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Capitulo3 "Do .ponto de vista dos nativos"; a natureza do entendimento antropol6gico ironias sobre a
Capitulo3 "Do .ponto de vista dos nativos"; a natureza do entendimento antropol6gico ironias sobre a
Capitulo3 "Do .ponto de vista dos nativos"; a natureza do entendimento antropol6gico ironias sobre a

Capitulo3

"Do .ponto de vista dos nativos"; a natureza do entendimento antropol6gico

ironias sobre a Prînleira Grande Guerra, ou a~s produ~os ~e

culturas asiaticas mais ricas, como as da ChlOa e da .Indla,

1 mas mesmo assim um papel real , que ainda flaO t:rm.m~u .e

1 qu que , por isso, , 0 etnografo de Bali, como 0 CfltlC~

/,

e foi e é à sua moda, bastante poderoso. E tambem '"dl mSlstlc

e ~ne

Austen

aquilo ~ue0 professor Trilling, naquele seu ulti~o,sinuoso e interrompido ensaio, charnou de um dos ffilstenüS l~por­ tantes da vida cultural humana: como é que as criaçoes de

ao

mesmo tempo, e tao profundamente, UIna parte de nos.

outras povas padern

entre outras coisas, lem como objetîvo lflvesugar

sec tao proximas a seus criadores, c,

1

Ha alguns anas, um pequeno escândalo iccompeu na antropologia: urna de Suas figuras ancestrais falou a verdade em publico. Como cabe a Um ancestral, de 0 fez posruma- mente, por decisao de sua viuva e nao dele proprio. Este deslize foi 0 bastante para que alguns conselVadores em

nosso mcio elevassenl a voz c clamassem que a viuva, tam- bém antropôloga, havia traido 0 cla, divulgado seus segre- dos , profanado Um idolo e decepcionado seus com- panheiros. Um casa tipico de "0 que é que as crianças vao pensac?" e isto sem indagar-se a que os leigos irîam pensac o damoe nao diminuiu COrn todo este cerimonial de esfrega de lllaos pois, infeIizmente, 0 tex[o maldito ja tinha sido publicado. 0 que realmente aconteceu foi que, mais Ou menos coma James Watson, que, em The Double Helix, confessou coma a biofisica funcionava na pcâtica;-'Bronislaw Malinowski, cm A Diary in the Strict Sense of the Term, fez

cort! que os relatos oficiais sobre os métodos de trabalhc dos antropôlogos parecessem bastante inverossimeis. 0 mito do pesquisador de campo semicamaleiio, que se adapta perfei- ,tamente ao ambiente exotico que 0 rodeia, um milagre iambulante em empatia, tato, paciência e cosmopolitismo, :foi, de um golpe, demolido por aquele que tinha sido, talvez, Um dos maiores responsâveis pela Sua cciaçâo.

o debate que se originou com a public~~iiodo diirio conceotcou-se, naturalmente, nos detalhes nao essenciais, e, Como era de se esperar, ignorou a questao mais importan-

te

que 0 livro continha.' Grande parte do choque parece ter

85

de se esperar, ignorou a questao mais importan- te que 0 livro continha.' Grande parte do

Il

84

/ • .' mais importante que 0 {. _ fi' 1 pro ISSJona . Durante

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mais importante que 0

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1

pro ISSJona . Durante estes anos as

~rm~Jaçoes do problema for am variadas: descriçoes q' ue saD VIS tas "de dentro"

versus as que sao vistas "de fora" descnçoes "na primeira pessoa"

.

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pessoa; teanas

"

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fenomeno16gicas" ver"'us"

J.

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cognttlvas

versus "comporlamentais'" e

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Jctivistas

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mente, ana Ises "êmicas" versus analises "éticas"

' ou

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cIasStficaçoes fonêmicas ou fon ' t'

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COOl suas funçoes internas na linguagem

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c-

tlca o~ c aSSlfica de acordo C0l11 suas propriedades acusticas propna~en,teditas. A forma mais simples e direta de colocar

a questao c,

fonnul a d

usa

1-

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IlJfOXUna

talvez,

vê-la nos

terrnos de

uma d'

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"

a pe 1 a psicanalista Heinz Kohut para seu

a

e e '1 e camou .~ h . de conceitos da "expe

expenencla-distante".

_ Istmçao ' .'

propno

nenCla-

.

entre 0 qu

d"

e

e, ' mais . ou me-

nas, aque,e que alguém -unl paciente, Um sujeito, em nosso

casa um IIlformante -

p~ra defi~ir a.quilo que seus semelhantes vêem, sentem,

pensam, Ifllaglnam etc. e que de proprio entenderia facil-

mente, se Outros 0

Um conceito de "eXRS!riência_nrôxima"

1

-

--. -

t-"_

usaria naturaltnente e senl esforço

Utilizassem , da

"

-

rnesma rnanelra.

.

Um

expenenCla-distante"" e aque 1 e que especlahstas . .

e qua quer" tlpo - unl analista, Um pesquisador, Um etnô-

grafo, ou ate um padre ou um ideologista _ utilizam para

dl' conceuo de

.~

,!.~vara"c~boseus obJetlvos c: entificos, filosoficos ou praticos 1\mor. e um conceito de experiência-proxima- "catexia e~ um ohJeto" de experiência-distante_ "Estcatifica~aosocial" e

cert talvez

"

para hmdus e budistas.

para " a ' maioria dos povos do mundo

Slstema religioso") sâo de e

,

"rel-

"

'

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d' Istante'

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xpenencla_ ".

casta. e

_ nIrvana" sâo de experiéncia-pr6xima, pelo meno~

nao - de

"<ob'" «c b- " ' . " e maIS expenencia-proxüna que

Oposlçaoextrema-"medo""·

Obviamente, . - trata-se de uma questa-o d

."

la

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e malS expe '''.

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nencla-proxÎIna que "ego distô-

pelo menas Com relaçao à antropologia (no caso

87

pelo menas Com relaçao à antropologia (no caso 87 1 ! i sida conseqüência da ruera
pelo menas Com relaçao à antropologia (no caso 87 1 ! i sida conseqüência da ruera

1!

isida conseqüência da ruera descoberta que Malinowski nao i era, para expressa·lo de uma forma ddicada l um sujeito ~muito simpatico. Dizia coisas bastante desagradaveis sobre os nativos corn quern vivia, e usava palavras igualmente desagradaveis para expressar estes comentarios. Passava grande parte do seu tempo desejando estar em outro lugar. E projetava uma inlagem de total intolerância, talvez UOla das maiores intolerâncias do mundo, (Projetava tanlbéIn a imageln de um homem que se consagrara a uma vocaçâo estranha a ponto de se auto·sacrificar por da, Illas isso notava·se menas.) Corn tudo isso, baixou-se 0 nîvcl do debate, concentrando-o no carater - ou na falta de carater-

de Malinowski, e ignorando a questao profunda es.'WMil}a:

