL.

Resta, portanto, disciplinar as condições de manutenção da relação de direito material, já que aqui não se trata de declarar a resolução do vínculo condominial, senão que de harmonizá-lo com a situação posta.

De início estou a entender que, para o condomínio, o débito condominial se pode equiparar ao alimentício, na medida em que o pagamento das cotas de todos se faz indispensável à própria sobrevivência do condomínio. Por construção jurisprudencial é firme a posição de que, nos débitos alimentares, não se defere a pena de prisão do devedor por pensões devidas há mais de três meses. Isso se dá por duas razões: a) bem ou mal, a pensão, que se destina à sobrevivência do alimentando se revelou dispensável a esse desiderato, tanto que se garantiu a subsistência do mesmo; b) o acúmulo do débito pode gerar para o alimentante situação de inviabilidade de atender ao pensionamento passado (e de certa forma dispensável), tirando-lhe, de outra banda, a possibilidade de continuar atendendo à pensão mais recente. Penso que ao caso concreto e diante desta situação peculiar, em que o que se está a exigir da parte vai além do limite de esforço exigível de qualquer devedor, pode-se encontrar solução similar, intervindo na relação para, ainda que julgando procedente a demanda, a) retirar o caráter “propter rem” da obrigação

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL relativa aos meses que exorbitarem dos últimos três

relativa aos meses que exorbitarem dos últimos três anteriores a esta intervenção judicial: b) deferir o pagamento dos últimos três meses em três parcelas iguais, juntamente com as cotas vincendas; c) isentar a apelante dos encargos moratórios, visto que, ante a impossibilidade do cumprimento da obrigação não se pode tê-la como em mora; d) submeter o débito em questão à correção monetária segundo a variação do IGPM. Assim preconizo por entender que o pedido e o recurso encerram, implicitamente, a necessidade de se regrar o relacionamento das partes, ante a situação emergencial. De rigor se poderia flagrar inovação, no recurso. Penso, contudo, que o julgador tem o dever de interpretar o pedido que, no caso, embora os termos da inicial, reduz- se claramente a uma súplica de intervenção judicial com vistas ao regramento da relação de direito material que vincula as partes, possibilitando o convívio condominial. Desse modo, o referido nas alíneas anteriores nada mais é do que a conseqüência do acolhimento do recurso, viabilizando o relacionamento das partes.

Nesse sentido, o PROVIMENTO À APELAÇÃO, ainda que por outras razões.

É o voto, com a vênia do eminente Relator.

DES. MÁRIO JOSÉ GOMES PEREIRA - O voto do e. Des. José Francisco Pellegrini é obra da melhor engenharia jurídica, a qual louvo e endosso entusiasticamente. De efeito, para que o invocado princípio da dignidade da pessoa humana não constitua uma promessa não cumprida e “não se desvaneça como mero apelo ético” (Sarlet, Ingo Wollfgang, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 2001, pág. 46), é fundamental sua concretização judicial,

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL através de um constante e renovado trabalho de

através de um constante e renovado trabalho de interpretação / aplicação, que busque dar ao princípio a máxima efetividade. Cumpre ao julgador, em hipóteses como a retratada nos autos, buscar a solução através da ponderação dos princípios constitucionais em jogo, com atenção para o conceito-chave de proporcionalidade e para a noção de mínimo existencial. Como é o juiz que produz o sentido da norma, sendo certo que o texto é um mero enunciado a ser interpretado, urge fazer valer a Constituição, constituindo o direito, observando e proclamando seus princípios basilares, dentre os quais o da dignidade da pessoa humana, concebido como referência de todos os direitos fundamentais. Para Joan María Bilbao Ubillos, “Junto a la mediación legislativa, se há sugerido uma segunda vía de penetración de los derechos fundamentales em el Derecho privado: los jueces, por imperativo constitucional, tomarán em consideración estos derechos a la hora de interpretar las normas de Derecho privado. Es el juez, en el desarrollo de su función jurisdiccional, el vehículo a través del cual se concreta o materializa esa incidencia de los derechos fundamentales em el Derecho privado. (“En qué medida vinculan a los particulares dos derechos fundamentales?, in, Constituição, Direitos Fundamentais e Direito Privado, Livraria do Advogado Editora, 2003, pág. 313). Neste contexto, a Constituição de 1988, já em seu artigo 1º, inciso III, eleva a dignidade da pessoa humana à condição de fundamento da República.