~_~e~~e iIE.P5?rt~n~~.;que 0 livro havia levantado, isto é ;, se nâo .,é graças a algum tipa de sensibilidade extraordinaria l a urna capacidade quase sobrenatural de pensar, sentir e perceber ° 111undo como um nativo (urna palavra, que, devo logo ' dizer, usei aqui "no sentido estrito da tenno") coma é i:" possivel que antropologos cheguern a conhecer a maneira ',1~comoUOl nativo pensa, sente e percebe 0 nlundo? A questâo que 0 diario introduz, corn urna seriedade que talvez 50 um etnografo da ativa possa apreciar totalmente, nao é uma 1questao ética. (A idealizaçao moral de pesquisadores de campo é, cm si fileSl11a, puro sentimentalismo, quando nao urna fonna de autoparabenizar-se ou uma pretensâo exage· 1rada.) A questao é epistemol6gica. Se é que vamos insistir-

/ e, na r:ninha op~niao, devemos insistir - que é necessario que antrop610gos vejam 0 mundo do ponto de vista dos nativos, onde ficaremos quando nao pudermos mais arrogar-nos alguma forma. unicamente nossa de proximidade psicol6- igica, ou algum tipo de identificaçao transcultural corn nos-

/ sos sujeitos? 0

que acontece corn 0

verstehen quando ~

,'

Alias, este problema geral vern sendo terna de inumeros debates na antropologia nos ultimos dez ou quinze anos; a voz de Malinowski, do tumulo, simplesmente dramatizou a questâo, tornando-a um dilema humano que passou a ser

einfühlen desaparece?

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j 1

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1

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1 i suas, e, de qualquer maneira , naD vao estar muito interes- . sados neste
1 i suas, e, de qualquer maneira , naD vao estar muito interes- . sados neste

suas, e, de qualquer maneira, naD vao estar muito interes- .sados neste tipo de exerdcio. 0 que é importante é dcscobrir que diabos des acham que estiio fazendo.

Em um certo sentido, ninguénl sabe isto tao bem quanto eles proprios; daÎ 0 desejo de nadar na coccente de suas experiências, e a ilusao posterior de que, de aIguma forma, o ftzemos. Em outro sentido, no entanto, este truÎsmo simples é simples mente falso. As pessoas usam conceitos de experiência-proxima espontaneamente, naturalmente, por assim dizer, coloquiaImente; nao reconhecem, a naD ser de forma passageira e ocasional, que 0 que disseram envolve ,-' "conceitos". Isto é exatamente a que experiência-proxima il significa - as idéias e as realidades que elas representam iestao natural e indissoluvelmente unidas. Que outro nome . poderiamos dar a um hipop6t~mo? É claro que os deuses sao poderosos, se nao fossem, porque os temeriamos?Ameu ver, 0 etn6grafo nao percebe - principalmente nao é capaz de perceber- aquilo que seus informantes percebem. 0 que de percebe, e mesmo assim corn bastante insegurança, é 0 "corn que", ou "por meios de que", ou "através de que" (ou seja la quaI for a expressao) os outros percebem . Em pais de cegos, que, por sinal, sao mais obselVadores que parecem, quem tem um olho nao é rei, é um espectador.

A seguir, para tornar tudo isto um pouco mais concreta, gostaria de referir-me por uns momentos a meu proprio trabalho, que, sejam quais forem seus defeitos, tem pelo menos a virtude de sec meu - 0 que, em discussôes deste tipo, nao deixa de sec urna nÎtida vantagem. Em todas as três sociedades que estudei intensivamente, a javanesa, a baline- sa e a rnarroquina, tive camo um dos meus objetivos princi- pais tentar identificar coma as pessoas que vivem nessas sociedades se definem coma pessoas, ou seja, de que se compôe a idéia que elas têm (mas, como disse acima, que naD sabem totalmente que têm) do que é um "eu" no estHo javanês, balinês ou marroquino. E, em cada um dos casos tentei chegar a esta noçâo tao profundamente Întima, na~

, da poesia e da fisica nao seria 0 mcsmo) a diferença nâo é

normativa, ou seja, um dos conceitos naD é necessariamente

melhar do que 0 outra, nem se trata de preferir um eOl vez do outro. Limitar-se a conceitos de experiência-proxima

deixaria 0 etn6grafo afogado em miudezas e preso em um

emaranhado vernacular. Linlitar-se aos de experiência-dis-

tante, por outra lado, 0

deixaria perdido cm abstraçôes e

.1

sufocado corn jarg6es. A verdadeira questao - a que Mali- nowski levantou ao demonstrar que, no casa de "nativos", nao é necessario sec um deles para conhecer um - rdada- na-se corn os papéis que os dois ripas de concciras desem- . penha lTI na analise antropo16gica. Ou, mais exatamente,

como devem estes sec empregados, cm cada casa, para

produzir uma interpretaçao do modus vivendi de um povo que nao fique limitada pelos horizontes mentais daquele pava - urna etnografia sobre bruxaria escrîta por uma bruxa - nem que fique sistematicamente surda às tonaHdades de sua existência - uma etnografia sobre bruxaria escrita por um geômetra.

Colocando a questao nestes tecnlOS, ou seja, indagando- se quai a melhor maneira de conduzir urna anilîse antrop?- lôgica e de estruturar seus resultados, enl vez de inquirir que tipo de constituiçiio psiquica é essencial para antrop610gos, torna-se 0 significado de "ver as coisas do ponto de vista dos nativos" menos misterioso. Isto nao significa que a questao fique mais facil de responder, nem que a necessidade de perspicacia por parte do pesquisador de campo diminua. Para captar conceites que, para outras pessoas, sac de expc; riência-pcôxima, e fazê-lo de urna forma tao eficaz que nos permita cstabelcccr uma conexâo esclarecedoca corn os conceitos de expeciência-distante criados por teoricos para captac os elementos mais gerais da vida social, é, sem duvida l ~ urna tarefa tao delîcada, embora um pouco menos misterio- sa, que colocar-se "embaixo da pele do outro". 0 truque é nao se deixar envolver poc nenhum tipo de empatia espiri-. tual interna corn seus infÛrmantes. Como qualquer um de n6s, eles também preferem considerar suas almas coma

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. tual interna corn seus infÛrmantes . Como qualquer um de n6s, eles também preferem considerar

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• imaginando ser urna o utra pessoa - um camponês no arro- zal, ou um
• imaginando ser urna o utra pessoa - um camponês no arro- zal, ou um
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• imaginando ser urna o utra pessoa - um camponês no arro- zal, ou um

imaginando ser urna o utra pessoa - um camponês no arro- zal, ou um sheik tribal - para depois descobrir 0 que este pensaria, nlas sim procuranda , e depois analisando, as for- mas simbOlicas - palavras, imagens, instituiçoes, compona- roentos - em cujas termos as pessoas realmente se repre- sentam para si mesmas e para os outras, em cada um desses lugares.

o conceito _<le pessoa é, na realidade, um veiculo exce- lente p~ ë;aminar ( oda esta questao relacionada corn a andar poe ai, invesrigando 0 que passa pela mente alheia. Enl prirnciro lugar, sentimo-nos razoavelmente seguros para afirmar que algunl tipo de conceito desta categoria existe,

e m forma reconhecivel, entre todos os grupos soci.is. Algu- mas vezes, as ooçoes q ue as pessoas têm sobre 0 que é ser uma pessoa padern parecer, do nosso ponto de vista, bas- tante estranhas. U os acreditalTI que pessoas voaffi de um lado para outra, durante a noite, na forola de vaga-Iumes. O u tras acham que elenlentos essenciais de sua psique, tais coma 0 6dio, estao localizados em c6rpulos negros e granulares dentro de seus figadas, 56 d escobertos através de aut6psi~. Outros crêem compartilhar seu des tino com animals doppel- giinger, de Inodo que, quando 0 aninpl adoece ou morre,

No entanto, é minha

expeciência, que a concepçao do que é um individuo hUlna- no, em contraste corn a que é urna pedra, um animal, urna floresta tropical , ou um deus, é um fenômena universal. Ao mesmo tempo, coma estes exemplos selecionados aleatoria- mente sugerem, as concepçoes em questao variam de cm grupo para 0 outra, e, freqüentemente, existem diferenças profundas entre elas. Por mais que, para nos ocidentais, a concepçao da pessoa coma um univ"erso cognitivo e motiva- donal delimitado, unico, e mais ou menos integrado, um centra dinâmico de percepçao. emoçâo, jui2:os e açôes, organizado em uma unidade distinta e localizado eOl uma situaçao de contraste corn relaçao a outras uJ1idades seme- lhantes, e corn seu ambiente social e natural especifico, nos pareça correta, no contexto geral das culturas do nlundo,

des também adoecem ou morrem

da é um a id éia bastante peculi ar. Em vez de tentar encaixar

a experiência das outras c uIturas den [Co da moldura desta

nossa co ncepçao , que é 0

faze ndo, para

que deixemos d e lado nossa concepçao, e busquemos ver as experiências de o u tros co rn relaçao à sua propria concepçâo do "eu ". Pelo menos no casa de J ava, Bali e Marrocos, esta concepçao dife re sig nificativa m ente nao s6 da nossa, como

também -

que a tao elogiada "empatia" acaba

entender as concepçôes alheias é necessano

de for m a nao menos dramâtica e CO Ol igual valor

didâtico - e n tre si.

II

nos anos 50, es rud ei uma ilha

pequena e pobre, que era uma espécie de sede de um condado: duas ruas ensolaradas, prédios de madeira caiados de bra nco, o nd e funcianavam lojas e escritorios e, atrâs destes, barracos de bambu ainda nlais pobres, arnontoados desordenadamente. 0 conjunta era rodeado por um grande meio-drculo de aldeias densamente povoadas, onde planta- va-se acroz. A terra era pouca, os empregos raros, 0 sistenla polftico instâvel, a saûde de rnâ qualidade, os preços subiam, c m su ma, a vid a, de um modo geral n ao efa li muito promissara. Havia uma espéde de estagnaçao agitada na quai, coma observei certa vez referindo-nle à curiosa mistura de fragmentas importados de modecnidade e reliquias da

tradiçao ultrapassada que caracterizavam 0 hlgar, 0 fururo parecia quase tao remoto camo 0 passado;;No meio deste ceh:irio deprimente, no entanto, havia urna vitalidade inte- l lecrual absolutamente surpreendente, uma verdadeira pai-

Em J~ ~ i! , onde

traba lh ei

l \. xao

,

era popu ar, con -

centrada em .descobrir, a fundo, os enigmas existenclalS. Carnponeses · mÎserâveis discutÎam questôes relacionadas corn ci livre-arbitrio , comerciantes analfabetos falavam sobre as qualidades de Deus, lavradores comuns tinham ceorias

sobre a relaçao e ntre a razao e a paix3.o, a narureza do tempo

o u a confiabilidade dos sentidos. E, talvez ainda m ais impor-

fùos6fica "" aixao que, além d.sso,

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· .: ~~ t ~ 1 , , ! " l' :1 : ; tante, buscavaln,

tante, buscavaln, avida.mcnte, respostas para 0 problema do

eu - sua natureza, sua funçâo e seu modus ojJerandi - corn um tipo de intensidade rdlexiva que , entre nôs, encon tra-

mos somente eln ambientes altanlcnte sofisticados.

abjeto d e que eStat110S conscientes. Refere-se mais a partes da vida humana que, cm nassa cuJtura, sac esrudadas par comportanlentalistas radieais - as aç6es extemas, os movi- mentos, a postura, a linguagem falada. Esta também, em sua essência, era considerada igual para todas os indivîduos. Os dois grupos de fenômenos - sentimentos internas e aç6es extc::rnas - sâo, portanto, cansiderados nao camo funçôes um do outro, mas coma esferas independentes do ser, que devem ser postas na ordem apropriada também de forma independente_

É em conexâo corn esta "ordem apropriada" que 0 contraste entre a/us, palavra que significa "puro", "refina- do ", "polido", "belo ", "etéreo", "suril", "civilizado" e "suave" e kasar, que significa "indelicado", "grosseiro", "nao-civiliza- do", "âspero", "insensivel", "vulgar", tem sua importância. A 1meta do ser humano é ser a/us nas duas esferas do "eu". Na esfera interior, chega-se ao a/us através da disciplina religio- sa, que é bastante, embora nâo totalmente, mfstica. Na esfera exterior, chega-se ,~ ser a/us por meio da etiqueta, cujas regras, em Java, sâo extraordinariamenre complicadas e rem quase a autoridade de leis. Através da meditaçiio, 0 homem civilizado dilui sua vida emocional até transforma-la em um zumbido constantej através da etiqueta, ele nao 50 protege esta vida emocional das interrupçôes externas, mas também regulariza seu comportamento externo para que este passa parecer, aos 01h05 alheios, previsîvel, serena, elegante, e um conjunto meio frivolo de movimentos coreografados e ma- neiras de falar estabelecidas.