E “a constitucionalização do princípio da dignidade da pessoa humana modifica, em sua raiz, toda a construção jurídica: ele impregna toda a elaboração do Direito, porque ele é o elemento fundante da ordem constitucionalizada e posta na base do sistema. Logo, a dignidade da pessoa humana é princípio havido como superprincípio constitucional, aquele no qual

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL se fundam todas as escolhas políticas estratificadas no

se fundam todas as escolhas políticas estratificadas no modelo de Direito plasmado na formulação textual da Constituição.” (Rocha, Cármen Lúcia Antunes, O Princípio da dignidade da Pessoa Humana e a Exclusão Social. Interesse Público, nº 4 – 1999, Editora Notadez). O reconhecimento deste princípio, enquanto direito fundamental, leva à necessidade de requestionamento de uma série de dogmas civilísticos, em especial aqueles que constituem seu núcleo central: a autonomia, os bens, o patrimônio, a pessoa e a propriedade. Esta mudança de paradigma, com a transposição das normas diretivas do sistema de direito civil do texto do Código Civil para o da Constituição acarreta revelantíssimas conseqüências jurídicas que se delineiam a partir da alteração da tutela que era oferecida, pelo Código, ao “indivíduo” para a proteção, garantida pela Constituição, à dignidade da pessoa humana e por ela elevada à condição de funcionamento da República Federativa do Brasil. O princípio constitucional visa garantir o respeito e a proteção da dignidade humana não só no sentido de assegurar um tratamento humano e não degradante, e nem tampouco conduz exclusivamente ao oferecimento de garantias à integridade física do ser humano. Dado o caráter normativo dos princípios constitucionais, princípios que contêm os valores ético-jurídicos fornecidos pela democracia, isto vem a significar a completa transformação (rectius, transmutação) do direito civil, de um direito que deixou de encontrar nos valores individualistas codificados o seu fundamento axiológico.

Como resultado desta nova ordem, Maria Celina Bodin de Moraes ensina que “enquanto o Código dá prevalência e preferência às situações patrimoniais, no novo sistema de direito civil, fundado pela Constituição, a prevalência é de ser atribuída às situações jurídicas não- patrimoniais porque à pessoa humana deve o ordenamento jurídico inteiro, e o ordenamento civil em particular, dar a garantia e a proteção prioritárias. Por

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL isso, nesse novo cenário, passam a ser tuteladas,

isso, nesse novo cenário, passam a ser tuteladas, com prioridade, as pessoas das crianças, dos adolescentes, dos idosos, dos consumidores, dos não- proprietários, dos contratantes em situação de inferioridade, dos membros da família, das vítimas de acidentes anônimos e de atentados a direitos da personalidade.“ (de Moraes, Maria Celina. Constituição e Direito Civil:

Tendências. Revista dos Tribunais ano 89, vol. 779, setembro de 2000. Ed. RT).

É neste panorama então, que se torna necessário reconhecer, cada vez mais, a dimensão atribuída pelo ordenamento jurídico vigente ao princípio da dignidade da pessoa humana. Com Ingo Sarlet, vez ainda, “a Constituição, terá a sua eficácia e efetividade asseguradas apenas (embora não exclusivamente por esta razão) se também incidir no âmbito da normativa infraconstitucional, isto é, se a normativa infraconstitucional for produzida e aplicada à luz dos princípios e regras constitucionais e, além disso, se a incidência da Constituição operar também na seara das relações interprivadas e não apenas no campo das relações verticalizadas entre cidadão e o poder público (prefácio à obra de Wilson Steinmetz, A vinculação dos particulares a direitos fundamentais, Malheiros Editores, 2004). Segundo o autor acima referido, a “vinculação dos particulares a direitos fundamentais também encontra fundamento no princípio constitucional da dignidade da pessoa” (ob. cit., pág. 112). A dignidade humana, ministra André Rufino do Vale ”como núcleo intangível e absoluto da ordem jurídica deve servir de limite geral para os comportamentos dos sujeitos públicos ou privados”. (Eficácia dos Direitos Fundamentais nas relações privadas, Sérgio Fabris. Editora, 2004, pág. 192). No caso, a dignidade humana está relacionada com a sobrevivência do filho e com o direito básico de habitação. Tais direitos, na

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL espécie, devem prevalecer, quando contrastados com a

espécie, devem prevalecer, quando contrastados com a pretensão de cobrança das cotas condominiais deduzidas pelo ora apelado. A solução produzida pelo r. voto condutor, a qual adiro, revela que o direito pode ser um instrumento da Justiça, de equilíbrio contratual e de inclusão social, servindo como meio de proteção de determinados grupos sociais e como instância garantidora da dignidade da pessoa humana. É como voto, tecendo loas mais uma vez ao arrojado voto do eminente Des. Pellegrini.

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR) – Realmente, quando se iniciou o julgamento deste feito, conforme bem relatado pelo eminente Presidente, já havia manifestado a minha preocupação em face da situação com que nos defrontávamos.