Coma estes conceitos sao também parte de uma ootolo- gia e estética especificas incluem muitas outras sutilezas secundirias. Com respeito a nossa problematica - a concep- çiio do eu - 0 que ternos aqui é uma concepçao bifurcada, sendo uma de suas partes constitufda por sentimentos meio sem gestos, e a outra por gestos meio sem sentimentas. Um munda interior de emoçâo contida e um mundo exterior de comportamento estruturado se confrontam sob a forma de

As idéias centrais cm cujas tcernas estas rcfiexoes se desenvolviam e que, portanto, definiam seus limites e 0 significado de "pessoa" para os javaneses, eram dispostas cm dois conjuntos contrastantes, que tinham eOOlO base a reli- giao: um , entre "dentro" e "fora" e 0 outro enrre "refinado" e "vulgar". Estas palavras sao, é clara, toscas e iInprecisas; a determinaçao exata do significado dos termas envolvidos, selecionando suas vârias nuanças, cra 0 tema principal das discussoes. No enranto, conlO um conjunro, elas formavam uma concepçao espedf1ca do "eu" que, longe de ser simples- mente teorica, era a concepçao através da quai os javaneses realnlente se "viam" uns aos outras, e também a si proprios.

As palavras javanesas para "dentra"!'fora", batin e /air (originalmente inlportadas da tradiçao sufi da misticisma muçulmano, mas modificadas localmente) referem-se, por um lado, à esfera das sentimentos na experiência humana, e, par outra, à esfera do comportamento hunlano observa~

do. Apresso-me a esclarecer que essas palavras nao têm qualquer conexâa conl "alma" e "corpo" no sentido que damas a estes termas; para tais conceitos, existem outras palavras em javanês, corn implicaçôes bastante diferentes. Bgti!}, a palavra que significa "dentro", nao se refere a um 1 local separado de espiritualidade encapsulada, que se cies- taca, ou pode ser destacado do corpo, nem mesmo a qual- quer unidade corn limites, mas sim à vida emocional dos seres humanos de um modo geral. Consiste no fluxo impre- ciso e mutante dos sentimentos subjetivos, percebido dire- lamente em toda sua proximidade fenomenologica, mas, pelo menos em suas raizes, considerado idêntico para todos ;6s individuos, cuja individualidade ele faz desaparecer. Da

/!"esma forma, 1 a palavra javanesa para "fora ", nao tem

qualquer relaçâo corn 0 corpo camo um abjeto, mesmo uro

Î;!, l!

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93

e tornaram os balineses um povo muito mais tcarral. cOin
e tornaram os balineses um povo muito mais tcarral. cOin

l

uma conccpçâo do eu também lcatral. 0 que é fi losofia cm

Java é tcatro cm Bali.

A conseqüência disto é que, cm Bali, existe un1 esforço persistente e sistematico para estilizar todas as formas de e.xpressâo pessoal a um ponta tal, que qualquer coisa idios- sincratica e caracteristica do individuo par ser ele quem é, fisica, psicolôgica ou biograficamente, é emudecida, privile- giando-se 0 papeI que ele desempenha no cortejo perma- nente, e, na visao dos baHneses, imutavel, que é a vida balinesa. Sao as dl'ama~is personae, mio os atores, que persistem; na verdade, sao as dramatis personae, e nao os atores que realmente existem no sentido exato da palavra. Fisicamente, os homens vao e vêm, meros incidentes na historia conjuntural, sem nenhuma importância real, nem para si nlcsmos. As m~~ que usam, no entanto, 0 lugar que ocupam no palco, os papéis que desempenhanl, e, ainda mais importante, 0 espetaculo que montam juntos penna- necem e compreendem nao a fachada, mas sim a substância das coisas, inclusive a do eu . A visao de antigo membro de trupe que Shakespeare tinha sobre a futilidade da açao diante da mortalidade - 0 nlundo é um palco, e nôs somente pobres atores, fclizes em pavonear-nos, e assim por diante - nao faz sentido em Bali. Nao existe faz-de-conta; é daro que

os atores morrem, mas a peça continua, e é 0 que foi atuado, nao quem atuou, que realmente impacta.

Vma vez mais, rudo isto se manifesta através de unla série de formas simbôlicas facilmente observaveis, um repertôrio elaborado de designaç6es e titulos, e nao através de um estado de espirito geral que 0 antrop610go, em sua suposta versatilidade espiritual, consegue de alguma maneira captar. Os balineses tém pelo menos mda duzia de tftulos princi- pais, atribuidos, fixas e absolutas que urna pessoa usaria para designar uma outra (ou, é clare, a si mesma) como parte de seu grupo . Existem marcadores para a ordem do nasci- menta, termos de parentesco, titulos que determinam a

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menta, termos de parentesco, titulos que determinam a 95 " ! . il esferas profundamente distintas
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"

!

.

il

esferas profundamente distintas entre si, e qualquer indivi-

duo nada maÎs é, por assim dizee, qu e um locus rempad.rio

para este confronta, urna expressao momentânea da propria existência destas duas partes, de sua separaçao permanente, e de sua llccessidade, também permanente, de serem man- tidas cm uma ordem apropriada. Somente quando se pre- sencia, como eu presenciei, um jovem cuja esposa tinha tnorrido subita e inexplicavelmente - e estaesposa tinha sida criada por de e fora sempre 0 centro de sua vida - receber convidados com um sorriso fixa e desculpas formais pela ausência da esposa, tentando, corn técnicas misticas, aplaÎ- nac _ como ele mesmo se expressou - as colinas e vales de suas emoç6es para transformâ-Ias em uma planicie (Ué 0 que temos que fazer", disse de, "estar pIano, por dentro e por fora") pode-se, frente a nossas prôprias noçoes sobre a intrtnseca honestidade de um sentinlento profundo, e a ilnportância nloraI da sinceridade pessoal, levar a sério esta concepçâo do eu, e apreciar este tipo de poder, por mais inacesslvel que este lhe pareça.

III

BaH onde trabalhei a prindpio em urna outra cidadezi- nha'p;c:-~inciana,embora um pouco menos mutante e depri- mente, e depois em uma aldeia na regiao mais alta da ilha, cujos habitantes eram fabricantes altamente qualificados de instrumentos musicais, é, em muitas coisas, semelhante ~ Java , cuja cultura compartilhou até 0 século XV No entanto, em um nfve! mais profundo, é também bastante diferente, pois permaneceu hindu, enquanto que Java, pelo menos em nome, se tornou islâmica. Avida rituaI complexa e obsessiva _ hindu, budista e polinésia em proporçôes mais ou menos iguais - cujo progresso foi quase interrompido em Java, deixando que seu espirito fndico se tornasse reflexivo e fenomenologico, corn tendência ao silêncio, coma na estoria que acabo de descrever, floresceu em Bali atingindo niveis de grandeza e extravagância tais que assolnbraram 0 mundo

94

quarra: "0 primeiro, 0 segundo, 0 terceiro e 0 quarto natas.
quarra: "0 primeiro, 0 segundo, 0 terceiro e 0 quarto natas.