E, diferentemente do nosso ilustre Presidente, eu não havia encontrado uma solução tão objetiva e clara, e já por aí vou mostrando o caminho que vou adotar, modificando o posicionamento inicial, no sentido de acolher integralmente as ponderações de Sua Excelência, inclusive manifestando publicamente o meu reconhecimento e louvor pelo trabalho realizado, o cuidado. Realmente, como disse o Des. Mário, é uma engenharia jurídica correta, em todos os seus pontos, mas encontrando, realmente, uma solução que me parece perfeita para o caso, já que todos nós sentimos que deveríamos achar uma solução nesta linha de pensamento. Só que, infelizmente, a minha capacidade, pelo menos, não chegou a tanto, e graças ao seu labor, ao seu estudo, à sua invulgar inteligência e conhecimento, encontrou e mostrou um caminho que vou seguir, modificando o meu voto. Minha dúvida reside apenas quanto à forma que deveremos

dar ao acórdão.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL DES. MÁRIO JOSÉ GOMES PEREIRA – Acho que

DES. MÁRIO JOSÉ GOMES PEREIRA – Acho que com declaração de voto minha e dele.

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR) – E Vossa Excelência, Des. Pellegrini ficaria como redator.

DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (PRESIDENTE) - Teria que vir o voto primeiro, o voto do Relator.

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR) – Parece-me que nós devíamos fazer no acórdão a narrativa exata do que aconteceu.

DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (PRESIDENTE) – Depois o pedido de vista, a manifestação, a apresentação da vista e o voto dos Colegas.

DES. GUINTHER SPODE (RELATOR) – E o Relator reconsiderando o voto inicialmente dado.

Eu até, depois de ler - recebi antes a minuta do seu voto -, lembrei também aí, e a minha declaração de voto referira, uma lição que já adotei em outro julgamento, de um eminente jurista argentino, que tem uma obra recente traduzida para o português. Refiro-me ao Prof. Ricardo Lorenzetti, que menciona em sua obra, e parece que está adequada perfeitamente a esta hipótese, que o operador do Direito, quando estiver diante da disputa de um direito meramente patrimonial e outro de natureza pessoal, deve optar sempre pelo direito pessoal em detrimento do patrimonial. Aqui estamos exatamente diante de uma destas disputas. Qual é o direito meramente patrimonial? É o crédito do condomínio.

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2004/CÍVEL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL E qual é o outro, de natureza pessoal

E qual é o outro, de natureza pessoal e que aqui vai até o

direito maior do ser humano, a vida, a sua manutenção, a preservação da vida, revelada pela necessidade de assistência a um familiar inválido.

E mais, um outro direito também essencial à vida, o direito de

moradia.

Então, parece que nós realmente estamos fundamentando nossa decisão nos princípios gerais do Direito e estamos construindo uma solução justa, que a mim, pessoalmente, conforta sobremaneira, e só posso aqui agradecer pelo caminho apontado por Vossa Excelência, que acompanho integralmente.

DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI (PRESIDENTE) – Como estamos aqui com uma delegação de estudantes de

Santa Maria, não posso deixar de referir que essas observações do Des. Guinther são fruto da amizade de mais de 30 anos que nós mantemos.

E essa história de que ele não teve condições de elaborar um

voto no mesmo sentido também não é bem assim, porque não fosse a sensibilidade de Sua Excelência, chegando aqui e declarando que estava com problemas, que estava angustiado, que estava preocupado com a situação dessa senhora, também a nós certamente o processo teria passado batido como uma simples cobrança de cota condominial.

Quer dizer que aqui, como sói acontecer, Des. Guinther, nós trabalhamos em conjunto e solidariamente, e o trabalho de um é o trabalho de outro, e caminhamos sempre na busca da realização da melhor justiça, sem que isso faça qualquer de nós superior aos demais ou com pretensões a qualquer tipo de encômio ou coisa do gênero.

O que nos move a todos, e a cada um de nós, é exatamente

julgarmos de forma solidária e buscando sempre, e é isso que me conforta nesta Câmara, todos nós, sempre uma solução de justiça, ainda que para

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA GS N º 70008595852 2004/CÍVEL encontrá-la muitas vezes tenhamos que abrir mão de

encontrá-la muitas vezes tenhamos que abrir mão de pontos de vista pessoais ou inicialmente deduzidos.

T/R: Eduardo/Renato.

DES. JOSÉ FRANCISCO PELLEGRINI - Presidente - Apelação Cível nº 70008595852, Comarca de Porto Alegre: "À UNANIMIDADE, FOI PROVIDA A APELAÇÃO ."

Julgador(a) de 1º Grau: ROSANE WANNER DA SILVA BORDASCH