Depois dissa, inicia-se outra vez a série, e os filhos que nascerem enl quinto e sexto fugar, serao, outra vez, chama- dos, respectivamentc, de primeiro c segundo natos. Além

1 disso, os nomes sao dadas irrespectivamente aa destina que tenham as crianças. Assirn, crianças que morrem, mesmo as que morrem ao nascer, entram na nomencIatura, e, portan- to, em um pais onde existem ainda altos indices de natalida- de e de mortalidade infantil, os nomes, par si sôs, nao dao urna idéia muito confiavel da ordem de nascimento verda- deira de individuos concretos. Em um grupo de irnlaos, alguém que é chamado de primeiro-nato, pode, na realida- de, ter nascido em primeiro, quinto, ou nono lugar, ou , se morreu alguma cciança, em qualquer lugae intermediacio entre estes três; ou alguém conl 0 naIne de segundo-nato pade ser, na verdade, 0 mais velho. A nomencIatura da \ ordem de nascimento nao identifica individuos camo indi- ( viduos, nem é esta sua intençao; a que f~zé sugerir que em

~, todos os casais que procriam os

nascimentos forrnam urna

sucessao circular de "primeiros", "segundos", "terceiros" e "quartos", umaréplica continua e em quatro estagios de urna . forma imperecivel. Fisicamente, os homens aparecem e de- IsaPa:ecem coma coisas efêmeras que sao, mas, socialmente, 1 os ounleros que os representam permanecem etemamente

! os mesmos, à medida que novas "primeiro-natos" ou "segun- 1 do-natos" emergem do mundo atemporal dos deuses para substituir aqueles que, ao morrer, dissolvem-se, ulna vez mais, naquele mundo. Eu diria que todos os sistemas de titulos e designaçôes funcionam da mesma maneira: eles representam os aspecros da condiçâo humana que estâo mais ligados ao passar do tempo, camo meros ingredientes

cm

um presente eterno que os ilumina camo as luzes em

um

teatro.

Nem mesmo a sensaçao que os balineses têm de estar sempre em um palco é assim tao vaga e inefavel. Ela é expressa corn exatidao par um de seus conceitos de "ape- {\ riência-prôxinla" mais comuns: 0 lek. Lek foi traduzido de

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mais comuns: 0 lek. Lek foi traduzido de 97 casta, indicadores do sexü, e tecnônimos, e

casta, indicadores do sexü, e tecnônimos, e muitas outros

mais, e cada um deles constitui, naD unl mera conjunto de
"

1 etiquetas uteis e ocasionais, mas sim um sistema tenninoI6- gico distinto, delimitado e internamente muita complexa.
1 Quando se usa uma dessas designaçôes ou um desses titulos

, (ou, como é mais comum, varios de/es) referindo-se a al- guém, define-se este alguém como um ponto determinado

cm urna estrutura fixa, 0 ocupante temporario de um locus

cultural, bastante permanente e especifico. Identificar al-

guém cm Bali, seja 0 proprio sujeito ou urna outra pessoa, é determinac seu lugar cm um elenco conhecido de perso- nagens - "cci", "ava", "0 terceiro filho", "brâmane" - que inevitavelmente compôem 0 drama social, como se este

fosse nada mais que alguma peça - do tipo de Charley's aunt

ou Springtime for Henry - exibida pelas estradas por um grupo de saltimbancos.

o drama naD é, obviamente, urna farsa, e principalmente

nao é urna farsa de travestis, embora nele existam elementos

(.de ambas. É uma representaçâo da hierarquia, um teatro do 1status. Infelizmente, neste ensaîo, naD nos é passivel descte- ver as caracterÎstîcas desta representaçâo, embora entendê-

la seja essencial para compreender os balineses. Aqui, nos

limitaremos a dizee que, tanto em sua estrutura, como na

fonna em que operam, os sistemas tecmino16gicos condu-

zem a uma visao da pessoa humana como um representante adequado de um tipa genérico, e nao como uma criatura unica, corn um destina espedfico. Acompanhar este proces- 50, ou seja, como os sistemas tennino16gicos tendem ;.a obscurecer as materialidades - biol6gicas, psicol6gicas,e hi~t6ricas- da existência individual, privilegiando as quali j dades padronizadas do status, exigiria uma aniilise extensa, Talvez um unico exemplo, simplificando ainda mais a parte mais simples do processo, passa sec suficiente para dar uma idéia de seu funcionam"ento.

Todos os balineses recebem aquilo que poderiamos chà- mac de nomes relativos à ordem do nascimento. Estes sâo

Todos os balineses recebem aquilo que poderiamos chà - mac de nomes relativos à ordem do
l varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- gonha" é urna das traduçôes mais

l

l varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- gonha" é urna das traduçôes mais conhecidas),
l varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- gonha" é urna das traduçôes mais conhecidas),
l varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- gonha" é urna das traduçôes mais conhecidas),

varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- gonha" é urna das traduçôes mais conhecidas), nlas seu significado mais aproximado é algo assim como 0 que cha- marnos de "nervosismo de ator". 0 nelVosismo de atoe, como sabemos, consiste naqude medo que atoees sentem de que, por falta de téeniea ou de autoeontrole, ou talvez por unl sitnples acidente, nao sejam capazes de manter a ilusao estética, deixando, assim, que 0 ator apareça por tras do pape! que desempenha. Se falha a distâneia estética, 0 publieo (e 0 ator) pcidem de vista Hamlet e em seu lugar, para deseonforto geral, vêem um gaguejantejohn Smith que alguém erroneamente colocou para fazer 0 papd de princi- pe da Dinamarca. Em Bali, acontece 0 mesmo: 0 que se terne é que 0 desempenho, em publieo, do papel para 0 quai fOlnos sdecionados por nossa posiçao cultural, seja um fracasso, e que a personaIidade do individuo - ou 0 que nos oeidentais ehamariamos de personalidade, ji que os baline- ses nao 0 fariam, pois naD acreditam nisso - se roolpa, dissolvendo sua identidade pùbliea estabeleeida. Quando isso acontece, C0010 às vezes acontece, sente-se a proximi- dade do Olomento corn urna intensidade excruciante, e as pessoas , subita e relutantemente, tocnam-se criaturas eeais, mutuamente constrangidas, como se, de repente, tivessem se flagrado nuas. É 0 medo do faux pas, que se toma muito mais provâvel devido à ritualizaçao extcaordinâria da vida cotidiana, que mantém 0 intercâmbio social sobre trilhos deliberadamente estreitos, e protege 0 sentido teatral do eu da ameaça destruidora implicita naquela prcximidade e espontaneidade, que nern meS1UO 0 cerimonial mais exacer~ bado pode eliminar totalmente dos eneontros face a face d~ cotidiano.

Marrocos

IV

de filInes americanos seOl os bares e os vaqueiros. Uro outro tipo de "eus" eompletamente diferentes. Meu trabalho ali,

que começou em meados dos anos 60, concentcou-se cm uma cidade de tamanho médio, aos pés da cordilheira de Atlas, cerca de umas vinte milhas ao sul de Fez. 0 lugar é antigo, fundado provavelmente no século X, planejado até mesmo antes disso. Nnda conserva os muros, os portôes, os minaretes estreitos que se elevam até às plataformas de onde os fiéis SaD chamados para a oraçao, todos elementos carac- teristicos de uma cidade muçulmana cIâssica. Pelo menas à distância, 0 lugae é bas tante bonito: urna fonna oval irregular profundamente branca, localizada em um oasis onde eres- cern olive iras de um verde de fundo de mac. As montanhas, que ali silo cor de bronze e de pedra, se elevam por tras deste oasis. Vista de perto, a cidade é Olenos imponentc, mas mais estinlulante: um labirinto de passagens e cuelas, très quartos

das quais sem saida, rodeado por prédios que têm a aparên-

cia de muros e lojas à beira das calçadas, tudo isso repleto COIn Uina variedade simplesmente surpeeendente de seres huolanos extremamente simpaticos. Arabes, berberes e ju-

deus; alfaiates, boiadeiros e soldados; pessoas que saem dos

escritorios, dos mercados, das tribos; rieos, super-ricos, po-

bees e superpobres; nascidos no local, imigrantes, imitaçoes de franeeses, medievalistas acirrados, e em algum lugar, de acordo com 0 censo oficial do governo para 1960, um piloto de aviao, judeu e desempregado. Nas casas, um dos grupos mais esplêndidos de individuos fortes e vigorosos que jamais vi. Ao lado de Sefcou (este é 0 nome da cidade) Manhanan parece quase monotona.

Porém, nenhuma sociedade consiste unicamente de ex- cêntricos anônimos que se tocam e ricocheteiam como bolas de bilhar, e os marroquinos também têm seus meios simbo-

lieos de separar gentes umas das outras e de identifiear 0 que é que significa ser urna pessoa. Um dos meios .mais importantes - que nao é 0 unico, mas que eu considero 0 mais itnportante e sobre 0 quaI gostaria de falar neste ensaio - é uma forma lingüistica peculiar chamada, em arabe, de

Oriente Médio e clima seco, em vez de Asia

Orieru-~i-e cli:na ùmido. Extrovertido, fluido, ativo, masculi- no, exageradamente infoffilal. Um tipo do oeste selvagem

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nisba. A palavra deriva de uma raiz triliteral, n-s-b, para conhecido, ou dele se soubesse
nisba. A palavra deriva de uma raiz triliteral, n-s-b, para
conhecido, ou dele se soubesse alguma coisa, mas nao se
"atribuiçao", "imputaçâo", "relaçao", "afinidade", "correIa-
çao", "cone.xâo", "pacentesco" . Assim, Nsïb quer dizce "pa-
., Il
\ rente por afinidadc"; nsab significa "atribuir ou imputar a";
"munisaba" quer dizce "urna relaçâo", "uma anaJogia", "urna
1 correspondência"; mansüb quer dizee "pertencer a", "fazen-
do parte de". e assim poe diaotc, corn cerca de urna duzia de
derivados, desde nassab, ("genealogista") até nisbiya ("re-
latividade [fisicaJ") .
soubesse sua nisba . Na verdade, é mais provâveI que os
habitantes de Sefrou ignorem 0 padrao econômico de um
homem, sua faixa etâria, seu carater pessoal, ou onde eie
vive, do que sua nisba, ou seja, se eie é Sussi ou Sefroui,
Buhadiwi ou Adluni, Harari ou Darqawi. (Com relaçâo a
mulheres que nao sejam parentes, a nisba seria provavei-
mente a unica coisa que uro homem saberia deIas - ou, para
ser
mais exato, a unica coisa sobre e1as que Ihe seria permi-
A palavra nisba, propriamente dita, refere-se portanto a
um processo de combinaçâo morfologica, gramatical e se-
mântica que consiste cm transformar urn substantiva naqui-
tido conheccr.) Os "eus" que se atropelam e se acotovelam
nas rudas de Sefrou adquirem sua definiçâo através das
relaçôes associativas COIn a sociedade que os circunda, rela-
ç6es essas que Ihes sâo atribuidas. Sao pessoas contextuali-
10
que nos chamacfamos
de adjetivo relativo, mas que , para
zadas.
os arabes, é simplesmente um outro (ipo de substantiva,
acrescentando-se i (ou iya, na forma feminina); SefrulSefrou;
sefruwi/filho nativo de Sefrou; Sus/regiâo do sudoeste mar-
roquino -susi/bomem nascido nessa regiâo Beni Yazgal uma
tribo perto de Sefrou - Yazgi/um membro dessa tribo; Ya-
hudlo povo judeu como um povo, Yahudilum ûnico judeu;
Adlunl sobrenome de uma famllia importante em Se-
froulAdlunilum membro dessa famllia. Este procedimento
. naD se limita a esta simples "etnizaçâo" de substantivas, mas
também pade sec utilizado cam uma variedade enarme de
palavras para atribuir relaç6es de propriedade às pessoas.
A situaçâo, no entanto, é ainda mais complicada; nisbas
tornaro os homens relativos a seus contextos, mas, coma os
pr6prios contextos sâo relativos, as nisbas também passam
a sec celativas, e rudo, por assim dizee, é, portanto, elcvado
a urna segunda potência - eclativismo ao quadrado. Assim,
cm
um nivel, todos os nascidos cm Sefrou têm a mesma
nisba, ou pelo menos em potencial - isto é, todos sao
Sefroui. No entanto, na propriacidade, estanisba, justamen-
te porque nao discrimina, nao seca nunca utilizada camo
parte de uma designaçâo individual. S6 fora de Sefrou a
Por exemplo, ocupaçâo (hrar/seda -
hrarilmercador de
relaçao corn este contexto espedfico passa a sec capaz de
seda) , seita religiosa (Darqawa/uma innandade mistica -
identificar um ind,viduo em particular. Em Sefrou, portanto,
Darquat!'i/um adepto dest
irmandade ou um estado espi-
ele sera Adluni, Alawi, Meghrawi, Ngadi, ou qualquer outra
rimai), (A/ilo genro do Profeta - Alawi/um descendente do
genro do Profeta, e, por conseguinte, também do proprio
Profeta).
nisba des te nive!. E dentro de cada uma destas categorias
sucede exatamente a mesma coisa. Ha, par exemplo, doze
nisbas diferentes (Shakibis, Zuinis e outras) através das quais
os Sefcou Alawis, em suas regi6es, se distinguem entee si.
Uma vez fonnadas , as nisbas sao normalmente incorpo-
radas aos nomes pessoais - UmarAl-Buhadiwi/Umar da tribo
Buhadu; Muhammed A1-Sussi/Muhammed da regiâo Sus - e
Todo 0 processo esta longe de ser regular; que nivel ou
i tipo de nisba seca usado, ou parececa celevante ou apcopria-
este tipo de classificaçâo adjetival atributiva é gravada publi-
camente como parte da identidade de um individuo. Nâo
do (para os que as usam, é claro), dependera totalmente da
situaçâo. Um conhecido meu que mocava em Sefcau e tra-
pude encontrar sequer um caso em que um individuo fosse
balhava cm Fez, mas efa originario de uma tribo Beni yazgha
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difeeeotes que SaD encaixados icregulaemente para gecar um desenho global complexo, no qual a diferença

difeeeotes que SaD encaixados icregulaemente para gecar um desenho global complexo, no qual a diferença individual de cada fragmento permanece intacta. Sendo diversa mais do que qualquer outra coisa, a sociedade marroquina naD ad- ministra sua diversidade ftxando-a cm castas, isolando-a cm tribos, dividindo-a cm grupos étnîcos, ou cobrindo-a corn algum conceito denominador-comum como a nacio- nalidade, embora todos estes sistemas tenham sido experi- mentados de fonna esporadîca. Gecencianl a diversidade distin- guindo, corn uma precisao elaboeada, os contextos- · 0 matrimônio, a devoçao religiosa c, até certo ponto, a dieta, as leis e a educaçiio - nos quais os homens siio segregados por suas diferenças; e outros - 0 trabalho , a amizade a poHtica e 0 comércio - onde, ainda que corn desconfiança e condicionalmente, sao unidos por elas.

,

Para este tipo de estrutura social, uma concepçao do eu que marca a identidade publica contextualmente e relati- vistîcamente, Inas 0 faz em condiçôes - tribais, territoriais, lingüisticas, religiosas e familiares - que se desenvolvem nas esferas privadas e estabelecidas da vida, onde têm urna ressonância peofunda e penuanente, parece ser particu- larmente apcopriada. Na verdade, parece que a prôpria estrutura social cria esta concepçâo do eu, jâ que produz situaçôes onde as pessoas interagem em teernos de catego- rias cujo significado é quase totalmente posicional, um lugar no mosaico global, que deixa de lado, como a1go que deva !:ter cuidadosamente escondido em apartamentos; templos e tendas, 0 conteudo substantiva das categorias, ou seja, 0 que elas significam subjetivamente como modos de vida experi- mentados . As discriminaç6es da nisba podem ser mais ou menos espedficas, indicar 0 local do fragmento no mosaico de forma aproximada ou exata, e adaptar-se a quase todos os tipos de mudanças de circunstâncias. Niio podem, porém, dar muito tuais que uma idéia geral, um esboço ou contorno do tipo e caracee dos honlens a quem os nomes sao atribur~ dos. Chamar urn hornem de Sefroui é como chama-Io de

dos. Chamar urn hornem de Sefroui é como chama-Io de das proxirnidades - além disso era
dos. Chamar urn hornem de Sefroui é como chama-Io de das proxirnidades - além disso era
dos. Chamar urn hornem de Sefroui é como chama-Io de das proxirnidades - além disso era

das proxirnidades - além disso era da subsubfraçâo Wulad Ben Ydir, da subfraçao Taghut da linhagem Hima - era conhecido como Sefroui por seus cornpanheiros de trabalho em Fez, como yazghi, por todos os niio Yazghis em Sefrou, como Ydiri por todos os outros Beni Yazghas que por a1i viviam, a nao sec por aqueles que vinham, eles proprios, da fraçiio Wulad Ben Ydir. Estes 0 chamavam de Taghuti , en- quanto que, é dara, os outras pOlleos Taghutis 0 chamavam

de Himiwi. Em Marrocos, as nisbas paravam ai, mas Marro-

cos nao é 0 limite até onde padern

ir. Sc , por acaso, nosso

amigo viajasse para 0

Egito, cie se transformaria cm um

Maghrebi, a nisba formada corn a palavra que, cm arabe, significa Mrica do Norte. A contextualizaçao social das pes-

saas é difusa, e na sua maneira curiosamente nao-rnet6dica

acaba sendo sistematica. Os homens nao flutuanl como entidades psiquicas fechadas, que se destacam de seu con-

tcxto e recebem nomes individuais. Por mais individualistas

e até obstinados que sejam os marroquinos - e na verdade

! 0 sao - , sua identidade é um atributo que tomam empresta-

do do cenario que os rodeia.

Corno 0 tipo de bifurcaçiio fenornenolôgica da realidade dos javaneses, corn seus dentro/fora e suave/tosco, e 0 sisterna de titulos dos balineses que absolutiza, 0 modo nisba de olhar as pessoas - como se estas fossem contornos à espera de sercm preenchidos - nao é um costume isolado

e sim parte de um tipo de estrutura que abrange toda a vida

social. Esta eSlrutura, como as de Java e Bali, também é ciificil

de ser caracterizada de forma sucinta. Mas um de seus . elementos principais é, certamente, 0 fato de que existe, cm situaç6es publicas, uma promiscuidade confusa de uma variedade de seres humanos que, na sua vida privada, sao cuidadosamente segregados: um cosmopolitismo exacer- bado nas ruas, e um comunalismo estrito dentro de casa (do quai a famosa segregaçiio das rnulheres é apenas 0 exemplo mais obvio). Este é 0 chamado sistenla mosaico de organiza- çâo social freqüentemente considerado caracterîstico do Oriente Médio coma um todo: fragmentos de formas e cores

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'1 francisca~o: 0 nome 0 cIassifica, mas nao estabelece con10 1 de éj localiza-o, sem
'1 francisca~o: 0 nome 0 cIassifica, mas nao estabelece con10 1 de éj localiza-o, sem

'1 francisca~o: 0 nome 0 cIassifica, mas nao estabelece con10 1de éj localiza-o, sem cetrata-Io.

É justarnente esta capacidade do sisterna de nisbas - a de criar urn contorno no quai as pessoas podern ser inseridas de acordo corn caracterlsticas que, supostamente, lhe sao inerentes (fala, sangue, fé, proveniência, e outras mais) , e ao mesmo tempo minimizar 0 impacto que estas caracterîsticas têm na determinaçâo de relaçôes praticas entre essas pes- soas em mercados, lojas, esccitocios, no campo, em cafés, banhos publicos, e estradas - que 0 toma tao essencial para , a concepçiio rnarroquina do eu . A categorizaçiio do tipo nisba conduz, paradoxalmente, a um hipecindividualismo nas relaçôes publicas, pois, ao proyer unicamente um con- torno vazio e até mesmo mutante de quem SaD os atores - Yazghis, Adlunis, Buhadiwis, ou seja la quern for - deixa todo o resto, ou seja, praticamente rudo, para ser preenchido no proprio processo de interaçiio. 0 que faz 0 rnosaico funcio- nar é a certeza de que podemos ser completamente pragma- ticos, adaptaveis, oportunistas, c, de um modo geral ad hoc em nossas relaçôes corn outros - uma raposa entre raposas, urn erocodilo entre crocodilos - tanto quanto quisermos, sem nenhurn risco de perder 0 sentido de quem somos. A nao sec na intimidade da procriaçâo e da oraçao, 0 "eu" nunca esta cm perigo pocque somente suas eoordenadas foram declaradas.

v

Sem tentar dar nos em urnas quantas dfuias de pontaS . que, durame e stes relatos apressados sobre 0 significado dô eu para eerea de noventa e nove milhôes de pessoas, nao s ô de ixci penduradas, mas certamente desfiei ainda mais, rel milhôes de pessoas, naosô deixci penduradas, mas certamente desfiei ainda mais, rel tomemos ao ponto principal, que é saber exatamente 0 que tudo isso nos diz - ou poderia dizer, se explicado de forma adequada - sobre "0 ponto de vista dos nativos" emJava, cm Bali e no Marroco/~~ descrever 0 usa de simbolos, estare~ j/mos tarnbém descrevendo percepçoes, sentimentos, pon-

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tos de vista, experiências? Se afinnativo, em que sentido? 0 que é exatamenle que afirmamos quando dedaramos COffi- preender os meios semiôticos atcavés dos quais, nesses casos, as pessoas se definem e sao definidas pelas Outras; / que entendemos as paJavras ou que entendemos as mentes?

Para responder a esta pergunta, creio ser necess:irio, primeiramente, observar que 0 movimento intelectual carac. teristico, e 0 ritmo conceptual interno de cada uma dessas anilises, e até de todas as analises semelhantes - mesmo as

,de Malinowski - é um bordejar dialético contÎnuo

menor detaIhe nos loéais rne -o';res , e ;-m ~is gl~baI das estruturas globais, de tal forma que ambos possam ser observados simultaneamente. Na tentativa de descobrir 0 significado do eu para os javaneses, balineses e marroqui. nos, osdlamos incansavelmente entre um tipo de miudeza exotica que faz corn que a leitura da melhor das etoografias seja urna tortura (anrfteses léxicas, esquemas de categoriza-

entre 0

çao, transformaç<Ïes rnorfofonêluicas), e caracterizaç6es tao abrangentes que - a nao ser pelas mais comuns - se tornam um tanto irnplausfveis ("quietismo", "dramatismo", "contex- . tuaIisrno"). Saltando continuamente de uma visao da totaH-

:l dade

através das varias partes que a cornpoem, para urna

,-it iS . ao

p~es através da totalidade que é a causa de sua

da~

i

_

!/lexlstenCla, e Vice-versa, corn urna fonna de moçao intelectual _,,{

i fll~erpétua,buscamos fazer corn que uma seja explicaçao para 1 J

il. outra.

.

\ Tudo isso é, claramente, a trajetoria, ja bastante conhe- 'y. cid a, do rnétodo q~e Dilthe~chamou de circulo hermen§.y- ",'~~. Mlnha Inrençao aqu i fOl mostrar que ela é tao essencial para interpretaçoes etnograticas como para interpretaçôes literarias, historicas, fil016gicas , psicanaliticas, ou biblicas, Ou até me smo para a.notaçôes informais sobre aquelas expe- riência~cotidianas que chamamos de born senso. Para aCOffi - panhar um jogo de beisebol ternos que saber 0 que é um bastao, uma bastooada, urn turno, um jogador de esquerda, um lance de pressao, urna trajetoria curva pendente, e um

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centro de campo fechado, e também coma funciona 0 jogo que contém {odos estes elementos.

centro de campo fechado, e também coma funciona 0 jogo que contém {odos estes elementos. Quando, cm urna expli-

cation de texte, um crîtico como Leo Spitzer tcnta inter-

pretar a "Ode sobre uma urna grega" de Keats, ele se pergunta repetida e alternativamente duas questoes: "Sobre

o que é este poema?" e "0 que é, exatamente, que Keats viu

(ou decidiu mostrar-nos) desenhado na uma que ele descre- ve?", e chega ao final de uma espiral ascendente de observa- çoes gerais e cOlnentarios espedficos corn urna leitura do

poema que 0 interpreta como uma afirmaçao do triunfo da percepçao estética sobre a historica. Da mesma forma, quan- do um etnôgrafo de significados e sîmbolos como eu tenta descobrir 0 que é uma pessoa na visao de algum grupo de nativos, e1e vai e vern entre duas perguntas que faz a si mesmo: "como é a sua maneira de viver, de um modo geral?"

e

sao em suas vidas ou de que nos aceilem camo scres conl

quem vale a pena conversar. Nao estou, cm hipotese alguma,

defendendo a falta de sensibilidade, e espero nao 1er dado

esta impressâo. Mas seja quaI for nossa compreensâo - correta ou sernicorreta - daquilo que nossos infornlantes,

par assim dizer, rea/mente sâo, esta nâo depende de que tenhamos, nos nlesrnos, a experiência ou a sensaçâo de estar sendo aceitos, pois esta sensaçao tem que ver corn nossa propria biografia, nao corn a deles. porém; â compreensao

depende de uma habilidade para analisar seus modos de

\ expressao, aquilo

1 sermos aceitos contribui para a desenvoivimento desta ha- bilidade. Entender a forma e a força da vida interior de

que chamo de sistemas simbolicos, e 0

"quais SaD precisamente os veiculos através dos quais esta maneira de viver se manifesta?" chegando ao fim de urna espiral semelhante corn a noçao de que eles consideram 0

eu coma urna cOlnposiçao, umapersona, ou um ponto cm

yma estrutura. Nao poderemos entender 0 significado de , lek a naD ser que entendamos 0 que é 0 dramatismo balinês., da mCSffia Inaneira que nao saberemos 0 que é uma luva de apanhador se nao conhecemos 0 jogo de beisebol. Ou nao entenderemos a que significa uma organizaçao social mosai-

ca sem saber 0 que é a nisba, exatamente coma nao é possivel compreender 0 platonismo de Keats, sem ser capaz de captar - para usar a propria formulaçao de Spitzer - "0 fio do pensamento intelecn:al" contido em fragmentos de frases

coma "a forma de Attie", "a forma silenciosa", "noiva da tranqüilidade" "pastoral fria", "silêncio e tempo lento", "ci- dadela cm paz", ou "cantigas sem nenhum tom".

Em suma, é posslvel relatar subjetividades aIheias sem

1 recorrer a pretensas capacidades extraordinirias para obli- 1 terar 0 proprio ego e para entender os sentimentos de outros J seres humanos. Possuir e desenvolver capacidades normais para estas atividades é, obviamente, essencial, se teruas esperança de conseguir que as pessoas tolerem nossa intru-

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nativos - para usar, uma vez mais, esta palavra perigosa - parece-se mais corn compreender 0 sentido de um provér- bio, cap~ar uma alusao, entender uma piada - ou , camo sugeri acima - interpretar um poema, do que corn conseguir uma comunhao de espiritos.

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